THE DELAGOA BAY REVIEW

18/03/2012

O PENSAMENTO DE VÍTOR GUERRA: OS JOVENS QUE VÃO VOTAR PELA PRIMEIRA VEZ EM MOÇAMBIQUE EM 2014

Cartaz anunciando uma festa recente numa discoteca de Maputo a realizar na noite antes do feriado de 25 de Junho, da Guyzelh Productions.

Quer-me parecer que quem manda neste país se está a esquecer dum pormenor de extrema importancia: uma grande maioria dos eleitores de 2014 (o que se nota já nestas eleições intercalares) só ouviu falar do colonialismo em terceira mão (mesmos os seus pais souberam o que era o xibalo através dos livros escolares), Kaunda, Nyerere, Mondlane, Samora, são nomes de ruas (esburacadas muitas delas) ou de histórias que ouvem os avós contarem.

Os jovens que irão voltar pela primeira vez em 2014, não fazem ideia do que quer dizer ONUMOZ ou de quem foi Aldo Ajello, e não têm qualquer interesse em saber.

Os jovens que vão votar pela primeira vez em 2014, nasceram depois de 1992, não sabem o que foi a Guia de Marcha, o cartão de residente ou a autorização do Grupo Dinamizador para poder viajar; não imaginam o que é ter que esperar a formação da coluna militar para ir até à Manhiça, e não estão dispostos a entender que alguém, seja porque motivo for, agora os queira impedir de se deslocarem dentro do seu País.

Os jovens que vão votar pela primeira vez em 2014, sabem que não estão a conseguir estudar por falta de vagas ou de condições financeiras, que não têm acesso a empregos formais e que o desenrascanço é o seu dia-a-dia; não querem que ninguém lhes explique que a culpa é do colonialismo ou da guerra de desestabilização que terminou antes deles nascerem!

Os jovens que vão votar pela primeira vez em 2014, agradecem imenso os sacrifícios que os “libertadores” fizeram na sua juventude, mas agora que estes já usufruiram dessa liberdade querem também o seu lugar ao Sol, querem escolas, estradas, hospitais, fábricas, empregos…

Os jovens que vão votar pela primeira vez em 2014, cresceram a ouvir retóricas fáceis, promessas eleitorais (coisa que os seus pais nem sabiam o que era) e já não se deixam levar com camisetes e capulanas.

Os jovens que vão votar pela primeira vez em 2014, não se contentam com um “futuro melhor”, eles exigem, dia-a-dia, um “presente melhor”.

Os jovens que vão votar pela primeira vez em 2014, estão cansados de ouvir sempre o mesmo discurso de quem diz poder “incendiar o país” como forma de colher mais uns “trust funds” para o seu bolso, nunca mostrando qualquer alternativa viável de futuro.

Os jovens que vão votar pela primeira vez em 2014, já não acreditam nesta democracia partidária e aguardam expectantes que os que conseguiram lá chegar não sejam engolidos pelo sistema, estão de olhos em Galiza Matos Jr, Ivone Soares, Basilio Muhate, etc.

Para bem do nosso futuro colectivo, Frelimo, Renamo, MDM e todos os outros que aparecem em periodo de eleições à espera do Orçamento do Estado, é bom que comecem a olhar com outros olhos para os jovens que vão votar pela primeira vez em 2014 e se lembrem que, embora alguns o tenham tantado vender e outros tantos o tenham vindo a comprar aos pedaços… este país não é nosso…é sempre da geração seguinte!

(Vitor Guerra, nota no Facebook, 12 de Março de 2012 às 02:08 horas)

01/01/2012

O DISCURSO DE HELMUT SCHMIDT NO CONGRESSO DO SPD, BERLIM, 4 DE DEZEMBRO DE 2011

Filed under: Citações, Dez. de 2011, Europa, Helmut Schmidt — ABM @ 3:14 pm

Helmut Schmidt, político e estadista alemão.

(grato ao Zé Rodrigues pelo envio desta tradução, meio esfarrapada mas que dá para entender)

Queridos Amigos, minhas Senhoras e meus Senhores,

Deixai-me começar com uma nota pessoal. Quando o Sigmar Gabriel, o Frank-Walter Steinmeier e o meu Partido me pediram mais uma vez uma contribuição, gostei de recordar como há 65 anos eu e a Locki, de joelhos no chão, pintávamos cartazes para o SPD em Hamburgo-Neugraben.

Na verdade tenho de confessar desde já: no que diz respeito a toda a política partidária, já estou para além do Bem e do Mal, por causa da minha idade. Há muito que para mim, em primeiro e em segundo lugar, se encontram as tarefas e papel da nossa nação no indispensável âmbito união europeia.

Simultaneamente, estou satisfeito por poder partilhar esta tribuna como o nosso vizinho norueguês Jens Stoltenberg, que no centro de uma profunda infelicidade da sua nação, nos deu a nós e a todos os europeus um exemplo a seguir de direção liberal e democrática de um estado de direito.

Enquanto entretanto homem já muito velho, penso naturalmente em longos períodos de tempo, quer para trás na História, quer para a frente na direção do desejado e pretendido futuro.

Contudo, não pude dar há alguns dias uma resposta clara a uma pergunta muito simples. Wolfgang Thierse perguntara-me: «Quando será a Alemanha, finalmente, um país normal?» E eu respondi: num futuro próximo, a Alemanha não será um país «normal». Já que contra isso está a nossa carga histórica enorme mas única. E além disso está contra isso a nossa posição central preponderante, demográfica e economicamente, no centro do nosso bastante pequeno continente mas organizado em múltiplos estados-nação. Com isto já estou no centro do complexo tema do meu discurso: a Alemanha na Europa, com a Europa e pela Europa.

Razões e origens da integração europeia

Apesar de em alguns poucos, dos cerca de 40 Estados europeus, a consciência de ser uma nação se ter desenvolvido tardiamente, assim em Itália, na Grécia e na Alemanha, sempre houve e em todo o lado guerras sangrentas. Pode-se compreender esta história europeia observada da Europa Central? pura sequência de lutas entre a periferia e o centro e vice-versa. Sempre de novo o centro se manteve o campo de batalha decisivo. Quando os governantes, os estados ou os povos no centro da Europa foram fracos, então os vizinhos da periferia avançaram para o centro. A maior destruição e as relativamente elevadas baixas humanas aconteceram na primeira guerra dos 30 anos, entre 1618 e 1648, que se desenrolou fundamentalmente em solo alemão. A Alemanha era, nessa época, simplesmente um conceito geográfico, definido de forma desfocada só pelo espaço da língua alemã. Mais tarde vieram os franceses, sob Luís XIV e de novo sob Napoleão. Os suecos não vieram uma segunda vez; mas sim diversas vezes os ingleses e os russos, a última vez com Stalin. Mas quando as dinastias ou os Estados eram foram fortes no centro da Europa? ou quando se sentiram fortes!? então atacaram a periferia. Isto já é válido para as Cruzadas, que foram simultaneamente cruzadas de conquista não só na direção da Ásia Menor e Jerusalém, mas também na direção da Prússia Oriental e na de todos os três estados bálticos actuais. Na idade moderna é válido para as guerras contra Napoleão e é válido para as três guerras de Bismarck em 1864, 1866 e 1870/71.

O mesmo é válido principalmente para a segunda guerra dos 30 anos de 1914 a 1945. É especialmente válido para os avanços de Hitler até ao Cabo Norte, até ao Cáucaso, até à ilha grega de Creta, até ao sul da França e até mesmo a Tobruk, perto da fronteira líbio-egípcia. A catástrofe europeia, provocada pela Alemanha, incluiu a catástrofe dos judeus europeus e a catástrofe do estado nacional alemão. Mas antes os polacos, as nações bálticas, os checos, os eslovacos, os austríacos, os húngaros, os eslovenos, os croatas tinham partilhado o destino dos alemães na medida em que todos eles, desde há séculos, tinham sofrido sob a sua posição geopolítica central neste pequeno continente europeu.

Ou dito de outra forma: diversas vezes, nós, alemães, fizemos sofrer os outros sob a nossa central posição de poder.

Hoje em dia, as reivindicações territoriais conflictuais, os conflictos linguísticos e fronteiriços, que ainda na primeira metade do século XX desempenharam um papel importante na consciência das nações, tornaram-se de facto insignificantes, pelo menos para nós alemães. Enquanto na opinião pública e na opinião publicada nas nações europeias, o conhecimento e a lembrança das guerras da Idade Média se encontram amplamente esquecidos, a lembrança de ambas as guerras do século XX e a ocupação alemã, desempenham todavia ainda um papel latente dominante. Penso ser para nós alemães decisivo que quase todos os nossos vizinhos e para além disso quase todos os judeus no mundo inteiro, se recordem do Holocausto e das infâmias que aconteceram durante a ocupação alemã nos países da periferia. Não está suficientemente claro para nós alemães que provavelmente entre quase todos os nossos vizinhos, ainda por muitas gerações, se mantém uma desconfiança contra os alemães. Também as gerações alemãs posteriores têm de viver com este peso histórico. E as actuais não devem esquecer: foi a desconfiança com um futuro desenvolvimento da Alemanha que justificou o início da integração europeia em 1950.

Em 1946, Churchill, no seu grande discurso em Zurique, tinha duas razões para apelar aos franceses para se entenderem com os alemães e construírem com ele os Estados Unidos da Europa: em primeiro lugar, a defesa conjunta perante a União Soviética, que parecia ameaçadora, mas em segundo a integração da Alemanha numa aliança ocidental alargada. Porque Churchill previa perspicazmente a recuperação económica da Alemanha. Quando em 1950, quatro anos depois do discurso de Churchill, Robert Schuman e Jean Monnet apresentaram o plano Schuman para a integração da indústria pesada europeia, a razão foi a mesma, a razão da integração alemã. Charles de Gaulle, que dez anos mais tarde propôs a Konrad Adenauer a reconciliação, agiu pelo mesmo motivo.Tudo isto aconteceu na perspectiva realista de um possível desenvolvimento futuro do poder alemão. Não foi o idealismo de Victor Hugo, que em 1849 apelou à união da Europa, nem nenhum idealismo esteve em 1950/52 no início da integração europeia então limitada à Europa Ocidental.

Os estadistas dessa época na Europa e na América (nomeio George Marshall, Eisenhower, também Kennedy, mas principalmente Churchill, Jean Monnet, Adenauer e de Gaulle ou também Gasperi e Henri Spaak) não agiram de forma nenhuma por idealismo europeu, mas sim a partir do conhecimento da história europeia até à data.

Agiram no juízo realista da necessidade de impedir uma continuação da luta entre a periferia e o centro alemão.

Quem ainda não entendeu este motivo original da integração europeia, de que continua a ser um elemento fundamental, quem ainda não entendeu isto falta-lhe a condição indispensável para solucionar a presente crise altamente precária da Europa. Quanto mais, durante os anos 60, 70 e 80, a então República Federal ganhava em peso económico, militar e político, mais a integração europeia se tornava aos olhos dos governantes europeus o seguro contra a de novo possível tentação de poder alemã.

A resistência inicial de Margaret Tatcher ou de Miterrand ou de Andreotti em 1989/90 contra a unificação dos dois estados alemães do pós-guerra estava claramente fundada na preocupação de uma Alemanha poderosa no centro deste pequeno continente europeu.

Gostaria aqui de fazer um pequeno excurso pessoal. Ouvi Jean Monnet quando participei no seu comité «Pour les États-Unis d’Europe». Foi em 1955. Para mim Jean Monnet é um dos franceses mais perspicazes que eu conheci na minha vida em questões de integração, também por causa do seu conceito de avançar passo a passo na integração europeia.Desde aí que, por compreender o interesse estratégico da nação alemã, me tornei e me mantive um partidário da integração europeia, um partidário da integração da Alemanha, não por idealismo.

(Isto levou-me a uma controvérsia com Kurt Schumacher, o por mim muito respeitado presidente do meu partido, para ele insignificante, para mim com 30 anos, regressado da guerra, muito séria.) Levou-me a concordar, nos anos 50, com os planos do então Ministro dos Negócios Estrangeiros polaco Rapacki. No início dos anos 60 escrevi então um livro contra a estratégia oficial ocidental da retaliação nuclear, com que a NATO, na qual ontem como hoje nos encontrávamos integrados, ameaçava a poderosa União Soviética.

A União Europeia é necessária

De Gaulle e Pompidou continuaram nos anos 60 e início dos anos 70 a integração europeia, para integrar a Alemanha, mas também não queriam de maneira nenhuma integrar o seu próprio estado. Depois disso, o bom entendimento entre Giscard d’Estaing e mim, levou a um período de cooperação franco-alemão e à continuação da integração europeia, um período que depois da primavera de 1990 continuou com êxito entre Miterrand e Kohl. Ao mesmo tempo, desde 1950/52 que a comunidade europeia cresceu, até 1991, passo a passo, de seis para doze membros.

Graças ao amplo trabalho preparatório de Jacques Delors (na altura presidente da Comissão Europeia), Miterrand e Kohl acordaram, em 1991, em Maastricht, a moeda comum, o euro, que se tornou realidade dez anos mais tarde, em 2001.

De novo, na sua origem, a preocupação francesa de uma Alemanha demasiado poderosa, mais exactamente de um marco demasiado poderoso.

Entretanto, o euro tornou-se na segunda moeda mais importante da economia mundial. Esta moeda europeia é até, quer interna, quer externamente, mais estável do que o dólar americano e mais estável do que o marco foi nos seus últimos dez anos. Toda a conversa sobre uma suposta «crise do euro» é conversa fiada leviana dos media, de jornalistas e de políticos. Mas desde Maastricht, desde 1991/92, que o mundo mudou imensamente. Assistimos à libertação das nações do leste europeu e à implosão da União Soviética. Assistimos à ascensão fenomenal da China, da Índia, do Brasil e outros «estados emergentes», que antigamente chamávamos «Terceiro Mundo».

Simultaneamente, as economias reais de grande parte do mundo «globalizaram-se»: quase todos os estados no mundo dependem uns dos outros. Principalmente, os actores nos mercados financeiros globalizados apropriaram-se de um poder, por enquanto, totalmente sem controlo.

Mas paralelamente, quase sem se dar por isso, a humanidade multiplicou-se de forma explosiva, atingindo os sete mil milhões. Quando nasci eram cerca de 2 mil milhões.

Todas estas enormes mudanças tiveram consequências tremendas nos povos europeus, nos seus estados, no seu bem-estar!Por outro lado, todas as nações europeias envelhecem e desce o número de cidadãos europeus. Em meados do século XXI seremos provavelmente nove mil milhões de pessoas a viver na Terra, enquanto todas as nações europeias não ultrapassarão os 7%. 7% de 9 mil milhões. Até 1950, os europeus representaram, durante mais de dois séculos, mais de 20% da população mundial. Mas desde há 50 anos que nós europeus diminuímos, não só em números absolutos, mas principalmente em relação à Ásia, África e América Latina.

Da mesma forma, desce a parte dos europeus no produto social global, isto é, na criação de riqueza de toda a humanidade. Até 2050 descerá até aos 10%; em 1950 ainda representava 30%. Cada uma das nações europeias, em 2050, representará já só uma parte de um 1% da população mundial.

Quer isto dizer: se queremos ter a esperança de nós europeus termos importância no mundo, então só a teremos em conjunto. Porque enquanto estados separados, seja a França, a Itália ou a Alemanha ou a Polónia, Holanda ou Dinamarca ou Grécia, só nos poderão contar em milésimos e não mais em números percentuais.

Daqui resulta o interesse estratégico a longo prazo dos estados europeus na sua cooperação integradora.

Este interesse estratégico na integração europeia aumentará em importância cada vez mais. Até agora ainda não está amplamente consciencializado pelas nações. Também os respectivos governos não as consciencializam. No caso, porém, de a União Europeia no decorrer do próximo decénio não conseguir, mesmo que limitada, uma capacidade conjunta de actuação, não é de excluir uma marginalização auto-provocada dos estados e da civilização europeia.

Do mesmo modo, não se pode excluir, num caso destes, o ressuscitar de lutas concorrenciais e de prestígio entre os estados europeus. Numa situação destas, a integração da Alemanha não poderia funcionar.

O velho jogo entre centro e periferia podia de novo tornar-se realidade.

O processo mundial de esclarecimento, de propagação dos direitos das pessoas e da sua dignidade, o direito constitucional e a democratização não receberiam mais nenhum impulso eficaz da Europa.

Nesta perspectiva, a comunidade europeia torna-se uma necessidade vital para os estados nacionais do nosso velho continente. Esta necessidade ultrapassa as motivações de Churchill e de Gaulle. Também ultrapassa as motivações de Monnet e os de Adenauer. E hoje também engloba as motivações de Ernst Reuter, Fitz Ehler, Willy Brandt e também Helmut Kohl. Acrescento: certamente que também se trata ainda e sempre da integração da Alemanha.

Por isso, nós alemães temos de ganhar clareza sobre a nossa tarefa, o nosso papel no contexto da integração europeia.

A Alemanha necessita de constância e fiabilidade

Se no final de 2011 olharmos para a Alemanha com os olhos dos nossos vizinhos mais próximos e mais distantes, desde há um decénio que a Alemanha provoca inquietação e, recentemente, também preocupação política. Nos últimos anos surgiram dúvidas consideráveis sobre a constância da política alemã. A confiança na garantia da política alemã está abalada. Estas dúvidas e preocupações assentam também nos erros de política externa dos nossos políticos e governos. Por outro lado baseiam-se no, para o mundo inesperado, poder económico da República Federal unificada.

A nossa economia tornou-se, iniciando nos anos 70, nessa época ainda dividida, na maior da Europa. Tecnológica, financeira e socialmente, é hoje uma das economias mais eficientes do mundo. O nosso poder económico e a nossa, em comparação muito estável, paz social desde há decénios, também provocaram inveja, tanto mais que a nossa taxa de desemprego e a nossa dívida se encontram dentro da normalidade internacional.

No entanto, não nos é suficientemente claro que a nossa economia está, quer profundamente integrada no mercado comum europeu, quer em grande medida globalizada e assim dependente da conjuntura mundial. Iremos assim assistir como, no próximo ano, as nossas exportações não aumentarão significativamente.

Mas, simultaneamente, desenvolveu-se um grave erro, nomeadamente os enormes excedentes da nossa balança comercial. Desde há anos que os excedentes representam 5% do nosso PIB. São comparáveis aos excedentes da China. Isto não nos é completamente claro porque os excedentes não se contabilizam em marcos, mas em euros. Mas é necessário que os nossos políticos se consciencializem desta circunstância.

Porque todos os nossos excedentes são, na realidade, os défices dos outros. As exigências que temos aos outros, são as suas dívidas. Trata-se de uma violação irritante do por nós elevada a ideal legal do «equilíbrio da economia externa». Esta violação tem de inquietar os nossos parceiros.

E quando ultimamente aparecem vozes estrangeiras, na maioria dos casos vozes americanas, entretanto vindas de outros lados, que exigem da Alemanha um papel de condução europeia, então isso desperta nos nossos vizinhos mais desconfiança. E acorda más recordações. Esta evolução económica e a simultânea crise da capacidade de acção dos órgãos da união europeia, empurraram de novo a Alemanha para um papel central. A chanceler aceitou solícita este papel juntamente com o presidente francês. Mas há, de novo, em muitas capitais europeias e também em muitos media, uma crescente preocupação com o domínio alemão. Desta vez não se trata de uma potência militar e política central, mas sim de um potente centro económico!

Aqui é necessário uma séria, cuidadosamente equilibrada advertência aos políticos alemães, aos media e à nossa opinião pública.

Se nós alemães nos deixássemos seduzir, baseados no nosso poder económico, por reivindicar um papel político dirigente na Europa ou pelo menos desempenhar o papel de primus inter pares, então um número cada vez maior dos nossos vizinhos resistiria eficazmente.

A preocupação da periferia europeia com um centro da Europa demasiado forte regressaria rapidamente. As consequências prováveis de uma tal evolução seriam atrofiadoras para a União Europeia.

E a Alemanha cairia no isolamento.

A República Federal da Alemanha, muito grande e muito eficaz, precisa, também para se defender de si própria, de se encaixar na integração europeia.

Por isso, desde os tempos de Helmut Kohl, desde 1992 que o Artigo 23º da Constituição nos obriga a colaborar «… no desenvolvimento da União Europeia». Este artº 23º obriga-nos a esta cooperação também no «princípio da subsidiariedade…».

A crise actual da capacidade de acção dos órgãos da União Europeia não muda em nada estes princípios. A nossa posição geopolítica central, mais o papel infeliz no decorrer da história europeia até meados do século XX, mais a nossa capacidade produtiva actual, tudo isto exige de todos os governos alemães uma grande dose de compreensão dos interesses dos nossos parceiros na União Europeia. E a nossa prestabilidade é indispensável.

Nós, alemães, também não conseguimos sózinhos a grande reconstrução e capacidade de produção nos últimos seis decénios. Elas não teriam sido possíveis sem a ajuda das potências vencedoras ocidentais, sem a nossa inclusão na comunidade europeia e na aliança atlântica, sem a ajuda dos nossos vizinhos, sem a mudança política na Europa de leste e sem o fim da ditadura comunista.

Nós, alemães, temos razões para estarmos gratos. E, simultaneamente, temos a obrigação de nos mostramos dignos da solidariedade através da solidariedade com os nossos vizinhos!

Pelo contrário, ambicionar um papel próprio na política mundial e ambicionar prestígio político mundial seria bastante inútil, provavelmente até prejudicial.

Em todo o caso, mantém-se indispensável a estreita cooperação com a França e a Polónia, com todos os nossos vizinhos e parceiros na Europa.

É minha convicção que reside no interesse estratégico cardinal da Alemanha, a longo prazo, não se isolar e não se deixar isolar. Um isolamento no espaço do ocidente seria perigoso. Um isolamento no espaço da União Europeia ou da zona euro seria ainda mais perigoso. Para mim, este interesse da Alemanha ocupa um lugar inequivocamente mais importante do que qualquer interesse tático de todos os partidos políticos.

Os políticos e os media alemães têm, com mil demónios, a obrigação e o dever de defender este conhecimento de forma duradoura na opinião pública.Mas quando alguém dá a entender que hoje e no futuro falar-se-á alemão na Europa; quando um ministro alemão dos negócios estrangeiros pensa que entrevistas dadas às televisões em Tripoli, Cairo ou Cabul são mais importantes do que contactos políticos com Lisboa, Madrid, Varsóvia ou Praga, Dublin, Haia Copenhaga ou Helsínquia; quando um outro acha ter de se defender de uma «União de transferência» – então tudo isto é mera fanfarronice prejudicial.

Na verdade, a Alemanha foi durante longos decénios pagador líquido! Podíamos fazê-lo e fizemo-lo desde Adenauer. E naturalmente que a Grécia, Portugal ou a Irlanda forma sempre recebedores líquidos.Esta solidariedade talvez não seja hoje suficientemente clara para a classe política alemã. Mas até agora foi evidente. Também evidente, e para além disso desde que incluído no tratado de Lisboa, o princípio da subsidiariedade: aquilo que um estado não pode ou não consegue resolver, tem de ser assumido pela União Europeia.

Desde o plano Schuman que Konrad Adenauer aceitou, por instinto político acertado, a oferta francesa contra a resistência quer de Kurt Schumacher, quer de Ludwig Erhard.

Adenauer avaliou, corretamente, o interesse estratégico de longo prazo da Alemanha, apesar da divisão da Alemanha! Todos os sucessores, como Brandt, Schmidt, Kohl e Schröder, prosseguiram a política de integração de Adenauer.Todas as tácticas da ordem do dia, da política interna ou da política externa, nunca questionaram o interesse estratégico alemão do longo prazo. Por isso todos os nossos vizinhos e parceiros puderam confiar, durante decénios, na constância da política europeia alemã, e, na verdade, independentemente de todas as mudanças de governo.

Esta continuidade mantém-se conveniente também no futuro.

A situação actual da União Europeia exige energia. Contribuições conceptuais alemãs foram sempre naturais. Também se deve manter assim no futuro. Não devíamos no entanto, antecipar o futuro longínquo. Mudanças no tratado, mesmo assim, só poderiam corrigir em parte erros e omissões na realidade criada há vinte anos em Maastricht. As propostas actuais para as mudanças no Tratado de Lisboa agora em vigor não me parecem muito úteis para um futuro próximo, se nos lembrarmos das dificuldades até agora com todas as diversas ratificações nacionais, ou nos referendos com resultados negativos.

Concordo por isso com Napolitano, o Presidente italiano, quando, num notável discurso em Outubro, exigiu que nós hoje nos temos de concentrar no que é necessário fazer hoje. E que para isso temos de esgotar as possibilidades que os tratados em vigor nos proporcionam, especialmente o reforço das regras orçamentais e da política económica na zona Euro.

A actual crise da capacidade de ação dos órgãos da União Europeia criados em Lisboa, não pode continuar! Com a excepção do Banco Central Europeu, todos os órgãos, Parlamento Europeu, Conselho Europeu, Comissão Europeia e Conselho de Ministros, todos eles, desde a superação da aguda crise dos bancos de 2008 e especialmente da consequente crise da dívida soberana, contribuíram pouco para uma ajuda eficaz. Não há nenhuma receita para a superação da actual crise de liderança na União Europeia. Serão necessários vários passos, alguns simultâneos, outros consecutivos. Não serão só necessárias, capacidade de análise e energia, mas também paciência!

Nisso, as contribuições concepcionais alemãs não se podem reduzir a chavões. Não devem ser apresentadas na praça televisiva, mas em vez disso confidencialmente nos grémios dos órgãos da União Europeia. Os alemães não devem apresentar como exemplo ou medida de toda as coisas aos nossos parceiros europeus, nem a nossa ordem económica ou social, nem o nosso sistema federal, nem a nossa política constitucional orçamental ou financeira, mas sim simplesmente enquanto exemplo entre várias outras possibilidades.

Todos nós em conjunto somos responsáveis pelos efeitos futuros na Europa por tudo o que hoje a Alemanha faz ou deixa de fazer. Precisamos de razoabilidade europeia.

Mas não precisamos só de razoabilidade, mas também de um coração compreensivo com os nossos vizinhos e parceiros.

Concordo num ponto importante com Jürgen Habermas, que recentemente referiu que – e cito – «…na realidade assistimos agora pela primeira vez na história da União Europeia a uma desmontagem da Democracia!!» (fim da citação). De facto: não só o Conselho Europeu, incluindo o seu Presidente, também a Comissão Europeia, incluindo o seu Presidente e os diversos Conselhos de Ministros e toda a burocracia de Bruxelas marginalizaram em conjunto o princípio democrático! Eu caí no erro, na época em que introduzimos a eleição para o Parlamento europeu, de pensar que o Parlamento conseguiria o seu peso próprio. Na verdade até agora não teve nenhuma influência reconhecível na superação da crise, já que as suas discussões e resoluções não têm até agora nenhum resultado público.Por isso quero apelar a Martin Schulz: é tempo de o senhor e os seus colegas democratas-cristãos, socialistas, liberais e verdes, em conjunto mas de forma drástica, conseguirem ser ouvidos publicamente.

Provavelmente, o campo da totalmente insuficiente fiscalização sobre os bancos, as bolsas e os seus instrumentos financeiros, desde o G20 em 2008, adequa-se na perfeição para uma tal análise do Parlamento Europeu.

Realmente, alguns milhares de brokers nos EUA e na Europa, mais algumas agências de notação tornaram reféns os governos politicamente responsáveis da Europa.

Não é de esperar que Barack Obama possa vir fazer muito contra isso. O mesmo é válido para o governo britânico. Realmente, os governos do mundo inteiro salvaram, na verdade, os bancos em 2008/09 com as garantias e o dinheiro dos impostos dos cidadãos. Mas já em 2010, esta manada de executivos financeiros, altamente inteligentes e simultaneamente propensos à psicose, jogava, de novo, o seu velho jogo do lucro e das bonificações. Um jogo de azar e em prejuízo dos que não são jogadores, que eu e Marion Dönhoff já nos anos 90 criticámos como muito perigoso.

Já que ninguém quer agir, então os participantes da zona Euro têm de o fazer. Para isso o caminho pode ser o do Artigo 20º do Tratado de Lisboa em vigor. Aí prevê-se expressamente, que Estados-membros, sós ou em conjunto, «estabeleçam entre eles uma cooperação reforçada».

Em todo o caso, os Estados membros da zona euro deveriam impor uma regulação enérgica do seu mercado financeiro comum. Desde a separação entre por um lado os bancos normais de negócios e, por outro, os bancos de investimento e bancos sombra, até à proibição da venda de derivados, desde que não autorizados pela fiscalização oficial da Bolsa – até à restrição eficaz dos negócios das, por enquanto, não fiscalizadas agências de notação no espaço da zona euro.

Não quero, minhas senhoras e meus senhores, aborrecê-los com mais detalhes.

Naturalmente que o globalizado lobby dos banqueiros iria empregar todos os meios contra. Já conseguiu até agora impedir toda a regulamentação eficaz. Possibilitou para si mesmo que a manada dos seus brokers tenha colocado os governos europeus na situação difícil de ter de inventar sempre novos «fundos de estabilização» e alargá-los através de «alavancas». É tempo de se resistir. Se os europeus conseguirem ter a coragem e a força para uma regulação eficaz dos mercados financeiros, então podemos no médio prazo tornarmo-nos numa zona de estabilidade.

Mas se falharmos, então o peso da Europa continuará a diminuir e o mundo evoluirá na direção de um Duovirato entre Washington e Pequim.

Seguramente que para o futuro próximo da zona euro todos os passos anunciados e pensados até agora são necessários.

Deles fazem parte os fundos de estabilização, o limite máximo de endividamento e o seu controlo, uma política económica e fiscal comum, incluindo uma série de reformas nacionais na política fiscal, na despesa, na política social e na política laboral.

Mas forçosamente, também uma dívida comum será inevitável. Nós, alemães, não nos devemos recusar por razões nacionais e egoístas.

Mas de forma nenhuma devemos propagar para toda a Europa uma política extrema de deflação.

Mais razão tem Jacques Delors quando exige, em conjunto com o saneamento do orçamento, a introdução e financiamento de projetos que fomentem o crescimento. Sem crescimento, sem novos postos de trabalho, nenhum Estado pode sanear o seu orçamento. Quem acredita que a Europa pode recompor-se, só através de poupanças orçamentais, faça o favor de estudar o resultado fatal da política de deflação de Heinrich Brüning em 1930/32. Provocou uma depressão e um desemprego de uma tal dimensão que deu início à queda da primeira democracia alemã.

Terminemos, queridos amigos! No fundo, não é preciso pregar solidariedade internacional aos sociais-democratas. A social-democracia é desde há século e meio internacionalista, em muito maior medida do que gerações de liberais, de conservadores ou de nacionalistas alemães. Nós, sociais-democratas, não abdicámos da liberdade e da dignidade de cada ser humano. Simultaneamente não abdicámos da democracia representativa, da democracia parlamentar. Estes princípios obrigam-nos hoje à solidariedade europeia.De certo que a Europa, também no século XXI, será constituída por estados nacionais, cada um com a sua língua e a sua própria história. Por isso, a Europa não se tornará de certeza num Estado Federal. Mas a União Europeia também não pode degenerar numa mera aliança de estados.

A União Europeia tem de se manter como uma aliança dinâmica, em evolução. Não há em toda a história da humanidade nenhum exemplo. Nós, social-democratas, temos de contribuir para a evolução passo a passo desta aliança.

Quanto mais envelhecemos, mais pensamos em períodos longos. Também enquanto homem velho, me mantenho fiel aos três princípios do Programa de Godesberg: liberdade, justiça e solidariedade. Penso, a propósito, que hoje a justiça exige antes de mais igualdade de oportunidades para as crianças, para estudantes e jovens.

Quando olho para trás, para 1945 ou posso olhar para 1933, quando tinha acabado de fazer 14 anos, o progresso que fizemos até hoje parece-me quase inacreditável. O progresso que os europeus alcançaram desde o Plano Marshall, 1948, desde o Plano Schuman, 1950, graças a Lech Walesa e ao Solidarnoszt, graças a Vaclav Havel e à Carta 77, que agradecemos àqueles alemães em Leipzig e Berlim Oriental desde a grande mudança em 1989/91.

Não podíamos imaginar nem em 1918, nem em 1933, nem em 1945, que hoje uma grande parte da Europa se regozija pelos Direitos Humanos e pela paz.

Por isso mesmo trabalhemos e lutemos para que a União Europeia, historicamente única, saia firme e autoconfiante da sua presente fraqueza.

04/12/2011

TERRA SONÂMBULA, UM FILME SOBRE MOÇAMBIQUE

Filed under: Cinema, História Moçambique, Mia Couto, Terra Sonâmbula — ABM @ 6:59 pm

"A Noite Estrelada", de Vincent van Gogh.

Do blogue Meia-Palavra copiei o resumo deste filme, escrito por Felipe Cordeiro, mas como não percebia bem aquilo que lá estava adaptei-o ao meu próprio desacordo ortográfico:

Na Moçambique pós-guerra, num cenário devastado onde a cultura e a sobrevivência são dois elementos que se cruzam em “Terra Sonâmbula” (baseado na obra de Mia Couto), somos apresentados ao velho Tuahir e o menino Muidinga que, à procura de abrigo, encontram no mato um machimbombo incendiado e cheio de corpos carbonizados.

Dentro desse machimbombo Muidinga encontra doze diários, pertença de Kindzu, um fugitivo da guerra.

A partir da leitura desses diários, vemos a relação entre Tuahir e Muidinga estremecer. O garoto, que não sabe qual é a sua origem, questiona diversas vezes o velho que o acompanha, querendo saber de onde veio, quem são seus pais e qual é a sua relação com o velho.

As duas narrativas cruzam-se. Nos diários, Kindzu conta as dificuldades em viver num lar que respeita todas as crenças da sua cultura: a adoração dos espíritos, os devaneios do pai pescador, a cegueira social de seus vizinhos, etc. Entretanto, foge do seu meio sem ter de renegar as tradições supersticiosas e torna-se um guerreiro e acreditar em seus sonhos, que afinal não tem. É nesse ponto de tradições e relatos que as histórias se entrecruzam e caminham juntas, nunca sendo uma narrativa dentro da outra, uma influenciando a outra.

Numa terra onde dormir não é uma escolha, a chave para toda a apreciação da obra é saber que sonhos são tão reais quanto uma guerra, e a destruição e a vida caminham juntas por um caminho cheio de obstáculos e anseios.

E aqui, grátis e em sete prestações, o filme, na íntegra, bastando para tal ir vendo por aí abaixo.

Grato ao Issuf Mohamed, cujo pai e o meu se conheciam há 50 anos na velha Lourenço Marques, por me chamar a atenção para o tópico e que no filme é o indiano cantineiro que acaba numa cadeira de rodas, amigo do Kindzu.

22/09/2011

AS METÁFORAS DO MEDO, POR MIA COUTO

Manifestantes, quase todos brancos, em frente ao Palácio da Rádio em Lourenço Marques, Setembro de 1974, na sequência do anúncio, numa cidade zambiana a três mil quilómetros de distância, de um cessar-fogo em Moçambique e da entrega directa do poder pelo Estado português à Frente de Libertação de Moçambique e uma Independência sob o comunismo dali a menos que dez meses.

Interessante, curta e algo atribulada prelecção do biólogo e escritor Mia Couto, de Moçambique, numa iniciativa cultural que presumo evocativa das Conferências do Casino de 1871, denominada Conferências do Estoril. Em 2011.

O meu corolário ao que é dito:

O medo também inclui o medo de encarar o passado.
O medo também inclui o medo de chamar os nomes às coisas.
O medo inclui também ignorar o medo dos outros.

21/06/2011

BRANCO É BANCO

Filed under: África do Sul, Citações, Julius Malema, Julius Malema — ABM @ 1:17 pm

O Sr. Julius Malema, aqui no dia 7 de Setembro de 2010. Este fim de semana foi re-eleito para o cargo de Presidente da ANC Youth League. Foto de Werner Beukes, com vénia.

 

Afirmação de Julius Malema, re-eleito Secretário-Geral da Juventude do ANC este fim de semana, citado no Correio da Manhã de Maputo, esta manhã:

“A liderança do ANC terá de começar a liderar com o povo senão arriscar-se-á a ser demitida (…).  O inimigo real é o capital monopolístico branco. É contra esses que lutamos. Não é racismo, está escrito em todos os documentos do ANC”.

17/11/2010

PRÉMIO ORA DIGA LÁ ISSO OUTRA VEZ

por ABM (17 de Novembro de 2010)

Reproduzo na íntegra, e com vénia, a peça publicada ontem na secção de desporto do jornal O País, que circula em Maputo, sobre um caso de alegada corrupção no futebol moçambicano (estamos todos chocados, chocados, com isto).

Apenas realço em bold (em português: “a negrito”) duas frases. Para os exmos Leitores lerem melhor e poderem meditar sobre a sofisticação da conceptualização do que ali se está a tentar dizer.

Realmente o português é uma língua lixada.

Cá vai. O texto é do genial Lázaro Mabunda.

DENÚNCIAS DE SALVADO JÁ ESTÃO NA PROCURADORIA GERAL DA REPÚBLICA

A Liga Moçambicana de Futebol (LMF) decidiu remeter as denúncias de Arnaldo Salvado ao Gabinete Central de Combate à Corrupção (GCCC).

Trata-se de um caso em que o treinador, Arnaldo Salvado, denuncia a existência de esquemas de corrupção no Moçambola, a principal prova futebolística nacional, envolvendo dirigentes desportivos, jogadores de futebol e equipas de arbitragens, o que ensombra a verdade desportiva no nosso futebol.

“O Conselho de Disciplina reunido em sessão ordinária, no dia 11 de Novembro – última quinta-feira – do ano em curso deliberou: remeter ao Gabinete Central de Combate à Corrupção cópias das denúncias apresentadas à Liga Moçambicana de Futebol, sobre alegados actos de corrupção desportiva”, lê-se no Comunicado Oficial n.º 149/LMF/DE/2010, de 12 de Novembro passado, última sexta-feira.

A Liga Moçambicana de Futebol decidiu, igualmente, remeter o caso à Federação Moçambicana de Futebol e a “resposta da notificação feita ao sr. José Arnaldo Salvado, pelo Conselho de Disciplina da Liga Moçambicana de Futebol, referente ao alegado envolvimento da arbitragem na corrupção”.

Dificuldades de ouvir os acusados

Ontem, o nosso jornal procurou as figuras que são citadas nas cartas de Salvado, para ouvir as suas versões, mas foi em vão. Os dois dirigentes da Liga Muçulmana, nomeadamente, Rafik Sidat e Cássimo David, encontram-se fora de Maputo.

O futebolista, também acusado de ter participado no aliciamento dos colegas do Atlético Muçulmano, neste caso Alcides Chihono, mais conhecido por Cantoná, declinou pronunciar-se em torno do caso, prometendo fazê-lo “no momento oportuno”.

A Comissão Nacional de Árbitros de Futebol (CNAF) disse à nossa equipa que muito oportunamente irá pronunciar-se sobre a carta “bomba” de Salvado, que atingiu também alguns membros da CNAF, nomeadamente, Arão Júnior, António Massango, Ainad Hussene, Mateus Infante, o próprio presidente do organismo, Venilde Mussane, e João Armando.

Liga reúne-se hoje.

A Direcção da Liga Moçambicana de Futebol (LMF) reúne-se hoje, em Maputo, para analisar vários assuntos, dos quais a polémica em torno da eventual viciação de resultados desportivo. Em relação à homologação do campeão nacional, o presidente da LMF, Alberto Simango Júnior, negou que ainda não tenha sido homologado o vencedor do Moçambola. “Em princípio, foi homologado, porque os resultados foram homologados. Não tenho informação de tal não tiver acontecido, até porque já entregámos a taça. Mas a reunião da direcção é amanhã” (hoje).

Liga-Atlético em inquérito

Num outro comunicado, com data de 11 deste mês, o Conselho de Disciplina da LMF analisou a denúncia relativa a alegados factos ocorridos na véspera do referido polémico jogo entre o Clube Atlético Muçulmano e a Liga Desportiva Muçulmana de Maputo, e deliberou “instaurar um processo de inquérito para efeitos de inequívoca qualificação e determinação das ocorrências, eventualmente, integrativas de infracção disciplinar e seus autores”.

14/04/2010

SALVAR A PÁTRIA, POR HENRIQUE MONTEIRO

Filed under: Citações, Economia Portuguesa, Politica Portuguesa — ABM @ 4:48 pm

por ABM (14 de Abril de 2010)

O director do semanário lisboeta Expresso escreveu na edição de 13 de Março de 2010:

Quando comecei a trabalhar, a pátria precisava de ser salva dos desvarios do PREC e por isso pagámos mais impostos.

Depois, nos anos 80, houve um choque petrolífero, salvo erro, e tivemos de voltar a salvar a pátria.

Veio o FMI, ficámos sem um mês de salário e pagámos mais impostos.

Mais tarde, nos anos 90, houve mais uns problemas e lá voltámos a pagar mais, para a pátria não se afundar.

Por alturas do Governo de Guterres fui declarado ‘rico’ e perdi benefícios fiscais que eram, até então, universais, como o abono de família. Nessa altura, escrevi uma crónica a dizer que estava a ficar pobre de ser ‘rico’…

Depois, veio o Governo de Durão Barroso, com a drª Manuela Ferreira Leite, e lembraram-se de algo novo para salvar a pátria: aumentar os impostos!

Seguiu-se o engº Sócrates, também depois de uma bem-sucedida campanha (como a do dr. Barroso) a dizer que não aumentaria os impostos. Mas, compungido e triste e, claro, para salvar a pátria, aumentou-os! Depois de uma grande vitória que os ministros todos comemoraram, por conseguirem reequilibrar o défice do Estado, o engº Sócrates vê-se obrigado a salvar a pátria e eu volto a ser requisitado para abrir mão de mais benefícios (reforma, prestações sociais, etc.), e – de uma forma inovadora – pagando mais impostos.

Enquanto a pátria era salva, taxando ‘ricos’ como eu (e muitos outros, inclusive verdadeiros pobres), os governantes decidiram gastar dinheiro. Por exemplo, dar aos jovens subsídios de renda… por serem jovens; ou rendimento mínimo a uma pessoa, pelo facto de ela existir (ainda que seja proprietária de imóveis); ou obrigar uma escola pública a aguentar meliantes; ou a ajudar agricultores que se recusam a fazer seguros, quando há mau tempo; ou a pedir pareceres para o Estado, pagos a peso de ouro, a consultores, em vez de os pedir aos serviços; ou a dar benefícios a empresas que depois se mudam para a Bulgária; ou a fazer propaganda e marketing do Governo; ou a permitir que a Justiça seja catastrófica; ou a duplicar serviços do Estado em fundações e institutos onde os dirigentes (boys) ganham mais do que alguma vez pensaram.


E nós lá vamos salvar o Estado, pagando mais. Embora todos percebamos que salvar o Estado é acabar com o desperdício, o despesismo, a inutilidade que grassa no Estado. Numa palavra, cortar despesa e não – como mais uma vez é feito – aumentar as receitas à nossa custa.


Neste aspecto, Sócrates fez o caminho mais simples. Fez exactamente o contrário do que disse, mas também a isso já nos habituámos. Exigiu-nos que pagássemos o défice que ele, e outros antes dele, nunca tiveram a coragem de resolver.


VERDADE INTEMPORAL

Filed under: Citações — ABM @ 4:35 pm

por ABM (14 de Abril de 2010)

Em tempos de crise e para quem já não se lembra bem porquê, partilho este lindo azulejo, à venda por 1 euro e 89 cêntimos na loja do Sr. Luis em Aveiras de Cima.

16/02/2010

CITAÇÃO DE MARCUS TULLIUS CICERO

Filed under: Citações, Marcus Tullius Cicero, Politica Portuguesa — ABM @ 5:20 am

por ABM (Cascais, 16 de Fevereiro de 2010)

05/02/2010

Portugal, por Eça, 1867

Filed under: Citações, Eça de Queiroz, Politica Portuguesa — ABM @ 5:15 am

por ABM (Alcoentre, 6 de Fevereiro de 2010)

Nestes dias, por alguma razão, citações como esta andam nas cabeças de muitos.

16/01/2010

Lizzie Had a Dog in LM

Lizzie & Bóbbi

por ABM (Cascais, 16 de Janeiro de 2010)

A lógica da breve discussão prévia o impunha e uns meros 15 euros o resolveram.

Disfarçado de dono de um veleiro de passagem por Cascais, e após breve e inócua aventura na Livraria Bulhosa no Cascais Villa, peregrinei até à quiçá mais próspera e dotada FNAC do Cascais Shopping, com a Dulce Gouveia a reboque, para comprar a grande obra recente da Escritora de origem moçambicana, publicada pela Editora sediada em Coimbra.

Mas na secção dos livros dou logo de caras com o José Rodrigues dos Santos no corredor, que é máfia moçambicana do melhor e estes dias uma espécie de versão lusa do Dan Brown. Com ele não há cá memórias para ninguém. Antes que ele pensasse que eu ia ao livro dele sobre a Al-Khaeda, que se encontra à venda em todas (mas todas) as livrarias, grandes superfícies, aeroportos e até por baixo de vãos de escada, escapuli-me pelo café da loja para o outro lado e fui ter com uma daquelas meninas simpáticas da FNAC que usam um coletezinho verde e nos ajudam a encontrar os livros.

“Olá, boa tarde. Procuro o novo best seller daquela escritora nascida em Moçambique Isabela Figueiredo e não encontro”.

“Só um momento, sefachavor”.

Clic clic clic clic no computador.

“Sim, devemos ter ainda uma cópia na loja, deixe-me ir ver”.

E desapareceu.

15 minutos à espera.

Após o que a menina surgiu do nada com um livrinho pequenino na mão.

“Quanto é?”

“15 euros”.

“15 euros! Bolas. Deixe-me cá ver”.

E peguei no volume. E inspeccionei-o.

Preliminarmente.

Na verdade o livro é algo estranho.

A seguir à capa e a contra-capa, tem quatro folhas verde-alface sem nada, duas de cada lado, que deve ser para o leitor precavido tomar apontamentos. No fim, a seguir à folha verde-alface, diz uma nota que foi composto numa empresa gráfica na bela Vila Nova de Famalicão, “34 anos após o regresso da autora a Portugal”. Ok. Suponho que uma anotação válida para quem ao chegar ao fim do livro ainda não se tiver apercebido desse facto da vida da autora, ou que não saiba fazer contas de subtraír (pois 2009-34 = 1975) infelizmente um provável infortúnio com o estado da educação nos dias que correm.

Só que na pala interior da capa tem mais uma foto simpática da Isabela, esta circa 2009 e sans Bóbbi, e mais uma notinha a dizer que ela nasceu em Lourenço Marques em 1963, que em 1975 veio para Portugal, e que nunca mais voltou.

Espera aí: se aqui diz que ela nasceu lá, que veio para cá e que nunca mais voltou, porque é que no fim do livro diz que ela regressou a Portugal?

É um mistério. Assumo que deve fazer parte da complexa e mística dialética subjacente aos conteúdos ali abordados. Ora veja-se.

Ela nasce e cresce em Moçambique.

Mas ao viajar para Portugal em 1975, regressa.

Ora isto é para mim uma alegoria fantástica.

Tem umas fotografias: na capa (a foto ali no topo) a Isabela avec Bóbbi. Depois duas piquininas de Lourenço Marques nos tempos e que mal se conseguem ver, e a seguir vêm: a Isabela a segurar o rádio de papá debaixo de uma papaeira, a Isabela vestida de saloia portuguesa num barco, a Isabela a fazer pose num parque, a Isabela na marginal de Lourenço Marques e a Isabela na comunhão.

Na página 7, presume-se que para dar o tom do que está para vir, três citações, uma de Paulo Auster a falar do pai (o do Paulo Aster), e duas do italiano Primo Levi, a mastigar a presumível fungibilidade da Memória Humana. Bem, ou pelo menos a dele.

E, presume-se, por osmose subliminar associativa, a da Isabela.

A menção do americano Paulo Auster confunde-me e levanta-me imediatas suspeitas quanto à proeminência fotográfica do Bóbbi. Pois na sua Timbuktu, não a africana mas uma mitológica e utópica urbe, são as memórias do rafeiro Mr. Bones que descascam, numa odisseia tão deprimente como cativante, a existência de Willy Christmas, um homem infeliz e falhado, que morre à porta da casa onde o seu ídolo, Edgar Allan Poe, vivera. Será isso? O que acha, quais as memórias de Bóbbi da sua dona e da Lourenço Marques que a viu nascer e crescer? será que Bóbbi também regressou?

Primo Levi suscitou-me ainda maior supresa. Pois a sua escrita, sendo judeu e tendo passado pelos maiores horrores da carnificina Nazi, incluindo quase um ano em Auschwitz-Birkenau, é mais conhecida pelo conteúdo memorialista desse período – memórias que o perseguiram até à morte. Em 1987, o grande Elie Wiesel, que era professor na Universidade de Boston, onde estudei gestão e um pouco sobre o judaísmo nessa altura e durante dois anos, e ele próprio um sobrevivente do horror Nazi, disse que, quando morreu – e referindo-se às suas peristentes e pungentes memórias – Levi na verdade morrera em Auschwitz mas quarenta anos depois.

Que associações poderá haver entre a obra e o percurso de Primo Levi e este livro de Isabela? A curiosidade avoluma-se dentro de mim.

Procurei, e descubro que o livro não tem índice. Tem, isso sim, em 136 páginas (as que estão numeradas), textos sequenciados, de 1 a 43. Sem títulos. Só os números.

E na verdade, aí me apercebi, afinal aquilo não é só um livro (daí, decorrem, presume-se, os 15 euros).

Logo a seguir ao texto Número 43, depois de uma folha com umas das fotos piquininas de Lourenço Marques que não se vê bem, tem outra onde apenas figura, a meio, a singela e solitária frase, que se presume dedicatória: “À memória do meu pai”.

Repare-se no detalhe: não é em memória do pai. É à memória do pai.

Hum.

E a seguir tem uma página que diz, na vertical, com o texto a apontar na direcção da lomba do livro, em letras garrafais “Adenda” onde, aí sim- surpresa!- tem um índice, mas um indicando o que vem a seguir (aos textos numerados de 1 a 43): seis textos descritos como posts, incluindo o intrigantemente títulado Falta dinamitar o Cristo-Rei e logo abaixo o assaz mais invocativo de assunto gastronómico, Fígado de Porco; e,  finalmente,  Uma conversa com Isabela, que inclui, um pouco como nas (brevemente findas) conversas do Professor Marcello na RTP aos domingos à noite, e à margem das doze páginas do texto da entrevista propriamente dita (feita por não se sabe quem) as sugestões dela de dez livros, cinco datas e cinco lugares.

Portanto, isto é o que se pode chamar um pacote completo.

Que agora é meu.

Por, afinal, uns modestos 15 euros.

E que, feito o investimento e aguçada a curiosidade, vou ler este fim de semana, de fio a pavio.

E de que logo darei conta aos exmos leitores, após reler também a prosa canciana et al.

Para tirarmos esta coisa a limpo de uma vez por todas.

Um bom fim de semana a todos.

10/01/2010

THE BEST OF ISABELA FIGUEIREDO

o horizonte nos contempla

por ABM (Alcoentre, 9 de Janeiro de 2010)

Fernanda Câncio, a putativa (segundo certa imprensa) namorada do actual primeiro-ministro português, José Sócrates, e fogosa escriba num Diário de Notícias infelizmente cada vez menos de referência, escreveu um curioso texto – que saiu na sua edição de hoje – sobre uma sra chamada Isabela, que, depreendo da leitura, como muitos de nós saiu um pouco a pontapé do Moçambique pós- independente e revolucionário aos 12 anos de idade, e sobre um livrinho que ela escreveu e que acabou de ser publicado, que dá pelo nome algo enigmático de Caderno de Memórias Coloniais.

Que não li.

Mas li o comentário de Câncio, que sempre vale alguma coisa e que me deixou algo mistificado.

Vamos por partes.

Deixou-me algo mistificado porque a Fernanda que, como já vi outras pessoas dizer noutras ocasiões, deve perceber tanto da realidade colonial como eu de física nuclear, começa por colocar legiões de “retornados” num vasto manicómio virtual, todos mentirosos e todos vivendo numa ilusão colectivamente induzida com o fito de não enfrentar uma inconfessável série de “crimes contra a Humanidade”, que, lá vai o argumento, só pode ser o que (no meu caso) os nossos pais e avós andaram todos lá pelas Áfricas durante séculos a cometer contra os nativos. Voluntária e até empenhadamente e, no caso do pai da Isabela, com requintes de malvadez.

Isso a acrescentar àquela outra Grande Ilusão Colectiva dos brancos e portugueses da África portuguesa (nunca os de cá, coitados) claro, a de que aquilo era “nosso”. Que se sabia perfeitamente que não era, especialmente a posteriori.

Bem, todos – especifique-se – menos a sua amiga Isabela.

No seu caso, Fernanda diz que a Isabela baseou os Cadernos nos seus escritos, alguns dos quais foi colocando num blogue de que nunca ouvi falar antes na minha vida, que alimenta regularmente e que se chama – algo deceptivamente – Mundo Perfeito. Bem, não pode ser assim tão perfeito como isso, se a imagem de cabeçalho que a Isabela escolheu para a porta do seu blogue é um corpo de mulher de cuecas e com cabeça de cão, sentada numa estufa com flores. É uma invocação que diz muito. Para mim uma alegoria de um mundo perfeito ( aquilo a que Sir Thomas More chamou em tempos de Utopia )podia ser a fotografia acima – mais ou menos. E ainda tem à porta da estufa retinintes e polidos avisos sobre os seus direitos de autora, que, na minha experiência na internet, são ah tão simpáticos como não valem um caracol furado. Neste meio a ofensa não se combate com avisos, combate-se com unhas e dentes.

Ou ignora-se.

Ora eis algo que não me ocorrera antes, isto de ter um blogue na internet, onde vou escrevinhando umas coisinhas e um belo dia, imagino que para aqueles que não têm internet, arranjo uma editora e escarrapacho tudo outra vez numa publicação, à laia de The Best of Maschamba. Bem, sempre tira a impressão fungível e a desconfortável sensação de estar sózinho num submarino e que as palavras que aqui escrevemos em suporte incompreensivelmente electrónico, pareçam um pouco menos aquilo que os americanos chamam pissing in the wind (no nosso vernacular, fazer chichi ao vento). Tenho que falar com o nosso Senador e a Sra Baronesa em reunião de Conselho de Machamba, mas receio que, numa futura edição do Caderno de Memórias Maschambianas, eu seja sumariamente relegado para uma recôndita nota de rodapé.

E lá se iria a etérea sensação da imortalidade literária.

Mas podia oferecer cópias dos livrinhos pelo Natal, o que com um blogue, admita-se, não se pode fazer.

A mistificação do comentário publicado no DN sobre a Isabela tem que ver com a evocação de um passado moçambicano que mais parece uma longa e pesada sessão de terapia duma branca com sentimentos negativos sobre a sua experiência africana e, quiçá, sobre o seu estatuto de retornada num Portugal revolucionário e recém-exorcizado da sua experiência colonial-bélica. Pelo meio, vagueiam ideias da injustiça daquilo tudo, o trauma do (presumo) rescaldo do 7 de Setembro de 1974 e ainda o fantasma do pai, que, recita, chamava coisas feias aos colonizados com pele mais escura e que, num contexto em que – creio – ninguém tinha “direitos”, tinham ainda menos que os colonizados mais clarinhos. A Fernanda, cuja experiência africana (e muito menos moçambicana) repito, desconheço por completo, arremata, no que presumo possa apenas ser uma infeliz exaltação literária, dizendo que vivia-se (em Moçambique) num país onde se podia atropelar um negro e não ir para a prisão. Pois. E esqueceu-se de referir que comíamos meninos pequenos para o matabicho.

Decorre que com a independência tudo isso acabou. E que com os assassínios de brancos por representantes armados da maioria negra nos arredores de Lourenço Marques em 1974 fez-se, apenas, justiça. Ai sim Fernanda? hum, sorte, então eu ter sobrevivido aquela pouca vergonha toda, e não graças à sua boa vontade.

Há aqui dois aspectos que me induzem a pensar que talvez este tipo de intro-retrospecção tenha que ser trabalhado um bocadinho mais.

O primeiro aspecto é que, segundo a Fernanda, cuja retórica para estes efeitos, aceite-se, é mais ou menos irrelevante, a Isabela saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade. Se calhar viajámos os dois no mesmo avião da TAP em alturas diferentes, só que eu tinha 15 anos de idade, diferença que importa para efeitos desta discussão. Pelo menos eu já não era virgem, naquele e em muitos outros aspectos da vida.

Ora, para alguém que saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade, a análise global da situação que a Fernanda diz que a Isabela faz, a crer-se biográfica e despida de preconceitos e análises que só possam ter sido posteriormente adquiridos, devem ser deveras de assombrar, vindos de uma miúda. A minha irmã mais nova, que tinha a mesma idade e teve o mesmíssimo percurso que a Isabela, mal sabia jogar ao berlinde. E lá em casa ainda estamos à espera dos seus cadernos.

Mas admita-se que pode ser que seja a nua verdade no seu caso pessoal, em que a forma como pinta o pai assusta mais que o papão colonial-racista. O que refere dava para horas e horas (e horas e horas) de sessões de psicoterapia.

Mas não logra por um segundo pintar uma realidade maior.

O segundo aspecto é que, por minha parte – e já o tentei explicar uma vez ao JPT e sob pena de me repetir – ao contrário de alguns eu vivi lá, e no meu microcosmo o pai BM e a quase totalidade das pessoas com quem contactava, não chamava nomes a ninguém, branco ou preto, eu não era inibido de me dar com ninguém com base na cor da pele e, se não disputo (mas não desta maneira) a sustentabilidade do tal “ídilio colonial” de Lourenço Marques que a Fernanda diz que não existia (existia, sim, que chatice), pintar essa era e todas as vastas e complexíssimas relações pessoais, económicas, sociais e raciais de Moçambique no fim da era colonial em Lourenço Marques com um simples rótulo de “racismo” e “abuso” é totalmente descabido. É falso. É absurdo. É ridículo. É uma fraude moral, intelectual e histórica. É projectar os seus preconceitos actuais, ignorar as suas causas e tentar justificar moralmente os seus efeitos e a pulhice que veio a seguir, e em que de longe as maiores vítimas – surpresa – foram sempre, e quase só, milhões de moçambicanos, que de uma ditadura passaram directamente para outra, não muito diferente.

Especialmente se se está a falar no começo dos anos 70, em Lourenço Marques.

Claro que lá havia racismo. Claro que havia injustiça, incluindo a racial. Claro que tinha que acabar. Que tinha que mudar. Claro que havia gente como o pai da Isabela. Se calhar até pior. Claro que aquilo era uma ditadura, com tentáculos em Portugal, um anacromismo total num mundo já quase sem impérios coloniais e em que os países comunistas activamente armavam e patrocinavam os que combatiam o que sobrava de colonialismo no mundo. Ser colonial a partir de 1950 tinha o seu custo em lágrimas, suor e sangue. Salazar estava disposto a pagá-lo, outros não. Em 1974, venceram estes.

Mas cuidado ao pintar tudo de negro. O pior racismo que vi na minha vida não foi em Moçambique, foi nos Estados Unidos quando para lá fui viver em 1977. Portugal hoje não é muito melhor. Quotidianamente vejo as maiores injustiças serem cometidas em Portugal hoje que não se distinguem assim tanto das injustiças que haviam em Lourenço Marques e que há em toda a parte. As injustiças económicas que se observavam há quarenta anos em Moçambique, aliás, ainda se mantêm em larga parte. Pois não é de um dia para o outro que se capacitam milhões de pessoas pobres, rurais e analfabetas que vivem de subsistência no mato e se lhes proporciona, e aos seus filhos, condições para ascensão social e económica.

O crime, se é que se pode dizer assim, não era do que a Isabela diz que vislumbrou aos dez anos de idade e muito menos dos tiques racistas do seu partido pai, que não conheci. É de um país que estava na mão de um ditador que escolheu manter um statu quo décadas depois da altura em que deveria ter iniciado medidas para atempadamente preparar e entregar o poder político e a gestão da nação moçambicana aos seus filhos, descomplexadamente e de cabeça erguida.

Provavelmente quer eu quer a Isabela teríamos lá ficado, a viver em paz e sossego e estaríamos a ajudar a construir esse novo país, em vez de andarmos à esmola de familiares hostis e dependentes de amizades que se calhar nunca o foram, olhando no espelho à noite e inventando na mente que aqui pertencíamos.

E a ter que tentar engolir de terceiros a tese de conspiração de que o que ali porventura encontrámos de bom e belo – e que hoje é apenas uma memória, só isso – não foi, não podia ser, que estamos a mentir aos outros e, pior, a nós próprios.

Vão à merda.

Dito isto tudo, acho que um dia destes lá vou ter que ir procurar o tal de livro para ver mesmo do que é que a Isabela está a falar.

Ou talvez não.

Quanto ao blogue, para já fico à porta.

15/11/2009

Citação de Eça de Queirós

Filed under: Bloguismo, Citações, Eça de Queiroz, Politica Portuguesa — ABM @ 6:11 am

Eça.jpg

por ABM (Cascais, 15 de Novembro de 2009)

Não sei bem porquê, esta frase tem sido muito citada nos blogues portugueses e brasileiros estes dias.

Hum. Deve ser sindroma pós-eleitoral. Mas não sei se no Brasil houve eleições recentemente. Em Portugal definitivamente houve (em Moçambique também e é tudo o que se me oferece dizer) e já estão todos positivamente engasgados em escândalos e psico-drama do mais dramático. Qualquer coisa sobre escutas telefónicas, que agora andam muito na moda, tais como a intercepção de e-mails e a sua posterior divulgação por terceiros a quartos, para quintos julgarem e sextos sobre eles deambularem.

Enfim.

Claro que a minha história favorita de Eça – infelizmente falsa – relaciona-se com o episódio em que ele teria reclamado junto da companhia das águas de Lisboa sobre um corte de água, escrevendo uma nota ao seu presidente nos seguintes termos: “Excelentíssimo. Senhor: Vossa Excelência cortou-me a água. Gostaria de cortar algo a Vossa Excelência”.

Na realidade a carta que ele redigiu está aqui e não tinha bem essa simplicidade límpida.

Infelizmente para os visados, o ponto alto da minha semana foi a minha compra de um teclado novo para o computador portátil que utilizo, um daqueles exteriores que se ligam ao computador através de um cabo USB (USB – Universal Serial Bus, ou Autocarro Universal em Série) e que comprei no Staples Office Centre de Cascais City em saldo por 9 euros e 99 cêntimos. O teclado do portátil é lindo e funciona lindamente, mas é um teclado inglês, sem acentos e o cê de cedilha. Para colocar um acento eu tinha que fazer uma tal ginástica de sequência de carregamento de teclas que eu ficava tonto e acabava por errar. Ora para uma audiência selecta como a do Maschamba (por exemplo, tremo só de pensar no que a D. Vera diria se um dia escrevesse com os acentos todos ao contrário) eu tinha que fazer alguma coisa. Ainda pensei em fingir que era um estudante pobre na escola primária e pedir um desses computadores Magalhães com que o governo do Sr. Engenheiro Sócrates quer colocar Portugal na vanguarda do modernismo mas a minha amiga Lurdes Crespinda da Secretaria da Escola Primária disse-me que com 49 anos a coisa pareceria suspeita. Eu ainda tentei convencê-la dizendo “mas há ministros que já fizeram pior do que isso!”. Ao que ela respondeu que se eu fosse ministro que ela também faria, mas que eu não era.

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