THE DELAGOA BAY REVIEW

03/05/2012

O PORTUGAL DOS PEQUENINOS, 1890-2012

Um leitor casual da realidade portuguesa não tem habitualmente uma cápsula histórica e temporal como a dos 48 minutos e 6 segundos que dura esta explicação do que foi e é Portugal: um belo país, especialmente, ou só, para alguns. O documentário, com uma mão pesada do Fernando Rosas, é no entanto eminentemente interessante. Após vê-lo, o Leitor poderá aferir se o curioso título aqui em cima faz sentido ou não. Me parece que sim.

Donos de Portugal from Donos de Portugal on Vimeo.

15/03/2012

O QUE VALE A CONFIANÇA EM TEMPOS PERIGOSOS

2012 promete ser um ano muito mais interessante que 2011.

Já outro dia falei sobre isto: mas afinal o que é que os portugueses sabem que os outros não sabem?

Ou, alternativamente: o que é que os outros sabem que os portugueses não sabem?

Segundo os dados destes senhores, que citam estes senhores (Crédit Suisse Economic Research), está em curso e à velocidade máxima, o que aparenta ser a fuga maciça de depósitos bancários dos cinco países que compõem a linha da frente da Desgraça Europeia (Itália, Espanha, Grécia, Portugal e Irlanda), enquanto que olhando apenas para dois, que são a França e a Alemanha (por enquanto, e cuidado que os dados são de há dois ou três meses atrás) o volume de depósitos está a subir significativamente. (ver TABELA 1).

No entanto, e só por piada, fui ver os dados mais recentes do Banco de Portugal para os depósitos bancários nacionais, e os dados até final de Dezembro de 2011 indicam uma subida significativa (ver TABELA 2), maior que nos tais outros países para os depósitos estão a subir.

Isto sugere que, enquanto que os depositantes da Espanha, Itália, Grécia e Irlanda estão a tirar ou a transferir o seu dinheiro dos bancos locais a toda a velocidade, os portugueses depositam mais do seu dinheiro nos seus bancos do que nos últimos anos, bancos cujas actuais notações de risco estão piores que um Fiat Panda em segunda mão com 150 mil quilómetros.

É fantástico.

Das duas umas: ou os portugueses lá sabem o que estão a fazer.

Ou quando o martelo bater, o estoiro vai ser de proporções épicas.

O mais provável é que a maioria não sabe como é que se abre uma conta lá fora.

Ou não entende o que se está a passar.

Qual será?

Vamos esperar para ver.

TABELA 1. Enquanto os depósitos dos Euro Area Pig 5 caem abruptamente, na França/Alemanha sobem. Ajudava se estivessem aqui a Suíça e o Reino Unido e as suas praças offshore, para onde muito do dinheiro deve estar a ir.

TABELA 2. No meio da desgraça, parece que os Heróis do Mar Nobre Povo Uno & São Valente & Imortal, não só poupam muito mais mas metem-no todo no seu banco da esquina. De notar que a tabela mede, em percentagem, a velocidade do crescimento/decréscimo dos depósitos, mês a mês, anualizado. Em Novembro e em Dezembro, as figuras são 9.4% e 9.4% (Fonte: Estatísticas do Banco de Portugal, 20 Fevereiro de 2012)

04/01/2012

SABE TÃO BEM PAGAR TÃO POUCO

Uma imagem publicitária da conhecida cadeia de supermercados da Jerónimo Martins, actualizada.

 

O ano de 2012 começou com o anúncio de que, antes que batessem as zero horas de 1 de Janeiro de 2012, o braço financeiro da família que detém, entre outros investimentos, a cadeia de supermercados Pingo Doce (e acho que Feira Nova, mas não tenho a certeza), mudara a sua sede fiscal de Portugal para …a Holanda.

Parece que as duas razões principais para esta alteração de sede social são 1) pagar menos impostos, 2) ter um acesso mais privilegiado a fontes de financiamento num mercado que ainda funciona normalmente, enquanto que em Portugal, como se sabe, os bancos estão em dieta aguda.

Supostamente, o Grupo Jerónimo Martins, cuja maioria do capital é detido pela tal empresa que agora é de registo holandês, faz tenção de fazer uns investimentos internacionais e precisa da disponibilidade e eficácia desses mercados. Nada demais: nos anos 80 e 90, grandes empresas sul-africanos mudaram as suas sedes da África do Sul para o Reino Unido, com grande sucesso e por razões sólidas.

Claro que os políticos e os politiqueiros portugueses da praça mandaram-se ao ar e ainda andam às piruetas. Afinal, a Jerónimo Martins é uma das grandes empresas de Portugal e detida maioritariamente por portugueses. É um dos grandes empregadores do país. O seu líder é um dos poucos verdadeiros donos de capital portugueses que chama os nomes aos bois. Assisti a várias das suas entrevistas, em que expressava as suas preocupações face ao que se estava a passar, ainda nos tempos completamente loucos do segundo mandato de José Sócrates.

Numa altura como estas, esta deve ser a maior bofetada, dada logo no primeiro dia deste Ano do Fim do Mundo, de quem tem capital, em relação ao que os políticos fizeram e vão fazer ao país e a quem tem capital (nota: as nossas poupanças, quando existentes, são capital).

Esta medida pode ter algumas leituras. Mas nenhuma delas abona o que Portugal é ou do que se está e vai passar.

O maior risco que se corre é que, em 2012, desesperado para encontrar receitas que não vão aparecer, o governo vai ser tentado a taxar mais o capital do que já faz. E aí corre-se o risco de o capital nacional abandonar o país.

Por outro lado, provavelmente os Pingo Doces têm mais do que razão na decisão de mudar a sede fiscal para a Holanda – que de repente em Portugal passou a ter o místico estatuto de paraíso fiscal  – pois a fiscalidade portuguesa, se já era positivamente punitiva face ao nível de vida médio da população, mais o passou a ser a partir de 1 de Janeiro de 2012.

Que o seja para quem tem mais dinheiro, é no mínimo alarmante. Pois quem tem mais dinheiro tem total facilidade e até conveniência em mudar-se para outro país.

Pois o dinheiro deles é deles.

Ou não é?

Eu acho que é.

 

"É tão bom pagar tão pouco".

 

 

 

 

 

06/12/2011

O QUE FALTA NA EUROPA EM FINAL DE 2011

Visão

 

Tomates

O PRIMEIRO-MINISTRO DE PORTUGAL EM 2013

19/11/2011

PORTUGAL E AS GUERRAS GLOBAIS

Enquanto os portugueses lambem desconsolados as suas feridas porque – coitadinhos – vão ter menos para gastar já partir deste Natal, e a Europa dança no fio da navalha do precipício que ela própria escavou quando criou o SME, guerras maiores se formam no horizonte.

Talvez a mais relevante para já vai vir por duas vias: a guerra das moedas e a guerra do desconto das dívidas soberanas.

Segundo o Le Monde de 17 de Novembro, na terça feira passada a dívida federal norte -americana atingiu praticamente os 100% do PIB norte-americano, que é um bocadinho maior que o português. Estamos a falar de 15 milhões de milhões de dólares (15.009.330.000.000 dólares no momento em que escrevo estas linhas, segundo o sítio U.S National Debt Clock).

Isto enquanto se assiste a uma significativa dimunuição dos valores de muitos activos. Quem tem acções do BCP que comprou a, digamos, 2 euros, e que agora valem 10 cêntimos cada acção, sabe do que estou a falar.

Só que isto está a acontecer na Europa e nos EUA a uma escala arrasadora.

Do outro lado do Pacífico, a China insiste em manter, essencialmente, alguma paridade com o dólar norte americano, apesar dos esforços quase frânticos dos norte-americanos para que essa situação mude.

Na Europa e nos EUA, conscientes que uma mudança deste curso implicaria uma recessão horrenda, os respectivos bancos centrais mantêm a quase todo o custo as taxas de juro a taxas reais negativas. Na Europa do Euro, por exemplo, a taxa de redesconto está a 1.25%, contra uma taxa de inflação esperada em 2011 de perto dos 3.00%.

Num mundo globalizado, em particular desde que a China passou a ser um membro da World Trade Organization em meados dos anos 90, de momento não é claro como é que se vai desenrolar o próximo capítulo da actual crise, pois não se entende de onde poderão vir os factores de criação de riqueza que ajudem a colmatar os enormes desequilíbrios que se têm vindo a desenvolver a e acentuar, com impacto nos níveis de endividamento público e privado, produtividade e taxas de desemprego.

Uma coisa parece certa: as dificuldades que os portugueses estão a começar a sentir já se estão a começar a sentir em muitos outros países, incluindo países como os Estados Unidos e os principais parceiros da Europa.

Só que, para variar, desta vez, o processo assemelha-se ao efeito de uma gigantesca bomba atómica a explodir em câmara lenta, a sete velocidades diferentes.

Nas economias “clássicas”, com mecanismos tradicionais tais como as suas próprias moedas, controlo monetário, das taxas de juros, controlo de capitais e controlo total daquilo que importam e exportam (casos, por exemplo, do Brasil, de Moçambique e de Angola) a maior ou menor miséria nestas situações gere-se mais ou menos bem, com umas doses de intervenciosnismo governamental com objectivos definidos.

Mas no actual contexto do eixo China-Japão-EUA-Europa, está-se a entrar em campo desconhecido, em parte porque os factores são dificilmente controláveis e os valores e volumes são tão grandes que governos de países inteiros parecem incapazes de negociar as suas posições.

Quais, então, as grandes tendências?

1. Uma progressiva desvalorização do dólar norte americano, a qual poderá ser acompanhada pela desvalorização do euro, se este sobreviver o que vem aí. Claro que, para quem detém activos nestas moedas, importará as respectivas inflações e a desvalorização relativa de uma moeda relativa à outra, se esse for um factor a considerar (é, para os detentores de capitais líquidos e os investidores, os importadores e os exportadores).

2. Uma muito significativa secagem do capital disponível para investir e para emprestar em geral.

3. Uma subida no custo do dinheiro, uma vez que as actuais políticas de manutenção de taxas directoras a baixos níveis não são sustentáveis a médio prazo.

4. Maior risco na detenção de capital, dado que os riscos sistémicos vão subir, quer através da instabilidade das moedas e dos valores dos activos, que porque os veículos para a sua manipulação (bancos, casas de investimentos, títulos de tesouro e outros instrumentos) entraram numa fase de maior fragilidade.

5. Maior instabilidade política, resultante das tendências acima descritas, acrescidas de maiores taxas de desemprego e um gradual mas acentuado empobrecimento das pessoas.

Devido à total incúria dos governos entre 1991 e 2011, Portugal presta-se a levar em cheio com os efeitos destas tendências.

No entanto, os portugueses estão tudo menos sozinhos, nesta tempestade que se aproxima.

17/11/2011

RTP ÜBER ALLES*

O programa continua dentro de momentos.

*A RTP acima de tudo – em germanês.

“Não há dinheiro. Qual destas três palavras é que o Senhor Deputado não entendeu?” Foi assim que, em termos que considerei refrescantes, um dos actuais ministros, quando discutindo as difíceis opções em termos do que fazer perante a calamidade que se aproxima das costas portuguesas, se dirigiu a um dos parlamentares da oposição.

Na longa tabela do deve e haver das despesas que os sucessivos governos portugueses acharam por bem fazer, a RTP ocupa um lugar de destaque, apesar de, agora se sabe, estarem a aparecer outras entidades públicas ou publicamente detidas, com dívidas monstras nos seus balanços, cuja utilidade e desempenho são menos questionáveis.

A RTP ocupa um lugar de destaque porque sempre foi demasiadamente cara para o que serve, porque tem sido politicamente instrumentalizada para efeitos da manipulação da opinião pública e – principalmente – porque sendo hoje o negócio da informação e do entretenimento isso mesmo – um negócio – simplesmente não entendo porque é que um país falido, sem perspectivas, onera os seus contribuintes com o custo de manter uma loja de bijuteria comunicacional como é o mundo da RTP.

E, este ano, a verba aproxima-se dos quinhentos milhões de euros. Deixe-me o exmo. Leitor colocar a verba em numérico que tem mais piada: são 500.000.000 de euros. Num ano. Para manter a RTP.

Volto a esta questão por três razões.

A primeira razão, é que, supostamente, o governo português actual, por razões da falência próxima do Estado, tem que cortar em muito. Não há dinheiro. Tem que cortar muito e quanto mais depressa melhor. A RTP é um excelente lugar para fazer isso pois é desnecessária, supérflua e contribui zero para o PIB nacional. Ou melhor, contribui negativamente pois extrai dos bolsos dos contribuintes, anos após ano, centenas de milhões de euros.

A segunda razão é ideológica. Pensava eu que o papel de um Estado deixara de ser, desde o advento da era da internet, dos satélites e da comunicação em massas a um custo relativamente baixo, em que o acesso dos cidadãos à informação (seja esta noticiosa ou cultural e de entretenimento) está praticamente garantido, o de assegurar esse acesso a um custo fantasmaglórico, através de uma estrutura que é recorrentemente instrumentalizada para fins políticos menos claros. Pensava eu, também, que os senhores deste governo subscreviam essa tese.

A terceira razão é o que aconteceu quando ontem foi anunciada a conclusão de um estudo, liderado pelo conhecido professor universitário Luis Duque, sobre o que fazer com a RTP.

Do pouco que tomei conhecimento das conclusões desse estudo (estilo bullet points), essas conclusões apontam para uma reformulação de alguns dos serviços, tais como o fecho de algumas estações de cabo, as RTPs regionais, a fusão da RTP Internacional com a RTP África (descobriram a pólvora, aqui) e mais uns embelezamentos diversos. Ou seja, não fecha mas corta umas coisas menores. Por minha parte, nada contra, apesar de eu continuar a achar que aquilo devia ser simplesmente quase tudo fechado e os arquivos mandados para a Torre do Tombo.

Pois não há dinheiro e a gente não precisa de nada daquilo para nada.

Mas eis que surge o inédito, quando nada menos que o Miguel Relvas, o actual ministro dos Assuntos Parlamentares, uma das figuras indómitas da ideologia praguejada pelo actual executivo, surge nas televisões a desdizer as acções recomendadas pelo estudo anunciado. Que não, que não iam fazer nada daquilo, que ele até gostava muito da RTP, que a RTP fazia mais pela cultura que o Instituto Camões (olhem só o exemplo que ele foi buscar), que ele gostava muito da RTP desde os tempos de miúdo, quando ele via os bonecos animados importados a baixo custo da RDA para entreter os meninos do pós-25 de Abril e a Visita da Cornélia.

Fiquei de boca aberta.

Entretanto, todos os meses, tirando as dívidas monstruosas da RTP que vieram não sei bem de onde, quando pago a conta da electricidade (veja-se em baixo) pago uns 5% adicionais dessa conta para a RTP, incidindo sobre esse valor 6% de Imposto de Valor Acrescentado, a menor das tr~es taxas do IVA, que deve ser para dar um toque final de sacanice refinada.

E encontro esses canais perdidos algures na grelha de 130 canais que a Vodafone, agora com o seu novo sistema de cabo de fibra de última geração, canaliza para casa.

Assim, procurarei algum consolo em saber que, pelo menos, quando o país se afundar, fá-lo-á com a RTP.  Vai ser como o naufrágio do Titanic em 1912.

Só que desta vez pagaremos – com IVA a 6% – para podermos ver o naufrágio nacional ao vivo, em televisão estatal, apresentado pelo tal conhecido jornalista nascido em Moçambique, que nos vai piscar o olho direito sorrateiramente uma última vez, antes do pau da bandeira submergir, sob as águas geladas do esquecimento colectivo.

Isto é a parte das contas da minha conta eléctrica de Novembro de 2011. Veja o exmo. Leitor a parte em baixo, respeitante a "contribuição áudio-visual". Pois. Adoro quando chamam "contribuição" aos impostos.

PORTUGAL NO LAGO DOS CISNES

Em cima, Aníbal Cavaco Silva, Pedro Passos Coelho, Vítor Gaspar e Paulo Portas negoceiam o tortuoso caminho do empobrecimento estruturado de Portugal. (Na verdade, são quatro competentes bailarinas do Teatro Bolshoi em 1989, executando a sublime coreografia de Marius Petipa para a grande obra de Pyotr Illyich Tchaikovsky, O Lago dos Cisnes).

Ao fim da tarde outonal de ontem, chegaram a minha casa algumas novidades que caracterizam o momento actual português.

A primeira, é que o governo português contabilizou, ao final de Setembro, 689.400 desempregados, traduzindo-se numa taxa de desemprego de 12.4 por cento. Na verdade, a taxa real é muitíssimo mais alta, a meu ver no mínimo semelhante à de Espanha, que vai pelos 21 por cento. Mesmo assim, estes dados, juntando-se ao verdadeiro exército de sub-empregados (gente com empregos mas salários miseráveis) e ainda mais à multidão de gente excessivamente endividada, constitui a base potencialmente explosiva para coisas para vir.

Em segundo lugar, e não menos importante, no conclusão das análises para se decidir quanto à entrega da segunda tranche do empréstimo para gerir a falência portuguesa (a tranche é do 8.000.000.000 euros), os senhores localmente conhecidos por “troika” foram ao parlamento e à televisão dizer de sua justiça.

O que disseram foi deveras interessante, pois ilustra e confirma algumas coisas que por vezes são menos claras.

Por um lado, confirmaram que, de um modo geral, as coisas estão a correr bem do ponto de vista deles (da “troika) pois os dados macreconómicos, com mais ou menos uns problemas aqui e ali, indicam que os grandes objectivos ainda estão “ao alcance” (aqui, ênfase nas aspas…). Especificamente, referiram que em 2011 se deve ficar mais ou menos por um défice das despesas do governo central de 6%. Um balúrdio, mas em Portugal parece que já todos se habituaram a viver assim há muitos anos.

Por outro lado, confirmaram que há duas tendências graves e as quais não foram, ou melhor, ainda não foram colmatadas.

A primeira, é que, provavelmente por razões de expediente e de sobrevivência política (e também para minorar a miséria que se vai instalando) um pouco como o precedente primeiro-ministro, o actual governo está a tentar desesperadamente atenuar o embate que aí vem. A forma como o faz está à vista: aumentaram muito significativamente em tudo o que respeita a impostos directos e indirectos, estão a fazer alguns mas poucos cortes no fantástico leque de direitos “dinásticos” dos portugueses, e para tapar o buraco de 2011, estão a proceder à venda de património e outros activos do Estado para arranjar o dinheiro que permita que o défice não descambe completamente logo no primeiro ano. Neste capítulo, os Srs. da “troika” especificamente criticaram a decisão do governo de se apropriar dos fundos de pensões dos empregados da Caixa Geral de Depósitos (cerca de seis mil milhões de euros, passando as reformas destes a serem asseguradas pela recolha de impostos junto dos contribuintes).

Ora, isto é tudo muito bonito maa consiste em medidas predadoras e irrepetíveis. Ou seja, se nada mais for feito, como vai ser em 2012?

Mais importante foi o que Paul Thomsen, explicou sem rodeios numa curta mas interessante entrevista que concedeu à RTP ontem à noite e que repetiu várias vezes, para o caso de alguns dos seus espectadores mais burros não apanhar à primeira, à segunda ou à terceira.

O que ele disse é básico: que sem a implementação imediata de um pacote de medidas de “mudança estruturais”, que a) todo o esforço e exercício em curso serão em vão, b) condenarão inexoravelmente os portugueses a viver um padrão material de vida mais baixo e c) em última instância não resolverão o grave problema de falência latente em que ficámos após a loucura de José Sócrates e os seus amigos do Estado Socialista.

O que ele não disse, portanto, e que depreende-se facilmente, é que essas medidas de mudança estrutural não foram e não estão a ser implementadas.

E enquanto dizia isto, aproveitou (já agora, não é)para dizer que na sua opinião os cortes salariais já anunciados para os funcionários públicos deveriam também ser imediatamente aplicados também a quem trabalha no sector privado.

Ora tudo isto é muito grave, em particular porque estes senhores têm o mandato para fazerem o que tem que ser feito e – principalmente – porque já não há tempo a perder. As incertezas a nível do desempenho da economia internacional são mais do que muitas, em especial dos principais parceiros económicos de Portugal.

E as tais mudanças estruturais já deviam ter sido feitas há cinquenta anos, sem as quais qualquer dia, tirando os ricos e os que já saíram e estão para sair de Portugal, qualquer dia nem os que ficam atrás conseguem viver no país.

Por isso seria muito bom se o governo deixasse de mais delongas e, em ver da dança do lago dos cisnes, faça o que tem que ser feito.

01/11/2011

TRABALHAR PARA A DÍVIDA E MESMO ASSIM FALIR

Mais fácil digo que feito.

Ora vamos lá a ver o que se passa na Europa e em Portugal, já que as redacções das televisões portuguesas e o exército de comentadores que têm andado a falar, falar, falar, não têm explicado bem, na minha opinião, o que se passou este fim de semana.

A primeira constatação, de que a maior parte das pessoas já se apercebeu, é que o chamado negócio da Troika em Junho, é insuficiente para evitar o descalabro que se aproxima para Portugal.

Pior, há duas semanas (fiz referência a esta constatação numa nota que escrevi aqui) alguns se aperceberam que as medidas draconianas em parte já em vigor e previstas para 2012, não só não resolvem quase nada como ainda ameaçam degradar mais o ambiente social e económico português.

Parte da solução, alguns referiam, estaria numa tomada de medidas corajosa por parte da Europa, já que a parte crítica do problema tem que ver com a Grécia, o euro, a dívida pan-europeia.

Este fim de semana, enquanto os líderes portugueses estavam perdidos algures no Sul da América Latina, de onde mandaram uns recados meio desesperados, os poderes europeus reuniram-se para “resolver” o problema.

O problema reparte-se por componentes.

A primeira componente e a mais conhecida é que toda a gente já admitiu, é que o volume de dívida da Grécia é….impagável. A Grécia, que já está falida, em breve arrastará a Europa com ela se nada for feito.

A segunda é que, se nada fôr feito entretanto, esse efeito de arrastamento se verificará em economias periclitantes mas muito maiores e que estão a pouca distância de uma crise: a Espanha, a Itália, a Bélgica. Considera-se que Portugal está incluído neste grupo.

A terceira é que, mesmo que tudo o que está previsto funcione e nada mais de mau aconteça, que a Europa estará condenada a um longo, perigoso e complicado, período de estagnação económica, uma vez que um simples exercício de aritmética indica que não há dinheiro disponível para a) investir no desenvolvimento económico b) conceder crédito às pessoas e às empresas.

A quarta e última é que (hum, como é que poderei dizer isto de uma maneira simpática) uma parte considerável da banca europeia – que inclui a portuguesa – está num estado lastimável, pois a) vem aí uma montanha de dívidas incobráveis, b) têm níveis de capital insuficientes e a diminuir rapidamente, c) não têm dinheiro disponível para emprestar mesmo aos bons clientes, d) vão levar agora em cima com uma boa parte das medidas, anunciadas este fim de semana, para perdoar a dívida grega.

Isto para não referir o perigo, que persiste, de uma cadeia de falências que arrasariam o sistema financeiro. Ainda há uns dias um grande banco franco-belga foi “salvo” através de intervenção estatal.

Quais, afinal, foram as “medidas” anunciadas este fim de semana para salvar o euro e as economias da zona euro?

Foram três: 1) o perdão de metade da dívida privada grega, 2) o financiamento da re-capitalisação dos bancos europeus, e 3) o aumento do capital disponível de uma espécie de super-linha de crédito, chamada Facilidade Europeia de Estabilidade Financeira (em inglês, EFSF)

Dada a enorme importância deste tópico, analisemos estas medidas individualmente.

Quanto ao perdão de metade da dívida privada grega, por um lado, analistas indicam que mesmo assim a Grécia teria no ano de 2020 um endividamento global de 120 por cento do seu PIB, o que muitos acreditam que continua a ser miserável e provavelmente insustentável para os gregos. Por outro lado, “perdoar” essa metade da dívida privada significa que quem teria que a perdoar eram bancos e outras instituições financeiras europeias, incluindo bancos portugueses (cerca de 1300 milhões de euros no caso destes) com efeitos demolidores, já que estes à partida já estão em condições de enorme fragilidade.

Quanto ao financiamento da re-capitalisação dos bancos europeus, na reunião mencionou-se a necessidade de um montante global de cerca de 107 mil milhões de euros, para bancos que em princípio levarão em cima com o plano grego mencionado atrás e cuja dívida passaria a valer zero. No caso português fala-se da necessidade de 12 mil milhões de euros, o que não deixa de ser interessante pois a banca portuguesa é menos que um por cento da europeia mas precisa de quase dez por cento do tal montante global. De qualquer modo, não é claro que estes valores endireitem os bancos e lhes permitam voltar a emprestar. Nem se estas medidas efectivamente signifiquem a sua re-nacionalização (afinal, o dinheiro em última instância é dos contribuintes europeus, portugueses incluidos).

Quanto ao aumento de capital da EFSF, falou-se num aumento deste instrumento para mil milhões de euros (lá veio à baila a velha conversa de se “one billion” quer dizer mil milhões ou um milhão de milhões…). Mas – e aqui um gigantesco “mas” – não se percebe de onde virá o dinheiro. Aventou-se o banco central europeu mas a Alemanha disse que não. Falou-se em o dinheiro vir “de fora” (tradução:da China). De Pequim, a China mandou um telegrama a dizer “vocês devem estar mas é a sonhar”. E a conversa, de momento, ficou por aqui, ou seja, quer-se aumentar o montante da EFSF (em boa parte para acautelar eventuais problemas com a Espanha e a Itália) mas ninguém concorda em onde e como se vai arranjar o dinheiro.

A reacção dos mercados esta semana foi o que se esperava: primeiro foi brevemente positiva, e agora que as pessoas começaram a perceber que nada está resolvido, voltaram ao negativo.

A crise continua dentro de momentos.

Em Portugal, como seria de esperar, agora já se começa a fazer barulho para “renegociar”. Renegociar prazos, renegociar taxas de juro, nalguns casos com uns leves pós de dôr de cotovelo por os gregos serem recompensados pela sua incúria com um perdão de dívida e para os portugueses nada de perdão.

Mais surreal, o Partido Socialista português, agora sob a tutela recente e algo efémera do Dr. António José Seguro (condecorado com a Medalha de Ouro da Vila de Penamacor) ruidosamente contempla vetar o demolidor orçamento do governo central para 2012. O que, ocorrendo, inauguraria um novo capítulo no que concerne a irresponsabilidade e inconsistência desta geração de políticos.

Ah, 2012 vai ser um ano de arromba.

A AMÉRICA QUE EU JÁ NÃO RECONHEÇO

Quadro copiado com vénia do Economist, indicando a divisão da riqueza acumulada por fatia da população.

Depois de ter ido literalmente como refugiado para os Estados Unidos em 1977, após o desastre da Descolonização portuguesa, li vivi durante quase quinze anos.

No geral, foi muito bom para mim e para a minha família.

Mas as minhas aspirações eram outras.

Em 1990 iniciei uma espécie de regresso a África, que ainda levou dez anos, com alguns interregnos por Portugal. O regresso não foi regresso e, à sua maneira, a elite portuguesa criou o seu próprio descalabro nos últimos quinze anos.

No entretanto, nos EUA, houve Clinton e Bush e agora Obama. Houve o ataque terrorista em Setembro de 2001, as guerras no Médio Oriente, a maluqueira fiscal quase total e a quase falência do Estado norte-americano, precedida do escândalo total da Enron, o fim da Arthur Andersen & Co., o desfalecimento quase imediato dos mercados financeiros norte-americano e mundial, iniciado com a chamada crise do sub-prime e a falência, numa sexta-feira, do banco Lehman Brothers.

Ainda não se sabe onde isto tudo vai parar. O mundo – o nosso mundo – permanece à beira do abismo.

Agora, aproxima-se a eleição presidenciall de 2012.

É mais do que claro que Barack Obama rigorosamente nada teve que ver com as tragédias que herdou, e as quais não têm soluções fáceis e muito menos paleativos.

Mas ao que eu tenho assistido, do outro lado do Atlântico, é às polémicas mais surreais, especialmente vindas do lado da direita norte-americana. Que, lamentavelmente, em boa parte porque me considero um conservador, traduzem um delírio perigoso da parte de pessoas que parece que ainda não entenderam bem o buraco profundo em que a América, e o mundo, estão metidos.

A tentação fácil é considerar que a substituição do actual presidente ajudaria a resolver os problemas.

Eu acho que o começo da resolução dos problemas que agora afogam uma boa parte do mundo ocidental pouco tem que ver com a eleição presidencial norte-americana.

Pelo contrário.

Eu já não reconheço esta América.

E começo a pensar que já não reconheço este mundo.

(No dia 8 de Outubro, a organização Democratas no Estrangeiro -“Democrats Abroad”- organizou um evento intitulado “Vozes por Obama” na Galeria Nikki Diana Marquandt em Paris.  No evento, um dos que falou foi o autor norte-americano Jake Lamar. Em baixo, um excerto do que ele disse, gravado no Atelier La Main d’Or. Este, pelo menos, diz que não está desiludido).

22/10/2011

ANÍBAL CAVACO SILVA E O FIM DA MACACADA

Nesta data, mapa com as previsivéis ilacções de uma deficiente resolução do "problema grego" - para quem ainda não percebeu. Cavaco Silva percebeu três dias antes de Pedro Passos Coelho. Haja paciência.

Durante esta semana aconteceu algo que à primeira vista parece que não faz sentido nenhum.

Isto porque, pela primeira vez e depois de imensa ginástica e muita sorte, Portugal assistiu à eleição de uma espécie de Santíssima Trindade da chamada direita portuguesa, ao ter, com a re-eleição de Aníbal Cavaco Silva e a eleição do PSD de Pedro Passos Coelho para o poder, um parlamento, um governo e um presidente, da esfera política do chamado centro-direita.

E não faz sentido nenhum porque, no preciso, crucial momento em que o governo do dia apresentou o mais sanguinário orçamento desde que António Oliveira Salazar achou por bem equilibrar as contas nacionais no princípio dos anos 1930, o presidente da república portuguesa, figura estelar do firmamento social democrata, vai a uma de outro modo suporífera sessão da (ainda e sempre) corporativa Ordem dos Economistas, onde se lembra de usar o momento para essencialmente pregar uma rasteira às intenções orçamentais, recentemente reveladas, do governo para 2012, ao dizer (não sugerir ou sequer mandar a proverbial boca) que o orçamento do ano que vem tresanda a inequidade e injustiça.

Passos Coelho, que até tem sido discreto que baste e que supostamente bebe um cházinho semanal com Cavaco em Belém, ficou de boca aberta, enquanto que os comunistas, esquerdistas, sindicatos e afins mal podiam esconder os orgasmos intelectuais com a providencial deixa oferecida pelo presidente.

Levou três dias primeiro que Passos Coelho conseguisse responder ao tirocínio presidencial, resmungando qualquer coisa que se percebe que não se percebe bem.

E, para o analista casual como eu, fica a questão de que raio de Santíssima Trindade é esta em que um dos seus componentes anda aos tiros aos outros em público.

Eu creio que a razão é muito simples, e tem que ver em parte com o fluxograma que coloquei no cimo deste texto, creio que feito por um inglês bem disposto (o Reino Unido ainda tem a libra, o que ajuda).

As medidas já tomadas e listadas no orçamento do governo central para 2012 são draconianas, supostamente mais para os flagelados (e excessivos, e ineficientes) funcionários públicos portugueses, que às vezes parece que são metade de Portugal, mas que mesmo que não sejam, conseguem estoirar alegremente mais do que metade do produto nacional bruto português todos os anos – e sempre a crescer.

Isto fora as dívidas reveladas, as escondidas, as fraudes inexplicadas dos bancos dos amigos e o facto de que parece que tudo o que foi construído nos últimos vinte anos afinal parece que ficou tudo por pagar.

A postura do actual governo foi, e tem sido, honorável. A sua tese de base: os portugueses são gente de bem e vão pagar o que devem, que mais não seja que para continuar a rolar o empréstimo em curso, sem o qual a república resvalecerá inexoravelmente para a falência e quiçá para uma catastrófica saída do euro.

Portanto, como são mentirosos, preguiçosos ou simplesmente incapazes de colocar 150 mil funcionários públicos sem o regime cair, ou cortar aparentemente seja o que for das despesas inacreditáveis a que o governo se foi obrigando a pagar no decurso da República Socialista, os novos senhores da Casa optaram pela via das tomada de medidas fiscais à escala industrial.

Só que, nas últimas semanas surgiram informações, que pelos vistos Cavaco Silva primeiro tomou conhecimento primeiro, e que pelos vistos ou se esqueceu de avisar Passos Coelho nos seus cházinhos semanais ou que este não lhe prestou atenção, que mudaram as circunstâncias radicalmente.

A primeira, é que a Grécia, se tudo ficar na mesma ou mesmo que mude um bocadinho, vai à falência. Aliás, já está falida, agora a questão é como se vai gerir essa falência.

A segunda, é que toda a banca europeia, mesmo sem a falência grega, mas com ela no horizonte, está mesmo à beira do abismo.

E o abismo, se nada mudar já – “já” sendo as reuniões em curso este fim de semana e nos próximos quinze dias – em termos temporais, vai acontecer nos próximos três meses.

Ou antes.

Em terceiro lugar, não é preciso ser J M Keynes – ou Cavaco Silva – para se ter percebido que o actual curso, indicado pelo orçamento português para 2012 e pelas informações macroeconómicas europeias, não só nada contém que possa ajudar a estimular os agentes económicos, como na verdade confirma que o mais provável é a economia europeia, e em especialmente a portuguesa, entre numa espiral descendente que corroerá a fibra e a essência da sociedade e a catapultará para terreno muito perigoso.

Foi o que aconteceu nos anos 1930, para quem não se recorda.

Cavaco Silva apercebeu-se disto antes de Passos Coelho e a sua equipa. Ele entendeu que o orçamento do governo central para 2012 era o cheque garantido para entrar na espiral descendente e que, ainda por cima, Portugal faliria na mesma. Com a agravante de que em seguida, provavelmente para selar a catástrofe, logo a seguir iriam os bancos.

E nesse dia, seria o Fim da Macacada.

Por isso, em tempo real, mudou o discurso.

O que Aníbal Cavaco Silva tentou dizer na Ordem dos Economistas há uns dias é que, se houver, a única salvação para os portugueses é um pacote de ajuda europeu muitíssimo mais substancial do que o quase ofensivamente ruinoso orçamento para 2012 e o empréstimozeco negociado há uns meses.

E, ao fazê-lo em público, quis forçar a mão de Passos Coelho, que ainda andava a fazer de menino bem comportado junto da Troika e ainda dizia que eram os portugueses sozinhos que tinham, que conseguiriam, arrumar a casa.

Levou três dias. Mas Passos Coelho finalmente percebeu.

Que, mais uma vez, e pela segunda vez em seis meses, a salvação do que resta de algum bem-estar dos residentes em Portugal está situada não em Belém e São Bento, mas mais a Norte na Europa.

As medidas a tomar no âmbito do orçamento de 2012 são quase uma política de terra queimada fiscal. Sem qualquer margem de dúvida irão provocar uma tempestade económica, política e social sem precedente desde os últimos dias da famigerada I república. Já estão a começar a fazê-lo.

Mas a verdade é que é preciso muito, muitíssimo mais dinheiro que o que o governo poderá arrancar dos bolsos dos contribuintes para salvar os bancos, para arranjar dinheiro que chegue para emprestar às empresas e às pessoas em 2012, e ainda fazer frente à crescente onda de endividamento com que a República Socialista, com lugar de destaque para José Sócrates, presenteou os portugueses de hoje e das duas gerações que vêm a seguir.

Este fim de semana vão finalmente começar o frio e a chuva em Portugal. Em breve, a não ser que algo venha do Norte entretanto, virão também a fome e a miséria.

Politicamente, fica a paradoxal constatação de que, no actual sistema constitucional e mapa político português, ter uma Santíssima Trindade no poder parece que no fim acaba por não fazer diferença nenhuma.

Nem em bons tempos.

Nem quando se está beira do abismo.

18/10/2011

O PROBLEMA SOBERANO, 2010

O desafio próximo futuro para uma boa parte do mundo está em como resolver as dívidas soberanas. Achei interessante saber o que se passa nalguns países sobre os quais se fala com frequência.

Os dados respeitam a 2010, portanto ainda antes da degradação considerável ocorrida a partir do início de 2011.

A fonte é o Economist Economic Unit (com vénia)

Curiosamente, aqui se pode ver claramente que, por um número de razões, para já, no que concerne à dívida pública, os países africanos estão numa situação mais aconchegada que os paíse mais ao Norte.

PORTUGAL
Dívida Pública (milhões USD) – 174,502
Divida Pública por habitante (USD) – 16.400
População total (milhões) – 10.6
Dívida Pública como % do PIB – 82.4
% aumento da dívida pública no último ano – (1.9)

ANGOLA
Dívida Pública (milhões USD) – 17,187
Divida Pública por habitante (USD) – 910
População total (milhões) – 18.9
Dívida Pública como % do PIB – 20
% aumento da dívida pública no último ano – 11

MOÇAMBIQUE
Dívida Pública (milhões USD) – 3,651
Divida Pública por habitante (USD) – 156
População total (milhões) – 23.3
Dívida Pública como % do PIB – 37.3
% aumento da dívida pública no último ano – 1.6

AFRICA DO SUL
Dívida Pública (milhões USD) – 116,641
Divida Pública por habitante (USD) – 2,400
População total (milhões) – 49.1
Dívida Pública como % do PIB – 32.3
% aumento da dívida pública no último ano – 31

E por piada:

ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA DO NORTE
Dívida Pública (milhões USD) – 8,975,409
Divida Pública por habitante (USD) – 29,000
População total (milhões) – 309
Dívida Pública como % do PIB – 61.2
% aumento da dívida pública no último ano – 21

ALEMANHA
Dívida Pública (milhões USD) – 2,315,786
Divida Pública por habitante (USD) – 27,900
População total (milhões) – 83
Dívida Pública como % do PIB – 75.4
% aumento da dívida pública no último ano – (6.2)

ESPANHA
Dívida Pública (milhões USD) – 804,698
Divida Pública por habitante (USD) – 17.540
População total (milhões) – 45.9
Dívida Pública como % do PIB – 61.1
% aumento da dívida pública no último ano – 7.3

Finalmente, o país mais badalado do momento:

GRÉCIA
Dívida Pública (milhões USD) – 374.760
Divida Pública por habitante (USD) – 34.100
População total (milhões) – 11
Dívida Pública como % do PIB – 128
% aumento da dívida pública no último ano – (4)

A ERA DO CARAPAU E O REPOLHO EM PORTUGAL

Muitos moçambicanos se lembram da Era do Carapau e do Repolho.

Agora chegou a vez dos portugueses.

É preciso mesmo estar-se em Portugal para se entender a ironia do que se está a passar.

Por um lado, e finalmente, e inexoravelmente, fizeram-se algumas contas e começou a ser dado conhecimento público da verdadeira dimensão do gigantesco buraco que quinze anos de Estado Socialista, com um breve interlúdio do PSD, e em especial dois anos e meio de governação alucinante de José Sócrates, entre Outubro de 2008 e Junho de 2011, produziram.

Por outro lado, e por uma cruel coincidência, o verão português estendeu-se alegremente pelo Outono, com temperaturas máximas de 30 graus em pleno Outubro e noites suaves. Não chove há meses. Este ano, o clima em Portugal parece o do Sul da Califórnia.

O que ajuda a explicar a aparente demora, por parte dos contribuintes e demais residentes em Portugal, em sequer assinalar a sucessão de anúncios tétricos, por parte do governo do dia, de um crescente montante de dívidas públicas, de uma crescente incapacidade de gerir a despesa pública, e de um crescente rol de medidas, quase todas fiscais, para tentar controlar o turbilhão da dívida pública.

Só pode ser. As pessoas devem estar num estado catatónico entre o choque do que anda a ser anunciado e a anestesia do longo, quente, suave, verão.

O crescendo culminou com um anúncio na noite do dia 12 de Outubro, pelo actual primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, de que, a partir do dia 1 de Janeiro de 2012, praticamente todos os impostos directos e indirectos subirão brutalmente, quase todas as isenções fiscais serão eliminadas, incluindo o confisco, aos funcionários públicos e os cidadãos que recebem reformas do Estado, dos chamados “subsídios” de Natal e de Férias. A partir de quem aufere uns meros, quase míseros, quinhentos euros por mês, o que é um furo acima do chamado salário mínimo nacional português.

A electricidade, a água, os transportes, o gás, as comunicações, a comida, o tabaco, tudo isso subirá significativamente. A lista do que vai subir em preço não acaba.

O resultado global para já? Em 2012, uma parte muito significativa da população portuguesa deverá ter cortes nominais de entre 15 a 30 por cento nos seus rendimentos, contra aumentos de entre 5 e 10 por cento nos preços de muito do que compram, consumem e pagam em impostos.

O efeito combinado será arrasador para muitas pessoas.

E mais se presume virá.

E tudo isto para quê?

Supostamente, não para “resolver” os efeitos da gestão criminosa da coisa pública que foi feita em Portugal nos últimos vinte anos (com lugar de honra para o inesquecível José Sócrates).

Nem sequer para o governo dar um ar da sua graça perante os que neste momento já estão a financiar a falência portuguesa.

Não.

O objectivo primário é meramente evitar a catástrofe social e económica que, diz o governo, quase certamente ocorrerá se medidas drásticas não forem (não fossem) tomadas.

Assim, o anúncio formal feito ontem (17 de Outubro de 2011) do orçamento do governo central para 2012 é um marco histórico no percurso dos portugueses, pois significa o fim dos “happy days” do dinheiro fácil, da vida à custa das gerações futuras, das reformas aos cinquenta anos, do pecúlio da coisa pública à escala industrial.

Finalmente, trinta e seis anos depois da Descolonização, e vinte seis anos depois do início da Era da Euro-subsidiocracia, em que uma nova elite predadora, saída do pronunciamento militar que acabou com a ditadura inventada por António Salazar, entreteve o povo com benesses alucinantes enquanto ao lado fazia as suas negociatas oportunistas, assiste-se agora ao desmoronar do Estado Socialista.

Ou melhor, ao início do seu desmantelamento. De que o orçamento do governo central português para 2012 é apenas o começo.

O melhor, ou seja, o pior, ainda está para vir.

Curiosamente, quase ninguém se refere ao que se está a passar como tal. Quem ler os jornais portugueses fica com a impressão que se está a passar “apenas” um mau bocado.

Em parte percebo porquê. Por três razões.

Primeiro, porque as pessoas ainda vivem em negação da realidade.

Em segundo lugar, porque creio que a ideia do Estado-papá está tão profundamente enraízada na maneira de pensar e ser de tantos portugueses, que a ideia de que a organização da sociedade portuguesa, que é rígida, centralizadora e gerida de cima por uma minoria predadora, e que desde 1975 teve a forma do Estado Socialista, possa vir a ter uma forma diferente daquilo que tem sido, é quase incompreensível para o cidadão médio.

E em terceiro lugar, porque, de facto, pese o carpir dos nacionalistas die-hards (por aqui há muitos), há uma muito desconfortante sensação de que provavelmente os tempos que vêm aí poderão provar o impensável: que, no actual contexto, poderá ser concebível que o que vai ser feito é, dito de uma forma simples, insuficiente.

Ou ainda pior. Que o improvável, quase milenário, projecto nacional português, concebido pelo filho de um francês e de uma leonesa durante o Século XII, se tornou, finalmente, inviável.

Pessoalmente, não sou tão negativo. Penso que os portugueses vão passar um bocado muito mau, em que haverá que tomar decisões difíceis e de fundo sobre a forma como o país funciona e está organizado. Em que o padrão de vida, que voltará a caracterizar-se pela fome, pela miséria, pela falta de oportunidade e pela emigração, continuará a cair enquanto não se tomarem as medidas que é preciso serem tomadas.

Mas a implosão do Estado Socialista implica a criação de um novo Portugal, que pouco ou nada poderá ter que ver com aquilo que quem vive em Portugal pensa que é a sua identidade, ou marca.

Os portugueses não gostam de mudança, a não ser aquela que lhes traga algo mais em troca de nada.

Esses dias acabaram. Provavelmente para sempre.

Mas a maior parte das pessoas ainda não se apercebeu disso.

Os que se aperceberam, ou auguram o Fim (o melodrama suicidário compõe uma parte crucial e muito apreciada do imaginário colectivo português) ou não parecem saber que caminho tomar.

Todos criticam, com alguma razão, o governo do dia. Afinal, as medidas draconianas agora anunciadas poderão bem ter como consequência o fim de um pacto de não agressão social na sociedade portuguesa, que no passado deu provas de uma insidiosa propensidade para a violência. Verdade é que Portugal nunca foi um país de evolução. Como acontece com os terramotos, a sua história recente, desde a chamada Restauração, é uma sequência de episódios em que, a uma paz mais ou menos podre em que um ou mais sectores da sociedade paga os custos dessa paz, sucedem-se as revoluções. Que são violentas, abrangentes e muito dificeis de resolver.

E em que preciosidades como a liberdade e os direitos dos cidadãos tendem a ser os primeiros valores a serem mitigados.

Mas ninguém parece ter alternativas, para além daquela Esquerda perdida no tempo e oportunista, que aparece agora a sugerir que uma espécie de comunismo esclarecido (que em termos fiscais pelo menos 2012 vai parecer ser) ou simplesmente deixar o país falir e renegar o que deve a quem deve.

Pois pois.

Assim, depois de décadas em banho-Maria, finalmente aproxima-se a tempestade.

O que em Moçambique quem tem idade para isso chamava a Era do Carapau e do Repolho.

Mas em Moçambique eram os tempos da guerra, passava-se fome e morria gente todos os dias. Dizem-me que foi um mau momento. Em Portugal não há guerra e o verão californiano estende-se até à terceira semana de Outubro.

Curiosamente, um indício dos desafios dessa realidade veio-me da leitura de uma interessante entrevista que o Professor José Hermano Saraiva, agora com uns provectos 92 anos de idade, e que viu o auge e o estertor do projecto colonial português, deu no final da semana passada a uma publicação que acompanha o Diário de Notícias de Lisboa.

Nessa entrevista, o historiador, conhecido pelos programas televisivos que há muitos anos faz na televisão pública portuguesa, chamados Da Gente e da Alma, às tantas foi questionado acerca da situação actual de Portugal. A quem atribuía a responsabilidade por esta crise e que medidas é que deviam ser tomadas para o País superar a actual “ruptura socieconómica”, perguntaram-lhe.

Eis a sua resposta, na íntegra: “Tão simples! Portugal tinha como principais rendimentos os produtos ultramarinos e as alfândegas e, de uma só vez, acabaram com tudo. Nós não temos produção. [Quanto às medidas a tomar] julgo que nenhumas. Portugal não tem hipóteses de sobrevivência. Portugal era o principal produtor de café, de urânio, de ferro, e deixámos de ser tudo isso. Não temos nada. Somos um País mendigo, vivemos de dinheiro emprestado. (…) Portugal não vai re-erguer-se, não vejo maneira nenhuma de isso acontecer.” (Notícias TV, 14 de Outubro de 2011, pp. 11 e 12).

Internamente, o Arcebispo das Finanças de Portugal, Vítor Gaspar, que vai pontificando nas televisões numa cadência messiânico-papal, diz que vai fazer o que for preciso para endireitar a economia nacional.

Mas se a Grécia, a Espanha e a Itália caírem sozinhas (curiosamente se fosse toda a Europa seria menos mau) Deus salve Portugal.

Baseado na minha experiência africana, face ao que poderá vir a acontecer, cada português que se salve a si próprio.

Esta noite, a famigerada Agência Moody’s baixou a notação de risco de Espanha de AA2 para A1.

Vem aí a tempestade.

E muito pia e latinamente, e mais uma vez, reina a total impunidade em relação ao porquê se chegou aqui e a quem foi responsável pela forma como se chegou a este ponto.

06/10/2011

A DESILUSÃO DE CAVACO E COM CAVACO

Aníbal Cavaco Silva discursando durante o feriado de 5 de Outbro. Em baixo, o que eu pensei sobre o que ele disse. Foto cortesia de a Bola.

 

Não sei precisar o momento em que Aníbal Cavaco Silva me começou a desiludir a sério, enquanto titular do cargo de presidente da república portuguesa.

Não sei se foi quando me apercebi da sua postura esfíngica de diva política (que não é).

Nem sei se foi quando repetidamente me irritava quando, sempre que um jornalista lhe metia um microfone debaixo da boca (situação de que não gosto mas que ele é que permite – se eu fosse presidente mantia os jornalistas a dez metros de distância, tal como faz qualquer presidente dos EUA que se preze) de pontificar socraticamente sobre ele mesmo mas falando dele na terceira pessoa- e mesmo assim cripticamente ou dizendo nada.

Não que interesse. A maior parte do tempo, o que ele diz não interessa. Mas os média portugueses têm esta propensidade para o seguirem perpetuamente, à caça de uma declaração, de uma declaraçãozinha.

Nem tão pouco se foi quando me apercebi da sua penosamente óbvia incapacidade genética de falar com as pessoas através da televisão ou de estar com elas pessoalmente, sob a custódia protectiva da sua esposa-parceira política, uma professora de liceu reformada com uma pensão de (explicou ele uma vez) apenas 800 euros por mês.

Uma impreciosidade pecuniária que só mesmo um investimentozinho oportuno em acções do BPN ajudavam a colmatar.

Nem ainda, na sua teimosia em insistir que “ele” o tal presidente na terceira pessoa que é ele mas que ele sugere que não é ele, invariavelmente não se deve pronunciar sobre este, aquele ou qualquer outro assunto.

Mas que depois permite que se deixe gravar num pasto nos Açores a dizer as mais rascas banalidades sobre vacas e fruta.

Durante muito tempo, pensei que ele seguia esta postura académico-anal-retentiva porque, para além de ser mesmo assim, por debaixo dele ele tinha que lidar com o quiçá menos estável, quase hilariantemente exuberante – e perigoso – José Sócrates. O socialista-in-waiting que emergeu do chiqueiro que foi na altura o chamado escândalo da Casa Pia e que meteu os pregos finais no túmulo em que Portugal rapidamente se está a tornar (bendito povo que ainda não se apercebeu no que está metido).

Mas em Junho, supostamente, ocorreu um episódio histórico na política portuguesa (histórico com “h” pequeno, muito pequeno, atalhe-se): num espasmo momentâneo e irreflectido de alguma sanidade, certamente excessivamente tardio, alguns eleitores puseram Sócrates na rua e votaram maioritariamente para colocar o PSD, o PSD que havia, no poder.

O mesmo PSD onde Aníbal causou algum furor nos “happy crazy years” do arranque da mama europeia – e cujas regras de base ele redigiu – como ministro das finanças e depois como primeiro ministro durante dez anos seguidos.

Lembram-se desses anos?

Os dez anos de Cavaco Silva foram na altura vistos como anos de grande prosperidade, de desenvolvimento e de alguma paz a estabilidade. As empregadas domésticas deixaram de usar passes sociais e compraram Renaults Clio a prestações. Profeticamente, ele terminou essa década liberalizando o crédito…ao consumo. O mesmo que agora nos consume colectivamente.

Mas afinal esses anos não foram bem isso.

Na verdade, foi aquilo que, memoravelmente Joaquim Chissano, lá nas Áfricas, dizia acerca das suas “audiências internas” enquanto presidente executivo de Moçambique: agora se depreende que o que era preciso para andar para a frente nesses anos, era manter as ratazanas à sua volta com a barriga cheia.

E isso ele fez. Foi uma win-win situation. Tirando talvez os despachantes oficiais, acho que esses dez anos foram uma bebedeira nacional a todos os níveis. Os privados comeram o que quiseram, a máquina estatal explodiu em crescimento, as despesas públicas subiram a um patamar estratosférico, procedeu-se alegremente à desindustrialização de Portugal, sob o aliciante lema – que Cavaco Silva e só ele inventou – de que Portugal poderia ser o próximo Sillicon Valley da Europa. O que na verdade equivale a dizer que beduínos marroquinos passassem a fabricar Ipads da Apple (Rip Steve Jobs).

O resultado, anos mais tarde, foi uma absolutamente estranha parceria, em que uma empresa que ninguém sabe bem quem é ganhava dinheiro vendendo – ao governo, ou seja aos contribuintes – uns computadorzecos chamados Magalhães a meninos previamente de rua e que serão a suposta Geração Portuguesa do Futuro.

A Grande Geração da maior implosão demográfica em 900 anos de história, tirando a Gripe Espanhola de 1918 e a Grande Peste de 1348.

Aníbal Cavaco Silva foi posto na rua em 1995. Ou melhor, como ele não iria concorrer, e portanto tecnicamente não podia ser despedido, os eleitores na altura puseram o seu partido na rua, demolindo a sua máquina e abrindo o flanco a outra não mais apta agremiação de talentos, que era a então liderança do PS, personalizada na figura de António Guterres, que era uma espécie de anti-caricatura de Aníbal: tudo fazia, tudo dizia, com tudo e todos dialogava, ao som de uma passagem épica do filme O Gladiador.

Mas, feitas as apresentações e as nomeações, e agora sob diferentes condições – de que destaco a continuação da torrente de euro-donativos, a baixa substancial das taxas de juro e a relativa novidade da capacidade de ambos os sectores público e privado de se passarem a financiar (leia-se endividar) nos mercados internacionais ao preço da uva mijona – os anos de António Guterres caracterizaram-se pela continuação da política do betão, abrindo agora uma nova frente na chamada área social, sempre tão cara para os socialistas.

Era o betão com consciência social, simbolizado pelo cancelamento de uma barragem e a inauguração de um parque de imagens pré-históricas algures do Portugal Profundo.

Em 98, fez-se a Expo que fez a ponte para a bebedeira seguinte, que foi o Euro 2004. Por uns momentos, mais do que quandp ávida e pacoviamente mudavam as matrículas dos seus carros para o padrão europeu, os portugueses equivocaram-se gravemente e pensaram que eram portugueses da Europa.

Ou seja, para além do betão de Cavaco Silva, António Guterres, no que em seguida foi superado soberbabemente por José Sócrates, principiou a gastar o que todos os portugueses não tinham, em subsídios para tudo e mais alguma coisa.

Pelo meio, houve uma eleição presidencial em que Cavaco Silva não teve qualquer chance. Jorge Sampaio, um socialista mediano mas simpático que fora presidente de câmara e que tinha a particularidade de falar bem inglês e de chorar em público de quando em vez, ficou com o lugar. A única vez em que se notou foi quando limpou a poeira aos canos serrados da espingarda presidencial e ejectou o curto, infeliz governo de Santana Lopes, que ficou por aí.

O problema é que, entretanto, a economia portuguesa pura e simplesmente parou. E assim ficou, estática, durante dez anos seguidos, alheia ao que se dissesse ou se fizesse, que não era rigorosamente nada.

No sector público, acumulava-se a pressão explosiva em termos de custos e de eficácia, a quase todos os níveis. Num primeiro susto, que aliás não foi lá muito levado a sério, José Sócrates fingiu que ia fazer reformas. “Fazer reformas” para um socialista habitualmente significa “aumentar impostos”. E assim foi. Trouxeram o Paulo Macedo que mais ou menos começou a fazer com os impostos o que ninguém pelos vistos consegue fazer com a justiça, a saúde, a educação, a gestão da demais coisa pública.

Pelo meio, desta vez por alguma saturação anti-socialista, e por falta de alternativas, creio, Aníbal Cavaco Silva foi eleito presidente. Tal como no final do Século XIX, era a Alternância sem Alternativas.

De nada e para nada serviu, aquele primeiro mandato.

Que foi digamos que mudo. Lá no palácio que foi de Dom Carlos e Dona Amélia, Aníbal pregoava harmonia, ruminava subterraneamente e através da sua corte de assessores quando algo lhe desagradava, agarrou-se uma vez de uma forma inusitada à relativamente exótica questão do estatuto dos Açores. Isto enquanto José Sócrates literalmente fez o que quis e lhe apeteceu. No início de 2009, quando já tudo se começava a desmoronar, manteve um aumento de 3.9% dos salários dos funcionários públicos e disse que o que afinal era preciso era – estaria eu a alucinar? – mais e mais despesa e mais investimento público.

Era preciso dar de comer às ratazanas.

Na sua mais recente campanha, Cavaco Silva foi quase majestático: nem sequer fez campanha, para além duns cartazezitos e uns debates positivamente intragáveis na televisão. Isto já quando o mundo levara o rombo assustador da falência premonitória do banco americano Lehman Brothers e em que o que estava para vir era totalmente previsível: uma arrasadora destruição de valor nos mercados de capitais, a que se seguiria uma ainda mais demolidora secagem dos mercados de crédito. Subitamente, toda a gente descobriu a palavra “risco” e “notação de risco”.

Especialmente em Portugal.

Metodicamente, a Islândia, a Irlanda e a Grécia caíram. Os grandes tomaram severas medidas de contenção.

Quando Sócrates foi finalmente posto fora, após anunciar o seu quinto “Plano de Estabilidade e Crescimento” ou PEC, termo kafkiano-orwelliano que na quase totalidade consistia em fazer aumentar pela quinta vez sucessiva os impostos, Cavaco foi incansavelmente fleugmático.

Afinal, em Portugal, um presidente não manda.

Umas semanas depois, no início de Junho, o PSD de Pedro Passos Coelho, um ex- perpetuamente jovem apparatchik do PSD sem qualquer experiência prévia de governo e que tinha escrito um daqueles livrinhos inspiracionais que agora estão tanto na moda, tomou as rédeas do poder. Possuía as importantes vantagens de não parecer alucinar como José Sócrates e de ser elegível.

Face ao terror económico que se começava a vislumbrar poderia estar para vir, alguns portugueses acharam reconfortante ter agora uma espécie de Santíssima Trindade Laranja a governar a nação: um presidente, um governo e um parlamento laranjas.

Previsivelmente, os primeiros cem dias do novo governo laranja consistiram em fazer duas coisas: dizer que tudo estava a ir de mal a pior e a aumentar impostos. Muitos mais impostos.

O que, claro, todos aceitaram relutantemente pois estava-se a pagar o descalabro de dez anos de República Socialista. E não parecia haver alternativa.

O que não estava previsto é que não fizessem quase mais nada para além disso. Nada de cortes na despesa, nada de ideias novas, nada para além do parlapatanço habitual e típico dos políticos portugueses. Paulo Portas, que se movimentou para ter um lugar à mesa do poder, refugiou-se no recato das Necessidades, e meteu uns seus colaboradores em pastas importantes,em que ainda não se observou nada de substancial.

Neste período, Cavaco Silva, agora em segundo e terminal mandato, pouco disse, para além daquelas estranhas mas já habituais emanações sobre ele mesmo na terceira pessoa, e referindo que as coisas estavam mal e que a gente que se virasse para melhorar as coisas.

E sobre as vaquinhas nos Açores.

É portanto, neste contexto global, que a Aníbal Cavaco Silva ocorreu, ontem, de celebrar o lamentável feriado do dia em que houve um golpe de Estado (mais um, diga-se) resultante de uma conspiração em Lisboa que derrubou em 1910 a monarquia e implantou o actual regime há 101 anos, com um discurso.

A esse chamo o Discurso dos Tempos Difíceis e da Refundação da República.

Quem quiser e tiver a pachorra, pode lê-lo premindo AQUI (curiosamente o sítio do jornal desportivo A Bola).

Qual foi a essência das suas mensagens?

A meu ver, a essência do que disse é que os portugueses estão lixados, que vão passar as passinhas do seu nativo Algarve, que ou arrepiam caminho depressa ou vai tudo por água abaixo, e finalmente que se esqueçam da mama do governo que desta vez não lhes pode ajudar.

O terminar o discurso com uma esforçada mensagem de fé quase divina nas capacidades dos lusitanos, quase parece uma espécie de exercício da praxe para não ficar mal. Ainda assim usa o já desgastado exemplo dos portugueses emigrados, ignorando a perversa dualidade do que isso significa: que os portugueses lá foram são exemplares e têm sucesso tanto porque são portugueses, como porque……justamente, estão lá fora.

Ora, eu ouvi e depois li o que ele disse no seu discurso de 5 de Outubro de 2011 no contexto não de hoje mas no de uma carreira que decorre há quase trinta anos.

E acho curioso que alguém que foi responsável em boa parte pelo país que este é agora, mas que é suposto ser um contraponto à loucura socialista de dez anos, que procurou e obteve o cargo de presidente da república, que me parecia apreender de forma lúcida os tempos que se avizinhavam, que neste momento de constatação da inevitabilidade da mudança, centre o seu discurso nas temáticas de funda da Desgraça e da redescoberta da necessidade do renascimento de um novo “activismo republicano.”

Precisamos de fazer renascer um novo activismo republicano?

Um novo activismo republicano?

Qual deles? o da pulhice nojenta e malcheirosa da I república? o dos quarenta anos da república de Salazar? ou os trinta anos e tal anos de República Socialista, a República a Crédito que terminou com a maior falência nacional em 120 anos?

Nos últimos tempos de Sócrates, quando o via na televisão, eu costumava interrogar-me com frequência sobre em que planeta é que ele pensava que vivia.

Quando vi Aníbal Cavaco Silva a discursar na televisão ontem à tarde, fiz a mesmíssima pergunta.

E a resposta, cada vez mais, parece ser esta.

Que os portugueses mais uma vez estão entregues a si próprios, sem qualquer projecto nacional que não seja ir a reboque dos escombros do projecto europeu, sem o qual não há desígnio nacional, e que os actuais líderes, um pouco como os mais recentes, não estão ali para liderar nem para solucionar.

Estão apenas para cruzar os débitos com os créditos, a tentar vender a língua para agradar ao Brasil e a esperar que venha um milagre de alguma parte. Possivelmente da Europa, o que ele sugere no seu discurso, mas temente de que poderá não ser assim.

A história de Portugal já teve vários destes lamentáveis momentos. Em que se pressente que algo de terrível está para acontecer.

E que ninguém parece preparado para o que está para vir.

E parece que neste caso a história repete-se.

Se se repete, é porque, se calhar, os portugueses merecem. Pois não aprenderam a lição.

Independentemente desse detalhe, nestas circunstâncias, esta república, certamente esta III república, provavelmente, não tem salvação.

E Aníbal Cavaco Silva provou que já não é parte da solução.

É parte do problema.

27/07/2011

A BANCA PORTUGUESA ENTRA NO TÚNEL

Os Big Five Portugueses. Destes, um é espanhol e o outro é do governo português.

Duas peças nas notícias de hoje chamam a atenção. O Grupo BCP levou quase um cartão vermelho para arrumar a casa e se preparar para o que vem aí.  Mais folgadamente, o Grupo BPI passa um pouco pelo mesmo.

Suspeito que o BES esteja também bem alerta para os tempos que se avizinham.

Quase implausivamente, os depósitos dos portugueses continuam alegremente a subir nas contas dos bancos. Para eles, os bancos, isso é bom. Muito bom. Dá-lhes liquidez e é uma indicação de que os portugueses ainda acham seguro ter lá as suas poupanças (o mesmo não está a suceder na Irlanda e na Grécia, onde os saldos dos bancos caíram a pique).

Mas a ameaça, havendo, vem de outros quadrantes. Presumo que o crédito mal-parado, assim como as suas consequências em termos de constituição de reservas e custos de recuperação, vão continuar a subir. O nível de bons negócios vai cair.

Tudo isto, mais do que a rentabilidade, vai afectar a liquidez dos bancos, que é o calcanhar de Aquiles em qualquer situação de debilidade económica. Invariavelmente, um banco vai à falência quando não tem liquidez. Os planos para o empréstimo a Portugal incluem um valor expressivo para garantir essa liquidez.

O CEO do BPI sugere que não chega.

De qualquer modo, a rentabilidade já está a ser vertiginosamente afectada. Nos primeiros seis meses de 2011, o BPI ganhou mais lucro com as suas excelentes operações em Angola e Moçambique que com o negócio de Portugal, muitas vezes maior em dimensão – porque o negócio em Portugal contraiu.  As receitas nos mesmos países com as respectivas operações têm sido também um importante contributo para os lucros do BCP, que, para além dos condicionalismos que acima refiro, tem ainda uma base de capital Tier 1 (isto é banquês) relativamente frágil, 5.4%. Então se se levarem em consideração o que está previsto no protocolo de Basileia 3 (mais banquês) os bancos portugueses estão com o problema de terem que aumentar expressivamente o seu capital numa altura em que não há dinheiro para isso e não há interesse particular em ter acções de bancos.

Isto numa altura em que está na moda chamar os nomes todos e mais algum aos bancos, aos banqueiros e tudo o que tenha a ver com banca.

Pois. Carpir é fácil.

Mas ninguém sequer se atreve a sonhar em ir um dia ao seu balcãozinho levantar o seu dinheiro e ele não haver.

Aliás, as chances são que, se isso acontecer, ocorrer o que sucedeu com o BPN em Portugal, ou com o Banco Austral em Moçambique: o governo, ou seja, os contribuintes, contribuirão o que for preciso para estancar uma falência.

Só que, excepto em Angola, que Deus presenteou com poços de petróleo, as contas dos estados já estão à flor da pele.

Por essa razão, convém haver serenidade e ir acompanhando o que se passa. Os bancos, e o governo, têm um percurso a percorrer. Para o bem de nós todos, que o façam com bom senso e sucesso.

E que todos juntos vejamos a luz no fundo do túnel em que vamos entrar.

A VERDADEIRA, ÚNICA FÉ

O que é que os portugueses sabem que os outros não sabem? O que é que os portugueses não sabem que os outros sabem?

18/05/2011

O RATING DO RISCO DE PORTUGAL EM 2011

(Em cima: a informação estatística ajuda a entender o nosso mundo, a evolução ao longo dos tempos e os desafios do futuro)

Em semanas recentes, tem-se vindo a questionar em Portugal (e não só, mas fiquemos por aqui) a pertinência e até a validade das notações dadas por empresas especializadas, em relação a países como a Grécia, a Irlanda – e Portugal.

Essas empresas de “rating” (em inglês o termo significa literalmente “dar uma nota”, avaliar de acordo com alguns critérios) – de que se destacam a Moody’s, a Fitch e a Standard & Poor’s – adquiriram renovada notoriedade junto do público não especializado português, nas semanas que antecederam o dia em que o primeiro-ministro apresentou a demissão do cargo, ao ver chumbada a quarta proposta consecutiva de aumento de impostos em cerca de um ano, propostas de legislação essas que, talvez num rasgo de doublespeak orwelliano, se continuam a chamar planos de estabilidade e crescimento – ou PECs.

Considerar “estável” e que faça crescer seja o que for através de meramente aumentando impostos, é algo que me fascina.
Mais do que tudo, essa notoriedade resultou do facto de que, especialmente desde Janeiro, as sucessivas notações dadas a Portugal (o Estado português, para ser mais específico), que eram no sentido de uma crescente degradação, entravam em contradição directa com as também sucessivas declarações do primeiro-ministro, José Sócrates, de que tudo estava mais ou menos bem e que o país poderia (como referiu Sócrates ad nauseum) enfrentar sozinho os seus problemas.

Semana após semana, apesar da fixação de Sócrates em afirmar que Portugal era capaz de enfrentar os seus crescentes problemas com a obtenção de crédito e capacidade de gerar receita para pagar as despesas públicas, as principais empresas de rating foram baixando a notações de risco do país.

Desde cedo, muitos em Portugal, entre eles o governo, ainda que com maior discrição, questionaram e atacaram o papel destas empresas e o seu trabalho. Num vídeo que o meu amigo FB João Neves simpaticamente me enviou ontem, são repetidas acusações bem conhecidas em relação às mesmas – que são falíveis, que são manipuláveis, que têm um estatuto que não deviam ter. Que devia haver outra coisa, uma empresa com outro estatuto, empresas não americanas (a Fitch, Moody’s e S&P são de base norte-americana).

Mas há mais. Uma das críticas mais contundentes contra as empresas de rating foi a sua incapacidade de elencarem e reflectirem nas suas notações os antecedentes que levaram ao quase degelo do sistema financeiro mundial, entre 2007 e Setembro de 2008, data em que, como muitos se lembram, a crise passou para a primeira página dos jornais quando a administração Bush deixou cair o banco norte-americano Lehman Brothers.

Talvez o caso mais gritante tenha sido o da pequena nação europeia da Islândia, que faliu inexoravelmente em cerca de uma semana, tendo tido uma notação máxima de AAA, atribuída por umas das três grandes empresas de rating.

Naturalmente, este tornou-se num assunto político do dia.

Mas antes disso, uma curta nota sobre isto dos ratings e como funcionam.

O QUE SÃO E COMO FUNCIONAM OS RATINGS

Toda a base do negócio no mundo financeiro, que essencialmente é um negócio de intermediação financeira, ou seja, mediar entre quem tem dinheiro e quem precisa de dinheiro, assenta numa adequada e avisada avaliação do risco de cada negócio.
Do risco de que o que é emprestado, o que é investido, vai ou não vai ser pago pela pessoa ou entidade a quem se emprestou, ou em quem se investiu.

Quem empresta dinheiro (e nas nossas vidas privadas é exactamente o mesmo), quer garantias ou conforto, de que o seu dinheiro, mais o seu lucro, na forma de juros, vai ser pago.

Quem precisa de dinheiro tem que estar pronto para, de boa fé (e fico por aqui) prestar as informações e dar as garantias, reais ou outras, de forma a confirmar que pode e que vai, de uma forma ou outra, pagar o que deve.

A complexidade e sofisticação da análise de cada situação em que há alguém que tem dinheiro para emprestar e há alguém que gostava de ver esse dinheiro emprestado, varia. Requer pessoas especialmente treinadas para efectuar essas análises. Como um exemplo, a esmagadora maioria dos bancos hoje em dia possui departamentos especializados nessa actividade, os departamentos de crédito, cuja actividade é analisar os pedidos de crédito de uma forma técnica, segundo um conjunto de critérios (que variam enormemente de instituição para instituição) alguns técnicos, outros não.

Alguns dos critérios técnicos são a análise dos rendimentos, ou receitas do proponente, as suas despesas, as suas dívidas, a sua capacidade de endividamento.

Mas há muitos mais. Dou dois exemplos.

O primeiro: um banco que vai analisar se vai emprestar uma quantia a uma empresa de reparação de televisores que só tem uma pessoa que é o dono, que tem 70 anos de idade e que é o único que sabe reparar televisores, tem que pensar no que vai acontecer se essa pessoa morrer no dia seguinte ou for atropelada. Pois sem essa pessoa não há negócio, não há receitas, e o que for emprestado fica em risco.

O segundo: um proponente em que todos os dados apresentados indiciam que não há qualquer problema quanto à sua capacidade de pagamento, mas que se conhece que já por mais que uma vez simplesmente não liquidou o que devia a outra empresa (hoje em dia qualquer país que se preze mantém listas de devedores precisamente para que isso se conheça).

Por uma questão de uniformização de critérios e de tentativa de transparência, muitas empresas financeiras desenvolveram metodologias e sistemas de notação, em que, por exemplo (era o caso no primeiro banco em que trabalhei, nos EUA), o melhor candidato para a concessão de crédito tem uma nota “A”, e o pior “E”.

Na realidade, a maior parte dos clientes acabam por ficar entre um “A” e um “C”. O banco onde eu trabalhava por norma muito dificilmente emprestava a um cliente com notação de risco “D” e definitivamente nunca emprestava a um “E”.

Refira-se que essas notações são aferições. São avaliações. São opiniões formuladas com um elevado grau de especialização.
Ou seja, isto não é ciência, é arte, com muita informação e técnica pelo meio.

Uma ilustração da natureza algo arbitrária dessas notações é que é frequente nas catacumbas dos bancos há debates, por vezes muito acesos, especialmente entre o departamento comercial (que tipicamente quer avançar com um negócio) e o departamento de crédito (que tem que velar pelo risco e assegurar que as avaliações reflectem a verdade), entre uma notação digamos “C”, em que a operação ainda se pode fazer, e “D”, em que só muito dificilmente se fará. Normalmente, segue-se uma discussão em redor dos factos que justificam a notação dada, no sentido de a alterar. Mesmo aí, há regras, algumas técnicas, outras não.

Havendo dito isto, gostava de realçar que quem faz estas análises é contratado e pago por quem as encomenda, não por quem pede crédito (não directamente, pelo menos) ou pela sociedade em geral.

O que não significa que possam fazer o que quiserem. Nos anos 80 e 90, nos Estados Unidos, vários bancos, que se provou que não concediam crédito em zonas onde residiam cidadãos negros (a esta prática chama-se redlining) foram legalmente obrigados a alterar os seus procedimentos pois tais práticas eram racistas.

GRANDES EMPRESAS E SECTOR PÚBLICO

O panorama muda algo à medida que se sobe na dimensão e natureza dos negócios. A especialização é muito maior, mais cara, mais sofisticada. Emprestar dinheiro, digamos, a uma EDP (no caso português), a uma HCB (no caso moçambicano) a uma Sonangol (caso angolano), ou a um destes Estados, seja directamente, a um dos seus ministérios, ou a uma grande empresa pública ou semi-pública, tende a envolver montantes muito elevados, e operações muito específicas. Não é a mesma coisa que emprestar dinheiro a uma pessoa para comprar uma casa.

Mas no fim do dia aplicam-se as mesmas regras básicas: o dinheiro é para ser pago, tem que dar lucro a quem empresta, tem que haver garantias de que será pago.

E normalmente, para estas operações, há empresas – de que a Fitch, a S&P e a Moody’s são as mais conhecidas – que analisam na análise dos riscos envolvidos e ajudam a formular o preço pelo dinheiro emprestado, na forma de juros.

A regra básica é que, quanto maior o risco, mais altos devem ser o juros a pagar, sendo os juros o custo do dinheiro, que depende de outras coisas como a inflação.

Ora, a forma padronizada de abordar estas operações inclui relatórios de risco que incluem, ou concluem, com notações de risco.
Quem empresta tem o direito de expressar o seu grau de apetite pelo risco. Grandes bancos, fundos de investimento, fundos de pensões e seguradoras, que são os grandes compradores de dívida pública, podem querer emprestar só a países com impecáveis registos de cumprimento das suas obrigações, em detrimento de países com percursos digamos que mais erráticos.

Ou seja, países com uma notação de risco AAA (considerada a nota mais alta na escala de notações internacionalmente aceites).

O CASO DE PORTUGAL

No caso de Portugal (que aqui é visto como “sector público”) a notação risco degradou-se entre 2007 e 2011 de AAA para BBB- (caso do rating da Moody’s).

O impacto directo destas alterações é que o número de entidades dispostas a emprestar secou, e que os que ainda estão dispostos a emprestar (comprar dívida é emprestar) fazem-no mas a um preço muito mais alto.

Porque é que o rating de Portugal cair para um nível apenas ligeiramente acima de “lixo”?

(“lixo” é um termo comum para um rating em que dificilmente se antevê que a entidade a quem se emprestou o dinheiro vá pagar o que pediu emprestado sem dar problemas).

Por seis razões que creio serem do conhecimento geral:

1. Os níveis de endividamento dos sectores público e privado portugueses terem atingido níveis excessivamente elevados.
2. A crescente dificuldade do Estado português em obter fontes de financiamento para as suas despesas.
3. A crescente dificuldade do Estado em obter receitas para pagar o que deve – estamos a falar de impostos e outras receitas fiscais.
4. Uma crescente percepção de que o governo era incapaz de controlar quer o seu nível de endividamento, quer o seu nível de despesas.
5. A constatação de que os níveis “reais” de endividamento público são muito mais altos , quer indirectamente, quer através de obrigações contratuais de pagamentos futuros (notavelmente, através das famosas “parcerias público-privadas” e de alguns grandes projectos públicos como auto-estradas, aeroportos e linhas de comboio de alta velocidade).
6. A economia está a iniciar uma grave recessão, o que se traduzirá em dificuldades económicas, prenunciando dificuldades na obtenção de receitas que cubram as despesas previstas.
Pode-se perguntar sempre: será que o actual rating, e a sua recente evolução, fazem sentido?
Na minha opinião, sim. Claro que sim. Os dados acima referidos são comprováveis e esta é considerada a maior crise em Portugal nos últimos 120 anos. Quem conhece Portugal e ainda não se apercebeu da gravidade da situação, deveria estudar mais o que se está a passar.

CONCLUSÂO

Voltando ao tema abordado no início desta nota, faz sentido, justifica-se questionar as metodologias e as notações dadas a Portugal pelas empresas de rating?

Ou, como parece que aconteceu, processá-las por danos (supostamente) causados pelas suas notações?

Naturalmente que, em estados de direito democráticos, tudo isso se pode fazer.

O meu problema com esta situação é que estas acusações assentam no pressuposto que as notações atribuídas a Portugal erraram na medida em que foram excusadamente severas.

E suspeito que estão associadas à intenção de apoiar a postura política de alguns dos agentes políticos, nomeadamente o governo.
Eu considero que, neste caso, as empresas de rating, sendo intrinsicamente imperfeitas pelas razões que referi acima, se erraram, foi num só sentido:

O tal rating “BBB-“ se calhar devia ter sido atribuído a Portugal em Junho de 2009.

Não em Abril de 2011.

Pois em meados de 2009 a situação cujo desfecho, final e penosamente, se conheceu há um mês -a falência técnica do Estado português – já nessa altura era previsível.

Que, mesmo assim, a democracia portuguesa tenha mantido no poder o governo que seguiu o rumo que seguiu até este momento, é a meu ver um trágico prenúncio e uma grave falha do sistema, cujos efeitos ecoarão nos tempos, política, social e economicamente.

Este povo – eu incluído – não merece o destino que está a ter.

E que vai ter.

Muito grato ao João Neves pelo vídeo que me mandou e à Maria João Freire por me ter dado na cabeça em relação a este assunto.

15/04/2011

PAX GERMANIA ET PAX BRITANNIA

A exposição europeia à dívida dos PIGS é maciça.

Apesar de estar na moda estes dias em Portugal demonizar o papel da Alemanha (e, nos últimos três dias, da Finlândia) na negociação de um empréstimo para ajudar Portugal a sair do enorme buraco financeiro em que está metido, a verdade é que eu sempre achei que os alemães têm alguma razão em estar reticentes em relação ao que aconteceu em Portugal.

O que se passa agora é o equivalente de o exmo Leitor viver num prédio onde a despesa do condomínio tem que ser paga todos os meses, e em que o exmo. Leitor durante uns meses tem que pagar a sua despesa e ainda a de um vizinho que anda sempre em festas e que não paga a quota dele.

Portanto, a motivação alemã para ajudar Portugal não existe.

Não existe?

Talvez exista, se se examinar o quadro em cima, publicado hoje no jornal The Econmist.

O mais interessante no quadro é que realça a exposição principalmente da Alemanha, da Grâ-Bretanha e da França ao endividamento dos PIGS.

O que facilmente demonstra que, se Portugal der um estoiro, vai correr sangue nas ruas de Londres, Paris e Berlim.

E, nestas coisas de incentivos, a auto-preservação continua a ser um dos mais poderosos.

A minha aposta é que, gostem ou não, eles vão emprestar o dinheiro.

Em nome da Pax Europa, dirão.

E do seu próprio bem-estar.

Agora o que os portugueses depois vão fazer com ele, isso é outra história.

Vai mais um aeroportozito?

Mais um TGVzinho?

Pois.

12/04/2011

UM MAIS UM IGUAL A TRÊS

Em cima, o jornalista  José Gomes Ferreira, da estação de televisão portuguesa SIC, durante um breve momento em que teve um rasgo de lucidez, mal contido, antes que se arrisque a ser saneado pelas forças obscuras do politiquês correcto do actual regime.

Agora temos que estar todos à espera que dúzia e meia de técnicos estrangeiros, que desembarcaram esta semana no Aeroporto da Portela estile “Men in Black”, compilem um relatório, para se perceber o que raio realmente se passa em Portugal.

Entretanto, gasta-se horas nos media a tentar adivinhar duas coisas: 1) onde é que se vai cortar o quê, 2) onde é que se vai cobrar mais impostos.

E a taxa de desemprego continua a subir.

07/04/2011

ECONOMIA DE QUÊ?

Filed under: Economia Portuguesa, Globalização, Sociedade portuguesa — ABM @ 4:39 pm

O Economist de ontem referiu o resultado de um inquérito internacional sobre o capitalismo. À questão “concorda que a economia de mercado é a melhor para o futuro do mundo”, as respostas foram as seguintes:

Percentagem dos que concordaram com a frase "a economia de mercado é a melhor para o futuro do mundo".

Suspeito, insidiosamente, que Portugal não participou neste inquérito porque a maioria dos inquiridos não sabia o que era uma economia de mercado.

Na realidade, a discussão pública do modelo de sociedade que as forças vivas da sociedade portuguesa querem (entendendo-se por isso os bardos que aparecem nos programas de televisão e os que publicam livros intragáveis e mal organizados do que é aquilo que pensam) tem sido quase cómico, e mais o seria não fosse a situação tão dramática.

Pelo meio, há a manipulação da imprensa, às vezes por ela própria, pois este país é uma patética manta de retalhos ideológicos que se batalham rua a rua, casa a casa, emprego a emprego, pelo que acham que são as suas justas convicções. No topo estão os PS’s contra os PSD’s, depois os esquerdenhos (PCPs, BEs e Cia Limitada), os minoritários da direita (CDSs e outros que não conheço), monárquicos, maçónicos, católicos, opus deis, independentes que acham que por si só são movimentos, humanistas, etc.

Às vezes apetece vomitar, pois numa emergência, pelo menos em democracia, há que haver uma coisa horrível chamada “consenso”, e uma cara que consubstancie esse consenso.

E aí é que a porca torce o rabo.

É que em 858 anos de Portugal (aqui conto a partir da bula papal de 1143) falando muito muito genericamente, só houve três tipos de consenso:

1. O consenso é o que o rei diz que é.
2. O consenso é o que o partido diz que é (só nos vinte anos do rotativismo no fim da monarquia, e mesmo esse viu-se no que deu)
3. O consenso é o que o Salazar diz que é.

Ou seja, consenso em democracia, em que se senta tudo à noite em volta da fogueira e alguém diz “então, o que é que vamos fazer agora aqui com o nosso país?”, não conheço. As elites políticas arrasam-se desrespeitosamente umas às outras e o eleitorado vai a reboque.

E este é o país onde já se encara com naturalidade a equipa de futebol do Sport Lisboa e Benfica ir ao Norte e levar com pedregulhos em cima nas auto-estradas, e a do Futebol Clube do Porto vir a Lisboa e no fim dum jogo apagarem-lhes as luzes do estádio e ligar os repuxos de rega para os chatear.

Com exemplos de consenso e civismo destes, à espera de ver fico das soluções que vão ser agora propostas.

NOW MEANS NOW MEANS NOW*

O Portugal do Ali Babá e dos 40 Assessores.

Sabe o exmo Leitor porque é que só foi ontem às 08:40 horas da noite que o ainda primeiro-ministro português José Sócrates finalmente despertou do seu estado de aparente estado de autismo socialista?

Apenas por uma razão.

Porque já não era possível adiar a ilusão por mais um dia.

Mas não foi porque o seu governo continua a gastar muito mais do que recebe de receitas após três Peques.

Nem porque cada dia que passa se descobre que as dívidas escondidas pelos cantos da teia de empresas públicas, privadas e afins é de proporções antediluvianas.

Não.

A razão foi que, após cortado o crédito ao Estado, e em que este encenou um último “leilão” de dívida pública em que os compradores foram os bancos portugueses, estes lhe informaram que estavam a poucos dias da falência.

A maior parte dos bancos, ao contrário do que se possa supor, não vai à falência no sentido normal, ou seja, quando a sua situação de capital líquido é negativo.

A maior parte vai à falência por falta de liquidez. Ou seja, pura e simplesmente deixam de ter dinheiro para pedir emprestado lá fora, para pagar o que pediram emprestado lá fora, para emprestar cá dentro, e nem sequer para poderem dar os seus clientes depositantes o seu (deles, dos depositantes) dinheiro.

Ora como o acesso a dinheiro fácil via o banco central europeu e outras fontes secou a partir do momento em que a espiral da descida dos ratings acelerou, e estes estão endividados lá fora até à ponta da ponta dos cabelos, era uma questão de dias.

Citando uma fonte do governo que logicamente deixou o nome de fora, comunicado em surdina ao jornal Económico, “o factor fundamental que levou a que o Governo solicitasse esta ajuda foram as dificuldades financeiras do sector financeiro, nomeadamente quanto ao risco de falta de liquidez e de levantamento de depósitos, e não tanto por dificuldades de financiamento do Estado”.

Ou seja, mais duas semanas e os clientes dos bancos portugueses nem o seu dinheiro poderiam levantar nos balcões e ATM’s e o governo teria que intervir, nacionalizando praticamente toda a banca portuguesa.

Ora eis algo que haveria de fazer todos os portugueses lembrarem-se com infinito e perpétuo afecto de José Sócrates.

Foi nesse momento que ele percebeu que a brincadeira, finalmente, acabara.

Só uma dica: em Hespanha, o maior cliente e o maior ivestidor em Portugal, a banca está mais ou menos na mesma.

E a crise ainda vai no adro.

Na Irlanda, a braços com uma estrondoso arrebentamento de uma bolha imobiliária (a Hespanha está mais ou menos na mesma situação), depois de uma intervenção de 70 mil milhões de euros, foi revelado ontem, depois de se terem feito umas contas (a que eufemisticamente chama-se stress tests) que os bancos necessitam de uma injecção adicional de 24 mil milhões de euros. A acontecer, basicamente isso significa que toda a banca irlandesa será nacionalizada.

Adicionalmente, há uma pequenina coisa que era o que “realmente” preocupava os bancos portugueses antes do que aconteceu esta semana; a entrada em vigor do que se chama “Basileia 3“, que são critérios mais rígidos e exigentes de capital por parte dos bancos, que essencialmente exigem da parte destes níveis significativamente mais elevados de capital social. O problema deles é que, nesta fase do campeonato, quase ninguém quer entrar com mais capital em bancos, apesar de já se observar uma corrida em alguns bancos italianos e alemães para anteciparem o nível mínimo de capital Tier 1 de 6% em 2015 (ver aqui). No caso dos bancos portugueses, será seguro dizer que se sente algum desconforto.

Definitavemente, por todas as razões, estes são tempos agitados.

*Citação de Hillary Clinton quando há umas semanas incitava o presidente egípcio, Hosni Mubarak, a demitir-se do cargo de presidente. Quer dizer “agora quer dizer agora quer dizer agora”. Na realidade, Hillary disse apenas “Now means now”.

11/02/2011

O MOMENTO MÁGICO QUE PORTUGAL VIVE

Hoje foi um dia particularmente interessante para acompanhar as notícias portuguesas.

Os items que me suscitaram alguma curiosidade:

1. A meio da manhã, no mais recente leilão de divida soberana portuguesa, as taxas exigidas pelos credores já atingiam 7.63% quando o Banco Central Europeu interveio mais uma vez, comprando o papel e forçando as taxas ligeiramente mais para baixo. A coisa está linda.

2. Dados publicados também hoje, indicam que, só no mês de Janeiro, a inflação homóloga portuguesa cifrou-se em 4.6 por cento.

3. Tive o azar, durante a tarde, de ouvir parte do debate quinzenal no parlamento português – aquele em que o primeiro-ministro vai lá e andam uma parte do dia na esgrima política. Foi mais uma vez uma expressão do surreal e do patético. José Sócrates tem esta capacidade curiosa de enumerar todos os “bits” de informação que no fim do dia sejam favoráveis aos seus pontos de vista. Os seus oponentes políticos, com a eventual e apenas parcial excepção de Paulo Portas, não têm oratória para contrapor ao discurso de Menino Sorrateiro Espertalhão do primeiro-ministro e dos seus colegas. Mais grave, todos parecem alheios à situação actual.

4. Enquanto isso, noticiou-se que alguns bancos estão finalmente, timidamente, a subir as taxas de juro que pagam aos seus depositantes. Só que estão a pagar entre 2 e 3 por cento para prazos até aos seis meses.

5. O que me leva ao seguintes pontos:

a) se o exmo Leitor dever dinheiro a um banco, as taxas de juro que paga pelo seu empréstimo estão a disparar e não vejo senão subidas nos próximos tempos.

b) se for aforrador, ou seja, tiver dinheiro depositado no seu banco, apesar das subidas nas taxas de que falam os jornais, repare que só em Janeiro a inflação homóloga foi de 4.6 por cento. Se receber 3 por cento, ao fim do ano está a perder 1.6 por cento. Parece pouco. Mas não é.

c) O cenário geral para quem vive em Portugal é que 1) o imposto sobre o seu rendimento subiu, 2) o seu salário diminuiu ou não aumentou, 3) o IVA (Imposto de Valor Acrescentado) aumentou de 21 para 23 por cento., 4) a gasolina está ao preço mais alto de sempre, cerca de 1 euro e meio por cada litro, 5) a inflação vai subir.

Para um funcionário público no topo da carreira, isto pode significar uma dimunuição no poder de compra de cerca de 20 por cento.

Num só ano, o que é obra.

Sem falar nos efeitos dos aumentos nos descontos para a segurança social e reforma e da idade mínima para a reforma.

E tudo isto se os bancos, que se estão a aguentar através de aumentos consideráveis naquilo que cobram aos clientes, e os balões de oxigénio do Banco Central Europeu, não tiverem mais problemas (eu acho que vão aguentar-se mas vai ser apertado).

Na política, persiste o jogo do gato e do rato. O governo minoritário do PS agarra-se ao papão da crise para se manter, e a oposição não parece ter a coragem de dar um passo em frente. Surpreendentemente, todos estão a gerir o proceso via a falta de liderança, à espera que apareça o momento mágico para a mudança.

Isto sem mencionar as aparições de Paulo Penedos, célebre acusado num caso de corrupção, e António Vara, indiciado noutro. Ambos foram gravados a dizer que estão perfeitamente inocentes de tudo e que tudo o que deles se diz é pura malícia e fabricação, como certamente tentarão provar num tribunal, se e quando tal se proporcionar.

Vive-se hoje o Portugal de Ali Babá e de Sheherezade.

É uma vertigem.

22/01/2011

NADA MUDOU AINDA

O futuro próximo: Portugal o terceiro a contar do fim em crescimento do PIB, com uma estimativa de -1 por cento em 2011.

Na ante-véspera da eleição presidencial portuguesa, inquéritos de última hora, como antecipado, prevêm que Aníbal Cavaco Silva seja re-eleito presidente para mais um mandato de cinco anos. Nada de novo aqui, para além de alguma indigestão por uma campanha particularmente devassa de conteúdo.

José Sócrates ainda é primeiro-ministro e Pedro Passos Coelho ainda está à espera de uma oportunidade.

Entretanto, como sempre sem explicação aparente, um litro de gasolina de 95 octanas vende a um euro e cinquenta e oito cêntimos à porta da minha casa e já se notam os efeitos do IVA de 23 por cento a penetrar em tudo o que se compra ou se paga.

Esta semana, os funcionários públicos estão a abrir com alguma incredulidade os seus comprovativos de salários e a ver o início da razia que pouco mais que é o começo da factura por 35 anos de “socialismo”.

Ainda que as notícias indiquem que as vendas automóveis tiveram em Dezembro um pico de 30 por cento em relação ao ano anterior. “Antecipação da compra por razões fiscais”, foi a razão apontada.

As notícias indicam também o maior número de residentes desempregados desde há muitos anos, e a confirmação da tendência para uma cada vez mais crescente desigualdade entre os que ganham mais e os que ganham menos em Portugal, o que não deixa de ser curioso tendo em conta o tal de “socialismo”.

E uma vacina contra a febre amarela passou de uma penada de 15 cêntimos para cem euros. “Actualização”, foi a explicação.

Os bancos portugueses mantêm a habitual postura esfíngica, mas cada vez mais se denota um certo desesperozinho em arranjar funding para manter as suas operações. Este não vai ser um ano fácil, apesar do aparente tsunami de crédito mal parado, das taxas de juro cada vez mais punitivas e da fiscalidade usurária que cada vez mais se abate sobre quem trabalha para o que ganha e para quem poupou e tem que gerir essas poupanças.

Na televisão, o lixo falante culpa os alemães e exige indignado o que em Moçambique se chama, algo eufemísticamente, “cooperação”. Cooperação essa que, dependendo de quem se leia, vai dos 50 aos 100 mil milhões de euros. Para não falar dos espanholes, e, surpreendentemente, dos belgas, que parece que precisam de muito mais “cooperação”.

Isto tudo muito interessante, pois quando Barack Obama criou uma linha de dois mil mil milhões de dólares para segurar a economia americana há quase dois anos, os europeus andaram armados em carapaus de corrida a dizer que no seu continente não havia dessas coisas e que agora é que era a Era do Euro. Pois parece que as Instâncias e os treinadores de bancada, estão a falar de um fundo de apoio de … dois mil mil milhões de euros.

Se os alemães deixarem, claro.

Tirando tudo isto, que apenas empobrecerá o português médio este ano entre 15 e 25 por cento, e estar fazer um pouco mais frio do que o habitual esta semana, rigorosamente nada mudou.

Ainda.

 

PS- Para variar, o “ainda” em cima é no sentido português, não o moçambicano.

18/01/2011

O INÍCIO DE 2011 EM DEZ ACTOS

O ano de 2011 começou bem – ou não?

Or veja-se a minha curta resenha:

1. Depois de uma série de distúrbios na Tunísia, o presidente do regime que o mantém há 23 anos, fugiu. Falta ver o que é que o regime vai fazer a seguir. Diz que vai fazer uma eleição. Mas depois de uma ditadura de 23 anos, o que é que se pode eleger? À primeira vista assunto pouco relevante, mas levanta questões quanto a outros países onde situações com algumas semelhanças existem.

2. O Sudão ensaia uma partição na linha Norte-Sul. Com o petróleo, no meio, por resolver. Hum, tirando a Eritreia, quando foi a última vez que uma nação-estado ao estilo pós-colonial africano fez isto, e viveu para contar a história?

3. Parece não haver maneira de a Costa do Marfim ir ao lugar. O habitual problema: ou se aldraba, ou simplesmente não se liga às leis e aos compromissos eleitorais. No fim, o poder fica na rua, ou com obscuros militares, talvez o menos desejável dos resultados. E uma lembrança da fragilidade dos sistemas e das instituições. E da atitude.

4. Enquanto isso, Jeffrey Sachs, académico e bardo-mor de uma certa forma de desenvolvimentismo chique de Manhattan, que parece que só ele parece saber o que é, elogiou a taxa de crescimento do PIB moçambicano e preconizou em Maputo esta semana finda coisas fantásticas para vir, juntamente com algumas verdades de La Palisse, como aquela de se ter que renegociar alguns contratos milionários para algumas multinacionais e de se ter que ter mais cuidado com as concessões de terrenos agrícolas. É sempre bom ver a realidade de Moçambique quando se vê através de uns relatórios em Nova Iorque.

5. Já Prakash Ratilal, agora tornado banqueiro mercurial e mais próximo do terreno, não é tão optimista quanto aos próximos tempos. Ele lá sabe, e tentou explicar porquê. Bombásticamente, o jornal lisboeta Público de hoje cita umas linhas do que ele disse e cobriu tudo com o relativamente bombástico título ” o modelo económico moçambicano não é sustentável”. Bem, é e vai ser enquanto metade das despesas públicas do Estado moçambicano continuarem a ser generosamente pagas pelos infames estrangeiros, juntamente com um cocktail de “soft loans” e pacotes de ajuda e ainda doses industriais de investimentos extratcivos e de infra-estruturas. Os pobres assim não morrem, os ricos ficam mais ricos e os doadores dormem melhor. É assim há quase trinta anos. É a situação win-win-win. À moçambicana.

6. Esta semana foi revelado que, para além da actual autêntica rapina das florestas moçambicanas, realizada neste caso por –surpresa! – a empresa chinesa Tienhe Ldª, parceira da igualmente chinesa Miti, Ldª, os moçambicanos, ao apreenderem uma remessa ilegal de nada menos que 161 contentores de madeira em bruto (leia-se: cento e sessenta e um contentores) após uma inspecção (por denúncia) de um navio atracado em Pemba, encontraram lá dentro de um deles (e aqui cito a sempre inquestionável AIM) “126 dentes de marfim, uma ponta de rinoceronte, animal em extinção no país, carapuças [sic] de pangolins, peças de arte fabricadas com base em marfim e excremento de elefantes”. Portanto no mínimo mataram uma manada de elefantes, um rinoceronte e tiraram os carapuços aos pangolins. A contínua matança dos animais de Moçambique para decorar as casas dos chineses e o genocídio florestal em curso em Moçambique há muito que deixaram de me surpreender. No fundo é como aquela  história dos fumos corrosivos da Mozal que só corroem os centros de tratamento, mas não os pulmões dos Maputianos. A história do excremento de elefante é que é uma novidade para mim. Contrabandear excremento de elefante para a China? para quê?

7. Na frente espiritual, o Vaticano lá encontrou e validou um “milagre” que justificasse a beatificação do genial João Paulo II, a ser formalizada a 1 de Maio, dia que nos países outrora conhecidos por comunistas celebram os trabalhadores (para variar os americanos celebram o trabalho, no início de Setembro). Agora procura-se mais um milagre para a santificação. Eu acho que, por uma questão de desburocratização administrativa do processo, devia-se reverter para o sistema moçambicano de decretar heróis, ou o velho processo dos romanos, em que o imperador tinha o direito de proclamar fulano ou cicrano deus. Assim arrumava-se o assunto de uma vez com um papel.

8. Em Portugal, a campanha presidencial assume foros de patético. Em parte porque ninguém percebe bem o que é que um presidente pode fazer para lidar com o crescente clima de recessão. Todos suspeitam que não pode fazer nada a não ser possivelmente piorar as coisas. Felizmente o suplício acaba no próximo fim de semana, após o que a crise poderá continuar. Para já, todos os impostos dispararam mas só daqui a uns seis meses é que se vai começar a sentir o embate. Mas as apostas para a queda de Sócrates são mais curtas.

9. Regressados os restos mortais do saudoso Malangatana a Moçambique, ele foi sepultado na sua terra natal com a pompa e o respeito devidos. Já em Portugal, onde ele morreu, foi tratado com o mesmo respeito. Em Maputo, até o Eduardo White se deu ao trabalho de preparar algo para ser lido na cerimónia do enterro, com alguma ajuda da Lucrécia Paco. Assim, até apetece morrer.

10. Roberto Chichorro inaugura uma exposição da sua arte no próximo dia 21 numa galeria de arte em Cascais. Pelas 21:30 horas.

Olhando bem lá para cima, já me começa a parecer que 2010 foi há uma vida.

26/11/2010

THE RAIN IN SPAIN FALLS MAINLY IN PORTUGAL

Filed under: Economia Portuguesa, Espanha — ABM @ 3:08 am

O Titanic parte para a sua primeira e última travessia do Atlântico, Abril de 1912

por ABM (25 de Novembro de 2010)

Enquanto as màs notícias abundam, o Economist publicou hoje um texto que recorda que as coisas poderão piorar “mesmo”, se a Espanha caminhar em 2011 para uma situação de estagnação de proporções épicas.

Para quem não reparou, a Espanha é aquele país na ponta do qual Portugal está metido. É só um dos investidores de referência em Portugal, e o país de onde Portugal mais importa e para onde mais exporta.

Isto sem descurar a situação doméstica periclitante.

Se – interrogo-me – o colosso espanhol se afundar, como vai ser em Portugal?

O artigo do Economist na sua plenitude AQUI.

A parte relevante do artigo em baixo, no original em inglês:

If the markets are neither persuaded by the Irish bail-out nor reassured that Dublin will push through its budget, they seem almost as fretful about the Iberian countries. After Greece in May and Ireland this month, Portugal is clearly next in line. This week a general strike was called against budget austerity. Yet the Socialist-led government of José Sócrates has no alternative. Portugal’s banks may be healthier than Ireland’s, but the country is mired in slow growth and a large budget deficit. In the markets’ current mood, a bail-out similar to Ireland’s seems almost inevitable.

The real concern now is not Portugal but Spain. The Spanish economy is much bigger than those of Greece, Ireland and Portugal combined. The government’s financing requirement next year, though comparable as a share of GDP, similarly dwarfs those of Greece, Ireland and Portugal taken together (see chart 2). It is a Spanish mantra, requiring a mere change of name of euro-area countries, to insist that Spain is different. “We’re not Greece!” has become “We’re not Ireland!”, and will shortly become “We’re not Portugal!”

In all three cases the Spanish are correct, though that is not always a comfort. To start with, a bail-out of Spain would be on a different scale. When the €750 billion European Financial Stability Facility was designed in May, few people thought that it would be needed to cope with Spain as well as the other three weak euro-area countries. And there seemed little likelihood that it would have to.

What may help is that Spain has been a lot better behaved than the other three and so seems much less in need of a bail-out. A national debt of only 53% of GDP last year was a full 21 points below the EU average. Spain has neither Ireland’s broken banks nor Greece’s profligate public finances. Its austerity targets are more credible than Portugal’s.

But as a broken Ireland seeks help and a shaky Portugal puts Iberia in the spotlight (not least because Spanish banks are heavily exposed to Portugal), there are understandable fears that Spain will catch the bug next. “Contagion has spread to Greek debt, to Portuguese debt and, to a lesser degree, to our own debt as well as Italy’s and even Belgium’s,” admitted the Bank of Spain’s governor, Miguel Fernández Ordóñez, this week.

25/11/2010

A GREVE GERAL EM PORTUGAL

Esperei até agora para tentar perceber o que se passou em Portugal hoje.

E o que concluo é que se passou muito pouco.

Eu explico porquê.

Aparentemente, cerca de dois terços dos funcionários públicos portugueses, e menos que dez por cento de quem trabalha no sector privado, fez greve hoje para – supostamente – protestar contra as medidas relativamente severas, ou pelo menos inéditas, que vão ser adoptadas pelo governo a partir de Janeiro de 2011.

Medidas como cortes salariais, mais impostos directos, mais impostos indirectos, menos direitos. maior precaridade (menos no sector público, isto é).

Mas, na prática, o dia decorreu muito como uma espécie de feriado nacional. Quando muito, mais sorumbático.

Na imprensa escrita e pelas televisões, desde as sete horas da manhã, os jornalistas percorreram empresas e serviços públicos a ver quem estava ou não aberto. Uns estavam, outros não, o que não dava por si só margem para se fazer uma ilacção. Os líderes sindicais fizeram o seu melhor para pintar a imagem de um glorioso protesto. Mas não convenceram. Pelo menos, não me convenceram.

O que me chocou foi a mais do que aparente falta de entusiasmo, onde quer que se olhasse. Pelo contrário, o “protesto”, se é que tanto, soube mais a conformidade e desalento pela situação actual, que raiva ou indignação.

Ao fim da tarde, o governo, na pessoa da sua ministra do Trabalho, limitou-se a descontar os efeitos da greve, práticos e políticos. A meu ver um erro, pois podia-se limitar a reconhecer a existência de um sentimento geral de descontentamento.

Mas foi o que fez.

Ao fim do dia, os comentaristas da praça ruminaram pouco sobre o assunto, talvez porque havia pouco sobre o qual ruminar. Aliás, durante todo o dia, os noticiários indicavam que as taxas de juro da dívida portuguesa estavam novamente acima dos sete por cento. Que as bolsas estavam em queda. Que o horror na Irlanda era de facto assustador. Que a sombra do que por lá se passava se podia projectar sobre Portugal. A imprensa anglo-saxónica, como é costume, gritava que Portugal estava a seguir à Irlanda. Que vinha aí o FMI.

Salientou-se mais do que uma vez que 2011 vai ser um horror.

Portanto a questão coloca-se: tirando assinalar-se a prática de um direito democrático etc e tal, tirando estar-se a exercer o direito a protestar contra o que o governo está a fazer, tirando que se observa a uma palpável deterioração na situação económica e, quase certamente, social, qual foi o efeito real desta greve geral?

Tanto quanto se sabe, o governo não pode recuar: está a gastar demasiado e não tem as receitas para custear a máquina estatal. Já aumentou os impostos de várias formas, numa tentativa para diminuir o défice. Mas não está a conseguir fazê-lo.

O que é que o governo pode dar?

O que é is sindicatos querem, ou podem, extrair do governo?

Em ambos os casos, a resposta é: nada, ou quase nada.

Sendo pouco menos que tépido, o protesto nem sequer convenceu.

Dou uma base de comparação, que foram os protestos em Moçambique a 1 e 2 de Setembro último. Nesse caso, por todas as razões e mais alguma, o protesto fez com que todos parassem para pensar. Teve impactos claros, especialmente pela percepção da violência e do descontrolo (mais do que a realidade, até). As pessoas, os políticos, discutiram, medidas foram tomadas.

Houve consequências.

Da greve geral de hoje, em Portugal, para já, não se prevêem quaisquer consequências.

E não alterou o que já se sabia.

Que todos terão que apertar o cinto.

Que isto é o começo de um mau período.

Que não há volta a dar.

E que ninguém gosta do que está para vir.

15/11/2010

A DOUTRINA LULA DA SILVA

Os brasileiros em África: a família imperial brasileira posa em frente à esfinge, Egipto, 1871.

por ABM (15 de Novembro de 2010)

A visita do presidente brasileiro a Maputo na semana passada confirma de alguma forma uma alteração significativa numa postura tradicionalmente amigável mas algo negligente do Brasil em relação à África de língua portuguesa desde as independências lusofónicas africanas em 1973-1975.

A essa alteração chamo aqui a Doutrina Lula da Silva. E a sua consistência reside na solidez do contexto em que o Brasil cada vez mais opera. Prova disso é a declaração, pelo actual embaixador brasileiro em Maputo, António Silva e Souza, de que espera a continuidade do actual relacionamento brasileiro com Moçambique durante o mandato da futura presidente, Dilma Roussef.

Esta viragem, por sua vez, reflecte um novo posicionamento do Brasil no mundo, possivelmente como uma das potências emergentes no firmamento internacional.

O surgimento do Brasil na cena internacional foi lento e turbulento, mas apoiado pela Doutrina de –então- outra potência emergente, os Estados Unidos da América. Na altura da sua independência, sob os auspícios do herdeiro do trono português, Pedro de Alcântara Bragança, em 1822, e para que não houvesse dúvidas quanto ao que se pretendia principalmente das potênciais coloniais europeias (nomeadamente Espanha e Portugal mas não só), os Estados Unidos da América postularam a Doutrina Monroe, que defendia que as Américas deveriam permanecer independentes das potências europeias. O seu filho, também Pedro, reinou em paz e sossego durante 58 anos, até que, em 1889 aconteceu lá mais ou menos o que aconteceu em Portugal em 1910. Pedro II, quase imperturbado, foi viver para perto de Eça em Paris, onde morreu num modesto hotel, enquanto que o seu ex-império embarcou numa longa sucessão de golpes, ditaduras, pronunciamentos, libertações e uma economia aos solavancos.

Apesar de África ter constituido desde sempre um vector geoestratégico importante para o Brasil, e das ligações históricas, culturais e raciais serem claras (uma parte significativa da população brasileira traça as suas origens ao continente) as relações com África foram invariavelmente tímidas, a bordejar no inexistente. Nos anos 70, as independências foram acolhidas pela ditadura brasileira com um entusiasmo reservado, e até nos anos 80, quando a linha aérea brasileira Varig mantinha uma ligação aérea a Luanda e a Maputo – característica e efusivamente apelidada de “Vôo da Amizade”- o relacionamento manteve-se dentro do estritamente irrisório.

No entanto, nos últimos vinte anos, quer por razões políticas – a democratização do sistema político brasileiro – quer por razões culturais, visível através de uma maior diversificação do tradicional eurocentrismo das elites brasileiras, mas principalmente por razões de ordem económica e comercial – a crescente afirmação do Brasil como um colosso económico, financeiro e industrial – África, em particular Angola e Moçambique, surgiu no mapa dos interesses estratégicos globais brasileiros e ganhou relevância.

Passadas estarão, ou inconsequentes serão, eventuais rivalidades com o poder colonial cessante. Aliás, Portugal e o Brasil mantêm as já tradicionais boas relações, sendo que a actual decadência portuguesa e concomitante pujança da economia brasileira, se algo, auguram um surgimento do Brasil em Portugal.

Em África, a situação é algo diferente. Enquanto um colosso financeiro, agrário, comercial, industrial e militar, o Brasil de 2010 tem muito mais a oferecer a Angola e a Moçambique em termos de investimento e de troca de bens comerciais e de matéria prima, do que Portugal, que financeiramente enfrenta agora um desafio quase histórico e que se desindustrializou quase completamente nos últimos vinte anos.

E nestas coisas da economia falar docemente e em português não chega.

Por sua parte, largamente passados estão os experimentos “socialistas” em Angola e Moçambique, cujos sistemas políticos foram, ainda que cosmeticamente, reformados, e cujas lideranças políticas buscam novas fontes de legitimação para os lugares que ocupam, agora confrontadas com uma autêntica corrida contra o tempo para desenvolverem os seus países, antes que, da actual onda arrasadora de crescimento populacional, especialmente nas cidades e suas periferias, resulte o questionar quanto ao papel que supostamente desempenham nesse processo de enriquecimento nacional. Em Angola tal ainda não é visível (sêlo-á quando José Eduardo dos Santos sair de cena) mas em Moçambique tal debate já é apreensível estes dias, ainda que sem a corporização do contraditório.

Luiz Inácio Lula da Silva

O resultado é que hoje o Brasil tem tudo a oferecer a Angola e a Moçambique que Portugal não tem, nem, pelos vistos, alguma mais vez terá, para oferecer. Quando muito, Portugal ainda mantém uma certa vocação “africanista” em termos psicológicos e de recursos humanos, que à partida o Brasil, que não tem um passado colonial (pelo contrário), não possui. E que poderia noutras circunstâncias contribuir para o desenvolvimento desses países.

Mas – quiçá herança do passado, trauma ou racismo em reverso – não existe nem é permitida emigração portuguesa para Moçambique e Angola per se, onde ser “estrangeiro” permanece um rótulo ao mesmo tempo invejado e de exclusão. Mais depressa um português emigra para a Europa, o Canadá, ou a Austrália, que para um dos países de língua portuguesa. Este é de longe o maior falhanço, o atestado de incompetência, da fala mansa da CPLP.

Mas esse não constitui qualquer obstáculo para os brasileiros, a maior parte dos quais nunca sequer lhes ocorreria ficar alguma vez a viver em África, ao contrário de muitos portugueses, que parece que se julgam africanos uma semana depois de lá aterrarem no Tap, mesmo que nunca lá tenham antes metido os pés. Se o Brasil continuar no actual percurso de crescimento económico, as Camargos Corrêas, as Odebrechts, as Vales, e muitas mais empresas brasileiras, terão eventualmente muito trabalho para fazer nestes países, que têm algo para dar em troca que o Brasil industrial pode usar. Mesmo no contexto ideologicamente algo cor de rosa, pintado pelo presidente brasileiro cessante num discurso proferido em Maputo a semana passada, de que o Brasil não vai para lá só para pescar, mas também para ensinar os locais a pescar. Toda a gente sabe que isto é muito mais facilmente dito que feito. Mas os brasileiros não têm cadastro e, com a folha limpa, tem que se lhes dar o benefício da dúvida. E para bem das partes, esperar pelo sucesso.

Não quer isso dizer que não haja os habituais precalços. Há uns anos, quando Lula da Silva instalou-se no palácio presidencial em Brasília, badalou-se imenso em Moçambique a implantação de uma fábrica de medicamentos, promovida por interesses brasileiros, a expressão concreta do desejo de um relacionamento positivo entre as duas nações e um acto desejado no mortífero combate à expansão da Sida. Mas depois, soube-se agora, durante quase sete anos, não aconteceu nada. Até que, há umas semanas atrás, imagino que quando a equipa presidencial brasileira se deslocou a Maputo para preparar a visita de Lula a Moçambique, e em que a ideia era inaugurar com pompa a tal de fábrica de medicamentos, descobriu que nada estava feito para além do edifício da tal fábrica. Que estava vazio. O que era no mínimo uma barraca e muito pouco expressivo das boas intenções anteriormente postuladas. Afinal, a ideia destas visitas também passa pela habitual assinatura de acordos e pelo cortar desta ou aquela fita. Que mais não seja para dar a ilusão de movimento. Inaugurar um edifício vazio não dava para a fotografia. O resto desta deliciosa estória, para que os exmos. Leitores não me acusem de pintar a coisa, pode ser (e deve ser) lida AQUI. O articulista – brasileiro – chamou a este o “caso da inauguração de fachada e da máquina emprestada”.

Uma nota final. O Brasil tem também a sorte, e teve o ensejo, de, nesta altura, mandar para Maputo um embaixador com características pessoais e profissionais ímpares, na pessoa de António de Silva e Souza, que tive chance de conhecer, ao contrário de qualquer dos embaixadores portugueses até esta data, que têm a virtude de conseguirem viver em Maputo invisíveis dos cidadãos portugueses e que nunca conheci. Nem sequer sabia o nome deles.

Mas ao menos os portugueses em Maputo têm estes dias uma grande cônsul, para variar.

Vale três embaixadores e custa menos que um.

E é mais bonita.

10/11/2010

JUROS DA DÍVIDA PORTUGUESA A SETE POR CENTO

por ABM (11 de Novembro de 2010)

A canção acima, dedico ao Manuel Petrakakis, do Restaurante da Costa do Sol, como eu apreciador de Frank.

O título, a José Sócrates.

27/10/2010

QVO VADIS A REPÚBLICA SOCIALISTA

Filed under: Economia Portuguesa, Politica Portuguesa — ABM @ 3:06 pm

por ABM (27 de Outubro de 2010)

Quanto vai custar aos portugueses a inabilidade dos seus políticos eleitos se entenderem quanto à formulação de um orçamento? sendo que quem vai pagar os custos desta incapacidade é quem vive e paga impostos em Portugal.

O que transparece é que, no fim do dia, não foram os detalhes, foram as posturas de base que ditaram o insucesso da tentativa de acordo.

Entretanto, separam-se as águas. O PS, na boca do actual ministro das Finanças, na face da postura do PSD, reitera que a solução para tudo é mesmo aumentar impostos.

O que só confirma uma constatação minha de há vários anos: o PS não consegue cortar nada, mas nada, no aparelho de Estado. Só sabe cobrar mais impostos e endividar o erário público.

O presidente, Cavaco Silva, convidou os membros do Conselho de Estado para uma reuniãozinha de fim de dia na sexta-feira. Não vai servir para nada, basicamente, a não ser alimentar egos e dar a sensação de que alguém está a falar.

E surge uma notícia de jornal alerta que afinal a bomba que é o falido BPN é maior e mais perigosa do que se está a dizer, com fortes indícios de que vão ser os contribuintes fiscais portugueses a tapar o buraco.

Hum.

Como é que se sentiram mesmo os habitantes da Islândia naquele dia em 2008 em que acordaram de manhã para descobrir que todo o seu país estava na bancarrota?

FUMO NEGRO NA CHAMINÉ

Fumo negro a sair da chaminé da Capela Sistina no Vaticano: ainda não há Papa. Em Lisboa, não há acordo quanto ao orçamento para 2011.

por ABM (27 de Outubro de 2010)

Depois de cinco dias de negociações à porta fechada entre duas equipas representando o PS de José Sócrates e o PSD de Pedro Coelho, um agitado Eduardo Catroga, que liderava a equipa do PSD, apareceu na televisão portuguesa ao vivo às 11 horas da manhã de hoje (hora de Lisboa) com uma longa, longa, longa diatribe, tentando explicar em detalhe minucioso afinal o que se passou lá dentro na mesa das negociações.

Da sua descrição, aquilo foi uma “barraca” desde o primeiro momento, uma confrontação entre um suspeito desassambramento dos PSD’s e o já habitual orçamentismo cha cha cha cor de rosa dos PS’s.

A conclusão de Catroga: o PSD não detectou no PS a vontade política de chegar a um acordo, especialmente no que concerne a cortes nas despesas.

Falta ouvir a choradeira do PS e entender se o PSD vai ou não vai vetar a proposta de orçamento.

A situação, assim, agrava-se e sobe mais a pressão sobre Portugal. Nos mercados internacionais hoje vai ser uma festa. Estejam atentos aos impactos.

Não posso deixar de salientar a gravidade do que aqui se está a passar. Isto é mau, mau, mau, muito mau.

Poderei voltar ao assunto em adenda, pois o filme de hoje ainda não acabou. No jogo comunicacional, o PSD ganhou um ponto por aparecer primeiro na televisão a apontar o dedo. Mas falta ouvir os raciocínios dos senhores do PS.

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