THE DELAGOA BAY REVIEW

03/07/2010

GOODBIE LARRY

Filed under: António Botelho de Melo, Larry King — ABM @ 5:01 am

por ABM (Sábado, 3 de Julho de 2010)

Presumo que muitos dos exmos. Leitores saibam que Larry King seja. Desde 1985, foi o entrevistador celebrado da cadeia de televisão CNN, tendo nalguns aspectos revolucionado este negócio das entrevistas na televisão. Tendo uma personalidade peculiar, era conhecido por fazer algumas perguntas difíceis, outras fáceis, mantendo quase sempre os seus programas interessantes e atraindo personalidades de topo, que pelos vistos não se importavam de ser entrevistadas na rádio a meio da noite.

No dia 29 de Junho passado, anunciou que vai deixar de fazer o seu programa de entrevistas na CNN, Larry King Live.

Creio que esta decisão em parte tem que ver com o que parece que foi um começo de divórcio da sua actual mulher (que é a sétima ou a oitava, dependendo das contas) mas que foi afectado por uma suposta tentativa de suicídio por um dos seus dois filhos, que tem nove anos de idade (bolas…).

Tenho um lugar muito especial nas minhas memórias para Larry, que me ajudou a aprender a falar inglês e adquirir alguma cultura no processo, quando me refugiei nos Estados Unidos em 1977, vindo de Coimbra e de então uma vida em Moçambique. Na altura Larry era uma “personalidade da rádio” e transmitia um programa de entrevistas e telefonemas dos ouvintes numa cadeia de rádio nacional chamada Mutual Broadcasting Network. Na altura Larry estava baseado em Washington, de onde a emissão era feita. Estando eu em Providence, a norte da costa Leste dos EUA, e só comecei a escutá-lo na noite de 30 de Janeiro de 1979, a noite do meu 19º aniversário, quando inaugurei o meu primeiro sistema de alta-fidelidade (um Pioneer que custou 189 dólares, incluindo as colunas) e vivia numa camarata na Universidade de Brown, onde eu era caloiro.

O dinheiro para o Pioneer era o primeiro prémio de um concurso de escrita (em inglês, ainda por cima) para filhos de imigrantes portugueses, que para minha total surpresa ganhei com uma quase patética composição com três páginas e que tinha o título Being Portuguese. Basicamente segui a mesma fórmula do Fernando Pessoa quando ele escreveu A Mensagem em 1934: give them what they want and call it a strategy.

Nessa noite ele comemorava o primeiro aniversário desde que iniciara o seu programa de rádio com emissão nacional (que começara a 30 de Janeiro de 1978). Nunca mais deixei de o escutar, o que era positivamente péssimo para os meus hábitos de dormir.

Eventualmente, ele mudou-se para a CNN em meados dos anos 80 e começou a fazer as suas entrevistas mais ou menos no mesmo formato mas em programas com a duração de apenas uma hora, o que, sendo ainda cativante, não tinha nada que ver com a intimidade dos dias do programa de rádio na cadeia Mutual, os quais tinham a duração de…cinco horas, cinco dias por semana.

Desses dias da rádio, recordo-me principalmente do refinado sentido de humor de Larry, um judeu americano que já naquela altura parecia que tinha passado por tudo e mais alguma coisa na vida, mas que ainda sabia encarar e lutar e ainda rir da vida. Havia duas histórias que ele deve contado uma dez vezes nesses anos da rádio, que só de pensar nelas já me rio.

E que conto a seguir.

Uma foi quando, sendo ele muito jovem, arranjou um emprego como vendedor daqueles carrinhos com quatro pernas onde se metem bebés para andar pela casa e que supostamente não se conseguem virar. Ele era suposto ir de porta em porta a vender aquilo. Antes de ir para a rua vender, teve umas sessões de formação em que lhe indicaram que era imperativo ele fazer uma demonstração com o bebé dos donos da casa lá dentro. Era imperativo para a venda ter sucesso. Na formação, aquilo dava umas voltas violentas mas nunca virava. Na sua primeira tentativa de venda real numa casa, ele enfrenta um casal mal encarado que lhe diz que não acredita que o carrinho não se vira. Para fazer a história curta, ele faz o discurso mais convincente do mundo, faz toda a demonstração com o bebé do senhor dentro do tal carrinho, mas às tantas o carrinho vira-se mesmo de pernas para o ar, e o Larry teve que fugir a correr pela porta do homem furibundo, que o queria matar.

A outra aconteceu quando o Larry estava no começo da sua carreira na rádio na cidade de Miami, na Flórida. Ele era discjockey numa pequena estação local e era suposto falar e passar discos durante toda a noite. Uma noite, recebe um telefonema tórrido de uma mulher qualquer com quem ele tinha um flirt, e que o convida a passar lá em casa (presume-se que para dar um encontro íntimo). Entusiasmado, o Larry arranja um conjunto dos discos mais longos que encontra na estação, põe-os a tocar em automático, penteia-se e sai a correr porta fora para o seu encontro romântico, presumivelmente com a corrida cronometrada até ao segundo em que os discos acabavam de tocar. Só que acontecem duas coisas: o seu entusiasmo foi mal medido que ele atrasou-se. Pior, a meio do conjunto, um dos discos estava riscado e passou duas horas e meia seguidas, engatado a dizer repetidamente uma frase, do tipo “eu sou teu, eu sou teu, eu sou teu”…

Entretanto o Larry com a fulana em casa dela e ninguém na estação.

Eventualmente, umas duas horas e meia depois, ele regressa à estação e quando entra no estúdio está o telefone a tocar. Na linha estava uma senhora velhinha que ele conhecia de telefonar para lá às vezes e que habitualmente escutava a estação à noite. Ela estava doente e imobilizada na cama, não podia mexer no rádio, que ficava do outro lado do quarto, mas tinha o telefone ao pé da sua cama.

Quando ele atende, ouvia-se apenas a voz da velha senhora, a repetir, num tom enfadonho: “eu sou teu, eu sou teu, eu sou teu, eu sou teu….”

Bons tempos, Larry.

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