THE DELAGOA BAY REVIEW

26/10/2010

A RELÍQUIA

A parte da frente do medalhão: o Presidente do Transvaal, Stephanus Johannes Paulus Kruger.

por ABM (25 de Outubro de 2010)

Depois de anos de caça sem tréguas, esta noite tornei-me proprietário do medalhão ali em cima (em baixo pode-se ver a outra face). Há uns tempos, por piada, escrevi uma notinha sobre um medalhão igualzinho, mas que estava em melhor condição e que custava um balúrdio. Ainda esperei que aparecesse um maschambiano solidário que me mandasse um imêil a dizer, “ò ABM, eu cá em casa tenho um caixote cheio destas coisas, mando-te já um”.

Mas nada.

Aí há uns dias, estava entretido antes do jantar a ver velhos postais de Moçambique na internet, num desses sítios onde se pode vender basicamente tudo, desde os brincos da sogra até ilhas em Moçambique, daquelas que depois se descobre que são “concessões” que não valem um chavo e ainda por cima espantam logo os Protectores locais da sacrossanta Lei da Terra.

Num canto obscuro, junto a umas medalhas militares do tempo da Mary Cachucha, certamente reflexo de um glorioso passado colonial de um qualquer súbdito de Sua Britânica Majestade que entretanto foi ter com o Criador e cujos bens terrenos a família despachou imediatamente para um antiquário, um tal Sr. John Stewart, perdido algures na Inglaterra, tinha à venda o tal de medalhão acima, com a seguinte nota:

BRONZE MEDAL IN PRETTY GOOD CONDITION – SHOWS WEAR AND SLIGHT SCRATCHES TO BOTH SIDES.   ALSO HAS ONE EDGE KNOCK.   THE FRONT READS “OPENING VAN DEN DELAGOA BAAI SPOORWEG.   THE MAKER IS JPM MENGER F.   THE BACK ALSO HAS THE MAKER’S INITIALS “J.P.M.M.F”   THE BACK READS “NEDERLANDSCHE ZUID AFRIKAANSSCE SPOORWEG – MAATSHHAPPIJ 1895”.  MEASURES 42MM .

Eu já conhecia a sua existência, e o exmo. Leitor sabe como são estas coisas das memórias: no fundo, no fundo, é tudo apenas uma questão de preço.

Portanto fui ao correio electrónico do meu computador de linha branca com nove anos e dois upgrades e escrevinhei uma mensagem curta ao tal senhor:

“Hello Mister Stúarte, áu áre iú,  náice médale iú éve. Áu mátche?”

Na verdade a negociação durou uns dias, em que, por mensagem, eu salientava tudo o que de errado podia apontar ao objecto – o medalhão estava sujo, estava em mau estado, cheio de riscos, ainda por cima uma mossa, meu Deus!!

Do lado dele (que basicamente nem sabia bem o que aquilo era) só se limitava a cuspir para o ar e dizer que o medalhão era “veri, veri rare”.

Ao que eu respondia “rare the Tanas and the Badanas”. Argumentei que as medalhas eram comuns e que o preço que ele pensava que aquilo valia não valia. Etc.

Finalmente, esta noite fechámos negócio e a medalha segue esta semana do Reino Unido para a minha base no mato ribatejano.

Assim, por 50 dólares (correio incluído)  sou a partir de hoje e por uns tempos, dono de um dos medalhões cunhados para assinalar a inauguração, no dia 8 de Julho de 1895, da linha de caminho de ferro que passou a ligar Pretória e Lourenço Marques, um dos eventos seminais da História de Moçambique e dos CFM.

Na esperança que um dia me apareça um Empresário Moçambicano de Sucesso que partilhe o meu interesse pela história do País.

E mo compre por….

100 dólares.

Mais portes de correio.

Mais IVA.

O verso do medalhão comemorativo da abertura, em 1895, da linha de caminho de ferro entre a cidade de Lourenço Marques e a capital do Transvaal, Pretória.

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