THE DELAGOA BAY REVIEW

29/05/2013

NELSON MANDELA, MAIO DE 2013

Filed under: Maio 2013, Nelson Mandela — ABM @ 2:49 pm
XXX

Nelson Mandela, de 94 anos, já quase não fala, disse a sua filha Makaziwe Mandela, numa entrevista que concedeu à Associated Press. Makaziwe é filha de Mandela e da primeira mulher deste, Evelyn Mase, já falecida. “Estende-nos as mãos. São as suas mãos que falam comigo. Esse é, se me perguntarem, o momento que mais aprecio com o meu pai. Para mim ele quer dizer: ‘Estou aqui, gosto de ti, preocupo-me contigo”, disse Maki, como é conhecida a filha de Mandela, que foi batizada com o nome de uma irmã que morreu aos nove meses. “O meu pai não tem estado muito bem de saúde no último mês. Tem dias bons e dias maus”, declarou na entrevista exclusiva que concedeu na sexta-feira à AP, na sua casa.

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13/09/2011

LEILA LOPES, MISS ANGOLA E MISS UNIVERSO 2011

Filed under: Leila Lopes Miss Universo — ABM @ 11:49 am

Os meus amigos angolanos esta noite devem ter dado um salto. A jovem Leila Lopes venceu o concurso Miss Universo. Em 3º lugar, a não menos impressionante Miss Brasil. E entre as top 10, uma luso-descendente Miss Venezuela. Hum.

Leila Lopes numa sessão fotográfica.

29/03/2011

SOBRE POSE E POSTURA

Winston Churchill, um estudo sobre postura política no século XX.

(em baixo, o inesquecível desempenho da cantora Madonna ao vivo durante a cerimónia dos Prémios MTV em 1990, interpretando Vogue, um estudo sobre pose)

Algumas pessoas, especialmente José Sócrates e os seus acólitos e adeptos, preparam-se para argumentar, durante a campanha para a próxima eleição parlamentar, que ele, José Sócrates, é a pessoa indicada para prosseguir o caminho que ele próprio tem vindo a traçar para Portugal.

Que ele tem as ideias.

A experiência.

A visão e a motivação.

E vão acusar a sua oposição, principalmente os senhores do PSD e do CDS-PP, de o terem derrubado excusadamente, apenas para tomarem o poder e fazerem o mesmo, ou melhor, pior, que ele, invocando uma insidiosa agenda “neo-liberal”.

Os que alimentam essa visão não entendem algo muito fundamental, que a meu ver pode estar por detrás da razão porque, há uma semana, até o seu relutante apoiante, o PSD, em circunstâncias extraordinárias, deixou cair o seu governo, ainda nem a metade de um mandato minoritário de quatro anos.

E o que considero fundamental, reparto em duas partes.

O que é Fundamental Agora, 1

A primeira, é que os líderes devem ser as pessoas indicadas para as circunstâncias.

Se calhar, José Sócrates realmente nunca foi a pessoa indicada para coisa nenhuma. A meu ver, meramente, estava no sítio certo e na hora certa quando, das catacumbas do seu partido, surge do nada para assumir a liderança do PS. A coisa correu bem durante uns dois anos, até que em 2007 a situação inverteu gravemente. Desde aí, o seu desempenho tem sido essencialmente uma fuga para a frente, acompanhado de uma pestilenta campanha de relações públicas, indignas de um partido que é uma de duas alternativas no infeliz sistema efectivo de alternância que existe em Portugal.

A partir de meados de 2008, José Sócrates tornou-se praticamente numa ameaça à estabilidade da República. Com doses de paninhos quentes, manipulação dos dados e da percepção pública, não só não alertou para os perigos em frente, como ainda por cima deu todos os sinais errados de que as dificuldades eram poucas e facilmente superáveis. Inacreditavelmente, já ia num quarto surrealmente designado “plano de estabilidade e crescimento” quando alguém teve o desassombro de o parar, antes que a chacina fosse terminal.

A partir de 2008, Sócrates devia ter sido retirado do cargo que ainda ocupa. Com dignidade, mas com firmeza.

Pois, se já não era, ele tornou-se então um verdadeiro erro de casting.

Eu faço uma analogia. Em 1939, a Europa enfrentava os ventos da guerra e Neville Chamberlain, um político adepto mas conciliador, ocupava o cargo de primeiro-ministro. Tentara negociar com Adolf Hitler, que tinha a sua agenda marcada para fazer essa guerra. A partir do momento em que a guerra se tornou inevitável, foi substituído por Winston Churchill, até então uma velha raposa que ruminava publicamente contra a ameaça nazi. Naquela hora de mortal ameaça, eu acredito que Winston Churchill foi a pessoa indicada e ao nível do desafio que a Grã-Bretanha – e a Europa e o mundo – precisavam. Mesmo assim, e não deve ser menosprezado o gesto – Chamberlain manteve-se no governo e prestou um valiosíssimo apoio ao esforço que se seguiu. Churchill não estava só.

No actual contexto português, José Sócrates é – já o provou ser – a pessoa errada para liderar Portugal e os portugueses perante o enorme, histórico, desafio que se avizinha.

Mantê-lo no poder seria como o Reino Unido ter mantido Neville Chamberlain como primeiro-ministro para combater Hitler.

O que é Fundamental Agora, 2

A segunda, que parodio acima com um magnífico vídeo de Madonna, e decorre da primeira, é que, na vida e especialmente na política, há uma diferença abissal entre pose e postura.

E se calhar aqui reside o mais sério factor que obsta contra José Sócrates.

José Sócrates, que com ele lamentalvelmente arrasta todo o seu partido, é uma pessoa que privilegia a pose em vez da postura. Sabe estar bem para a fotografia e para o telejornal e dizer as coisas que muita gente gostaria de ouvir.

Em tempos fáceis e de vacas gordas (ou melhor, de empréstimos baratos) essa postura é se calhar inconsequente.

Mas o que se avizinha é um desafio de proporções bíblicas. No poder tem que estar alguém para quem a pose é menos relevante, a palavra de circunstância desvalorizada face ao caminho que tem que ser traçado. É preciso falar verdade e falar duro, ter uma visão e seguir o difícil caminho que tem que ser seguido.

Nesta altura, mais do que nunca, é preciso visão, coragem, e acima de tudo postura, para que se prove agora, hoje, que nós, esta geração de portugueses, em democracia, consegue enfrentar as dificílimas decisões que avizinham e superar as dificuldades e os desafios, deixando às gerações futuras um Portugal melhor.

O dramático é que o PS tem pessoas com esta fibra, com visão e postura. Conheço alguns, cujo percurso segui ao longo dos anos. Capazes de, sem traír os princípios seminais que tipificam o espaço no espectro político que procuram assegurar, fazer o que tem que ser feito e, mais importante, redefinir o modelo ideológico do socialismo português, que está obsoleto e completamente desconfigurado da realidade.

José Sócrates não é uma delas.

19/10/2010

SAMORA MACHEL: A HISTÓRIA EM FOTOGRAFIA

A imagem do primeiro presidente idealizada, estilo "Grande e Querido Líder"

por ABM (19 de Outubro de 2010)

Há muita gente que já não se lembra bem de Samora Machel, e a maior parte dos moçambicanos hoje já nasceu depois dele morrer. Eu, por exemplo, nunca o conheci.

Em seguida, imagens que retratam o segundo presidente da Frente de Libertação de Moçambique e o primeiro presidente de Moçambique. Legendas de ABM.

Então cá vai.

Samora na Tanzânia, a base de operações da Frelimo, com Valeriano Ferrão e o filho dum apoiante do movimento. Valeriano mais tarde foi o primeiro embaixador moçambicano nos Estados Unidos da América, onde o conheci. Através da Ndjira, escreveu um livro sobre a sua experiência.

Josina Machel. Foi a primeira mulher oficial de Samora. Bonita. Morreu durante a guerra da Independência. Santificada pelo regime, deram o seu nome ao velho Liceu Salazar em Maputo.

Samora o Senhor da Guerra, já antes da estranha morte de Mondlane e a depuração que se seguiu. A "Frente" deixou de ser uma frente e passou a ser politicamente uma - e marxista-leninista.

Com o seu fato de El Comandante, Samora discursa no mato (não sei a quem).

Após a morte de Eduardo Mondlane, e com o apoio de Marcelino dos Santos, Samora despacha a oposição.

Socialista e sem qualquer margem negocial, Mário Soares entrega as chaves da casa a Samora em Lusaka, 7 de Setembro de 1974. Fez-se da data um feriado nacional.

A Independência em Junho de 1975 foi uma espécie de orgasmo colectivo. A Frelimo mandava, e Samora mandava na Frelimo. E a sua palavra de ordem? "A Luta Continua". As acções: despachar os colonialistas, controlar as cidades, libertar a Rodésia e a África do Sul. Resultado: a economia desmoronou-se e a Rodésia começou a desfazer Moçambique.

O povo a caminho de (mais) um comício. Os moçambicanos veneravam o seu líder, em quem confiavam para lhes trazer um novo futuro. Dizia-se que cada vez que discursava eram mais três aviões de colonialistas a voar na Tap para Lisboa. Mas o povo adorava, especialmente quando ele dizia; "é ou não é?" (a resposta colectiva: "ééé´...")

As Forças Populares de Libertação de Moçambique, os novos Donos da terra. Em Maputo, entre outros mimos, batiam à porta das pessoas às 5 da manhã e mandavam-nos ir varrer as ruas.

Ian Smith, primeiro-ministro da Rodésia até 1980. Abandonado pelos sul-africanos logo em 1975, respondeu à decisão de Samora de constituir Moçambique como santuário para a Zanu-PF com uma guerra. Num dos primeiros ataques, uma base perto da Beira, os rodesianos mataram mais gente num fim de semana que os portugueses num ano de guerra. E a situação só piorou.

A senhora que se segue: Samora casa com Graça Simbine, uma discreta chope, hoje a grande Graça Machel.

Samora o Presidente. Com os rapazes, posando para a posteridade.

O Presidente no palácio, em família, num intervalo de pausa.

O carisma de Samora era apercebido como 80% da força do regime. Até 1984.

A deusificação do Líder. Aqui, Samora com Eduardo Mondlane, liderando a gloriosa luta do povo moçambicano.

Samora e Julius Nyerere com as respectivas. Nyerere, Fidel e Stalin parecem ter sido as grandes inspirações de Samora.

Nujoma, Kaunda, Samora, Nyerere, Mugabe e, segundo o nosso leitor Sr. Jongomoz, José Eduardo dos Santos: A aliança chamada "Países da Linha da Frente". Contra a África do Sul.

Nujoma, Samora, Kaunda e Mugabe. Dos quatro países, só Moçambique foi dizimado, primeiro pelos rodesianos e depois pelos sul-africanos e pela Renamo. Angola era outra loiça.

Samora o Estadista africano na Cortina de Ferro. Até quis entrar na COMECON (não foi aceite). Aqui com um dos seus ídolos, Fidel Castro.

Samora o Estadista, outra vez com Fidel (não sei quem é o sr, à esquerda).

O líder mundial: Samora com Chou en Lai, o homem forte da China após a morte de Mao em 1976.

Samora na Roménia com o ditador Ceaucescu: a amizade socialista foi essencialmente um gigantesco fiasco. Em Maputo, havia um novo tipo de apartheid: a praia dos americanos, a praia dos russos, a praia dos alemães da RDA, etc.

Samora dá uma palmada nas costas de Yasser Arafat, líder guerrilheiro palestino. A amizade entre os Libertadores.

O Presidente, de farda militar numa visita à Alemanha comunista, dá uma dose de charme a uma alemã gorda. Curiosamente, a sua visita a Portugal nos anos 80 foi nada menos que triunfal.

O Presidente, num momento de descontracção. Em 1983, Samora já se tinha apercebido no buraco em que Moçambique se tinha metido. Os sul-africanos demoliam o país e os apoios de Leste eram insuficientes. Estava encostado contra a parede.

Samora solitário. Em 1983, dá-se a grande viragem no homem, que chocou e alienou a liderança da Frelimo e de quase todos os líderes com quem estivera: introduzir práticas "capitalistas" e assinar um tratado de paz com Pretória. Era a negação de tudo o que havia sido feito em dez anos. Mas ainda era o chefe indisputado dos moçambicanos.

O impensável acontece: Samora, com a sua farda, assina um tratado de paz e não agressão com o Velho Crocodilo. Mas a máquina do apartheid já estava fora de controlo e não ligou ao papel assinado. Em Maputo, em surdina, as dúvidas eram mais que muitas.

Samora em Komatipoort, a dez quilómetros de onde viria a morrer dois anos e meio depois. Aqui com Graça, Botha e Pik (um notório bêbado e ministro dos negócios estrangeiros de Pretória). O pacto fracturou perigosamente a unidade na elite da Frelimo. Mas os efeitos da guerra eram piores.

O Impensável 2: Samora na Casa Branca com Ronald Reagan, o arquitecto do fim do Comunismo. Sem qualquer margem de dúvida, a ideologia do Regime foi posta de lado por Samora. Mas nem assim a África do Sul e a Renamo pararam. Para o encontro com Reagan, que já estava com indícios da doença de Alzheimers, avisaram Samora para dizer o que tinha a dizer de importante nos primeiros cinco minutos, senão Reagan esquecia-se.

O Charlie-Nine-Charlie-Alfa-Alfa. O avião presidencial despenha-se na noite de 19 de Outubro de 1986. Samora, que estava sentado na frente do avião, morre. Foi sucedido por Joaquim Chissano, que exigiu um avião e tripulação que não fossem russos. No 5º Congresso da Frelimo em 1989, o da Volta dos 180 graus, o comunismo foi abandonado. Chegou a Era do capitalismo cortesia do FMI e dos Doadores. E os Empresários de Sucesso. E, segundo Carlos Cardoso, a Corrupção à escala industrial.

03/07/2010

GOODBIE LARRY

Filed under: António Botelho de Melo, Larry King — ABM @ 5:01 am

por ABM (Sábado, 3 de Julho de 2010)

Presumo que muitos dos exmos. Leitores saibam que Larry King seja. Desde 1985, foi o entrevistador celebrado da cadeia de televisão CNN, tendo nalguns aspectos revolucionado este negócio das entrevistas na televisão. Tendo uma personalidade peculiar, era conhecido por fazer algumas perguntas difíceis, outras fáceis, mantendo quase sempre os seus programas interessantes e atraindo personalidades de topo, que pelos vistos não se importavam de ser entrevistadas na rádio a meio da noite.

No dia 29 de Junho passado, anunciou que vai deixar de fazer o seu programa de entrevistas na CNN, Larry King Live.

Creio que esta decisão em parte tem que ver com o que parece que foi um começo de divórcio da sua actual mulher (que é a sétima ou a oitava, dependendo das contas) mas que foi afectado por uma suposta tentativa de suicídio por um dos seus dois filhos, que tem nove anos de idade (bolas…).

Tenho um lugar muito especial nas minhas memórias para Larry, que me ajudou a aprender a falar inglês e adquirir alguma cultura no processo, quando me refugiei nos Estados Unidos em 1977, vindo de Coimbra e de então uma vida em Moçambique. Na altura Larry era uma “personalidade da rádio” e transmitia um programa de entrevistas e telefonemas dos ouvintes numa cadeia de rádio nacional chamada Mutual Broadcasting Network. Na altura Larry estava baseado em Washington, de onde a emissão era feita. Estando eu em Providence, a norte da costa Leste dos EUA, e só comecei a escutá-lo na noite de 30 de Janeiro de 1979, a noite do meu 19º aniversário, quando inaugurei o meu primeiro sistema de alta-fidelidade (um Pioneer que custou 189 dólares, incluindo as colunas) e vivia numa camarata na Universidade de Brown, onde eu era caloiro.

O dinheiro para o Pioneer era o primeiro prémio de um concurso de escrita (em inglês, ainda por cima) para filhos de imigrantes portugueses, que para minha total surpresa ganhei com uma quase patética composição com três páginas e que tinha o título Being Portuguese. Basicamente segui a mesma fórmula do Fernando Pessoa quando ele escreveu A Mensagem em 1934: give them what they want and call it a strategy.

Nessa noite ele comemorava o primeiro aniversário desde que iniciara o seu programa de rádio com emissão nacional (que começara a 30 de Janeiro de 1978). Nunca mais deixei de o escutar, o que era positivamente péssimo para os meus hábitos de dormir.

Eventualmente, ele mudou-se para a CNN em meados dos anos 80 e começou a fazer as suas entrevistas mais ou menos no mesmo formato mas em programas com a duração de apenas uma hora, o que, sendo ainda cativante, não tinha nada que ver com a intimidade dos dias do programa de rádio na cadeia Mutual, os quais tinham a duração de…cinco horas, cinco dias por semana.

Desses dias da rádio, recordo-me principalmente do refinado sentido de humor de Larry, um judeu americano que já naquela altura parecia que tinha passado por tudo e mais alguma coisa na vida, mas que ainda sabia encarar e lutar e ainda rir da vida. Havia duas histórias que ele deve contado uma dez vezes nesses anos da rádio, que só de pensar nelas já me rio.

E que conto a seguir.

Uma foi quando, sendo ele muito jovem, arranjou um emprego como vendedor daqueles carrinhos com quatro pernas onde se metem bebés para andar pela casa e que supostamente não se conseguem virar. Ele era suposto ir de porta em porta a vender aquilo. Antes de ir para a rua vender, teve umas sessões de formação em que lhe indicaram que era imperativo ele fazer uma demonstração com o bebé dos donos da casa lá dentro. Era imperativo para a venda ter sucesso. Na formação, aquilo dava umas voltas violentas mas nunca virava. Na sua primeira tentativa de venda real numa casa, ele enfrenta um casal mal encarado que lhe diz que não acredita que o carrinho não se vira. Para fazer a história curta, ele faz o discurso mais convincente do mundo, faz toda a demonstração com o bebé do senhor dentro do tal carrinho, mas às tantas o carrinho vira-se mesmo de pernas para o ar, e o Larry teve que fugir a correr pela porta do homem furibundo, que o queria matar.

A outra aconteceu quando o Larry estava no começo da sua carreira na rádio na cidade de Miami, na Flórida. Ele era discjockey numa pequena estação local e era suposto falar e passar discos durante toda a noite. Uma noite, recebe um telefonema tórrido de uma mulher qualquer com quem ele tinha um flirt, e que o convida a passar lá em casa (presume-se que para dar um encontro íntimo). Entusiasmado, o Larry arranja um conjunto dos discos mais longos que encontra na estação, põe-os a tocar em automático, penteia-se e sai a correr porta fora para o seu encontro romântico, presumivelmente com a corrida cronometrada até ao segundo em que os discos acabavam de tocar. Só que acontecem duas coisas: o seu entusiasmo foi mal medido que ele atrasou-se. Pior, a meio do conjunto, um dos discos estava riscado e passou duas horas e meia seguidas, engatado a dizer repetidamente uma frase, do tipo “eu sou teu, eu sou teu, eu sou teu”…

Entretanto o Larry com a fulana em casa dela e ninguém na estação.

Eventualmente, umas duas horas e meia depois, ele regressa à estação e quando entra no estúdio está o telefone a tocar. Na linha estava uma senhora velhinha que ele conhecia de telefonar para lá às vezes e que habitualmente escutava a estação à noite. Ela estava doente e imobilizada na cama, não podia mexer no rádio, que ficava do outro lado do quarto, mas tinha o telefone ao pé da sua cama.

Quando ele atende, ouvia-se apenas a voz da velha senhora, a repetir, num tom enfadonho: “eu sou teu, eu sou teu, eu sou teu, eu sou teu….”

Bons tempos, Larry.

10/05/2010

A GRANDE LENA HORNE

Filed under: Icones — ABM @ 3:09 pm

por ABM (10 de Maio de 2010)

Lena Horne, que morreu ontem aos 92 anos de idade em Nova Iorque, foi, para além de uma mulher estupidamente bonita e cheia de talento, um dos discretos pilares na dolorosa luta das pessoas de cor para terem acesso às oportunidades que durante o século XX eram sumariamente negadas porque a maioria era alegremente racista.

Quem pode esquecer a sua interpretação de Stormy Weather? é de arrepiar. Ou, como se diz nos Estados Unidos, um class act.

Que aqui se toca, em sua memória.

http://www.youtube.com/v/QCG3kJtQBKo&hl=en_US&fs=1&

27/03/2010

PLAY IT SAM

Filed under: Icones — ABM @ 3:00 am

http://www.youtube.com/v/7vThuwa5RZU&hl=en_US&fs=1&

por ABM (Alcoentre, 27 de Março de 2010)

A cena mais memorável do filme mais memorável, Casablanca, Óscar de melhor filme em 1943.

Já perdi a conta ao número de vezes que já vi este filme. Para quem veio de África aos pontapés, há interessantes paralelos com o “we’ll always have Paris” com que Rick se despede de Elsie no fim do filme.

Para além da evocação dos casos de amor mal resolvidos.

E de que nesta vida é suposto haver valores mais altos que as meras vidas de duas pessoas.

Ingrid Bergman e Humphrey Bogart, imortalizados.

CARMEN MIRANDA

Filed under: Icones — ABM @ 2:42 am

A portuguesa de origem mais famosa do século XX.

Bom fim de semana.

06/02/2010

Churchill e Quental na Parede numa Sexta-Feira

por ABM (Alcoentre, sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2010)

Foto tirada há momentos de duas imagens penduradas no centro de operações do Maschamba da Região Não Autónoma do Ribatejo.

Winston Churchill é para mim uma figura genial e tragicomédica, incontornável para o século XX e uma figura que viveu como poucos a sua era. A imagem de Churchill achei interessante porque o apanha (na Florida, princípios dos anos 60 no iate de um amigo ricaço americano) de chapéu à cowboy e a ler uma cópia da revista Time. Passou por Lourenço Marques aquando da guerra anglo-boer em 1900 e no fim da vida passava férias numa Ilha da Madeira avant AJJ.

A imagem de Quental trouxe-a de Ponta Delgada (comprada numa loja de velharias) uma vez que fui lá há alguns vinte anos, para um “encontro de escritores açorianos” – encontro em que eu era o único presente que para variar não era nem açoriano nem escritor. Mas como o meu avô MIM era um poeta e figura castiça local, e era bom rapaz e filho assumido de açorianos, fui aceite como membro incondicional da confraria com um vago estatuto de “observador”.

Para além das suas crises de neurastenia (agora diz-se “bipolar”) e de alguns exotismos e namoros socialistas (os de então) Antero de Quental foi alguém que, de quase lado nenhum, surgiu nas letras portuguesas nos anos 60 do século XIX e foi dos primeiros que, sem aprumos, diagnosticou de forma inequívoca aquilo que até hoje considero o discurso mais verdadeiro e perturbador sobre a cultura e civilização portuguesas – as herdadas. Isto numa altura em que, como posteriormente se veio a repetir, o sistema político do seu tempo apostava numa entente cordiale entre oponentes políticos que se revesavam na disposição do espólio nacional. Chamaram-lhe, na propaganda daqueles tempos, “regeneração”. Tirando o Fontes (e mesmo assim), aquilo foi mais uma pulhice feita em Lisboa.

Mas ao menos naquele tempo o António José da Vila (Marquês de Ávila) assinou a portaria de interdição publicamente e fechou as conferências, não é bem o mesmo que se faz agora, que é mandar um recado à Prisa por interposta pessoa, dizer à PT para comprar um grupo de comunicação e ainda subterraneamente despachar as vozes que incomodam.

Houve uma altura em que eu rotineiramente oferecia às pessoas com quem me dava, cópias do texto da sua conferência (do Casino) intitulada Causas da Decadência dos Povos da Península Ibérica. Que li pela primeira vez em 1980 nos EUA numa cadeira na Universidade Brown, dada pelo Onésimo Teotónio Almeida. Tinha a dupla vantagem de dizer o que havia a dizer em poucas páginas e de custar só cinco euros. Cento e cinquenta anos depois de escrito, como muito do que disseram a seguir os seus amigos Eça e o Oliveira Martins (e outros), mantém uma actualidade perturbadora. José Bruno Carreiro e a sua (de Antero) namorada (post mortem) Ana Maria Almeida Martins escreveram ampla e brilhantemente sobre ele.

Dessa viagem, tenho uma fotografia exorcizante de eu a acenar em cima do banco do jardim em Ponta Delgada onde em Setembro de 1891 o Antero deu (sem pontaria) o tiro que acabou por o matar.

Bem, isto tudo a propósito da interessante citação feita pelo JPT de um comentário do Ruy Cinnati sobre uma estátua que ele tinha em casa de São João Baptista com um tomahawk na mão.

23/12/2009

A Mensagem de Avatar

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por ABM (Cascais, 23 de Dezembro de 2009)

A única vez que eu tinha visto um filme com a tecnologia 3D foi em 1989, quando, de visita a Los Angeles, vi um filme qualquer meio tépido na Disneylândia, sentado ao pé de (atenção) João Bosco Mota Amaral, que na altura ainda era o President-for-life dos Açores. O filme era tão bom que lembro-me melhor do João Bosco que do tema.

Portanto, especialmente após uma exortação monumental publicada na semana passada numa edição do diário lisboeta Público, que basicamente referia o recentemente lançado filme Avatar, realizado por um muito credenciado James Cameron como a segunda vinda de Cristo o Redentor a Hollywood, lá me decidi, após fazer as contas dos descontos da Lusomundo para bilhetes para crianças, reformados e com desconto por ter TV cabo em casa (portuguesices, suponho, mas que vêm a jeito nesta era de derrocada financeira) ir ver o filme.

Confesso que quando entrei na Sala 5 do cinema no Cascaisshopping não sabia que a produção era de ficção científica, pois só tinha visto uma fotografia de um tipo que parecia uma lagartixa meia azul.

Mas antes, uns comentários técnico-logísticos.

Sendo o filme em 3D, o exmo. leitor deve especificamente escolher um assento literalmente no meio da sala, nem para a esquerda, nem para a direita, nem para a frente, nem para trás. Eu fiquei muito atrás e perdi algum do efeito.

Segundo, se estiver num país em que tenha a sorte de não haver legendas em português (que foi o meu caso em Cascais City) tanto melhor. Como o filme é em 3D, ou seja, tem um efeito muito claro de profundidade, quando se inserem as legendas, no écrãn elas parece que ficam mais ou menos penduradas no meio do ar entre as pessoas, des-sintonizando os nossos olhos do efeito 3D. Mas aqui os nossos capatazes do cinema local chutaram para a frente com as legendas para dentro do filme e foi uma porcaria.

Terceiro, beba um cafézinho e vá à última sessão da noite, não à da tarde ou a sessão depois do jantar. É porque a essas vão aqueles meninos e meninas teenagers que chegam à sessão dez minutos depois dela começar sem saber onde é que se sentam, que falam alto uns com os outros em voz alta durante a sessão, que atendem os té-lé-lés, que mandam piadas sem piada uns aos outros sempre que acontece algo no filme, que comem as pipocas como porcos Pata Negra alentejanos na fase da engorda e que arrotam depois de um golo daqueles copos de Coca-Cola de litro e meio. Eu, que pertenço à geração que ia ao cinema em LM nos anos 60 e 70, ainda me lembro com inesgotável saudade do silêncio sepulcral que se fazia sentir nas salas quando as luzes se apagavam e começava a sessão, toda a gente já sentada, sem telefones, sem pipocas, sem meninos e meninas com a bicha solitária.

Ok, então o filme.

Tecnicamente, soberbo. A história pode ser lida a vários níveis, todos eles altamente politicamente correctos para os dias que correm. A acção passa-se num planeta chamado Pandora, em que uma firma qualquer anda a extrair um minério na zona onde vivem há tempos imemoriais em paz e harmonia, umas tribos meio primitivas estilo índios da Amazónia dos que se vêm nas revistas da National Geographic. O convívio entre a operação (mais ou menos uma mina a céu aberto) e os nativos está a ir de mau a pior mas os humanos têm a faca e o queijo na mão (ou seja, a tecnologia para dar cabo dos nativos todos em dez minutos). Mas havia um programazito meio desacreditado e tecnologicamente avançado, de tentar o diálogo entre os nativos e o pessoal da mina, que basicamente os queria dali para fora para que eles pudessem desventrar a terra e tirar o tal minério.

Pelo meio, a inescapável história de amor, a invariável constatação de Grandes Verdades e o rol de sacanices dos vilãos da praxe.

Após ver o filme, lembrei-me vagamente dos devaneios do filósofo Jean Jacques Rousseau e daquele episódio dos padres Jesuítas que no Brasil tentaram no século XVIII proteger os índios das investidas dos colonos portugueses, e o de inúmeros ecologistas e antropólogos que tentaram condicionar projectos de desenvolvimento principalmente no terceiro mundo, para proteger habitats, populações e as suas culturas. Na vida real, habitualmente todos falharam e a máquina da civilização hoje dominante, absorvedora de recursos e técnica e militarmente mais avançada, arrasa por completo tudo o que lhe aparece pela frente.

No filme, creio que só para variar, acontece o contrário.

O que é curioso, pois estamos a entrar numa fase da vida mundial em que já mais ou menos toda a gente percebeu que, irremediavelmente, já praticamente demos cabo da natureza, das culturas, dos recursos naturais. Em Copenhaga, andou tudo à estalada a ver quem pode poluir mais e quem vai pagar dinheiro a quem. Pois é. Vamos a ver como vai ser o nosso futuro. Mas para já, não estou lá muito optimista.

O filme de Cameron foi em parte muito discutido por uma razão completamente diferente. Porque aparentemente os meninos e as meninas hoje, em vez e aprenderem na escola e lerem uns bons livros de vez em quando (ou este blogue), passam os dias alegremente em casa uns dos outros ou, mais frequentemente, em casa a falar uns com os outros na internet, e a descarregar, sem pagar, todas as músicas, filmes e entretenimento que andam por aí. O resultado é que as editoras, os autores, as discográficas, os distribuidores de livros, música e filmes, estão a ir todos à falência (coitados).

No caso do cinema, dado que filmes representam complexos e caros projectos, a ausência de lucros é um verdadeiro beijo da morte. Assim, especula-se se o tipo de filme que Cameron fez – que só pode verdadeiramente ser saboreado num teatro de cinema com óculos 3D – poderá ser uma via para incentivar as pessoas a pagarem bilhetes para irem ao cinema em vez de ficarem em casa a piratiarem os filmes para verem nos seus computadores.

Quanto a isso, também vou esperar sentado.

20/12/2009

Alfredo Korda e as Fotos do Ideal Cubano

Filed under: Che Guevara, História, Icones, Kok Nam — ABM @ 5:10 am

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por ABM (Cascais, 19 de Dezembro de 2009)

Até ontem apenas conhecia o nome de Alfredo Korda vagamente porque, quando morreu em 2001, ele foi apontado como o autor da “fotografia mais reproduzida do mundo” – que eu para variar reproduzo acima mais uma vez. Trata-se de uma imagem de Ernesto Guevara, camarada de armas durante algum tempo do ditador comunista cubano Fidel Castro.

Sempre houve algo na ditadura comunista cubana que me escapou. Nomeadamente, a mistura de romanticismo e de superioridade moral que eles, e muitos os seus acólitos e simpatizantes, ao longo dos anos, conseguiram associar à ditadura, através de furiosos esforços de propaganda onde e quando possível (e elevado ao nível do patético agora com a associação entre o decrepitante Fidel e esse mais do que improvável petro-líder da venezuelana “revolução bolivariana”, Hugo Chávez).

O que me penaliza, pois das poucas vezes que convivi com cubanos lá do regime, genuinamente simpatizei com eles ao nível pessoal, mas se e quando a cassete do regime arranca, perco-me. Já não tenho pachorra.

Nem me atrevo a entrar nas razões porque é que o retrato de Ernesto Guevara, tirado por Korda num comício qualquer em Havana em 1960, foi tão reproduzido e mistificado. A internet está pejada de análises e interpretações. Até já li comparações com as imagens prototipadas de Jesus Cristo de Nazaré. Eu, que já li em detalhe sobre a vida de Guevara, não estou minimamente impressionado. Não sei qual é o fascínio com ele. Na melhor das hipóteses, foi um jovem aventureiro à escala global. Até se lembrou de ir a Dar-es-Salaam em 1965 pregar não sei bem o quê aos jovens nacionalistas da Frelimo. Tentar espalhar a mensagem da revolução comunista? ensinar a mexer numa AK47? se calhar impressionou o jovem Samora, mas depreendo que não aconteceu o mesmo com Mondlane.

Mas, para quem gostar, cito um seu admirador, o jornalista, membro emérito do Partido Comunista e escritor português José Saramago, que por alguma razão gosta muito de falar em espanhol e terá dito, naquela prosápia lírico-ideológica:

“…Che Guevara, si tal se puede decir, ya existía antes de haber nacido, Che Guevara, si tal se puede afirmar, continúa existiendo después de haber muerto. Porque Che Guevara es sólo el otro nombre de lo que hay de más justo y digno en el espíritu humano. Lo que tantas veces vive adormecido dentro de nosotros. Lo que debemos despertar para conocer y conocemos, para agregar el paso humilde
de cada uno al camino de todos.”

Enfim.

Nem sei qual é o fascínio com a ditadura cubana, que, com aquele regime indescritível na parte Norte da Coreia, aqui estamos em 2010 e insistem em resistir ao seu anunciado acaso, badalando as suas falidas virtudes, os anacronismos políticos da história actual.

Se houve justificação para derrubar o regime ditatorial e corrupto de Fulgêncio Baptista em 1959 (de quem, para variar, apanhei a foto em baixo, confortavelmente a jogar golfe com a mulher Marta em Setembro de 1968 no Clube de Golfe do Estoril, a vila em Portugal onde ele viveu em apagado exílio quase até ao fim da vida), se se compararem os sete anos da sua pulhice com os 50 anos da de Fidel, por mais carismático e charmoso que ele possa ser, o diabo leve a escolha. Talvez mais grave no caso de Fidel Castro, pois 50 anos de ditadura cobre quase três gerações de cubanos, tornado menos intolerável nos primeiros trinta pelos subsídios generosos dos comunistas soviéticos mas agora uma caricatura prostituída e dolarizada do “socialismo”.

Fulgencio Batista                     wife(The Baptistas golfing in Estoril)

No meio disto, temos o bom Senhor Alfredo Korda, alvo de uma exposição em Lisboa neste momento, que tive a oportunidade de visitar ontem, num daqueles dias de frio e chuva invernal.

Korda foi um fotógrafo decente que nasceu, cresceu e que vivia em Havana, ganhando a sua vida como fotógrafo comercial, quando o seu país sofreu a reviravolta de 1959. Ele simpatizava com Fidel e o que ele dizia naquela altura sobre os ricos e os pobres e a necessidade de dar uma volta às coisas, o que não era difícil pois tudo indica que Cuba era, para além de um exemplo típico do terceiro-mundo latino-americano, uma espécie de prostíbulo da Máfia norte-americana. Por alguma razão, conectaram um com o outro e assim foi que Korda foi fotografando oficiosamente o ditador nas suas andanças até que em 1968 misteriosamente ele “muda de ramo”, passando a fazer fotografia submarina para uma instituiçãozeca qualquer do governo cubano. Para além dumas fotos simpáticas à la National Geographic, daí não rezou história.

01 kordach[1]
(Alfredo Korda posa para la posteridad)

Diana Diaz, a sua filha (e aparentemente uma boa filha) que obviamente respeita o pai e que quer preservar e contextualizar a sua memória e trabalho, presumo que como alguém que era um tipo decente e que testemunhou a história de Cuba a ser feita, à margem da exposição de Lisboa deu algumas dicas sobre o que realmente terá acontecido em Março de 1968 e que diz muito do regime: nessa altura, os comunistas cubanos nacionalizaram todos os negócios privados do país, incluindo o estúdio fotográfico do seu pai, e confiscaram todos os arquivos de negativos dele. Não acredito que o fotógrafo tenha ficado lá muito satisfeito, e Diana ficou sem um património que de direito deveria hoje ser seu.

(é de salientar a algo subrreptícia mas fundamental defesa do seu direito como dono do seu espólio, pelos vistos nas mãos do regime desde 1968, quando, por mais que uma vez, quer Korda quer Diana especificamente referem que o fotógrafo fez todo o trabalho por sua conta, não empregado pelas instituições do regime. Só quem não quer perceber isto é que não entende).

Assim, em 1968 Korda literalmente ficou sem forma de ganhar a vida e teve que ir fazer a tal de fotografia submarina, empregado como funcionário público.

Presumo, assim, (não tenho registo das origens) que uma boa parte das fotos que se podem ver na exposição lá na Cordoaria, seja o que conseguiu escapulir às mãos do estado Cubano mais o que a propaganda deles quis pôr cá fora. Quase todas elas excelentes fotografias. Korda era bom fotógrafo, tinha bom equipamento e teve a oportunidade. Ilustrou uma parte da história de Cuba.

abm-korda-fidel

(ABM fotografa Korda a fotografar Fidel a ser observado por duas muchachas)

Talvez mais importante, para mim, houve algo no que Korda fez que me chamou a atenção e que fez parte de uma tendência global. No início dos anos 60 do século passado, Fidel e Castro, juntamente com John F. Kennedy nos EUA – este no outro lado da “barricada” ideológica – foram os primeiros líderes políticos que deliberadamente se deixaram fotografar por detrás da fachada formal e ritualista do poder, inaugurando, numa altura de grande massificação dos mass media visuais enquanto condicionantes da opinião pública, uma era de percepção de uma “aproximação” e de uma “humanização” dos líderes aos olhos da opinião pública, especialmente quando eram jovens e atraentes – Kennedy e Castro devem ter sido os líderes mas jovens e carismáticos dessa era. A partir desta fase, passou a ser normal ver os líderes na sua condição mais mundana, a comer um hamburguer, a fumar um charuto, a dar umas raquetadas de ténis, a coçar o nariz, com os sapatos todos sujos. Os movimentos sociais que se seguiram, de que se distinguiram as convulsões nos EUA (incluindo Woodstock) e em Maio de 1968 em Paris, em que os principais protagonistas foram os jovens, deram credibilidade à ideia de que o mundo pertencia aos jovens e que os “velhos” líderes eram moeda caduca. Creio que, neste contexto, a cara jovial, irreverente e barbuda do Sr. Guevara ilustrava o espírito da era.

Imagens que totalmente enganam, pois nada referem sobre a real mola que faz mover o Poder, que dão a ilusão da intimidade e da proximidade de quem provavelmente nunca sequer se aproximarão nem entenderão, e que resvalam no culto da personalidade.

Também nisso, Korda, creio que quase sem o saber, foi pioneiro.

E a força do seu trabalho foi tal, que por vezes não se sabe diferenciar a mensagem do mensageiro.

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