THE DELAGOA BAY REVIEW

10/05/2011

SOBRE A LIBERDADE DE IMPRENSA EM MOÇAMBIQUE EM 2011

Filed under: Imprensa Moçambique, Paul Fauvet — ABM @ 2:47 am

Paul Fauvet, dinnosaurus rex da imprensa moçambicana que foi e ainda é. As suas recentes crónicas na AIM a defenderem o direito da Mozal de poluir a capital são leitura obrigatória. São quase tão boas como os "prémios de jornalismo" patrocinados pela empresa. Tudo em nome do bom, isento, objectivo, profissional, jornalismo. Ah pois. A liberdade de imprensa das empresas extractivas e transformadoras, pelo menos.

Com vénia, copio o texto redigido por Abdul Sulemane no Savana desta semana, acerca da liberdade da imprensa em Moçambique em 2011.

Liberdade de imprensa em Moçambique – Novas facetas da censura preocupam Jornalistas

A censura não é institucional. Isto é, não é oficial. A situação deve-se a falta de vontade política por parte do governo.

Os jornalistas são unânimes em afirmar que o acesso a informação é que poderá permitir reduzir a assimetria informativa entre governante e governados. Os jornalistas precisam evoluir para sacar informação que lhe interessa junto do governo. Estas são algumas das opiniões dadas por jornalistas durante a Comemoração do Dia mundial da Liberdade de
Imprensa celebrada nesta terça-feira.

O jornalista Tomás Viera Mário diz que actualmente a questão da censura no país “ tem duas facetas. Há primeira faceta é a censura estrutural. Estrutural por ser um tipo de censura que advém da forma como os órgãos de informação são geridos. Das estruturas que gerem os órgãos de informação. É uma censura que vem da raiz. Vem da forma como os órgãos de gestão são constituídos. Então é uma censura estrutural. Não é institucional. Isto é, não é oficial, não tem
nenhuma lei mas vem na forma como os órgãos são estruturados”, explicou o jornalista.

“A segunda forma de censura é económica. É muito forte. Ela é indirecta, ou seja, as forças que dão publicidade como são poucas mas muito fortes condicionam os temas que saiem nos jornais. Se um jornal tiver por exemplo três paginas de publicidade de uma empresa, entãol daí em diante se houver um caso negativo sobre essa empresa o jornal
não vai escrever”.

Cultura de estado é secreta

Retrucando sobre o campo de manobra que os órgãos têm, Tomás Viera Mário, disse que “os órgãos de comunicação social têm de ter autonomia financeira grande. Tem que ter recursos financeiros grandes para se proteger da censura económica. Ter profissionais com bons salários, que sejam impermeáveis a corrupção. Essas sãos as únicas
chaves autênticas. Uma empresa financeiramente robusta e funcionários bem pagos”, salientou.

E sobre o acesso à informação este profissional afirmou: “esta questão não se resolve para já. É uma questão que se resolve quando uma geração desaparecer. Porque é uma questão cultural. É cultura de governação. Então é cultura de estado que é secreta. Então mesmo que haja uma lei nada nos garante que vai sair a informação. Só que a lei é boa porque vai nos permitir fazer pressão. Mas a lei sozinha não vai resolver o problema da informação. O problema da informação é cultural. É problema do estado moçambicano que é um estado secreto. E isso nenhuma lei resolve. Só o tempo resolve isso.

Falta vontade política

Por sua vez o jornalista Ercílio Salema disse: “ Na prática fora este aspecto de auto censura pode-se verificar no caso de um órgão esteja ligado ao governo ou ao partido no poder que tenha um mecanismo de selecção das matérias que não se baseia, somente naquilo que são as regras editoriais do agir jornalístico. Mas também noutros valores do tipo não pôr em causa um e outro aspecto da própria hierarquia do poder.

Infelizmente este é um ponto central porque a auto censura inibe que alguns segmentos da sociedade tenham acesso ao mesmo espaço. Sobretudo os medias públicos. É chegado o tempo de nós os jornalistas darmos um salto que vai nosdignificar como vozes dos que não têm vozes”, instou.

Sobre o acesso a informação por parte do governo Ercílio Salema considera que “é um aspecto crucial e tem a ver com a falta de vontade política por parte do governo. Porque nada nos garante que com existência de uma lei de acesso a informação as coisas irão mudar. Há países que têm leis de acesso a informação mas o referido acesso a informação é um assunto bicudo. Falo de Angola e do Zimbabwe. Mas é importante como instrumento jurídico-legal ter uma lei de direito à informação. Esta beneficiará não só os jornalistas como a todo cidadão. Porque só com a informação é que a participação política é frutífera. Só com participação política é que o cidadão se torna dono dos processos. Só assim é que um cidadão torna-se impulsionador do processo democrático. Só o acesso a informação é que nos permite reduzir a
assimetria informativa entre governante e governados”.

Para este jornalista com a “pressão cada vez mais crescente feita sobretudo pelas indústrias extractivas vamos acabar por ter uma lei de acesso a informação. O que não garanto é que essa lei não vai ser editada primeiro. Uma vez aprovada a lei não vai reflectir o que esperamos”, alertou.

Para o jornalista Salomão Moiane “nunca vai haver um acesso completo. Não há-de haver nenhum governo do mundo
que oferece informação completa aos jornalistas. O próprio jornalista é que tem de evoluir e sacar informação que lhe interessa junto do governo. Estás a ver agora que o governo não está muito aberto mas mesmo assim há jornalistas que sacam boas informações. Portanto isso não depende só do governo. Nunca vamos ter em nenhuma parte do mundo um governo que oferece todas portas abertas a comunicação. Sempre o governo tem algo a esconder a população e aos jornalistas. Compete aos jornalistas sofisticar os seus métodos de investigação e sacar o que lhe interessa junto do governo”.

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16/11/2010

A MOZAL E OS FUMOS DE BELULUANE

por ABM (16 de Novembro de 2010)

Cerca das 18 horas de Maputo de hoje, recebi a lacónica nota intitulada MOZAL STATEMENT FTC’s NOVEMBER 2010 emanada pela Mozal, escrita em inglês, para variar, confirmando que amanhã, dia 17 de Novembro, a fábrica de alumínio situada a meio caminho entre Maputo e Boane, começaria a emitir os gases poluentes para a região da grande Maputo sem qualquer filtragem, durante quatro a cinco meses.

Sobre este assunto acho que já disse quase tudo o que tinha para dizer. Nomeadamente, que isto é um atentado aos direitos dos moçambicanos, que parece que o governo do dia muito lamentavelmente demitiu-se do seu dever de proteger o seu país contra estes actos de violência perpetrados de fora, e que a empresa BHP Billiton escreveu uma das páginas mais tristes do seu percurso, usando e abusando dos seus poderes para vergonhosamente enfiar o seu lixo pela goela abaixo de um governo dócil e de uma população indefesa.

Eu acredito piamente no capitalismo. Mas isto não é capitalismo. Nos tempos que correm, é lixo empresarial ao mais alto nível.

De particular e lamentável interesse, foi eu ter que ler, por mais que uma vez, as quase lancinantes defesas da indefensável argumentação apresentada pelas instâncias governamentais por nada menos que Paul Fauvet, que, usando e abusando do seu estatuto de prima donna dinosáurica da igualmente dinosáurica, governamental Agência de Informação de Moçambique, embarcou nos ataques mais infecundos a que já tive que assistir em algum tempo, dirigidos aos que legal, moral e legitimamente questionam a autorização inacreditavelmente concedida para este ataque à saúde da população de Maputo, chegando ao despautério de sugerir que os que tomavam tal posição estariam ao serviço de forças ocultas, dirigidas de fora.

Só mesmo faltava esta.

Fauvet, que percebe tanto de FTC’s como eu percebo de reactores nucleares em naves espaciais, até chegou ao ponto de tentar vir para cima de nós dar lições de aritmética fumeira, atestando a factualidade dos míticos, ocultos, mirabulantes estudos feitos a martelo por uns “especialistas” da UEM para fingir que a coisa era feita “cientificamente”. Só que se esqueceu que nem todos de entre os muito poucos que o lêem estes dias compram essa banha da cobra que só pode (só pode) ter sido encomendada.

Até faz impressão ver o Fauvet, que andou de braço no ar nos tempos com o Cardoso a clamar aquela mística “pureza” espartana do marxismo-leninismo samoriano (no fim tão pura como os fumos que a partir de amanhã discretamente passarão a ser inalados pelos inocentes cidadãos de Maputo e Matola), vir agora tentar defender o estritamente indefensável: que a BHP Billiton, o maior conglomerado industrial e químico do mundo, com fundos praticamente ilimitados, com os conhecimentos mais especializados e a obrigação de assumir a responsabilidade total pelos seus processos fabris, de entre os quais aquela fábrica inacreditavelmente situada a 14 quilómetros da baixa de Maputo, a escassos quilómetros do lago artifical a partir do qual toda a gente bebe água na grande Maputo e dentro duma área urbana com pelo menos 2, 3 milhões de pessoas, depois de quase dez anos de operação contínua, não reparou, não previu, “esqueceu-se”, que os filtros daqueles venenos que emite em Beluluane, estavam a ficar podres e precisavam de ser substituídos; que afinal “não tinha” qualquer plano de contingência que minimizasse a pulhice que agora vai fazer; que, estritamente para poupar dinheiro, acha económica e ecologicamente justificado fazer o que nunca se atreveu ou atreveria a fazer em quase qualquer outra parte do mundo, pois certamente levava com dez processos seguidos em tribunais que funcionam mesmo. E perderia. Porque afinal – coitadinhos dos pobres accionistas BHP Billitons – não se pode fechar a fábrica, pois a fornalhazinha tem que ficar acesa e a cuspir lingotes 24 horas por dia.

Não podem desligar a fornalhazinha, lamenta-se o Paul nos seus escritos. Coitadinhos.

Se isto é augúrio do que vai ser a esperada industrialização de Moçambique – conglomerados internacionais a agir desta forma, fábricas a operar desta maneira, construídas no meio de zonas urbanas, com accionistas milionários que acham que podem ganhar mais lucros nas costas duma população indefesa, com ligações intestinais às instâncias mandantes, que até as agências de informação nacionais colocam ao seu serviço – o futuro prevê-se verdadeiramente, incontornavelmente, sinistro.

Há mais que cem anos, o escritor britânico Charles Dickens avisou contra isto mesmo: contra a rapacidade daqueles que, à guisa das liberdades inerentes ao sistema capitalista, não param perante qualquer obstáculo para assegurar o retorno incremental no seu investimento.

Esquecendo-se que, a essas liberdades, correspondem responsabilidades.

E no dia em que os representantes do povo consentem nessa rapacidade, só se pode lamentar esse facto.

A Mozal anda a divertir-nos há anos com os seus comparativamente ridículos exercícios de charme a que chama eufemisticamente de “responsabilidade social”: uma casinha aqui, uma enfermeirazinha ali, um donativozinho acolá. Enquanto isso, vomita o precioso alumínio, carregado diariamente e às toneladas para o porto de Maputo, de onde desaparece, recebendo em troca montanhas de escória de alumínio que nem sequer existem em Moçambique. E isso enquanto usufrui do estatuto fiscal de uma offshore e quase a soberania de um estado dentro de um estado, maximizando os seus lucros.

Pois essa “responsabilidade social” devia incluir pagar os impostos que devia pagar e o respeito pelo país onde se situa e as pessoas que ali vivem. Tentar encantar as pessoas com migalhas e depois agir desta maneira é obviar o que parece ser o seu credo:

Que os fins justificam os meios.

17/10/2010

A IMPRENSA E A REVOLUÇÃO DA FRELIMO

Segundo os meus camaradas do Feicebúque, esta é realmente uma fotografia histórica do jornalismo moçambicano após a Independência. Parece que foi tirada em 1976. E aqui está a Nata: Carlos Cardoso, João Machado da Graça, António Souto, Mia Couto, Ricardo Santos, Calane da Silva, Almeida Henrikes, Luis Lemos, Fernando Rebelo, Luis Souto, Augusto Casimiro, Rui de Oliveira, Murilo Sales, Abel Faife, Dimas, Mendes Oliveira, Waddington, Mafuiane, Jojó, Marcos Cuembelo, Ricardo Rangel, António Fonseca, Beatriz Rangel, Albino Magaia, João Santa Rita, Ian Christie, Luisa Alcântara, JP Branquinho, Rui Agnelo Sousa, Lico, Nanda Gomes, Luis Clemente, Graça Felner, Orlanda Mendes, Tozé Alves Gomes, Maria Adalgisa, Sol de Carvalho, Leite Vasconcelos, Luis David e Areosa Pena. Isto entre os que se reconhecem. Tudo na mesma sala.

por ABM (17 de Outubro de 2010)

Estou a meio da leitura de um livro que comprei há sete anos em Nelspruit (Mmmmmmbombéélááá!) na Exclusive Books e que depois ficou este tempo todo por ler, metido dentro de um caixote em Alcoentre City. Este é em inglês e foi escrito pelo Paul Fauvet (hoje sénior qualquer-coisa na AIM mas que na altura da foto em cima ainda não estava em Moçambique) e pelo Marcelo Mosse (hoje uma das grandes mentes de Moçambique e creio que estes dias coordenador do CIP, mas que na altura da foto em cima ainda devia estar a jogar ao berlinde).

O livro que estou a ler (Cape Town: Double Storey Books, 2003) chama-se Carlos Cardoso: Telling the Truth in Mozambique [Carlos Cardoso: Dizendo a Verdade em Moçambique]. Quando o comprei, o conhecido jornalista de Moçambique, que tem página na Wikipédia em inglês mas não em português (hum) havia sido assassinado há três anos e se me recordo do que me diziam, parecia que toda a cidade de Maputo sabia que tinha sido o saudoso Nimpini a mandar e o Anibalzinho a fazer mas, mas, mas, mas….. sabem como são as coisas.

Mas a verdade é que já vou na página 227 (o livro tem 356 páginas) e o Carlos ainda está vivo e valentemente à estalada via o Mediafax com um ministro chamado Manuel António, que Joaquim Chissano, depois do que parece ter sido uma eternidade de asneiras (é o que dizem Fauvet e Marcelo que dizia Carlos) substitui por Almerino Manhenje.

O livro na verdade são dois: uma primeira parte que não acaba, escrita pelo Paul Fauvet, e uma segunda parte que refere ter sido escrita pelo Paul e pelo Marcelo.

Pelo menos da leitura da versão inglesa, a escrita é quase exímia. Paul tece bem o fio à meada e conduz o leitor num percurso temporal e modal inteligível.

Não me querendo antecipar, pois assim não tem graça, do que li até agora, o tema é outro.

Mais quando eu acabar de o ler e fazer alguma pesquisa.

01/10/2010

DEUS AINDA É TAX FREE

Se o exmo Leitor for ao Vaticano e visitar a Capela Sistina e torcer o pescoço até doer, lá em cima num canto vê isto

por ABM (30 de Setembro de 2010)

Há três dias o genial Paul Fauvet, actualmente editor da aparentemente moribunda Agência de Informações de Moçambique (o sítio da AIM na internet parece que pifou, suponho que por falta de pagamento) e decano do jornalismo de era após a Independência, parece que se passou dos carretes e escreveu uma peça que basicamente é uma invectiva dirigida directamente a uma dessas religiões surgidas há relativamente pouco tempo, a Igreja Universal do Reino de Deus.

Mais conhecida como IURD.

Infelizmente, apesar do Paul escrever português tão bem como qualquer outro, o seu artigo chegou-me em inglês e para quem lê a língua, mesmo que seja bad english, está aqui.

Para além de referir en passant que o big boss da IURD (um senhor chamado Edir Macedo) esteve dentro por evasão fiscal e anda a ser investigado por branqueamento de capitais lá na sua base no Brasil, Fauvet acusa a organização de ser sinistra, moral e formalmente corrupta, extorquindo dinheiro de muita gente que quase não tem nada através de “milagres”, com o único objectivo de enriquecer obscenamente a sua hierarquia.

Fauvet rebola-se a contar os detalhes dos tais “milagres” – que refere ser o principal argumento de venda desta organização (considerando-a tudo menos uma organização religiosa legítima) que acusa de serem perigosas e pouco engenhosas fraudes cometidas contra a sociedade, especialmente os milhares e milhares de crédulos que pelos vistos consomem aquilo tudo e ainda pagam o dízimo e mais qualquer coisa.

E ainda por cima não paga impostos.

Fauvet conclui a sua peça expressando a sua indignação por a IURD moçambicana andar agora a “contaminar” a imprensa moçambicana, comprando espaços nas publicações locais, onde vendem escandalosa e impunemente o seu produto, nalguns casos nem sequer colocando o aviso obrigatório de que se trata de nada mais, nada menos, do que publicidade “comercial”.

Ora, antes de mais confesso-me um discreto admirador do Fauvet destes dias (não de quando ele era um entusiástico servidor da Revolução Moçambicana, sobre o qual aliás sei relativamente pouco). A idade realmente fez-lhe bem.

Mas acho que ele está completamente errado.

Por três razões.

A primeira é que, como ele sabe, há leis que regulam estas coisas. E se aparece um tipo que vem do Brasil com umas ideias peregrinas sobre a salvação das almas dos outros que por acaso inclui uma taxa de 10 por cento mais qualquer coisa do salário em troca dum carnaval qualquer – e age dentro do que as leis prescrevem – as coisas são assim. Cada um tem o direito de ter o seu deus e de fazer o que acha certo e moral, por mais estúpido que pareça aos outros. Creio que nesta fase do campeonato já se passou o tempo em que, por exemplo, os católicos, os muçulmanos e os judeus cada um acha que a sua é que é a única e verdadeira religião, em detrimento das outras.

Nestas coisas, o princípio do respeitinho é muito bonito.

A segunda é que -admitamos- visto de fora, isto das novas religiões parece ser um verdadeiro negócio da China, pois, literalmente, a) custa tostões e dá milhões, b) como as pastelarias e os restaurantes, é um negócio onde só circula cash, o que dá para escapar a todos os controlos e mais algum e fazer os maiores truques, de entre os quais a lavagem de dinheiro é o mais corriqueiro c) não paga impostos nenhuns, d) em que milhares acriticamente dão milhões a meia dúzia, que só têm um chefe que está no Brasil, em troca de praticamente nada a não ser umas vagas promessas, e) são protegidos pelas leis que regulam as confissões religiosas, e, se necessário, por advogados de topo pagos a peso de ouro se por acaso houver algum probleminha.

Mas, strictu facto, não é por aqui que se faz ou desfaz uma religião.

Finalmente, discordo (amigavelmente) de Paul porque quase todas as confissões religiosas mais recentes são habitualmente alvo de suspeitas e críticas por parte de sociedades onde tipicamente pontificam religiões solidamente estabelecidas e com uma longa presença, por vezes milenar, elas próprias originalmente estabelecidas frequentemente pelos mesmos métodos, por imposição ditatorial ou pelo fio da espada, todas elas com alguns percursos menos polidos, mas todas elas hoje inquestionáveis e as detentoras da putativa verdade única.

Mais grave, ou talvez não, gostava de salientar que as religiões mais estabelecidas são hoje caracteristicamente mais sóbrias, mais reservadas, menos dadas à procura de novos aderentes.

Surpreende-me vagamente que, tendo eu 50 anos de idade, em todo este tempo a única religião que alguma vez me veio bater à porta para me explicar em que é que acreditava e para ver se me convencia de alguma coisa foram dois jovens mormons americanos brancos loirinhos vestidos de calça preta e camisa branca, com sacolas e umas tabuletas com os nomes deles ao peito, com o ar mais ridículo do mundo, que um dia há já uns bons anos atrás, me vieram bater à porta em Alcoentre City (mesmo assim levaram uma corrida em dois minutos).

Tirando o memorável Padre Oshea (católico e de extracção irlandesa) me ter vindo cumprimentar ao meu quarto na Universidade americana de Brown na minha primeira semana de aulas há quase trinta anos, nunca na minha vida um representante católico, muçulmano ou judeu alguma vez me quis explicar ou convencer de seja o que for. Nunca nenhum sequer me tentou explicar em que é que acreditava.

Ora isto necessariamente tem consequências, especialmente num país tão aberto, dinâmico, problemático e diverso como Moçambique, onde há uma gigantesca percentagem da população (mais de metade tem menos que 25 anos de idade) que não adere à partida a qualquer das religiões mais estabelecidas, e que, logo, se encontra perfeitamente aberta para escutar as mensagens sobre o bem e o mal e a salvação nesta e noutra vida que alguém lhes trouxer.

Se as religiões mais estabelecidas pouco ou nada fizerem para atrair ou sequer falar a língua e procurar entender os problemas específicos desta camada da população, estas pessoas vão olhar para outras escolhas mais disponíveis e inteligíveis.

A meu ver, o sucesso das IURDes deste mundo reflecte em parte o fraco esforço destas religiões de se apresentarem de uma forma eficaz junto destas populações.

E isso a IURD faz, bem ou mal, mas eficazmente, se levianamente, montando uma poderosa máquina de cobranças, que financia novas formas de comunicar, muito mais baratas e eficazes, como a televisão, a rádio, os enormes cinemas que estão às moscas e compram por tuta e meia para aqueles comícios dos milagres.

Aliás a IURD não inventou nada. Quem inventou todo o método e definiu as regras de funcionamento foram os norte-americanos, há muitos anos.

Há um acrescento que considero apropriado referir no caso de Moçambique, que, tirando os minúsculos territórios que os portugueses detiveram no vasto manto indiano, foi o único território onde os portugueses estiveram em que foram (literalmente) obrigados, pela Grã-Bretanha a permitir a diversidade religiosa e a liberdade de culto, ainda no século XIX. É por isso que, quem ler a história desse país, rapidamente constatará que, apesar dos esforços levados a cabo especialmente após a concordata que Salazar celebrou com o Vaticano em 1940, dando alguma primazia à religião católica, Moçambique há muito que tinha no seu território praticantes das religiões protestantes, a Missão Suíça, adventistas, luteranos, anglicanos, muçulmanos (cuja presença milenar especialmente nas costas do que é hoje Moçambique por demais evidente), testemunhas de Jeová e até uma mão cheia de judeus.

Como curiosidade, o grande Henrique Paiva Couceiro (há uma biografia rápida dele feita pelo Vasco Pulido Valente que se recomenda), um dos que passou por Moçambique brevemente nos tempos do Sr Mousinho e do Sr Gungunhana (e que por isso teve direito a nome de rua em Maputo, e a seguir direito a que fosse obliterada no Novo Ordenamento), e que entre outras coisas foi um pródigo Governador de Angola, considerava no primeiro quartel do século passado, que Portugal deveria sumariamente despachar Moçambique (venda, leasing, fosse o que fosse), e isto por duas razões básicas.

A primeira é que ele achava que Portugal não tinha população suficiente para poder possivelmente alguma vez sequer tentar colonizar territórios tão vastos como Angola e Moçambique.

A segunda é que, em termos da diversidade das suas culturas e religiões, ele achava que aquilo (aquilo sendo a então colónia de Moçambique) nunca poderia alguma vez vir a ser português.

Sendo eu quase perfeitamente ateu, sempre apreciei o convívio com essa diversidade religiosa e cultural e o seu valioso património para o País e para as pessoas, trazendo conforto, ajuda, apoio moral e códigos de conduta.

Assim, se de facto a IURD em Moçambique anda a esticar a corda estes dias, como Paul Fauvet postula, acredito que o governo tem todo um conjunto de leis e todo um aparato administrativo para aquilatar eventuais violações a essas leis.

Tirando isso, apenas podemos lamentar perante aquilo que à primeira vista parece ser pouco mais que um esquema de pirâmide marginalmente religioso que, recorrendo à táctica da venda da banha da cobra – os milagres garantidos, as soluções fáceis do “reza e será curado ou recompensado”, explora os mais pobres, os mais expostos, os menos instruídos.

Creio, no entanto, que, dentro das circunstâncias, esta parece ser de facto uma área de enorme potencial para crescimento. E fiquei parvo hoje ao descobrir que, se o exmo. Leitor quiser tirar uns cursos pela internet e começar a sua própria Igreja dos Milagres, há uma excelente alternativa disponível imediatamente, bastando para tal ter um cartão de crédito Visa ou Mastercard à mão. Chama-se Universidade Gospel. Ensina tudo e em português. Mas deve haver muitas mais.

(Hum, será que dava para criar a….Igreja do Maschamba, com Bispo Jpt, Bispa Baronesa, Apóstolo ABM….?)

Portanto, para quem não gostar da IURD, sempre pode começar a estudar e criar a sua própria igreja. Faça os seus próprios milagres, transmita as mensagens que quiser, arranje o seu próprio rebanho- e, naturalmente – faça o seu preço.

Aliás, há uma tal de Igreja Maná cujo dono (bispo? profeta? apóstolo?) chama-se Jorge Tadeu, é um branco de Moçambique, que costumava dar na televisão e que parece que vende daquilo a potes. Do que vi, pareciam estar todos bem felizes da vida.

O negócio de salvar almas é fabuloso, legal e divertido.

E não se esqueça: é também tax-free.

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