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27/01/2010

Matateu no "i" – A Oitava Maravilha do Mundo

Filed under: Matateu — ABM @ 10:04 pm

Sebastião Lucas da Fonseca, aka Matateu

por ABM (Alcoentre City, 27 de Janeiro de 2010)

Alguns exmos leitores vão pensar “mas o ABM anda numa onda de futebol”. Bem, não é verdade. Acontece que, enquanto tento resistir ao frio de rachar aqui no mato ribatejano (quase estou sentado em cima do aquecedor eléctrico e com dois pullovers por cima do pêlo e de boca aberta com a notícia do défice de português de 9.3% em 2009) hoje cruzei-me com um fascinante texto sobre Matateu no jornal lisboeta “i” (o novo eleito favorito do JPT, que nestas coisas não brinca) escrito pelo jornalista Rui Tovar. Que reproduzo com a devida vénia.

Isto é cultura básica de moçambicanologia.

O texto de Rui Tovar:

Faz hoje dez anos que esta outra figura incontornável do futebol português e moçambicano morreu.

A importância do homem que morreu há exactamente dez anos mede-se pela alcunha: “a oitava maravilha do mundo”.

Maputo, capital de Moçambique e antigamente conhecida como Lourenço Marques, é a terceira cidade com mais internacionais na selecção portuguesa, depois de Lisboa e Porto. Ao todo, são 16 e há de quase tudo, menos guarda-redes (Costa Pereira nasceu lá perto, em Nacala). Nomes clássicos como Eusébio, Coluna, Hilário, Juca, Vicente, Matine, os gémeos Pedro e Carlos Xavier saltam à vista mas só um foi apelidado pelos ingleses de oitava maravilha do mundo: Sebastião Lucas da Fonseca, ou Matateu. O i faz-lhe aqui a homenagem, precisamente no dia em que se celebra o 10.o aniversário da sua morte. Artur Quaresma, tio-avô de Ricardo (o do Inter), hoje com 93 anos, que treinou o avançado no Belenenses confirma-nos: “Matateu era uma maravilha.”

Para já, a pergunta sacramental: quem foi Matateu? “Isso agora, pfff. Bem, vou tentar ser prático. Era um fenómeno que, infelizmente, nunca foi campeão, embora andasse lá perto [em 1954-55, o Sporting empatou 2-2 nas Salésias, na última jornada, com um golo aos 86′, e roubou o título ao Belenenses, a favor do Benfica]. Era grande, musculoso e encorpado. Impunha-se facilmente pelo físico e destacava-se pelo arranque, pelas passadas com a bola controlada, pelo remate forte ou em jeito, pelo drible. Era uma força da natureza.”

E que fez Matateu? “Além de marcar golos a torto e a direito [218 em 289 jogos na 1.a divisão], muitos deles impossíveis, outros banais, que lhe garantiram o título de melhor marcador da 1.ª divisão [29 golos em 26 jogos na época 1952-53 e 32 em 26 na de 1954-55], era um autêntico quebra–cabeças. Equipas como Sporting, FC Porto e Benfica marcavam-no homem a homem, num tempo em que nem se pensava nessas modernices. Ele chegou a Portugal [4 de Setembro de 1951] com um contrato de fazer rir e ao mesmo tempo de fazer corar de vergonha os actuais jogadores [30 contos de luvas e 1600 escudos de salário por mês], três meses depois de eu abandonar o futebol. Não nos cruzámos por pouco, mas fiquei feliz por ver a estreia ao vivo, num Belenenses-Sporting numa 1.ª jornada. Ganhámos 4-3, com dois golos dele, o último dos quais aos 88 minutos, e ele foi carregado em ombros pelos adeptos até aos balneários. Logo aí ficou conhecido como astro pela imprensa portuguesa.”

A alcunha da oitava maravilha do mundo veio mais tarde. Em Maio de 1955, a Inglaterra perdeu pela primeira vez com Portugal (3-1 no Jamor) e os jornalistas britânicos, sobretudo o enviado do “Daily Sketch”, um tablóide nascido em Manchester nos anos 20 e que foi sugado na década de 70 pelo “Daily Mail”, descreveu Matateu da seguinte forma: “Um negro sempre sorridente, de Moçambique, é, esta noite, o rei do futebol português. Lá foi-lhe dado o nome de Lucas, mas há muito tempo que já ninguém se preocupa com isso. Passaram-lhe a chamar Matateu – um cognome que significa oitava maravilha do mundo – desde que começou a driblar como um mago e a chutar como um canhão. Fomos derrotados por essa oitava maravilha que rebaixou e humilhou uma Inglaterra destroçada e inebriada. E não há justificação porque, com excepção do maravilhoso Matateu, o grupo português é uma equipa de passeantes, com apenas uma vitória nos últimos 19 jogos.”

A coisa não se fica por aqui. Nesse mesmo ano, Matateu foi eleito pela imprensa como o melhor jogador da Taça Latina-55, precursora da Taça dos Campeões, à frente de Di Stéfano e Puskas, ambos do Real Madrid. Como titulava a revista “Miroir Sprint”, “Di Stéfano perdeu o sorriso frente a Matateu”. Em 1957, o Belenenses fez uma digressão pelo Brasil e jogou no Maracanã, onde Matateu atirou três à barra antes de Pelé marcar os primeiros golos internacionais no misto Vasco/Santos. Só para acabar, em 1959, num RDA-Portugal de qualificação para o Europeu, em Berlim, o nome de Matateu é entoado por militares alemães que o rodeiam no final do jogo, ao ponto de ele perguntar ao jornalista Aurélio Márcio: “Vistes os russos a chamar pelo meu nome?” Tudo em nome do futebol. E sempre com uma cervejinha ao intervalo, a sua imagem de marca.

E lá voltamos ao Artur Quaresma. “Comigo a treiná-lo, nunca bebeu. Pedi-lhe com bons modos e ele acatou. Ficava no balneário a ouvir-me e a motivar os mais novos. Naquela altura a gente entendia-se mais facilmente que agora, em que um futebolista ganha mais que um treinador, o manda passear, faz o que lhe apetece.”

Depois do Belenenses, onde ganha a Taça de Portugal-60 ao Sporting, Matateu ainda joga no Atlético, que ajuda a subir à 1.a divisão em 1966. No posterior pingue-pongue entre Américas (First Portugueses e Sagres da Vitória) e Portugal (Gouveia, Amora e Chaves), só acaba a carreira aos 55 anos.

Mas de onde vem todo este talento?

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