THE DELAGOA BAY REVIEW

11/05/2010

JOSÉ MILHAZES E SAMORA MACHEL

Filed under: Africa Austral, História Moçambique, José Milhazes — ABM @ 12:21 am

por ABM (10 de Maio de 2010)

Enquanto me encontro a ler o quase enciclopédico ANC: A view from Moscow, de Vladimir Shubin (Joanesburgo: Jacana Media, 2008), interrompi ontem por um serão para ler o mais ou menos bombasticamente intitulado Samora Machel – Atentado ou Acidente?, da autoria de José Milhazes (Lisboa: Alêtheia Editores) publicado há poucas semanas.

O livro de José Milhazes, um português que faz de Moscovo a sua casa aparentemente desde 1977, é, por comparação com a obra de Shubin, que é uma segunda edição revista da primeira, saída em 1999, quase uma brincadeira. Contém algumas citações interessantes relativamente aos grandes protagonistas das décadas entre 1960 e 1990 em Moçambique e na África Austral e o relacionamento dos soviéticos com estes.

Sendo relativamente breve e superficial (para encher o chouriço, começa com a revolução russa em 1917 e no fim até transcreve insuportáveis discursos de Samora a agradecer medalhas soviéticas e de Gorbachov a elogiá-lo à maneira dos tempos de então, com camarada para cima, camarada para baixo), ainda assim tem algumas coisas interessantes, se bem que destinadas a alimentar a guerrilha agora pela memória e pela História, do que foram esses anos.

A começar por Samora Machel, que, por contraste com Joaquim Chissano e Eduardo Mondlane, a acreditar nos testemunhos registados, era considerado quase um tótó pouco racional pelos soviéticos, que se torciam para o acomodar sem saber bem como. Por seu lado, subentendem-se as dificuldades da liderança moçambicana daquela altura em sobreviver e navegar as perigosíssimas águas da Guerra Fria na África Austral.

Pelo meio, José Milhazes aproveita para dar uma tacada a Jacinto Veloso, a Sérgio Vieira e ainda manda um inexplicado torpedo lateral ao actual presidente, sugerindo que não se foi mais longe na investigação das causas e circunstâncias da queda do avião em que Samora e a sua entourage pereceram em 1986, tenha que ver com o facto de Armando Guebuza estar no poder. Para quem como eu está completamente fora da trama, não se percebe a boca publicada, que sugere não sei bem o quê.

A julgar pelo título, o prato forte da obra (que me foi gentilmente oferecida, com rótulo de preço e tudo) seria a queda do avião presidencial em 1986. Mas na verdade é apenas uma parte da obra, em que Milhazes aproveita umas declarações mais ou menos conhecidas e junta a sua às milhentas teorias e conspirações que se vão lendo por aqui e por ali, sobre a queda do avião.

Mas não deixa de ter interesse, já que detalha, por exemplo, a dinâmica do processo, vista do lado soviético, o que não é de subestimar, já que o aparelho e a tripulação do malogrado avião eram soviéticos.

Mas quanto a se foi acidente ou atentado, objectivamente, fiquei na mesma. Aquilo para já é um mistério total, tirando que agora sabemos que a tripulação soviética veio todo o caminho a discutir como dividir entre si umas latas de Coca-Cola surripiadas não sei onde.

Mas o livro tem umas jóias dignas de se ler, como 1) a descrição da cena em que Samora supostamente manda (literalmente) à merda o embaixador russo em Moçambique, 2) a quase impossibilidade dos soviéticos em ajudarem a reforçar a segurança militar no território na face dos ataques das renamos, dos sul-africanos e dos rodesianos, 3) a fase de pastor de Mondlane em Gaza antes de se formar em Portugal (onde, como era de esperar, os tugas logo o trataram abaixo de cão, metendo-o no Aljube por coisa nenhuma), 4) a enigmática descrição dos eventos em redor do assassinato de Mondlane em 1969, contados à lupa como eu nunca lera antes, 5) o facto de Milhazes indicar que o ponto de viragem de toda a guerra com Portugal foi em Julho de 1970, quando o Papa Paulo VI recebe os líderes das guerrilhas africanas antes de uma importante conferência em Roma (pelo meio, morre o ditador Oliveira Salazar, o que Milhazes, curiosamente, omitiu).

E finalmente, uma interessante estatística, quase enterrada por acaso numa das páginas, que indicava que o suporte soviético dado à Frelimo no início dos anos setenta não chegava aos cem mil dólares, enquanto que, apenas poucos anos depois, o orçamento de defesa dos sul-africanos era de cerca de três mil milhões de dólares.

É caso para pensar como é que Samora, mesmo com a história, a razão e a moral do seu lado, pensava que se podia meter com os boers, especialmente num contexto em que a União Soviética se manifestava indisposta para financiar o conflito. E ainda mais curioso foi ficar a saber que, quando oito anos após a independência decidiu assinar o acordo em Komatipoort, em 1984, os amigos soviéticos souberam do tratado pelos jornais. Para eles deve ter sido um grande sapo para engolir.

De certo modo, fico com pena e algo expectante. Milhazes está baseado em Moscovo, e se há dados interessantes e relevantes sobre as perspectivas soviéticas e o seu envolvimento na fase que antecedeu e sucedeu a independência de Moçambique, presumo que certamente esses dados existam na actual Rússia. Assim, quer em termos absolutos, quer em termos relativos (se se comparar, por exemplo, com a profundidade da obra de Vladimir Shubin sobre o ANC, cuja capa reproduzo abaixo), este livro soube a pouco. Espero que esta seja apenas uma primeira tentativa e que Milhazes volte à carga um dia destes com uma versão de 400 páginas muito mais aprofundada sobre o papel soviético em Moçambique.

Entretanto, José Milhazes alimenta um excelente blogue chamado “Da Rússia“, que se recomenda.

Create a free website or blog at WordPress.com.