THE DELAGOA BAY REVIEW

04/12/2011

TERRA SONÂMBULA, UM FILME SOBRE MOÇAMBIQUE

Filed under: Cinema, História Moçambique, Mia Couto, Terra Sonâmbula — ABM @ 6:59 pm

"A Noite Estrelada", de Vincent van Gogh.

Do blogue Meia-Palavra copiei o resumo deste filme, escrito por Felipe Cordeiro, mas como não percebia bem aquilo que lá estava adaptei-o ao meu próprio desacordo ortográfico:

Na Moçambique pós-guerra, num cenário devastado onde a cultura e a sobrevivência são dois elementos que se cruzam em “Terra Sonâmbula” (baseado na obra de Mia Couto), somos apresentados ao velho Tuahir e o menino Muidinga que, à procura de abrigo, encontram no mato um machimbombo incendiado e cheio de corpos carbonizados.

Dentro desse machimbombo Muidinga encontra doze diários, pertença de Kindzu, um fugitivo da guerra.

A partir da leitura desses diários, vemos a relação entre Tuahir e Muidinga estremecer. O garoto, que não sabe qual é a sua origem, questiona diversas vezes o velho que o acompanha, querendo saber de onde veio, quem são seus pais e qual é a sua relação com o velho.

As duas narrativas cruzam-se. Nos diários, Kindzu conta as dificuldades em viver num lar que respeita todas as crenças da sua cultura: a adoração dos espíritos, os devaneios do pai pescador, a cegueira social de seus vizinhos, etc. Entretanto, foge do seu meio sem ter de renegar as tradições supersticiosas e torna-se um guerreiro e acreditar em seus sonhos, que afinal não tem. É nesse ponto de tradições e relatos que as histórias se entrecruzam e caminham juntas, nunca sendo uma narrativa dentro da outra, uma influenciando a outra.

Numa terra onde dormir não é uma escolha, a chave para toda a apreciação da obra é saber que sonhos são tão reais quanto uma guerra, e a destruição e a vida caminham juntas por um caminho cheio de obstáculos e anseios.

E aqui, grátis e em sete prestações, o filme, na íntegra, bastando para tal ir vendo por aí abaixo.

Grato ao Issuf Mohamed, cujo pai e o meu se conheciam há 50 anos na velha Lourenço Marques, por me chamar a atenção para o tópico e que no filme é o indiano cantineiro que acaba numa cadeira de rodas, amigo do Kindzu.

16/09/2011

CHAIMITE, O FILME, 1953

Antes de ontem à noite desloquei-me à nova Torre do Tombo em Lisboa, para assistir ao lançamento formal de um livro sobre Henrique de Paiva Couceiro, compilado pelo Prof. Filipe Ribeiro de Menezes (com “z” no fim) que reproduz uma parte, menos de um terço, dos documentos que constituem, a partir dessa data, património da nação portuguesa. O livro, editado pela Dom Quixote, já está à venda.

Durante as exéquias de doação formal do espólio de cerca de cinco mil documentos (generosidade da família Paiva Couceiro, na pessoa do meu muito caro Miguel de Paiva Couceiro), foram projectados menos de cinco minutos de um filme de que eu mal ouvira falar e que nunca tinha visto na vida, chamado “Chaimite”, nome da mitológica localidade da nação vátua, em que o Régulo Gungunhana capitulou às armas portuguesas no final do ano de 1895.

Por curiosidade, e para minha surpresa, o filme, que foi trazido ao público português no início de Abril de 1953, foi transcrito para o Iutube, e eu fui ver.

O que posso dizer sobre o filme?

Primeiro, é que é de uma dialéctica, especialmente em final de 2011, quase hilariante, uma versão kistch da então prevalecente atitude convencional portuguesa sobre os territórios sob controlo colonial. É divertido porque hoje muita gente já não se lembra (e alguns não se esquecem) de como era. Neste filme, está-lhe na flor da pele.

Especialmente para quem conhece ou conheceu a região Sul de Moçambique e as suas culturas, e em particular a sua história recente (refiro-me ao final do século XIX) ver este filme é duplamente divertido. A começar pela cena da germanicamente bela menina tuga de saia comprida e com predilecções agrícola-desenvolvimentalistas, sentada à mesa, meio apategada, surpreendida pelo obviamente mais batido tuga cafrealizado a dizer-lhe qualquer coisa coisa como “eu gostava maningue de ter uma machamba no mato”. Ela, de olhos muito abertos, exclama: “maaniingue?! maa-chambaa?! Mas o que é isso?!” Apenas para sermos confortados pela sua politicamente correcta, recém-adquirida lusitano-cafrealização no momento final do filme, quando, finalmente preso o nefasto líder rebelde pelos Heróis e regressada a Pax Lusitana ao Sul dos domínios do rei dos Algarves e apêndices e adjacências, o seu interlocutor, afinal um puro sangue lusitano encapotado (mas claro) diz “ah, afinal vale a pena viver”, ao que ela responde, em apoteose final que prenuncia a justeza do que certamente viria a seguir, “maningue!.

Ah pois. Imagino os meus amigos moçambicanos em Maputo a ver isto hoje, dariam voltas nas cadeiras.

Mas se calhar deviam ver. Que mais não seja o de ouvir landin (ou ronga) dos anos 1950 e assistir ao actor Carlos Benfica, que não sei quem é, desempenhar o papel de Gungunhana.

Pelo meio, um relato dos eventos naquele ano de viragem de 1895, de que fez parte, naturalmente, Henrique de Paiva Couceiro, sem descurar os restantes.

Quem ignora a história, e como ela é e foi protagonizada, tende a ignorar aspectos aparentemente suaves mas importantes das suas próprias origens.

Penosamente, em baixo, compilei as ligações todas que permitem, se o exmo. leitor tiver um tempinho, ver o filme. É de borla e, penso eu, vale mais que isso.

Então vamos lá.

Parte 1 de 11

Parte 2 de 11

Parte 3 de 11

Parte 4 de 11

Parte 5 de 11

Parte 6 de 11

Parte 7 de 9

Parte 8 de 11

Parte 9 de 11

Parte 10 de 11

Parte 11 de 11

23/03/2011

ELIZABETH TAYLOR, 1929-2011

Filed under: Elizabeth Taylor + — ABM @ 10:14 pm

(27 de Fevereiro de 1932 – 23 de Março de 2011)

16/12/2010

ADEUS BLAKE EDWARDS

Filed under: Blake Edwards +, Cinema, Pantera Cor de Rosa — ABM @ 10:29 pm

A versão em desenho animado da Pantera Côr de Rosa.

16 de Dezembro de 2010

Mais uma figura que nos deixa. Blake Edwards, marido de Julie Andrews e criador de Pantera Cor de Rosa. Hoje, na Califórinia.

Quer os filmes, quer os desenhos animados, quer a fantástica canção de Henry mancini, sempre foram entre os meus favoritos.

A canção de Henry Mancini, tema da Pantera Côr de Rosa:

E uma das cenas mais divertidas de Peter Sellers, na sua memorável actuação como o Inspector Closeau:

20/10/2010

1974 E JESUS CRISTO SUPERSTAR

por ABM (20 de Outubro de 2010)

Enquanto em Portugal se espera o desfecho da saga do Orçamento de Estado para 2011, ouvi esta noite uma canção que me trouxe uma memória africana. E muito minha.

A minha adolescência acabou exactamente aos 14 anos e três meses de idade, nas semanas que se seguiram ao dia 25 de Abril de 1974, quando, em Lourenço Marques (a actual Maputo), onde eu vivia em comparativa modéstia, se instalou a quase total incerteza sobre o que ia acontecer ao então Estado português de Moçambique, a seguir ao golpe de Estado militar em Portugal – a Metrópole. Não era preciso ser-se cientista para se perceber isso: via-o na cara das pessoas com quem contactava (os putatativos colonialistas racistas fascistas), lia-o nos jornais, sentia-o no semblante dos meus pais, especialmente no da minha mãe que já se interrogava o que iria ser de Moçambique. E de nós.

Claro que viria a Independência. Mas que independência?

Esta noite, a canção que ouvi se calhar foi a última boa memória antes do turbilhão a seguir ao 25 de Abril. Foi algo que me tocou.

A canção é de um filme: Jesus Cristo Superstar (JCS).

Vi o filme duas vezes, no então Cine-Teatro Manuel Rodrigues (hoje o Cine África).

Jesus Cristo Superstar, que revi outro dia, e que se baseou na peça composta pelo legendário Frank Lloyd Weber (que na altura eu não sonhava quem era) é o que na altura se chamava uma ópera rock. Tem tidos os tiques da música da altura e do movimento hippy que na altura era o último grito da moda para a juventude, incluindo a de Lourenço Marques.

O filme tem grandes canções, uma grande encenação (foi filmado em Israel) e excelentes actores, que por acaso creio que nunca mais vi no cinema. Naquela altura, quase toda a gente que eu conhecia conhecia as suas principais canções. Recordo-me, por exemplo, de numa aula de canto coral (naquela altura canto coral era obrigatório, hoje em dia suspeito que não) numa aula com cinquenta pessoas no Liceu Salazar, toda a gente (incluindo eu) sabia cantar a canção em baixo.

Excepcionalmente, consegui, por autêntico milagre, fazer com que o pai BM, que não alimentava vícios a ninguém lá em casa, me autorizasse a comprar o disco do filme (na verdade eram dois LP’s – hum, quem ler isto com menos que 20 anos de idade não saberá o que é um LP). Só depois é que eu descobri que até o pai BM gostava da música, especialmente o tipo que fazia de Judas, um actor negro norte-americano com uma voz fantástica.

E até tive uma experiência mágica.

Perto da casa onde os BM viviam na Polana, na 24 de Julho, estava a ser feito um daqueles prédios horrorosos com vinte andares de altura. Uma madrugada, ainda era noite, levei para o topo do prédio, que ainda estava no tosco, o gira-discos, o amplificador, uns auscultadores, uns binóculos e um dos discos de Jesus Cristo Superstar. Note o exmo. Leitor que tive que subir duas vezes vinte andares em plena escuridão num prédio tosco para o meu experimento.

Lá em cima, montei tudo junto to tecto do poço do elevador do prédio (era o ponto mais alto do edifício), ligando os aparelhos a um fio eléctrico que por lá havia para a obra. Subi para o tecto do poço do elevador com os auscultadores e os binóculos, deitei-me sobre o cimento e esperei.

Daquele local, não só se via toda a cidade, que dormia silenciosamente, como ainda se via toda a paisagem em redor, desde os Libombos a Poente, como a Ilha da Inhaca, a Nascente, do outro lado da enorme baía.

Lentamente, fez-se luz e amanheceu. E quando, no preciso momento em que, na direcção da Inhaca, começou finalmente a aparecer o topo do disco solar, como se estivesse a sair por detrás do mar, apontei os binóculos para lá, liguei o gira-discos e coloquei a canção de abertura de Jesus Cristo Superstar. A que está lá em cima.

Na altura foi para mim uma experiência excepcional, tal e qual como eu imaginara antes que seria, ver de perto o sol, majestoso, sublime, imparável, lentamente, a sair do mar e a ascender ao céu, com aquela música.

Enfim. Coisas de miúdo. A chatice foi depois a trazer aquilo tudo de volta para casa.

Mas havia outro aspecto que tornava Jesus Cristo Superstar peculiar. O filme saíra primeiro na África do Sul e lembro-me que se dizia que primeiro fora proibido em Moçambique. Porque o seu conteúdo de alguma forma ofendia as sensibilidades da Igreja Católica. Mas não sei como nem porquê, mais tarde deixaram-no passar. Na altura perguntei à mãe BM, que era a minha consultora especial para assuntos do catolicismo, qual era o problema com Jesus Cristo Superstar. O que ela ouvira fora que no filme a) a figura de Judas era apresentada como boa e que a sua traição a Cristo na realidade não era a sua vontade, mas sim o mero cumprimento da vontade do pai de Cristo (que acho que toda a gente sabe quem É…). Na realidade, no filme, Judas até refila por causa disso, o que na verdade não me lembro de aprender lá durante o meu Gulag na catequese; b) no filme, Maria Madalena era uma simples prostituta, o que creio que também não era bem o que se fazia dela nas Sagradas Escrituras, em que, enfim, ela era uma mulher de pecado…e ficava-se por aí nos detalhes; c) finalmente, fazer passar a entourage de Jesus Cristo – afinal os fundadores do catolicismo – como uma cambada de hippies com calças à boca de sino e lenços coloridos na cabeça a cantar rock, bem, isso simplesmente devia ser demais para suas conspícuas eminências e suas dignas batinas.

Em baixo, a Maria Madalena canta I Don’t Know How to Love Him. Todas as miúdas da minha idade naquela altura em Lourenço Marques conheciam esta canção praticamente de cor.

Depois disto, a minha adolescência passou a ser mais adulta.

Pois, de repente, para variar, tive que fazer pela vida e escapar-me de duas revoluções seguidas.

06/09/2010

MOÇAMBIQUE EM BARCELOS

Filed under: Cinema — ABM @ 4:45 pm

O galo de Barcelos espreita a galinha

por ABM (6 de Setembro de 2010)

Entre 23 e 26 de Setembro, a cidadezinha portuguesa de Barcelos (que não conheço e que fica no Norte, mas para mim tudo o que fica a norte de Lisboa é o Norte) vai ser anfitirã do Festival ART e TUR, um exótico cocktail de apresentações, debates, filmes, etc.

Entre as várias iniciativas, há uma espécie de competição de filmes e trabalhos em áreas variadas, de que destaco a passagem do fantástico filme da National Geographic sobre o Parque Nacional da Gorongosa, cujo título traduzido é qualquer coisa como “O Paraíso perdido de África”, que passa no dia 25 de Setembro (hum, feriado em Moçambique) a partir das 14:30 horas.

O bom maschambeiro nas redondezas poderá querer ir ver e fazer claque. A julgar pela exuberância do sítio e quantidade de eventos, aquilo vai ser a sério. A revista Publituris hiperbolizou um nadinha ao referir que nesses dias Barcelos vai ser “a Hollywood do Turismo”.

Pois.

02/09/2010

ÁFRICA NO PORTO

Filed under: Cinema — ABM @ 8:48 pm

http://www.youtube.com/v/J9hRgAYAZnk?fs=1&hl=pt_PT

por ABM (2 de Setembro de 2010)

Entre 4 de Setembro e 1 de Outubro, o Grupo Musical de Miragaia (programação de José Maia, organização da Confederação Núcleo para a Investigação Teatral) vai levar a cabo um ciclo de cinema a que chamam África Já Ali.

Entre outros, será projectado o filme de 2004, da autoria da portuguesa Margarida Cardoso sobre a guerra colonial em Moçambique, de que se pode ver o excerto acima.

Do texto divulgado (e que pode ser descarregado PRESS_ciclo cinema_Africa) lê-se:

Pelo olhar e pensamento de realizadores europeus de diferentes gerações, com obras de ficção, etno-ficção e documentais iremos ver, (re)conhecer e reflectir como o ocidente representou e representa, pensou e pensa África.

As obras que serão apresentadas neste ciclo compreendem diferentes enquadramentos históricos, políticos, sociais e culturais permitindo-nos pensar:

Nós, o Outro e a relação entre Ocidente e África na cultura ocidental e na cultura africana pelas obras de Alain Resnais e Chris Marker, Werner Herzog, Pier Paolo Pasolini; o ocidente em África no período de colonização de África pela primeira obra cinematográfica de reflexão crítica ao colonialismo África 50 de René Vautier e pelas obras de Jean Rouch e Pier Paolo Pasolini;

o confronto com o olhar africano sobre o europeu e como e quanto europeu é o africano colonizado pela obra Jean Rouch;

a colonização portuguesa, a Guerra Colonial o fim do Império e descolonização pela obras de Manoel de Oliveira, Manuel Santos Maia e Margarida Cardoso;

África Hoje, após independências e o surgimento das novas nações africanas numa viagem falada em português de Moçambique à “Terra Sonâmbola” do escritor Moçambicano Mia Couto com Teresa Prata e outra em crioulo, que também tem base lexical portuguesa, até
à “Casa de Lava” de Pedro Costa, em Cabo Verde;

os fluxos migratórios africanos do norte de África para a Europa e a emigração cabo-verdiana para Portugal serão verificados por Frederico Lobo e de Pedro Pinho e por Pedro Costa;

África em Portugal, Hoje verificada pela presença de africanos, de portugueses africanos e de africanos portugueses, resultado dos vários processos de migração de uma “Juventude em Marcha” para Portugal;

e por fim quanto e como somos hoje mais africanos?

Se o exmo. Leitor andar pelos lados de Miragaia, este ciclo parece ser interessante e denso de conteúdos.

07/01/2010

Se Eu Fosse Rico

Filed under: António Botelho de Melo, Cinema, Música, Religião — ABM @ 1:16 am
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Stereoscópio de Lourenço Marques, fim do século XIX, vista da Baía

por ABM (Cascais, 6 de Janeiro de 2010)

Hoje à hora de jantar, por razões assaz obscuras, o Dr Micael (10.5 anos de idade) deu-lhe na cabeça de rezar para pedir a benção de Deus para várias coisas, depois de comermos o mais epicúrio jantar de toda a minha vida (tenho que dizer estas coisas para o caso da Patroa vir espreitar isto no Maschamba, sorry).

Depois de pedir saúde e longa vida para a mãe, pai, avó, irmã, padrasto (eu), cães, cadelas, avestruz e a professora, eu sugeri-lhe (suscitando a imediata ira da mãe, que leva estas coisas muito a sério) que pedisse sorte para a mãe ganhar o Euromilhões e assim ficarmos ricos de uma assentada.

Combati indignado a acusação de abuso do favor Divino dizendo que pedir umas massas ao Senhor lá em cima não era um pecado per se.

E, enquanto rapidamente se passou para a questão de o que é que cada um faria se fosse rico, eu lembrei-me da velha canção que fui apanhar no Iutúbe há bocadinho, que para os mais velhos deve ser vagamente familiar: Topol, representando o pobre judeu russo Reb Tévje em Um Violista no Telhado, 1971, cantando Se eu Fosse Rico.

Que eu vi num cinema de Lourenço Marques lá para 1972.

http://www.youtube.com/v/RBHZFYpQ6nc&hl=en_US&fs=1&

24/12/2009

Marrabenta Bom Demais

Filed under: Cinema, Dança Moçambique, Marrabenta — ABM @ 12:42 am

http://www.youtube.com/v/7YWBOfsXsDA&hl=en_US&fs=1&


por ABM (Cascais, 23 de Dezembro de 2009)

Cena intemporal. Gene Kelly e Cyd Charisse dançam um duo em Singing in the Rain (1952).

A mais clássica marrabenta americana para aquecer o Natal do Maschamba, na noite antes da noite de Natal.

O vestido de Cyd Charisse é verde cor de árvore de Natal.  Isso conta para o espírito da época?

E já agora, the real Marrabenta, made in Moçambique. O nome dele é Oliver Style. Mas boa boa é a dançarina, cujo nome para variar omitiram.

http://www.youtube.com/v/JcPaiBoeAiY&hl=en_US&fs=1&

23/12/2009

A Mensagem de Avatar

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por ABM (Cascais, 23 de Dezembro de 2009)

A única vez que eu tinha visto um filme com a tecnologia 3D foi em 1989, quando, de visita a Los Angeles, vi um filme qualquer meio tépido na Disneylândia, sentado ao pé de (atenção) João Bosco Mota Amaral, que na altura ainda era o President-for-life dos Açores. O filme era tão bom que lembro-me melhor do João Bosco que do tema.

Portanto, especialmente após uma exortação monumental publicada na semana passada numa edição do diário lisboeta Público, que basicamente referia o recentemente lançado filme Avatar, realizado por um muito credenciado James Cameron como a segunda vinda de Cristo o Redentor a Hollywood, lá me decidi, após fazer as contas dos descontos da Lusomundo para bilhetes para crianças, reformados e com desconto por ter TV cabo em casa (portuguesices, suponho, mas que vêm a jeito nesta era de derrocada financeira) ir ver o filme.

Confesso que quando entrei na Sala 5 do cinema no Cascaisshopping não sabia que a produção era de ficção científica, pois só tinha visto uma fotografia de um tipo que parecia uma lagartixa meia azul.

Mas antes, uns comentários técnico-logísticos.

Sendo o filme em 3D, o exmo. leitor deve especificamente escolher um assento literalmente no meio da sala, nem para a esquerda, nem para a direita, nem para a frente, nem para trás. Eu fiquei muito atrás e perdi algum do efeito.

Segundo, se estiver num país em que tenha a sorte de não haver legendas em português (que foi o meu caso em Cascais City) tanto melhor. Como o filme é em 3D, ou seja, tem um efeito muito claro de profundidade, quando se inserem as legendas, no écrãn elas parece que ficam mais ou menos penduradas no meio do ar entre as pessoas, des-sintonizando os nossos olhos do efeito 3D. Mas aqui os nossos capatazes do cinema local chutaram para a frente com as legendas para dentro do filme e foi uma porcaria.

Terceiro, beba um cafézinho e vá à última sessão da noite, não à da tarde ou a sessão depois do jantar. É porque a essas vão aqueles meninos e meninas teenagers que chegam à sessão dez minutos depois dela começar sem saber onde é que se sentam, que falam alto uns com os outros em voz alta durante a sessão, que atendem os té-lé-lés, que mandam piadas sem piada uns aos outros sempre que acontece algo no filme, que comem as pipocas como porcos Pata Negra alentejanos na fase da engorda e que arrotam depois de um golo daqueles copos de Coca-Cola de litro e meio. Eu, que pertenço à geração que ia ao cinema em LM nos anos 60 e 70, ainda me lembro com inesgotável saudade do silêncio sepulcral que se fazia sentir nas salas quando as luzes se apagavam e começava a sessão, toda a gente já sentada, sem telefones, sem pipocas, sem meninos e meninas com a bicha solitária.

Ok, então o filme.

Tecnicamente, soberbo. A história pode ser lida a vários níveis, todos eles altamente politicamente correctos para os dias que correm. A acção passa-se num planeta chamado Pandora, em que uma firma qualquer anda a extrair um minério na zona onde vivem há tempos imemoriais em paz e harmonia, umas tribos meio primitivas estilo índios da Amazónia dos que se vêm nas revistas da National Geographic. O convívio entre a operação (mais ou menos uma mina a céu aberto) e os nativos está a ir de mau a pior mas os humanos têm a faca e o queijo na mão (ou seja, a tecnologia para dar cabo dos nativos todos em dez minutos). Mas havia um programazito meio desacreditado e tecnologicamente avançado, de tentar o diálogo entre os nativos e o pessoal da mina, que basicamente os queria dali para fora para que eles pudessem desventrar a terra e tirar o tal minério.

Pelo meio, a inescapável história de amor, a invariável constatação de Grandes Verdades e o rol de sacanices dos vilãos da praxe.

Após ver o filme, lembrei-me vagamente dos devaneios do filósofo Jean Jacques Rousseau e daquele episódio dos padres Jesuítas que no Brasil tentaram no século XVIII proteger os índios das investidas dos colonos portugueses, e o de inúmeros ecologistas e antropólogos que tentaram condicionar projectos de desenvolvimento principalmente no terceiro mundo, para proteger habitats, populações e as suas culturas. Na vida real, habitualmente todos falharam e a máquina da civilização hoje dominante, absorvedora de recursos e técnica e militarmente mais avançada, arrasa por completo tudo o que lhe aparece pela frente.

No filme, creio que só para variar, acontece o contrário.

O que é curioso, pois estamos a entrar numa fase da vida mundial em que já mais ou menos toda a gente percebeu que, irremediavelmente, já praticamente demos cabo da natureza, das culturas, dos recursos naturais. Em Copenhaga, andou tudo à estalada a ver quem pode poluir mais e quem vai pagar dinheiro a quem. Pois é. Vamos a ver como vai ser o nosso futuro. Mas para já, não estou lá muito optimista.

O filme de Cameron foi em parte muito discutido por uma razão completamente diferente. Porque aparentemente os meninos e as meninas hoje, em vez e aprenderem na escola e lerem uns bons livros de vez em quando (ou este blogue), passam os dias alegremente em casa uns dos outros ou, mais frequentemente, em casa a falar uns com os outros na internet, e a descarregar, sem pagar, todas as músicas, filmes e entretenimento que andam por aí. O resultado é que as editoras, os autores, as discográficas, os distribuidores de livros, música e filmes, estão a ir todos à falência (coitados).

No caso do cinema, dado que filmes representam complexos e caros projectos, a ausência de lucros é um verdadeiro beijo da morte. Assim, especula-se se o tipo de filme que Cameron fez – que só pode verdadeiramente ser saboreado num teatro de cinema com óculos 3D – poderá ser uma via para incentivar as pessoas a pagarem bilhetes para irem ao cinema em vez de ficarem em casa a piratiarem os filmes para verem nos seus computadores.

Quanto a isso, também vou esperar sentado.

11/12/2009

O Fim do Mundo em Moçambique

http://www.youtube.com/v/1wasF7p8XuU&hl=en_US&fs=1&

por ABM (Cascais, 11 de Dezembro de 2009)

Cortesia de Hollywood e por apenas cerca de cinco dólares (excluindo uma lata de Coca Cola e uma dose de pipocas) o exmo leitor pode ver a mais recente versão do fim do mundo, que é suposto ocorrer no dia 21 de Dezembro de 2012, mais ou menos daqui a três anos.

O novo filme de Roland Emmerich, que custou “apenas” 260 milhões de dólares a produzir e que dura umas quase insustentáveis duas horas e quarenta minutos de ponta a ponta, parte de bases interessantes. Uma, que é mais do estilo “voodoo”, é que o calendário da mais ou menos extinta civilização meso-americana dos Maias, e que nas contas deles indica que o mundo começou há seis mil e tal anos, acaba precisamente no dia acima referido, em resultado de algum (não confirmado) alinhamento de corpos celestes, que eles viram mas que nós hoje não descrutinámos ainda.

Outra base, também comprovada, é que em 2012 haverá um ressurgimento da actividade solar, sendo nessa altura a terra assolada por uma dose acrescida de ventos solares. Isto acontece todos os 11 anos e qualquer vulgar mortal que tenha um rádio de onda curta, opere um satélite, ou faça a gestão de uma rede eléctrica sabe isso.

Uma terceira base é que parte desse vento solar inclui umas minúsculas partículas chamadas neutrinos, que só agora andam a ser estudadas, e que têm a particularidade de poderem atravessar, supõe-se, o planeta de um lado ao outro. Neste filme, o aumento nos neutrinos “ferve” o interior da terra, causando a novimentação das placas terrestres – onde assentam os continentes.

Com esses pressupostos, temos 260 milhões de dólares de fim do mundo, desta vez à escala global, com cenas longas e chatas para entreter meninas teenager californianas e as suas congéneres no resto do mundo. Isso inclui a Califórnia literalmente cair para o mar (o que, sendo do imobiliário mais caro do mundo, dá um certo gozo ver), as magníficas pinturas de Michelangelo na Capela Sistina a desfazerem-se em pó por cima do Papa e os seus acólitos, a gigantesca cratera vulcânica que se situa no que é hoje o parque norte-americano de Yellostone a explodir, o Cristo-Rei no Rio de Janeiro a cair, Nova Iorque a ser demolida mais uma vez, e o maior tsunami na história do cinema a subir até ao pico mais alto da cadeia de Everest, no Nepal.

Isto com a habitual dose de amor, choro, baba e ranho, traição, humanidade e egoísmo que acompanham estas mega-produções.

O que trai o filme são as sequências infindáveis de cenas de perigo em que os nossos heróis (apropriadamente, uma família “moderna” – pais divorciados, o namorado da mãe a reboque, filhos parvinhos mimados e ressabiados) sucessivamente escapam por um triz à mais certa destruição. Na vida real, à primeira pedrada morremos. Mas aqui é umas atrás das outras e sempre tudo a andar. O que me surpreende, pois gastarem-se milhões e milhões em efeitos especiais para emprestar maior credibilibidade às cenas e depois fazer isto é deitar bom atrás de mau dinheiro.

Para os moçambicanófilos, há mesmo mesmo no fim do filme uma cena que não sei se devo rir ou chorar mas que é interessante. Depois de toda a hecatombe, a coisa acalma e os sobreviventes deste fim do mundo rumam, de barco, para o que consideram o lugar mais seguro e com mais chance de vida no que restou da Terra – nomeadamente, a cadeia de montanhas Drakensberg, que percorre a actual África do Sul e que acaba nos Libombos na parte Sul de Moçambique. Como o nível do oceano subiu algumas centenas de metros, no filme vê-se vagamente a maior parte do Sul de Moçambique…debaixo do mar.

Quando saí do cinema só me ria a pensar no que seria os Zulus e os Khosas, depois de aturarem 300 anos de guerras com os boers e lutarem para voltarem a ser os donos daquilo, e de sobreviverem um apocalipse…verem aparecer no horizonte três barcos cheios de gente para colonizar novamente a sua terra.

Seria Vasco da Gama all over again.

Claro que há um elemento interessante a meditar aqui. A julgar pelos apóstolos da desgraça, o mar vai subir uns cem metros nos próximos séculos. E, nesse caso, se se observar um mapa topográfico de Moçambique, o Sul do país literalmente desapareceria debaixo do mar. Para o exmo. leitor perceber o que isso significa, experimente subir ao topo do prédio de 33 andares na baixa de Maputo, que tem cerca de cem metros de altura. Olhe à sua volta e imagine o que é que significa o mar estar a essa altura.

Mas nem é preciso ir tão longe. Até ao fim deste século o mar deverá subir 1 a 2 metros. E se isso acontecer, a maior parte do caminho entre Maputo e a Ponta do Ouro – que já esteve debaixo do mar, pois aquilo é quase tudo areia da praia – será completamente inundada. A marginal de Maputo e toda a orla marítima até junto de Marracuene serão permanentemente inundadas.

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