THE DELAGOA BAY REVIEW

09/01/2012

A HISTÓRIA DA FOTOGRAFIA DE MOÇAMBIQUE – EM FOTOGRAFIA

Fotografia de Sérgio Santimano, gentilmente cedida.

Encontro de repasto moçambicano na portuguesa Costa da Caparica, 2011. Da esquerda: Bruno, Paula, Luis Carlos Patraquim, Joaquim Carlos Vieira, Kok Nam,Ângelo, José Luis Madeira e mulher, Alexandre Pomar e Sérgio Santimano.

14/12/2011

RICARDO CABRAL E KOK NAM, ANOS 80

Filed under: Fotografia Moçambique, Kok Nam — ABM @ 1:44 am

Foto do Ricardo Cabral.

 

Um jovem Ricardo Cabral com Kok Nam, fotógrafo virtuoso de Moçambique.

30/11/2010

KOK NAM E A ENTREVISTA SOBRE A ENTREVISTA

ABM & El Grande Kok Nam, Lisboa, 2010

por ABM (30 de Novembro de 2010)

Na sexta-feira passada foi lançado em Maputo um livro sobre o Sr. Kok Nam, fotógrafo célebre de Moçambique. Na altura, mais precisamente com data de 25 de Novembro, o jornal maputense A Verdade publicou uma entrevista com António Cabrita, aparentemente a alma por detrás deste projecto.

Que li.

Esta obra, que pelos vistos foi patrocinada pela Escola Portuguesa de Maputo, foi baseada numa única entrevista de quatro horas que António Cabrita, segundo o jornal um docente que volta e meia publica uns escritos, fez com Kok Nam. E insere-se na intenção da Escola de fazer por ano entre uma e três obras sobre moçambicanos que fizeram a ponte entre o colonialismo e a independência de Moçambique (ah grandes contribuintes portugueses!).

Quanto a este assunto, é melhor mexerem-se depressa senão daqui a nada não há ninguém para entrevistar.

António Cabrita disse algumas coisas que anotei:

– que, devido ao rápido crescimento populacional, especialmente nas cidades, que na preponderância mental dos jovens moçambicanos o passado, tirando aquele discurso oficial que lhes é servido nas sebentas, inexiste. Não há contraditório nem versões variantes. E mesmo esse já é lido de esguelha;

– que haveria a percepção de que o português do Sr. Nam era menos que perfeito. Ora isto se não é racismo está lá perto. O português do Sr. Nam é melhor que o meu e sempre foi. Ele parecer chinês é porque se calhar os antepassados dele eram (não é?). Aliás houve uma considerável e fantástica comunidade de origem chinesa em Moçambique até 1975. Só que a maior parte já havia fugido do comunismo uma vez e não quiseram ficar para se sujeitarem a um novo comunismo. Mas enfim;

–  Kok Nam terá passado a fase apaixonada dos anos de Samora algo distanciado, afirmando que, no entanto, a retórica do primeiro presidente “dava para ressuscitar um cadáver”. Acho que Cabrita aqui sugere que, por isso, Nam nunca terá sido bafejado pelos favores do Regime. Ou se calhar não percebi;

– acho que muito correctamente, Cabrita apontou que, apesar de existir todo um trabalho se calhar único de documentação de imagens da fase após a independência, que quase tudo permanece dentro de caixotes não se sabe bem onde (tens razão, porrada neles, António);

– que, interrogando cerca de 150 jovens moçambicanos alunos sobre o que tinha sido o Holocausto (o massacre sistemático dos judeus na Europa por parte do regime Nazi durante a II Guerra Mundial, em que foram mortas cerca de 6 milhões de pessoas) só um sabia do que ele falava. E um perguntou se “Holocausto” era uma marca chinesa de arroz.

Do que conheço de Kok Nam, oitenta horas de entrevistas não chegava para obter o sumo da sua sapiência. Mas quatro é melhor do que nada.

A ver vamos se esta obra aparece nas margens sonolentas do Tejo.

30/10/2010

ABERTURA DA LOJA FRANCA EM MAPUTO, ANOS 80

Abertura da Loja Franca em Maputo nos anos 80 em Maputo, nas instalações do antigo Centro Comercial Man Kei, na Av. 24 de Julho.

por ABM (30 de Outubro de 2010)

No princípio dos anos 80 não havia praticamente nada que se pudesse comprar. As pessoas tinham meticais, mas nada para comprar na cidade. Estava-se em plena Era do Repolho e do Carapau. Sobrevivia-se através de vastas e discretas redes de troca de bocadinhos disto por bocadinhos daquilo. À semelhança das experiências de outros estados comunistas, as instâncias oficiais decidiram abrir uma “loja franca”, onde apenas podiam entrar estrangeiros, diplomatas e algumas figuras gratas da cidade. Ali havia mais ou menos o que hoje se compra normalmente pela cidade de Maputo (uma versão muito mais resumida, isto é) mas era tudo caríssimo, de fraca qualidade e, principalmente, tudo tinha que ser pago em moedas ditas fortes, como dólares e randes.

Eu visitei a loja em Dezembro de 1984. Estava de visita à cidade e quis comprar….um sabonete. Ali encontrei uma barra de sabonete Lux feita na África do Sul, que parecia que tinha caído de um machimbombo e rolado pelo chão. Custou um dólar e meio. Grandes ladrões.

A entrada da loja estava vedada por dois camaradas do exército, cada um com uma AK47 em riste. Uma pequena multidão, obviamente destituta e ordeira, olhava lá para dentro e pedia esmola a quem estivesse a entrar e a sair. Para entrar, tive que exibir o meu passaporte, se bem que eu pressentisse que a minha epiderme e a minha indumentária tivessem sido meio caminho andado. Não gostei.

Mas tive com que tomar banho na semana e meio seguinte.

Acima, uma imagem da inauguração da Loja Franca, tirada por Armindo Afonso, mostrando o Grande e incontornável Kok Nam, que certamente estava lá para fazer a cobertura do evento. Não sei quem está com ele.

Não sei exactamente a data da inauguração.

21/12/2009

Café no British Bar e Visita à Cordoaria

Filed under: Desporto, Fernando Lima, Kok Nam, Luís Carlos Patraquim — ABM @ 12:40 am

IMGP4770 BRITISH BAR SM

por ABM (Cascais, aos 20 de Dezembro de 2009)

Um convite inesperado.

Uma tarde agradável, de conversa, uns pregos, uma Coca Cola e umas cervejolas pelo meio no British Bar, seguida de uma visita à exposição do fotógrafo cubano Alberto Korda no Museu da Cordoaria. Depois, regresso ao mesmo bar e mais conversa, mais pregos e mais bebidas. As chamussas são provocatoriamente “africanas”.

Mais tarde, descubro que o British Bar é ponto de encontro informal de alguma diáspora moçambicana às sextas-feiras ao fim do dia. Os sobreviventes seguem depois para um restaurante ali perto, baratusco, a que chamam afectuosamente “a palhota”.

Lá, encontro o Parcídio, meu vizinho quando eu tinha 6 anos e que não via desde então. Deu-me conta dele, do Jó e do Janeca, os irmãos.

Quase estranhei. Essa África, que já só vive na minha cabeça e nos livros, raramente é de carne e osso.

Nada demais para uma tarde, não tivesse o convite que me foi dirigido vindo de nada menos que S.Exa JPT, o “Senador” do Maschamba (dixit CG) de momento em digressão por Olivais e arredores, não fosse perder a verve lusa.

Ainda assim, revelando a sua crescente espiritualidade moçambicana, pediu sem pensar nem hesitar uma 2M ao barman do British Bar, que ficou a olhar para ele. Como é possível não haver uma 2M em Portugal?

Ao lado dele, o grande Kok Nam, aqui passando uma temporada para uma cura de águas. Ao vê-lo mais tarde passear-se no legado de Korda, pensava no dele próprio, para mim mil vezes mais interessante, desde que os seus antepassados largaram Cantão no fim do século XIX e, quiçá via Macau, acabaram em Lourenço Marques. Kok viu a LM colonial crescer e metamorfosear-se em Maputo, a colónia a transformar-se em país, de que ele, um pouco como Korda, fotografou, mas de que até ao momento quase nada se viu. É altura, todos concluímos. Mas falta conspirar. Entretanto, com o Fernando Lima, patrocina o Savana, que a meu ver é de longe o melhor e o mais sério semanário moçambicano.

Do outro lado da mesa, Luis Carlos Patraquim, que só conhecia de nome e das letras, até que a Dulce Gouveia me segredou há algumas semanas que a mulher dele é a Paula Pussolo, a grande jogadora de básquetebol do Desportivo e uma das estrelas da excelência do meu clube de infância. “A primeira grande jogadora de basquetebol em Moçambique a encestar com uma só mão”, assegurou Kok Nam.

Havia mais gente connosco, como o Fernando Florêncio, antropólogo amigo do JPT (ele dá-se com uma perigosa e suspeita quantidade de antropólogos) e o Nuno Kok Nam, o filho de Kok Nam, que apareceu mais tarde.

Desta vez fui eu o fotógrafo. E aqui ficam umas fotografias.

IMGP4771 BW

(JPT pontifica enquanto Patraquim e Fernando escutam e Kok suspira)

IMGP4775 crop bw(Pose tipo Os Vencidos da Vida para o barman do British Bar)

IMGP4779 MNP KOK E PAT AT KORDA(Kok Nam e Patraquim revisitam Korda)

IMGP4792 crop(K,K&K – Kok Nam Korda e Kodak)

Last but not least:

2009.12.18 Kok e Nuno Nam no British Bar Cais do Sodré BW

(Kok Nam e Nuno Kok Nam – duas gerações)

20/12/2009

Alfredo Korda e as Fotos do Ideal Cubano

Filed under: Che Guevara, História, Icones, Kok Nam — ABM @ 5:10 am

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por ABM (Cascais, 19 de Dezembro de 2009)

Até ontem apenas conhecia o nome de Alfredo Korda vagamente porque, quando morreu em 2001, ele foi apontado como o autor da “fotografia mais reproduzida do mundo” – que eu para variar reproduzo acima mais uma vez. Trata-se de uma imagem de Ernesto Guevara, camarada de armas durante algum tempo do ditador comunista cubano Fidel Castro.

Sempre houve algo na ditadura comunista cubana que me escapou. Nomeadamente, a mistura de romanticismo e de superioridade moral que eles, e muitos os seus acólitos e simpatizantes, ao longo dos anos, conseguiram associar à ditadura, através de furiosos esforços de propaganda onde e quando possível (e elevado ao nível do patético agora com a associação entre o decrepitante Fidel e esse mais do que improvável petro-líder da venezuelana “revolução bolivariana”, Hugo Chávez).

O que me penaliza, pois das poucas vezes que convivi com cubanos lá do regime, genuinamente simpatizei com eles ao nível pessoal, mas se e quando a cassete do regime arranca, perco-me. Já não tenho pachorra.

Nem me atrevo a entrar nas razões porque é que o retrato de Ernesto Guevara, tirado por Korda num comício qualquer em Havana em 1960, foi tão reproduzido e mistificado. A internet está pejada de análises e interpretações. Até já li comparações com as imagens prototipadas de Jesus Cristo de Nazaré. Eu, que já li em detalhe sobre a vida de Guevara, não estou minimamente impressionado. Não sei qual é o fascínio com ele. Na melhor das hipóteses, foi um jovem aventureiro à escala global. Até se lembrou de ir a Dar-es-Salaam em 1965 pregar não sei bem o quê aos jovens nacionalistas da Frelimo. Tentar espalhar a mensagem da revolução comunista? ensinar a mexer numa AK47? se calhar impressionou o jovem Samora, mas depreendo que não aconteceu o mesmo com Mondlane.

Mas, para quem gostar, cito um seu admirador, o jornalista, membro emérito do Partido Comunista e escritor português José Saramago, que por alguma razão gosta muito de falar em espanhol e terá dito, naquela prosápia lírico-ideológica:

“…Che Guevara, si tal se puede decir, ya existía antes de haber nacido, Che Guevara, si tal se puede afirmar, continúa existiendo después de haber muerto. Porque Che Guevara es sólo el otro nombre de lo que hay de más justo y digno en el espíritu humano. Lo que tantas veces vive adormecido dentro de nosotros. Lo que debemos despertar para conocer y conocemos, para agregar el paso humilde
de cada uno al camino de todos.”

Enfim.

Nem sei qual é o fascínio com a ditadura cubana, que, com aquele regime indescritível na parte Norte da Coreia, aqui estamos em 2010 e insistem em resistir ao seu anunciado acaso, badalando as suas falidas virtudes, os anacronismos políticos da história actual.

Se houve justificação para derrubar o regime ditatorial e corrupto de Fulgêncio Baptista em 1959 (de quem, para variar, apanhei a foto em baixo, confortavelmente a jogar golfe com a mulher Marta em Setembro de 1968 no Clube de Golfe do Estoril, a vila em Portugal onde ele viveu em apagado exílio quase até ao fim da vida), se se compararem os sete anos da sua pulhice com os 50 anos da de Fidel, por mais carismático e charmoso que ele possa ser, o diabo leve a escolha. Talvez mais grave no caso de Fidel Castro, pois 50 anos de ditadura cobre quase três gerações de cubanos, tornado menos intolerável nos primeiros trinta pelos subsídios generosos dos comunistas soviéticos mas agora uma caricatura prostituída e dolarizada do “socialismo”.

Fulgencio Batista                     wife(The Baptistas golfing in Estoril)

No meio disto, temos o bom Senhor Alfredo Korda, alvo de uma exposição em Lisboa neste momento, que tive a oportunidade de visitar ontem, num daqueles dias de frio e chuva invernal.

Korda foi um fotógrafo decente que nasceu, cresceu e que vivia em Havana, ganhando a sua vida como fotógrafo comercial, quando o seu país sofreu a reviravolta de 1959. Ele simpatizava com Fidel e o que ele dizia naquela altura sobre os ricos e os pobres e a necessidade de dar uma volta às coisas, o que não era difícil pois tudo indica que Cuba era, para além de um exemplo típico do terceiro-mundo latino-americano, uma espécie de prostíbulo da Máfia norte-americana. Por alguma razão, conectaram um com o outro e assim foi que Korda foi fotografando oficiosamente o ditador nas suas andanças até que em 1968 misteriosamente ele “muda de ramo”, passando a fazer fotografia submarina para uma instituiçãozeca qualquer do governo cubano. Para além dumas fotos simpáticas à la National Geographic, daí não rezou história.

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(Alfredo Korda posa para la posteridad)

Diana Diaz, a sua filha (e aparentemente uma boa filha) que obviamente respeita o pai e que quer preservar e contextualizar a sua memória e trabalho, presumo que como alguém que era um tipo decente e que testemunhou a história de Cuba a ser feita, à margem da exposição de Lisboa deu algumas dicas sobre o que realmente terá acontecido em Março de 1968 e que diz muito do regime: nessa altura, os comunistas cubanos nacionalizaram todos os negócios privados do país, incluindo o estúdio fotográfico do seu pai, e confiscaram todos os arquivos de negativos dele. Não acredito que o fotógrafo tenha ficado lá muito satisfeito, e Diana ficou sem um património que de direito deveria hoje ser seu.

(é de salientar a algo subrreptícia mas fundamental defesa do seu direito como dono do seu espólio, pelos vistos nas mãos do regime desde 1968, quando, por mais que uma vez, quer Korda quer Diana especificamente referem que o fotógrafo fez todo o trabalho por sua conta, não empregado pelas instituições do regime. Só quem não quer perceber isto é que não entende).

Assim, em 1968 Korda literalmente ficou sem forma de ganhar a vida e teve que ir fazer a tal de fotografia submarina, empregado como funcionário público.

Presumo, assim, (não tenho registo das origens) que uma boa parte das fotos que se podem ver na exposição lá na Cordoaria, seja o que conseguiu escapulir às mãos do estado Cubano mais o que a propaganda deles quis pôr cá fora. Quase todas elas excelentes fotografias. Korda era bom fotógrafo, tinha bom equipamento e teve a oportunidade. Ilustrou uma parte da história de Cuba.

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(ABM fotografa Korda a fotografar Fidel a ser observado por duas muchachas)

Talvez mais importante, para mim, houve algo no que Korda fez que me chamou a atenção e que fez parte de uma tendência global. No início dos anos 60 do século passado, Fidel e Castro, juntamente com John F. Kennedy nos EUA – este no outro lado da “barricada” ideológica – foram os primeiros líderes políticos que deliberadamente se deixaram fotografar por detrás da fachada formal e ritualista do poder, inaugurando, numa altura de grande massificação dos mass media visuais enquanto condicionantes da opinião pública, uma era de percepção de uma “aproximação” e de uma “humanização” dos líderes aos olhos da opinião pública, especialmente quando eram jovens e atraentes – Kennedy e Castro devem ter sido os líderes mas jovens e carismáticos dessa era. A partir desta fase, passou a ser normal ver os líderes na sua condição mais mundana, a comer um hamburguer, a fumar um charuto, a dar umas raquetadas de ténis, a coçar o nariz, com os sapatos todos sujos. Os movimentos sociais que se seguiram, de que se distinguiram as convulsões nos EUA (incluindo Woodstock) e em Maio de 1968 em Paris, em que os principais protagonistas foram os jovens, deram credibilidade à ideia de que o mundo pertencia aos jovens e que os “velhos” líderes eram moeda caduca. Creio que, neste contexto, a cara jovial, irreverente e barbuda do Sr. Guevara ilustrava o espírito da era.

Imagens que totalmente enganam, pois nada referem sobre a real mola que faz mover o Poder, que dão a ilusão da intimidade e da proximidade de quem provavelmente nunca sequer se aproximarão nem entenderão, e que resvalam no culto da personalidade.

Também nisso, Korda, creio que quase sem o saber, foi pioneiro.

E a força do seu trabalho foi tal, que por vezes não se sabe diferenciar a mensagem do mensageiro.

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