THE DELAGOA BAY REVIEW

02/05/2013

O QUE O HENRIQUE RAPOSO DIZ SOBRE O QUE O FRANCISCO VIEGAS DISSE DE LOURENÇO MARQUES

Capa de um folheto publicitário de Lourenço Marques, anos 30, adaptado.

Capa de um folheto publicitário de Lourenço Marques, anos 30, adaptado.

 

Com vénia para o semanário Expresso, Lisboa.

O Purgatório dos Retornados

por Henrique Raposo, em crónica A Tempo e a Desmodo

Francisco, já não sei se o teu romance enformou a minha visão sobre os retornados ou se encaixou na visão que eu já tinha sobre esta trágica tribo perdida, mas o certo é que Lourenço Marques acerta no alvo . E explico já porquê.

Quase 30 anos depois, Miguel regressa a Moçambique para tentar encontrar Sara, a sua primeira paixão, o seu princípio do mundo revelado no fundo de uma piscina moçambicana no início dos anos 70. Esta misteriosa Sara voltou a Moçambique para logo desaparecer naquela imensidão. Enquanto procura Sara entre estradas e lagos intermináveis, Miguel flutua nas memórias da meninice africana e da dura devolução à metrópole (são mais devolvidos do que retornados, não é verdade?). Nestas flutuações, meu querido Francisco, fica evidente o pior dos tabus – o confronto entre o soldado português e o colono português – e a pergunta assombrada pela tragédia: criados nos espaços abertos de África, como é que milhares de pessoas se habituaram a viver em paralelepípedos de doze andares ou em vilas beirãs? A viagem é, portanto, um pretexto para Miguel confrontar estes fantasmas. Aliás, ele próprio é um fantasma. Eis o que escrevi no espaço em branco da última página: “livro de fantasmas, personagens que parecem flutuar acima do presente, só habitam as memórias do passado”. Acrescentei ainda: “será que Sara existe mesmo? Não será ela um fantasma?”. E este lado fantasmagórico é reforçado pela tua técnica favorita: a arrancada à Futre em monólogo (repara no rigor literário e quiça científico da expressão). A grande arte do diálogo é, na verdade, a grande arte do monólogo. Os teus monólogos, catedrais de pormenores e emoções, dão o ritmo certo à memória melancólica de Domingos (o polícia moçambicano), do último médico branco de Lichinga e, claro, de Miguel, esse fantasma preso no purgatório dos retornados. Sim, um purgatório.

Através desta tapeçaria de monólogos, tu consegues retratar o retornado como uma figura a pairar num limbo entre dois mundos, ou melhor, entre dois Portugais. O primeiro era aquele que existia em África, uma república moçambicana que era Portugal mas em bom, um Portugal que era o Brasil novamente, um Portugal com gente solta, alegre, cosmopolita, com cor na roupa, sem o cinzento-castanho-preto cá de cima, uma pátria sem relação com o Portugal daqui, o Portugal da metrópole, o segundo mundo desta história. Este Portugal europeu era tão distante como aquela tia-avó que toleramos no dia de natal desde que ela se sente a um canto com os canídeos e gatídeos, mas, entre 74 e 75, o retornado ficou sem acesso à sua pátria, teve mesmo de embarcar para o colo da tia-avó, foi forçado a viver um futuro que não era o seu. E que ainda não é seu. Sim, aceitou viver aqui, mas o seu coração permanece africano, a sua lealdade está com aquele futuro que não pôde viver. Como foi possível a adaptação?, perguntava eu há pouco. Não foi possível. A conversa da “boa integração dos retornados” esconde uma tragédia silenciada: para o retornado, a metrópole foi um beco claustrofóbico que lembrava, e ainda lembra, um futuro que ficou por viver, um país que ficou por ficou por fazer . Ele está há 40 anos no purgatório. O céu ou o inferno só chegariam se tivesse ficado em África.

Para terminar, convém registar a universalidade do tema. A tragédia do retornado é a história clássica do fim de um mundo, do desaparecimento de um modo de vida, de um modo de ver e sentir o mundo. Um leitor estrangeiro sem qualquer conhecimento da história portuguesa pode relacionar Lourenço Marques com o drama dos sulistas em 1865, por exemplo. Aliás, Miguel e a figura do retornado em geral têm aquele encanto crepuscular de Ethan, a personagem de A Desaparecida. No fundo, meu querido amigo, o teu romance pega no fantasma universal da pátria perdida e mostra as cinzas de uma Cartago que foi nossa, que é nossa. Se não te importas, os romanos ficam para outra conversa.

(Da série “Cartas a amigos”)

(fim)

O Nuno agradeceu.

2 comentários »

  1. Sim.

    Comentar por Carlos longair — 02/05/2013 @ 5:08 pm

  2. As lágrimas impedem-me de escrever…repito por isso o primeiro comentário: Sim!

    OBRIGADO António

    Comentar por José Viegas — 03/05/2013 @ 4:57 am


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