THE DELAGOA BAY REVIEW

27/11/2010

UM THRILLER COLONIAL

http://www.youtube.com/v/3gCtptcJY0I?fs=1&hl=pt_PT

(em cima: a 6ª Sinfonia de Tchaikowsky, Pathétique, sublimemente interpretada pela orquestra Hoshima, do Japão. Dura 49 minutos e vale todos eles, especialmente os primeiros 20 minutos.)

por ABM (27 de Novembro de 2010)

A minha crítica do livro O Anjo Branco, um romance histórico de José Rodrigues dos Santos.

Introdução

Para quem não acompanhou os eventos, o anúncio inicial, em Portugal continental, da publicação do mais recente romance, da autoria de José Rodrigues dos Santos (JRS) foi acompanhado de informações crípticas de qual seria o seu conteúdo e temática. Alguns desses dados foram sendo gradualmente revelados e reflectidos em textos que escrevi aqui, mais ou menos nesta ordem:

  1. que era sobre Moçambique;
  2. que era baseado na vida do pai do autor;
  3. que versava o que se pode considerar o período final da soberania portuguesa naquele território africano;
  4. que, sendo um romance, assentava em aturada pesquisa factual em torno de inúmeros aspectos desse período;
  5. que conteria informações “explosivas”, um “grande segredo”;
  6. que inovaria, na medida em que trataria numa nova luz a era e os eventos da época, procurando, pelo escrúpulo e objectividade dos factos coligidos, escapar ao conhecido fosso no que concerne a temas ainda considerados para todos os efeitos difíceis de reconciliar, como são as visões do que foi o colonialismo português em Moçambique, e a natureza do conflito armado desencadeado a partir de meados dos anos 60 no Norte de Moçambique.

E mais tarde,

7. que descrevia, em detalhe, um dos episódios hoje mais conhecidos (por alguns portugueses, essencialmente) desse conflito, o chamado Massacre de Wiriyamu, ocorrido em Dezembro de 1972 na localidade com o mesmo nome, situada nos arredores da cidade de Tete, no Norte de Moçambique, em que um grupo de comandos portugueses ( a 6ª Companhia) assassinou de forma bárbara um número considerável (mas parece que não inteiramente quantificado) de aldeões moçambicanos.

A abordagem desta temática – acompanhada de considerável conteúdo biográfico do pai do autor – é algo de novo para JRS, que nasceu e viveu até aos dez anos de idade em Moçambique e cujo pai trabalhou naquela antiga província portuguesa como médico.

Essa biografia foi de certa forma reconstruída, pois em entrevistas concedidas JRS concede que o pai praticamente nunca lhe falou dos eventos relatados à lupa no romance.

JRS, um jornalista que é conhecido em Portugal essencialmente por fazer regularmente, desde há alguns anos a esta parte, a locução dos noticiários num dos canais públicos da televisão portuguesa, teve algum sucesso até esta data como autor de um número de obras de ficção, cuja raiz mais aproximada é aquilo a que se pode chamar “literatura de aeroporto” – livros de mistério, mística e intriga, de fácil leitura, leves, acessível por parte de um mercado digamos que menos exigente.

Aliás a exploração com algum sucesso deste tipo de literatura, basicamente desconsiderada em Portugal pela sua fraca ou nula qualidade, e o seu posicionamento como um produto comercial de grande consumo, distinguiu JRS do que é considerado a norma no mercado livreiro português, na medida em que a forma e a tónica da comercialização das suas obras segue relativamente de perto, ou alinha-se adequadamente, à linha seguida, neste e noutros países, para obras deste género, como é caso com – salvaguardadas algumas abissais diferenças – Sidney Sheldon e Dan Brown, dois casos de sucesso nos Estados Unidos e no resto do mundo.

Por sua parte, generosamente, o autor mostra-se indiferente, ou melhor, não exibe grandes ilusões nem aparenta sentir-se minimamente perturbado, com a rotulação da sua obra como algo menos que bom, procurando, quando muito, a resposta a essa questão no relativo sucesso (à escala portuguesa) obtido com as vendas dos seus livros, o número de países onde é lido e o número de línguas em que as suas obras estão traduzidas.

Este é, notoriamente, um dos segredos mais mal guardados de JRS, que inclusivé numa interessantíssima e relativamente longa série de entrevistas gravadas para a televisão, com um número de autores, principalmente estrangeiros, em que se demonstrou bem preparado e até pessoalmente curioso, repetidamente prescrutou os seus entrevistados sobre as suas obras, como as viam, como se viam, como as concebiam, como as vendiam.

E se a escrita comercial era literatura ou não.

De longe, os entrevistados americanos, pouco afeitos às periclitâncias do meio cultural português, deram as melhores respostas.

Creio que, na essência do sucesso de JRS, residem dois factores primários e muito simples: 1) a especialização num segmento do consumo de livros em que já havia provas de haver mercado inclusivé em Portugal – a tal “literatura de aeroporto”, à la Dan Brown, Sidney Sheldon  e outros – e 2) a sua comercialização quase desavergonhadamente comercial e agressiva, envolvendo todos os grandes canais de distribuição, desde as FNACs até as prateleiras da cadeia de supermercados Continente. Com a imagem e o nome familiares do autor/leitor de notícias do Canal 1 da RTP à frente.

Puro marketing. E muito eficaz.

Mas que por si só diz rigorosamente nada sobre a sua escrita.

Isto para não referir a cobertura incomum dos sucessivos lançamentos por parte da comunicação social a um dos seus, que só alavanca mais o esforço da venda. Há umas semanas assisti, como já referi antes, à cerimónia de lançamento de O Anjo Branco na Sociedade de Geografia de Lisboa e aí notava-se a diferença com outras situações semelhantes: a audiência era a habitual pandilha dos amigos/admiradores/família, mas a imprensa que lá estava parecia que estava a cobrir o evento de uma estrela de rock. Fleugmático, e de forma correspondente, por sua vez JRS portou-se com a modéstia de uma.

Situação em que não é estranha, nem inocente, a fortuita circunstância do autor ser uma cara conhecida por milhões de potenciais consumidores por ler notícias no principal programa de notícias de televisão português. Digamos que uma obra incomparavelmente melhor, concebida por um discreto e até há pouco obscuro professor de história numa universidade pública em Maputo – João Paulo Borges Coelho – apesar de recipiente de um dos grandes prémios de literatura portuguesa (ou melhor, de língua portuguesa) não mereceu, por comparação, sequer uma nota de rodapé em termos de notoriedade.

O Tema e o Contexto

Apesar de volvidos 36 anos desde o golpe de Estado que liquidou a II República e cujos contornos fundamentais eram ser uma ditadura conservadora e defensora do prolongamento, sem data-limite, da soberania portuguesa nos territórios situados um pouco por todo o mundo, com destaque para Angola e Moçambique, e a subsequente substituição por um regime democrático de cariz parlamentar-partidário, até esta data, a exploração e contextualização dessa presença e ainda da chamada descolonização, continuam a ser tópicos de aceso debate em Portugal.

Anote-se que não é para menos. Não há qualquer paralelo, em novecentos anos de história portuguesa, de um processo tão violento e tão abrupto que afectou vários milhões de pessoas, o “retorno” à Europa de cerca de um milhão de portugueses e seus descendentes, perdas patrimoniais incalculáveis e nunca ressarcidas, e a independênca para perto de quinze milhões de africanos, processo que foi precedido por uma guerra que durou cerca de treze anos em três frentes completamente diferentes: Guiné, Angola e Moçambique.

Em Portugal, a atitude prevalecente em relação a esta temática é, apesar de centenas de milhares dos seus cidadãos terem sido compelidos a ir servir e combater nos teatros africanos, de uma quase total apatia e esquecimento.

Uma minoria, especialmente entre os antigos residentes nas antigas províncias africanas, alberga ressentimentos de vária ordem e intensidade, pese o facto de terem já decorrido praticamente quatro décadas desde o final dos eventos.

Creio que o sentimento geral, de parte a parte, é de que, em última instância, quer para os que viveram uma vida de róseas recordações, quer os que combateram principalmente na Guiné e em Moçambique, foi um absurdo de memórias boas e más, de oportunidades perdidas, de glórias e de sofrimento, de amizades perdidas. As antigas províncias seguiram o seu caminho, com todas as oportunidades e todos os problemas inerentes, e, especialmente nos dias que correm, parece que a nação portuguesa ainda não recuperou nem do trauma psicológico nem das consequências mais práticas de ter deixado de ser uma entidade económica e social multi-territorial e multi-cultural, com um projecto histórico centenário. Pois que o caminho seguido a seguir a 1974, simbolizado pelo “para a Europa, e em força” de Mário Soares, em Novembro de 2010, parece estar agora seriamente em risco, sem se vislumbrar um plano alternativo.

Foi neste ambiente que JRS publicou O Anjo Branco.

A história

A história acompanha o percurso, entre os anos 30 e o ano de 1973, de José Branco, desde algures em Portugal, até à sua retirada da cidade de Tete, onde serviu como médico e director do hospital local, na sequência dos eventos de Wiriyamu.

Nota-se que o autor fez um esforço considerável de prestar atenção aos detalhes dos diferentes contextos, desde os nomes, a geografia dos locais, e a linguagem. Em Moçambique, por exemplo, é utilizado abundantemente o linguajar local – o “Yeah”, o “maningue”,  o “tatá”, “matabicho”, etc – que poderão eventualmente impressionar quem conhece esses aspectos mais ou menos lúdicos da vivência local. Ou as marcas de cerveja e dos refrigerantes locais (deve-se ter esquecido da Tombazana, uma velha favorita minha nos recreios da minha escola primária, Rebelo da Silva) e eventos concorrentes com a altura em que decorre a narrativa.

Interessante, mas só isso, e pouco ou nada relevante para quem não conheceu essa realidade.

A estrutura da linha temporal da obra, sendo cronológica, é algo errática, na medida em que, havendo linhas narrativas paralelas – o autor não segue apenas o percurso do pai ficcionalizado, há a considerar o percurso de Diogo, um militar de terceira linha que é fundamental como a ferramenta privilegiada do autor para poder dar a dimensão pretendida ao seu relato – “salta” por vezes vários anos, presume-se que por economia de espaço ou falta de conteúdo. Assim, a personagem Branco casa-se no fim de um capítulo, e no início do capítulo seguinte já haviam passado vários anos. Sem quase qualquer informação do que acontecera entretanto, pelo que o leitor é forçado a presumir que nada aconteceu. Pois se nada foi reportado, só pode ser porque nada aconteceu.

Todo o relato e a evolução das personagens descritas pelo autor, facilmente se apreende, são uma relativamente complexa construção com um objectivo específico, que evolve e se dirige unicamente para um único palco espacial e temporal, uma circunstância fulcral, onde todos os elementos se reúnem: os eventos do massacre ocorrido em meados de Dezembro de 1972 nos arredores de Tete. Que é tratado mesmo no fim do livro, após uma espécie de pré-anúncio de entrada nas portas do Inferno, com uma citação da conhecida obra de Dante Alighieri, a Divina Comédia.

No processo, ao leitor é servido um cocktail de tipologias algo plastificadas, da humanidade que povoava a sociedade colonial moçambicana, vistas naturalmente duma óptica portuguesa – afinal, José Branco e Diogo são portugueses. JRS procura dar um vislumbre da algo inocente, ou ingénua, dolce vita do branco colonial, com a presença do inevitável criado doméstico, os variados funcionários da administração colonial, o agente da Pide, o comandante da PSP, os técnicos de Cabora Bassa, a tropa fandanga, a esposa perfeitamente estúpida, a aérea e inconsequente Mimicas, a boazinha e sacrificada enfermeira espanhola, e até a inevitável bifa boazona como o milho, desempoeirada, sexualmente disponível e entiçada pelo macho latino, casado ou não, na forma de uma estonteante rodesiana, que no fim se descobre que é uma cabra calculista e ainda por agente secreta dos rodesianos – e que, apesar das putativas intimidades, embrulha a personalidade José Branco com a Pide.

Apropriada a essa moldura criada por JRS, a estes coloniais se junta, quase invisível, a massa distante e miserável dos moçambicanos rurais, quase não entidades, deixados ao seu destino, apanhados entre dois fogos, entre a tropa fandanga portuguesa que, à excepção dos comandos (que é descrita como uma tropa especial) JRS caracteriza quase comicamente, e a eficácia silenciosa dos guerrilheiros da Frelimo (os “turras”). Que, como consta no registo histórico, a partir da operação Nó Górdio em 1970, concebida pelo general Kaúlza de Arriaga, o novo cônsul de Marcello Caetano, desviaram a sua atenção e actividade guerrilheira de Cabo Delgado para a zona de Tete.

Naturalmente, não é por acaso que essa massa de gente miserável do mato era invisível para todos menos menos para uma pessoa: a pessoa do pai ficcionalizado, José Branco, que inclusivé cria, tal como o pai real do autor, o Serviço Médico Aéreo, nome um tanto aguerrido para um teco-teco que percorria com uma enfermeira os confins de Tete semanalmente, para acudir de forma minimalista as populações isoladas no mato (muito melhor do que nada,  que era o que havia antes, diga-se).

Finalmente, no relato de JRS, o ingrediente da consciência da nascente nação e das coisas para vir, corporizada na personagem de Domingos Rouco (outro decalque da realidade, desta vez do conhecido Dr. Domingos Arouca, uma figura de referência da história de Moçambique), a correia de transmissão da realidade eminente e do que “realmente” se estava a passar na saga da guerra colonial, para o algo ingénuo Dr. Branco (e por essa via para o leitor mais incauto, e por extensão, à parte de leão da elite colonial).

E a conclusão do relato no desenrolar de eventos que culmina com o massacre das gentes que viviam em Wiriyamu, que – a verdade seja dita, para a ditadura foi essencialmente um muito sério problema de relações públicas, por coincidir com uma visita de Estado que Marcello Caetano fez a Londres em meados de 1973.

Mas Wiriyamu foi mais que isso, claro. Muito mais . Por razões pouco plausíveis, matou-se muita gente inocente à toa.  Poderá ser fácil para muitos a relativização deste episódio, especialmente numa era como a que vivemos, em que se assistiu a episódios como o massacre de 11 de Setembro nos Estados Unidos, os terríveis massacres na Bósnia-Herzegovina ou a casa de horrores que foi o Ruanda em 1995, apenas para mencionar alguns. Mas este – Wiriyamu – foi “nosso” e perpetrado no “nosso” tempo. Por si só isso deveria ser alvo de reflexão. E motivo para a expressão de pesar e de respeito pelos mortos.

Mas o leitor nunca encontrará esta úlima aferição – que é minha- na obra de José Rodrigues dos Santos.

Crítica

Tendo vivido em Moçambique até aos 15 anos, e tendo a esta hora já quase uma vida de leitura dos factos históricos detalhadamente aludidos na obra O Anjo Branco, confesso que, para mim, a leitura deste livro infelizmente ressacava de déjà vu. Por mais vezes que eu gostaria de o ter feito, encontrava-me, paralelamente à leitura do enredo, a “picar” mentalmente os locais, os termos, os trajectos, se isto ou aquilo era exactamente como JRS descrevia. E quanto a isso devo dizer que, no cômputo geral – louvado seja – ele fez mais ou menos o trabalho de casa. Mas, não sendo um revivalista nato,  achei aquilo um tanto chato. Uma distracção, até. Tudo parecia artifical, uma re-criação. Um mero artifício.

Pelo contrário, passei o tempo a interrogar-me como é que alguém que não viveu Moçambique nos anos 60 e 70, irá alguma vez entender o alcance, o detalhe, o significado de todo aquele artilhado de referências. E chego à conclusão que, no essencial, aquilo tudo é basicamente irrelevante, ou melhor, pouco relevante. Especialmente se esse hipotético leitor não for português ou moçambicano (a 24 euros em Portugal a cópia, boa sorte aos meus amigos moçambicanos…) os únicos que poderão entender mais aproximadamente os significados explícitos e implícitos das múltiplas referências.

A sensação de déjà vu percorre ainda a maior parte do relato. Quem estudou a história recente de Portugal, ou quem foi contemporâneo dela, ao ler esta obra estará condenado também a ir “picando” a sequência de eventos em ocorridos naquela altura. Possivelmente interessante para quem não sabe, chato que baste para que, como eu, está careca de saber.

Retirado isso, fica a primeira grande crítica ao que li: o enredo, por si só, é interessante apenas e unicamente por uma razão, e mesmo assim só marginalmente: porque JRS o jornalista estrela da RTP e escritor com algum sucesso nos avisa previamente que aquilo é aproximadamente decalcado do percurso feito pelo seu pai, o Dr Rodrigues dos Santos. Que ao dinamizar a iniciativa do Serviço Médico Aéreo em Tete só pode ser alvo de merecido aplauso. Mas mesmo aí só isso. A personagem descrita no livro é menos que interessante, tem uma tipologia algo bi-dimensional. Sendo a principal do enredo, no fundo é apenas mais uma de um novelo de pessoas que fazem a história ali contada. Não é heróico, não sofre, não faz quase nada de inusitado, entra e sai de cena sem que o leitor sinta que está na presença de alguém invulgar, ou alguém que fez algo de excepcional. Como há uns dias escreveu um exmo. Leitor, pessoas como ele (o pai do autor na vida real) houve-as às dúzias, parecendo quase uma injustiça apontar os feitos desta e ignorar os dos outros todos.

Por outro lado, por definição, sendo o enredo quase matematicamente decalcado duma realidade bem conhecida de quem proventura estiver familiarizado com a realidade moçambicana nos anos 60 e 70, não é, não pode ser um thriller à moda das obras anteriores de JRS.

Nem há ali qualquer revelação incandescente sobre seja o que for.

Portanto, O Anjo Branco nem é um thriller, nem é o herói da história um herói.

Sendo assim, esta obra é então o quê?

A resposta é fácil. Eu creio que JRS se enganou, ou foi enganado, quando supôs, ou quando lhe disseram, quando se convenceu, que a história do seu pai, do seu percurso feito em Moçambique, que culminou com o seu muito breve cruzamento com a tragédia de Wiriyamu em Dezembro de 1972, era uma história interessante ao ponto de merecer – mesmo ficcionalizado – um livro de quase setecentas páginas.

Com todo o devido respeito pelo Sr. Dr. Rodrigues dos Santos e tudo o que fez, não merece.

Ou então, apesar de introduzir o alegórico permitido pela ferramenta da ficcionalização, JRS simplesmente não conseguiu adicionar a dimensão épica, emocional, moral, ao seu texto, que assim se lê um pouco como se vê um documentário da National Geographic sentado em casa em frente ao televisor.

Por falta de melhor justificativo para a razão de ser desta obra no contexto do que JRS é e já fez, o que acabo por magicar é que, talvez subrepticiamente, o filho escritor quis heroificar e honrar o pai médico-aviador com um livro evocativo, para o que aliás se dispôs a calcorrear os confins de Portugal e de África e entrevistar toda uma série de pessoas (algumas das quais apresentou nominalmente na Sociedade de Geografia de Lisboa), coligindo um sem fim de dados, para no fim tentar fazer aquilo que até agora tem tido algum sucesso a fazer: conceber um thriller com um herói.

A leitura desta obra coloca outra questão que abordarei apenas como referência pois já escrevi antes em detalhe mais do que suficiente sobre isso: a ficcionalização ali contida. Só que na altura em que considerei o tema da ficcionalização, fi-lo no abstracto, sem haver lido o texto. Agora que já li, a questão é mais paradoxal, na medida em que o que encontrei foi uma ficção completamente assediada pela realidade dos factos. Imagino que a personagem Diogo seja uma mera ferramenta literária para suportar a explanação, pelo autor, do enredo. Ele é a mosca na parede que vê o que outros não podem ver. Mas mesmo essa personagem serve essencialmente para transmitir factos. E mesmo que este ou aquele facto, ou situação, ou contexto sejam errados para quem está dentro deles, o autor poderá sempre recuar e dizer que essa parte foi ficcionalizada. O leitor mais informado fica assim cercado pela argumentação.

E, pessoalmente, considero esta uma situação que perturba e é por isso que não gosto de ler os chamados “romances históricos”.

Permita-me o exnmo. Leitor dar um exemplo claro do que falo. Há uns tempos atrás enganei-me completamente (acho que fui ludibriado, na verdade) quando comprei a obra Catarina de Bragança, da autoria de Isabel Stilwell, que é um dos pequenos best sellers portugueses recentes e que pensava eu que contava a história da desgraçada filha de João IV que, após a chamada Restauração em 1640, por razões de Estado, casou, mediante o pagamento de um formidável lobolo, o monarca britânico da altura, o incorrigível Carlos II, ele por sua vez “restaurado” no trono depois da breve (e única) fase republicana britânica, liderada por Oliver Cromwell. Já li que baste sobre esta era, mas achei que seria interessante reler a história na versão stilwelliana. Bem, apesar da capa deste livro nada indicar (ao menos a capa de O Anjo Branco indica que é um romance) afinal aquilo era um “romance histórico”, em que Isabel Stilwell permite-se, e quer-nos fazer crer, que estava lá, que sabe, a todo e qualquer momento, o que se passou e o que ia na mente da desgraçada Catarina, da família real portuguesa e de todos os que os rodeavam. Eu achei aquele relato pouco credível e essencialmente insuportável, pois eu queria a verdade ou uma aproximação dela, não o romancear delirante e bem intencionado da Isabel, transplantado para a filha de João IV. Mas estes dias este tipo de literatura anda muito na moda. Eu bem que tento de fugir dele, mas neste caso fui enganado.

De forma mais atenuada, a obra de JRS sofre do mesmo problema.

O Anjo Branco foi também comercializado com a argumentação de que apresentava as coisas de uma nova maneira, um novo olhar sobre a história portuguesa (e moçambicana) recente, mais fria, mais objectiva, mais distanciada das ainda luzentes disputas ideológicas em relação ao julgamento feito da História. De facto, na minha leitura, constatei que JRS deve ter prestado tanta ou mais atenção, e dispendido tanto ou maior esforço, a contar uma estória que fosse tão isenta de julgamento, tão politicamente correcta, tão factualmente incontroversa, quanto aparentemente prestou, e dispendeu, a agregar os miríades pequenos detalhes da vida e dos locais onde se desenvolve o enredo. Isso tem a virtude de o colocar bem na imagem – o politicamente correcto é uma maneira de estar na vida, especialmente em Portugal, especialmente para um popular apresentador de televisão – e de concretizar algo verdadeiramente insólito: o de ter sido capaz de escrever um livro de setecentas páginas sobre o tempo colonial e a guerra em Moçambique, e provavelmente de a obra ser inatacável por parte das várias correntes portuguesas actuais em relação ao tópico, e até da prevalecente doutrina moçambicana em relação ao assunto.

Isso sim, é que foi obra.

Só não sei se, nessa óptica, seja obra que interesse ler. O politicamente correcto tende a não ter paixão, tende a acinzentar a realidade. Tende a corroer e a dissolver as arestas e os contrastes que pessoalmente eu gosto de ler. Prefiro ler Samora e Marcelino, Jorge Jardim, Caetano e Kaúlza de Arriaga e decidir por mim quem tem razão, e quem está a mentir.

Mas se calhar sou só eu a sentir isso.

O Mangalho de José Branco

Para encerrar esta nota que já vai longa, gostava de abordar, à laia de “assuntos quixotescos diversos”, o mangalho de José Branco, assunto que JRS usou como gracejo em mais de uma entrevista que concedeu.

A verdade é que o primeiro capítulo de O Anjo Branco é apenas sobre duas coisas: 1. o nascimento da personagem decalcada da do seu pai, e 2. o descomunal, incontornável, indesmentível, embaraçoso, enorme tamanho do seu pénis. Sendo a obra “realidade ficcionada”, toda a gente logicamente ficou na dúvida se aquilo do mangalho do futuro Dr. Branco era baseado no respectivo órgão do pai de JRS ou se era apenas uma figura de estilo do autor para alguma coisa que tivesse que ter com o contar da história. JRS foi soberbamente evasivo e até gozou com os jornalistas que lhe fizeram a pergunta, que, rindo, estupidamente, deixaram a questão ficar por ali.

Só que a questão é pertinente e constitui um mistério, não tanto porque o herói da fita inspirado na figura do pai tivesse um “monstro” entre as pernas, mas, mais relevante, porque é que JRS achou que aquilo era um assunto mencionável no contexto da obra. É que, da leitura do texto, emerge que o “monstro” parece que afinal não serviu para nada, nem tem praticamente qualquer relevância no enredo. A todos os títulos, a personagem criada por JRS aparenta ser uma pessoa absolutamente normal, que nada fez de extraordinário, certamente não era um James Bond que embananava uma mulher em cada esquina. Aliás, fica-se com a dúvida se a mentalmente indigente Mimicas, a mulher de José Branco, alguma vez viu o “monstro”. Para além da estrondosa aparição no início do texto, esta referência só aparece mais duas vezes, algures durante a adolescência e (o leitor decida o que fazer disto) na passadeira da igreja a caminho do altar, para Branco se casar com a patética Mimicas.

Nesse ponto, pensava eu que era aí que se justificaria a honrosa menção: a noite de núpcias que teria que se seguir ao enlace matrimonial, e que seria para JRS a oportunidade de, com base na precedente referência, fazer o equivalente do Canto Nono de Os Lusíadas, o tal em que os professores no meu tempo de liceu ficavam embasbacados a tentar explicar o que eram e o porquê daquelas orgias lírico-sexuais inventadas pelo poeta Luis de Camões.

Só que nada disso acontece. O Dr. Branco casa com a Mimicas depois nada. Como em Loch Ness, o  “monstro” simplesmente desaparece para nunca mais ser visto. Nem mesmo quando o Dr. Branco se enrola repetidamente com a apetecível rodesiana em Lourenço Marques e algures no Norte, no chão e no ar.

Ou seja, aquilo é tão despropositado, tão fora de contexto, que fica ali, literalmente…pendurado.

JRS lá saberá o que aquilo significa. Mas seria bom se quem lesse, também percebesse.

Em resumo

Esta obra prova que José Rodrigues dos Santos devia centrar-se no tipo de livros que fez antes deste.

O Anjo Branco é legível, pode até ser interessante para algumas pessoas. Mas não está em linha com a obra anterior de JRS. Não é nem um thriller nem sequer uma tentativa de épica. E sofre de uma atroz falta de dimensão humana e de alguns constrangimentos que a meu ver a aproximam apenas de uma estória mais ou menos bem contada, sabendo perigosamente a um mero script de cinema, faltando-lhe a emoção, o empenho, o partidarismo, o drama que caracterizou aquela fase da vida dos portugueses e dos moçambicanos. Focando num dos episódios registados mais tristes da guerra colonial, talvez no afinco em manter a neutralidade politicamente correcta em relação a um tópico ainda rodeado de paixões, o autor apenas a descreve analítica e distanciadamente, passando por cima do horror e injustiça abjecta que o massacre representou.

Fica a homenagem tentada, implícita, ao pai de JRS – a todos os títulos um bom homem, a quem ele, juntamente com a mãe, dedica a obra.

E aqui fica a minha homenagem – às vítimas de Wiriyamu.

22/11/2010

JÁ LI "O ANJO BRANCO", DE JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS

Filed under: José Rodrigues dos Santos — ABM @ 11:25 pm

E até este fim de semana aqui deixarei registada a minha análise – e alguma crítica.

Que mais não seja porque, a 22-24 euros cada cópia em Portugal, 99.999% dos moçambicanos jamais o lerá.

24/10/2010

WIRIYAMU E AS ENTREVISTAS DE RODRIGUES DOS SANTOS

Filed under: História Moçambique, José Rodrigues dos Santos — ABM @ 10:33 pm

Creio que a localidade de Wiriyamu é hoje um monumento nacional, ainda que aparentemente um pouco maltratado. Aqui designado um "bem imóvel".

por ABM (24 de Outubro de 2010)

Antes do prato forte, um aparte.

O que vale de ter o privilégio de escrever num espaço na internet com algum enfoque no eixo africano-europeu (não esquecendo os amigos que falam português por todo o mundo) com especialização em Moçambique e Portugal, é que podemos falar uns com os outros. De Maputo, um amigo meu de há muitos anos pôs-me em contacto com um seu colega da tropa (daqueles que o Samora, depois de um exercício impossível, “reabilitou” numa cerimónia típica dos tempos que se viviam então- ver abaixo) e que, a propósito dos eventos em redor de Wiriyamu, escreveu o seguinte:

Fui militar na época em Tete e se a memória não me falha o massacre foi organizado e efectuado pela 6ª Companhia dos Comandos, comandados por um alferes que teve de fugir para Portugal após 1975, por sinal moçambicano e primo do falecido Nicodemos meu amigo pessoal, que antes de se dirigirem ao local estiveram numa festa na casa do falecido Sr. Rocha (tetense de gema) e à meia noite dirigiram-se ao local. A primeira pessoa a chegar à aldeia logo pela manhã, após o massacre foi a falecida irmã Lúcia, que trabalhou anos a fio no hospital da cidade de Tete e que visitava as aldeias próximas para tratar da população. Após ver aquela bárbara cena (cerca de 400 corpos) ela regressou à cidade e foi confidenciar ao padre Ferrão, que lhe orientou para fotografar tudo e sair do local imediatamente porque a engenharia militar iria fazer uma vala comum para enterrar os corpos. O rolo das fotos foi passado no aeroporto pela própria freira com destino a Inglaterra, aonde foi publicado o único livro sobe o assunto assinado pelo padre Hastings [com base no depoimento do padre Ferrão] e foi assim que o relato e as fotos alertaram o mundo sobre o massacre de Wiriyamu. Um ano após o massacre, pessoalmente participei numa escolta militar a jornalistas da BBC que foram ao local acompanhados por um major da psico-social [um ramo das forças armadas portuguesas] e confirmaram a existência do massacre através de duas panelas de barro que pela ironia do destino eram os únicos objectos que ainda lá permaneciam.

O autor das linhas de cima tem nome e assinou a mensagem que trocou comigo e ainda referiu que a remeteu a José Rodrigues dos Santos há algum tempo, que agradeceu e não disse mais nada.

Fica para o registo histórico, testemunhal, pelo menos o desta Casa.

Aqui em baixo, o vídeo da reabilitação. O lugar é o salão de festas do antigo Liceu Salazar (hoje o Liceu Josina Machel). Estava-se em 1982. Pelos vistos levou sete anos a “reabilitar” os que não eram da Frelimo antes da Independência.

http://www.youtube.com/v/AoUMBnVSfL8?fs=1&hl=pt_PT

Agora o prato forte.

Para ajudar a entender melhor a obra agora publicada, José Rodrigues dos Santos concedeu duas entrevistas que foram publicadas ontem (se ele sabe alguma coisa é vender) e que se reproduzem abaixo, com profunda vénia aos órgãos que as divulgaram.

Entrevista a Vanda Marques, do diário lisboeta “i”

(um dos actualmente favorecidos pelos nosso Senador)

São 16h05 quando o Mercedes de José Rodrigues dos Santos pára em frente ao seu segundo escritório. O Penha Longa Hotel, em Sintra, não é um escritório oficial, mas é lá que marca as entrevistas. Por telefone avisou-nos que ia demorar “um minuto e 10 segundos”. Nem mais, nem menos. A precisão e disciplina estão até nos horários. Desde 2004 já publicou oito romances e, para os próximos três anos, já tem outros três na calha. O lançamento de 2011 até tem data definida. Mas foquemo-nos no que acaba de chegar às prateleiras das livrarias, “O Anjo Branco”. O romance é inspirado na história do seu pai, o Dr. Paz. Integrou o Serviço Médico Aéreo em Moçambique, foi o primeiro civil a entrar na aldeia Wiriyamu, depois do massacre feito pelos soldados portugueses e denunciou as atrocidades. O jornalista da RTP, de 46 anos que nasceu em Moçambique, continua a dizer que os romances são um hobby, como ir ao cinema. Um passatempo com mais de um milhão de exemplares vendidos, e livros traduzidos em 17 línguas.

Esta é a terceira entrevista que dá hoje, como é estar do outro lado?

Aaah… Já estou habituado. No início, era um bocado estranho. Tinha uma postura de avaliar o entrevistador. Pensava: ”Essa pergunta é disparatada”. Agora já não. Cada um faz a pergunta que lhe apetece. É interessante estar deste lado, ajuda a ser melhor entrevistador.

O seu novo romance “O Anjo Branco” é inspirado na vida do seu pai, José da Paz. É uma homenagem?

O tema são os portugueses em África, os anos 60, mas também a guerra colonial. Como tinha uma boa história na família fui por aí. O meu pai fundou o Serviço Médico Aéreo em Tete e aí prestava assistência sanitária num distrito do tamanho de Portugal continental. Erradicou até algumas doenças endémicas.

Quais?

Olhe, ele uma vez contou-me mas já me esqueci do nome. A vida dele é o fio condutor que nos leva do início da guerra em Angola até Moçambique.

O romance estava pensado há muito tempo?

Esta história nasceu depois de lançar o meu primeiro romance, “A Ilha das Trevas”. Estava a almoçar na casa da minha prima e ela disse: “Opá, Zé estás agora a fazer romances, porque é que não contas a história do teu pai que é espectacular?” Ao longo destes anos tenho estado a trabalhar no livro, mas só peguei nele a sério no ano passado. No lançamento de “Fúria Divina” apareceu uma pessoa a dizer que conhecia o meu pai e que gostava de falar comigo. Tenho 200 pessoas que querem falar comigo a toda a hora. Tentei esquivar-me, mas ela arregimentou a minha mãe. Encontrei-me com ela 15 minutos na RTP.

O que saiu dessa conversa?

Havia uma coisa muito importante que me perturbava. É que o meu pai foi o primeiro civil a entrar na aldeia de Wiriyamu depois do massacre [o massacre de Wiriyamu foi feito por comandos portugueses em Dezembro de 1972. A dimensão da matança foi denunciada no jornal “The Times” e na imprensa internacional, mas abafada em Portugal], foi o maior embaraço que Portugal sofreu em toda a guerra colonial. Era uma história extraordinária, mas havia um problema, o meu pai já tinha morrido e a freira que tinha ido com ele, a irmã Lúcia, também. Não tinha fontes para escrever a história. À conversa com esta senhora, ela diz-me que também tinha ido a Wiriyamu com o meu pai. Era enfermeira e contou-me o que se tinha passado naquele dia. A minha mãe não sabia muita coisa, o meu pai não era pessoa de contar as coisas de trabalho em casa.

Porquê?

Era do feitio dele.

É fácil escrever sobre o seu pai?

Não é difícil. O ideal era entrevistá-lo, mas como não está cá… É preciso perceber que o Dr. Branco não é o meu pai, é um personagem inspirado. Misturo pormenores ficcionais com reais. Por exemplo, há uma situação em que ele vai buscar um guerrilheiro ao mato, o Ernesto, que existiu mesmo. Era o nosso empregado, tinha sido perito em minas e armadilhas da FRELIMO. Foi quem me levou à escola pela primeira vez. Mas voltando à história. A certa altura no caminho de regresso, o chefe dos guerrilheiros pediu à personagem para não tratar as tropas negras porque eram autênticos animais. A personagem Dr. Branco responde: “Tragam-me o assassino da minha mãe e eu tratarei dele”. Numa reportagem para o jornal sul-africano “Rand Daily Mail”, o meu pai disse mesmo esta frase.

Apoiou-se em muitas memórias?

Não muitas. Sai de lá miúdo. Lembro-me de Tete, sabia que havia uma guerra e ouvia o inspector da PIDE dizer que os turras ia bombardear tudo. Acompanhei o meu pai em algumas viagens, mas para mim o mundo era assim. Hoje é que percebo que não é uma coisa normal. Ele montou um Serviço Médico Aéreo, um hospital ambulante. Iam buscar doentes, davam vacinas, medicamentos. Lembro-me das multidões gigantescas. Em África só existia um outro Serviço Médico Aéreo, montado por alemães, no Quénia.

Investigou muito para o livro?

Sim. Falei com pessoas da minha família, que viveram em África, com militares, li documentação da época e fui a Wiriyamu e a Tete.

Nunca tinha regressado a Moçambique?

Não. É engraçado porque está tudo muito parecido com o que era. A minha casa que era a do director do hospital, está na mesma, mas pintada de azul. A actual directora acompanhou-me na visita. Recordava-me de todos os cantinhos.

No livro fala do “mais aterrador segredo de Portugal no Ultramar”, pode desvendar alguma coisa para quem ainda não leu o romance?

Não. Está no romance. Só me apercebei do papel do meu pai nessa história mais tarde.

Nunca deu por nada?

Não. A minha mãe não me ia dizer: “Olha o teu pai foi levado para Nampula e está detido pelas tropas.”

O que recorda da guerra?

Os militares, os helicópteros, os feridos, a economia de guerra, mas não andava no meio dos tiros. Recordo-me de que quando íamos de carro para Cahora Bassa, fazia-se uma coluna com um Berlier à frente e outro atrás. Os carros civis iam no meio e até um determinado troço, iam-se ultrapassando porque ninguém queria ficar nas zonas mais frágeis. Nunca sofri nenhuma emboscada. Lembro-me de ir sozinho com o meu pai de Tete à Beira e ele punha uma bandeira da Cruz Vermelha. O máximo que víamos eram macacos e impalas.

Porquê o título “O Anjo Branco”?

Era como o meu pai era conhecido em Moçambique. Vestia-se sempre de branco, vinha num avião e transportava os medicamentos, o correio.

Era uma vida singular?

Sim, mas é preciso dizer uma coisa. A vida de um português em África era esta. Estava tudo por fazer. A minha mãe chega a João Belo e aos 20 e poucos anos tornou-se directora da farmácia. Não havia mais ninguém.

A sua mãe já leu o romance?

Não sei. Dei-lhe um livro e ao fim de uns cinco dias, perguntei-lhe. A resposta foi: “Olhe, li as primeiras páginas num café, mas encontrei um amigo que mo pediu para ler. Por isso ainda não vi.”

Acha que é um livro importante para as suas filhas?

Talvez. Mas não foi feito com esse intuito.

Elas lêem os seus livros?

A mais velha sim, a mais nova não. Também ela tem 12 anos e diz: “Ihhh, são muito grandes”.

A mais velha faz críticas aos seus livros?

Não, também não vou perguntar.

Quanto tempo demorou a escrever este livro?

A ideia surgiu em 2004, por isso, podemos dizer que foram 6 anos. Entretanto publiquei outros seis livros.

Sabe quantas páginas vai ter o romance quando o começa a escrever?

Nunca sei. Este livro tinha mais 300 páginas que tive de cortar.

Como é a sua rotina de escrita?

Acordo bastante cedo, às 7h30. Depois fico a escrever ao computador até à hora do almoço. Em seguida, vou para a RTP, se não estiver de folga. Escrevo pelo menos três horas por dia, o que dá entre cinco a dez páginas. A escrita é como estudar, nunca é contínuo, faço pausas. A única regra é não escrever depois das oito da noite.

Porquê?

Se escrevo, fico com esse embalo e tenho dificuldade em adormecer. Preciso de tempo para abrandar. Só não respeitei isso quando fiz o meu primeiro livro. Escrevia até às oito da manhã. Tive de impor esta disciplina.

Quando escreve transporta os personagens consigo?

Não deixo que tomem conta de mim, porque até faz mal à saúde. Gosto de ser uma pessoa equilibrada e racional, não ia deixar que o livro tomasse conta da minha vida dessa maneira.

É um trabalho intenso?

Não. É um trabalho divertido. Aliás, chamo-lhe trabalho só por hábito. Há pessoas que ao fim-de-semana vão ao shopping, outras vêem futebol, cinema, eu escrevo. É um hobby, porque é uma coisa que gosto de fazer. Os budistas dizem que há uma maneira de estar a vida inteira sem trabalhar, é fazer o que se gosta. De certo modo, o jornalismo é um hobby porque gosto de o fazer.

Imagina deixar o jornalismo para ser só escritor?

Não. A vida de um escritor é um bocado monótona, de algum isolamento. É apenas uma fatia da minha vida, não é o principal.

Em miúdo sonhava ser escritor?

Nunca. O presidente da Associação Portuguesa de Escritores foi a primeira pessoa a dizer-me que achava que eu tinha jeito para ser romancista. Ri-me na cara dele. Ser romancista, era como ser um astronauta. Nunca pensei nisso. Não estava para aí virado. Era como ser futebolista, era para os outros, não para mim.

Em miúdo tinha jeito para o quê?

Para artes visuais e desenho. Nos testes psicotécnicos, o meu talento era arquitectura. Na altura tinha tido maus professores de matemática, logo tinha muito catch-up para fazer, por isso fui ver quais eram as outras alternativas. Além da arquitectura, os testes indicavam que tinha jeito para piloto da Força Aérea ou jornalista. Foi assim. Segui humanísticas e fiquei a pensar nisso.

Então, os romances surgem por acaso?

A minha tese de doutoramento foi publicada e o presidente da Associação Portuguesa de Escritores, depois de a ler, achou que tinha talento e pediu-me para escrever um pequeno conto para o jornal literário dele. Em 15 dias escrevi um conto com 200 páginas. Era o meu primeiro romance, “A Ilha das Trevas”.

Já vendeu mais de um milhão de livros. Acha que aproximou os portugueses da literatura?

Acho que sim. Os portugueses tinham uma enorme vontade de ler autores nacionais, mas não estavam convencidos com o que tinham. É um bocado como o cinema português. Chegavam lá e era um filme chato, com cenas paradas. Com a literatura era a mesma coisa. Um leitor escreveu-me: “Sabe, lemos nos jornais que temos os melhores autores do mundo, depois vamos à praia e só se vê livros espanhóis, americanos. Não conseguimos ler os nossos autores, são muito chatos.” Eu e outros autores portugueses, com Miguel Sousa Tavares à cabeça, que vendeu 320 mil exemplares de “Equador” [2003], fazemos prova de que existe um público para autores portugueses.

Porque não liam outros escritores?

Não se identificavam. Achavam demasiado rebuscado, difícil, uma forma de escrever que não cativava. Isso é o que eu recebo nos emails. Os meus romances têm uma escrita moderna, que não é uma escrita pretensiosa. Não tenho pretensões a nada, a não ser contar uma história fascinante. Ontem recebi um email de uma senhora a agradecer-me porque a filha recusava-se a ler e desde que descobriu os meus livros tornou-se numa leitora compulsiva. Ou um outro leitor, que me escreveu a dizer que não lia há 40 anos, mas desde que comprou um livro meu, regressou à leitura.

Já têm ideias para mais livros?

Sim. Já sei qual é o romance que vai sair no próximo ano e nos dois seguintes.

Três romances?

Não. Esses são os que sei quais são, mas tenho outras ideias. Já tenho data marcada para lançamento do próximo ano. Só ainda não escolhemos o local.

O que nos pode dizer dos próximos livros?

Nada. (risos)

Entrevista ao JN (não diz quem o entrevistou)

Os leitores terão curiosidade em saber como é capaz de produzir a este ritmo: em menos de dez anos, já vai no oitavo romance e o último, que é lançado hoje, é o maior de todos, com 678 páginas.

Os meus romances são diferentes de todos o que se fazem em Portugal. Integro-me numa corrente mais internacional. São muito pesquisados. Mas procuro dizer que são um ganha-tempo e não um passatempo, pois embora escritos depressa dão-me grande prazer. Depois, o leitor, através de uma história que entretém, aprende qualquer coisa que não sabia sobre a vida, a História, a Ciência… que no final da leitura, espero eu, o torna mais rico.

Qual o seu método de produção?

Para fazer isto é obrigatória uma grande pesquisa. Mas isso não me custa. Sou professor universitário, jornalista e já faço isso por sistema. Não é um bicho-de-sete-cabeças. O segredo da investigação é o método. Saber onde procurar. Como consigo fazer esse trabalho sem dificuldade, acabo por arranjar bom material para os romances.

Socorre-se de ajudantes de campo?

Nunca trabalho com investigadores. Faço tudo sozinho, as entrevistas, a pesquisa, a leitura da documentação. Por uma razão muito simples: quando estamos a fazer uma investigação, muitas vezes estamos à procura de alguma coisa. No acto de procurar uma coisa encontramos outra. Eu sou a única pessoa que pode avaliar se essa coisa é pertinente.

Acha que se nasce romancista?

Pode não ser logo à nascença. O José Saramago, por exemplo, só começou a publicar muito tarde.

A publicar.

Sim, mas a escrita só se manifestou mais tarde.

O seu apelo é uma obstinação vital ou trata-se apenas de contar uma história com os ingredientes certos e que venda?

Isso é o romance, não? Para mim, o bom romance é uma história bem contada. E dá-me prazer. Não em dois minutos, como faria numa reportagem de telejornal, mas contar a história em profundidade. Por outro lado, nos romances consigo efeitos de verdade que no discurso não ficcional não consigo. Essa parte também me atrai. Em ambos os casos, transporto o leitor comigo para o local onde as coisas acontecem. Procuro escrever de tal maneira que, de repente, o leitor já esteja no local onde a acção vai decorrer. Escrevi o meu primeiro romance [A Ilha das Trevas] quase por obrigação. Escrevi-o em 15 dias. Escrevia até às seis da manhã, depois dormia duas horas e voltava a escrever obstinadamente. Tomou conta da minha vida. Quando publiquei o romance não pensei em escrever outro. Nessa altura tirei uns dias de férias – já era director de informação da RTP – e, não tendo nada para fazer, comecei a escrever outro [A Filha do Capitão]. Aí percebi que estava viciado.

Há quem diga que escrever é uma droga dura.

Nunca tomei drogas, e tenho dificuldade em equiparar. Mas sim, fiquei viciado. E não voltei a deixar. Passei foi a fazê-lo com disciplina, e não deixei que o romance voltasse a tomar conta de mim. Agora, chego às oito da noite e paro de escrever, mesmo estando de folga.

A inspiração, quando aparece, deve apanhá-lo a trabalhar…

A inspiração é a ideia do romance. O resto, a pesquisa, a escrita, é apenas transpiração. Terá elementos de inspiração, mas já não é a mesma coisa.Os seus livros são sempre de uma grande ambição…
… não são historietas.

Começou a escrever ficção por alguma espécie de responsabilidade ética ou política que não se esgotava no jornalismo?

Sim, mas não digo a um nível consciente. Procuro que os meus romances tenham um valor acrescentado. Um desses valores diz respeito à ética. É aliás o tema filosófico deste meu último romance [O Anjo Branco]. Fazer o bem, o que está certo e errado, acompanha a personagem principal desde que nasce até aos dias da faculdade, à vida adulta. Vai sendo confrontada com situações. «Na Fúria Divina também havia esse «valor acrescentado» da ética.
Neste caso é mais individual, o indivíduo ter a capacidade de fazer o que está certo. Num texto jornalístico procuro uma certa neutralidade. Isso impede que se aprofundem determinadas questões. Posso ter a convicção, enquanto jornalista, de que um político, por exemplo, está a dizer um enorme disparate. Mas não me cabe a mim julgar, esse julgamento cabe aos espectadores. Não exponho a minha posição. Sou apenas um intermediário. No caso do romance posso trabalhar isso, posso demonstrar. E isso não se faz com uma frase curta. Mas mostrando situações.

Há o risco do moralismo.

Não digo às pessoas que determinada personagem é uma boa ou má pessoa. Mostro as situações, e os leitores que tirem as suas conclusões. O romance tem instrumentos que o texto não ficcional não tem. Os meus romances são quase reconstituições. Isso tem que ver com o defeito profissional do jornalista, que lida com a realidade.

Chico Buarque, por exemplo, diz que quando escreve deixa a música na gaveta. No seu caso, como é que faz a passagem de uma escrita para outra?

Acabo por dar continuidade ao meu trabalho, uma vez que mantenho uma forte relação com a realidade. É quase uma extensão do meu trabalho de jornalista. Ficciono sempre dentro de um quadro do facto, da pessoa real. Não mino a realidade, não subverto. Prolongo. Esta história, O Anjo Branco, fala de um serviço médico aéreo que existiu há quarenta anos. Só havia em África dois serviços médicos aéreos. Um no Quénia, feito por alemães, e outro em Moçambique, onde estava o meu pai. Quando ele sai de lá, o serviço acaba. Isso perdeu-se na memória das pessoas. O meu pequeno feito é tornar isso vivo outra vez. O serviço existiu nos moldes que eu descrevo.

Este livro é um tributo ao seu pai, a quem chamavam, em Moçambique, «o anjo branco». Comoveu-se por escrever em sua memória?

Já conhecia a história, por isso não posso dizer que me comovi. Mas descobri coisas que desconhecia sobre a dimensão ética do meu pai, que morreu em 1984. Ele tinha uma característica: nunca falava de trabalho em casa, e ficaram sempre coisas por saber. Das poucas coisas que me lembro foi um dia estarmos à mesa e ele ter gracejado porque lhe tinham oferecido um elefante bebé.

É facto ou ficção que ele voava numa avioneta como quem usa um carro?

É facto. Cheguei a voar com ele, várias vezes. O nome «anjo branco» vem do avião branco, de andar de bata branca e porque trazia saúde, e além disso chamava-se José da Paz – havia quem achasse que era alcunha (no livro chama-se José Branco). Era responsável pelo serviço de saúde de uma área com o tamanho de Portugal. E só havia no território uns cinco ou seis médicos civis. Imagine que ele estava baseado em Viseu e no mesmo dia tinha de ir a Bragança, a Lisboa e a Vila Real de Santo António. Ia sozinho no avião ou com uma enfermeira. Aqui se percebe a magnitude. A verdade é que ele conseguiu erradicar várias doenças que eram endémicas no distrito, através de campanhas de vacinação.

Há uma fantasia ou o seu pai era mesmo uma espécie de missionário?

Era um João Semana. Tinha um salário mas havia um lado forte de missão, de despojamento. Tudo o que fui sabendo do meu pai foi por fontes indirectas. A maioria das pessoas já morreu. Mas desta visita que fiz agora a Moçambique vi que corresponde à minha imagem da infância. Tinha uma tarefa ciclópica. O que fez, fez por impulso pessoal, por generosidade. Podia encostar-se à piscina do aeroclube de Tete em vez de andar a voar todos os dias para cada canto de Moçambique a levar ajuda sanitária.

Há uma carga romântica muito forte na sua vida.É uma espécie de enredo de O Paciente Inglês.

Sim, e de África Minha.

A realidade ultrapassa a ficção…

Exactamente. A ideia nasce quando fui almoçar a casa de uma prima. Tinha publicado A Ilha das Trevas e ela perguntou-me se eu agora estava a fazer romances. Então disse-me: «Porque não escreves a história fantástica do teu pai?» Houve um escritor sul-africano que quis escrever a história do meu pai nos anos 1970. Chegou a contactar a minha família. Escrever este livro permitiu-me recriar o que foi o Serviço Médico Aéreo e o que foi a história dos portugueses em África e o colonialismo. O Codex é sobre os Descobrimentos, mas o pretexto é o mistério da identidade do Cristóvão Colombo. Aqui falamos do que foi a guerra e tudo o que ela envolve, que são temas ainda meio tabu na literatura portuguesa. Já ouvi um comentário sobre este meu livro a dizer «que péssima ideia andar a tocar estes assuntos». Há um incómodo em relação a estes temas coloniais. Mas este é um romance que interessa a portugueses e moçambicanos. Faz a ponte.

Nesta sua última viagem de pesquisa no terreno, em Moçambique, falou pelo menos com uma testemunha do massacre de Wiriamu, onde se passa parte da acção.

Chama-se Vinte Pacanate. Levou-nos ao sítio onde os guerrilheiros da Frelimo combinaram encontrar-se com um comerciante português para este lhes fornecer sal e farinha. Esse comerciante é que vai dizer à PIDE que os guerrilheiros estavam ali. A contabilidade dos mortos é incerta. No memorial fala-se em 450. Para o lado da guerrilha havia sempre interesse em aumentar, para o lado da tropa portuguesa em diminuir. Morreram à vontade mais de duas centenas.

Arruma de vez o mito de que a colonização portuguesa foi branda?

Tem aspectos contraditórios. Há várias histórias no romance que são verdadeiras. A história que o amigo do meu pai, o advogado Domingos Arouca [Domingos Rouco, no livro], é expulso do hospital por ser negro é verdadeira. Também é verdade que uma vez, quando o meu pai estava a atender doentes, lhe apareceu um americano a protestar que devia passar à frente dos negros, e que o meu pai o mandou para o seu lugar. Podia também dar-se o caso de numa cama estar um guerrilheiro da Frelimo e ao lado um soldado português. A história dos soldados que deixam umas cervejas na picada para os guerrilheiros depois irem buscar. Na Primeira Guerra Mundial, os alemães e os portugueses trocavam fogo e horas mais tarde havia uma encenação do género, o alemão dizia «granada» e atirava salsichas, e o português dizia «granada» e atirava chouriço. A PIDE, por exemplo, detinha negros suspeitos de pertencerem à Frelimo e maltratava-os. Por outro lado, a mesma PIDE punha-se ao lado de grevistas negros a dizer que eles tinham razão, que eram maltratados pelos fazendeiros brancos e que tinha de se acabar com aquela iniquidade. Está em relatórios da PIDE.

Das coisas que desconhecia do seu pai e descobriu na pesquisa qual foi a mais surpreendente?

Não tinha conhecimento de como foi importante na ajuda às vítimas do massacre.O que mais o chocou nas viagens a Moçambique foi Wiriamu?
Aquilo está quase limpinho. Onde era a aldeia só há árvores. A actual aldeia está a um quilómetro. Chocou-me ouvir os relatos.O romance tem a função de dar voz a esses relatos e perpetuar a memória.

Deve ser lido como um documento?

Sim, neste caso recupero a memória e mostro as contradições que o discurso histórico não mostra. O historiador parte de um ponto de vista e vai demonstrá-lo. Aqui não há um ponto de vista. A realidade complexa e contraditória aparece em cada esquina. Da PIDE espera-se que faça coisas repulsivas, mas no instante a seguir já faz outras que ninguém supunha.

Acha que toda a escrita é engajada?

Bem, isso é o que dizia o Louis Althusser, que toda a escrita é ideológica. Fiz o meu trabalho com base nos relatos das pessoas.

Neste caso quais foram as suas leituras? Foi aos papéis da família, aos diários do seu pai?

Testemunho oral.

O «mingalho» [pénis] descomunal de José Branco, que lhe vem de nascença, é facto ou ficção?

Não vou diminuir a coisa, mas faz parte da técnica narrativa [risos].

Não é um novo Gungunhana?

Não [risos].

Como foi a sua infância em Moçambique, de onde saiu com 10 anos?

Sou português mas também sou moçambicano. Há sempre uma identificação mais forte com a melancolia da infância. Cheguei agora a Maputo, 35 anos depois, e fiquei encantado. Acho que Maputo está muito bem. É uma cidade limpa.

Tete é neste momento o Eldorado para os exploradores de carvão.

Sim, mas não está no estado de Maputo. O que Tete tem, e teve desde sempre, é um desafio na base da agressividade e da selva. Hoje, menos do que antes, por causa da albufeira da barragem [Cahora Bassa], que reflecte muito o calor. Quando lá vivi havia temperaturas de cinquenta graus à sombra.

O livro é uma recriação minuciosa do Moçambique colonial e de Tete em particular, o cabaré, o hotel central… Quanto disto sobrevive de pé?

O Hotel Zambeze foi recuperado. Para mim é como se existissem duas Tete. Tenho uma memória do Cinema Santiago, onde ia ver umas matinées, e que agora está murado e não tem tecto. O hospital onde o meu pai trabalhava está impecável. A casa onde vivi continua lá. O cabaré Maxim’s, hoje habitado por umas famílias, era uma coisa opulenta que chegava ao ponto de ter uma reprodução de parede inteira da barragem de Cahora Bassa. O Aeroclube de Tete, mesmo ao lado do rio Zambeze (onde aprendi a nadar), que era a sede do Serviço Médico Aéreo, tem neste momento uma pista de capim. Maputo é o oposto disto. Quem viveu em Angola no período colonial chega hoje a Luanda e fica muito mais chocado.

O seu pai continua a ser uma figura querida da terra?

Sim. Sobretudo pelo seu projecto de saúde inovador.

Como eram as relações dele com o poder?

Amenas. Ele veio para Xai-Xai (antiga João Belo), depois saiu dali por ter um amigo da Frelimo, e então é deslocado para Tete de castigo. Acaba por se dar bem com o poder. Lembro-me de irmos com frequência a casa do inspector da PIDE, um dos homens mais temidos da cidade. O meu pai dava-se com toda a gente. Tanto tratava civis como a tropa portuguesa. Um dos maiores amigos dele era um elemento da Frelimo, e ao mesmo tempo era amigo do inspector da PIDE. Entendia que o seu trabalho estava acima da política. De certa maneira, vivia numa ilusão, como se admite no livro.

Nessa pesquisa minuciosa que fez houve surpresas no que toca a achados políticos?

Na parte das contradições do sistema. Por um lado era racista, por outro não era, ou era repressor e não era. Estava à espera de um discurso mais uniforme. Há muitas realidades.

O colonialismo português foi o mais atípico do padrão europeu?

Julgo que sim. Conheci os ingleses que estavam na Rodésia e iam muito a Tete. Os chamados «bifes». Rodesianos ingleses. Tinham uma atitude muito diferente, para o melhor e o pior. Uma coisa que faziam bem, e deu frutos até hoje, é que eles apostavam muito nas instituições, embora humanamente fossem um desastre. O facto de o Reino Unido ser um país democrático ajudava a ter outra mentalidade. No nosso caso, acho que uma das melhores coisas na altura era o sistema educativo. Lembro-me de ter vindo para Portugal e constatar que os melhores alunos eram os que tinham vindo de África. Por exemplo, vim fazer a segunda classe a Portugal. Era um aluno mediano em Moçambique e cá era o melhor da escola. Quando voltei a Moçambique era o pior aluno da turma.

Nesta sua ida a Moçambique foi recebido em braços.

Para os moçambicanos há um conjunto de pessoas que, embora não estejam lá, são filhas da terra. Eu, o Carlos Queiroz, a Mariza.

É verdade que houve um menino que o abordou e lhe disse: «O senhor é aquele que pisca as orelhas?»

É possível [risos].

Deus ou a ideia de Deus é omnipresente nos seus livros. Neste caso, uma figura angelical. Está de algum modo ligado a alguma religião?

Pessoalmente, não. Neste caso há uma ética, é um romance sobre ética. Primeiro, no sentido de definir o bem e o mal. Fazer o que está certo muitas vezes é a coisa mais difícil que há. Como diz uma personagem, se fazer o que está certo fosse fácil, todos só faríamos o que está certo. Qualquer pessoa que leia esta entrevista consegue perceber isto. Nós sabemos que determinada coisa é errada e somos cúmplices dela se não nos erguermos. Ou seremos punidos por denunciá-la.

É dos que acreditam que o homem é bom ou mau por natureza?

O problema é definir o que é o bom. N”O Anjo Branco o que é bom para um é mau para outro. Se eu curar o Hitler fiz uma coisa boa ou má? Fiz uma coisa boa, porque o curei, mas prolonguei a vida a um homem responsável pela morte de vinte milhões de pessoas.

Quando chega ao romance, como é que um ex-repórter de guerra chega a conclusões sobre a natureza humana?

Procuro não me limitar aos factos e dar todas as panorâmicas. O meu livro não se limita a contar uma história, tem de se distinguir. Uma das coisas que o distingue de qualquer outro romance que se encontre numa livraria é essa dimensão de a História ser pretexto para algo mais. Através daquela história, o leitor pode reflectir sobre determinados aspectos da vida, da História, da Ciência.

Mas à falta de preocupações de inovação de linguagem não devemos chamar-lhes antes grandes reportagens literárias? Continuam a ter enredo e ficção.

Quando diz que escreve para o mundo, tem que ver com a universalidade dos temas ou acha-se um autor universal?

Escrevo sobre temas que interessam aqui ou em qualquer parte do mundo. Uma coisa é certa, não escrevo para mim próprio e para o meu umbigo.

Escreve certamente para ser lido.

No meu caso sim, mas cada um com a sua panca. Alguns até escreverão para si próprios e são sinceros. Dizem que o Salinger escreveu não sei quantos livros que estão na gaveta. Há um romance do Paul Auster, O Livro das Ilusões, que conta a história de um cineasta que faz os filmes, não mostra a ninguém e deixa instruções para que os filmes sejam destruídos depois de morrer. Parece-me razoável acreditar que um romancista escreve para ser lido.

Nas conversas que teve com escritores – e que deram lugar ao livro Conversas de Escritores – procurou os autores com quem tem mais afinidades, a começar por Dan Brown?

Procurei a notoriedade. Autores que o público reconhecesse de imediato e que façam parte de uma literatura universal.

Houve recusas?

Houve impedimentos técnicos. Por exemplo, o Mario Vargas Llosa estava no Peru e disse que vinha à Europa. Acabou por não vir e a entrevista gorou-se. O Philip Roth disse-me que sim e depois quando chegou a altura recusou, disse que já estava cansado de dar entrevistas. O Ismail Kadaré também disse que sim e recuou. Tentei o Spiegelman (autor da banda desenhada Maus), que disse logo que não. Recebi uma carta da mulher do Milan Kundera a dizer que este não dava uma entrevista desde 1985. Até houve um caso curioso. Pedi a entrevista e descobri que o escritor tinha morrido uns meses antes. Devia estar em reportagem e não soube da sua morte.

A que atribui o enorme sucesso dos seus livros?

Só comecei a ter êxito a partir do terceiro romance. A Ilha das Trevas começou por vender sete mil e só atingiu os sessenta mil mais tarde. A Filha do Capitão já vendeu 26 mil, mas o sucesso vem só à terceira. Diria que os meus romances funcionam por um conjunto de razões. Primeiro, procuro escrever de uma forma quase jornalística. Para mim, as palavras não são um fim em si mesmas, são um instrumento, um meio. Não me perco num exercício narcísico a mostrar que escrevo muito bem. Se o meu leitor nem reparar nas palavras, como se fossem véus de água, e estiver a ver apenas a situação que eu descrevo, consegui o meu objectivo. As pessoas não gostam do autor que se perde narcisistamente na sua própria escrita. Não digo que esta fórmula do José Rodrigues dos Santos está certa e a deles está errada. Acho é que os leitores gostam mais desta minha maneira de escrever, uma escrita transparente, interessante, que os agarre. Por outro lado, as pessoas gostam de uma boa história. Não têm paciência para romances em que a história não avança, é fraca. Procuro ainda dar a conhecer qualquer coisa que as pessoas não conhecem, sobre alterações climáticas, petróleo, ciência, física quântica, a presença de Portugal na Primeira Guerra Mundial, o radicalismo islâmico, agora em África. Procuro escrever de tal maneira que interpele o leitor.Dá ideia de que se sente impelido a escrever sobre o que não sabe para passar a saber.
É verdade. Vou à descoberta de um tema. Se concluo que é interessante, avanço. Quando lancei Fúria Divina ouvi uma reflexão de que discordei. José Saramago tinha lançado Caim, sobre o Antigo Testamento, o judaísmo. O meu era sobre o islamismo. Fui a um debate em que ouvi uma pessoa comentar que os autores percebem que a religião vende e fazem um livro. Esta descrição da escrita como um produto oportunista não podia ser mais falsa. Existem certamente dezenas de livros sobre o islamismo ou o Antigo Testamento e nenhum deles vende muito. Porque é o que o Caim ou a Fúria Divina venderam muito? Tem que ver com a forma como estão escritos. No meu caso, até achei que esse tema era muito difícil de acatar em termos de aceitação pública.

Chegou a temer uma fatwa, como a que foi pronunciada contra o escritor Salman Rushdie?

Isso era outro tipo de temor [risos]. Mas não foi por isso que foi o livro mais vendido do ano em Portugal [vai nos 175 mil exemplares vendidos]. O segredo está na forma como a história é contada.

Acha que é esse o seu dom?

Boa pergunta. Não sei. Talvez devido ao facto de ser jornalista conheça bem o público e o que ele quer.

Que conselhos daria a um jovem romancista?

Independentemente do que interesse ao público, eu tenho de estar interessado no que estou a escrever. Se eu não tiver entusiasmado não consigo transmitir entusiasmo.

Como é que consegue passar de livro para livro e datar a saída, mantendo a emoção?

Estou mais ligado ao livro que estou a escrever naquele momento. Acontece-me, como agora, lançar um livro e já estar no fim de outro, ou do seguinte (como é o caso).

E é nado-morto uma vez acabado?

Não, senão nem sequer o apresentava. Há uma sensação sempre especial quando o livro chega, o cheiro, a emoção de tocar. Por mais corriqueiro que pareça, ainda não perdi o gosto do novo livro.

Tem recuo para dizer qual das suas personagens se parece mais consigo?

É uma boa pergunta, mas não consigo dar uma resposta diferente do banal. Todas as personagens têm um pouco de nós. Mesmo os bandidos. Projectam coisas que não gostamos mas também são algo de nós. Apenas há um caso, que é o Tomás de Noronha, que pus a nascer em 1964, o meu ano, e que é professor da Universidade Nova, tal como eu. Facilita-me a vida, porque se move num meio que eu conheço. Mas é como dizia o Hergé: «Tintin c”est moi.» De certo modo, estamos sempre a repetir um esquema. Como dizia o Somerset Maugham, os escritores estão sempre a contar a mesma história.Interessa-se mais por factos e narrativas do que propriamente pelos efeitos das acções sobre as pessoas.

As suas personagens não correm o risco de se afogar na História?

Crio personagens, tipos. Por exemplo, em A Filha do Capitão abordo vários tipos que havia na Primeira Guerra Mundial. A Isabel Allende (uma das entrevistadas de Conversas de Escritores) dizia-me que a pesquisa faz o romance. A história começa a emergir naturalmente na nossa cabeça. Dai que eu dê tanto valor à pesquisa. As personagens emergem deste caldo da História e deambulam no seu tempo. São quase folhas atiradas e empurradas pela tempestade. Separam-se, juntam-se, precisamente porque não dominam o seu destino.

Qual foi o país a seguir a Portugal onde teve mais impacto?

Em Espanha vendo muito bem. Nos países de Leste também, e na Holanda. Na Bulgária, a Fórmula de Deus [Burgata Formula] chegou ao número um do top de vendas e manteve-se aí várias semanas. Os meus livros funcionam muito bem nos mercados que têm hábitos de leitura. Em que as pessoas têm um determinado nível cultural e exigências.

Em quantas línguas foi traduzido?

Dezassete.

Tem tempo para hobbies?

Escrever é o meu hobby.

Está rico com os livros?

Não. Estou rico em conhecimento. É a única riqueza que conta, e que gera riqueza. Por isso é que os alemães sabem fazer Mercedes e nós não sabemos. Os sauditas não são ricos. Quando acabar o petróleo voltam a ser pobres como eram. O conhecimento é o grande desafio de Portugal. Acredito que tenho essa riqueza e que posso partilhá-la com as pessoas, que lhes permita alargar a visão.

Uma pessoa que atinge os seus números de vendas leva a acreditar que há mais do que potenciais leitores em Portugal.

O grande mérito do Equador, do Miguel Sousa Tavares, foi mostrar isso. Ou seja, que as pessoas estão ávidas por ler romancistas portugueses. O que se passava era uma falta de identificação com uma literatura chamemos-lhe mais experimental. Lembro-me de ter recebido um e-mail de um leitor que dizia: «Toda a gente diz que temos grandes romancistas mas chegamos à praia e está tudo a ler autores americanos e ingleses.» O grande desafio para o autor português era superar essa barreira de confiança. Tenho mails a agradecerem-me ter reconciliado os leitores com as letras portuguesas.Podia viver só dos livros.

Não é coisa que lhe passe pela cabeça?

Não. Gosto muito do meu trabalho como jornalista. É uma maneira de me manter ligado ao real e de conviver. Um escritor passa muito tempo fechado. Também tenho uma relação com a Universidade Nova muito emocional. Foi lá que me licenciei e doutorei.

Já agora, concretizou-se a venda dos direitos de O Codex 632 a Hollywood?

O Codex 632 está numa agência cinematográfica em Hollywood que tem a representação do romance. Não significa que seja adaptado. Tive uma conversa com o Jeffrey Archer, que já vendeu 260 milhões de livros, que me disse ter os direitos dos livros todos vendidos mas que nunca se tinha feito um filme. Uma major faz 15 filmes por ano. O que eles fazem é reservar os direitos dos livros por atacado. Não tenho grandes ilusões. Preocupo-me só com o que depende de mim, que é escrever os romances.

O LANÇAMENTO DE O ANJO BRANCO, DE JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS

A entrada da Sociedade de Geografia de Lisboa, 23 de Outubro de 2010, 17 horas.

por ABM (23 de Outubro de 2010)

Os lançamentos de livros são eventos chatos para convidar os amigos e estragar-lhes o fim de semana. Quem o disse foi o autor e jornalista José Rodrigues dos Santos – exceptuando no seu caso, presume-se, e no do lançamento da sua mais recente obra, intitulada O Anjo Branco.

No seu caso, explicou à sua audiência de cerca de 500 pessoas mais um Maschambeiro (500 pessoas para mim, para ele é 500 x 24.50 euros por livro = 12.250 euros), há uns dias fizera qualquer coisa com o seu livro numa livrariazeca qualquer em Lisboa onde não havia lugar nenhum e apareceram 200 pessoas – uma hecatombe. Decidiu logo que havia que fazer uma coisa mais condigna para o lançamento nacional da sua obra (“lançamento nacional” significa que vai haver lançamento internacional) e depois de vasculhar as possibilidades (o Estádio Nacional dava, Zé) lá optou pela decrépita e desnudada Sala de Leitura da Sociedade de Geografia de Lisboa.

Com pontualidade britânica, às 17 horas de Lisboa de hoje iniciaram-se as festividades, com um desesperadamente longo discurso “introdutório” pelo ex-colaborador da RTP e agora freelancer da televisão, Joaquim Furtado (a excelente série documental sobre a guerra colonial portuguesa de 1961-1974, que não a fez quando era empregado da RTP, mas fê-la depois e vendeu-a por um balúrdio ao antigo patrão, é de sua responsabilidade).

Mas a sua alocução foi interessante (ouvi e tenho a gravação integral). Infelizmente, o Joaquim Furtado (pai da Catarina com o mesmo apelido) quando fala em pessoa não tem aquela voz psico-dramática que se ouve na televisão nos episódios de “A Guerra”. E o sistema de som da Sociedade de Geografia competia com duas lésbicas que por azar ficaram sentadas mesmo ao pé de mim, a discutirem durante meia hora quem é que se tinha esquecido de dar de comer aos gatos.

Tudo isto é um deveras estranho enquadramento para um romance, mesmo, apesar de um romance histórico.

Ali estava toda uma tropa, sentada no que foi físicamente o coração do grupo que há cento e tal anos atrás arquitectou todo o projecto colonial africano (quem conhece a Sociedade de Geografia, sabe que hoje é pouco mais que uma tertúlia de velhos literados e sem dinheiro, fechados sobre si e convencidos de que são importantes) a discutir um romance que incluía, supostamente como pano de fundo, uma tragédia que foi de longe a maior vitória de relações públicas na história da Frelimo e durante toda a guerra colonial em três frentes, e que criou consideráveis dificuldades ao então governo português, tendo certamente ajudado a encerrar a hostilidades em alguma ignomínia.

José Rodrigues dos Santos observa enquanto Joaquim Furtado debita o seu discurso.

Tudo isto porque Marcelo Caetano, sucedâneo de Salazar e manifestamente incapaz de fazer o que tinha que ser feito, decidira fazer uma visita de Estado ao Reino Unido na altura (1973) para celebrar com pompa 600 anos de dúbia aliança com a Grã-Bretanha e, muito oportunamente, o Times de Londres escarrapacha na sua primeira página os sangrentos detalhes do que foi uma loucura imperdoável, cometida por alguns tropas portugueses nos arredores de Tete no dia 16 de Dezembro de 1972 e relatada no detalhe (mas em segunda mão) pelo inquestionável (e ainda por cima britânico) activista padre católico Adrian Hastings. A confusão em Londres não teve fim. Caetano não parecia saber o que se passava e até um jovem Mário Soares apareceu por lá para dar a sua facadinha política.

Em Moçambique, Kaúlza de Arriaga pagaria pelo desvario das suas forças e Jaime Neves, antes de se tornar um Libertador da Pátria, seria incomodado pelas suas consequências. O próprio pai do autor, que era director do Hospital da cidade de Tete, onde gozava de enorme prestígio, e que fora entre os primeiros civis a visitar Wiriyamu, Chawola e Juwau, foi mandado para Lourenço Marques (na altura já sofria de uma delicadíssima situação cardíaca e um casamento em dificuldades).

Já referi antes que esta questão apresenta, de alguma forma, um sério dilema.

Contrariamente ao que se possa sugerir, quem procurar encontra praticamente tudo o que quiser saber sobre o absolutamente lamentável episódio de Wiryamu, um morticínio abjecto e não estratégico ocorrido a escassos quilómetros da cidade de Tete antes do fim do ano de 1972, ou seja, pouco mais que dois anos e meio antes de terminarem as hostilidades com a rendição incondicional portuguesa à Frente de Libertação de Moçambique em Lusaka.

Ora, a maior parte do que foi dito em termos da apresentação de O Anjo Branco (o título é um double entendre, significando ao mesmo tempo o nome do herói da fita e o nome que era dado ao pai “real” do autor, o Dr. José Paz, que durante algum tempo andava na sua avioneta, de bata branca, a socorrer os doentes e feridos da então e agora província moçambicana), feita ainda por cima por Joaquim Furtado, um conhecido documentarista histórico da guerra, suplementado com menções de participantes e testemunhas do episódio de Wiryamu – a quem Rodrigues dos Santos foi apontando o dedo entre o anonimato da audiência – foi no sentido de sublinhar, quase ad nauseum, a infalibilidade factual do contexto e dos eventos ali ocorridos. Para sublinhar essa atenção ao detalhe, Rodrigues dos Santos até se deu ao trabalho de mostrar (apagando para tal as luzes na sala) duas fotografias que infelizmente não deram para ver bem, do local do massacre na altura. E do seu pai, a preto e branco, numa curta sequência em câmara lenta.

Mas não se parou aí. Rodrigues dos Santos  salientou repetidamente o detalhe da sua pesquisa e das informações que obteve, referiu que as cruzou com outros testemunhos, mencionou as dificuldades inerentes ao trabalho que fez(o seu pai e a irmã Lúcia, que estiveram no local em primeira mão, estão mortos) e as voltas que teve que dar para chegar ao que, na sua opinião, será uma versão “definitiva” dos factos.

Esta obsessão com a realidade é quase insólita num dito romance histórico – que por ter sido posto à venda apenas ontem e com 650 páginas, não foi ainda lido e tem que esperar para ser visto – e intriga-me.

Intriga-me porque, não sendo por definição um trabalho académico, aderindo assim a regras próprias que o tornam referenciável e uma base para análise e citação, qual afinal o objectivo de tanto cuidado, relacionado com o que o próprio autor refere como um pano de fundo quase secundário para uma obra de ficção?

Já viu o exmo Leitor o que seria se alguém, ao discutir consigo Tete e Wiryamu em 1972, dissesse qualquer coisa como “ah, mas no romance histórico do Rodrigues dos Santos diz que foi assim e assado e frito e cozido”.

Não vinga. Não pode vingar. Pela própria natureza do trabalho que é.

José Rodrigues dos Santos continua a observar, enquanto Joaquim Furtado continua a debitar o seu discurso.

Por essa razão, para quem esteve sentado uma hora e tal naquela desolada Sala de Leitura da Sociedade de Geografia a ouvir o que estava a ser dito, relacionado com uma obra de ficção assente em eventos históricos, a única questão era: porquê?

Porquê esta fixação?

A resposta é em parte porque sim.

Mas também talvez por que, como já vi acontecer antes, José Rodrigues dos Santos, que conheceu relativamente mal o seu pai e que teve a (justificada) curiosidade de saber mais sobre o quem o pai era e o que o pai fizera, deu-se ao trabalho de vasculhar o passado do pai para obter esses factos.

E tendo feito esse trabalho e tendo esses factos em mão, escolheu utilizá-los como base para uma obra de ficção. Uma obra de ficção com pano de fundo histórico em que – note-se-  inclusive o perfil do herói do enredo em quase tudo confunde-se perigosamente com o do seu próprio pai (aparentemente até no alegadamente descomunal tamanho do seu pénis do– essa parte já eu li).

De certa forma lamento que JRS não tenha querido fazer apenas uma (simples) biografia do seu pai, uma pessoa que na sua vida pública e profissional foi interessante e foi exemplar, pertencendo àquela pequena minoria de brancos em Tete naquela altura de que se pode dizer sem qualquer receio da habitual rotulagem ideológico-estereotipada-sociológica-colonial-da-treta, que ele merece igual respeito por ambos os lados do conflito moçambicano. É conhecido que ele (como aliás outros), em ambiente de guerra declarada, cuidava da mesma forma tanto tropas portugueses como membros da Frelimo e a população local – para além dos “colonialistas” residentes em Tete.

Desta forma, o que parece que o leitor da sua obra vai apreender, é uma imagem de alguém que parece o pai mas que foi ficcionado por Rodrigues dos Santos. Só mesmo ele saberá o que -na sua mente- é real.

E o que é que ele inventou.

Na sua felizmente mais curta intervenção, Rodrigues dos Santos deu por terminada a sessão dizendo que “não há sessão de perguntas porque ninguém leu o livro”, pediu dez minutos para falar com jornalistas ali presentes e disse que depois dava uns autógrafos. Como a bicha que imediatamente se formou me pareceu uma daquelas bichas do pão em Maputo aquando os distúrbios de 1-2 de Setembro (eu ia pedir uma assinatura dedicada ao nosso Senador, ausente por razões de logística) ou seja todos em cima uns dos outros, decidi que era boa altura de arrumar as botas e voltar a casa.

Assim, o nosso Senador vai ter que viver com uma muito mais desprestigiante dedicatória minha, estampada na minha cópia de O Anjo Branco.

Depois de ler o livro, poderei dizer algo mais.

22/10/2010

O PAI FICCIONADO

Filed under: José Rodrigues dos Santos — ABM @ 4:04 am

O painel de uma avioneta Cherokee Six de 1966 semelhante ao do utilizado pelo pai de JRS

por ABM (22 de Outubro de 2010)

Parace que “afenal” o livro de José Rodrigues dos Santos, que tem como pano de fundo Moçambique e a guerra de nove anos que acabou em Setembro de 1974, foi inspirado no seu pai, o Dr Paz (sobre o qual fiz uma nota no dia 14 p.p.).

O pai. Onde é que eu já vi isto?

Ah, mas neste caso o pai não é electricista nem bate no preto em ambiente colonial urbanonoir, nem cultiva uma estranha relação com a filha (neste caso o filho). Parece que este é herói genuíno. Mesmo.

Mas é um romance.

Ou seja, um obra de ficção. Com base no real.

Questão: ficção baseada no real ainda é ficção. Não? Ou há ponderação (tipo “isto é 70% real e 30% ficção” ou “o pai é o pai, mas os outros gajos todos inventei”)?

Um texto da Lusa, transcrita no Diário de Notícias de Lisboa de ontem, uma espécie de teaser pré-lançamento (pois que isto de vender livros é um negócio, não uma arte, ao contrário da escrita, que é ambas) refere o seguinte:

José Rodrigues dos Santos quis escrever “um romance como nunca tinha sido escrito sobre a guerra colonial e os portugueses em África” e o resultado é “O Anjo Branco”, inspirado na história do pai.

O protagonista deste oitavo romance de Rodrigues dos Santos chama-se José Branco, um médico que foi viver para Moçambique na década de 1960 e que, perante as enormes carências sanitárias do país, criou o revolucionário Serviço Médico Aéreo, deslocando-se num pequeno avião, o que lhe valeu o epíteto de “anjo branco”, por descer do céu vestido de branco.

“Inspirei-me no meu pai: o romance conta a história de um médico que é punido pela administração colonial e enviado para Tete, um sítio perdido no coração de África conhecido por ‘o cemitério dos brancos'”, disse o autor em entrevista à Lusa.

“Sob a responsabilidade do médico fica um território em Moçambique com o tamanho de Portugal continental. E, para dificultar ainda mais as coisas, começa entretanto a guerra. Como lidar com a situação? Este foi o cenário que o meu pai enfrentou em Moçambique e é aquele que se depara diante do personagem principal de ‘O Anjo Branco'”, revelou.

O escritor e jornalista da RTP, de 46 anos, decidiu contar esta história inspirada em factos reais, que lhe exigiu “muita investigação” — teve de “conversar com imensa gente, ver muita documentação e visitar por duas vezes os locais da acção em Moçambique” –, por considerar que “estava por escrever o grande romance português sobre a Guerra Colonial”.

“Fico com a impressão de que a literatura que se produziu sobre o assunto é complexada e colorida ideologicamente, com ‘bons’ de um lado e ‘maus’ do outro, ou então é bacocamente saudosista”, defendeu.
“Eu quis fugir a esses dois registos — sublinhou -, quis escrever um romance descomplexado que mostrasse as grandezas e as misérias, e também as contradições da nossa presença em África. Quis sobretudo escrever um romance como nunca tinha sido escrito sobre a guerra colonial e os Portugueses em África”.

Hum.

A província de Tete o cemitério dos brancos? desconhecia o rótulo. Para além do bom povo que lá vivia em digna pobreza, o que é que havia lá antes da Agora Revertida, para além daquela exploraçãozinha de carvão em Moatize, do comboio e da cidadezinha com o mesmo nome?

E note o exmo. Leitor na tocante modéstia do autor, acima falando da sua obra: “quis sobretudo escrever um romance como nunca tinha sido escrito sobre a guerra colonial e os portugueses em África”.

Um romance “descomplexado”.

O que é um romance descomplexado?

Há romances complexados?

Ou é crer-se descomplexado também um complexo?

Aqui fica-se na dúvida se o “um romance como nunca tinha sido escrito” significa que é por causa da postura inovadora desestereoetipada-fora -do-rame-rame-habitual, “descomplexado” – ou se o José acha (ou alguém lhe disse) que o texto é uma coisa do outro mundo. Um potencial Pullitzer, digamos (sim, porque não creio que um júri do Camões alguma vez leve a sério a sua actual verve).

Pois também pode-se ser descomplexado e não se ter qualidade.

Aliás, tirando aquele do Ricardo Saavedra sobre o 7 de Setembro que tem uma espécie de James Bond portuga que faz os fretes ao Jorge Jardim antes da Independência enquanto dá umas valentes quecas numa bifa em Joburg que não sabia o que era viver até conhecer o português intra-lençóis, não sabia que havia assim tantos romances publicados sobre a guerra colonial e os portugueses em África, e muito menos que todos se dividiam irmãmente entre a parte dos bons e dos maus e a parte dos bacocamente saudosistas (ou entre os complexados e os descomplexados).

Provavelmente porque tendo a não ler romances.

Na verdade, frequentemente, quando leio sobre factos, parece-me que estou a ler ficção.

Mas com estes cuidados todos e do que suspeito da atitude do Zé perante a sua produção literária, desconfio que o que ele escreveu não foi bem um romance.

Suspeito que aquilo é a base de um script para vender em Hollywood. Ah, aí sim, tem que se sair da trica afro-luso-doméstica que tanto nos entretém alegremente (inclusive aqui) e passar para outro plano. O povão aí pelo mundo não sabe nem quer saber dessas coisas.

Mas este fim de semana, quando o livro fôr posto à venda, logo se verá.

Se temos aqui o tal grande romance português sobre a Guerra Colonial.

POST- SCRIPTUM

Reproduzo sem comentário e com vénia uma entrevista concedida a Leonardo Ralha, publicada no Correio da Manhã de Lisboa de 21.10.2010.

O texto:

O massacre de Wiriyamu, que marcou os últimos anos da Guerra Colonial, é descrito em ‘O Anjo Branco’, romance de José Rodrigues dos Santos que chega amanhã às livrarias. O pai do autor é o protagonista

Correio da Manhã – Estava a viver em Tete quando ocorreu o massacre de Wiriyamu, feito por tropas portuguesas, que descreve no seu novo romance ‘O Anjo Branco’?

José Rodrigues dos Santos – Sim. Tinha oito anos na altura.

– A personagem principal é inspirada no seu pai, que foi um dos primeiros a ir a Wiriyamu. Soube que ele ficou sob custódia das Forças Armadas após descrever num relatório o que viu?

– Não tive consciência de nada. A minha mãe ocultou-o, como normalmente se oculta das crianças algo tão sério.

– Nunca lhe falou disso? Quando tomou consciência do que ocorreu a poucos quilómetros da sua casa?

– Creio que a minha mãe falou uma vez sobre o tema, mas não prestei muita atenção. Depois o José Pedro Castanheira fez para o ‘Expresso’ uma série de reportagens sobre o massacre e contactou-me para saber onde estava o relatório do meu pai. Isso despertou o meu interesse.

– Ponderou fazer uma reportagem em vez de uma obra de ficção?

– Acho a ficção um instrumento muito mais poderoso para relatar histórias. Na reportagem limitamo–nos aos factos, enquanto na ficção podemos construir melhor as personagens e usar cenas para transportar o leitor para aqueles tempos.

– Mas fez investigação jornalística, procurando quem conviveu com o seu pai em Moçambique.

– Não direi que foi jornalística. Falei com testemunhas, li documentos e fui a Moçambique duas vezes para reconstituir os acontecimentos.

– O regresso a Moçambique e à cidade da sua infância correspondeu às expectativas?

– Foi fascinante. A maioria das pessoas pode facilmente visitar o sítio onde viveu na infância. Eu não. Tete fica no coração de África.

– O protagonista nem sempre resiste ao adultério. Hesitou em descrever o seu pai desta maneira?

– O amor faz parte da vida e temos de encarar tudo de uma forma natural.

– Falou com o comandante da companhia de comandos responsável pelo massacre de Wiriyamu. Como foi a conversa?

– Quis saber por que mataram eles aqueles civis. Porque é que mataram crianças? Posso entender vagamente, sem concordar, que matem um rapaz de 18 anos que suspeitam ser guerrilheiro. Mas uma criança de 5 anos ou uma mulher? Ele disse-me que era preciso estar lá com eles, naquele contexto, para perceber. Em ‘Fúria Divina’ tentei explicar o que faz com que um radical da al-Qaeda mate civis inocentes. De certo modo foi um desafio semelhante.

– Há quatro anos, teve referências nada elogiosas à parte de ‘O Códex 632′ em que uma personagem promete “fazer sopa de peixe com o leite das mamas”. Incomoda-o se isso acontecer com ‘O Anjo Branco’, que tem desde o primeiro parágrafo referências ao facto de o protagonista ter “um pénis enorme”?

– Você é que parece estar incomodado com isso. Perturba-o haver essas características genéticas na minha família?

– As suas filhas já leram os seus livros? Tratando-se da história de um avô, vai deixar que leiam este?

– Claro. Quem me dera ter familiares que tivessem escrito romances inspirados na vida de outros familiares. Aprenderia decerto muita coisa.

– Qual foi o motivo de não se incluir no livro enquanto personagem?

– Se arranjasse filhos à personagem principal, isso complicaria imenso o romance. Não quis encher ‘O Anjo Branco’ de personagens sem relevância alguma para a narrativa.

“O LIVRO DIZ O QUE SE4 PASSOU, E PONTO FINAL”

CM – Lembra-se de quando decidiu escrever ‘O Anjo Branco’?

J.R.S. – Há duas origens. A primeira foi uma conversa com uma prima, após lançar ‘A Ilha das Trevas’. “Porque não escreves uma história baseada no que aconteceu com o teu pai?”, perguntou ela. Concordei mas fui interrompendo para escrever outros livros. Faltava-me o que se passou quando o meu pai esteve na aldeia. Ele já tinha morrido, e a freira espanhola que foi com ele também.

– Como resolveu o problema?

– No ano passado, quando estava a lançar ‘Fúria Divina’, uma senhora disse que tinha conhecido bem os meus pais e pediu para falar comigo. Combinei encontrar-me com ela para uma conversa de 15 minutos. Estávamos a meio quando ela disse que foi a Wiriyamu com o meu pai. Encontrei ali a testemunha.

– Face à polémica entre ex-militares e António Lobo Antunes, após declarações deste sobre abusos das tropas durante a Guerra Colonial, está à espera de ataques?

– Tudo o que está no romance, fora a intriga ficcional, está documentado. Não vejo como se possa contestar a verdade. Lobo Antunes assumiu pouco rigor na forma como se exprimiu, dizendo que o fez “de forma completamente metafórica” e que “factos não interessam nada”. Não é o meu caso. ‘O Anjo Branco’ não é um romance metafórico: diz o que se passou, e ponto final.

“PARA MIM ESCREVER NÃO É TRABALHO”

CM – Tem lançado um romance todos os anos. Como consegue conciliar a escrita com o trabalho na RTP e a sua família?

J.R.S. – Para mim escrever não é trabalho. Há quem vá ao centro comercial nas horas livres, há quem veja filmes, há quem passeie. Eu escrevo.

– Já pensou dedicar-se exclusivamente à escrita?

– Sou feliz a fazer o que faço. Para quê mudar? Gosto do meu trabalho enquanto jornalista e não vejo motivos para eliminar essa faceta da minha vida.

PAI UTILIZAVA AVIONETA COMO AMBULÂNCIA

José Rodrigues dos Santos diz que ‘O Anjo Branco’ não é “necessariamente” um livro sobre o pai, referindo que a história do médico de Tete “é só o fio condutor” que transporta o leitor para a Guerra Colonial em Moçambique. Mas ‘José Branco’ (o autor mudou este e outros nomes) é o protagonista desde a primeira página do romance que acaba com o embaixador em Londres a inquirir a Marcello Caetano sobre se ouviu falar de Wiriyamu.

Depois de tirar o curso de Medicina, José Paz Rodrigues dos Santos rumou a Moçambique, onde se tornou director do Hospital de Tete. E foi ao reparar no número de pessoas que demoravam dias a percorrer quilómetros para ter assistência médica que começou a percorrer localidades em viagens aéreas.

Contando com o apoio das autoridades e com o financiamento da Gulbenkian, criou o Serviço Médico Aéreo de Tete. Aos comandos de um pequeno Piper Cherokee, aterrava em pistas improvisadas para dar consultas e distribuir remédios.

“O distrito de Tete, onde fundou o Serviço Médico Aéreo, tem o tamanho de Portugal Continental. Era como se ele estivesse em Coimbra e voasse para Bragança e a seguir para Vila Real de Santo António. Era uma tarefa ciclópica”, diz o autor de ‘O Anjo Branco’, que chegou a acompanhar o pai nas viagens. “Lembro-me de entrarem doentes e feridos para o avião, que era usado como ambulância. E também das paisagens.”

POST- SCRIPTUM 2

Reproduzo sem comentário e com vénia uma nota  publicada no Diário Digital de Lisboa de 22.10.2010. Isto já começa a cheirar a usar o massacre de Wiryiamu, ocorrido no fim de 1972, para promover a venda de um livro. Se calhar ainda bem, tira-se o tema a limpo.

«O Anjo Branco» divulga fotos do massacre de Wiriyamu – As fotografias do massacre de Wiriyamu, perpetrado em Moçambique por comandos portugueses em Dezembro de 1972, serão pela primeira vez divulgadas em público no sábado, dia 23 de Outubro, pelas 17h00, na Sociedade de Geografia de Lisboa, concretamente durante a cerimónia de apresentação do novo romance de José Rodrigues dos Santos, «O Anjo Branco», editado pela Gradiva.

14/10/2010

O SEGREDO ATERRADOR DE JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS

Filed under: José Rodrigues dos Santos — ABM @ 12:37 am

José Rodrigues dos Santos

por ABM (13 de Outubro de 2010)

Cito do sítio da editora Gradiva:

Chama-se O Anjo Branco, o novo romance de José Rodrigues dos Santos que a Gradiva, em parceria com as Livrarias Bertrand, irá lançar no mercado daqui a duas semanas.

Baseando-se em factos reais, José Rodrigues dos Santos traz-nos desta vez uma obra inesquecível sobre Moçambique, os portugueses e a guerra colonial e, sobretudo, acerca do mais aterrador segredo de Portugal no Ultramar.

A apresentação da obra, que estará a cargo do jornalista Joaquim Furtado, está marcada para sábado, dia 23 de Outubro de 2010, às 17h00 na Sociedade de Geografia de Lisboa, (Rua das Portas de Santo Antão, n.º 100, ao lado do Coliseu dos Recreios), à qual se seguirá uma sessão de autógrafos.

A capa da obra a ser publicitada no dia 23 de Outubro.

É um sábado. Então, quem vai lá ver o cerimonial? a coisa promete, especialmente se se trata do “mais aterrador segredo de Portugal no Ultramar”. Não imagino o que será.

SOBRE JRS

José Rodrigues dos Santos nasceu em Moçambique. O pai dele, nome de guerra Dr. Paz (o nome completo é José da Paz Brandão Rodrigues dos Santos), uma pessoa excepcional, era médico na zona de Tete nos anos 60 e 70.

Em Tete, JRS à direita, com o pai e o irmão João.

Adorava voar e era piloto dum pequeno avião tipo “teco-teco”(matrícula 493-CR-AKS), que voava por toda a região com uma ou mais enfermeiras, para tratar as populações locais, num programa conjuntamente patrocinado pela Fundação Gulbenkian e pela Cruz Vermelha Internacional, denominado Serviço Médico Aéreo. A mãe dele era farmacêutica em Tete. Em 1973, na sequência da entrega, pelo Dr. Paz, de um relatório de um comité de averiguação do chamado Massacre de Wiryamu para o qual fora convidado a presidir, a família mudou-se (JRS terá dito que fora “convidado” a mudar-se) para Lourenço Marques. Entre 1974 e 1977, na sequência do que lá estava a acontecer, todos foram viver para Portugal, o pai de JRS primeiro para Penafiel (onde nasceu, tendo-se formado em medicina no Porto) e mais tarde para Macau. Entre vários cargos de relevo, foi Vice-Presidente da Organização Mundial da Saúde para a região da Ásia. Morreu em princípios de 1986, tendo então JRS apenas 22 anos de idade.

O pai de JRS em acção: o Dr. Paz e a sua equipa a transportar um doente em Tete

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