THE DELAGOA BAY REVIEW

23/11/2010

O VENTO QUE SOPROU DO GURO

Filed under: Adelino Serras Pires, Ecologia Moçambique — ABM @ 2:10 pm

Adelino Serras Pires

por ABM (23 de Novembro de 2010)

Ainda não tive a chance de conhecer pessoalmente Adelino Serras Pires. Afastado da temática que o tornou uma lenda em África na área crucial da fauna africana e da sua gestão, só me apercebi da sua existência, da sua história, da sua obra, estatuto e estatura, quando comecei a acompanhar os algo inesperados esforços de Greg Carr, um norte-americano com algum dinheiro, que teve a feliz visão de tentar reabilitar a Gorongosa do que só se pode qualificar como um holocausto ecológico, provocado pelo homem. Nessa altura – há cerca de um ano – li sobre ele sobre ele e sobre um conjunto de homens cujo percurso nunca será apagado pela história, e que dedicaram a maior parte das suas vidas adultas a preservar um Moçambique que já quase não existe: o Moçambique dos animais selvagens, da flora virgem, das tribos perdidas no mato numa comunhão intemporal com o seu meio, em que os ecos da vida “civilizada” eram apenas isso. Homens cujas personalidades e vocação só respeitava ao território de Moçambique, à sua natureza, a sua flora, os seus animais, mas que as circunstâncias da Independência e os seus sucedâneos fez com que dali saíssem e interrompessem, com extremo dano,  a obra feita. Mais tarde os caprichos inconscientes da política, a guerra, a explosão populacional, as leis que omitiram, até quase tarde demais, esse sagrado dever de preservar esse outro Moçambique, um que não vota, que não tem voz e quase não tem representação, mas um sem o qual Moçambique não é Moçambique, talvez tenham comprometido irremediavelmente essa realidade.

E é nesse contexto que para sempre se sentirá a presença de Adelino Serras Pires e daqueles que, como ele, fizeram o que fizeram, eram da terra e eram a voz, na sociedade, que representava esse outro Moçambique. E quando essa voz foi calada, todos perdemos. Todos nós, o mundo, África, os moçambicanos – mas em particular esse outro Moçambique, o dos animais, o da natureza, das florestas, das savanas milenares.

Nesse sentido, ele nunca terá que se lamentar. Ele fez a obra. E tinha – tem – razão. O seu legado, que começou no longínquo Guro, onde cresceu junto dessa África Eterna, é hoje particularmente relevante, mais pela oportunidade que foi perdida e que provavelmente não será, ou só muito dificilmente será, recuperada.

Gerações futuras um dia se questionarão sobre o que aconteceu a esse outro Moçambique.

E se interrogarão porquê.

Na procura de uma resposta, lerão sobre Adelino Serras Pires.

Hoje, este velho guerreiro africano completa 82 anos de idade, junto com os amigos e a família que o adora.

Em baixo, a minha singela homenagem, e do Sr. António Jorge.

Os meus parabéns, Sr. Adelino. Foram 82 grandes anos. Que venham muitos mais, antes de chegar o fim da picada.

And no regrets.

http://www.youtube.com/v/MhGeH07lo5M?fs=1&hl=en_US

29/09/2010

UM DIA COM AMADEU PEIXE

por ABM (29 de Setembro de 2010)

Porventura muitos dos exmos Leitores não saberão quem foi Amadeu Peixe. Antes da independência de Moçambique, Peixe (“Fish”, para os amigos anglos) fazia parte da nata dos caçadores-guia de Moçambique, numa altura em que ainda se perspectivava que o território se iria tornar num dos principais destinos do turismo cinegético no continente africano. E nessa nata incluem-se nomes como Adelino Serras Pires, Celestino Gonçalves, Rui Quadros, Francisco Magalhães, Luis Pedro de Sá e Mello, Armando Cossa, José Simões, Victor Cabral e vários outros que fui conhecendo ao longo dos anos, principalmente através da internet, pois pessoalmente, para além de ser vizinho na Rua dos Aviadores de um dos irmãos Cabral que era taxidermista e que tinha uma gazela no jardim e um jacaré no quintal da casa, não era exactamente um aficionado de ir ver bicharada (eu sou mais do tipo de deixá-los em paz no mato).

Nunca conheci Amadeu Peixe, que nasceu em Vilanculos em 1935 e faleceu no Brasil em 2007. Mas a sogra, D. Suzette, foi sua colega das espingardas e dos tiros e conheciam-se bem.

Se o exmo. Leitor quiser saber mais sobre esta era da actividade cinegética de Moçambique, o Sr. Celestino Gonçalves, que vive em Portugal, mantém um fantástico repositório de informações num sítio chamado Fauna Bravia, Caça e Caçadores que recomendo vivamente.

Até agora pouca gente sabia que, pouco antes de morrer, Amadeu Peixe escreveu um livro de memórias sobre os seus tempos no mato e em redor do que foi para si uma aventura e um ganha-pão.

Mas a semana passada, mão amiga fez-me chegar uma mensagem da sua filha Michele, que hoje creio que vive na cidade brasileira do Rio de Janeiro, a informar que o livro – com umas trezentas páginas – foi disponibilizado electronicamente num sítio seu na internet.

Para aceder à obra, que vem em formato pdf e que está dividida em seis partes (leva o seu tempo a descarregar) o exmo. Leitor interessado terá de premir aqui e, após entrar no sítio e registar o seu nome e endereço de email e dizer um hello à Michele, automaticamente tem acesso às ligações para descarregar a obra.

Em que lerá Amadeu Peixe, na primeira pessoa.

Para ver umas fotografias de Amadeu Peixe, o Rogério Carreira tem um conjunto bastante completo no seu sítio que pode ser acedido aqui.

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