THE DELAGOA BAY REVIEW

07/10/2017

SOBRE A EFICÁCIA DA VIOLÊNCIA NO CONTROLO SOCIAL, POR JOSÉ JAIME MACUANE

José Jaime Macuane, nascido em Maputo, trabalha na Universidade Dr. Eduardo Mondlane e publicou este texto em 6 de Outubro de 2017, na sequência do assassinato de Mahamudo Amurane, um político Macua, Presidente da Municipalidade de Nampula pelo Movimento Democrático de Moçambique (do qual se distanciara ultimamente) no dia 4 de Outubro.

Desenho de João Augusto Silva, na capa de Grandes Chasses – Tourisme dans l’Afrique Portugaise, publicado em 1937 em Lisboa pela editora Ática.

O texto de JJM, ligeiramente editado por mim:

A Eficácia da Violência no Controlo Social

Na ciência política, o Estado é apresentado como a forma moderna encontrada para a coordenação da acção colectiva em grande escala pelos seres humanos, na prossecução dos seus objectivos.

A principal finalidade do Estado é a garantia da vida, da qual decorrem outras finalidades, como o bem-estar socioeconómico, a justiça e outros que aqui podem ser enumerados.

Quando um Estado não garante a segurança dos seus cidadãos (entenda-se a vida) e os coloca a viver sob o medo da morte súbita e violenta, esse estado (isso mesmo, com letra minúscula) está a dar sinais de falência e a comprometer a sociedade mesmo, sendo mais minimalista, o futuro dos grupos ou classes que o controlam.

Não há países que não tenham crimes, incluindo os violentos. Aliás, a violência é um traço dos conflitos recorrentes entre os seres humanos. A forma como os Estados lidam com a violência diz muito sobre a sua capacidade de coordenação da acção colectiva numa sociedade. O sociólogo alemão Max Weber definiu isso de uma forma emblemática, quando chamou o Estado a entidade que reclama para si o monopólio do uso legítimo da violência dentro de um território. Certamente existem outras discussões sobre o Estado e sobre a violência, que não vou aqui discuti-las por não ser o fórum certo. Mas, que eu saiba, nenhuma coloca o risco à vida dos indivíduos que formam o corpo politico como aceitável na legitimação do Estado.

Um Estado que permite que seus agentes e outros profissionais da violência possam apossar-se dos meios coercivos e usá-los de forma (aparentemente) desregrada, atentando contra a vida dos seus cidadãos, até pode servir os interesses de certos grupos que o controlam num determinado momento, mas, depois de algum tempo, enfraquece-se e torna-se inútil, mesmo para a defesa dos interesses estreitos de alguns grupos que possam ter ganhos decorrentes dessa violência, porque perde a legitimidade para reivindicar o tal monopólio legítimo de uso da força.

A forma recorrente como o estado moçambicano “se revela incapaz” de esclarecer os crimes violentos envolvendo figuras políticas, contribui para a perda de confiança na sua capacidade de garantir a vida e, no limite, as pessoas podem começar a procurar outras formas de proteger as suas vidas. Já apresentei a minha perspectiva sobre isso, de que é uma forma de controlo social pelo medo.

Mas o medo tem uma particularidade: ele só é eficaz para os que continuam vivos e os que esperam que em algum momento as suas vidas melhorem, caso se “comportem” e ajam como os que controlam a violência implícita e explicitamente exigem. Em situações em que a violência se combina com a falta de perspectivas de melhoria das condições de vida, como em contextos onde a economia política deixa pouco espaço para o progresso individual e colectivo fora de certas estruturas, com destaque para as políticas, tenho sérias dúvidas de que o estrito controlo pela violência seja efectivo por longos períodos de tempo.

Moçambique me parece estar a ter essa combinação, a de um Estado que de forma crescente se revela ineficaz na protecção da vida (exemplo, além dos crimes de conotação política, as ondas de crimes nas zonas urbanas), ao mesmo tempo que aumenta a percepção de que as possibilidades de progresso fora da esfera política são mínimas e o estado se encontra cada vez mais fraco para prover bens público básicos, dentre os quais serviços sociais, um bom clima económico e a segurança.

Assassinar figuras como Mahamudo Amurane, que para alguns representavam a centelha da possibilidade de num Estado que funciona, pode até ter ganhos de curto prazo para os mandantes deste crime hediondo. Mas, a longo prazo (talvez até menos, dada a situação de crise “de quase tudo” em que vivemos), os que recorrem à violência como mecanismo de controlo social terão que enfrentar uma sociedade cada vez menos propensa a vergar perante a repressão.

Por outras palavras, o efeito da repressão no controlo social terá graus de eficiência e eficácia marginal cada vez mais decrescentes. O que quer dizer que devem investir cada vez mais recursos na violência e na repressão e com resultados cada vez mais fracos. Até porque ao apostarem no investimento na violência, estarão a deixar de usar recursos para outras áreas que reforçariam a ordem política, como a economia, por exemplo, e no fim nem recursos para investirem nessa violência existirão. Claro que estou a dizer isso pensando que temos pessoas que pensam a longo prazo, o que não parece ser o que acontece neste meu país. Mas o que me parece cada vez mais claro é que o projecto de controlo da sociedade através da violência não tem pernas para andar, porque é um projecto de curto prazo. Os que acham que podem continuar a recorrer à violência para controlar a sociedade, perante um Estado complacente e às vezes cúmplice, devem-se preparar para batalhas muito mais duras no futuro, porque estão a contribuir para enfraquecer aquilo que mais prezam na sua estratégia: o medo da morte e a esperança de algum bem-estar, quando não se incomoda às pessoas erradas.

Ora, numa situação em que cada vez mais a vida é incerta, as perspectivas de melhoria das condições de vida minguam e a violência parece estar fora do controlo, destrói-se as bases do controlo pelo medo. E também da legitimidade do Estado, a entidade de controlo por excelência. Deste modo, no futuro, terão que lidar com muitas pessoas desesperançadas por um Estado que parece que não as protege e não cria condições para perspectivas de progresso futuro.

Os protestos populares em Nampula em reacção ao assassinato de Mahamudo Amurane podem ser apenas um microcosmo da revolta pela esperança roubada, mas também poder ser uma amostra do que as pessoas, quando roubadas a esperança de um Estado possível podem fazer.

Há que se ter cuidado quando se retira a esperança às pessoas.

Já dizia Sun Tzu: “Numa batalha, não encurrale o inimigo. Deixe sempre uma saída. Senão, não lhe restará outra alternativa a não ser lutar pela própria vida. Então, cada soldado inimigo valerá por dez dos seus”.

(fim)

 

António Rita Ferreira, o genial analista da realidade social, antropológica e política de Moçambique, recentemente falecido, uma vez me disse que, no dia em que os Macuas, ainda impactados pela sua cultura de matriz matrilinear e história de um relativo pacifismo, despertassem e se organizassem, que o curso da história de Moçambique se alteraria por completo em relação àquilo que se tem feito, dito e escrito desde as eras pré-colonial, colonial e pós-colonial, em que o foco e a determinação dos eventos se centrou no Sul da antiga colónia e em duas etnias relativamente minoritárias.

 

Fonte: FB de JJM, 6 de Outubro 2017, 12:24 horas

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22/03/2017

FALECEU HELENA DAVIDSON, UMA GRANDE SENHORA DE LOURENÇO MARQUES

Filed under: Helena Davidson, História Moçambique — ABM @ 12:11 am

Helena Davidson

Transcrevo a mensagem gentilmente cedida por Rodrigo Alexander Davidson de Sousa-Pinto, neto de Helena Davidson:

Apesar dos 98 anos (feitos no hospital, no passado dia 13) da nossa queridíssima Mãe, Avó e Bisavó, nenhum de nós estava preparado para a deixar partir. A sua grandeza, presença, amor e generosidade eram de tal forma presentes e radiantes, que apesar de absolutamente gratuitos nos deixam um vazio que não sabemos nem podemos preencher. Mas, através do seu exemplo, aprenderemos a aceitar e, talvez, imitar.

Para além da certeza de que se encontra já a contemplar a face de Cristo e da Sua Mãe Santíssima, na feliz companhia de todos os familiares e amigos que já partiram, acrescentamos uma espécie de consolo na seguinte ideia expressa ontem entre nós:

Despite Avó’s age, we weren’t ever really ready to let her go. How sad it is to think of our lives from now on without Avó being physically present. On the other hand, Avó also deserves a rest from us (the living family, ever so demanding of her presence, her advice, her listening and her love), and to join her beloved departed. I am undoubtedly sure that they are now having a welcome party for her and Grandpa has already arranged for the choirs of angels to sing “Cheek to Cheek “ and “Tea for Two” (Avó’s favourites) and asked Avó to dance with him to those tunes.

De forma a podermos reunir a família dispersa por tantos pontos do globo, tivémos de atrasar o funeral da Avó, pelo que não teremos velório. Assim, informamos que celebraremos as cerimónias na seguinte data e local:

DATA: quarta-feira, 22 de Março de 2017

LOCAL: Capela Mortuária da Igreja de Nova Oeiras

ACOLHIMENTO: 14h00

MISSA DE CORPO PRESENTE: 15H00

ENTERRO: Segue para o Cemitério de Oeiras

Aos que quiserem e puderem estar presentes, agradecemos. Aos que não puderem estar, pedimos a vossa oração pela Avó e por todos os que já partiram (na certeza de que estará ela agora orando por todos nós).

Abusando da vossa paciência, deixo em abaixo a nota de falecimento dirigida à Cruz Vermelha Portuguesa:

Ao Excelentíssimo Senhor

Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa,

Excelência,

É com o maior pesar que informo, porque julgo ser do interesse da Cruz Vermelha Portuguesa, o falecimento da minha Avó materna, ocorrido sábado passado 18/03/2017, pelas 19h00 no Hospital de São Francisco Xavier, em Lisboa, cinco dias depois de ter celebrado o seu 98º aniversário natalício.

A minha Avó, D. MARIA HELENA de Melo Castelão Feijó d’Almeida Fontes DAVIDSON, nascida em 13/03/1919, foi a última Presidente da Secção Feminina da Cruz Vermelha Portuguesa em Moçambique (Lourenço Marques), Presidente da Sociedade de S. Vicente de Paulo em Lourenço Marques, co-fundadora do “Abrigo dos Pequeninos” também em Lourenço Marques, entre tantas outras actividades que toda a vida a orientaram ao serviço dos outros.

Tendo feito parte da sua escolaridade na África do Sul e casado com o meu Avô, sul-africano de origem escocesa e irlandesa, nunca esqueceu as suas origens portuguesas, das quais fazia questão em colocar a par com a sua condição de Moçambicana de Portugal (foi para Moçambique aos 8 anos de idade onde Pai, Dr. César d’Almeida Fontes havia sido colocado como professor e aberto consultório médico). Com excepção do período escolar (1927/1930) e dos cerca de 13 anos (1943/1956) em que viveu entre Durban e East London na África do Sul (onde o marido esteve profissionalmente colocado antes de a companhia de navegação que dirigia relocalizar-se para Moçambique), viveu sempre em Lourenço Marques até 1976, embora deslocando-se à Europa de quando em vez.

Tendo-se dedicado de coração cheio ao serviço dos outros e daquela terra, em nome das suas convicções pessoais, religiosas e nacionais, foi um exemplo de acertividade, persistência e dedicação que lhe valeram ter sido agraciada em 1973 com o grau de Comendador da Ordem de Benemerência, atribuída pelo Senhor Presidente da República e em 1990 com a Cruz Vermelha de Benemerência pela Cruz Vermelha Portuguesa.

Acompanhou no desempenho das funções que exercia como Presidente da Secção Feminina da Cruz Vermelha, os conturbados acontecimentos em Moçambique, desde a Guerra Colonial ao processo de independência e momentos que se lhe seguiram, com perigo para a própria integridade física. Aí se lhe conheceram extraordinárias acções no desempenho das suas funções, desde a participação em operações de evacuação de feridos a visitas a prisões e relatórios sobre as respectivas condições, entre tantas outras. Ao mesmo tempo, sempre na procura de auxiliar os mais necessitados, fazia editar o “Livro das Coisa Boas”, uma compilação de receitas de culinária (ainda hoje nos escaparates e em tantas cozinhas portuguesas), cujos proventos deveriam reverter a favor das obras da Sociedade de São Vicente de Paulo (Vicentinas).

Após a saída de Moçambique, em 1976, fixou residência em Bedfordview, Joanesburgo, na África do Sul, onde de imediato se juntou ao corpo de voluntárias no Hospital Central.  Aos 60 anos, pela primeira vez na vida, teve que arranjar emprego remunerado, tendo aos 67 anos de idade decidido jovialmente ir tirar um curso de contabilidade.  A par do trabalho remunerado, manteve sempre actividade voluntária em dedicação ao próximo, nunca descurando o seu papel e presença de Mulher, Mãe, Avó e Bisavó.

Finalmente, aos 94 anos de idade, já viúva há 14 anos, resolveu vir para Portugal definitivamente, após 86 anos de vida em África. Aqui, continuou na medida das suas possibilidades a prestar serviço aos outros, ajudando como voluntária no Centro Paroquial der Oeiras, onde ia dar o almoço aos “seus velhinhos” (todos mais novos!), o que fez alegremente até Dezembro passado, com 97 anos de idade.

Morreu anteontem, na feliz circunstância de ter tido a família com ela durante a tarde, e nas mãos das duas filhas sobrevivas e de uma das netas.

Foi um exemplo permanente para muitos, uma ajuda e apoio preciosos para imensos e uma Mulher, Mãe, Avó, Bisavó e Portuguesa única e irrepetível. Com todo a sua actividade para com os outros, geria o seu tempo de forma a estar sempre presente junto da família. De forma extraordinária e sem percebermos como conseguia, tinha tempo para todos, talvez com a única excepção de si mesma. Esse tempo era sempre dado com calma e como se não tivesse mais nada para fazer. Nenhum de nós se lembra de uma etapa da vida sem ela.

A par do choro dos que ficam, encheu-se o Céu de alegria pela chegada da nossa Mãe, Avó, Bisavó e amiga. Pelo exemplo de vida, acreditamos que partiu uma das heroínas da história portuguesa do último século.

Com os protestos da mais elevada consideração,

Em nome da família, o neto mais velho,

Rodrigo Alexander Davidson de Sousa-Pinto

São Domingos de Rana, Portugal

24/02/2012

REQUIEM POR UMA PRINCESA: INFANTA MARIA ADELAIDE DE BRAGANÇA, 1912-2012

Filed under: D Maria Adelaide de Bragança — ABM @ 5:21 pm

Maria Adelaide Manuela Amélia Micaela Rafaela de Bragança. (31 de Janeiro de 1912-24 de Fevereiro de 2012).

Uma parte significativa da história de Portugal está ligada a uma família, os Bragança, especialmente desde que um deles, João, aceitou em 1640 liderar a revolta que devolveu aos portugueses, em Portugal, o epicentro da sua vida nacional (hoje soi dizer-se, quase empresarialmente “o centro de decisão).

Por um período, parecia que Portugal, uma das mais velhas nações da Europa, iria perecer no caldo ibérico castelhano. Mas não aconteceu, mercê de enormes sacrifícios por parte dos portugueses e dos próprios Bragança.

Assim tornada na primeira família da nobreza de Portugal, os Bragança exerceram o poder soberano entre 1640 e 1910, quando um ignóbil duplo assassinato, seguido de um golpe militar liderado por uma virulenta, raivosa minoria radical em Lisboa, com um discreto piscar do olho britânico, sucederam em fazer inaugurar a Era das repúblicas portuguesas.

Já sei vai na terceira, cada uma com as suas peculiariades, qual delas a pior.

Os Bragança tiveram momentos altos e baixos, alguns por razões internas, outros – como os devaneios napoleónicos – vindos de fora. Marcou a história a sua permanência no Brasil, os únicos reais que escaparam às garras do tirano francês, e em particular a virulenta relação entre dois deles, irmãos, Miguel e Pedro, isto há quase duzentos anos. Atrás deles, foram a política e a sociedade portuguesas, em cuja dialéctica ainda reverberam traços desses tempos. Miguel era absolutista e conservador católico, Pedro liberal, constitucionalista e um tanto revolucionário.  Pelo meio, uma crescente burguesia em Lisboa, na qual germinavam ideias republicanas, laicas e liberais, afiliadas em casas maçónicas e uma série de grupos diversos, foi mordiscando a soberania dos Bragança, sedentos de poder, especialmente a partir da última década do Século XIX, quando se definiam as fronteiras do penúltimo Império (se se aceitar a tese do Fernando Pessoa que o último é a língua).

Da monumental zanga entre os dois irmãos resultou uma cisão na família. Pedro e seus descendentes reinaram em Portugal, enquanto que Miguel, exilado na Áustria desde Évora-Monte, e que fora rei durante seis anos, reclamava à distância o seu direito e o dos seus à coroa de Portugal. Casou tarde e teve uma catrefada de filhos.

Um deles, Miguel também, é o pai de D. Adelaide, a que faleceu hoje. Até hoje, ela era a única neta viva de Dom Miguel de Bragança.

Entretanto, a história faz das suas. Manuel, o último monarca reinante de Portugal, morreu em 1932 sem deixar descendência. E através de um complexo processo negocial, os Bragança resolveram a questão da cisão familiar e da sucessão de direitos: o pretendente à coroa de Portugal passaria a ser Duarte Nuno, o irmão mais velho de Adelaide e o pai de Duarte Pio, o actual Duque de Bragança.

Sobre D. Adelaide, cuja fotografia se pode observar mais acima, tirada no dia do seu centésimo aniversário, há apenas três semanas, já coloquei algures as informações biográficas de relevo.

Claramente, a nobreza da sua genealogia foi superada pela nobreza do seu carácter e uma vida familiar e pública exemplar.

Mas para o leitor mais distraído, repito em baixo o texto que copiei da Wikipédia:

Maria Adelaide de Bragança, Infanta de Portugal (Saint-Jean-de-Luz, 31 de Janeiro de 1912 – Lisboa, 24 de Fevereiro de 2012), é filha de Miguel II de Bragança e de Maria Teresa de Löwenstein-Wertheim-Rosenberg.

Casou com Nicolaas van Uden em 13 de Outubro de 1945, em Viena. Do casamento, tiveram seis filhos:

Adrianus Sergius Antonius Maria van Uden (1946-)
Nuno Miguel de Bragança van Uden (1947-)
Francisco Xavier de Bragança van Uden (1949-)
Filipa Teodora Maria van Uden (1951-)
Miguel Ignacio van Uden (1954-)
Maria Teresa de Bragança van Uden (1956-)

Viveu em Viena, trabalhando como enfermeira e assistente social. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando havia bombardeamentos, deslocava-se durante a noite para os locais atingidos, para prestar ajuda às vítimas. Integrou um movimento de resistência à Gestapo, tendo sido presa e condenada à morte pelos nazis. O então Presidente do Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar, interveio junto dos alemães, afirmando que D. Maria Adelaide era cidadã nacional. Desta intervenção da diplomacia portuguesa resultou a sua libertação e deportação imediata, tendo-se estabelecido na Suíça, onde vivia o seu irmão Duarte Nuno, Duque de Bragança. Após a guerra, a família regressou para a Áustria.

Em 1949, D. Maria Adelaide foi viver para Portugal. Enquanto isso, o marido graduou-se em medicina na Universidade de Viena, especializando-se em doenças de pele. Mas quando Nicolaas van Uden chegou a Portugal, não lhe foi dada equivalência, pelo que não pôde exercer a profissão. Foi então trabalhar num pequeno laboratório de pesquisa na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, até que teve a oportunidade de trabalhar em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian. Assim nasceu o Instituto Gulbenkian de Ciência, que promove a investigação científica em diversas áreas desde os anos 50.

Originalmente, a família Van Uden instalou-se na Quinta do Carmo, em Almada. A Infanta Maria Adelaide começou a trabalhar como assistente social em algumas iniciativas locais, dado que a Trafaria e o Monte da Caparica eram locais muito pobres.
Alguns círculos monárquicos em Portugal consideram que a Infanta D. Maria Adelaide, por ser neta de rei (D. Miguel I), é o único membro da Família Bragança que poderia reclamar um direito ao trono de Portugal, de acordo com as leis tradicionais de sucessão, em representação dos direitos dinásticos de seu pai, D. Miguel, a quem os legitimistas reconheciam a designação de D. Miguel II. A maioria dos monárquicos reconhece, no entanto, ao Duque de Bragança, D. Duarte Pio, bisneto de D. Miguel I e sobrinho da Infanta Maria Adelaide, o direito ao Trono de Portugal, caso a Monarquia fosse restaurada.

Em 31 de Janeiro de 2012, data do centenário do seu nascimento, foi agraciada pelo Presidente da República Portuguesa com a medalha da Ordem do Mérito.

(fim)

19/12/2011

KIM IL IUNG: DESOLÉ

Filed under: In Memoriam, Kim Il Iung — ABM @ 1:30 pm

Anunciada a sua morte hoje.

 

O número dois da dinastia comunista norte-coreana.

23/11/2011

MARIA JOÃO SPENCER, 1956-2011

Filed under: In Memoriam, Maria João Spencer — ABM @ 6:19 am

She Found A Home In Our Hearts.

12/09/2011

11 DE SETEMBRO DE 2011: UMA EVOCAÇÃO

Recordando as cerca de três mil pessoas inocentes. maioritariamente norte-americanos, assassinadas brutalmente há dez anos por um punhado de pessoas que achavam ser esta uma forma aceitável de expressarem os seus ódios.

Remembering the approximately three thousand innocent people, mostly Americans, who were brutally murdered ten years ago, by a bunch of individuals who thought this was an acceptable way of expressing their hatreds.

26/05/2011

BOA NOITE, MANUELA ARRAIANO

Filed under: António Botelho de Melo, In Memoriam, Manuela Arraiano — ABM @ 3:13 am

Tardiamente, por uma nota enviada a meio da noite de ontem (24 de Maio) pelo Rogério Carreira, tomei conhecimento de que a Manuela Arraiano, que trabalhou no Rádio Clube de Moçambique,  havia falecido em Bruxelas, onde residia, no dia 15 de Maio de 2011.

A notícia motivou-me para escrever esta curta nota.

Eu nasci em 1960. Desde cedo me aficionei a escutar as emissões do Rádio Clube de Moçambique, que, acredito hoje reunia um conjunto de profissionais e de talentos invulgares e em quase total desproporção àquilo que um blogueiro que li hoje chamava, com algum sentido de humor, “a pequena tribo branca da África Oriental”. Ainda hoje, se me sentar com quem se lembra, consigo facilmente recordar os detalhes mais ínfimos de muito do que escutei no Rádio Clube de Moçambique.

E isso devia-se, mais do que tudo, à qualidade de quem lá mandava e trabalhava.

Não há outra explicação.

Saí de Moçambique pela primeira vez em Fevereiro de 1975, com 15 anos de idade. Pelo que o meu consumo até à data, do que o RCM produzia, foi feito com os ouvidos e a mente de um miudo e de um jovem adolescente. Mas os anos deram-me conhecimento e perspectiva. Pude comparar notas.

Na altura, não sabia quem era a Manuela Arraiano. Infelizmente, ainda não sei. Pouco ou nada encontro. Acredito que fazia parte da equipa dos magníficos que faziam a rádio em Moçambique.

Só há relativamente pouco tempo é que aprendi que era dela a voz lânguida e maternal que, com um intimismo que mesmo então já me despertava qualquer coisa, a meio da noite, já todos a dormir lá em casa (e se o pai Melo sonhasse que eu àquela hora estava debaixo dos lençóis a escutar o rádio eu correria sérios riscos disciplinares), creio que cerca da meia noite e meia, assinalava o fecho da emissão da noite com uma despedida de todos quantos estariam de pé ou a escutar a transmissão.

Noctívago latente, claro que eu conhecia de cor esse ritual. De facto, eu deitava-me mais tarde pois ficava a ler um livro qualquer até quase às duas horas da manhã. Habitualmente, eu esperava por esse fecho de emissão para mudar directamente para uma emissão da SABC, em onda curta e naquela esquisita mistura de inglês e Afrikaans, a qual continuava até pelo menos eu adormecer.

O curioso – e aí reside um aspecto peculiar, é que, noite após noite, eu não mudava do RCM para a SABC sem primeiro escutar na totalidade o que me parecia uma espécie de balada de despedida da estação – na voz da Manuela Arraiano. Acho que logo a seguir o RCM ainda emitia o hino nacional português, aquela invectiva republicana e anti-britânica do Kheil. Mas esse não escutava. Não conseguia. Pois era tão estridente e tão totalmente dissonante com o ambiente tranquilo e escuro da hora, que chocava.

Certamente dissonante em relação à mensagem proferida pela Manuela, com aquela música tristonha como pano de fundo.

Muitos, muitos anos depois, por causa das modernices da internet e dos que se ainda lembravam e queriam relembrar, pude escutar novamente a algo mistica mensagem de boas noites de Manuela Arraiano no Rádio Clube de Moçambique.

E senti algo.

Porquê?

A mensagem, em si, é tão inocente que é quase inócua. A música uma conhecida balada, tristonha, até algo bonita.

É outra coisa.

Nenhuma estação de rádio ou televisão que se preze hoje em dia, despede-se de ninguém. Neste mundo moderno, online, quer-se tudo e todos acordados 24 horas por dia, as últimas desgraças de todo o mundo retransmitidas imediatamente e ao vivo, as banalidades insuportáveis dos políticos e das celebridades de 14 minutos e meio do Andy Warhol cuidadosamente empacotadas e repetidas ad-nauseum, como que para preencher quotas virtuais de repartição administrativa das influências e do discurso político.

A vida que eu conheci em África tinha uma cadência muito mais clara. O dia seguinte era cortado por uma noite de descanso. E o fim dessa noite era assinalado pelo fecho da emissão da Estação A do Rádio Clube. Para mim, creio que esse ritual, a voz da Manuela Arraiano e a música arrastada, eram o fim do dia, que eu prolongava um nadinha com a rádio sul-africana.

Depois era o silêncio, o escuro, o descanso, até à madrugada do dia seguinte.

E esse momento de pausa, e essa mensagem simples, a essa hora, tinha significado. Era uma reafirmação de uma certa ordem sequencial da vida, da nossa humanidade, do respeito devido a todos aqueles que, por uma razão ou outra, estavam acordados àquela hora.

Claro que eu na altura não sonhava que vivia sobre um vulcão, não sabia nada sobre regimes coloniais, sobre movimentos guerrilheiros, sobre equilíbrios de forças, democracia e muito menos política. Crescera no que já era antes de eu ser, e partia daí. As coisas só podiam mudar e para melhor. Nesse aspecto, a ilusão de Lourenço Marques era quase perfeita para mim, pela dicotomia entre o mato infindável e fascinante, e a modernidade sofisticada da cidade, e a promessa de ambos.

No dia 25 de Abril de 1974 à tarde, tive que perguntar à minha mãe o que era um golpe de Estado. E mesmo quando ela me explicou, e da sua ligação directa com a situação na minha terra, encolhi o ombros e até achei muito bem que Moçambique ficasse independente. Aquilo de só nós os brancos mandarmos em Moçambique só porque a pele era clara parecia um pouco anacrónico. Era o que eu pensava. Mas digamos que, na escala cósmica das minhas preocupações na altura, essa era uma questão que se havia de resolver. Um dia. Ainda em minha vida, mas não dali a uma semana, ou um mês.

Rapidamente, assisti, como quase todos os da pequena tribo branca da África Oriental, a uma tempestade. Muitos “regressaram” a Portugal. Outros, como eu, meramente saíram. Para quase todos, foi um exílio emocional, marcado pelo corte entre essa cadência da natureza o dia a seguir a noite, a noite a seguir ao dia, o trabalho, a escola, o desporto, os amigos. De repente toda a gente que eu conhecia desapareceu, perdeu quase tudo, os empregos, os bens, os amigos e as referências, e eu encontrei-me num país que conhecia mas só de longe, cujas referências, rituais e especificidades me eram no mínimo estranhas, longe da família, praticamente  a viver de uma caridade (solidariedade?) relutante e alheia.

Lutei.

Trinta e tal anos volveram antes que eu tivesse a chance de escutar a novamente mensagem de Manuela Arraiano – uma injustiça à Manuela, que, descobri, era uma mulher muitíssimo mais culta, com obra feita e interessante que o breve solilóquio radiofónico de três minutos e trinta e seis segundos que dura a sua mensagem de boa noite.

Mas é por causa dessa mensagem que no seu nome foi, e é, repetido.

É uma ironia.

Quando escutei novamente a mensagem de despedida do Rádio Clube que ela gravou há tantos anos, recordei-me das noites, nos anos 60 e 70, em que a ouvi. Aquelas noites quentes, escuras, silenciosas de África, o céu ao mesmo tempo tão escuro e tão reluzente com um milhão de estrelas, as folhas das grandes árvores tropicais a oscilarem suavemente por força de um vento suave, invisível, apaziguador.

Era tempo de descansar, de dormir. O dia seguinte será um novo dia, cheio de coisas para fazer.

De coisas boas para fazer.

Foi o que eu senti quando revisitei a curta mensagem de Manuela Arraiano.

E por ser uma memória tão pessoal, tão mágica e tão profunda, pensando bem, talvez tal não seja tão insignificante, nem tão pouco redutor, para nós todos e para a Manuela.

Aquela pequena mensagem, perdida da noite, que Manuela interpretou, afinal, ecoou pelos tempos, e pela memória.

Recordou-me a paz que foi, e era, uma juventude despreocupada, antes da tempestade que se abateu.

Por tudo isso, recordar-me-ei sempre dessa mensagem, e dela.

Boa noite, Manuela Arraiano.

Dorme em paz.

(para ouvir prima AQUI)

15/12/2010

RICHARD HOLBROOKE

Filed under: EUA, In Memoriam, Richard Holbrooke — ABM @ 1:53 am

Richard Holbrooke

por ABM (14 de Dezembro de 2010)

A morte por doença do enviado especial dos EUA ao Afeganistão e ao Paquistão,  Richard Holbrooke, este fim de semana, foi uma infeliz recordação de que gente boa e experiente sempre faz falta. Especialmente no palco dos grandes conflitos que grassam pelo mundo, como é o caso do Afeganistão, um país onde parece que nem se chegou ainda ao fim do princípio dos problemas que ali decorrem há mais que trinta anos.

Sobre Holbrooke, que estudou na mesma universidade que eu nos anos 60, a mácula para mim está em ter deixado Suharto dar cabo de Timor Leste nos anos 70, quando poderia ter ajudado a evitar o que parece que foi uma longa chacina por parte da Indonésia. Era a Guerra Fria no seu melhor.

O que sé demonstra que sobre o melhor pano cai a mácula.

27/11/2010

UM THRILLER COLONIAL

http://www.youtube.com/v/3gCtptcJY0I?fs=1&hl=pt_PT

(em cima: a 6ª Sinfonia de Tchaikowsky, Pathétique, sublimemente interpretada pela orquestra Hoshima, do Japão. Dura 49 minutos e vale todos eles, especialmente os primeiros 20 minutos.)

por ABM (27 de Novembro de 2010)

A minha crítica do livro O Anjo Branco, um romance histórico de José Rodrigues dos Santos.

Introdução

Para quem não acompanhou os eventos, o anúncio inicial, em Portugal continental, da publicação do mais recente romance, da autoria de José Rodrigues dos Santos (JRS) foi acompanhado de informações crípticas de qual seria o seu conteúdo e temática. Alguns desses dados foram sendo gradualmente revelados e reflectidos em textos que escrevi aqui, mais ou menos nesta ordem:

  1. que era sobre Moçambique;
  2. que era baseado na vida do pai do autor;
  3. que versava o que se pode considerar o período final da soberania portuguesa naquele território africano;
  4. que, sendo um romance, assentava em aturada pesquisa factual em torno de inúmeros aspectos desse período;
  5. que conteria informações “explosivas”, um “grande segredo”;
  6. que inovaria, na medida em que trataria numa nova luz a era e os eventos da época, procurando, pelo escrúpulo e objectividade dos factos coligidos, escapar ao conhecido fosso no que concerne a temas ainda considerados para todos os efeitos difíceis de reconciliar, como são as visões do que foi o colonialismo português em Moçambique, e a natureza do conflito armado desencadeado a partir de meados dos anos 60 no Norte de Moçambique.

E mais tarde,

7. que descrevia, em detalhe, um dos episódios hoje mais conhecidos (por alguns portugueses, essencialmente) desse conflito, o chamado Massacre de Wiriyamu, ocorrido em Dezembro de 1972 na localidade com o mesmo nome, situada nos arredores da cidade de Tete, no Norte de Moçambique, em que um grupo de comandos portugueses ( a 6ª Companhia) assassinou de forma bárbara um número considerável (mas parece que não inteiramente quantificado) de aldeões moçambicanos.

A abordagem desta temática – acompanhada de considerável conteúdo biográfico do pai do autor – é algo de novo para JRS, que nasceu e viveu até aos dez anos de idade em Moçambique e cujo pai trabalhou naquela antiga província portuguesa como médico.

Essa biografia foi de certa forma reconstruída, pois em entrevistas concedidas JRS concede que o pai praticamente nunca lhe falou dos eventos relatados à lupa no romance.

JRS, um jornalista que é conhecido em Portugal essencialmente por fazer regularmente, desde há alguns anos a esta parte, a locução dos noticiários num dos canais públicos da televisão portuguesa, teve algum sucesso até esta data como autor de um número de obras de ficção, cuja raiz mais aproximada é aquilo a que se pode chamar “literatura de aeroporto” – livros de mistério, mística e intriga, de fácil leitura, leves, acessível por parte de um mercado digamos que menos exigente.

Aliás a exploração com algum sucesso deste tipo de literatura, basicamente desconsiderada em Portugal pela sua fraca ou nula qualidade, e o seu posicionamento como um produto comercial de grande consumo, distinguiu JRS do que é considerado a norma no mercado livreiro português, na medida em que a forma e a tónica da comercialização das suas obras segue relativamente de perto, ou alinha-se adequadamente, à linha seguida, neste e noutros países, para obras deste género, como é caso com – salvaguardadas algumas abissais diferenças – Sidney Sheldon e Dan Brown, dois casos de sucesso nos Estados Unidos e no resto do mundo.

Por sua parte, generosamente, o autor mostra-se indiferente, ou melhor, não exibe grandes ilusões nem aparenta sentir-se minimamente perturbado, com a rotulação da sua obra como algo menos que bom, procurando, quando muito, a resposta a essa questão no relativo sucesso (à escala portuguesa) obtido com as vendas dos seus livros, o número de países onde é lido e o número de línguas em que as suas obras estão traduzidas.

Este é, notoriamente, um dos segredos mais mal guardados de JRS, que inclusivé numa interessantíssima e relativamente longa série de entrevistas gravadas para a televisão, com um número de autores, principalmente estrangeiros, em que se demonstrou bem preparado e até pessoalmente curioso, repetidamente prescrutou os seus entrevistados sobre as suas obras, como as viam, como se viam, como as concebiam, como as vendiam.

E se a escrita comercial era literatura ou não.

De longe, os entrevistados americanos, pouco afeitos às periclitâncias do meio cultural português, deram as melhores respostas.

Creio que, na essência do sucesso de JRS, residem dois factores primários e muito simples: 1) a especialização num segmento do consumo de livros em que já havia provas de haver mercado inclusivé em Portugal – a tal “literatura de aeroporto”, à la Dan Brown, Sidney Sheldon  e outros – e 2) a sua comercialização quase desavergonhadamente comercial e agressiva, envolvendo todos os grandes canais de distribuição, desde as FNACs até as prateleiras da cadeia de supermercados Continente. Com a imagem e o nome familiares do autor/leitor de notícias do Canal 1 da RTP à frente.

Puro marketing. E muito eficaz.

Mas que por si só diz rigorosamente nada sobre a sua escrita.

Isto para não referir a cobertura incomum dos sucessivos lançamentos por parte da comunicação social a um dos seus, que só alavanca mais o esforço da venda. Há umas semanas assisti, como já referi antes, à cerimónia de lançamento de O Anjo Branco na Sociedade de Geografia de Lisboa e aí notava-se a diferença com outras situações semelhantes: a audiência era a habitual pandilha dos amigos/admiradores/família, mas a imprensa que lá estava parecia que estava a cobrir o evento de uma estrela de rock. Fleugmático, e de forma correspondente, por sua vez JRS portou-se com a modéstia de uma.

Situação em que não é estranha, nem inocente, a fortuita circunstância do autor ser uma cara conhecida por milhões de potenciais consumidores por ler notícias no principal programa de notícias de televisão português. Digamos que uma obra incomparavelmente melhor, concebida por um discreto e até há pouco obscuro professor de história numa universidade pública em Maputo – João Paulo Borges Coelho – apesar de recipiente de um dos grandes prémios de literatura portuguesa (ou melhor, de língua portuguesa) não mereceu, por comparação, sequer uma nota de rodapé em termos de notoriedade.

O Tema e o Contexto

Apesar de volvidos 36 anos desde o golpe de Estado que liquidou a II República e cujos contornos fundamentais eram ser uma ditadura conservadora e defensora do prolongamento, sem data-limite, da soberania portuguesa nos territórios situados um pouco por todo o mundo, com destaque para Angola e Moçambique, e a subsequente substituição por um regime democrático de cariz parlamentar-partidário, até esta data, a exploração e contextualização dessa presença e ainda da chamada descolonização, continuam a ser tópicos de aceso debate em Portugal.

Anote-se que não é para menos. Não há qualquer paralelo, em novecentos anos de história portuguesa, de um processo tão violento e tão abrupto que afectou vários milhões de pessoas, o “retorno” à Europa de cerca de um milhão de portugueses e seus descendentes, perdas patrimoniais incalculáveis e nunca ressarcidas, e a independênca para perto de quinze milhões de africanos, processo que foi precedido por uma guerra que durou cerca de treze anos em três frentes completamente diferentes: Guiné, Angola e Moçambique.

Em Portugal, a atitude prevalecente em relação a esta temática é, apesar de centenas de milhares dos seus cidadãos terem sido compelidos a ir servir e combater nos teatros africanos, de uma quase total apatia e esquecimento.

Uma minoria, especialmente entre os antigos residentes nas antigas províncias africanas, alberga ressentimentos de vária ordem e intensidade, pese o facto de terem já decorrido praticamente quatro décadas desde o final dos eventos.

Creio que o sentimento geral, de parte a parte, é de que, em última instância, quer para os que viveram uma vida de róseas recordações, quer os que combateram principalmente na Guiné e em Moçambique, foi um absurdo de memórias boas e más, de oportunidades perdidas, de glórias e de sofrimento, de amizades perdidas. As antigas províncias seguiram o seu caminho, com todas as oportunidades e todos os problemas inerentes, e, especialmente nos dias que correm, parece que a nação portuguesa ainda não recuperou nem do trauma psicológico nem das consequências mais práticas de ter deixado de ser uma entidade económica e social multi-territorial e multi-cultural, com um projecto histórico centenário. Pois que o caminho seguido a seguir a 1974, simbolizado pelo “para a Europa, e em força” de Mário Soares, em Novembro de 2010, parece estar agora seriamente em risco, sem se vislumbrar um plano alternativo.

Foi neste ambiente que JRS publicou O Anjo Branco.

A história

A história acompanha o percurso, entre os anos 30 e o ano de 1973, de José Branco, desde algures em Portugal, até à sua retirada da cidade de Tete, onde serviu como médico e director do hospital local, na sequência dos eventos de Wiriyamu.

Nota-se que o autor fez um esforço considerável de prestar atenção aos detalhes dos diferentes contextos, desde os nomes, a geografia dos locais, e a linguagem. Em Moçambique, por exemplo, é utilizado abundantemente o linguajar local – o “Yeah”, o “maningue”,  o “tatá”, “matabicho”, etc – que poderão eventualmente impressionar quem conhece esses aspectos mais ou menos lúdicos da vivência local. Ou as marcas de cerveja e dos refrigerantes locais (deve-se ter esquecido da Tombazana, uma velha favorita minha nos recreios da minha escola primária, Rebelo da Silva) e eventos concorrentes com a altura em que decorre a narrativa.

Interessante, mas só isso, e pouco ou nada relevante para quem não conheceu essa realidade.

A estrutura da linha temporal da obra, sendo cronológica, é algo errática, na medida em que, havendo linhas narrativas paralelas – o autor não segue apenas o percurso do pai ficcionalizado, há a considerar o percurso de Diogo, um militar de terceira linha que é fundamental como a ferramenta privilegiada do autor para poder dar a dimensão pretendida ao seu relato – “salta” por vezes vários anos, presume-se que por economia de espaço ou falta de conteúdo. Assim, a personagem Branco casa-se no fim de um capítulo, e no início do capítulo seguinte já haviam passado vários anos. Sem quase qualquer informação do que acontecera entretanto, pelo que o leitor é forçado a presumir que nada aconteceu. Pois se nada foi reportado, só pode ser porque nada aconteceu.

Todo o relato e a evolução das personagens descritas pelo autor, facilmente se apreende, são uma relativamente complexa construção com um objectivo específico, que evolve e se dirige unicamente para um único palco espacial e temporal, uma circunstância fulcral, onde todos os elementos se reúnem: os eventos do massacre ocorrido em meados de Dezembro de 1972 nos arredores de Tete. Que é tratado mesmo no fim do livro, após uma espécie de pré-anúncio de entrada nas portas do Inferno, com uma citação da conhecida obra de Dante Alighieri, a Divina Comédia.

No processo, ao leitor é servido um cocktail de tipologias algo plastificadas, da humanidade que povoava a sociedade colonial moçambicana, vistas naturalmente duma óptica portuguesa – afinal, José Branco e Diogo são portugueses. JRS procura dar um vislumbre da algo inocente, ou ingénua, dolce vita do branco colonial, com a presença do inevitável criado doméstico, os variados funcionários da administração colonial, o agente da Pide, o comandante da PSP, os técnicos de Cabora Bassa, a tropa fandanga, a esposa perfeitamente estúpida, a aérea e inconsequente Mimicas, a boazinha e sacrificada enfermeira espanhola, e até a inevitável bifa boazona como o milho, desempoeirada, sexualmente disponível e entiçada pelo macho latino, casado ou não, na forma de uma estonteante rodesiana, que no fim se descobre que é uma cabra calculista e ainda por agente secreta dos rodesianos – e que, apesar das putativas intimidades, embrulha a personalidade José Branco com a Pide.

Apropriada a essa moldura criada por JRS, a estes coloniais se junta, quase invisível, a massa distante e miserável dos moçambicanos rurais, quase não entidades, deixados ao seu destino, apanhados entre dois fogos, entre a tropa fandanga portuguesa que, à excepção dos comandos (que é descrita como uma tropa especial) JRS caracteriza quase comicamente, e a eficácia silenciosa dos guerrilheiros da Frelimo (os “turras”). Que, como consta no registo histórico, a partir da operação Nó Górdio em 1970, concebida pelo general Kaúlza de Arriaga, o novo cônsul de Marcello Caetano, desviaram a sua atenção e actividade guerrilheira de Cabo Delgado para a zona de Tete.

Naturalmente, não é por acaso que essa massa de gente miserável do mato era invisível para todos menos menos para uma pessoa: a pessoa do pai ficcionalizado, José Branco, que inclusivé cria, tal como o pai real do autor, o Serviço Médico Aéreo, nome um tanto aguerrido para um teco-teco que percorria com uma enfermeira os confins de Tete semanalmente, para acudir de forma minimalista as populações isoladas no mato (muito melhor do que nada,  que era o que havia antes, diga-se).

Finalmente, no relato de JRS, o ingrediente da consciência da nascente nação e das coisas para vir, corporizada na personagem de Domingos Rouco (outro decalque da realidade, desta vez do conhecido Dr. Domingos Arouca, uma figura de referência da história de Moçambique), a correia de transmissão da realidade eminente e do que “realmente” se estava a passar na saga da guerra colonial, para o algo ingénuo Dr. Branco (e por essa via para o leitor mais incauto, e por extensão, à parte de leão da elite colonial).

E a conclusão do relato no desenrolar de eventos que culmina com o massacre das gentes que viviam em Wiriyamu, que – a verdade seja dita, para a ditadura foi essencialmente um muito sério problema de relações públicas, por coincidir com uma visita de Estado que Marcello Caetano fez a Londres em meados de 1973.

Mas Wiriyamu foi mais que isso, claro. Muito mais . Por razões pouco plausíveis, matou-se muita gente inocente à toa.  Poderá ser fácil para muitos a relativização deste episódio, especialmente numa era como a que vivemos, em que se assistiu a episódios como o massacre de 11 de Setembro nos Estados Unidos, os terríveis massacres na Bósnia-Herzegovina ou a casa de horrores que foi o Ruanda em 1995, apenas para mencionar alguns. Mas este – Wiriyamu – foi “nosso” e perpetrado no “nosso” tempo. Por si só isso deveria ser alvo de reflexão. E motivo para a expressão de pesar e de respeito pelos mortos.

Mas o leitor nunca encontrará esta úlima aferição – que é minha- na obra de José Rodrigues dos Santos.

Crítica

Tendo vivido em Moçambique até aos 15 anos, e tendo a esta hora já quase uma vida de leitura dos factos históricos detalhadamente aludidos na obra O Anjo Branco, confesso que, para mim, a leitura deste livro infelizmente ressacava de déjà vu. Por mais vezes que eu gostaria de o ter feito, encontrava-me, paralelamente à leitura do enredo, a “picar” mentalmente os locais, os termos, os trajectos, se isto ou aquilo era exactamente como JRS descrevia. E quanto a isso devo dizer que, no cômputo geral – louvado seja – ele fez mais ou menos o trabalho de casa. Mas, não sendo um revivalista nato,  achei aquilo um tanto chato. Uma distracção, até. Tudo parecia artifical, uma re-criação. Um mero artifício.

Pelo contrário, passei o tempo a interrogar-me como é que alguém que não viveu Moçambique nos anos 60 e 70, irá alguma vez entender o alcance, o detalhe, o significado de todo aquele artilhado de referências. E chego à conclusão que, no essencial, aquilo tudo é basicamente irrelevante, ou melhor, pouco relevante. Especialmente se esse hipotético leitor não for português ou moçambicano (a 24 euros em Portugal a cópia, boa sorte aos meus amigos moçambicanos…) os únicos que poderão entender mais aproximadamente os significados explícitos e implícitos das múltiplas referências.

A sensação de déjà vu percorre ainda a maior parte do relato. Quem estudou a história recente de Portugal, ou quem foi contemporâneo dela, ao ler esta obra estará condenado também a ir “picando” a sequência de eventos em ocorridos naquela altura. Possivelmente interessante para quem não sabe, chato que baste para que, como eu, está careca de saber.

Retirado isso, fica a primeira grande crítica ao que li: o enredo, por si só, é interessante apenas e unicamente por uma razão, e mesmo assim só marginalmente: porque JRS o jornalista estrela da RTP e escritor com algum sucesso nos avisa previamente que aquilo é aproximadamente decalcado do percurso feito pelo seu pai, o Dr Rodrigues dos Santos. Que ao dinamizar a iniciativa do Serviço Médico Aéreo em Tete só pode ser alvo de merecido aplauso. Mas mesmo aí só isso. A personagem descrita no livro é menos que interessante, tem uma tipologia algo bi-dimensional. Sendo a principal do enredo, no fundo é apenas mais uma de um novelo de pessoas que fazem a história ali contada. Não é heróico, não sofre, não faz quase nada de inusitado, entra e sai de cena sem que o leitor sinta que está na presença de alguém invulgar, ou alguém que fez algo de excepcional. Como há uns dias escreveu um exmo. Leitor, pessoas como ele (o pai do autor na vida real) houve-as às dúzias, parecendo quase uma injustiça apontar os feitos desta e ignorar os dos outros todos.

Por outro lado, por definição, sendo o enredo quase matematicamente decalcado duma realidade bem conhecida de quem proventura estiver familiarizado com a realidade moçambicana nos anos 60 e 70, não é, não pode ser um thriller à moda das obras anteriores de JRS.

Nem há ali qualquer revelação incandescente sobre seja o que for.

Portanto, O Anjo Branco nem é um thriller, nem é o herói da história um herói.

Sendo assim, esta obra é então o quê?

A resposta é fácil. Eu creio que JRS se enganou, ou foi enganado, quando supôs, ou quando lhe disseram, quando se convenceu, que a história do seu pai, do seu percurso feito em Moçambique, que culminou com o seu muito breve cruzamento com a tragédia de Wiriyamu em Dezembro de 1972, era uma história interessante ao ponto de merecer – mesmo ficcionalizado – um livro de quase setecentas páginas.

Com todo o devido respeito pelo Sr. Dr. Rodrigues dos Santos e tudo o que fez, não merece.

Ou então, apesar de introduzir o alegórico permitido pela ferramenta da ficcionalização, JRS simplesmente não conseguiu adicionar a dimensão épica, emocional, moral, ao seu texto, que assim se lê um pouco como se vê um documentário da National Geographic sentado em casa em frente ao televisor.

Por falta de melhor justificativo para a razão de ser desta obra no contexto do que JRS é e já fez, o que acabo por magicar é que, talvez subrepticiamente, o filho escritor quis heroificar e honrar o pai médico-aviador com um livro evocativo, para o que aliás se dispôs a calcorrear os confins de Portugal e de África e entrevistar toda uma série de pessoas (algumas das quais apresentou nominalmente na Sociedade de Geografia de Lisboa), coligindo um sem fim de dados, para no fim tentar fazer aquilo que até agora tem tido algum sucesso a fazer: conceber um thriller com um herói.

A leitura desta obra coloca outra questão que abordarei apenas como referência pois já escrevi antes em detalhe mais do que suficiente sobre isso: a ficcionalização ali contida. Só que na altura em que considerei o tema da ficcionalização, fi-lo no abstracto, sem haver lido o texto. Agora que já li, a questão é mais paradoxal, na medida em que o que encontrei foi uma ficção completamente assediada pela realidade dos factos. Imagino que a personagem Diogo seja uma mera ferramenta literária para suportar a explanação, pelo autor, do enredo. Ele é a mosca na parede que vê o que outros não podem ver. Mas mesmo essa personagem serve essencialmente para transmitir factos. E mesmo que este ou aquele facto, ou situação, ou contexto sejam errados para quem está dentro deles, o autor poderá sempre recuar e dizer que essa parte foi ficcionalizada. O leitor mais informado fica assim cercado pela argumentação.

E, pessoalmente, considero esta uma situação que perturba e é por isso que não gosto de ler os chamados “romances históricos”.

Permita-me o exnmo. Leitor dar um exemplo claro do que falo. Há uns tempos atrás enganei-me completamente (acho que fui ludibriado, na verdade) quando comprei a obra Catarina de Bragança, da autoria de Isabel Stilwell, que é um dos pequenos best sellers portugueses recentes e que pensava eu que contava a história da desgraçada filha de João IV que, após a chamada Restauração em 1640, por razões de Estado, casou, mediante o pagamento de um formidável lobolo, o monarca britânico da altura, o incorrigível Carlos II, ele por sua vez “restaurado” no trono depois da breve (e única) fase republicana britânica, liderada por Oliver Cromwell. Já li que baste sobre esta era, mas achei que seria interessante reler a história na versão stilwelliana. Bem, apesar da capa deste livro nada indicar (ao menos a capa de O Anjo Branco indica que é um romance) afinal aquilo era um “romance histórico”, em que Isabel Stilwell permite-se, e quer-nos fazer crer, que estava lá, que sabe, a todo e qualquer momento, o que se passou e o que ia na mente da desgraçada Catarina, da família real portuguesa e de todos os que os rodeavam. Eu achei aquele relato pouco credível e essencialmente insuportável, pois eu queria a verdade ou uma aproximação dela, não o romancear delirante e bem intencionado da Isabel, transplantado para a filha de João IV. Mas estes dias este tipo de literatura anda muito na moda. Eu bem que tento de fugir dele, mas neste caso fui enganado.

De forma mais atenuada, a obra de JRS sofre do mesmo problema.

O Anjo Branco foi também comercializado com a argumentação de que apresentava as coisas de uma nova maneira, um novo olhar sobre a história portuguesa (e moçambicana) recente, mais fria, mais objectiva, mais distanciada das ainda luzentes disputas ideológicas em relação ao julgamento feito da História. De facto, na minha leitura, constatei que JRS deve ter prestado tanta ou mais atenção, e dispendido tanto ou maior esforço, a contar uma estória que fosse tão isenta de julgamento, tão politicamente correcta, tão factualmente incontroversa, quanto aparentemente prestou, e dispendeu, a agregar os miríades pequenos detalhes da vida e dos locais onde se desenvolve o enredo. Isso tem a virtude de o colocar bem na imagem – o politicamente correcto é uma maneira de estar na vida, especialmente em Portugal, especialmente para um popular apresentador de televisão – e de concretizar algo verdadeiramente insólito: o de ter sido capaz de escrever um livro de setecentas páginas sobre o tempo colonial e a guerra em Moçambique, e provavelmente de a obra ser inatacável por parte das várias correntes portuguesas actuais em relação ao tópico, e até da prevalecente doutrina moçambicana em relação ao assunto.

Isso sim, é que foi obra.

Só não sei se, nessa óptica, seja obra que interesse ler. O politicamente correcto tende a não ter paixão, tende a acinzentar a realidade. Tende a corroer e a dissolver as arestas e os contrastes que pessoalmente eu gosto de ler. Prefiro ler Samora e Marcelino, Jorge Jardim, Caetano e Kaúlza de Arriaga e decidir por mim quem tem razão, e quem está a mentir.

Mas se calhar sou só eu a sentir isso.

O Mangalho de José Branco

Para encerrar esta nota que já vai longa, gostava de abordar, à laia de “assuntos quixotescos diversos”, o mangalho de José Branco, assunto que JRS usou como gracejo em mais de uma entrevista que concedeu.

A verdade é que o primeiro capítulo de O Anjo Branco é apenas sobre duas coisas: 1. o nascimento da personagem decalcada da do seu pai, e 2. o descomunal, incontornável, indesmentível, embaraçoso, enorme tamanho do seu pénis. Sendo a obra “realidade ficcionada”, toda a gente logicamente ficou na dúvida se aquilo do mangalho do futuro Dr. Branco era baseado no respectivo órgão do pai de JRS ou se era apenas uma figura de estilo do autor para alguma coisa que tivesse que ter com o contar da história. JRS foi soberbamente evasivo e até gozou com os jornalistas que lhe fizeram a pergunta, que, rindo, estupidamente, deixaram a questão ficar por ali.

Só que a questão é pertinente e constitui um mistério, não tanto porque o herói da fita inspirado na figura do pai tivesse um “monstro” entre as pernas, mas, mais relevante, porque é que JRS achou que aquilo era um assunto mencionável no contexto da obra. É que, da leitura do texto, emerge que o “monstro” parece que afinal não serviu para nada, nem tem praticamente qualquer relevância no enredo. A todos os títulos, a personagem criada por JRS aparenta ser uma pessoa absolutamente normal, que nada fez de extraordinário, certamente não era um James Bond que embananava uma mulher em cada esquina. Aliás, fica-se com a dúvida se a mentalmente indigente Mimicas, a mulher de José Branco, alguma vez viu o “monstro”. Para além da estrondosa aparição no início do texto, esta referência só aparece mais duas vezes, algures durante a adolescência e (o leitor decida o que fazer disto) na passadeira da igreja a caminho do altar, para Branco se casar com a patética Mimicas.

Nesse ponto, pensava eu que era aí que se justificaria a honrosa menção: a noite de núpcias que teria que se seguir ao enlace matrimonial, e que seria para JRS a oportunidade de, com base na precedente referência, fazer o equivalente do Canto Nono de Os Lusíadas, o tal em que os professores no meu tempo de liceu ficavam embasbacados a tentar explicar o que eram e o porquê daquelas orgias lírico-sexuais inventadas pelo poeta Luis de Camões.

Só que nada disso acontece. O Dr. Branco casa com a Mimicas depois nada. Como em Loch Ness, o  “monstro” simplesmente desaparece para nunca mais ser visto. Nem mesmo quando o Dr. Branco se enrola repetidamente com a apetecível rodesiana em Lourenço Marques e algures no Norte, no chão e no ar.

Ou seja, aquilo é tão despropositado, tão fora de contexto, que fica ali, literalmente…pendurado.

JRS lá saberá o que aquilo significa. Mas seria bom se quem lesse, também percebesse.

Em resumo

Esta obra prova que José Rodrigues dos Santos devia centrar-se no tipo de livros que fez antes deste.

O Anjo Branco é legível, pode até ser interessante para algumas pessoas. Mas não está em linha com a obra anterior de JRS. Não é nem um thriller nem sequer uma tentativa de épica. E sofre de uma atroz falta de dimensão humana e de alguns constrangimentos que a meu ver a aproximam apenas de uma estória mais ou menos bem contada, sabendo perigosamente a um mero script de cinema, faltando-lhe a emoção, o empenho, o partidarismo, o drama que caracterizou aquela fase da vida dos portugueses e dos moçambicanos. Focando num dos episódios registados mais tristes da guerra colonial, talvez no afinco em manter a neutralidade politicamente correcta em relação a um tópico ainda rodeado de paixões, o autor apenas a descreve analítica e distanciadamente, passando por cima do horror e injustiça abjecta que o massacre representou.

Fica a homenagem tentada, implícita, ao pai de JRS – a todos os títulos um bom homem, a quem ele, juntamente com a mãe, dedica a obra.

E aqui fica a minha homenagem – às vítimas de Wiriyamu.

23/10/2010

RENÉ GAGNAUX – IN MEMORIAM

Filed under: In Memoriam, René Gagnaux — ABM @ 8:22 pm

O médico suíço René Gagnaux

por ABM (23 de Outubro de 2010)

Um familiar de René Gagnaux, um cidadão suíco e um médico que viveu em Moçambique desde meados dos anos 60 até à sua morte (assassinado durante a parte final da guerra civil) criou uma página em sua memória no Feicebúque. Um gesto bonito ( obrigado à Ana Palha por trazer à minha atenção). Aqui se assinala este homem e se lhe presta homenagem.

O Dr. Réné Gagnaux


Gagnaux e sua família embarcam para Moçambique em 1964.

18/06/2010

UM REQUIEM POR SARAMAGO

Filed under: José Saramago, Lusofonia — ABM @ 4:33 pm

por ABM (18 de Junho de 2010)

Morreu hoje mais um membro do Partido Comunista Português.

Dizem que escrevia bem e como tal, não sei por que processo, os membros lá da Academia Sueca, concederam-lhe há doze anos um prémio Nobel. Eles lá sabem e nós agradecemos, pois por uns momentos e mais uma vez, achámos que a cultura e a língua portuguesa ascenderam aos píncaros, em vez de serem usadas para coisas mais rascas como falar com a menina da caixa do hipermercado Continente de Cascais e encher os diálogos das telenovelas da TVI todas as noites.

Rumores de que escrevia sem acentos e sem vírgulas e a texto corrido são completamente falsos, só quem não o lê é que pensa assim. Os outros sabem-no, mas, curiosamente, chamam-lhe “inovação artística universalista”. Eu não achava graça àquilo mas a culpa é do ambiente em que cresci, em que fui torturado para ter cuidado com a pontuação, as vírgulas e os parágrafos senão estava feito.

Era um tipo particularmente tortuoso e demonstrava-o nos seus textos. Antes de morrer, matou Jesus Cristo, denunciou a Bíblia e mudou-se para a Espanha, dizendo que não gostava do vizinho. Que era Portugal, onde teve a sorte de nascer e crescer no Ribatejo, o meu retiro português. Que achava que devia ser integrado numa união ibérica (por outras palavras, Espanha). O João César das Neves costumava fazer tiro ao alvo ao Saramago sempre que podia no seu (de Saramago) velho jornal.

Tinha a virtude de, de uma forma original, questionar tudo e mais alguma coisa, o que me faz lembrar a juventude (não comuna) dos anos 60 e 70, só que ele fazia-o de forma refinada, algo erudita, e retrovertida do português barroco. Com a idade, tornou-se tão irreverente que nem os velhotes lá do PC já o aturavam.

Para mim, era uma espécie de psicanalista amador que tentava meter um paciente no divã virtual e que o tentava curar com tratamentos de choque, sem nunca se ter apercebido que o doente era irreformável e incurável. O paciente, que era um país inteiro (Portugal) ignorava-o displicentemente e teve que engolir desassete sapos quando os nóbeis telefonaram para Lisboa.

José Saramago teve a grande sorte de se juntar, tardiamente a uma grande mulher, a Pilar, perante quem naturalmente me curvo pela perda do companheiro. Acho que esses foram os seus únicos bons anos.

Os bardos da praça e os comentadores de bancada já se redobram em esforços para o enaltecer como Grande e os Maschambianos deverão vestir-se de preto e carpir apropriadamente. Eu vou ver se espero uns anitos antes de tentar digerir aquilo tudo.

E entretanto vou lendo um pouco de Oliveira Martins e Eça.

Não sei como dizer de uma forma mais simpática, mas não me revejo nem nunca me revi, nem na pessoa, nem na sua obra. Nem como pessoa e muito menos como falante de português ou utilizador fortuito desta coisa maleável que é a cultura que uns tantos partilham, de uma forma ou outra.

Mas insistem que estou errado. E eu que não estou. Fica-se por aqui. A grandeza dos homens e da sua obra é sempre relativa aos tempos.

Entretanto, preparem-se para o Regime descambar numa longa e solene despedida.

31/05/2010

O LEÃO ADORMECEU

Filed under: António Botelho de Melo, Caçador, Rui Quadros — ABM @ 12:58 am

Maria Duarte Silva, Rui Quadros e Suzette Malosso, anos 60

por ABM (31 de Maio de 2010)

Gostava de, com muita pena, assinalar a morte de Rui Quadros ontem em Maputo e, para além de apresentar as minhas condolências à sua família (conheço o Nuno e a filha, que já deve estar grande desde que a vi há uns anos) e de referir algumas memórias sobre este invulgar homem.

O pai do Rui Quadros era administrador de posto no mato, perto da então Lourenço Marques. Rui Quadros tinha um irmão, Jorge (que morreu em circunstâncias esquisitas na Guiné-Bissau) e várias irmãs- para além do Nuno. Com os anos ele tornou-se caçador-guia, e veio a ser um dos melhores caçadores-guia de Moçambique, juntamente com Amadeu Peixe, Luís, Vasconcelos, etc. Durante anos trabalhou para a Safarilândia (do Jorge Abreu e o irmão, tios da Susana Abreu, uma grande nadadora moçambicana dos tempos) uma empresa que organizava caçadas, acompanhando muitos dos visitantes mais distintos que vinham a Moçambique desfrutar das suas maravilhosas paisagens selvagens e fauna.

Antes da independência, ele era uma verdadeira lenda na cidade. Dele, que conheceu Moçambique como muito pouca gente, se dizia, afectuosamente, que “andava como um preto, dormia como um preto, e falava como um preto”. Para além de português e inglês, ele falava fluentemente várias línguas de origem africana.

O Rui Quadros entrou no imaginário dos BM de uma forma curiosa. No final dos anos 60, Rui Quadros, que estava no auge da sua celebridade, um dia convidou o meu irmão Fernando, que devia ter uns dez anos de idade, para ir caçar com ele. O Nando estava no fim de umas férias escolares curtas e todos pensávamos que ele ia caçar apenas durante o fim de semana, o que era no mínimo uma experiência única. Só que o fim de semana vem e vai e nada de Rui Quadros nem de Fernando. Os dias passaram. Ao fim de dez dias, e uma semana sem aparecer nas aulas (hoje assunto de lana caprina mas naqueles tempos era crime de Estado) o pai BM manda um SOS para todos os lados para tentar perceber o que se passava e por onde eles andavam. Na noite do domingo seguinte, aparece em nossa casa o Rui, que entrega um Fernando todo sujo, malcheiroso e esfarrapado mas absolutamente encantado com os dias em que andaram perdidos no mato a caçar e a passear. Depois de um valente banho e do jantar, sentámo-nos todos na sala a ouvi-lo a contar as suas aventuras da caça com o famoso Rui Quadros.

Depois da independência, o Rui esteve algum tempo na África do Sul e mais tarde em Portugal, onde chegou a explorar uma espécie de quinta de animais selvagens no Alentejo. Mas, volvidos uns anos, ei-lo de volta em Moçambique. Ele de facto parecia que pertencia ali, e não encaixava nos formalismos de gravata da Europa. Vi-o inúmeras vezes na esplanada do Piri-Piri, olhando o tempo a passar e magicando novas formas de voltar ao mato.

O mato a que pertencia.

10/01/2010

THE BEST OF ISABELA FIGUEIREDO

o horizonte nos contempla

por ABM (Alcoentre, 9 de Janeiro de 2010)

Fernanda Câncio, a putativa (segundo certa imprensa) namorada do actual primeiro-ministro português, José Sócrates, e fogosa escriba num Diário de Notícias infelizmente cada vez menos de referência, escreveu um curioso texto – que saiu na sua edição de hoje – sobre uma sra chamada Isabela, que, depreendo da leitura, como muitos de nós saiu um pouco a pontapé do Moçambique pós- independente e revolucionário aos 12 anos de idade, e sobre um livrinho que ela escreveu e que acabou de ser publicado, que dá pelo nome algo enigmático de Caderno de Memórias Coloniais.

Que não li.

Mas li o comentário de Câncio, que sempre vale alguma coisa e que me deixou algo mistificado.

Vamos por partes.

Deixou-me algo mistificado porque a Fernanda que, como já vi outras pessoas dizer noutras ocasiões, deve perceber tanto da realidade colonial como eu de física nuclear, começa por colocar legiões de “retornados” num vasto manicómio virtual, todos mentirosos e todos vivendo numa ilusão colectivamente induzida com o fito de não enfrentar uma inconfessável série de “crimes contra a Humanidade”, que, lá vai o argumento, só pode ser o que (no meu caso) os nossos pais e avós andaram todos lá pelas Áfricas durante séculos a cometer contra os nativos. Voluntária e até empenhadamente e, no caso do pai da Isabela, com requintes de malvadez.

Isso a acrescentar àquela outra Grande Ilusão Colectiva dos brancos e portugueses da África portuguesa (nunca os de cá, coitados) claro, a de que aquilo era “nosso”. Que se sabia perfeitamente que não era, especialmente a posteriori.

Bem, todos – especifique-se – menos a sua amiga Isabela.

No seu caso, Fernanda diz que a Isabela baseou os Cadernos nos seus escritos, alguns dos quais foi colocando num blogue de que nunca ouvi falar antes na minha vida, que alimenta regularmente e que se chama – algo deceptivamente – Mundo Perfeito. Bem, não pode ser assim tão perfeito como isso, se a imagem de cabeçalho que a Isabela escolheu para a porta do seu blogue é um corpo de mulher de cuecas e com cabeça de cão, sentada numa estufa com flores. É uma invocação que diz muito. Para mim uma alegoria de um mundo perfeito ( aquilo a que Sir Thomas More chamou em tempos de Utopia )podia ser a fotografia acima – mais ou menos. E ainda tem à porta da estufa retinintes e polidos avisos sobre os seus direitos de autora, que, na minha experiência na internet, são ah tão simpáticos como não valem um caracol furado. Neste meio a ofensa não se combate com avisos, combate-se com unhas e dentes.

Ou ignora-se.

Ora eis algo que não me ocorrera antes, isto de ter um blogue na internet, onde vou escrevinhando umas coisinhas e um belo dia, imagino que para aqueles que não têm internet, arranjo uma editora e escarrapacho tudo outra vez numa publicação, à laia de The Best of The Delagoa Bay Review. Bem, sempre tira a impressão fungível e a desconfortável sensação de estar sózinho num submarino e que as palavras que aqui escrevemos em suporte incompreensivelmente electrónico, pareçam um pouco menos aquilo que os americanos chamam pissing in the wind (no nosso vernacular, fazer chichi ao vento). Tenho que falar com o nosso Senador e a Sra Baronesa em reunião de Conselho de Machamba, mas receio que, numa futura edição do Caderno de Memórias Delagoabaianas, eu seja sumariamente relegado para uma recôndita nota de rodapé.

E lá se iria a etérea sensação da imortalidade literária.

Mas podia oferecer cópias dos livrinhos pelo Natal, o que com um blogue, admita-se, não se pode fazer.

A mistificação do comentário publicado no Diário de Notícias sobre a Isabela tem que ver com a evocação de um passado moçambicano que mais parece uma longa e pesada sessão de terapia duma branca com sentimentos negativos sobre a sua experiência africana e, quiçá, sobre o seu estatuto de retornada num Portugal revolucionário e recém-exorcizado da sua experiência colonial-bélica. Pelo meio, vagueiam ideias da injustiça daquilo tudo, o trauma do (presumo) rescaldo do 7 de Setembro de 1974 e ainda o fantasma do pai, que, recita, chamava coisas feias aos colonizados com pele mais escura e que, num contexto em que – creio – ninguém tinha “direitos”, tinham ainda menos que os colonizados mais clarinhos. A Fernanda, cuja experiência africana (e muito menos moçambicana) repito, desconheço por completo, arremata, no que presumo possa apenas ser uma infeliz exaltação literária, dizendo que vivia-se (em Moçambique) num país onde se podia atropelar um negro e não ir para a prisão. Pois. E esqueceu-se de referir que comíamos meninos pretos pequeninos para o matabicho.

Decorre que com a independência tudo isso acabou. E que com os assassínios de brancos por representantes armados da maioria negra nos arredores de Lourenço Marques em 1974 fez-se, apenas, justiça. Ai sim Fernanda? hum, sorte, então eu ter sobrevivido aquela pouca vergonha toda, e não graças à sua boa vontade.

Há aqui dois aspectos que me induzem a pensar que talvez este tipo de intro-retrospecção tenha que ser trabalhado um bocadinho mais.

O primeiro aspecto é que, segundo a Fernanda, cuja retórica para estes efeitos, aceite-se, é mais ou menos irrelevante, a Isabela saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade. Se calhar viajámos os dois no mesmo avião da TAP em alturas diferentes, só que eu tinha 15 anos de idade, diferença que importa para efeitos desta discussão. Pelo menos eu já não era virgem, naquele e em muitos outros aspectos da vida.

Ora, para alguém que saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade, a análise global da situação que a Fernanda diz que a Isabela faz, a crer-se biográfica e despida de preconceitos e análises que só possam ter sido posteriormente adquiridos, devem ser deveras de assombrar, vindos de uma miúda. A minha irmã mais nova, que tinha a mesma idade e teve o mesmíssimo percurso que a Isabela, mal sabia jogar ao berlinde. E lá em casa ainda estamos à espera dos seus cadernos.

Mas admita-se que pode ser que seja a nua verdade no seu caso pessoal, em que a forma como pinta o pai assusta mais que o papão colonial-racista. O que refere dava para horas e horas (e horas e horas) de sessões de psicoterapia.

Mas não logra por um segundo pintar uma realidade maior.

O segundo aspecto é que, por minha parte – e já o tentei explicar uma vez ao JPT e sob pena de me repetir – ao contrário de alguns eu vivi lá e, no meu microcosmo, o pai BM e a quase totalidade das pessoas com quem contactava, não chamava nomes a ninguém, branco ou preto, eu não era inibido de me dar com ninguém com base na cor da pele e, se não disputo (mas não desta maneira) a sustentabilidade do tal “ídilio colonial” de Lourenço Marques que a Fernanda diz que não existia (existia, sim, que chatice), pintar essa era e todas as vastas e complexíssimas relações pessoais, económicas, sociais e raciais de Moçambique no fim da era colonial em Lourenço Marques com um simples rótulo de “racismo” e “abuso” é totalmente descabido. É falso. É absurdo. É ridículo. É uma fraude moral, intelectual e histórica. É projectar os seus preconceitos actuais, ignorar as suas causas e tentar justificar moralmente os seus efeitos e a pulhice que veio a seguir, e em que de longe as maiores vítimas – surpresa – foram sempre, e quase só, milhões de moçambicanos, que de uma ditadura fascista e colonial passaram directamente para outra, não muito diferente.

Especialmente, destaco, se se estiver a falar no começo dos anos 70, em Lourenço Marques.

Claro que lá havia racismo. Montes. Claro que havia injustiça, incluindo a racial. Claro que tinha que acabar. Que tinha que mudar. Claro que havia gente como o pai da Isabela. Se calhar até bem pior. Claro que aquilo era uma ditadura, com tentáculos em Portugal, um anacromismo total num mundo já quase sem impérios coloniais e em que os países comunistas activamente armavam e patrocinavam os que combatiam o que sobrava de colonialismo no mundo. Ser colonial a partir de 1950 tinha o seu custo em lágrimas, suor e sangue. Salazar estava disposto a pagá-lo, outros não. Em 1974, venceram estes.

Mas cuidado ao pintar tudo de negro. O pior racismo que vi na minha vida não foi em Moçambique. Foi nos Estados Unidos quando para lá fui viver em 1977. Portugal hoje não é muito melhor. Quotidianamente vejo as maiores injustiças serem cometidas em Portugal hoje que não se distinguem assim tanto das injustiças que haviam em Lourenço Marques e que há em toda a parte. As injustiças económicas que se observavam há quarenta anos em Moçambique, aliás, ainda se mantêm em larga parte. Pois não é de um dia para o outro que se capacitam milhões de pessoas pobres, rurais e analfabetas que vivem de subsistência no mato e se lhes proporciona, e aos seus filhos, condições para ascensão social e económica.

O crime, se é que se pode dizer assim, não era do que a Isabela diz que vislumbrou aos dez anos de idade e muito menos dos tiques racistas do seu partido pai, que não conheci e pelos vistos ainda bem. É de um país que estava na mão de um ditador que escolheu manter um statu quo décadas depois da altura em que deveria ter iniciado medidas para atempadamente preparar e entregar o poder político e a gestão da nação moçambicana aos seus filhos, descomplexadamente e de cabeça erguida.

Provavelmente quer eu quer a Isabela teríamos lá ficado, a viver em paz e sossego e estaríamos a ajudar a construir esse então novo país, em vez de andarmos à esmola de familiares hostis e dependentes de amizades que se calhar nunca o foram, olhando no espelho à noite e inventando na mente o delírio de que aqui pertencíamos.

E a ter que tentar engolir de terceiros a tese de conspiração de que o que ali porventura encontrámos de bom e belo – e que hoje é apenas uma memória, só isso – não foi, não podia ser, que estamos a mentir aos outros e, pior, a nós próprios.

Vão à merda.

Dito isto tudo, acho que um dia destes lá vou ter que ir procurar o tal de livro para ver mesmo do que é que a Isabela está a falar.

Ou talvez não.

Quanto ao blogue, para já fico à porta.

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