THE DELAGOA BAY REVIEW

09/01/2012

CONVITE PARA O LANÇAMENTO DO LIVRO “LOURENÇO MARQUES 1951-65 – ACERTO DE CONTAS COM O PASSADO”

Filed under: Cultura, Nuno Roque da Silveira — ABM @ 3:20 pm

Não sei ainda qual é o tópico exacto, mas como é um dos irmãos Silveira, aqui vai.

 

O convite. É em Lisboa.

25/12/2011

HAVIA ÁFRICA NO TEU OLHAR, DE MARIA ISABEL ANTUNES

Filed under: Cultura, Maria Isabel Antunes — ABM @ 3:08 pm

Poema de Isabel, encaminhada há três anos pelo Fernando de Pinho Morgado para o seu sobrinho Paulo, que entretanto mo enviou hoje. Não sei quem é a Isabel, que acho que é a Maria Isabel Antunes.

HAVIA ÁFRICA NO TEU OLHAR

Havia África no teu olhar,
E foi nela que me perdi,
Por entre flores de buganvília,
Mistérios de africana, magia.

Julguei nele vislumbrar,
Encantos do mato onde nasci,
Terra molhada a ressuscitar,
Queimada na noite, aqui e ali.

Madrugada nas picadas,
Sons da selva despertando
E feitiços se desfazendo,

Ao romper do sol, tão meu,
Afago de amor ardente,
Na minha saudade, presente.

Isabel

01/12/2011

O FADO PORTUGUÊS MAIS MOÇAMBICANO

Em baixo, o fado, cantado pela diva.”] Crónica dedicada à Maria João Quadros e ao José Luis Silva.

A propósito de se achar que o fado passou a ser mais hoje que há uma semana.

Hoje em dia é quase politicamente incorrecto alguém debruçar-se sobre o que é e o que era – pelo menos para alguns – ser-se, ou ter-se sido, português em Moçambique. Por todas as razões e mais alguma, a experiência, sustentada nos alicerces de uma imposição colonial, ruiu como um baralho de cartas. Se não necessariamente assim, tinha que ser. A esmagadora maioria dos cerca de (e meros) vinte mil portugueses que por lá andam estes dias nem suspeitam como foi e, às vezes infeliz e caricatamente, focam-se quase unicamente na sua recém-adquirida “moçambicanização”, vestindo toscamente a nova capulana cultural, dizendo “maningue”, deixando aquilo que são metido na gaveta para quando vão de férias à terrinha ver os familiares, os amigos do liceu e fazer umas comprinhas à FNAC no Colombo. Como se enganassem alguém com essa postura, em particular os moçambicanos. Em Portugal, tornam-se estrangeirados – o termo vernacular mais venenoso é “cafrealizados”, estatuto que a RTP Internacional e a internet atenuam de alguma forma. Confrontados por alguns locais com um passado sobre o qual leram nas sebentas, e os que lá estiveram antes, são displicentes e categóricos: esses não eram portugueses como eles. Eram muito piores: eram todos racistas, colonialistas, ressabiados (afinal a despossessão sumária dos seus bens e experiências sem apelo nem agravo será, para estes, justa e merecida) e agora, ainda por cima, saudosistas, termo que de vez em quando estudo com assumido sentido de humor e que, do que assisto, rotula quase tão perfeitamente quem o profere como a quem se dirije.

Tudo isto tão vão como inconsequente, no tempo e numa era de vertiginosa globalização, em que, dentro de vinte anos quase ninguém de entre as partes envolvidas estará vivo para dizer como foi.

Atrás ficarão os mitos, por mais algum tempo.

Depois, tudo será esquecido.

Excepto uns registos resumidos do passado, manietados pelas ideologias prevalecentes, a língua colonial, agora na posse plena das duas populações, e os vultos sorumbáticos das estruturas arquitectuais e demais infra-estrutura, sombras discretas de um passado adivinhado.

Como foi ser-se português, numa estranha diáspora algures no meio da África Oriental Portuguesa, na reluzente Lourenço Marques colonial, nos anos 30, 40, 50 do século XX?

É assunto que daria panos para mangas. No substrato, o enorme confronto entre a pequenez, a tacanhez, a falta de oportunidade e o espartilho social, económico e até moral a que os indígenas portugueses referem em relação à sua terra, e a oportunidade, os “horizontes mais largos” (termo usado por José Maria Tudela numa entrevista ao Correio da Manhã, 23 de Agosto de 2002) e a óbvia descompressão social, moral e material encontrada no caldo colonial urbano moçambicano.

Em que, admita-se, a esmagadora maioria dos moçambicanos negros, excluídos das cidades e da economia, eram pano de fundo. Envolvente, mas pano de fundo mesmo assim.

Apanhado numa geração de transição, eu próprio já só apanhei sombras desses tempos ao mesmo tempo bucólicos e turbulentos, de cujo fim Rui Knoply deu aviso claro num majestoso poema. Felizmente, através de preciosos conhecimentos aqui e ali, vou apanhando histórias, escritos, recolho impressões desse outro mundo e cujo chão me viu nascer.

Assim, aqui assinalo, pela segunda vez neste blogue, e a propósito de o fado (juntamente com a música da mariachi mexicana) ter sido decretado “património imaterial da humanidade, uma pequena mas inesquecível manifestação dessa era.

Este fado – Uma Casa Portuguesa – foi composto pelo Maestro Artur Fonseca, que dirigia a orquestra de salão do Rádio Clube de Moçambique, com letra de Reinaldo Ferreira, poeta e bardo que andou anos por Lourenço Marques, onde morreu e que (ainda) está sepultado no cemitério hoje abandonado do Alto-Maé em Maputo, e Vasco Matos Sequeira, na altura um reconhecido jornalista e poeta, cujo pai, Gustavo, era historiador.

Cantado pela primeira vez pela angolana Sara Chaves no Teatro Manuel Rodrigues em Lourenço Marques numa quase certamente quente noite de uma 4ª feira, 30 de Janeiro de 1952, num sarau em honra de uma delegação do Colégio Militar de Lisboa, que então visitava Moçambique.

Mais tarde memoravelmente interpretado pela diva, Amália Rodrigues.

Este fado é alegre, musicalmente agradável, reprodutor de uma exo-saudade idílica e exageradamente generoso, em parte porque não tropeça nas muitas razões que fizeram com que Portugal, uma miserável pequena ditadura e uma sociedade em quase tudo parada no tempo, fosse um tão apetecível lugar de onde se emigrar. Bom para ser escrito e composto numa mesa do Café Scala em Lourenço Marques, num dia de verão, enquanto se bebia uma Laurentina e mastigava uns tremoços.

Naquela altura, Portugal só era lindo para quem estava em Moçambique porque estava tão longe.

Vindo a sua letra da mão de Reinaldo Ferreira, que supostamente foi comparado apenas com Fernando Pessoa por António José Saraiva e Óscar Lopes e de quem se terá dito ter “o mesmo sentir pensado, a mesma disponibilidade imensamente céptica e fingidora de crenças, recordações ou afetos, o mesmo gosto amargo de assumir todas as formas de negatividade ou avesso lógico”, o poema só pode ser interpretado como um dos mais sublimes exercícios de sarcasmo dos afectos concebidos na língua portuguesa. Talvez aí tenha estado a mão de Vasco Matos Sequeira.

Mas este fado nunca foi visto nem apercebido como tal, em parte por se enquadrar tão precisamente na grelha popularucho-travestipoética prevalecente e imposta nos círculos de então.

Nesse aspecto, para mim, será sempre um fado moçambicano, dos tempos em que alguns ali viviam uma forma muito peculiar de se ser português.

Em que a distância, a saudade e o isolamento se prestavam à alegoria.

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16/09/2011

SOBRE O SAUDOSISMO: A SAUDADE

O África atraca no Cais Gorjão em Lourenço Marques, princípio do Século XX..

Anónimos que me parecem brasileiros compilaram na Wikipédia a seguinte discorrência sobre o termo “saudade”. O texto estava um tanto indigesto por isso dei-lhe um retoque mínimo. Aqui vai.

SAUDADE

Saudade é uma das palavras mais presentes na poesia de amor da língua portuguesa e também na música popular, “saudade”, só conhecida em galego e português, descreve a mistura dos sentimentos de perda, distância e amor.

A palavra vem do latim “solitas, solitatis” (solidão), na forma arcaica de “soedade, soidade e suidade” e sob influência de “saúde” e “saudar”.

Diz a lenda que foi cunhada na época dos Descobrimentos e no Brasil colonial esteve muito presente para definir a solidão dos portugueses numa terra estranha, longe de entes queridos. Define, pois, a melancolia causada pela lembrança; a mágoa que se sente pela ausência ou desaparecimento de pessoas, coisas, estados ou ações. Provém do latim “solitáte”, solidão.

Uma visão mais especifista aponta que o termo saudade advém de solitude e saudar, onde quem sofre é o que fica a esperar o retorno de quem partiu, e não o indivíduo que se foi, o qual nutriria nostalgia.

A gênese do vocábulo está directamente ligada à tradição marítima lusitana.

A origem etimológica das formas atuais “solidão”, mais corrente e “solitude”, forma poética, é o latim “solitudine” declinação de “solitudo, solitudinis”, qualidade de “solus”. Já os vocábulos “saúde, saudar, saudação, salutar, saludar” proveem da família “salute, salutatione, salutare”, por vezes, dependendo do contexto, sinónimos de “salvar, salva, salvação” oriundos de “salvare, salvatione”.

O que houve na formação do termo “saudade” foi uma interfluência entre a força do estado de estar só, sentir-se solitário, oriundo de “solitarius” que por sua vez advém de “solitas, solitatis”, possuidora da forma declinada “solitate” e suas variações luso-arcaicas como suidade e a associação com o acto de receber e acalentar este sentimento, traduzidas com os termos oriundos de “salute e salutare”, que na transição do latim para o português sofrem o fenômeno chamado síncope, onde perde-se a letra interna l, simplesmente abandonada enquanto o t não desaparece, mas passa a ser sonorizado como um d. E no caso das formas verbais existe a apócope do e final.

O termo saudade acabou por gerar derivados como a qualidade “saudosismo” e seu adjetivo “saudosista”, apegado à ideias, usos, costumes passados, ou até mesmo aos princípios de um regime decaído, e o termo adjetivo de forte carga semântica emocional “saudoso”, que é aquele que produz saudades, podendo ser utilizado para entes falecidos ou até mesmo substantivos abstratos como em “os saudosos tempos da mocidade”, ou ainda, não referente ao produtor, mas aquele que as sente, que dá mostras de saudades.

Recentemente, uma pesquisa entre tradutores britânicos apontou a palavra “saudade” como a sétima palavra de mais difícil tradução.

Pode-se sentir saudade de muita coisa:
de alguém falecido.
de alguém que amamos e está longe ou ausente.
de um amigo querido.
de alguém ou algo que não vemos há imenso tempo.
de alguém que não conversamos há muito tempo.
de sítios (lugares).
de comida.
de situações.
de um amor
do tempo que passou…

A expressão “matar a saudade” (ou “matar saudades”) é usada para designar o desaparecimento (mesmo temporário) desse sentimento. É possível “matar a saudade”, e. g., relembrando, vendo fotos ou vídeos antigos, conversando sobre o assunto, reencontrando a pessoa que estava longe etc. “Mandar saudades”, por exemplo no sul de Portugal, significa o mesmo que mandar cumprimentos.

A saudade pode gerar sentimento de angústia, nostalgia e tristeza, e quando “matamos a saudade” geralmente sentimos alegria.

Em Portugal, o Fado, oriundo do latim “fatum”, destino, está directamente associado com este sentimento. Do mesmo modo, a sodade cabo-verdiana está intimamente ligada ao género musical da morna. No Brasil, esse sentimento está muito retratado no samba de fossa e na bossa nova.

Em galego, além do termo saudade, existe o próximo “morrinha”, que em português é associado à doença animal.

(fim)

SOBRE O SAUDOSISMO, O LITERÁRIO E O OUTRO

Filed under: Cultura, O Saudosismo Literário — ABM @ 5:07 am

Os Bons Velhos Tempos.

Sobre este termo, “saudosismo”, displicentemente aplicado a muitos do que viveram na África colonial, especialmente pelos putativos apóstolos da neo-crafealização perfumada, supostamente mais politicamente correcta que a outra, que ainda analiso, encontrei uma curiosa descrição de um movimento literário português do início do século XX.

Interessante ler, porque, salvaguardas algumas diferenças de tempo e género, as duas se relacionam, se algo inversamente.

O texto é de Jacinto do Prado Coelho, em Dicionário da Literatura Portuguesa, 3ª edição, 4º Volume (Porto: Figueirinhas, 1979), decalacado de O Farol das Letras:

O Saudosismo Português

(É um) movimento literário, essencialmente poético, que se insere na actividade da sociedade portuense «Renascença Portuguesa», fundada por Jaime Cortesão, Álvaro Pinto, Teixeira de Pascoaes e Leonardo Coimbra, e cujo órgão foi a revista A Águia (1910-1932), propriedade dessa sociedade a partir de 1912 (início da 2.ª série). Nessa data, passaram a ser directores da revista (respectivamente literário, artístico e científico) Teixeira de Pascoaes, António Carneiro e José de Magalhães.

O Saudosismo, no sentido estrito, é uma atitude perante a vida que, segundo Pascoaes e muitos outros, constitui feição típica da literatura portuguesa, tanto culta como popular, logo traço definidor da «alma nacional». Essa atitude interpretou-a o autor de Marânus atribuindo à saudade amplas dimensões e profundo significado, arvorando-a mesmo em princípio enformador dum ressurgimento pátrio. A atmosfera mental portuguesa estava então impregnada do idealismo e do nacionalismo tradicionalista que se haviam desenhado na última década do séc. XIX e de que Alberto Oliveira fora um primeiro doutrinador.

Segundo Joel Serrão, a ideação de Sampaio Bruno exposta em O Encoberto (1904), em que se debruça sobre a decadência dos povos peninsulares, «exerceu influência decisiva, conquanto difusa (como é timbre do esoterismo) nas ideias-forças da ‘Renascença Portuguesa’ (1912) e constituiu, possivelmente, um dos impulsos iniciais do saudosismo». A «Renascença Portuguesa» congregou muitos espíritos animados do desejo de, agindo no plano da cultura, promover a reconstrução do país, minado pelas dissenções políticas que a instituição da República não viera sanar.
A maioria dos colaboradores d’ A Águia aceitou Pascoaes como seu mentor, quer dizer, aderiu ao Saudosismo, perfilhou a doutrina formulada por Pascoaes no limiar do 1.º volume da 2.ª série. A Pátria – diz ele – anda tacteando no caos. «É preciso, portanto, chamar a nossa Raça desperta à sua própria realidade essencial, ao sentido da sua própria vida, para que ela saiba quem é e o que deseja. E então poderá realizar a sua obra de perfeição social, de amor e de justiça, e poderá gritar entre os Povos: Renasci!» Ora aquela «realidade essencial» consiste na Saudade maiusculada: «A Saudade é o próprio sangue espiritual da Raça; o seu estigma divino, o seu perfil eterno. Claro que é a saudade no seu sentido profundo, verdadeiro, essencial, isto é, o sentimento-ideia, a emoção reflectida onde tudo o que existe, corpo e alma, dor e alegria, amor e desejo, terra e céu, atinge a sua unidade divina». Está assim determinado o rumo da «Renascença Portuguesa»: «continuarei sempre a afirmar que o movimento da Renascença Portuguesa se faz e fará dentro da Saudade revelada, a qual se ergue à altura duma Religião, duma Filosofia e duma Política, portanto. Dentro dela, Portugal, sem deixar de ser Portugal, poderá realizar os maiores progressos de qualquer natureza». Sem claramente nos dizer como tais ideias se vinculam à Saudade, Pascoaes preconiza um Portugal agrário, uma organização municipalista e uma Igreja independente. Leonardo Coimbra dá-lhe inteiro apoio; vê em Pascoaes o Profeta; a propósito do Deus infante cujo advento se anuncia no Regresso ao Paraíso, escreve euforicamente: «Olhai a sua melancolia feita de vida e não de morte, é a melancolia da Saudade, que é tão-só a concentração do Espírito apreendendo-se no drama da sua essência. É D. Sebastião que volta! […] Alvorece a nova religião, a alma portuguesa vai possuir-se em Deus». O próprio Pascoaes identifica o Saudosismo com um sebastianismo esclarecido, revelado pelos novos poetas. Jaime Cortesão igualmente procura no passado, nas fontes genuínas da nacionalidade, a inspiração para um futuro de grandeza renovada; as suas palavras vibram dum optimismo messiânico: a Árvore da Raça «tem de entranhar bem as raízes na Terra-Mãe, banhar-se na seiva original e então os ramos subirão a perder de vista e as naus da aventura, instrumento do nosso Destino, hão-de ir no Céu à descoberta das certezas divinas». Colaborando n’ A Águia com uma série de artigos sobre «A Nova Poesia Portuguesa», o jovem Fernando Pessoa afirma que os poetas saudosistas anunciam o pensamento da «futura civilização europeia» – um transcendentalismo panteísta -, e que portanto essa futura civilização europeia será «uma civilização lusitana». Deve estar para muito breve – acrescenta profeticamente – o aparecimento do poeta supremo da nossa raça e, ousando tirara a verdadeira conclusão que se nos impõe […], o poeta supremo da Europa, de todos os tempos […] e a nossa grande raça partirá em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas ‘daquilo de que os sonhos são feitos’. E o seu verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal ante-remedo, realizar-se-á divinamente». O futuro vate da Mensagem integra-se, como se vê, no clima de exaltação sebastianista dos poetas d’ A Águia. É mais um patriota místico, pronto a embarcar para o reino da Quimera, embora adivinhemos por detrás desta atitude uma deliberação mental.

Claro está, enquanto doutrina político-social (tal como Pascoaes a expõe em vários escritos, designadamente a Arte de Ser Português), o Saudosismo não podia satisfazer os espíritos com exigência de positividade e articulação lógica. Em breve António Sérgio e Raul Proença, sócios da «Renascença Portuguesa», manifestaram o seu desacordo, travando o primeiro correspondência polémica com Pascoaes nas colunas d’ A Águia. Temperamentos inconciliáveis, falavam linguagens diversas. Sérgio acusou Pascoaes dum pensamento demasiado utópico e passadista, fechado num lusitanismo xenófobo, provinciano, incompatível com o moderno espírito europeu. O idealismo do poeta d’ As Sombras desprezava o progresso técnico, substimava as realidades económicas, atribuía imaginosamente a um estado de alma deprimente, passivo, virtualidades construtivas. O que era preciso era cortar com a tradição nacional de isolamento sonhador, paralisante. A tese de Sérgio «é que o progresso moral dum povo está dependente do seu progresso económico». Em resumo, no seu entender, o Saudosismo não passava de nova manifestação do « temperamento fantasista, impulsivo, inconsistente, – por uns classificado de idealista e por outros de retórico -, que nos formou a velha sina de conquistadores e aventureiros, retardatários da Cavalaria». Esta primeira dissidência havia de conduzir ao aparecimento da Seara Nova.
[…]
Nas colunas d’ A Águia encontramos lado a lado poetas já feitos, com individualidades marcadas: um Teixeira de Pascoaes, um António Correia de Oliveira, um Afonso Lopes Vieira. Define-os em conjunto um neo-romantismo espiritualista e lusitanizante que se compraz em evocar tradições e em cantar a terra portuguesa; os dois primeiros exprimem uma religiosidade vagamente panteísta, são visionários de tom profético, de «verbo escuro», enquanto Lopes Vieira parece menos «inspirado», cultiva como esteta consciente, de forma límpida, trabalhada, um neogarrettismo professo; a sua intuição de homem culto leva-o a glosar temas e formas típicos da História, da lenda, da literatura culta e popular.
[…]
Todos estes poetas se podem definir como neo-românticos (descontando o esmero estético de Lopes Vieira e o modernismo ou modernidade de Afonso Duarte, ambos artistas muito conscientes): são intuitivos, expansivos, exclamativos, inclinados à oratória; oscilam entre o historicismo e o popularismo; dos românticos e dos simbolistas herdam o gosto da paisagem crepuscular e outoniça, confundida com estados de alma saudosos; mesmo quando evocam a terra da infância (o Marão de Pascoaes, o Alentejo de Mário Beirão), imaterializam, transfiguram os lugares, povoam-nos de sombras e de espectros, embebem-nos de alma. Fernando Pessoa observa que, para os saudosistas, «matéria e espírito são […] reais e irreais ao mesmo tempo»; que eles operam ao mesmo tempo a cada passo a «materialização do espírito» e a «espiritualização da matéria». E cita como exemplos típicos os versos de Pascoaes «A folha que tombava / Era alma que subia», e expressões como «choupos de alma» de J. Cortesão. Afonso Duarte fala em «tardes de alma», «êxtases de árvores», «crepúsculo de mágoa» – imagens que logo lembram o autor de Marânus. É um espaço subjectivo, o indefinido, o ausente, o que fica «para além», que estes poetas tentam sugerir. «Há paisagens que são almas rezando» – lemos em Augusto Casimiro. «Tarde absorta», «longes moribundos», «um íntimo sorriso / De além de ti» – escreve Mário Beirão. Visão mística, animista, da Natureza, em que tudo se esfuma em vagos anseios, quimeras, vida etérea, «verbo etéreo»- É este o lado mais propriamente saudosista (em certa medida «escolar», sob a égide de Pascoaes) dos poetas d’ A Águia. A par disto, o bucolismo, o folclorismo, certo alor sentimental. Quanto à linguagem poética, um regresso: herdeiros do Junqueiro d’ Os Simples e das Orações, ligados também ao romantismo neogarrettista de Nobre, os saudosistas pouco aproveitaram da experiência formal do Simbolismo; preferem uma expressão mais tradicional, mais clássica, o «verso escultural» de Pascoaes; não se demoram num esforço de análise do subconsciente, são muito menos modernos e europeus que os poetas – afinal contemporâneos – do Orpheu. Daí o desentendimento entre Pascoaes e F. Pessoa, que cedo abandonou A Águia, onde o seu espírito renovador se sentia constrangido.

Como tentativa de interpretação da chamada «psique nacional», o Saudosismo deu relevo, com mais penetração e insistência do que nunca, ao complexo de valores espirituais de que a saudade é portadora e à sua importância como traço definidor. Na definição de Pascoaes, o carácter saudoso portruguês realiza a harminia mais perfeita entre o paganismo e o cristianismo, a Presença e a Ausência, a Alegria e a Tristeza – mas harmonia instável, dinâmica, sempre a fazer-se, princípio de permanente renovação. A Saudade é, pois, segundo o poeta, muito mais que o estado sentimental a que se refere o conceito corrente; pela vivência desse estado e pela reflexão exercida sobre ele, Pascoaes elevou-se a uma concepção geral do Homem e do mundo, concepção de raiz portuguesa mas de alcance universal – a mensagem lusíada. Pela saudade, o Homem reage, responde à sua situação concreta no mundo. Sofre a dor de ser imperfeito, a nostalgia da pura vida anímica, a «divina saudade» ou saudade de Deus que Pascoaes assinala já em Fr. Agostinho da Cruz. Realiza o ausente por obra e graça da imaginação; inventa Deus. «O homem, em virtude do seu poder saudosista, de lembrança e esperança, eleva-se da própria miséria e contingência à contemplação do reino espiritual, onde as coisas e os seres divagam em perfeita imagem divina» (Arte de Ser Português, p. 155). Naturalmente, aqueles que, nos últimos anos, dando primazia ao pensamento intuitivo criador de mitos («quanto mais poeta mais filósofo»), procuram fundamentar uma filosofia genuinamente portuguesa, ou galaico-portuguesa, destinada a projectar no mundo os dois povos irmãos, encontram no Saudosismo grande riqueza de sugestões e uma preciosa linha de rumo.

(fim)

10/01/2010

THE BEST OF ISABELA FIGUEIREDO

o horizonte nos contempla

por ABM (Alcoentre, 9 de Janeiro de 2010)

Fernanda Câncio, a putativa (segundo certa imprensa) namorada do actual primeiro-ministro português, José Sócrates, e fogosa escriba num Diário de Notícias infelizmente cada vez menos de referência, escreveu um curioso texto – que saiu na sua edição de hoje – sobre uma sra chamada Isabela, que, depreendo da leitura, como muitos de nós saiu um pouco a pontapé do Moçambique pós- independente e revolucionário aos 12 anos de idade, e sobre um livrinho que ela escreveu e que acabou de ser publicado, que dá pelo nome algo enigmático de Caderno de Memórias Coloniais.

Que não li.

Mas li o comentário de Câncio, que sempre vale alguma coisa e que me deixou algo mistificado.

Vamos por partes.

Deixou-me algo mistificado porque a Fernanda que, como já vi outras pessoas dizer noutras ocasiões, deve perceber tanto da realidade colonial como eu de física nuclear, começa por colocar legiões de “retornados” num vasto manicómio virtual, todos mentirosos e todos vivendo numa ilusão colectivamente induzida com o fito de não enfrentar uma inconfessável série de “crimes contra a Humanidade”, que, lá vai o argumento, só pode ser o que (no meu caso) os nossos pais e avós andaram todos lá pelas Áfricas durante séculos a cometer contra os nativos. Voluntária e até empenhadamente e, no caso do pai da Isabela, com requintes de malvadez.

Isso a acrescentar àquela outra Grande Ilusão Colectiva dos brancos e portugueses da África portuguesa (nunca os de cá, coitados) claro, a de que aquilo era “nosso”. Que se sabia perfeitamente que não era, especialmente a posteriori.

Bem, todos – especifique-se – menos a sua amiga Isabela.

No seu caso, Fernanda diz que a Isabela baseou os Cadernos nos seus escritos, alguns dos quais foi colocando num blogue de que nunca ouvi falar antes na minha vida, que alimenta regularmente e que se chama – algo deceptivamente – Mundo Perfeito. Bem, não pode ser assim tão perfeito como isso, se a imagem de cabeçalho que a Isabela escolheu para a porta do seu blogue é um corpo de mulher de cuecas e com cabeça de cão, sentada numa estufa com flores. É uma invocação que diz muito. Para mim uma alegoria de um mundo perfeito ( aquilo a que Sir Thomas More chamou em tempos de Utopia )podia ser a fotografia acima – mais ou menos. E ainda tem à porta da estufa retinintes e polidos avisos sobre os seus direitos de autora, que, na minha experiência na internet, são ah tão simpáticos como não valem um caracol furado. Neste meio a ofensa não se combate com avisos, combate-se com unhas e dentes.

Ou ignora-se.

Ora eis algo que não me ocorrera antes, isto de ter um blogue na internet, onde vou escrevinhando umas coisinhas e um belo dia, imagino que para aqueles que não têm internet, arranjo uma editora e escarrapacho tudo outra vez numa publicação, à laia de The Best of Maschamba. Bem, sempre tira a impressão fungível e a desconfortável sensação de estar sózinho num submarino e que as palavras que aqui escrevemos em suporte incompreensivelmente electrónico, pareçam um pouco menos aquilo que os americanos chamam pissing in the wind (no nosso vernacular, fazer chichi ao vento). Tenho que falar com o nosso Senador e a Sra Baronesa em reunião de Conselho de Machamba, mas receio que, numa futura edição do Caderno de Memórias Maschambianas, eu seja sumariamente relegado para uma recôndita nota de rodapé.

E lá se iria a etérea sensação da imortalidade literária.

Mas podia oferecer cópias dos livrinhos pelo Natal, o que com um blogue, admita-se, não se pode fazer.

A mistificação do comentário publicado no DN sobre a Isabela tem que ver com a evocação de um passado moçambicano que mais parece uma longa e pesada sessão de terapia duma branca com sentimentos negativos sobre a sua experiência africana e, quiçá, sobre o seu estatuto de retornada num Portugal revolucionário e recém-exorcizado da sua experiência colonial-bélica. Pelo meio, vagueiam ideias da injustiça daquilo tudo, o trauma do (presumo) rescaldo do 7 de Setembro de 1974 e ainda o fantasma do pai, que, recita, chamava coisas feias aos colonizados com pele mais escura e que, num contexto em que – creio – ninguém tinha “direitos”, tinham ainda menos que os colonizados mais clarinhos. A Fernanda, cuja experiência africana (e muito menos moçambicana) repito, desconheço por completo, arremata, no que presumo possa apenas ser uma infeliz exaltação literária, dizendo que vivia-se (em Moçambique) num país onde se podia atropelar um negro e não ir para a prisão. Pois. E esqueceu-se de referir que comíamos meninos pequenos para o matabicho.

Decorre que com a independência tudo isso acabou. E que com os assassínios de brancos por representantes armados da maioria negra nos arredores de Lourenço Marques em 1974 fez-se, apenas, justiça. Ai sim Fernanda? hum, sorte, então eu ter sobrevivido aquela pouca vergonha toda, e não graças à sua boa vontade.

Há aqui dois aspectos que me induzem a pensar que talvez este tipo de intro-retrospecção tenha que ser trabalhado um bocadinho mais.

O primeiro aspecto é que, segundo a Fernanda, cuja retórica para estes efeitos, aceite-se, é mais ou menos irrelevante, a Isabela saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade. Se calhar viajámos os dois no mesmo avião da TAP em alturas diferentes, só que eu tinha 15 anos de idade, diferença que importa para efeitos desta discussão. Pelo menos eu já não era virgem, naquele e em muitos outros aspectos da vida.

Ora, para alguém que saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade, a análise global da situação que a Fernanda diz que a Isabela faz, a crer-se biográfica e despida de preconceitos e análises que só possam ter sido posteriormente adquiridos, devem ser deveras de assombrar, vindos de uma miúda. A minha irmã mais nova, que tinha a mesma idade e teve o mesmíssimo percurso que a Isabela, mal sabia jogar ao berlinde. E lá em casa ainda estamos à espera dos seus cadernos.

Mas admita-se que pode ser que seja a nua verdade no seu caso pessoal, em que a forma como pinta o pai assusta mais que o papão colonial-racista. O que refere dava para horas e horas (e horas e horas) de sessões de psicoterapia.

Mas não logra por um segundo pintar uma realidade maior.

O segundo aspecto é que, por minha parte – e já o tentei explicar uma vez ao JPT e sob pena de me repetir – ao contrário de alguns eu vivi lá, e no meu microcosmo o pai BM e a quase totalidade das pessoas com quem contactava, não chamava nomes a ninguém, branco ou preto, eu não era inibido de me dar com ninguém com base na cor da pele e, se não disputo (mas não desta maneira) a sustentabilidade do tal “ídilio colonial” de Lourenço Marques que a Fernanda diz que não existia (existia, sim, que chatice), pintar essa era e todas as vastas e complexíssimas relações pessoais, económicas, sociais e raciais de Moçambique no fim da era colonial em Lourenço Marques com um simples rótulo de “racismo” e “abuso” é totalmente descabido. É falso. É absurdo. É ridículo. É uma fraude moral, intelectual e histórica. É projectar os seus preconceitos actuais, ignorar as suas causas e tentar justificar moralmente os seus efeitos e a pulhice que veio a seguir, e em que de longe as maiores vítimas – surpresa – foram sempre, e quase só, milhões de moçambicanos, que de uma ditadura passaram directamente para outra, não muito diferente.

Especialmente se se está a falar no começo dos anos 70, em Lourenço Marques.

Claro que lá havia racismo. Claro que havia injustiça, incluindo a racial. Claro que tinha que acabar. Que tinha que mudar. Claro que havia gente como o pai da Isabela. Se calhar até pior. Claro que aquilo era uma ditadura, com tentáculos em Portugal, um anacromismo total num mundo já quase sem impérios coloniais e em que os países comunistas activamente armavam e patrocinavam os que combatiam o que sobrava de colonialismo no mundo. Ser colonial a partir de 1950 tinha o seu custo em lágrimas, suor e sangue. Salazar estava disposto a pagá-lo, outros não. Em 1974, venceram estes.

Mas cuidado ao pintar tudo de negro. O pior racismo que vi na minha vida não foi em Moçambique, foi nos Estados Unidos quando para lá fui viver em 1977. Portugal hoje não é muito melhor. Quotidianamente vejo as maiores injustiças serem cometidas em Portugal hoje que não se distinguem assim tanto das injustiças que haviam em Lourenço Marques e que há em toda a parte. As injustiças económicas que se observavam há quarenta anos em Moçambique, aliás, ainda se mantêm em larga parte. Pois não é de um dia para o outro que se capacitam milhões de pessoas pobres, rurais e analfabetas que vivem de subsistência no mato e se lhes proporciona, e aos seus filhos, condições para ascensão social e económica.

O crime, se é que se pode dizer assim, não era do que a Isabela diz que vislumbrou aos dez anos de idade e muito menos dos tiques racistas do seu partido pai, que não conheci. É de um país que estava na mão de um ditador que escolheu manter um statu quo décadas depois da altura em que deveria ter iniciado medidas para atempadamente preparar e entregar o poder político e a gestão da nação moçambicana aos seus filhos, descomplexadamente e de cabeça erguida.

Provavelmente quer eu quer a Isabela teríamos lá ficado, a viver em paz e sossego e estaríamos a ajudar a construir esse novo país, em vez de andarmos à esmola de familiares hostis e dependentes de amizades que se calhar nunca o foram, olhando no espelho à noite e inventando na mente que aqui pertencíamos.

E a ter que tentar engolir de terceiros a tese de conspiração de que o que ali porventura encontrámos de bom e belo – e que hoje é apenas uma memória, só isso – não foi, não podia ser, que estamos a mentir aos outros e, pior, a nós próprios.

Vão à merda.

Dito isto tudo, acho que um dia destes lá vou ter que ir procurar o tal de livro para ver mesmo do que é que a Isabela está a falar.

Ou talvez não.

Quanto ao blogue, para já fico à porta.

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