THE DELAGOA BAY REVIEW

06/12/2011

O QUE FALTA NA EUROPA EM FINAL DE 2011

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O PRIMEIRO-MINISTRO DE PORTUGAL EM 2013

19/11/2011

PORTUGAL E AS GUERRAS GLOBAIS

Enquanto os portugueses lambem desconsolados as suas feridas porque – coitadinhos – vão ter menos para gastar já partir deste Natal, e a Europa dança no fio da navalha do precipício que ela própria escavou quando criou o SME, guerras maiores se formam no horizonte.

Talvez a mais relevante para já vai vir por duas vias: a guerra das moedas e a guerra do desconto das dívidas soberanas.

Segundo o Le Monde de 17 de Novembro, na terça feira passada a dívida federal norte -americana atingiu praticamente os 100% do PIB norte-americano, que é um bocadinho maior que o português. Estamos a falar de 15 milhões de milhões de dólares (15.009.330.000.000 dólares no momento em que escrevo estas linhas, segundo o sítio U.S National Debt Clock).

Isto enquanto se assiste a uma significativa dimunuição dos valores de muitos activos. Quem tem acções do BCP que comprou a, digamos, 2 euros, e que agora valem 10 cêntimos cada acção, sabe do que estou a falar.

Só que isto está a acontecer na Europa e nos EUA a uma escala arrasadora.

Do outro lado do Pacífico, a China insiste em manter, essencialmente, alguma paridade com o dólar norte americano, apesar dos esforços quase frânticos dos norte-americanos para que essa situação mude.

Na Europa e nos EUA, conscientes que uma mudança deste curso implicaria uma recessão horrenda, os respectivos bancos centrais mantêm a quase todo o custo as taxas de juro a taxas reais negativas. Na Europa do Euro, por exemplo, a taxa de redesconto está a 1.25%, contra uma taxa de inflação esperada em 2011 de perto dos 3.00%.

Num mundo globalizado, em particular desde que a China passou a ser um membro da World Trade Organization em meados dos anos 90, de momento não é claro como é que se vai desenrolar o próximo capítulo da actual crise, pois não se entende de onde poderão vir os factores de criação de riqueza que ajudem a colmatar os enormes desequilíbrios que se têm vindo a desenvolver a e acentuar, com impacto nos níveis de endividamento público e privado, produtividade e taxas de desemprego.

Uma coisa parece certa: as dificuldades que os portugueses estão a começar a sentir já se estão a começar a sentir em muitos outros países, incluindo países como os Estados Unidos e os principais parceiros da Europa.

Só que, para variar, desta vez, o processo assemelha-se ao efeito de uma gigantesca bomba atómica a explodir em câmara lenta, a sete velocidades diferentes.

Nas economias “clássicas”, com mecanismos tradicionais tais como as suas próprias moedas, controlo monetário, das taxas de juros, controlo de capitais e controlo total daquilo que importam e exportam (casos, por exemplo, do Brasil, de Moçambique e de Angola) a maior ou menor miséria nestas situações gere-se mais ou menos bem, com umas doses de intervenciosnismo governamental com objectivos definidos.

Mas no actual contexto do eixo China-Japão-EUA-Europa, está-se a entrar em campo desconhecido, em parte porque os factores são dificilmente controláveis e os valores e volumes são tão grandes que governos de países inteiros parecem incapazes de negociar as suas posições.

Quais, então, as grandes tendências?

1. Uma progressiva desvalorização do dólar norte americano, a qual poderá ser acompanhada pela desvalorização do euro, se este sobreviver o que vem aí. Claro que, para quem detém activos nestas moedas, importará as respectivas inflações e a desvalorização relativa de uma moeda relativa à outra, se esse for um factor a considerar (é, para os detentores de capitais líquidos e os investidores, os importadores e os exportadores).

2. Uma muito significativa secagem do capital disponível para investir e para emprestar em geral.

3. Uma subida no custo do dinheiro, uma vez que as actuais políticas de manutenção de taxas directoras a baixos níveis não são sustentáveis a médio prazo.

4. Maior risco na detenção de capital, dado que os riscos sistémicos vão subir, quer através da instabilidade das moedas e dos valores dos activos, que porque os veículos para a sua manipulação (bancos, casas de investimentos, títulos de tesouro e outros instrumentos) entraram numa fase de maior fragilidade.

5. Maior instabilidade política, resultante das tendências acima descritas, acrescidas de maiores taxas de desemprego e um gradual mas acentuado empobrecimento das pessoas.

Devido à total incúria dos governos entre 1991 e 2011, Portugal presta-se a levar em cheio com os efeitos destas tendências.

No entanto, os portugueses estão tudo menos sozinhos, nesta tempestade que se aproxima.

17/11/2011

RTP ÜBER ALLES*

O programa continua dentro de momentos.

*A RTP acima de tudo – em germanês.

“Não há dinheiro. Qual destas três palavras é que o Senhor Deputado não entendeu?” Foi assim que, em termos que considerei refrescantes, um dos actuais ministros, quando discutindo as difíceis opções em termos do que fazer perante a calamidade que se aproxima das costas portuguesas, se dirigiu a um dos parlamentares da oposição.

Na longa tabela do deve e haver das despesas que os sucessivos governos portugueses acharam por bem fazer, a RTP ocupa um lugar de destaque, apesar de, agora se sabe, estarem a aparecer outras entidades públicas ou publicamente detidas, com dívidas monstras nos seus balanços, cuja utilidade e desempenho são menos questionáveis.

A RTP ocupa um lugar de destaque porque sempre foi demasiadamente cara para o que serve, porque tem sido politicamente instrumentalizada para efeitos da manipulação da opinião pública e – principalmente – porque sendo hoje o negócio da informação e do entretenimento isso mesmo – um negócio – simplesmente não entendo porque é que um país falido, sem perspectivas, onera os seus contribuintes com o custo de manter uma loja de bijuteria comunicacional como é o mundo da RTP.

E, este ano, a verba aproxima-se dos quinhentos milhões de euros. Deixe-me o exmo. Leitor colocar a verba em numérico que tem mais piada: são 500.000.000 de euros. Num ano. Para manter a RTP.

Volto a esta questão por três razões.

A primeira razão, é que, supostamente, o governo português actual, por razões da falência próxima do Estado, tem que cortar em muito. Não há dinheiro. Tem que cortar muito e quanto mais depressa melhor. A RTP é um excelente lugar para fazer isso pois é desnecessária, supérflua e contribui zero para o PIB nacional. Ou melhor, contribui negativamente pois extrai dos bolsos dos contribuintes, anos após ano, centenas de milhões de euros.

A segunda razão é ideológica. Pensava eu que o papel de um Estado deixara de ser, desde o advento da era da internet, dos satélites e da comunicação em massas a um custo relativamente baixo, em que o acesso dos cidadãos à informação (seja esta noticiosa ou cultural e de entretenimento) está praticamente garantido, o de assegurar esse acesso a um custo fantasmaglórico, através de uma estrutura que é recorrentemente instrumentalizada para fins políticos menos claros. Pensava eu, também, que os senhores deste governo subscreviam essa tese.

A terceira razão é o que aconteceu quando ontem foi anunciada a conclusão de um estudo, liderado pelo conhecido professor universitário Luis Duque, sobre o que fazer com a RTP.

Do pouco que tomei conhecimento das conclusões desse estudo (estilo bullet points), essas conclusões apontam para uma reformulação de alguns dos serviços, tais como o fecho de algumas estações de cabo, as RTPs regionais, a fusão da RTP Internacional com a RTP África (descobriram a pólvora, aqui) e mais uns embelezamentos diversos. Ou seja, não fecha mas corta umas coisas menores. Por minha parte, nada contra, apesar de eu continuar a achar que aquilo devia ser simplesmente quase tudo fechado e os arquivos mandados para a Torre do Tombo.

Pois não há dinheiro e a gente não precisa de nada daquilo para nada.

Mas eis que surge o inédito, quando nada menos que o Miguel Relvas, o actual ministro dos Assuntos Parlamentares, uma das figuras indómitas da ideologia praguejada pelo actual executivo, surge nas televisões a desdizer as acções recomendadas pelo estudo anunciado. Que não, que não iam fazer nada daquilo, que ele até gostava muito da RTP, que a RTP fazia mais pela cultura que o Instituto Camões (olhem só o exemplo que ele foi buscar), que ele gostava muito da RTP desde os tempos de miúdo, quando ele via os bonecos animados importados a baixo custo da RDA para entreter os meninos do pós-25 de Abril e a Visita da Cornélia.

Fiquei de boca aberta.

Entretanto, todos os meses, tirando as dívidas monstruosas da RTP que vieram não sei bem de onde, quando pago a conta da electricidade (veja-se em baixo) pago uns 5% adicionais dessa conta para a RTP, incidindo sobre esse valor 6% de Imposto de Valor Acrescentado, a menor das tr~es taxas do IVA, que deve ser para dar um toque final de sacanice refinada.

E encontro esses canais perdidos algures na grelha de 130 canais que a Vodafone, agora com o seu novo sistema de cabo de fibra de última geração, canaliza para casa.

Assim, procurarei algum consolo em saber que, pelo menos, quando o país se afundar, fá-lo-á com a RTP.  Vai ser como o naufrágio do Titanic em 1912.

Só que desta vez pagaremos – com IVA a 6% – para podermos ver o naufrágio nacional ao vivo, em televisão estatal, apresentado pelo tal conhecido jornalista nascido em Moçambique, que nos vai piscar o olho direito sorrateiramente uma última vez, antes do pau da bandeira submergir, sob as águas geladas do esquecimento colectivo.

Isto é a parte das contas da minha conta eléctrica de Novembro de 2011. Veja o exmo. Leitor a parte em baixo, respeitante a "contribuição áudio-visual". Pois. Adoro quando chamam "contribuição" aos impostos.

PORTUGAL NO LAGO DOS CISNES

Em cima, Aníbal Cavaco Silva, Pedro Passos Coelho, Vítor Gaspar e Paulo Portas negoceiam o tortuoso caminho do empobrecimento estruturado de Portugal. (Na verdade, são quatro competentes bailarinas do Teatro Bolshoi em 1989, executando a sublime coreografia de Marius Petipa para a grande obra de Pyotr Illyich Tchaikovsky, O Lago dos Cisnes).

Ao fim da tarde outonal de ontem, chegaram a minha casa algumas novidades que caracterizam o momento actual português.

A primeira, é que o governo português contabilizou, ao final de Setembro, 689.400 desempregados, traduzindo-se numa taxa de desemprego de 12.4 por cento. Na verdade, a taxa real é muitíssimo mais alta, a meu ver no mínimo semelhante à de Espanha, que vai pelos 21 por cento. Mesmo assim, estes dados, juntando-se ao verdadeiro exército de sub-empregados (gente com empregos mas salários miseráveis) e ainda mais à multidão de gente excessivamente endividada, constitui a base potencialmente explosiva para coisas para vir.

Em segundo lugar, e não menos importante, no conclusão das análises para se decidir quanto à entrega da segunda tranche do empréstimo para gerir a falência portuguesa (a tranche é do 8.000.000.000 euros), os senhores localmente conhecidos por “troika” foram ao parlamento e à televisão dizer de sua justiça.

O que disseram foi deveras interessante, pois ilustra e confirma algumas coisas que por vezes são menos claras.

Por um lado, confirmaram que, de um modo geral, as coisas estão a correr bem do ponto de vista deles (da “troika) pois os dados macreconómicos, com mais ou menos uns problemas aqui e ali, indicam que os grandes objectivos ainda estão “ao alcance” (aqui, ênfase nas aspas…). Especificamente, referiram que em 2011 se deve ficar mais ou menos por um défice das despesas do governo central de 6%. Um balúrdio, mas em Portugal parece que já todos se habituaram a viver assim há muitos anos.

Por outro lado, confirmaram que há duas tendências graves e as quais não foram, ou melhor, ainda não foram colmatadas.

A primeira, é que, provavelmente por razões de expediente e de sobrevivência política (e também para minorar a miséria que se vai instalando) um pouco como o precedente primeiro-ministro, o actual governo está a tentar desesperadamente atenuar o embate que aí vem. A forma como o faz está à vista: aumentaram muito significativamente em tudo o que respeita a impostos directos e indirectos, estão a fazer alguns mas poucos cortes no fantástico leque de direitos “dinásticos” dos portugueses, e para tapar o buraco de 2011, estão a proceder à venda de património e outros activos do Estado para arranjar o dinheiro que permita que o défice não descambe completamente logo no primeiro ano. Neste capítulo, os Srs. da “troika” especificamente criticaram a decisão do governo de se apropriar dos fundos de pensões dos empregados da Caixa Geral de Depósitos (cerca de seis mil milhões de euros, passando as reformas destes a serem asseguradas pela recolha de impostos junto dos contribuintes).

Ora, isto é tudo muito bonito maa consiste em medidas predadoras e irrepetíveis. Ou seja, se nada mais for feito, como vai ser em 2012?

Mais importante foi o que Paul Thomsen, explicou sem rodeios numa curta mas interessante entrevista que concedeu à RTP ontem à noite e que repetiu várias vezes, para o caso de alguns dos seus espectadores mais burros não apanhar à primeira, à segunda ou à terceira.

O que ele disse é básico: que sem a implementação imediata de um pacote de medidas de “mudança estruturais”, que a) todo o esforço e exercício em curso serão em vão, b) condenarão inexoravelmente os portugueses a viver um padrão material de vida mais baixo e c) em última instância não resolverão o grave problema de falência latente em que ficámos após a loucura de José Sócrates e os seus amigos do Estado Socialista.

O que ele não disse, portanto, e que depreende-se facilmente, é que essas medidas de mudança estrutural não foram e não estão a ser implementadas.

E enquanto dizia isto, aproveitou (já agora, não é)para dizer que na sua opinião os cortes salariais já anunciados para os funcionários públicos deveriam também ser imediatamente aplicados também a quem trabalha no sector privado.

Ora tudo isto é muito grave, em particular porque estes senhores têm o mandato para fazerem o que tem que ser feito e – principalmente – porque já não há tempo a perder. As incertezas a nível do desempenho da economia internacional são mais do que muitas, em especial dos principais parceiros económicos de Portugal.

E as tais mudanças estruturais já deviam ter sido feitas há cinquenta anos, sem as quais qualquer dia, tirando os ricos e os que já saíram e estão para sair de Portugal, qualquer dia nem os que ficam atrás conseguem viver no país.

Por isso seria muito bom se o governo deixasse de mais delongas e, em ver da dança do lago dos cisnes, faça o que tem que ser feito.

01/11/2011

TRABALHAR PARA A DÍVIDA E MESMO ASSIM FALIR

Mais fácil digo que feito.

Ora vamos lá a ver o que se passa na Europa e em Portugal, já que as redacções das televisões portuguesas e o exército de comentadores que têm andado a falar, falar, falar, não têm explicado bem, na minha opinião, o que se passou este fim de semana.

A primeira constatação, de que a maior parte das pessoas já se apercebeu, é que o chamado negócio da Troika em Junho, é insuficiente para evitar o descalabro que se aproxima para Portugal.

Pior, há duas semanas (fiz referência a esta constatação numa nota que escrevi aqui) alguns se aperceberam que as medidas draconianas em parte já em vigor e previstas para 2012, não só não resolvem quase nada como ainda ameaçam degradar mais o ambiente social e económico português.

Parte da solução, alguns referiam, estaria numa tomada de medidas corajosa por parte da Europa, já que a parte crítica do problema tem que ver com a Grécia, o euro, a dívida pan-europeia.

Este fim de semana, enquanto os líderes portugueses estavam perdidos algures no Sul da América Latina, de onde mandaram uns recados meio desesperados, os poderes europeus reuniram-se para “resolver” o problema.

O problema reparte-se por componentes.

A primeira componente e a mais conhecida é que toda a gente já admitiu, é que o volume de dívida da Grécia é….impagável. A Grécia, que já está falida, em breve arrastará a Europa com ela se nada for feito.

A segunda é que, se nada fôr feito entretanto, esse efeito de arrastamento se verificará em economias periclitantes mas muito maiores e que estão a pouca distância de uma crise: a Espanha, a Itália, a Bélgica. Considera-se que Portugal está incluído neste grupo.

A terceira é que, mesmo que tudo o que está previsto funcione e nada mais de mau aconteça, que a Europa estará condenada a um longo, perigoso e complicado, período de estagnação económica, uma vez que um simples exercício de aritmética indica que não há dinheiro disponível para a) investir no desenvolvimento económico b) conceder crédito às pessoas e às empresas.

A quarta e última é que (hum, como é que poderei dizer isto de uma maneira simpática) uma parte considerável da banca europeia – que inclui a portuguesa – está num estado lastimável, pois a) vem aí uma montanha de dívidas incobráveis, b) têm níveis de capital insuficientes e a diminuir rapidamente, c) não têm dinheiro disponível para emprestar mesmo aos bons clientes, d) vão levar agora em cima com uma boa parte das medidas, anunciadas este fim de semana, para perdoar a dívida grega.

Isto para não referir o perigo, que persiste, de uma cadeia de falências que arrasariam o sistema financeiro. Ainda há uns dias um grande banco franco-belga foi “salvo” através de intervenção estatal.

Quais, afinal, foram as “medidas” anunciadas este fim de semana para salvar o euro e as economias da zona euro?

Foram três: 1) o perdão de metade da dívida privada grega, 2) o financiamento da re-capitalisação dos bancos europeus, e 3) o aumento do capital disponível de uma espécie de super-linha de crédito, chamada Facilidade Europeia de Estabilidade Financeira (em inglês, EFSF)

Dada a enorme importância deste tópico, analisemos estas medidas individualmente.

Quanto ao perdão de metade da dívida privada grega, por um lado, analistas indicam que mesmo assim a Grécia teria no ano de 2020 um endividamento global de 120 por cento do seu PIB, o que muitos acreditam que continua a ser miserável e provavelmente insustentável para os gregos. Por outro lado, “perdoar” essa metade da dívida privada significa que quem teria que a perdoar eram bancos e outras instituições financeiras europeias, incluindo bancos portugueses (cerca de 1300 milhões de euros no caso destes) com efeitos demolidores, já que estes à partida já estão em condições de enorme fragilidade.

Quanto ao financiamento da re-capitalisação dos bancos europeus, na reunião mencionou-se a necessidade de um montante global de cerca de 107 mil milhões de euros, para bancos que em princípio levarão em cima com o plano grego mencionado atrás e cuja dívida passaria a valer zero. No caso português fala-se da necessidade de 12 mil milhões de euros, o que não deixa de ser interessante pois a banca portuguesa é menos que um por cento da europeia mas precisa de quase dez por cento do tal montante global. De qualquer modo, não é claro que estes valores endireitem os bancos e lhes permitam voltar a emprestar. Nem se estas medidas efectivamente signifiquem a sua re-nacionalização (afinal, o dinheiro em última instância é dos contribuintes europeus, portugueses incluidos).

Quanto ao aumento de capital da EFSF, falou-se num aumento deste instrumento para mil milhões de euros (lá veio à baila a velha conversa de se “one billion” quer dizer mil milhões ou um milhão de milhões…). Mas – e aqui um gigantesco “mas” – não se percebe de onde virá o dinheiro. Aventou-se o banco central europeu mas a Alemanha disse que não. Falou-se em o dinheiro vir “de fora” (tradução:da China). De Pequim, a China mandou um telegrama a dizer “vocês devem estar mas é a sonhar”. E a conversa, de momento, ficou por aqui, ou seja, quer-se aumentar o montante da EFSF (em boa parte para acautelar eventuais problemas com a Espanha e a Itália) mas ninguém concorda em onde e como se vai arranjar o dinheiro.

A reacção dos mercados esta semana foi o que se esperava: primeiro foi brevemente positiva, e agora que as pessoas começaram a perceber que nada está resolvido, voltaram ao negativo.

A crise continua dentro de momentos.

Em Portugal, como seria de esperar, agora já se começa a fazer barulho para “renegociar”. Renegociar prazos, renegociar taxas de juro, nalguns casos com uns leves pós de dôr de cotovelo por os gregos serem recompensados pela sua incúria com um perdão de dívida e para os portugueses nada de perdão.

Mais surreal, o Partido Socialista português, agora sob a tutela recente e algo efémera do Dr. António José Seguro (condecorado com a Medalha de Ouro da Vila de Penamacor) ruidosamente contempla vetar o demolidor orçamento do governo central para 2012. O que, ocorrendo, inauguraria um novo capítulo no que concerne a irresponsabilidade e inconsistência desta geração de políticos.

Ah, 2012 vai ser um ano de arromba.

A AMÉRICA QUE EU JÁ NÃO RECONHEÇO

Quadro copiado com vénia do Economist, indicando a divisão da riqueza acumulada por fatia da população.

Depois de ter ido literalmente como refugiado para os Estados Unidos em 1977, após o desastre da Descolonização portuguesa, li vivi durante quase quinze anos.

No geral, foi muito bom para mim e para a minha família.

Mas as minhas aspirações eram outras.

Em 1990 iniciei uma espécie de regresso a África, que ainda levou dez anos, com alguns interregnos por Portugal. O regresso não foi regresso e, à sua maneira, a elite portuguesa criou o seu próprio descalabro nos últimos quinze anos.

No entretanto, nos EUA, houve Clinton e Bush e agora Obama. Houve o ataque terrorista em Setembro de 2001, as guerras no Médio Oriente, a maluqueira fiscal quase total e a quase falência do Estado norte-americano, precedida do escândalo total da Enron, o fim da Arthur Andersen & Co., o desfalecimento quase imediato dos mercados financeiros norte-americano e mundial, iniciado com a chamada crise do sub-prime e a falência, numa sexta-feira, do banco Lehman Brothers.

Ainda não se sabe onde isto tudo vai parar. O mundo – o nosso mundo – permanece à beira do abismo.

Agora, aproxima-se a eleição presidenciall de 2012.

É mais do que claro que Barack Obama rigorosamente nada teve que ver com as tragédias que herdou, e as quais não têm soluções fáceis e muito menos paleativos.

Mas ao que eu tenho assistido, do outro lado do Atlântico, é às polémicas mais surreais, especialmente vindas do lado da direita norte-americana. Que, lamentavelmente, em boa parte porque me considero um conservador, traduzem um delírio perigoso da parte de pessoas que parece que ainda não entenderam bem o buraco profundo em que a América, e o mundo, estão metidos.

A tentação fácil é considerar que a substituição do actual presidente ajudaria a resolver os problemas.

Eu acho que o começo da resolução dos problemas que agora afogam uma boa parte do mundo ocidental pouco tem que ver com a eleição presidencial norte-americana.

Pelo contrário.

Eu já não reconheço esta América.

E começo a pensar que já não reconheço este mundo.

(No dia 8 de Outubro, a organização Democratas no Estrangeiro -“Democrats Abroad”- organizou um evento intitulado “Vozes por Obama” na Galeria Nikki Diana Marquandt em Paris.  No evento, um dos que falou foi o autor norte-americano Jake Lamar. Em baixo, um excerto do que ele disse, gravado no Atelier La Main d’Or. Este, pelo menos, diz que não está desiludido).

22/10/2011

ANÍBAL CAVACO SILVA E O FIM DA MACACADA

Nesta data, mapa com as previsivéis ilacções de uma deficiente resolução do "problema grego" - para quem ainda não percebeu. Cavaco Silva percebeu três dias antes de Pedro Passos Coelho. Haja paciência.

Durante esta semana aconteceu algo que à primeira vista parece que não faz sentido nenhum.

Isto porque, pela primeira vez e depois de imensa ginástica e muita sorte, Portugal assistiu à eleição de uma espécie de Santíssima Trindade da chamada direita portuguesa, ao ter, com a re-eleição de Aníbal Cavaco Silva e a eleição do PSD de Pedro Passos Coelho para o poder, um parlamento, um governo e um presidente, da esfera política do chamado centro-direita.

E não faz sentido nenhum porque, no preciso, crucial momento em que o governo do dia apresentou o mais sanguinário orçamento desde que António Oliveira Salazar achou por bem equilibrar as contas nacionais no princípio dos anos 1930, o presidente da república portuguesa, figura estelar do firmamento social democrata, vai a uma de outro modo suporífera sessão da (ainda e sempre) corporativa Ordem dos Economistas, onde se lembra de usar o momento para essencialmente pregar uma rasteira às intenções orçamentais, recentemente reveladas, do governo para 2012, ao dizer (não sugerir ou sequer mandar a proverbial boca) que o orçamento do ano que vem tresanda a inequidade e injustiça.

Passos Coelho, que até tem sido discreto que baste e que supostamente bebe um cházinho semanal com Cavaco em Belém, ficou de boca aberta, enquanto que os comunistas, esquerdistas, sindicatos e afins mal podiam esconder os orgasmos intelectuais com a providencial deixa oferecida pelo presidente.

Levou três dias primeiro que Passos Coelho conseguisse responder ao tirocínio presidencial, resmungando qualquer coisa que se percebe que não se percebe bem.

E, para o analista casual como eu, fica a questão de que raio de Santíssima Trindade é esta em que um dos seus componentes anda aos tiros aos outros em público.

Eu creio que a razão é muito simples, e tem que ver em parte com o fluxograma que coloquei no cimo deste texto, creio que feito por um inglês bem disposto (o Reino Unido ainda tem a libra, o que ajuda).

As medidas já tomadas e listadas no orçamento do governo central para 2012 são draconianas, supostamente mais para os flagelados (e excessivos, e ineficientes) funcionários públicos portugueses, que às vezes parece que são metade de Portugal, mas que mesmo que não sejam, conseguem estoirar alegremente mais do que metade do produto nacional bruto português todos os anos – e sempre a crescer.

Isto fora as dívidas reveladas, as escondidas, as fraudes inexplicadas dos bancos dos amigos e o facto de que parece que tudo o que foi construído nos últimos vinte anos afinal parece que ficou tudo por pagar.

A postura do actual governo foi, e tem sido, honorável. A sua tese de base: os portugueses são gente de bem e vão pagar o que devem, que mais não seja que para continuar a rolar o empréstimo em curso, sem o qual a república resvalecerá inexoravelmente para a falência e quiçá para uma catastrófica saída do euro.

Portanto, como são mentirosos, preguiçosos ou simplesmente incapazes de colocar 150 mil funcionários públicos sem o regime cair, ou cortar aparentemente seja o que for das despesas inacreditáveis a que o governo se foi obrigando a pagar no decurso da República Socialista, os novos senhores da Casa optaram pela via das tomada de medidas fiscais à escala industrial.

Só que, nas últimas semanas surgiram informações, que pelos vistos Cavaco Silva primeiro tomou conhecimento primeiro, e que pelos vistos ou se esqueceu de avisar Passos Coelho nos seus cházinhos semanais ou que este não lhe prestou atenção, que mudaram as circunstâncias radicalmente.

A primeira, é que a Grécia, se tudo ficar na mesma ou mesmo que mude um bocadinho, vai à falência. Aliás, já está falida, agora a questão é como se vai gerir essa falência.

A segunda, é que toda a banca europeia, mesmo sem a falência grega, mas com ela no horizonte, está mesmo à beira do abismo.

E o abismo, se nada mudar já – “já” sendo as reuniões em curso este fim de semana e nos próximos quinze dias – em termos temporais, vai acontecer nos próximos três meses.

Ou antes.

Em terceiro lugar, não é preciso ser J M Keynes – ou Cavaco Silva – para se ter percebido que o actual curso, indicado pelo orçamento português para 2012 e pelas informações macroeconómicas europeias, não só nada contém que possa ajudar a estimular os agentes económicos, como na verdade confirma que o mais provável é a economia europeia, e em especialmente a portuguesa, entre numa espiral descendente que corroerá a fibra e a essência da sociedade e a catapultará para terreno muito perigoso.

Foi o que aconteceu nos anos 1930, para quem não se recorda.

Cavaco Silva apercebeu-se disto antes de Passos Coelho e a sua equipa. Ele entendeu que o orçamento do governo central para 2012 era o cheque garantido para entrar na espiral descendente e que, ainda por cima, Portugal faliria na mesma. Com a agravante de que em seguida, provavelmente para selar a catástrofe, logo a seguir iriam os bancos.

E nesse dia, seria o Fim da Macacada.

Por isso, em tempo real, mudou o discurso.

O que Aníbal Cavaco Silva tentou dizer na Ordem dos Economistas há uns dias é que, se houver, a única salvação para os portugueses é um pacote de ajuda europeu muitíssimo mais substancial do que o quase ofensivamente ruinoso orçamento para 2012 e o empréstimozeco negociado há uns meses.

E, ao fazê-lo em público, quis forçar a mão de Passos Coelho, que ainda andava a fazer de menino bem comportado junto da Troika e ainda dizia que eram os portugueses sozinhos que tinham, que conseguiriam, arrumar a casa.

Levou três dias. Mas Passos Coelho finalmente percebeu.

Que, mais uma vez, e pela segunda vez em seis meses, a salvação do que resta de algum bem-estar dos residentes em Portugal está situada não em Belém e São Bento, mas mais a Norte na Europa.

As medidas a tomar no âmbito do orçamento de 2012 são quase uma política de terra queimada fiscal. Sem qualquer margem de dúvida irão provocar uma tempestade económica, política e social sem precedente desde os últimos dias da famigerada I república. Já estão a começar a fazê-lo.

Mas a verdade é que é preciso muito, muitíssimo mais dinheiro que o que o governo poderá arrancar dos bolsos dos contribuintes para salvar os bancos, para arranjar dinheiro que chegue para emprestar às empresas e às pessoas em 2012, e ainda fazer frente à crescente onda de endividamento com que a República Socialista, com lugar de destaque para José Sócrates, presenteou os portugueses de hoje e das duas gerações que vêm a seguir.

Este fim de semana vão finalmente começar o frio e a chuva em Portugal. Em breve, a não ser que algo venha do Norte entretanto, virão também a fome e a miséria.

Politicamente, fica a paradoxal constatação de que, no actual sistema constitucional e mapa político português, ter uma Santíssima Trindade no poder parece que no fim acaba por não fazer diferença nenhuma.

Nem em bons tempos.

Nem quando se está beira do abismo.

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