THE DELAGOA BAY REVIEW

20/10/2010

1974 E JESUS CRISTO SUPERSTAR

por ABM (20 de Outubro de 2010)

Enquanto em Portugal se espera o desfecho da saga do Orçamento de Estado para 2011, ouvi esta noite uma canção que me trouxe uma memória africana. E muito minha.

A minha adolescência acabou exactamente aos 14 anos e três meses de idade, nas semanas que se seguiram ao dia 25 de Abril de 1974, quando, em Lourenço Marques (a actual Maputo), onde eu vivia em comparativa modéstia, se instalou a quase total incerteza sobre o que ia acontecer ao então Estado português de Moçambique, a seguir ao golpe de Estado militar em Portugal – a Metrópole. Não era preciso ser-se cientista para se perceber isso: via-o na cara das pessoas com quem contactava (os putatativos colonialistas racistas fascistas), lia-o nos jornais, sentia-o no semblante dos meus pais, especialmente no da minha mãe que já se interrogava o que iria ser de Moçambique. E de nós.

Claro que viria a Independência. Mas que independência?

Esta noite, a canção que ouvi se calhar foi a última boa memória antes do turbilhão a seguir ao 25 de Abril. Foi algo que me tocou.

A canção é de um filme: Jesus Cristo Superstar (JCS).

Vi o filme duas vezes, no então Cine-Teatro Manuel Rodrigues (hoje o Cine África).

Jesus Cristo Superstar, que revi outro dia, e que se baseou na peça composta pelo legendário Frank Lloyd Weber (que na altura eu não sonhava quem era) é o que na altura se chamava uma ópera rock. Tem tidos os tiques da música da altura e do movimento hippy que na altura era o último grito da moda para a juventude, incluindo a de Lourenço Marques.

O filme tem grandes canções, uma grande encenação (foi filmado em Israel) e excelentes actores, que por acaso creio que nunca mais vi no cinema. Naquela altura, quase toda a gente que eu conhecia conhecia as suas principais canções. Recordo-me, por exemplo, de numa aula de canto coral (naquela altura canto coral era obrigatório, hoje em dia suspeito que não) numa aula com cinquenta pessoas no Liceu Salazar, toda a gente (incluindo eu) sabia cantar a canção em baixo.

Excepcionalmente, consegui, por autêntico milagre, fazer com que o pai BM, que não alimentava vícios a ninguém lá em casa, me autorizasse a comprar o disco do filme (na verdade eram dois LP’s – hum, quem ler isto com menos que 20 anos de idade não saberá o que é um LP). Só depois é que eu descobri que até o pai BM gostava da música, especialmente o tipo que fazia de Judas, um actor negro norte-americano com uma voz fantástica.

E até tive uma experiência mágica.

Perto da casa onde os BM viviam na Polana, na 24 de Julho, estava a ser feito um daqueles prédios horrorosos com vinte andares de altura. Uma madrugada, ainda era noite, levei para o topo do prédio, que ainda estava no tosco, o gira-discos, o amplificador, uns auscultadores, uns binóculos e um dos discos de Jesus Cristo Superstar. Note o exmo. Leitor que tive que subir duas vezes vinte andares em plena escuridão num prédio tosco para o meu experimento.

Lá em cima, montei tudo junto to tecto do poço do elevador do prédio (era o ponto mais alto do edifício), ligando os aparelhos a um fio eléctrico que por lá havia para a obra. Subi para o tecto do poço do elevador com os auscultadores e os binóculos, deitei-me sobre o cimento e esperei.

Daquele local, não só se via toda a cidade, que dormia silenciosamente, como ainda se via toda a paisagem em redor, desde os Libombos a Poente, como a Ilha da Inhaca, a Nascente, do outro lado da enorme baía.

Lentamente, fez-se luz e amanheceu. E quando, no preciso momento em que, na direcção da Inhaca, começou finalmente a aparecer o topo do disco solar, como se estivesse a sair por detrás do mar, apontei os binóculos para lá, liguei o gira-discos e coloquei a canção de abertura de Jesus Cristo Superstar. A que está lá em cima.

Na altura foi para mim uma experiência excepcional, tal e qual como eu imaginara antes que seria, ver de perto o sol, majestoso, sublime, imparável, lentamente, a sair do mar e a ascender ao céu, com aquela música.

Enfim. Coisas de miúdo. A chatice foi depois a trazer aquilo tudo de volta para casa.

Mas havia outro aspecto que tornava Jesus Cristo Superstar peculiar. O filme saíra primeiro na África do Sul e lembro-me que se dizia que primeiro fora proibido em Moçambique. Porque o seu conteúdo de alguma forma ofendia as sensibilidades da Igreja Católica. Mas não sei como nem porquê, mais tarde deixaram-no passar. Na altura perguntei à mãe BM, que era a minha consultora especial para assuntos do catolicismo, qual era o problema com Jesus Cristo Superstar. O que ela ouvira fora que no filme a) a figura de Judas era apresentada como boa e que a sua traição a Cristo na realidade não era a sua vontade, mas sim o mero cumprimento da vontade do pai de Cristo (que acho que toda a gente sabe quem É…). Na realidade, no filme, Judas até refila por causa disso, o que na verdade não me lembro de aprender lá durante o meu Gulag na catequese; b) no filme, Maria Madalena era uma simples prostituta, o que creio que também não era bem o que se fazia dela nas Sagradas Escrituras, em que, enfim, ela era uma mulher de pecado…e ficava-se por aí nos detalhes; c) finalmente, fazer passar a entourage de Jesus Cristo – afinal os fundadores do catolicismo – como uma cambada de hippies com calças à boca de sino e lenços coloridos na cabeça a cantar rock, bem, isso simplesmente devia ser demais para suas conspícuas eminências e suas dignas batinas.

Em baixo, a Maria Madalena canta I Don’t Know How to Love Him. Todas as miúdas da minha idade naquela altura em Lourenço Marques conheciam esta canção praticamente de cor.

Depois disto, a minha adolescência passou a ser mais adulta.

Pois, de repente, para variar, tive que fazer pela vida e escapar-me de duas revoluções seguidas.

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