THE DELAGOA BAY REVIEW

29/03/2010

JOSÉ GIL, MOÇAMBIQUE E A CARNEIRADA

José Gil de Quelimane, português via Paris



por ABM (Cascais, 29 de Março de 2010)

Que José Gil (que agora se reformou formalmente do seu emprego como professor numa universidade de Lisboa, após a habitual e orgiástica última aula de sapiência) tenha escrito um interessante livro dedicado a examinar o espírito doentio de carneirada dos portugueses residentes in lusus rectangulus é uma coisa. Como quase nada de fundamentalmente relevante funciona neste país dos portugueses (nos noventa e nove menos o um por cento de Olivença, que na verdade parece que já nem sequer isso é) e nada se pode fazer para curar o mal, há toda uma literatura dedicada ao tema dos defeitos dos portugueses e de Portugal.

Creio que esta longa e sempre florescente actividade livreira assenta numa subrreptícia necessidade neuro-terapêutica de delírio da cura pelos compradores destas obras: definir a doença e prescrever a cura.

A alternativa, em tempos menos complicados, claro, é simplesmente a de emigrar. Lá fora ou cá dentro.

E quanto mais ilustre o escriba, melhor. E nessa óptica, Gil, que nasceu em “Quilimani” e cresceu em Moçambique, é entre o melhor. Corta o podre chouriço nacional com a perícia de um cirurgião – ou será a perfídia do Dr. Jekill?

Mas há nestes, e não entendo bem, a tentação de passar da análise ao aconselhamento para a cura (Eça teve-a bem mas resistiu, deixando-se por Paris e pela aceitação da alguma beleza na mediocridade, o que considero supremamente irónico da sua parte – ou a suprema expressão da sua ironia na Cidade e as Serras). Gil não resistiu e escalpeliza a talvez menos subtil qualidade de muitos portugueses – a inveja.

Cuja melhor resposta, claro, é o mesmismo, a falsidade e a mediocridade.

Pois desses ninguém pode possivelmente ter inveja.

Não sei porque faz isso. Pois por definição está na natureza da carneirada ser carneirada, ignorar a sua condição e muito menos buscar formas de a alterar. A essência da carneirada está, mais do que no seu estatuto, na sua satisfação com o statu quo. Portanto vir para aqui dizer que há problema e qual é a (sempre dura, sempre penosa) solução, é, reconheçamos, terapéutico mas pouco político.

É precisamente por isso que, quando a mudança vem, vem sempre e apenas porque a mudança vem de fora, seja por invasões espanholas, francesas ou inglesas, pelas hecatombes da economia mundial, pelas delegações do FMI que nos pôem a ferro e fogo, ou pelo mais reles copianço das modas estrangeiras, importadas por alguns iluminários da casa.

Interessantemente, após a sua aula de despedida (que cá mete jornalistas, despedidas carpideiras como se o visado fosse para o céu e uns copitos e rissóis pelo meio) o Dr. José deu uma “grande” entrevista” ao Bruno Mateus do Correio da Manhã, que a publicou ontem, e em que ele diz umas coisas giras e, numa frase lapidar que deixarei ao Maschambiano mais atento a tarefa de a encontrar, o que ele acha do seu Moçambique.

Também gostei da mentira em que ele às tantas diz que não liga ao que dizem dele.

A entrevista de Gil, feita por Mateus, com vénia:

“Fez parte das elites intelectuais em frança nos anos 50, 60 e 70. Hoje, com 71 anos, o filósofo que acabou de dar a sua última aula na universidade analisa: “os portugueses não se interrogam muito sobre qualquer que seja o acontecimento da sua vida”.

– Nesta fase da sua vida, sente que o País precise de si como filósofo?

– Não, porque o País não precisa de um personagem qualquer salvador. Eu não faço a união, há muita gente que pensa contra mim e que não suporta o que eu digo.

– Disse na sua última aula que “as pessoas pensam sozinhas”. Por que é que os portugueses pouco questionam as grandes decisões do Governo?

– Os portugueses não se interrogam muito sobre qualquer que seja o acontecimento da sua vida, da vida social, da política.

– Somos um povo inteligente?

– Com certeza. Temos é uma infelicidade, por razões sociais: Substituímos a nossa inteligência – como povo que produz génios, intelectuais, cientistas – pela esperteza. Pior: Pela esperteza saloia.

– Nota isso na nossa governação?

– Absolutamente. Há qualquer coisa mesmo do espertismo saloio no próprio discurso político em Portugal. Foi um chico-espertismo toda – ou quase toda – a propaganda que o Governo fez antes das eleições, para imediatamente a desmentir.

– Falta memória aos portugueses?

– Falta. E falta talvez por um apego que os portugueses têm a um presente, que vale por si. Não estamos a pensar no passado, como nas sociedades rurais que estão a desaparecer. E como nas sociedades modernas – que ainda não somos – não estamos a pensar sempre no futuro.

– Teme pelo futuro?

– Só um tonto não teme pelo futuro. Os nossos dirigentes temem. Nós vivemos num clima ameaçador. De quê? De que realmente aconteça a catástrofe que é a perda do adquirido na qualidade de vida, nas expectativas, em tudo.

– Alguma vez teve medo de perder a sua reforma, como muitos têm?

– Vejo à minha volta muita gente que pensa que depois de 30 anos de trabalho não vai ter reforma. Se todos vão ser punidos pelas medidas que estão a ser tomadas, por que é que eu não haveria de ser?

– Disse que o auditório que assistiu à sua última aula estava a abarrotar por causa da “falta de acontecimentos” no País. Não acha que sejamos um povo de filosofar?

– Não se filosofa por razões interiores, é por acontecimentos externos a nós que nos abanam, que nos violentam o pensamento, e somos obrigados a pensar. Não temos muitos filósofos talvez porque há uma pregnância extrema da religião e talvez da poesia, que pretendem dar respostas àquilo que os filósofos se interrogam.

– Fale-me do medo. Pela primeira vez, na democracia nacional, sente que se caminha para um estado de medo do primeiro-ministro José Sócrates?

– As sondagens mostram o contrário. Mas elas são paradoxais porque o medo em relação ao futuro é maior hoje. A confiança em relação aos dirigentes, em geral, não me parece aumentar. E no entanto as sondagens dão uma confiança sólida constante que os portugueses manifestam em relação ao primeiro-ministro.

– Será também por falta de Oposição?

– É certamente falta de Oposição, que está em frangalhos. Mas é sobretudo resultado do medo que os portugueses têm de se encontrar perdidos. Nós estamos sob um clima ameaçador e estamos cada vez mais perdidos. Resta-nos um homem que aparece aí sabendo que o futuro vai ser bom. E os portugueses agarram-se a ele.

– E podemos confiar nele?

– Sócrates já passou a símbolo de único alicerce. É por isso que não se vai embora.

– É propaganda?

– Não. É o que uma personalidade e um discurso firmes, com certezas, provoca como efeito em pessoas perdidas.

– Isso serve os nossos interesses?

– Claro que não serve. Claro que se de repente tirar esse homem, cai tudo para o lado. E fica tudo ainda mais caótico.

– E está a construir alguma coisa?

– Está-me a levar agora para uma discussão sobre a política geral do Governo de Sócrates e do PS, não é?

– E não quer entrar por aí!?

– Não, é muito longo.

– Muito bem. Orgulha-se de ter pertencido à classe dos professores?

– Não é bem orgulho, tenho “fierté”, esse brio interior de pertencer a uma corporação em que o trabalho é para a comunidade. Ver, de repente, um aluno a abrir-se para qualquer coisa é um espectáculo extraordinário. Infelizmente não se dá a importância na sociedade aos professores.

– São maltratados?

– Foram. Há bastante tempo, mesmo antes do Governo de Sócrates e da ministra Maria de Lurdes Rodrigues ter devastado o ensino, no meu entender.

– E continuam a ser?

– Ainda não se viu. É demasiado cedo.

– Publicou em 2005 o best-seller ‘Portugal Hoje – O Medo de Existir’, considera-se popular?

– Popular é ser uma ‘star’ qualquer.

– Já se googlou? Procurou na internet saber o que se diz sobre si?

– Não. Já me fizeram ver o que dizem de mim na internet. E não me interessa.

– O que diziam de si?

– Sei lá. Repartia-se entre agradecimentos e o total desprezo pelo que digo.

– O que fez José Gil a este País para que se lesse o seu ensaio filosófico?

– Eu não tenho resposta para isso. Certamente que o tema interessa aos portugueses. E talvez porque consegui ser claro.

– E atingiu os medos das pessoas.

– Acho que sim. Isto resume-se numa frase: Temos extraordinárias potencialidades e múltiplos factores históricos e sociais que criaram em nós uma cultura de medo, o que inibe as nossas potencialidades de nos exprimirmos.

– A Economia será um dos inibidores?

– Será um factor maior. Além do medo de se exprimirem, existe um medo económico, que inibe o primeiro. Sabe aquelas imagens que vemos da Grécia?

– Teme uma convulsão social cá?

– Não tenho resposta. Acredito que possa haver muito mais manifestações de rua.

– Como vivem os partidos de Esquerda em Portugal?

– Partidos como PCP e o BE vivem numa espécie de equívoco interno, pelo facto de as suas críticas a tudo o que é de Direita se fundarem em qualquer coisa que é o Marxismo, sem que possam propor uma alternativa. O Marxismo não se renovou numa teoria do poder, por exemplo. Então, quando se pergunta qual a alternativa global que o PCP propõe para Portugal, o que vamos ter como resposta? Uma segunda União Soviética mas à maneira portuguesa? Está a ver que isso não dá.

– Onde é que se situa politicamente?

– Situo-me politicamente na Esquerda que não existe. Mas a Direita tal como nós a conhecemos tradicionalmente, o funcionamento do capitalismo, é para mim um dos factores de caotização da sociedade.

– Em quem vota?

– Não me pergunte. O meu voto é muitas vezes circunstancial. E infelizmente muitas vezes o meu voto é negativo. Voto em A porque não quero votar em B.

– O seu livro ainda está actual?

– Não sei. Muita coisa mudou, certamente. Mas as estruturas profundas que entravam esse dinamismo que devia haver na sociedade devem ter permanecido.

– É um homem de paixões?

– Ah, sim. Para mim a vida é fundamentalmente paixão. Quer dizer, um desencadear de energia que pode ser por exemplo a paixão pela criação. Isso abre uma liberdade.

– Está apaixonado pela vida?

– Eu não estou apaixonado pela vida. Se eu a vivesse como vivi… A vida deve ser vivida apaixonadamente.

– Por que é que fala no passado?

– Porque eu vivi um período colectivo, em França, único: Os anos 50, 60 e 70. A paixão intelectual atravessou milhares de pessoas. Foi o momento em que, em Paris, tudo se transformou – artes, cinema, literatura, filosofia, antropologia.

– O facto de ter nascido em Moçambique influenciou o seu pensamento?

– Certamente. E das maneiras mais esquisitas, não foi propriamente só de maneira harmoniosa. Por difracções, por desfasamentos entre a língua e o Sol e a geografia. Entre os espaçamentos entre uma comunidade negra imensa e ilhotas, que eram os brancos.

– Sentia-se apartado?

– Não. Mais tarde, aos vinte e tal anos, quando pensei nisso, verifiquei que ali havia qualquer coisa que me era interdita de viver. Mas que eu não sentia como falta.

– Voltou para Portugal há 29 anos; Gostava de ter ficado em França?

– Houve um tempo em que eu teria dito imediatamente que sim. O rumo do meu pensamento modificou-se sobretudo por falta de bibliotecas em Portugal. Mas, ao mesmo tempo, a sociedade francesa é muito fechada aos estrangeiros. Eu nunca pretendi ser francês.

– O que resta hoje da sua família?

– Eu tenho uma grande família portuguesa do lado paterno e do lado materno. Já não via familiares da Beira, naquela região do Fundão, há muito tempo e há dois anos fui lá. Eu próprio tratei as pessoas como se tivesse deixado de as ver na véspera.

– Gosta dos seus 71 anos?

– A minha idade cronológica não corresponde a outra idade que não sei qual é, mas que é a idade de vida. Eu serei velho pela idade, mas não me sinto velho.

“A LITERATURA É UMA ACTIVIDADE QUE EM MIM É FRUSTRADA”

– Gostaria de ter seguido por uma área das Belas-artes? A sua mãe era poeta.

– Tenho três romances pequeninos publicados. A literatura é uma actividade que em mim é frustrada porque não segui por aí. Mas durante muitos anos, quando eu era novo, eu hesitava entre a filosofia e a literatura.

– Imagino que hoje já não hesita!?

– Hoje não hesito.

– Mas desde que deixa o ensino tem portas abertas para fazer o que quiser.

– Absolutamente. E é verdade que eu penso no que está a dizer.

“NÃO TENHO BEM IDEIA DO QUE FIZ”

– Na sua última lição não fez um balanço. Porquê?

– Porque em Portugal não há verdadeiramente uma comunidade filosófica. Eu não tenho bem ideia do que fiz e do que pude transmitir. Foi uma surpresa ver na última lição tanta gente. Se eu soubesse fazer o balanço, talvez não me devesse surpreender.

– Não lhe serve de balanço ter sido nomeado um dos 25 mais importantes pensadores do Mundo?

– Não me sobe à cabeça essa classificação. Eu tenho a consciência de uma certa singularidade até pelo que eu deliberadamente não faço: Quando há qualquer coisa já dita, já feita, eu não repito.

PERFIL

José Gil, 71 anos, nasceu em Moçambique. Em 1957 veio para Lisboa estudar Matemáticas. Mas depressa mudou para Filosofia e licenciou-se em Paris. Há 29 anos regressou para Portugal como professor de Filosofia na Universidade Nova de Lisboa, onde deu a sua última aula a 10 de Março último. É autor de vários livros, entre eles o best-seller ‘Portugal Hoje – O Medo de Existir’ (ed. Relógio d’Água).

(fim)

Numa entrevista ao Público em 3 de Janeiro deste ano, Gil fez uns comentários curiosos, em que não me revejo de forma alguma mas que diz algo da sua experiência moçambicana:

O primeiro: “O nosso vocabulário lá [em Moz] era para os lírios do campo, que não existiam lá. Cantávamos canções na escola primária, que era sobre o campo, em Portugal. Portanto, vivíamos em distância”.

O segundo: “O facto de existirem criados cria nos filhos de colonos uma horrível noção de se julgarem eleitos. Sabe o que é ter cinco criados, alguns deles com barbas brancas, e você, com três, quatro anos, dá-lhes ordens?”. E conclui: “ Fica julgando que é rei do mundo. E isso continua. Isso forma-o. É um estrato que lhe provoca o pior. Uma consciência de uma suprioridade que não tem. Nada lhe permite esse sentimento de superioridade. Não tinha esta consciência, mas tinha este sentimento. Como todos os brancos.”

Bolas. Os BM deviam ser os únicos brancos do Moçambique colonial que praticamente não tinham criados. Tivemos um ou outro, por pouco tempo, nunca resultou, e um deles uma vez deu-me uma valente bofetada por eu lhe ter feito não sei o quê e a seguir ia levando outra da minha mãe. O que não é bem aquela cena do patrão colonial cabrão de que tanto se gosta de protagonizar. Lá em casa também não se deambulava sobre as implicações sócio-culturais da relação de forças entre o criado preto e o patrão branco e as ilacções cósmicas para ambas as partes e o mundo. E é uma pena, porque hoje daria panos para mangas e até está na moda regurgitar sobre isso.

São as memórias autobiográficas.

Mas é bom saber que havia gente como o Zé que lá em casa tinha cinco criados e que deixavam os putos de quatro anos dar ordens neles. Se eu fosse preto, assim, eu até eu matava tudo para me libertar.

Ou melhor, nas circunstâncias, para escolher outro jugo.

Pois cedo se descobre que na verdade na verdade, qualquer relação de subjugação tem surpreendentemente pouco a ver com a cor da pele. Tem muito mais que ver com o respectivo grau de estupidez das partes envolvidas. E que o “colonialismo” era apenas a codificação temporária da estupidez de uma geração numa dada era. Enfim. Os romanos tinham escrevatura, n’est ce pas?

Adorei ler o, e sobre o, Zé Gil, mas como ele não quer saber no Gúgele o que dizem dele, ele nunca vai saber disso.

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