THE DELAGOA BAY REVIEW

17/11/2017

O PLANO 8 DE SETEMBRO

Filed under: O Plano 8 de Setembro — ABM @ 1:49 am

Talvez o episódio mais mal contado da história mais mal contada, relacionada com a entrega, pelas então autoridades portuguesas (essencialmente, os militares que mandavam em Portugal na sequência do golpe de Estado militar ocorrido em 25 de Abril de 1974) do poder central à Frente de Libertação de Moçambique, no dia 20 de Setembro de 1974, foi o que aconteceu a seguir. Essencialmente, os líderes da guerrilha e o governo então empossado em Lourenço Marques, ressabiados pelo que sucedera na Cidade durante quase uma semana, principiaram um processo deliberado de assédio, de perseguição, de confisco e de desconfiança total, visando a sua saída do então ainda território português. Para além de tudo o mais, e que não era pouco, a “revolta radiofónica” em Lourenço Marques, nas suas mentes, “provara” que os portugueses e os brancos de Moçambique nunca poderiam e nunca seriam de confiar. E nunca serviriam (nisso acredito que correctamente) nem alinhariam com o que estariam a planear fazer em seguida no nascente país. Portanto, a perseguição que lhes foi movida, a todos os níveis, de todos os quadrantes, foi uma política deliberada, para os forçar a irem embora, preferencialmente sem nada.

A todos os títulos, a política adopstada foi um sucesso duradouro. A saída dos brancos e portugueses de Moçambique foi maciça, propiciando o colapso da economia e lançando Moçambique para o futuro atribulado que se seguiu.

As autoridades portuguesas a tudo assistiram imperturbadas.

Com vénia a um blogue que visitei recentemente, cito uma peça saída no jornal O País (Maputo) em 23 de Abril de 2009, em que, reportando-se a uma peça da Lusa, refere, na primeira voz, as impressões colhidas por um alto diplomata soviético que testemunhou as ocorrências no local e na altura.

A visão Soviética da expulsão dos Portugueses em 1975: “Samora tratou os portugueses de forma dura”

Diplomatas soviéticos, que deram início às relações diplomáticas entre a URSS e Moçambique, criticaram a política de Samora Machel face à população portuguesa branca, sublinhando que, nesta área, o antigo presidente moçambicano se comportou de forma semelhante ao ditador soviético José Estaline.

“De forma dura, tal como Estaline, foi como Samora Machel tratou os portugueses que viviam em Moçambique. Muitos deles receberam com entusiasmo os combatentes pela independência, quando entraram em Lourenço Marques, e estavam prontos a cooperar de todas as formas com a Frelimo”, escreve Piotr Evsiukov, primeiro embaixador soviético em Moçambique, em “Memórias sobre o trabalho em Moçambique”.

Também aqui se revelou o extremismo de Samora Machel.

“Samora apresentou aos portugueses condições tais de cidadania e de residência em Moçambique de modo a que, na sua esmagadora maioria, eles se sentiram obrigados a abandonarem o país. Com a fuga dos portugueses, a economia de Moçambique entrou em declínio”, recorda.

Piotr Evsiukov revela que Samora Machel era um convicto admirador de José Estaline. “Samora Machel falou-me várias vezes do seu apego e respeito por José Estaline. Durante a visita oficial de uma delegação de Moçambique à URSS, Samora Machel terminou a viagem na Geórgia [local de nascimento de Estaline]. Depois das conversações com Eduard Chevarnadzé, Sérgio Vieira, membro da direcção da Frelimo, veio ter comigo e pediu-me, em nome do presidente, para arranjar um retrato de Estaline. Claro que os camaradas georgianos satisfizeram o pedido com agrado”, escreve Evsiukov.

Arkadi Glukhov, diplomata soviético que chegou antes de Evsiukov para abrir a embaixada da URSS em Lourenço Marques, escreve: “Após o fim da segunda guerra mundial, Lisboa, tendo diante de si os exemplos da queda dos impérios coloniais da Inglaterra e da França, enveredou pela via da reforma intensa do seu sistema colonial, nomeadamente no campo das relações entre raças da política social e cultural“.

Tudo isso foi levado à prática na chamada política de ‘assimilação’, cujos rastos sentimos com evidência quando chegámos a Moçambique”. Porém, continua o diplomata soviético, “esses rastos começaram a desaparecer rapidamente, principalmente depois da entrada em Lourenço Marques das unidades militares da Frelimo e da intensificação das medidas e de todo o tipo de limitações (frequentemente inventadas) contra a população portuguesa, não obstante, em geral, ela ser leal e estar pronta a cooperar com os novos poderes”.

Segundo Glukhov, “no fim de contas, isso levou à partida em massa dos portugueses do país, o que se reflectiu de forma grave na sua vida económica e aumentou a tensão nas relações entre raças”.

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26/08/2017

BUSTO DO GENERAL MACHADO INAUGURADO EM LISBOA EM 2017 – VINDO DE MOÇAMBIQUE

Filed under: História, Joaquim José Machado 2017 — ABM @ 2:08 am

Parte do texto e imagens foram obtidos e reproduzidos com vénia do sítio da Câmara Municipal da Cidade de Lisboa. Para ver a fonte, prima aqui.

 

O busto do General Joaquim José Machado, inaugurado numa rua de Lisboa em Fevereiro de 2017, na praça que também tem o seu nome.

Há uns meses, o sítio da Câmara Municipal de Lisboa noticiou o seguinte:

Lisboa, 10 de Fevereiro de 2017 – O presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, acompanhado pela vereadora da Cultura, Catarina Vaz Pinto, e pelo presidente da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica, António Cardoso, inaugurou o busto do general Joaquim José Machado, no largo, com o mesmo nome do homenageado, em Benfica. 

Na cerimónia, Fernando Medina sublinhou o momento como uma “justa homenagem a um homem que honrou e valorizou a memória de Portugal bem como da cidade de Lisboa” falando do seu percurso de vida e carreira política do general Joaquim Machado.

Como representante da família, o embaixador Manuel Lobo Antunes proferiu algumas palavras sobre o seu bisavô e de como seria uma figura muito querida e motivo de orgulho para todos os seus. Manuel Lobo Antunes explicou ainda que, o busto, da autoria do escultor António Augusto da Costa Mota, esteve durante muitos anos na embaixada portuguesa em Maputo e que foram necessários muitos esforços e a ajuda fundamental da autarquia para que a obra chegasse a Lisboa e ficasse junto à casa do seu avô.

Alguns dos descendentes de Joaquim José Machado e seus amigos, quem incluem António Lobo Antunes, o Embaixador Manuel Lobo Antunes e ainda o Presidente da Câmara Municipal da Cidade de Lisboa.

O general Joaquim José Machado, nasceu em Lagos a 24 de setembro de 1847 e morreu em Lisboa a 22 de fevereiro de 1925. Em 1876 é promovido a capitão e logo escolhido, pelo então Ministro da Marinha e Ultramar, João de Andrade Corvo, para participar numa das duas grandes expedições, que o ministro organizara para empreender o fomento e valorização das colónias de Angola e Moçambique. 

Neste contexto, foi responsável, em 1877, pelo planeamento do traçado do caminho-de-ferro de Lourenço Marques a Pretória, projeto do qual foi encarregado pelo presidente da República do Transvaal, Paul Kruger. Empreendeu, igualmente, a construção de uma ligação ferroviária entre Moçâmedes e a Província de Bié, em Angola.

Reconhecido como Comendador e Grande-Oficial da Ordem Militar de Avis, Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada e Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo, recebeu ainda diversas homenagens em Portugal, Angola e Moçambique.

(fim)

Um curto vídeo do evento:

E ainda aqui um interessante comentário de António Lobo Antunes, bisneto do General.

E aqui um resumo minimalista do seu percurso que compilei em 2012.

Independentemente da sua capacidade e genialidade e sucessos nas missões que desepenhou, Joaquim José Machado é e fará sempre parte de um restrito nome de personalidades cujo impacto na formação do que é hoje Moçambique e é simplesmente incontornável, porque foi bom. A sua família, e quem como eu o estudou minimamente, têm razões sólidas para apreciar este gesto. A sua obra e percurso merecem estudo e conhecimento.

Se eu tivesse que apostar, diria que o busto deve ter vindo ou dos antigos Caminhos de Ferro de Moçambique ou da antiga Escola Preparatória General Joaquim José Machado. Como foi parar à embaixada Portuguesa em Maputo deve ser uma história interessante. E possivelmente incontável.

06/12/2013

HOMENAGEANDO NELSON MANDELA

Filed under: A morte de Nelson Mandela — ABM @ 3:06 am

Assinalando a passagem do Sr. Nelson Mandela pelas nossas vidas, o seu alto exemplo e a alguma inspiração que nos trouxe.

Nelson Mandela faleceu na África do Sul ontem à noite, dia 5 de Dezembro de 2013.

Nelson Mandela faleceu na África do Sul ontem à noite, dia 5 de Dezembro de 2013. Na imagem, o Presidente Mandela entrega o troféu do Campeonato Mundial de Rugby ao capitão da equipa sul-africana, François Pienaar, após a sua vitória na final contra a Nova Zelândia, no Estádio Ellis Park, em Joanesburgo, no dia 24 de Junho de 1995. Esta foi, talvez, a cena mais paradigmática do titânico e por vezes aparentemente insuperável esforço pessoal de Mandela de fazar emendas com os Boers, cuja resistência, enquanto grupo, a um regime democrático (ou seja, de maioria negra) na África do Sul só rivalizou com a sua resistência ao domínio colonial britânico durante o Século XIX. O tempo dirá se o seu esforço, e a sua mensagem sobre a necessidade de reconciliação e de convivência entre todos os sul-africanos, perdurará.

25/04/2013

ASSINALANDO O PRONUNCIAMENTO MILITAR DE 1974 COM EÇA DE QUEIROZ

Eça, volta, estás perdoado.

Eça, volta, estás perdoado. Grato ao CTF, que me mandou isto para ler.

Sobre a Inevitabilidade das Revoluções

“As revoluções não são factos que se aplaudam ou que se condenem. Havia nisso o mesmo absurdo que em aplaudir ou condenar as evoluções do Sol. São factos fatais. Têm de vir. De cada vez que vêm é sinal de que o homem vai alcançar mais uma liberdade, mais um direito, mais uma felicidade. Decerto que os horrores da revolução são medonhos, decerto que tudo o que é vital nas sociedades, a família, o trabalho, a educação, sofrem dolorosamente com a passagem dessa trovoada humana. Mas as misérias que se sofrem com as opressões, com os maus regímens, com as tiranias, são maiores ainda. As mulheres assassinadas no estado de prenhez e esmagadas com pedras, quando foi da revolução de 93, é uma coisa horrível; mas as mulheres, as crianças, os velhos morrendo de frio e de fome, aos milhares nas ruas, nos Invernos de 80 a 86, por culpa do Estado, e dos tributos e das finanças perdidas, e da fome e da morte da agricultura, é pior ainda. As desgraças das revoluções são dolorosas fatalidades, as desgraças dos maus governos são dolorosas infâmias.”

Eça de Queiroz, em ‘O Distrito de Évora’

26/03/2013

LUIS OSÓRIO E O LIXO DA HISTÓRIA. OU

Filed under: Luis Osório e o Lixo da História — ABM @ 1:34 am
A temática de quantos portugueses e brancos africanos saíram dos territórios anteriormente administrados por Portugal é um interessante jogo estatístico.

A temática de quantos portugueses e brancos africanos saíram dos territórios anteriormente administrados por Portugal é um interessante jogo estatístico. O impacto da sua chegada a Portugal é o tema aqui abordado, indirectamente.

Esta manhã, alguém mandou-me cópia de um texto, escrito por Luis Osório, um jornalista português, alguém que, até há momentos, antes de digitar o seu nome na janela do Google Search, nunca ouvira falar antes.

Penso que interessa registar, para futura referência, o texto que segue, em parte pelo conteúdo do que está escrito, mas em parte também pela curiosidade em tentar entender onde é que o seu autor pretende chegar.

Luis Osório.

Luis Osório.

Para promover um seu livro, a Chiado Editora descreve Luis Osório assim no seu sítio: Tem 41 anos e é um dos mais premiados jornalistas da sua geração. Ganhou o prémio Gazeta Revelação do Clube de Jornalistas, um Sete de Ouro, o Prémio de Inovação Manuel Pinto de Azevedo Jr e programas de televisão garantiram-lhe quatro nomeações para os Globos de Ouro.É um jornalista que assim não se assume. Talvez por isso, a sua carreira divide-se por jornais, televisões, rádios, teatro, documentários, política e livros. Escreveu Quanto Tempo, uma Criança no Olhar, uma conversa com o seu pai (seropositivo e herói comunista já falecido) e 25 Portugueses, obra em que entrevistou os portugueses que mais se destacaram depois do 25 de Abril. Foi director do jornal A Capital, um dos mais jovens a alcançar a direcção de um órgão de comunicação social. E dirigiu vários anos o Rádio Clube e a informação das rádios do Grupo Media Capital. Os seus programas Portugalmente e Zapping ainda hoje são citados como exemplos de inovação.

Em seguida, reproduzo, com vénia, o texto que escreveu e que foi publicado no semanário angolano “Sol”, publicado em Lisboa a 12 de Março de 2012:

(início)

Os Filhos dos Retornados Chegaram ao Poder

Em 1975, meio milhão de portugueses das colónias desembarcavam em Lisboa com uma mão à frente e outra atrás.

Em Angola e Moçambique, sobretudo aí, eram donos do espaço e viviam sem preocupações de tempo ou angústias financeiras. Para eles, a morte do Estado Novo trouxe-lhes o fim do paraíso e abriu-lhe as portas a um inferno que nunca poderão esquecer.

Para muitos, Mário Soares é a besta negra. Responsabilizam-no, mais do que a Cunhal, por exemplo, por tudo ter corrido mal. Por muito que o fundador do Partido Socialista fale no peso das circunstâncias ou na pressão internacional motivada pelo equilíbrio de poder entre americanos e russos, o certo é que poucos o ouviram ou ouvem. Quase 40 anos depois, pouco interessa a questão da culpa ou da inocência, para eles é o homem que podia ter evitado e não evitou. O réu para os que perderam tudo o que tinham. Para os que chegaram nas pontes aéreas e foram tratados como brancos de segunda, tratados como, porventura, alguns de entre eles tratavam os negros em Angola e Moçambique.

Retornados. Nome que é um rótulo, um peso que os marcou como ferro em brasa. Ainda assim, um processo que correu anormalmente bem – sobretudo se comparado ao que acontecera com as descolonizações francesas. As pessoas foram distribuídas por todo o território, de Norte a Sul os que a si próprios se definiam como ‘espoliados’ puderam recomeçar. Do zero, claro. E os seus filhos, pequenos ou ainda por nascer, também pagaram o preço da profunda infelicidade dos pais, um peso que certamente os terá influenciado. Para o bem e para o mal.

Para o mal, o ressentimento. Para o bem, a vontade de ganhar e uns horizontes mais largos do que a maioria dos que, na metrópole, haviam nascido. Habituados à terra a perder de vista estavam capacitados para ver mais longe e com maior alcance. Vários reconstruíram riquezas, montaram negócios, fizeram boas carreiras.

Onde quero chegar? A um ponto interessante e fundamental para balizar a nossa história contemporânea. Porque este é o tempo em que os filhos desses homens e mulheres obrigados a começar tudo de novo, filhos do ressentimento e de uma África de largos horizontes, chegaram ao poder.

O facto poderá ser visto por alguns como uma prova de que as feridas não estão saradas, justificando as medidas do actual Governo como uma espécie de vingança psicanalítica. Mas para outros será o ponto final parágrafo numa narrativa de sucesso, a história de 500 mil portugueses que perderam uma vida e começaram do zero numa terra que, na verdade, tantos não conheciam.

Para os primeiros, é a prova de que o ressentimento passa de pais para filhos. Para os segundos, a prova de que Portugal soube sarar as feridas e incorporar a força, o talento e o largo olhar dos que regressaram.

Os críticos terão mais um motivo para atacar porque se convencerão que é gente que deseja ajustar contas. Os que acreditam dirão que é a grande oportunidade de Portugal mudar na sua mentalidade.

Mudar esta tendência para que, em todas as épocas da História, as elites perguntem se existe futuro para o nosso país. Como escrevi há uns dias, num ‘postal’ para amigos: «É uma marca genética, um traço que nos distingue dos alemães, ingleses ou franceses; ao contrário deles, banhados de certezas, temos a arrogância da dúvida permanente. Somos orgulhosos, mas fazemos por escondê-lo, como se fôssemos cristãos a rezar nas catacumbas após a morte de Cristo. Quando falamos do que somos, dizemos ‘os portugueses’ e não ‘nós, os portugueses’. Somos o que somos. Umas vezes, tanto. Outras vezes, nada. Adoramos o que detestamos, odiamos o que amamos. Temos o Sol, mas inventámos o fado. Falamos de medo e partimos à conquista do mundo. Temos inveja e somos generosos. Somos uma coisa e o seu contrário».

A história e os cobradores de fraque decretaram-nos da urgência de mudar. A delícia da inconstância é boa para salões e crédito, e uma tragédia para quem perdeu anéis e já só tem os dedos para oferecer.

Nesta perspectiva, ter Pedro Passos Coelho em São Bento é uma boa notícia. Ainda não completara os dez anos quando Salgueiro Maia e os capitães de Abril impuseram o fim do Estado Novo ao compasso da voz de Zeca Afonso. Com uma infância angolana, como Miguel Relvas, viu os pais lutarem com dificuldades e sacrifício para alcançar um futuro para os seus filhos.

Em 1974, e no regresso dos retornados nas célebres pontes aéreas de um ano depois, ninguém daria nada por aqueles miúdos de calções e, certamente, olhar assustado. Não passavam de brancos de segunda. Ressentidos e sem futuro.

Afinal, o futuro revelou-se de um outro modo. Como aliás sempre acontece. Os filhos conquistaram o poder. E uma parte de Portugal, tal como aconteceu com os seus pais, grita para que desapareçam, para que tenham vergonha na cara, para que nunca mais voltem.

O ressentimento tem sempre múltiplas faces, está em todo o lado e não é exclusivo de ninguém em particular. É democrático. Um património de todos. Infelizmente.

A História é uma maravilhosa caixa de surpresas, não é?

(fim)

Os meus comentários

1. Das minhas contas, o superlativo Luis mal havia deixado de usar as fraldas quando o Major Otelo (née em Moçambique como eu, mas não interessa) e os seus amigos organizaram o pronunciamento militar de 1974. Pouco mais tinha quando ocorreu a Descolonização. Portanto os julgamentos de valor reproduzidos na sua escrita ou resultaram de leituras feitas ou por via de emprenho pelos ouvidos. Penso que foi mais o segundo caso.

2. Todo o seu artigo está explicitamente estruturado na base de uma curiosa dicotomia, entre, por um lado, o “bom retornado”, bem comportadinho, trabalhador e caladinho, contemporizador, que vive e esquece ou finge que esquece; e, por outro lado, no “mau retornado”, habituado a viver à fartazana às costas do preto africano, injustamente ressabiado pelo fim do desmerecido bem bom que a Ditadura fascista lhe facultara e sedento de vingança por tudo ter perdido sem nunca receber um tusto – a que, claro, não tinha direito nenhum, pois por definição tudo o que fez e ganhou em África foi a roubar e indignificar o preto e a compactuar com o Fascismo.

3. Depois, inenarravelmente, vagamente sugere que meta a carapuça a quem ela couber (vide parágrafo a mordiscar Passos Coelho, actual primeiro-ministro e Miguel Relvas, um seu ministro, tão mercurial como medíocre).

4. Para mim é abundantemente claro onde o autor se situa e quer chegar e honestamente acho que fazer esta ginástica toda para cuspir para cima dos “angolanos” actual primeiro-ministro e o inenarrável Miguel Relvas, foi não só um exercício ineficaz, como a sua dialética de treco-lareco, que se resume mais ou menos a “filho de retornado também é retornado” – ou melhor, “filho da puta é tão puta como a mãe que o pariu” – simplesmente não vinga. Não temos aqui sucedâneo a um Queirós ou a um Pessoa.

5. Ora este tipo de considerandos e tentativa de pseudo-introspecção psicológica das motivações e weltaanschauung de P. Coelho e M. Relvas por interpostas pessoas, nesta caso as tais centenas de milhar de pessoas – e agora os seus filhos! – possivelmente arrisca insultar muito mais gente do que o Luis possa ter pensado quando se sentou em frente ao seu laptop HP há duas semanas para debitar a sua crónicazinha e assim receber o seu honorário, sendo que, auguro, certamente deve ter embatido nas espessas muralhas de uma total indiferença por parte de Passos Coelho e Relvas, que, como eu, provavelmente terão que ir ao Google ver quem o Luis possa ser, para tentar perceber o alcance do seu impropério.

6. Se calhar era essa a sua intenção.

7. Que é quase tão curial e apropriado como procurar culpar o Luis por alguma coisinha na vida ou atribuir-lhe alguma característica pessoal por ter sido filho de um comunista encartado “heróico” (não sabia que os havia) que morreu de sida. Hum, será…?

Não é, Luis?

8. Intenção essa, tese essa que, a confirmar-se, do que me lembro vagamente de me ter tentado dizer a Rita Garcia quando preparava o seu recente livro, também não é novidade.

Afinal, a História regista que os “culpados” pela Colonização, pela Política colonial de cem anos, não foi dos que estavam Cá, primeiro monárquicos, depois republicanos da primeira e segunda vaga, democratas, nacionalistas, fascistóides e afins.

Foi dos que foram estavam Lá, em África e noutros locais.

É isso?

9. Enquanto desastre nacional, em perto de 900 anos de maioritariamente desgraçada mas interessante história, a Descolonização ocorrida em 1974-1975, só se equipara no seu impacto a Alcácer-Quibir. E do que aconteceu a seguir, nas mãos dos tais dilectos e impunes Soares,  Cunhal, Almeida Santos, et al, Cá e Lá, os resultados estão hoje à vista (tira o já  dinheiro do banco se o tiveres, Luis, e guarda-o bem debaixo da cama, não vais gostar do que Democracia de Abril tem para te oferecer a seguir).

Que alguém como o Luis não o saiba, não o entenda, não o apreenda, não o contextualize, e muito menos empatize com os que sofreram os seus efeitos na pele (que inclui os milhões de africanos impactados pelos cerca de cem anos que durou a deslavada aventura africana, que era e sempre foi um projecto nacional português, nunca dos que para lá foram viver, que pouco ou nada tinham e nada riscavam) não surpreende nada.

10. Pois, segundo ele, mau Retornado é mau Retornado, E filho de mau Retornado é mau filho de mau Retornado.

11. O que surpreende é que, ao olhar para o Lixo da sua História, Luis erre de forma tão elementar e banalize tudo isso e toda uma miséria colectiva, humana e moral,  apenas para mandar uma reles, irrelevante, insonora, inodora, insípida, biqueiradazinha numa crónica de fim de semana e ainda por cima sem pontaria, a dois politicozecos de quem acontece não gostar.

12/08/2012

ADOLF HITLER E ÁFRICA: O MASSACRE DOS HERERO E DOS NAMAQUA

Filed under: O massacre alemão dos Herero — ABM @ 10:17 pm

Cerca de dois terços dos Herero da actual Namibia foram deliberadamente mortos pelos alemães nos tempos da sua colonização daquele território, entre 1904 e 1910. Veja como foi neste documentário da BBC e ainda as surpreendentes ligações com o que mais tarde sucedeu na Alemanha nazi. Ainda hoje, membros da etnia Herero vivem no Sul de Angola.

veja através desta ligação:

http://video.google.com/videoplay?docid=-899627923732856130

18/01/2012

MOÇAMBIQUE E A ÍNDIA PORTUGUESA, 1961

O brasão de armas do chamado Estado Português da Índia.

Existem poucos testemunhos do que no texto de Pedro Guerreiro, publicado recentemente e que aqui reproduzo com vénia, resumiu numa linha – que destaco a negrito na sua interpretação do que foi isto tudo: no auge da investida indiana nos territórios de Diu, Damão e Goa, “no outro lado do Índico, Portugal retaliava com a detenção de 12.000 indianos em Moçambique”.

Pouco ou nada sei sobre o que só pode ter sido mais uma tragédia na saga colonial portuguesa. A única referência que ouvi em Moçambique, há alguns anos, estava relacionada com Prakash Ratilal, hoje um empresário em Moçambique, que creio ser de origem indiana, mas que creio ele próprio nunca escreveu nada sobre o assunto.

Se alguém tiver testemunhos ou informação sobre o que aconteceu em Moçambique, agradecia e disponho que use este blogue para dizer alguma coisa.

O magnífico texto de Pedro Guerreiro saiu no jornal Sol de Lisboa de 17.12. 2011, quando passavam cinquenta anos sobre os eventos que ele descreveu.

Chama-se “Como Salazar perdeu a Índia”.

Mas basta lê-lo para se perceber que quase nada havia a perder para Salazar na Índia naquela altura.

Como Salazar perdeu a Índia

Um certo Portugal começava a ruir há 50 anos. A 22 de Janeiro de 1961, um comando liderado por Henrique Galvão tomava o paquete português Santa Maria. A 4 de Fevereiro, o MPLA atacava a cadeia de Luanda e ateava o rastilho para a guerra de libertação de Angola. Um mês e onze dias depois, a UPA matava e esquartejava mais de 800 pessoas no Norte. Entre Março e Abril, o ministro da Defesa, Botelho Moniz, tentava e falhava um golpe palaciano para afastar António de Oliveira Salazar do poder.

As eleições legislativas de 10 de Novembro, manipuladas, são precedidas de intensa agitação. Dois dias antes, um voo da TAP que ligava Casablanca a Lisboa era tomado por opositores do regime que lançaram milhares de panfletos sobre a capital e o Sul do país. Na véspera da votação, um grupo de militantes comunistas foge de Caxias num carro de Salazar. Seguir-se-ia o assalto ao quartel de Beja.

Mas era longe da metrópole e de África que o Portugal colonial iria sofrer, ainda em 1961, a sua primeira amputação. A história da queda do Estado Português da Índia tornar-se-ia paradigmática do autismo do regime perante pressões internas e alterações externas. E tornar-se-ia uma história sobre como se conta uma história: como se quiser contar.

Índia pouco portuguesa

Goa, Damão e Diu. Gerações memorizaram estas três palavras como pedaços de um Portugal que ia do Minho a Timor. Capítulo inquestionável da história lusa no Oriente, a portugalidade do Estado da Índia era no entanto dúbia.

Segundo o censo de 1940, dos seus 624.177 habitantes, apenas 1.371 eram descendentes de portugueses. Um terço professava a fé católica, mas apenas 1,1% da população falava português. «Goa não é uma província portuguesa», concluía à data o diplomata espanhol Juan Carlos Jiménez, citado em Xeque-Mate a Goa, o livro da investigadora Maria Manuel Stocker que conta a verdadeira história do fim da presença portuguesa na Índia. «Goa tem todo o aspecto de uma colónia.

Uma minoria portuguesa ocupa os postos fundamentais, secundados por uns poucos goeses. Existe uma pequena classe média comercial, geralmente hindu ou muçulmana, e o resto da população é simplesmente a típica massa amorfa da Índia, apática, faminta, doente, totalmente indiferente e ignorante de problemas que não sejam os de resolver o milagre diário da alimentação», sentenciava.

Vizinha da União Indiana, que conquistara a independência do Reino Unido em 1947, a Índia Portuguesa, pouco industrializada e de parca capacidade agrícola, dependia economicamente do outro lado de uma fronteira porosa. Goa, Damão e Diu, argumenta Stocker, faziam geográfica, social, cultural, linguística e religiosamente parte da vizinha Índia, não tinham valor nem na economia nem na demografia portuguesas e eram sobretudo fonte de encargos.

Mas, na metrópole, a narrativa era outra – a de que Goa era e queria continuar a ser portuguesa. Contava o Século Ilustrado de 29 de Março de 1947 que, contra «vozes vindas da Índia inglesa» que clamavam o fim da presença lusa, «a população em espectaculosas manifestações pediu que Goa permanecesse portuguesa». O ajuntamento era organizado pelo regime.

Fracasso diplomático

Desde a independência que a Nova Deli de Jawaharlal Nehru reclamava a integração da Índia Portuguesa na União Indiana. Era um imperativo ideológico e nacional. Lisboa, por seu turno, queria preservar a integridade da república unitária e evitar um precedente em relação às restantes colónias. Para o efeito, Portugal alterou em 1946 a designação de ‘colónia’ para ‘província ultramarina’, estreando a Índia Portuguesa o novo estatuto.

Tropas landins em Goa, creio eu. Vinham de Moçambique.

O conflito era inevitável e o contexto seria favorável à Índia. A Inglaterra, tradicional aliada de Portugal, deixara de ser o fiel da balança internacional. Londres, interessada em manter boas relações com Nova Deli, não mais poderia mediar conflitos num mundo polarizado entre Estados Unidos e União Soviética. Washington e Moscovo eram anticolonialistas e o mesmo carácter tinha a recém-criada Organização das Nações Unidas. Todos cortejavam a Índia.

A contenda foi inicialmente diplomática. Como para romper relações seria necessário estabelecê-las primeiro, portugueses e indianos encetaram laços formais em 1949 – Nova Deli quebrou-os em 1953, perante a ausência de diálogo sobre Goa. A questão internacionaliza-se depois, com intervenções de Nehru na ONU e nas conferências dos países não-alinhados. Salazar mobiliza a diplomacia lusa para uma ofensiva mediática junto dos países aliados. O argumentário centrava-se em três pontos: que a Índia Portuguesa fazia parte da nação há 450 anos, que o regime não discriminava raças ou credos e, por fim, que Goa era um posto avançado na luta contra o comunismo.

Mas os argumentos não colhem. Ignorado por Londres, Washington e a Santa Sé, condenado pela ONU, o regime explorou soluções alternativas para a questão de Goa, alvo de um bloqueio económico e de acções de desobediência civil. Muitas ponderadas à porta fechada, porque questionavam princípios sagrados do Estado Novo. Francisco da Costa Gomes, subsecretário de Estado do Exército, propõe a Salazar em 1960 a realização de um referendo. Questionado sobre um possível veredicto, responde ao Presidente do Conselho: «Se tivermos entre 7 e 10% dos votos a favor podemos considerar que a nossa acção na Índia foi uma soma muito positiva. Porque a Índia não é portuguesa». Exploraram-se contactos secretos com o Paquistão e mesmo com a China comunista, a quem seria oferecida uma base naval.

Batalha ficcionada

Nos anos de 1960 e 1961, a ameaça da guerra em África leva o regime a desinvestir na Índia. Os 12.000 militares que nos anos 50 defendiam o território passam a 3.500. Para Nova Deli, é o momento de agir. Lisboa conhecia os planos de invasão desde o Verão de 1961, mas em vez de um reforço militar optou por nova ofensiva mediática centrada na vitimização de uma pequena nação perante um inimigo pró-soviético. Salazar previa uma «heróica defesa» de portugueses e goeses. Mais do que prever, exigiu-a por telegrama ao governador Manuel António Vassalo e Silva, recomendando um «sacrifício total» e declarando que «pode haver apenas soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos». Lisboa transportou para Goa jornalistas portugueses e estrangeiros. Seriam observadores independentes do sacrifício português, mas acabaram por testemunhar algo totalmente diferente.

A guerra estala na manhã de 17 de Dezembro de 1961 com a morte de dois soldados portugueses em Maulinguém. É decretada a mobilização de todos os militares no activo residentes em Goa, mas apenas um tenente miliciano se apresenta às autoridades. Era o prenúncio do desaire. À meia-noite do dia 18, a Marinha e a aviação indianas iniciam o bombardeamento de posições estratégicas e dão cobertura à entrada de 45.000 soldados em território português. A aviação lusa era ali inexistente e as forças navais incapazes de responder ao fogo inimigo. Um pelotão de artilharia anti-aérea português chegara na noite anterior, no último voo para Goa, disfarçado de equipa de futebol, para tomar posições no aeroporto de Dambolim. Encontram armamento do início do século e munições inutilizadas pela humidade.

As forças portuguesas em Goa antevêem o avanço rápido dos indianos e chegam a ponderar um golpe para decretar a rendição do território. Os oficiais acabam por optar por uma resistência mínima com o disparo de «uns tiros simbólicos». Assim sucede, com a excepção de episódios isolados como a batalha do Afonso de Albuquerque, navio que resiste a dois cruzadores, um contra-torpedeiro e cinco fragatas, ou o sacrifício do segundo-tenente Oliveira e Carmo, que em Diu dirige a lancha Vega contra um cruzador indiano e repele vários ataques aéreos. Morreria ao lado de dois outros militares. Ao final da noite de 18 de Dezembro, a bandeira branca esvoaçava em Pangim. A invasão salda-se na morte de 20 portugueses e 21 indianos.

Militares castigados

O sangue derramado não seria suficiente para Salazar escrever a sua narrativa. Recorre à mentira. Em Lisboa, os jornais dão conta da morte de mais de mil portugueses. Os títulos galvanizam a opinião pública em torno do regime mas deixam milhares de famílias de coração nas mãos. Estas só saberiam do destino dos seus filhos meses depois. Os militares portugueses foram aprisionados em campos de concentração indianos. No outro lado do Índico, Portugal retaliava com a detenção de 12.000 indianos em Moçambique. A troca dos reféns acontece a partir de Maio de 1962. O regresso a Lisboa é discreto e inglório. Desembarcam sob a mira das armas da Polícia Militar, são colocados em comboios e encaminhados para as respectivas unidades mobilizadoras. Só depois voltam a casa, cinco meses após a notícia de uma possível morte em terra distante. Dez oficiais do Exército seriam demitidos, cinco reformados compulsivamente e nove suspensos por seis meses.

Goa seria rapidamente esquecida perante o agravamento do conflito em África. Os 463 anos de domínio português na Índia terminariam como uma nota menor da história do Estado Novo, cumpre-se este domingo 50 anos.

(fim)

 

Após ler este texto, o meu amigo J escreveu o seguinte:

“Sobre a detenção de cidadãos indianos residentes em Moçambique, era
miúdo mas recordo-me terem sido utilizados, na Beira, uns grandes
armazéns, na zona do Maquinino, para albergar as famílias detidas,
presumo que a aguardar transporte para a Índia. Os meus colegas de
carteira na escola primária não abrangidos pela medida provavelmente
ou seriam cidadãos de origem paquistanesa, ou possuíam a cidadania
portuguesa.

Muitos anos depois, um colega hindu referia-se com certa animosidade
aos grandes comerciantes de origem paquistanesa que, na Beira, haviam
florescido com a saída de muitos dos hindus, adoptando até uma postura
de subserviência e vassalagem para com o regime português.

Por altura da independência de Moçambique, um acérrimo
anticolonialista, de origem goesa, que nas páginas da imprensa diária
se evidenciava por uma desmesurada militância em prol do novo regime,
fizera questão de guardar numa fundo de uma mala em casa, a bandeira
portuguesa pois, como dizia a família, a amarga experiência vivida na
Índia portuguesa ainda pesava no coração.”

31/10/2011

UMA IDEIA DE SALAZAR, PARA QUEM NÃO FAZ IDEIA

Capa de "Salazar, a cadeira do poder".

Até ler o livro cuja capa mostro em cima, nunca tinha ouvido falar de Manuel Poirier Braz. O sítio Wook, onde parece que muita gente compra livros pela internet em Portugal, contém esta algo sumptuosa descrição dele:

Manuel Poirier Braz é licenciado em Direito, pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, possui o Curso Superior de Management do Instituto Nacional de Investigação Industrial (actual INETI) e é diplomado em Marketing, Relações Humanas e Análise Decisional, pela Graduate School of Business Administration da Harvard University. Durante vinte e três anos exerceu diversas actividades em empresas multinacionais, entre as quais, gerente da filial de Lisboa da Rank Xerox, director de Marketing para Portugal, Angola e Moçambique da subsidiária portuguesa do Grupo Dow Chemical, gerente e director-geral, para Portugal e Angola, da consociada portuguesa do Grupo Bristol Meyers. Foi fundador e primeiro presidente da Associação Portuguesa dos Medicamentos de Venda Livre e consultor do ministro dos Assuntos Sociais, para assuntos de Indústria Farmacêutica e Medicamentos. Exerce a advocacia desde 1981 e é membro da Associação Portuguesa de Direito Europeu, da Associação Fiscal Portuguesa, da Associação Portuguesa dos Profissionais de Marketing, da Sociedade de Geografia, do Grémio Literário, da Amnistia Internacional e da Sociedade Histórica da Independência de Portugal.

Já publicou livros que à partida nada têm que ver com este tópico.Um seu livro, saído há pouco tempo, revela a sua experiência na maçonaria (que não li).

Mas depois de ler esta obra, fiquei a conhecê-lo um pouco melhor. Em parte pelo tópico que ele abordou em si – António de Oliveira Salazar – e em parte pela forma como Manuel Braz conta a história.

Como Samora Machel em Moçambique, António Salazar permanece, e permanecerá, uma personalidade e um assunto por debater e resolver em Portugal. Milhares e milhares e milhares de páginas têm sido escritas sobre o conhecido ditador que durante quarenta anos “congelou” a sociedade portuguesa (levando as colónias e milhões de pessoas por arrasto). A maior parte dessas páginas escritas ou é duma erudição inacessível para o povão, ou é, mais ou menos disfarçadamente, tendenciosa.

Felizmente, há uns tempos fez-se um concursozeco da treta numa estação de televisão portuguesa qualquer, para saber quem eram as figuras gratas do Milénio português (o Milénio temporal, não o banco, que anda mal mal mal) e o ditador saiu vencedor, o que teve um efeito engraçado nas hostes. Um dos benefícios dessa palhaçada foi que se escreveu a redobrar sobre Salazar. No pressuposto editorial, suponho, que falar de Salazar vende mais.

Mas na generalidade fez pouca diferença. Os politicamente correctos condenam Salazar, e os politicamente incorrectos elogiam. A maior parte das pessoas permanece ignorante, imersa nas suas próprias opiniões já formadas.

É aqui que entra Manuel Poirier Braz. Que, com o livrinho em cima, conseguiu vários feitos.

O primeiro, e mais importante, é que conseguiu resumir de forma agradável, legível, e equilibrada, as alucinantes primeiras sete décadas e meia da história de Portugal.

Que, como o exmo. Leitor já deve ter percebido, “entubam” durante quase cinquenta na pessoa deste senhor.

Em segundo lugar, Manuel P. Braz tem uma postura relativamente distanciada mas informada dos principais eventos que moldaram a passagem de Salazar pelo governo. Fornece os principais tópicos e trabalha neles sem perder o fio à meada. Para quem quiser saber mais há obras que esmiúçam o homem e a sua obra até ao pintaralho. Mas há, acredito, lugar para obras deste tipo.

Especialmente para quem não estava lá ou aprendeu o que foi que aconteceu.

Em terceiro lugar, o livro está bem escrito. Bem, não: muito bem. É um prazer seguir a história.

Em quarto lugar, no pouco que comenta. Poirier Braz deu o tiro certo na direcção certa.  Eu canso-me de ler as versões facilitistas ou dogmáticas do que foi este episódio da história portuguesa e da ponderação das valências e contributos deste homem. Poirier Braz concentra-se nos factos disponíveis e vai reconstruindo o cenário, o que, para uma obra com 250 páginas, é notável.

Apesar da sua contenção, Poirier Braz destaca pequenos mas cruciais, e deliciosos, detalhes. Gostei particularmente da sua descrição dos dias que se seguiram à tromboze de Salazar em 1968. Ou os anos entre 1958 e 1962, com destaque para o episódio da Índia portuguesa. Achei menos feliz o mini-capítulo sobre as “mulheres” de Salazar. Em parte porque acho que é um assunto que não vale um caracol, em parte porque acho que se sabe pouco e especula-se demais. Ainda assim, aqui Manuel Braz divertiu-se com os seus leitores ensaiando uma espécie de radiografia psico-sociológica de Salazar onde acho que ele acertou mesmo no meio do alvo.

Resumindo, se o exmo. Leitor quiser saber o essencial sobre Salazar, e porque é que a história de Portugal foi o que foi entre 1920 e o fim do século passado, este é o livro da ler: “Salazar – A Cadeira do Poder (Lisboa:Editorial Presença, 2008).

27/10/2011

COMENTÁRIO DO COMANDANTE LUIS BRITO DIAS SOBRE O INCIDENTE DE MBUZINI

O malogrado que transportou os malogrados.

A propósito da surpreende caça às bruxas aparentemente e mais uma vez em curso em relação ao assunto referido acima, repesco e anexo texto copiado do semanário Zambeze, que se publica em Maputo, na sua edição de 28 de Agosto de 2008, com vénia. Grato ainda ao Carlos Schmidt pelo envio de fotocópia da publicação.

O comentário do Sr. Comandante Luis Brito Dias (NOTA: com as alterações efectuadas após a mensagem de correcção gentilmente enviada pelo Sr. Comandante em 28 de Outubro e que consta na secção dos comentários em baixo) :

Li com muita atenção as declarações do Sr. Sérgio Vieira a respeito do desastre de Mbuzini (jornal O País, 15 de Agosto de 2008), assunto que me interessa sobremaneira, pois trabalhei em Moçambique como piloto da DETA /LAM durante 17 anos. Presentemente trabalho no Extremo Oriente como comandante de uma transportadora aérea, pilotando aviões do tipo Boeing 747-400. É evidente que o Sr. Sérgio Vieira mente descaradamente pois ele era na altura do acidente o Ministro da Segurança, portanto com responsabilidades no que veio a acontecer.

Samora teve uma morte inglória e claro que ele também foi o responsável pelo que aconteceu pois entregou a sua própria vida nas mãos de pilotos que revelaram desleixo, negligência e incúria. Todos os pilotos que voavam na LAM na altura sabem perfeitamente que o acidente de Mbuzini deveu-se a negligência e incúria por parte da tripulação técnica. Aliás, após o acidente, o Sr. Sérgio Vieira fez chegar aos pilotos da LAM a mensagem, tipo ameaça bem clara, para se manterem calados e não abrirem a boca. Foi por essa razão que nenhum Comandante foi nomeado para fazer parte da comissão de inquérito. O único que foi nomeado foi um co-piloto da LAM, que tinha sido da Força Aérea e era membro do Partido Frelimo, e por isso facilmente controlável. Este co-piloto começou a ver a nojeira que era a Comissão de Inquérito e arranjou maneira de se baldar rapidamente pois em consciência não podia participar na deturpação da verdade. Os pilotos soviéticos além de terem pouca experiência, voavam muito pouco e as licenças de voo que foram apresentadas no inquérito são falsas. Foram emitidas posteriormente.

Na altura eu era co-piloto do DC-10 da LAM, e num voo de Lisboa para Maputo, juntamente com o Comandante, demonstrámos a Mariano Matsinhe e a outro ministro da Frelimo que seguiam a bordo, o que realmente tinha acontecido. Eles foram nossos convidados no cockpit. Até fizemos a viragem ou mudança de rumo inicial, bem como a manipulação errada dos selectores de instrumentos de navegação para lhes mostrar o que se passara na noite no desastre de Mbuzini. Para além de não trazerem combustível de reserva o que aconteceu foi que dos 5 tripulantes no cockpit, 3 estavam entretidos a dividir as bebidas alcoólicas que iriam sobejar, até 6 minutos antes do impacto final. Só o co-piloto e o navegador é que estavam a tomar “conta” do voo. Tudo isto está registado na transcrição do CVR (Cockpit Voice Recorder).

O Comandante só se apercebeu que estavam perdidos 3 minutos antes do impacto final. A desorientação era tal que nem ligaram nenhuma ao aviso sonoro (GPWS) que o avião ia bater no chão sem estar na configuração de aterragem. Quebraram muitas regras básicas de “ouro” da aviação, mas a mais importante foi terem chegado à “Altitude de Segurança”, publicada para Maputo, que é de 3 000 pés, e continuarem a descer sem terem contacto visual com o solo ou, em alternativa, indicação electrónica correcta dos equipamentos de navegação de Maputo. Neste caso, o ILS ou o VOR de Maputo.

O que sucedeu foi que eles em vez de seleccionarem o ILS de Maputo (110.3) enganaram-se e seleccionaram o VOR de Matsapa (112.3) e desviaram-se de rota para a Radial 045 de Matsapa em vez de estarem na Radial 045 do VOR de Maputo. O navegador do Tupolev enganou-se, pois no sistema russo quem selecciona as rádio-ajudas são os navegadores e não os pilotos. Ele já vinha com o VOR de Maputo seleccionado (112.7), mas ao mudar de frequência para o ILS de Maputo (110.3) que é uma rádio-ajuda de aproximação à pista e não de navegação em rota, cometeu o erro fatal. Os selectores dos dígitos decimais são independentes dos dígitos das centenas. Ou seja, primeiro teria que mudar de 112 para 110 e depois de 0.7 para 0.3 com um selector independente. O que aconteceu foi que ele deixou ficar o 112 e só alterou de 0.7 para 0.3 o que veio a coincidir com a frequência do VOR de Matsapa. Foi esta manipulação errada de sistemas que levou a tripulação a fazer uma viragem de rota. Como estavam “distraídos” no cockpit não houve ninguém que verificasse as manipulações dos selectores de frequência. Uma das regras básicas é que sempre que se muda qualquer coisa no cockpit essa acção tem que ser verificada e aceite pelo outro piloto.

Nada disso foi feito. Estas foram as causas imediatas do acidente, mas houve outros factores que também contribuíram, tais como a fadiga da tripulação, a falta de combustível, a inactividade prolongada da tripulação, a falta de verificações de simulador de voo, etc. Um acidente de aviação nunca acontece por si só. É sempre um acumular de eventos que vão culminar num fim trágico. Não querendo ser arrogante, mas a minha experiência de 31 anos de aviação bem como a participação em inquéritos de acidentes aeronáuticos deixam-me perfeitamente à vontade para falar destas situações.

Depois de tantos anos de poder do ANC na África do Sul, e apesar de muita investigação por parte das novas autoridades sul-africanas, quer a nível da Comissão da Verdade e da Reconciliação, quer a nível da polícia mandatada pelo Presidente Thabo Mbeki há mais de dois anos, não foi encontrado qualquer vestígio de tentativa de interferência no voo por parte das autoridades sul-africanas do anterior regime. As teorias conspiracionistas voltaram-se então para supostos mentores internos, o que é muito duvidoso e sem cabimento. Os factos falam por si…

(fim)

Um nota do jornal acrescentou:

Em declarações posteriores à publicação do seu artigo, o Comandante Luís Brito Dias referiu que “a primeira indicação para nos mantermos calados foi dada verbalmente pelo então director das LAM, que nos avisou claramente de onde vinham as instruções.” Luís Dias acrescenta que “a outra vez foi numa discussão privada com uma pessoa muito chegada a Sérgio Vieira que até nos disse, num tom ainda mais ameaçador, que se nós (pilotos da LAM ) continuássemos a falar, acabaríamos presos.” O Comandante Dias refere que “nessa conversa até estavam presentes outros dois pilotos da LAM que ficaram estupefactos com o tom da ameaça.”

Houve ainda uma outra ameaça nesse sentido, vinda de um dos membros da Comissão de Inquérito moçambicana”, acrescentou a fonte.

Avisos idênticos foram transmitidos a todo o pessoal do Aeroporto de Maputo e da Aeronáutica Civil. Os primeiros indícios da mão pesada da segurança moçambicana, após o acidente de Mbuzini, reflectiram-se na Torre de Controlo do Aeroporto, em que o controlador de tráfego aéreo de serviço na noite do acidente viria a ser detido. Igualmente presos pelo Snasp foram funcionários ligados à área da meteorologia por terem contactado o Aeroporto Internacional de Joanesburgo para uma actualização do estado do tempo. O pedido a Joanesburgo foi feito depois do Comandante Sá Marques, do voo TM103 da LAM, vindo da Beira, ter informado a Torre de Controlo de Maputo de que não poderia continuar por mais tempo em espera e que uma alternativa seria desviar o seu voo para a capita sul-africana uma vez que não era possível aterrar em Maputo. O voo TM103 acabou por ser desviado para a Beira no meio de grande pandemónio no interior da Torre de Controlo do Aeroporto de Maputo em que agentes do Ministério da Segurança ficaram alarmados por se ter dado a conhecer à África do Sul que algo de anormal se estava a passar.

Pelos vistos o João Cabrita mais do que tem razão.

Ah, as saudades que tantos parecem ter dos bons velhos tempos.

O documento:

Capa, topo.

Capa, parte inferior.

Artigo, topo.

Artigo, parte inferor.

21/10/2011

SAMORA MACHEL VINTE CINCO ANOS DEPOIS: OS EVENTOS E A NOTA DE FERNANDO LIMA

Samora Machel revisitado - mais uma vez.

Por razões evidentes de regime, mas também históricas e de senso comum, Samora Machel é lembrado e comemorado, mesmo vinte cinco anos após o seu desparecimento físico num acidente, ou incidente, aéreo, cujas causas ainda fazem correr tinta (vejam-se os esforços continuados de Mamã Graça e os tiros quase hilariantes trocados entre o Sérgio Vieira e o João Cabrita).

Lamentavelmente (suponho que deve ser qualquer coisa ainda a ver com a herança cultural portuguesa) celebra-se, não o dia em que nasceu, mas o dia em que morreu. Eu sei que Samora Machel nasceu num 29 de Setembro e que em Moçambique este mês já está pejado de feriados. Mas comemorá-lo não tem que ser um feriado. Senão qualquer dia Moçambique fica como Portugal, com tantos feriados que não se trabalha. E acima de tudo, Moçambique precisa que se trabalhe. Não querendo ser dogmático, eu diria: querem celebrar Samora? então trabalhem mais.

Esta semana, por exemplo, finalmente, lá se fez o gesto de colocar no lugar vago por Mouzinho de Albuquerque uma estátua menos má de Samora (importada da Coreia do Norte, doze metros de altura, sem pedestal, um bocadinho demais ao estilo do Querido Líder lá nos confins da península coreana mas enfim) mais uma vez recompondo a bem conseguida estética da praça em frente ao edifício do Conselho Municipal e, espero, salvando-a de vez de um plano de reconfiguração totalmente surreal que circulou em tempos pelos circuitos subterrâneos da máfia moçambicana na internet, creio que da autoria do Sr. Arquitecto José Forjaz.

36 anos depois de Mouzinho out, Samora in.

Mas, para além de uma romaria ao local do acidente/incidente em Mbuzini, na vizinha África do Sul, e do gesto simpático de Jacob Zuma e de Sua Eternidade salazarenta o Sr. Robert, terem publicamente agradecido qualquer coisinha pela catástrofe libertadora infligida ao povo moçambicano sob a liderança de Samora logo a seguir à declaração de “independência” (na verdade, Moçambique tornou-se independente dez dias após a assinatura dos acordos em Lusaka, no final da primeira semana de Setembro de 1974), o prato forte foi uma conferência sobre Samora em Maputo.

A conferência teve a interessante, e provavelmente única, e irrepetível, característica, de reunir sob o mesmo tecto uma boa parte dos protagonistas ainda vivos dos eventos de que resultou, entre 1974 e 1992, a entrega, ou a tomada, dos governos da maior parte dos países da África Austral, para as mãos de elites nacionais, seguindo apenas um pouco mais tardiamente o curso de quase todo o resto da humanidade.

Papá António e Mamã Graça na Conferência sobre Samora.

Sobre a mesma, com profunda vénia, reproduzo em seguida o magnífico texto da autoria de Fernando Lima, participante, espectador, jornalista e também gestor de media, que viveu muitos dos eventos ali tratados e que pelos vistos esteve sentado lá o dia inteiro a ouvir o que as pessoas tinham para dizer. Este texto foi publicado no jornal Savana, que se publica em Maputo, na sua edição de hoje.

Aqui vai:

Quando Samora era Jack Dempsey

Por Fernando Lima em Savana, 21 de Outubro de 2011

Terça-feira fui ao Centro de Conferências, ali para os lados do Miramar, aqui na capital, e fiz como disse que faria o Dr. Almeida Santos, um dos ilustres oradores no simpósio dedicado a Samora Machel. Apesar de não ter convite, fiz-me à sala e passei lá o dia todo. Ouvi 15 intervenções e como não levava bloco de notas passo a citar de memória.

Do que gostei mesmo foi das memórias de Albino Maheche, um “mais velho”, enfermeiro de profissão, que fui aprendendo a conhecer pelas bandas do ministério da Saúde no pós-independência.

Maheche, um contemporâneo e amigo de Samora, trouxe à colação as suas recordações da vivência em comum com o então jovem enfermeiro Machel. E ficámos todos a saber do seu fascínio pelo boxe, como era hábito na década de 50/60. Craveirinha, também contemporâneo de ambos, redige o famoso poema de exaltação ao combate de desforra protagonizado pelo pugilista negro Joe Louis em Berlim. (“A desforra do nosso Joe Louis frente ao Max Schmmeling/veio no telégrafo e saiu no jornal Notícias/mas quanto ao resto em Lourenço Marques…/Nada !/O resto não saiu no jornal Notícias/Não saiu na Rádio Clube de Moçambique./Só o Brado Africano é que está a dizer./Portanto guarda bem guardado este Brado/e treina muito bem este boxe !”).

Samora, na camarata onde viviam os aspirantes a enfermeiros, levava a alcunha de Jack Dempsey, um formidável boxeiro americano, campeão de pesados entre 1919 e 1926. Para melhorar o seu boxe, Samora golpeava com frequência um saco de areia na casa de banho e assistia aos combates que tinham lugar habitualmente no pavilhão do Malhangalene (hoje Estrela Vermelha).

Também ficámos a saber que um padre católico na Catedral o apoiou nas matérias lectivas do 2º. ciclo dos liceus, que gostava das disciplinas de História, Geografia e Português, sabendo de cor várias estrofes dos Lusíadas de Luís de Camões, leitura obrigatória na escola.

Quase inevitavelmente, os jovens Maheche e Machel cruzam-se com o Dr. Mondlane, então hospedado no Khovo (Missão Suiça), vindo dos Estados Unidos. Ali se cruzam também com o poeta Virgílio de Lemos (exilado desde 1963 em França) que queria que os dois se juntassem ao movimento independentista. Lemos tornou-se conhecido por ter apelidado a bandeira portuguesa de “kapulana verde e vermelha” e mais tarde foi preso durante 14 meses por advogar a independência de Moçambique.

Na opinião de Maheche, o estilo contestatário de Machel não ajudou a sua progressão na enfermagem. Numa das aulas, a propósito de enfermeiros e massagens, Samora jocoso quis saber quem dava massagens ao ditador Salazar, conhecido como asceta e celibatário.

Os monitores tomaram-no de ponta e nem sequer o deixaram fazer prova oral de um exame onde tinha positiva na escrita.

Pelo relato da sua filha Ornila fiquei a conhecer um bocadinho mais do Samora doméstico. Dos jantares em família, apesar de ser o “camarada presidente”. Dos treinos dedicados às meninas “para saberem caminhar como senhoras” equilibrando um livro no alto da cabeça, como cruzar as pernas, como sentar e levantar. De como o trautear a canção “canta, canta minha gente, deixa a tristeza para lá” deu origem a semanas de rigoroso “chá” sobre liberalismo e libertinagem.

Não sabe a Ornila porventura que o dito Martinho da Vila, o autor brasileiro da canção, em carne e osso, na sua primeira visita a Moçambique depois da independência, por causa da “libertinagem”, foi impedido de actuar em Maputo e, para salvar a digressão, foi mandado para a Beira, onde actuou para uma plateia de militantes da Frelimo no pavilhão do Ferroviário.

Por causa da mesma libertinagem, anos mais tarde, Bob Marley foi impedido de vir a Moçambique, pois passou a cerimónia da independência do Zimbabwe, no Rufaro Stadium, a fumar vigorosos charros de suruma, mesmo por detrás da delegação oficial moçambicana. O que me recorda a simpatia que os “freaks” citadinos nutriam por Samora à altura da independência, alegadamente por não ser contrário à legalização da “cannabis”. As razões prendem-se com um famoso discurso, em que perante o rufar inebriante dos tambores, Samora disse qualquer coisa como “a cultura é como a suruma a subir pelas nossas veias”.

Voltando para o Zimbabwe, da ajuda de Samora à independência da Rodésia do Sul se encarregou Robert Mugabe, também convidado do simpósio. E como a história é habitualmente feita pelos vencedores, ficaram na gaveta as memórias de Mugabe como pacato professor de inglês na cidade de Quelimane, enquanto Samora apostava numa guerrilha vitoriosa das forças com a sigla ZIPA (Exército Popular do Zimbabwe). E como a história dá muitas voltas, mais tarde os comandantes do ZIPA acabaram presos em Moçambique por solicitação de Mugabe, como documentado por Dzinashe Machingura. Mas isto seria matéria de dissertação para os saudosos Fernando Honwana e Rafael Maguni, por sinal o primeiro embaixador de Moçambique no novo Zimbabwe.

Mugabe falou de Samora, mas aproveitou o microfone aberto e um moderador temeroso do [seu] estatuto “chefe de Estado” para perorar longamente sobre a guerra no Iraque, a selvajaria de George W. Bush, as maquinações de Sarkozy, a ineficácia da União Africana na questão líbia e até o harém de prostitutas à disposição do primeiro-ministro italiano Sílvio Berlusconni.

Quando um jovem exaltado o interpelou sobre os moçambicanos pretos que hoje se substituem aos colonos brancos na partilha das riquezas, Mugabe passou ao lado do debate dizendo secamente que era melhor que as riquezas fossem desfrutadas por nacionais do que por estrangeiros.

Almeida Santos, provavelmente o mais famoso advogado do Moçambique colonial, amigo de Craveirinha, Nogar, Luís Bernardo, Malangatana, de Graça e Samora, mostrou que tem a oratória em forma. Chamou de “preguiçoso” a Luís Bernardo Honwana, o moderador do seu painel, por continuar a ser o nosso escritor de uma obra só, o cão tinhoso que as nossas crianças descobrem na escola pública.

E como Almeida Santos não deixa créditos por mãos alheias, disse ao simpósio que sugeriu a Samora o pacto com a África do Sul que ficou conhecido como o Acordo de Nkomati e organizou a apresentação em Londres a Harry Oppenheimmer, o sul-africano patrão da Anglo-American e crítico do apartheid. Tal como tinha acontecido com Ronald Reagan, Samora descrito por Almeida Santos como “um conquistador” , “um sedutor” , entrou na sala onde estava Oppenheimmer e, por entre efusivos abraços, tratou-se como “Senhor Capital”. Aparentemente, foi “amor à primeira vista”.

Menos simpático ficou na fotografia o já falecido jornalista Pinto Coelho, a quem Almeida Santos revelou ter pedido o “frete” de fazer uma reportagem favorável sobre Samora para preparar o que depois foi a sua viagem triunfal a Portugal [em 1983]. E lá deixou cair também que Samora se “esqueceu” dos papéis para o discurso na Assembleia da República mas conseguiu arrancar um dos mais espectaculares improvisos da sua primeira visita à antiga metrópole colonial.

Noite fora, Marcelino dos Santos, que já disse que ele era a própria Frelimo, vestiu pose mais modesta para falar do humanismo do companheiro Samora, dando os respectivos recados, socorrendo-se do belo poema de Jorge Rebelo, “não basta que seja pura e justa a nossa causa/ é necessário que a pureza e a justiça vivam dentro de nós”. Uma espécie de desforra à recente afronta na reunião nacional de quadros da Frelimo onde o mandaram calar.

Gostei da postura mais académica, menos presidencial de Joaquim Chissano dissertando sobre o Estado-Nação, dos “conselhos” de Prakash Ratilal à juventude que pensa que o futuro é um pronto-a vestir e Óscar Monteiro, que replicou sobre a tradicional “intuição” atribuída a Samora. Gostei que Mário Machungo tenha desenterrado o “samorismo” que defendia Aquino de Bragança, ele que foi um dos vergastados do congresso de Quelimane por defender regras e o rigor na economia moçambicana. Gostei da intervenção emocionada do general Chipande, clarificando a morte do padre holandês (se não me engano em Nangololo) às mãos de dissidentes da Manu ( que um lapsus linguae atribuiu à Renamo), embora não estivesse lá Gruveta para contestar a teoria do primeiro tiro em Chai. Na versão portuguesa, e na cola dos acontecimentos em Angola e no Congo, o assassinato do padre foi o início da luta armada.

A Universidade Eduardo Mondlane organizou o debate mas esteve muito fraca na matéria crítica que podia e deveria ter trazido ao Simpósio. Quando se elevam a categorias históricas termos como “o pai da nação” e o “criador da geração 8 de Março”, fica a impressão que a academia continua a reboque dos acontecimentos, incapaz de aportes críticos e investigações sérias e seguras, indicativas de protagonismo independente dos poderes do dia. Deliberado ou não, os louros das contribuições foram para fora dos muros da universidade.

Armando Guebuza, fez questão de seguir o debate de fio a pavio. Certamente que já deitou contas à vida de como quer ficar na história dos seus dois mandatos constitucionais: eventualmente pela via das presidências abertas ou pelos sete bis aos distritos.

Porém, na “família da Frelimo”, há duas famílias que lhe estarão indelevelmente gratas: os descendentes de Mondlane e Samora. A presidência Guebuza, aparentemente, sarou ou procurou claramente pôr fim às feridas expostas destas duas famílias com contas a ajustar no seio da Frelimo.

Com a poeira e os ventos que nos afagam a memória, o futuro será certamente o melhor juiz.

(fim)

20/09/2011

SOBRE OS PODERES NA DITOSA PÁTRIA AMADA

Para ele a constituição foi apenas uma inconveniência menor - durante quarenta anos seguidos.

Reproduzo em seguida um interessante texto do jornalista Raul Senda, em que considera a análise de Gilles Cistac, com vénia para o jornal Savana, publicado em Maputo, na sua edição de 16 de Setembro de 2011, e que anda a fazer as rondas na internet e no Feicebuke.

Ora aqui está.

Separação de poderes continuará uma miragem em Moçambique

O constitucionalista e docente universitário, Gilles Cistac, disse, semana passada, em Maputo, que embora a Constituição moçambicana preconize, sob ponto de vista formal, a separação nítida dos poderes, define o Estado como democrático e de justiça social, em termos concretos, estes princípios continuam um verdadeiro mito.

Segundo Gilles Cistac, o legislador teve vontade de definir o Estado moçambicano como democrático onde cada um dos três poderes (executivo, legislativo e judiciário) pudesse ser independente do outro.

“Só que, o que se verifica na realidade, é que embora os três poderes estejam teoricamente separados, estes concentram-se num único partido político onde devem obediência suprema”, frisou Cistac, numa clara alusão a Frelimo.

De acordo com o constitucionalista, estes órgãos são comandados por pessoas que, do princípio deviam ser independentes, mas que não podem porque, obedecem a voz suprema lançada a partir da sede de um partido político, onde supostamente também fazem parte.

Diz a Constituição moçambicana no seu artigo 134: “os órgãos de soberania assentam nos princípios de separação e interdependência de poderes consagrados na Constituição e devem obediência à Constituição e às leis”. Contudo, nota Cistac, o que se verifica na realidade é que em vez de obedecer estreitamente a lei mãe, estes órgãos “colam-se” ao mesmo partido político onde devem obediência total.

Gilles Cistac referiu que a situação é mais penosa no Judiciário por ser o poder onde o cidadão deposita a última esperança na busca de soluções para os seus problemas.

Para o constitucionalista, a vulnerabilidade do poder Judicial é em parte provocada pela própria Constituição que apesar de, o proclamar como um órgão independente, não cria condições para o seu funcionamento sem depender do poder Executivo em termos financeiros e materiais.

“No actual estágio, seria ilusão dizer-se que o poder judiciário funciona de forma independente visto que depende completamente do Executivo”, lamentou.

Gilles Cistac, que falava na passada sexta-feira durante um debate subordinado ao tema: “Os desafios da Revisão Constitucional sobre o Sistema de Governação em Moçambique”, organizado pelo Centro de Estudos Moçambicanos e Internacionais (CEMO), reconheceu que sob ponto de vista formal o legislador desenhou as coisas de forma clara e pôs tudo em ordem. Porém, o mesmo cenário já não se verifica sob ponto de vista material.

“Formalmente, a Constituição define o Estado moçambicano como sendo de Direito Democrático, alicerçado na separação e interdependência dos poderes e no pluralismo de expressão, organização partidária e no respeito e garantia dos direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos”, disse Cistac para depois referir que na prática verifica-se o contrário e todos os poderes obedecem ordens vindas de um partido.

Ainda sobre a dependência do poder Judiciário, o orador principal sustentou a sua tese referindo que o Judiciário, em termos financeiros, depende totalmente do poder executivo.

“Todos os meios que o poder Judiciário precisa para o seu funcionamento são definidos e garantidos pelo Executivo. Aliás, é o mesmo Executivo que elabora o orçamento do Judiciário e vai defender a sua aprovação no Parlamento. É o Executivo que determina as condições ou regalias dos quadros da justiça. Ademais, a Constituição encarrega ao Chefe de Estado a tarefa de nomear os dirigentes dos órgãos da Justiça. Estas e outras dependências tornam os funcionários da Justiça vulneráveis, dependentes e mancomunado com o poder Executivo”, Frisou.

Ministério Público Vulnerável

Na sua explanação, o constitucionalista referiu que o Ministério Público (MP) é a face visível da vulnerabilidade deste poder.

Cistac referiu que a Constituição diz que compete ao MP representar o Estado junto dos tribunais e defender os interesses que a lei determina, controlar a legalidade, os prazos das detenções, dirigir a instrução preparatória dos processos-crime, exercer a acção penal entre outras funções.

No entender do académico, essas atribuições são inconcebíveis visto que, sendo o defensor do Estado já não pode velar pela Legalidade pelo facto das duas funções serem quase que incompatíveis.

É que a Constituição ressalva que o Estado é responsável pelos danos causados por actos ilegais dos seus agentes, no exercício das suas funções, sem prejuízo do direito de regresso nos termos da lei.

“Nesta situação, sendo o MP defensor do Estado como é que vai exigir da entidade por si defendida que cumpra com a legalidade”, questionou Cistac, docente na Faculdade de Direito da Universidade Eduardo Mondlane, a maior e mais antiga instituição de ensino superior público em Moçambique.

Para Cistac, a revisão constitucional que se avizinha devia, neste ponto, fazer com que o MP deixe de defender interesses do Estado e limitar-se apenas à observância da legalidade. Propõe que seja o Estado a contratar advogados para defenderem os seus interesses.

Continua referindo que o Procurador-Geral da República é nomeado e exonerado pelo Presidente da República. Segundo o académico, esta dependência põe a figura de PGR numa situação de vulnerabilidade.

Para Cistac, o PGR devia ser, a par de outros órgãos da Justiça, inamovível uma vez indicado. A sua nomeação devia passar pela ratificação na Assembleia da República e as propostas dos nomes para PGR deviam provir do Conselho Superior da Magistratura do Ministério Público.

“Segredo de Deus”

Falando para uma plateia constituída por estudantes, jornalistas e outros convidados, Gilles Cistac lamenta o facto de, até hoje, a bancada da Frelimo, na qualidade de proponente, não ter tornado público que se tenciona rever na actual Constituição.

Sublinha que o silêncio abre espaço para especulações de vária ordem.

Segundo Cistac, o projecto de revisão constitucional implica, necessariamente, um debate público transparente e acesso à informação da população em geral porque na Constituição deve-se consagrar a vontade de todos.

Referiu que quando se anunciou esta intenção, a opinião pública temia o alargamento de mandatos para o actual chefe de Estado, Armando Guebuza. Aliás, a própria Frelimo criou espaço para esse pensamento, sobretudo quando, esporadicamente, apareciam publicamente alguns dos seus membros a fazer alguns ensaios.

Entende Cistac, que a ideia de rever mandatos presidenciais poderá ser válida na medida em que a própria Frelimo só veio ao público explicar que tenciona fazer uma revisão técnica e não política, depois de ter notado que o ensaio de aumentar o mandato do actual presidente não foi bem recebido pelo público.

Gilles Cistac é da opinião de que há muita coisa que precisa de ser revista na actual constituição e que possa fortalecer o sistema democrático.

Exemplificou apontando a questão do acesso ao Conselho Constitucional que no actual cenário é bastante limitativo.

“Na actual legislatura, as bancadas da Renamo e do MDM juntas não podem pedir ao Conselho Constitucional a declaração de alguma inconstitucionalidade porque não reúnem 1/3 dos deputados que a lei exige”, disse.

Cistac sugere a adopção de um regime semi-presidencialista com a figura do Primeiro-ministro como chefe do Governo. Por outro lado, ele propõe a mudança do modo de apuramento dos resultados das eleições que na Constituição vigente “obedece ao sistema de representação proporcional” (nº 2 do Artigo 135) para um modo diferente, por exemplo, um sistema maioritário integrando um escrutínio uninominal em círculos eleitorais que coincidem com as áreas administrativas dos distritos para a eleição dos deputados da Assembleia da República que não fere o Artigo 292 da Constituição que apenas consagra o princípio do sufrágio universal.

O académico propõe igualmente que a revisão constitucional pode acrescentar mais direitos fundamentais, reforçar a independência dos juízes e a autonomia das autarquias locais sem que seja necessário um referendo.

Cistac defende que se deve acabar com os poderes excessivos do Presidente da República, defender-se que o sector judicial passe a gozar da prerrogativa constitucional de propor e defender junto do parlamento o seu orçamento, para deixar de estar refém do Governo.

Sugere que o regime semi-presidencialista é o único que pode permitir uma divisão efectiva de poderes entre o Presidente da República e o primeiro-ministro. Neste sentido, o primeiro-ministro – a ser indigitado pelo partido vencedor das eleições e nomeado pelo Presidente da República – seria o chefe do governo, teria a competência para indicar figuras para o governo e iria responder politicamente no parlamento.

Sustenta que a nova constituição deverá declarar incompatível a função presidencial com a de líder de um partido político.

(fim)

O Gilles está a ser um bocado mauzinho. Afinal – coitados – os da Frelimo não têm culpa de serem tão populares, tão populares, que têm uma maioria de 80 por cento no parlamento e quase todas as câmaras e quase tudo o resto, o que lhes permite nomear tudo, propor tudo e controlar tudo. Na actual conjuntura moçambicana, o Estado é a Frelimo e a Frelimo é o Estado.

Aliás, há quem goste.

16/09/2011

CHAIMITE, O FILME, 1953

Antes de ontem à noite desloquei-me à nova Torre do Tombo em Lisboa, para assistir ao lançamento formal de um livro sobre Henrique de Paiva Couceiro, compilado pelo Prof. Filipe Ribeiro de Menezes (com “z” no fim) que reproduz uma parte, menos de um terço, dos documentos que constituem, a partir dessa data, património da nação portuguesa. O livro, editado pela Dom Quixote, já está à venda.

Durante as exéquias de doação formal do espólio de cerca de cinco mil documentos (generosidade da família Paiva Couceiro, na pessoa do meu muito caro Miguel de Paiva Couceiro), foram projectados menos de cinco minutos de um filme de que eu mal ouvira falar e que nunca tinha visto na vida, chamado “Chaimite”, nome da mitológica localidade da nação vátua, em que o Régulo Gungunhana capitulou às armas portuguesas no final do ano de 1895.

Por curiosidade, e para minha surpresa, o filme, que foi trazido ao público português no início de Abril de 1953, foi transcrito para o Iutube, e eu fui ver.

O que posso dizer sobre o filme?

Primeiro, é que é de uma dialéctica, especialmente em final de 2011, quase hilariante, uma versão kistch da então prevalecente atitude convencional portuguesa sobre os territórios sob controlo colonial. É divertido porque hoje muita gente já não se lembra (e alguns não se esquecem) de como era. Neste filme, está-lhe na flor da pele.

Especialmente para quem conhece ou conheceu a região Sul de Moçambique e as suas culturas, e em particular a sua história recente (refiro-me ao final do século XIX) ver este filme é duplamente divertido. A começar pela cena da germanicamente bela menina tuga de saia comprida e com predilecções agrícola-desenvolvimentalistas, sentada à mesa, meio apategada, surpreendida pelo obviamente mais batido tuga cafrealizado a dizer-lhe qualquer coisa coisa como “eu gostava maningue de ter uma machamba no mato”. Ela, de olhos muito abertos, exclama: “maaniingue?! maa-chambaa?! Mas o que é isso?!” Apenas para sermos confortados pela sua politicamente correcta, recém-adquirida lusitano-cafrealização no momento final do filme, quando, finalmente preso o nefasto líder rebelde pelos Heróis e regressada a Pax Lusitana ao Sul dos domínios do rei dos Algarves e apêndices e adjacências, o seu interlocutor, afinal um puro sangue lusitano encapotado (mas claro) diz “ah, afinal vale a pena viver”, ao que ela responde, em apoteose final que prenuncia a justeza do que certamente viria a seguir, “maningue!.

Ah pois. Imagino os meus amigos moçambicanos em Maputo a ver isto hoje, dariam voltas nas cadeiras.

Mas se calhar deviam ver. Que mais não seja o de ouvir landin (ou ronga) dos anos 1950 e assistir ao actor Carlos Benfica, que não sei quem é, desempenhar o papel de Gungunhana.

Pelo meio, um relato dos eventos naquele ano de viragem de 1895, de que fez parte, naturalmente, Henrique de Paiva Couceiro, sem descurar os restantes.

Quem ignora a história, e como ela é e foi protagonizada, tende a ignorar aspectos aparentemente suaves mas importantes das suas próprias origens.

Penosamente, em baixo, compilei as ligações todas que permitem, se o exmo. leitor tiver um tempinho, ver o filme. É de borla e, penso eu, vale mais que isso.

Então vamos lá.

Parte 1 de 11

Parte 2 de 11

Parte 3 de 11

Parte 4 de 11

Parte 5 de 11

Parte 6 de 11

Parte 7 de 9

Parte 8 de 11

Parte 9 de 11

Parte 10 de 11

Parte 11 de 11

07/09/2011

HENRIQUE DE PAIVA COUCEIRO, POR HENRIQUE DE PAIVA COUCEIRO

Henrique de Paiva Couceiro (à direita) com João de Azevedo Coutinho, aqui em Maio de 1915. Arquivo de Miguel de Paiva Couceiro, neto de HPC, dentro em pouco parte dos arquivos nacionais portugueses.

 

Para aqueles que passaram com menos que 12 valores nas aulas de história é relativamente fácil perder-se o rasto a Henrique de Paiva Couceiro, especialmente num registo de cem anos impenitentemente republicano, republicanismo esse que ao próprio ofendia, e que ele combateu praticamente até à data da sua morte. Não há amor perdido, aqui.

Relativamente mais fácil é recordar que ele foi talvez dos elementos mais instrumentais nas então chamadas “campanhas de pacificação da África Oriental Portuguesa” em 1895. Foi ele, com a prestimosa assistência de um punhado de oficiais portugueses e uma mistórdia de gente recrutada à pressa, que na madrugada dum sábado, o dia 2 de Fevereiro de 1895, segurou o quadrado de Marracuene, ali às portas da vulnerável Lourenço Marques, contra um poderoso ataque de forças afectas ao Régulo Gungunhana, criando o momentum que culminou com a derrota de Gungunhana no fim desse ano, assegurando assim no terreno o não menos importante mas certamente muito mais perfumado, trabalho do governo português em Lisboa e de Luís Soveral em Londres, assim permitindo que, oitenta anos depois, Moçambique viesse a ter a geografia física e humana que ainda tem.

A vida de Henrique de Paiva Couceiro, no entanto, merece um estudo aparte.

Pois muitíssimo mais aconteceu que a sua algo fugaz (mas fulgurante, se algo subestimada) passagem por terras africanas.

Para muitos, muito mais diz o seu combate e postura contra a primeira república e o Estado Novo, em defesa do regresso ao regime monárquico. Que mais não seja porque, enquanto muitos falavam e alegremente comprometiam os seus princípios, ele manteve os mesmos princípios e fez alguma – muita – coisa.

E eis que, oportunamente, surjem agora dois eventos dignos de nota.

O primeiro, é a generosa doação à nação portuguesa, por parte da Família Paiva Couceiro, do seu espólio pessoal, cuidadosamente catalogado. Ficará ao cuidado dos senhores da Torre do Tombo em Lisboa.

O segundo, não menos significativo, é a publicação, com data de lançamento marcada para o próximo dia 14 de Setembro de 2011, da obra Paiva Couceiro – Diários, Correspondência e Escritos Dispersos (Lisboa: Publicações D.Quixote, 840 páginas, cerca de 32 euros).

Para além de uma introdução por Miguel de Paiva Couceiro, seu neto, e que viveu uns anos na Beira, saliento a preciosa coordenação e uma introdução, pelo Professor Doutor Filipe Ribeiro de Meneses (adoro estes títulos académicos portugueses), uma estrela que desponta entre uma nova geração de historiadores portugueses, previamente autor de uma muito badalada biografia de António Oliveira Salazar e cujas credenciais académicas, rigor e boa escrita fazem pressupor que esta obra se vai tornar numa das referências bibliográficas obrigatórias sobre esta enigmática e fascinante figura das histórias de Portugal, de Moçambique e de Angola nos séculos XIX e XX.

Nota de Convite para o Acto de Doação e Lançamento do livro.

 

A capa do livro que vai ser lançado no dia 14 de Setembro.

 

 

29/06/2011

CECIL JOHN RHODES, 109 ANOS DEPOIS

Filed under: Cecil John Rhodes, História, História Moçambique — ABM @ 9:58 am

Com o braço direito sobre a mesa de campanha, Cecil Rhodes, o homem mais rico do império britânico do seu tempo, posa com os rapazes. A criação das suas Rodésias (e, por reboque, da Nyasalândia) foi feita com um telegrama de Lord Salisbury para Lisboa, uma negociata com Lobengula e uma verdadeira campanha de marketing no Reino Unido. Em termos práticos, o que Cecil queria, Cecil obtinha. Pior que ele, só mesmo o primeiro Leopoldo da insignificância belga. Mas com todo o seu poder, influência e dinheiro, Rhodes só não conseguiu duas coisas na vida: livrar-se da princesa Radziwill e ficar com Lourenço Marques. No segundo caso, entre uma bizantina e tortuosa diplomacia em Lisboa e uma mão cheia de militares intrépidos no terreno, os portugueses passaram-lhe a perna.

Em baixo, o texto de Matthew Smith, no original em inglês, apresentando uma visão britânica pós-revisionista-chic da vida e obra do mais conhecido colonialista africano. Confesso que me deu gozo ler.

North of the Zambezi, they have long known about the suppression of free speech, about the bloody redistribution of land along racial lines, about politicians happy to employ armed – and sometimes uniformed – mobs to kill their opponents. They are practices imported to this region, along with the railways, by the British.

Unlike the African press, the Western media rarely invoke the name of Cecil John Rhodes: nearly a century after his death – on 26 March 1902 – his name is more associated with Oxford Scholarships than with murder. It’s easier to focus on the region’s more recent, less Anglo white supremacists: Ian Smith, for instance, who – despite his Scottish background – seems cut from the same stuff as those Afrikaner politicians who nurtured and maintained apartheid farther south.

But it was Rhodes who originated the racist “land grabs” to which Zimbabwe’s current miseries can ultimately be traced. It was Rhodes, too, who in 1887 told the House of Assembly in Cape Town that “the native is to be treated as a child and denied the franchise. We must adopt a system of despotism in our relations with the barbarians of South Africa”. In less oratorical moments, he put it even more bluntly: “I prefer land to niggers.”

For much of the century since his death, Rhodes has been revered as a national hero. Today, however, he is closer to a national embarrassment, about whom the less said the better. Yet there are plenty of memorials to him to be found. In Bishop’s Stortford, his Hertfordshire birthplace, St Michael’s Church displays a plaque. The town has a Rhodes arts centre, a Rhodes junior theatre group, and a small Rhodes Museum – currently closed – which houses a collection of African art objects. In Oxford, his statue adorns Oriel College, while Rhodes House, in which the Rhodes Trust is based, is packed with memorabilia. Even Kensington Gardens boasts a statue – of a naked man on horseback – based on the central feature of his memorial in Cape Town.

But his presence is more strongly felt – and resented – in the territories that once bore his name. Delegates at the Pan Africanist Congress in January argued that “the problems which were being blamed on [President Robert] Mugabe were created by British colonialism, whose agent Cecil Rhodes used armed force to acquire land for settlers”. He is the reason why, during the campaign for the presidential election in Zimbabwe, Mugabe’s Zanu-PF described its enemies – white or black – as “colonialists”; why, when Zimbabwe gained full independence in 1980, Rhodes’s name was wiped from the world’s maps.

The prosecution case is strong. Rhodes connived his way to wealth in a lawless frontier culture, then used that fortune to fund a private invasion of East Africa. He bought newspapers in order to shape and control public opinion. He brokered secret deals, issued bribes and used gangs of mercenaries to butcher his opponents, seizing close to a million square miles of territory from its inhabitants. Although he did this in the name of the British Empire, he was regarded with some suspicion in his home country, and when it suited him to work against Britain’s imperial interests – by slipping £10,000 to Parnell’s Irish nationalists, for example – he did so without scruple.

Rhodes was born in the summer of 1853, the fifth son of a parson who prided himself on never having preached a sermon longer than 10 minutes. A sickly, asthmatic teenager, he was sent to the improving climate of his brother’s cotton plantation in Natal. The pair soon became involved in the rush to exploit South Africa’s diamond and gold deposits – and unlike many prospectors and speculators who wandered, dazed and luckless, around the continent, their claim proved fruitful.

When Rhodes began his studies at Oriel College, he returned to South Africa each vacation to attend to his mining interests – which, by his mid-thirties, had made him, in today’s terms, a billionaire. By 1891, he had amalgamated the De Beers mines under his control, giving him dominion over 90 per cent of the world’s diamond output. He had also secured two other important positions; Prime Minister of the British Cape Colony, and president of the British South Africa Company, an organisation that was formed – in the manner of the old East India companies – to pursue expansionist adventures for which sponsoring governments did not have the stomach or the cash. The result of his endeavours produced new British annexations: Nyasaland (now Malawi), Northern Rhodesia (now Zambia) and Southern Rhodesia (now Zimbabwe).

A gula de Rhodes convertida em manifesto imperial britânico, numa conhecida caricutura da época. Entre as suas pernas ficava aquela parte de África que os portugueses se torceram mal e tardiamente para se apropriar. Hoje é tudo apenas história, excepto uma coisa: a De Beers. Como diz o filme baseado na novela de Ian Fleming, Diamonds are Forever.

Rhodes imprinted his personality on the region with monarchical energy: dams, railway engines, towns and anti-dandruff tonics were all named after him. But his expansionist zeal was not always matched at home in Britain. “Our burden is too great,” Gladstone once grumbled. “We have too much, Mr Rhodes, to do. Apart from increasing our obligations in every part of the world, what advantage do you see to the English race in the acquisition of new territory?” Rhodes replied: “Great Britain is a very small island. Great Britain’s position depends on her trade, and if we do not open up the dependencies of the world which are at present devoted to barbarism, we shall shut out the world’s trade. It must be brought home to you that your trade is the world, and your life is the world, not England. That is why you must deal with these questions of expansion and retention of the world.”

At around the same time, Henry John Heinz was outlining a comparable manifesto: “Our field,” he pronounced, “is the world.” By 1900, his 57 varieties were available in every continent. Global capitalism and imperial expansion developed in collaboration; shared aims, aspirations, patterns of influence. Today, most of the world’s political empires have been dissolved and discredited, but the routes along which capital moves remain the same. After Rhodes came Nestlé, Coca-Cola, BP, McDonald’s, Microsoft.

In 1896, Rhodes’s name was linked with the Jameson Raid – a disastrous (and illegal) attempt to annex Transvaal territory held by the Boers, and a principal cause of the South African War of 1899-1902. His reputation in Britain accrued a lasting tarnish. A defence of his character, published in 1897 and co-authored by the pseudonymous “Imperialist”, offers an insight into the charges against him: “Bribery and corruption”, “neglect of duty”, “harshness to the natives” and the allegation that “that Mr Rhodes is utterly unscrupulous”. His lifelong companion Dr Leander Starr Jameson – a future premier of the Cape Colony and the leader of the ill-fated raid – added a postscript insisting that some of Rhodes’s best blacks were friends: “His favourite Sunday pastime was to go into the De Beers native compound, where he had built them a fine swimming bath, and throw in shillings for the natives to dive for. He knew enough of their languages to talk to them freely, and they looked up to him – indeed, fairly worshipped the great white man.”

Did anyone buy this stuff? After Rhodes’s fatal heart attack on 26 March 1902, the death notices were ambivalent. News editors across the world cleared their pages for obituaries and reports of public grief in South Africa, but few wholehearted endorsements of his career emanated from London. “He has done more than any single contemporary to place before the imagination of his countrymen a clear conception of the Imperial destinies of our race,” conceded The Times, “[but] we wish we could forget the other matters associated with his name.” Empire-builders such as Rhodes, the paper said, attracted as much opprobrium as praise: “On the one hand they are enthusiastically admired, on the other they are stones of stumbling, they provoke a degree of repugnance, sometimes of hatred, in exact proportion to the size of their achievements.” Jameson and “Imperialist”, it seems, had not succeeded in rehabilitating their mentor.

But the story of Rhodes’s posthumous reputation is just as complex and contentious as that of his life and career. And curiously, his sexuality was one of the main battlegrounds. In 1911, Rhodes’s former private secretary Philip Jourdan wrote a biography of his late employer in order to counter “the most unjust libels with reference to his private life [which] were being disseminated throughout the length and breadth of the country”. Despite the aggressive romantic attentions of a Polish adventuress and forger named Princess Catherine Radziwill, Rhodes was indifferent to women and gained a reputation for misogyny. His most intense relationships were with men – his private secretary Neville Pickering, who died in his arms; Jameson, whom he met at the diamond mines in Kimberley where, the doctor recalled, “we shared a quiet little bachelor establishment”; and Johnny Grimmer, of whom Jourdan (defeating the purpose of his memoir) said: “He liked Johnny to be near him… The two had many little quarrels. On one occasion for a couple of days they hardly exchanged a word. They were not unlike two schoolboys.”

Rhodes’s excuse for remaining single was the one used today by members of boy bands: “I know everybody asks why I do not marry. I cannot get married. I have too much work on my hands.” Instead, he accumulated a shifting entourage of young men, known as “Rhodes’s lambs”. It’s probable that these relationships were more homosocial than homosexual, but that didn’t stop the gossips or biographical theoreticians. In 1946, Stuart Collete suggested Rhodes was “one of those who, passing beyond the ordinary heterosexuality of the common man, that the French call l’homme moyen sensual, was beyond bisexuality, beyond homosexuality and was literally asexual – beyond sex. It appears to have had no literal meaning to him except as a human weakness that he understood he could exploit in others”. The same biographer wove these comments into an analysis of Rhodes’s appeal to another set of posthumous acolytes: the Nazis.

As the 20th century moved on, Rhodes’s memory became increasingly attractive to extreme (and eventually moderate) right-wing opinion. Oswald Spengler’s The Decline of the West (1918) hailed him as “the first precursor of a Western type of Caesar – in our Germanic world, the spirits of Alaric and Theodoric will come again – there is a first hint of them in Cecil Rhodes”.

It’s easy to see why Spengler, and later Hitler, were fans. Asked by Jameson how long he would endure in memory, Rhodes replied: “I give myself four thousand years.” To the journalist WT Stead he said: “I would annex the planets, if I could. I often think of that.” When, in 1877, he first made his will, he urged his executors to use his fortune to establish a secret society that would aim to redden every area of the planet. He envisioned a world in which British settlers would occupy Africa, the Middle East, South America, the Pacific and Malay islands, China and Japan, before restoring America to colonial rule and founding an imperial world government. “He was deeply impressed,” Jameson recalled, “with a belief in the ultimate destiny of the Anglo-Saxon race. He dwelt repeatedly on the fact that their great want was new territory fit for the overflow population to settle in permanently, and thus provide markets for the wares of the old country – the workshop of the world.” It was a dream of mercantile Lebensraum for the English: an empire of entrepreneurs, occupying African territories in order to fill them with Sheffield cutlery, Tate & Lyle’s Golden Syrup and Uncle Joe’s Mint Balls.

But it was Rhodes’s Alma Mater that did most to brighten his prestige. In 1899, Oxford University, an institution with a long and continuing history of accepting money from morally dubious millionaires, agreed to administer a more cuddly and less clandestine version of the “Imperial Carbonari” of the 1877 will: the Rhodes Scholars. In 1903, the first names were selected. A group of men fitted for “manly outdoor sports”, who would display “qualities of manhood, truth, courage, devotion to duty, sympathy for the protection of the weak, kindliness, unselfishness and fellowship” – men such asBill Clinton, the CIA director Stansfield Turner, the first Secretary General of the Commonwealth Sir Arnold Smith, and the Nato Supreme Commander Bernard Rogers.

By 1936, ML Andrews was praising Rhodes’s “vision of world peace, to be brought about by the domination of the English-speaking nations”. In the same year the Gaumont-British film company produced the hagiographic movie, Rhodes of Africa. Two years later, the little Rhodes Museum was founded in Bishop’s Stortford. When it reopens next year, children will, for a fiver, be able to sign up as one of “Rhodes’s Little Rhinos”.

A 1956 children’s book, Peter Gibbs’s The True Book About Cecil Rhodes – one of a series that also profiled Marie Curie, Captain Scott and Joan of Arc – is the best example of how, in the mid-20th century, Rhodes was reclaimed as a national hero. More unalloyed in its enthusiasm for Rhodes than any comparable 19th-century text, it makes for queasy reading. Especially, perhaps, if you were voting in Zimbabwe last weekend. Southern Rhodesia, it reports, is now “tamed and civilised and cultivated, and many thousands of white people have settled there, and made it their home. Today there are beautiful modern towns; homes, gardens, parks, towering blocks of offices and flats; factories, railways and airports. It is a new and thriving country of the British Commonwealth, where but recently only savages and wild animals dwelt. And it started from the dreams of one young Englishman – Cecil Rhodes”.

(Artigo publicado no jornal britânico The Independent no dia 16 de Março de 2002, assinalando o centenário da morte de Cecil Rhodes, ocorrido no dia 26 de Março de 1902, que aqui reproduzo com vénia)

04/02/2011

ISTO E AQUILO

Para além de alguém baptizar um obscuro canto do seu império com o nome dela - já então uma homenagem barata - Amélia esteve em África. Ei-la aqui posando em cima de um camelo no Egipto, em frente a uma das pirâmides em Gizé, 1903. Cento e oito anos e 19 milhões e meio de pessoas mais tarde, aquilo está nalguma confusão.

5 de Fevereiro de 2011

O Egipto e a Tunísia

Quando houve aquelas chatices todas em Maputo em Setembro de 2010, não sei se se recordam que a grande guerra a seguir foi…..obrigar os 4 milhões de utilizadores de telefones móveis a registarem o nomezinho, a morada e o número de BI com a émecel e com a vodacão. Agora, parece que o catalisador da revolução na Tunísia e neste momento no Egipto (hum, será que com o tal de acordo ortográfico passou a ser Egito?) foram….as mensagens de SMS, os emails, o Facebook e o Twitter. Na Tunísia, o regime ainda não foi a tempo de cortar a internet e as comunicações. No Egipto, eles cortaram mas o Presidente Obama, cujo governo é que dá uns milhares de milhões de dinheiro de “cooperação”, mandou um bafo ao governo egípcio para não cortarem as comunicações do povo.

Em ambos os casos, foi uma complicação cortar a recepção de estações de televisão internacionais por satélite, especialmente a estação Al-Jazeera, que hoje só tinha um tópico na agenda: o que se passvaa dentro do Egipto. E antes, na Tunísia.

As implicações em termos da dinâmica da política e a relação entre governantes e governados, especialmente em sociedades onde a paz é mais ou menos podre, são deveras profundas.

E muito encorajadoras e muito perturbadoras, ao mesmo tempo.

Mais importante: agora os lusofalantes que sehuem os ditames decretados pelo governo dizem “Egito” ? eles agora são os … egícios?

As Rendas

Segundo o Expresso desta semana, em 2010 o número de rendas por pagar passou de 20 para 30 mil e, citando a Associação Nacional dos Proprietários, o montante em dívida passou para 72 milhões de euros – o dobro comparado com 2009. Como a lei portuguesa neste campo tende a ser punitiva para os proprietários, e a justiça punitivamente morosa e cara, prevê-se um pequeno tsunami nesta área em 2011. E como, na cultura portuguesa, entende-se geralmente que proprietário = rico e inquilino = coitadinho, pior vai ser.

A Escrita

A página de há uns dias do Diário de Notícias continha a seguinte, triste notícia:

“O jornalista da TVI José Pedro Barreto, actualmente a desempenhar as funções de editor do Internacional, morreu ontem à noite vitima de um acidente vascular cerebral (AVC), após uma operação. O jornalista, que tinha 62 anos, é descrito pelos colegas como um dos profissionais mais competentes do canal.”

Uma grande perda, pois o Pedro fez um trabalho excelente.

Mas, se ele morreu um dia antes da publicação deste texto, é impossível ele desempenhar as funções “actualmente”.

Mas foi o que saiu.

A Lei

A minha amiga Graça Rodrigues alertou-me para a necessidade – um dever de cidadadnia – de conhecer as leis que os legisladores portugueses vão emanando. Nomeadamente o Decreto-Lei 35/2010 de 15 de Abril (de 2010), que começa assim:

“Os artigos 143.º e 144.º do Código do Processo Civil aprovado pelo Decreto -Lei n.º 44 129, de 28 de Dezembro de 1961, alterado pelo Decreto -Lei n.º 47 690, de 11 de Maio de 1967, pela Lei n.º 2140, de 14 de Março de 1969, pelo Decreto -Lei n.º 323/70, de 11 de Julho, pela Portaria n.º 439/74, de 10 de Julho, pelos Decretos -Leis n.os 261/75, de 27 de Maio, 165/76, de 1 de Março, 201/76, de 19 de Março, 366/76, de 15 de Maio, 605/76, de 24 de Julho, 738/76, de 16 de Outubro, 368/77, de 3 de Setembro, e 533/77, de 30 de Dezembro, pela Lei n.º 21/78, de 3 de Maio, pelos Decretos -Leis n.os 513 -X/79, de 27 de Dezembro, 207/80, de 1 de Julho, 457/80, de 10 de Outubro, 224/82, de 8 de Junho, e 400/82, de 23 de Setembro, pela Lei n.º 3/83, de 26 de Fevereiro, pelos Decretos -Leis n.os 128/83, de 12 de Março, 242/85, de 9 de Julho, 381 -A/85, de 28 de Setembro e 177/86, de 2 de Julho, pela Lei n.º 31/86, de 29 de Agosto, pelos Decretos -Leis n.os 92/88, de 17 de Março, 321 -B/90, de 15 de Outubro, 211/91, de 14 de Junho, 132/93, de 23 de Abril, 227/94, de 8 de Setembro, 39/95, de 15 de Fevereiro, 329 -A/95, de 12 de Dezembro, pela Lei n.º 6/96, de 29 de Fevereiro, pelos Decretos -Leis n.os 180/96, de 25 de Setembro, 125/98, de 12 de Maio, 269/98, de 1 de Setembro, e 315/98, de 20 de Outubro, pela Lei n.º 3/99, de 13 de Janeiro, pelos Decretos -Leis n.os 375 -A/99, de 20 de Setembro, e 183/2000, de 10 de Agosto, pela Lei n.º 30 -D/2000, de 20 de Dezembro, pelos Decretos -Leis n.os 272/2001, de 13 de Outubro, e 323/2001, de 17 de Dezembro, pela Lei n.º 13/2002, de 19 de Fevereiro, e pelos Decretos-Leis n.os 38/2003, de 8 de Março, 199/2003, de 10 de Setembro, 324/2003, de 27 de Dezembro, e 53/2004, de 18 de Março, pela Leis n.º 6/2006, de 27 de Fevereiro, pelo Decreto -Lei n.º 76 -A/2006, de 29 de Março, pelas Leis n.º 14/2006, de 26 de Abril e 53 -A/2006, de 29 de Dezembro, pelos Decretos -Leis n.os 8/2007, de 17 de Janeiro, 303/2007, de 24 de Agosto, 34/2008, de 26 de Fevereiro, 116/2008, de 4 de Julho, pelas Leis n.os 52/2008, de 28 de Agosto, e 61/2008, de 31 de Outubro, pelo Decreto -Lei n.º 226/2008, de 20 de Novembro, e pela Lei n.º 29/2009, de 29 de Junho, passam a ter a seguinte redacção: ……………………”

Tirem-me daqui.

Reprise: A Bomba

Como não podia dizer melhor, cito o artigo de um economista da praça que sabe o que diz:

“O ponto de interrogação que paira sobre a dívida da República Portuguesa explica-se com uma mão-cheia de dados estatísticos: no 1.º trimestre, vencem 10 700 milhões de euros de dívida a curto prazo (Bilhetes do Tesouro, BT); em Abril, há quase 5 mil milhões a vencer a mais longo prazo (Obrigações do Tesouro – OT) mais uns 720 milhões em juros; em Junho, a conta calada atinge o seu pico: cerca de 5 mil milhões de OT mais 2 mil milhões de BT a vencerem nesse mês. No 2.º semestre de 2011, os compromissos caem para menos de metade dos da primeira metade do ano. (E, nos próximos quatro anos, as projecções de compromissos da dívida pública de Portugal ficam muito abaixo do ano de 2011). Logo: a nossa aflição financeira concentra-se no curtíssimo prazo, nos próximos 5 meses!

E é aqui que entra em cena o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF). Uma simples conta leva a concluir que, até ao fim da sua existência, em meados de 2013, o FEEF precisa de se reforçar em dimensão e em maleabilidade de intervenção, se quiser cumprir cabalmente o papel de dissuasor de ataques especulativos contra o euro através dos seus membros da periferia.

A melhor arma de dissuasão é aquela que, por ser tão esmagadora, acaba por nunca ter de ser usada. Para os credores se acalmarem quanto às parcelas mais expostas das dívidas soberanas tituladas em euros, é preciso que o FEEF ganhe o estatuto inquestionável de notação ‘AAA’. Mas isso implica, se toda a Zona Euro se quiser dotar de um mecanismo de apoio capaz de acudir a Portugal e à Espanha (se necessário), que o FEEF+contributo da UE27+FMI se dote de 540 mil milhões de euros disponíveis, quando dispõe actualmente de apenas 410 mil milhões. E, se quiser sinalizar que até a Bélgica e a Itália cabem sob este enorme guarda- -chuva financeiro, aí é preciso juntar mais um milhão de milhões, pelo sim pelo não.

Assim, quando Sarkozy e Merkel rasgam as vestes em público pelo seu querido euro, jurando que nunca o deixarão cair em desgraça, em resposta de Lisboa só devia sair o seguinte pedido: dêem o vosso acordo ao reforço financeiro do FEEF já na cimeira da próxima semana!”

15/12/2010

O PORTUGAL DE UMBHALANE SENA

por ABM (14 de Dezembro de 2010)

Há uns tempos atrás, comprei num antiquário a imagem acima, que era para oferecer a um senhor que eu conheço, de origem indiana, chamado Fahrid.

Entretanto, a vida deu sete voltas e a velha imagem ficou dentro de um envelope, de onde a tirei outro dia, não sabendo já o que lá estava.

É uma imagem da cidade portuguesa de Diu, quando era portuguesa. Uma das cidades fortificadas que os antigos portugueses tinham por aí, para assegurar os seus negócios, a sua segurança e também para fazer valor aos reis portugueses o título adicional de “senhor do comércio e da navegação”.

A coisa de facto durou pouco. Os portugueses foram senhores da navegação e comércio por umas décadas no século XVI, e depois iniciou-se uma longa agonia, que durou quase uns quatrocentos anos, que incluiu a entrega de Bombaím (hoje Mumbai) e o Ceilão (hoje o Sri Lanka) como parte do dote pago a Carlos II para desposar a miserável Catarina de Bragança e assim oferecer vaga cobertura à então recentemente re-adquirida independência do reino de Portugal.

A Índia foi “britânica” durante uns anos, e os portugueses mantiveram-se nos seus pequenos enclaves de Diu, Damão, Goa, e dois territórios no interior chamados Dadrá e Nagar-Aveli.

Até que, de duas penadas, Nehru acabou com a fantasia.

Diu hoje aparentemente é pouco mais que um obscuro apêndice no colosso indiano, encostado lá em cima ao pé de um dos mais fecundos centros de negócios da Índia.

Um dos leitores deste blogue colecciona imagens de lugares e fortificações onde os portugueses antigos estiveram. Em Moçambique, tirando aquela ilha lá para cima, a maioria destas fortificações durou pouco ou nada, por esta ou aquela razão. E nem cidade alguma se formou em seu redor.

O que foi, para essa gente, viver ali, tão longe da sua terra?

Ou não era assim que pensavam?

Mal imagino que terá sido.

Ma por outro lado, se calhar dirão os mesmos de quem viveu em África até ao terceiro quartel do século XX.

20/11/2010

PRIMEIRA EDIÇÃO MUNDIAL: NUNO CANAS MENDES ANALISA PORTUGAL E AS COLÓNIAS NA SOCIEDADE DAS NAÇÕES

Filed under: História, História Moçambique, Nuno Canas Mendes — ABM @ 3:39 am

Os rapazes da I República que compunham a delegação que representou Portugal nas conferências de que resultou a formação da Liga das Nações, antecessora directa da Organização da Nações Unidas. Ao centro está essa figura incontornável do radicalismo republicano da altura, Afonso Costa, que liderou o grupo após Egas Moniz ter sido corrido após Sidónio ter sido morto. À sua esquerda creio que Júlio Dantas, e à direita João Chagas. Atrás dele António Ferreira. Não sei os nomes dos senhores que estão dos lados de Ferreira. Primeira prioridade destes cavalheiros: salvaguardar as colónias. Segunda prioridade: sacar indemnizações dos alemães.

por ABM (20 de Novembro de 2010)

Após ter assistido à excelente conferência dada pelo Prof. Doutor Nuno Canas Mendes na Sociedade de Geografia de Lisboa há uns dias, intitulada O Tratado de Versalhes, a Sociedade das Nações e a Política Ultramarina Portuguesa, e pensando nos milhares e milhares de exmos Leitores do Maschamba que não podem esperar para saber mais sobre o assunto do que o meu resumo de há três dias, e ainda nos estudiosos e académicos em Moçambique, Angola e arredores, que ouvem falar nestas coisas mas que depois nunca vêem népia, atrevi-me a pedir ao Sôtor Nuno que permitisse a divulgação do seu trabalho.

Ele, que já esteve em Moçambique e ainda por cima gostou, gentil e prontamente acedeu, pelo que, numa primeira apresentação mundial, disponível e em exclusivo apenas no Maschamba, aqui se apresenta (ta-ram!) o texto integral da sua conferência:

O Tratado de Versalhes[1][1][1]

O exmo. Leitor poderá entrar nos detalhes desta área pouco estudada da história e ainda comparar se o meu resumo faz justiça a este poço de erudição académica que são as dezoito páginas da comunicação feita.

Não havendo mais nada a dizer, aproveito para inserir umas fotos relacionadas com este tema, pois a apresentação do Sr. Professor, apesar de eminentemente informativa, tem apenas duas fotografias e mesmo assim muito mixurucas.

Imagem tirada durante a 2ª Assembleia da Sociedade das Nações em Genebra, em 1921. Repare o exmo Leitor no gozo disto: praticamente toda a gente na imagem está a fazer pose para o fotógrafo que tirou esta fotografia.

Os delegados na Salle d'Horlogue na casa de campo de Louis XIV (Versailles): ali se preparou muita da lei internacional actual, desarmou-se e puniu-se a Alemanha, preparou-se a partição da Palestina, criou-se o esquema dos mandatos como prelúdio para as independências e remendou-se (mal, como de costume) o imbróglio nas balcãs. Isolacionistas, os EUA nunca entraram na SdN. Anos mais tarde, Adolf Hitler daria cabo dela.

A comissão de "arranque" da Sociedade das Nações. Repare bem o exmo. Leitor em duas pessoas. O sexto senhor de pé a contar da esquerda é o General Jan Smuts (aquele a quem puseram e tiraram o nome ao aeroporto de Joanesburgo), que na altura era o primeiro ministro da União Sul-Africana e que lá andou às voltas para mais uma vez tentar rapinar Maputo e arredores dos portugueses. Foi dos poucos, senão o único, desta fotografia, que em 1945 esteve presente em São Francisco na criação da ONU. O terceiro senhor de pé a contar da direita é o português Jaime Batalha Reis, amigo de peito de Antero, Oliveira Martins e de Eça (quando Eça saiu do Consulado de Newcastle para Bristol, Batalha Reis foi para Bristol) e que era de certa forma um perito em África. Batalha Reis tinha acabado de fugir por um triz da revolução comunista na Rússia em 1919 quando foi mandado como representante português para Versailles, onde se desdobrou em trabalhos, incluindo certamente mandar Smuts à fava com as suas ideias de retalhar Moçambique.

Os senhores e senhoras da Comissão Internacional do Trabalho, de que o Dr. Nuno Canas Mendes faz menção. A Comissão era um organismo autónomo da Sociedade das Nações mas trabalhava muito de perto com essa instituição. Mais tarde transformou-se na actual Organização Internacional do Trabalho. Segundo Canas Mendes, fartaram-se de chatear Portugal por causa da escravatura e trabalho forçado nas colónias portuguesas.

A Etiópia era o único país africano sub-sahariano na Sociedade das Nações. O resto era tudo colónia, mandato ou parte do império britânico, como a África do Sul. Aqui, Sua divina Majestade Hailé Selassié, Rei dos Reis e Imperador da Etiópia (o título formal dele é mais longo) vai à Sociedade protestar eloquentemente contra a invasão dos seus domínios pela Itália de Benito Mussolini, no dia 30 de Junho de 1936. Não serviu de nada mas mais tarde os italianos levaram uma valente sova e saíram de lá.

Bom fim de semana. E boa leitura.

18/11/2010

VERSALHES, A SDN E A POLÍTICA ULTRAMARINA PORTUGUESA

Filed under: História, História Moçambique, Nuno Canas Mendes — ABM @ 5:46 am

Ao consagrar e institucionalizar os nacionalismos em Versailles, e na sua corporização na Sociedade das Nações,o presidente norte-americano Woodrow Wilson teve um enorme impacto no que veio a acontecer em África e no mundo nas décadas seguintes.

por ABM (18 de Novembro de 2010)

A Sociedade de Geografia de Lisboa tem vindo a levar a cabo um interessante ciclo de conferências sob o tema  A República e o Ultramar Português: 1910-1926.

Ontem ao fim da tarde, foi a vez do prof. Doutor Nuno Canas Mendes, docente do ISCSP (que integra a Universidade Técnica de Lisboa) e considerado um especialista em Timor, se deslocar à sede da SGL, junto das portas de Santo Antão, para fazer uma conferência dedicada ao tema – muito relevante para quem quer saber mais sobre o que foi isto dos portugueses em África – “O Tratado de Versalhes, a Sociedade das Nações e os Reflexos sobre a Política Ultramarina Portuguesa”.

Que fui ouvir, em parte porque o tema interessava-me, mas também porque o conheci em Moçambique há uns anos e estou familiarizado com algum do seu trabalho.

Tirando o facto que a sogra passou a sessão toda a tentar telefonar-me para o cel para se queixar que a gata tinha fugido de casa (eu sabia mas pus o aparelho em silêncio) a palestra foi imensamente interessante e generosamente breve. No fim, aproveitei para pedir ao Prof. Nuno se me facultava uma cópia do texto que lera para colocar algures aqui na Casa para o eventual Maschambiano interessado.

Acredito que este tema é de interesse eminente para os estudiosos do assunto em Moçambique e nos restantes países que fizeram parte desse “império” português.

Vou aqui tentar fazer um vôo rasante do que ele referiu.

No fim do século XIX, Portugal estava, como já vem sendo costume nos últimos 400 anos, completamente nas lonas, mas tinha, milagrosamente, conseguido reservar para si uns territórios por aqui e por ali, dois dos quais eram Angola e Moçambique. Que eram constantes alvos da cobiça de tudo e todos, especialmente os ingleses, os franceses e os alemães. Por duas vezes antes da Grande Guerra de 1914-1918 os alemães e os ingleses prepararam acordos para retirar as colónias aos portugueses, para não falar das sacanices dos alemães e dos belgas (não sei se Olivença e os Hespanholes também se incluem aqui) mas a guerra tornou todo esse paradigma obsoleto.

Com o final da guerra, os Estados Unidos, que haviam apressado a sua conclusão, ajudando a derrotar o império germânico, assumem muito brevemente a liderança em assuntos internacionais, pela mão de Woodrow Wilson, então presidente dos Estados Unidos (é senhor da fotografia lá em cima) que, no contexto do fim da guerra e de uma conferência nos arredores de Paris para decidir o que fazer a seguir e extorquir indemnizações dos alemães, havia apresentado no início de 1918 uma lista de 14 pontos estruturantes como base para discussão posterior.

Nesses 14 pontos estavam incluídos conceitos então revolucionários, como o da formação de um organização como Nações Unidas, e a referência específica ao direito dos povos à sua auto-determinação. Em 1920, já com Wilson e os EUA fora de cena mais uma vez, formou-se a Sociedade das Nações, cuja sede foi construída nos arredores de Genebra, na Suíça.

Pela primeira vez na história moderna, os estatutos da Sociedade das Nações também faziam prever, ainda que tenuamente, as independências, ao pressupor o desmantelamento dos impérios colonais então existentes, através do mecanismo dos mandatos.

E, não menos importante, com o estabelecimento do princípio do reporte a si de informações numa variedade de matérias.

Basicamente, os portugueses, na altura liderados quase insolitamente pelo então mais do que odiado, o republicano revolucionário Afonso Costa, então mais ou menos caído na desgraça após levar um pontapé de Sidónio, e que na altura já vivia em Paris em confortável permanência, foram a reboque dos eventos, sempre à cuca para que os interesses portugueses – que se resumiam a agarrarem-se de unhas e dentes aos territórios herdados dos “egrégios” – fossem preservados.

E o Dr Nuno deu os principais detalhes do que foi esse envolvimento português em Versalhes, e com a Sociedade das Nações.

Exemplos:

1. Conseguiram sacar das barbas dos ingleses a devolução de um sítio chamado Quoinga, no extremo norte de Moçambique, que diziam que os alemães lhes tinham roubado antes. Hoje, Quionga faz parte de Moçambique;

2. Levaram com o General Boer Jan Smuts em cima mais uma vezes pois ele queria como de costume roubar Lourenço Marques e o Sul de Moçambique aos portugueses, para integrar a África do Sul, onde ele mandava (até 1924). Smuts nunca o conseguiria;

3. Tiveram que lidar com as repetidas acusações de que se praticava a escravatura e o trabalho forçado nas suas colónias, na minha opinião, tudo inteiramente verdade, mas sabem como são estes diplomatas: mentem com todos os dentes que têm e mais algum. Os portugueses lá se torceram todos e depois de muita esgrima lá mudaram os códigos, criaram montes de legislação, reclassificaram as coisas e no fim disseram que já estava tudo bem, culminando com o Acto Colonial de Salazar, que foi aprovado no dia 8 de Julho de 1930. Mas o exmo. Leitor sabe bem o que é que isso tudo queria dizer: quase népia. Só nos anos 60 é que se viu alguma coisa mais substantiva a acontecer em Moçambique, por exemplo.

4. Os outros assuntos que ocuparam os diplomatas portugueses na Sociedade das Nações foram o tratamento de mulheres (mais uma vez no contexto do trabalho forçado/escravatura) e o tráfico de ópio, que incomodava alguns países e em que Portugal era alvo de considerações pois havia muito negócio de ópio em Macau, oficial e oficiosamente, Na altura, cerca de um terço das receitas fiscais do enclave derivavam de impostos sobre o comércio de ópio, que parece que era muito apreciado pelos chineses para apanharem valentes pedradas.

Isto é o meu resumo. A apresentação do Dr Nuno é incomparavelmente mais erudita e não tem os mesmos comentários desportivos.

Nuno Canas Mendes à esquerda, ao lado dele o Prof. Óscar Barata, coagidos para posarem para esta fotografia.

De entre a vasta audiência, identifiquei muitos alunos, uns professores, umas velhotas simpáticas, uns oficiais reformados e a habitual brigada do reumático da SGL.

A próxima sessão, e creio a última deste ciclo de conferências, ocorre no dia 14 de Dezembro na sede da SGL, quando o Prof. Óscar Barata, que é um perito dos assuntos da Ásia portuguesa, entre outros, vai fazer uma palestra sob o tema “A evolução política na região Ásia-Pacífico e os interesses portugueses”.

O Prof. Óscar Barata esteve presente na sessão, em representação da SGL.

Se o exmo. Leitor tiver estas inclinações, vá ver. É cultura, é de borla e a salinha lá na Sociedade de Geografia até tem aquecimento – que funciona.

15/10/2010

MOÇAMBIQUE, PORTUGAL E A GUERRA ANGLO-BOER DE 1899-1902

Uma família boer rural, cerca de 1886

por ABM (15 de Outubro de 2010)

Numa Pesquisa que fiz a semana passada e relacionada com a Rua de Bagamoyo (preteritamente conhecida como Rua Araújo), descortinei alguns dados dispersos que compilei para a nota que se segue. Alguns factos são mais conhecidos que outros, mas pode ser que a compilação faça leitura interessante.

Além disso, é sexta-feira – e fim de semana!

A Guerra Anglo-Boer de 1899-1902

A grande guerra Anglo-Boer de 1899-1902 foi um conflito titânico, estranho, sinistro, opondo o vasto poderio do império britânico, então no seu pico, e duas minúsculas repúblicas “brancas” fundadas na distância possível da então britânica Colónia do Cabo, mas situadas mais ou menos do outro lado da então recentemente delimitada fronteira moçambicana (que corresponde aproximadamente às delimitações actualmente em vigor entre Moçambique e a África do Sul).

Na fronteira acabada de delimitar entre Moçambique e a República Sul-Africana (boer), cerca de 1891. Na imagem, os senhores em primeiro plano são uma delegação de Gungunhana. Os elementos da nação-estado moderna, importados da Europa, em estranha coexistência com a tradição imemorial africana.

No pico do conflito, que na altura seria, em termos mediáticos o equivalente nestes dias do que os Estados Unidos andam a fazer na região do Iraque-Irão-Afganistão desde há meia dúzia de anos, a Grã-Bretanha tinha no terreno na África do Sul cerca de quinhentos mil homens em armas.

Contra quem? Se se partir do princípio que as populações negras no Sul de África eram basicamente ignoradas e não participavam no processo político (em termos militares, desempenharam um papel importante de suporte e de retaguarda, principalmente em relação aos britânicos, que mesmo assim para eles eram considerados apenas ligeiramente menos piores que os boers), as duas repúblicas boer, o Estado Livre de Orange (território que creio hoje mantém o nome e estutura territorial) e a República Sul-Africana (durante muitos anos conhecida como Transvaal e após o arranjo de 1994 foi reorganizada para o que hoje são as províncias de Mpumalanga e Gauteng), tinham, se muito, entre homens mulheres e crianças, cem mil pessoas a viver lá.

Mesmo em língua portuguesa, existem fantásticas histórias e análises sobre quase todos os aspectos deste que certamente foi um conflito acompanhado atentamente pela imprensa a nível mundial. E sobre as suas causas.

Curiosamente, depreende-se facilmente que os relatórios de imprensa e a opinião pública naquela altura dividiam-se claramente entre os paradigmas do apoio imperial pela visão da Pax Britannica, e o apoio pela legitimidade e irredetutibilidade do combate dos boers.

A todos os títulos, à partida era um verdadeiro desafio entre um David e um Golias.

Na minha humilde opinião, na base de tudo, estavam apenas alguns, simples, factores:

1. no território do Transvaal encontraram-se os maiores depósitos de ouro que o mundo jamais viram (num canto do Estado Livre de Orange situava-se Kimberley, um dos maiores depósitos de diamantes até então encontrados, achado que esteve na base da fortuna de Cecil Rhodes e a génese da empresa De Beers);

2. a herança da visão imperial de Cecil Rhodes, um dos mais célebres colonialistas britânicos, perante a qual, tal como acontecera com Portugal anos antes ao ser corrido do que é hoje o Zimbabué, a soberania boer era simplesmente inaceitável em última instância.

E

3. um ódio declarado e visceral dos boers em relação aos britânicos, que simplesmente não os deixavam viver em paz e sossego.

Já em 1880-1881 os boers, que eram essencialmente agricultores (é que que quer dizer boer em português- a palavra diz-se “búer”) e que quarenta anos antes haviam formado as repúblicas para escapar ao jugo inglês mais a Sul na Colónia do Cabo (onde mesmo assim permaneceu durante muitos uma maioria boer que as apoiava moral e materialmente), tiveram um primeira guerra para reafirmar a sua independência em relação ao império britânico.

Guerra que foi seguida por mais incidentes, de que se destaca o fiasco do Raid de Starr Jameson em Joanesburgo em uns anos mais tarde, incidente da quase total responsabilidade de Cecil Rhodes e das suas relações (Jameson era um grande amigo seu e basicamente agia às suas ordens. Rhodes na altura era nada menos que o homem mais rico do Império britânico e o primeiro ministro da Colónia do Cabo).

Cecil John Rhodes, o arquitecto da "grande África do Sul". Odiado por Paul Kruger. Está sepultado nas colinas de Mattopos, no Zimbabué de Robert Mugabe.

A guerra de 1899-1902 foi de uma tal violência que é difícil de imaginar estes dias. Para contrariar alguns revezes iniciais, os britânicos enviaram para a zona do conflito todo o seu poderio e ainda o famigerado Lord Kitchener, já então célebre pela forma sanguinária como resolvera uma rebelião no Sudão uns anos antes (basicamente pela exterminação em massa).

Entre outras inovações, Kitchener operacionalizou um elaborado sistema de fortificações vigiadas com centenas de quilómetros de comprimento, para literalmente imobilizar e caçar os rebeldes boer, que desde cedo passaram a fazer uma guerra de guerilha (termo cunhado, e forma de acção militar primeiro inventada, nas guerras napoleónicas em Portugal e Espanha).

Kitchener implementou ainda um sistema de campos de concentração, onde colocou e basicamente torturou e matou milhares de mulheres e crianças boer, esta no fim do dia a razão porque os rebeldes acabaram por se render.

Exemplo da política de terra queimada seguida pelo exército britânico

Para além dos campos de concentração para mulheres e crianças dentro do que é hoje a África do Sul, Kitchener mandou fisicamente exilar de África os prisioneiros de guerra boer para campos de concentração localizados na Índia, no Sri Lanka, nas Bermudas e na Ilha de Santa Helena, a mesma onde Napoleão morreu exilado em 1821.

Procedeu ainda a executar uma implacável política de terra queimada nas repúblicas invadidas, em que destruiu com dinamite e fogo praticamente todas as casas, quintas, árvores, utensílios, poços, estradas, animais e colheitas dos boers. Vilas inteiras consideradas sem valor estratégico foram completamente arrasadas.

Lord Kitchener. Se fosse hoje estava preso em Haia. Naquela altura, foi um herói do Império britânico.

Desde o início que os boers estavam incomparavelmente mal armados, sendo uma das curiosidades da guerra que usavam uma espingarda de tiro único chamada Guedes, que fora desenhada por um militar português e encomendadas numa fábrica algures na Europa. Mas, por alguma razão, no fim os portugueses cancelaram a encomenda e o Transvaal comprou-as baratinho (tinham o selo real do rei português D. Luiz, imagine-se). Eficaz na guerrilha, mas nessa altura o exército britânico dispunha já de novas gerações da sinistra metralhadora Vickers-Maxim, cujo efeito era absolutamente devastador. Nos últimos dezoito meses da guerra, os boers combateram quase exclusivamente com armas que tomavam do soldados britânicos que combatiam.

Imagem do que então chamavam Comandos boer, com as suas espingardas de tiro único, excelentes para a guerra de guerrilha, algumas concebidas pelo militar português Guedes.

Para ambos os lados do conflito, o número de mortos em combate nesses quase três anos aproximou-se dos vinte mil, ou seja, perto do dobro do número total de militares portugueses mortos em 13 anos das chamadas guerras coloniais em três frentes de batalha africanas entre 1961 e 1974.

Mas o número de mortos por doença e tortura e péssimas condições foi muitíssimo mais elevado. No cômputo final, as repúblicas boer foram quase completamente destruídas e cerca de um terço de toda a população boer (civis e “militares”) pereceu nesses trinta meses de conflito.

Um terço do total da população boer morreu em dois anos e meio de conflito.

A guerra terminou com um tratado de paz que foi assinado no fim de Maio de 1902, e a inclusão das antigas repúblicas boer no que se tornou mais tarde a União Sul-Africana. Alguns boers voltaram às suas casas destruídas e tentaram refazer as suas vidas, agora como desconsolados súbditos da coroa britânica.

Com o tempo e grande habilidade, os líderes boer voltaram à cena nacional, mas isso é outra história.

Um jovem Winston Churchill fugiu do cativeiro boer através de Lourenço Marques, de onde foi para Durban, onde foi recebido como um herói. A saga foi importante para a sua carreira futura como político e estadista.

Durante todo este tempo, do outro lado da fronteira Leste e do Protectorado da Suazilândia, estavam Moçambique, Lourenço Marques, alguns portugueses e a linha de caminho de ferro que ligava a já de facto capital moçambicana à capital boer, Pretória.

O Ouro de Kruger

Alguns dos mais velhos poderão recordar-se que, em Moçambique, até aos anos 50 do século passado, falava-se no ouro de Kruger (o carismático e enigmático presidente do Transvaal.

A lenda – há até pelo menos um livro sobre ela, em português – refere que, nos últimos dias antes da ocupação de Pretória pelo exército britânico, que os boers, que dali fugiram para Leste na direcção de Lourenço Marques ao longo da linha de caminho de ferro, removeram dos cofres dos seus bancos e do tesouro nacional uma grande quantidade de ouro, que terão enterrado algures em volta da fronteira entre Moçambique e a África do Sul.

É tudo treta.

Na realidade, de acordo com as memórias do legendário líder boer Jan Smuts (em tempos era o nome dado ao aeroporto de Joanesburgo mas agora foi enfiado na gaveta pela nova África do Sul) essencialmente por causa de mau planeamento, apesar das medidas para evacuar a capital boer, uma grande quantidade de ouro permaneceu no Tesouro do Transvaal e no Banco Nacional em Pretória até ao dia 4 de Junho de 1900, o dia antes dos britânicos entrarem na capital boer (para onde, aliás, algum tempo depois a mãe do poeta Fernando Pessoa foi viver, e onde ficou até 1913).

Na manhã desse dia, apressadamente, Smuts mandou que o ouro fosse recolhido e depositado em caixas no cais da estação de caminhos de ferro de Pretória. Aí, foi colocado num comboio escoltado que ao meio dia partiu na direcção de Lourenço Marques, já sob o fogo de armas e canhões britânicos – o último comboio sob o controlo da república boer a deixar Pretória.

Exemplo dum comboio na África do Sul durante a guerra. Este estava nas mãos dos britânicos e estava assim protegido para defender o tambor com vapor sob pressão dos ataques dos boers.

Às duas horas da manhã do dia seguinte, 5 de Junho de 1900, o comboio parou na vila de Machadodorp, a meio caminho de Nelspruit (Mmmmmmbombélááá!) onde Paul Kruger, o ainda presidente boer, tinha então a sua base logística.

Uma parte do ouro foi usado logo ali para efectuar pagamentos. Segundo o diário de Meinbert Noome, um oficial boer, o resto – sessenta e duas caixas cheias de ouro – foram entregues em Lourenço Marques no dia 31 de Agosto de 1900, aos cuidados da firma alemã Wilken & Ackerman, que, em troca, creditou a conta do governo boer no estrangeiro com um crédito no contravalor, em libras, do metal que fora entregue – uma fortuna. Com este dinheiro, o que sobrou da autoridade republicana boer comprou mantimentos e apoiou muitos boers que tinham fugido da guerra.

Em Moçambique, os oficiais e administradores da antiga república boer do Transvaal instalaram-se no que fora o edifício do consulado norte-americano em Lourenço Marques e constituíram uma Proviant Commissie, que geria esses fundos e organizava e providenciava assistência aos exilados da guerra.

Uns dias depois, a 11 de Setembro de 1900, o próprio presidente Paul Kruger chegava a Lourenço Marques. Foi recebido por Gerard Pott, até então o cônsul do seu país em Lourenço Marques e também cônsul da Holanda. Após uma estadia de algumas semanas, partiu para a Europa num navio da marinha real holandesa enviado pela soberana holandesa, Guilhermina. Às oito da manhã de 24 de Setembro de 1900, o exército britânico ocupava Komatipoort, do outro lado de Ressano Garcia.

Formalmente, no entanto, a guerra ainda duraria outros oito meses.

Paul Kruger, o monumental presidente da República do Transvaal. Por ter permitido a criação de uma reserva natural na enorme língua de terra a nascente da sua república, na altura deram o seu nome ao futuro parque nacional.

E aqui chegamos à parte interessante.

De Lourenço Marques para….Peniche, Alcobaça e as Caldas da Raínha

No final de 1900, havia mais do que mil e quinhentos boers refugiados no lado português da fronteira, isto é, no Sul de Moçambique, e, desses, quase todos estavam em Lourenço Marques, empilhados uns em cima dos outros. Alguns, os mais doentes, ficaram na velha residência de Gerard Pott no centro da cidade (não confundir com os Pott Buildings, Era outra casa). Muitos morreram de doença e ferimentos na cidade.

No porto de Lourenço Marques, boers aguardam o momento para embarcar em navios para a Europa. Ao fundo pode-se ver a fachada da então fortaleza da cidade. No topo à esquerda fica o que hoje é a Praça 25 de Junho em Maputo - a antiga Praça 7 de Março.

Receosos que os boers se organizassem em território português e voltassem novamente a entrar no Transavaal e continuassem a guerra, os britânicos, que mais ou menos controlavam a cidade a partir da sua base no edifício do consulado britânico em Lourenço Marques (que ainda hoje é a embaixada daquele país ao pé da Rádio Moçambique) e segundo um relato do The New York Times datado de 7 de Março de 1901 e publicado na sua edição de 21 de Abril desse ano, baseados nas alegações de um jornalista de um dos jornais britânicos que estava então na cidade, de que os boers estariam a preparar uma contra-ofensiva a partir de território moçambicano, insistiram com as autoridades portuguesas para que os refugiados boers saissem da cidade imediatamente– mas não de volta para o Transvaal, onde ainda decorria a guerra.

Gravura da época de boers a discutir as notícias num quiosque de Lourenço Marques, durante a guerra.

Entre os refugiados encontravam-se centenas de militares boers, de que se destacava um tal General Pienaar, que estava acompanhado pela sua família (sobre ele, ver mais abaixo).

Em parte com a ajuda do dinheiro acumulado dos boers com a venda do ouro, uma solução foi encontrada.

Eles iriam para Portugal.

Em navios da marinha real portuguesa.

Os Boers em Portugal

Diz o relato do Sr. George van den Hurk:

Depois da captura britânica da linha de caminho de ferro Pretória-Komatipoort, um número considerável de Boers, alguns com as suas famílias, procuraram refúgio naquele que era, então, o território português neutro de Moçambique. Tratava-se de algo especialmente necessário para os homens que tinham sido rebeldes do Cabo, uma vez que eram frequentemente mortos pelos soldados britânicos após a sua captura. Chegou a constar que alguns deles tinham voltado a atravessar a fronteira em Lourenço Marques para combaterem os ingleses quando e como lhes conviesse. A Grã-Bretanha pressionou Portugal para lidar com esta ameaça; o resultado foi a transferência dos refugiados Boer para Portugal, onde ficaram alojados nos chamados campos abertos para prisioneiros de guerra e internados civis.


A edição do The New York Times de 14 de Março de 1901 reportava que, no dia anterior, em Portugal, estavam a ser feitos preparativos no porto de Lisboa, para acolher os refugiados boers que eram ali esperados dentro de dias.

Continua van den Hurk:

No dia 27 de Março de 1901, o General Pienaar, oito dos seus oficiais de campo e cerca de 650 soldados, chegaram a Lisboa no navio “Benguela”. Uma semana mais tarde chegava o “Zaire”, trazendo o Comandante H.P. Mostert, juntamente com três membros da sua família e um grupo de 56 mulheres e 172 crianças. [o remanescente, segundo o New York Times, dos refugiados boers em Lourenço Marques]. No dia seguinte, a corveta portuguesa “Afonso de Albuquerque” desembarcava mais dez Boers.

Ao todo, 1260 adultos e 173 crianças chegaram a Lisboa para detenção sob custódia.

(De notar que nas suas memórias da guerra, escritas num campo de prisioneiros na Ilha de Santa Helena pelo mais credível General Ben Viljoen, no capítulo 22 do seu livro, ele às tantas refere, ao relatar a retirada boer já na região entre Nelspruit e Ressano Garcia: um tal Pienaar, que se arrogou o título de general quando entrou em território português, fugiu pela fronteira com cerca de 800 homens. Contudo, estes homens foram desarmados e enviados para Lisboa. Claramente, Viljoen não estava tão impressionado com Pienaar como aparentemente estavam os portugueses. É preciso ainda referir que naquela altura o título de “general” era utilizado com enorme liberalismo.

A corveta Afonso de Albuquerque, da marinha real portuguesa.

Talvez ainda resquícios do traumatizante Ultimato britânico de 11 de Janeiro de 1890, segundo o The New York Times de 1 de Abril de 1901, os boers foram recebidos à sua chegada a Lisboa por uma grande e jubilante multidão portuguesa, gritando ovações e tratando os refugiados como verdadeiros heróis, em quase total contraste com (continua o relato) a sobranceria com que foi tratada a delegação britânica liderada por Lord Carringto, que se deslocara a Lisboa na mesma altura para formalmente notificar o rei D. Carlos da morte da rainha Vitória e da sucessão ao trono pelo seu filho, o futuro Eduardo VII.

Filheto em língua portuguesa, alusivo aos boers. Este encontrei nos arquivos electrónicos do Pacheco Pereira. Se o exmo. Leitor quiser ler, prima duas vezes na imagem. Pelo que referem os poemas, percebe-se facilmente de que lado do conflito estavam os seus autores.

Diz ainda van den Hurk:

À sua chegada, foram alojados em Peniche, onde 380 homens foram acomodados num velho forte; em Alcobaça, 376 homens ficaram alojados num mosteiro e, nas Caldas da Rainha, 320 homens, mulheres e crianças foram realojados. As famílias que tinham outras possibilidades económicas tiveram a oportunidade de alugar casas na vizinhança. Adicionalmente, pequenos grupos ficaram em Abrantes, Tomar e S. Julião da Barra.

A todo o tempo era permitida a liberdade de movimento entre os campos, bem como a troca de alojamento, se desejado. Os Boers eram vistos como prisioneiros de guerra, mas não eram guardados, nem confinados aos seus campos, embora tivessem de se apresentar duas vezes por dia aos seus guardas.

O primeiro jogo de Râguebi em Portugal

Um curioso e curto trabalho (oito páginas) escrito por Floris van den Merwe sobre a prática do râguebi durante a guerra anglo-boer contém um curioso relato sobre os refugiados boers em Portugal. Cita do livro “Os Boers em Portugal”, escrito por Darius de Klerk (terá sido publicado em 1985, mas que não consegui encontrar) o seguinte, na sua página 38:

O futebol (referendo-se ao râguebi) era completamente desconhecido em Portugal nesses dias, pelo menos nas províncias. O público em Alcobaça gostava de ver os boers a jogar este novo tipo de jogo, mas as suas regras deixaram-nos confusos durante muito, muito tempo.

E na página 48 :

Quando os boers chegaram, o parque nas Caldas da Rainha era pouco mais que um terreno desolado, por isso em breve eles começaram a utilizá-lo para jogar algum tipo de jogo com a bola. Naturalmente, os locais nunca tinham ouvido falar de râguebi nesses dias.

Após a assinatura do tratado que findou a guerra em 31 de Maio de 1902, os prisioneiros e refugiados boers foram autorizados pelos britânicos a regressar à sua terra natal., tendo tal ocorrido durante o verão, até final de Agosto de 1902.

O London Times de 21 de Julho de 1902 reportou que no dia 19 de Julho, após se reunirem em Lisboa, vindos dos vários pontos de acolhimento, cerca de 900 boers, embarcaram no navio Bavarian, que saíu em direcção à Cidade do Cabo cerca das 18 horas.

No verão de 1902, o Bavarian, no fotografia acima, levou a maioria dos refugiados boers de Portugal para a Cidade do Cabo.

Ainda hoje, no cemitério de St. George, em Lisboa, existe um pequeno monumento, inaugurado em 1913, em memória dos refugiados boers que morreram em Portugal durante esse período de exílio português.

Uma rara fotografia, com data de 1901, da "Escola dos Refugiados Boers das Caldas da Rainha". Foto dos Arquivos Nacionais da Holanda. Para ver a foto com maior tamanho, prima com o rato na fotografia e depois outra vez.

08/10/2010

DEUS, O NEGÓCIO E O PECADO NA RUA ARAÚJO EM LOURENÇO MARQUES

A Rua Araújo em dia de sol, anos 1890

por ABM (8 de Outubro de 2010)

Quis divertir-me um pouco hoje.

Vamos lá.

AGRADECIMENTOS

Esta nota é dedicada ao Nuno Quadros, que involuntariamente foi o seu agent provocateur ao mandar-me uma mensagem a dizer que S.Exa. o Aga Khan tinha inaugurado um dos casinos que operaram na Rua Araújo (acho que não, Nuno) e à Sra D. Suzette Malosso que, na plenitude dos seus 82 anos de idade, tendo crescido na cidade aqui focada, lembra-se de coisas que eu não sabia sequer terem existido e que teve a pachorra de aturar os meus interrogatórios.

INTRODUÇÃO

Creio -dizem-me- que uma das expressões enfáticas e mais badaladas da protagonizada ética limpa do então novo regime que se instalou em Moçambique com a retirada da administração portuguesa da governação do país em 1975, foi, literalmente, o encerramento dos estabelecimentos na Rua do Bagamoyo em Maputo (então Rua Araújo em LM, terminologia que se usa doravante, pois o relato situa-se nessa era) e a proibição da sua vida boémia, tida como imoral, decadente, capitalista e exploradora, entre outras coisas, dos corpos e vulnerabilidades das mulheres moçambicanas.

A agenda dos líderes guerrilheiros da Frelimo recentemente chegados à capital, aparentemente horrorizados com os seus decadentes hábitos e costumes, foi, claramente, de dar um sinal das coisas para vir e da Nova Ordem, congeminada lá no meio do mato, em Nachingwea. Aquilo que viam em Lourenço Marques era o colonialismo. e o colonialismo acabara. A prole, emocionada, estúpida e oportunista, aplaudiu logo o gesto de eliminação da prostituição e da vida boémia – e já agora de tudo o resto mais que viesse à cabeça dos Libertadores.

Libertadores para quem, mais do que a Independência, que já era obra, consideravam a Revolução para Criar o Novo Homem Moçambicano o objectivo mais sério, e para quem o exemplo predilecto da pura vivência revolucionária – um pouco como Eça ironiza quando em A Cidade e as Serras “obriga” um rico parisiense a gostar de viver na parca rispidez serrana portuguesa – era aquela vida porreiraça e espartana que tinham andado eles próprios a viver lá no mato no Norte.

A solução clara era simples: o povo genuíno vem do mato, a gente não controla bem as cidades, que estão cheias de colonos brancos que ainda por cima pensam que ainda mandam alguma coisa e que são um veneno e um empecilho à Revolução Moçambicana. Portanto vamos colocar esta gente toda na ordem, mostrar-lhes quem manda aqui e correr com o maior número possível deles, preferencialmente de forma a que o que eles pensam que é deles (mas que é nosso) fique atrás.  E acabar já com os reaccionários vícios deles.

Não demorou muito (basta perguntar a quem passou por esta altura e que especialmente é white ou quase) e as cadeias estavam cheias de gente que foi repetidamente presa durante dias e dias porque atravessou a rua na hora errada, porque não bateu uma continência que não sabia que tinha que fazer, que não parou o carro a tempo quando a banda lá no palácio se lembrou de tocar o novo hino, que se esqueceu do bilhete de identidade naquela noite em que foi ao cinema com os amigos.

E isto era só para os que não tinham feito nada.

Mas na altura a Rua Araújo foi muito mais falada porque era uma medida muito mais visível, mais colectiva e mais ostensiva. O simbolismo era inescapável, e deliberado.

As alegadas putas e os seus alegados proxenetas foram mandados para a reabilitação e a rua (o tal de Araújo que dava o nome à rua foi o primeiro Governador do Presídio de Lourenço Marques, nomeado em 1781) mudou mais uma vez de nome, desta vez para um dos locais sacros da Gloriosa Guerrilha lá longe na Tanzânia: Bagamoyo, a escola para a formação do Novo Homem Moçambicano, cortesia da Frente de Libertação de Moçambique e, durante algum tempo, de Janet Mondlane.

Mas que apropriado.

O encerramento (na altura rotulado como “limpeza”, referido numa edição de Abril de 1975 na outrora Pacatamente Burguesa mas agora Raivosamente Revolucionária revista Tempo – e em que Ricardo Rangel era sócio) coincidiu com a Independência, felizmente para Victor Crespo, o memorável almirante e o último (e único) Alto Comissário em Moçambique, que representou o novo regime português pós-golpe de Estado em 1974 antes de formalizar a entrega do poder aos líderes da guerrilha na data por eles escolhida. Pois refere quem viu,  que o Almirante passava mais tempo no Dancing Aquário na Rua Araújo a beber whiskies e a discutir as colorações epidérmicas das senhoras que lá dançavam, que no seu escritório a fingir que presidia às formalidades da governação e que defendia os interesses do seu país (em boa verdade, parece que na altura ninguém sabia quais eram esses interesses e mesmo assim por essa altura a Frelimo estava-se a marimbar para o que quer que fosse que ele dissesse, que mesmo assim foi nada).

E esse acto apenas foi um começo. No início de Novembro de 1975, numa operação de grande envergadura e que durou dois dias e incluiu três cidades, as forças da Frelimo, de AK47s em riste apontadas contra uma população urbana basicamente inocente e completamente indefesa, pura e simplesmente prenderam cerca de três mil pessoas, que consideraram suspeitas de estarem envolvidas com drogas, prostituição, roubo ou vadiagem. Pois.

Era o legalismo revolucionário, conferido e legitimado pelo Povo.

Na altura da Indepedência eu não soube de nada destas tricas da Frelimo com a Rua Araújo nem do terror dirigido aos “colonos” (ou será que era payback time?), pois estava mais ou menos tranquilamente a estudar a oito mil quilómetros de distância, em Coimbra, onde o mais que havia de aguerrido eram os desenhos dos gigantescos seios das caricaturas do José Vilhena. Um pouco como em Moçambique, a pornografia via-se era na vida política, todos os dias, nos noticiários politizados da Érretêpê.

Dez anos depois de eu ter deixado de residir em Maputo e nove anos depois da Independência, em plena era do Repolho e do Carapau, visitei a cidade, que me pareceu deserta, abandonada e parada no tempo, as pessoas com terror sequer de pensar alto, com medo de lhes ser apontado o dedo por alguém ligado à Nomenclatura. Mas não se sentia qualquer fervor revolucionário. Apenas cansaço, conformidade e um perpétuo esforço de meter alguma coisa no prato. Pois não havia quase nada. Mas ainda assim foi-me discretamente servida uma lista das Grandes Mudanças (para além da de praticamente toda a gente que eu conhecia não estar lá, claro). E o desmantelamento da Rua Araújo estava nos top dez, o que eu achava curioso, até estranho, pois apercebi-me que isso indiciava o simbolismo, na cabeça de muita gente, que aquilo acarretava, antes e depois da Independência.

Se bem que antes da Independência aquilo não era de forma alguma “a” referência nem tinha o relevo que se possa querer dar-lhe. Era apenas mais um dos locais exóticos, quiçá um pouco mais sórdido, da cidade. Eu hoje tenho 50 anos de idade, e nos passeios a pé higiénicos da família BM aos sábados à noite depois do ocasional jantar chinês no Restaurante Hong Kong, lá pelos fins dos anos 60, princípios dos anos 70, devia eu ter uns dez anos de idade, lembro-me muito vagamente do que aquilo parecia, pelo menos a parte da Rua Araújo para quem vem da Praça onde fica a estação dos Caminhos de Ferro: que tinha muitos bares porta sim porta sim, muita gente, muita música aos berros, montanhas de luzes e coloridos anúncios de néon a acender e a apagar, à porta de uns bares e dancings umas fotografias dumas meninas de coro (brancas) muito pintadas com umas coisinhas penduradas nas pontas das maminhas expostas e um ambiente mais ou menos aguerrido.

Nos dias que correm, isto é troco para bebés.

A Rua Araújo nos anos 60, de dia. À noite parecia Las Vegas junto do Índico.

Uns anos depois, a primeira referência que eu vi sobre a antiga Rua Araújo foi na forma de umas fotografias que o saudoso e agora exaltado Ricardo Rangel (que se dava muito bem com o meu pai) publicou e que tirou nessa altura, e que correspondem vagamente ao que eu vira e mais ou menos imaginava ser a Rua Araújo, claro que sem aquela carga ideológica-sociológica-pós-colonial que se sente agora, e que, despida de contexto, dava uma aura quase lunática àquele fenómeno da velha Lourenço Marques.

Casal fotografado por Rangel na Rua Araújo - o sórdido passou a ser arte

Uns anos mais tarde, já no fim dos anos 90, quando a Nomenclatura freliminana  relaxou involuntariamente os costumes públicos e, sem qualquer veio condutor, a capital moçambicana descambou quase completamente para um free for all em termos dos seus hábitos mais prúridos. Alguns decerto se lembram das legiões de jovens serpentes nas esquinas do Polana e da Sommerschield (a baixa era uma cidade fantasma à noite) depois da hora do jantar e todos os passeios em redor da discoteca do Sheik completamente tomada pelos possantes 4×4 da nova classe de “empresários de sucesso” e suas sumptuosas, esculturais acompanhantes.

(Elas eram chamadas serpentes porque quando a gente passava por elas no carro elas faziam assim: “pssssssssssst, psssssssst”)

Houve então muito boa gente na cidade que pensou, e disse, que se calhar fazia mais sentido trazer de volta a velha Rua Araújo e meter isso tudo ali. Mas as coisas não são assim tão fáceis de fazer. Hoje em dia, não estou lá muito dentro dos detalhes do negócio do prazer e do entretenimento maputiano, mas acredito que ainda há muito, muito por fazer.

A verdade sobre a Rua Araújo é muito mais profunda.

E, na minha opinião, se calhar não há rua que mais e melhor espelhe a História desta cidade que hoje é Maputo.

De facto, houve uma lógica muito clara no aparecimento do negócio por que a Rua Araújo se tornou quase mítica. Para a entender, tem que se recuar até ao fim do século XIX e entender o que se passava na região.

Se o exmo Leitor tiver a paciência, acompanhe-me nesta aventura.

A CIDADE APARECE

Apesar da apetência britânica pela baía defronte de Maputo, sucessivamente combatida pelos portugueses com a ajuda do Duque de Magenta (hoje mais conhecido como 2M), o flanco sul da então frágil, precária, indefinida colónia portuguesa, estava praticamente abandonado aos seus habitantes, que faziam mais ou menos o que sempre fizeram, os portugueses tendo o ocasional problema com os ingleses, que se alternavam com os Boers a tomar conta do que é hoje a Suazilândia, e os boers do Transvaal, que também gostariam de ficar com a parte Sul do actual Moçambique.

O momento verdadeiramente fundacional para a cidade – e de tal forma que em meros vinte anos o epicentro de todo o Moçambique se deslocou dois mil quilómetros do eixo Ilha de Moçambique-Nampula para a Baía de Lourenço Marques, ao ponto de a elegante e centenária capital ter sido descartada para os pântanos em redor da Ponta Vermelha – foi o conhecimento pelo mundo da descoberta de ouro no Rand, uns campos situados a Norte da pacatíssima capital boer do Transvaal (nome formal: República Meridional Sul-Africana), Pretória.

Tirando as negociatas do Albasini, pouco fluía entre o interior e a costa.

A "cidade" original não era uma cidade: era uma ilha. A uma distância regulamentar do Presídio, fez-se um aldeamento precário. Na parte baixa desse aldeamento vê-se a Rua dos Mercadores - a original rua de Maputo - mais tarde a Rua Araújo

Assim, quase subitamente, em 1874, na pequena língua de terra situada a Poente de onde Joaquim Araújo se lembrou de mandar edificar o lastimável Presídio de Lourenço Marques, centenas de pesquisadores e aventureiros americanos e australianos ali desembarcaram ao mesmo tempo para se dirigirem para o interior, enquanto que, do Transvaal, centenas de boers faziam a caminhada no sentido contrário, para vir buscar mercadorias e mantimentos aos navios. Nesse ambiente de “fronteira” completamente desregulado, de negócios, bebida e prazer, logo se esboçou um – o primeiro- o primeiro de todos – arruamento onde essas actividades se desenvolveram:

A Rua Araújo.

Que na altura, à boa antiga portuguesa, não tinha nome de gente, mas um nome que traduzia a sua utilidade: o de Rua dos Mercadores. Era um assentamento precário, com casas feitas de madeira, suficientemente sólidas para se poder lá dentro guardar, comprar e vender tudo e em que o português era provavelmente a terceira ou quarta língua mais falada.

Um ano depois, ao fim da tarde do dia 12 de Setembro de 1875, um violento incêndio consumiu tudo o que havia entre a actual estação dos caminhos de ferro e a sede o Banco de Moçambique (dantes o BNU). Para evitar situações semelhantes,o então governador português, um tal de Augusto Castilho, mandou que as casas passassem a ser feitas com materiais mais duráveis: argamassa, tijolo, adobo, telha, zinco. E logo a seguir veio o Major Joaquim José Machado e a sua equipa, que esboçou o plano director do actual centro da cidade. São essas as casas que os postais mais antigos de Lourenço Marques hoje mostram.

A Travessa da Palmeira (hoje fica entre a sede do BIM e a Nova Mesquita). Após o incêndio de 1875, as casas passaram a ser feitas de alvernaria, tijolo e telha.

Com as notícias da descoberta de ouro em Magaliesberg e em Barbeton, a pressão de ligar a Baía ao interior sul-africano britânico e boer foi quase insustentável. Logo se abriu a que ficou conhecida como a Estrada de Lindenbugo (que começava no fim da actual Av. 24 de Julho, a seguir a um enorme quartel que acho que ainda lá está). Lindenburgo (se é que ainda tem esse nome) fica situada a meio caminho entre Maputo e Pretória. Naquela altura Nelspruit (Mmmmmbombélááá!) basicamente não existia e seria assim até o comboio passar por lá anos mais tarde.

As coisas encaminhavam-se, perante o ar atónito dos Rongas, que ali viviam em redor, e que assistiam certamente preocupados com o reboliço enquanto que por sua vez iam fazendo as suas negociatas e de vez em quando umas razias para saquear.

A Rua Araújo, quando em Lourenço Marques se vivia um ambiente de fronteira

Mais um aspecto da Rua Araújo no fim do séc. XIX

Os momentos-chave seguintes foram a inauguração da linha de caminho de ferro para Pretória (1895), logo a seguir a abertura do porto marítimo da cidade, culminando com o desencadear da Guerra Anglo-Boer (1899-1902), um complicado imbróglio militar e político, que trouxeram muita, muita gente à cidade e montanhas de negócio. Nessa altura, Lourenço Marques (ou a sua designação inglesa, Delagoa Bay) estava nas primeiras páginas dos grandes jornais de todo o mundo, a Baía bloqueada pela poderosa marinha britânica (foi ali usado pela primeira vez no mundo o telégrafo sem fios para a coordenação de operações militares-navais. Enfim, vale o que vale).

A linha de caminho de ferro abriu em 1895. O edifício da estação chegou mais do que dez anos depois. Directamente em frente, ficava a Rua Araújo, e à direita o porto marítimo.

E o que é que, fisicamente, estava precisamente no meio disto tudo?

A Rua Araújo.

De facto, a Era de Ouro da Rua Araújo não foi nos anos 50, 60 e até 1975.

Pelo contrário, foi nas quatro décadas anteriores.

OS DIAS DE OURO

Capa dum folheto publicitário em inglês, sobre Lourenço Marques, anos 20.

Estabilizada a guerra e colonizado o Transvaal pela Grã-Bretanha (cujo consulado em LM, desde que abriu sempre esteve no mesmo local onde hoje se encontra a actual embaixada em Maputo), o negócio aumentou sempre e cada vez mais, tendo Lourenço Marques, que entretanto foi praticamente comprada e desenvolvida com capitais ingleses, sul-africanos e boers através de companhias, lá a partir dos anos 20, criado e desenvolvido um negócio novo, complementar, e extremamente rentável, para além do import/export e do álcóol: o negócio do lazer e do prazer para os brancos sul-africanos.

Dia de "São Navio" em Lourenço Marques. A cidade toda acorria ao Cais para assistir ao espectáculo, e cuscar quem chegava e quem partia. Era um evento. Depois ia tudo beber um copo para a Praça 7 de Março.

De facto, a cidade tinha várias valências nesse sentido. Para além de ser organizada, limpa, e bonita, tinha um clima aprazível, ficava junto ao mar, tinha acessibilidades (barco, comboio, estrada, telégrafo para o mundo exterior), boas instalações, boa comida, instalações desportivas e tinha o exotismo informal cultural luso-africano que nem se sonhava existir na África do Sul.

O antigo campo de golfe da Polana. Situava-se imeditamente a seguir ao actual Hotel Polana e estendia-se até à actual embaixada americana e entrava um pouco para dentro da actual Sommerschield.

A entrada do Pavilhão de Chá, junto à antiga praia da Polana e a 150 metros a Norte do actual Clube Naval de Maputo

O bar da Estação de caminho de ferro de Lourenço Marques estava ao nível do que de melhor havia no mundo na altura

Lourenço Marques, com as suas praias, o Pavilhão de Chá, os seus vários hóteis, quiosques, clubs e restaurantes, alegremente acolhia esse negócio, nos anos 20, 30 e princípios dos anos 40.

O cais da estação de caminho de ferro de Lourenço Marques

Nessa altura, para além dos navios, que traziam centenas de marujos, passageiros e homens de negócios à cidade, vinham diariamente comboios de Joanesburgo e de Pretória, cheios de carga e gente, na busca de repouso ou de prazer, ou para apanhar um barco para a Europa, ou regressar à África do Sul.

E, para além de bowling, golfe, a caça, a pesca e o ténis, Lourenço Marques tinha bebidas à descrição, jogo e prostituição, práticas estas proibidas e reprimidas pelos estóicos britânicos e ainda mais pelos puritanos boers. Em Lourenço Marques, para além de vinho, whisky, camarões e cerveja à descrição (incluindo aos domingos e feriados religiosos) até fados e touradas havia,  perante o espanto dos visitantes. E cinema, e excelente ópera italiana, esta no resplandecente Varietá, que ficava do outro extremo da Rua Araújo, junto à Praça Sete de Março (hoje 25 de Junho, o dia da Independência em 1975), a sala de estar da cidade – com chás e delicados bolos de pastelaria servidos às cinco horas da tarde, enquanto música tocada no seu coreto por bandas contratadas, quase todos os dias.

Antes do Polana abrir, o Carlton era o hotel de escolha em Lourenço Marques. Ficava situado a meio da Rua Araújo. Mesmo depois de abrir, durante muito tempo o Polana era considerado fora do caminho.

Cedo a cidade se tornou ponto de visita obrigatório para os milionários e as classes mais abastadas de Joanesburgo e de Pretória, que para ali se dirigiam em conforto exuberante no Blue Train, um comboio de luxo que parava semanalmente na estação de Lourenço Marques.

Que ficava a cem metros da Rua Araújo.

Para além dos navios de passageiros que atracavam todas as semanas no porto, mesmo ao lado.

As touradas e as pegadas de touros eram uma atracção turística única em África.

A meio da Rua Araújo, do lado direito, cedo abriu o Casino Belo, mais exclusivo, e mais abaixo o Casino Costa, os únicos casinos no Sul de África. O Casino Belo (no edifício mais tarde funcionou o conhecido Dancing Aquário, para quem se lembra) era uma luxuosa máquina de fazer dinheiro. Estava aberto toda a noite, sete dias por semana. Tinha uma grande orquestra (o chefe de orquestra do Casino Belo durante dez anos chamava-se Jorge Vara e era o pai da D. Suzette, por isso é que eu sei isto tudo) tocava diariamente, sete dias por semana, das 9 da noite até às 4 da manhã, com um intervalo de meia-hora.

Aspecto da sala de jogo do Casino Belo na Rua Araújo, em Lourenço Marques. Lá dentro, era obrigatório o uso de fato ou smoking e vestido comprido para as senhoras.

Ali encontravam-se as famosas e as originais Taxi Girls de Lourenço Marques(não são as que mais tarde se chamavam pelo mesmo nome, e que basicamente eram prostitutas). Estas eram jovens sul-africanas desesperadamente belas, vestidas de rigor com vestidos compridos, todas as noites, e como referi não eram prostitutas (o que não significa que não dessem uma volta com quem lhes apetecesse). O que elas faziam era que à noite conversavam com os clientes, entretiam-nos e bebiam um copito ou outro. E qualquer homem podia comprar uma “fita” de bilhetes por dois e quinhentos cada bilhete, e por cada bilhete a menina dançaria com ele uma música. No fim quase todas elas acabaram por casar com portugueses de sucesso na cidade e hoje fazem parte do DNA dos descendentes de quem lá viveu (imagino que estrategicamente omitindo os detalhes da sua procedência).

Curiosamente, naquela altura as crianças podiam entrar no Casino, que tinha também umas limousines com motoristas fardados para levarem os clientes e seus convidados para os hotéis ou de volta para o Blue Train.

O Varietá, na altura creio que a segunda Casa de Ópera em toda a África excepto o Cairo, situado na Rua Araújo, no local onde hoje se situam o Cinema Matchedge e o Estúdio 222.

Nesses tempos, ganharam-se e perderam-se verdadeiras fortunas nos casinos da Rua Araújo. Após uns dias de loucura na roleta e no bacharat, muitos dos visitantes mal tinham dinheiro para pagar o bilhete de comboio de volta para Joanesburgo e Pretória e houve um número considerável de suicídios, cometidos por gente que perdeu tudo o que tinha nas mesas de jogo.

Na Rua Araújo, o negócio da noite não era só para os ricos. Era socialmente vertical. Os bares, cabarets e salas de jogo da Rua anualmente atendiam milhares e milhares de marinheiros, viajantes, homens de negócios, etc, trazidos pelo movimento louco no porto e no caminho de ferro.

Curiosamente, quase todo o negócio era entre brancos – incluindo, malgré as suspeitas da Frelimo, a prostituição. Mas do lado esquerdo da Rua Araújo, houve mais tarde uma casa amarela, o Bar Pinguim, que era o único sítio na Rua Araújo onde havia, para além de prostitutas brancas, prostitutas negras e mulatas e cujo ambiente era puro caos estilo filmes do Texas. Nos anos 50 era um hangout favorito de, entre outros, o poeta Reinaldo Ferreira.

Durante esses anos, a autoridade policial, especializada e presente, mantinha a ordem, num misto de negligência latina e pauladas vigorosas. Alguns se recordarão dum agente de polícia alto e encorpado que vigiava a Rua Araújo, e que era legendário por resolver problemas de rua com uma saraivada de cacetadas, o que supostamente funcionava bem junto dos marujos e dos tropas mais alcoolizados.

Convenientemente situadas perto da Rua Araújo, havia grandes casas de prostituição, negócios legais, de porta aberta. As prostitutas eram praticamente todas brancas, a maioria francesas e sul-africanas. Refiro por exemplo uma luxuosa mansão que existia na rua a seguir à antiga Paiva Manso (não faço ideia qual é o nome da rua hoje) e que era a maior e considerada a melhor, gerida por uma senhora que era conhecida na cidade pela sua generosidade e que tinha vários filhos que se formaram todos na África do Sul.

Belo, proprietário do principal casino, era uma figura conhecida na cidade, riquíssimo, generoso, respeitado. O primeiro frigorífico eléctrico doméstico que houve em Moçambique foi ele que o instalou em sua casa. Teve três filhos, um deles o Ernesto, outro que foi gerente da Casa Coimbra (aquele prédio mesmo ao lado esquerdo do Banco de Moçambique na 25 de Setembro em Maputo) e um terceiro sobre o qual nada sei.

O FIM DE UMA ERA

O fim desta Era Dourada da Rua Araújo começou quando, lá muito longe, do outro lado do mundo, em Lisboa, o ditador Oliveira Salazar, tentando perpetuamente fintar os jogos de cadeira locais com as diferentes facções sociais (são sempre as mesmas: radicais vs católicos vs maçónicos vs monárquicos, a treta do costume), com a intervenção do seu antigo amigo e antigo colega de carteira, Manuel Gonçalves Cerejeira, então Cardeal de Lisboa e representante da Igreja Católica Apostólica Romana em Portugal, celebrou em 1940 (ano em que se celebrou também o tricentenário da reaquisição da independência portuguesa das mãos dos Hespanholes) um entendimento formal entre o Estado português e o Vaticano, a que se chamou Concordata.

Através desse documento, para todos os efeitos, a Igreja Católica encerrou um trágico capítulo aberto com o advento da I república e assumiu uma parceria com o Estado português que teve assinaláveis ramificações por todo o Império.

Em Lisboa, os três amigos: o Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, o Presidente do Conselho, Oliveira Salazar, e o seu Presidente, Óscar Carmona. Dos três, só Salazar nunca meteu os pés em Moçambique.

Talvez não seja coincidência que nessa altura, se começou a construir a actual Catedral de Maputo, que foi concluída em 1944, recorrendo os poderes locais para a sua construção essencialmente a trabalho escravo nativo, o que enfim, é mais uma pequena vergonha e uma expressão do tal colonialismo no seu pior (alguém devia meter lá uma placa na parede para que se soubesse e se lembrasse essa vergonha).

A expressão da Trilogia do Poder Imperial no centro de Lourenço Marques: o Estado (a Câmara Municipal), a Igreja (a Catedral) e o vulto de Mousinho. Em 75, Samora despachou Mousinho para um canto da "fortaleza" antes de rebaptizar o local de Praça Mousinho de Albuquerque para Praça da Independência. E de meter uma gigantesca fotografia sua na fachada. Mousinho out, Samora in.

Em Agosto de 1944, já a II Guerra Mundial estava a começar a chegar ao seu término, num navio Serpa Pinto obscenamente artilhado para acolher Sua Católica Eminência, o Cardeal Patriarca de Lisboa, Manuel Gonçalves Cerejeira, viaja para Moçambique e desembarca em Lourenço Marques para inaugurar com imperial pompa a nova catedral, que ficou situada mesmo ao lado do também novo e imponente edifício da Câmara Municipal de Lourenço Marques, talvez para simbolizar a nova parceria entre o Estado e a Igreja – algo que acontecia pela primeira vez em Moçambique, cujo pluralismo religioso era palpável.

O quarto de cama de Gonçalves Cerejeira no Serpa Pinto

A sala de jantar do Cardeal Cerejeira no Serpa Pinto

O Serpa Pinto até tinha uma espécie de "sala do trono" para o Cardeal Cerejeira. Isto hoje dava um filme.

Pouco depois, a prostituição e os jogos de casino foram ilegalizados e desmantelados em Lourenço Marques.

Na Rua Araújo, ficaram os bares, os dancings e o ocasional jogo ilegal. A prostituição passou para a clandestinidade.

O RESSURGIMENTO

Mas a Rua Araújo não morreu.

Pouco depois, no início dos anos 60, com a instauração do apartheid do Sr. Verwoerd na África do Sul e a preparação e o início do que veio a ser a guerra pela Independência, Lourenço Marques conheceu um período de enorme movimento de pessoas, de investimento e de crescimento. Muitos portugueses vieram viver e trabalhar para a cidade, o número de visitantes da África do Sul, que agora viajavam em carros particulares, cresceu significativamente, e os navios começaram a chegar da Metrópole cheios de jovens militares sózinhos, muitos desejosos de fazer uma escalada na Rua Araújo para beber uns copitos e talvez experimentar o deslumbre de uma experiênciazinha sexual, para depois se ocuparem da defesa do território. E o movimento de navios, aviões e comboios cresceu quase exponencialmente. A cidade fervilhava.

O mito das LM Prawns: acima, o Restaurante da Costa do Sol, nas mãos da família luso-greco-moçambicana Petrakakis desde 1938.

Os usos e os costumes entretanto liberalizaram-se, muito mais em Moçambique do que era a norma quer na Metrópole portuguesa, quer no ambiente severo de Calvinismo puritano imposto na África do Sul – apesar de, nas praias e nos cafés de Lourenço Marques, serem as bifas que deixavam os locais de boca aberta, as meninas locais manietadas pelos velhos costumes dos seus pais portugueses.

Ainda que com a Pide a mordiscar, o Regime nervoso e a guerra dois mil quilómetros ao Norte a desenvolver-se, o ambiente na cidade tornou-se muito mais sofisticado e multiracial, começaram a aparecer galerias de arte, surge toda uma geração de pintores e escultores portugueses e moçambicanos, brancos e negros e com temas africanos, lojas de moda, a Sociedade de Estudos, a Casa Amarela, os bikinis, a mini-saia, veio a revolução musical com o rock, vomitado 24 horas por dia, sete dias por semana pela LM Radio, a Estação 2 do Rádio Clube que era de longe a mais popular em todo o Sul de África. Do Rádio Clube veio também a  marrabenta e inaugurou-se também a primeira estação de FM stereo, com jazz e música clássica, em todo o território português.

Em termos de desporto, tudo havia e tudo se fazia tudo na cidade. Campos de futebol de básquet, piscinas, golfe, mini-golfe, hóquei, equitação, aviação, tiro, regatas, pesca, pesca submarina. Era uma obsessão. Em entre 50 e 60 surgem estrelas como Coluna, Velasco, Matateu, Eusébio, Lage, Mário Albuquerque, Fernando Adrião, Dulce Gouveia, Mussá Tembe e tantos outros. A lista não acaba.

Nos anos 60, o pai BM, à esquerda, treinava equipas de futebol em Lourenço Marques.

Por sua parte, a Rua Araújo acompanhava todo este ambiente à sua maneira, com mulheres, marijuana, misturada com cerveja, vinho, shows de striptease (alguém se lembra da famosa travesti Belinda?) e com verdadeiras sessões de pancadaria que inevitavelmente envolviam comandos, fuzileiros e a polícia de choque a correr atrás deles com cacetetes. Segundo o Eduardo Pitta, até havia um discreto underground gay e lésbico na Rua Araújo que a Maluda vagamente confirma. O Carlos Gil esteve lá nos seus tempos de teenager e no seu livro Xicuembo deu uns lamirés da fauna louca que aquilo era.

Como em toda a parte, dizem-me que havia prostituição para todas as cores, todos os gostos e todas as bolsas. Mas se calhar a Rua Araújo não era o ponto principal dessa actividade. quando muito era um ponto de começo.

O Hotel Central e o Dancing Aquário, um conhecido empório da Rua Araújo e ponto de paragem de Vítor Crespo.

Foi esta Rua Araújo que Ricardo Rangel conheceu e retratou nos anos 60. E que, em meados dos anos 70, ajudou a destruir na sua revista.

De certa maneira, para a velha rua, esse foi apenas mais um momento da sua vida.

Uma nova metamorfose do que fora.

Viva a futura amizade entre os povos da CPLP !

E com o tempo, essa imagem do que fora nos anos 60 e 70, congelou-se e tornou-se num cliché, e pior, no todo, excluindo os quase cem anos que o precederam. Até Licínio de Azevedo recorreu agora a ele para o seu recente filme “Margarida”.

O tal símbolismo que eu acho que, isoladamente, não teve.

EPÍLOGO

Hoje, a Rua Araújo – a Rua do Bagamoyo – sobrevive precariamente, um dinossauro da história da Cidade, o seu berço irreconhecido, maltratado, desrespeitado, ignorado pelos cidadãos da Cidade, aguardando por melhores dias, quando eventualmente haja outro ressurgimento da Baixa da Cidade e uma outra apreciação do seu rico passado.

Que forma terá esse ressurgimento, ninguém sabe.

Uf. Depois disto, vou jantar ao chinês ali na esquina.

Bom fim de semana.

06/10/2010

O ANÚNCIO DA REPÚBLICA EM LOURENÇO MARQUES, 1910

A república foi proclamada no dia 8 de Outubro de 1910 - no mesmíssimo edifício em que Dom Luiz Filipe lançara a primeira pedra três anos antes

por ABM (6 de Outubro de 2010)

Ontem referi a curta visita do herdeiro da coroa portuguesa a Moçambique em 1907.

Agora, a república.

Em cima, uma imagem do que terá sido o acto de proclamação do regime republicano em Lourenço Marques.

Logo a seguir, a actual Av. 25 de Setembro, que era uma língua que acabava mais ou menos em frente ao Hotel Tivoli, e se chamava Avenida Dom Carlos, levou com uma actualização toponímica súbita e revolucionária e passou a chamar-se, até a Frelimo vir tomar conta do pagode em 1975, Avenida da República.

Como o exmo. Leitor pode atestar, os bons costumes são para seguir.

E já agora, havendo algumas dúvidas existenciais ou residuais quanto a onde se localizou realmente a primeira Câmara Municipal de Maputo (construída de raíz, já que o município já existia há mais que trinta anos lá para 1910), aqui deixo umas fotografias da época da minha pequena colecção.

O edifício ainda existe e fica situado mesmo em frente à sede do Grupo Desportivo de Maputo.

Pessoalmente, apesar de praticamente viver no Desportivo, só estive à porta do edifício quando era miúdo aquando do julgamento dum tal Zeca Russo (lembro-me muito mal dos detalhes), em que fiquei não sei quanto tempo pendurado numa árvore juntamente com uma série de miúdos, para ver o homem, que era uma espécie de celebridade local.

Tudo isto dedico ao meu caro Sr. Machado da Graça, como eu um apreciador da grande capital moçambicana e da sua história.

Pode ser que nada disto tenha qualquer interesse para a maior parte das pessoas, mas fica aqui o registo.

A CMLM num postal do Lázarus

A CMLM vista de cima das barreiras. Ao lado vê-se o paiol, que foi à vida uns anos depois

O edifício visto do outro lado. Repare-se onde era a praia. Tudo foi mais tarde com terras arrastadas das barreiras

Esta está num dos álbuns do Rufino e tem a cara do presdiente da Câmara na altura, que era lá para 1928

05/10/2010

A MONARQUIA PORTUGUESA EM MOÇAMBIQUE, 1907

Sua Alteza Real Dom Luiz Filipe de Órléans e Bragança, Príncipe da Beira, na residência do Governador-Geral na Ponta Vermelha em Lourenço Marques, no dia 2 a Agosto de 1907

por ABM (5 de Outubro de 2010)

O Príncipe Real e a Sua comitiva na esplanada do Palácio da Ponta Vermelha  em Lourenço Marques (hoje ainda a capital moçambicana, Maputo), momentos antes de se deslocar para a cerimónia da colocação da primeira pedra do Palácio da Cidade [o edifício situado directamente em frente à piscina do Desportivo em Maputo e que foi o primeiro assento da gestão municipal, antes de ser transferido em 1945 para o actual edifício do Conselho Municipal, na Praça da Independência] no dia 2 de Agosto de 1907.

Da esquerda para a direita,

Sentados:
Coronel António Costa, ajudante de campo do Príncipe;
Conselheiro Ayres d’Ornellas, Ministro do Ultramar;
Dom Luiz Filipe;
Conselheiro Alfredo Freire de Andrade, Governador de Moçambique;
O 6º Marquês de Lavradio, D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 1º Tenente da Armada e Oficial às Ordens do Príncipe;

De pé:

Capitão-Tenente José Francisco da Silva, Chefe de Gabinete do Ministro;
1º Tenente da Armada, 9º Conde da Ponte, D. Manuel Maria José Ferrão de Castelo-Branco, Ajudante de Campo do Ministro;
Dr. Barros da Fonseca, médico da Real Câmara;
Padre José Vicente da Costa, Capelão da Casa Real;
Dois Oficiais, Ajudantes do Governador, Lopes e Torre do Valle.

A visita de Luiz Filipe, herdeiro da coroa, às colónias portuguesas de São Tomé, Moçambique, Angola e Cabo Verde, decorreu entre 1 de Julho e 27 de Setembro de 1907 e foi essencialmente um exercício de relações públicas e afirmação de soberania perante os demais poderes europeus.

Tirando as expedições reais a Marrocos no século XV, foi a única vez que um membro duma família real portuguesa esteve em África.

O nome original da cidade de Pemba, Porto Amélia, era o da sua mãe, Amélie de Órléans, a rainha portuguesa e uma francesa pertencente à Casa de Órléans, cujo pai era o pretendente à coroa francesa. Quando ela se casou aportuguesou o nome próprio para Amélia.

A cidade moçambicana da Beira ainda hoje tem o nome de um dos títulos de Dom Luiz Filipe, cujo nome completo era (ok cá vamos nós) Luís Filipe Maria Carlos Amélio Vítor Manuel António Lourenço Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis Bento de Bragança Saxe – Cobourg-Gotha e Orléans.

Para além de Príncipe da Beira (neste caso da província portuguesa da Beira) ele tinha ainda os títulos de Duque de Bragança e da Saxónia, Duque de Barcelos; Marquês de Vila Viçosa; e Conde de Arraiolos, de Barcelos, de Neiva e de Ourém. Foi Grã-Cruz da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e foi ainda Cavaleiro da Ordem da Jarreteira.

Luiz Filipe veio para Lourenço Marques, de onde seguiu para vários pontos da costa moçambicana e depois visitou ainda a África do Sul e a (então) Rodésia, onde deu dose de charme aos ingleses e aos boers.

Mousinho de Albuquerque, conhecido pela prisão do régulo Gungunhana em Chaimite no dia de Natal de 1895, foi nomeado aio (preceptor) de Dom Luiz em 1898. O príncipe tinha 13 anos de idade.  Em Janeiro de 1902 Mousinho cometeu suicídio.

O herdeiro da coroa portuguesa na cerimónia de lançamento da primeira pedra da primeira câmara municipal de Lourenço Marques, a 2 de Agosto de 1907

Os três edificios na imagem ainda hoje existem em Maputo, ficam mesmo em frente à sede do Desportivo. O edifício à esquerda foi a original sede do Conselho Municipal da cidade. No local do armazém à direita construiu-se no princípio dos anos 70 o Prédio 33 andares.

Outro ângulo da primeira Câmara Municipal de Lourenço Marques. Note-se a praia ali mesmo ao lado e a barreira a descer até mesmo em frente aos edifícios. Durante anos, o primeiro campo de futebol do Desportivo situava-se mesmo em frente ao edifício. Em tempos, pelo Sr. José Craveirinha, ofereci uma fotografia em que se vê o campo. Essa fotografia está na Sala dos Troféus do Desportivo, com dedicatória minha.

Precisamente cinco meses depois de tiradas estas fotografias, Luiz Filipe foi assassinado numa rua de Lisboa por um punhado de extremistas republicanos, juntamente com o seu pai, o rei Dom Carlos. A este evento, ocorrido no dia 1 de Fevereiro de 1908, os portugueses chamam “o Regicídio”.

Faltava-lhe um mês para completar 19 anos de idade.

Para variar, os seus assassinos conhecidos, Buíça e Costa, foram quase imediatamente “reabilitados” e são hoje admirados e festejados pelas instâncias oficiosas do regime. A RTP, estação do governo português, fez há meses uma longa série estilo novela brasileira sobre eles.

Mas os exmos Leitores sabem como são estas coisas: o reles assassino de hoje é um libertador amanhã. O terrorista de hoje é o freedom fighter de amanhã.

No fundo nunca se sabe ao certo quem é quem, não é?

Pois quem ganha gosta sempre de fazer a História.

E depois fica sempre aquela dúvida.

Aquela duvidazinha.

09/07/2010

ROCAMBOLE* EM PORTUGAL

Filed under: História — ABM @ 3:16 am

por ABM (Sexta-feira, 9 de Julho de 2010)

Antes de mais, os defeitos de Histórias Rocambolescas da História de Portugal, composto por João Ferreira (Lisboa: A Esfera dos Livros, 2010): 1) o preço, 23 euros na FNAC, é um pequeno escândalo, e só espero que o João meta a melhor parte do que paguei no seu bolso; 2) está relativamente mal editado, na medida em que as suas milhentas pequenas histórias nalguns casos sobrepõem-se e, logo, repetem-se de vez em quando. Eu se fosse o João dava umas marteladas no texto aqui e ali e aquilo fluiria como uma brisa.

Mas, dito isto, que na verdade são males menores, vamos às coisas boas.

Apesar das suas 327 páginas (se se excluir o magnânimo, amigável prefácio de Ferreira Fernandes, eminência do Diário de Notícias, e a relativamente extensa bibliografia no fim do livro), tem uma estrutura com lógica e, mais importante, é eminentemente legível. O exmo. Leitor que sabe umas coisas sobre a história dos portugueses (a real e a ficcionada, isto é) não adormece ao meio da obra nem fica a pensar que está a ler um daqueles insuportáveis, grandiloquentes tratados sobre a história de Portugal. Creio que isto tem que ver com a dupla personna do João, que quando não é historiador é jornalista e vice-versa. Nesta caso, vem ao de cima o jornalista, que sabe que tem dez parágrafos para contar a história e não mais, não vá o seu leitor mudar de ideias e ler outra coisa. Da economia aplicada resulta uma eficácia que em geral não pagou um custo em termos de atenção ao detalhe e exactidão.

Então vamos a alguns detalhes, logo na parte I:

1. O “milagre de Ourique” – foi fabricado no século XV
2. As “cortes de Lamego” – tudo mentira. Nunca houve
3. A rainha Santa Isabel – era santa apenas no sentido etimológico mas não no eclesiático
4. Escola de Sagres – nunca existiu uma “escola de Sagres”. Tudo falso
5. D. Sebastião – foi um rei totó, com amplas provas disso

Na Parte II, sobre mortes violentas, entra nos detalhes de Inês de Castro, cuja morte foi um assunto de Estado, um pouco como o uso das acções douradas da PT por Sócrates a semana passada; o conde Andeiro, João II, a Inquisição, Damião de Góis, os Távora, D.Carlos e o filho e finalmente Sidónio Pais. Isto, suponho, para lembrar que nem sempre as coisas eram resolvidas amigavelmente.

Mas há muito, muito mais.

O livro de João Ferreira contém nada menos do que 68 destes episódiozinhos, que escalpa metodicamente.

Confesso que eu já mais ou menos sabia os detalhes de 80 a 90 por cento do que a obra relata. Só que o que sabia foi extraído de um monte de informação. Aqui está tudo arrumado, classificado, destilado e à disposição.

A única coisa que mais ou menos suscitou-me dúvidas foi quanto ao episódio de Sebastião de Aviz. Aqui na obra (página 41, 2º e 3º parágrafos) o João refere que, na sequência de Alcácer-Quibir, o seu corpo nunca foi encontrado, e que, talvez pela tentativa de arrumar o assunto de uma vez, não vão os seus (então) novos súbditos inventar a teoria do Encoberto – que, claro, inventaram – o novo rei, um espanhol filho e neto de portugueses, Filipe I, pagou um resgate por um corpo qualquer, que foi piedosamente trasladado de terras mouras para Portugal e depositado no Mosteiro dos Jerónimos, onde ainda se encontra hoje, apesar de não ser dos destinos principais de quem ruma aquele monumento religioso hoje em dia. Ora, em tempos li um relativamente espesso livro só sobre o assunto deste último monarca da dinastia de Aviz, e nesse livro parecia estar perfeitamente documentada, até ao que me pareceu o ínfimo detalhe, o percurso do corpo de Sebastião, desde Alcácer-Quibir até ao seu presente túmulo. Claro que entendo perfeitamente que, se eu fosse um árabe a precisar de umas massas e aparecesse um delegado de Filipe I com dois sacos cheios de moedas de ouro a dizer que queria o corpo de D. Sebastião, nem que eu matasse e depenasse a sogra, arrumava o negócio logo ali. Mas o João não consubstancia, e fiquei com o relato do outro livro atravessado na garganta.

Claro que isto se resolveria com duas penadas. Bastava fazer uma recolhazinha de osso e meter naquelas máquinas enormes que destilam o DNA e resolve-se logo se aquilo é o Dom ou se é um desgraçado qualquer que foi negociado a peso de ouro com os enviados de Filipe. Mas a julgar pela parvoeira que se viu com os ossos de Afonso Henriques em Coimbra, quase que mais vale ficar-se pela especulação literária.

Outra coisa que me surpreendeu algo (mas entendo perfeitamente que isto seja apenas uma coisa minha) é que o João voou desportivamente por cima de todo o episódio colonial afro-asiático. Mas entendo perfeitamente a perspectiva do João. Para quem é de cá, aquilo foi uma coisa menor num sítio mais longe que o caraças, que só começou há quinhentos anos e acabou com um distante bang em 1975. As lamechices do PREC, na mesma altura, com essas saudosas figuras luzidas do firmamento nacional de então (Mário Soares, Álvaro Cunhal, Costa Gomes, Vasco Gonçalves e Otelo Saraiva de Carvalho), mereceram copiosa nota.

Ou será que o João está-se a guardar para Rocambole Portugais, Parte II? sim, porque o filão que ele descobriu ainda nem vai a meio.

Se há algo que a obra de João Ferreira sucede em fazer é, espero, despertar um maior interesse neste alucinante percurso de que nós hoje somos menos que a mera pontinha de um longo, longo lápis. Gerações e gerações de portugueses lutaram desalmadamente, sofreram vicissitudes incríveis, lutaram e prevaleceram em circunstâncias que à partida não ofereciam qualquer margem para a esperança, mentiram, roubaram, vigarizaram, foram nobres, foram ignóbeis, apelaram a Deus, e o maldisseram também.

Tudo isso para que Portugal felizmente pudesse chegar aos nossos dias, para que pudesse ser governado por gente como os políticos que temos hoje, para que todos nós pudéssemos, em quase impecável democracia, comprar televisões plasma aos chineses e Mercedes aos alemães e cereais aos americanos e franceses (tudo a crédito) e os nossos filhos se tornassem ser a geração no agregado mais mariconça, mais mimada e menos preparada em 900 anos de história para tomar conta deste naco de terra e passá-la à geração seguinte (sem ser uma colónia espanhola ou um dócil apêndice de uma união política, isto é. Em geral essa é que é a parte difícil).

Uma geração que, paradoxalmente, sabe qual é o modelo de computador portátil mais caro e o té-lé-lé mais tecnologicamente avançado. Mas que não sabe qual é a sua história porque não a lê nem, assim, pode colher os seus ensinamentos.

Talvez com esta abordagem de João Ferreira essa geração preste um bocadinho mais de atenção ao assunto e os Maschambeiros entretanto se divirtam um bocado.

Quanto aos primeiros, vou esperar sentado.

*Sobre Rocambole, ver aqui.

05/06/2010

O ALMIRANTE ZHENG HE E VASCO DA GAMA

Filed under: Globalização, História — ABM @ 1:01 am

por ABM (5 de Junho de 2010)

Há uns anos, amiga minha que vive em Joanesburgo e que tem digamos que algum, pouco disfarçado desprezo “histórico-ideológico” pelos portugueses (e certamente considerando-me um, mas não um daqueles que se pode dizer coisas como “ah, vocês portugueses…!”) deu-me para ler um livro publicado há uns anos, da autoria de Gavin Menzies, chamado 1421.

O tema do livro é uma quase circum-navegação do mundo por parte de uma vasta, poderosa e sofisticada frota naval chinesa, ocorrida precisamente no Ano de Deus de 1421, quando na Europa os poderes constituídos ainda jogavam ao berlinde em matérias de navegação de longo curso.

Os portugueses de 1421, ainda sob a alçada do pouco socratiano Dom João I, fundador da Dinastia de Avis com uma indisfarçável ajuda do agora santo católico Nuno Álvares Pereira, haviam há pouco arrebatado a praceta marítima marroquina de Ceuta e andavam a prospectar as fraquezas mouras na costa marroquina, a fazer umas razias, e a pensar no que fazer com aquilo tudo.

Isto na face do espanto geral dos católicos europeus pelo inédito feito de mais ou menos furarem o bloqueio muçulmano do Mar Mediterrâneo e ainda mais a abertura de uma certa perspectiva de desafiar o muito mais dificilmente contornável bloqueio da Europa dos produtos originados da Ásia, cujo acesso só se fazia a partir do Médio Oriente, a preços obscenos, tornados ainda mais obscenos quando os Otomanos tomaram Constantinopla trinta e dois anos mais tarde.

Recorde-se que, em termos do que estava para acontecer, os portugueses tinham acabado de descobrir a Madeira, mas não os Açores, as Canárias e Cabo Verde, plataformas absolutamente essenciais para apoiar as expedições que vieram mais tarde.

Mais importante, não dominavam ainda as técnicas de navegação e de orientação, bem como outros aspectos essenciais para a navegação em alto mar e longe da costa.

Mas a crer no livro de Menzies, nesse preciso ano os chineses, cuja tecnologia e poderio estimado ofuscava o que havia na Europa, e que haviam constituído uma absolutamente formidável frota naval liderada pelo Almirante eunuco chinês Zheng, a mando do então imperador (o tal que mandou fazer a Cidade Proibida no que é hoje em dia o centro da capital chinesa, Pequim)  zarparam em todas as direcções, aparentemente à procura de negócios e de um pouco de conquista (muito pouco, depreendi).

Mais interessante, apesar de as provas serem digamos que um pouco menos que impressionantes, Menzies argumenta que, em 1421, os chineses andaram a passear pela costa oriental e ocidental africana, e terão ido tão longe como as Caraíbas e a América do Norte.

Portanto terão estado algures na actual costa moçambicana, e por aí além, oitenta anos antes de Gama, Cão, etc.

Continuando a saga de Menzies, só foi por uma questão de acaso ou de ventos cruzados que parte da frota Zhenguiana, em vez de ter ido directamente para as Caraíbas,  não ter desaguado na foz do rio Tejo, ali mais à direita de quem sobe o Atlântico, pregando assim o mais valente dos cagaços aos então relativamente primários cidadãos da cidade de Lisboa, cuja visão do Demónio na altura se cingia aos mouros, aos castelhanos e aos judeus.

Mas, mais dramático para a história, e parece que foi verdade, o imperador chinês que veio a seguir parece que não gostava destas aventuras pelo mundo e mandou acabar com aquilo tudo de uma assentada, desmembrar as frotas, queimar todos os registos, e impor a pena de morte ao desgraçado que dissesse seja o que for sobre o assunto. E ai de quem se atrevesse a sair da China.

Assim – e por enquanto, continua o argumento – hoje o mundo ainda tem que aturar esta coisa ficcionada de terem sido portugueses os que há uns quinhentos anos primeiro mapearam os oceanos do mundo e tocaram os quatro cantos do mundo – incluindo aquele postozinho na margem direita do Rio das Pérolas chamado Macau. E o Japão. E a América Latina. E África.

Pois na verdade, argumenta Menzies, o verdadeiro herói da fita é o tal de Almirante Zheng (que pelos vistos era um verdadeiro homem das Descobertas Chinesas). Não o comandante Vasco da Gama, que Manuel I de Portugal, sobrinho e sucedâneo de D. João II, foi buscar à vilinha piscatória de Sines e mandou seguir a costa africana em 1497, para ver se havia maneira de chegar pelo mar às Índias, em três barquetas pequenas mais a barcaça dos suprimentos, que ficou pelo caminho a seguir à paragem na Ilha de Moçambique. Um ano e tal depois, voltaram duas naus, fragilmente dirigidas por menos que cinquenta homens, com umas especiarias, um mapa e uma história para contar.

Ora, eu sou daqueles que, havendo prova, até acreditarei que há marcianos e que Elvis Presley ainda está vivo e reside em Marracuene. Mas creio que esta dos chineses terem ido desde Pequim até Miami em 1421, bem, digamos que vou esperar mais um pouco para ver antes de mudar a letra de A Portuguesa.

Mas, talvez porque estejamos estes dias a atravessar uma onda global de sinofilia, esta semana acabei de ler um outro livro, este da autoria de uma senhora americana, de nome Heather Terrell (Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, tradução de Patrícia Xavier), que é basicamente sobre o mesmo tema, mas desta vez assumidamente ficcionado e com um outro ângulo completamente diferente.

O livro de Terrell, que é uma advogada e que obviamente andou a fazer os habituais circuitos histórico-turísticos de Portugal, com ênfase dado ao Convento de Tomar (o verdadeiro centro da história de Portugal, segundo alguns), chama-se O Mapa Desaparecido.

Nesta aventura, que se lê mais ou menos como um guião de filme, intercalando sucessivamente datas e eventos entre a actualidade e 1421, vemos ao vivo e a cores o almirante chinês a fazer a tal volta até Miami, só que aqui o herói da fita não é ele: é Zhi, um obscuro jovem eunuco (um eunuco é alguém a quem se corta a pila. Está tudo explicado no livro) que, secretamente, arriscando o pescoço após os éditos imperiais que mandaram destruir tudo após a Grande Viagem, elabora um mapa completo de Tudo e Mais Alguma Coisa Sob o Céu.

Ora como ele terá ido desde Pequim até Miami, o exmo. Leitor já pode imaginar o que é que o mapa indica: essencialmente,  é um mapa do mundo, com os contornos de África.

E poderá imaginar o que vem a seguir: na verdade, e mais uma vez, os tugas não descobriram coisa nenhuma. O que fizeram foi comprar uma cópia do mapa a um qualquer que fazia a rota da Seda, que Dom Manuel I guardava a sete chaves, e que deram a um subalterno de Vasco da Gama, chamado António, deixando o leitor do livro – e assim o resto do mundo – saber que em 1497 Vasco da Gama meramente seguiu o mapa de Zhi até Calecute e arredores, em vez de, corajosamente, ir por ali acima às apalpadelas.

Parte do enredo, como não podia deixar de ser, inclui um tal Visconde de Tomar, uma influente e singularmente patética figura, que tudo fará para que a verdade sobre o tal de mapa de Zhi não seja divulgado, para que os portugueses, estes dias já tristes com a crise internacional e a candidatura à presidência de Manuel Alegre pelo PS, não ficarem agora traumatizados pelo épico barrete enfiado por Dom Manuel há quinhentos anos.

Convenientemente, durante quinhentos anos, a cópia portuguesa do mapa de Zhi fica guardada nada menos que algures na estranhíssima Charola do Convento de Tomar, que a heroína do filme, uma desenrascada investigadora americana de roubos de arte, com a ajuda de um amigalhaço e a antecipável estupidez colectiva de um grupo de tomarenses distraídos, rouba da Charola e assim força a jogada do Visconde.

Se o livro de Menzies já me fazia sorrir um pouco, o de Terrell, que se lê numa noite, ao contrário do outro, já me faz soltar uma gargalhada ligeiramente mais sonora, se bem que, reconheça-se, está relativamente bem pesquisado nos essenciais, tirando a afirmação de que os Açores ficam situados a Sul da Madeira e ainda que Terrell se tenha esquecido que um aspecto fundamental do percurso técnico que possibilitou as viagens de então foi o desenvolvimento da capacidade de navegar contra o vento.

Também não percebo a insistência em chamar “navios” às naus de Vasco da Gama.

Apesar de Menzies e de Terrell, e sendo a História eternamente reinterpretável, proponho no entanto que de momento os Maschambianos sigam o conselho daquele poeta, Luís Vaz de Camões, e considerem aquilo que aqueles antigos portugueses fizeram, verdadeiramente, uma coisa do outro mundo.

Porque foi.

30/03/2010

O MUNDO DE ACORDO COM LUC FERRY

Filed under: Europa, História, Mundo — ABM @ 3:13 am

por ABM (Alcoentre, 30 de Março de 2010)

No meu estado de feliz ignorância, nunca tinha ouvido falar deste senhor, que é um francês que me parece ser um daqueles deliciosos adiantados mentais, com credenciais académicas que não acabam e uma curiosa visão do mundo, e que tive o prazer de ouvir esta tarde numa emissão da estação de rádio TSF durante um daqueles engarrafamentos de arromba na 2ª Circular de Lisboa, em rota de Cascais City aqui para a província.

Depois de ler José Gil, Luc Ferry, que foi ministro da educação lá na França e que parece que anda a promover um livro que escreveu sobre o amor e o casamento (cuidado que o tema engana, aquilo é duma abrangência fantástica), deu uma entrevista que absolutamente recomendo seja escutada. O exmo. Leitor Maschambiano pode sintonizar aqui e depois ir fazendo outras coisas no seu computador.

Fascinante visão do mundo actual, dos homens, da história, da filosofia, da religião.

Curiosamente, com uma tónica positiva. Com este não há a nebulosa neura que presentemente afecta uma parte significativa da população portuguesa e adjacente.

A entrevista é em francês, mas se o francês do exmo. Leitor estiver como o meu (je confésse que mon français d’aujourd’hui est un peu emmerdé par le temps) não se preocupe: a TSF meteu lá uma tradução simultânea do melhor que há.

Para o exmo leitor leu a entrevista que o nosso pensador top 25 do Mundo, e que veio de Quilimani, José Gil, deu a um jornal de Lisboa, oiça este senhor e tente estabelecer os contrastes nos pontos de vista.

04/03/2010

ÁFRICA E O JOGO DA CHONCA EM MACAU

Filed under: Globalização, História — ABM @ 6:42 pm

Vestígios do jogo na Etiópia

por ABM (4 de Março de 2010)

Tenho andado a fazer alguma pesquisa sobre Macau e curiosamente, encontrei algumas referências a um jogo chamado Chonca, que naquela minúscula antiga ponta de Portugal num lado da foz do Rio das Pérolas na China, é tido como vinda de África, provavelmente pelas mãos dos ma-rongas e ma-changanas que por lá nadaram como tropas de elite coloniais durante mais de sessenta anos. Uma académica, Ana Maria Amaro, terá escrito uma pequena obra sobre o assunto.

Este tema, sob outra roupagem, já foi referido aqui nesta Casa. Aliás, quando eu era criança em Maputo via muita gente a jogar este jogo um pouco por toda a parte, nomeadamente os homens das obras daqueles hediondos prédios todos na Polana, na Avenida 24 de Julho e na Avenida Julius Nyerere, no intervalo de almoço e antes de voltar à jorna. Era tão comum como o xadrez na Europa, presumo.

Para minha surpresa – uma surpresa derivada do desconhecimento abjecto, naturalmente – “descubro” agora que o jogo é conhecido há muitas centenas de anos por toda a África, Médio Oriente e Ásia, sendo que nas peças que li os autores apostam que provavelmente veio da parte norte da costa oriental de África e/ou do Médio Oriente, onde há vestígios dos seus característicos tabuleiros que datam do século VI da Era Moderna (na zona da Eritreia e Etiópia).

Apesar de o que me parece uma base comum, o jogo tem vários nomes e variantes nas regras, consoante a região onde está mais implantado. Parece que internacionalmente o nome por que é mais conhecido é Mancala, mas tem muitos outros nomes, como Bao, Halah, Sungka (Ilhas Filipinas), Omweso, Ayo, Gebeta, Naranj (Maldivas), Dakon (Java), Congka (Malásia, Singapura, Indonésia), Chongka (Ilhas Marianas), Ohare, Warri, Awari, Oware, Wari, Solo, Bau, Mbau, etc.

E em Macau é Chonca.

Como não podia deixar de ser, a Wikipédia tem uma profusão de dados de arranque para quem queira analisar melhor o tema.

Quanto a mim, da próxima vez que estiver em Moçambique (inshallah) vou ver se o aprendo a jogar, pois das descrições do jogo é absolutamente fascinante, um jogo que supostamente puxa pelo intelecto e pela estratégia.

16/02/2010

CITAÇÃO DE MARCUS TULLIUS CICERO

Filed under: Citações, Marcus Tullius Cicero, Politica Portuguesa — ABM @ 5:20 am

por ABM (Cascais, 16 de Fevereiro de 2010)

06/02/2010

Churchill e Quental na Parede numa Sexta-Feira

por ABM (Alcoentre, sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2010)

Foto tirada há momentos de duas imagens penduradas no centro de operações do Maschamba da Região Não Autónoma do Ribatejo.

Winston Churchill é para mim uma figura genial e tragicomédica, incontornável para o século XX e uma figura que viveu como poucos a sua era. A imagem de Churchill achei interessante porque o apanha (na Florida, princípios dos anos 60 no iate de um amigo ricaço americano) de chapéu à cowboy e a ler uma cópia da revista Time. Passou por Lourenço Marques aquando da guerra anglo-boer em 1900 e no fim da vida passava férias numa Ilha da Madeira avant AJJ.

A imagem de Quental trouxe-a de Ponta Delgada (comprada numa loja de velharias) uma vez que fui lá há alguns vinte anos, para um “encontro de escritores açorianos” – encontro em que eu era o único presente que para variar não era nem açoriano nem escritor. Mas como o meu avô MIM era um poeta e figura castiça local, e era bom rapaz e filho assumido de açorianos, fui aceite como membro incondicional da confraria com um vago estatuto de “observador”.

Para além das suas crises de neurastenia (agora diz-se “bipolar”) e de alguns exotismos e namoros socialistas (os de então) Antero de Quental foi alguém que, de quase lado nenhum, surgiu nas letras portuguesas nos anos 60 do século XIX e foi dos primeiros que, sem aprumos, diagnosticou de forma inequívoca aquilo que até hoje considero o discurso mais verdadeiro e perturbador sobre a cultura e civilização portuguesas – as herdadas. Isto numa altura em que, como posteriormente se veio a repetir, o sistema político do seu tempo apostava numa entente cordiale entre oponentes políticos que se revesavam na disposição do espólio nacional. Chamaram-lhe, na propaganda daqueles tempos, “regeneração”. Tirando o Fontes (e mesmo assim), aquilo foi mais uma pulhice feita em Lisboa.

Mas ao menos naquele tempo o António José da Vila (Marquês de Ávila) assinou a portaria de interdição publicamente e fechou as conferências, não é bem o mesmo que se faz agora, que é mandar um recado à Prisa por interposta pessoa, dizer à PT para comprar um grupo de comunicação e ainda subterraneamente despachar as vozes que incomodam.

Houve uma altura em que eu rotineiramente oferecia às pessoas com quem me dava, cópias do texto da sua conferência (do Casino) intitulada Causas da Decadência dos Povos da Península Ibérica. Que li pela primeira vez em 1980 nos EUA numa cadeira na Universidade Brown, dada pelo Onésimo Teotónio Almeida. Tinha a dupla vantagem de dizer o que havia a dizer em poucas páginas e de custar só cinco euros. Cento e cinquenta anos depois de escrito, como muito do que disseram a seguir os seus amigos Eça e o Oliveira Martins (e outros), mantém uma actualidade perturbadora. José Bruno Carreiro e a sua (de Antero) namorada (post mortem) Ana Maria Almeida Martins escreveram ampla e brilhantemente sobre ele.

Dessa viagem, tenho uma fotografia exorcizante de eu a acenar em cima do banco do jardim em Ponta Delgada onde em Setembro de 1891 o Antero deu (sem pontaria) o tiro que acabou por o matar.

Bem, isto tudo a propósito da interessante citação feita pelo JPT de um comentário do Ruy Cinnati sobre uma estátua que ele tinha em casa de São João Baptista com um tomahawk na mão.

19/01/2010

NO SOFÁ COM A FILHA DO ELECTRICISTA DA MATOLA

por ABM (Cascais, 19 de Janeiro de 2010)

A minha recensão de Caderno de Memórias Coloniais, escrito por Isabela Figueiredo.

Introdução

De entre a publicação de textos bio e autobiográficos – ou “memoriais” – que se têm e vão publicando sobre a África de língua oficial portuguesa, antes e depois das independências, há que referir que se tem visto pouco e um pouco de tudo.

No caso de Moçambique, com poucas excepções, essas manifestações têm sido, desde talvez a primeira, Moçambique, Terra Queimada (redigida pelo enigmático Eng. Jorge Jardim, logo em 1976) de índole essencialmente, ou principalmente, política e/ou social. Isso tem ocorrido quer em Portugal, quer em Moçambique, quer, em tempos na África do Sul, onde alguns trabalhos importantes e interessantes têm sido publicados. Trabalhos como o de João Cabrita, Jacinto Veloso, Uria Simango, Adelino Serras Pires, Ricardo Saavedra e outros, alguns dos quais têm sido referidos neste blogue.

Mas, reconhecidamente, enormes lacunas permanecem por explorar de entre os diferentes pontos de vista possíveis e os protagonistas dessas histórias. Com algumas raras excepções, a abordagem por escrito – ou publicada – configura um quase total muro de silêncio sobre esse passado.

O que é curioso, dada a relativa relevância do assunto para as pessoas tocadas pelo assunto da presença portuguesa naquele território entre 1890 e 1975 – peculiarmente designados em Portugal como “retornados” – e em especial nos quarenta anos entre 1958 e 1995, quatro décadas em que se operaram mudanças radicais em Moçambique.

Recorde-se que nesse período de quatro décadas, observou-se a formação de uma resistência organizada e militar ao regime português em Moçambique e o início de uma guerra de guerrilhas no Norte do território, o pronunciamento militar em Lisboa em Abril de 1974, o aumento das tensões até Setembro, o anúncio do Acordo de Lusaka e os subsequentes eventos em Lourenço Marques entre Setembro e Outubro, na sequência dos quais iniciou-se a saída da esmagadora maioria dos portugueses e brancos (e de muitos moçambicanos) daquele território, a independência sob a égide da liderança da Frente de Libertação de Moçambique e a implantação de um regime marxista-leninista de linha dura, suportado pelos países da cortina de ferro enquanto a economia entrou em rápido declínio, se assistiu ao surgimento de conflitos com a Rodésia de Ian Smith (a que se seguiu a implantação de um regime de maioria negra liderado por Robert Mugabe) e a África do Sul de John Vorster. Assistiu-se de seguida ao início do que se veio a tornar numa guerra civil sangrenta, suportada pelo regime sul-africano, e, finalmente, ocorreu a renúncia formal, pelo regime moçambicano, ao marxismo-leninismo, a morte de Samora Machel e, já após a queda do muro de Berlim, a libertação de Nelson Mandela, o Acordo de paz em Roma que marcou o fim da guerra civil em Moçambique, seguido pela negociação e implantação de um regime democrático na África do Sul.

Em termos editoriais, esse interesse tem-se revelado, ainda que efemeramente, principalmente em Portugal, onde se apercebe uma audiência, essencialmente não académica, se não tanto com interesse neste tópico na globalidade, pelo menos com o interesse e suficientes números para justificar (no caso de Angola também) as sucessivas edições de livros de história e ilustrações gráficas com sucesso comercial – de que se distinguem os trabalhos de João Loureiro e Moderno Tropical (Ana Magalhães e Inês Gonçalves) uma recente edição fotográfica em hardcover, sobre a arquitectura moderna nos antigos territórios portugueses, ao custo de 40 euros cada cópia.

No campo da análise e do debate em redor dos últimos anos da administração portuguesa de Moçambique, das circunstâncias que levaram à independência do país em Junho de 1975 e os anos que se seguiram, as poucas visões e opiniões publicadas têm sido  habitualmente marcadas por posicionamentos ideológicos e controvérsia.

Em Moçambique, compreensivelmente, essas posições manifestam-se tipicamente algo anti-portuguesas, anti-coloniais e críticas do sistema vigente até à independência, promotoras do “heroicismo libertador”e da criação de um “novo Moçambique”, a partir das cinzas do velho Moçambique, erradicando, nalguns casos literalmente, qualquer vestígio desse passado, dessa influência e dessa presença.

Em Portugal, publicaram-se obras mais académicas ou de análise político-estratégica, mas poucas, e quanto a biografias e memórias por parte dos antigos residentes, cujas experiências quer em Moçambique quer subsequentemente nos destinos para onde foram residir poderão ter interesse humano e histórico, senão literário, o silêncio tem sido quase absoluto.

Nesta complexa dialéctica, degladiam-se visões contrastantes e desenvolve-se, a certo nível, uma luta pela “verdade”, em que se assistem a esforços mútuos e sucessivos de branqueamento do que era e do que aconteceu. O branqueamento, por parte de alguns dos brancos/portugueses, de quão ofensivo podia ser e em muitos casos foi em geral, o sistema e a sociedade antes da independência; o branqueamento do que foi a ditadura comunista e a hostilidade para com os brancos e portugueses e principalmente para com os moçambicanos (de que destaco mulatos, indianos, etc) em Moçambique logo após a independência e nos anos que se seguiram; o branqueamento, em Portugal, da simples realidade de que em 1974 os poderes constituídos, com a quase total indiferença ou a aprovação tácita da população, pura e simplesmente abandonaram à sua sorte centenas de milhares de famílias portuguesas e moçambicanas e os seus descendentes, muitos já sem raízes em Portugal, a milhares de quilómetros de distância, completamente à mercê dos arbítrios de jovens guerrilheiros marxistas-leninistas tornados líderes governamentais, constituídos em ditadura. O branqueamento do facto de que se vivia em Portugal uma ditadura com quatro décadas, e que sobre toda a realidade colonial se sobrepunha essa maior realidade, aceite ou imposta de que, como disse Oliveira Salazar, “a Nação não se discute”. O branqueamento, finalmente, do facto que o projecto colonial nunca foi nem era per se dos “colonos” nem que estes nunca foram os seus principais beneficiários (como aliás se viu posteriormente): bem ou mal, com mais ou menos democracia, este era o projecto centenário de uma nação europeia, que falhou em constatar no que se passava no mundo e, numa das suas horas de mudança mais cruciais, em lidar condignamente com o fim previsível do capítulo colonial, e em assumir os custos dessa retirada em sangue e em dinheiro – e tomar conta dos que supostamente eram os seus.

Não há nesta história heróis nem criminosos. Quando muito, apostou-se num projecto e num ideal que acabaram mal. E muitos sofreram, em todas as partes, principalmente os agora cidadãos dos países que alguns gostam de referir serem nossos irmãos, cabendo a esta e as próximas gerações sararem as feridas que se mantêm abertas.

Se por mais nenhuma outra  forma, fatalmente, o tempo, o distanciamento e a morte dos seus protagonistas de tal se encarregarão. Já está a acontecer.

Ficará a luta pela verdade.

O Caderno de Memórias Coloniais

É neste contexto global que, com base em várias peças colocadas na imprensa nos últimos dias, surgiu recentemente a publicação, por uma obscura editora sediada em Coimbra, de uma obra soi disant de cariz memorialista, intitulada Caderno de Memórias Colóniais (aqui, CMC), pela mão de Isabela Figueiredo, uma ex-jornalista e professora portuguesa, nascida na actual Maputo em 1963, que cresceu no maior anonimato na Matola desse período e que deixou Moçambique definitivamente com 12 anos, a 22 de Novembro de 1975, para não mais voltar.

Há vinte anos, publicara uma obra, também sobre o tema africano colonial, premiada, mas de que hoje não reza a história.

O seu relato, em formato de uma sequência de textos numerados, cobre o que supostamente viu e sentiu entre os sete e os doze anos de idade.

O Tema de CMC Segundo a Crítica e a Autora

A acreditar pelos textos e entrevistas de Fernanda Câncio, uma articulista do Diário de Notícias, de Eduardo Pitta, um intelectual e poeta de origem moçambicana na revista Ler (transcrito para um blogue com o mesmo nome), de Francisco José Viegas, e de Alexandra Prado Coelho num suplemento do Público, os temas desta obra seriam, mais ou menos por esta ordem, o passado pessoal da autora e um diálogo post-mortem com o pai racista, uma caracterização sua do racismo da sociedade lourenço-marquina entre 1970 (quando efectivamente a autora inicia no seu texto o fio à meada, assumidamente biográfica) e o assumir de um estatuto de “retornada” já em Portugal e no final dos anos 70, com vários comentários feitos com referências posteriores.

À cautela, há algumas nuances no que surge através dos comentários e afirmações feitas nas entrevistas, quer da autora, quer dos seus comentadores.

Sobre CMC, Eduardo Pitta referiu no seu texto na Ler que, apesar de uma certa abundância de informação sobre o período, “faltava, porém, um relato na primeira pessoa. Foi isso que fez Isabela Figueiredo (…), sem poupar nos detalhes”, considerando que CMC “é uma obra imprescindível para compreender o sentido (ou sem sentido) da nossa presença em África”.

Na sua peça, publicada no DN no dia 9 de Janeiro de 2010, Fernanda Câncio refere que CMC “é uma carta de amor a um pai racista”(…)“é a história de uma retornada que assume o racismo português” que “desfaz o postal da África colonial mitificada”. Cita a autora, segundo a qual “comecei a escrever e a gostar do que estava a escrever. Achei que estava a sair bem, Com ternura mas também com violência. Claro que tenho medo de ser mal interpretada. Mas sinto muito alívio. Libertei-me de um fardo que carreguei comigo a vida toda.” O fardo? Ela prossegue: “a verdade é que nós vivíamos num país onde se podia atropelar um negro e não ir para a prisão”.

Câncio refere que a autora foi mais longe: “houve uma espécie de justiça nos massacres dos brancos. Mesmo se ela sabe que quando em Setembro de 1974 mataram famílias conhecidas à catanada, espalhando-lhes os restos pelas machambas, animais e pessoas, tudo o que era branco, à mistura, só por sorte inaudita ela e os pais não fizeram parte das contas”. E cita novamente a autora: “nós não podiamos dar-nos com os pretos e tudo o que eu queria era dar-me com eles”.

Inescapável, o tema do pai, em que Câncio refere o seguinte; “o homem enorme que a pegava ao colo e a levava para todo o lado, para as obras onde era electricista e onde dirigia “os seus muitos pretos” e os agredia com palavras e porrada, para as tardes de camarão grelhado e penalties com os outros homens em que aprendeu a linguagem do racismo, (…). À laia de explicação para a sua escrita, a autora refere a Câncio “tinha de gostar dos meus pais e ao mesmo tempo lidar bem com a minha consciência”.

Na sua peça, Francisco José Viegas, autor do romance Lourenço Marques, considera que CMC é “um dos livros mais tentadores da estação”. E ainda que a autora “é rápida no gatilho, escreve muito, muito bem – melhor do que todos os rendilhados que andam por aí, em súplicas desatendidas.”

Na entrevista com Alexandra Prado Coelho no Público, a autora referiu razões e motivações por detrás da obra, Cita-se abaixo, e na primeira voz.

Sobre o contexto em que escreve a obra, são de relevo, para se entender a obra:

“Foi preciso esperar muito tempo, que o meu pai morresse, que eu fizesse o luto dele, que fizesse uma série de anos de psicanálise, para ter vontade de escrever o que está aí. São coisas que precisava de dizer”

Sobre o assassínio de portugueses e brancos em Setembro de 1974:

“Quando foram os massacres que se seguiram à independência compreendi que era a justa retribuição.”

Sobre a sua solidão e conhecimento da realidade que a rodeava:

“O que acontece é que eu não tinha autorização para brincar com outras crianças, era muito protegida pelos meus pais, provavelmente por ter sido uma filha tardia. Vivia muito encerrada com a minha mãe em casa.”

Sobre o pai e a realidade sobre a qual escreveu:

“O meu pai foi um mediador entre mim e a realidade. Eu conhecia a realidade através dele e do mundo que ele trazia até mim. Portanto só posso culpar o meu pai. O colonialismo é o meu pai, a discriminação é o meu pai, porque foi o meu pai que eu vi fazer isso. Eu andava sempre com ele. Ele gostava muito de mim, levava-me para todo o lado.”

E ainda:

“Acho que nunca falei verdadeiramente com o meu pai sobre como ele me decepcionou por ser um racista.”

E ainda:

“Porque é que eu bato tanto no meu pai aqui? É pela questão do abandono? Não, é porque ele foi mesmo um grande filho da mãe. E porque fez coisas que não devia ter feito, porque as fez à minha frente, porque me magoou, e porque eu nunca lhe disse isso directamente e devia ter dito. E se digo com alguma violência é porque essa violência ainda não está totalmente gasta.”

Finalmente, mais um comentário extra-livro que ajude o leitor talvez a melhor entender o que escreveu:

“Fico muito zangada sempre que vou a uma livraria e sou confrontada com um livro sobre essa imagem [idílica de África] – e depois começo a ler como era bom comer papaia, e como tínhamos uns criados que tratavamos muito bem, e como as roupinhas dos nossos filhos iam todas para eles. Acredito que haja pessoas que não tenham participado activamente em acções destas [de discriminação e violência], mas foram cúmplices, como na Alemanha.”

Presume-se que a autora acima se refere às pessoas que viveram na Alemanha Nazi.

A Crítica

Stritu factu, com alguma sobreposição em alguns dos temas acima relevados, depois de uma leitura atenta dos textos de CMC, e pedindo desculpas a alguns exmos leitores que já o referiram, e pelo que nalguns casos já referi eu próprio, acredito que o tema central desta obra não é o colonialismo na Lourenço Marques colonial. Nem tanto a natureza impia do racismo colonial na velha Lourenço Marques. Nem nehuma confrontação titânica com pesadas consciências sobre um passado supostamente tenebroso.

Este livro não é sobre a experiência colonial de centenas de milhares de pessoas que viveram em África entre 1960 e 1974 e os milhões de moçambicanos que, a breve trecho, bem ou mal, integraram um Moçambique soberano e independente.

Não são as memórias de uma menina simpática e inocente que cresce e apreende a beleza e o amor que a rodeiam num mundo hostil e que não compreende. Não é o Bonjour Tristesse de uma Françoise Sagan.

Nem é sobre algum vislumbre de empatia e solidariedade com o destino e a miséria e a exploração e a humilhação a que muitos moçambicanos negros (os poucos que a autora refere ter visto na sua caixinha de loucuras) tiveram que se sujeitar perante a prepotência racista e neurótica de gente como os seus pais – e que ainda hoje, quarenta anos depois de independência, ocasionalmente se vê, nem sempre alinhada em termos de raça ou cultura, pelo contrário.

Só quem não conhece, só quem não sabe, só quem é que não vê, é que não percebe.

Não.

Este livro é principalmente, quase unicamente, sobre ódio puro e destilado entre duas figuras trágicas. Entre dois monstros horríveis.

É um discurso sintetizado e coisificado de dois seres perturbados, limado ao longo dos anos, em que, morta uma das partes, e não tendo havido uma tão apetecida catarse, foi, para o consolo e consumo egoísta e algo psicótico da parte remanescente, cuspido para o papel, que agora é apresentado, sob a pretensa forma de “arte”.

Quase tudo o resto é apenas, em pano de fundo colonial, um estratagema, um exercício de exibicionismo, um vulgar drag show para mostrar que gosta de chocar, que não se importa de chocar, que não tem barreiras, que pode gritar o que quiser. Os “pretos” aqui são apenas marionetes da tragicomédia, E nós pagamos o bilhete de entrada. Eu paguei.

O primeiro e principal monstro, é a autora, tão obviamente perturbada, tão quixotescamente transfigurada numa menina loira, delicada e sensível com sete, dez anos de idade (acredite quem quiser) que supostamente vivia fechada numa verdadeira caixa de horrores escondida numa Matola (então) distante, bucólica e rural, e que, com o único fito de tentar chocar e surpreender de uma maneira ou outra o leitor completamente desprevenido (nenhum dos críticos citados parece minimamente perturbado pela forma e conteúdo do que aborda, homenagem lhes seja feita), desfere, ataca, arranha, grita, insulta, achincalha, rasga quase tudo e todos. Nada lhe escapa, nem, no fim, especialmente, ela. Obcecada pelo sexo, obcecada pela raça, uma voyeur politicamente correcta do ocaso do Império. Os brancos são lixo. Os negros não são nada. Para ela a vida aos sete, oito, nove dez anos de idade, é uma orgia pérfida de revolta e sedução, em doses iguais, naquela casinha perdida na Matola.

A abordagem não impressiona por um segundo. Se o relato era verdade, era caso de polícia. Se é apenas literatura memorialista, aprende-se muito pouco. Talvez apenas que, em qualquer comunidade, incluindo as coloniais, há extremos que devem ser exorcizados. Não vão as criancinhas acabar assim, patologias por resolver.

Tudo isto embrulhado numa prosa ridícula que é de uma tal pobreza, de uma tal falta de graça, de contexto, de sustentabilidade intelectual, de equilíbrio emocional, que desafiam a inteligência e a sensibilidade de quem como eu teve o rasgo de, avisado, comprar o que só posso qualificar como o pior conjunto de verborreia pretensamente sobre a era colonial em Moçambique que jamais vi. Aquilo é um desatino em cadeia. Esta obra não é uma memória. É a memória de um grito lancinante de ódio contra um pai em relação a quem havia muito e quiçá omitido, unfinished business.

A exploração, a miséria, o racismo generalizado, o tal pano de fundo em que surpreendentemente tão diligentemente circula e que tanto faz por pintar que parte o pincel, com a excepção rara de foder o filho do vizinho preto na Matola, de cujo nome não recorda, ao contrário do idiota do Luisinho branco (ah mas este tem nome) que por cima dela se deitou.

Ainda por cima a autora tem o gáudio de, à propos,  vir referir que está convencida de que é muito boa a escrever. Que tem algo para nos dizer de especial. Que dos seus insanes, vulgares, pirotécnicos regorgitares sobre a sua aparentemente doentia e psicótica, sexualmente perturbada versão luso-tropical de Voando Sobre um Ninho de Cucos em cenário colonial, está a fazer literatura. Literatura memorialista.

Ai sim?

Mas naturalmente: ganhou um prémio qualquer em 1988 (há 21 anos) e enquanto olhava para ele na prateleria em sua casa, ficou a perceber que, se mais nada saberia fazer na vida para além de nutrir um impenitente, incontido, incontível, ingerível, inexorcizável ódio pelo pai, “apercebeu-se” que o que escrevia tinha alguma qualidade. E como no júri em 1988 estavam a Agustina, o Dinis e a Ondina, que lhe deram o único grande, inebriante prazer na vida – o de um elogiozinho e de umas palavras de encorajamento que a posteriori só posso qualificar de tragicamente equivocados – e depois de uns test flights assistidos por meia dúzia de aficcionados num blogue perdido na internet, achou por bem presentear o seu veneno destilado ao público. E como a Fernanda aplaudiu, e o Eduardo Pitta condescendeu, e o Francisco Viegas recomendou – isto é mais do que bom.

É três vezes bom.

Só pode. Pois quem somos nós os outros para julgar poder apreciar?

A outra figura trágica deste compilar de ódios generalizados, com ressalvas, pois é apenas protagonizado pela sua mão, é o (defunto) pai, cuja relação com a filha – a fazer-se uma leitura atenta – está no centro de uma vasta, doentia, distorcida,  forma de apreender a realidade e de lidar com ela. Por essa lente disforme, com uma ajudazinha da mãe na casa da Matola, tudo capta na inocência dos seus reputados e cristalinos sete, oito anitos de idade. A inocência na gaveta. Como o pai era um racista encartado (filha dixit) logo todos os brancos, toda a cidade branca, era como ele. Como o pai tinha desvarios, assim era tudo o resto. O pai, o corpo do pai, o cheiro do pai, o músculo do pai, o não sei quê do pai….

Convém um voo rasante para o exmo leitor se poder inteirar do sabor dos textos de que falo e do ambiente deste Ninho de Cucos da Matola:

Breve excerto do texto 2: “Os brancos iam às pretas. As pretas eram todas iguais e eles não distinguiam a Madalena Xinguile da Emília Cachamba (…) As pretas tinham a cona larga, diziam as mulheres dos brancos (…) A das brancas não, era estreita, porque as brancas não eram umas cadelas fáceis, porque a cona sagrada das brancas só lá tinha chegado o do marido (…) As pretas não eram sérias, as pretas tinham a cona larga, as pretas gemiam alto, porque as cadelas gostavam daquilo. Não valiam nada”.

Início do Texto 3, supostamente sobre a sexualidade do pai dela e a dela, tema favorito para quem ainda não percebeu: “Foder. O meu pai gostava de foder. Eu nunca vi mas via-se. “. E mais adiante, “Quando o meu pai me levantava no ar como se fosse uma coisa, ou me transportava às cavalitas, sentia-me fraca perante a força total, dominada, possuída por ele”. Mais tarde, no texto 24: “Sem me ensinar, o meu pai iniciava-me no prazer que já havia despontado com o estranho fogo do meu padrinho”. No Texto 28, para equilibrar, anuncia que “a Domingas foi quem me masturbou pela primeira vez”.

Hum.

No texto 4, esta pérola, que para variar repete duas vezes, referindo-se à cidade de Lourenço Marques “…era um enorme campo de concentração de negros sem identidade, sem a propriedade do seu corpo, sem existência”.

Tópico do Texto 5: The first fuck (a da autora com o tal de Luisinho – branco – sete anos de idade, mal explicado, pai descobre e dá-lhe um enxerto de pancada) e que começa assim, para variar: “Foder. Essa descoberta tornou-se algo que me envergonhava e desejava”.

No texto 10: Mais sexo. “Quase” engravida do “filho do vizinho preto”. Aos dez anos de idade.

No texto 11: “… o olhar dos negros, nunca fica, para os colonos, isento de culpa: olhar um branco, de frente, era provocação directa; baixar os olhos, admissão de culpa. Se um negro corria, tinha acabado de roubar; se caminhava devagar, procurava o que roubar.”

No texto 14: Sobre a Marília, a quem a autora dá uma bofetaba mas que, como ela era branca e a Marília mulata, a Marília engoliu e calou-se. Isto na Escola Especial em Lourenço Marques.

No texto 17, sobre a guerra no Norte e as tropas portuguesas: “Também havia soldados pretos. Faziam-nos comandos, para irem à frente e morrerem primeiro; assim se poupava um branco. Que os pretos morressem na guerra era mal menor. Era lá entre eles”.

Há 16 páginas às voltas com a saída de Moçambique em 1975 (textos  de 29 a 33). Medíocre.

No texto 34 há um parágrafo inteiro, que constitui o segundo parágrafo inteiro, do texto de Fernanda Câncio no DN. Alguém se esqueceu de pôr lá as aspazinhas e fiquei a pensar que era da autoria de Câncio. Afinal era da autora. E aqui vai: “Todos os lados possuem uma verdade indesmentível. Nada a fazer. Presos na sua certeza absoluta, nenhum admitirá a mentira que edificou para caminhar sem culpa ou caminhar, apenas. Para conseguir dormir, acordar, comer, trabalhar. Para continuar. Há inocentes-inocentes e inocentes-culpados. Há tantas vítimas entre os inocentes-inocentes como entre os inocentes-culpados. Há vítimas-vítimas e vítimas-culpados. Entre as vítimas há carrascos. “

Texto 40: quatro páginas sobre o corpo do pai. As pernas, a barriga, etc. Fico sem palavras.

Texto 41: agora é a vez de alguém que vem por via da mãe, uma mulher, que terá dito, já “retornada”, cito “ Os negros, os cabrões, os filhos da puta. Vim de lá há um ano. Nunca deixei que me faltassem ao respeito. Chamavam-me mamã, chamavam-me tia, e eu dizia-lhes não sou tua mãe, que eu não sou puta. Nem tia, ó meu cabrão. E não me assaltas que eu não sou branca e estrangeira e ponho a polícia atrás de ti, meu escarumba de merda.”

Perto do final, um texto indicado como post chamado Fígado de Porco refere-se ao primeiro aborto que a autora fez, não se sabe quando. Parece que o que saiu pareceu-lhe fígado de porco. Mas este já é tema extra-colonial, é uma espécie de bónus. Não indica quem a pôs assim.

E no meio do texto 41, o que para mim é o grand finale, o que a autora, na sua análise, destila disto tudo: “Um branco que viveu o colonialismo será um branco que viveu o colonialismo até ao dia da morte. E toda a minha verdade é para eles uma traição. Estas palavras, uma traição. Uma afronta à memória do meu pai. Mas com a memória do meu pai podemos bem os dois.”

Tirem-me deste filme doentio.

E como exorcismo merecido, leia-se Noémia de Sousa, José Craveirinha, Mia Couto, Luis Bernardo Honwana, Luis Carlos Patraquim, Calane da Silva, Albino Magaia, Nelson Saúte, Ungulani Baka Kosa, António Pinto de Abreu, Leite de Vasconcelos, Paulina Chiziane, José Eduardo Agualusa. E, last but not least, Carlos Serra. E o meu irmão Amâncio Miguel.

São gente que demonstra que, por mais que todos os electricistas da Matola houvessem atentado contra a dignidade de um povo, por mais humilhações por que tenha passado, ele superou e ressurgiu forte e sorridente.

Quanto aos “retornados”, deixe-os em paz. Eles têm as suas histórias, que não são estas.

São outras.

13/01/2010

Guernica, 1939, e o Continente

Filed under: António Botelho de Melo, História — ABM @ 7:52 pm

http://www.youtube.com/v/I_65LYLzvvI&hl=en_US&fs=1&

por ABM (Cascais, 13 de Janeiro de 2010)

Um dos pequenos suplícios do meu quotidiano é ter que ir às compras ao supermercado. Não pelo acto em si. Mas porque nestes dias, nem sei bem porquê, quem faz as compras é a Patroa. Eu apenas relego-me à função de segui-la pelos corredores e conduzir o carrinho das compras.

Ao contrário de mim, para quem a compra da comida para a casa é uma função em que misturo a máxima eficiência com uma pesquisa rápida de preços, sempre com o objectivo de me despachar dali para fora, para a Patroa as compras são um ritual digamos que mais analítico e reflexivo, mais intemporal, com outros parâmetros, como a qualidade, o que é que diz mesmo o rótulo, que novos produtos é que há, e vai por uma misteriosa lista mental do que ela quer – e não pela forma como os produtos estão dispostos na loja.

Por outras palavras, é uma valentíssima seca.

Quando eu era mufana em Lourenço Marques, não sei porquê, era o pai BM que fazia a maior parte das compras da casa. Como o filho-em-residência (os 3 irmãos estavam todos a estudar na África do Sul e as 3 irmãs, misteriosamente, não participavam no exercício) o pai BM às sextas-feiras fazia-me saltar da cama às 5 da manhã e eu fazia mais ou menos as mesmas funções de hoje, só que o pai BM era, por comparação, de uma velocidade fulminante a fazer as compras, e no Mercado Municipal na baixa (agora designado Mercado Central, por razões obscuras) claro, não havia carrinhos. O pai BM levava um daqueles cestos enormes de palha na mão e eu dois. No princípio das compras aquilo era fácil, mas lá para o fim, quando os cestos já estavam cheios de fruta, legumes, hortaliças, etc, seguir o pai BM naqueles passos rápidos no meio do que me parecia a maior confusão, exigia, para um puto com 8-11 anos de idade, folgo olímpico e a precisão de um kamikaze. Mas era rápido. E eu adorava o ritual, a algazarra e aquele fulgurante despertar da cidade.

Bem, de volta ao presente.

Como a loja que habitualmente frequento é o gigantesco supermercado Continente no Cascais Shopping, pois temos lá um cartãozinho que dá um desconto qualquer, isso significa que não é fora do habitual este processo das compras levar mais do que hora e meia.

O problema que eu tenho (deve ser trauma da infância) é que por aí à volta de 45 minutos depois de entrar, fico positivamente saturado de estar ali. Não sei se é a iluminação, a música, o ambiente, o ritual, há ali qualquer coisa na experiência que não resulta para mim.

Para me tentar distrair, o que tento sempre fazer é escapulir-me desta parte dos deveres conjugais e discretamente deslocar-me para a secção dos livros (tem lá uma, não muito má) a ver o que por ali anda. E habitualmente consigo enfiar um livro entre uns pacotes de esparguete e um saco de tomates, para ler em casa. A patroa, sublimemente generosa, aceita a paz resultante em troco desse subornozito.

Mas nem sempre corre bem. O raio do lugar é tão grande que depois tenho que recorrer à modernice ridícula de telefonar à Patroa no telefone celular, para saber onde é que ela anda. Por essa altura devia estar entre os desodorizantes e os detergentes da casa, mas não é certo, pois, como disse, ela não segue o plano da loja.

Pois este fim de semana aconteceu a mesma coisa e o meu troféu da expedição ao supermercado foi 1939, um livrinho fascinante e pequenino de um professor de História da Universidade de Exeter chamado Richard Overy, magnificamente traduzido por uma sra chamada Patrícia Oliveira (Dom Quixote, 2009).

De certa forma, o livro é um preciosismo, na medida em que Overy, que tem obra considerável no tema da I e II Guerras Mundiais, dedica-se aqui unicamente ao contexto e aos eventos que imediatamente precederam, há 70 anos, o despoletar da Segunda Guerra Mundial, com a agressão militar à Polónia por parte do exército alemão. Polónia, que tinha sido “esculpida” escassos vinte anos antes com partes da Alemanha e da Rússia, e que Hitler achava que era o quintalinho que os alemães tinham que ter, para além de Danzig, uma espécie de Jerusalém de Leste, que era uma dor de cabeça desde o momento em que o esquema foi inventado.

Os factores que mais me impressionaram do relato do prof Overy foram 1) a ilusão colectiva (aferida a posteriori, claro) em relação às reais intenções de Adolf Hitler quanto à Polónia, sendo ele a figura incontornável na altura; 2) o nível de bullying que Hitler utilizava na gestão da sua política externa, que atingiu níveis inacreditáveis – estamos a falar de primeiro-ministros, embaixadores e ministros dos negócios estrangeiros; 3) que por um fio a guerra, que já era tida como perfeitamente inevitável, não começou não na madrugada de 1 de Setembro de 1939 (uma sexta-feira) mas cinco dias antes, a 26 de Agosto. Por causa de um embróglio diplomático, Hitler cancelou a invasão na noite de 25 de Agosto.

Hitler e a sua equipa utilizaram um novo modo de fazer a guerra, a que chamavam blitzkrieg, que consistia em, por um curto período, aplicar a máxima pressão militar sobre o oponente, utilizando então novas tecnologias tais como tanques e bombardeamentos aéreos maciços – tecnicamente chamados de saturação.

No vídeo acima, que uma querida amiga me indicou, está um interessante tratamento por Lena Gieseke do quadro Guernica, de Picasso, alusivo a um bombardeamento alemão de uma vila basca (de onde vem o nome da obra) em Abril de 1937, que de certa forma, não tendo sido o primeiro bombardeamento aéreo, é considerado o primeiro bombardeamento de saturação de uma cidade na Europa e teve um enorme impacto na opinião pública de então, não só porque assinalou a dimensão da agressividade dos regimes fascistas na Europa dos anos 30, como deixou antever como poderia ser uma guerra futura.

Que foi, começando com Londres, Dresden e acabando em Hiroshima e Nagasaki.

Cito a mensagem que recebi: “Lena Gieseke, uma artista nova-iorquina, que domina as mais modernas técnicas de infografia digital, decidiu propor uma versão 3D da célebre obra e colocá-la na net sob a forma de um vídeo. O resultado permite-nos visualizar detalhes que de outro modo nos passariam despercebidos. Esta técnica inovadora revela-se um instrumento poderoso para compreender melhor a forma de trabalhar do pintor e até o modo como funcionava a sua imaginação.”

Excelente leitura. Vou tentar lembrar-me disto tudo da próxima vez que fôr ao supermercado fazer as compras.

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