THE DELAGOA BAY REVIEW

26/03/2013

LUIS OSÓRIO E O LIXO DA HISTÓRIA. OU

Filed under: Luis Osório e o Lixo da História — ABM @ 1:34 am
A temática de quantos portugueses e brancos africanos saíram dos territórios anteriormente administrados por Portugal é um interessante jogo estatístico.

A temática de quantos portugueses e brancos africanos saíram dos territórios anteriormente administrados por Portugal é um interessante jogo estatístico. O impacto da sua chegada a Portugal é o tema aqui abordado, indirectamente.

Esta manhã, alguém mandou-me cópia de um texto, escrito por Luis Osório, um jornalista português, alguém que, até há momentos, antes de digitar o seu nome na janela do Google Search, nunca ouvira falar antes.

Penso que interessa registar, para futura referência, o texto que segue, em parte pelo conteúdo do que está escrito, mas em parte também pela curiosidade em tentar entender onde é que o seu autor pretende chegar.

Luis Osório.

Luis Osório.

Para promover um seu livro, a Chiado Editora descreve Luis Osório assim no seu sítio: Tem 41 anos e é um dos mais premiados jornalistas da sua geração. Ganhou o prémio Gazeta Revelação do Clube de Jornalistas, um Sete de Ouro, o Prémio de Inovação Manuel Pinto de Azevedo Jr e programas de televisão garantiram-lhe quatro nomeações para os Globos de Ouro.É um jornalista que assim não se assume. Talvez por isso, a sua carreira divide-se por jornais, televisões, rádios, teatro, documentários, política e livros. Escreveu Quanto Tempo, uma Criança no Olhar, uma conversa com o seu pai (seropositivo e herói comunista já falecido) e 25 Portugueses, obra em que entrevistou os portugueses que mais se destacaram depois do 25 de Abril. Foi director do jornal A Capital, um dos mais jovens a alcançar a direcção de um órgão de comunicação social. E dirigiu vários anos o Rádio Clube e a informação das rádios do Grupo Media Capital. Os seus programas Portugalmente e Zapping ainda hoje são citados como exemplos de inovação.

Em seguida, reproduzo, com vénia, o texto que escreveu e que foi publicado no semanário angolano “Sol”, publicado em Lisboa a 12 de Março de 2012:

(início)

Os Filhos dos Retornados Chegaram ao Poder

Em 1975, meio milhão de portugueses das colónias desembarcavam em Lisboa com uma mão à frente e outra atrás.

Em Angola e Moçambique, sobretudo aí, eram donos do espaço e viviam sem preocupações de tempo ou angústias financeiras. Para eles, a morte do Estado Novo trouxe-lhes o fim do paraíso e abriu-lhe as portas a um inferno que nunca poderão esquecer.

Para muitos, Mário Soares é a besta negra. Responsabilizam-no, mais do que a Cunhal, por exemplo, por tudo ter corrido mal. Por muito que o fundador do Partido Socialista fale no peso das circunstâncias ou na pressão internacional motivada pelo equilíbrio de poder entre americanos e russos, o certo é que poucos o ouviram ou ouvem. Quase 40 anos depois, pouco interessa a questão da culpa ou da inocência, para eles é o homem que podia ter evitado e não evitou. O réu para os que perderam tudo o que tinham. Para os que chegaram nas pontes aéreas e foram tratados como brancos de segunda, tratados como, porventura, alguns de entre eles tratavam os negros em Angola e Moçambique.

Retornados. Nome que é um rótulo, um peso que os marcou como ferro em brasa. Ainda assim, um processo que correu anormalmente bem – sobretudo se comparado ao que acontecera com as descolonizações francesas. As pessoas foram distribuídas por todo o território, de Norte a Sul os que a si próprios se definiam como ‘espoliados’ puderam recomeçar. Do zero, claro. E os seus filhos, pequenos ou ainda por nascer, também pagaram o preço da profunda infelicidade dos pais, um peso que certamente os terá influenciado. Para o bem e para o mal.

Para o mal, o ressentimento. Para o bem, a vontade de ganhar e uns horizontes mais largos do que a maioria dos que, na metrópole, haviam nascido. Habituados à terra a perder de vista estavam capacitados para ver mais longe e com maior alcance. Vários reconstruíram riquezas, montaram negócios, fizeram boas carreiras.

Onde quero chegar? A um ponto interessante e fundamental para balizar a nossa história contemporânea. Porque este é o tempo em que os filhos desses homens e mulheres obrigados a começar tudo de novo, filhos do ressentimento e de uma África de largos horizontes, chegaram ao poder.

O facto poderá ser visto por alguns como uma prova de que as feridas não estão saradas, justificando as medidas do actual Governo como uma espécie de vingança psicanalítica. Mas para outros será o ponto final parágrafo numa narrativa de sucesso, a história de 500 mil portugueses que perderam uma vida e começaram do zero numa terra que, na verdade, tantos não conheciam.

Para os primeiros, é a prova de que o ressentimento passa de pais para filhos. Para os segundos, a prova de que Portugal soube sarar as feridas e incorporar a força, o talento e o largo olhar dos que regressaram.

Os críticos terão mais um motivo para atacar porque se convencerão que é gente que deseja ajustar contas. Os que acreditam dirão que é a grande oportunidade de Portugal mudar na sua mentalidade.

Mudar esta tendência para que, em todas as épocas da História, as elites perguntem se existe futuro para o nosso país. Como escrevi há uns dias, num ‘postal’ para amigos: «É uma marca genética, um traço que nos distingue dos alemães, ingleses ou franceses; ao contrário deles, banhados de certezas, temos a arrogância da dúvida permanente. Somos orgulhosos, mas fazemos por escondê-lo, como se fôssemos cristãos a rezar nas catacumbas após a morte de Cristo. Quando falamos do que somos, dizemos ‘os portugueses’ e não ‘nós, os portugueses’. Somos o que somos. Umas vezes, tanto. Outras vezes, nada. Adoramos o que detestamos, odiamos o que amamos. Temos o Sol, mas inventámos o fado. Falamos de medo e partimos à conquista do mundo. Temos inveja e somos generosos. Somos uma coisa e o seu contrário».

A história e os cobradores de fraque decretaram-nos da urgência de mudar. A delícia da inconstância é boa para salões e crédito, e uma tragédia para quem perdeu anéis e já só tem os dedos para oferecer.

Nesta perspectiva, ter Pedro Passos Coelho em São Bento é uma boa notícia. Ainda não completara os dez anos quando Salgueiro Maia e os capitães de Abril impuseram o fim do Estado Novo ao compasso da voz de Zeca Afonso. Com uma infância angolana, como Miguel Relvas, viu os pais lutarem com dificuldades e sacrifício para alcançar um futuro para os seus filhos.

Em 1974, e no regresso dos retornados nas célebres pontes aéreas de um ano depois, ninguém daria nada por aqueles miúdos de calções e, certamente, olhar assustado. Não passavam de brancos de segunda. Ressentidos e sem futuro.

Afinal, o futuro revelou-se de um outro modo. Como aliás sempre acontece. Os filhos conquistaram o poder. E uma parte de Portugal, tal como aconteceu com os seus pais, grita para que desapareçam, para que tenham vergonha na cara, para que nunca mais voltem.

O ressentimento tem sempre múltiplas faces, está em todo o lado e não é exclusivo de ninguém em particular. É democrático. Um património de todos. Infelizmente.

A História é uma maravilhosa caixa de surpresas, não é?

(fim)

Os meus comentários

1. Das minhas contas, o superlativo Luis mal havia deixado de usar as fraldas quando o Major Otelo (née em Moçambique como eu, mas não interessa) e os seus amigos organizaram o pronunciamento militar de 1974. Pouco mais tinha quando ocorreu a Descolonização. Portanto os julgamentos de valor reproduzidos na sua escrita ou resultaram de leituras feitas ou por via de emprenho pelos ouvidos. Penso que foi mais o segundo caso.

2. Todo o seu artigo está explicitamente estruturado na base de uma curiosa dicotomia, entre, por um lado, o “bom retornado”, bem comportadinho, trabalhador e caladinho, contemporizador, que vive e esquece ou finge que esquece; e, por outro lado, no “mau retornado”, habituado a viver à fartazana às costas do preto africano, injustamente ressabiado pelo fim do desmerecido bem bom que a Ditadura fascista lhe facultara e sedento de vingança por tudo ter perdido sem nunca receber um tusto – a que, claro, não tinha direito nenhum, pois por definição tudo o que fez e ganhou em África foi a roubar e indignificar o preto e a compactuar com o Fascismo.

3. Depois, inenarravelmente, vagamente sugere que meta a carapuça a quem ela couber (vide parágrafo a mordiscar Passos Coelho, actual primeiro-ministro e Miguel Relvas, um seu ministro, tão mercurial como medíocre).

4. Para mim é abundantemente claro onde o autor se situa e quer chegar e honestamente acho que fazer esta ginástica toda para cuspir para cima dos “angolanos” actual primeiro-ministro e o inenarrável Miguel Relvas, foi não só um exercício ineficaz, como a sua dialética de treco-lareco, que se resume mais ou menos a “filho de retornado também é retornado” – ou melhor, “filho da puta é tão puta como a mãe que o pariu” – simplesmente não vinga. Não temos aqui sucedâneo a um Queirós ou a um Pessoa.

5. Ora este tipo de considerandos e tentativa de pseudo-introspecção psicológica das motivações e weltaanschauung de P. Coelho e M. Relvas por interpostas pessoas, nesta caso as tais centenas de milhar de pessoas – e agora os seus filhos! – possivelmente arrisca insultar muito mais gente do que o Luis possa ter pensado quando se sentou em frente ao seu laptop HP há duas semanas para debitar a sua crónicazinha e assim receber o seu honorário, sendo que, auguro, certamente deve ter embatido nas espessas muralhas de uma total indiferença por parte de Passos Coelho e Relvas, que, como eu, provavelmente terão que ir ao Google ver quem o Luis possa ser, para tentar perceber o alcance do seu impropério.

6. Se calhar era essa a sua intenção.

7. Que é quase tão curial e apropriado como procurar culpar o Luis por alguma coisinha na vida ou atribuir-lhe alguma característica pessoal por ter sido filho de um comunista encartado “heróico” (não sabia que os havia) que morreu de sida. Hum, será…?

Não é, Luis?

8. Intenção essa, tese essa que, a confirmar-se, do que me lembro vagamente de me ter tentado dizer a Rita Garcia quando preparava o seu recente livro, também não é novidade.

Afinal, a História regista que os “culpados” pela Colonização, pela Política colonial de cem anos, não foi dos que estavam Cá, primeiro monárquicos, depois republicanos da primeira e segunda vaga, democratas, nacionalistas, fascistóides e afins.

Foi dos que foram estavam Lá, em África e noutros locais.

É isso?

9. Enquanto desastre nacional, em perto de 900 anos de maioritariamente desgraçada mas interessante história, a Descolonização ocorrida em 1974-1975, só se equipara no seu impacto a Alcácer-Quibir. E do que aconteceu a seguir, nas mãos dos tais dilectos e impunes Soares,  Cunhal, Almeida Santos, et al, Cá e Lá, os resultados estão hoje à vista (tira o já  dinheiro do banco se o tiveres, Luis, e guarda-o bem debaixo da cama, não vais gostar do que Democracia de Abril tem para te oferecer a seguir).

Que alguém como o Luis não o saiba, não o entenda, não o apreenda, não o contextualize, e muito menos empatize com os que sofreram os seus efeitos na pele (que inclui os milhões de africanos impactados pelos cerca de cem anos que durou a deslavada aventura africana, que era e sempre foi um projecto nacional português, nunca dos que para lá foram viver, que pouco ou nada tinham e nada riscavam) não surpreende nada.

10. Pois, segundo ele, mau Retornado é mau Retornado, E filho de mau Retornado é mau filho de mau Retornado.

11. O que surpreende é que, ao olhar para o Lixo da sua História, Luis erre de forma tão elementar e banalize tudo isso e toda uma miséria colectiva, humana e moral,  apenas para mandar uma reles, irrelevante, insonora, inodora, insípida, biqueiradazinha numa crónica de fim de semana e ainda por cima sem pontaria, a dois politicozecos de quem acontece não gostar.

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