THE DELAGOA BAY REVIEW

11/02/2012

RICARDO RANGEL E MALANGATANA, ANOS 1960

Foto de João Costa, restaurada.

 

Ricardo Rangel e Malangatana.

09/01/2012

A HISTÓRIA DA FOTOGRAFIA DE MOÇAMBIQUE – EM FOTOGRAFIA

Fotografia de Sérgio Santimano, gentilmente cedida.

Encontro de repasto moçambicano na portuguesa Costa da Caparica, 2011. Da esquerda: Bruno, Paula, Luis Carlos Patraquim, Joaquim Carlos Vieira, Kok Nam,Ângelo, José Luis Madeira e mulher, Alexandre Pomar e Sérgio Santimano.

14/12/2011

RICARDO CABRAL E KOK NAM, ANOS 80

Filed under: Fotografia Moçambique, Kok Nam — ABM @ 1:44 am

Foto do Ricardo Cabral.

 

Um jovem Ricardo Cabral com Kok Nam, fotógrafo virtuoso de Moçambique.

23/06/2011

UMA NOTA SOBRE OS CABRAL DE MOÇAMBIQUE

José Cabral, Governador-Geral de Moçambique, 1926-1938 e Governador do Estado da Índia, 1938-1945.

Este texto é decalcado de um comentário que fiz hoje num outro blogue onde escrevo.

José Cabral não deu apenas o nome ao parque que aliás ele mandou criar com base num pedaço da então Concessão Sommershield, e que hoje tem o nome de Parque dos Continuadores. Nem tão só à rua lá em Nampula ou a Vila Cabral.

Nunca o estudei atentamente. Mas o tenente-coronel José Cabral foi Governador-Geral de Moçambique entre 1926 e 1938, tendo apanhado em cheio com os efeitos da Grande Depressão mundial na então colónia. O advento da Grande Depressão em Moçambique trouxe com ele enormes pressões nomeadamente no mercado de trabalho, que tiveram contornos raciais graves e com enormes repercussões então e para o futuro.

Cabral foi em seguida Governador da Índia entre 1938 e 1945 (no que sucedeu Francisco Craveiro Lopes, pai de Nuno, que desenhou a Igreja de Santo António da Polana e foi Presidente da República) tendo aí apanhado em cheio com a II Guerra Mundial e em que Goa e Mormungão eram dos poucos portos neutrais disponíveis.

Não lhe conheço uma biografia, o que é uma pena.

José Cabral fez muita coisa. Refiro apenas algumas.

Uma foi que mudou o então Museu Provincial da Vila Jóia, desenhado para residência do cônsul Pott (e onde actualmente está sediado o Supremo Tribunal da República de Moçambique) para o edifício onde se situa, que era para ser uma escola primária mas que foi convertido para um museu, que se chamou Álvaro de Castro, nome de um anterior Governador-Geral. Com a Independência, o museu alterou a designação para Museu de História Natural, e muito ficou a dever ao Augusto Cabral, um seu descendente, que o dirigiu entre 1979 até à sua morte em 2006.

Este Augusto Cabral supostamente foi o patrono crucial do artista Malangatana quando este primeiro abordou as artes.

José Cabral conhecia Moçambique relativamente bem, pois, quando era capitão, fora nomeado Governador de Inhambane logo após a República ter sido proclamada em Lisboa, em finais de 1910. Nessa altura, presidiu à conclusão da linha férrea entre Mutamba e Inhambane e à construção da ponte-cais daquela cidade.

Foi José Cabral que assinou o Diploma que criou em 1936 (Nº de 26 de Agosto de 1936, com o entusiástico apoio do Eng. Francisco dos Santos Pinto Teixeira) a Direcção de Exploração dos Transportes Aéreos, a DETA, uma divisão dos Caminhos de Ferro de Moçambique, que, muitos anos mais tarde, se tornou na actual LAM. Efectivamente, esta foi a primeira linha aérea portuguesa.

Com o Diploma Legislativo Nº 238 e a Portaria Nº 1044 de 18 de Janeiro de 1930, assinados por José Cabral, foi criado pela primeira vez o ensino normal escolar para a população indígena de Moçambique – enfim uma versão básica do ensino dado em Portugal, muito baseado na visão (racialmente tingida, como era normal na altura) e trabalho de Solipa Norte, que ajudou a criar a primeira escola particular em Moçambique em 1898 e que fora, desde 1919, Inspector da Instrução Primária de Moçambique.

Com o Diploma Legislativo Nº 36 de 12 de Novembro de 1927, José Cabral redefine de forma muito mais abrangente o conceito previamente mais restrito de “indígena”, que fora e viria a ser alvo de enorme controvérsia, especialmente pela população mestiça das cidades (ver um trabalho interessante de Zamparoni sobre o assunto), conceito esse que foi essencialmente espelhado no Acto Colonial de 1930 e integrado em 1935 no texto da constituição portuguesa. Pelo meio, tricas sem fim, com Raúl Honwana, João Albasini e Karell Pott pelo meio, que acusavam os Cabrais de tentarem dividir negros e mestiços na luta pela igualdade racial (sobre o primeiro Augusto Cabral, ver em baixo).

O Governador-Geral de Moçambique pouco depois da sua tomada de posse.

Pouco após a sua chegada a Lourenço Marques em 1926, o Governador-Geral viu-se envolvido numa célebre luta com os interesses do alemão Hornung e a sul-africana WNLA pelo controle do negócio agrícola, muito ligado aos esquemas de exploração da força de trabalho nativa de Moçambique. Em resultado desse conflito, que envolvia a criação de um enorme projecto agrícola no Umbelúzi, e que perdeu, Cabral chegou a oferecer a sua demissão, o que não aconteceu.

Com o Decreto 16.119, em 1929, aboliu o chibalo. Para se perceber melhor porquê e para quê, veja-se a tese de doutioramento de Zamparoni, 1998. Aquilo naquele tempo era inacredtivável.

Há outros membros da poligonal Família Cabral que merecem referência.

Augusto Cabral

Um é o de António Augusto Pereira Cabral, que foi Secretário Civil do Governo de Inhambane (nomeado antes de José Cabral ter sido nomeado Governador de Inhambane) e que era creio que irmão deste. Em 1910 António publicou uma codificação dos usos e costumes das populações de Inhambane. Em 1915 foi nomeado Director de Serviços dos Negócios Indígenas, lugar que ocupou durante cerca de vinte anos seguidos e que ainda ocupava quando José Cabral foi nomeado Governador-Geral por João Belo, então o último Ministro das Colónias da primeira república, que conhecia Moçambique como as palmas da mão, tendo lá vivido cerca de trinta anos (após a sua morte súbita em Janeiro de 1928, o porto de Xai-Xai teve o seu nome).

Outro é o de José Cabral, nascido em 1952, e que é considerado um dos fotógrafos de referência de Moçambique, juntamente com o Ricardo Rangel e o Kok Nam. O Zé vive em Maputo, onde pratica a sua arte. De quem é filho não sei.

Decididamente, este é um assunto que daria quase um estudo de família. De uma família com uma ligação clara a Moçambique e que parece reflectir tudo aquilo que nos aconteceu de glorioso e de infame no século XX. Tópico não para uma nota de rodapé como esta mas para algo mais substancial.

 

 

30/11/2010

KOK NAM E A ENTREVISTA SOBRE A ENTREVISTA

ABM & El Grande Kok Nam, Lisboa, 2010

por ABM (30 de Novembro de 2010)

Na sexta-feira passada foi lançado em Maputo um livro sobre o Sr. Kok Nam, fotógrafo célebre de Moçambique. Na altura, mais precisamente com data de 25 de Novembro, o jornal maputense A Verdade publicou uma entrevista com António Cabrita, aparentemente a alma por detrás deste projecto.

Que li.

Esta obra, que pelos vistos foi patrocinada pela Escola Portuguesa de Maputo, foi baseada numa única entrevista de quatro horas que António Cabrita, segundo o jornal um docente que volta e meia publica uns escritos, fez com Kok Nam. E insere-se na intenção da Escola de fazer por ano entre uma e três obras sobre moçambicanos que fizeram a ponte entre o colonialismo e a independência de Moçambique (ah grandes contribuintes portugueses!).

Quanto a este assunto, é melhor mexerem-se depressa senão daqui a nada não há ninguém para entrevistar.

António Cabrita disse algumas coisas que anotei:

– que, devido ao rápido crescimento populacional, especialmente nas cidades, que na preponderância mental dos jovens moçambicanos o passado, tirando aquele discurso oficial que lhes é servido nas sebentas, inexiste. Não há contraditório nem versões variantes. E mesmo esse já é lido de esguelha;

– que haveria a percepção de que o português do Sr. Nam era menos que perfeito. Ora isto se não é racismo está lá perto. O português do Sr. Nam é melhor que o meu e sempre foi. Ele parecer chinês é porque se calhar os antepassados dele eram (não é?). Aliás houve uma considerável e fantástica comunidade de origem chinesa em Moçambique até 1975. Só que a maior parte já havia fugido do comunismo uma vez e não quiseram ficar para se sujeitarem a um novo comunismo. Mas enfim;

–  Kok Nam terá passado a fase apaixonada dos anos de Samora algo distanciado, afirmando que, no entanto, a retórica do primeiro presidente “dava para ressuscitar um cadáver”. Acho que Cabrita aqui sugere que, por isso, Nam nunca terá sido bafejado pelos favores do Regime. Ou se calhar não percebi;

– acho que muito correctamente, Cabrita apontou que, apesar de existir todo um trabalho se calhar único de documentação de imagens da fase após a independência, que quase tudo permanece dentro de caixotes não se sabe bem onde (tens razão, porrada neles, António);

– que, interrogando cerca de 150 jovens moçambicanos alunos sobre o que tinha sido o Holocausto (o massacre sistemático dos judeus na Europa por parte do regime Nazi durante a II Guerra Mundial, em que foram mortas cerca de 6 milhões de pessoas) só um sabia do que ele falava. E um perguntou se “Holocausto” era uma marca chinesa de arroz.

Do que conheço de Kok Nam, oitenta horas de entrevistas não chegava para obter o sumo da sua sapiência. Mas quatro é melhor do que nada.

A ver vamos se esta obra aparece nas margens sonolentas do Tejo.

24/11/2010

MONUMENTAE MOZAMBICUS INSULAE

A lápide por cima da entrada da Fortaleza de São Sebastião, na Ilha de Moçambique.

por ABM (24 de Novembro de 2010)

O Sr. Paulo Pires Teixeira, que em tempos idos jogava hóquei no Clube Ferroviário de Nampula ( nas fotos, é o miúdo vestido de branco), outro dia mostrou um conjunto de fotografias da Ilha de Moçambique, de que as que estão em baixo são apenas uma amostra. Foram tiradas há cerca de um ano.

Eu nunca visitei a Ilha de Moçambique, mesmo tendo tido a oportunidade, porque o que me dizem daquilo é desencorajador: que está uma desgraça, gente a mais, fezes ao ar livre, tudo em ruínas. Na minha mente, guardo as imagens das deslumbrantes fotografias a preto e branco do Carlos Alberto pai, tiradas nos anos 60 e 70, quando aquilo estava um brinco. E espero por melhores dias. Que tardam a vir.

Mais ou menos. Se o exmo. Leitor observar os registos em baixo do Paulo Teixeira, espero que descubra nelas a beleza e a história que eu vi.

Se há um ponto físico onde se fez a história de Moçambique, e de Portugal, foi ali na Ilha de Moçambique. Foi o ponto absolutamente nevrálgico para tudo o que se fez a partir do início do século XVI, rivalizando apenas com Goa, que por sua vez não se aguentaria sem esta praça na retaguarda.

Paulo Teixeira tem como objectivo fazer um trabalho sobre a Ilha, o seu passado, as suas gentes. Um projecto monumental, que deverá chegar aos dez volumes. É um projecto a médio prazo. Para tal, ele já obteve muitos dados em vários pontos do mundo (é desconcertante constatar que se calhar onde se encontra menos é na própria Ilha).

Para tal, ele gostaria de obter mais dados – testemunhos, fotografias de família, registos escritos, de quem tenha, ou tenha tido, ligações com a Ilha de Moçambique, ou quem saiba onde haja informações dignas de serem vistas. Deixo aqui o desafio ao eventual Maschambiano que tenha dessas coisas na gaveta lá em casa. O Paulo agradeceria. O contacto de correio electrónico dele é pptfdv50@gmail.com.

E em troca, em baixo, coloco algumas das suas fotografias, as que mais me seduziram.

São um encanto.

Janela de uma casa da Ilha.

Uma coluna meio decrépita.

Isto cheira-me a base de estátua que foi banida.

Fachada de uma casa.

Outra fachada de uma casa.

Entrada de uma casa.

Isto não sei o que é mas com bandeira nacional deve ser qualquer coisa do governo.

O velho palácio do governador.

O altar da capela do Palácio de São Paulo.

Vitral da capela do Palácio de São Paulo.

Gradeamento junto do Palácio.

Pórtico à entrada da Igreja da Misericórdia.

Uma das ameias da Fortaleza de São Sebastião

Decoração indo-portuguesa num dos portões

Um dos portões do Palácio

O Cais Principal. Segundo o Paulo, está em reabilitação.

A sede do Sporting Clube Ilha de Moçambique. Ora eis um bom projecto de reabilitação para o nosso Senador. Tem vista para a praia e tudo.

30/10/2010

ABERTURA DA LOJA FRANCA EM MAPUTO, ANOS 80

Abertura da Loja Franca em Maputo nos anos 80 em Maputo, nas instalações do antigo Centro Comercial Man Kei, na Av. 24 de Julho.

por ABM (30 de Outubro de 2010)

No princípio dos anos 80 não havia praticamente nada que se pudesse comprar. As pessoas tinham meticais, mas nada para comprar na cidade. Estava-se em plena Era do Repolho e do Carapau. Sobrevivia-se através de vastas e discretas redes de troca de bocadinhos disto por bocadinhos daquilo. À semelhança das experiências de outros estados comunistas, as instâncias oficiais decidiram abrir uma “loja franca”, onde apenas podiam entrar estrangeiros, diplomatas e algumas figuras gratas da cidade. Ali havia mais ou menos o que hoje se compra normalmente pela cidade de Maputo (uma versão muito mais resumida, isto é) mas era tudo caríssimo, de fraca qualidade e, principalmente, tudo tinha que ser pago em moedas ditas fortes, como dólares e randes.

Eu visitei a loja em Dezembro de 1984. Estava de visita à cidade e quis comprar….um sabonete. Ali encontrei uma barra de sabonete Lux feita na África do Sul, que parecia que tinha caído de um machimbombo e rolado pelo chão. Custou um dólar e meio. Grandes ladrões.

A entrada da loja estava vedada por dois camaradas do exército, cada um com uma AK47 em riste. Uma pequena multidão, obviamente destituta e ordeira, olhava lá para dentro e pedia esmola a quem estivesse a entrar e a sair. Para entrar, tive que exibir o meu passaporte, se bem que eu pressentisse que a minha epiderme e a minha indumentária tivessem sido meio caminho andado. Não gostei.

Mas tive com que tomar banho na semana e meio seguinte.

Acima, uma imagem da inauguração da Loja Franca, tirada por Armindo Afonso, mostrando o Grande e incontornável Kok Nam, que certamente estava lá para fazer a cobertura do evento. Não sei quem está com ele.

Não sei exactamente a data da inauguração.

A COLECÇÃO ALBERTINO SILVA E MOÇAMBIQUE

A praia da Polana e o Pavilhão de Chá. Na Maputo de hoje, este local fica situado imediatamente antes da subida da marginal para a Polana, a seguir ao Clube Naval.

por ABM (Sábado, 30 de Outubro de 2010)

Quem como eu gosta de ver e estuda o espólio fotográfico de Maputo na internet, nos alfarrabistas e junto dos vendedores de postais, invariavelmente encontra a fabulosa colecção, carinhosamente coleccionada ao longo dos anos, pelo Sr. Albertino Silva, com quem tive a oportunidade de trocar alguma correspondência a semana passada, mais para lhe expressar a minha admiração pela sua colecção e pelo seu esforço.

Albertino Silva nasceu na cidade Beira em 1965, viveu em Vila Machado (actual Nhamatanda) até aos cinco anos de idade e até aos onze anos em Vila Pery (actual Chimoio). Veio viver para Portugal em 1976. Hoje é casado, pai de dois filhos e é Gerente Bancário no melhor banco de Portugal – a CGD.

Albertino Silva radicou-se numa pequena localidade algures no Norte, chamada Lobão da Beira, no Concelho de Tondela, que tive que andar às voltas no mapa para saber onde ficava. Ele acarinha essa terra sua adoptiva, mas creio que não tem comparação aparente com o seu carinho para com Moçambique, a julgar pelo espólio fotográfico.

Parte da generosidade de Albertino Silva é ter disponibilizado essa colecção na internet para quem quiser ver e que pode ser visualizada AQUI. Ela está alojada no Flickr.

O Sr. Albertino Silva num giro por Maputo.

O conjunto de imagens está devidamente organizado e facilmente consultável. Ao contrário de mim, que coloco as minhas imagens com boa qualidade para que qualquer pessoa as possa descarregar e guardar em casa (um exemplo é a imagem acima, digitalizada de um postal da minha colecção particular – descarregue à vontade e mande aos seus amigos todos) as do seu Albertino Silva não podem ser descarregadas. Mas não faz mal porque estão lá e podem ser vistas a qualquer altura.

As imagens têm a virtude de não mentirem a maior parte das vezes e de permitirem ver-se aquilo que se gostava de ver por uma razão ou outra mas não se estava lá. E a Colecção Albertino Silva faz isso como poucas.

E não é só. Deixo ainda os endereços de sítios adicionais do Sr. Silva:

Lobão/Moçambique Web-Vídeos
Galeria de Albertino Silva no flickr
Lobão da Beira Web Moçambique-Portugal
Lobão da Beira Web Moçambique-Portugal 2
Lobão da Beira no Facebook
Lobão da Beira Web
Albertino Silva no sevenload
Albertino Silva no photobucket
Bom fim de semana.

28/10/2010

ASSOCIAÇÃO ACADÉMICA DA UNIV. DE LOURENÇO MARQUES, 1974

Filed under: História Moçambique, João Costa (Funcho), ULM em 1974 — ABM @ 9:07 pm

Estudantes da Associação Académica da Universidade de Lourenço Marques, 1974.

por ABM (28 de Outubro de 2010)

Um exmo. Leitor fez-me chegar estas fotografias, tiradas em meados do ano 1974, de manifestações dos estudantes da Universidade de Lourenço Marques. Para além do lúdico de eventualmente algum exmo. Leitor se rever ou os amigos e inimigos naqueles tempos de enorme transição, têm a particularidade de transmitir parte da efervescência que se viveu em certos meios da então ainda capital colonial.

Para além do que parece uma bandeira da China comunista, o resto parece indicar que estavam a exigir uma maior autonomia na gestão da universidade.

Eu na altura nadava e jogava ao berlinde e por isso pouco sei sobre o assunto. Nem sabia que havia assim tantos estudantes universitários naqueles tempos.

Ums niquinhos de informação:

1. O presidente da Associação Académica era um miúdo chamado Ivo Garrido.

2. Havia lá um outro míudo chamdo Mia Couto, em medicina. Mas não gostava e mudou para biologia.

As fotografias serão da autoria do consagrado João Funcho, que na altura geriu a Associação Académica de Fotografia na então ULM, mas não tive forma de o confirmar.

AAULM 1974 101

AAULM 1974 102

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AAULM 1974 120

08/10/2010

DEUS, O NEGÓCIO E O PECADO NA RUA ARAÚJO EM LOURENÇO MARQUES

A Rua Araújo em dia de sol, anos 1890

por ABM (8 de Outubro de 2010)

Quis divertir-me um pouco hoje.

Vamos lá.

AGRADECIMENTOS

Esta nota é dedicada ao Nuno Quadros, que involuntariamente foi o seu agent provocateur ao mandar-me uma mensagem a dizer que S.Exa. o Aga Khan tinha inaugurado um dos casinos que operaram na Rua Araújo (acho que não, Nuno) e à Sra D. Suzette Malosso que, na plenitude dos seus 82 anos de idade, tendo crescido na cidade aqui focada, lembra-se de coisas que eu não sabia sequer terem existido e que teve a pachorra de aturar os meus interrogatórios.

INTRODUÇÃO

Creio -dizem-me- que uma das expressões enfáticas e mais badaladas da protagonizada ética limpa do então novo regime que se instalou em Moçambique com a retirada da administração portuguesa da governação do país em 1975, foi, literalmente, o encerramento dos estabelecimentos na Rua do Bagamoyo em Maputo (então Rua Araújo em LM, terminologia que se usa doravante, pois o relato situa-se nessa era) e a proibição da sua vida boémia, tida como imoral, decadente, capitalista e exploradora, entre outras coisas, dos corpos e vulnerabilidades das mulheres moçambicanas.

A agenda dos líderes guerrilheiros da Frelimo recentemente chegados à capital, aparentemente horrorizados com os seus decadentes hábitos e costumes, foi, claramente, de dar um sinal das coisas para vir e da Nova Ordem, congeminada lá no meio do mato, em Nachingwea. Aquilo que viam em Lourenço Marques era o colonialismo. e o colonialismo acabara. A prole, emocionada, estúpida e oportunista, aplaudiu logo o gesto de eliminação da prostituição e da vida boémia – e já agora de tudo o resto mais que viesse à cabeça dos Libertadores.

Libertadores para quem, mais do que a Independência, que já era obra, consideravam a Revolução para Criar o Novo Homem Moçambicano o objectivo mais sério, e para quem o exemplo predilecto da pura vivência revolucionária – um pouco como Eça ironiza quando em A Cidade e as Serras “obriga” um rico parisiense a gostar de viver na parca rispidez serrana portuguesa – era aquela vida porreiraça e espartana que tinham andado eles próprios a viver lá no mato no Norte.

A solução clara era simples: o povo genuíno vem do mato, a gente não controla bem as cidades, que estão cheias de colonos brancos que ainda por cima pensam que ainda mandam alguma coisa e que são um veneno e um empecilho à Revolução Moçambicana. Portanto vamos colocar esta gente toda na ordem, mostrar-lhes quem manda aqui e correr com o maior número possível deles, preferencialmente de forma a que o que eles pensam que é deles (mas que é nosso) fique atrás.  E acabar já com os reaccionários vícios deles.

Não demorou muito (basta perguntar a quem passou por esta altura e que especialmente é white ou quase) e as cadeias estavam cheias de gente que foi repetidamente presa durante dias e dias porque atravessou a rua na hora errada, porque não bateu uma continência que não sabia que tinha que fazer, que não parou o carro a tempo quando a banda lá no palácio se lembrou de tocar o novo hino, que se esqueceu do bilhete de identidade naquela noite em que foi ao cinema com os amigos.

E isto era só para os que não tinham feito nada.

Mas na altura a Rua Araújo foi muito mais falada porque era uma medida muito mais visível, mais colectiva e mais ostensiva. O simbolismo era inescapável, e deliberado.

As alegadas putas e os seus alegados proxenetas foram mandados para a reabilitação e a rua (o tal de Araújo que dava o nome à rua foi o primeiro Governador do Presídio de Lourenço Marques, nomeado em 1781) mudou mais uma vez de nome, desta vez para um dos locais sacros da Gloriosa Guerrilha lá longe na Tanzânia: Bagamoyo, a escola para a formação do Novo Homem Moçambicano, cortesia da Frente de Libertação de Moçambique e, durante algum tempo, de Janet Mondlane.

Mas que apropriado.

O encerramento (na altura rotulado como “limpeza”, referido numa edição de Abril de 1975 na outrora Pacatamente Burguesa mas agora Raivosamente Revolucionária revista Tempo – e em que Ricardo Rangel era sócio) coincidiu com a Independência, felizmente para Victor Crespo, o memorável almirante e o último (e único) Alto Comissário em Moçambique, que representou o novo regime português pós-golpe de Estado em 1974 antes de formalizar a entrega do poder aos líderes da guerrilha na data por eles escolhida. Pois refere quem viu,  que o Almirante passava mais tempo no Dancing Aquário na Rua Araújo a beber whiskies e a discutir as colorações epidérmicas das senhoras que lá dançavam, que no seu escritório a fingir que presidia às formalidades da governação e que defendia os interesses do seu país (em boa verdade, parece que na altura ninguém sabia quais eram esses interesses e mesmo assim por essa altura a Frelimo estava-se a marimbar para o que quer que fosse que ele dissesse, que mesmo assim foi nada).

E esse acto apenas foi um começo. No início de Novembro de 1975, numa operação de grande envergadura e que durou dois dias e incluiu três cidades, as forças da Frelimo, de AK47s em riste apontadas contra uma população urbana basicamente inocente e completamente indefesa, pura e simplesmente prenderam cerca de três mil pessoas, que consideraram suspeitas de estarem envolvidas com drogas, prostituição, roubo ou vadiagem. Pois.

Era o legalismo revolucionário, conferido e legitimado pelo Povo.

Na altura da Indepedência eu não soube de nada destas tricas da Frelimo com a Rua Araújo nem do terror dirigido aos “colonos” (ou será que era payback time?), pois estava mais ou menos tranquilamente a estudar a oito mil quilómetros de distância, em Coimbra, onde o mais que havia de aguerrido eram os desenhos dos gigantescos seios das caricaturas do José Vilhena. Um pouco como em Moçambique, a pornografia via-se era na vida política, todos os dias, nos noticiários politizados da Érretêpê.

Dez anos depois de eu ter deixado de residir em Maputo e nove anos depois da Independência, em plena era do Repolho e do Carapau, visitei a cidade, que me pareceu deserta, abandonada e parada no tempo, as pessoas com terror sequer de pensar alto, com medo de lhes ser apontado o dedo por alguém ligado à Nomenclatura. Mas não se sentia qualquer fervor revolucionário. Apenas cansaço, conformidade e um perpétuo esforço de meter alguma coisa no prato. Pois não havia quase nada. Mas ainda assim foi-me discretamente servida uma lista das Grandes Mudanças (para além da de praticamente toda a gente que eu conhecia não estar lá, claro). E o desmantelamento da Rua Araújo estava nos top dez, o que eu achava curioso, até estranho, pois apercebi-me que isso indiciava o simbolismo, na cabeça de muita gente, que aquilo acarretava, antes e depois da Independência.

Se bem que antes da Independência aquilo não era de forma alguma “a” referência nem tinha o relevo que se possa querer dar-lhe. Era apenas mais um dos locais exóticos, quiçá um pouco mais sórdido, da cidade. Eu hoje tenho 50 anos de idade, e nos passeios a pé higiénicos da família BM aos sábados à noite depois do ocasional jantar chinês no Restaurante Hong Kong, lá pelos fins dos anos 60, princípios dos anos 70, devia eu ter uns dez anos de idade, lembro-me muito vagamente do que aquilo parecia, pelo menos a parte da Rua Araújo para quem vem da Praça onde fica a estação dos Caminhos de Ferro: que tinha muitos bares porta sim porta sim, muita gente, muita música aos berros, montanhas de luzes e coloridos anúncios de néon a acender e a apagar, à porta de uns bares e dancings umas fotografias dumas meninas de coro (brancas) muito pintadas com umas coisinhas penduradas nas pontas das maminhas expostas e um ambiente mais ou menos aguerrido.

Nos dias que correm, isto é troco para bebés.

A Rua Araújo nos anos 60, de dia. À noite parecia Las Vegas junto do Índico.

Uns anos depois, a primeira referência que eu vi sobre a antiga Rua Araújo foi na forma de umas fotografias que o saudoso e agora exaltado Ricardo Rangel (que se dava muito bem com o meu pai) publicou e que tirou nessa altura, e que correspondem vagamente ao que eu vira e mais ou menos imaginava ser a Rua Araújo, claro que sem aquela carga ideológica-sociológica-pós-colonial que se sente agora, e que, despida de contexto, dava uma aura quase lunática àquele fenómeno da velha Lourenço Marques.

Casal fotografado por Rangel na Rua Araújo - o sórdido passou a ser arte

Uns anos mais tarde, já no fim dos anos 90, quando a Nomenclatura freliminana  relaxou involuntariamente os costumes públicos e, sem qualquer veio condutor, a capital moçambicana descambou quase completamente para um free for all em termos dos seus hábitos mais prúridos. Alguns decerto se lembram das legiões de jovens serpentes nas esquinas do Polana e da Sommerschield (a baixa era uma cidade fantasma à noite) depois da hora do jantar e todos os passeios em redor da discoteca do Sheik completamente tomada pelos possantes 4×4 da nova classe de “empresários de sucesso” e suas sumptuosas, esculturais acompanhantes.

(Elas eram chamadas serpentes porque quando a gente passava por elas no carro elas faziam assim: “pssssssssssst, psssssssst”)

Houve então muito boa gente na cidade que pensou, e disse, que se calhar fazia mais sentido trazer de volta a velha Rua Araújo e meter isso tudo ali. Mas as coisas não são assim tão fáceis de fazer. Hoje em dia, não estou lá muito dentro dos detalhes do negócio do prazer e do entretenimento maputiano, mas acredito que ainda há muito, muito por fazer.

A verdade sobre a Rua Araújo é muito mais profunda.

E, na minha opinião, se calhar não há rua que mais e melhor espelhe a História desta cidade que hoje é Maputo.

De facto, houve uma lógica muito clara no aparecimento do negócio por que a Rua Araújo se tornou quase mítica. Para a entender, tem que se recuar até ao fim do século XIX e entender o que se passava na região.

Se o exmo Leitor tiver a paciência, acompanhe-me nesta aventura.

A CIDADE APARECE

Apesar da apetência britânica pela baía defronte de Maputo, sucessivamente combatida pelos portugueses com a ajuda do Duque de Magenta (hoje mais conhecido como 2M), o flanco sul da então frágil, precária, indefinida colónia portuguesa, estava praticamente abandonado aos seus habitantes, que faziam mais ou menos o que sempre fizeram, os portugueses tendo o ocasional problema com os ingleses, que se alternavam com os Boers a tomar conta do que é hoje a Suazilândia, e os boers do Transvaal, que também gostariam de ficar com a parte Sul do actual Moçambique.

O momento verdadeiramente fundacional para a cidade – e de tal forma que em meros vinte anos o epicentro de todo o Moçambique se deslocou dois mil quilómetros do eixo Ilha de Moçambique-Nampula para a Baía de Lourenço Marques, ao ponto de a elegante e centenária capital ter sido descartada para os pântanos em redor da Ponta Vermelha – foi o conhecimento pelo mundo da descoberta de ouro no Rand, uns campos situados a Norte da pacatíssima capital boer do Transvaal (nome formal: República Meridional Sul-Africana), Pretória.

Tirando as negociatas do Albasini, pouco fluía entre o interior e a costa.

A "cidade" original não era uma cidade: era uma ilha. A uma distância regulamentar do Presídio, fez-se um aldeamento precário. Na parte baixa desse aldeamento vê-se a Rua dos Mercadores - a original rua de Maputo - mais tarde a Rua Araújo

Assim, quase subitamente, em 1874, na pequena língua de terra situada a Poente de onde Joaquim Araújo se lembrou de mandar edificar o lastimável Presídio de Lourenço Marques, centenas de pesquisadores e aventureiros americanos e australianos ali desembarcaram ao mesmo tempo para se dirigirem para o interior, enquanto que, do Transvaal, centenas de boers faziam a caminhada no sentido contrário, para vir buscar mercadorias e mantimentos aos navios. Nesse ambiente de “fronteira” completamente desregulado, de negócios, bebida e prazer, logo se esboçou um – o primeiro- o primeiro de todos – arruamento onde essas actividades se desenvolveram:

A Rua Araújo.

Que na altura, à boa antiga portuguesa, não tinha nome de gente, mas um nome que traduzia a sua utilidade: o de Rua dos Mercadores. Era um assentamento precário, com casas feitas de madeira, suficientemente sólidas para se poder lá dentro guardar, comprar e vender tudo e em que o português era provavelmente a terceira ou quarta língua mais falada.

Um ano depois, ao fim da tarde do dia 12 de Setembro de 1875, um violento incêndio consumiu tudo o que havia entre a actual estação dos caminhos de ferro e a sede o Banco de Moçambique (dantes o BNU). Para evitar situações semelhantes,o então governador português, um tal de Augusto Castilho, mandou que as casas passassem a ser feitas com materiais mais duráveis: argamassa, tijolo, adobo, telha, zinco. E logo a seguir veio o Major Joaquim José Machado e a sua equipa, que esboçou o plano director do actual centro da cidade. São essas as casas que os postais mais antigos de Lourenço Marques hoje mostram.

A Travessa da Palmeira (hoje fica entre a sede do BIM e a Nova Mesquita). Após o incêndio de 1875, as casas passaram a ser feitas de alvernaria, tijolo e telha.

Com as notícias da descoberta de ouro em Magaliesberg e em Barbeton, a pressão de ligar a Baía ao interior sul-africano britânico e boer foi quase insustentável. Logo se abriu a que ficou conhecida como a Estrada de Lindenbugo (que começava no fim da actual Av. 24 de Julho, a seguir a um enorme quartel que acho que ainda lá está). Lindenburgo (se é que ainda tem esse nome) fica situada a meio caminho entre Maputo e Pretória. Naquela altura Nelspruit (Mmmmmbombélááá!) basicamente não existia e seria assim até o comboio passar por lá anos mais tarde.

As coisas encaminhavam-se, perante o ar atónito dos Rongas, que ali viviam em redor, e que assistiam certamente preocupados com o reboliço enquanto que por sua vez iam fazendo as suas negociatas e de vez em quando umas razias para saquear.

A Rua Araújo, quando em Lourenço Marques se vivia um ambiente de fronteira

Mais um aspecto da Rua Araújo no fim do séc. XIX

Os momentos-chave seguintes foram a inauguração da linha de caminho de ferro para Pretória (1895), logo a seguir a abertura do porto marítimo da cidade, culminando com o desencadear da Guerra Anglo-Boer (1899-1902), um complicado imbróglio militar e político, que trouxeram muita, muita gente à cidade e montanhas de negócio. Nessa altura, Lourenço Marques (ou a sua designação inglesa, Delagoa Bay) estava nas primeiras páginas dos grandes jornais de todo o mundo, a Baía bloqueada pela poderosa marinha britânica (foi ali usado pela primeira vez no mundo o telégrafo sem fios para a coordenação de operações militares-navais. Enfim, vale o que vale).

A linha de caminho de ferro abriu em 1895. O edifício da estação chegou mais do que dez anos depois. Directamente em frente, ficava a Rua Araújo, e à direita o porto marítimo.

E o que é que, fisicamente, estava precisamente no meio disto tudo?

A Rua Araújo.

De facto, a Era de Ouro da Rua Araújo não foi nos anos 50, 60 e até 1975.

Pelo contrário, foi nas quatro décadas anteriores.

OS DIAS DE OURO

Capa dum folheto publicitário em inglês, sobre Lourenço Marques, anos 20.

Estabilizada a guerra e colonizado o Transvaal pela Grã-Bretanha (cujo consulado em LM, desde que abriu sempre esteve no mesmo local onde hoje se encontra a actual embaixada em Maputo), o negócio aumentou sempre e cada vez mais, tendo Lourenço Marques, que entretanto foi praticamente comprada e desenvolvida com capitais ingleses, sul-africanos e boers através de companhias, lá a partir dos anos 20, criado e desenvolvido um negócio novo, complementar, e extremamente rentável, para além do import/export e do álcóol: o negócio do lazer e do prazer para os brancos sul-africanos.

Dia de "São Navio" em Lourenço Marques. A cidade toda acorria ao Cais para assistir ao espectáculo, e cuscar quem chegava e quem partia. Era um evento. Depois ia tudo beber um copo para a Praça 7 de Março.

De facto, a cidade tinha várias valências nesse sentido. Para além de ser organizada, limpa, e bonita, tinha um clima aprazível, ficava junto ao mar, tinha acessibilidades (barco, comboio, estrada, telégrafo para o mundo exterior), boas instalações, boa comida, instalações desportivas e tinha o exotismo informal cultural luso-africano que nem se sonhava existir na África do Sul.

O antigo campo de golfe da Polana. Situava-se imeditamente a seguir ao actual Hotel Polana e estendia-se até à actual embaixada americana e entrava um pouco para dentro da actual Sommerschield.

A entrada do Pavilhão de Chá, junto à antiga praia da Polana e a 150 metros a Norte do actual Clube Naval de Maputo

O bar da Estação de caminho de ferro de Lourenço Marques estava ao nível do que de melhor havia no mundo na altura

Lourenço Marques, com as suas praias, o Pavilhão de Chá, os seus vários hóteis, quiosques, clubs e restaurantes, alegremente acolhia esse negócio, nos anos 20, 30 e princípios dos anos 40.

O cais da estação de caminho de ferro de Lourenço Marques

Nessa altura, para além dos navios, que traziam centenas de marujos, passageiros e homens de negócios à cidade, vinham diariamente comboios de Joanesburgo e de Pretória, cheios de carga e gente, na busca de repouso ou de prazer, ou para apanhar um barco para a Europa, ou regressar à África do Sul.

E, para além de bowling, golfe, a caça, a pesca e o ténis, Lourenço Marques tinha bebidas à descrição, jogo e prostituição, práticas estas proibidas e reprimidas pelos estóicos britânicos e ainda mais pelos puritanos boers. Em Lourenço Marques, para além de vinho, whisky, camarões e cerveja à descrição (incluindo aos domingos e feriados religiosos) até fados e touradas havia,  perante o espanto dos visitantes. E cinema, e excelente ópera italiana, esta no resplandecente Varietá, que ficava do outro extremo da Rua Araújo, junto à Praça Sete de Março (hoje 25 de Junho, o dia da Independência em 1975), a sala de estar da cidade – com chás e delicados bolos de pastelaria servidos às cinco horas da tarde, enquanto música tocada no seu coreto por bandas contratadas, quase todos os dias.

Antes do Polana abrir, o Carlton era o hotel de escolha em Lourenço Marques. Ficava situado a meio da Rua Araújo. Mesmo depois de abrir, durante muito tempo o Polana era considerado fora do caminho.

Cedo a cidade se tornou ponto de visita obrigatório para os milionários e as classes mais abastadas de Joanesburgo e de Pretória, que para ali se dirigiam em conforto exuberante no Blue Train, um comboio de luxo que parava semanalmente na estação de Lourenço Marques.

Que ficava a cem metros da Rua Araújo.

Para além dos navios de passageiros que atracavam todas as semanas no porto, mesmo ao lado.

As touradas e as pegadas de touros eram uma atracção turística única em África.

A meio da Rua Araújo, do lado direito, cedo abriu o Casino Belo, mais exclusivo, e mais abaixo o Casino Costa, os únicos casinos no Sul de África. O Casino Belo (no edifício mais tarde funcionou o conhecido Dancing Aquário, para quem se lembra) era uma luxuosa máquina de fazer dinheiro. Estava aberto toda a noite, sete dias por semana. Tinha uma grande orquestra (o chefe de orquestra do Casino Belo durante dez anos chamava-se Jorge Vara e era o pai da D. Suzette, por isso é que eu sei isto tudo) tocava diariamente, sete dias por semana, das 9 da noite até às 4 da manhã, com um intervalo de meia-hora.

Aspecto da sala de jogo do Casino Belo na Rua Araújo, em Lourenço Marques. Lá dentro, era obrigatório o uso de fato ou smoking e vestido comprido para as senhoras.

Ali encontravam-se as famosas e as originais Taxi Girls de Lourenço Marques(não são as que mais tarde se chamavam pelo mesmo nome, e que basicamente eram prostitutas). Estas eram jovens sul-africanas desesperadamente belas, vestidas de rigor com vestidos compridos, todas as noites, e como referi não eram prostitutas (o que não significa que não dessem uma volta com quem lhes apetecesse). O que elas faziam era que à noite conversavam com os clientes, entretiam-nos e bebiam um copito ou outro. E qualquer homem podia comprar uma “fita” de bilhetes por dois e quinhentos cada bilhete, e por cada bilhete a menina dançaria com ele uma música. No fim quase todas elas acabaram por casar com portugueses de sucesso na cidade e hoje fazem parte do DNA dos descendentes de quem lá viveu (imagino que estrategicamente omitindo os detalhes da sua procedência).

Curiosamente, naquela altura as crianças podiam entrar no Casino, que tinha também umas limousines com motoristas fardados para levarem os clientes e seus convidados para os hotéis ou de volta para o Blue Train.

O Varietá, na altura creio que a segunda Casa de Ópera em toda a África excepto o Cairo, situado na Rua Araújo, no local onde hoje se situam o Cinema Matchedge e o Estúdio 222.

Nesses tempos, ganharam-se e perderam-se verdadeiras fortunas nos casinos da Rua Araújo. Após uns dias de loucura na roleta e no bacharat, muitos dos visitantes mal tinham dinheiro para pagar o bilhete de comboio de volta para Joanesburgo e Pretória e houve um número considerável de suicídios, cometidos por gente que perdeu tudo o que tinha nas mesas de jogo.

Na Rua Araújo, o negócio da noite não era só para os ricos. Era socialmente vertical. Os bares, cabarets e salas de jogo da Rua anualmente atendiam milhares e milhares de marinheiros, viajantes, homens de negócios, etc, trazidos pelo movimento louco no porto e no caminho de ferro.

Curiosamente, quase todo o negócio era entre brancos – incluindo, malgré as suspeitas da Frelimo, a prostituição. Mas do lado esquerdo da Rua Araújo, houve mais tarde uma casa amarela, o Bar Pinguim, que era o único sítio na Rua Araújo onde havia, para além de prostitutas brancas, prostitutas negras e mulatas e cujo ambiente era puro caos estilo filmes do Texas. Nos anos 50 era um hangout favorito de, entre outros, o poeta Reinaldo Ferreira.

Durante esses anos, a autoridade policial, especializada e presente, mantinha a ordem, num misto de negligência latina e pauladas vigorosas. Alguns se recordarão dum agente de polícia alto e encorpado que vigiava a Rua Araújo, e que era legendário por resolver problemas de rua com uma saraivada de cacetadas, o que supostamente funcionava bem junto dos marujos e dos tropas mais alcoolizados.

Convenientemente situadas perto da Rua Araújo, havia grandes casas de prostituição, negócios legais, de porta aberta. As prostitutas eram praticamente todas brancas, a maioria francesas e sul-africanas. Refiro por exemplo uma luxuosa mansão que existia na rua a seguir à antiga Paiva Manso (não faço ideia qual é o nome da rua hoje) e que era a maior e considerada a melhor, gerida por uma senhora que era conhecida na cidade pela sua generosidade e que tinha vários filhos que se formaram todos na África do Sul.

Belo, proprietário do principal casino, era uma figura conhecida na cidade, riquíssimo, generoso, respeitado. O primeiro frigorífico eléctrico doméstico que houve em Moçambique foi ele que o instalou em sua casa. Teve três filhos, um deles o Ernesto, outro que foi gerente da Casa Coimbra (aquele prédio mesmo ao lado esquerdo do Banco de Moçambique na 25 de Setembro em Maputo) e um terceiro sobre o qual nada sei.

O FIM DE UMA ERA

O fim desta Era Dourada da Rua Araújo começou quando, lá muito longe, do outro lado do mundo, em Lisboa, o ditador Oliveira Salazar, tentando perpetuamente fintar os jogos de cadeira locais com as diferentes facções sociais (são sempre as mesmas: radicais vs católicos vs maçónicos vs monárquicos, a treta do costume), com a intervenção do seu antigo amigo e antigo colega de carteira, Manuel Gonçalves Cerejeira, então Cardeal de Lisboa e representante da Igreja Católica Apostólica Romana em Portugal, celebrou em 1940 (ano em que se celebrou também o tricentenário da reaquisição da independência portuguesa das mãos dos Hespanholes) um entendimento formal entre o Estado português e o Vaticano, a que se chamou Concordata.

Através desse documento, para todos os efeitos, a Igreja Católica encerrou um trágico capítulo aberto com o advento da I república e assumiu uma parceria com o Estado português que teve assinaláveis ramificações por todo o Império.

Em Lisboa, os três amigos: o Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, o Presidente do Conselho, Oliveira Salazar, e o seu Presidente, Óscar Carmona. Dos três, só Salazar nunca meteu os pés em Moçambique.

Talvez não seja coincidência que nessa altura, se começou a construir a actual Catedral de Maputo, que foi concluída em 1944, recorrendo os poderes locais para a sua construção essencialmente a trabalho escravo nativo, o que enfim, é mais uma pequena vergonha e uma expressão do tal colonialismo no seu pior (alguém devia meter lá uma placa na parede para que se soubesse e se lembrasse essa vergonha).

A expressão da Trilogia do Poder Imperial no centro de Lourenço Marques: o Estado (a Câmara Municipal), a Igreja (a Catedral) e o vulto de Mousinho. Em 75, Samora despachou Mousinho para um canto da "fortaleza" antes de rebaptizar o local de Praça Mousinho de Albuquerque para Praça da Independência. E de meter uma gigantesca fotografia sua na fachada. Mousinho out, Samora in.

Em Agosto de 1944, já a II Guerra Mundial estava a começar a chegar ao seu término, num navio Serpa Pinto obscenamente artilhado para acolher Sua Católica Eminência, o Cardeal Patriarca de Lisboa, Manuel Gonçalves Cerejeira, viaja para Moçambique e desembarca em Lourenço Marques para inaugurar com imperial pompa a nova catedral, que ficou situada mesmo ao lado do também novo e imponente edifício da Câmara Municipal de Lourenço Marques, talvez para simbolizar a nova parceria entre o Estado e a Igreja – algo que acontecia pela primeira vez em Moçambique, cujo pluralismo religioso era palpável.

O quarto de cama de Gonçalves Cerejeira no Serpa Pinto

A sala de jantar do Cardeal Cerejeira no Serpa Pinto

O Serpa Pinto até tinha uma espécie de "sala do trono" para o Cardeal Cerejeira. Isto hoje dava um filme.

Pouco depois, a prostituição e os jogos de casino foram ilegalizados e desmantelados em Lourenço Marques.

Na Rua Araújo, ficaram os bares, os dancings e o ocasional jogo ilegal. A prostituição passou para a clandestinidade.

O RESSURGIMENTO

Mas a Rua Araújo não morreu.

Pouco depois, no início dos anos 60, com a instauração do apartheid do Sr. Verwoerd na África do Sul e a preparação e o início do que veio a ser a guerra pela Independência, Lourenço Marques conheceu um período de enorme movimento de pessoas, de investimento e de crescimento. Muitos portugueses vieram viver e trabalhar para a cidade, o número de visitantes da África do Sul, que agora viajavam em carros particulares, cresceu significativamente, e os navios começaram a chegar da Metrópole cheios de jovens militares sózinhos, muitos desejosos de fazer uma escalada na Rua Araújo para beber uns copitos e talvez experimentar o deslumbre de uma experiênciazinha sexual, para depois se ocuparem da defesa do território. E o movimento de navios, aviões e comboios cresceu quase exponencialmente. A cidade fervilhava.

O mito das LM Prawns: acima, o Restaurante da Costa do Sol, nas mãos da família luso-greco-moçambicana Petrakakis desde 1938.

Os usos e os costumes entretanto liberalizaram-se, muito mais em Moçambique do que era a norma quer na Metrópole portuguesa, quer no ambiente severo de Calvinismo puritano imposto na África do Sul – apesar de, nas praias e nos cafés de Lourenço Marques, serem as bifas que deixavam os locais de boca aberta, as meninas locais manietadas pelos velhos costumes dos seus pais portugueses.

Ainda que com a Pide a mordiscar, o Regime nervoso e a guerra dois mil quilómetros ao Norte a desenvolver-se, o ambiente na cidade tornou-se muito mais sofisticado e multiracial, começaram a aparecer galerias de arte, surge toda uma geração de pintores e escultores portugueses e moçambicanos, brancos e negros e com temas africanos, lojas de moda, a Sociedade de Estudos, a Casa Amarela, os bikinis, a mini-saia, veio a revolução musical com o rock, vomitado 24 horas por dia, sete dias por semana pela LM Radio, a Estação 2 do Rádio Clube que era de longe a mais popular em todo o Sul de África. Do Rádio Clube veio também a  marrabenta e inaugurou-se também a primeira estação de FM stereo, com jazz e música clássica, em todo o território português.

Em termos de desporto, tudo havia e tudo se fazia tudo na cidade. Campos de futebol de básquet, piscinas, golfe, mini-golfe, hóquei, equitação, aviação, tiro, regatas, pesca, pesca submarina. Era uma obsessão. Em entre 50 e 60 surgem estrelas como Coluna, Velasco, Matateu, Eusébio, Lage, Mário Albuquerque, Fernando Adrião, Dulce Gouveia, Mussá Tembe e tantos outros. A lista não acaba.

Nos anos 60, o pai BM, à esquerda, treinava equipas de futebol em Lourenço Marques.

Por sua parte, a Rua Araújo acompanhava todo este ambiente à sua maneira, com mulheres, marijuana, misturada com cerveja, vinho, shows de striptease (alguém se lembra da famosa travesti Belinda?) e com verdadeiras sessões de pancadaria que inevitavelmente envolviam comandos, fuzileiros e a polícia de choque a correr atrás deles com cacetetes. Segundo o Eduardo Pitta, até havia um discreto underground gay e lésbico na Rua Araújo que a Maluda vagamente confirma. O Carlos Gil esteve lá nos seus tempos de teenager e no seu livro Xicuembo deu uns lamirés da fauna louca que aquilo era.

Como em toda a parte, dizem-me que havia prostituição para todas as cores, todos os gostos e todas as bolsas. Mas se calhar a Rua Araújo não era o ponto principal dessa actividade. quando muito era um ponto de começo.

O Hotel Central e o Dancing Aquário, um conhecido empório da Rua Araújo e ponto de paragem de Vítor Crespo.

Foi esta Rua Araújo que Ricardo Rangel conheceu e retratou nos anos 60. E que, em meados dos anos 70, ajudou a destruir na sua revista.

De certa maneira, para a velha rua, esse foi apenas mais um momento da sua vida.

Uma nova metamorfose do que fora.

Viva a futura amizade entre os povos da CPLP !

E com o tempo, essa imagem do que fora nos anos 60 e 70, congelou-se e tornou-se num cliché, e pior, no todo, excluindo os quase cem anos que o precederam. Até Licínio de Azevedo recorreu agora a ele para o seu recente filme “Margarida”.

O tal símbolismo que eu acho que, isoladamente, não teve.

EPÍLOGO

Hoje, a Rua Araújo – a Rua do Bagamoyo – sobrevive precariamente, um dinossauro da história da Cidade, o seu berço irreconhecido, maltratado, desrespeitado, ignorado pelos cidadãos da Cidade, aguardando por melhores dias, quando eventualmente haja outro ressurgimento da Baixa da Cidade e uma outra apreciação do seu rico passado.

Que forma terá esse ressurgimento, ninguém sabe.

Uf. Depois disto, vou jantar ao chinês ali na esquina.

Bom fim de semana.

18/09/2010

LANÇAMENTO DO NOVO LIVRO DO FOTÓGRAFO LUIS ABÉLARD

Filed under: Fotografia Moçambique, Luis Abelard — ABM @ 5:46 pm

Luis Abélard junto de uma fotografia que tirou. Se o exmo leitor clicar, vai ver Maputo no seu esplendor

por ABM (18 de Setembro de 2010)

Na próxima 5ª feira, dia 23 de Setembro, pelas 18:30 horas, vai ocorrer em Lisboa a cerimónia formal de lançamento do mais recente trabalho do fotógrafo de Moçambique Luis Abélard, que se chama Com as Mãos – 24 artistas moçambicanos.

O lançamento será feito nas instalações da Livraria Babel em São Sebastião, que fica situada no Nº148 da Avenida António Augusto de Aguiar.

A cerimónia incluirá uma apresentação pelo jornalista e crítico de arte Alexandre Pomar, um dos bardos culturais aqui da praça e que tem um sumptuoso blogue que pode ser consultado aqui.

Em princípio, o Senhor Embaixador de Moçambique em Lisboa, Miguel Mkaima, deverá estar presente.

A Athena, que edita o livro,  integra o conglomerado literário empresarial Babel, liderado por Paulo Teixeira Pinto, recentemente constituído.

Sei de fonte segura que todos os maschambianos e afins que lá peregrinarem, serão mais do que bem-vindos.

Sobre a obra em si, nada sei. Mas se vem da mão de Abélard, só pode ser coisa boa.

21/12/2009

Café no British Bar e Visita à Cordoaria

Filed under: Desporto, Fernando Lima, Kok Nam, Luís Carlos Patraquim — ABM @ 12:40 am

IMGP4770 BRITISH BAR SM

por ABM (Cascais, aos 20 de Dezembro de 2009)

Um convite inesperado.

Uma tarde agradável, de conversa, uns pregos, uma Coca Cola e umas cervejolas pelo meio no British Bar, seguida de uma visita à exposição do fotógrafo cubano Alberto Korda no Museu da Cordoaria. Depois, regresso ao mesmo bar e mais conversa, mais pregos e mais bebidas. As chamussas são provocatoriamente “africanas”.

Mais tarde, descubro que o British Bar é ponto de encontro informal de alguma diáspora moçambicana às sextas-feiras ao fim do dia. Os sobreviventes seguem depois para um restaurante ali perto, baratusco, a que chamam afectuosamente “a palhota”.

Lá, encontro o Parcídio, meu vizinho quando eu tinha 6 anos e que não via desde então. Deu-me conta dele, do Jó e do Janeca, os irmãos.

Quase estranhei. Essa África, que já só vive na minha cabeça e nos livros, raramente é de carne e osso.

Nada demais para uma tarde, não tivesse o convite que me foi dirigido vindo de nada menos que S.Exa JPT, o “Senador” do Maschamba (dixit CG) de momento em digressão por Olivais e arredores, não fosse perder a verve lusa.

Ainda assim, revelando a sua crescente espiritualidade moçambicana, pediu sem pensar nem hesitar uma 2M ao barman do British Bar, que ficou a olhar para ele. Como é possível não haver uma 2M em Portugal?

Ao lado dele, o grande Kok Nam, aqui passando uma temporada para uma cura de águas. Ao vê-lo mais tarde passear-se no legado de Korda, pensava no dele próprio, para mim mil vezes mais interessante, desde que os seus antepassados largaram Cantão no fim do século XIX e, quiçá via Macau, acabaram em Lourenço Marques. Kok viu a LM colonial crescer e metamorfosear-se em Maputo, a colónia a transformar-se em país, de que ele, um pouco como Korda, fotografou, mas de que até ao momento quase nada se viu. É altura, todos concluímos. Mas falta conspirar. Entretanto, com o Fernando Lima, patrocina o Savana, que a meu ver é de longe o melhor e o mais sério semanário moçambicano.

Do outro lado da mesa, Luis Carlos Patraquim, que só conhecia de nome e das letras, até que a Dulce Gouveia me segredou há algumas semanas que a mulher dele é a Paula Pussolo, a grande jogadora de básquetebol do Desportivo e uma das estrelas da excelência do meu clube de infância. “A primeira grande jogadora de basquetebol em Moçambique a encestar com uma só mão”, assegurou Kok Nam.

Havia mais gente connosco, como o Fernando Florêncio, antropólogo amigo do JPT (ele dá-se com uma perigosa e suspeita quantidade de antropólogos) e o Nuno Kok Nam, o filho de Kok Nam, que apareceu mais tarde.

Desta vez fui eu o fotógrafo. E aqui ficam umas fotografias.

IMGP4771 BW

(JPT pontifica enquanto Patraquim e Fernando escutam e Kok suspira)

IMGP4775 crop bw(Pose tipo Os Vencidos da Vida para o barman do British Bar)

IMGP4779 MNP KOK E PAT AT KORDA(Kok Nam e Patraquim revisitam Korda)

IMGP4792 crop(K,K&K – Kok Nam Korda e Kodak)

Last but not least:

2009.12.18 Kok e Nuno Nam no British Bar Cais do Sodré BW

(Kok Nam e Nuno Kok Nam – duas gerações)

20/12/2009

Alfredo Korda e as Fotos do Ideal Cubano

Filed under: Che Guevara, História, Icones, Kok Nam — ABM @ 5:10 am

che-korda

por ABM (Cascais, 19 de Dezembro de 2009)

Até ontem apenas conhecia o nome de Alfredo Korda vagamente porque, quando morreu em 2001, ele foi apontado como o autor da “fotografia mais reproduzida do mundo” – que eu para variar reproduzo acima mais uma vez. Trata-se de uma imagem de Ernesto Guevara, camarada de armas durante algum tempo do ditador comunista cubano Fidel Castro.

Sempre houve algo na ditadura comunista cubana que me escapou. Nomeadamente, a mistura de romanticismo e de superioridade moral que eles, e muitos os seus acólitos e simpatizantes, ao longo dos anos, conseguiram associar à ditadura, através de furiosos esforços de propaganda onde e quando possível (e elevado ao nível do patético agora com a associação entre o decrepitante Fidel e esse mais do que improvável petro-líder da venezuelana “revolução bolivariana”, Hugo Chávez).

O que me penaliza, pois das poucas vezes que convivi com cubanos lá do regime, genuinamente simpatizei com eles ao nível pessoal, mas se e quando a cassete do regime arranca, perco-me. Já não tenho pachorra.

Nem me atrevo a entrar nas razões porque é que o retrato de Ernesto Guevara, tirado por Korda num comício qualquer em Havana em 1960, foi tão reproduzido e mistificado. A internet está pejada de análises e interpretações. Até já li comparações com as imagens prototipadas de Jesus Cristo de Nazaré. Eu, que já li em detalhe sobre a vida de Guevara, não estou minimamente impressionado. Não sei qual é o fascínio com ele. Na melhor das hipóteses, foi um jovem aventureiro à escala global. Até se lembrou de ir a Dar-es-Salaam em 1965 pregar não sei bem o quê aos jovens nacionalistas da Frelimo. Tentar espalhar a mensagem da revolução comunista? ensinar a mexer numa AK47? se calhar impressionou o jovem Samora, mas depreendo que não aconteceu o mesmo com Mondlane.

Mas, para quem gostar, cito um seu admirador, o jornalista, membro emérito do Partido Comunista e escritor português José Saramago, que por alguma razão gosta muito de falar em espanhol e terá dito, naquela prosápia lírico-ideológica:

“…Che Guevara, si tal se puede decir, ya existía antes de haber nacido, Che Guevara, si tal se puede afirmar, continúa existiendo después de haber muerto. Porque Che Guevara es sólo el otro nombre de lo que hay de más justo y digno en el espíritu humano. Lo que tantas veces vive adormecido dentro de nosotros. Lo que debemos despertar para conocer y conocemos, para agregar el paso humilde
de cada uno al camino de todos.”

Enfim.

Nem sei qual é o fascínio com a ditadura cubana, que, com aquele regime indescritível na parte Norte da Coreia, aqui estamos em 2010 e insistem em resistir ao seu anunciado acaso, badalando as suas falidas virtudes, os anacronismos políticos da história actual.

Se houve justificação para derrubar o regime ditatorial e corrupto de Fulgêncio Baptista em 1959 (de quem, para variar, apanhei a foto em baixo, confortavelmente a jogar golfe com a mulher Marta em Setembro de 1968 no Clube de Golfe do Estoril, a vila em Portugal onde ele viveu em apagado exílio quase até ao fim da vida), se se compararem os sete anos da sua pulhice com os 50 anos da de Fidel, por mais carismático e charmoso que ele possa ser, o diabo leve a escolha. Talvez mais grave no caso de Fidel Castro, pois 50 anos de ditadura cobre quase três gerações de cubanos, tornado menos intolerável nos primeiros trinta pelos subsídios generosos dos comunistas soviéticos mas agora uma caricatura prostituída e dolarizada do “socialismo”.

Fulgencio Batista                     wife(The Baptistas golfing in Estoril)

No meio disto, temos o bom Senhor Alfredo Korda, alvo de uma exposição em Lisboa neste momento, que tive a oportunidade de visitar ontem, num daqueles dias de frio e chuva invernal.

Korda foi um fotógrafo decente que nasceu, cresceu e que vivia em Havana, ganhando a sua vida como fotógrafo comercial, quando o seu país sofreu a reviravolta de 1959. Ele simpatizava com Fidel e o que ele dizia naquela altura sobre os ricos e os pobres e a necessidade de dar uma volta às coisas, o que não era difícil pois tudo indica que Cuba era, para além de um exemplo típico do terceiro-mundo latino-americano, uma espécie de prostíbulo da Máfia norte-americana. Por alguma razão, conectaram um com o outro e assim foi que Korda foi fotografando oficiosamente o ditador nas suas andanças até que em 1968 misteriosamente ele “muda de ramo”, passando a fazer fotografia submarina para uma instituiçãozeca qualquer do governo cubano. Para além dumas fotos simpáticas à la National Geographic, daí não rezou história.

01 kordach[1]
(Alfredo Korda posa para la posteridad)

Diana Diaz, a sua filha (e aparentemente uma boa filha) que obviamente respeita o pai e que quer preservar e contextualizar a sua memória e trabalho, presumo que como alguém que era um tipo decente e que testemunhou a história de Cuba a ser feita, à margem da exposição de Lisboa deu algumas dicas sobre o que realmente terá acontecido em Março de 1968 e que diz muito do regime: nessa altura, os comunistas cubanos nacionalizaram todos os negócios privados do país, incluindo o estúdio fotográfico do seu pai, e confiscaram todos os arquivos de negativos dele. Não acredito que o fotógrafo tenha ficado lá muito satisfeito, e Diana ficou sem um património que de direito deveria hoje ser seu.

(é de salientar a algo subrreptícia mas fundamental defesa do seu direito como dono do seu espólio, pelos vistos nas mãos do regime desde 1968, quando, por mais que uma vez, quer Korda quer Diana especificamente referem que o fotógrafo fez todo o trabalho por sua conta, não empregado pelas instituições do regime. Só quem não quer perceber isto é que não entende).

Assim, em 1968 Korda literalmente ficou sem forma de ganhar a vida e teve que ir fazer a tal de fotografia submarina, empregado como funcionário público.

Presumo, assim, (não tenho registo das origens) que uma boa parte das fotos que se podem ver na exposição lá na Cordoaria, seja o que conseguiu escapulir às mãos do estado Cubano mais o que a propaganda deles quis pôr cá fora. Quase todas elas excelentes fotografias. Korda era bom fotógrafo, tinha bom equipamento e teve a oportunidade. Ilustrou uma parte da história de Cuba.

abm-korda-fidel

(ABM fotografa Korda a fotografar Fidel a ser observado por duas muchachas)

Talvez mais importante, para mim, houve algo no que Korda fez que me chamou a atenção e que fez parte de uma tendência global. No início dos anos 60 do século passado, Fidel e Castro, juntamente com John F. Kennedy nos EUA – este no outro lado da “barricada” ideológica – foram os primeiros líderes políticos que deliberadamente se deixaram fotografar por detrás da fachada formal e ritualista do poder, inaugurando, numa altura de grande massificação dos mass media visuais enquanto condicionantes da opinião pública, uma era de percepção de uma “aproximação” e de uma “humanização” dos líderes aos olhos da opinião pública, especialmente quando eram jovens e atraentes – Kennedy e Castro devem ter sido os líderes mas jovens e carismáticos dessa era. A partir desta fase, passou a ser normal ver os líderes na sua condição mais mundana, a comer um hamburguer, a fumar um charuto, a dar umas raquetadas de ténis, a coçar o nariz, com os sapatos todos sujos. Os movimentos sociais que se seguiram, de que se distinguiram as convulsões nos EUA (incluindo Woodstock) e em Maio de 1968 em Paris, em que os principais protagonistas foram os jovens, deram credibilidade à ideia de que o mundo pertencia aos jovens e que os “velhos” líderes eram moeda caduca. Creio que, neste contexto, a cara jovial, irreverente e barbuda do Sr. Guevara ilustrava o espírito da era.

Imagens que totalmente enganam, pois nada referem sobre a real mola que faz mover o Poder, que dão a ilusão da intimidade e da proximidade de quem provavelmente nunca sequer se aproximarão nem entenderão, e que resvalam no culto da personalidade.

Também nisso, Korda, creio que quase sem o saber, foi pioneiro.

E a força do seu trabalho foi tal, que por vezes não se sabe diferenciar a mensagem do mensageiro.

15/12/2009

Travessia do Rio Zambeze em Tete, Fevereiro de 1954

Filed under: Fotografia Moçambique — ABM @ 3:54 am

1954 fEVEREIRO TRAVESSIA DO ZAMBEZE EM TETE

por ABM (Cascais, 14 de Dezembro de 2009)

Imagem de uma travessia do Rio Zambeze em Tete por batelão, quando os colonialistas ainda não tinham feito a ponte. Fevereiro de 1954.

Não faço ideia de quem são as pessoas. Se alguém souber, avise.

26/11/2009

O Espólio de Gabriel Teixeira e a Piscina do Desportivo

Filed under: Fotografia Moçambique, História Moçambique — ABM @ 1:37 am

Piscina do Desportivo em 1971

por ABM (Cascais, 25 de Novembro de 2009)

Gabriel Maurício Teixeira foi, entre outros cargos Governador Geral de Moçambique durante três mandatos consecutivos, entre 1946 e 1958.

Antes disso, foi um célebre Governador de Macau que, com o legendário desenrascanço português, conseguiu com que os exércitos japoneses não ocupassem aquela colóniazita asiática durante a 2ª Guerra Mundial. Na ligação em baixo conta-se o episódio.

Um grande governador de Moçambique, não tanto como José Cabral, mas deixou a sua marca. Também é recordado por ser mulherengo que não bastasse, e de frequentemente se passear frequentemente de cavalo, sózinho, pelas ruas de Lourenço Marques.

Já antes desempenhara cargos na administração colonial naquele território em Cabo Delgado e em Lourenço Marques.

Há cerca de um ano, um filho seu, José Castro Teixeira, gentilmente doou ao IICT em Lisboa a documentação abaixo, respeitante a Moçambique.

Para além do mais, fiquei a saber que a piscina do Grupo Desportivo, onde cresci e passei boa parte da infância, foi inaugurada por ele no dia 24 de Julho de 1949 (ver item 59). Há sessenta anos.

E já nem me lembrava que, por razões que me ainda escapam por completo, no tempo antes da Independência, o dia da cidade era, pelos vistos erradamente, celebrado no dia 24 de Julho.

Talvez mais importante dum ponto de vista histórico, eis um conjunto de documentos que até este momento não foram analisados por quem mais entenda do assunto.

1. Álbum fotográfico do regresso do Governador-geral de Moçambique em 1951.
2. Álbum da Associação dos velhos colonos de Moçambique.
3. Álbum relativo á visita do 1º Ministro da Rodésia do Sul a Moçambique.
4. Álbum da visita do Governador-geral de Moçambique ao distrito de Gaza (Março 1957).
5. Álbum da visita do Governador-geral de Moçambique á Rodésia do Sul (1947-1948).
6. Documentário fotográfico do ensino e assistência prestada na Colónia de Moçambique aos Indígenas para elevação do seu nível social.
7. Álbum relativo á visita do Ministro do Ultramar Comandante Sarmento Rodrigues.
8. Documentário fotográfico da visita do Presidente da Republica General Craveiro Lopes a Moçambique em 1956 (Reportagem completa em 3 volumes.).
9. Álbum da visita do Governador-geral de Moçambique ao Quénia.
10. Álbum relativo à Companhia Industrial da Matola.
11. Álbum da visita do Governador-geral de Moçambique á Rodésia do Sul em Junho de 1952.
12. Álbum fotográfico relativo á Ilha de Moçambique e Província de Nampula.
13. Álbum fotográfico da visita do 1º Ministro da Rodésia do Sul a Moçambique.
14. 4 Pastas contendo o arquivo das negociações havidas entre o Governo Português, Governo Moçambicano e o Governo da Rodésia do Sul para a transferência da posse do Porto e Caminho-de-ferro da Beira para a Administração Portuguesa.
15. Pasta contendo duplicados de telegramas confidenciais do Governo-geral de Moçambique para o Ministério do Ultramar 1949.
16. Pasta contendo correspondência confidencial e secreta relativamente ao Caminho-de-ferro de Téte.
17. Pasta contendo telegramas confidenciais do Ministério das Colónias para o Governador-geral de Moçambique.
18. Pasta contendo telegramas secretos do Governador-geral de Moçambique para o Ministro das Colónias em 1949-1950.
19. Pasta contendo telegramas secretos do Ministro das Colónias para o Governador-geral de Moçambique em 1949-1950.
20. Pasta contendo ofícios confidenciais e secretos expedidos e recebidos.
21. Pasta com correspondência relativa ao empréstimo de 1 Milhão de Contos a Moçambique em 1947-1950.
22. Pasta contendo telegramas confidenciais do Ministério das Colónias para Moçambique.
23. Pasta contendo de telegramas confidenciais do Governo-geral de Moçambique para o Ministério das Colónias.
24. Pasta com Arquivo confidencial relativa a assuntos económicos da Junta de Exportação de Moçambique.
25. Pasta relativa a assuntos económicos da Comissão Reguladora de Importação.
26. Projecto de beneficiamento Hidro-Agrícola do Baixo Incomati do Eng. Sousa Monteiro (Setembro 1959).
27. Relatório sobre as cooperativas dos Agricultores Indígenas referente ao Ano de 1958.
28. Informação sobre as condições de Produção e Exportação de Chá relativas ao Ano Agrícola de 1945-1946 (Junta de Exportação da Colónia de Moçambique).
29. Relatório da Sociedade de Emigração para S. Tomé e Príncipe (1914).
30. Dendrologia de Moçambique Vol. IV e V.
31. Conferências na Escola Superior Colonial Ano Lectivo de 1942-1943.
32. O mundo Arabo-Islâmico e o Ultramar Português por José Júlio Gonçalves.
33. Relatório dos 2 Anos de Governo de Angola Junho de 1907 a Junho de 1909 por Henrique de Paiva Couceiro em Angola acompanhado de ensaio sobre a vida e acção de Paiva Couceiro em Angola pelo General Norton de Matos.
34. Relatório sobre o resgate dos “Machongos” do sul do Save referente a 31 de Dezembro de 1957 pelo Eng. Sousa Monteiro.
35. Panorama da Industria de Moçambique. Gabinete de Estudos da Direcção dos Serviços de Economia e Estatística Geral.
36. Relatório do Governador do Distrito de Huila (1912).
– The Sea Fishes of Southern Africa by Prof. J.L.B. Smith.
37. Quadros da História de Moçambique pelo Cónego Alcantra Guerreiro (Vol. I e II).
38. Moçambique Documentário Trimestral:
nos 10, 49, 51-57, 60
39. A Música Chope-Gentes afortunadas Hugh Tracey.
40. Relatório do Concelho de Câmbios. Ano 1948.
41. Mensagem dirigida ao Governador-geral de Moçambique Comandante Gabriel Teixeira em 13 de Fevereiro de 1950.
42. Mensagem da Associação Africana da Zambézia.
43. Mensagem da Casa de Moçambique em Portugal.
44. Diploma de Sócio Honorário da Associação de Futebol de Lourenço Marques.
45. Mensagem da Junta Local de Gaza.
46. Mensagem da População de Namaacha (Moçambique), Outubro 1947.
47. Pasta contendo correspondência enviada pelo Ministro do Ultramar Prof. Doutor Raul Ventura ao Governador-geral de Moçambique Comandante Gabriel Teixeira.
48. Pasta contendo correspondência trocada entre o Presidente do Conselho Prof. Doutor Oliveira Salazar e o Governador-geral de Moçambique Comandante Gabriel Teixeira.
49. Pasta contendo diversos documentos e cartas relativo ao período em que o Comandante Gabriel Teixeira foi Governador-geral de Moçambique.
50. Visita do governador-geral à Cidade da Beira em Junho de 1947.
51. 2 Álbuns relativos à eleição do Presidente da República General Craveiro Lopes.
52. Aspectos do regresso a Moçambique do governador-geral Comandante Gabriel Teixeira em 05/11/1947.
53. Álbum relativo à entrega do porto e caminho-de-ferro da Beira.
54. Álbum relativo à visita do Presidente da República General Craveiro Lopes à Vila de João Belo em Agosto de 1956.
55. Álbum com imagens da visita do Orfeão Académico de Coimbra a Lourenço Marques Setembro/Outubro de 1949.
56. Álbum relativo à visita do governador-geral à plantação Chá Tacuane, Lda.
57. Álbum relativo à visita do governador-geral à Rodésia do Sul em Junho 1952.
58. Álbum relativo à visita do governador-geral à Associação Indo-Portuguesa.
59. Álbum relativo à inauguração da piscina do Grupo Desportivo de Lourenço Marques em 24 de Julho de 1949.
60. Álbum fotográfico da manifestação por ocasião do regresso à Colónia do governador-geral (edição da Câmara Municipal de Lourenço Marques).
61. Álbum relativo à participação de Moçambique na feira de Industria Portuguesa em 1951.
62. Álbum oferecido ao governador-geral pela comunidade Indiana de Lourenço Marques relativo à proclamação da República da Índia.
63. Reportagem da visita do governador-geral à Província da Zambézia em 1948.
64. Álbum oferecido ao governador-geral pelos Presidentes das Cooperativas dos Agricultores de Zavala.

Sobre a interessante biografia de Gabriel Teixeira, consulte-se este sítio, páginas 194 a 198.

A foto acima, é uma parte de um slide que o pai BM tirou em 1971. A melhor fotografia da piscina do Desportivo que há na internet – cortesia do Maschamba.

22/10/2009

Escola Particular de Lourenço Marques, 1937

Filed under: Fotografia Moçambique — ABM @ 2:02 am

croplm-escola-especial-alto-mae-1937-arlindo-malosso

por ABM –

Mão amiga fez-me chegar esta fotografia de grupo dos estudantes da Escola Especial de Lourenço Marques, tirada em 1937. O exmo leitor Maschambiano se teve família lá nessa altura prima a imagem acima, imprima e mostre aos familiares (bem, sugiro que comece de avós para cima…) e pode ser que veja um antepassado seu lá. Aqui estão membros de algumas das mais velhas famílias da cidade. Se encontrar avise que a Secção Fotográfica do Maschamba faz um crop e envia por e-mail.

A Escola Especial era uma escola particular muito conceituada, na altura a única da cidade. Ficava situada na Avenida 24 de Julho no princípio do Alto-Maé, mesmo em frente a um jardim que terá tido o nome de 1º de Maio (não sei se ainda tem esse nome, provavelmente já deve ter mudado).

Um aspecto curioso da imagem (a que aqui se reproduz tem uma resolução de 500 kb, em casa a minha tem 50 MB…) é a enorme diversidade racial dos estudantes (se bem que whites estão 10 a 1 para blacks, o que revela um pouco como as coisas eram naqueles tempos).

13/10/2009

J&M Lazarus e Lisboa, Abril de 1915

jmlazarus

por ABM

Dando uma achega à detalhada inserção do JPT, relativa aos primeiros fotógrafos a operar em Moçambique, acima reproduzo um anúncio publicitário de J & M Lazarus, que terão operado em Barberton no fim do século XIX mais ou menos na altura em que naquela vila da então República Sul Africana Meridional (mais tarde, Transvaal, a seguir Mpumalanga) ocorrera uma corrida ao ouro falsa, depois mudaram-se para Lourenço Marques (mais tarde, Maputo), onde operaram durante alguns anos e deixaram um interessante espólio fotográfico na forma de postais e trabalhos para a então edilidade. Os irmãos Lazarus depois mudaram-se para Lisboa, onde passaram a operar, sendo mencionados nomeadamente no espólio da colecção fotográfica da presidência da república portuguesa, donde se deduz serem então considerados entre os melhores fotógrafos da capital portuguesa.

Obtive o anúncio acima reproduzido numa interessantíssima revista lisboeta, dirigida à classe burguesa, que se chama Contemporanea (sem acento circunflexo), edição de Abril de 1915, página 13.

A Europa estava então nos primeiros seis meses da I Guerra Mundial (então conhecida apenas como a Grande Guerra) e Portugal na altura ainda não fazia parte do conflito. Entraria mais tarde para salvar as colónias e porque, quase caricatamente, os militares portugueses, com tesão de mijo porventura por causa do Gungunhana, achavam que podiam jogar a sério na Liga Principal. De uma Paris assediada pelos alemães a Leste, um correspondente da revista, Justino de Montalvão, redigira um sórdido e sombrio artigo, descrevendo as vicissitudes dos parisienses, a cidade silenciosa, às escuras, sem transportes e sem vida nocturna, sob a constante ameaça dos bombardeamentos pelos zeppelins alemães.

Em Abril de 1915 a república portuguesa existia há apenas cinco anos, desde que houvera umas escaramuças em Lisboa e o rei fugira e se procedera ao envio de telegramas para as províncias e colónias a avisar que fora instaurada uma – a -república. O novo regime era caracterizado por um optimismo quase fantasioso, uma instabilidade total e um anti-clericalismo sem precedente, mas já mostrava sinais claros de estar a perder o rumo e assustado pelos efeitos de uma potencialmente catastrófica participação no conflito mundial. Estupidamente, entrou 11 meses depois: La Lys foi infame; de resto foi apenas muito mau: um submarino (o U-155, que no fim roubou uns chicharros para um churrasco) mandou uns tiros contra Ponta Delgada, a cidade do Funchal foi atacada uma vez, Paul von Lettow-Vorbeck fez o que bem quis no Norte de Moçambique durante quatro anos e houve umas chaticezitas em Angola.

No cômputo geral, os 7500 soldados portugueses mortos num único dia em La Lys (9 de Abril de 1918) permitiram que a delegação portuguesa tomasse um lugar entre os vencedores em Versailles, pedisse umas massas valentes e mantivesse o Império.

Nas páginas da Contemporanea, surpreendentemente pelo menos para mim, que tinha a impressão que a melhoria nas relações entre a República e a Igreja Católica só ocorrera com a ditadura de Sidónio Pais, há um artigo acompanhado de fotografias, atestando parcialmente esse degêlo já em Abril de 1915, alternando fotografias do General Pimenta de Castro e do seu governo (caracteristicamente breve: nomeado a 28 de Janeiro, derrubado em 15 de Maio) com imagens das procissões e missas que decorriam na capital portuguesa durante a Páscoa Católica nesse mês: um mar negro de devotos à porta das igrejas.

Nesse ano de 1915, um obscuro tradutor de nome Fernando António Nogueira de Seabra Pessoa, anestesiado por doses consideráveis de aguardente Águia Real, escrevia confusos gatafunhos e deixava frases soltas sobre literatura, misticismo e astrologia no seu livro de notas e, assinando sob o então novel pseudónimo de Álvaro de Campos, enviava uma carta indignada ao Diário de Notícias, reclamando contra o tratamento feito nas suas páginas ao Nº1 da revista Orpheu, a um artigo ali contido e escrito por “um tal” de Fernando Pessoa, e ainda ao livro, então publicado, de Mário de Sá Carneiro. A carta termina assim: ” espero da lealdade jornalística de V.Exa a inserção desta carta em lugar onde pelo menos os jornalistas a leiam. Na impossibilidade de fazer os nossos críticos compreender, tentemos ao menos levá-los a fingir que compreendem.”

Que foi o que fiz.

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