THE DELAGOA BAY REVIEW

08/11/2017

100 ANOS DE INFÂMIA E 50 ANOS DE MOÇAMBIQUE

Completam-se hoje – dia 7 de Novembro de 2017 – cem anos em que, num golpe palaciano, o radical comunista russo Vladimir Lenine assumiu o controlo do império russo e instaurou uma ditadura comunista. Esse regime, que praticaria as mais inenarráveis barbaridades, viria a durar, formalmente, cerca de 73 anos e a sua história divide-se em duas partes. A primeira, decorre desde este golpe até ao final da II Guerra Mundial, sendo nesta fase o alvo das atenções da ditadura comunista os povos do antigo império russo. A segunda, decorre desde o final da II Guerra Mundial e estende-se até ao final dos anos 80, quando o regime finalmente implodiu, sendo no entanto substituído pelo que parece ser um novo regime autoritário.

É na segunda fase do percurso comunista soviético que a coisa se torna verdadeiramente interessante para o resto do mundo. Tendo abocanhado metade da Europa à laia de espojo de guerra, a União Soviética, uma formidável e mortífera máquina de repressão, acha em si a motivação para confrontar o Ocidente, até então o dono virtual de quase tudo (exceptuando os Estados Unidos, a então nova superpotência) ferido de morte pela evolução das sociedades e pela quase absoluta devastação de duas guerras fratricidas no espaço de 30 anos.

Começou pela Ásia, onde, providencialmente, já decorria uma longa guerra civil entre Mao e Chiang, vencida pelo primeiro em 1949. Seguiram-se muitas outras oportunidades de “libertar” povos, frequentemente com o apoio de países que já constituíam – seguindo o rito soviético – “zonas libertadas da humanidade”.

África – e Moçambique – não seriam excepção. Mas os soviéticos (e, depois, os chineses) chegaram relativamente tarde. Em meados dos anos 60, bem ou mal, a maioria dos países africanos já era nominalmente independente.

Excepto, notavelmente, os territórios sob administração portuguesa, administração essa, por sua vez, sob o controlo de um regime curiosamente autoritário e de partido único, sob a gestão uninominal do sublime e enigmático Dr. António de Oliveira Salazar, para quem o desígnio nacional passava precisamente por deter essas colónias, no que, à primeira vista, parecia ter o suporte dos portugueses. Mas não se sabe bem pois não havia muito debate sobre o assunto. Era uma ditadura e quem não concordasse ia dentro.

Pesem os relatos mais ou menos dourados que agora está na moda citar, os primeiros independentistas moçambicanos eram mulatos aburguesados dos arredores de Lourenço Marques, nos anos 20 e 30, cultos e abertos ao mundo, que claramente viam o que estava para vir. Ficaram os escritos, os poemas e os relatos.

Na segunda metade dos anos 50, começou a efectivamente a história moderna de Moçambique independente, quando um punhado de activistas negros de Moçambique se mobilizou para constituirem grupos de pressão com o objectivo de concretizarem a almejada independência, numa altura em que era por demais evidente que os anos 60 seriam a década das independências e que de repente já havia dinheiro para estas coisas. Até os americanos limparam a toalhinha imperial e se lembraram que também foram uma colónia e que tinham algures no seu DNA uma matriz anti-colonial. Mas, por mais bem intencionados que fossem, a maioria eram grupos regionais, tribais, étnicos, metade do tempo chocavam uns com os outros e aquilo simplesmente não funcionava, para delírio do regime português, uma vez que Salazar obviamente achava que iria levar mais 200 anos para se atingir a “maturidade”, como supostamente levou o Brasil, mais ou menos um Bragança. Até para os regimes comunistas (por sua vez racistas inveterados mas encapotando tudo sob a áurea ideologia socialista) que viam no fenómeno do desmoronamento dos antigos impérios europeus uma oportunidade dourada para conquistar terreno e influências, a conflitualidade era ingerível, tornando quase inexequíveis esquemas de apoio a uma guerrilha.

Importa realçar que a independência de Moçambique tem três figuras incontornáveis, apenas, e nesta ordem: 1. Julius Nyerere; 2. Marcelino dos Santos; e o Dr. Eduardo Mondlane.

Nyerere

Julius Nyerere é pouco estudado, infelizmente, pois é uma figura paradigmática no que concerne o seu país e em relação a Moçambique. Muito do que sucedeu à Frelimo se deve à sua perspectiva e intervenção – e tiques ideológicos. Primeiro uma colónia alemã e depois britânica, entre 1919 e 1962, Nyerere era um professor quando ascendeu à liderança do Tanganhica em Dezembro de 1962. Já antes liderava o principal movimento pela independência, que lhe foi fleugmaticamente entregue pelo último governador e a sua mulher (há um filme excelente desse dia na internet). Na altura, já andavam várias pessoas e “movimentos” pelo Norte (no Sul estavam os Rodesianos e os Sul-Africanos, pouco predispostos a suportar independências africanas). Durante algum tempo, Nyerere assistiu à cena enquanto tentava ligar-se a Zanzibar, e basicamente impôs a ideia que um movimento em favor da independência do território vizinho teria que ser só um. Sendo a Tanzânia o santuário desse movimento, ele podia impôr as regras.

Mas faltava um líder.

Julius Nyerere preside a uma reunião em Dar, em 1974, aquando da visita de um grupo de notáveis de Lourenço Marques. À esquerda vê-se Samora e o Sr. José Craverinha, à direita Marcelino e Malangatana.

E não havia um, apesar de já se conhecer Mondlane, uma lenda num país de essencialmente camponeses analfabetos e desesperadamente pobres.

(Nyerere gastaria os anos 60 e parte dos anos 70 com teorias comunizantes como a Ujamaa e flirts dictatoriais).

Mondlane

Nessa altura, Eduardo Mondlane, que se educara a pulso com o apoio da Missão Suíça, entre outros, tinha 40 anos, casara com uma americana branca meio pimba (casamentos entre raças naquela altura eram um evento, especialmente nos Estados Unidos, onde o casal vivia). Era um professor universitário com uma vivência americana e parecia inclinado para fazer uma vida pacata com a sua Janet.

Mas dois eventos alterariam isso radicalmente.

O primeiro foi o impacto, em Eduardo, de uma visita que fez a Moçambique em 1961 (ele era de Manjacaze, um bastião com memórias vívidas das derrotas do tempo de Mouzinho). Se para a pequena comunidade branca e portuguesa a sua passagem foi notada (ele foi o primeiro negro de Moçambique a doutorar-se) a comunidade mulata e negra ficou siderada. Alto, belo, corajoso, erudito – e um deles. Este era o líder que faltava.

O Dr. Eduardo Mondlane. Um intelectual e um académico.

Mas Eduardo não estava convencido que isso era o que queria fazer na vida. Na altura ainda não se falava em guerra mas a perspectiva de passar anos a tentar tirar teimas com o regime português, que dava todos os sinais de querer resistir a sequer discutir autonomia, não lhe parecia ser o melhor plano. Ainda assim, com algum mexer dos cordelinhos por parte de alguns padrinhos americanos “progressistas” que nele viam o potencial de vir a liderar uma nova nação em África, arranjou um emprego na ONU em Nova Iorque.

Segundo o próprio Nyerere – e este foi o segundo evento seminal – é precisamente durante uma visita de Julius Nyerere a Nova Iorque para reuniões anuais, que eles se encontram e Nyerere desafia Mondlane para liderar uma organização unificada de moçambicanos, baseada no seu país. Mondlane aceita ir a Dar es Salaam para ver se está interessado. O resto é história.

Marcelino

Não questionando os sentimentos nacionalistas de ninguém, a meu ver “o” primeiro moçambicano “de gema” foi Marcelino dos Santos. Marcelino foi realmente o primeiro a articular a gíria da independência, o primeiro a pressintir ser aquele o momento histórico para agir, pois enquanto os “outros” futuros líderes seguiam percursos mais ou menos convencionais, ele, que nascera e crescera em Lourenço Marques, filho dum casal remediado, foi parar a Paris no início dos anos 50. A sua experiência, conhecimentos e contactos, adquiridos na capital francesa, seriam de valor incalculável no futuro. Ele não só tinha a visão estratégica mas também os contactos e a forma de chegar à logística para de facto fazer alguma coisa. E fazer fez.

Marcelino poderia e deveria, por mérito próprio, liderar directamente o combate para a independência, quer diplomaticamente, quer no terreno (ele era fisicamente corajoso, algo que o Dr. Mondlane simplesmente não era). Mas tinha um problema insanável: era mulato (casado com uma sul-africana branca e judia de Joanesburgo, a encantadora Pamela) o que era quase universalmente tido como um obstáculo intransponível para um movimento que pretendia galvanizar um país cuja população era 98% negra e cujos membros de base eram todos negros. A raça com que nascemos tem estas coisas. Durante todo o seu longo percurso político, apesar de ser o cérebro do movimento, Marcelino será o eterno Número 2. Mas um Número Dois Imprescindível. Aceitou a liderança de Mondlane e mais tarde, com o apoio do então jovem Joaquim Chissano, orquestrou a ascendência de Machel, na sequência do (a meu ver) inexplicável e suspeito assassinato do Dr. Mondlane.

Alberto Chipande e Marcelino durante os bons velhos tempos da ditadura comunista de partido único, em que se mandava matar pessoas e se legislava por decreto. Marcelino está no fim da vida. Chipande ainda é hoje um kingmaker.

Marcelino tinha outro aspecto que o distinguia: era tanto como nacionalista como um professo e implacável comunista da velha escola, o que, de facto, o favorecia: historicamente, os países comunistas foram aliados sólidos da luta anticolonial. Mondlane não era anti-comunista no sentido em que tinha que engolir sapo após sapo para obter a ajuda “oferecida” pelos países comunistas, de que necessitava desesperadamente, mas de resto, efectivamente, preferia mil vezes liderar uma Frelimo suportada pelo Ocidente e pelos americanos, num contexto de implantação de um regime supostamente mais convencional e – digamos – democrático. Só que os americanos, a partir mesmo de Kennedy, driblados por Salazar com as Lajes, cortaram-lhe as pernas. Ainda assim, a mulher dele, Janet, fez os impossíveis para obter ajuda não militar dos países escandinavos, especialmente da Suécia, com algum sucesso.

Mas fez pouca diferença. Na verdade, quem pagava a conta da guerrilha, quem formava os quadros, quem controlava as coisas, quem impunha a disciplina e vendia a ideologia, eram os países da órbita soviética e chinesa. Com Marcelino a promover os contactos e (presumo) a gozar com os “amigos” de Mondlane, que falavam muito e bem mas nada faziam em relação aos portugueses e limitavam-se a dar umas bolsinhas de estudo, era uma questão de tempo até que acontecesse uma situação em que Mondlane ficaria isolado na sua perspectiva. Em 1969, ideologicamente, a Frelimo tornou-se efectivamente uma organização com uma matriz marxista-leninista, que foi a base ideológica de tudo o que veio a acontecer a seguir.

Em 1974, o Ano Zero da Independência para a Frelimo, independência e comunismo eram sinónimas. O nascente país saíria directamente de uma ditadura colonial para uma ditadura comunista primária, com toda a linguagem, folclore e instrumentos repressivos associados.

E isso traz-nos de volta ao início deste artigo. Muita gente ainda não distingue entre um país se tornar independente e o regime sob o qual ascende a essa independência. Claramente, ela existe. E se por um lado os apoios dos países comunistas apressaram ligeiramente o momento da sua independência, ela veio contaminada por uma ideologia, e as instituições a ela associados, que causaram danos de proporções titânicas a um povo já de si empobrecido e pouco apto a enfrentar os desafios da modernidade. Após uma série de guerras, de uma guerra civil que matou um milhão de pessoas e destruiu as vidas de milhões, e de variadas reformas tendentes a devolver a Moçambique às supostas práticas normais de qualquer país, a herança da estrutura mental do comunismo permanece e pesa sobre toda a nação moçambicana, mantendo-se na prática a dialéctica política do exercício do poder via um partido único e a ausência “activa” do mero conceito de pluralismo. Moçambique hoje é um dos países mais pobres do mundo, com um curioso punhado de ricos, metade indianos, metade membros da nomenclatura da Frelimo.

Penso que, apesar das diferenças, nem Mondlane nem Marcelino alguma vez sonhariam que as coisas iriam acabar assim.

 

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14/12/2011

SOBRE O DIA EM QUE SAMORA MACHEL MORREU, 25 ANOS DEPOIS

Tão novinhos que eles eram. E lá estão os dois. À esquerda, a Sombra. Para os ver em tamanho gigante e a cores em sua casa, prima na imagem acima duas vezes com o rato do seu computador.

Para comemorar um ano de andar a escrevinhar aqui no The Delagoa Bay Blog, cuja leitura por uma leal mão cheia de -espero – espíritos livres que gostam de ver como as coisas são e porque é que são assim, reproduzo em baixo, com vénia, uma nota um tanto cáustica mas eminentemente legível e possivelmente plausível, que encontrei quase por acaso na internet, num blogue muito interessante chamado Tempos Modernos, assinado por um Sr. que se auto-designa Marx e que se parece mesmo muito com o homónimo mais conhecido de outras eras. Ao seu texto chamou O Ano das Cobras e aqui vai, menos uma ou outra gralha e a sua reversão para o velho português, felizmente ainda em vigor em Moçambique:

Um exemplo de estatuária norte-coreana moderna, estilo "querido líder", muito na moda estes dias.

Numa jogada de puro oportunismo político, Armando Emílio Guebuza resolveu fazer de 2011 o «Ano Samora Machel».  À primeira vista, tudo pareceria justificado: afinal, Samora foi o primeiro Presidente de Moçambique independente e, os seus discursos sempre falavam da abolição da exploração. Relembrar Samora à juventude moçambicana seria, portanto, natural.

Acontece que, com Guebuza, a história não é essa.

Samora e Guebuza odiavam-se. Samora e os demais, sabiam do carácter ambicioso de Guebuza e vigiavam-no permanentemente.

Veloso, Guebuza e Machel brindam.

Mas Guebuza era um rapaz trabalhador e esperava a sua vez. À frente do Ministério do Interior, começou laboriosamente a montar um exército paralelo que lhe obedecesse. Para isso, serviu-se da Polícia para a equipar com blindados e carros de assalto. Fazia desfiles de demonstração da sua força.

Em 1984, dirige a “Operação Produção”, que lança milhares de compatriotas na selva de Niassa e Cabo Delgado e subsequente morte ou fuga para a Renamo.

Alimentada com esses novos reforços, o movimento dos “bandidos armados”, inflige derrotas sucessivas no exército governamental e desarticula a economia moçambicana.

Samora desespera e sente-se cada vez mais cercado: afasta Guebuza para a Beira e impõe-lhe residência fixa. Cada vez mais isolado, despromove Sebastião Mabote por suspeita de traição e entendimento com a Renamo. Numa cimeira de chefes de estado no Malawi, ameaça bombardear esse país por suspeita de dar guarida à oposição.

É neste ponto, a caminho de Maputo para demitir mais uns tantos, que se dá a queda do avião em viajava Samora: uma sucessão de erros de navegação aérea, de incompetência da tripulação e de conivência de adversários internos e externos (África do Sul, URSS) provocam um acidente imprevisto.

Mas havia quem sabia e desejava o acontecimento. Samora queria provocar um confronto Leste-Oeste em Moçambique. O confronto não interessava a ninguém e foi preciso acelerar a queda de Machel.

Chissano foi o senhor que se seguiu. Mas Guebuza, aguardou a sua vez e impôs-se, ameaçou contar o que sabia e fez-se eleger como presidente.

Mas que fique claro: Samora e Guebuza sempre se temeram e sempre se odiaram. Vigiavam-se mutuamente no tabuleiro do xadrez moçambicano.

Samora, brought to you by Guebuza, North Korea and The Pepsi-Cola Company.

É por isso que o «Ano Samora Machel» é uma hipocrisia mas, em todo o caso, serve a estratégia guebuziana de propaganda e de demonstração de força.

Mas para melhor humilhar Samora, nada como uma mistela feita com uma estátua norte-coreana bem regada por Pepsi-Cola sul-africana, na praça que foi do Mouzinho de Albuquerque. Agora, sem cavalo e rodeado dos crocodilos que Samora avisava terem que ser mortos no ovo …

Veneno perfeito!

(fim)

21/10/2011

SAMORA MACHEL VINTE CINCO ANOS DEPOIS: OS EVENTOS E A NOTA DE FERNANDO LIMA

Samora Machel revisitado - mais uma vez.

Por razões evidentes de regime, mas também históricas e de senso comum, Samora Machel é lembrado e comemorado, mesmo vinte cinco anos após o seu desparecimento físico num acidente, ou incidente, aéreo, cujas causas ainda fazem correr tinta (vejam-se os esforços continuados de Mamã Graça e os tiros quase hilariantes trocados entre o Sérgio Vieira e o João Cabrita).

Lamentavelmente (suponho que deve ser qualquer coisa ainda a ver com a herança cultural portuguesa) celebra-se, não o dia em que nasceu, mas o dia em que morreu. Eu sei que Samora Machel nasceu num 29 de Setembro e que em Moçambique este mês já está pejado de feriados. Mas comemorá-lo não tem que ser um feriado. Senão qualquer dia Moçambique fica como Portugal, com tantos feriados que não se trabalha. E acima de tudo, Moçambique precisa que se trabalhe. Não querendo ser dogmático, eu diria: querem celebrar Samora? então trabalhem mais.

Esta semana, por exemplo, finalmente, lá se fez o gesto de colocar no lugar vago por Mouzinho de Albuquerque uma estátua menos má de Samora (importada da Coreia do Norte, doze metros de altura, sem pedestal, um bocadinho demais ao estilo do Querido Líder lá nos confins da península coreana mas enfim) mais uma vez recompondo a bem conseguida estética da praça em frente ao edifício do Conselho Municipal e, espero, salvando-a de vez de um plano de reconfiguração totalmente surreal que circulou em tempos pelos circuitos subterrâneos da máfia moçambicana na internet, creio que da autoria do Sr. Arquitecto José Forjaz.

36 anos depois de Mouzinho out, Samora in.

Mas, para além de uma romaria ao local do acidente/incidente em Mbuzini, na vizinha África do Sul, e do gesto simpático de Jacob Zuma e de Sua Eternidade salazarenta o Sr. Robert, terem publicamente agradecido qualquer coisinha pela catástrofe libertadora infligida ao povo moçambicano sob a liderança de Samora logo a seguir à declaração de “independência” (na verdade, Moçambique tornou-se independente dez dias após a assinatura dos acordos em Lusaka, no final da primeira semana de Setembro de 1974), o prato forte foi uma conferência sobre Samora em Maputo.

A conferência teve a interessante, e provavelmente única, e irrepetível, característica, de reunir sob o mesmo tecto uma boa parte dos protagonistas ainda vivos dos eventos de que resultou, entre 1974 e 1992, a entrega, ou a tomada, dos governos da maior parte dos países da África Austral, para as mãos de elites nacionais, seguindo apenas um pouco mais tardiamente o curso de quase todo o resto da humanidade.

Papá António e Mamã Graça na Conferência sobre Samora.

Sobre a mesma, com profunda vénia, reproduzo em seguida o magnífico texto da autoria de Fernando Lima, participante, espectador, jornalista e também gestor de media, que viveu muitos dos eventos ali tratados e que pelos vistos esteve sentado lá o dia inteiro a ouvir o que as pessoas tinham para dizer. Este texto foi publicado no jornal Savana, que se publica em Maputo, na sua edição de hoje.

Aqui vai:

Quando Samora era Jack Dempsey

Por Fernando Lima em Savana, 21 de Outubro de 2011

Terça-feira fui ao Centro de Conferências, ali para os lados do Miramar, aqui na capital, e fiz como disse que faria o Dr. Almeida Santos, um dos ilustres oradores no simpósio dedicado a Samora Machel. Apesar de não ter convite, fiz-me à sala e passei lá o dia todo. Ouvi 15 intervenções e como não levava bloco de notas passo a citar de memória.

Do que gostei mesmo foi das memórias de Albino Maheche, um “mais velho”, enfermeiro de profissão, que fui aprendendo a conhecer pelas bandas do ministério da Saúde no pós-independência.

Maheche, um contemporâneo e amigo de Samora, trouxe à colação as suas recordações da vivência em comum com o então jovem enfermeiro Machel. E ficámos todos a saber do seu fascínio pelo boxe, como era hábito na década de 50/60. Craveirinha, também contemporâneo de ambos, redige o famoso poema de exaltação ao combate de desforra protagonizado pelo pugilista negro Joe Louis em Berlim. (“A desforra do nosso Joe Louis frente ao Max Schmmeling/veio no telégrafo e saiu no jornal Notícias/mas quanto ao resto em Lourenço Marques…/Nada !/O resto não saiu no jornal Notícias/Não saiu na Rádio Clube de Moçambique./Só o Brado Africano é que está a dizer./Portanto guarda bem guardado este Brado/e treina muito bem este boxe !”).

Samora, na camarata onde viviam os aspirantes a enfermeiros, levava a alcunha de Jack Dempsey, um formidável boxeiro americano, campeão de pesados entre 1919 e 1926. Para melhorar o seu boxe, Samora golpeava com frequência um saco de areia na casa de banho e assistia aos combates que tinham lugar habitualmente no pavilhão do Malhangalene (hoje Estrela Vermelha).

Também ficámos a saber que um padre católico na Catedral o apoiou nas matérias lectivas do 2º. ciclo dos liceus, que gostava das disciplinas de História, Geografia e Português, sabendo de cor várias estrofes dos Lusíadas de Luís de Camões, leitura obrigatória na escola.

Quase inevitavelmente, os jovens Maheche e Machel cruzam-se com o Dr. Mondlane, então hospedado no Khovo (Missão Suiça), vindo dos Estados Unidos. Ali se cruzam também com o poeta Virgílio de Lemos (exilado desde 1963 em França) que queria que os dois se juntassem ao movimento independentista. Lemos tornou-se conhecido por ter apelidado a bandeira portuguesa de “kapulana verde e vermelha” e mais tarde foi preso durante 14 meses por advogar a independência de Moçambique.

Na opinião de Maheche, o estilo contestatário de Machel não ajudou a sua progressão na enfermagem. Numa das aulas, a propósito de enfermeiros e massagens, Samora jocoso quis saber quem dava massagens ao ditador Salazar, conhecido como asceta e celibatário.

Os monitores tomaram-no de ponta e nem sequer o deixaram fazer prova oral de um exame onde tinha positiva na escrita.

Pelo relato da sua filha Ornila fiquei a conhecer um bocadinho mais do Samora doméstico. Dos jantares em família, apesar de ser o “camarada presidente”. Dos treinos dedicados às meninas “para saberem caminhar como senhoras” equilibrando um livro no alto da cabeça, como cruzar as pernas, como sentar e levantar. De como o trautear a canção “canta, canta minha gente, deixa a tristeza para lá” deu origem a semanas de rigoroso “chá” sobre liberalismo e libertinagem.

Não sabe a Ornila porventura que o dito Martinho da Vila, o autor brasileiro da canção, em carne e osso, na sua primeira visita a Moçambique depois da independência, por causa da “libertinagem”, foi impedido de actuar em Maputo e, para salvar a digressão, foi mandado para a Beira, onde actuou para uma plateia de militantes da Frelimo no pavilhão do Ferroviário.

Por causa da mesma libertinagem, anos mais tarde, Bob Marley foi impedido de vir a Moçambique, pois passou a cerimónia da independência do Zimbabwe, no Rufaro Stadium, a fumar vigorosos charros de suruma, mesmo por detrás da delegação oficial moçambicana. O que me recorda a simpatia que os “freaks” citadinos nutriam por Samora à altura da independência, alegadamente por não ser contrário à legalização da “cannabis”. As razões prendem-se com um famoso discurso, em que perante o rufar inebriante dos tambores, Samora disse qualquer coisa como “a cultura é como a suruma a subir pelas nossas veias”.

Voltando para o Zimbabwe, da ajuda de Samora à independência da Rodésia do Sul se encarregou Robert Mugabe, também convidado do simpósio. E como a história é habitualmente feita pelos vencedores, ficaram na gaveta as memórias de Mugabe como pacato professor de inglês na cidade de Quelimane, enquanto Samora apostava numa guerrilha vitoriosa das forças com a sigla ZIPA (Exército Popular do Zimbabwe). E como a história dá muitas voltas, mais tarde os comandantes do ZIPA acabaram presos em Moçambique por solicitação de Mugabe, como documentado por Dzinashe Machingura. Mas isto seria matéria de dissertação para os saudosos Fernando Honwana e Rafael Maguni, por sinal o primeiro embaixador de Moçambique no novo Zimbabwe.

Mugabe falou de Samora, mas aproveitou o microfone aberto e um moderador temeroso do [seu] estatuto “chefe de Estado” para perorar longamente sobre a guerra no Iraque, a selvajaria de George W. Bush, as maquinações de Sarkozy, a ineficácia da União Africana na questão líbia e até o harém de prostitutas à disposição do primeiro-ministro italiano Sílvio Berlusconni.

Quando um jovem exaltado o interpelou sobre os moçambicanos pretos que hoje se substituem aos colonos brancos na partilha das riquezas, Mugabe passou ao lado do debate dizendo secamente que era melhor que as riquezas fossem desfrutadas por nacionais do que por estrangeiros.

Almeida Santos, provavelmente o mais famoso advogado do Moçambique colonial, amigo de Craveirinha, Nogar, Luís Bernardo, Malangatana, de Graça e Samora, mostrou que tem a oratória em forma. Chamou de “preguiçoso” a Luís Bernardo Honwana, o moderador do seu painel, por continuar a ser o nosso escritor de uma obra só, o cão tinhoso que as nossas crianças descobrem na escola pública.

E como Almeida Santos não deixa créditos por mãos alheias, disse ao simpósio que sugeriu a Samora o pacto com a África do Sul que ficou conhecido como o Acordo de Nkomati e organizou a apresentação em Londres a Harry Oppenheimmer, o sul-africano patrão da Anglo-American e crítico do apartheid. Tal como tinha acontecido com Ronald Reagan, Samora descrito por Almeida Santos como “um conquistador” , “um sedutor” , entrou na sala onde estava Oppenheimmer e, por entre efusivos abraços, tratou-se como “Senhor Capital”. Aparentemente, foi “amor à primeira vista”.

Menos simpático ficou na fotografia o já falecido jornalista Pinto Coelho, a quem Almeida Santos revelou ter pedido o “frete” de fazer uma reportagem favorável sobre Samora para preparar o que depois foi a sua viagem triunfal a Portugal [em 1983]. E lá deixou cair também que Samora se “esqueceu” dos papéis para o discurso na Assembleia da República mas conseguiu arrancar um dos mais espectaculares improvisos da sua primeira visita à antiga metrópole colonial.

Noite fora, Marcelino dos Santos, que já disse que ele era a própria Frelimo, vestiu pose mais modesta para falar do humanismo do companheiro Samora, dando os respectivos recados, socorrendo-se do belo poema de Jorge Rebelo, “não basta que seja pura e justa a nossa causa/ é necessário que a pureza e a justiça vivam dentro de nós”. Uma espécie de desforra à recente afronta na reunião nacional de quadros da Frelimo onde o mandaram calar.

Gostei da postura mais académica, menos presidencial de Joaquim Chissano dissertando sobre o Estado-Nação, dos “conselhos” de Prakash Ratilal à juventude que pensa que o futuro é um pronto-a vestir e Óscar Monteiro, que replicou sobre a tradicional “intuição” atribuída a Samora. Gostei que Mário Machungo tenha desenterrado o “samorismo” que defendia Aquino de Bragança, ele que foi um dos vergastados do congresso de Quelimane por defender regras e o rigor na economia moçambicana. Gostei da intervenção emocionada do general Chipande, clarificando a morte do padre holandês (se não me engano em Nangololo) às mãos de dissidentes da Manu ( que um lapsus linguae atribuiu à Renamo), embora não estivesse lá Gruveta para contestar a teoria do primeiro tiro em Chai. Na versão portuguesa, e na cola dos acontecimentos em Angola e no Congo, o assassinato do padre foi o início da luta armada.

A Universidade Eduardo Mondlane organizou o debate mas esteve muito fraca na matéria crítica que podia e deveria ter trazido ao Simpósio. Quando se elevam a categorias históricas termos como “o pai da nação” e o “criador da geração 8 de Março”, fica a impressão que a academia continua a reboque dos acontecimentos, incapaz de aportes críticos e investigações sérias e seguras, indicativas de protagonismo independente dos poderes do dia. Deliberado ou não, os louros das contribuições foram para fora dos muros da universidade.

Armando Guebuza, fez questão de seguir o debate de fio a pavio. Certamente que já deitou contas à vida de como quer ficar na história dos seus dois mandatos constitucionais: eventualmente pela via das presidências abertas ou pelos sete bis aos distritos.

Porém, na “família da Frelimo”, há duas famílias que lhe estarão indelevelmente gratas: os descendentes de Mondlane e Samora. A presidência Guebuza, aparentemente, sarou ou procurou claramente pôr fim às feridas expostas destas duas famílias com contas a ajustar no seio da Frelimo.

Com a poeira e os ventos que nos afagam a memória, o futuro será certamente o melhor juiz.

(fim)

28/10/2010

FRELIMO ALL STARS FUTEBOL CLUBE, ANOS 60

A equipa do Frelimo All Stars Futebol Clube: em cima, da esqª - Mabote, Chipande, Chissano ,(?), Mondlane, Machel, (?). Em baixo, não sei quem são mas quem souber se faz favor que mande os nomes para cá.

(eternamente grato a LL)

19/10/2010

SAMORA MACHEL: A HISTÓRIA EM FOTOGRAFIA

A imagem do primeiro presidente idealizada, estilo "Grande e Querido Líder"

por ABM (19 de Outubro de 2010)

Há muita gente que já não se lembra bem de Samora Machel, e a maior parte dos moçambicanos hoje já nasceu depois dele morrer. Eu, por exemplo, nunca o conheci.

Em seguida, imagens que retratam o segundo presidente da Frente de Libertação de Moçambique e o primeiro presidente de Moçambique. Legendas de ABM.

Então cá vai.

Samora na Tanzânia, a base de operações da Frelimo, com Valeriano Ferrão e o filho dum apoiante do movimento. Valeriano mais tarde foi o primeiro embaixador moçambicano nos Estados Unidos da América, onde o conheci. Através da Ndjira, escreveu um livro sobre a sua experiência.

Josina Machel. Foi a primeira mulher oficial de Samora. Bonita. Morreu durante a guerra da Independência. Santificada pelo regime, deram o seu nome ao velho Liceu Salazar em Maputo.

Samora o Senhor da Guerra, já antes da estranha morte de Mondlane e a depuração que se seguiu. A "Frente" deixou de ser uma frente e passou a ser politicamente uma - e marxista-leninista.

Com o seu fato de El Comandante, Samora discursa no mato (não sei a quem).

Após a morte de Eduardo Mondlane, e com o apoio de Marcelino dos Santos, Samora despacha a oposição.

Socialista e sem qualquer margem negocial, Mário Soares entrega as chaves da casa a Samora em Lusaka, 7 de Setembro de 1974. Fez-se da data um feriado nacional.

A Independência em Junho de 1975 foi uma espécie de orgasmo colectivo. A Frelimo mandava, e Samora mandava na Frelimo. E a sua palavra de ordem? "A Luta Continua". As acções: despachar os colonialistas, controlar as cidades, libertar a Rodésia e a África do Sul. Resultado: a economia desmoronou-se e a Rodésia começou a desfazer Moçambique.

O povo a caminho de (mais) um comício. Os moçambicanos veneravam o seu líder, em quem confiavam para lhes trazer um novo futuro. Dizia-se que cada vez que discursava eram mais três aviões de colonialistas a voar na Tap para Lisboa. Mas o povo adorava, especialmente quando ele dizia; "é ou não é?" (a resposta colectiva: "ééé´...")

As Forças Populares de Libertação de Moçambique, os novos Donos da terra. Em Maputo, entre outros mimos, batiam à porta das pessoas às 5 da manhã e mandavam-nos ir varrer as ruas.

Ian Smith, primeiro-ministro da Rodésia até 1980. Abandonado pelos sul-africanos logo em 1975, respondeu à decisão de Samora de constituir Moçambique como santuário para a Zanu-PF com uma guerra. Num dos primeiros ataques, uma base perto da Beira, os rodesianos mataram mais gente num fim de semana que os portugueses num ano de guerra. E a situação só piorou.

A senhora que se segue: Samora casa com Graça Simbine, uma discreta chope, hoje a grande Graça Machel.

Samora o Presidente. Com os rapazes, posando para a posteridade.

O Presidente no palácio, em família, num intervalo de pausa.

O carisma de Samora era apercebido como 80% da força do regime. Até 1984.

A deusificação do Líder. Aqui, Samora com Eduardo Mondlane, liderando a gloriosa luta do povo moçambicano.

Samora e Julius Nyerere com as respectivas. Nyerere, Fidel e Stalin parecem ter sido as grandes inspirações de Samora.

Nujoma, Kaunda, Samora, Nyerere, Mugabe e, segundo o nosso leitor Sr. Jongomoz, José Eduardo dos Santos: A aliança chamada "Países da Linha da Frente". Contra a África do Sul.

Nujoma, Samora, Kaunda e Mugabe. Dos quatro países, só Moçambique foi dizimado, primeiro pelos rodesianos e depois pelos sul-africanos e pela Renamo. Angola era outra loiça.

Samora o Estadista africano na Cortina de Ferro. Até quis entrar na COMECON (não foi aceite). Aqui com um dos seus ídolos, Fidel Castro.

Samora o Estadista, outra vez com Fidel (não sei quem é o sr, à esquerda).

O líder mundial: Samora com Chou en Lai, o homem forte da China após a morte de Mao em 1976.

Samora na Roménia com o ditador Ceaucescu: a amizade socialista foi essencialmente um gigantesco fiasco. Em Maputo, havia um novo tipo de apartheid: a praia dos americanos, a praia dos russos, a praia dos alemães da RDA, etc.

Samora dá uma palmada nas costas de Yasser Arafat, líder guerrilheiro palestino. A amizade entre os Libertadores.

O Presidente, de farda militar numa visita à Alemanha comunista, dá uma dose de charme a uma alemã gorda. Curiosamente, a sua visita a Portugal nos anos 80 foi nada menos que triunfal.

O Presidente, num momento de descontracção. Em 1983, Samora já se tinha apercebido no buraco em que Moçambique se tinha metido. Os sul-africanos demoliam o país e os apoios de Leste eram insuficientes. Estava encostado contra a parede.

Samora solitário. Em 1983, dá-se a grande viragem no homem, que chocou e alienou a liderança da Frelimo e de quase todos os líderes com quem estivera: introduzir práticas "capitalistas" e assinar um tratado de paz com Pretória. Era a negação de tudo o que havia sido feito em dez anos. Mas ainda era o chefe indisputado dos moçambicanos.

O impensável acontece: Samora, com a sua farda, assina um tratado de paz e não agressão com o Velho Crocodilo. Mas a máquina do apartheid já estava fora de controlo e não ligou ao papel assinado. Em Maputo, em surdina, as dúvidas eram mais que muitas.

Samora em Komatipoort, a dez quilómetros de onde viria a morrer dois anos e meio depois. Aqui com Graça, Botha e Pik (um notório bêbado e ministro dos negócios estrangeiros de Pretória). O pacto fracturou perigosamente a unidade na elite da Frelimo. Mas os efeitos da guerra eram piores.

O Impensável 2: Samora na Casa Branca com Ronald Reagan, o arquitecto do fim do Comunismo. Sem qualquer margem de dúvida, a ideologia do Regime foi posta de lado por Samora. Mas nem assim a África do Sul e a Renamo pararam. Para o encontro com Reagan, que já estava com indícios da doença de Alzheimers, avisaram Samora para dizer o que tinha a dizer de importante nos primeiros cinco minutos, senão Reagan esquecia-se.

O Charlie-Nine-Charlie-Alfa-Alfa. O avião presidencial despenha-se na noite de 19 de Outubro de 1986. Samora, que estava sentado na frente do avião, morre. Foi sucedido por Joaquim Chissano, que exigiu um avião e tripulação que não fossem russos. No 5º Congresso da Frelimo em 1989, o da Volta dos 180 graus, o comunismo foi abandonado. Chegou a Era do capitalismo cortesia do FMI e dos Doadores. E os Empresários de Sucesso. E, segundo Carlos Cardoso, a Corrupção à escala industrial.

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