THE DELAGOA BAY REVIEW

08/11/2017

100 ANOS DE INFÂMIA E 50 ANOS DE MOÇAMBIQUE

Completam-se hoje – dia 7 de Novembro de 2017 – cem anos em que, num golpe palaciano, o radical comunista russo Vladimir Lenine assumiu o controlo do império russo e instaurou uma ditadura comunista. Esse regime, que praticaria as mais inenarráveis barbaridades, viria a durar, formalmente, cerca de 73 anos e a sua história divide-se em duas partes. A primeira, decorre desde este golpe até ao final da II Guerra Mundial, sendo nesta fase o alvo das atenções da ditadura comunista os povos do antigo império russo. A segunda, decorre desde o final da II Guerra Mundial e estende-se até ao final dos anos 80, quando o regime finalmente implodiu, sendo no entanto substituído pelo que parece ser um novo regime autoritário.

É na segunda fase do percurso comunista soviético que a coisa se torna verdadeiramente interessante para o resto do mundo. Tendo abocanhado metade da Europa à laia de espojo de guerra, a União Soviética, uma formidável e mortífera máquina de repressão, acha em si a motivação para confrontar o Ocidente, até então o dono virtual de quase tudo (exceptuando os Estados Unidos, a então nova superpotência) ferido de morte pela evolução das sociedades e pela quase absoluta devastação de duas guerras fratricidas no espaço de 30 anos.

Começou pela Ásia, onde, providencialmente, já decorria uma longa guerra civil entre Mao e Chiang, vencida pelo primeiro em 1949. Seguiram-se muitas outras oportunidades de “libertar” povos, frequentemente com o apoio de países que já constituíam – seguindo o rito soviético – “zonas libertadas da humanidade”.

África – e Moçambique – não seriam excepção. Mas os soviéticos (e, depois, os chineses) chegaram relativamente tarde. Em meados dos anos 60, bem ou mal, a maioria dos países africanos já era nominalmente independente.

Excepto, notavelmente, os territórios sob administração portuguesa, administração essa, por sua vez, sob o controlo de um regime curiosamente autoritário e de partido único, sob a gestão uninominal do sublime e enigmático Dr. António de Oliveira Salazar, para quem o desígnio nacional passava precisamente por deter essas colónias, no que, à primeira vista, parecia ter o suporte dos portugueses. Mas não se sabe bem pois não havia muito debate sobre o assunto. Era uma ditadura e quem não concordasse ia dentro.

Pesem os relatos mais ou menos dourados que agora está na moda citar, os primeiros independentistas moçambicanos eram mulatos aburguesados dos arredores de Lourenço Marques, nos anos 20 e 30, cultos e abertos ao mundo, que claramente viam o que estava para vir. Ficaram os escritos, os poemas e os relatos.

Na segunda metade dos anos 50, começou a efectivamente a história moderna de Moçambique independente, quando um punhado de activistas negros de Moçambique se mobilizou para constituirem grupos de pressão com o objectivo de concretizarem a almejada independência, numa altura em que era por demais evidente que os anos 60 seriam a década das independências e que de repente já havia dinheiro para estas coisas. Até os americanos limparam a toalhinha imperial e se lembraram que também foram uma colónia e que tinham algures no seu DNA uma matriz anti-colonial. Mas, por mais bem intencionados que fossem, a maioria eram grupos regionais, tribais, étnicos, metade do tempo chocavam uns com os outros e aquilo simplesmente não funcionava, para delírio do regime português, uma vez que Salazar obviamente achava que iria levar mais 200 anos para se atingir a “maturidade”, como supostamente levou o Brasil, mais ou menos um Bragança. Até para os regimes comunistas (por sua vez racistas inveterados mas encapotando tudo sob a áurea ideologia socialista) que viam no fenómeno do desmoronamento dos antigos impérios europeus uma oportunidade dourada para conquistar terreno e influências, a conflitualidade era ingerível, tornando quase inexequíveis esquemas de apoio a uma guerrilha.

Importa realçar que a independência de Moçambique tem três figuras incontornáveis, apenas, e nesta ordem: 1. Julius Nyerere; 2. Marcelino dos Santos; e o Dr. Eduardo Mondlane.

Nyerere

Julius Nyerere é pouco estudado, infelizmente, pois é uma figura paradigmática no que concerne o seu país e em relação a Moçambique. Muito do que sucedeu à Frelimo se deve à sua perspectiva e intervenção – e tiques ideológicos. Primeiro uma colónia alemã e depois britânica, entre 1919 e 1962, Nyerere era um professor quando ascendeu à liderança do Tanganhica em Dezembro de 1962. Já antes liderava o principal movimento pela independência, que lhe foi fleugmaticamente entregue pelo último governador e a sua mulher (há um filme excelente desse dia na internet). Na altura, já andavam várias pessoas e “movimentos” pelo Norte (no Sul estavam os Rodesianos e os Sul-Africanos, pouco predispostos a suportar independências africanas). Durante algum tempo, Nyerere assistiu à cena enquanto tentava ligar-se a Zanzibar, e basicamente impôs a ideia que um movimento em favor da independência do território vizinho teria que ser só um. Sendo a Tanzânia o santuário desse movimento, ele podia impôr as regras.

Mas faltava um líder.

Julius Nyerere preside a uma reunião em Dar, em 1974, aquando da visita de um grupo de notáveis de Lourenço Marques. À esquerda vê-se Samora e o Sr. José Craverinha, à direita Marcelino e Malangatana.

E não havia um, apesar de já se conhecer Mondlane, uma lenda num país de essencialmente camponeses analfabetos e desesperadamente pobres.

(Nyerere gastaria os anos 60 e parte dos anos 70 com teorias comunizantes como a Ujamaa e flirts dictatoriais).

Mondlane

Nessa altura, Eduardo Mondlane, que se educara a pulso com o apoio da Missão Suíça, entre outros, tinha 40 anos, casara com uma americana branca meio pimba (casamentos entre raças naquela altura eram um evento, especialmente nos Estados Unidos, onde o casal vivia). Era um professor universitário com uma vivência americana e parecia inclinado para fazer uma vida pacata com a sua Janet.

Mas dois eventos alterariam isso radicalmente.

O primeiro foi o impacto, em Eduardo, de uma visita que fez a Moçambique em 1961 (ele era de Manjacaze, um bastião com memórias vívidas das derrotas do tempo de Mouzinho). Se para a pequena comunidade branca e portuguesa a sua passagem foi notada (ele foi o primeiro negro de Moçambique a doutorar-se) a comunidade mulata e negra ficou siderada. Alto, belo, corajoso, erudito – e um deles. Este era o líder que faltava.

O Dr. Eduardo Mondlane. Um intelectual e um académico.

Mas Eduardo não estava convencido que isso era o que queria fazer na vida. Na altura ainda não se falava em guerra mas a perspectiva de passar anos a tentar tirar teimas com o regime português, que dava todos os sinais de querer resistir a sequer discutir autonomia, não lhe parecia ser o melhor plano. Ainda assim, com algum mexer dos cordelinhos por parte de alguns padrinhos americanos “progressistas” que nele viam o potencial de vir a liderar uma nova nação em África, arranjou um emprego na ONU em Nova Iorque.

Segundo o próprio Nyerere – e este foi o segundo evento seminal – é precisamente durante uma visita de Julius Nyerere a Nova Iorque para reuniões anuais, que eles se encontram e Nyerere desafia Mondlane para liderar uma organização unificada de moçambicanos, baseada no seu país. Mondlane aceita ir a Dar es Salaam para ver se está interessado. O resto é história.

Marcelino

Não questionando os sentimentos nacionalistas de ninguém, a meu ver “o” primeiro moçambicano “de gema” foi Marcelino dos Santos. Marcelino foi realmente o primeiro a articular a gíria da independência, o primeiro a pressintir ser aquele o momento histórico para agir, pois enquanto os “outros” futuros líderes seguiam percursos mais ou menos convencionais, ele, que nascera e crescera em Lourenço Marques, filho dum casal remediado, foi parar a Paris no início dos anos 50. A sua experiência, conhecimentos e contactos, adquiridos na capital francesa, seriam de valor incalculável no futuro. Ele não só tinha a visão estratégica mas também os contactos e a forma de chegar à logística para de facto fazer alguma coisa. E fazer fez.

Marcelino poderia e deveria, por mérito próprio, liderar directamente o combate para a independência, quer diplomaticamente, quer no terreno (ele era fisicamente corajoso, algo que o Dr. Mondlane simplesmente não era). Mas tinha um problema insanável: era mulato (casado com uma sul-africana branca e judia de Joanesburgo, a encantadora Pamela) o que era quase universalmente tido como um obstáculo intransponível para um movimento que pretendia galvanizar um país cuja população era 98% negra e cujos membros de base eram todos negros. A raça com que nascemos tem estas coisas. Durante todo o seu longo percurso político, apesar de ser o cérebro do movimento, Marcelino será o eterno Número 2. Mas um Número Dois Imprescindível. Aceitou a liderança de Mondlane e mais tarde, com o apoio do então jovem Joaquim Chissano, orquestrou a ascendência de Machel, na sequência do (a meu ver) inexplicável e suspeito assassinato do Dr. Mondlane.

Alberto Chipande e Marcelino durante os bons velhos tempos da ditadura comunista de partido único, em que se mandava matar pessoas e se legislava por decreto. Marcelino está no fim da vida. Chipande ainda é hoje um kingmaker.

Marcelino tinha outro aspecto que o distinguia: era tanto como nacionalista como um professo e implacável comunista da velha escola, o que, de facto, o favorecia: historicamente, os países comunistas foram aliados sólidos da luta anticolonial. Mondlane não era anti-comunista no sentido em que tinha que engolir sapo após sapo para obter a ajuda “oferecida” pelos países comunistas, de que necessitava desesperadamente, mas de resto, efectivamente, preferia mil vezes liderar uma Frelimo suportada pelo Ocidente e pelos americanos, num contexto de implantação de um regime supostamente mais convencional e – digamos – democrático. Só que os americanos, a partir mesmo de Kennedy, driblados por Salazar com as Lajes, cortaram-lhe as pernas. Ainda assim, a mulher dele, Janet, fez os impossíveis para obter ajuda não militar dos países escandinavos, especialmente da Suécia, com algum sucesso.

Mas fez pouca diferença. Na verdade, quem pagava a conta da guerrilha, quem formava os quadros, quem controlava as coisas, quem impunha a disciplina e vendia a ideologia, eram os países da órbita soviética e chinesa. Com Marcelino a promover os contactos e (presumo) a gozar com os “amigos” de Mondlane, que falavam muito e bem mas nada faziam em relação aos portugueses e limitavam-se a dar umas bolsinhas de estudo, era uma questão de tempo até que acontecesse uma situação em que Mondlane ficaria isolado na sua perspectiva. Em 1969, ideologicamente, a Frelimo tornou-se efectivamente uma organização com uma matriz marxista-leninista, que foi a base ideológica de tudo o que veio a acontecer a seguir.

Em 1974, o Ano Zero da Independência para a Frelimo, independência e comunismo eram sinónimas. O nascente país saíria directamente de uma ditadura colonial para uma ditadura comunista primária, com toda a linguagem, folclore e instrumentos repressivos associados.

E isso traz-nos de volta ao início deste artigo. Muita gente ainda não distingue entre um país se tornar independente e o regime sob o qual ascende a essa independência. Claramente, ela existe. E se por um lado os apoios dos países comunistas apressaram ligeiramente o momento da sua independência, ela veio contaminada por uma ideologia, e as instituições a ela associados, que causaram danos de proporções titânicas a um povo já de si empobrecido e pouco apto a enfrentar os desafios da modernidade. Após uma série de guerras, de uma guerra civil que matou um milhão de pessoas e destruiu as vidas de milhões, e de variadas reformas tendentes a devolver a Moçambique às supostas práticas normais de qualquer país, a herança da estrutura mental do comunismo permanece e pesa sobre toda a nação moçambicana, mantendo-se na prática a dialéctica política do exercício do poder via um partido único e a ausência “activa” do mero conceito de pluralismo. Moçambique hoje é um dos países mais pobres do mundo, com um curioso punhado de ricos, metade indianos, metade membros da nomenclatura da Frelimo.

Penso que, apesar das diferenças, nem Mondlane nem Marcelino alguma vez sonhariam que as coisas iriam acabar assim.

 

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29/02/2012

SAMORA MACHEL REVISITADO: A PERSPECTIVA DE BARNABÉ LUCAS NCOMO

Samora Machel e o Dr. Eduardo Mondlane, na visão idílico-marxista.

Lendo o combativo semanário Canal de Moçambique de hoje, encontrei na sua página 12, remanescentes de um algum passado num texto discretamente intestino-neo-cafreal-pós-colonial. O que achei positivamente evolutivo, dado o precedente da acusação de má companhia em que me achei uma vez em 1, 2, 3 e 4. Talvez o suporte de um blogue seja diferente do de um jornal. Será? Este blogue é meu. Talvez seja essa a diferença.

Resumo: a recente carga branca dos aviões da TAP nem sempre será do agrado de todos os autóctones, o que poderá ser uma chatice.

Mas neste caso, a má companhia a que me refiro acima – claro – não sou eu, mas a quase contundente análise – a segunda parte, depreendo, que se encontra a partir da página 18 do Canal de Moçambique, da mão de Barnabé Lucas Ncomo, que vai em total contraciclo com o exercício de brainwashing nacional em curso na terra do carvão e do camarão.

Merece uma leitura atenta, se crítica.

Afinal, Samora Machel, e os seus vinte anos na vida pública moçambicana, não são assunto fácil de descarnar. Quem sabe não fala e muitas vezes quem fala, fala mal.

Com profunda vénia para o autor e o jornal, aqui vai.

1 de 4.

2 de 4.

3 de 4.

4 de 4.

31/10/2011

UMA IDEIA DE SALAZAR, PARA QUEM NÃO FAZ IDEIA

Capa de "Salazar, a cadeira do poder".

Até ler o livro cuja capa mostro em cima, nunca tinha ouvido falar de Manuel Poirier Braz. O sítio Wook, onde parece que muita gente compra livros pela internet em Portugal, contém esta algo sumptuosa descrição dele:

Manuel Poirier Braz é licenciado em Direito, pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, possui o Curso Superior de Management do Instituto Nacional de Investigação Industrial (actual INETI) e é diplomado em Marketing, Relações Humanas e Análise Decisional, pela Graduate School of Business Administration da Harvard University. Durante vinte e três anos exerceu diversas actividades em empresas multinacionais, entre as quais, gerente da filial de Lisboa da Rank Xerox, director de Marketing para Portugal, Angola e Moçambique da subsidiária portuguesa do Grupo Dow Chemical, gerente e director-geral, para Portugal e Angola, da consociada portuguesa do Grupo Bristol Meyers. Foi fundador e primeiro presidente da Associação Portuguesa dos Medicamentos de Venda Livre e consultor do ministro dos Assuntos Sociais, para assuntos de Indústria Farmacêutica e Medicamentos. Exerce a advocacia desde 1981 e é membro da Associação Portuguesa de Direito Europeu, da Associação Fiscal Portuguesa, da Associação Portuguesa dos Profissionais de Marketing, da Sociedade de Geografia, do Grémio Literário, da Amnistia Internacional e da Sociedade Histórica da Independência de Portugal.

Já publicou livros que à partida nada têm que ver com este tópico.Um seu livro, saído há pouco tempo, revela a sua experiência na maçonaria (que não li).

Mas depois de ler esta obra, fiquei a conhecê-lo um pouco melhor. Em parte pelo tópico que ele abordou em si – António de Oliveira Salazar – e em parte pela forma como Manuel Braz conta a história.

Como Samora Machel em Moçambique, António Salazar permanece, e permanecerá, uma personalidade e um assunto por debater e resolver em Portugal. Milhares e milhares e milhares de páginas têm sido escritas sobre o conhecido ditador que durante quarenta anos “congelou” a sociedade portuguesa (levando as colónias e milhões de pessoas por arrasto). A maior parte dessas páginas escritas ou é duma erudição inacessível para o povão, ou é, mais ou menos disfarçadamente, tendenciosa.

Felizmente, há uns tempos fez-se um concursozeco da treta numa estação de televisão portuguesa qualquer, para saber quem eram as figuras gratas do Milénio português (o Milénio temporal, não o banco, que anda mal mal mal) e o ditador saiu vencedor, o que teve um efeito engraçado nas hostes. Um dos benefícios dessa palhaçada foi que se escreveu a redobrar sobre Salazar. No pressuposto editorial, suponho, que falar de Salazar vende mais.

Mas na generalidade fez pouca diferença. Os politicamente correctos condenam Salazar, e os politicamente incorrectos elogiam. A maior parte das pessoas permanece ignorante, imersa nas suas próprias opiniões já formadas.

É aqui que entra Manuel Poirier Braz. Que, com o livrinho em cima, conseguiu vários feitos.

O primeiro, e mais importante, é que conseguiu resumir de forma agradável, legível, e equilibrada, as alucinantes primeiras sete décadas e meia da história de Portugal.

Que, como o exmo. Leitor já deve ter percebido, “entubam” durante quase cinquenta na pessoa deste senhor.

Em segundo lugar, Manuel P. Braz tem uma postura relativamente distanciada mas informada dos principais eventos que moldaram a passagem de Salazar pelo governo. Fornece os principais tópicos e trabalha neles sem perder o fio à meada. Para quem quiser saber mais há obras que esmiúçam o homem e a sua obra até ao pintaralho. Mas há, acredito, lugar para obras deste tipo.

Especialmente para quem não estava lá ou aprendeu o que foi que aconteceu.

Em terceiro lugar, o livro está bem escrito. Bem, não: muito bem. É um prazer seguir a história.

Em quarto lugar, no pouco que comenta. Poirier Braz deu o tiro certo na direcção certa.  Eu canso-me de ler as versões facilitistas ou dogmáticas do que foi este episódio da história portuguesa e da ponderação das valências e contributos deste homem. Poirier Braz concentra-se nos factos disponíveis e vai reconstruindo o cenário, o que, para uma obra com 250 páginas, é notável.

Apesar da sua contenção, Poirier Braz destaca pequenos mas cruciais, e deliciosos, detalhes. Gostei particularmente da sua descrição dos dias que se seguiram à tromboze de Salazar em 1968. Ou os anos entre 1958 e 1962, com destaque para o episódio da Índia portuguesa. Achei menos feliz o mini-capítulo sobre as “mulheres” de Salazar. Em parte porque acho que é um assunto que não vale um caracol, em parte porque acho que se sabe pouco e especula-se demais. Ainda assim, aqui Manuel Braz divertiu-se com os seus leitores ensaiando uma espécie de radiografia psico-sociológica de Salazar onde acho que ele acertou mesmo no meio do alvo.

Resumindo, se o exmo. Leitor quiser saber o essencial sobre Salazar, e porque é que a história de Portugal foi o que foi entre 1920 e o fim do século passado, este é o livro da ler: “Salazar – A Cadeira do Poder (Lisboa:Editorial Presença, 2008).

27/10/2011

COMENTÁRIO DO COMANDANTE LUIS BRITO DIAS SOBRE O INCIDENTE DE MBUZINI

O malogrado que transportou os malogrados.

A propósito da surpreende caça às bruxas aparentemente e mais uma vez em curso em relação ao assunto referido acima, repesco e anexo texto copiado do semanário Zambeze, que se publica em Maputo, na sua edição de 28 de Agosto de 2008, com vénia. Grato ainda ao Carlos Schmidt pelo envio de fotocópia da publicação.

O comentário do Sr. Comandante Luis Brito Dias (NOTA: com as alterações efectuadas após a mensagem de correcção gentilmente enviada pelo Sr. Comandante em 28 de Outubro e que consta na secção dos comentários em baixo) :

Li com muita atenção as declarações do Sr. Sérgio Vieira a respeito do desastre de Mbuzini (jornal O País, 15 de Agosto de 2008), assunto que me interessa sobremaneira, pois trabalhei em Moçambique como piloto da DETA /LAM durante 17 anos. Presentemente trabalho no Extremo Oriente como comandante de uma transportadora aérea, pilotando aviões do tipo Boeing 747-400. É evidente que o Sr. Sérgio Vieira mente descaradamente pois ele era na altura do acidente o Ministro da Segurança, portanto com responsabilidades no que veio a acontecer.

Samora teve uma morte inglória e claro que ele também foi o responsável pelo que aconteceu pois entregou a sua própria vida nas mãos de pilotos que revelaram desleixo, negligência e incúria. Todos os pilotos que voavam na LAM na altura sabem perfeitamente que o acidente de Mbuzini deveu-se a negligência e incúria por parte da tripulação técnica. Aliás, após o acidente, o Sr. Sérgio Vieira fez chegar aos pilotos da LAM a mensagem, tipo ameaça bem clara, para se manterem calados e não abrirem a boca. Foi por essa razão que nenhum Comandante foi nomeado para fazer parte da comissão de inquérito. O único que foi nomeado foi um co-piloto da LAM, que tinha sido da Força Aérea e era membro do Partido Frelimo, e por isso facilmente controlável. Este co-piloto começou a ver a nojeira que era a Comissão de Inquérito e arranjou maneira de se baldar rapidamente pois em consciência não podia participar na deturpação da verdade. Os pilotos soviéticos além de terem pouca experiência, voavam muito pouco e as licenças de voo que foram apresentadas no inquérito são falsas. Foram emitidas posteriormente.

Na altura eu era co-piloto do DC-10 da LAM, e num voo de Lisboa para Maputo, juntamente com o Comandante, demonstrámos a Mariano Matsinhe e a outro ministro da Frelimo que seguiam a bordo, o que realmente tinha acontecido. Eles foram nossos convidados no cockpit. Até fizemos a viragem ou mudança de rumo inicial, bem como a manipulação errada dos selectores de instrumentos de navegação para lhes mostrar o que se passara na noite no desastre de Mbuzini. Para além de não trazerem combustível de reserva o que aconteceu foi que dos 5 tripulantes no cockpit, 3 estavam entretidos a dividir as bebidas alcoólicas que iriam sobejar, até 6 minutos antes do impacto final. Só o co-piloto e o navegador é que estavam a tomar “conta” do voo. Tudo isto está registado na transcrição do CVR (Cockpit Voice Recorder).

O Comandante só se apercebeu que estavam perdidos 3 minutos antes do impacto final. A desorientação era tal que nem ligaram nenhuma ao aviso sonoro (GPWS) que o avião ia bater no chão sem estar na configuração de aterragem. Quebraram muitas regras básicas de “ouro” da aviação, mas a mais importante foi terem chegado à “Altitude de Segurança”, publicada para Maputo, que é de 3 000 pés, e continuarem a descer sem terem contacto visual com o solo ou, em alternativa, indicação electrónica correcta dos equipamentos de navegação de Maputo. Neste caso, o ILS ou o VOR de Maputo.

O que sucedeu foi que eles em vez de seleccionarem o ILS de Maputo (110.3) enganaram-se e seleccionaram o VOR de Matsapa (112.3) e desviaram-se de rota para a Radial 045 de Matsapa em vez de estarem na Radial 045 do VOR de Maputo. O navegador do Tupolev enganou-se, pois no sistema russo quem selecciona as rádio-ajudas são os navegadores e não os pilotos. Ele já vinha com o VOR de Maputo seleccionado (112.7), mas ao mudar de frequência para o ILS de Maputo (110.3) que é uma rádio-ajuda de aproximação à pista e não de navegação em rota, cometeu o erro fatal. Os selectores dos dígitos decimais são independentes dos dígitos das centenas. Ou seja, primeiro teria que mudar de 112 para 110 e depois de 0.7 para 0.3 com um selector independente. O que aconteceu foi que ele deixou ficar o 112 e só alterou de 0.7 para 0.3 o que veio a coincidir com a frequência do VOR de Matsapa. Foi esta manipulação errada de sistemas que levou a tripulação a fazer uma viragem de rota. Como estavam “distraídos” no cockpit não houve ninguém que verificasse as manipulações dos selectores de frequência. Uma das regras básicas é que sempre que se muda qualquer coisa no cockpit essa acção tem que ser verificada e aceite pelo outro piloto.

Nada disso foi feito. Estas foram as causas imediatas do acidente, mas houve outros factores que também contribuíram, tais como a fadiga da tripulação, a falta de combustível, a inactividade prolongada da tripulação, a falta de verificações de simulador de voo, etc. Um acidente de aviação nunca acontece por si só. É sempre um acumular de eventos que vão culminar num fim trágico. Não querendo ser arrogante, mas a minha experiência de 31 anos de aviação bem como a participação em inquéritos de acidentes aeronáuticos deixam-me perfeitamente à vontade para falar destas situações.

Depois de tantos anos de poder do ANC na África do Sul, e apesar de muita investigação por parte das novas autoridades sul-africanas, quer a nível da Comissão da Verdade e da Reconciliação, quer a nível da polícia mandatada pelo Presidente Thabo Mbeki há mais de dois anos, não foi encontrado qualquer vestígio de tentativa de interferência no voo por parte das autoridades sul-africanas do anterior regime. As teorias conspiracionistas voltaram-se então para supostos mentores internos, o que é muito duvidoso e sem cabimento. Os factos falam por si…

(fim)

Um nota do jornal acrescentou:

Em declarações posteriores à publicação do seu artigo, o Comandante Luís Brito Dias referiu que “a primeira indicação para nos mantermos calados foi dada verbalmente pelo então director das LAM, que nos avisou claramente de onde vinham as instruções.” Luís Dias acrescenta que “a outra vez foi numa discussão privada com uma pessoa muito chegada a Sérgio Vieira que até nos disse, num tom ainda mais ameaçador, que se nós (pilotos da LAM ) continuássemos a falar, acabaríamos presos.” O Comandante Dias refere que “nessa conversa até estavam presentes outros dois pilotos da LAM que ficaram estupefactos com o tom da ameaça.”

Houve ainda uma outra ameaça nesse sentido, vinda de um dos membros da Comissão de Inquérito moçambicana”, acrescentou a fonte.

Avisos idênticos foram transmitidos a todo o pessoal do Aeroporto de Maputo e da Aeronáutica Civil. Os primeiros indícios da mão pesada da segurança moçambicana, após o acidente de Mbuzini, reflectiram-se na Torre de Controlo do Aeroporto, em que o controlador de tráfego aéreo de serviço na noite do acidente viria a ser detido. Igualmente presos pelo Snasp foram funcionários ligados à área da meteorologia por terem contactado o Aeroporto Internacional de Joanesburgo para uma actualização do estado do tempo. O pedido a Joanesburgo foi feito depois do Comandante Sá Marques, do voo TM103 da LAM, vindo da Beira, ter informado a Torre de Controlo de Maputo de que não poderia continuar por mais tempo em espera e que uma alternativa seria desviar o seu voo para a capita sul-africana uma vez que não era possível aterrar em Maputo. O voo TM103 acabou por ser desviado para a Beira no meio de grande pandemónio no interior da Torre de Controlo do Aeroporto de Maputo em que agentes do Ministério da Segurança ficaram alarmados por se ter dado a conhecer à África do Sul que algo de anormal se estava a passar.

Pelos vistos o João Cabrita mais do que tem razão.

Ah, as saudades que tantos parecem ter dos bons velhos tempos.

O documento:

Capa, topo.

Capa, parte inferior.

Artigo, topo.

Artigo, parte inferor.

24/10/2011

INAUGURADA A ESTÁTUA A SAMORA MACHEL EM MAPUTO, 2011

A agora descerrada estátua homenageando o primeiro presidente de Moçambique, situada onde estava a estátua de Mouzinho de Albuquerque na antiga praça Mouzinho de Albuquerque. Para quem estiver distraído, há outra quase igual uns cem metros abaixo na rua, mas mais pequena. De braço no ar e tudo.

 

O obra de arte importada da Coreia do Norte.

 

Os rapazes da Libertação no momento da inauguração do monumento a Samora, vinte cinco anos até ao dia em que o Tupolev presidencial se estampou contra as colinas de Mbuzini.

21/10/2011

SAMORA MACHEL VINTE CINCO ANOS DEPOIS: OS EVENTOS E A NOTA DE FERNANDO LIMA

Samora Machel revisitado - mais uma vez.

Por razões evidentes de regime, mas também históricas e de senso comum, Samora Machel é lembrado e comemorado, mesmo vinte cinco anos após o seu desparecimento físico num acidente, ou incidente, aéreo, cujas causas ainda fazem correr tinta (vejam-se os esforços continuados de Mamã Graça e os tiros quase hilariantes trocados entre o Sérgio Vieira e o João Cabrita).

Lamentavelmente (suponho que deve ser qualquer coisa ainda a ver com a herança cultural portuguesa) celebra-se, não o dia em que nasceu, mas o dia em que morreu. Eu sei que Samora Machel nasceu num 29 de Setembro e que em Moçambique este mês já está pejado de feriados. Mas comemorá-lo não tem que ser um feriado. Senão qualquer dia Moçambique fica como Portugal, com tantos feriados que não se trabalha. E acima de tudo, Moçambique precisa que se trabalhe. Não querendo ser dogmático, eu diria: querem celebrar Samora? então trabalhem mais.

Esta semana, por exemplo, finalmente, lá se fez o gesto de colocar no lugar vago por Mouzinho de Albuquerque uma estátua menos má de Samora (importada da Coreia do Norte, doze metros de altura, sem pedestal, um bocadinho demais ao estilo do Querido Líder lá nos confins da península coreana mas enfim) mais uma vez recompondo a bem conseguida estética da praça em frente ao edifício do Conselho Municipal e, espero, salvando-a de vez de um plano de reconfiguração totalmente surreal que circulou em tempos pelos circuitos subterrâneos da máfia moçambicana na internet, creio que da autoria do Sr. Arquitecto José Forjaz.

36 anos depois de Mouzinho out, Samora in.

Mas, para além de uma romaria ao local do acidente/incidente em Mbuzini, na vizinha África do Sul, e do gesto simpático de Jacob Zuma e de Sua Eternidade salazarenta o Sr. Robert, terem publicamente agradecido qualquer coisinha pela catástrofe libertadora infligida ao povo moçambicano sob a liderança de Samora logo a seguir à declaração de “independência” (na verdade, Moçambique tornou-se independente dez dias após a assinatura dos acordos em Lusaka, no final da primeira semana de Setembro de 1974), o prato forte foi uma conferência sobre Samora em Maputo.

A conferência teve a interessante, e provavelmente única, e irrepetível, característica, de reunir sob o mesmo tecto uma boa parte dos protagonistas ainda vivos dos eventos de que resultou, entre 1974 e 1992, a entrega, ou a tomada, dos governos da maior parte dos países da África Austral, para as mãos de elites nacionais, seguindo apenas um pouco mais tardiamente o curso de quase todo o resto da humanidade.

Papá António e Mamã Graça na Conferência sobre Samora.

Sobre a mesma, com profunda vénia, reproduzo em seguida o magnífico texto da autoria de Fernando Lima, participante, espectador, jornalista e também gestor de media, que viveu muitos dos eventos ali tratados e que pelos vistos esteve sentado lá o dia inteiro a ouvir o que as pessoas tinham para dizer. Este texto foi publicado no jornal Savana, que se publica em Maputo, na sua edição de hoje.

Aqui vai:

Quando Samora era Jack Dempsey

Por Fernando Lima em Savana, 21 de Outubro de 2011

Terça-feira fui ao Centro de Conferências, ali para os lados do Miramar, aqui na capital, e fiz como disse que faria o Dr. Almeida Santos, um dos ilustres oradores no simpósio dedicado a Samora Machel. Apesar de não ter convite, fiz-me à sala e passei lá o dia todo. Ouvi 15 intervenções e como não levava bloco de notas passo a citar de memória.

Do que gostei mesmo foi das memórias de Albino Maheche, um “mais velho”, enfermeiro de profissão, que fui aprendendo a conhecer pelas bandas do ministério da Saúde no pós-independência.

Maheche, um contemporâneo e amigo de Samora, trouxe à colação as suas recordações da vivência em comum com o então jovem enfermeiro Machel. E ficámos todos a saber do seu fascínio pelo boxe, como era hábito na década de 50/60. Craveirinha, também contemporâneo de ambos, redige o famoso poema de exaltação ao combate de desforra protagonizado pelo pugilista negro Joe Louis em Berlim. (“A desforra do nosso Joe Louis frente ao Max Schmmeling/veio no telégrafo e saiu no jornal Notícias/mas quanto ao resto em Lourenço Marques…/Nada !/O resto não saiu no jornal Notícias/Não saiu na Rádio Clube de Moçambique./Só o Brado Africano é que está a dizer./Portanto guarda bem guardado este Brado/e treina muito bem este boxe !”).

Samora, na camarata onde viviam os aspirantes a enfermeiros, levava a alcunha de Jack Dempsey, um formidável boxeiro americano, campeão de pesados entre 1919 e 1926. Para melhorar o seu boxe, Samora golpeava com frequência um saco de areia na casa de banho e assistia aos combates que tinham lugar habitualmente no pavilhão do Malhangalene (hoje Estrela Vermelha).

Também ficámos a saber que um padre católico na Catedral o apoiou nas matérias lectivas do 2º. ciclo dos liceus, que gostava das disciplinas de História, Geografia e Português, sabendo de cor várias estrofes dos Lusíadas de Luís de Camões, leitura obrigatória na escola.

Quase inevitavelmente, os jovens Maheche e Machel cruzam-se com o Dr. Mondlane, então hospedado no Khovo (Missão Suiça), vindo dos Estados Unidos. Ali se cruzam também com o poeta Virgílio de Lemos (exilado desde 1963 em França) que queria que os dois se juntassem ao movimento independentista. Lemos tornou-se conhecido por ter apelidado a bandeira portuguesa de “kapulana verde e vermelha” e mais tarde foi preso durante 14 meses por advogar a independência de Moçambique.

Na opinião de Maheche, o estilo contestatário de Machel não ajudou a sua progressão na enfermagem. Numa das aulas, a propósito de enfermeiros e massagens, Samora jocoso quis saber quem dava massagens ao ditador Salazar, conhecido como asceta e celibatário.

Os monitores tomaram-no de ponta e nem sequer o deixaram fazer prova oral de um exame onde tinha positiva na escrita.

Pelo relato da sua filha Ornila fiquei a conhecer um bocadinho mais do Samora doméstico. Dos jantares em família, apesar de ser o “camarada presidente”. Dos treinos dedicados às meninas “para saberem caminhar como senhoras” equilibrando um livro no alto da cabeça, como cruzar as pernas, como sentar e levantar. De como o trautear a canção “canta, canta minha gente, deixa a tristeza para lá” deu origem a semanas de rigoroso “chá” sobre liberalismo e libertinagem.

Não sabe a Ornila porventura que o dito Martinho da Vila, o autor brasileiro da canção, em carne e osso, na sua primeira visita a Moçambique depois da independência, por causa da “libertinagem”, foi impedido de actuar em Maputo e, para salvar a digressão, foi mandado para a Beira, onde actuou para uma plateia de militantes da Frelimo no pavilhão do Ferroviário.

Por causa da mesma libertinagem, anos mais tarde, Bob Marley foi impedido de vir a Moçambique, pois passou a cerimónia da independência do Zimbabwe, no Rufaro Stadium, a fumar vigorosos charros de suruma, mesmo por detrás da delegação oficial moçambicana. O que me recorda a simpatia que os “freaks” citadinos nutriam por Samora à altura da independência, alegadamente por não ser contrário à legalização da “cannabis”. As razões prendem-se com um famoso discurso, em que perante o rufar inebriante dos tambores, Samora disse qualquer coisa como “a cultura é como a suruma a subir pelas nossas veias”.

Voltando para o Zimbabwe, da ajuda de Samora à independência da Rodésia do Sul se encarregou Robert Mugabe, também convidado do simpósio. E como a história é habitualmente feita pelos vencedores, ficaram na gaveta as memórias de Mugabe como pacato professor de inglês na cidade de Quelimane, enquanto Samora apostava numa guerrilha vitoriosa das forças com a sigla ZIPA (Exército Popular do Zimbabwe). E como a história dá muitas voltas, mais tarde os comandantes do ZIPA acabaram presos em Moçambique por solicitação de Mugabe, como documentado por Dzinashe Machingura. Mas isto seria matéria de dissertação para os saudosos Fernando Honwana e Rafael Maguni, por sinal o primeiro embaixador de Moçambique no novo Zimbabwe.

Mugabe falou de Samora, mas aproveitou o microfone aberto e um moderador temeroso do [seu] estatuto “chefe de Estado” para perorar longamente sobre a guerra no Iraque, a selvajaria de George W. Bush, as maquinações de Sarkozy, a ineficácia da União Africana na questão líbia e até o harém de prostitutas à disposição do primeiro-ministro italiano Sílvio Berlusconni.

Quando um jovem exaltado o interpelou sobre os moçambicanos pretos que hoje se substituem aos colonos brancos na partilha das riquezas, Mugabe passou ao lado do debate dizendo secamente que era melhor que as riquezas fossem desfrutadas por nacionais do que por estrangeiros.

Almeida Santos, provavelmente o mais famoso advogado do Moçambique colonial, amigo de Craveirinha, Nogar, Luís Bernardo, Malangatana, de Graça e Samora, mostrou que tem a oratória em forma. Chamou de “preguiçoso” a Luís Bernardo Honwana, o moderador do seu painel, por continuar a ser o nosso escritor de uma obra só, o cão tinhoso que as nossas crianças descobrem na escola pública.

E como Almeida Santos não deixa créditos por mãos alheias, disse ao simpósio que sugeriu a Samora o pacto com a África do Sul que ficou conhecido como o Acordo de Nkomati e organizou a apresentação em Londres a Harry Oppenheimmer, o sul-africano patrão da Anglo-American e crítico do apartheid. Tal como tinha acontecido com Ronald Reagan, Samora descrito por Almeida Santos como “um conquistador” , “um sedutor” , entrou na sala onde estava Oppenheimmer e, por entre efusivos abraços, tratou-se como “Senhor Capital”. Aparentemente, foi “amor à primeira vista”.

Menos simpático ficou na fotografia o já falecido jornalista Pinto Coelho, a quem Almeida Santos revelou ter pedido o “frete” de fazer uma reportagem favorável sobre Samora para preparar o que depois foi a sua viagem triunfal a Portugal [em 1983]. E lá deixou cair também que Samora se “esqueceu” dos papéis para o discurso na Assembleia da República mas conseguiu arrancar um dos mais espectaculares improvisos da sua primeira visita à antiga metrópole colonial.

Noite fora, Marcelino dos Santos, que já disse que ele era a própria Frelimo, vestiu pose mais modesta para falar do humanismo do companheiro Samora, dando os respectivos recados, socorrendo-se do belo poema de Jorge Rebelo, “não basta que seja pura e justa a nossa causa/ é necessário que a pureza e a justiça vivam dentro de nós”. Uma espécie de desforra à recente afronta na reunião nacional de quadros da Frelimo onde o mandaram calar.

Gostei da postura mais académica, menos presidencial de Joaquim Chissano dissertando sobre o Estado-Nação, dos “conselhos” de Prakash Ratilal à juventude que pensa que o futuro é um pronto-a vestir e Óscar Monteiro, que replicou sobre a tradicional “intuição” atribuída a Samora. Gostei que Mário Machungo tenha desenterrado o “samorismo” que defendia Aquino de Bragança, ele que foi um dos vergastados do congresso de Quelimane por defender regras e o rigor na economia moçambicana. Gostei da intervenção emocionada do general Chipande, clarificando a morte do padre holandês (se não me engano em Nangololo) às mãos de dissidentes da Manu ( que um lapsus linguae atribuiu à Renamo), embora não estivesse lá Gruveta para contestar a teoria do primeiro tiro em Chai. Na versão portuguesa, e na cola dos acontecimentos em Angola e no Congo, o assassinato do padre foi o início da luta armada.

A Universidade Eduardo Mondlane organizou o debate mas esteve muito fraca na matéria crítica que podia e deveria ter trazido ao Simpósio. Quando se elevam a categorias históricas termos como “o pai da nação” e o “criador da geração 8 de Março”, fica a impressão que a academia continua a reboque dos acontecimentos, incapaz de aportes críticos e investigações sérias e seguras, indicativas de protagonismo independente dos poderes do dia. Deliberado ou não, os louros das contribuições foram para fora dos muros da universidade.

Armando Guebuza, fez questão de seguir o debate de fio a pavio. Certamente que já deitou contas à vida de como quer ficar na história dos seus dois mandatos constitucionais: eventualmente pela via das presidências abertas ou pelos sete bis aos distritos.

Porém, na “família da Frelimo”, há duas famílias que lhe estarão indelevelmente gratas: os descendentes de Mondlane e Samora. A presidência Guebuza, aparentemente, sarou ou procurou claramente pôr fim às feridas expostas destas duas famílias com contas a ajustar no seio da Frelimo.

Com a poeira e os ventos que nos afagam a memória, o futuro será certamente o melhor juiz.

(fim)

19/01/2011

COMEMORANDO A MORTE DE SAMORA MACHEL

Filed under: História Moçambique, Samora Moisés Machel — ABM @ 6:16 pm

O Presidente Machel exercita os músculos na praia.

19 de Janeiro de 2011

Segundo o Notícias de Maputo de hoje, e reflectindo aquela aparentemente eterna não-dicotomia entre Estado e Partido, o governo moçambicano decretou 2011 o ano de “celebração” do 25º aniversário da morte de Samora Machel.

Mas é a Frelimo – o Partido – que diz que se está a mobilizar à esquerda e à direita, para, no próximo dia 3 de Fevereiro, assinalar a data do desaparecimento do primeiro presidente de Moçambique independente. Vai haver uma cerimónia em Gaza, onde ele nasceu, e vão ser inaugurados nas províncias onze monumentos alusivos ao malogrado presidente. Quem vai pagar estes monumentos e por iniciativa de quem, não foi revelado.

Esta situação coloca duas questões que considero interessantes.

A primeira, simples, é se a figura de Samora Machel é uma figura de Estado ou de partido. Naturalmente que a resposta é que ele é as duas coisas. Mas, num contexto histórico global, e em termos de uma nação, claramente ele é, e está condenado a ser, uma figura de Estado. Daqui a cem anos, quando já ninguém souber bem o que foi a Frelimo (o partido), suspeito que Samora Machel ainda vai estar algures nos livros de história moçambicanos.

A segunda questão é esta para mim estranha e aparente “necrofilia”, decorrente das datas escolhidas para celebrar as pessoas e, mais que as pessoas, as figuras de Estado.

Eu explico.

No firmamento dos feriados moçambicanos, celebra-se no dia 3 de Fevereiro – presumo – a memória dos que morreram na luta pela independência do país.

O dia 3 de Fevereiro assinala aquela segunda-feira à tarde, em 1969, quando Eduardo Mondlane, o primeiro presidente do então movimento guerrilheiro sediado na Tanzânia, morre na sequência do arrebentamento de um pacote-bomba.

A efeméride agora evocada reporta-se àquela segunda-feira ao princípio da noite (dia 19 de Outubro de 1986) quando, agora se sabe, o avião presidencial moçambicano despenhou-se nas colinas em Mbuzini, na África do Sul, junto da fronteira moçambicana, provocando a morte a Samora Machel e grande parte da sua comitiva.

Ora ambas são datas em que os líderes morreram. À partida, não há nada a “comemorar” por assim dizer. São datas tristes, quando muito para as pessoas se vestirem de preto e reflectirem sobre a pessoa que partiu. No caso do 3 de Fevereiro, se calhar é apropriado assinalar os que partiram na data em que Mondlane partiu. Quase todos os países têm datas similares, em que homenageiam respeitosamente os seus compatriotas mortos na defesa do ideal pátrio. Mas, nesses casos, as datas em si extravasam qualquer pessoa e são dedicadas ao colectivo dos que morreram. Em Moçambique, é o dia em que Mondlane morreu.

Eu acredito que, se se pretende comemorar e assinalar as figuras de Mondlane e de Samora, mais simpático e apropriado seria assinalar as datas em que nasceram e aquilo que fizeram em vida, não a particular circunstância das suas mortes.

Ambos são de Gaza e nasceram em localidades relativamente perto uma da outra. Mondlane nasceu em Manjacaze num domingo em 1920, no dia 20 de Junho, e Samora em Madragoa (rebaptizada de Chilembele) numa sexta-feira, a 29 de Setembro de 1933. Há, respectivamente, 91 e 78 anos.

Eu dou um exemplo daquilo que falo. Toda a gente sabe que um dos mais marcantes presidentes e líderes políticos dos Estados Unidos da América, John Fitzgerald Kennedy, foi assassinado ao princípio da tarde do dia 22 de Novembro de 1963 na cidade Texana de Dallas.  Kennedy teve um mandato particularmente notório e atribulado, que incluiu entre outras a única ocasião em que a Guerra Fria esteve a um fio de virar um conflito nuclear. A sua morte foi particularmente bárbara (assassinato a tiro de carabina durante uma parada) e foi seguida de uma série de eventos, os quais ainda hoje são objecto de um muito aceso debate.

JFK e Jackie num dos bailes para assinalar o início do seu mandato presidencial, em 1960. Parte do espólio da Biblioteca Kennedy em Boston.

Alguns vinte anos mais atrde, nos arredores de Boston, foi inaugurada a Biblioteca e Museu Kennedy, cujo objecto é recolher, analisar, estudar e divulgar tudo o que tem que ver com John Kennedy e a carreira pública de Kennedy. Pouco depois, eu visitei o complexo, e entre a documentação e artifactos exibidos, assisti a um filme sobre a vida e a carreira política de JFK. Que foi muito interessante, mas que tinha algo que na altura achei uma particularidade: a história do filme acabava na manhã do dia em que ele foi assassinado. E nem sequer mencionava o que sucedeu a seguir. A história simplesmente parou ali.

Na altura achei aquilo um bocado estranho, mas logo percebi o significado: o objectivo ali era conhecer o homem e a sua obra, não deambular sobre a sua morte e muito menos sobre as circunstâncias em que ocorreu.

Moçambique ainda hoje não possui, que eu saiba, um museu nacional dedicado à sua história. Onde se pudessem reunir a documentação e alguns artifactos dos que contribuiram para a sua edificação e do seu passado. O Arquivo Histórico faz alguma coisa, mas é um arquivo essencialmente bibliográfico, não um museu. E nota-se que isso faz falta, não só para guardar para futuras gerações um pouco do que foi o seu passado – hoje o seu presente – como também de ajudar a estudar, celebrar e comemorar a vida e obra das pessoas que, bem ou mal, contribuíram para construir o país.

Um partido político comemorar circunstancialmente as suas mortes pode não ser, não será, a melhor forma de os recordar.

Samora e Mondlane merecem mais do que isso.

30/11/2010

KOK NAM E A ENTREVISTA SOBRE A ENTREVISTA

ABM & El Grande Kok Nam, Lisboa, 2010

por ABM (30 de Novembro de 2010)

Na sexta-feira passada foi lançado em Maputo um livro sobre o Sr. Kok Nam, fotógrafo célebre de Moçambique. Na altura, mais precisamente com data de 25 de Novembro, o jornal maputense A Verdade publicou uma entrevista com António Cabrita, aparentemente a alma por detrás deste projecto.

Que li.

Esta obra, que pelos vistos foi patrocinada pela Escola Portuguesa de Maputo, foi baseada numa única entrevista de quatro horas que António Cabrita, segundo o jornal um docente que volta e meia publica uns escritos, fez com Kok Nam. E insere-se na intenção da Escola de fazer por ano entre uma e três obras sobre moçambicanos que fizeram a ponte entre o colonialismo e a independência de Moçambique (ah grandes contribuintes portugueses!).

Quanto a este assunto, é melhor mexerem-se depressa senão daqui a nada não há ninguém para entrevistar.

António Cabrita disse algumas coisas que anotei:

– que, devido ao rápido crescimento populacional, especialmente nas cidades, que na preponderância mental dos jovens moçambicanos o passado, tirando aquele discurso oficial que lhes é servido nas sebentas, inexiste. Não há contraditório nem versões variantes. E mesmo esse já é lido de esguelha;

– que haveria a percepção de que o português do Sr. Nam era menos que perfeito. Ora isto se não é racismo está lá perto. O português do Sr. Nam é melhor que o meu e sempre foi. Ele parecer chinês é porque se calhar os antepassados dele eram (não é?). Aliás houve uma considerável e fantástica comunidade de origem chinesa em Moçambique até 1975. Só que a maior parte já havia fugido do comunismo uma vez e não quiseram ficar para se sujeitarem a um novo comunismo. Mas enfim;

–  Kok Nam terá passado a fase apaixonada dos anos de Samora algo distanciado, afirmando que, no entanto, a retórica do primeiro presidente “dava para ressuscitar um cadáver”. Acho que Cabrita aqui sugere que, por isso, Nam nunca terá sido bafejado pelos favores do Regime. Ou se calhar não percebi;

– acho que muito correctamente, Cabrita apontou que, apesar de existir todo um trabalho se calhar único de documentação de imagens da fase após a independência, que quase tudo permanece dentro de caixotes não se sabe bem onde (tens razão, porrada neles, António);

– que, interrogando cerca de 150 jovens moçambicanos alunos sobre o que tinha sido o Holocausto (o massacre sistemático dos judeus na Europa por parte do regime Nazi durante a II Guerra Mundial, em que foram mortas cerca de 6 milhões de pessoas) só um sabia do que ele falava. E um perguntou se “Holocausto” era uma marca chinesa de arroz.

Do que conheço de Kok Nam, oitenta horas de entrevistas não chegava para obter o sumo da sua sapiência. Mas quatro é melhor do que nada.

A ver vamos se esta obra aparece nas margens sonolentas do Tejo.

28/10/2010

OFENSIVA POLÍTICA E ORGANIZACIONAL DA FRELIMO, 1980

No âmbito da Ofensiva, o Presidente Machel aparece de surpresa com a sua comitiva numa escola de Maputo. À sua esquerda vê-se Carlos Cardoso. À sua frente o José Cabaço, mais à direita Miguéis Lopes Júnior. Mesmo no canto do lado direito vê-se Graça Machel.

O Presidente Machel dirige-se aos alunos e professores. Atrás dele vê-se Calane da Silva. No extremo direito da foto, de óculos, é Luis Bernardo Honwana.

por ABM (28 de Outubro de 2010)

Até recentemente não fazia a mínima ideia do que fora a Ofensiva Política e Organizacional da Frelimo nos anos 80, apenas considerava que as fotos eram o máximo.

No entanto, a chamada Ofensiva Política e Organizacional foi um marco, um evento crucial na evolução do sistema e – principalmente, no pensamento político e económico de Samora Machel em termos da dialéctica do conflito interno da Frelimo de então e do Presidente moçambicano no que concerne ao futuro.

O insigne académico José Negrão, da Universidade Eduardo Mondlane (infelizmente falecido em 2005) deixou-nos um verdadeiro tesouro, na forma de um texto intitulado Samora e Desenvolvimento, datado de Maio de 2001, que na minha humilde opinião devia ser leitura obrigatória para todos os estudantes, apreciadores e analistas (até os de bancada) do percurso económico-político moçambicano dos primeiros dez anos após a Independência. Tem as vantagens de uma leitura erudita mas fácil de seguir, e de permitir ao seu leitor uma perspectiva particularmente reveladora do pensamento do presidente Machel.

O texto do prof. Negrão situa e descreve claramente o que foi a OPO e o contexto em que se insere.

E por o exmo. Leitor estar a ler aqui o Maschamba, pode ler o texto premindo AQUI.

Totalmente grátis e nem sequer precisa de se pré-registar.

(grato ao LL)

FRELIMO ALL STARS FUTEBOL CLUBE, ANOS 60

A equipa do Frelimo All Stars Futebol Clube: em cima, da esqª - Mabote, Chipande, Chissano ,(?), Mondlane, Machel, (?). Em baixo, não sei quem são mas quem souber se faz favor que mande os nomes para cá.

(eternamente grato a LL)

19/10/2010

SAMORA MACHEL: A HISTÓRIA EM FOTOGRAFIA

A imagem do primeiro presidente idealizada, estilo "Grande e Querido Líder"

por ABM (19 de Outubro de 2010)

Há muita gente que já não se lembra bem de Samora Machel, e a maior parte dos moçambicanos hoje já nasceu depois dele morrer. Eu, por exemplo, nunca o conheci.

Em seguida, imagens que retratam o segundo presidente da Frente de Libertação de Moçambique e o primeiro presidente de Moçambique. Legendas de ABM.

Então cá vai.

Samora na Tanzânia, a base de operações da Frelimo, com Valeriano Ferrão e o filho dum apoiante do movimento. Valeriano mais tarde foi o primeiro embaixador moçambicano nos Estados Unidos da América, onde o conheci. Através da Ndjira, escreveu um livro sobre a sua experiência.

Josina Machel. Foi a primeira mulher oficial de Samora. Bonita. Morreu durante a guerra da Independência. Santificada pelo regime, deram o seu nome ao velho Liceu Salazar em Maputo.

Samora o Senhor da Guerra, já antes da estranha morte de Mondlane e a depuração que se seguiu. A "Frente" deixou de ser uma frente e passou a ser politicamente uma - e marxista-leninista.

Com o seu fato de El Comandante, Samora discursa no mato (não sei a quem).

Após a morte de Eduardo Mondlane, e com o apoio de Marcelino dos Santos, Samora despacha a oposição.

Socialista e sem qualquer margem negocial, Mário Soares entrega as chaves da casa a Samora em Lusaka, 7 de Setembro de 1974. Fez-se da data um feriado nacional.

A Independência em Junho de 1975 foi uma espécie de orgasmo colectivo. A Frelimo mandava, e Samora mandava na Frelimo. E a sua palavra de ordem? "A Luta Continua". As acções: despachar os colonialistas, controlar as cidades, libertar a Rodésia e a África do Sul. Resultado: a economia desmoronou-se e a Rodésia começou a desfazer Moçambique.

O povo a caminho de (mais) um comício. Os moçambicanos veneravam o seu líder, em quem confiavam para lhes trazer um novo futuro. Dizia-se que cada vez que discursava eram mais três aviões de colonialistas a voar na Tap para Lisboa. Mas o povo adorava, especialmente quando ele dizia; "é ou não é?" (a resposta colectiva: "ééé´...")

As Forças Populares de Libertação de Moçambique, os novos Donos da terra. Em Maputo, entre outros mimos, batiam à porta das pessoas às 5 da manhã e mandavam-nos ir varrer as ruas.

Ian Smith, primeiro-ministro da Rodésia até 1980. Abandonado pelos sul-africanos logo em 1975, respondeu à decisão de Samora de constituir Moçambique como santuário para a Zanu-PF com uma guerra. Num dos primeiros ataques, uma base perto da Beira, os rodesianos mataram mais gente num fim de semana que os portugueses num ano de guerra. E a situação só piorou.

A senhora que se segue: Samora casa com Graça Simbine, uma discreta chope, hoje a grande Graça Machel.

Samora o Presidente. Com os rapazes, posando para a posteridade.

O Presidente no palácio, em família, num intervalo de pausa.

O carisma de Samora era apercebido como 80% da força do regime. Até 1984.

A deusificação do Líder. Aqui, Samora com Eduardo Mondlane, liderando a gloriosa luta do povo moçambicano.

Samora e Julius Nyerere com as respectivas. Nyerere, Fidel e Stalin parecem ter sido as grandes inspirações de Samora.

Nujoma, Kaunda, Samora, Nyerere, Mugabe e, segundo o nosso leitor Sr. Jongomoz, José Eduardo dos Santos: A aliança chamada "Países da Linha da Frente". Contra a África do Sul.

Nujoma, Samora, Kaunda e Mugabe. Dos quatro países, só Moçambique foi dizimado, primeiro pelos rodesianos e depois pelos sul-africanos e pela Renamo. Angola era outra loiça.

Samora o Estadista africano na Cortina de Ferro. Até quis entrar na COMECON (não foi aceite). Aqui com um dos seus ídolos, Fidel Castro.

Samora o Estadista, outra vez com Fidel (não sei quem é o sr, à esquerda).

O líder mundial: Samora com Chou en Lai, o homem forte da China após a morte de Mao em 1976.

Samora na Roménia com o ditador Ceaucescu: a amizade socialista foi essencialmente um gigantesco fiasco. Em Maputo, havia um novo tipo de apartheid: a praia dos americanos, a praia dos russos, a praia dos alemães da RDA, etc.

Samora dá uma palmada nas costas de Yasser Arafat, líder guerrilheiro palestino. A amizade entre os Libertadores.

O Presidente, de farda militar numa visita à Alemanha comunista, dá uma dose de charme a uma alemã gorda. Curiosamente, a sua visita a Portugal nos anos 80 foi nada menos que triunfal.

O Presidente, num momento de descontracção. Em 1983, Samora já se tinha apercebido no buraco em que Moçambique se tinha metido. Os sul-africanos demoliam o país e os apoios de Leste eram insuficientes. Estava encostado contra a parede.

Samora solitário. Em 1983, dá-se a grande viragem no homem, que chocou e alienou a liderança da Frelimo e de quase todos os líderes com quem estivera: introduzir práticas "capitalistas" e assinar um tratado de paz com Pretória. Era a negação de tudo o que havia sido feito em dez anos. Mas ainda era o chefe indisputado dos moçambicanos.

O impensável acontece: Samora, com a sua farda, assina um tratado de paz e não agressão com o Velho Crocodilo. Mas a máquina do apartheid já estava fora de controlo e não ligou ao papel assinado. Em Maputo, em surdina, as dúvidas eram mais que muitas.

Samora em Komatipoort, a dez quilómetros de onde viria a morrer dois anos e meio depois. Aqui com Graça, Botha e Pik (um notório bêbado e ministro dos negócios estrangeiros de Pretória). O pacto fracturou perigosamente a unidade na elite da Frelimo. Mas os efeitos da guerra eram piores.

O Impensável 2: Samora na Casa Branca com Ronald Reagan, o arquitecto do fim do Comunismo. Sem qualquer margem de dúvida, a ideologia do Regime foi posta de lado por Samora. Mas nem assim a África do Sul e a Renamo pararam. Para o encontro com Reagan, que já estava com indícios da doença de Alzheimers, avisaram Samora para dizer o que tinha a dizer de importante nos primeiros cinco minutos, senão Reagan esquecia-se.

O Charlie-Nine-Charlie-Alfa-Alfa. O avião presidencial despenha-se na noite de 19 de Outubro de 1986. Samora, que estava sentado na frente do avião, morre. Foi sucedido por Joaquim Chissano, que exigiu um avião e tripulação que não fossem russos. No 5º Congresso da Frelimo em 1989, o da Volta dos 180 graus, o comunismo foi abandonado. Chegou a Era do capitalismo cortesia do FMI e dos Doadores. E os Empresários de Sucesso. E, segundo Carlos Cardoso, a Corrupção à escala industrial.

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