THE DELAGOA BAY REVIEW

19/11/2011

PORTUGAL E AS GUERRAS GLOBAIS

Enquanto os portugueses lambem desconsolados as suas feridas porque – coitadinhos – vão ter menos para gastar já partir deste Natal, e a Europa dança no fio da navalha do precipício que ela própria escavou quando criou o SME, guerras maiores se formam no horizonte.

Talvez a mais relevante para já vai vir por duas vias: a guerra das moedas e a guerra do desconto das dívidas soberanas.

Segundo o Le Monde de 17 de Novembro, na terça feira passada a dívida federal norte -americana atingiu praticamente os 100% do PIB norte-americano, que é um bocadinho maior que o português. Estamos a falar de 15 milhões de milhões de dólares (15.009.330.000.000 dólares no momento em que escrevo estas linhas, segundo o sítio U.S National Debt Clock).

Isto enquanto se assiste a uma significativa dimunuição dos valores de muitos activos. Quem tem acções do BCP que comprou a, digamos, 2 euros, e que agora valem 10 cêntimos cada acção, sabe do que estou a falar.

Só que isto está a acontecer na Europa e nos EUA a uma escala arrasadora.

Do outro lado do Pacífico, a China insiste em manter, essencialmente, alguma paridade com o dólar norte americano, apesar dos esforços quase frânticos dos norte-americanos para que essa situação mude.

Na Europa e nos EUA, conscientes que uma mudança deste curso implicaria uma recessão horrenda, os respectivos bancos centrais mantêm a quase todo o custo as taxas de juro a taxas reais negativas. Na Europa do Euro, por exemplo, a taxa de redesconto está a 1.25%, contra uma taxa de inflação esperada em 2011 de perto dos 3.00%.

Num mundo globalizado, em particular desde que a China passou a ser um membro da World Trade Organization em meados dos anos 90, de momento não é claro como é que se vai desenrolar o próximo capítulo da actual crise, pois não se entende de onde poderão vir os factores de criação de riqueza que ajudem a colmatar os enormes desequilíbrios que se têm vindo a desenvolver a e acentuar, com impacto nos níveis de endividamento público e privado, produtividade e taxas de desemprego.

Uma coisa parece certa: as dificuldades que os portugueses estão a começar a sentir já se estão a começar a sentir em muitos outros países, incluindo países como os Estados Unidos e os principais parceiros da Europa.

Só que, para variar, desta vez, o processo assemelha-se ao efeito de uma gigantesca bomba atómica a explodir em câmara lenta, a sete velocidades diferentes.

Nas economias “clássicas”, com mecanismos tradicionais tais como as suas próprias moedas, controlo monetário, das taxas de juros, controlo de capitais e controlo total daquilo que importam e exportam (casos, por exemplo, do Brasil, de Moçambique e de Angola) a maior ou menor miséria nestas situações gere-se mais ou menos bem, com umas doses de intervenciosnismo governamental com objectivos definidos.

Mas no actual contexto do eixo China-Japão-EUA-Europa, está-se a entrar em campo desconhecido, em parte porque os factores são dificilmente controláveis e os valores e volumes são tão grandes que governos de países inteiros parecem incapazes de negociar as suas posições.

Quais, então, as grandes tendências?

1. Uma progressiva desvalorização do dólar norte americano, a qual poderá ser acompanhada pela desvalorização do euro, se este sobreviver o que vem aí. Claro que, para quem detém activos nestas moedas, importará as respectivas inflações e a desvalorização relativa de uma moeda relativa à outra, se esse for um factor a considerar (é, para os detentores de capitais líquidos e os investidores, os importadores e os exportadores).

2. Uma muito significativa secagem do capital disponível para investir e para emprestar em geral.

3. Uma subida no custo do dinheiro, uma vez que as actuais políticas de manutenção de taxas directoras a baixos níveis não são sustentáveis a médio prazo.

4. Maior risco na detenção de capital, dado que os riscos sistémicos vão subir, quer através da instabilidade das moedas e dos valores dos activos, que porque os veículos para a sua manipulação (bancos, casas de investimentos, títulos de tesouro e outros instrumentos) entraram numa fase de maior fragilidade.

5. Maior instabilidade política, resultante das tendências acima descritas, acrescidas de maiores taxas de desemprego e um gradual mas acentuado empobrecimento das pessoas.

Devido à total incúria dos governos entre 1991 e 2011, Portugal presta-se a levar em cheio com os efeitos destas tendências.

No entanto, os portugueses estão tudo menos sozinhos, nesta tempestade que se aproxima.

01/11/2011

A AMÉRICA QUE EU JÁ NÃO RECONHEÇO

Quadro copiado com vénia do Economist, indicando a divisão da riqueza acumulada por fatia da população.

Depois de ter ido literalmente como refugiado para os Estados Unidos em 1977, após o desastre da Descolonização portuguesa, li vivi durante quase quinze anos.

No geral, foi muito bom para mim e para a minha família.

Mas as minhas aspirações eram outras.

Em 1990 iniciei uma espécie de regresso a África, que ainda levou dez anos, com alguns interregnos por Portugal. O regresso não foi regresso e, à sua maneira, a elite portuguesa criou o seu próprio descalabro nos últimos quinze anos.

No entretanto, nos EUA, houve Clinton e Bush e agora Obama. Houve o ataque terrorista em Setembro de 2001, as guerras no Médio Oriente, a maluqueira fiscal quase total e a quase falência do Estado norte-americano, precedida do escândalo total da Enron, o fim da Arthur Andersen & Co., o desfalecimento quase imediato dos mercados financeiros norte-americano e mundial, iniciado com a chamada crise do sub-prime e a falência, numa sexta-feira, do banco Lehman Brothers.

Ainda não se sabe onde isto tudo vai parar. O mundo – o nosso mundo – permanece à beira do abismo.

Agora, aproxima-se a eleição presidenciall de 2012.

É mais do que claro que Barack Obama rigorosamente nada teve que ver com as tragédias que herdou, e as quais não têm soluções fáceis e muito menos paleativos.

Mas ao que eu tenho assistido, do outro lado do Atlântico, é às polémicas mais surreais, especialmente vindas do lado da direita norte-americana. Que, lamentavelmente, em boa parte porque me considero um conservador, traduzem um delírio perigoso da parte de pessoas que parece que ainda não entenderam bem o buraco profundo em que a América, e o mundo, estão metidos.

A tentação fácil é considerar que a substituição do actual presidente ajudaria a resolver os problemas.

Eu acho que o começo da resolução dos problemas que agora afogam uma boa parte do mundo ocidental pouco tem que ver com a eleição presidencial norte-americana.

Pelo contrário.

Eu já não reconheço esta América.

E começo a pensar que já não reconheço este mundo.

(No dia 8 de Outubro, a organização Democratas no Estrangeiro -“Democrats Abroad”- organizou um evento intitulado “Vozes por Obama” na Galeria Nikki Diana Marquandt em Paris.  No evento, um dos que falou foi o autor norte-americano Jake Lamar. Em baixo, um excerto do que ele disse, gravado no Atelier La Main d’Or. Este, pelo menos, diz que não está desiludido).

18/10/2011

O PROBLEMA SOBERANO, 2010

O desafio próximo futuro para uma boa parte do mundo está em como resolver as dívidas soberanas. Achei interessante saber o que se passa nalguns países sobre os quais se fala com frequência.

Os dados respeitam a 2010, portanto ainda antes da degradação considerável ocorrida a partir do início de 2011.

A fonte é o Economist Economic Unit (com vénia)

Curiosamente, aqui se pode ver claramente que, por um número de razões, para já, no que concerne à dívida pública, os países africanos estão numa situação mais aconchegada que os paíse mais ao Norte.

PORTUGAL
Dívida Pública (milhões USD) – 174,502
Divida Pública por habitante (USD) – 16.400
População total (milhões) – 10.6
Dívida Pública como % do PIB – 82.4
% aumento da dívida pública no último ano – (1.9)

ANGOLA
Dívida Pública (milhões USD) – 17,187
Divida Pública por habitante (USD) – 910
População total (milhões) – 18.9
Dívida Pública como % do PIB – 20
% aumento da dívida pública no último ano – 11

MOÇAMBIQUE
Dívida Pública (milhões USD) – 3,651
Divida Pública por habitante (USD) – 156
População total (milhões) – 23.3
Dívida Pública como % do PIB – 37.3
% aumento da dívida pública no último ano – 1.6

AFRICA DO SUL
Dívida Pública (milhões USD) – 116,641
Divida Pública por habitante (USD) – 2,400
População total (milhões) – 49.1
Dívida Pública como % do PIB – 32.3
% aumento da dívida pública no último ano – 31

E por piada:

ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA DO NORTE
Dívida Pública (milhões USD) – 8,975,409
Divida Pública por habitante (USD) – 29,000
População total (milhões) – 309
Dívida Pública como % do PIB – 61.2
% aumento da dívida pública no último ano – 21

ALEMANHA
Dívida Pública (milhões USD) – 2,315,786
Divida Pública por habitante (USD) – 27,900
População total (milhões) – 83
Dívida Pública como % do PIB – 75.4
% aumento da dívida pública no último ano – (6.2)

ESPANHA
Dívida Pública (milhões USD) – 804,698
Divida Pública por habitante (USD) – 17.540
População total (milhões) – 45.9
Dívida Pública como % do PIB – 61.1
% aumento da dívida pública no último ano – 7.3

Finalmente, o país mais badalado do momento:

GRÉCIA
Dívida Pública (milhões USD) – 374.760
Divida Pública por habitante (USD) – 34.100
População total (milhões) – 11
Dívida Pública como % do PIB – 128
% aumento da dívida pública no último ano – (4)

12/09/2011

11 DE SETEMBRO DE 2011: UMA EVOCAÇÃO

Recordando as cerca de três mil pessoas inocentes. maioritariamente norte-americanos, assassinadas brutalmente há dez anos por um punhado de pessoas que achavam ser esta uma forma aceitável de expressarem os seus ódios.

Remembering the approximately three thousand innocent people, mostly Americans, who were brutally murdered ten years ago, by a bunch of individuals who thought this was an acceptable way of expressing their hatreds.

09/09/2011

JOHN PERKINS, OS GRANDES PROJECTOS E OS GRANDES DESAFIOS

Filed under: Economia de Moçambique, EUA, Globalização, John Perkins — ABM @ 1:54 pm

Há uns anos li um livrinho chamado Confessions of an Economic Hit Man,  escrito pelo Sr. John Perkins. Um livro que perturbou, em boa parte porque acho que o que ele disse é verdade.

Agora, ao ler sobre os grandes projectos em Moçambique e o efeito que eles poderão ter no país e na sua sociedade, especialmente nos grandes projectos energéticos – hidroeléctricos, gás, carvão e eventualmente petróleo – voltei ao assunto de John Perkins e encontrei um pequeno vídeo dele com seis minutos, traduzido para português.

Que recomendo que seja visto. Pois pode ser relevante e explicar algumas coisas, ou pelo menos alguns caminhos. Aqui vai em seguida.

13/07/2011

MOODY’S BLUES

Filed under: EUA, Moody Blues, Moody's Rating Agency — ABM @ 3:14 am

O logotipo da empresa de rating norte Americana Moody's.

Em baixo segue a minha melhor recordação dos únicos Moody Blues que eu conheço há quase trinta anos.

Que me recordo perfeitamente porque foi o primeiro CD que eu comprei na vida, na Stereo Connection junto da Thayer Street em Providence, EUA.

Foi um verdadeiro deslumbre. Ainda tenho esse CD.

Que começa assim:

O poema:

Cold-hearted orb that rules the night
Removes the colours from our sight,
Red is grey and yellow white
But we decide which is right
And which is an illusion.
Pinprick holes in a colourless sky
Let insipid figures of light pass by.
The mighty light of ten thousand suns
Challenges infinity, and is soon gone.

Night-time: to some, a brief interlude,
To others the fear of solitude.
Brave Helios, wake up your steeds!
Brings the warmth the countryside needs


Dawn is a Feeling

Dawn is a feeling
A beautiful ceiling
The smell of grass
Just makes you pass
Into a dream

You’re here today
No future fears
This day will last
A thousand years
If you want it to

You look around you
Things they astound you
So breathe in deep
You’re not asleep
Open your mind

You’re here today
No future fears
This day will last
A thousand years
If you want it to

Do you understand
That all over this land
There’s a feeling
In minds far and near
Things are becoming clear
With a meaning

Now that you’re knowing
Pleasure starts flowing
It’s true life flies
Faster than eyes
Could ever see

You’re here today
No future fears
This day will last
A thousand years
If you want it to

A REVOLUÇÃO CONSERVADORA EM PORTUGAL, JULHO DE 2011

“You cannot legislate the poor into freedom by legislating the wealthy out of freedom. What one person receives without working for, another person must work for without receiving. The government cannot give to anybody anything that the government does not first take from somebody else.

When half of the people get the idea that they do not have to work because the other half is going to take care of them, and when the other half gets the idea that it does no good to work because somebody else is going to get what they work for, that my dear friend is about the end of any nation. You cannot multiply wealth by dividing it”.

(Dr. Adrian Rogers, 1984)

Ao contrário de muitos dos exmos. leitores, eu vivi nos Estados Unidos durante os dois mandatos de Ronald Reagan, que presidiu à “revolução conservadora” norte americana nos anos 80, que, catapultada pelo pragmatismo moderado de Bill Clinton, trouxe enormes riquezas aos norte-americanos, até que a administração de George W. Bush, um pouco como o José Sócrates de Outubro de 2008-Abril de 2011, arrebentou com tudo e mais alguma coisa.

Em Portugal, como resultado da eleição de 5 de Junho, pela primeira vez desde 1974, há um alinhamento entre presidente, parlamento e governo que em Portugal se chama de “direita”. Ou, talves mais hilariante ainda, “liberal”. O que para mim é curioso. Nos EUA um “liberal” é um tipo de esquerda. Lá, o contrário de um liberal é um conservador. Mas um conservador em Portugal é um fascista ou afim.

Mais do que rótulos, no entanto, interessa o conteúdo, ou seja a ideologia, e a doutrina, e as acções daí decorrentes. É o actual alinhamento governamental português, um multifacetado conjunto de pessoas puxadas daqui e dali e liderados por Pedro Passos Coelho, com Cavaco Silva em Belém “conservador”? de “direita”? “liberal”?

Mas em Portugal, o que é que isso quer dizer?

O normal seria olhar para o arco-íris político português e aí buscar a resposta. Dum lado temos a gerontocracia comunista, os agora periclitantes Bloques de Gauche, a seguir os escombros do PS de José Sócrates, e os senhores da presente administração a seguir. Como não há mais nada à direita, ou outra direita, estes devem ser a direita portuguesa.

Mas será que são “a” direita?

E se são, que direita é esta?

Qual a sua visão?

Os seus valores?

O que é que defende?

A minha resposta curta é: “não sei”.

Não sei porque ainda não li nada que emanasse das suas lideranças (PSD e PP) que me faça crer que se está perante uma direita.

Mais importante, aquilo que supostamente vai tentar-se fazer  nos próximos anos nem sequer foi escrito por eles: foi dado em espécie de ultimato por um pequeno grupo de tecnocratas que esteve em Lisboa umas curtas semanas durante o mês de Maio. Em cerca de duzentas páginas, apinhadas de instruções e com datas-limite de execução.

E esse documento foi assinado por todos. Até pelo Partido Socialista de Portugal.

Volvidas umas semanas após o penoso carnaval da selecção do elenco governamental e as tomadas de posse, só se conhecem duas evoluções claras.

A primeira é um imposto “extraordinário” sobre o rendimento das pessoas, para supostamente ajudar a estancar a sangria de gastos públicos que ninguém parece saber em que pára nem tão pouco como a parar.

A segunda é que, do outro lado do mar, uma empresa cujo objecto social é acompanhar os desempenhos dos governos e aferir o risco para quem lhes poderá emprestar dinheiro, veio a público dizer que não acredita nem que o que há para ser feito vai ser feito, nem que isso será suficiente para estancar a tal sangria.

E qual tem sido a reacção dos senhores do poder?

Que a aferição do risco soberano deve ser feita deste lado do mar.

Não dá para perceber. Se isto reflecte uma agenda conservadora, uma agenda “liberal”, de “direita”, alguém que me explique.

No tempo de Reagan, toda a gente sabia, em traços gerais, qual era a agenda da direita e a posição da esquerda.

Em Portugal, em Julho de 2011, não sei a distinção.

Sim, tirou-se José Sócrates da equação.

Mas isso não foi um caminho. Foi apenas uma mudança necessária de recursos humanos.

Antes que mais (e é por isso que cito em cima a frase do Dr. Adrian Rogers, um dos apóstolos da direita religiosa americana do tempo de Ronald Reagan) o que deve distinguir a direita da esquerda deve ser a sua posição relativa às questões essenciais da criação da riqueza e a sua distribuição.

E, do que tenho assistido até ao momento, para além de alguns pronunciamentos obscuros sobre a necessidade de se alterar a actual constituição, que codifica a República Socialista criada em 1975 – que sem o beneplácito do Partido Socialista não muda – ao que parece que se vai assistir é a uma espiral de impostos para se tentar estancar uma espiral de despesas e de dívidas, sem outro fim que não seja um apelo humilhante a terceiros para que salvem os portugueses de si próprios.

Das minhas leituras dos livros de história, é nessas alturas que, nada obstando, as soluções mais radicais e menos consentâneas com as regras do jogo democrático, tendem a afirmar-se. A fome e o caos são muito maus conselheiros, especialmente se as escolhas e os rumos difíceis não são devida e atempadamente postas ao julgamento dos eleitores.

Em Junho, substituiu-se José Sócrates e a sua equipa.

Mas neste momento ainda falta algo.

Maior clareza nas opções e maior definição no espectro político.

Ao que se está a assistir não é certamente uma revolução, não é certamente conservadora, nem liberal.

Parece-me ser mais do mesmo.

15/12/2010

OS AMERICANOS E MOÇAMBIQUE

Filed under: EUA, Wikileaks — ABM @ 3:45 am

por ABM (16 de Dezembro de 2010)

Transpondendo.

O assunto vai por partes.

INTRODUÇÃO

Ao contrário do que alguns possam supor, este texto não é sobre Moçambique.

É sobre os Estados Unidos.

Vamos lá a ver.

Não sei se já contei esta história alguma vez. Isto foi-me contado pelo meu pai. Por volta da Independência de Moçambique, o meu pai esteve em Portugal uns dias, de férias. Eu estive com ele em Coimbra, para onde fui estudar. O pai BM fora um oficial de polícia antes 1972 e conhecia mais ou menos bem o país. Era a nossa casa até então e não havia outra. Não sei como, mas uma agência de inteligência dos EUA pediu para falar com ele. Acho que eram da CIA mas não faço ideia. Dois senhores foram ter com ele, e tiveram uma conversa. Sobre o que se passava em Moçambique, quem era quem, como funcionava o quê, o que é o que pai BM achava disto e daquilo. Eu só me lembro bem dos finalmentes. Eles no fim perguntaram o que é que ele achava que os Estados Unidos deviam fazer em relação a Moçambique. E a resposta dele terá sido: “Os moçambicanos são ciosos do seu destino. Não se metam e deixem os moçambicanos decidirem por eles como vão gerir o seu país. Eles lá saberão melhor o que fazer.”

Na altura, e ainda agora, considero a descrição dessa conversa, que só me foi revelada pelo pai BM já cerca de dez anos, extraordinária, por várias razões, de entre as quais o facto de que, na altura, não só estiveram os EUA a um fio de entrar por Angola a dentro, como já se antevia que a fase da pós-independência ia ser, já estava a ser, o que foi. Os EUA viviam tempos traumatizantes, com a demissão de Nixon e o Congresso a tentar atar as mãos a Kissinger, enquanto que em Portugal o Embaixador Carlucci e os alemães manobravam no sentido de o país não resvalar para o comunismo. No fim, ficou “socialista”.

Em Moçambique, apesar da linha ideológica em sentido contrário seguida pelo regime de então, os americanos abriram a sua embaixada e lá estavam desde cedo, fazendo o então habitual jogo do pau e da cenoura, que ao que sei irritava de sobremaneira os moçambicanos, que na altura viviam tempos de “vigilância” interna e um crescente conflito com os dois vizinhos do lado, por razões digamos que bilaterais. Em 1980 ou 81 meteram alguns diplomatas americanos na rua, mas passados poucos anos veio um degelo muito rápido. Samora mandou o seu homem a Washington preparar o terreno e pouco depois tirou a fotografia com Reagan e a seguir Valeriano Ferrão abriu a embaixada na capital federal americana. Desde então, os EUA têm sido essencialmente parte das troikas que prestaram vários tipos de apoio a Moçambique, directa e indirectamente, especialmente depois de acabar formalmente a guerra em Outubro de 1992.

O CONTEXTO

A ajuda norte-americana é legendária por ser relativamente burocrática e prenha de contrapartidas e exigências. Não vou entrar nos detalhes, mas decerto os exmos. Leitores já ouviram falar das leis americanas que não permitem a ajuda médica em casos em que sejam praticados abortos, ou que para haver ajuda o governo tem que fazer x e y e z. Os americanos não tendem a brincar e estão no mundo para defender os seus interesses, não para espalhar a sua generosidade aos quatro ventos, e o dinheiro é deles. É assim que eu encaro as coisas.

E as coisas estavam a correr mais ou menos bem, até mais ou menos a minha ex-colega de faculdade Sharon Wilkinson, ainda afecta aos democratas de Bill Clinton, ter terminado o seu mandato como embaixadora norte-americana em Maputo em 2003.

Mas, durante esse mandato da Sharon, dois eventos ocorreriam que completamente mudariam tudo.

A primeira, foi a eleição de George W. Bush, que sucedeu a Bill Clinton.

A segunda, foram os ataques terroristas em Nova Iorque e Washington no dia 9 de Setembro de 2001.

Por essa altura, ou melhor, pouco tempo depois, Joaquim Chissano decidiria não se recandidatar à Presidência de Moçambique e o candidato escolhido para a sucessão era Armando Guebuza.

O NOVO CONTEXTO

A natureza dos ataques de 2001 e quem estava por detrás deles, tiveram profundíssimas implicações para os Estados Unidos especialmente na forma em como esse país passou a encarar as suas ameaças e as suas necessidades de segurança, a todos os níveis.

Essencialmente, a impressão inicial nos EUA foi de que os sistemas e os parâmetros existentes para a sua defesa intena e a dos seus interesses pelo mundo, eram totalmente inadequados para enfrentar a nova ameaça, que não era um estado, nem um exército, mas uma “rede” extremista islâmica, minimalista, metódica, bem financiada, bem motivada – e absolutamente mortífera.

Para a combater, o consenso era que medidas excepcionais teriam que ser adoptadas.

E medidas excepcionais foram adoptadas.

Não vou entrar nos detalhes da aparente aventura americana no Iraque, dado que o que nos interessa aqui é África.

E, dentro de África, Moçambique.

ÁFRICA

O novo conceito de segurança norte americano era global e era o de combater o novo inimigo – essencialmente o extremismo islâmico – com todo o vasto arsenal de medidas à disposição do governo norte-americano.

Em África, inportavam principalmente aos Estados Unidos, creio, duas coisas.

A primeira, era não deixar grassar espaços vazios de soberania onde podessem florescer forças alinhadas com o seu apercebido inimigo. Principalmente, estamos a falar de lugares como o corno de África. Mas não só.

Segundo, importava aos Estados Unidos “secar” qualquer fontes de apoio, seja de que forma fosse, a seja quem quer que fosse que prestasse apoio, logístico, mas principalmente financeiro, aos seus inimigos.

Inimigos cujo epicentro geográfico é o Paquistão e o Afeganistão e, também um pouco, o Irão.

E para tal, importava aos Estados Unidos que os Estados africanos exercessem um controlo mais apertado de a) o que se passa dentro das suas fronteiras, e b) o que se passa nas suas fronteiras.

De um momento para o outro, tornou-se muito importante para a estratégia global dos Estados Unidos que os estados africanos controlassem, de forma eficaz e digamos que conclusiva, a circulação de:

–  pessoas
–  mercadorias
–  dinheiro

Parte desses sistemas os exmos. Leitores já têm conhecimento. A legislação norte americana é draconiana no que toca às penalizações a pessoas e empresas que façam negócios com o inimigo, na forma da Lista OFAC – a tal em que foi incluído um conhecido homem de negócios de Moçambique. Mas esta lista inclui milhares de pessoas, de empresas e de entidades a nível mundial, e é gerida por um pequeno exército bem financiado em Washington.

Para além de que a sua diplomacia, se detectar potenciais ameaças em qualquer local, faz saber as suas preocupações e solicita, ou exige, a tomada de medidas para lidar com essas ameaças apercebidas.

Ora, o continente africano é notório pelas suas fragilidades no que concerne a capacidade dos seus países controlarem as suas fronteiras, a circulação de pessoas, o mesmo acontecendo com o seu dinheiro.

E recordo que os dois primeiros grandes ataques da tal rede que dá pelo nome de Al-Khaeda, ocorrreram em solo africano, em Nairobi e em Dar-Es-Salam, há quinze anos.

Existem consideráveis comunidades islâmicas ao longo da Costa Leste do continente, algumas com laços estreitos com o tal epicentro extremista islâmico que é o foco privilegiado da atenção americana.

Mas – perguntará o exmo. Leitor – o que tem Moçambique a ver com isto?

MOÇAMBIQUE

Não estou dentro dos detalhes, mas creio especular educadamente quando postulo que, entre 2003 e 2006, o governo norte-americano começou a apertar o cerco em torno destas questões em todo o mundo – incluindo em Moçambique.

Situação sobre a qual não elaborarei em vista do estatuto deste blogue no que concerne a matéria.

Mas pode-se afirmar que a combinação dos temas, aliás correntes e recorrentes, nos jornais em Moçambique – as percepções e relatos de corrupção, de enriquecimentos rápidos, de uma poderosa comunidade empresarial islâmica, indícios de tráfico de droga e de lavagem de dinheiro, a sua circulação sem grandes restrições, a fraqueza e a falta de recursos do Estado em segurar as fronteiras, os fluxos de pessoas, de bens e de dinheiro (incluindo drogas ilegais), no mínimo faziam com que os norte-americanos se sentissem nervosos com as eventuais implicações de um tal estado de coisas para a sua segurança global.

Pelo menos é o que se depreende.

E aqui entra em cena o Sr. Todd Chapman.

TODD CHAPMAN

Não sei muito sobre este senhor. Antes de ir para Moçambique estava na Bolívia, que não era pêra doce, e onde era conselheiro na embaixada americana local, e que agora é suposto estar (para variar) no centro do epicentro do esforço militar global norte-americano do momento, o Afeganistão.

No entretanto, esteve em Moçambique.

Chapman nunca foi embaixador. Nem sequer era para ser embaixador. Quando a anterior embaixadora cessou as funções, o que aconteceu foi que a pessoa nomeada pela Administração Bush para o cargo não foi aprovada pelo Congresso (não sei qual foi a razão mas isso pode-se saber). E, nessas alturas, a pessoa no cargo dele exerce interinamente as funções do titular da embaixada, com a designação de “encarregado de negócios”. Ou para quem gosta de francês, “chargé d’affaires”.

E assim ficou até meados deste ano.

Antes de se ir embora, houve o famoso episódio, abordado neste blogue algures, em que o senhor do centro comercial em Maputo foi declarado proscrito pelas autoridades norte-americanas.

E, numa viragem quase espectacular, mas relevante, das circunstâncias, aparecem há uma semana quatro mensagens confidenciais escritas por Todd Chapman, cuja autenticidade até este momento não foi disputada por ninguém.

A WIKILEAKS

Devo dizer, primeiro que tudo, que, pese a minha desconfiança e desconforto com uma boa parte da diplomacia, e de alguns diplomatas que já conheci, que aquilo que são e o que representam é algo entre um mal necessário e um reconhecimento de que vivemos num mundo imperfeito. Acredito que são necessários, se bem que sinta que às vezes me lamente demais que eles pareçam esquecer-se de para quem trabalham: os cidadãos dos estados que representam.

E, nesse contexto, é absolutamente imprescindível que o seu trabalho tenha uma componente de absoluta confidencialidade e discrição. Nem devia ter que dizer isto, é por demais evidente. Muita da diplomacia não sobrevive cinco minutos à luz do dia, quanto mais ao escrutínio imediato dos jornais.

Portanto, o traidor que divulgou isto tudo deve ser preso, julgado e condenado, e se possível regado com alcatrão e penas como se fazia nos filmes do velho Oeste.

Por outro lado, quem desenhou os sistemas de comunicações confidenciais dos norte-americanos devia levar outra valente vassourada, pois o que sucedeu não foi uma falha, foi um buraco negro sem fim.

Mas sucedeu. E, para variar, aparece no meio esta entidade, a Wikileaks, quase unicamente habilitada a captar toda essa informação e capaz de a disseminar ao público, através da internet, pelos vistos apesar dos esforços desesperados sobre os quais se vai lendo nos jornais.

As pessoas da Wikileaks parecem ideologicamente motivadas pela teoria, parcialmente válida, creio, de que os estados têm que se submeter ao escrutínio dos seus povos. O que, reconheça-se, não só cada vez acontece menos, como por vezes sinto que assistimos em nossas vidas às piores previsões da sinistra novela de George Orwell, “1984”.

Seja como fôr, o conteúdo das suas divulgações é incontornável. É impossível de ser ignorado. Em Portugal, há dois dias que não se fala de outra coisa senão em algumas revelações feitas sobre pessoas e situações locais, incluindo o Presidente de Portugal, Cavaco Silva.

O que revelam, então, as mensagens de Chapman?

AS MENSAGENS

Provavelmente não há entre o público leitor que tenha lido em maior detalhe do que eu as quatro mensagens assinadas por Todd Chapman. Inclusivé colaborei na sua tradução, pois acredito ser importante que quem lê deve ser capaz de ler o mesmo que eu li. E este blogue é primariamente em português, não em inglês.

E vou ser breve porque não há, na minha opinião, contrário ao que alguns pensarão, muito a dizer.

Nas quatro mensagens de Chapman, não vi prova de coisa nenhuma, para além de que ele parece irritado por os moçambicanos não fazerem aquilo que ele manda. E resmunga e insinua e chateia, porque alguns jornais em Moçambique (que ele cita) dizem que dizem, e ele diz que eles dizem, e ele diz que um senhor diz que diz, e que o outro disse que disse.

Face à gravidade das alegações e insinuações contra um número de pessoas de relevo, não basta, para o leitor atento, a referência ao diz-que-disse-que-ouviu-que –o-outro-disse. E o que o outro acha que.

É preciso mais.

Pode ser que a situação mude, mas para já é só.

O que eu leio nas mensagens de Todd Chapman, creio, é uma mistura talvez de um certo empenho pessoal na sua causa, e, isso sim, o reflexo de uma preocupação absolutamente focada em três coisas: o controlo, ou falta dele, por parte do Estado moçambicano, em relação à circulação de pessoas, bens e dinheiro dentro e para fora das suas fronteiras.

Isto no contexto da batalha que os Estados Unidos estão agora envolvidos e a que acima referi.

Esse é “o” assunto em mão entre os dois estados. E que deve ser resolvido entre os dois estados. Os seus representantes fechados à porta, longe da luz do dia, dos jornais, das televisões e certamente dos blogues. Acordar se há problema, e se há, resolvê-lo.

O resto, e que pode não ser pouco, é, como disse o pai BM em 1975, assunto que é melhor deixado para os moçambicanos resolverem entre si, quando e como acharem melhor.

Foi também por esse direito que lutaram para ser independentes.

Eu sinto Moçambique, e não é boa gente quem não sente. Mas aqui compete-me apenas desejar que tudo corra pelo melhor e que os desafios que se apresentam todos os dias, sejam superados.

THE BEST FOR LAST

A razão da minha dedicação a este tópico, possivelmente dos mais interessantes e reveladores da diplomacia norte-americana em Moçambique nos últimos anos, é cristalina: a clareza total na abordagem a um tópico incontornável da actualidade perante quem lê este blogue, que eu tenho por pessoas inteligentes, interessadas, conscientes e tudo menos parvas. Pegar nos assuntos sérios pela rama é pouco sério.

Numa nota pessoal, já antes me apercebera de alguns dos constrangimentos implícitos de escrever aqui e das suas implicações. Por essa razão questionei a quem de direito se, em tais circunstâncias, se justificaria o meu contributo (totalmente grátis, representando centenas de horas do meu tempo) para esta magnífica publicação electrónica que é, ou tem sido, o Ma-Schamba. Que como muitos dos exmos. Leitores, lia com redobrado prazer muito antes de o Senador ter vindo pessoalmente à minha quinta o ano passado, exortar-me para aqui escrever. Sentindo-se algo ludibriado, a minha retirada para outras pastagens seria a coisa mais fácil e natural do mundo, para mais se em causa está o bem estar de terceiros. Bastando para tal um ténue sinal, que infelizmente não foi dado, ou não foi recebido. Em vez disso, num espaço de vinte e quatro horas, sem qualquer aviso, fui confrontado com a saída em marcha solidária de todos os meus colegas da caneta e a insinuação quase peripatética de ser “eu” ou pior, querer ser eu, o blogue Ma-Schamba. Que, para que conste, e para quem saiba do que falo, não sou nem nunca fui. Que mais não seja porque, declarações, posturas, éticas e estatutos aparte, os ficheiros da Casa estão afinal a um clique de distância e as palavras-chave e os acessos desta casa permanecem firmemente – e bem -com o seu fundador até este momento, o para sempre meu magnífico Senador, com quem tive o privilégio de privar sob este tecto durante um ano e meio.

Com quem aprendi a meter um post num blog.

E só isso já foi obra.

E esta é a sua obra, de sete anos. A que adicionei umas pindéricas trezentas e noventa e seis inserções, quase todas elas inconsequentes. Até por isso, talvez, já fui insultado hoje duas vezes por leitores. Agradeço terem-se dado ao incómodo, mas não precisavam.

Esta é a última vez que aqui escrevo uma nota.

Sanadas as eventuais desinteligências, especialmente lá em Maputo sobre quem é quem e quem fez o quê e porquê e quando – eu assino o que escrevo e sempre o fiz – muito me aprazeria se o Senador e seus amigos aqui voltassem e trouxessem de novo o seu vigor e literacia a todos nós, sob esta marca que já diz algo a alguns, em vez desse tal de pouco-pouco.

Maschamba forever.

(fim)

Comments (15)
15 Comentários »

Esta é uma situação lamentável e penso que desnecessária, embora desconheça os contornos. Acredito que entre gente boa este episódio pode ser ultrapassado! O Ma-schamba não merece acabar assim!

Comentário by José — 15/12/2010 @ 10:58

Não conheço algum dos autores, mas como sou moçambicana, gostava de ler os vossos posts, principalmente, reconheço, os relativos às fugas Wiki fiquei chocada ao ler, até o mencionando lá no spot, que o fundador do Ma-schamba se retirava pois os posts do ABM colidiam com interesses pessoais de quem vive em Moçambique ou lá detém interesses (lá está, de novo, a palavra mágica profissionais…ora, mas não é a liberdade de expressão isso mesmo- o confronto de interesses por princípios ou a verdade só a é quando interessa? Estranha forma de a encarar…Admiro a coragem que é aquela que é actualizada quando dói mesmo, agora, quando é daquela que só se mostra quando convém isso para mim tem outro nome…Como tal, gosto dos seus posts Abraço

Comentário by Xikuembo_Xanhaque, vulgo Isabel Metello — 15/12/2010 @ 12:53

Entendam-se que os leitores não têm nada a ver com esta história. Queremos todos o Ma-schamba a funcionar.

Comentário by Pedro Silveira — 15/12/2010 @ 13:11

Este é o último post de um blog onde escrevi sete anos. Já disse tudo o que tenho para dizer e não deveria intervir mais. Mas é o último post, é isto que vai ficar a encabeçar o blog nos anos que estiver disponível e confesso que me custa deixá-lo assim, sem resposta, só para simular a “indiferença olímpica”. Certo que face a ABM já disse em privado e em público o que entendi dizer. Posso (lá está, é mais forte do que eu) apenas responder ao argumentado no texto. Dois pontos: 1) nunca enviei nenhum sinal de desconforto com a presença de ABM no ma-schamba porque nunca o tive. Tive discordâncias, algumas, e concordâncias muitas. Apenas isso. E essas foram recorrentemente comunicadas, numa troca de mensagens abundante, quase sempre divertida, agreste uma ou outra vez. O desconforto, radical, abrangente, que tive este último fim-de-semana foi explicitado em mensagem privada, a qual com toda a certeza esclareceu hipotéticas dúvidas que agora ainda transparecem no texto. É uma situação radicalmente nova, não em grau, sim em género, se se quiser dizer assim; 2) neste contexto de argumentação reduzir esta questão, que tem sido entre-discutida desde há muito tempo, ao “bem estar de terceiros” é penosamente redutor. E é(-me) evidente que isso é sabido por ABM pelo que não uso mais adjectivos. É óbvio que não “é o bem estar de terceiros” a questão, mas que o é com toda a certeza o “nem no bem estar de terceiros pensaste”. A diferença entre as duas posições, duas atitudes, é muito grande. E o ABM sabe-a e percebe-a.

Para, realmente, terminar. Isabel Metello deixa um comentário. Ao longo dos anos aqui sempre disse que a interpretação é uma decisão. Isabel Metello decide interpretar de determinada forma. Quando escrevi o que escrevi antevi a pomposa chegada deste tipo de gente [e eu podia retoricamente ter elidido o aspecto pessoal da argumentação – quem o discutiria? quem o aventaria? Estou certo que ninguém.]. É uma das formas da cobardia, truncar o que os outros dizem e escrevem, deturpar a la carte para poder concluir com aparente panache. Mas é uma aparência vã, apenas com a baixeza da desonestidade, que até transparece na semântica intentada, aventando gente que “lá detém interesses”, da qual nenhum de nós falou – é um deslizar das palavras de quem as conhece bem, e como tal de quem interpreta de um modo porque o quer mesmo, não por mera inépcia. Sempre aqui defendi o direito e, acima de tudo, o dever do insulto – e algumas vezes o pratiquei. Neste seu caso, Isabel Metello, nem isso se justifica. O seu soez comentário é um auto-insulto. Suficiente.

Comentário by jpt — 15/12/2010 @ 16:29

Vai uma pessoa para o mato trabalhar durante 2 semanas e quando regressa encontra uma mensagem destas…

E que tal, para abreviar, ir tudo para banhos natalícios (forçosamente à temperatura exterior ambiente, naturalmente…) e voltarem depois das festas, hã?

Vá lá, se eu até no meio do mato Angolano faço um esforço para ler o Ma-schamba, e outras pessoas fazem o mesmo, é porque merece uma ponderação dos ‘donos-da-bola’.

Boas festas a todos (aproveito a deixa)e sff voltar ao palco em Janeiro!!

Abraços a todos.
Miguel A.

Comentário by Miguel A. — 15/12/2010 @ 18:01

Caro JPT, escreveu “interesses” escreveu e se reler o que escreveu verá de onde parte a desonestidade que invoca…quanto “a este tipo de gente” creio que se enganou…aliás, de onde me conhece para mostrar dessa forma a sua tão elevada educação? Eu baseei-me no que escreveu, não o ofendi pessoalmente, aí está a diferença…aliás, foi a !”este tipo de gente” a quem endereçou um pedido para divulgar o seu blog e fi-lo com todo o gosto, inscrevendo-o na minha lista…agora, eu sou daquele tipo de gente que reafirma: defender princípios, como a verdade, a liberdade, etc…é muito bonito na teoria, mas só GENTE os aplica na prática…e mantenho o que disse…

Comentário by Xikuembo_Xanhaque, vulgo Isabel Metello — 15/12/2010 @ 21:28

E passo a citar o seu 8º parágrafo da sua nota de despedida, para comprovar quem está a fugir à verdade: “(…)Para mais, e como já fiz ver em mensagem privada, levantando outra questão. As mensagens americanas vituperam o estado moçambicano. ABM, no seu propósito divulgador e denunciador, assume explicitamente o seu conteúdo como verdadeiro. Ora se assim é, se o Estado moçambicano assim o é, ABM inconsiderou os meus interesses e a minha situação pessoal, familiar e profissional, sabendo-me único residente, único trabalhador dependente aqui e conhecido como fundador do blog que ele utilizou para atacar o poder moçambicano. Bem como, ainda que em menor grau, os dos outros três co-bloguistas que têm também interesses profissionais e pessoais no país. A nenhum de nós perguntou se estaríamos disponíveis para aderir à sua iniciativa. Mais uma vez o refiro, usurpou um local colectivo, com regras bem-dispostas mas explícitas, em função dos seus interesses e/ou das suas vontades (…)”

Comentário by Xikuembo_Xanhaque, vulgo Isabel Metello — 15/12/2010 @ 21:49

Isabel Metello V. escreve bem demais para não saber que há uma gigantesca diferença entre referir que tem interesses e gente que detém interesses. Um pequeno deslizar que não é um pequeno deslize, e que mostra bem a sua vontade de truncar e falsificar. E não me venha com retóricas negacionistas em que nem V. acredita Tal como não me venha com falsas reclamações identitárias. Quanto ao resto quis falsificar as minhas afirmações e argumentação, paraodiando-as. E tem a pobre, e atrevida, concepção de que é aqui que deve vir encontrar a “verdade”. Nunca isto foi um local detectivesco, foi sempre reclamado como um sítio de opinião. SEmpre. Quando foi individual, quando foi colectivo. Que V. me venha aqui apoucar a dignidade, falsificando a minha argumentação, e exigindo que seja um local da verdade (já agora, expressa em versão rápida pela wikileaks), ao qual nunca se reclamou, seria paródico se não fosse execrável. E como entenderá muito bem não é por divulgar este ou outro blog que isso tem algum cabimento. Não tem nenhum, nem se dá minimamente ao respeito. É, para mim, ponto final parágrafo. Nem aqui nem em algum outro local V. me merecerá um mero esgar que seja.

Comentário by jpt — 15/12/2010 @ 21:52

Bem, o JPT está a entrar por um caminho desrespeitador e isso não lho admito, pois está a demonstrar uma total falta de educação para com uma leitora do seu blog, que não conhece, que se limitou a comentar palavras suas, que qualquer alfabetizado lê- aliás são afirmações explícitas, o JPT até o poderia ter expressado de forma mais metafórica e, aí, poderia invocar uma interpretação mais subjectiva, mas não- foi peremptório e bem explícito no que afirmou.
Assim, quem não se dá ao respeito não sou eu, pois eu jamais pretenderia responsabilizar alguém daquilo que tinha acabado de escrever. E a Dignidade está ligada à Liberdade de expressão, condigna e não insultuosa.
Quanto aos ressentimentos de que tb fala no seu texto de despedida não me espanta a estratégia retórica, pois a inversão de situações é típica de quem desce de um debate sobre conceitos para ofensas pessoais…

Comentário by Xikuembo_Xanhaque, vulgo Isabel Metello — 15/12/2010 @ 22:07

Só mais um reforço: quanto ao seu esgar, JPT, por Amor de Deus, o ridículo tem limites! Quanto aos tiques autoritários implícitos na sua última afirmação, mas julga que estamos aqui numa autocracia ou oligarquia parodiada? A nossa democracia pode não ser perfeita, mas ainda não se chegou ao ponto de se contar consigo para censor rubro. Ou julga que as máximas de Staline já não estão aqui bem desconstruídas?
Olhe, quanto à falsa identidade, mostre que detém ou tem hombridade e prove o que diz. O que quer dizer com isso?

Comentário by Xikuembo_Xanhaque, vulgo Isabel Metello — 15/12/2010 @ 22:23

O segredo da felicidade está na liberdade; o segredo da liberdade está na coragem.
(Péricles)

Comentário by espinhoso — 15/12/2010 @ 22:35

A publicação das 4 mensagens secretas no Ma-schamba, na minha opinião, justificou-a plenamente ABM. Sem espingardar, enquadrando historicamente os seus motivos e deixando aos Moçambicanos as ilações. Um abraço.

Comentário by ERFERREIRA — 16/12/2010 @ 5:50

A casa caiu. A Mãe Morreu. Está tudo bem.

Comentário by Pedro Silveira — 16/12/2010 @ 13:02

[…] alguns textos em regime solitário ABM terminou no ma-schamba. No último texto entre aparentes reverências deturpa as minhas opiniões, e isso é feio. Reduz […]

Pingback by ma-schamba e PNETMoçambique « Pouco-pouco — 16/12/2010 @ 14:12

Nas primeiras páginas do jornal Savana, as traduções aqui publicadas. Muito obrigado, ma-schamba.

Comentário by Espinhoso — 16/12/2010 @ 14:23

RICHARD HOLBROOKE

Filed under: EUA, In Memoriam, Richard Holbrooke — ABM @ 1:53 am

Richard Holbrooke

por ABM (14 de Dezembro de 2010)

A morte por doença do enviado especial dos EUA ao Afeganistão e ao Paquistão,  Richard Holbrooke, este fim de semana, foi uma infeliz recordação de que gente boa e experiente sempre faz falta. Especialmente no palco dos grandes conflitos que grassam pelo mundo, como é o caso do Afeganistão, um país onde parece que nem se chegou ainda ao fim do princípio dos problemas que ali decorrem há mais que trinta anos.

Sobre Holbrooke, que estudou na mesma universidade que eu nos anos 60, a mácula para mim está em ter deixado Suharto dar cabo de Timor Leste nos anos 70, quando poderia ter ajudado a evitar o que parece que foi uma longa chacina por parte da Indonésia. Era a Guerra Fria no seu melhor.

O que sé demonstra que sobre o melhor pano cai a mácula.

14/12/2010

WIKILEAKS MOÇAMBIQUE 4/4 – EM PORTUGUÊS

Filed under: EUA — ABM @ 3:01 am

por ABM (13 de Dezembro de 2010)

Em baixo, a tradução do texto integral, para língua portuguesa, da quarta de quatro mensagens secretas enviadas por Todd C.Chapman, até meados deste ano o Encarregado de Negócios da Embaixada norte-americana em Maputo, para várias entidades do governo norte-americano.

As anteriores três mensagens já se encontram traduzidas e podem ser encontradas neste blogue.

Esta mensagem, como muitas outras, foi divulgada mundialmente esta semana pelo sítio Wikileaks. Partes do seu conteúdo foram “tratadas” pela imprensa de língua portuguesa, mas ninguém, disponibilizou o que realmente as mensagens continham, em português.

O exmo Leitor que lê em português pode ler em baixo, e saber em primeira mão, o que Todd Chapman escreveu aos seus superiores, na íntegra.

O texto desta, a quarta mensagem do Encarregado de Negócios dos Estados Unidos, com data de 28 de Janeiro de 2010, três dias depois da data indicada na terceira mensagem. Há cerca de dez meses.

Depois de amanhã, e a quem interessar: o que eu penso disto tudo.

A quarta nota do Encarregado de Negócios norte-americano, traduzida:

VZCZCXRO0006
RR RUEHBZ RUEHDU RUEHMR RUEHRN
DE RUEHTO #0086/01 0280621
ZNY SSSSS ZZH
R 280621Z JAN 10
DE EMBAIXADA MERICANA EM MAPUTO
PARA RUEHC/SECRETÁRIO DE ESTADO WASHINGTON DC 1221
INFO RUCNSAD/SOUTHERN AFRICAN DEVELOPMENT COMMUNITY
RUEHLO/EMBAIXADA AMERICANA EM LONDRES 0605
RUEHLMC/MILLENNIUM CHALLENGE CORPORATION WASHINGTON DC
RHEFDIA/AGÊNCIA DE INFORMAÇÕES DE DEFESA WASHINGTON DC
RHEHNSC/ CONSELHO NACIONAL DE SEGURANÇA WASHINGTON DC
RUEAIIA/CENTRAL INTELLIGENCE AGENCY WASHINGTON DC

SECÇÃO SECRETA 01 DE 03 MAPUTO 000086
NOFORN
SIPDIS
E.O. 12958: DECL: 01/28/2020
TAGS: PREL PGOV KDEM KMCA MCC SNAR EINV MZ

ASSUNTO: XXXX FALA DE CORRUPÇÃO AOS MAIS ALTOS NIVEIS DO GOVERNO

REF: A. MAPUTO 80
B. 07 MAPUTO 1395
MAPUTO 00000086 001.2 OF 003
Classificado por: Charge d’Affaires Todd Chapman pelas razões 1.4 (b+d)

1. (S/NF) SUMÁRIO: O Encarregado de Negócios teve recentemente um encontro com XXXX (“a fonte”) que descreveu as suas frustrações com a Frelimo, com o Presidente Guebuza e Mohamed Bashir Suleiman (MBS). He reclamou que eles controlam completamente a economia lícita e ilícita em Moçambique. A fonte, que mantém excelentes ligações dentro do Governo de Moçambique, incluindo o número de telefone privado do Presidente, bem como um relacionamento pessoal com MBS, disse “eu não quero mais fazer negócios em Moçambique” devido a este triunvirato de controlo. Ele está a desfazer-se dos seus activos em Moçambique e diz que ele agora vê a “doença” em Moçambique como se ele “tivesse tido cataractas mas que agora vê tudo”.
2. (S/NF) A fonte descreve o Presidente Gebuza, que ele conhece e com quem tem mantido uma amizade durante os últimos vinte anos, como um “escorpião raivoso que te morde” e tem uma opinião ainda mais sinistra de MBS. Ele adverte que a Frelimo não está interessada em melhorar o padrão de vida dos seus cidadãos, mas, em vez disso, no seu próprio enriquecimento. Na economia legal, o partido no poder, Frelimo, e MBS trabalham em conjunto para controlar as economias legal e ilícita e restringir o espaço para crescimento do sector privado, exigindo uma parte de todas as transacções de negócio com expressão. Na economia ilícita, MBS domina em termos da lavagem de dinheiro e o trânsito de drogas ilegais através do país, pagando subornos à Frelimo. Outras pessoas-chave envolvidas em pressionar a comunidade empresarial para obter subornos ou quotas dos negócios, de acordo com a fonte, são Domingos Tivane, o Director das Alfândegas, e a anterior primeira-ministra, Luisa Diogo. FIM DO SUMÁRIO.

—————————————–
MOHAMED BASHIR SULEIMAN E ARMANDO GUEBUZA
—————————————–

3. (S/NF) A fonte XXXX. Ele especulou que, durante o próximo mandato, Guebuza utilizaria os seus associados para acumular uma fortuna pessoal ainda maior. Guebuza gere os seus interesses empresariais através de empresas-frente, incluindo a Insistec, de Celso Ismael Correia e a Intellect Holdings de Salimo Abdullah. A fonte referiu que MBS se reúne pessoalmente com o Presidente Guebuza, que tem conhecimento directo do suporte financeiro dado por MBS a ambos o Partido Frelimo (patrocinando a recente campanha eleitoral) e às empresas-frente de Guebuza. A fonte, que descreveu Correia como “um rapazola com 30 anos de idade” [no original: “pipsqueak”] referiu que Correia não tem qualquer experiência de negócios ou grau universitário, mas que exibe uma grande lealdade em relação a Guebuza.

4. (C) Os interesses empresariais de Guebuza em Moçambique são muitos. Eles incluem quotas na empresa Moçambique Gestores (MG), Maputo Port Development Company (MPDC), que gere o porto de Maputo, Focus 21, Navique, Vodacom e SASOL. Guebuza tem ainda uma percentagem da empresa Maputo Corridor Logistics Initiative (MCLI), que controla a estrada com portagem desde Maputo até à África do Sul, refere a fonte. Guebuza tem quotas num número sifgnificativo de bancos, incluindo o BCI Fomento (a que Correia preside), Moçambique Capitais, Moza Banco e Geocapital. Através de familiares seus, Guebuza controla também Intelect Business Advisory and Consulting, Beira Grain Terminal, MBT Construction, Ltd e Mozambique Natural Resources Corp.

5. (S/NF) Uma nova area em que Guebuza aparenta estar interessado é o negócio de apostas de casino. A fonte refere que Guebuza obrigou o Tribunal Constitucional a fiscalizar e a declarar “constitucional” uma recente lei que liberaliza a indústria de casinos, apesar de conter provisões para que todos os activos dos casinos revertam para o Estado após um dado período de tempo, em violação directa das leis que regulam a propriedade privada e que figuram na Constituição. Os juízes do Tribunal Constitucional, que também legislaram em favor de decisões durante as eleições para invalidar um grande número de candidatos da oposição para os pleitos legislativo e presidencial, reclamaram quanto à inconstitucionalidade da nova lei, mas foi-lhes dito que aprovassem a lei, o que eles fizeram.

6. (S/NF) A fonte deu mais detalhes quanto ao envolvimento de Guebuza em negócios, que estão presentes um pouco por toda a economia. Ele disse que

MAPUTO 00000086 002.2 OF 003

Guebuza está dentro em quase todos os negócios multimilionários dos “mega-projects” através de provisões contratuais para trabalharem com o sector privado Moçambicano. Um exemplo é o envolvimento de Guebuza na aquisição em 2007 da Barragem Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB)ao Governo Português por 950 milhões de dólares americanos. Deste montante, 700 milhões de dólares americanos foram pagos por um consórcio de bancos privados, operação a qual foi montada por um associado de Guebuza, pelo qual Guebuza recebeu, enquanto Presidente no exercício das suas funções, uma comissão estimada em entre 35 e 50 milhões de dólares americanos. O banco Português o qual obteve o financiamento entregou as suas acções no BCI Fomento, um dos maiores bancos comerciais Moçambicanos, a uma empresa controlada por Guebuza.
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MBS E A FRELIMO
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7. (S/NF) A fonte diz que a Frelimo activamente “espreme” a comunidade empresarial para obter subornos. Como um exemplo, a fonte diz que ele pessoalmente assistiu a Manuel Tomé, o anterior Secretário-Geral da Frelimo, membro sénior da Assembleia da República e familiar do Presidente Chissano, no gabinete de MBS, abertamente a receber subornos. O Director das Alfândegas, Domingos Tivane, pede abertamente, e recebe, subornos dos importadores, incluindo MBS. A fonte referiu que um empresário conhecido comentou com ele que quando numa visita à enorme residência de Tivane para lhe entregar um suborno, ele notara que o funcionário tinha torneiras de ouro sólido no seu quarto de banho. A fonte refere ainda que a ex-primeira ministra, Luísa Diogo, até à data da sua substituição (septel), estava profundamente [em inglês: “heavily”] envolvida no recebimento de subornos para a Frelimo, dos quais ela guardava uma percentagem. Alegações semelhantes foram feitas na edição do dia 21 de Janeiro do jornal Zambeze, relativamente a empréstimos “de favor” [em inglês: “soft loans”] pagos ao marido de Diogo, Albano Silva, a compra de casas e edifícios por uma fracção do seu valor, bem como o relacionamento próximo de Diogo com funcionários como Diodino Cambaza, cujo julgamento por corrupção decorre neste momento.

8. (S/NF)Nos portos, a fonte comentou que a Frelimo tem os seus próprios agentes transitários, que gerem as operações da Frelimo e de MBS. O transitário rotineiramente sub-factura pelos itens, não paga o IVA de 17 por cento, e tem também um entendimento com as autoridades alfandegárias de Tivane para não passar pelo sistema de “scanning” obrigatório do porto. A fonte tem em sua posse documentos que provam a existência da sub-facturação em relação a MBS, e poloff observou os camiões de MBS sairem do porto sem terem sido scaneados. Não obstante, a fonte diz que os funcionários que representam o Governo de Moçambique normalmente se referem a MBS como “intocável”, devido às suas ligações com Tivane e Guebuza, a situação a qual reportadamente irrita Rosário Fernandes, Presidente de uma Autoridade Tributária (AT) sem dinheiro.
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MBS E OUTROS HOMENS DE NEGÓCIOS
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9. (S/NF) No que concerne a operação de retalho de MBS, a fonte disse que MBS não tolera a concorrência. A processadora de leite pertencente à fonte foi ameaçada por MBS, que recorreu ao não pagamento de IVA e sub-facturação, para fazer o “dumping” de grandes quantidades de leite condensado importado no mercado, de forma a arruinar a fonte. Só depois da fonte ter celebrado um acordo com MBS para que este tivesse o direito exclusivo de distribuição dos seus produtos de leite, com um pagamento a MBS de dez por cento de todas as vendas, é que MBS parou o “dumping”. Outros empresários queixaram-se de práticas semelhantes em outros produtos, incluindo óleo alimentar. A fonte queixou-se que “mesmo aqueles que pagam subornos” a MBS ou à Frelimo, não conseguem obter um lucro sob estas condições.
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DROGAS ILEGAIS E LAVAGEM DE DINHEIRO
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10. (S/NF) A fonte diz que só tem conhecimento em segunda mão no que respeita ao tráfico ilegal de drogas e lavagem de dinheiro em Moçambique. Ele diz que “MBS e os ‘negociantes de Nacala’ todos têm escritórios no Dubai” para facilitar as operações de lavagem de dinheiro em Moçambique. É através destas operações que, depois de operar durante quinze anos em Moçambique, MBS foi capaz de pagar trinta milhões de dólares americanos, a pronto, para construir o seu centro comercial na baixa, o Maputo Shopping, que abriu em 2007. A fonte referiu que ele questionou o proeminente homem de negócios Ismaelita/Aga Khan, Mustaque Ali, como é que MBS ficou tão rico, tão depressa. A resposta meio irónica [em inglês, “wry”]de Ali foi “pó de talco para bebé da Johnson”, um eufemismo querendo dizer drogas ilegais. A fonte referiu que as mudanças por vezes erráticas na posição cambial de Moçambique ocorrem devido a transferências súbitas

MAPUTO 00000086 003.2 OF 003

de muitos milhões de dólares americanos em dinheiro vivo para o estrangeiro, associadas à lavagem de dinheiro. A fonte comentou que, em anos recentes, ocorreram várias situações embaraçosas em que carregamentos de drogas ilegais, essencialmente de haxixe e heroína, vieram dar à costa; contudo, a comunicação social tem medo de reportar estes incidentes porque ninguém se quer tornar noutro Carlos Cardoso, o corajoso jornalista Moçambicano que foi assassinado em 2000 enquanto investigava o caso de uma enorme fraude bancária com ligações à família do então Presidente, Chissano.
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COMENTÁRIO: COMENTÁRIOS FRANCOS DE UM HOMEM COM LIGAÇÕES
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11. (S/NF) A fonte, XXXX, enquanto se nota que tem rancores [em inglês: “an axe to grind] porque ele está frustrado com a dimensão da corrupção em Moçambique, as suas afirmações corroboram aquilo que nós já obtivemos por outras fontes (Referência A). As ligações com MBS e outros conhecidos operadores de lavagem de dinheiro e traficantes de drogas ilegais com membros séniores do Governo de Moçambique são preocupantes e demonstram um foco imediato no seu enriquecimento pessoal. A fonte acautela contra o desenvolvimento de relações a longo prazo com a Frelimo e receia que, tendo permitido o crescimento da economia ilícita, e tendo publicitado Moçambique como um destino para a lavagem de dinheiro e um ponto quente para o trânsito de drogas ilegais, que o partido no poder não será capaz de controlar as actividades criminosas dentro das suas fronteiras. Rumores e histórias de corrupção abundam em Moçambique, mas raramente estará um XXXX disposto a partilhar práticas específicas baseado em conhecimento em primeira mão e participação nessas práticas.

CHAPMAN

13/12/2010

WIKILEAKS MOÇAMBIQUE 3/4 – EM PORTUGUÊS

Filed under: EUA — ABM @ 1:56 am

por ABM (12 de Dezembro de 2010)

Em baixo, a tradução do texto integral, para língua portuguesa, da terceira de quatro mensagens secretas enviadas por Todd C.Chapman, até meados deste ano o Encarregado de Negócios da Embaixada norte-americana em Maputo, para várias entidades do governo norte-americano.

A duas primeiras mensagens já se encontram traduzidas e podem ser encontradas neste blogue.

Esta mensagem, como muitas outras, foi divulgada mundialmente esta semana pelo sítio Wikileaks. Partes do seu conteúdo foram “tratadas” pela imprensa de língua portuguesa, mas nenhuma, ninguém, disponibilizou o que realmente as mensagens continham, em português.

O exmo Leitor que lê em português pode ler em baixo, e saber em primeira mão, o que Todd Chapman escreveu aos seus superiores. Na íntegra.

O texto desta, a terceira mensagem do Encarregado de Negócios dos Estados Unidos, com data de 25 de Janeiro de 2010. Há cerca de dez meses:

VZCZCXRO6812
RR RUEHBZ RUEHDU RUEHMR RUEHRN
DE RUEHTO #0080/01 0251156
ZNY SSSSS ZZH
R 251156Z JAN 10 ZDK
DE EMBAIXADA AMERICANA EM MAPUTO
PARA RUEHC/SECRETÁRIO DE ESTADO WASHINGTON DC 1213
INFO RUCNSAD/SOUTHERN AFRICAN DEVELOPMENT COMMUNITY
RUEHLO/EMBAIXADA AMERICANA EM LONDRES 0600
RHEFDIA/AGÊNCIA DE INFORMAÇÕES DE DEFESA WASHINGTON DC
RHEHNSC/CONSELHO NACIONAL DE SEGURANÇA WASHINGTON DC
RUEAIIA/CENTRAL INTELLIGENCE AGENCY WASHINGTON DC

S E C R E TO SECÇÃO 01 DE 02 MAPUTO 000080
NOFORN
SIPDIS
E.O. 12958: DECL: 09/28/2019
TAGS: PGOV PREL KCOR SNAR MZ

ASSUNTO: TRÁFICO DE DROGA A AUMENTAR, PREOCUPAÇÃO COM LIGAÇÕES AOS GOVERNO DE MOÇAMBIQUE

REF: A. 09 MAPUTO 1309
B. 09 MAPUTO 1291
C. 09 MAPUTO 713
D. 08 MAPUTO 1228
E. 08 MAPUTO 1098

Classificado por: Encarregado de Negócios Todd Chapman pelas razões 1.4 (b+d)

1. (S/NF) SUMÁRIO: Moçambique tem sido apelidado de o segundo ponto de trânsito de droga mais activo em África a seguir à guiné-Bissau (referência C). Apesar de uma retórica de anti-corrupção, o partido no poder, a Frelimo, não tem exibido uma predisposição política séria para combater o tráfico de drogas ilegais. Mohamed Bshir Suleman (MBS), descrito como o maior narcotraficante em Moçambique, tem ligações directas com o Presidente Guebuza e o ex-Presidente Chissano. Outros traficantes de droga subornam funcionários públicos de alto e baixo nível. O Director das Alfândegas, Domingos Tivane, é um recipiente de referência destes subornos relacionados com o tráfico de droga. Oficiais da polícia disseram a colaboradores da Embaixada que não estão dispostos a ir atrás dos “peixes grandes” do tráfico de drogas ilegais devido às suas ligações com pessoas mais alto no governo. Os Ministérios do Interior e das Finanças recentemente voltaram atrás quanto aos esforços pelos Estados Unidos no sentido de se envolver e dar apoio no combate ao tráfico de drogas ilegais e à lavagem de dinheiro, o que constitui um importante assunto relacionado. A gestão do Porto de Nacala, infame por permitir o fluxo de remessas de drogas ilegais provenientes do Susoeste Asiático, foi recentemente assumida por Celso Correia, o principal gestor da Insistec, Limitada, uma empresa que é uma frente de Armando Guebuza. Uma nova lei para os casinos reduz as limitações anteriormente existentes em Moçambique, passando a constituir uma nova forma de lavar dinheiro. Suporte prestado por parte dos Estados Unidos em termos de segurança fronteiriça e às Forças Armadas e de Defesa de Moçambique resultou em poucas apreensões de dinheiro e drogas ilegais. Post aguarda uma próxima visita de INL para assistir na elaboração de uma estratégia global de combate ao tráfico de drogas ilegais. Qualquer estratégia de combate ao tráfico de drogas ilegais, depois de, primeiro aferir a disponibilidade política para tal, o que neste ponto é suspeita, deverá levar em conta o reforço da segurança das fronteiras marítima e terrestre, a profissionalização da polícia, formação para os delegados do ministério pública na área da actual legislação contra o tráfico de drogas ilegais e o desenvolvimento de uma valência em termos de informações financeiras. FIM DE SUMÁRIO.
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TRAFICANTES DE DROGAS MANIPULAM [termo original usado; “blandish”] O GOVERNO DE MOÇAMBIQUE E A FRELIMO
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2. (S/NF) Mohamed Bashir Suleman (MBS), descrito por múltiplos contactos como o maior traficante de drogas ilegais em Moçambique, contribui de forma muito expressiva para os cofres da Frelimo e tem providenciado significativo apoio financeiro para as campanhas do ex-Presidente Chissano e o actual Presidente, Armando Guebuza. (Nota: ver TD-314/085221-09, respeitante a comunicação escrita do Gabinete da Presidência, dando instruções para que certos contentores sejam isentos de inspecção electrónica ou revista no porto de Maputo. Fim de nota). Os traficantes de drogas ilegais, incluindo MBS, Gulam Rassul e a Família Ayoub (referência A) rotineiramente subornam os oficiais da polícia, da imigração e das alfândegas, para assegurar a entrada no pais de drogas ilegais.Domingos Tivane, Director dos serviços alfandegários, é um grande recipiente de subornos por parte dos traficantes (Referência B) e ele recentemente adquiriu propriedades em Maputo avaliadas num montante total bem mais elevado do que o seu salário enquanto funcionário público deveria ser capaz de suportar.
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POLÍCIA RECUSA-SE A ACOMPANHAR MUITOS CASOS ENVOLVENDO DROGAS ILEGAIS
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4. (S/NF) Quadros seniors da polícia moçambicana (PRM) disseram a colaboradores da Embaixada que o possível treino no combate ao tráfico de drogas ilegais apenas os assistirianos casos com pequenos traficantes, enquanto que outros “peixes grandes” permaneceriam grandes demais para serem apanhados. Das mais que dez apreensões de cocaína e heroína levadas a cabo em 2009 no Aeroporto de Maputo, nenhuma resultou em acusações serem feitas em tribunal. Um membro sénior da polícia admitiu aos colaboradores da Embaixada que a maioria das apreensões de drogas não são tornadas públicas e não resultam depois na formalização de acusações porque a polícia e as autoridades alfandegárias usam essas apreensões de droga para elas próprias enriquecerem. Esses funcionários extraem subornos e podem ficar com as drogas apreendidas para mais tarde as venderem. Apesar de repetidos pedidos lhe terem sido dirigidos, o Ministro do Interior (que é o máximo responsável pela polícia e pelo esforço contra o tráfico de drogas ilegais) tem-se recusado a ter uma reunião com o CDA para discutir aumentos nos esforços conjuntos de combate ao tráfico de drogas ilegais. O Governo de Moçambique recentemente colocou objecções em relação a uma oferta por parte de um representante do Departamento do Tesouro Americano, para este ser colocado a trabalhar em conjunto com a Unidade de Crimes Financeiros, depois de primeiro concordar e de apoiar esta iniciativa.
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PORTOS PROVINCIAIS ADEQUADOS PARA O TRÂNSITO DE DROGAS ILEGAIS
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5. (S/NF) o porto de Nacala, em particular, é considerado um grande recipiente de drogas ilegais provenientes do Sudoeste Asiático. Em Julho de 2009, Celso Correia, um dos princiais gestores da Insitec (uma empresa em que o principal accionista é o Presidente Armando Guebuza – septel) foi colocado como o primeiro responsável pelo Corredor de Desenvolvimento do Norte (CDM) e que inclui o porto de Nacala e os caminhos de ferro do Norte. Pouco tempo depois, Ghulam Rassul Moti, que tem vindo a contrabandear haxixe e heroína para o Norte de Moçambique desde pelo menos 1993 (Referência B) reduziu grandemente os subornos que vinha fazendo às autoridades muncipais de Nacala e de Nampula e em vez disso passou a fazer esses pagamentos directamente a membros séniores da Frelimo. Informações indicam que o Presidente do Conselho Municipal de Nampula, Castro Serafim, ficou particularmente irritado com o facto que estes pagamentos mensais tinha sido transferidos directamente para líderes da Frelimo a um nível mais alto.
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A NOVA LEI DOS CASINOS É CAUSA PARA PREOCUPAÇÃO
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6. (S) Em Janeiro, o Presidente Guebuza promolgou uma nova “lei dos Casinos”. A legislação, que foi aprovada pela Assembleia da República (AR) em Junho de 2009, reduz as restrições impostos ao negócio do jogo em Moçambique, reduzindo o investimento mínimo para um casino de quinze para oito milhões de dólares; legaliza as apostas online na internet e permite que máquinas automáticas de apostas [em inglês, slot machines] sejam colocadas em locais situados fora dos casinos. Nos termos dessa legislação, a responsabilidade pelo controlo destas actividades passa do Ministério das Finanças para o menos rigoroso Ministério do Turismo. Esta lei foi aprovada para encorajar o turismo; contudo, dado o ambiente de fracos controlos financeiros existente em Moçambique, efectivamente a lei vai reduzir as barreiras de entrada para os traficantes de droags ilegais que queiram lavar dinheiro obtido ilicitamente. Nazir Lunat, um membro do parlamento pela Frelimo e um imam influencial em Maputo, recentemente demitiu-se do cargo qeu ocupava na Assembleia da República (AR) devido a precoupações relacionadas com a lei permitindo a liberalização na lei dos casinos.
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O APOIO DO GOVERNO DOS ESTADOS UNIDOS TEM TIDO RESULTADOS POSITIVOS
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7. (S) Mediante o apoio do Governo dos Estados Unidos, tem havido algum progresso no combate ao tráfico de drogas ilegais. Utilizando verbas do INL, a Embaixada em Maputo, trabalhando com a Embaixada de Portugal, assegurou a formação de guardas fronteiriços, de que resultou a apreensão de dois milhões e meio de dólares americanos em dinheiro vivo e a detenção de dois traficantes paquistaneses (Referência E). Em meados de Maio de 2009, a polícia apreendeu heroína com um valor total de cinco milhões de dólares americanos na fronteira de Ressano Garcia, que cruza para a África do Sul. Utilizando barcos de borracha cheios de ar com sete metros de comprimento, doados pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, e fundos originários da Secção 1206, a marinha moçambicana impediu vários descarregamentos de drogas ilegais perto da costa, a mais recente tendo ocorrido em Dezembro.
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COMENTÁRIO: É NECESSÁRIO DESENVOLVER UMA ESTRATÉGIA GLOBAL DE COMBATE AO TRÁFICO DE DROGAS ILEGAIS
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8. (S) Post aguarda uma futura visita de INL para apoiar na formulação de uma estratégia global de combate ao tráfico de drogas ilegais. Os interesses do Governo dos Estados Unidos no combate ao tráfico de drogas ilegais em Moçambique incluem o envolvimento de vários departamentos do Governo dos Estados Unidos, incluindo o Departamento de Estado, Departamento de Defesa, Departamento de Justiça, Departamento de Segurança Interna e Departamento do Tesouro. A nossa estratégia de conbate ao tráfico de drogas ilegais tem que primeiro focar-se em formas de reforçar a predisposição política do Governo de Moçambique para enfrentar o tráfico de drogas ilegais, enquanto preparando Moçambique com um conjunto de programas, incluindo o reforço da segurança nas fronteiras terestres e marítima, a profissionalização das forças policiais, a formação dos delegados do Ministério Público respeitante à legislação existente contra o tráfico de drogas ilegais e o desenvolvimento de valências na área de informações financeiras.

CHAPMAN

12/12/2010

WIKILEAKS MOÇAMBIQUE 2/4 – EM PORTUGUÊS

Filed under: EUA — ABM @ 10:59 pm

por ABM (12 de Dezembro de 2010)

Em baixo, a tradução do texto integral , para língua portuguesa, da segunda de quatro mensagens secretas enviadas por Todd C.Chapman, até meados deste ano o Encarregado de Negócios da Embaixada norte-americana em Maputo, para várias entidades do governo norte-americano.

A primeira mensagem já se encontra traduzida e pode ser encontrada neste blogue.

Esta mensagem, como muitas outras, foi divulgada mundialmente esta semana pelo sítio Wikileaks. Partes do seu conteúdo foram “tratadas” pela imprensa de língua portuguesa, mas nenhuma, ninguém, disponibilizou o que realmente as mensagens continham, em português.

O exmo Leitor que lê em português pode ler em baixo, e saber em primeira mão, o que Todd Chapman escreveu aos seus superiores. Na íntegra.

O texto desta, a segunda mensagem do Encarregado de Negócios dos Estados Unidos, com data de 16 de Novembro de 2009. Há cerca de um ano:

VZCZCXRO8735
RR RUEHBZ RUEHDU RUEHMR RUEHRN
DE RUEHTO #1291/01 3200705
ZNY SSSSS ZZH
R 160705Z NOV 09
DE EMBAIXADA AMERICANA EM MAPUTO
PARA RUEHC/SECRETÁRIO DE ESTADO WASHINGTON DC 0991
INFO RUCNSAD/SOUTHERN AFRICAN DEVELOPMENT COMMUNITY
RUEHLO/EMBAIXADA AMERICANA EM LONDRES 0569
RUEABND/AGENCIA DE COMBATE AO TRÁFICO DE DROGAS HQS WASHINGTON DC
S E C R E T SECTION 01 OF 02 MAPUTO 001291
SIPDIS
E.O. 12958: DECL: 11/17/2019
TAGS: PGOV PREL KCOR SNAR MZ

ASSUNTO: PONTO DE TRÂNSITO PARA O TRÁFICO DE DROGAS IMPORTANTE NA ÁFRICA ORIENTAL

REF: STATE 105731

Classificado por: Encarregado de Negócios Todd C. Chapman pelas razões 1.4 (b e d)

1. (SBU) SUMÁRIO: O tráfico de drogas ilegais é um problema crescente em Moçambique, com drogas ilegais a entrar via rotas aéreas e marítimas a partir do Sul da Ásia e América do Sul. Fronteiras porosas, a falta de recursos por parte das autoridades e níveis elevadíssimos de corrupção, permitem que os traficantes de droga viajem livremente pelo país. FIM DO SUMÁRIO.
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Rotas Aéreas
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2. A rota principal para o tráfico de cocaína é aérea, para Maputo, a partir do Brasil, via Joanesburgo, Lisboa ou Luanda. À chegada os passageiros e a bagagem não passam pelos serviços da imigração e alfândega, o que lhes permite evitar os agora mais modernos sistemas de segurança dos aeroportos de partida. As drogas ilegais (principalmente a cocaína) são transportadas depois por terra para a África do Sul para consumo interno naquele país ou para posterior exportação para a Europa. Frequentemente, a cocaína é transportada por “mulas” [pessoas que as escondem dentro do corpo] e/ou escondidas em compartimentos secretos dentro da bagagem. Os traficantes de droga habitualmente subornam a polícia moçambicana e os agentes da imigração e da alfândega de forma a permitir que a droga entre no país. A diminuição observada no número de prisões de pessoas relacionadas com o tráfico no Aeroporto Internacional de Maputo não está relacionado com um maior esforço de detecção mas sim com um maior envolvimento da polícia e da alfândega no tráfico de droga. Um oficial sénior do aparato de segurança reconhece que a maioria das apreensões de droga não são comunicadas ao seu gabinete porque os traficantes e a polícia fazem combinações no momento, para permitir a passagem das drogas. A polícia e a alfândega detêm com frequência traficantes de droga e são subornados para libertar os traficantes e as drogas são confiscadas e revendidas. Domingos Tivane, o Director das Alfândegas, está directamente implicado em permitir a passagem das remessas de drogas. Tivane acumulou uma fortuna pessoal que excede um milhão de dólares americanos, incluindo numerosos investimentos em Moçambique.
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Rotas Marítimas
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3. (S) O transporte por via maritima é a rota privilegiada para o tranporte de das cargas de haxixe, mandrax e heroína, frequentemente em grandes quantidades. As drogas originam no Paquistão, Afeganistão e na Índia. Elas são então colocadas em navios com destino a Dar-Es-Salam, na Tanzânia, ou Mombassa, no Quénia.

Frequentemente, as drogas ilícitas são escondidas em contentores com produtos legítimos e são frequentemente descarregadas e enviadas por terra para Moçambique. Alternativamente, o naio descarrega a sua carga nos portos de Maputo, Beira e especialmente Nacala. As drogas são então contrabandeadas por terra para a África do Sul ou para outros destinos como os Estados Unidos e a Europa, por via aérea,
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As Duas Principais Redes de Tráfico de Droga
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4. (S) Há duas grandes redes de tráfico de drogas ilegais que operam em Moçambique. Ambas as redes têm ligações com a região Sudeste Asiática. Mohamed Bashir Suleiman (MBS) é o líder de uma rede de crime organizado e de lavagem de dinheiro bem financiada, em que ao centro está o conjunto de empresas Grupo MBS, que é detido e operado pela família. Suleiman utiliza o Grupo MBS e associados como Rassul Trading, que é gerida por Ghulam Rassul, e o Grupo Niza, detida pela família Ayoub, para contrabandear drogas a partir do Paquistão, através do Dubai, em contentores cuja carga é televisores, equipamento eléctrico óleo para cozinhar e automóveis. A família Suleiman tem contactos na África do Sul, Somália, Paquistão, América Latina e Portugal, e mantém uma complexa estrutura de negócios, com uma variedade de actividades comerciais que servem para encobrir um número de actividades ilegais. Suleiman tem uma relação pessoal de proximidade com o anterior presidente de Moçambique, Joaquim Chissano, e o actual Presidente, Armando Guebuza, e tem ligações com governantes de topo moçambicanos, incluindo o Director das Alfândegas, Tivane. Há indicações de que Grupo MBS e a família Suleiman mantêm ligações com o sindicato internacional de droga de Ibrahim Dawood.

5. (S) Ghulam Rassul Moti é um traficante de droga com origem étnica no Sul da Ásia baseado em Moçambique que tem contrabandeado haxixe e heroína na Província de Nampula, no Norte de Moçambique, desde pelo menos 1993. Ele já foi associado a vários conhecidos traficantes internacionais de droga e utiliza estes relacionamentos e a sua influência política para evitar inspecções por parte da polícia e a alfândega nos portos e fronteiras. Mota é dono da empresa Rassul Trading e do Grupo ARJ, que são grandes importadores de droga em Nacala e suspeitos de tráfico de pessoas, principalmente paquistaneses.

Post observa também um aumento na cooperação entre redes de tráfico de droga situadas na costa Ocidental e Oriental africanas, e as redes de tráfico de droga de Moçambique. Há rumores de que as principais organizações de tráfico de droga apoiam elementos islâmicos extremistas em Moçambique.
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Corrupção de Membros Séniores do Governo
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6. (S) Uma fronteira permeável, a falta de recursos para a imposição da lei bem como um nível elevado de corrupção ao nível mais alto dos governantes, conduz a uma situação em que os traficantes de droga são capazes de percorrer livremente o país. Oficiais moçambicanos de patente média tem medo de perseguir pessoas envolvidas com as principais redes de tráfico de drogas porque eles sabem que essas pessoas têm ligações com quadros séniores do governo. Membros séniores do partido no poder, a Frelimo, estão a tentar esconder o nível de corrupção da imprensa, do eleitorado e da comunidade doadora internacional. Como referiu recentemente em privado um quadro superior de uma agência policial, “alguns peixes são demasiado grandes para serem apanhados”.
CHAPMAN

WIKILEAKS MOÇAMBIQUE 1/4 – EM PORTUGUÊS

Filed under: EUA — ABM @ 8:30 am

por ABM (12 de Dezembro de 2010)

Em baixo, a tradução do texto integral , para língua portuguesa, da primeira de quatro mensagens secretas enviadas por Todd C.Chapman, até meados deste anos Encarregado de Negócios da Embaixada norte-americana em Maputo, para várias entidades do governo norte-americano.

Esta mensagem, como muitas outras, foi divulgada mundialmente esta semana pelo sítio Wikileaks. Partes do seu conteúdo foram “tratadas” pela imprensa de língua portuguesa, mas nenhuma, ninguém, disponibilizou o que realmente as mensagens continham, em português.

O exmo Leitor que lê em português pode ler em baixo, e saber em primeira mão, o que Todd Chapman escreveu aos seus superiores. Na íntegra.

O texto da primeira mensagem do Encarregado de Negócios dos Estados Unidos, com data de 1 de Julho de 2009. Há um ano e meio:

VZCZCXRO3029
RR RUEHBZ RUEHDU RUEHMR RUEHRN
DE RUEHTO #0713/01 1820455
ZNY SSSSS ZZH
R 010455Z JUL 09
DE EMBAIXADA EUA EM MAPUTO
PARA RUEHC/SECRETÁRIO DE ESTADO WASHINGTON 0443
INFO RUCNSAD/SOUTHERN AFRICAN DEVELOPMENT COMMUNITY
RUEHLO/EMBAIXADA DOS EUA EM LONDRES 0430
RUEATRS/DEPARTAMENTO DO TESOURO WASHINGTON DC
RUEAIIA/CENTRAL INTELLIGENCE AGENCY WASHINGTON DC
RUEABND/DEPARTAMENTO DE COMBATE AO NARCOTRÁFICO WASHINGTON DC
RUEAWJA/DEPARTAMENTO DE JUSTIÇA WASHINGTON DC
RHEFDIA/DEFENSE INTELLIGENCE AGENCY WASHINGTON DC
RUCNFB/FEDERAL BUREAU OF INTELLIGENCE WASHINGTON DC
RHEHNSC/CONSELHO NACIONAL DE SEGURANÇA WASHINGTON DC

S E C R E T SECTION 01 OF 03 MAPUTO 000713
SIPDIS
NOFORN
E.O. 12958: DECL: 06/25/2019
TAGS: SNAR EFIN KCOR PTER PGOV PREL MZ

ASSUNTO: AUMENTAM OS RECEIOS RELATIVAMENTE AO TRÁFICO DE NARCÓTICOS E A LAVAGEM DE DINHEIRO EM MOÇAMBIQUE

REF: A. 08 MAPUTO 1228
B. 08 MAPUTO 1098

Classificado por: Encarregado de Negócios Todd C.Chapman, Razões 1.4(b+d)

1. (S/NF) Sumário: Grandes remessas de narcóticos passam por território moçambicano, beneficiando de uma vasta costa marítima pouco patrulhada. A lavagem de dinheiro pode estar a aumentar. Os traficantes de narcóticos dentro do país têm ligações com países no Sul da Ásia e alguns aparentam ter ligações com a Frelimo, o partido no governo e o governo de Moçambique. Mediante a utilização de fundos de State INL, a Embaixada dos EUA patrocinou com sucesso um programa de segurança fronteiriça juntamente com a Embaixada de Portugal, de que resultaram capturas de remessas de narcóticos. A Embaixada dos EUA também prestou apoio através do Departamento de Defesa (DOD) e do Tesouro, e conduziu avaliações de processos contra o tráfico de narcóticos pelo Comando de África, (Legatt) e a Agência de Combate aos Narcóticos (DEA). Conquanto não se possa afirmar que Moçambique seja totalmente um narco-estado corrupto, as tendências observadas neste país constituem base para preocupação, a não ser que o Governo de Moçambique rapidamente adopte medidas para acautelar contra estes crescentes problemas. Fim de sumário.
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Tráfico de Narcóticos em Grande Escala
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2. (S/NF) Numa série de reportagens de investigação efectuadas no final do ano passado, o semanário moçambicano Zambeze afirmou que Moçambique foi considerado, de acordo com algumas estimativas, o segundo principal país de trânsito de drogas no continente africano, a seguir à Guiné-Bissau. XXXXXXXXXXX. Incidentes ocorridos recentemente sugerem que um maior fluxo de narcóticos está de facto a passar por este país, beneficiando de uma linha costeira com o dobro do comprimento da costa do Estado da Califórnia, e sem quase nenhum mecanismo de controlo. Joseph Hanlon, um comentador desde há longa data sobre a realidade moçambicana, afirmou em Maio que o valor total das drogas ilegais que passam por Moçambique provavelmente excede a totalidade dos valores combinados das suas importações e exportações legítimas. Em meados de Maio, a polícia moçambicana apreendeu cinco milhões de dólares da droga heroína no posto fronteiriço de Ressano Garcia-Lebombo, com a África do Sul. Em meados de Junho, a polícia destruiu sete mil litros de produtos químicos precursores [componentes para o fabrico de drogas ilícitas] que foram encontrados no porto de Maputo, vindos da China e a caminho da África do Sul. O Gabinete das Nações Unidas para o Combate à Droga indica que este porto é conhecido por ser muito utilizado para importar produtos químicos utilizados para o fabrico da droga metanfetamina[na África do Sul chama-se Tik]. O Sr. XXXXXXXXXX descreveu ao chefe P/E como empresas de transporte detidas por paquistaneses, baseadas na província de Sofala, sobre-facturam nas suas declarações de importação no porto da Beira, como forma de esconder as quantidades de drogas que entram no país. No princípio do dia 20 do mês de Junho, a polícia descobriu cerca de uma tonelada de haxixe na praia de Chongoene, na Província de Gaza, após ser contactada por pescadores locais acerca da presença e movimentos suspeitos de veículos naquela zona.
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Aumentam os Indícios de Lavagem de Dinheiro
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3. (S/NF) Uma fonte de informação interna do Partido Frelimo informou a Embaixada que Moçambique, com dez bancos e trinta casas de câmbio legalmente constituídas, tem significativamente mais instituições financeiras do que aquilo que o mercado num país tão pobre, deveria ser capaz de justificar com negócios legítimos. A mesma fonte também comentou que cerca de mil e quinhentos projectos estão neste momento em curso em Maputo – a maioria dos quais pagos a pronto e com dinheiro vivo, na área imobiliária, e salientou ser estranho os preços dos imóveis em Maputo continuarem a subir, apesar da [actual] crise financeira mundial. Separadamente, o Sr. Joseph Hanlon indica que se estima que o valor das acções cotadas na Bolsa de Valores de Moçambique deverá atingir um total de cem milhões de dólares num prazo de dois anos desde a sua abertura. Finalmente, uma fraca regulamentação dos casinos tem suscitado dúvidas por parte de comentadores locais da rádio e televisão, quanto ao papel desse sector de actividade na lavagem de dinheiro.
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Ligações do Crime Organizado ao Sul da Ásia
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4. (S/NF) Um relatório da USAID produzido em 2006 indica que o comércio em Maputo depende das habilidades financeiras de um pequeno número de muçulmanos originários do Sul da Ásia, os quais contribuem generosamente para o Partido Frelimo. Um grande patrocinador do ex-Presidente Chissano e do Presidente Guebuza, que pertence a este grupo, e que reside a menos que cem metros de distância do complexo presidencial, o Sr. Mohamed Bachir Suleman (MBS) é o proprietário do Grupo MBS. Contactos efectuados a todos os níveis indicaram aos colaboradores desta Embaixada, que MBS é um conhecido narco-traficante de grande envergadura. Esses contactos indicam que MBS utiliza as suas ligações com o Partido Frelimo, bem como o seu centro comercial, os seus supermercados e hoteís, para importar drogas ilícitas e proceder à lavagem de dinheiro escapando a qualquer controlo oficial. Outros homens de negócios originários do Sul da Ásia com ligações à Frelimo também gerem uma vasta rede de casas de câmbio deficientemente regulamentadas, as quais, segundo as informações disponíveis, mantêm ligações financeiras com organizações mais radicais, localizadas no Paquistão e noutros países.

5. (S/NF) Um contacto de negócios recentemente disponibilizou ao chefe P/E, cópia de uma carta da CTA, dirigida ao primeiro-ministro, expressando a sua preocupação relativamente a uma empresa que estava a vender [ao público] óleo vegetal a preços que claramente se situavam abaixo do seu preço de custo, salientando que esta prática de “dumping” poderia ter como resultado a saída do mercado de outras empresas e a formação de um monopólio. O informador referiu que a carta fora lavrada em resposta a esforços levados a cabo pelo Grupo MBS para consolidar o seu controlo desta área de negócio – mas na realidade a mensagem não tinha nada que ver com óleo vegetal – em vez disso, era um aviso encapotado da comunidade empresarial ao governo, de que a utilização, pelo Grupo MBS, do negócio do óleo vegetal para encobrir a importação de drogas ilícitas, era tão claramente evidente, que tal já não era mais tolerável.
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Ligações do Narcotráfico ao Governo de Moçambique?
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6. (S/NF) A fonte de informação da Frelimo também informou o Encarregado de Negócios [da Embaixada americana] de que o Grupo MBS regularmente recorria à prática de “importações-fantasma” para “lavar” dinheiro [ilicitamente obtido] e indicou que Mohamed Bachir Suleman e outro imigrante, Ahmed Gassan (proprietário da loja de mobiliário Home Center) actuam em conluio com o chefe das alfândegas do Governo de Moçambique (a quem ele apelidou de “o rei da corrupção”) para reduzir o controlo e escrutínio [oficial]das suas importações. A mesma fonte indicou ainda que os negócios de Gassan são pessoalmente protegidos pelo Ministro do Planeamento e Desenvolvimento, Aiuba Cuereneia.
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Governo dos EUA e Segurança Fronteiriça, Apoio do OTA e do Departamento de Defesa, Outras Avaliações
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7. (C) Recorrendo aos fundos do Gabinete INL do Departamento de Estado, a Embaixada mantém, com elevado sucesso, um projecto conjunto com a Embaixada de Portugal, para proceder à formação profissional de guardas fronteiríços do Governo de Moçambique. Com um pequeno investimento de menos de duzentos mil dólares, este programa já conduziu à apreensão de 2.5 milhões de dólares em dinheiro e à prisão de dois contrabandistas paquistaneses (ref.B). Apesar de ao programa ter sido negada provisão orçamental no ano fiscal de 2009, ele poderá vir a receber uma dotação no ano fiscal de 2010. A autoridade fiscal de Moçambique (AT) desenvolveu uma reputação como uma organização honesta e transparente e o director da AT já criticou publicamente o chefe das Alfândegas, relativamente às suas preocupações em relaçao à prática de contrabando. Através do Gabinete de Assitência Técnica do Departamento do Tesouro [norte americano], o Governo Norte-Americano tem estado a prestar formação e assistência à AT e está a estudar formas de especificamente prestar apoio à Unidade de Informações Financeiras da AT. O Departamento de Defesa[norte americano] deu formação, pequenas embarcações e sistemas de monitorização da costa marítima às Forças Armadas de Defesa de Moçambique, e mais deste tipo de apoio está previsto futuramente. Finalmente, a pedido da Embaixada, representantes do Comando de África, da Agência de Combate ao Tráfico de Droga, do Tesouro e da Legatt, visitaram Maputo no início do mês de Junho para elaborar um estudo relativamente ao problema do tráfico de droga e as capacidades do Governo de Moçambique. As primeiras informações apontam para a gravidade do problema e identificaram as fraquezas institucionais e o nível de corrupção dos organismos responsáveis pela lei e ordem como os problemas principais contra a formulação de uma resposta coerente por parte do governo.

8. (SBU) Durante a mais recente reunião mini-Dublin, realizada nos finais de Maio, e a qual foi liderada pela Embaixada Portuguesa, representantes das embaixadas Holandesa, Britânica e Alemã, especificamente apontaram para as debilidades nas actividades de policiamento do Governo de Moçambique, sublinhando que as preocupações são generalizadas na comunidade internacional. Estas preocupações foram rapidamente consubstanciadas quando um representante do Grupo de Trabalho inter-organismos do Governo de Moçambique para o narcotráfico, numa apresentação que fez, focou unicamente o tema do consumo interno de drogas ilícitas e formas de lidar com as necessidades em termos de saúde, dos toxicodependentes locais.
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Comentário: Não Totalmente Corrupto, Mas Causas para Preocupação
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9. (S/NF)Moçambique não é certamente, ainda, um narco-estado totalmente corrupto. Contudo, está-se a tornar cada vez mais claro que a magnitude dos carregamentos de drogas ilícitas que estão a passar por Moçambique poderá ser muito maior do que era anteriormente suposto, beneficiando da extensa e descontrolada costa marítima do país e da facilidade com que os oficiais nos portos e nas alfândegas podem ser subornados. A lavagem de dinheiro, a corrupção a nível governamental com ela relacionada (possivelmente até com apoio oficial) e as ligações com o Sul da Ásia, significam que o problema tem o potencial de se tornar significativamente, muito pior. Enquanto que a Embaixada tomou passos iniciais para contribuir com os recursos do Governo dos Estados Unidos, o caminho ainda por seguir exigirá um esforço generalizado e coordenado por parte da comunidade internacional, no sentido de bloquear o fluxo das drogas ilícitas, sem excluir o reforço da disposição política do Governo de Moçambique para tomar medidas concretas.
CHAPMAN

09/12/2010

ENTRETANTO, NOS EUA….

Filed under: Economia de Moçambique, EUA, Politicamente Correcto — ABM @ 8:26 pm

por ABM (9 de Dezembro de 2010)

Enquanto o Wikileaksgate procede, é bom recordar algum discurso da praxe sobre Moçambique, desta vez pela (creio) insuspeita cadeia televisiva pública americana, a PBS, que em 22 de Novembro (há duas semanas e picos) colocou no ar o que se vê em cima.

Ou seja, enquanto alguns americanos dizem uma coisa, outros dizem outra.

É fascinante.

Entre outros mimos, o exmo. Leitor veja;

– Carlos Castel-Branco a comparar Moçambique com Angola (“oh, sabe, Angola é muito mais corrupta que Moçambique…”);
– a ex-Primeira Luisa Diogo a explicar como as coisas funcionam, economicamente, à beira do Índico;
– lá pelo meio, a conclusão de que afinal a pobreza mantém-se ao mesmo nível há quase uma década;
– uma cena da Mozal – o alumínio, não a poluição;
– Salomão Moiane pontificando durante 23 segundos sobre os mega-projectos
– Luisa Diogo apontando o turismo como “a” indústria do futuro;
– o Manuel Patrakakis no seu restauarante na Costa do Sol a falar poeticamente da “sociedade multicultural e multiracial” afro-mediterrânica-latino-qualquer coisinha moçambicana (ele estava a falar só nos seus clientes, obviamente).

E é destes vôos de dez minutos que se faz a imagem de um país.

Haja santa paciência.

WIKILEAKS MOÇAMBIQUE 4/996

Filed under: EUA — ABM @ 2:54 pm

por ABM (9 de Dezembro de 2010)

Para que não hajam interpretações mais iluminadas, a exacerbar ou a descontar o seu conteúdo, em baixo o que terá sido originado da mão do anterior Encarregado de Negócios da Embaixada norte-americana em Maputo, o Sr. Todd Chapman: o texto dos primeiro quatro dos supostos 996 documentos relacionados com Moçambique, inacreditavelmente surripiados por alguém do governo norte-americano.

Como se previa, o assuntos abordados parecem ser incontornáveis.

As quatro mensagens estão listadas por ordem cronológica, com data entre meados de 2009 e o final de Janeiro de 2010.

Nota: “GRM” quer dizer “Governo de Moçambique”.

MENSAGEM 1 DE 4

MENSAGEM DO ENCARREGADO DE NEGÓCIOS DOS EUA, TODD CHAPMAN COM DATA DE 1 DE JULHO DE 2009

VZCZCXRO3029
RR RUEHBZ RUEHDU RUEHMR RUEHRN
DE RUEHTO #0713/01 1820455
ZNY SSSSS ZZH
R 010455Z JUL 09
FM AMEMBASSY MAPUTO
TO RUEHC/SECSTATE WASHDC 0443
INFO RUCNSAD/SOUTHERN AFRICAN DEVELOPMENT COMMUNITY
RUEHLO/AMEMBASSY LONDON 0430
RUEATRS/DEPT OF TREASURY WASHDC
RUEAIIA/CIA WASHDC
RUEABND/DEA WASHDC
RUEAWJA/DEPT OF JUSTICE WASHINGTON DC
RHEFDIA/DIA WASHDC
RUCNFB/FBI WASHDC
RHEHNSC/NSC WASHDC
S E C R E T SECTION 01 OF 03 MAPUTO 000713
SIPDIS
NOFORN
E.O. 12958: DECL: 06/25/2019
TAGS: SNAR EFIN KCOR PTER PGOV PREL MZ
SUBJECT: RISING CONCERNS ABOUT NARCOTRAFFICKING AND MONEY
LAUNDERING IN MOZAMBIQUE
REF: A. 08 MAPUTO 1228
B. 08 MAPUTO 1098
Classified By: Charge d'Affaires Todd C.Chapman, Reasons 1.4(b+d)
1. (S/NF) Summary: Large-scale narcotics shipments pass
through Mozambique, taking advantage of a vast and lightly
guarded coastline. Money laundering may be increasing.
Narcotraffickers in the country have connections to South
Asia, and some appear to have links to the ruling Frelimo
party and the GRM. Using Department of State INL funds, the
Embassy has led a successful border security program with the
Portuguese Embassy that has resulted in the seizure of
narcotics. The mission has also provided support via DoD and
Treasury, and directed counternarcotic assessments by the
Africa Command, LegAtt, and DEA. While not a
thoroughly-corrupted narco-state, the trends in Mozambique
suggest cause for concern unless the GRM takes quick action
to address these growing problems. End Summary.
-------------------------------
Large Scale Narcotics Shipments
-------------------------------
2. (S/NF) In a series of investigative reports late last
year, Mozambique newsweekly Zambeze claimed Mozambique was
considered by some estimates to be the second largest drug
transit country in Africa after Guinea-Bissau. XXXXXXXXXXXX
Recent incidents suggest that larger amounts of
narcotics are indeed passing through the country, taking
advantage of a coastline twice the length of California's
with minimal control. Long-time commentator on Mozambique
Joseph Hanlon publicly declared in May that the value of
illicit drugs passing through the country probably surpasses
combined legal external trade. In mid-May, police seized $5
million in heroin at the Ressano Garcia-Lebombo border with
South Africa. In mid-June, police destroyed 7,000 liters of
precursor chemicals discovered at the port of Maputo from
China en route to South Africa; the United Nations Office of
Drug Control indicates that this port is heavily used to
import chemicals used for meth production. XXXXXXXXXXXX
 have described to P/E chief how
Pakistani-owned trucking companies based in Sofala province
over-declare imports at the Beira port as one way to hide the
quantities of drugs coming into the country. Early on June
20, police discovered about one ton of hashish at Chongouene
beach in Gaza province after receiving calls from local
fishermen about suspicious vehicle movements in the area.
-------------------------------------
Signs of Money Laundering Proliferate
-------------------------------------
3. (S/NF) A source inside the Frelimo party recently told
the Embassy that Mozambique, with ten banks and thirty
legally-registered exchange houses, has significantly more
financial institutions than the market in such an
impoverished country should be able to support with
legitimate business. He also observed that 1500 construction
projects are currently underway in Maputo--most financed with
cash and mostly in real estate, and noted that it was unusual
that housing prices in Maputo are increasing in spite of the
world financial crisis. Separately, Hanlon indicates that
the rapid growth in Mozambique's stock market is suspect, as
the value of stocks listed on the exchange is predicted to
reach $100 million within two years of opening. Finally, lax
regulation of casinos has raised concern by local radio and
TV commentators about that sector's role in money laundering.
---------------------------
Criminal Ties to South Asia
---------------------------
4. (S/NF) A USAID report issued in 2006 notes that commerce
in Maputo depends on the financial acumen of a small number
of Muslims of South Asian-descent who contribute generously
to the FRELIMO party. A major contributor to former
President Chissano and President Guebuza from this community,
who resides less than a hundred meters from the Presidential
Compound, Mohamed Bashir Suleman (MBS), is the owner of the
MAPUTO 00000713 002 OF 003
commercial MBS Group. Contacts at all levels have advised
Emboffs that MBS is a known large-scale narco-trafficker.
They indicate that MBS uses his FRELIMO party connections, as
well as his shopping mall, supermarkets, and hotels to import
narcotics and launder money without official scrutiny. Other
South Asian businessmen with ties to FRELIMO also operate a
vast network of loosely-regulated money changing houses,
which reportedly maintain financial ties with more radical
organizations in
Pakistan and elsewhere.
5. (S/NF) A business contact recently shared with P/E chief
a copy of a letter from Mozambique's Chamber of Business
Associations (CTA) to the Prime Minister, expressing concern
about one company selling imported vegetable oils at prices
clearly below cost, noting that this type of price dumping
could result in the withdrawal from the market of other
companies and ultimately a monopoly to form. The contact
said that the letter was in response to efforts by the MBS
Group to consolidate control of this sector--but in reality
the message had nothing to do with vegetable oil--rather, it
was a veiled warning from the business community to the
government that MBS Group's use of
vegetable oil to cover the import of illicit drugs was
so brazen that it was no longer tolerable.
------------------------------------
Narcotrafficking Connections in GRM?
------------------------------------
6. (S/NF) The Frelimo source also told the Charge that MBS
Group regularly uses phantom imports to launder money, and
indicated that MBS and another immigrant, Ahmed Gassan (owner
of the Home Center Furniture store) collude with the GRM's
head of customs (who he called "the King of Corruption")
to reduce scrutiny on imports. The source also indicated
that Gassan's business interests are personally protected by
Minister of Planning and Development Aiuba Cuereneia.
--------------------------------------------- ----------
USG Border Security, OTA, DoD Support, Other Assessments
--------------------------------------------- ----------
7. (C) Using Department of State INL bureau funds, the
Embassy has a highly-successful joint project with the
Embassy of Portugal to provide training for GRM border
guards. With a very small investment of less than $200,000,
this program has led to the seizure of $2.5 million in cash
and the arrest of two Pakistani smugglers (ref B). While the
program was denied funding in FY09, it may receive support
again in FY10. Mozambique's Tax Authority (AT) has garnered
a reputation for honesty and transparency, and the AT's
director has publicly criticized the head of Customs about
smuggling concerns. Via the Department of Treasury's Office
of Technical Assistance, the USG is providing training and
capacity building to the AT, and is reviewing ways to
specifically support the AT's Financial Intelligence Unit.
DoD provided maritime training, small boats , and coastal
monitoring systems to the FADM and more of this type of
support is programmed for the future. Finally, at the
request of the Embassy, Africa Command, DEA, Treasury and
LegAtt representatives visited Maputo in early June to
conduct a joint assessment of the drug trafficking problem
and the GRM's capabilities. Initial findings validated the
pervasiveness of the problem and identified the institutional
weakness and level of corruption of Mozambican law
enforcement agencies as core problems inhibiting a coherent
government response.
8. (SBU) At the most recent mini-Dublin meeting chaired in
late-May by the Portuguese Embassy, representatives from the
Dutch, British and German embassies specifically pointed out
weaknesses in the GRM's enforcement activities, highlighting
that concerns are widespread in the international community.
These concerns were quickly borne out, as in a presentation
at the meeting, a representative of the GRM's Inter-agency
Working Group on Narcotrafficking focused entirely on
domestic consumption and addressing the health needs of local
drug addicts.
--------------------------------------------- -----------
Comment: Not Thoroughly-Corrupted, but Cause for Concern
MAPUTO 00000713 003 OF 003
--------------------------------------------- -----------
9. (S/NF) Mozambique most certainly is not yet a
thoroughly-corrupted narco-state. However, it is becoming
increasingly clear that the magnitude of the drug shipments
passing through Mozambique may be on a much larger scale than
previously understood, taking advantage of the country's long
and unprotected coast and the facility with which port and
customs officials can be bribed. Money laundering, related
government corruption (possibly even official support), and
ties to South Asia mean that the problem has the potential to
get much worse. While the mission has made initial steps to
bring USG resources to bear, the road ahead will require a
comprehensive and coordinated effort by the international
community to staunch the flow of drugs, not to mention
strengthen the political will of the GRM to take concrete
action.
CHAPMAN

MENSAGEM 2 DE 4

MENSAGEM DO ENCARREGADOD E NEGÓCIOS DOS EUA, TODD CHAPMAN, COM DATA DE 16 DE NOVEMBRO DE 2009

VZCZCXRO8735
RR RUEHBZ RUEHDU RUEHMR RUEHRN
DE RUEHTO #1291/01 3200705
ZNY SSSSS ZZH
R 160705Z NOV 09
FM AMEMBASSY MAPUTO
TO RUEHC/SECSTATE WASHDC 0991
INFO RUCNSAD/SOUTHERN AFRICAN DEVELOPMENT COMMUNITY
RUEHLO/AMEMBASSY LONDON 0569
RUEABND/DEA HQS WASHINGTON DC
S E C R E T SECTION 01 OF 02 MAPUTO 001291
SIPDIS
E.O. 12958: DECL: 11/17/2019
TAGS: PGOV PREL KCOR SNAR MZ
SUBJECT: IMPORTANT DRUG TRAFFICKING
TRANSIT POINT FOR EAST AFRICA
REF: STATE 105731
Classified By: Charge d'Affaires
Todd C. Chapman for reasons 1.4 (b and
d)
1. (SBU) SUMMARY: Drug trafficking is a growing problem
 in Mozambique,  with illegal drugs entering via air and
sea routes from South  Asia and  South America.
 Porous borders, lack of law enforcement
 resources, and  rampant corruption allow
drug traffickers to freely transit  the country.
END SUMMARY
----------
Air Routes
----------
2. (S) The primary route for cocaine is by air to Maputo
from Brazil  via Johannesburg, Lisbon or Luanda. On arrival
passengers and  baggage  do not pass through immigration and
customs, which allows  them to avoid  he improved security at
the airports of origin. Drugs  (mostly cocaine)  are smuggled
overland to South Africa for local South African  consumption
or onward to Europe. Cocaine is often smuggled by mules  and/or in
suitcases with hidden compartments. The drug traffickers
routinely bribe  Mozambique police, immigration and customs
 officials in order  to get the  drugs into the country. The
decrease in drug related arrests  at Maputo  International Airport
 is not attributable to improved  interdiction efforts  but rather increased
 police and customs involvement in drug smuggling.  A high level law
 enforcement official admits most police drug seizures
are not reported to his office because traffickers and police
make  on-the-spot arrangements to allow the drugs to continue to
flow.  Police and customs officials routinely detain drug smugglers
and are then bribed to release the smugglers and the drugs are
confiscated and resold. Domingos Tivane, the Director of Customs, is
 directly involved in facilitating drug shipments. Tivane has amassed
a personal fortune in excess of a million dollars, to include numerous
  investments around  Mozambique.
----------
Sea Routes
----------
3. (S) Transport by sea is the preferred route for hashish,  mandrax
and heroin shipments, often involving large quantities.  Drugs come
from Pakistan, Afghanistan and India. They are then loaded
onto a  vessel that sails to Dar Es-Salam, Tanzania, or Mombasa,
Kenya.
Drugs are often concealed in containers with legitimate goods
and are  often offloaded and sent via land to Mozambique.
Alternatively, the vessel offloads its cargo in the Ports of Maputo, Beira and
especially  Nacala. Drugs are then smuggled overland to South Africa or  onward
 via  air, to the U.S. and Europe.
-----------------------------------
Two Main Drug Trafficking Networks
-----------------------------------
4. (S) There are two large drug trafficking networks that
operate  in Mozambique. Both of these networks have ties to South
East Asia.  Mohamed Bashir Suleiman (MBS) is the head of a well financed
MAPUTO 00001291 002 OF 002
organized  crime and money laundering network centered on the family  owned
and  managed business conglomerate Grupo MBS.
Suleiman uses Grupo  MBS and  proxies like Rassul Trading, run by Ghulam Rassul,
 and Niza  Group,  owned by the Ayoub family, to smuggle drugs from Pakistan via
 Dubai in containers carrying televisions, electrical equipment,  cooking oil
 and automobiles. The Suleiman family has connections in  South Africa, Somalia,
Pakistan, Latin America and Portugal, and maintains a complex structure of
businesses with a wide variety of commercial activities  that serve as a cover
for a multitude of illegal activities.  Suleiman has a close relationship
 with former President of  Mozambique  Joaquim Chissano and current President
Armando Guebuza, and  enjoys ties to senior level Mozambican officials, including
 the  Director of Customs, Tivane. Grupo MBS and the Suleiman family
reportedly  have connections in the Ibrahim Dawood international drug syndicate.
5. (S) Ghulam Rassul Moti is a Mozambique based ethnic
South Asian  narcotics trafficker who has smuggled hashish and heroin in the Nampula
province of Northern Mozambique since at least 1993. He has been linked to several
prominent international narcotics traffickers and uses these relationships and his
political influence to avoid customs and police inspections at the seaports
 and borders. Moti owns Rassul Trading Co. and Grupo ARJ which are major narcotics
importers in Nacala and suspected in the trafficking of persons, mainly Pakistanis.
Post is also seeing increased cooperation between West and East African based narcotics
networks with Mozambique drug networks. The main drug organizations are rumored to
support extremist Islamist elements in Mozambique.
--------------------------------------------- ----
Corruption of Senior Level Government Officials
--------------------------------------------- ----
6. (S) A porous border, lack of resources for law
enforcement as well as endemic corruption among Mozambique's senior level
 officials leads to a situation where drug traffickers
 are able to freely transit the country. Mid-level Mozambican
 officials are afraid to go after people involved in the major
 drug networks because they know they have connections to senior
level government officials. Senior members of the ruling FRELIMO
party are seeking to hide the level of corruption from the press,
the electorate and the international donor community. As a high level
law enforcement official also said recently in private, 'Some fish are too
 big to catch.'
CHAPMAN

MENSAGEM 3 DE 4

MENSAGEM DO ENCARREGADO DE NEGÓCIOS DOS EUA, TODD CHAPMAN COM DATA DE 25 DE JANEIRO DE 2010

VZCZCXRO6812
RR RUEHBZ RUEHDU RUEHMR RUEHRN
DE RUEHTO #0080/01 0251156
ZNY SSSSS ZZH
R 251156Z JAN 10 ZDK
FM AMEMBASSY MAPUTO
TO RUEHC/SECSTATE WASHDC 1213
INFO RUCNSAD/SOUTHERN AFRICAN DEVELOPMENT COMMUNITY
RUEHLO/AMEMBASSY LONDON 0600
RHEFDIA/DIA WASHDC
RHEHNSC/NSC WASHDC
RUEAIIA/CIA WASHDC
S E C R E T SECTION 01 OF 02 MAPUTO 000080
NOFORN
SIPDIS
E.O. 12958: DECL: 09/28/2019
TAGS: PGOV PREL KCOR SNAR MZ
SUBJECT: NARCOTRAFFICKING ON UPSWING, CONCERNS ABOUT
GOVERNMENT CONNECTIONS
REF: A. 09 MAPUTO 1309
B. 09 MAPUTO 1291
C. 09 MAPUTO 713
D. 08 MAPUTO 1228
E. 08 MAPUTO 1098
Classified By: Charge d'Affaires Todd Chapman for reasons 1.4 (b+d)
1. (S/NF) SUMMARY: Mozambique has been called the second
most active narcotics transit point in Africa after Guinea
Bissau (Ref C). Despite anti-corruption rhetoric, the ruling
FRELIMO party has not shown much serious political will to
combat narcotrafficking. Mohamed Bashir Suleman (MBS),
described as the largest narcotrafficker in Mozambique, has
direct ties to President Guebuza and former President
Chissano. Other traffickers bribe both high and low level
officials. Chief of Customs Domingos Tivane is a significant
recipient of these narcotrafficking-related bribes. Police
officials told Embassy officers that they are unwilling to go
after "big fish" narcotraffickers because of their ties to
senior officials. The Ministries of Interior and Finance
have recently back-pedaled on U.S. efforts to engage and
assist in narcotrafficking and money laundering, a
significant associated problem. The management of the port
of Nacala, infamous for allowing the flow of drug
transshipments from southwest Asia, was recently taken over
by Celso Correia, principal of Insitec, Ltd, a Guebuza front
company. A new casino law reduces gambling restrictions in
Mozambique, providing another avenue for money laundering.
U.S. support to Border Security and the Mozambican military
(FADM) has resulted in modest seizures of money and drugs.
Post looks forward to an upcoming INL visit to help elaborate
a comprehensive counter-narcotics trafficking (CNT) strategy.
Any such CNT strategy, after first gauging political will
which at this point is suspect, should consider the
strengthening of land and maritime border security,
professionalization of the police force, educational
programming for prosecutors on Mozambican CNT laws already in
place, and development of a financial intelligence
capability. END SUMMARY.
--------------------------------------------
NARCOTRAFFICKERS BLANDISHING GRM AND FRELIMO
--------------------------------------------
2. (S/NF) Mohamed Bashir Suleman (MBS), described by
multiple contacts as the largest narcotrafficker in
Mozambique, contributes heavily to FRELIMO's coffers, and has
provided significant financial backing to the campaigns of
former President Joaquim Chissano and current President
Armando Guebuza. (Note: See TD-314/085221-09 regarding
written communication from the Office of the Presidency
directing certain containers be exempted from standard
scanning and scrutiny at the Port of Maputo. End Note.)
Traffickers, including MBS, Gulam Rassul, and the Ayoub
Family (Ref A) routinely bribe police, immigration and
customs officials to ensure that drugs can enter the country.
Domingos Tivane, Chief of the Customs Service, is a
significant recipient of bribes from narcotraffickers (Ref
B), and he recently purchased real estate in Maputo valued at
well beyond what his government salary should be able to
afford.
------------------------------------------
POLICE UNWILLING TO PURSUE MANY DRUG CASES
------------------------------------------
4. (S/NF) Senior members of the Mozambican Police (PRM) have
told Emboffs that potential CNT training would only help them
with small-scale traffickers, while other "big fish" would
remain too large to catch. Of the more than ten cocaine and
heroin seizures in 2009 at the Maputo airport, none have
resulted in prosecutions. A senior law enforcement official
has admitted to Emboffs that most drug seizures are not made
public and not prosecuted because police and customs
officials use such seizures to enrich themselves. Such
officials extract bribes, and may retain the drugs seized for
resale. Despite repeated requests, the Minister of Interior
(charged with overall responsibility for police and for
counter-narcotics) has refused to meet with the CDA to
discuss increased joint CNT efforts. The GRM recently raised
objections to an offer for a U.S. Department of Treasury
official to be embedded into the Financial Crimes Unit, after
initially agreeing to and supporting the offer.
---------------------------------------------
PROVINCIAL PORTS ATTRACTIVE FOR DRUG TRANSITS
MAPUTO 00000080 002 OF 002
---------------------------------------------
5. (S/NF) The port of Nacala in particular is believed to be
a major recipient of narcotics from Southwest Asia. In July
2009, Celso Correia, who is a principal in Insitec, Ltd, (a
company whose major shareholder is President Armando
Guebuza-septel), was installed as head of the Northern
Development Corridor (CDN) which includes the port of Nacala
and the northern rail network. Shortly thereafter, Ghulam
Rassul Moti, who has smuggled hashish and heroin into
northern Mozambique since at least 1993 (Ref B) greatly
reduced bribes to local Nacala and Nampula municipal
authorities and made the payments instead directly to senior
FRELIMO officials. Nampula Mayor Castro Serafim was reported
to be particularly irritated that these monthly payments had
been re-routed straight to higher-level FRELIMO leaders.
--------------------------------
NEW CASINO LAW CAUSE FOR CONCERN
--------------------------------
6. (S) In January, President Guebuza signed into law a new
"Casino Bill." Passed by the National Assembly (AR) in June
2009, the law relaxes restrictions on gambling in Mozambique,
reducing the minimum investment for a casino from $15 to $8
million, legalizing online gambling, and allowing slot
machines to be positioned in otherwise non-gambling
environments. The law also passes financial control of
casinos from the Ministry of Finance to the less rigorous
Ministry of Tourism. This bill was passed to encourage
tourism; however, given Mozambique's minimal financial
controls, the law will effectively reduce the barriers to
narcotraffickers looking to launder funds. Nazir Lunat, a
FRELIMO parliamentarian and influential imam in Maputo,
recently resigned from his position in the National Assembly
(AR) because of concerns over the law allowing casino
liberalizations.
-------------------------------------
USG SUPPORT HAS HAD POSITIVE OUTCOMES
-------------------------------------
7. (S) With USG support, there has been some progress in
combating drug trafficking. Using INL funds, Embassy Maputo,
working with the Embassy of Portugal, provided training to
border guards which resulted in the seizure of U.S. $2.5
million in cash and the arrest of two Pakistani smugglers
(Ref E). In mid-May 2009 police seized U.S. $5 million in
heroin at the Ressano Garcia border crossing into South
Africa. Employing 7-meter, rigid hull inflatable boats
donated by the DoD using Section 1206 funds, the Mozambican
navy has interdicted several drug shipments near the coast,
most recently in December.
------------------------------------------
COMMENT: COMPREHENSIVE CNT STRATEGY NEEDED
------------------------------------------
8. (S) Post looks forward to an upcoming INL visit to help
elaborate a comprehensive CNT strategy. USG interests in CNT
in Mozambique involve multiple USG departments, including
State, DoD, DoJ, DHS, and Treasury. Our CNT strategy must
first address ways to strengthen the GRM's political will to
address narcotrafficking, while preparing Mozambique with a
host of programs, to include strengthening of land and
maritime border security, professionalization of the police
force, educational programming for prosecutors on Mozambican
CNT laws already in place, and development of a financial
intelligence capability.

MENSAGEM 4 DE 4

MENSAGEM DO ENCARREGADO DE NEGÓCIOS DOS EUA, TODD CHAPMAN COM DATA DE 28 DE JANEIRO DE 2010

VZCZCXRO0006
RR RUEHBZ RUEHDU RUEHMR RUEHRN
DE RUEHTO #0086/01 0280621
ZNY SSSSS ZZH
R 280621Z JAN 10
FM AMEMBASSY MAPUTO
TO RUEHC/SECSTATE WASHDC 1221
INFO RUCNSAD/SOUTHERN AFRICAN DEVELOPMENT COMMUNITY
RUEHLO/AMEMBASSY LONDON 0605
RUEHLMC/MILLENNIUM CHALLENGE CORP WASHINGTON DC
RHEFDIA/DIA WASHDC
RHEHNSC/NSC WASHDC
RUEAIIA/CIA WASHDC
S E C R E T SECTION 01 OF 03 MAPUTO 000086
NOFORN
SIPDIS
E.O. 12958: DECL: 01/28/2020
TAGS: PREL PGOV KDEM KMCA MCC SNAR EINV MZ
SUBJECT: XXXXXXXXXXXX TALKS OF CORRUPTION AT THE
HIGHEST LEVELS OF GOVERNMENT
REF: A. MAPUTO 80
B. 07 MAPUTO 1395
MAPUTO 00000086 001.2 OF 003
Classified By: Charge d'Affaires Todd Chapman for reasons 1.4 (b+d)
1. (S/NF) SUMMARY: The Charge recently met with XXXXXXXXXXXX
--("the source") who described his frustrations with FRELIMO, President
Guebuza, and Mohamed Bashir Suleiman (MBS). He complained that
they exercise  complete control over the licit and illicit economy of
Mozambique. The source, who has excellent connections within
the Government of Mozambique (GRM), including the private  number
of the President, as well as a personal relationship  with MBS,
said "I do not want to do business anymore in Mozambique
“ because of this triumverate of control. He is liquidating his
assets and leaving Mozambique, and says that he now sees
the "malaise" in Mozambique as if "he had cataracts
 but now see it all."
2. (S/NF) The source describes President Guebuza, who he
has known and befriended for the past twenty years as a
"vicious scorpion who will sting you," and has an even more
grav assessment of MBS. He cautions that FRELIMO is not
interested in bettering the life of Mozambique's citizens,
but rather its self-enrichment. In the licit economy, the
ruling party, FRELIMO, and MBS work in tandem to control the
legal and illegal economies and restrict the space for
private sector growth by demanding a cut of all significant
business transactions. In the illicit economy, MBS dominates
money laundering and drug transshipment, providing kickbacks
to FRELIMO. Other key players involved in pressuring the
business community for bribes or percentage stakes, according
to the source, are Domingos Tivane, head of Customs, and
former Prime Minister Luisa Diogo. END SUMMARY.
-----------------------------------
MOHAMED BASHIR SULEIMAN AND GUEBUZA
-----------------------------------
3. (S/NF) The source XXXXXXXXXXXX. He speculated that
over the next  term Guebuza would use his business proxies
to amass a still larger personal fortune. Guebuza manages his
business interests through several front companies, including
Celso Ismael Correia's Insitec and Salimo Abdullah's Intelec
Holdings. The source said that MBS meets directly with
President Guebuza, who has direct knowledge of MBS' funding
to both the FRELIMO party (underwriting the recent election
campaign) and Guebuza's front companies. The source, who
described Correia as a "30 year-old pipsqueak," stated that
Correia has no business experience or university degree, but
shows great loyalty to Guebuza.
4. (C) Guebuza's business interests in Mozambique are
legion. They include stakes in Mocambique Gestores (MG),
Maputo Port Development Company (MPDC) which runs Maputo
Port, Focus 21, Navique, Vodacom, and SASOL. Guebuza also
has a share in Maputo Corridor Logistics Initiative (MCLI)
which controls the toll road from Maputo to South Africa,
according to the source. Guebuza has shares in a significant
number of banks, including BCI Fomento (where Correia is
Chairman), Mocambique Capitais, Moza Banco, and Geocapital.
Through family members, Guebuza also controls Intelec
Business Advisory and Consulting, Beira Grain Terminal, MBT
Construction Ltd, Englob Consultants Ltd, Mozambique Power
Industries, Macequece Ltd, and Mozambique Natural Resources
Corp.
5. (S/NF) One new area that Guebuza appears to be
interested in is the gaming industry. The source says that
Guebuza forced the Constitutional Council (CC) to review and
declare a recent law liberalizing the gaming industry as
"constitutional" even though it calls for all casino assets
to revert to the state after a defined period of time, in
direct contravention of private property laws enshrined in
the Constitution. The judges of the CC, who also ruled in
favor of decisions during the elections to invalidate large
numbers of opposition candidates in the legislative and
presidential races, complained of the unconstitutionality of
the new law, but were told to give it a favorable ruling,
which they did.
6. (S/NF) The source elaborated on the depth of Guebuza's
business interests, which range across the economy. He said
MAPUTO 00000086 002.2 OF 003
that Guebuza is in on almost all of the "mega-project"
multi-million dollar deals via contractual stipulations to
work with the Mozambican private sector. One example is
Guebuza's involvement in the 2007 purchase of Cahora Bassa
Hydroelectric Dam (HCB) from the Portuguese Government for
$950 million. $700 million of this was paid by a private
consortium of banks, which was arranged by a Guebuza proxy,
for which Guebuza received, while he was a sitting president,
an estimated commission of between $35 and $50 million. The
Portuguese bank which arranged the financing turned over its
shares in BCI Fomento, one of the largest Mozambican
commercial banks, to a Guebuza-controlled company.
---------------
MBS AND FRELIMO
---------------
7. (S/NF) The source, says that FRELIMO brazenly squeezes
the business community for kickbacks. As an example, the
source said that he has personally seen Manuel Tome, former
FRELIMO Secretary General, senior member of the National
Assembly, and relative of President Chissano, in MBS' office
receiving pay-offs quite openly. Head of Customs Domingos
Tivane openly demands and receives payoffs from importers,
including MBS. The source stated that one business contact
remarked to him that when visiting Tivane's expansive home to
deliver a bribe he noticed that the bureaucrat had solid gold
fixtures in his bathroom. The source also stated that former
Prime Minister Luisa Diogo, until she was removed from the
Cabinet (septel), was heavily involved in taking bribes for
FRELIMO, of which she kept a percentage. Similar allegations
were raised in the 21 January issue of Zambeze, regarding
soft loans paid to Diogo's husband Albano Silva, purchases of
houses and buildings for a fraction of their value, as well
as Diogo's close ties to officials such as Diodino Cambaza,
whose corruption trial is ongoing.
8. (S/NF) At the ports, the source commented that FRELIMO
has its own clearing agent that handles FRELIMO and MBS
business. The clearing agent chronically under-invoices
items, avoids the 17% VAT, and also has an arrangement with
Tivane's Customs authorities to bypass the ports' mandatory
scanning. The source has documentary proof of the
under-invoicing by MBS, and poloff has seen MBS' trucks drive
through the port without being scanned. Nonetheless, the
source said that Government of Mozambique (GRM) officials
routinely describe MBS as an "untouchable" due to his
connections to Tivane and Guebuza, a situation which is
reported to irk a cash-strapped Tax Authority (AT) President
Rosario Fernandes.
-------------------------
MBS AND OTHER BUSINESSMEN
-------------------------
9. (S/NF) Regarding MBS' retail operation, the source
states that MBS does not tolerate competition. The source's
milk processing facility was threatened by MBS who used
VAT-avoidance and under-invoicing to dump vast quantities of
imported condensed milk on the market in order to put the
source out of business. Only after the source made an
agreement with MBS for exclusive distribution of his milk
products, with a 10% kickback on all sales to MBS, did MBS
stop his dumping practices. Other businessmen have
complained about similar practices in other commodities to
include edible oil. The source complained that "even those
who bribe" MBS or FRELIMO cannot make a profit under such
conditions.
------------------------------
NARCOTICS AND MONEY LAUNDERING
------------------------------
10. (S/NF) The source says he only has second hand
knowledge of drug trafficking and money laundering in
Mozambique. He said that "MBS and the 'Nacala dealers' all
have offices in Dubai" to facilitate money laundering
operations in Mozambique. It is through these operations
that after 15 years in business in Mozambique, MBS was able
to pay $30 million in cash to establish his shopping plaza
downtown, Maputo Shopping, which opened in 2007. The source
said that he asked prominent Ismaili/Aga Khan businessman
Mustaque Ali how MBS became so rich so fast, and Ali's wry
answer was "Johnson's baby powder," a euphemism for drugs.
The source noted that the sometimes erratic changes in
MAPUTO 00000086 003.2 OF 003
Mozambique's foreign exchange position are due to sudden
multi-million dollar transfers of cash overseas tied to money
laundering. The source commented that in the past few years
there have been several embarrassing situations in which
shiploads of drugs, primarily hashish and heroin have washed
ashore; however, the media is usually afraid to report on
such incidents because no one wants to become another Carlos
Cardoso, the courageous Mozambican journalist who was
murdered in 2000 while investigating a massive bank fraud
tied to then-President Chissano's family.
---------------------------------------------
COMMENT: CANDID COMMENTS FROM A CONNECTED MAN
---------------------------------------------
11. (S/NF) The source, XXXXXXXXXXXX While he has an axe to
grind because he is frustrated with the scope and depth of
corruption in Mozambique, his statements corroborate what we
have learned from other sources (Ref A). Ties with MBS and
other known money launders and narcotraffickers by senior GRM
officials are disturbing and demonstrate a short-sighted
focus on self-enrichment. The source cautions against
building long term relationships with FRELIMO, and fears
that, having allowed the illicit economy to prosper, and
having advertised Mozambique as a money laundering
destination and drug transshipment hotspot, the ruling party
will no longer be able to control the nefarious activities
within its borders. Rumors and stories of corruption abound
in Mozambique, but rarely will a successful well-connected
XXXXXXXXXXXX be willing to share specific practices based
on first-hand knowledge and participation in these practices.
CHAPMAN

30/11/2010

WIKILEAKS E MOÇAMBIQUE 996

Filed under: EUA, Mundo, Wikileaks — ABM @ 12:27 pm

O sítio baseado na Suécia que anda a criar problemas aos norte-americanos estes dias.

por ABM (30 de Novembro de 2010)

Há uns três dias que está no topo das notícias que um sítio na internet baseado na Suécia, Wikileaks, anda a divulgar documentos secretos, muito secretos ou de circulação muito restrita (eu nunca percebi as diferenças) da diplomacia norte-americana.

O argumento de quem está à frente deste sítio basea-se, como não podia deixar de ser, nas mais nobres tradições americanas, segundo as quais melhor governa quem governa em transparência.

O problema é que há transparências e há transparências. E aqui, fruto da era digital electrónica, em que tudo é feito em computadores, não se está a falar de um ou dois documentos. O sítio refere duzentos e cinquenta mil documentos. E todos eles muito recentes ou actuais.

Isto é quase inacreditável.

Mais interessante para os Maschambeiros, poderão ser os 996 documentos que dizem respeito a Moçambique.

Que ainda não foram divulgados.

Hum.

O que conterão?

Com a minha sorte, vai-se saber primeiro sobre eles aqui.

A ver vamos.

19/10/2010

SAMORA MACHEL: A HISTÓRIA EM FOTOGRAFIA

A imagem do primeiro presidente idealizada, estilo "Grande e Querido Líder"

por ABM (19 de Outubro de 2010)

Há muita gente que já não se lembra bem de Samora Machel, e a maior parte dos moçambicanos hoje já nasceu depois dele morrer. Eu, por exemplo, nunca o conheci.

Em seguida, imagens que retratam o segundo presidente da Frente de Libertação de Moçambique e o primeiro presidente de Moçambique. Legendas de ABM.

Então cá vai.

Samora na Tanzânia, a base de operações da Frelimo, com Valeriano Ferrão e o filho dum apoiante do movimento. Valeriano mais tarde foi o primeiro embaixador moçambicano nos Estados Unidos da América, onde o conheci. Através da Ndjira, escreveu um livro sobre a sua experiência.

Josina Machel. Foi a primeira mulher oficial de Samora. Bonita. Morreu durante a guerra da Independência. Santificada pelo regime, deram o seu nome ao velho Liceu Salazar em Maputo.

Samora o Senhor da Guerra, já antes da estranha morte de Mondlane e a depuração que se seguiu. A "Frente" deixou de ser uma frente e passou a ser politicamente uma - e marxista-leninista.

Com o seu fato de El Comandante, Samora discursa no mato (não sei a quem).

Após a morte de Eduardo Mondlane, e com o apoio de Marcelino dos Santos, Samora despacha a oposição.

Socialista e sem qualquer margem negocial, Mário Soares entrega as chaves da casa a Samora em Lusaka, 7 de Setembro de 1974. Fez-se da data um feriado nacional.

A Independência em Junho de 1975 foi uma espécie de orgasmo colectivo. A Frelimo mandava, e Samora mandava na Frelimo. E a sua palavra de ordem? "A Luta Continua". As acções: despachar os colonialistas, controlar as cidades, libertar a Rodésia e a África do Sul. Resultado: a economia desmoronou-se e a Rodésia começou a desfazer Moçambique.

O povo a caminho de (mais) um comício. Os moçambicanos veneravam o seu líder, em quem confiavam para lhes trazer um novo futuro. Dizia-se que cada vez que discursava eram mais três aviões de colonialistas a voar na Tap para Lisboa. Mas o povo adorava, especialmente quando ele dizia; "é ou não é?" (a resposta colectiva: "ééé´...")

As Forças Populares de Libertação de Moçambique, os novos Donos da terra. Em Maputo, entre outros mimos, batiam à porta das pessoas às 5 da manhã e mandavam-nos ir varrer as ruas.

Ian Smith, primeiro-ministro da Rodésia até 1980. Abandonado pelos sul-africanos logo em 1975, respondeu à decisão de Samora de constituir Moçambique como santuário para a Zanu-PF com uma guerra. Num dos primeiros ataques, uma base perto da Beira, os rodesianos mataram mais gente num fim de semana que os portugueses num ano de guerra. E a situação só piorou.

A senhora que se segue: Samora casa com Graça Simbine, uma discreta chope, hoje a grande Graça Machel.

Samora o Presidente. Com os rapazes, posando para a posteridade.

O Presidente no palácio, em família, num intervalo de pausa.

O carisma de Samora era apercebido como 80% da força do regime. Até 1984.

A deusificação do Líder. Aqui, Samora com Eduardo Mondlane, liderando a gloriosa luta do povo moçambicano.

Samora e Julius Nyerere com as respectivas. Nyerere, Fidel e Stalin parecem ter sido as grandes inspirações de Samora.

Nujoma, Kaunda, Samora, Nyerere, Mugabe e, segundo o nosso leitor Sr. Jongomoz, José Eduardo dos Santos: A aliança chamada "Países da Linha da Frente". Contra a África do Sul.

Nujoma, Samora, Kaunda e Mugabe. Dos quatro países, só Moçambique foi dizimado, primeiro pelos rodesianos e depois pelos sul-africanos e pela Renamo. Angola era outra loiça.

Samora o Estadista africano na Cortina de Ferro. Até quis entrar na COMECON (não foi aceite). Aqui com um dos seus ídolos, Fidel Castro.

Samora o Estadista, outra vez com Fidel (não sei quem é o sr, à esquerda).

O líder mundial: Samora com Chou en Lai, o homem forte da China após a morte de Mao em 1976.

Samora na Roménia com o ditador Ceaucescu: a amizade socialista foi essencialmente um gigantesco fiasco. Em Maputo, havia um novo tipo de apartheid: a praia dos americanos, a praia dos russos, a praia dos alemães da RDA, etc.

Samora dá uma palmada nas costas de Yasser Arafat, líder guerrilheiro palestino. A amizade entre os Libertadores.

O Presidente, de farda militar numa visita à Alemanha comunista, dá uma dose de charme a uma alemã gorda. Curiosamente, a sua visita a Portugal nos anos 80 foi nada menos que triunfal.

O Presidente, num momento de descontracção. Em 1983, Samora já se tinha apercebido no buraco em que Moçambique se tinha metido. Os sul-africanos demoliam o país e os apoios de Leste eram insuficientes. Estava encostado contra a parede.

Samora solitário. Em 1983, dá-se a grande viragem no homem, que chocou e alienou a liderança da Frelimo e de quase todos os líderes com quem estivera: introduzir práticas "capitalistas" e assinar um tratado de paz com Pretória. Era a negação de tudo o que havia sido feito em dez anos. Mas ainda era o chefe indisputado dos moçambicanos.

O impensável acontece: Samora, com a sua farda, assina um tratado de paz e não agressão com o Velho Crocodilo. Mas a máquina do apartheid já estava fora de controlo e não ligou ao papel assinado. Em Maputo, em surdina, as dúvidas eram mais que muitas.

Samora em Komatipoort, a dez quilómetros de onde viria a morrer dois anos e meio depois. Aqui com Graça, Botha e Pik (um notório bêbado e ministro dos negócios estrangeiros de Pretória). O pacto fracturou perigosamente a unidade na elite da Frelimo. Mas os efeitos da guerra eram piores.

O Impensável 2: Samora na Casa Branca com Ronald Reagan, o arquitecto do fim do Comunismo. Sem qualquer margem de dúvida, a ideologia do Regime foi posta de lado por Samora. Mas nem assim a África do Sul e a Renamo pararam. Para o encontro com Reagan, que já estava com indícios da doença de Alzheimers, avisaram Samora para dizer o que tinha a dizer de importante nos primeiros cinco minutos, senão Reagan esquecia-se.

O Charlie-Nine-Charlie-Alfa-Alfa. O avião presidencial despenha-se na noite de 19 de Outubro de 1986. Samora, que estava sentado na frente do avião, morre. Foi sucedido por Joaquim Chissano, que exigiu um avião e tripulação que não fossem russos. No 5º Congresso da Frelimo em 1989, o da Volta dos 180 graus, o comunismo foi abandonado. Chegou a Era do capitalismo cortesia do FMI e dos Doadores. E os Empresários de Sucesso. E, segundo Carlos Cardoso, a Corrupção à escala industrial.

27/06/2010

HOMENAGEM AOS AÇORES

por ABM (Domingo, 27 de Junho de 2010)

Apesar da minha vertente africana, pai e mãe (e linhagem até aos colonos originais das ilhas no séc. XV e XVI) nasceram e cresceram na ilha açoriana de São Miguel, sobre a qual as únicas coisas que eu sabia até aos doze anos, para além duma hilariante visita do meu avô paterno MIM a Moçambique em 1968, eram um cartaz promocional da ilha igual à fotografia acima exibida e que estava na cozinha dos BM, e o misterioso sotaque dos meus pais, que os acompanhou até ao dia em que morreram – e que é particular à Ilha de São Miguel, e tão diferente do sotaque falado na cidade de Lourenço Marques.

Em Moçambique, o sotaque do pai BM era legendário e a sua proveniência gentilmente parodiada. Lembro-me de, antes da independência, a revista Tempo, na sua versão light antes de 1975, ter feito, no fim das suas edições, uma espécie de “dicionário” de termos. com a respectiva explicação, que usavam para fazer algum comentário local. Para a entrada “açoriano”, a tradução era “Botelho de Melo”.

As duas melhores amigas da mãe BM em mais que vinte anos de África, eram duas açoreanas, Conceição e Maiana, com quem manteve contacto até falecer em 2005 nos Estados Unidos.

Quando vivi década e meia na costa Leste dos Estados Unidos, tive então o raro privilégio de conviver com tanta gente de lá, no que é considerada ainda a “décima Ilha”. E que incluíram alguns mais conhecidos: a Natália, o Onésimo, o Martins Garcia, o Cristóvão de Aguiar, o Adelino Ferreira (director do Portuguese Times, onde escrevi durante mais que duas décadas, para ver se não me esquecia de como se falava e escrevia em língua portuguesa) etc.

E com este sotaque, ao mesmo tempo tão familiar e tão peculiar dos micaelenses, um vulto tão familiar em casa.

Definitivamente, uma forma tão diferente e tão peculiar de se ser português.

E em particular com o sentido de humor, sentido aestético e a maneira de estar dos açorianos, que não tem igual em quase parte nenhuma. Eu acho que o próprio Fernando Pessoa, cuja mãe era uma açoriana da Ilha Terceira, subestimava esse efeito, preferindo elaborar referências místicas sobre a sua proveniência beirã e judia, notoriamente mais diluída. Mas não conheço muito que tenha sido escrito sobre a sua mãe, que viveu até 1925 (morreu na Amadora) e que era de Angra do Heroísmo, cidade onde Pessoa esteve em Maio de 1902 para visitar a família materna. Escreve-se tanto sobre o homem mas a mãe a relação com a mãe, e a terra da mãe, quase népia. O primeiro poema conhecido de Fernando Pessoa? dedicado à sua mãe, que o guardou para a posteridade:

À MINHA QUERIDA MÃE

Eis me aqui em Portugal
Nas terras onde eu nasci.
Por muito que goste delas,
Ainda gosto mais de ti.

(26-7-1895)

Mãe açoriana é outra loiça.

Para quem não conhece o sotaque e humor de São Miguel, que eu conheço relativamente bem, aqui fica um saborzinho num domingo de início de verão, com estas duas jóias. Na primeira, uma paródia à série “Doutor House”. Na segunda, um micaelense conta detalhes de uma visita à América.

Bom fim de semana.

E vivam os açorianos, incluindo o que fez estes filmes.

25/06/2010

O CENTURIÃO CAÍDO

Filed under: EUA — ABM @ 5:31 am

A afegã mais famosa do mundo

por ABM (Sexta-feira, 25 de Junho de 2010)

Esta crónica quase descarrilou com o anúncio vindo de Mónaco, informando que o monarca reinante daquele magnífico paraíso fiscal a uns quilómetros de Nice, Alberto, 52 anos, vai casar com a antiga nadadora sul-africana Charlene Wittosck. Os Maschambeiros, embevecidos, aplaudem.

O tema desta crónica, no entanto, é o General Stanley McChrytal, até ontem o chefe pouco contestado do esforço de guerra norte-americano (e “aliado”, o que inclui 266 portugueses que por lá andam a expensas do Estado português). Até ontem, porque Barack Obama, que parece ainda estar a testar as águas enquanto supremo chefe das forças armadas norte-americanas, foi à televisão e anunciou que mandava substituir McChrystal pelo mais consensual General Petraeus na condução do que é que seja que os americanos pretendem fazer no Afeganistão.

O que é curioso, por duas razões.

Primeira Razão

A primeira, é que, para Obama, a questão da guerra, iniciada de forma quase imprudente pelo seu muito criticado antecessor, fora um tema central da sua candidatura. Ele era, afinal, o candidato do bom senso e até da Paz. Na Suécia, o Comité Nobel até se lembrou de lhe atribuir o prémio da Paz, deixando muitos de boca aberta com o gesto, até certo ponto até o próprio Barack, que, preocupado com o sentido em que as coisas andavam domesticamente, fez um discurso quase bélico perante a sua algo atónita audiência.

Ora, sendo um tópico central da sua candidatura, teria que ser um ponto fulcral das suas decisões assim que tomou posse como presidente dos Estados Unidos.

E, até certo ponto, foi. Sob a providencial e algo inesperada liderança de Petraeus (uma escolha resultante do total desespero da equipa de George Bush) os americanos passaram a gestão da guerra e do país aos iraquianos, que efectivamente passou a ser uma guerra civil, em parte alimentada por vizinhos poderosos e desconfortáveis por ter um Iraque que se dá com os Estados Unidos, à sua porta.

Mas nessa altura já todos percebiam que o grande problema iria ser no Afeganistão. Obama decidiu mudar o foco da guerra americana para aquele país, aumentando significativamente o número de tropas e orçamento para fazer frente aos radicais islâmicos que lutavam pelo controlo do terreno, contra um governo assediado, liderado pelo presidente Karzai.

Sendo uma guerra supostamente baseada numa coligação internacional e com contornos diplomáticos e sociais muito complexos, para não falar de que seriam certamente os norte-americanos o principal financiador e sustentáculo de todo o aparato, a escolha de McChrystal, um cowboy militar irreverente e desde o primeiro momento defensor de uma guerra sem quartel aos rebeldes taliban, baseada numa luta incessante através de equipas de black-ops (cujo número no terreno quadruplicou), deixou alguns de boca aberta.

No espaço de um ano, a coligação internacional efectivamente desmantelou-se, o número de civis mortos por “engano” ascendeu a níveis difíceis de aceitar, e no fim o próprio McChrystal teve que cingir os seus homens de agirem da forma como estavam a agir, pois os próprios americanos (para não falar dos afegãos) consideravam a sua actuação inaceitável. Desprezava a diplomacia e os líderes da sua coligação, que a todos chamava de “mariconços” sem excepção. E em vez de lidar com Karzai, cujo desempenho tem sido cada vez mais posto em causa, confraternizava com ele.

Mas há muito mais. McChrystal desprezava o seu chefe e quase todos os que o rodeavam.

O que me traz à segunda razão.

Segunda Razão

O que acabou por trazer abaixo o comandante em chefe das tropas americanas no Afeganistão não foi tudo o que disse ou fez. Pese a impressão que todos temos de que o presidente dos Estados Unidos é das pessoas mais bem informadas no planeta, o que o fez decidir substituir McChrystal (a primeira substituição a este nível desde que Harry Truman despediu o General MacCarthur no fim da guerra da Coreia nos anos 50) foi um artigo escrito para uma revista americana, o Rolling Stone Magazine.

Na edição que vai ser publicada nos Estados Unidos hoje, dia 25 de Junho.

E que, para os Maschambianos que lêm inglês e que terão a paciência de o ler, pois é um pouquinho longo, pode ser descarregado aqui.

Mas que garanto que mais do que vale a pena ler pois está soberbamente escrito. E é quase inacreditável.

Claramente, tragicamente, Obama enganou-se na pessoa que escolheu para esta missão crucial para os Estados Unidos.

No fim, com a sua arrogância, McChrystal prestou um mau serviço ao seu presidente e ao seu país, e por extensão a todos nós. A guerra no Afeganistão não é uma guerra qualquer. Se o Médio Oriente permanece o foco de tensão global, um Afeganistão dominado por fundamentalistas islâmicos poderá ser – e já foi – uma ameaça séria à estabilidade do mundo. Por isso é que há 266 portugueses (heróis todos eles) naquele esforço e por isso é que vale a pena, e faz sentido, eles estarem lá. Eu duvido da inocência do acesso de um jornalista do Rolling Stone Magazine ao seu círculo restrito. Provavelmente McChrystal já sabia que tinha os dias contados e, na sua maneira narcisista e exagerada de gerir as suas relações, quis sair batendo com a porta. Lamentavelmente.

O seu substituto, o General Petraeus, não cometerá os mesmos erros.

12/06/2010

A DESGRAÇA AO VIVO

Filed under: EUA, Globalização, Mundo — ABM @ 8:02 pm

http://www.ustream.tv/flash/mediastream/4424524Free Webcam Chat at Ustream

por ABM (12 de Junho de 2010)

Se o exmo leitor não tiver mais nada que fazer hoje, poderá achar interessante assistir ao vivo, enquanto bebe um cafézinho, a não sei quantos mil metros de profundidade, ao maior derrame de rama de petróleo na história da Humanidade, algures no golfo do México, cortesia da empresa British Petroleum. A emissão vem-nos pela mão da cadeia norte-americana PBS.

Claro que isto tudo pode ser resolvido, se todos nós passarmos a andar a pé e a não desperdiçar electricidade e a consumir desenfreadamente.

Mas fazer isso não é civilizado, pois não? então de vez em quando a consequência é o que se vê ali em cima.

Um repucho de petróleo em bruto, ao vivo e a côres.

10/06/2010

SZUBIN VS. BACHIR, EPISÓDIO 2

Filed under: Economia de Moçambique, EUA, Política Moçambique — ABM @ 11:42 pm

por ABM (10 de Junho de 2010)

Após o quase bombástico anúncio há uns dias atrás, pelo governo dos Estados Unidos da América, de que Mohamed Bachir Suleman, cidadão moçambicano nascido em Nampula, um dos mais visíveis homens de negócios de Maputo e proprietário do emblemático Maputo Shopping Center, situado no outro lado do velho edifício da Capitania do Porto na baixa da capital, era um dos principais traficantes de droga no Sul de África, com ramificações internacionais, os relativamente pacatos habitantes da cidade aguardaram, expectantes, o que vinha a seguir.

O que veio a seguir fala muito da discrição e circunspecção com que se fazem as coisas na relativamente pacata cidade. Perante um muro de silêncio oficial, a Procuradoria Geral da República informou que iria proceder a averiguações para apurar a veracidade das acusações norte-americanas. A embaixada americana no local, que já devia estar careca de saber o que se passa, remeteu qualquer esclarecimento para um (para os moçambicanos) ministério em Washington, que nos EUA dá pelo nome de Departamento do Tesouro.

E, nas suas instalações, convidou a imprensa local para uma espécie de conferência de imprensa via satélite com o homem que, no tal Depto do Tesouro, poderia dizer algo mais sobre as gravíssimas acusações feitas contra Bachir: Adam Szubin.

A conferência realizou-se ontem a meio da tarde, em duas salas, uma para o que considera os jornalistas VIP’s locais e a outra para o que sobrava. Só os VIPs é que podiam fazer perguntas. Desde uma sala presume-se que em Washington, onde ainda era de manhã, o Sr Szubin desiludiu os jornalistas, que esperavam dados concretos sobre as actividades criminosas apontadas pelo seu Gabinete a Bachir e aos seus grupos, pois a sua frase mais memorável, e que repetiu várias vezes durante a conversa, foi I cannot comment.

Assim, independentemente de manobras de trocas de informações de bastidores que possam estar a acontecer neste momento, qualquer acto acusatório contra Bachir, a ocorrer, terá que vir das autoridades policiais e judiciárias moçambicanas.

O que pode ser complexo, por várias razões.

A mais óbvia é que, se os americanos têm razão, Bachir teria construido e ainda gere um verdadeiro império do crime debaixo das barbas de tudo e todos, sem que aparentemente ninguém tenha visto ou soubesse de nada. E isto é o equivalente de atravessar a 25 de Setembro em Maputo (para os ex, a Av. Da República) de ponta a ponta num Porsche encarnado novinho em folha a 240 kms por hora, numa segunda-feira de manhã e ninguém o ver passar.

O que é que pode fazer alguém supor que agora as coisas serão diferentes, especialmente se os americanos, publicamente, limitam-se a fazer acusações?

A segunda é que, como alguma imprensa tem insistido, Bachir é um assumido fiel do partido continuamente no poder há mais que 35 anos, e que venceu a última eleição presidencial numa proporção histórica de 80-20 contra a oposição. Visivel e materialmente, apoiou Joaquim Chissano na parte final do seu mandato, e foi e é um entusiástico apoiante do actual presidente. Os acessos de que dispõe e os relacionamentos tidos desde 1995 não são de descurar. Nesse contexto, a prossecução de uma investigação pode revelar-se logisticamente tortuosa e politicamente incómoda. Mas uma confirmação das alegações feitas será difícil de gerir, quer a Frelimo deixe cair Bachir, quer o apoie. De momento, apesar das declarações indecifráveis de Alfredo Gamito (no sentido de que o seu partido tem milhões de membros e que Bachir será apenas mais um…) o sentido das coisas é aguardar o desenrolar dos eventos.

Em terceiro lugar, e o que confundiu muita gente, foi a verdadeira natureza e o alcance do que os norte-americanos fizeram. Na sua conferência, Szubin relegou a actuação do seu governo para o plano quase puramente administrativo. Formalmente, tirando o âmbito preciso das medidas anunciadas, e o impacto político, não tem alcance algum em Moçambique. Nem mesmo sequer nos Estados Unidos. E, essencialmente, poucos entenderam do que afinal se tratava.

Mas convém entender um pouco o que é isto que aconteceu.

Os Estados Unidos, que, entre outras guerras, conduzem um duro combate há muitos anos contra o tráfico de droga a nível interno e internacional, dispõem de um muito sofisticado arsenal para conduzir esse combate.

Parte desse arsenal inclui a detecção, acompanhamento e apresamento dos fundos milionários gerados pelo negócio ilícito da droga, incluindo o combate à lavagem desse dinheiro. “Lavar” dinheiro acaba em geral por ser um ponto fraco do ciclo de enriquecimento provocado por esta actividade, dependendo dos volumes envolvidos e do país em causa. Moçambique não é famoso pelo seu combate a este problema. Mas também não é conhecido por não o ser.

Este processo é gerido em Washington a partir de um gabinete do ministério americano das Finanças, o Office of Foreign Assets Control (Mais conhecido por OFAC). O seu produto mais visível é a famosa Lista OFAC e a regulamentação que lhe está associada, imposta pelo governo norte-americano. Se alguém que estiver na Lista efectuar alguma transacção que, directa ou indirectamente caia sob a alçada do governo americano, esses valores podem ser congelados e confiscados. As empresas que facultam essas operações estão sujeitas a pesadas multas e processos em tribunal.

Claro que, neste caso, o elemento-chave é a acusação de alto perfil que foi feita pelo Director da OFAC a Bachir.

Adam Szubin não é uma pessoa qualquer. Licenciado em direito cum laude pela Harvard Law School em 1999, uma das mais bem quotadas nos Estados Unidos, ele começou a trabalhar como advogado representando o governo federal americano nos tribunais. Mas após os ataques de 11 de Setembro de 2001, ele envolveu-se em dois conhecidos casos em que duas organizações de caridade haviam processado o governo americano, que acabara de congelar todos os seus fundos sob a suspeita de estas organizações estarem a apoiar os esforços da Al-Khaeda e dos palestinianos do Hamas. O caso prolongou-se por mais que um ano, mas Szubin no fim ganhou o processo.

Mais importante, nos variados contactos feitos com as agências secretas e nas infindáveis horas que gastou (fechado numa sala em local secreto, sem acesso a telefones e com um computador especial à prova de violações) adquiriu valiosa experiência na prossecução deste tipo de crime. Em 1 de Agosto de 2006, foi nomeado director do OFAC, que emprega hoje em dia cerca de 160 pessoas e age em cumprimento de cerca de duas dúzias de programas de sanções contra países como o Irão, Myamar, o Sudão, o Zimbabué e para uma longa lista de indivíduos conhecidos pelas suas actividades terroristas ou criminais.

A tarefa de Szubin e da sua equipa é facilitada pelo facto de que muitas transacções no mundo são efectuadas em dólares americanos e através do sistema SWIFT (System of Worldwide International Funds Transfer). Cujo epicentro fica na cidade de Nova Iorque. Com um sofisticado sistema informático, todas as transacções são monitorizadas e os dados comparados com os que constam na Lista OFAC.

Para dar um exemplo, a Lista, que pode ser consultada por qualquer pessoa (os Maschambianos podem obter a lista completa aqui) esta tarde continha os seguintes dados relativos a Moçambique:

GRUPO MBS – KAYUM CENTRE, Avenida Karl Marx 1464/82, Maputo, Mozambique; P.O.
Box 2274, Maputo, Mozambique; Numero Unico de Identificacao Tributaria (NUIT)
300000436 (Mozambique) [SDNTK]

GRUPO MBS LDA (a.k.a. GRUPO MBS LIMITADA), Avenida Vlademir Lenin 2836, Maputo,
Mozambique; Avenida Karl Marx 1464/82, Maputo, Mozambique; P.O. Box 2274,
Maputo, Mozambique; Avenida 24 de Julho, Maputo, Mozambique; Benefica, Maputo,
Mozambique; Numero Unico de Identificacao Tributaria (NUIT) 300000436
(Mozambique) [SDNTK]

MAPUTO SHOPPING CENTRE, Rua Marques de Pombal 85, Maputo, Mozambique [SDNTK]

SULEIMAN, Momad Bachir (a.k.a. SULEMAN, Mohamed Bachir; a.k.a. SULEMAN, Momade
Bachir; a.k.a. SULEMANE, Mohamed Bachir), c/o GRUPO MBS – KAYUM CENTRE, Maputo,
Mozambique; c/o GRUPO MBS LIMITADA, Maputo, Mozambique; c/o MAPUTO SHOPPING
CENTRE, Maputo, Mozambique; DOB 28 Apr 1958; POB Nampula, Mozambique; Passport
AC036215 (Mozambique); alt. Passport AB030890 (Mozambique); alt. Passport
AA109572 (Mozambique); alt. Passport AA261051 (Mozambique); alt. Passport
AA291051 (Mozambique) (individual) [SDNTK]

Claro que a Lista OFAC, que vale o que vale, contém informação que não acaba, incluindo um nome sonante da Guiné-Bissau, um ex-vice-almirante. Só que no caso da Guiné-Bissau não me lembro sequer de ouvir um pio sobre o assunto.

No fim do dia, o mais significativo, ou mais descontado, do que foi dito na conversa com os jornalistas moçambicanos, foi a afirmação de Adam Szubin de que o seu Gabinete raramente se enganava e que nunca na sua existência retirou um nome colocado na Lista OFAC que foi identificado nos termos da legislação Foreign Narcotics Kingpin Designation Act (21 U.S.C, ‘1901-1908, 8 U.S.C. ‘1182 e Ordem Executiva Número 12978 de 21 de Outubro de 1995). Baseado na qual, e nos dados a que terá tido acesso, nomeou o Sr. Bachir.

Falta agora ver se ele tem razão.

19/02/2010

GRANDES DISCURSOS DA HISTÓRIA

Filed under: EUA, José Sócrates, Politica Portuguesa — ABM @ 6:21 pm

por ABM (Alcoentre, 19 de Fevereiro de 2010)

O “Prémio Maschamba 2010” para os melhores excertos de discursos feitos por grandes líderes mundiais nos últimos 50 anos vai para o último discurso.


JOHN FITZGERALD KENNEDY, 27 de Janeiro de 1961

(dirigido aos jornalistas e à imprensa em Washington. Kennedy foi assassinado em 22 de Novembro de 1963)

http://www.youtube.com/v/xhZk8ronces&hl=en_US&fs=1&


RICHARD MILHOUSE NIXON, 17 de Novembro de 1973

(defendendo-se em relação ao escândalo de Watergate. Nixon demitiu-se da presidência dos EUA em 9 de Agosto de 1974)

http://www.youtube.com/v/sh163n1lJ4M&hl=en_US&fs=1&

BILL CLINTON, 26 de Janeiro de 1998

(defendendo-se de acusações de que teria tido relações sexuais na Casa Branca com uma jovem de 25 anos, Monica Lewinski. Apesar do desgaste, concluiu o segundo mandato)

http://www.youtube.com/v/nP5FunbZvJ8&hl=en_US&fs=1&

JOSÉ SÓCRATES, 18 de Fevereiro de 2010

(defendendo-se de persistentes indícios, baseados em gravações captadas pela polícia, de que engendrou uma conspiração contra meios de comunicação social portugueses para eliminar opiniões contrárias às suas)

http://tv1.rtp.pt/noticias/player.swf?image=http://img.rtp.pt/icm/noticias/images/8e/8ea3658818203ddaf479e69df9ca60fa_N.jpg&streamer=rtmp://video2.rtp.pt/flv/RTPFiles&file=/informacao/socras_50540.flv

11/12/2009

Best New Song

MEDAL Nobel-Prize

por ABM (Cascais, 11 de Dezembro de 2009)

Com o JPT em trânsito para a Europa e a Sra Baronesa para o seu retiro de verão em Goa, a loja ficou mais vazia esta semana.

Mas o mundo não parou. Ontem, sentado enquanto bebericava um espesso café com leite, assisti ao vivo na BBC à cerimónia de entrega, pelo Comité Nobel, do Prémio da Paz ao actual presidente dos Estados Unidos, Barack Hussein Obama.

Como muitos dos exmos leitores, cresci com os sucessivos anúncios das entregas dos prémios Nobel a uma variedade de personalidades, quase sempre tudo boa gente, merecedoras dos mais rasgados elogios, nunca deixando de achar curiosa a particularidade de ser uma prerrogativa da Suécia, um relativamente pequeno país escandinavo mais conhecido pelo seu clima inclemente, pela beleza das suas mulheres e pela qualidade dos seus automóveis (Saab e Volvo), gerir e atribuir estes prémios em relação à nata da raça humana. Fazem-no há mais que cem anos e toda a gente leva aquilo muito a sério.

Uma curta pesquisa leva-nos ao seu criador, Alfred Nobel, que na primeira chance pirou-se da Suécia e foi viver para a mais mediterrânica San Remo, com uns saltos a Paris, e ao seu testamento, onde, para além de umas massas valentes para um conjunto de pessoas de que hoje não reza a história (incluindo uns pós para os seus criados e o seu jardineiro – simpático) deixou um fundo estimado, na moeda actual, em cerca de 250 milhões de USD.

Isto supostamente porque Nobel, que enriquecera obscenamente com o negócio dos armamentos e explosivos, ficara horrorizado com a constatação do que se pensava de si quando, aquando da morte do seu irmão Ludwig em 1888, um jornal de Paris por engano ter publicado o seu obituário, intitulando-o le marchand de la mort est mort, elogiando-o mordazmente pelo seu feito de ter “encontrado melhores formas de matar mais gente mais depressa que nunca dantes na história”.

Seja como for, Nobel canalizou a maior parte do seu património para instituir os prémios (apenas cinco no início) que, depois de uma série de peripécias, começaram a ser atribuídos em 1901.

A nomeação de Barack Obama para o prémio Nobel da Paz de 2009 a meu ver só pode ser contabilizada contra o credo que Obama defende desde que decidiu concorrer para a presidência dos Estados Unidos e o que a sua eleição significou para o mundo, após dois mandatos de George W. Bush e o seu quase narcisismo nacionalista (para não falar do resto, incluindo a actual recessão). Pois que – como o próprio ocupou boa parte do seu discurso de aceitação a explicar, algo eloquentemente – nem ele tem obra feita, nem se pode omitir que é um presidente e comandante-em-chefe de um dos mais poderosos exércitos na história do mundo, envolvido em duas guerras violentas neste momento e a congeminar outras tantas.

Mais do que tudo, Obama sobressai pelos valores internacionais que defendeu – internacionalismo, cooperação, de querer tentar fazer coisas novas, de promover valores fundamentais por que, aliás, os Estados Unidos se bateram praticamente desde que ascenderam à cena internacional entre a I e a II Guerras mundiais, tais como a democracia e os direitos humanos. E uma causa relativamente nova – a preservação do ambiente.

Num mundo cada vez mais globalizado e à beira de um ataque de nervos após oito anos de Bush, ainda por cima vindo do primeiro presidente mulato de um país que até recentemente lutava contra os demónios da descriminação racial e com uma história atribulada no cumprimento da sua promessa de igualdade para todos e ascendência com base no mérito, o surgimento algo inesperado deste homem na cena internacional – um mundo cada vez mais globalizado de cidadãos não brancos, terá sido uma inspiração para muitos. Vagamente reminiscente do que foi a atribuição do mesmo prémio ao grande Nelson Mandela (conjuntamente, para quem já não se lembra, a um muito menos celebrado mas igualmente meritório Frederick de Klerk) em 1993.

Mas, convenha-se dizer, se isto fossem os Prémios MTV, Obama nesta altura teria ganho apenas o prémio “Best New Song”.

Ademais, não sei se repararam que no seu longo discurso ele não disse praticamente nada sobre o Médio Oriente, a quase permanente dor de cabeça do mundo desde que acabou a II Guerra Mundial e que promete novas violências.

A ver vamos no que isto vai dar.

31/10/2009

O Meu Primeiro Halloween

Filed under: EUA, Europa-África — ABM @ 8:48 pm

lua-de-novembro

por ABM (Cascais, noite de Halloween, 31 de Outubro de 2009)

Quando em 1977 emigrei para os Estados Unidos da América, depois da sequência de eventos que levou ao que então eu me apercebia que iria ser um muito longo exílio de Moçambique (foi), saí da Estação B de Coimbra no dia 20 de Setembro no comboio Foguete com destino a Lisboa, em seguida voei para Ponta Delgada, onde tinha que cumprir algumas formalidades finais do processo de emigração junto do consulado norte-americano e aguardar luz verde para poder voar para a cidade de Boston. No dia 20 de Outubro ao fim da tarde – uma quinta-feira outonal – o voo TAP 312 aterrou no Aeroporto de Logan, repleto de emigrantes portugueses e açorianos, cheios de sacos com roupa, chouriços e agasalhos, provocando o desdenho das fleugmáticas hospedeiras.

Ao contrário da impossibilidade do regresso a Moçambique, algo involuntário mas sugestivo do fim de um capítulo, a ida para os Estados Unidos fora intencional, planeada e benvinda, pois, mais do que tudo, representava a possibilidade de retomar uma normalidade que já começava a parecer mítica. Em Portugal sentira-me um refugiado que não era benvindo nem assistido. Literalmente toda a agente que eu conhecera até então estava asilada, refugiada, pendurada e em parte incerta do planeta. Desenrascava-se e sobrevivia-se, sem qualquer perspectiva de futuro. Apesar do pronunciamento anti-comunista em Novembro de 75, quem fosse mais do que “socialista” era “fascista” e a liberdade adquirida era a liberdade de insultar tudo e todos e de poder ver um filme pornográfico num cinema perto de casa. Nessa altura até Sá Carneiro dizia que era socialista e que queria construir uma sociedade sem classes. Aquilo tudo parecia-me ser uma vasta, longa, chata, incompreensível anedota latina.

Cedo descobri que não gostava de revoluções de partir a loiça, com tropa fandanga na rua, gente rasca bem falante, oportunistas falhados em pontas de pés à busca de cunhas e favores, putas, peregrinos de Fátima em joelhos e revistas aos carros na EN1 à procura de armas, cartazes revolucionários e muito, muito sujo, tudo espapaçado nas paredes e nas ruas, comunistas de Mercedes Benz, frio, escuro e penumbra. Tudo à beira de um ataque de nervos, tudo à procura de algo em troco de nada, o povo, ainda algo macambúzio, expectante quanto às promessas da Nova Ordem, agora democrática, descolonizada, igualitária e “europeia”. Ah as promessas! pois não era que tudo o que havia de mau em Portugal fora culpa da longa noite salazarista.

Aprendi nessa altura especialmente a não gostar daquelas revoluções onde se fala muito e faz-se pouco, aquelas que nos deixavam no meio da rua à noite, à chuva, sós, a segurar na mão enregelada um saco de plástico contendo tudo o que nos pertence e que ainda nos desconfia de ladrões e ideologicamente polutos – o que no meu caso, com 15 anos, era ficção científica.

Nos EUA todos eram imigrantes ou filhos de imigrantes. Havia a promessa da inclusão, a garantia da oportunidade – e da estabilidade. Curiosamente, encontrei no ethos norte americano uma cultura de tratamento igual para todos. Lá não havia generais nem doutores nem empresários de sucesso, havia o igualitário you . Valorizava-se o mérito, a honestidade, a pontualidade, a disciplina, o dinheiro. Em média a diferença entre as pessoas era na quantia de dinheiro a que tinham acesso (cash – e em dívidas, o que foi uma novidade para mim). Havia de tudo e tudo me parecia ser barato e acessível sendo apenas necessário trabalhar e ganhar um salário. Havia casas para alugar, supermercados cheios de tudo e empregos para quem quisesse trabalhar. Em Portugal não havia.

Nos EUA de 1977 ninguém sabia que Portugal se havia separado de Espanha em 1640 – e ninguém parecia querer saber. África ficava em Marte, Moçambique em Saturno, e os negros americanos ainda não se rotulavam como african-americans. Eram apenas cidadãos americanos de pele mais escura que eram vergonhosamente discriminados pelos brancos numa espécie de apartheid com paredes invisíveis.

Nos EUA, as revoluções fazem-se todos os dias, entre o café da manhã e a hora de ir para a cama, pelas pessoas. Não havia “ismos”, nem militares a mandar, nem Conselhos da Revolução, nem constituições a dizer que todos tínhamos direito à saúde, paz, pão e habitação. Não havia canções revolucionárias (só para chatear, esta do Zéca Afonso transpira dos tempos que passou em Moçambique) nem slogans na rádio, nem jornais panfletários. Passavam a majestosa abertura de John Williams para o Episódio 3 de Star Wars e os sucessos dos Bee Gees.

Era outro mundo.

Uma semana depois de chegar aos EUA, quando a mãe BM chegou a Boston no mesmo voo dos Açores, já tinhamos arranjado emprego, escolas, carro, casa, mobília, até uma televisão a cores (uma RCA) e uma torradeira daquelas que só os americanos podiam inventar, que fazia 4 torradas ao mesmo tempo. Quando ela entrou no pequeno apartamento que já tínhamos decorado modestamente, ela chorou durante meia hora, pois depois de Moçambique, há dois anos que vivia acampada em quartos de casas de estranhos contrariados sem saber o dia de amanhã.

Na segunda-feira seguinte era dia 31 de Outubro. No liceu local eu re-iniciara os estudos (inacreditavelmente, começara quatro anos antes no Liceu António Enes, depois Liceu Salazar/5 de Outubro em Maputo e em Coimbra no Liceu Infanta Dona Maria – sem chumbar um ano). Aí avisaram-me que este era dia de Halloween e se eu me queria ir juntar aos colegas à tarde para fazer trick or treating . Trique ou triting? do que é que eles estavam a falar? claro que esta, que é a parte principal do Halloween, que hoje, um tanto enigmaticamente, se comemora em Portugal, não se faz, e que consiste em ir de porta a porta pela vizinhança, mascarado de bruxo ou de abóbora, a pedir um trick (uma habilidade, que ninguém fazia) ou treat (um rebuçado ou chocolate). As pessoas preparavam-se de antemão de forma a que nessa noite tenham em casa um caixote cheio de rebuçados e chocolates que dão aos míudos que batem incessantemente à porta. À noite a televisão passava uns velhos filmes estilo “sexta feira, dia 13” com muito sangue, gritaria e facadas no peito, que os miúdos vêm juntos, também aos gritos. Nessa noite cheguei a casa com um enorme saco cheio de treats.

Confesso que na altura achei aquilo tudo completamente estranho. Mas com o tempo a tradição entrou na família, tal como o feriado do Thanksgiving, daqui a três semanas e meia.

Uns anos mais tarde passei a associar a noite de Halloween a um evento bem mais triste, pois foi nessa noite, em 1982, que o meu colega moçambicano, o Rui Abreu, se suicidou na cidade norte-americana de Cleveland, não muito longe de onde eu vivia. A mãe dele, Mercedes, de Tete, faz anos no dia seguinte, 1 de Novembro.

30/10/2009

George Bush e Barack Obama

Filed under: EUA, Globalização — ABM @ 1:31 am

(por ABM) Cascais, 28 de Outubro de 2009

Este é o segundo de dois programas que recomendo vivamente que veja.

O contexto é este: a maior parte de nós que assistimos à eleição histórica de Barack Hussein Obama para a presidência dos Estados Unidos da América associa a esse evento duas coisas: a saída de George Bush 2 da cena, uma maior moralização da política externa norte americana, e a promessa de uma saída mais limpa dos exércitos norte-americanos do Médio Oriente. Enquanto isso, a economia americana, dramaticamente nos últimos meses do segundo mandato de Bush, quase entrou em colapso – e com ela o resto do mundo.

Mas há uma muito mais importante história que aqui é escalpada: a do que aconteceu ao défice norte-americano. Como ele cresceu, onde ele está, e com o que é que os EUA e o resto do mundo se confrontam neste momento e no futuro. Isolado, só este tópico vai ser um dos maiores, senão o maior, desafio para Barack Obama – já o é. Ao ponto que, cedo no seu mandato, alguns assistiram com alguma surpresa a um presidente Obama a dizer na televisão que o maior problema de longe dos Estados Unidos era … a questão do sistema de saúde nos EUA.

O sistema de saúde?? então e as guerras, o Irão, Israel, etc?

Este programa indica-nos que, para além das demais prendinhas deixadas por Bush, foi uma quase incompreensível série de medidas de simultaneamente a) aumentar dramaticamente a despesa do governo com duas guerras (Iraque e Afeganistão) e um brutal aumento nas despesas do governo com um plano médico para a terceira idade e b) dois cortes muito significativos nos impostos. O buraco foi sendo pago pela compra de dívida do governo por estrangeiros, de que se destaca a … China (eu se tivesse que inventar isto não conseguia). Ou seja, os norte-americanos devem montanhas e montanhas de deinheiro ao estrangeiro. Por causa disso o mapa financeiro do mundo mudou radicalmente e o valor do dólar oscila como erva ao vento.

Acho que sem se entender esta dinâmica, não se conseguirá entender o que foi que Obama encontrou e com que tem que lidar nestes próximos tempos. Pois antes de ser líder mundial, ele é presidente dos EUA.

Conseguirá Barack Obama aligeirar os efeitos quase devastadores do que Bush fez? como dizem os árabés, inshallah. Ou nós, oxalá.

Este programa, da PBS, foi para o ar em 29 de Março de 2009, mas mantém toda a actualidade. Em inglês, dura 54 minutos. Veja enquanto bebe um cházinho de tília.

O Segundo 11 de Setembro

Filed under: EUA, Globalização — ABM @ 12:51 am

por ABM (Cascais, 29 de Outubro de 2009)

Enquanto me vou aprendendo e surpreendendo com o que existe na internet, tento utilizar o que encontro para tentar melhor entender o mundo que nos rodeia, o que acontece e porquê.

Há cerca de um ano, pouca gente se apercebeu de que o mundo esteve a um fio de cabelo de uma catástrofe económica (e, logo, política e social, eventualmente militar) sem precedente na história da humanidade. Curiosamente, o início e o desenrolar desse desastre oribinou nos sagrados corredores do capitalismo norte-americano: Wall Street, Nova Iorque, e Washington, a capital federal dos Estados Unidos.

Alguns dos leitores do Maschamba, que tem uma firme “verve” cultural e histórica, poderão à primeira pensar que perceberam o que aconteceu, ou então que não perceberam mas não querem perceber, ou que não perceberam, ou que nem são capazes de o fazer.

Ou ainda que isto pode não interessar.

Deixem-me dizer o seguinte de forma clara: o que aconteceu nos sete meses entre Março e Outubro de 2008 – e cujos efeitos ainda nem de perto estão resolvidos em todos os cantos do mundo – vai ser tópico de conversa durante décadas. Os vossos filhos e netos um dia vão perguntar-vos o que é que aconteceu em 2008.

E nós estávamos cá.

Porque nunca na minha vida – e eu tenho quase 50 anos de idade e já assisti a guerras, descolonizações, recessões, todo o tipo de tragédias – estivemos todos nós tão perto, tão perto de, de um momento para o outro, passarmos de uma vida de relativo conforto e de expectativa de normalidade, para o maior caos, miséria e total desorientação.

Todos nós, onde quer que estivéssemos.

Talvez por isso valha a pena ver o que foi, e como foi, desde a falência da firma de investimento Bear Stearns, à falência da firma Lehman Brothers, e o que aconteceu logo a seguir.

O vídeo que está em cima, em inglês e que dura uns “meros” 56 minutos e 23 segundos, com a maior das clarezas, calmamente e com uma qualidade fenomenal, explica tudo. Foi produzido para a cadeia de televisão pública norte-americana PBS (sim, há uma nos EUA) e exibido no programa Frontline, um dos meus favoritos de sempre.

De vez em quando valer a pena tentar perceber o que se passa com a economia. A cultura enche-nos o espírito e a alma. A economia ajuda-nos a pôr o pão na mesa para nós e as nossas famílias.

Esta é uma lição de humildade e também de como todos dependemos uns dos outros. Frequentemente de formas que nem sonhamos.

Na realidade o título acima é apenas uma leve provocação. Na verdade, o ataque terrorista ocorrido no dia 11 de Setembro de 2001 foi um piquenique de crianças comparado com o que aconteceu em 2008.

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