THE DELAGOA BAY REVIEW

16/09/2011

SOBRE O SAUDOSISMO, O LITERÁRIO E O OUTRO

Filed under: Cultura, O Saudosismo Literário — ABM @ 5:07 am

Os Bons Velhos Tempos.

Sobre este termo, “saudosismo”, displicentemente aplicado a muitos do que viveram na África colonial, especialmente pelos putativos apóstolos da neo-crafealização perfumada, supostamente mais politicamente correcta que a outra, que ainda analiso, encontrei uma curiosa descrição de um movimento literário português do início do século XX.

Interessante ler, porque, salvaguardas algumas diferenças de tempo e género, as duas se relacionam, se algo inversamente.

O texto é de Jacinto do Prado Coelho, em Dicionário da Literatura Portuguesa, 3ª edição, 4º Volume (Porto: Figueirinhas, 1979), decalacado de O Farol das Letras:

O Saudosismo Português

(É um) movimento literário, essencialmente poético, que se insere na actividade da sociedade portuense «Renascença Portuguesa», fundada por Jaime Cortesão, Álvaro Pinto, Teixeira de Pascoaes e Leonardo Coimbra, e cujo órgão foi a revista A Águia (1910-1932), propriedade dessa sociedade a partir de 1912 (início da 2.ª série). Nessa data, passaram a ser directores da revista (respectivamente literário, artístico e científico) Teixeira de Pascoaes, António Carneiro e José de Magalhães.

O Saudosismo, no sentido estrito, é uma atitude perante a vida que, segundo Pascoaes e muitos outros, constitui feição típica da literatura portuguesa, tanto culta como popular, logo traço definidor da «alma nacional». Essa atitude interpretou-a o autor de Marânus atribuindo à saudade amplas dimensões e profundo significado, arvorando-a mesmo em princípio enformador dum ressurgimento pátrio. A atmosfera mental portuguesa estava então impregnada do idealismo e do nacionalismo tradicionalista que se haviam desenhado na última década do séc. XIX e de que Alberto Oliveira fora um primeiro doutrinador.

Segundo Joel Serrão, a ideação de Sampaio Bruno exposta em O Encoberto (1904), em que se debruça sobre a decadência dos povos peninsulares, «exerceu influência decisiva, conquanto difusa (como é timbre do esoterismo) nas ideias-forças da ‘Renascença Portuguesa’ (1912) e constituiu, possivelmente, um dos impulsos iniciais do saudosismo». A «Renascença Portuguesa» congregou muitos espíritos animados do desejo de, agindo no plano da cultura, promover a reconstrução do país, minado pelas dissenções políticas que a instituição da República não viera sanar.
A maioria dos colaboradores d’ A Águia aceitou Pascoaes como seu mentor, quer dizer, aderiu ao Saudosismo, perfilhou a doutrina formulada por Pascoaes no limiar do 1.º volume da 2.ª série. A Pátria – diz ele – anda tacteando no caos. «É preciso, portanto, chamar a nossa Raça desperta à sua própria realidade essencial, ao sentido da sua própria vida, para que ela saiba quem é e o que deseja. E então poderá realizar a sua obra de perfeição social, de amor e de justiça, e poderá gritar entre os Povos: Renasci!» Ora aquela «realidade essencial» consiste na Saudade maiusculada: «A Saudade é o próprio sangue espiritual da Raça; o seu estigma divino, o seu perfil eterno. Claro que é a saudade no seu sentido profundo, verdadeiro, essencial, isto é, o sentimento-ideia, a emoção reflectida onde tudo o que existe, corpo e alma, dor e alegria, amor e desejo, terra e céu, atinge a sua unidade divina». Está assim determinado o rumo da «Renascença Portuguesa»: «continuarei sempre a afirmar que o movimento da Renascença Portuguesa se faz e fará dentro da Saudade revelada, a qual se ergue à altura duma Religião, duma Filosofia e duma Política, portanto. Dentro dela, Portugal, sem deixar de ser Portugal, poderá realizar os maiores progressos de qualquer natureza». Sem claramente nos dizer como tais ideias se vinculam à Saudade, Pascoaes preconiza um Portugal agrário, uma organização municipalista e uma Igreja independente. Leonardo Coimbra dá-lhe inteiro apoio; vê em Pascoaes o Profeta; a propósito do Deus infante cujo advento se anuncia no Regresso ao Paraíso, escreve euforicamente: «Olhai a sua melancolia feita de vida e não de morte, é a melancolia da Saudade, que é tão-só a concentração do Espírito apreendendo-se no drama da sua essência. É D. Sebastião que volta! […] Alvorece a nova religião, a alma portuguesa vai possuir-se em Deus». O próprio Pascoaes identifica o Saudosismo com um sebastianismo esclarecido, revelado pelos novos poetas. Jaime Cortesão igualmente procura no passado, nas fontes genuínas da nacionalidade, a inspiração para um futuro de grandeza renovada; as suas palavras vibram dum optimismo messiânico: a Árvore da Raça «tem de entranhar bem as raízes na Terra-Mãe, banhar-se na seiva original e então os ramos subirão a perder de vista e as naus da aventura, instrumento do nosso Destino, hão-de ir no Céu à descoberta das certezas divinas». Colaborando n’ A Águia com uma série de artigos sobre «A Nova Poesia Portuguesa», o jovem Fernando Pessoa afirma que os poetas saudosistas anunciam o pensamento da «futura civilização europeia» – um transcendentalismo panteísta -, e que portanto essa futura civilização europeia será «uma civilização lusitana». Deve estar para muito breve – acrescenta profeticamente – o aparecimento do poeta supremo da nossa raça e, ousando tirara a verdadeira conclusão que se nos impõe […], o poeta supremo da Europa, de todos os tempos […] e a nossa grande raça partirá em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas ‘daquilo de que os sonhos são feitos’. E o seu verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal ante-remedo, realizar-se-á divinamente». O futuro vate da Mensagem integra-se, como se vê, no clima de exaltação sebastianista dos poetas d’ A Águia. É mais um patriota místico, pronto a embarcar para o reino da Quimera, embora adivinhemos por detrás desta atitude uma deliberação mental.

Claro está, enquanto doutrina político-social (tal como Pascoaes a expõe em vários escritos, designadamente a Arte de Ser Português), o Saudosismo não podia satisfazer os espíritos com exigência de positividade e articulação lógica. Em breve António Sérgio e Raul Proença, sócios da «Renascença Portuguesa», manifestaram o seu desacordo, travando o primeiro correspondência polémica com Pascoaes nas colunas d’ A Águia. Temperamentos inconciliáveis, falavam linguagens diversas. Sérgio acusou Pascoaes dum pensamento demasiado utópico e passadista, fechado num lusitanismo xenófobo, provinciano, incompatível com o moderno espírito europeu. O idealismo do poeta d’ As Sombras desprezava o progresso técnico, substimava as realidades económicas, atribuía imaginosamente a um estado de alma deprimente, passivo, virtualidades construtivas. O que era preciso era cortar com a tradição nacional de isolamento sonhador, paralisante. A tese de Sérgio «é que o progresso moral dum povo está dependente do seu progresso económico». Em resumo, no seu entender, o Saudosismo não passava de nova manifestação do « temperamento fantasista, impulsivo, inconsistente, – por uns classificado de idealista e por outros de retórico -, que nos formou a velha sina de conquistadores e aventureiros, retardatários da Cavalaria». Esta primeira dissidência havia de conduzir ao aparecimento da Seara Nova.
[…]
Nas colunas d’ A Águia encontramos lado a lado poetas já feitos, com individualidades marcadas: um Teixeira de Pascoaes, um António Correia de Oliveira, um Afonso Lopes Vieira. Define-os em conjunto um neo-romantismo espiritualista e lusitanizante que se compraz em evocar tradições e em cantar a terra portuguesa; os dois primeiros exprimem uma religiosidade vagamente panteísta, são visionários de tom profético, de «verbo escuro», enquanto Lopes Vieira parece menos «inspirado», cultiva como esteta consciente, de forma límpida, trabalhada, um neogarrettismo professo; a sua intuição de homem culto leva-o a glosar temas e formas típicos da História, da lenda, da literatura culta e popular.
[…]
Todos estes poetas se podem definir como neo-românticos (descontando o esmero estético de Lopes Vieira e o modernismo ou modernidade de Afonso Duarte, ambos artistas muito conscientes): são intuitivos, expansivos, exclamativos, inclinados à oratória; oscilam entre o historicismo e o popularismo; dos românticos e dos simbolistas herdam o gosto da paisagem crepuscular e outoniça, confundida com estados de alma saudosos; mesmo quando evocam a terra da infância (o Marão de Pascoaes, o Alentejo de Mário Beirão), imaterializam, transfiguram os lugares, povoam-nos de sombras e de espectros, embebem-nos de alma. Fernando Pessoa observa que, para os saudosistas, «matéria e espírito são […] reais e irreais ao mesmo tempo»; que eles operam ao mesmo tempo a cada passo a «materialização do espírito» e a «espiritualização da matéria». E cita como exemplos típicos os versos de Pascoaes «A folha que tombava / Era alma que subia», e expressões como «choupos de alma» de J. Cortesão. Afonso Duarte fala em «tardes de alma», «êxtases de árvores», «crepúsculo de mágoa» – imagens que logo lembram o autor de Marânus. É um espaço subjectivo, o indefinido, o ausente, o que fica «para além», que estes poetas tentam sugerir. «Há paisagens que são almas rezando» – lemos em Augusto Casimiro. «Tarde absorta», «longes moribundos», «um íntimo sorriso / De além de ti» – escreve Mário Beirão. Visão mística, animista, da Natureza, em que tudo se esfuma em vagos anseios, quimeras, vida etérea, «verbo etéreo»- É este o lado mais propriamente saudosista (em certa medida «escolar», sob a égide de Pascoaes) dos poetas d’ A Águia. A par disto, o bucolismo, o folclorismo, certo alor sentimental. Quanto à linguagem poética, um regresso: herdeiros do Junqueiro d’ Os Simples e das Orações, ligados também ao romantismo neogarrettista de Nobre, os saudosistas pouco aproveitaram da experiência formal do Simbolismo; preferem uma expressão mais tradicional, mais clássica, o «verso escultural» de Pascoaes; não se demoram num esforço de análise do subconsciente, são muito menos modernos e europeus que os poetas – afinal contemporâneos – do Orpheu. Daí o desentendimento entre Pascoaes e F. Pessoa, que cedo abandonou A Águia, onde o seu espírito renovador se sentia constrangido.

Como tentativa de interpretação da chamada «psique nacional», o Saudosismo deu relevo, com mais penetração e insistência do que nunca, ao complexo de valores espirituais de que a saudade é portadora e à sua importância como traço definidor. Na definição de Pascoaes, o carácter saudoso portruguês realiza a harminia mais perfeita entre o paganismo e o cristianismo, a Presença e a Ausência, a Alegria e a Tristeza – mas harmonia instável, dinâmica, sempre a fazer-se, princípio de permanente renovação. A Saudade é, pois, segundo o poeta, muito mais que o estado sentimental a que se refere o conceito corrente; pela vivência desse estado e pela reflexão exercida sobre ele, Pascoaes elevou-se a uma concepção geral do Homem e do mundo, concepção de raiz portuguesa mas de alcance universal – a mensagem lusíada. Pela saudade, o Homem reage, responde à sua situação concreta no mundo. Sofre a dor de ser imperfeito, a nostalgia da pura vida anímica, a «divina saudade» ou saudade de Deus que Pascoaes assinala já em Fr. Agostinho da Cruz. Realiza o ausente por obra e graça da imaginação; inventa Deus. «O homem, em virtude do seu poder saudosista, de lembrança e esperança, eleva-se da própria miséria e contingência à contemplação do reino espiritual, onde as coisas e os seres divagam em perfeita imagem divina» (Arte de Ser Português, p. 155). Naturalmente, aqueles que, nos últimos anos, dando primazia ao pensamento intuitivo criador de mitos («quanto mais poeta mais filósofo»), procuram fundamentar uma filosofia genuinamente portuguesa, ou galaico-portuguesa, destinada a projectar no mundo os dois povos irmãos, encontram no Saudosismo grande riqueza de sugestões e uma preciosa linha de rumo.

(fim)

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