THE DELAGOA BAY REVIEW

16/09/2011

CHAIMITE, O FILME, 1953

Antes de ontem à noite desloquei-me à nova Torre do Tombo em Lisboa, para assistir ao lançamento formal de um livro sobre Henrique de Paiva Couceiro, compilado pelo Prof. Filipe Ribeiro de Menezes (com “z” no fim) que reproduz uma parte, menos de um terço, dos documentos que constituem, a partir dessa data, património da nação portuguesa. O livro, editado pela Dom Quixote, já está à venda.

Durante as exéquias de doação formal do espólio de cerca de cinco mil documentos (generosidade da família Paiva Couceiro, na pessoa do meu muito caro Miguel de Paiva Couceiro), foram projectados menos de cinco minutos de um filme de que eu mal ouvira falar e que nunca tinha visto na vida, chamado “Chaimite”, nome da mitológica localidade da nação vátua, em que o Régulo Gungunhana capitulou às armas portuguesas no final do ano de 1895.

Por curiosidade, e para minha surpresa, o filme, que foi trazido ao público português no início de Abril de 1953, foi transcrito para o Iutube, e eu fui ver.

O que posso dizer sobre o filme?

Primeiro, é que é de uma dialéctica, especialmente em final de 2011, quase hilariante, uma versão kistch da então prevalecente atitude convencional portuguesa sobre os territórios sob controlo colonial. É divertido porque hoje muita gente já não se lembra (e alguns não se esquecem) de como era. Neste filme, está-lhe na flor da pele.

Especialmente para quem conhece ou conheceu a região Sul de Moçambique e as suas culturas, e em particular a sua história recente (refiro-me ao final do século XIX) ver este filme é duplamente divertido. A começar pela cena da germanicamente bela menina tuga de saia comprida e com predilecções agrícola-desenvolvimentalistas, sentada à mesa, meio apategada, surpreendida pelo obviamente mais batido tuga cafrealizado a dizer-lhe qualquer coisa coisa como “eu gostava maningue de ter uma machamba no mato”. Ela, de olhos muito abertos, exclama: “maaniingue?! maa-chambaa?! Mas o que é isso?!” Apenas para sermos confortados pela sua politicamente correcta, recém-adquirida lusitano-cafrealização no momento final do filme, quando, finalmente preso o nefasto líder rebelde pelos Heróis e regressada a Pax Lusitana ao Sul dos domínios do rei dos Algarves e apêndices e adjacências, o seu interlocutor, afinal um puro sangue lusitano encapotado (mas claro) diz “ah, afinal vale a pena viver”, ao que ela responde, em apoteose final que prenuncia a justeza do que certamente viria a seguir, “maningue!.

Ah pois. Imagino os meus amigos moçambicanos em Maputo a ver isto hoje, dariam voltas nas cadeiras.

Mas se calhar deviam ver. Que mais não seja o de ouvir landin (ou ronga) dos anos 1950 e assistir ao actor Carlos Benfica, que não sei quem é, desempenhar o papel de Gungunhana.

Pelo meio, um relato dos eventos naquele ano de viragem de 1895, de que fez parte, naturalmente, Henrique de Paiva Couceiro, sem descurar os restantes.

Quem ignora a história, e como ela é e foi protagonizada, tende a ignorar aspectos aparentemente suaves mas importantes das suas próprias origens.

Penosamente, em baixo, compilei as ligações todas que permitem, se o exmo. leitor tiver um tempinho, ver o filme. É de borla e, penso eu, vale mais que isso.

Então vamos lá.

Parte 1 de 11

Parte 2 de 11

Parte 3 de 11

Parte 4 de 11

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Parte 7 de 9

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Parte 9 de 11

Parte 10 de 11

Parte 11 de 11

07/09/2011

HENRIQUE DE PAIVA COUCEIRO, POR HENRIQUE DE PAIVA COUCEIRO

Henrique de Paiva Couceiro (à direita) com João de Azevedo Coutinho, aqui em Maio de 1915. Arquivo de Miguel de Paiva Couceiro, neto de HPC, dentro em pouco parte dos arquivos nacionais portugueses.

 

Para aqueles que passaram com menos que 12 valores nas aulas de história é relativamente fácil perder-se o rasto a Henrique de Paiva Couceiro, especialmente num registo de cem anos impenitentemente republicano, republicanismo esse que ao próprio ofendia, e que ele combateu praticamente até à data da sua morte. Não há amor perdido, aqui.

Relativamente mais fácil é recordar que ele foi talvez dos elementos mais instrumentais nas então chamadas “campanhas de pacificação da África Oriental Portuguesa” em 1895. Foi ele, com a prestimosa assistência de um punhado de oficiais portugueses e uma mistórdia de gente recrutada à pressa, que na madrugada dum sábado, o dia 2 de Fevereiro de 1895, segurou o quadrado de Marracuene, ali às portas da vulnerável Lourenço Marques, contra um poderoso ataque de forças afectas ao Régulo Gungunhana, criando o momentum que culminou com a derrota de Gungunhana no fim desse ano, assegurando assim no terreno o não menos importante mas certamente muito mais perfumado, trabalho do governo português em Lisboa e de Luís Soveral em Londres, assim permitindo que, oitenta anos depois, Moçambique viesse a ter a geografia física e humana que ainda tem.

A vida de Henrique de Paiva Couceiro, no entanto, merece um estudo aparte.

Pois muitíssimo mais aconteceu que a sua algo fugaz (mas fulgurante, se algo subestimada) passagem por terras africanas.

Para muitos, muito mais diz o seu combate e postura contra a primeira república e o Estado Novo, em defesa do regresso ao regime monárquico. Que mais não seja porque, enquanto muitos falavam e alegremente comprometiam os seus princípios, ele manteve os mesmos princípios e fez alguma – muita – coisa.

E eis que, oportunamente, surjem agora dois eventos dignos de nota.

O primeiro, é a generosa doação à nação portuguesa, por parte da Família Paiva Couceiro, do seu espólio pessoal, cuidadosamente catalogado. Ficará ao cuidado dos senhores da Torre do Tombo em Lisboa.

O segundo, não menos significativo, é a publicação, com data de lançamento marcada para o próximo dia 14 de Setembro de 2011, da obra Paiva Couceiro – Diários, Correspondência e Escritos Dispersos (Lisboa: Publicações D.Quixote, 840 páginas, cerca de 32 euros).

Para além de uma introdução por Miguel de Paiva Couceiro, seu neto, e que viveu uns anos na Beira, saliento a preciosa coordenação e uma introdução, pelo Professor Doutor Filipe Ribeiro de Meneses (adoro estes títulos académicos portugueses), uma estrela que desponta entre uma nova geração de historiadores portugueses, previamente autor de uma muito badalada biografia de António Oliveira Salazar e cujas credenciais académicas, rigor e boa escrita fazem pressupor que esta obra se vai tornar numa das referências bibliográficas obrigatórias sobre esta enigmática e fascinante figura das histórias de Portugal, de Moçambique e de Angola nos séculos XIX e XX.

Nota de Convite para o Acto de Doação e Lançamento do livro.

 

A capa do livro que vai ser lançado no dia 14 de Setembro.

 

 

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