THE DELAGOA BAY REVIEW

09/01/2012

A HISTÓRIA DA FOTOGRAFIA DE MOÇAMBIQUE – EM FOTOGRAFIA

Fotografia de Sérgio Santimano, gentilmente cedida.

Encontro de repasto moçambicano na portuguesa Costa da Caparica, 2011. Da esquerda: Bruno, Paula, Luis Carlos Patraquim, Joaquim Carlos Vieira, Kok Nam,Ângelo, José Luis Madeira e mulher, Alexandre Pomar e Sérgio Santimano.

18/12/2011

REINALDO FERREIRA EM LOURENÇO MARQUES: UMA NOTA DE MADALENA MENDONÇA SANTOS

Filed under: Literatura Moçambique, Reinaldo Ferreira — ABM @ 1:07 pm

A baixa de Lourenço Marques em 1970, o Café Scala à esquerda, o Continental à direita. Foto do magnífico sítio Xirico. Para ver no tamanho máximo, prima na imagem duas vezes.

(Nota escrita por Madelena para a Nova Gazeta do Montijo, reproduzida em Alfarrabia da Universidade do Minho)

 

Aquele senhor que desde a infância me conhece
Com que direito se enternece
Quando me vê?

In Poemas, de Reinaldo Ferreira

Estes pedaços de prosa têm aparecido várias vezes rodeados de poesia. Assalta-me a memória uma das muitas definições que eu e os outros da minha geração tivemos que decorar na escola: uma ilha é um pedaço de terra, rodeado de água por todos os lados. E, agora modéstias de parte, parece que a página fica mais bonita: um pedaço de prosa, rodeado de poesia por todos os lados!

As ilhas são entidades quase míticas, cenário possível de muitas lendas e aventuras, prova máxima da resistência humana…. “Que faria sozinho numa ilha deserta?” ou “Quem levaria consigo para uma ilha deserta?” Ou ainda “Que objectos…” são perguntas irresistíveis, a que se seguem respostas convenientemente mentirosas, por parte dos alvos da curiosidade pública. Contudo, parece que a fantasia das ilhas está perigosamente ameaçada pelos espaços do Espaço, da Lua, Marte, outros planetas…

Mas as ilhas, tal como a prosa, são terra firme, ou quase firme. Na água que as rodeia, no mar, aí sim, se escondem os tesouros. Escondem-se dos olhos e da ambição dos homens. Em terra firme, aguentamos uma vida inteira. No mar, mergulhamos e voltamos à superfície. Não é suportável, por muito tempo. Também pela intensidade das sensações. E a poesia faz-se de sensações intensas, imensas e únicas.

Por isso, recordo, quase nos primórdios das minhas lembranças, o primeiro mergulho na poesia.

Nesse tempo, onde eu vivia, não havia televisão. Mas havia telefonia, claro! E gira-discos. Era um móvel, que ocupava o seu espaço…Não cabia num cantinho qualquer e convinha estar bem visível, pois destinava-se a tocar discos e a enfeitar. Os discos eram de vinil. Tudo isto soa a muito tempo….Agora há aparelhagens e CD. Mas nós, os mais antigos, ainda guardamos os discos de vinil. É o lado museu das nossas casas, que os nossos filhos, hoje, talvez não entendam. Mas um dia vão entender, quando substituírem o CD por um ínfimo chip…

Naquele tempo cantava-se, como hoje ainda se canta, os poetas maiores. Mas também se dizia ou recitava esses poetas maiores. Assim se divulgava a poesia, os poetas, os versos que ainda sabemos de cor, tal como sabemos que uma ilha é um pedaço de terra rodeada de água por todos os lados…

João Villaret era dono de uma voz mágica, que dizia português bem dito, fosse ele de Portugal ou do Brasil ( Essa Nega Fulô), com a mesma perfeição inspirada. Dizia o ciúme do Fado Falado e a revolta do Cântico Negro, a simplicidade da Procissão…Tudo, no respeito profundo à palavra dita. Púnhamos o disco, acertávamos as rotações, setenta e oito, quarenta e cinco ou trinta e três e ali ficávamos a ouvir o “diseur” transfigurando a voz, conforme o poema ou o poeta.

Não há amor como o primeiro, dizem. Talvez nem sempre seja verdade…mas neste caso é. E foi talvez por ter encontrado, tão cedo, um poeta como Reinaldo Ferreira e uma voz como a de Villaret, que desenvolvi o gosto por alguma poesia, por esta precisamente, em que o aspecto formal se dilui, em que conta o ritmo, a musicalidade e a alma do poeta, ali à mão de quem lê (ou ouve).

Não ponho esperança em mais nada
E se puser
Há-de ser ambição tão desmedida
Que não me caiba sequer
No que me resta de vida.
Ambição tão irreal
Tão paranóica, tamanha
Como a grandeza de Espanha,
Com Granada e o Escurial.

Estes são versos lindos e quase desconhecidos. Os últimos versos deste poema repousam com o poeta:

À terra dá-se o melhor
A terra não nos dá nada.

Aliás, quando se fala de Reinaldo Ferreira, constato que o seu nome não é muito conhecido. Mas se falarmos da Menina dos Olhos Tristes do Zeca Afonso e do Adriano Correia de Oliveira?

Menina dos olhos tristes
O que tanto a faz chorar?
– O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Conhecemos? Sabemos que Luís Cília também a musicou e cantou? Quem sabe que Reinaldo Ferreira também emprestou o seu talento à Casa Portuguesa de Amália Rodrigues? Eu sei, porque o meu pai mo disse há muitos, muitos anos. Teve o privilégio de conhecer e conviver com o poeta, e passou-me o testemunho da sua admiração.

O meu pai, esse “senhor que desde a infância me conhece”. E “com que direito se enternece/ quando me vê” Foi em conversa com o meu pai que levei a cabo a habitual pesquisa, para elaborar uma pequena nota biográfica do autor. Há poucos dias. Pedi-lhe que me dissesse tudo o que sabia. Falou-me do grupo de amigos, em Lourenço Marques, das tertúlias dos Café Scala, Continental, da letra da Casa Portuguesa, escrita num guardanapo de papel, no Girassol, da letra de um fado que trouxe da Metrópole (dessa Alfama que me chama/ trago a chama que se chama/ sentimento e emoção) da doença, cancro do pulmão, que aos trinta e sete anos o levou, e da obra que no ano seguinte foi publicada.

Referiu Eugénio Lisboa e o Dr Fernando Ferreira, amigos que trataram de “dar” o poeta ao mundo. Falou, inevitavelmente, no pai, outro Reinaldo Ferreira, o Repórter X. E disse versos. “Mínimo sou/ Mas quando ao Nada empresto a minha elementar realidade/ O Nada é só o resto”

Só faltam as datas: nascimento em Barcelona, a 20 de Março de 1922 e morte a 30 de Junho de 1959, em Lourenço Marques.

Sr Director, rodeie este escrito de poesia!

Leitura sugerida: Poemas de Reinaldo Ferreira

Porque “navegar é preciso”, aqui fica o seguinte “aviso à navegação”… A obra deste autor pode ser lida, na íntegra, na Internet, através do endereço:

http://alfarrabio.di.uminho.pt/reinaldo/

Aí poderá encontrar e conhecer melhor o poeta, através de outros amigos e admiradores, que se dedicaram à construção deste “espaço” e a quem já dirigi as minhas sinceras felicitações.

MMS

(fim)

22/09/2011

AS METÁFORAS DO MEDO, POR MIA COUTO

Manifestantes, quase todos brancos, em frente ao Palácio da Rádio em Lourenço Marques, Setembro de 1974, na sequência do anúncio, numa cidade zambiana a três mil quilómetros de distância, de um cessar-fogo em Moçambique e da entrega directa do poder pelo Estado português à Frente de Libertação de Moçambique e uma Independência sob o comunismo dali a menos que dez meses.

Interessante, curta e algo atribulada prelecção do biólogo e escritor Mia Couto, de Moçambique, numa iniciativa cultural que presumo evocativa das Conferências do Casino de 1871, denominada Conferências do Estoril. Em 2011.

O meu corolário ao que é dito:

O medo também inclui o medo de encarar o passado.
O medo também inclui o medo de chamar os nomes às coisas.
O medo inclui também ignorar o medo dos outros.

29/06/2011

BAYETE, POR NOÉMIA DE SOUZA

Filed under: Literatura Moçambique, Noémia de Souza — ABM @ 5:59 am

O termo, creio que de origem zulu, é uma saudação.

Entre a raivinha anticolonial e uma aparente trica com o Rui Knopfly, da mão da grande Noémia saiu este poema, que marcou uma era.

BAYETE

para Rui Knopfli

Ergueste uma capela e ensinaste-me a temer a Deus e a ti.
Vendeste-me o algodão da minha machamba
pelo dobro do preço por que mo compraste,
estabeleceste-me tuas leis
e minha linha de conduta foi por ti traçada.
Construíste calabouços
para lá me encerrares quando não te pagar os impostos,
deixaste morrer de fome meus filhos e meus irmãos,
e fizeste-me trabalhar dia após dia, nas tuas concessões.
Nunca me construíste uma escola, um hospital,
nunca me deste milho ou mandioca para os anos de fome.
E prostituíste minhas irmãs,
e as deportaste para S. Tomé…

– Depois de tudo isto,
não achas demasiado exigir-me que baixe a lança e o escudo
e, de rojo, grite à capulana vermelha e verde
que me colocaste à frente dos olhos: BAYETE?

Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares

(Catembe, 1926 – Cascais, 2003)

27/11/2010

UM THRILLER COLONIAL

http://www.youtube.com/v/3gCtptcJY0I?fs=1&hl=pt_PT

(em cima: a 6ª Sinfonia de Tchaikowsky, Pathétique, sublimemente interpretada pela orquestra Hoshima, do Japão. Dura 49 minutos e vale todos eles, especialmente os primeiros 20 minutos.)

por ABM (27 de Novembro de 2010)

A minha crítica do livro O Anjo Branco, um romance histórico de José Rodrigues dos Santos.

Introdução

Para quem não acompanhou os eventos, o anúncio inicial, em Portugal continental, da publicação do mais recente romance, da autoria de José Rodrigues dos Santos (JRS) foi acompanhado de informações crípticas de qual seria o seu conteúdo e temática. Alguns desses dados foram sendo gradualmente revelados e reflectidos em textos que escrevi aqui, mais ou menos nesta ordem:

  1. que era sobre Moçambique;
  2. que era baseado na vida do pai do autor;
  3. que versava o que se pode considerar o período final da soberania portuguesa naquele território africano;
  4. que, sendo um romance, assentava em aturada pesquisa factual em torno de inúmeros aspectos desse período;
  5. que conteria informações “explosivas”, um “grande segredo”;
  6. que inovaria, na medida em que trataria numa nova luz a era e os eventos da época, procurando, pelo escrúpulo e objectividade dos factos coligidos, escapar ao conhecido fosso no que concerne a temas ainda considerados para todos os efeitos difíceis de reconciliar, como são as visões do que foi o colonialismo português em Moçambique, e a natureza do conflito armado desencadeado a partir de meados dos anos 60 no Norte de Moçambique.

E mais tarde,

7. que descrevia, em detalhe, um dos episódios hoje mais conhecidos (por alguns portugueses, essencialmente) desse conflito, o chamado Massacre de Wiriyamu, ocorrido em Dezembro de 1972 na localidade com o mesmo nome, situada nos arredores da cidade de Tete, no Norte de Moçambique, em que um grupo de comandos portugueses ( a 6ª Companhia) assassinou de forma bárbara um número considerável (mas parece que não inteiramente quantificado) de aldeões moçambicanos.

A abordagem desta temática – acompanhada de considerável conteúdo biográfico do pai do autor – é algo de novo para JRS, que nasceu e viveu até aos dez anos de idade em Moçambique e cujo pai trabalhou naquela antiga província portuguesa como médico.

Essa biografia foi de certa forma reconstruída, pois em entrevistas concedidas JRS concede que o pai praticamente nunca lhe falou dos eventos relatados à lupa no romance.

JRS, um jornalista que é conhecido em Portugal essencialmente por fazer regularmente, desde há alguns anos a esta parte, a locução dos noticiários num dos canais públicos da televisão portuguesa, teve algum sucesso até esta data como autor de um número de obras de ficção, cuja raiz mais aproximada é aquilo a que se pode chamar “literatura de aeroporto” – livros de mistério, mística e intriga, de fácil leitura, leves, acessível por parte de um mercado digamos que menos exigente.

Aliás a exploração com algum sucesso deste tipo de literatura, basicamente desconsiderada em Portugal pela sua fraca ou nula qualidade, e o seu posicionamento como um produto comercial de grande consumo, distinguiu JRS do que é considerado a norma no mercado livreiro português, na medida em que a forma e a tónica da comercialização das suas obras segue relativamente de perto, ou alinha-se adequadamente, à linha seguida, neste e noutros países, para obras deste género, como é caso com – salvaguardadas algumas abissais diferenças – Sidney Sheldon e Dan Brown, dois casos de sucesso nos Estados Unidos e no resto do mundo.

Por sua parte, generosamente, o autor mostra-se indiferente, ou melhor, não exibe grandes ilusões nem aparenta sentir-se minimamente perturbado, com a rotulação da sua obra como algo menos que bom, procurando, quando muito, a resposta a essa questão no relativo sucesso (à escala portuguesa) obtido com as vendas dos seus livros, o número de países onde é lido e o número de línguas em que as suas obras estão traduzidas.

Este é, notoriamente, um dos segredos mais mal guardados de JRS, que inclusivé numa interessantíssima e relativamente longa série de entrevistas gravadas para a televisão, com um número de autores, principalmente estrangeiros, em que se demonstrou bem preparado e até pessoalmente curioso, repetidamente prescrutou os seus entrevistados sobre as suas obras, como as viam, como se viam, como as concebiam, como as vendiam.

E se a escrita comercial era literatura ou não.

De longe, os entrevistados americanos, pouco afeitos às periclitâncias do meio cultural português, deram as melhores respostas.

Creio que, na essência do sucesso de JRS, residem dois factores primários e muito simples: 1) a especialização num segmento do consumo de livros em que já havia provas de haver mercado inclusivé em Portugal – a tal “literatura de aeroporto”, à la Dan Brown, Sidney Sheldon  e outros – e 2) a sua comercialização quase desavergonhadamente comercial e agressiva, envolvendo todos os grandes canais de distribuição, desde as FNACs até as prateleiras da cadeia de supermercados Continente. Com a imagem e o nome familiares do autor/leitor de notícias do Canal 1 da RTP à frente.

Puro marketing. E muito eficaz.

Mas que por si só diz rigorosamente nada sobre a sua escrita.

Isto para não referir a cobertura incomum dos sucessivos lançamentos por parte da comunicação social a um dos seus, que só alavanca mais o esforço da venda. Há umas semanas assisti, como já referi antes, à cerimónia de lançamento de O Anjo Branco na Sociedade de Geografia de Lisboa e aí notava-se a diferença com outras situações semelhantes: a audiência era a habitual pandilha dos amigos/admiradores/família, mas a imprensa que lá estava parecia que estava a cobrir o evento de uma estrela de rock. Fleugmático, e de forma correspondente, por sua vez JRS portou-se com a modéstia de uma.

Situação em que não é estranha, nem inocente, a fortuita circunstância do autor ser uma cara conhecida por milhões de potenciais consumidores por ler notícias no principal programa de notícias de televisão português. Digamos que uma obra incomparavelmente melhor, concebida por um discreto e até há pouco obscuro professor de história numa universidade pública em Maputo – João Paulo Borges Coelho – apesar de recipiente de um dos grandes prémios de literatura portuguesa (ou melhor, de língua portuguesa) não mereceu, por comparação, sequer uma nota de rodapé em termos de notoriedade.

O Tema e o Contexto

Apesar de volvidos 36 anos desde o golpe de Estado que liquidou a II República e cujos contornos fundamentais eram ser uma ditadura conservadora e defensora do prolongamento, sem data-limite, da soberania portuguesa nos territórios situados um pouco por todo o mundo, com destaque para Angola e Moçambique, e a subsequente substituição por um regime democrático de cariz parlamentar-partidário, até esta data, a exploração e contextualização dessa presença e ainda da chamada descolonização, continuam a ser tópicos de aceso debate em Portugal.

Anote-se que não é para menos. Não há qualquer paralelo, em novecentos anos de história portuguesa, de um processo tão violento e tão abrupto que afectou vários milhões de pessoas, o “retorno” à Europa de cerca de um milhão de portugueses e seus descendentes, perdas patrimoniais incalculáveis e nunca ressarcidas, e a independênca para perto de quinze milhões de africanos, processo que foi precedido por uma guerra que durou cerca de treze anos em três frentes completamente diferentes: Guiné, Angola e Moçambique.

Em Portugal, a atitude prevalecente em relação a esta temática é, apesar de centenas de milhares dos seus cidadãos terem sido compelidos a ir servir e combater nos teatros africanos, de uma quase total apatia e esquecimento.

Uma minoria, especialmente entre os antigos residentes nas antigas províncias africanas, alberga ressentimentos de vária ordem e intensidade, pese o facto de terem já decorrido praticamente quatro décadas desde o final dos eventos.

Creio que o sentimento geral, de parte a parte, é de que, em última instância, quer para os que viveram uma vida de róseas recordações, quer os que combateram principalmente na Guiné e em Moçambique, foi um absurdo de memórias boas e más, de oportunidades perdidas, de glórias e de sofrimento, de amizades perdidas. As antigas províncias seguiram o seu caminho, com todas as oportunidades e todos os problemas inerentes, e, especialmente nos dias que correm, parece que a nação portuguesa ainda não recuperou nem do trauma psicológico nem das consequências mais práticas de ter deixado de ser uma entidade económica e social multi-territorial e multi-cultural, com um projecto histórico centenário. Pois que o caminho seguido a seguir a 1974, simbolizado pelo “para a Europa, e em força” de Mário Soares, em Novembro de 2010, parece estar agora seriamente em risco, sem se vislumbrar um plano alternativo.

Foi neste ambiente que JRS publicou O Anjo Branco.

A história

A história acompanha o percurso, entre os anos 30 e o ano de 1973, de José Branco, desde algures em Portugal, até à sua retirada da cidade de Tete, onde serviu como médico e director do hospital local, na sequência dos eventos de Wiriyamu.

Nota-se que o autor fez um esforço considerável de prestar atenção aos detalhes dos diferentes contextos, desde os nomes, a geografia dos locais, e a linguagem. Em Moçambique, por exemplo, é utilizado abundantemente o linguajar local – o “Yeah”, o “maningue”,  o “tatá”, “matabicho”, etc – que poderão eventualmente impressionar quem conhece esses aspectos mais ou menos lúdicos da vivência local. Ou as marcas de cerveja e dos refrigerantes locais (deve-se ter esquecido da Tombazana, uma velha favorita minha nos recreios da minha escola primária, Rebelo da Silva) e eventos concorrentes com a altura em que decorre a narrativa.

Interessante, mas só isso, e pouco ou nada relevante para quem não conheceu essa realidade.

A estrutura da linha temporal da obra, sendo cronológica, é algo errática, na medida em que, havendo linhas narrativas paralelas – o autor não segue apenas o percurso do pai ficcionalizado, há a considerar o percurso de Diogo, um militar de terceira linha que é fundamental como a ferramenta privilegiada do autor para poder dar a dimensão pretendida ao seu relato – “salta” por vezes vários anos, presume-se que por economia de espaço ou falta de conteúdo. Assim, a personagem Branco casa-se no fim de um capítulo, e no início do capítulo seguinte já haviam passado vários anos. Sem quase qualquer informação do que acontecera entretanto, pelo que o leitor é forçado a presumir que nada aconteceu. Pois se nada foi reportado, só pode ser porque nada aconteceu.

Todo o relato e a evolução das personagens descritas pelo autor, facilmente se apreende, são uma relativamente complexa construção com um objectivo específico, que evolve e se dirige unicamente para um único palco espacial e temporal, uma circunstância fulcral, onde todos os elementos se reúnem: os eventos do massacre ocorrido em meados de Dezembro de 1972 nos arredores de Tete. Que é tratado mesmo no fim do livro, após uma espécie de pré-anúncio de entrada nas portas do Inferno, com uma citação da conhecida obra de Dante Alighieri, a Divina Comédia.

No processo, ao leitor é servido um cocktail de tipologias algo plastificadas, da humanidade que povoava a sociedade colonial moçambicana, vistas naturalmente duma óptica portuguesa – afinal, José Branco e Diogo são portugueses. JRS procura dar um vislumbre da algo inocente, ou ingénua, dolce vita do branco colonial, com a presença do inevitável criado doméstico, os variados funcionários da administração colonial, o agente da Pide, o comandante da PSP, os técnicos de Cabora Bassa, a tropa fandanga, a esposa perfeitamente estúpida, a aérea e inconsequente Mimicas, a boazinha e sacrificada enfermeira espanhola, e até a inevitável bifa boazona como o milho, desempoeirada, sexualmente disponível e entiçada pelo macho latino, casado ou não, na forma de uma estonteante rodesiana, que no fim se descobre que é uma cabra calculista e ainda por agente secreta dos rodesianos – e que, apesar das putativas intimidades, embrulha a personalidade José Branco com a Pide.

Apropriada a essa moldura criada por JRS, a estes coloniais se junta, quase invisível, a massa distante e miserável dos moçambicanos rurais, quase não entidades, deixados ao seu destino, apanhados entre dois fogos, entre a tropa fandanga portuguesa que, à excepção dos comandos (que é descrita como uma tropa especial) JRS caracteriza quase comicamente, e a eficácia silenciosa dos guerrilheiros da Frelimo (os “turras”). Que, como consta no registo histórico, a partir da operação Nó Górdio em 1970, concebida pelo general Kaúlza de Arriaga, o novo cônsul de Marcello Caetano, desviaram a sua atenção e actividade guerrilheira de Cabo Delgado para a zona de Tete.

Naturalmente, não é por acaso que essa massa de gente miserável do mato era invisível para todos menos menos para uma pessoa: a pessoa do pai ficcionalizado, José Branco, que inclusivé cria, tal como o pai real do autor, o Serviço Médico Aéreo, nome um tanto aguerrido para um teco-teco que percorria com uma enfermeira os confins de Tete semanalmente, para acudir de forma minimalista as populações isoladas no mato (muito melhor do que nada,  que era o que havia antes, diga-se).

Finalmente, no relato de JRS, o ingrediente da consciência da nascente nação e das coisas para vir, corporizada na personagem de Domingos Rouco (outro decalque da realidade, desta vez do conhecido Dr. Domingos Arouca, uma figura de referência da história de Moçambique), a correia de transmissão da realidade eminente e do que “realmente” se estava a passar na saga da guerra colonial, para o algo ingénuo Dr. Branco (e por essa via para o leitor mais incauto, e por extensão, à parte de leão da elite colonial).

E a conclusão do relato no desenrolar de eventos que culmina com o massacre das gentes que viviam em Wiriyamu, que – a verdade seja dita, para a ditadura foi essencialmente um muito sério problema de relações públicas, por coincidir com uma visita de Estado que Marcello Caetano fez a Londres em meados de 1973.

Mas Wiriyamu foi mais que isso, claro. Muito mais . Por razões pouco plausíveis, matou-se muita gente inocente à toa.  Poderá ser fácil para muitos a relativização deste episódio, especialmente numa era como a que vivemos, em que se assistiu a episódios como o massacre de 11 de Setembro nos Estados Unidos, os terríveis massacres na Bósnia-Herzegovina ou a casa de horrores que foi o Ruanda em 1995, apenas para mencionar alguns. Mas este – Wiriyamu – foi “nosso” e perpetrado no “nosso” tempo. Por si só isso deveria ser alvo de reflexão. E motivo para a expressão de pesar e de respeito pelos mortos.

Mas o leitor nunca encontrará esta úlima aferição – que é minha- na obra de José Rodrigues dos Santos.

Crítica

Tendo vivido em Moçambique até aos 15 anos, e tendo a esta hora já quase uma vida de leitura dos factos históricos detalhadamente aludidos na obra O Anjo Branco, confesso que, para mim, a leitura deste livro infelizmente ressacava de déjà vu. Por mais vezes que eu gostaria de o ter feito, encontrava-me, paralelamente à leitura do enredo, a “picar” mentalmente os locais, os termos, os trajectos, se isto ou aquilo era exactamente como JRS descrevia. E quanto a isso devo dizer que, no cômputo geral – louvado seja – ele fez mais ou menos o trabalho de casa. Mas, não sendo um revivalista nato,  achei aquilo um tanto chato. Uma distracção, até. Tudo parecia artifical, uma re-criação. Um mero artifício.

Pelo contrário, passei o tempo a interrogar-me como é que alguém que não viveu Moçambique nos anos 60 e 70, irá alguma vez entender o alcance, o detalhe, o significado de todo aquele artilhado de referências. E chego à conclusão que, no essencial, aquilo tudo é basicamente irrelevante, ou melhor, pouco relevante. Especialmente se esse hipotético leitor não for português ou moçambicano (a 24 euros em Portugal a cópia, boa sorte aos meus amigos moçambicanos…) os únicos que poderão entender mais aproximadamente os significados explícitos e implícitos das múltiplas referências.

A sensação de déjà vu percorre ainda a maior parte do relato. Quem estudou a história recente de Portugal, ou quem foi contemporâneo dela, ao ler esta obra estará condenado também a ir “picando” a sequência de eventos em ocorridos naquela altura. Possivelmente interessante para quem não sabe, chato que baste para que, como eu, está careca de saber.

Retirado isso, fica a primeira grande crítica ao que li: o enredo, por si só, é interessante apenas e unicamente por uma razão, e mesmo assim só marginalmente: porque JRS o jornalista estrela da RTP e escritor com algum sucesso nos avisa previamente que aquilo é aproximadamente decalcado do percurso feito pelo seu pai, o Dr Rodrigues dos Santos. Que ao dinamizar a iniciativa do Serviço Médico Aéreo em Tete só pode ser alvo de merecido aplauso. Mas mesmo aí só isso. A personagem descrita no livro é menos que interessante, tem uma tipologia algo bi-dimensional. Sendo a principal do enredo, no fundo é apenas mais uma de um novelo de pessoas que fazem a história ali contada. Não é heróico, não sofre, não faz quase nada de inusitado, entra e sai de cena sem que o leitor sinta que está na presença de alguém invulgar, ou alguém que fez algo de excepcional. Como há uns dias escreveu um exmo. Leitor, pessoas como ele (o pai do autor na vida real) houve-as às dúzias, parecendo quase uma injustiça apontar os feitos desta e ignorar os dos outros todos.

Por outro lado, por definição, sendo o enredo quase matematicamente decalcado duma realidade bem conhecida de quem proventura estiver familiarizado com a realidade moçambicana nos anos 60 e 70, não é, não pode ser um thriller à moda das obras anteriores de JRS.

Nem há ali qualquer revelação incandescente sobre seja o que for.

Portanto, O Anjo Branco nem é um thriller, nem é o herói da história um herói.

Sendo assim, esta obra é então o quê?

A resposta é fácil. Eu creio que JRS se enganou, ou foi enganado, quando supôs, ou quando lhe disseram, quando se convenceu, que a história do seu pai, do seu percurso feito em Moçambique, que culminou com o seu muito breve cruzamento com a tragédia de Wiriyamu em Dezembro de 1972, era uma história interessante ao ponto de merecer – mesmo ficcionalizado – um livro de quase setecentas páginas.

Com todo o devido respeito pelo Sr. Dr. Rodrigues dos Santos e tudo o que fez, não merece.

Ou então, apesar de introduzir o alegórico permitido pela ferramenta da ficcionalização, JRS simplesmente não conseguiu adicionar a dimensão épica, emocional, moral, ao seu texto, que assim se lê um pouco como se vê um documentário da National Geographic sentado em casa em frente ao televisor.

Por falta de melhor justificativo para a razão de ser desta obra no contexto do que JRS é e já fez, o que acabo por magicar é que, talvez subrepticiamente, o filho escritor quis heroificar e honrar o pai médico-aviador com um livro evocativo, para o que aliás se dispôs a calcorrear os confins de Portugal e de África e entrevistar toda uma série de pessoas (algumas das quais apresentou nominalmente na Sociedade de Geografia de Lisboa), coligindo um sem fim de dados, para no fim tentar fazer aquilo que até agora tem tido algum sucesso a fazer: conceber um thriller com um herói.

A leitura desta obra coloca outra questão que abordarei apenas como referência pois já escrevi antes em detalhe mais do que suficiente sobre isso: a ficcionalização ali contida. Só que na altura em que considerei o tema da ficcionalização, fi-lo no abstracto, sem haver lido o texto. Agora que já li, a questão é mais paradoxal, na medida em que o que encontrei foi uma ficção completamente assediada pela realidade dos factos. Imagino que a personagem Diogo seja uma mera ferramenta literária para suportar a explanação, pelo autor, do enredo. Ele é a mosca na parede que vê o que outros não podem ver. Mas mesmo essa personagem serve essencialmente para transmitir factos. E mesmo que este ou aquele facto, ou situação, ou contexto sejam errados para quem está dentro deles, o autor poderá sempre recuar e dizer que essa parte foi ficcionalizada. O leitor mais informado fica assim cercado pela argumentação.

E, pessoalmente, considero esta uma situação que perturba e é por isso que não gosto de ler os chamados “romances históricos”.

Permita-me o exnmo. Leitor dar um exemplo claro do que falo. Há uns tempos atrás enganei-me completamente (acho que fui ludibriado, na verdade) quando comprei a obra Catarina de Bragança, da autoria de Isabel Stilwell, que é um dos pequenos best sellers portugueses recentes e que pensava eu que contava a história da desgraçada filha de João IV que, após a chamada Restauração em 1640, por razões de Estado, casou, mediante o pagamento de um formidável lobolo, o monarca britânico da altura, o incorrigível Carlos II, ele por sua vez “restaurado” no trono depois da breve (e única) fase republicana britânica, liderada por Oliver Cromwell. Já li que baste sobre esta era, mas achei que seria interessante reler a história na versão stilwelliana. Bem, apesar da capa deste livro nada indicar (ao menos a capa de O Anjo Branco indica que é um romance) afinal aquilo era um “romance histórico”, em que Isabel Stilwell permite-se, e quer-nos fazer crer, que estava lá, que sabe, a todo e qualquer momento, o que se passou e o que ia na mente da desgraçada Catarina, da família real portuguesa e de todos os que os rodeavam. Eu achei aquele relato pouco credível e essencialmente insuportável, pois eu queria a verdade ou uma aproximação dela, não o romancear delirante e bem intencionado da Isabel, transplantado para a filha de João IV. Mas estes dias este tipo de literatura anda muito na moda. Eu bem que tento de fugir dele, mas neste caso fui enganado.

De forma mais atenuada, a obra de JRS sofre do mesmo problema.

O Anjo Branco foi também comercializado com a argumentação de que apresentava as coisas de uma nova maneira, um novo olhar sobre a história portuguesa (e moçambicana) recente, mais fria, mais objectiva, mais distanciada das ainda luzentes disputas ideológicas em relação ao julgamento feito da História. De facto, na minha leitura, constatei que JRS deve ter prestado tanta ou mais atenção, e dispendido tanto ou maior esforço, a contar uma estória que fosse tão isenta de julgamento, tão politicamente correcta, tão factualmente incontroversa, quanto aparentemente prestou, e dispendeu, a agregar os miríades pequenos detalhes da vida e dos locais onde se desenvolve o enredo. Isso tem a virtude de o colocar bem na imagem – o politicamente correcto é uma maneira de estar na vida, especialmente em Portugal, especialmente para um popular apresentador de televisão – e de concretizar algo verdadeiramente insólito: o de ter sido capaz de escrever um livro de setecentas páginas sobre o tempo colonial e a guerra em Moçambique, e provavelmente de a obra ser inatacável por parte das várias correntes portuguesas actuais em relação ao tópico, e até da prevalecente doutrina moçambicana em relação ao assunto.

Isso sim, é que foi obra.

Só não sei se, nessa óptica, seja obra que interesse ler. O politicamente correcto tende a não ter paixão, tende a acinzentar a realidade. Tende a corroer e a dissolver as arestas e os contrastes que pessoalmente eu gosto de ler. Prefiro ler Samora e Marcelino, Jorge Jardim, Caetano e Kaúlza de Arriaga e decidir por mim quem tem razão, e quem está a mentir.

Mas se calhar sou só eu a sentir isso.

O Mangalho de José Branco

Para encerrar esta nota que já vai longa, gostava de abordar, à laia de “assuntos quixotescos diversos”, o mangalho de José Branco, assunto que JRS usou como gracejo em mais de uma entrevista que concedeu.

A verdade é que o primeiro capítulo de O Anjo Branco é apenas sobre duas coisas: 1. o nascimento da personagem decalcada da do seu pai, e 2. o descomunal, incontornável, indesmentível, embaraçoso, enorme tamanho do seu pénis. Sendo a obra “realidade ficcionada”, toda a gente logicamente ficou na dúvida se aquilo do mangalho do futuro Dr. Branco era baseado no respectivo órgão do pai de JRS ou se era apenas uma figura de estilo do autor para alguma coisa que tivesse que ter com o contar da história. JRS foi soberbamente evasivo e até gozou com os jornalistas que lhe fizeram a pergunta, que, rindo, estupidamente, deixaram a questão ficar por ali.

Só que a questão é pertinente e constitui um mistério, não tanto porque o herói da fita inspirado na figura do pai tivesse um “monstro” entre as pernas, mas, mais relevante, porque é que JRS achou que aquilo era um assunto mencionável no contexto da obra. É que, da leitura do texto, emerge que o “monstro” parece que afinal não serviu para nada, nem tem praticamente qualquer relevância no enredo. A todos os títulos, a personagem criada por JRS aparenta ser uma pessoa absolutamente normal, que nada fez de extraordinário, certamente não era um James Bond que embananava uma mulher em cada esquina. Aliás, fica-se com a dúvida se a mentalmente indigente Mimicas, a mulher de José Branco, alguma vez viu o “monstro”. Para além da estrondosa aparição no início do texto, esta referência só aparece mais duas vezes, algures durante a adolescência e (o leitor decida o que fazer disto) na passadeira da igreja a caminho do altar, para Branco se casar com a patética Mimicas.

Nesse ponto, pensava eu que era aí que se justificaria a honrosa menção: a noite de núpcias que teria que se seguir ao enlace matrimonial, e que seria para JRS a oportunidade de, com base na precedente referência, fazer o equivalente do Canto Nono de Os Lusíadas, o tal em que os professores no meu tempo de liceu ficavam embasbacados a tentar explicar o que eram e o porquê daquelas orgias lírico-sexuais inventadas pelo poeta Luis de Camões.

Só que nada disso acontece. O Dr. Branco casa com a Mimicas depois nada. Como em Loch Ness, o  “monstro” simplesmente desaparece para nunca mais ser visto. Nem mesmo quando o Dr. Branco se enrola repetidamente com a apetecível rodesiana em Lourenço Marques e algures no Norte, no chão e no ar.

Ou seja, aquilo é tão despropositado, tão fora de contexto, que fica ali, literalmente…pendurado.

JRS lá saberá o que aquilo significa. Mas seria bom se quem lesse, também percebesse.

Em resumo

Esta obra prova que José Rodrigues dos Santos devia centrar-se no tipo de livros que fez antes deste.

O Anjo Branco é legível, pode até ser interessante para algumas pessoas. Mas não está em linha com a obra anterior de JRS. Não é nem um thriller nem sequer uma tentativa de épica. E sofre de uma atroz falta de dimensão humana e de alguns constrangimentos que a meu ver a aproximam apenas de uma estória mais ou menos bem contada, sabendo perigosamente a um mero script de cinema, faltando-lhe a emoção, o empenho, o partidarismo, o drama que caracterizou aquela fase da vida dos portugueses e dos moçambicanos. Focando num dos episódios registados mais tristes da guerra colonial, talvez no afinco em manter a neutralidade politicamente correcta em relação a um tópico ainda rodeado de paixões, o autor apenas a descreve analítica e distanciadamente, passando por cima do horror e injustiça abjecta que o massacre representou.

Fica a homenagem tentada, implícita, ao pai de JRS – a todos os títulos um bom homem, a quem ele, juntamente com a mãe, dedica a obra.

E aqui fica a minha homenagem – às vítimas de Wiriyamu.

28/10/2010

OFENSIVA POLÍTICA E ORGANIZACIONAL DA FRELIMO, 1980

No âmbito da Ofensiva, o Presidente Machel aparece de surpresa com a sua comitiva numa escola de Maputo. À sua esquerda vê-se Carlos Cardoso. À sua frente o José Cabaço, mais à direita Miguéis Lopes Júnior. Mesmo no canto do lado direito vê-se Graça Machel.

O Presidente Machel dirige-se aos alunos e professores. Atrás dele vê-se Calane da Silva. No extremo direito da foto, de óculos, é Luis Bernardo Honwana.

por ABM (28 de Outubro de 2010)

Até recentemente não fazia a mínima ideia do que fora a Ofensiva Política e Organizacional da Frelimo nos anos 80, apenas considerava que as fotos eram o máximo.

No entanto, a chamada Ofensiva Política e Organizacional foi um marco, um evento crucial na evolução do sistema e – principalmente, no pensamento político e económico de Samora Machel em termos da dialéctica do conflito interno da Frelimo de então e do Presidente moçambicano no que concerne ao futuro.

O insigne académico José Negrão, da Universidade Eduardo Mondlane (infelizmente falecido em 2005) deixou-nos um verdadeiro tesouro, na forma de um texto intitulado Samora e Desenvolvimento, datado de Maio de 2001, que na minha humilde opinião devia ser leitura obrigatória para todos os estudantes, apreciadores e analistas (até os de bancada) do percurso económico-político moçambicano dos primeiros dez anos após a Independência. Tem as vantagens de uma leitura erudita mas fácil de seguir, e de permitir ao seu leitor uma perspectiva particularmente reveladora do pensamento do presidente Machel.

O texto do prof. Negrão situa e descreve claramente o que foi a OPO e o contexto em que se insere.

E por o exmo. Leitor estar a ler aqui o Maschamba, pode ler o texto premindo AQUI.

Totalmente grátis e nem sequer precisa de se pré-registar.

(grato ao LL)

19/10/2010

SAMORA MACHEL: A HISTÓRIA EM FOTOGRAFIA

A imagem do primeiro presidente idealizada, estilo "Grande e Querido Líder"

por ABM (19 de Outubro de 2010)

Há muita gente que já não se lembra bem de Samora Machel, e a maior parte dos moçambicanos hoje já nasceu depois dele morrer. Eu, por exemplo, nunca o conheci.

Em seguida, imagens que retratam o segundo presidente da Frente de Libertação de Moçambique e o primeiro presidente de Moçambique. Legendas de ABM.

Então cá vai.

Samora na Tanzânia, a base de operações da Frelimo, com Valeriano Ferrão e o filho dum apoiante do movimento. Valeriano mais tarde foi o primeiro embaixador moçambicano nos Estados Unidos da América, onde o conheci. Através da Ndjira, escreveu um livro sobre a sua experiência.

Josina Machel. Foi a primeira mulher oficial de Samora. Bonita. Morreu durante a guerra da Independência. Santificada pelo regime, deram o seu nome ao velho Liceu Salazar em Maputo.

Samora o Senhor da Guerra, já antes da estranha morte de Mondlane e a depuração que se seguiu. A "Frente" deixou de ser uma frente e passou a ser politicamente uma - e marxista-leninista.

Com o seu fato de El Comandante, Samora discursa no mato (não sei a quem).

Após a morte de Eduardo Mondlane, e com o apoio de Marcelino dos Santos, Samora despacha a oposição.

Socialista e sem qualquer margem negocial, Mário Soares entrega as chaves da casa a Samora em Lusaka, 7 de Setembro de 1974. Fez-se da data um feriado nacional.

A Independência em Junho de 1975 foi uma espécie de orgasmo colectivo. A Frelimo mandava, e Samora mandava na Frelimo. E a sua palavra de ordem? "A Luta Continua". As acções: despachar os colonialistas, controlar as cidades, libertar a Rodésia e a África do Sul. Resultado: a economia desmoronou-se e a Rodésia começou a desfazer Moçambique.

O povo a caminho de (mais) um comício. Os moçambicanos veneravam o seu líder, em quem confiavam para lhes trazer um novo futuro. Dizia-se que cada vez que discursava eram mais três aviões de colonialistas a voar na Tap para Lisboa. Mas o povo adorava, especialmente quando ele dizia; "é ou não é?" (a resposta colectiva: "ééé´...")

As Forças Populares de Libertação de Moçambique, os novos Donos da terra. Em Maputo, entre outros mimos, batiam à porta das pessoas às 5 da manhã e mandavam-nos ir varrer as ruas.

Ian Smith, primeiro-ministro da Rodésia até 1980. Abandonado pelos sul-africanos logo em 1975, respondeu à decisão de Samora de constituir Moçambique como santuário para a Zanu-PF com uma guerra. Num dos primeiros ataques, uma base perto da Beira, os rodesianos mataram mais gente num fim de semana que os portugueses num ano de guerra. E a situação só piorou.

A senhora que se segue: Samora casa com Graça Simbine, uma discreta chope, hoje a grande Graça Machel.

Samora o Presidente. Com os rapazes, posando para a posteridade.

O Presidente no palácio, em família, num intervalo de pausa.

O carisma de Samora era apercebido como 80% da força do regime. Até 1984.

A deusificação do Líder. Aqui, Samora com Eduardo Mondlane, liderando a gloriosa luta do povo moçambicano.

Samora e Julius Nyerere com as respectivas. Nyerere, Fidel e Stalin parecem ter sido as grandes inspirações de Samora.

Nujoma, Kaunda, Samora, Nyerere, Mugabe e, segundo o nosso leitor Sr. Jongomoz, José Eduardo dos Santos: A aliança chamada "Países da Linha da Frente". Contra a África do Sul.

Nujoma, Samora, Kaunda e Mugabe. Dos quatro países, só Moçambique foi dizimado, primeiro pelos rodesianos e depois pelos sul-africanos e pela Renamo. Angola era outra loiça.

Samora o Estadista africano na Cortina de Ferro. Até quis entrar na COMECON (não foi aceite). Aqui com um dos seus ídolos, Fidel Castro.

Samora o Estadista, outra vez com Fidel (não sei quem é o sr, à esquerda).

O líder mundial: Samora com Chou en Lai, o homem forte da China após a morte de Mao em 1976.

Samora na Roménia com o ditador Ceaucescu: a amizade socialista foi essencialmente um gigantesco fiasco. Em Maputo, havia um novo tipo de apartheid: a praia dos americanos, a praia dos russos, a praia dos alemães da RDA, etc.

Samora dá uma palmada nas costas de Yasser Arafat, líder guerrilheiro palestino. A amizade entre os Libertadores.

O Presidente, de farda militar numa visita à Alemanha comunista, dá uma dose de charme a uma alemã gorda. Curiosamente, a sua visita a Portugal nos anos 80 foi nada menos que triunfal.

O Presidente, num momento de descontracção. Em 1983, Samora já se tinha apercebido no buraco em que Moçambique se tinha metido. Os sul-africanos demoliam o país e os apoios de Leste eram insuficientes. Estava encostado contra a parede.

Samora solitário. Em 1983, dá-se a grande viragem no homem, que chocou e alienou a liderança da Frelimo e de quase todos os líderes com quem estivera: introduzir práticas "capitalistas" e assinar um tratado de paz com Pretória. Era a negação de tudo o que havia sido feito em dez anos. Mas ainda era o chefe indisputado dos moçambicanos.

O impensável acontece: Samora, com a sua farda, assina um tratado de paz e não agressão com o Velho Crocodilo. Mas a máquina do apartheid já estava fora de controlo e não ligou ao papel assinado. Em Maputo, em surdina, as dúvidas eram mais que muitas.

Samora em Komatipoort, a dez quilómetros de onde viria a morrer dois anos e meio depois. Aqui com Graça, Botha e Pik (um notório bêbado e ministro dos negócios estrangeiros de Pretória). O pacto fracturou perigosamente a unidade na elite da Frelimo. Mas os efeitos da guerra eram piores.

O Impensável 2: Samora na Casa Branca com Ronald Reagan, o arquitecto do fim do Comunismo. Sem qualquer margem de dúvida, a ideologia do Regime foi posta de lado por Samora. Mas nem assim a África do Sul e a Renamo pararam. Para o encontro com Reagan, que já estava com indícios da doença de Alzheimers, avisaram Samora para dizer o que tinha a dizer de importante nos primeiros cinco minutos, senão Reagan esquecia-se.

O Charlie-Nine-Charlie-Alfa-Alfa. O avião presidencial despenha-se na noite de 19 de Outubro de 1986. Samora, que estava sentado na frente do avião, morre. Foi sucedido por Joaquim Chissano, que exigiu um avião e tripulação que não fossem russos. No 5º Congresso da Frelimo em 1989, o da Volta dos 180 graus, o comunismo foi abandonado. Chegou a Era do capitalismo cortesia do FMI e dos Doadores. E os Empresários de Sucesso. E, segundo Carlos Cardoso, a Corrupção à escala industrial.

17/10/2010

A IMPRENSA E A REVOLUÇÃO DA FRELIMO

Segundo os meus camaradas do Feicebúque, esta é realmente uma fotografia histórica do jornalismo moçambicano após a Independência. Parece que foi tirada em 1976. E aqui está a Nata: Carlos Cardoso, João Machado da Graça, António Souto, Mia Couto, Ricardo Santos, Calane da Silva, Almeida Henrikes, Luis Lemos, Fernando Rebelo, Luis Souto, Augusto Casimiro, Rui de Oliveira, Murilo Sales, Abel Faife, Dimas, Mendes Oliveira, Waddington, Mafuiane, Jojó, Marcos Cuembelo, Ricardo Rangel, António Fonseca, Beatriz Rangel, Albino Magaia, João Santa Rita, Ian Christie, Luisa Alcântara, JP Branquinho, Rui Agnelo Sousa, Lico, Nanda Gomes, Luis Clemente, Graça Felner, Orlanda Mendes, Tozé Alves Gomes, Maria Adalgisa, Sol de Carvalho, Leite Vasconcelos, Luis David e Areosa Pena. Isto entre os que se reconhecem. Tudo na mesma sala.

por ABM (17 de Outubro de 2010)

Estou a meio da leitura de um livro que comprei há sete anos em Nelspruit (Mmmmmmbombéélááá!) na Exclusive Books e que depois ficou este tempo todo por ler, metido dentro de um caixote em Alcoentre City. Este é em inglês e foi escrito pelo Paul Fauvet (hoje sénior qualquer-coisa na AIM mas que na altura da foto em cima ainda não estava em Moçambique) e pelo Marcelo Mosse (hoje uma das grandes mentes de Moçambique e creio que estes dias coordenador do CIP, mas que na altura da foto em cima ainda devia estar a jogar ao berlinde).

O livro que estou a ler (Cape Town: Double Storey Books, 2003) chama-se Carlos Cardoso: Telling the Truth in Mozambique [Carlos Cardoso: Dizendo a Verdade em Moçambique]. Quando o comprei, o conhecido jornalista de Moçambique, que tem página na Wikipédia em inglês mas não em português (hum) havia sido assassinado há três anos e se me recordo do que me diziam, parecia que toda a cidade de Maputo sabia que tinha sido o saudoso Nimpini a mandar e o Anibalzinho a fazer mas, mas, mas, mas….. sabem como são as coisas.

Mas a verdade é que já vou na página 227 (o livro tem 356 páginas) e o Carlos ainda está vivo e valentemente à estalada via o Mediafax com um ministro chamado Manuel António, que Joaquim Chissano, depois do que parece ter sido uma eternidade de asneiras (é o que dizem Fauvet e Marcelo que dizia Carlos) substitui por Almerino Manhenje.

O livro na verdade são dois: uma primeira parte que não acaba, escrita pelo Paul Fauvet, e uma segunda parte que refere ter sido escrita pelo Paul e pelo Marcelo.

Pelo menos da leitura da versão inglesa, a escrita é quase exímia. Paul tece bem o fio à meada e conduz o leitor num percurso temporal e modal inteligível.

Não me querendo antecipar, pois assim não tem graça, do que li até agora, o tema é outro.

Mais quando eu acabar de o ler e fazer alguma pesquisa.

09/10/2010

REINALDO FERREIRA: POEMAS, MÚSICA E A RUA BAGAMOYO

Reinaldo Ferreira

Quando ontem acabava um texto sobre a Rua Bagamoyo (anteriormente, Araújo), a D. Suzette cantarolou uma canção que atribui ao poeta Reinaldo Ferreira. Só sabia esta parte do poema:

Rua Araújo que
o tempo entardeceu
de ti não fujo, porque
sofres como eu
Saudade eterna dos
Tempos que já lá vão
(….?)

Se alguém souber do resto, agradeço mandar para aqui.

Reinaldo Edgar Azevedo e Silva Ferreira, cuja obra tem uma ligação a com Moçambique, foi para Lourenço Marques em 1941, onde chegou a chefe de posto e fez obra no então Rádio Clube de Moçambique. Hoje está sepultado no cemitério central de Maputo, cidade onde morreu em 30 de Junho de 1959. Tinha apenas 37 anos de idade. Na sua campa estará inscrito um texto de sua autoria:

Mínimo sou.
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade,
O Nada é só o resto.

Numa crónica no jornal português A Capital, publicada em 24 de Junho de 2005 e citada em Sorumbático, Carlos Pinto Coelho escreveu “…..todos sabíamos de cor algum poema dele e dava-me sempre para imaginar o Reinaldo, boémio intranquilo e solitário, rabiscando aqueles versos a uma mesa do Pinguim, que era um dos cabarets de putas e marinheiros da Rua Araújo, junto ao porto. Aquela Rosie só existiu, talvez, na mente daquele homem genuinamente angustiado, para quem a vida era só interrogação, solidariedade, elegância e pouco mais.”

Quando não estava a trabalhar no Rádio Clube, entre doses de Johnnie Walker e pastéis de bacalhau, Reinaldo oscilava habitualmente entre o Café Scala e o Bar Pinguim na Rua Araújo.

Em baixo o poema Eu Rosie, supostamente (supostamente pois parece que não encontrei confirmação) referente a uma Taxi Girl da Rua Araújo, real ou imaginada, que aliás já foi aqui referido pelo nosso Senador há cerca de um ano, mas sem os detalhes “araujianos” que lhes estão associados:

Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
De um par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh…
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une – é estar ausentes.

Mas, só para chatear, o Reinaldo escreveu um dos grandes hinos da portugalidade, imortalizada na cidade das acácias pelo Maestro Artur Fonseca e VM Sequeira:

Numa casa portuguesa fica bem
pão e vinho sobre a mesa.
Quando à porta humildemente bate alguém,
senta-se à mesa co’a gente.
Fica bem essa fraqueza, fica bem,
que o povo nunca a desmente.
A alegria da pobreza
está nesta grande riqueza
de dar, e ficar contente.

Quatro paredes caiadas,
um cheirinho á alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
sob um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera…
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

No conforto pobrezinho do meu lar,
há fartura de carinho.
A cortina da janela e o luar,
mais o sol que gosta dela…
Basta pouco, poucochinho p’ra alegrar
uma existéncia singela…
É só amor, pão e vinho
e um caldo verde, verdinho
a fumegar na tijela.

Quatro paredes caiadas,
um cheirinho á alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
sob um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera…
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

Enfim, este poema de moçambicano tem pouco, mas tem piada saber pois quase qualquer português a sabe cantar.

Mas Kanimambo, que também é dele, já tem qualquer coisa de africano, naquela versão retro-luso-treto-africana, como os portugas que tentam dançar a marrabenta.

Eu por acaso gosto de duas versões da canção, a original, sublime, cantada por João Maria Tudela, e outra, mais kitsch, cantada pelos demolidores Catita Brothers. Como é fim de semana, ficam aqui as duas.

A versão original de Kanimambo:

A versão de Kanimambo pelos fantásticos Catita Brothers:

Finalmente, ligando o som do computador do Exmo. Leitor e premindo aqui, uma excelente leitura de cinco poemas do enigmático poeta.

18/09/2010

A ACÁCIA DE CARLOS GIL

Filed under: Carlos Gil — ABM @ 3:22 am

por ABM, texto de Carlos Gil (18 de Setembro de 2010)

Em baixo, o texto que Carlos Gil leu esta tarde no 3º Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora, realizado em Lisboa.

SER, NÃO O SENDO

Há dias, numa daquelas noites em que o pavor por esta comunicação me atormentava, tornando o correr de páginas na Internet uma ilusão que aliviava a realidade de ter uma página branca iluminada e vazia à minha frente, sem nada para contar-vos, tive uma visão memorável, e, sim, ela capaz de reduzir numa imagem essa ausência de palavras significantes, e que era o meu tormento.

Vagueava por um dos sítios dedicados a glorificar as maravilhas naturais de Portugal e, de clique em clique, fui lendo e fui-me perdendo, blogues, páginas e páginas que eram improváveis quando liguei o computador e se sucediam em turbilhão, naquela fuga à minha inépcia em contar o que será ser-se um escritor ausente da sua raiz e tinteiro, e como medram os seus ramos, de forma a darem uma copa mínima a essa proscrita condição.

Essas páginas, de refúgio também elas, levaram-me a uma imagem que sobressaiu, e colou-se-me à página branca como a explicação perfeita, de maravilhosamente desajustada que era, improvável mas subsistente a conceitos de botânica que, diziam-me, naquela imagem o que estava errado e não lhe pertencia era o que a fazia assim, bela.

Falei-vos em botânica porque a peça desajustada era uma árvore. Não nos espantam as palmeiras de ascendência tropical que vemos em cuidados relvados de jardins. É um exotismo comum, e afinal estamos na borda do Mediterrâneo. Nem as outras, periodicamente vistas ou contadas, de raquíticos arbustos de suruma descobertos nas clandestinas traseiras da sociedade, em heranças coloniais tão resistentes como a memória ou a nostalgia. Nada disso nos surpreende na paisagem ou nas notícias, mas como foi diferente aquela imagem súbita no meu inaudito caso…

Eu vi, na minha visão sedenta de fábulas para resolver o meu problema de escrita estrangulada, juro-vos que vi uma acácia-rubra, própria da moldura africana, na margem dum rio português. A legenda que li e construí disse-me que era o Mondego, um rio totalmente português. Mas a árvore lá na paisagem era africana. Aquela variedade de acácias é rubramente africana. Em excesso imaginativo até aproprio a da imagem a uma genuína semente moçambicana, embora a bela acácia daquela variedade, delonix regia, disse-me uma rápida busca que posteriormente fiz, tenha origem na flora da ilha de Madagáscar.

E assim dei mais um ponto de lógica na construção da minha ficção da diáspora das raízes moçambicanas, cá, o seu outro vaso onde se sentem em casa.

Como foi possível que nas margens pedregosas e friorentas do Portugal profundo germinasse uma semente filha duma terra vermelha, um vento mais quente, um mar mais azul? Eu não sei mas ela estava lá. Está lá. E nós, filhos de África, estamos cá.

Por vezes ouço falar com desdém e até acrimónia das mensagens e escritos de saudade por vivências que, não se nega ou esquece, aconteceram em período colonial e sob o manto protector da cúpula, a bolha que rebentou porque a História o quis e os homens fizeram. Depreciam as memórias nostálgicas quando com esta matriz. Em leveza de arrogância chamam-nos, preconceituosamente, e errados, de saudosistas da História.

E tanta vez esses dedos apontados, capazes de erguer machados contra uma árvore que embeleza o quadro, porque não lhe pertence historicamente, são militantes ferrenhos de causas da natureza, ainda bem, mas revelam-se incapazes de compreender que uma memória bela não se apaga nos corações com a mesma facilidade com que se muda de casa e se plantam palmeiras no novo quintal. A saudade é outra e é legítima: temos direito à nostalgia de nós, e a contá-lo.

A acácia rubra nas margens do Mondego é minha irmã. Não sendo originária de Portugal, vive a sua diáspora em serenidade frondosa e namoriscando um rio que não é seu, como eu sendo originário da Covilhã e de Lisboa vivo a minha felicidade ficcional pisando a terra vermelha de Moçambique, servindo-me dela para o meu prazer e orgulho de preservar memórias.

Não o sendo sou-o, e talvez sem esta diáspora a que a História me empurrou fosse um outro, incapaz de reparar por falta de contraste como, qualquer que seja a paisagem, a acácia-rubra é uma árvore bela.

17/09/2010

III ENCONTRO DE ESCRITORES MOÇAMBICANOS NA DIÁSPORA

Aspecto (Aspeto?) da sessão inaugural do Encontro de Escritores

por ABM (17 de Setembro de 2010)

Decorre desde ontem na Casa de Goa em Lisboa o III Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora.

O evento é organizado por Delmar Maia Gonçalves e o CEMD, com o apoio da Embaixada moçambicana em Lisboa, a Casa de Goa e a Confraria do Vento Editora.

O programa é extenso e pode ser lido consultando a página do sítio Macua.

A sessão de abertura decorreu conforme planeado, lamentando-se apenas a ausência de Guilherme de Melo, um dos homenageados do dia (o outro foi o José Pádua, artista plástico).

De salientar os comentários do embaixador moçambicano, o genial e congenial Dr. Miguel Mkaima, um antigo ministro da Cultura, sobre os recentes distúrbios na capital moçambicana, tópico que interessou os que o ouviram dada a sua actualidade e originalidade.

Confesso que quando vi a audiência acima a minha primeira reacção foi “mas que branquidão vem a ser esta”.  Mas certamente há-de haver razões para isso. Se calhar os escritores moçambicanos brancos vivem todos fora de Moçambique (todos menos o Mia, claro).

Hoje realizam-se duas conferências que prometem:

– uma em que participam nada menos que o João Craveirinha, o Renato Epifânio e o Joaquim Evónio (moderador: Delmar Maia Gonçalves) sobre essa coisa da lusofonia. A coisa promete.

-outra, a seguir, em que participam o pintor moçambicano Lívio de Morais (tema da sua alocução: “Moçambique ontem e hoje”), Ntaluma, Mingo Rangel, (moderador: Fernando Machado) e o bardo moçambicano de Almeirim e maschambeiro honoris causa, Carlos Gil, metamorfoseado para um look executivo, de fato e gravata, sem bigode, que preparou um texto intitulado Ser, sem sê-lo.

Vou tentar obter cópias do que foi lido, para os Maschambeiros ausentes poderem saborear o que foi.

As fotos roubei ao João Marques Valentim, a quem a casa agradece.

Ascêncio de Freitas, Miguel Mkaima, Delmar Gonçalves e São Passos

Em primeiro plano, Rodrigues Vaz, São Passos, João Marques Valentim. Os outros não sei quem são.

09/09/2010

REFLEXÕES SOBRE OS EVENTOS DE 1 DE SETEMBRO

Filed under: Desporto, Mia Couto, Sociedade moçambicana — ABM @ 11:19 pm

por ABM (9 de Setembro de 2010)

Estes dias têm sido mais para ler que para comentar. Eis dois testemunhos, um por alguém que conheço, outro não.

Já o economista moçambicano Dr. João Mosca foi mais duro, enquanto o CIP (liderado por Marcelo Mosse) acusou.

Em Portugal, alguma distracção esta noite com a “resolução” do contrato de Carlos Queiroz, curtamente anunciado pelo incomparável Gilberto Madaíl antes da hora do jantar.

RECORDANDO RUI KNOPFLI

Filed under: Rui Knopfli — ABM @ 1:48 am

Recordando o grande Rui Knopfli.

O poeta R K

03/07/2010

COM 35 ANOS DE USO

Filed under: Mia Couto, Politicamente Correcto — ABM @ 2:43 am

por ABM (Sábado, 3 de Julho de 2010)

No dia em que moçambicanos um pouco por toda a parte celebravam 35 anos de independência, o jornal angolano Zwela Angola noticiou a efeméride com um artigo até interessante e bem escrito, texto que no entanto refere ter ido buscar a uma tal Opera Mundi, que é um portal brasileiro, por sinal até muito interessante. É tão bom, tão bom, que até já tem a sua própria entrevista ao Mia Couto, esta feita por e-mail.

E ainda tem uma recensão ao livro do Mia Venenos de Deus, Remédios do Diabo. Com o título “romance de Mia Couto leva personagem e leitor à loucura, como os ‘tresandarilhos’ “. Um título sugestivo, sem dúvida.

Claro que deu um tiro no pé ao capear um texto sobre as cerimónias de despedida do escritor José Saramago com o título “Portugal recebe com honras militares corpo de Saramago”.

Portugal inteiro recebeu? com honras militares? O José Saramago? em Lisboa? o quê? aqueles tropas a quem mandaram tirar o caixão do avião e meter no carro funerário? só se foi isso. Mas acho que os caras da Opera Mundi se espalharam ligeiramente nesta.

O que me chamou a atenção para esta peça do Zwela Angola, no entanto, não foi o texto mais ou menos laudatório.

Foi a escolha da bandeira acima para ilustrar e capear o artigo alusivo à independência moçambicana em 1975.

Agora…hum…será que os nossos brothers angolanos não poderiam ter assinalado o mais nobre feriado moçambicano com uma bandeira menos rota? o país ainda está em convalescença e ainda não tem petróleo (vai ter em breve, segundo as minhas fontes) mas há por aí bandeiras em bom estado e à mão de semear.

Aliás, agora com três voos por semana entre Luanda e Maputo, surgiu a oportunidade de os angolanos finalmente conhecerem o novo Moçambique. Da última vez que estiveram lá, era 1895 e estavam na primeira e na segunda linha do quadrado de Marracuene. Do que li, então salvaram o pêlo aos portugueses e o Sul de Moçambique dos britânicos.

Hoje heróis todos eles, claro.

Presumo.

19/03/2010

O LANÇAMENTO DO NOVO LIVRO DE JOÃO PAULO BORGES COELHO

Filed under: João Paulo Borges Coelho — ABM @ 9:50 am

Da esq. para a dta: gen Custer, Fernando Rosas, JPBC e o Senhor da Leya. Em primeiro plano e de costas à esquerda, o embaixador de Moçambique em Lisboa

por ABM (Lisboa, 19 de Março de 2010)

A partir do anúncio e desafio da exma Sra Baronesa, e como referi, dirigi-me ontem ao fim da tarde para a cerimónia que marca o lançamento do mais recente livro de João Paulo Borges Coelho, O Olho de Hertzog.

Típico dela, a exma Sra Baronesa acabou por não aparecer, tendo gravações ilegais de telefonemas pela Judiciária e divulgadas nos vespertinos revelado que ela teve que ficar em casa a tomar conta do neto recém-nascido ( o Maschambinha) pois a filha tem um emprego etc e tal.

Uma pena.

Mas felizmente que o contingente Maschambiano presente estava presente, para dar conta dos eventos.

Apesar do escarcel feito no piso superior por um alegre grupo de convivas da Sociedade de Geografia de Lisboa, a cerimónia foi leve e interessante.

Na mesa, em frente à audiência que me parecia ser composta por fãs e caçadores de autógrafos, entre alguns distintos como Kok Nam, Luis Patraquim, Stewart Sukuma e S.Exa Miguel Mkaima, Embaixador de Moçambique em Portugal, estavam o autor, o historiador e político (Bloco da Esquerda?) Fernando Rosas, um representante da editora Leya e um senhor que não sei quem era mas que tinha a cara chapada do general americano Custer (news flash: JPT precisa que é Zeferino Coelho, ilustre editor da Caminho).

A cerimónia começou pouco depois das sete da noite com um discurso preparado pelo senhor da Leya, que fez uma simpática prelecção sobre quem era a Leya, quando começou a Leya, o que fazia a Leya, que a Leya era fantástica, que a Leya estava em toda a parte, que a Leya era porreira, e que a Leya marcava mais um ponto com o livro de JPBC. Breve, previsível e dentro da praxe, até porque, do pouco que sei, este cavalo já ganhou a corrida. Tudo indica que o livro é bom, lê-se bem e vão ganhar dinheiro.

A seguir falou Fernando Rosas, que referiu ter andado já por Moçambique, que conhece JPBC o historiador e agora tinha a surpresa de o conhecer como ficcionista, ainda que um ficcionista com mira de historiador. Para nervosismo do senhor da Leya, que pela postura parecia que lhe queria dar com uma cópia do livro na cabeça, Rosas ia revelando quase todo o enredo da obra (mas assim ninguém compra o livro, ò Fernando!) mas no último segundo lá se conteve e sugeriu que quem quisesse saber o desfecho que lesse a obra (uf!!!) e teceu umas considerações sobre a velha Lourenço Marques e Maputo, sobre o João Albasini (uma conhecida figura de então e presente na obra) e sentou-se.

Na sua curta intervenção, JPBC, que falou baixinho (resultando que, com o escarcel dos senhores da Sociedade de Geografia de Lisboa que estavam a jantar lá em cima, mal se ouviu metade do que dizia) referiu alguns aspectos da sua obra e revelou que a sua curiosidade sobre o passado de Maputo era adquirida, dado que ele crescera na Beira (ninguém é perfeito, JP).

Quando terminou, todos bateram palmas e logo se formou uma longa bicha para JPBC autografar os livros comprados ali. Eu decidi esperar e fui comer umas bolachas (realmente, a Leya podia ter metido na mesa mais que umas meras bolachinhas, eu então que estava esfomeado, mas enfim) e cumprimentar e falar com algum pessoal ali presente, de que destaco a ilustre Maschambiana VA, que, descobri, vai visitar Moçambique pela primeira vez na vida daqui a uns dias.

No fim, comprei uma cópia de O Olho de Hertzog e fui com VA ter com JPBC.

Eu não conheço o protocolo dos autógrafos. Pensava que, dado que eu é que comprei o livro, que o autor assinava a contracapa e mais nada. Quando avancei a minha cópia, JPBC olhou para mim sorridente e disse “sim?”. “Sim o quê?”, respondi. “Qual é o seu nome?”. Respondi “ABM”. E ele, com a sua caneta de filtro preto, escreveu “ao ABM com a amizade do JPBC”. Agradeci.

Portanto daqui a uns anos poderei dizer aos mais incautos (que não lêem o Maschamba, claro) que conheço perfeitamente o JPBC e até poderei mostrar o livro com a dedicatória e dizer “ora vês, ele até me ofereceu este livro, pá!”. E daqui a 50 anos, um alfarrabista velhaco qualquer em Lisboa vai tentar revender o livro mais caro anotando em letra pequena: “O Olho de Hertzog, por JPBC, 1ª edição, cópia em bom estado com alguma traça e marcas de Coca-Cola,  com dedicatória assinada pelo Autor no dia de lançamento em Lisboa no ano de 2010. 250 euros”.

Feitas as contas (um livro 15.00 euros, 1 chip de memória para a máquina 19.00 euros, estacionamento 6.30 euros, 2.50 euros de portagens de e para Cascais, gasolina entre Cascais e Lisboa, total uns 50.00 euros) a festa custou uma nota.

Mas enquanto houver dinheiro, quem corre por gosto não cansa.

Agora já só falta ler a obra.

Em baixo, algumas fotografias do evento.

O Dr. Fernando Rosas comenta a obra

JPBC tece umas considerações

O embaixador de Moçambique fala com VA sobre a sua próxima viagem

JPBC autografa a cópia de VA do livro que escreveu

O Senhor Kok Nam, sempre bem disposto

A. Coelho, Parcídio e Luis Carlos Patraquim

Stewart Sukuma, Luis Carlos Patraquim, Lucrécia Paco da Cia de Teatro Mutumbela Gogo e a Maschambiana VA

ANTEBELLUM

por ABM (Lisboa, 19 de Março de 2010)

Este é um prelúdio à minha nota sobre o lançamento do livro O Olho de Hertzog, por João Paulo Borges Coelho (JPBC).

Gosto de pontualidade. Para mim é algo natural. Cresci com ela. Prezo-a. É uma parte essencial, imprescindível da vida complexa. É eminentemente desejável para que a vida seja mais fácil e mais eficiente para todos. E exequível. É a homenagem a esta verdade incontestável: a de que o bem mais precioso que temos, mais que a saúde, o dinheiro e o sexo, é o tempo. Reconheço que muita gente não repara nisso.

E só menciono esta questão aqui por duas razões.

A primeira é que em Portugal a pontualidade é, na maioria das situações, uma prática em pouco uso. Nem tanto porque há pessoas que não sabem o que é a pontualidade: elas sabem. E até têm um magnífico arsenal de desculpas para a sua não-pontualidade. O problema é que parece que há mais gente que não conhece o conceito, creio que mais numa óptica latino-casualística de “há tempo para tudo” (o que naturalmente o desvaloriza e donde o paradoxo é que só há tempo se houver pontualidade por parte da maioria) e há os que acham que a sua falta de pontualidade inscreve-se como uma espécie de estatuto de entidade superior, em que quanto mais importante se é (ou se pensa que é) mais se pode ignorar a pontualidade. Pessoas “importantes” em Portugal fazem-se esperar. Decorre que quem é pontual e espera, terá estatuto inerente de menoridade.

E, mais grave, há curiosas instâncias em que se assiste à codificação e institucionalização da falta de pontualidade, que assim acaba por ser aceite em vez de sancionada. Recentemente, passei por uma situação em que marquei uma consulta com um médico, para uma quinta-feira às 11 horas. Eu estava lá a horas. O “sotôr” apareceu ao meio dia e descobri então que a sua pródiga assistente havia marcado cinco pessoas para ele ver nesse dia e às mesmas 11 horas. Quando fui atendido, à uma hora da tarde, preguei-lhe um valente raspanete e saí, sem consulta e sem pagar um tusto e com a garantia de nunca mais voltar. Mas não antes dele, que na primeira parte da nossa curta conversa basicamente me tentou explicar que não tinha que explicar nada – o seu estatuto assim lhe daria mais essa prerrogativa – em tom de meia confissão, me vir para cima com a justificação de que se ele marcasse horas específicas para cada pessoa que ele via ele acabaria por passar fome pois os pacientes frequentemente marcam e não aparecem sem dar cavaco ou chegam tarde e a más horas.

Em Cascais eu conheço um senhor de origem alemã e que vive em Portugal há muitos anos. O Dr. Luiz é médico cirurgião e do nosso relacionamento depreendo que os alemães quando nascem, metem-lhes um “chip” da pontualidade na cabeça. Com base nesta amostra (que infelizmente é só ele) a pontualidade parece que faz parte do DNA dos alemães. E das conversas que tenho tido com ele, essa tem sido uma das bases da sua quase infindável conflitualidade na sua vida portuguesa (e ele adora Portugal, na versão lúdico-turística, claro): ele planeia a sua vida e é pontual, e quase ninguém à volta dele é. Como exemplo, esta semana ele contratou uma empresa de reparação de aparelhos de ar-condicionado para vir fazer uma reparação em casa dele. A empresa indicou que uma equipa sua estaria em sua casa esta manhã às dez horas da manhã. Apareceram às 11 e meia. Ele ficou sentado na sala uma hora e meia à espera dos técnicos, e como consequência do atraso desmarcou um almoço comigo pois à hora de almoço S.Exas estavam lá a trabalhar. Eu, que tinha o almoço com ele, fiquei a arder (e a comer uma sanduíche de queijo em casa) e danado com este, mais este, exemplo da (falta de) pontualidade vigente.

Isto vem a propósito da minha ida ontem ao centro de Lisboa para assistir a uma cerimónia a marcar a publicação do livro O Olho de Hertzog, pelo escritor e professor universitário JPBC. Eu, que praticamente nunca vou a estas cerimónias (a última foi em Maputo há uns dez anos para o lançamento de um livrinho de poemas do meu caríssimo Eddy White, então meu colega, acreditem ou não) anotei a informação divulgada aqui há dois dias pela nossa cara Senhora Baronesa, que referiu ser a dita na sede da Sociedade de Geografia de Lisboa, ontem pelas 18 horas. E assim me preparei e me dirigi de Cascais para Lisboa no meu Maschambamobile, cerca das 17 horas. Como o trânsito para o centro da cidade a essa hora estava leve, cheguei cedo. Estacionei no parque situado por baixo dos Restauradores e fui até à porta da sede da Sociedade de Geografia, que fica na Rua de Santo Antão (na realidade a sede fica no lado direito do edifício do Coliseu dos Recreios). Aí, descobri que me tinha esquecido de colocar um daqueles chips de memória na minha máquina fotográfica. Olhei para o relógio, vi que ainda tinha algum (pouco) tempo, e disparei para o Rossio à procura de uma loja que as vendesse. Encontrei uma loja entre o Rossio e o Elevador de Santa Justa, paguei e voltei a correr para a Sociedade de Geografia. Eram exactamente 18 horas.

Quando entrei, não vi ninguém. Dirigi-me ao porteiro e perguntei onde é que se realizava a cerimónia do lançamento de um livro por um senhor moçambicano. Ele olhou de lado e apontou para uma porta: “é ali. Mas a cerimónia só começa às sete da noite”. Dali a uma hora. Fiquei ali a olhar para ele.

Bem, para passar o tempo antes do lançamento do livro em Lisboa, voltei para a rua e tirei algumas fotografias na rua, que estão a seguir.

Na próxima nota, referirei a cerimónia de lançamento do livro O Olho de Hertzog, por JPBC , em Lisboa.

As fotos, de uma Lisboa ao fim de uma tarde de primavera, dia 18 de Março de 2010.

A Praça dos Restauradores e a Estação do Rossio

A estação do Rossio, onde Sidónio Pais foi assassinado em Dezembro de 1918

Fachada do Hotel Avenida Palace, por onde Eça de Queiroz passou

Fachada do antigo cinema Condes, hoje um café

Avenida da Liberdade, na direcção da Praça do Marquês de Pombal

O antigo palácio do Conde de Arnoso, agora usado pelo governo

O elevador da Glória

12/03/2010

SIDÓNIO PAIS E SAMORA MACHEL

Filed under: História Moçambique, Raul Honwana — ABM @ 1:00 am

Pintura de Sídonio Pais no Palácio de Belém

Samora Machel numa conferência. À sua direita, Joaquim Chissano, na altura MNE moçambicano

Samora Machel numa conferência. À sua direita, Joaquim Chissano, então MNE

Por ABM (11 de Março de 2010)

Pelas lacunas, este é apenas um esboço biográfico, resultante de umas breves notas que tomei a semana passada.

Sidónio Pais e Samora Machel nunca se conheceram, obviamente. Sidónio Pais faleceu em meados de Dezembro de 1918, assassinado em Lisboa por um tal Júlio Costa, que consta ser bisavô do actual político do PS português, António Costa, enquanto que Machel nasceu em Gaza em Setembro de 1933.

Mas há uma relação curiosa, se indirecta.

Sidónio Pais, que foi presidente de Portugal por pouco menos que oito meses em mais uma das emergências em que este país parece ser pródigo, é uma das figuras mais fascinantes da primeira parte do século XX português. Dos seus esboços biográficos sobressai uma figura absolutamente singular, intelectualmente em quase total desproporção com os que andavam pelos corredores do poder português na altura (e hoje) e com um percurso que deixa adivinhar uma mente particularmente superior e uma postura moral ímpar num Portugal em quase perpétua ebulição. Os paralelos com o que Samora tentou fazer em Moçambique numa parte do seu percurso, e a sua postura de um comportamento ético (em versão de ditadura comunista, naturalmente) são muito curiosos.

De certa forma, e à sua maneira, Sidónio tentou fazer o mesmo, e com o mesmo sucesso – alguém matou-o. Claramente, causou uma grande impressão na altura. Fernando Pessoa, que não é tido como um lírico nestas coisas da política, refere-se a ele em termos quase místicos, num conhecido poema.

O percurso de Sidónio Pais é o de algum conforto material num Portugal quase medieval no fim do século XIX e o seu génio (e beleza física, que terá usado liberalmente como um reputado – dir-se-ia hoje – womanizer, sempre impecavelmente vestido) contrasta perigosamente com várias incidências de loucura na sua família (nada menos que um tio e dois irmãos enlouqueceram). Em paralelo, fez carreira militar e académica, sendo em 1910 professor catedrático na Universidade de Coimbra, em matemática, e major do exército. Com algumas credenciais republicanas, uma adesão tardia a uma casa da maçonaria em Coimbra, e nenhum apreço pela monarquia, foi sugado para a política da nova república logo em 1910, tendo desempenhado funções nas Finanças e outras. Mas a maior parte do tempo passou-a em Berlim como embaixador, entre 1912 e Março de 1916, quando a república, emparedada pela sua relação longa e doentia (mas imprescindível) com a Grã-Bretanha e o autêntico terror de perder as suas colónias africanas a bem ou a mal, e ainda como uma fuga para a frente do autêntico descalabro doméstico, literalmente inventa um incidente com a Alemanha (o estúpido apresamento de todos os navios alemães fundeados em portos portugueses, o que basicamente constitui um acto de guerra) e depois gere as comunicações com a Alemanha (apesar dos repetidos avisos quanto às consequências do acto, que Sidónio enviava em telegramas a partir de Berlim) de tal forma que não deixou margem para outro resultado que não fosse uma declaração de guerra por parte da Alemanha.

Parte da paranóia portuguesa era que ambas Angola e Moçambique estiveram na altura a ser negociadas entre britânicos e alemães para serem as duas cortadas pelo meio, no caso de Moçambique o Sul do Save ficaria para a actual África do Sul e a região a Norte do Save ficaria para a actual Tanzânia, que ao tempo era uma colónia alemã. Se a Alemanha fosse victoriosa, Portugal perderia tudo. Aliás, desde 1914 que a Alemanha efectivamente tratava Portugal como um protectorado britânico – o que efectivamente era.

Portanto a aposta na Aliança era uma jogada lógica e até elementar.

Fruto da enorme borrasca política doméstica, Sidónio conjura um golpe de estado em final de 1917, elege-se presidente mas com poderes executivos em Abril de 1918 (a única vez que tal aconteceu) e foi assassinado em 14 de Dezembro desse ano, pouco mais que um mês depois de terminar a Guerra de 1914-1918.

Durante o seu curto mandato presidencial, a sua família – a sua mulher Maria dos Prazeres e cinco filhos Sidónio, António, Maria, Afonso e Pedro – permaneceram em Coimbra, onde a família sempre vivera, tendo Maria dos Prazeres, apesar de ser oficialmente a Primeira Dama da República, entrado uma única vez no palácio presidencial, no dia do funeral do marido. Depois voltou para sua casa em Coimbra.

Bem, e é aqui que entra a ligação indirecta entre Samora Machel e Sidónio Pais.

É que, uns anos depois, um dos seus filhos, Afonso, foi viver para Lourenço Marques (a actual Maputo) onde se estabeleceu como médico e cirurgião. Supostamente, foi um bom médico e era muito conhecido na cidade e arredores. Nas suas memórias, Raúl Honwana (pai de Luis Bernardo Honwana) relata um episódio ocorrido em 1932, quando contraíra uma grave doença, tendo-se deslocado da sua terra lá para os lados da Moamba, à capital, onde foi visto pelo Dr. Afonso Pais (e quando regressou levou uma rabecada do médico local, que não o tratara e que “não o autorizara” a ver outro médico. É preciso ter lata).

O Dr. Afonso Pais era uma figura notável da Lourenço Marques colonial, considerado, para além de um bom médico, irresistível pelas mulheres, sendo conhecido pelas suas conquistas e por ser um excelente cavaleiro e frequentador do Clube Hípico da cidade (no processo, danificou a coluna). Casou-se com uma bela sul-africana de origem britânica, Doris Mantle, também ela excelente cavaleira. Uma das memórias de Doris Mantle foi a da sua doação ao Clube Hípico de um belíssimo cavalo chamado Mist, que por ser muito dócil (excessivamente dócil para ela) durante vários anos foi o cavalo com que muitos jovens se iniciaram na prática da equitação no Clube. Em Fevereiro de 1940 tiveram a sua única filha, Maria Alice Mantle Pais.

O Dr. Afonso Pais, cuja famosa filiação de Sidónio era mais ou menos conhecida, viveu em Moçambique até pouco depois da independência em 1975. Doris morreu em Lisboa em Dezembro de 1994. Pais morreu uns meses depois, em 12 de Abril de 1995, em Joanesburgo, presumo que junto da filha Maria Alice, que entretanto se casara com um sul-africano (Martin Brooks) mas não sei.

E o Dr. Afonso Pais conhecia o então jovem Samora Machel perfeitamente.

A parte curiosa é esta: quase todas as notas biográficas acerca de Samora Machel, invariavelmente imbuídas de um certo (e infelizmente habitual) heroicismo a posteriori, o que se entende dado o seu percurso e enorme importância em termos do processo político do Moçambique actual, resumem o seu percurso a ter nascido em Gaza, descendente de guerreiros, e cursado enfermagem quase por acaso, enquanto conspirava activamente para libertar Moçambique.

A realidade não foi bem essa.

A primeira vez que Samora vai viver para Lourenço Marques, vindo do então lugarejo da Madragoa (hoje Chilembene), situado no meio do que a breve trecho se tornaria no epicentro do quase inacreditável experimento agrícola e social do Eng. Trigo de Morais no Vale do Limpopo, ele foi primeiro trabalhar para casa do Dr. Afonso Pais como seu empregado.

Terá sido o Dr. Afonso Pais, que tinha ligações muito boas com o aparato médico-hospitalar da cidade, que se terá apercebido das suas qualidades e o seu valor e terá encorajado o então jovem Samora a estudar enfermagem. E o levou para o Hospital Central.

Samora exerceu durante alguns anos a função de auxiliar de enfermagem.

A decisão de Samora, que então era um vulgar cidadão negro numa colónia onde as pequenas cidades que haviam eram dos brancos e a esmagadora maioria da população negra vivia no mato, e onde ainda haviam as regras dos “assimilados” e dos “outros”, era perfeitamente normal e aceitável num território onde então não havia universidades nem instituições de ensino superior ou especializadas. Quando muito havia a Escola Comercial, onde se formaram muitos moçambicanos e portugueses, brancos e das outras cores.

Fora de Lourenço Marques, até aos anos 60 praticamente não havia liceus. Quem quisesse estudar ou ia para a capital ou para fora.

A afirmação, repetida com frequência, de que aos negros moçambicanos (apenas por serem negros) eram negadas oportunidades educacionais, sendo correcta na generalidade até ao final dos anos 60, ao mesmo tempo doura a pílula colonial e ignora por completo o facto de que também para a esmagadora maioria dos filhos dos brancos que ali viviam o cenário educacional era quase exactamente o mesmo: uma minúscula minoria ia estudar para Portugal e uma minoria ainda mais pequena estudava em universidades na África do Sul. Uma super-minoria (como o Dr. Mondlane e o Dr. Mário Machungo, mais tarde e durante 11 anos primeiro-ministro de Moçambique) estudaram em universidades portuguesas e estrangeiras. A maioria dos “doutores” e técnicos especializados que trabalhavam em Moçambique até praticamente a independência, vinham todos de fora.

E a esmagadora maioria dos que viviam em Moçambique ficavam pelo liceu ou escola comercial – ou de enfermagem. E aprendiam ofícios a trabalhar nas lojas, oficinas e serviços públicos.

E se calhar não fosse o excelente trabalho do Dr. Veiga Simão, não teria havido a Universidade de Lourenço Marques em 1970. Em Portugal europeu, até 1974 havia meia dúzia de universidades.

Pouca gente hoje parece recordar-se do atraso que Portugal tinha em relação à Europa. Era quase abismal.

E esse foi o mundo que um inconformado e revoltado e jovem Samora encontrou. Só mais tarde, quando, sob pressão de Julius Nyerere, se unificou (mais ou menos à estalada) a resistência moçambicana numa única “frente” e se encontrou no relutante Dr. Eduardo Mondlane a figura carismática e catalisadora dos sentimentos dos nacionalistas moçambicanos, é que Samora, ainda auxiliar de enfermeiro mas já desinteressado da carreira e empolado pela electrizante visita a Lourenço Marques do Dr. Mondlane em 1961, se envolve mais activamente na conspiração pelo fim do domínio colonial português. Pouco tempo depois, após reprovar num curso de enfermagem, com mais alguns colegas (na altura vários enfermeiros negros de Lourenço Marques, que de certa forma eram uma elite na comunidade negra, eram abertamente partidários da recentemente criada Frente de Libertação de Moçambique) Samora decidiu rumar ao Norte e desempenhar um papel activo no esforço da Frelimo, que pouco depois passou por uma guerra de guerrilha.

Em quatro anos Samora tornou-se no senhor da guerra na Frelimo. Dois anos mais tarde, morto Mondlane e afastados outros líderes fundacionais, Machel tornou-se no Senhor da Frelimo.

Ainda assim, antes de rumar à Tanzania, com alguns colegas, cortesmente, foi-se pessoalmente despedir do Dr. Pais, de chefes e colegas, explicando o que ia fazer, o que diz algo das relações que tinha na altura.

Aparentemente, quando voltou para Maputo já como líder incontestado da Frelimo e presidente da república, Samora ainda manteve um relacionamento com o Dr. Afonso Pais durante alguns anos.

Mas sobre isso ainda sei pouco.

09/03/2010

O PRIMEIRO CAPÍTULO DE "O OLHO DE HERTZOG"

Filed under: História Moçambique, João Paulo Borges Coelho — ABM @ 7:51 am

O navio "Beira" Nº Oficial : 377-C, Iic.: H.B.N.G., Registo : Lisboa Cttor.: Blohm & Voss, Steinwerder, Alemanha, 04.07.1896 ex "Herzog", Deutsche Ost-Afrika Linien, Hamburgo, 1896-1911 Tonelagens : Tab 4.976,83 to, Tal 3.059,97 to Comprimentos : Pp 122,00 mt, Boca 14,38 mt, Pontal 13,60 mt Máquina : Blohm & Voss, Hamburgo, 1896, 2:Te, 11 m/h Vendido para demolição em Itália, finais de 1925


por ABM (9 de Março de 2010)

Ainda não tive chance de comprar O Olho de Herzog do João Paulo Borges Coelho, mas já fiz duas coisas que partilho com os exmos leitores por aquele preço imbatível só para Clientes do Maschamba:

1) arranjei uma fotografia original do bicho (“afenal” o Herzog é o navio com os dois matros altos na fotografia que se encontra acima, tirada numa enseada na antiga colónia alemã do Tanganyka aí para o ano de 1896. Não sei onde o JPBC foi buscar o “t” nem o que é que o navio tem que ver com a história mas hei-de perceber certamente). O navio mais tarde passou para mãos portuguesas e mudou o nome para Beira.

2) já li o primeiro capítulo do livro, que é delicioso e que abaixo de reproduz, cortesia do …. Diário Digital.

Então vamos lá:

Capítulo 1, Acto 1, Cena 1, de O Olho de Hertzog:

Não fosse o calor nem esta vegetação tão particular, não trouxesse o ar este vago cheiro a queimado, e Hans Mahrenholz dir-se-ia de volta a uma sua muito antiga vida. Hamburgo talvez, quando era criança e cruzou as desconhecidas praças dessa cidade levado pela mão grossa do pai, fustigados ambos por uma chuva miúda mas inclemente. Hamburgo, desta vez sem a mão que lhe abria os caminhos. Hamburgo às cegas. Não fosse esta luz crua que subsiste apesar da chuva e lhe castiga os olhos.
Recua ligeiramente para se proteger debaixo do avançado de lona riscada – velha e quebradiça, coçada pelo sol e pelo sal – e continua a observar com atenção a linha de costa. A maresia inchou-lhe os dedos, a ondulação provocou nele uma náusea leve e persistente.
A chuva desaba agora com fragor, formando manchas eriçadas na pele do mar (pequenas ilhas de inquietude na ampla superfície). Tem sido assim desde ontem, estes soluços molhados do tempo. Mais perto, a nova descarga salpica a balaustrada, as gotas escorrem como um óleo espesso no metal rugoso da amurada, alastram pelo convés.
A galera entra na barra, devagar. Chama-se Ferreira e ninguém tem razões para suspeitar de que esta será a sua última viagem à baía de Lourenço Marques. Para trás ficaram dias gloriosos em que, com o nome de Cutty Sark, foi a embarcação mais veloz a sulcar os mares do mundo, isso antes de ser adquirida pela firma Joaquim Antunes Ferreira & Cia., da cidade do Porto, e se tornar naquilo que é: uma embarcação cansada, merecedora das águas paradas de algum cais, enquanto peça de museu, mais que de confrontar assim o irascível mar Índico.
Mas não é por causa dessa glória – porventura inútil, neste momento nem sequer notada – que os burgueses encasacados acorrem ao cais apesar da chuva e do calor, unindo-se aos estivadores, marinheiros e vendedores que ali passam a vida, para formarem todos juntos a pequena multidão que espera; nem sequer pela imponência dos seus três mastros ou pela elegância do seu casco de madeira com mais de 90 metros de comprimento fora-a-fora. Estariam aqui mesmo que fosse outra embarcação qualquer, fazem-no sempre que uma vela ou um mastro assomam no horizonte, promessa de excitação trazida a uma cidade que no resto dos dias permanece modorrenta.
Por ora a Ferreira apalpa atentamente o canal que leva ao porto, passando não muito longe de um punhado de navios quietos, fundeados. Da amurada, o comandante Vieira de Sousa, há quatro anos no governo da galera, vai explicando aos seus cinco passageiros o historial de cada um desses navios: o Niassa, que foi Bulow antes de ser há dois anos capturado pelas autoridades portuguesas; o velho Admiral, glória da German East Africa Line, também ele obrigado a ser Lourenço Marques; e finalmente o Beira, nome pintado de fresco por cima de outro nome que ainda se consegue ler, por estar marcado em relevo leve na chapa negra do casco.
Herzog é o nome, e Hans Mahrenholz é percorrido por um estremecimento quando o consegue ler. Herzog. Não por causa da história que este velho navio também terá, as rotas que percorreu, os passageiros que transportou (entre eles um jovem de nome Fernando Pessoa em solitária viagem de regresso a uma pátria desconhecida). Herzog é o nome, palavra ducal que igualmente pode ser Herzig, Gertzog, Hertogs – e também Hertzog, como se verá – a raiz é sempre a mesma, a utilização é que foi variando, são as mesmas as armas com as cores amarela, azul e negra, as três estrelas, o elmo guerreiro e as asas imperiais. Herzog. E escurece ainda mais o humor de si já melancólico de Hans Mahrenholz, trazendo-lhe à ideia um outro tempo que vai ter de convocar.
Ondulam levemente, dóceis animais de carga retemperando forças gastas em intermináveis viagens. Herzog, murmura Hans Mahrenholz agora que o tem perto. Massa enorme projectando escura sombra sobre um mar de si já escuro.

Felizmente que tudo se torna mais leve com o lento avanço da galera, com as explicações do comandante e as exclamações dos restantes passageiros. São quatro: um jovem casal de missionários americanos e duas senhoras que o referido casal trataria com muito mais circunspecção se soubesse que não são quem dizem ser, esposas vindas para se juntar a supostos maridos, um deles engenheiro do caminho-de-ferro, o outro representante de uma companhia de recrutamento de indígenas.
Ira Edmond Gillet, o missionário, mal consegue represar a curiosidade, e o comandante passa à descrição do arvoredo cerrado e escuro lá em cima, ponteado de casinhas (o arrabalde novo da cidade), da ferida de terra vermelha aberta na encosta e que a chuva fez tornar a sangrar; de mais arvoredo junto à linha de água, envolvendo o edifício alvo do Grémio Náutico, na praia da Polana; e finalmente, mais para a esquerda, que é para onde lentamente se dirigem, o imponente edifício Capitania Buildings cercado de um casario denso que corresponde à cidade propriamente dita: Lourenço Marques. Mais uma vez a sirene anuncia a presença da galera na barra; no cais, um frisson percorre a pequena multidão.
A viagem foi muito acidentada: após uma calmaria que durava desde a largada, o vento rondou subitamente a sudeste por alturas de Richards Bay e, conquanto agilizasse o andamento, veio a fustigá-los sem tréguas, sobretudo ao largo de um lugar da costa chamado Milibangalala, de tal modo que Edith Riggs, a esposa do missionário, fez o resto da viagem encerrada no camarote, sofrendo de enjoos que as atenções dos restantes passageiros – chá preto, álcool nas têmporas, vinagre no nariz e lascas de bacalhau bem salgado – não conseguiam aplacar.
Felizmente que a ondulação acalmou assim que rondaram a ilha da Inhaca pelo norte, apesar dos perigos das baixas profundidades e fortes correntes que ali há, após o que passaram a poder respirar com mais alívio. E este súbito interesse pelos sinais que se descortinam na costa, este esmiuçar das casinhas e das minúsculas criaturas (da inquietante agitação para lá dos limites da cidade), além de ser o interesse normal de quem se aproxima do destino é também uma maneira de expressar o dito alívio.
Chega enfim o momento de lançar âncora. A chalupa que vem em busca dos passageiros vence o tortuoso percurso até se encostar à galera, ondulando muito mais do que ela.
Sobe o oficial de polícia a verificar os passaportes dos estrangeiros. O casal de missionários vem do distante Ohio e vai para a missão de Kambine em trabalho de evangelização. Olham o oficial com desconfiança, último obstáculo entre si e o cumprimento de um desígnio desde há muito estabelecido. O oficial, por seu turno, retorque com um franzir do sobrolho, suspeitando de um Deus que não fala o português. Mas tudo está em regra, não há como não carimbar os documentos e desejar-lhes as boas-vindas da praxe. Quanto às duas senhoras (que já se sabe não virem ao que dizem vir), cerca-as uma luminosidade tal que por si só obriga a aligeirar os procedimentos.
Finalmente, Hans Mahrenholz. Nos documentos, Henry Miller, súbdito inglês embarcado na cidade de Durban, viajando para Lourenço Marques em sondagem de oportunidades de negócio. E que negócio seria esse? Aquele que desse mais garantias de sucesso: minérios, comércio geral, mão-de-obra, difícil de precisar antes que seja levada a cabo a referida sondagem.

O polícia volta a franzir o sobrolho, afaga o espesso bigode. A água escorre-lhe pela capa de oleado. Felizmente que não pergunta que contactos tem o recém-chegado na cidade para o ajudar nessa tarefa, felizmente que se contenta com o que tem na frente: um nome estampado num documento de viagem e a revelação de um propósito. Se cofia o bigode é apenas para dar tempo a que um inesperado acaso revele mais qualquer coisa que acaba por não vir. Talvez porque não haja, pensa ele, apegado desde há muito ao ópio da rotina.
Uma rabanada de vento agita os papéis, quase os faz voar. Seria embaraçoso para todos que voassem para o mar. Parece que vai voltar a chover. Carimba.
As senhoras mostram receio em descer pela escada de cordame, em trocar um espaço a que apesar de tudo já se haviam habituado por esta insegura promessa de chegar a terra firme. Embora a costa esteja próxima, o mar é aqui mais escuro e oleoso, de certa forma mais sinistro.
Sorri o comandante, segurando-lhes o braço para que ganhem confiança; riem mais abertamente os marinheiros que, em baixo e segurando o corrimão, as incentivam com gestos a que desçam sem temor. Elas temem o mar e os sorrisos destes homens rudes.
Descem por fim os dois estrangeiros e o polícia, descem as malas e os baús (um quase se perde, o seu peso surpreendeu quem o transportava), e a chalupa solta-se do casco da galera e larga a braço vigoroso dos remadores, lutando com as piores ondas, aquelas que já bateram no muro do cais e voltam sem tino, enfurecidas pela descoberta de um limite.
Cantam os marinheiros, uma toada que incute neles a força de remar e que os recém-chegados não sabem distinguir se é alegre, se um lamento. Sobe e desce o cais de pedra a uma certa distância, o mesmo cais onde, da mancha que era a multidão, vão surgindo agora largos acenos e cada vez mais nítidas feições, chapéus e bengalas, bigodes, oleados para proteger da chuva à mistura com os troncos húmidos e nus de mais marinheiros que, de mãos esticadas, aguardam que lhes sejam atiradas as cordas para prender a chalupa às grossas argolas de ferro do paredão.
Com o ondular da terra firme na visão, volta a Edith Riggs a indisposição, nela mais forte ainda do que o medo. Segura o braço do marido com a mão enclavinhada.
Ao lado, Hans Mahrenholz, aliás Henry Miller, perscruta uma a uma as fisionomias do cais procurando descobrir um olhar particular de quem o espere.
Passam às escadas de pedra, sobem-nas e internam-se na multidão tacteando com estranheza a terra firme, quase sem se despedirem uns dos outros. Facto lamentável, tanto mais que uma viagem assim costuma criar nos passageiros uma especial intimidade.
Um homem magro, de chapéu na mão, leva o casal de missionários. As duas mulheres, seguidas por um enxame de crianças, desaparecem sem deixar rasto. Hans torna a olhar em volta, mas não há ninguém que se aproxime e apresente.
Felizmente que era rebate falso, que desta vez a chuva não voltou. Resignado, avança titubeante pela Praça 7 de Março arrastando o malão atrás de si. Finge que não escuta os homens que o seguem, pedindo-lhe com insistência que os deixe arcar com esse peso a troco de uma moeda.
O sol rompeu por entre as nuvens, é agora claro que não vai voltar a chover. E com ele um calor feroz que se junta ao peso da mala para o fazer derreter dentro da casaca ainda húmida da chuva, e agora do suor.
Olha esta praça, afinal distante de Hamburgo, povoada de gentes tão distintas, moldada pelos caprichos de quem a foi edificando, que a salpicou de pequenos quiosques, estranhas construções encimadas por minaretes de ferro forjado, chinesices. Leão d´Ouro, de João da Silva Alcobia, Servem-se bebidas e refeições, Asseio e prontidão.

As pessoas passam apressadas; os eléctricos, vagarosos, tilintam. À vozearia junta-se o som ritmado dos calceteiros malhando nos passeios. Oriental Kiosk, Bebidas espirituosas e sorvetes, Servem-se refeições para fora. Cheiros fortes e desconhecidos sobrevoam a praça: do querosene dos motores, da água da chuva secando ao sol, da serapilheira húmida que os marinheiros da chalupa envergavam (um cheiro que ainda o persegue), das cozinhas dos quiosques.
Continua a vaguear por ali até acabar por escolher um desses quiosques, que por qualquer razão lhe pareceu conveniente. Pavillion Kiosk de Cândido de Sousa Teixeira e dona Carlota Fornazini de Sousa Teixeira, Bebidas geladas nacionais e importadas da Metrópole, do Transval e das principais capitais europeias, Tremoços e pipis, Refeições ao gosto do cliente, Almoços elegantes. Senta-se a uma das mesas da esplanada e pede uma cerveja. Precisa de aplacar a sede que o assola, e também de pensar no que fazer.
As coisas começam mal. Glück garantiu-lhe que estava tudo arranjado, que iriam esperá-lo, que lhe dava um endereço apenas para o caso improvável de as coisas correrem mal.
Pois bem, é isso mesmo que acontece: as coisas correm mal. Passam dois polícias anafados, com grandes bigodes, olhando em volta e girando na mão os cassetetes. Na praça tornam-se todos menos veementes: esperam talvez que os polícias se afastem.
Hans fixa os olhos nos rebordos curiosos dos telhados dos quiosques, nas delirantes estalagmites, flores-de-lis, dragões, parras e perversos anjos; depois, na cerveja que tem na frente. Imagina e lembra, faz as suas contas. Amaldiçoa Glück.
O tempo que passou no mato foi demasiado para que pudesse agora olhar em volta e ver simplesmente uma cidade. Os arbustos da savana espalhavam vultos e ameaças; os charcos, sempre que chovia, traziam mil olhos à superfície; a luz da lua lambia os canos das espingardas. É isso ainda que vê nestes edifícios, nos postes, nos sofridos corpos que são as árvores urbanas, no inquietante padrão repetitivo das cercas de ferro forjado e da calçada, nas mensagens ocultas que os dizeres dos anúncios e dos cartazes calam: perversidade, dissimulação.
Em frente, um deles anuncia em grossas letras vermelhas e negras: Teatro Varietá (African Theatres), Repetição das melhores películas da semana em matinée especial: «Sylvia do Serviço Secreto» (fita policial em 5 partes), «Testemunha Silenciosa» (drama em 5 partes), «Quando as más-línguas falam» (drama em 5 partes).
Tudo o que é anunciado lhe parece de duplo sentido, as pessoas movem-se com inconfessados propósitos, a cidade é um prolongamento do mato. F. Bridler & Cia Lda, Vendas por atacado de toda a espécie de fazendas, Artigos diversos, Bebidas, Géneros de mercearia e confeitaria, Vinhos, Charutos, Licores, Bon-bons das mais acreditadas marcas nacionais e estrangeiras, Telefones 230 e 139.
Faz um sinal ao ardina que passa, compra-lhe um jornal. Quer ver confirmada em letra de imprensa a notícia que o comandante da galera, alegremente lhes transmitira, acabada de chegar: o general Lettow-Vorbeck rendera-se!
Procurou na altura saber de pormenores, mas as notícias eram lacónicas. Aparentemente a rendição dera-se em Abercorn, na Rodésia do Norte, assim que Lettow tivera conhecimento do armistício na Europa. A resistência perdera o sentido, se é que ainda tinha algum. O comandante abrira uma garrafa de champanhe para celebrar com os passageiros, e Hans fora obrigado a beber um gole a contragosto. O gole que simbolizava a traição.
Sorri amargamente. Folheia o jornal. Segundo um despacho da Agência Havas, o presidente da República Portuguesa, doutor Sidónio Pais, foi assassinado com três tiros quando embarcava para o Porto. Ao lado, enquadrado por dois filetes grossos, um anúncio dos milagrosos produtos Melcin. Curam-se todas as doenças secretas e doenças de pele, o nosso maravilhoso tratamento nunca falha, mesmo nos casos desesperados, Melcin é um purificador de sangue de força dupla que pode curar V. Excia rápida e permanentemente de doenças embora de longa data, Quer padeça de dores na garganta ou em qualquer outra parte do corpo, de manchas da cor de cobre ou escamas, de sífilis ou de eczemas, o nosso preparado Melcin curá-lo-á, A garrafa incluindo porte custa 21 xelins, Pedidos a Treye Pharmacy, Commissioner & Treye Street, Box 5595 Joanesburgo, A Tintura Melcin cura as manchas na cara, sarna e qualquer doença de pele, custa 3 xelins e 6 pences cada boião.

Vira a página, suspirando. Será que o Melcin serviria para lhe limpar a alma? Dá enfim com uma notícia curta.
Nota Oficiosa. A Nossa Acção Contra os Alemães em África. Telegrama recebido de Sua Excelência o Comandante em Chefe das forças aliadas operando contra a África Oriental Alemã, General Van Deventer: «Na conclusão das operações na África Oriental agradeço muito sinceramente a V. Excia pelo pronto auxílio que V. Excia sempre me concedeu de bom grado. Lembrar-me-ei sempre com orgulho que tive a honra de comandar tropas portuguesas cooperando com as minhas na campanha. Rogo aceite felicitações pela gloriosa vitória das armas aliadas sobre um inimigo comum, vitória que estou certo estreitará ainda mais os laços que sempre nos ligaram à nossa mais velha aliada, e transmiti os meus melhores agradecimentos aos comandantes, tropas e funcionários civis portugueses, na África Oriental Portuguesa, pelo seu valioso trabalho na Campanha de 1918.»
E, em seguida, a resposta do Governador-Geral:
«Agradeço a V. Excia seu amável telegrama. É meu desejo significar V. Excia neste momento a satisfação e orgulho sentidos pelos resultados conseguidos pelas tropas inglesas e portuguesas sob o enérgico e inteligente comando de V. Excia na Campanha agora terminada.»
Fecha o jornal e perde-se em divagações. Por isso quase não sentia o homem magro que se aproxima, de calções e pés descalços. Por um momento convence-se de que é quem o vem buscar. Mas não, trata-se apenas de um simples condutor de riquexó.
´Patrão, posso levá-lo onde quiser.´
Com a mão direita, Hans faz que não e finge concentrar- se na cerveja. O homem não insiste. Mantém-se porém por perto, na esperança de que o estrangeiro reconsidere.
Hans olha-o de soslaio. Realmente magro, um nariz aquilino, como se no seu sangue africano houvesse vestígios árabes ou indianos, embora remotos. Talvez mesmo chineses, a deduzir da curiosidade semicerrada com que o observa. Como confiar num homem assim?
Todavia, por algum motivo – talvez pela sua discreta atitude –, o homem desperta nele uma certa simpatia. Já viu muita gente assim. No início pareciam-lhe figuras de cartão movendo-se num cenário, figuras sem qualquer relevância. Só mais tarde, muito mais tarde, houve alguns a quem pediu protecção.
´Como te chamas?´
´O meu nome é Obede.´
´Obede, queres uma cerveja?´
Obede não parece perceber a oferta. O fosso que existe entre os dois é demasiado fundo para que ele de imediato a percebesse. Todavia, assim a que entende recusa com uma espécie de reverência. Mais por respeito do que propriamente por gratidão; pelo esforço feito pelo estrangeiro para cobrir esse tal fosso que os separa.
Volta o silêncio entre os dois. Mas por pouco tempo, dado que Obede não se satisfaz com uma única recusa.
´O patrão quer vender ouro? ´
Explora caminhos alternativos que conduzam aonde quer chegar.
´Ouro?´
Hans surpreende-se.
Obede explica que desde que a guerra acabou vêm aqui muitos estrangeiros, grande parte deles tentando vender ouro. Ele sabe de bons preços, melhores ainda se o negócio for feito com uns certos compradores que só ele conhece.
O oficial de polícia, de carimbo na mão, teria agora mais qualquer coisa a perguntar-lhe, isso se Hans trouxesse ouro para uma primeira oportunidade de negócio.

Quem será este Obede?, pergunta-se. E responde-lhe que não.
A menção à guerra inquietou-o. Ela e os dois polícias anafados que voltam a passar, girando sempre nas mãos os cassetetes. Tenta concentrar-se na cerveja.
Obede também não parece interessado em atrair a atenção da autoridade. Afasta os olhos de Hans. Mas, assim que sente a costa livre, volta a cravá-los nele.
´Se o patrão quiser ir a algum lado é só dizer. Conheço bem a cidade, não encontra um riquexó mais barato do que o meu.´
Hans fica um momento pensativo. Depois, puxa da carteira e tira de dentro dela um papel. Estende-lho.
´Conheces este lugar?´
Obede olha o papel, interessado, após o que abana a cabeça em desalento.
´Não sei ler.´
Hans volta a pegar no papel e lê em voz alta:
´Escritório de Joaquim Pereira, Rua Araújo 101, Lourenço Marques.´
O olhar de Obede ilumina-se.
´É muito perto. Posso levá-lo lá.´
´Se é assim tão perto, não preciso que me leves. Basta que me indiques o caminho.´
Obede simula um ar de espanto. É matreiro.
´Não fica bem a um branco andar pelas ruas a arrastar uma mala. Toda a gente vai olhar e achar estranho.´
O par de polícias barrigudos refugia-se agora na sombra rala da Casa Amarela, de onde lobriga a praça. Um par de pastores cuidando do seu rebanho. Hans acaba por ceder.
´Leva-me então a mala. Mas eu vou a pé.´
Obede coloca a mala no riquexó e põe-se a caminho, assobiando alegremente. Hans vai atrás dele. Deixam a praça, evitando um eléctrico que passa devagar, e internam-se numa rua estreita e movimentada. Manuel de Abreu, Comissões e consignações, Negócios por grosso e a retalho, Especialidades em bebidas tais como cognacs e whisky, Licores nacionais e estrangeiros, Vinhos verdes e maduros engarrafados ou em garrafões de 5 litros importados directamente de Portugal, Farinha de milho, luzerna, capim, farelo, etc., Oficinas de serralharia e carpintaria, Executam-se reparações e consertos em carroças e carros com a máxima perfeição para o que se possuem bons mestres, Venda de gado muar e cavalar sempre em stock.
O chão empedrado está transformado num lamaçal, as poças de água revelam o quanto choveu; em cima, pequenas sacadas de madeira e ferro forjado recortam-se contra um céu de um azul outra vez tão intenso que quase cega. Gente por toda a parte, uma verdadeira multidão caminhando em todos os sentidos e que eles têm de vencer como a um mar rebelde. Moçambique Agencies Lda, Negociantes, Expedições, desembarques, Comissões, Representantes de T. W. Beckett & Co. Ltd, Pretoria, Joanesburgo e Durban. Pelo ar voam os pregões, cristalinos e cortantes, anunciando pequenas coisas na esperança de que quem os ouça possa afinal vir a precisar delas. Jolanda, Fábrica de gelo, Águas minerais, Frigorífico, Proprietário Giuseppe Cavallari.
Obede pára o riquexó em frente a uma porta escura.

´É aqui.´
´Podias ter-me dito que era assim tão perto.´
´Eu disse que era perto.´
Hans encolhe os ombros, pede-lhe que aguarde, empurra a porta e entra. Lá dentro, pisca os olhos para se habituar à escuridão. Sobe umas escadas íngremes que desembocam num pequeno patamar para o qual dão três portas. Três possibilidades envoltas num intenso cheiro a desinfectante. Uma delas ostenta um letreiro austero: Dr Palma Callado, Sífilis e doenças venéreas, Doenças das senhoras, Clínica geral, Consultório. Das outras duas, uma está entreaberta. Bate nela ligeiramente, com os nós dos dedos. Ninguém responde. Está aqui mais fresco.
Espreita. Dá para uma sala comprida que termina em novas portas, estas com gelosias de madeira. Calcula que abram para a varanda de ferro forjado que se via lá de baixo. Dentro, três escrivaninhas desarrumadas, alguns armários encostados às paredes, tudo mal iluminado por uma luz crua retalhada pelas gelosias. No interior das tiras de luz, pequenas partículas de pó vogam lentas como minúsculos peixes num aquário. Há também um cheiro indistinto do qual fazem parte velharias, madeira escura, humidade, verniz e algum tabaco.
Apenas uma das escrivaninhas está ocupada, por um homenzinho entroncado, em mangas de camisa protegidas por essas braçadeiras de alpaca negra tão ao gosto dos amanuenses. Tem o chapéu de feltro descaído para a nuca, está concentrado nuns papéis que lê e risca e escreve.
Hans pigarreia para se anunciar. O homem vira-se, surpreendido. Talvez também um pouco receoso.
´Que deseja?´
´É aqui o escritório de Joaquim Pereira?´
´Sim, é aqui.´
´Procuro o senhor João Albasini.´
´Sou eu. O que me quer?´
´Trago instruções para o procurar. O meu nome é Henry Miller.´
O homem ouve aquele nome e parece indeciso, tomado de um certo embaraço. Levanta-se e arrasta outra cadeira para junto de si.
´Henry Miller, claro! Sente-se aqui. Não me diga que já chegou?! Claro, claro que chegou, que estupidez a minha! Estava aqui a fazer horas para o ir esperar ao barco e acabei por distrair-me. Desculpe.´
´Não tem importância.´
O homem põe-se subitamente muito sério.
´Alguém o viu entrar?´
E vira-lhe as costas para ir à varanda espreitar. Assim que escancara as gelosias a luz inunda a sala de um jorro só. É mais que entroncado, quase gordo. É mestiço. Debruça-se e examina atentamente a rua, como se procurasse algo por baixo dos sons que pairam sobre ela. Está agitado. Hans procura tranquilizá-lo.
´Não se preocupe, não vi nada de suspeito, ninguém me seguiu.´
O homem vira-se, mais calmo.
Ah, antes assim. E mais uma vez, desculpe. Perdi-me na escrita de um editorial, não dei pelo passar das horas. É para o meu novo jornal, chamado O Brado Africano, que sai daqui a dias. Leia-o e diga-me o que acha.´
Estende a Hans uma das folhas de papel. Este, surpreso com o gesto, não tem outro remédio senão pegar nas folhas e começar a ler. O título, Assestando Baterias, parece-lhe algo belicoso. O texto começa no mesmo tom.
Todo aquele que não luta pelo seu Direito condena-se voluntariamente a ser capacho dos outros. Parar é morrer. Aos povos subjugados, então, mais do que aos outros, esse dever é uma religião. Ante o Altar do Dever prostremo-nos pois e façamos por nos fazer ouvir nas nossas queixas, nos nossos brados, nas nossas súplicas! Programa..
. Para quê a explanação aqui de um programa, se todos sabem ao que vimos e o que queremos? Vamos seguir a mesmíssima senda que encetámos ao fundar O Africano em 1908.

Em seguida, o tom radical atenua-se um pouco, oferecendo uma mão a um entendimento social adequado à quadra que se vive.
Por uma curiosa coincidência este «número programa» também sai em dia de Natal – aquele em que a cristandade celebra o Advento do Justo e o calendário da República Portuguesa nos aponta para nele celebrarmos a Festa da Família – o dia da Fraternidade Humana.
Aos poucos, porém, volta o tom crispado.
Uma e outra vez nos curvamos pois ante o Presépio a pedir, para nós também, a parcela dessa Justiça, dessa Verdade e dessa Igualdade; e, como cidadãos de uma mesma Pátria, depois de beijar os emblemas sagrados nos templos, fazendo uso da Consciência – dom magnânimo de Deus – saímos destes para a vida larga da rua livre a pelejar pela doutrina igualitária de Cristo, pelo emblema da República, a pugnar pelo direito das gentes, a exigir – com correcção, com ordem, sim, mas com firmeza – o cumprimento da Lei. A Lei igual para todos é um princípio que não queremos ver traído. E por isso, e só para isso, a açodada pressa com que novamente se cerram fileiras à roda da nossa já muito gasta energia, da nossa abalada e magoada fé! É que áspera foi a caminhada até aqui e curtas as vidas para jornada tão longa. Mas… avante, e que O Brado Africano penetre em todas as frinchas das portas dos poderosos a gritar pela Santa Causa da Justiça; que nas mansardas dos pobres e palhotas desmanteladas dos contribuintes do Estado dê notícias, lhes diga que viva quem pela Justiça se deixará matar – porque não se deixar pisar é dever de todo o homem que tem noção da sua dignidade… É assim mesmo e assim esperamos que será sempre, custe o que custar!
Finda a leitura, Hans fica sem saber o que dizer. Escapou-lhe metade do sentido do texto. Quanto à outra metade, parece toda ela um desafio. Sente os olhos do homem cravados em si e não ousa levantar os seus.
´Então, o que acha? ´
Hans coça a cabeça, procurando desesperadamente ganhar tempo até que lhe chegue uma ideia.
´Não sei bem… Talvez o final esteja um pouco agressivo…´
João Albasini parece surpreso, depois pensativo.
´Acha mesmo?´
Arranca-lhe os papéis das mãos e volta a sentar-se à secretária, onde de imediato se põe a escrever. Escreve intercalando tiradas furiosas com curtas suspensões passadas a olhar o tecto, como se lá houvesse uma reserva de palavras penduradas para escolher. Esqueceu completamente o visitante. Por vezes retoma tão rápido uma frase que vêm de arrasto palavras indesejáveis, que risca com a mesma fúria com que as escreveu. O bico da pena mergulha de quando em quando no tinteiro com movimentos bruscos de ave de rapina. Ao mesmo tempo vai murmurando essas palavras como uma espécie de reza com múltiplas entoações, em busca de uma que lhe agrade a ponto de a deixar sobreviver na forma escrita. Quando as ideias se esgotam, escarafuncha as pilhas de papel que tem em volta para achar alimento com que prosseguir. Finalmente, com uma última mirada, parece dar-se por satisfeito. Passa o mata-borrão em cima da folha, como que para amansar o texto, levanta-se e estende-a a Hans.
´Veja agora.´
Hans não tem outro remédio senão voltar a ler.
Mas hoje é dia de Natal… Haja fraternidade… Boas-Festas e abracemo-nos, portugueses, num grande amplexo neste Natal doloroso, triste, pesado de negras sombras, em que estoiram tiros fratricidas e se jogam os nossos destinos numa Grande Conferência… na qual, pela certa, só será salvo, e ficará evidente e triunfante, o velho aforismo de que lobo não come lobo..
. E então, que acha agora?´
´Parece-me bem, embora termine de um modo um pouco enigmático.´
João Albasini sorri.
´É para os manter entretidos a imaginar onde raio quero chegar.´
´Ah.´

Depois, arranca subitamente as mangas de alpaca dos braços, atira-as para cima da secretária e estende a mão na direcção do bengaleiro, em busca de um casaco de linho imaculadamente branco. Veste-o, ao mesmo tempo que procura mais qualquer coisa em volta.
´Ora esta!?´
´Que foi?´
´Pocuro o meu chapéu, não sei onde o deixei.´
´Tm-no na cabeça.´
João Albasini leva a mão à cabeça.
´Tem razão, que estupidez a minha! Vamos então. Eu levo-o ao hotel e aproveito para deixar o texto na tipografia.´
Abandonam o escritório. João Albasini vai na frente, descendo os degraus com uma agilidade surpreendente. Falando e gesticulando sempre.
´Não tem bagagem?´
´Deixei-a aqui à porta, com um condutor de riquexó.´
Saem para a rua, onde Obede aguarda sorridente. João Albasini olha-o com certa surpresa, após o que lhe atira uma moeda.
´Leva a bagagem do senhor ao Hotel Clube. Já lá vamos ter.´
E fica pensativo a vê-lo partir. Depois, põe-se subitamente a caminhar num sentido diverso, com tal resolução que Hans tem dificuldade em segui-lo. De quando em quando leva a mão à cabeça, a certificar-se de que não esqueceu o chapéu. Caminham pelas ruas agitadas desta cidade brilhante como se o fizessem pelos carreiros do mato: os edifícios, árvores; os transeuntes, capim. Hans vai no entanto mais tranquilo, por não ter de ser ele a escolher, em cada cruzamento, uma alternativa. É reconfortante limitar-se a seguir aquele apressado casaco branco, entregar-se nas suas mãos. Ouve os nomes das ruas, palavras opacas sem nada que o ajude a desvendá-las; vê passar uma mesquita. Atravessam uma rua larga. António José Escudeiro, Importador e exportador de géneros nacionais e estrangeiros, Comércio geral, Especialidade em bebidas engarrafadas, Prontidão e seriedade. Saltitam entre as poças de chuva. João Albasini pragueja para os automóveis e caleches que descuidadamente as pisam, salpicando de lama os transeuntes. Zela pelo seu casaco branco.
Nova avenida larga, que cruzam, e entram enfim num edifício amplo, o Mercado Municipal. Percorrem os húmidos caminhos de pedra entre as bancas de produtos que João Albasini vai inspeccionando atentamente, sem no entanto abrandar o passo. É como se os vendedores, organizados por raças, tomassem parte no empreendimento colectivo de revelar as cores que existem na paleta da natureza. Os europeus propondo uma vasta gama desde os verdes dos legumes aos vermelhos das carnes, os indianos ripostando com a gradação completa dos temperos, do amarelo ao castanho passando pelo laranja vivo e por um vermelho de fogo. Lugar Económico de Pedro de Melo no Mercado Municipal, Chouriço de carne, morcela, farinheira, mouro e sangue, Carne salgada, Feijão de todas as qualidades, Azeitonas do Douro e Elvas, Frutas verdes, secas e cristalizadas, Leite fresco para doentes e crianças a 500 réis o litro, Leite do Umbelúzi a 400 réis o litro, Encarregam-se de levar as compras a casa dos fregueses.
Ao mesmo tempo, de costas, Albasini vai falando sem cessar, o que incute em Hans, para além do referido conforto, um difuso sentimento de inferioridade. Refere querelas municipais, amaldiçoa portarias a seu ver completamente injustificadas, desnuda intrigas com um trejeito irónico, convida o interlocutor a tomar partido. E Hans sempre sem saber o que dizer.
O homem voa sobre os assuntos como uma águia, embora com inflexões súbitas de passarinho. José de Carvalho Junior, Negociante de carnes verdes, Carne do Transval, Prontidão, asseio e correcção, Talho do Mercado, Lojas 17 e 18. Estão já nas traseiras do mercado, às quais se segue um baldio pejado de vendedeiras negras sentadas no chão enlameado, expondo os seus produtos sobre esteiras de palha semiapodrecida ou pequenas caixas de madeira, desta feita sem quaisquer anúncios que os nomeiem – montículos de frutas, legumes e folhagens, muitas delas desconhecidas, pequenos potes de barro com um arroz amarelo, milho grosso, gergelim, amendoim, piripiri. Aqui, porque mais desordenadas, as cores parecem traduzir com rigor a espontaneidade da natureza.

Evitando cuidadosamente as poças de água do chão, João Albasini prossegue a sua inspecção.
´Explique-me então qual é exactamente o objectivo da sua visita. É que a mensagem que o nosso amigo me enviou, anunciando a sua vinda, não era inteiramente clara…´
Debruça-se para pegar numa manga, apalpa-a, leva-a ao nariz e devolve-a ao monte, decepcionado.
´Vê-se que foi colhida antes do tempo. Ainda faltam umas semanas para a altura delas. Mas, ia dizendo?!…´
Tal como o polícia na galera, também Albasini quer saber das suas intenções. Ao que veio. Muitas vezes Hans reviu com Glück estes momentos, o que lhe perguntavam, como respondia. As traseiras confusas do mercado – onde se torna impossível encontrar um padrão simples que seja – fazem lembrar a maneira como as tropas estacionavam após os rigores do combate. Como se à meticulosa organização devesse seguir-se o caos para ficar reposto o equilíbrio. Esforça-se por expulsar estes pensamentos, a fim de ser capaz de responder.
´Oficialmente sou um empresário em sondagem de oportunidades de negócio, mas na verdade venho ao serviço de um jornal sul-africano, o Rand Daily Mail. Pretendo escrever uma reportagem sobre as condições de recrutamento dos trabalhadores das minas.´
Assim mesmo, tal como Glück lhe sugerira que dissesse.
´Ah, interessante. Estamos entre jornalistas, portanto. Entre jornalistas com uma causa, o que torna as coisas bem mais fáceis. Esta parece boa, não acha?´
E estende a Hans uma enorme papaia ainda esverdeada. Hans segura-a, sem saber o que dizer. Leva-a ao nariz, fazendo um ar entendido.
João Albasini larga uma sonora gargalhada.
´As papaias não cheiram, meu amigo. A elas há que apalpá-las, descobrir-lhes pelo peso e pela cor se estão no ponto. Acho bem que faça esse trabalho, e que o faça desta maneira, vendo de perto como vivem as pessoas. É preciso cheirar o suor do medo e da miséria, conhecer-lhes a cor, para sabermos do que falamos.´
E devolve a papaia à vendedeira, insatisfeito. Talvez por estar demasiado apalpada.
A mulher encolhe os ombros, resignada. O dia está no fim, falta-lhe vigor para argumentar. Atrás dela pulsa um pequeno volume envolto num pano velho, depositado sobre uma esteira no chão. Pelo calor e leve tremor que dele emana, adivinha-se ali uma criança. A mulher baixa-se e embala-a levemente, sem deixar com isso de ter o caixote com os seus produtos debaixo de olho.
Ao lado, mais mulheres fazem o mesmo: vendem as suas coisas enquanto embalam também as respectivas crianças, todas elas enroladas em panos velhos; montículos de frutas ou legumes, brilhantes de uma água suspeita com que constantemente os aspergem para que ao menos a aparência do viço não se perca. Compra-se pouco, a avaliar pelo que está ainda envelhecendo nos improvisados mostruários. Algumas iniciam a recolha dos seus produtos, que depositam em grandes cestas que levarão à cabeça (às crianças, levá-las-ão às costas). Fazem-no com muito cuidado, para amanhã os poderem voltar a mostrar com o aspecto que têm hoje. Como se fossem imunes ao passar do tempo.
Por toda a parte fumegam panelas amolgadas e negras de fuligem em fogos feitos no chão, panelas que elas espreitam sempre que as crianças lhes dão descanso. Há também outros fumos de origem mais difusa, todos eles soltando os respectivos cheiros acres. Fumos do calor que se acumulou no chão e agora se escapa, primeiras manchas da noite que desce.
´Compre-me a papaia, patrão. Para ajudar a criança.´
Hans surpreende-se com a serenidade com que estas palavras são sopradas, com a firmeza com que o atraem para um mundo que desconhece. Com este derradeiro esforço da mulher: Compra-me a papaia e revelar-te-ei o segredo destas panelas fervendo a nossa sobrevivência, o segredo destes pequenos volumes enrolados em panos velhos por cima de uma qualquer esteira, desafiando, obstinados, o destino.

No mato da sua lembrança estes vultos eram meros adereços dos combates, aqui deixa-se prender pelo fogo do seu olhar. Não tem pois como não levar a mão à carteira, para pagar. Houve alturas recentes da sua vida em que uma papaia destas seria uma preciosidade. É nisso que pensa para justificar o gesto. Suspeitasse disso a mulher e sem dúvida pediria três vezes o que pede por ela.
Entretanto, João Albasini já vai longe. Inspecciona os produtos de uma outra mulher, encarando duvidoso um pequeno monte de folhas verdes. São folhas de cacana, e a infusão que a partir delas se faz vai atenuar-lhe a dor que sente nos rins de quando em quando, sobretudo depois de longas horas sentado à secretária a escrever. Parecem-lhe bem, pois com um gesto seco indica à vendedeira que as embrulhe, levando, também ele, a mão ao bolso.
Sem dúvida que o mercado é um lugar de encontro entre dois mundos, um deles repetindo sem cessar o gesto de tirar a carteira, o outro embrulhando e despedindo-se de pequenas coisas trazidas sabe-se lá de onde.
´Quer então ver como se tratam aqui os pretos…´
Vira-se, levemente intrigado com a falta de resposta.
Hans não o ouviu, está ainda lá atrás acertando as contas da papaia. João Albasini aguarda que ele se aproxime, observa sem comentar uma papaia que quase foi sua, despropositada nas mãos do estrangeiro. No seu silêncio talvez haja algum despeito, uma surda irritação por Hans não ter seguido o seu conselho. Há por ali papaias bem melhores que aquela. Em seguida, dirige-se para os limites daquele emaranhado de gente onde tudo cabe menos os diálogos cristalinos (o som que dele emana é apenas um leve murmúrio indistinto, a reza baixa das transacções).
Chega à rua e entra nela. E. Nichols, Único agente para toda a Província de Moçambique dos Automóveis Ford, Carros de 5 assentos e camiões, Extraordinária redução de preços. Caminha depressa, sem se certificar se Hans o segue. Caminha e vai falando.
´Amanhã é um bom dia, dia de chamada. Eu venho buscá-lo para o levar lá.´
´Chamada?´
´Sim, dia de virem buscar quem precisam, de selecção daqueles cujos braços parecem mais fortes, cujos peitos musculados maiores garantias dão de albergarem pulmões sãos.´
´E os restantes?’
´Quem?´
´Aqueles que não são recrutados?´
Albasini ri da ingenuidade do estrangeiro. Intimamente, agradece-lhe porém esta ideia dos indígenas recusados, excelente tema para um futuro editorial. Vai até imaginando o respectivo texto, enquanto caminham.

Para onde são então precipitados os milhares de indígenas que não reunem as condições exigidas? Precipitados ao vão e vazio da Era inicial, protoplasmas que depois se aderirão e agregarão e formarão o protoplasto da nova humanidade que irrompe do tumulto belicoso empunhando os estandartes da libertação, caminhando triunfante e seguro sob a cadência estridente da Internacional?
E sorri da força do texto.
Mudam de rua. Na Avenida Arriaga o movimento de pessoas é bem menor, talvez por o dia estar chegando ao fim. Simão & Paizana, de José Dias Simão & Cia, Especialidade em carnes de porco, azeite e toda a qualidade de legumes recebidos directamente da Província, Sola, cabedal e pelicas recebidas directamente das fábricas, Armazém na Av. Central (antigos escritórios de Pinho, Santos & Cia, e Ribeiro e Levy). Em cima deles, o céu é uma violenta mancha cor de sangue. Apesar de ser mais alto, Hans tem de fazer um esforço para acompanhar a passada do homenzinho. ‘Diga-me, porque não comprámos dentro do Mercado? As coisas pareciam ali tão mais limpas, tão mais bem apresentadas…’ ‘Não comprámos lá porque é preciso dar uma oportunidade aos de fora, àqueles que não têm licença de vender lá dentro.’ A distância não é grande, depressa chegam à entrada do hotel. Em cima, um grande cartaz anuncia: Clube Hotel, de Lage & Selig, Um dos melhores edifícios da cidade com fundas vistas para o mar, Próximo dos jardins e repartições públicas, Carros eléctricos à porta constantemente, Fornece em condições económicas, Serviço de cozinha à portuguesa e inglesa, Todo o pessoal europeu completamente habilitado, As mais higiénicas instalações de luxo e óptimas casas de banho.
Sobem os onze degraus e, na varanda, João Albasini estende-lhe a mão num gesto de despedida.
´Está entregue. Desculpe a pressa, mas tenho de passar ainda pela tipografia. Amanhã venho buscá-lo.´
Num impulso, Hans estende-lhe a papaia.
´Leve-a, dê-a às crianças lá em casa. Estarei amanhã à sua espera.´
João Albasini recebe a papaia sem uma palavra. Revira-a, observa as manchas e pisadelas que o levaram a recusá-la. Encolhe os ombros. Vira as costas e desce os degraus saltitando, pondo-se a caminhar velozmente pela avenida abaixo. É uma figura alegre e ágil, uma mão segurando a papaia e as folhas, a outra aconchegando o bolso dentro do qual leva o editorial.
* * *
Arruma as suas coisas no quarto, toma um banho e desce para jantar. Segue absorto os gestos dos criados que acendem, um a um, os candeeiros das mesas e das paredes. Inspira fundo. Sente no ar um leve cheiro a petróleo, acre.
São múltiplos os caminhos que tem na frente, o problema é que não consegue ver aonde vão dar. Glück sugeriu-lhe que começasse por um certo Rapsides, e que tivesse muito cuidado com ele. Todavia, para ter cuidado com ele, terá primeiro de o encontrar, o que sabe ser muito difícil!
Enrola pequenas migalhas de pão entre os dedos, sobre a toalha de linho, imune ao som dos talheres que começam a ouvir-se em volta, à agitação das primeiras mesas e ao passar atarefado dos criados com as bandejas ao ombro.
Pela descrição, Rapsides terá uma grossa cicatriz desde a orelha até à boca, uma cicatriz que lhe distorce e congela a expressão. Embora não o impedisse de manifestar as disposições mais gerais – se estava alegre ou irado, por exemplo – essa cicatriz tornava impossível saber de estados de alma mais finos como a ironia ou o sarcasmo. Difícil, portanto, pormo-nos em guarda. Hans que tivesse muito cuidado com esse tal Rapsides!
Manda retirar a sopa quase sem lhe tocar, mordisca o bife com as palavras de Glück a rondar-lhe as ideias. Acaba por desistir de comer. Está exausto. Pede um brandy. Pede também um fósforo para o charuto, que o criado, pressuroso, acende. Agradece e levanta-se, de cálice na mão, e é nessa altura que nota um aceno vindo de outra mesa, perto da janela.
Tal como haviam desaparecido no nada, do nada reaparecem as suas duas companheiras de viagem na Ferreira. Não tem pois como evitar dirigir-se-lhes.
A mais nova, Florence Greeff, é também a mais extrovertida. No barco, imitava as indisposições da esposa do pastor Gillet, interpelava o comandante segurando-lhe o braço com desconcertante intimidade e cercava o próprio Hans com embaraçantes jogos de palavras. Aqui, foi ela que acenou e é ela que, sem pejo, encara Hans de cima a baixo, como se procurasse avaliar que marcas um dia nesta cidade deixara na sua figura.
A seu lado, Natalie Korenico, mais marcada (conquanto se vejam nela traços de algum fulgor), é o símbolo da polida e conveniente distância.
Hans não vê naquela mesa o engenheiro do caminho-de-ferro e o recrutador de indígenas que, no barco, elas tão pomposamente anunciavam. Duvida agora que estes tenham alguma vez existido e suspeita que outra história correrá atrás daquelas belas máscaras. Por outro lado, a sua desconfiança leva-o a dar-se conta de que elas poderão vê-lo da mesma maneira. Também ele tem outra história correndo atrás da sua própria máscara, embora não saiba ainda bem qual seja. Albasini, Rapsides e, por detrás deles, Sebastian Glück. Não ousa, portanto, perguntar.
No sorriso irónico que não larga nunca os lábios de Florence Greeff, Hans vê confirmada a sua suposição: não há engenheiro algum, nem tão-pouco um recrutador de indígenas. Ela pergunta-lhe se já achou alguma possibilidade de negócio. Mas, como responder com a verdade a quem parece sustentar tão bem mentiras, ironias, duplos significados? Sobretudo depois de Florence, em resposta à sua anunciada intenção de dar um passeio, lhe dizer que tivesse cuidado com a noite; que aqui as ruas, por detrás da sua placidez, escondem muitas armadilhas.

Hans desvia o olhar por um momento, seguindo com ele um dos criados que tropeçou e quase deixava cair a bandeja. Acaba por responder que não, que não há ainda qualquer negócio em vista, que continua em sondagem, não sabe por quanto tempo. Afinal, um dia é muito pouco para se descobrirem os segredos de uma cidade; as possibilidades que, como ela própria deu a entender, as suas ruas encerram.
Cansa-se dos jogos de palavras, levanta-se. Precisa de ar. Pede licença às duas para se retirar. Chega à varanda e fica ali um tempo ouvindo os grilos e esperando uma lufada de ar fresco que não chega. O tempo abafado e os sons da noite trazem-lhe à lembrança um outro tempo, tão distante e ao mesmo tempo tão recente. Leva o cálice aos lábios, dá um trago fundo e sente um fogo alastrando velozmente pelas veias.
Larga o cálice no parapeito, desce os degraus e segue pela berma da avenida como se sentisse necessidade de fugir às casas e às luzes numa urgência de escuridão. Noutras circunstâncias, seria numa altura como esta que alguém se aproximava para lhe transmitir uma versão fantasiosa do passado de Glück. Versão que ele encararia com profundo cepticismo. Passa junto de dois ou três riquexós estacionados, cujos condutores, cansados de esperar um estrangeiro caprichoso que deles precisasse àquela hora, dormitam. De longe, um deles parecia Obede. A mesma silhueta. Mas é afinal mais gordo e velho. Hans transforma o gesto que quase ia fazendo num cumprimento impessoal.
´Boa noite.´
Estremunhados, os homens surpreendem-se. É natural que pensem ser alguém necessitado dos seus serviços. Que branco se daria ao trabalho de uma tal atenção a não ser que tivesse em vista uma corrida? Levantam-se, atabalhoados, cada qual querendo ser o primeiro a servir. Mas, para surpresa geral, Hans já vai adiante, sinal de que cumprimentou por cumprimentar.
Caminha depressa. No chão, um som cavo e uma ligeira vibração anunciam a passagem de um último eléctrico a recolher, vazio. Volta novamente a chuva, uma chuva miudinha que ora não se vê, ora – se lhe bate a luz de um candeeiro – é um pó de ouro descendo lentamente até ao chão. Na sua frente surge um muro caiado que lhe chega pelo ombro. Segue a eu lado até que este se interrompe, deixando ver, do outro lado de um velho portão enferrujado, um mato com cheiros ue fazem lembrar os cheiros que traz no pesadelo. Põe-lhe as mãos e o portão cede com um ruído de gonzos que fere o silêncio. Deixa a rua e penetra no capinzal, sem saber se é um amplo jardim maltratado, se o início do mato (não consegue ver-lhe os limites). Aqui e além, algumas árvores, mais capim. Caminha sempre, sentindo em volta uma natureza cada vez mais altiva e desgrenhada. Por vezes sobrevoam-no as copas negras das árvores e, perdido nesse labirinto alto, um morcego de voo cego e desvairado; outras, é simplesmente o céu húmido e quente. Esforça os olhos para não perder o caminho que pisa, cheio de curvas, mas sente um chão fofo debaixo dos pés, enlameado, sinal de que já o perdeu.
E se encontrasse o tal Rapsides nesta altura, o que lhe diria? Boa noite, o coronel Sebastian Glück sugeriu-me que falasse consigo? Um absurdo. Antes de o procurar terá portanto de saber bem o que quer dele, com que tom lhe falará.
Leva o resto do charuto aos lábios e sente-o molhado. Deita-o fora. Estranha cidade esta, onde a chuva vai e vem sem se fazer anunciar e que se deixa atravessar assim, até ao âmago, por um mato quase virgem (fortaleza recente mas já com fundas brechas). Sente, contudo, neste mato uma diferença em relação ao outro que ainda não consegue precisar. Será das luzes que por vezes descortina entre as árvores, mantendo a noite em respeito? Será dos sons, aqui mais delicados, distintos dos sons roucos e repentinos das feras, dos gritos agudos das aves de voo longo? Será do sopro constante de um vento que lá desconhecia limites e que aqui não passa de um suspiro?
Aguça o ouvido, à procura dessas diferenças, e é então que nota um estalido de ramos que não vê, um ofegar que não é o seu, um vulto que não sabe se é uma árvore retorcida.
´Quem está aí?´
Mas o único movimento é o das folhas vergadas pelo peso da chuva miúda, o único som é o do ranger dessas folhas quando se vergam. Logo em seguida chega-lhe um novo som, cortante, de vidros partidos a seus pés. Baixa-se, tacteia o chão e encontra, entre esses restos de garrafa, um bocado de papel. Desdobra-o. Quer lê-lo mas não tem fósforos. Olha em volta.
´Quem está aí?´
Outra vez o movimento das folhas e o som do seu farfalhar. O sopro do vento num capim que não se vê. No mato os acontecimentos eram repentinos e brutais; aqui, os mistérios são mais leves, mais rendilhados. Parece que vai voltar a chover.
Procura regressar por onde veio mas não dá com o caminho. Quase corre sobre o chão enlameado até descortinar o vulto comprido do muro. Segue ao longo dele, ofegante, parece-lhe que não acaba nunca. Dá enfim com o portão, fechado. Não se lembra de o ter fechado quando entrou. Será o mesmo portão? Empurra-o e ele não se move, sólido como uma rocha. Sente uma necessidade imperiosa de deixar aquele lugar. Trepa pelo muro, passa as pernas para o outro lado e, com um salto, está novamente na avenida. A chuva é já forte, embora quase silenciosa.
Volta-lhe a sensação de segurança. Examina os sapatos em baixo de um candeeiro, completamente enlameados. Aproveita a luz para ler o papel, onde está escrita uma única palavra:
´WENELA.´
Está encharcado. Pragueja, retomando apressadamente o caminho do hotel. Chega aos degraus e sente, mais do que vê, uma presença. Do outro lado da rua os condutores dormitam por baixo dos riquexós. Nenhum daqueles vultos parece ter acabado de chegar, em nenhum nota o ar ofegante de quem tivesse corrido atrás de si para lhe atirar uma garrafa com uma mensagem dentro. Levanta a cabeça para olhar uma janela vazia do primeiro andar.
Será que foi impressão sua ou estava ali, recortada contra a luz trémula do quarto, a silhueta de Florence Greeff? Será que imaginou, ou também ela está sofrendo o calor infernal deste Dezembro?
Entra, fingindo que não a viu.

(fim do 1º Capítulo)

Para ler o resto, compre-se o livro. 15 euros e já está na rua em Portugal. No resto da Lusospeak não sei.

09/02/2010

GUEVARA E A FRELIMO, 1965

Filed under: Che Guevara, História Moçambique, Marcelino dos Santos — ABM @ 5:14 am

Guevara despede-se de Marcelino dos Santos

Eduardo Mondlane com Ernesto Guevara

por ABM (Cascais, 9 de Fevereiro de 2010)

Dos anais da história: fotos da visita do revolucionário de Cuba à sede da Frelimo, em Dar-es-Salaam, capital da Tanzânia, no dia 14 de Fevereiro de 1965.

Para a semana faz 45 anos que aconteceu.

Tanto quanto se soube, nada resultou desta visita.

20/01/2010

Patraquim by Patraquim

Filed under: Luís Carlos Patraquim — ABM @ 7:02 pm

por ABM (Cascais, 20 de Janeiro de 2010)

Para passar um bom e erudito momento, proponho ao exmo. leitor que beba um chá verde enquanto escuta esta excelente entrevista de Luis Carlos Patraquim, que foi gravada na noite de 25 de Março de 2009 na estação da rádio TSF em Lisboa.

São trinta e seis minutos de puro prazer. Moçambicano.

19/01/2010

No Sofá com a Filha do Electricista da Matola

por ABM (Cascais, 19 de Janeiro de 2010)

A minha recensão de Caderno de Memórias Coloniais, escrito por Isabela Figueiredo.

Introdução

De entre a publicação de textos bio e autobiográficos – ou “memoriais” – que se têm e vão publicando sobre a África de língua oficial portuguesa, antes e depois das independências, há que referir que se tem visto pouco e um pouco de tudo.

No caso de Moçambique, com poucas excepções, essas manifestações têm sido, desde talvez a primeira, Moçambique, Terra Queimada (redigida pelo enigmático Eng. Jorge Jardim, logo em 1976) de índole essencialmente, ou principalmente, política e/ou social. Isso tem ocorrido quer em Portugal, quer em Moçambique, quer, em tempos na África do Sul, onde alguns trabalhos importantes e interessantes têm sido publicados. Trabalhos como o de João Cabrita, Jacinto Veloso, Uria Simango, Adelino Serras Pires, Ricardo Saavedra e outros, alguns dos quais têm sido referidos neste blogue.

Mas, reconhecidamente, enormes lacunas permanecem por explorar de entre os diferentes pontos de vista possíveis e os protagonistas dessas histórias. Com algumas raras excepções, a abordagem por escrito – ou publicada – configura um quase total muro de silêncio sobre esse passado.

O que é curioso, dada a relativa relevância do assunto para as pessoas tocadas pelo assunto da presença portuguesa naquele território entre 1890 e 1975 – peculiarmente designados em Portugal como “retornados” – e em especial nos quarenta anos entre 1958 e 1995, quatro décadas em que se operaram mudanças radicais em Moçambique.

Recorde-se que nesse período de quatro décadas, observou-se a formação de uma resistência organizada e militar ao regime português em Moçambique e o início de uma guerra de guerrilhas no Norte do território, o pronunciamento militar em Lisboa em Abril de 1974, o aumento das tensões até Setembro, o anúncio do Acordo de Lusaka e os subsequentes eventos em Lourenço Marques entre Setembro e Outubro, na sequência dos quais iniciou-se a saída da esmagadora maioria dos portugueses e brancos (e de muitos moçambicanos) daquele território, a independência sob a égide da liderança da Frente de Libertação de Moçambique e a implantação de um regime marxista-leninista de linha dura, suportado pelos países da cortina de ferro enquanto a economia entrou em rápido declínio, se assistiu ao surgimento de conflitos com a Rodésia de Ian Smith (a que se seguiu a implantação de um regime de maioria negra liderado por Robert Mugabe) e a África do Sul de John Vorster. Assistiu-se de seguida ao início do que se veio a tornar numa guerra civil sangrenta, suportada pelo regime sul-africano, e, finalmente, ocorreu a renúncia formal, pelo regime moçambicano, ao marxismo-leninismo, a morte de Samora Machel e, já após a queda do muro de Berlim, a libertação de Nelson Mandela, o Acordo de paz em Roma que marcou o fim da guerra civil em Moçambique, seguido pela negociação e implantação de um regime democrático na África do Sul.

Em termos editoriais, esse interesse tem-se revelado, ainda que efemeramente, principalmente em Portugal, onde se apercebe uma audiência, essencialmente não académica, se não tanto com interesse neste tópico na globalidade, pelo menos com o interesse e suficientes números para justificar (no caso de Angola também) as sucessivas edições de livros de história e ilustrações gráficas com sucesso comercial – de que se distinguem os trabalhos de João Loureiro e Moderno Tropical (Ana Magalhães e Inês Gonçalves) uma recente edição fotográfica em hardcover, sobre a arquitectura moderna nos antigos territórios portugueses, ao custo de 40 euros cada cópia.

No campo da análise e do debate em redor dos últimos anos da administração portuguesa de Moçambique, das circunstâncias que levaram à independência do país em Junho de 1975 e os anos que se seguiram, as poucas visões e opiniões publicadas têm sido  habitualmente marcadas por posicionamentos ideológicos e controvérsia.

Em Moçambique, compreensivelmente, essas posições manifestam-se tipicamente algo anti-portuguesas, anti-coloniais e críticas do sistema vigente até à independência, promotoras do “heroicismo libertador”e da criação de um “novo Moçambique”, a partir das cinzas do velho Moçambique, erradicando, nalguns casos literalmente, qualquer vestígio desse passado, dessa influência e dessa presença.

Em Portugal, publicaram-se obras mais académicas ou de análise político-estratégica, mas poucas, e quanto a biografias e memórias por parte dos antigos residentes, cujas experiências quer em Moçambique quer subsequentemente nos destinos para onde foram residir poderão ter interesse humano e histórico, senão literário, o silêncio tem sido quase absoluto.

Nesta complexa dialéctica, degladiam-se visões contrastantes e desenvolve-se, a certo nível, uma luta pela “verdade”, em que se assistem a esforços mútuos e sucessivos de branqueamento do que era e do que aconteceu. O branqueamento, por parte de alguns dos brancos/portugueses, de quão ofensivo podia ser e em muitos casos foi em geral, o sistema e a sociedade antes da independência; o branqueamento do que foi a ditadura comunista e a hostilidade para com os brancos e portugueses e principalmente para com os moçambicanos (de que destaco mulatos, indianos, etc) em Moçambique logo após a independência e nos anos que se seguiram; o branqueamento, em Portugal, da simples realidade de que em 1974 os poderes constituídos, com a quase total indiferença ou a aprovação tácita da população, pura e simplesmente abandonaram à sua sorte centenas de milhares de famílias portuguesas e moçambicanas e os seus descendentes, muitos já sem raízes em Portugal, a milhares de quilómetros de distância, completamente à mercê dos arbítrios de jovens guerrilheiros marxistas-leninistas tornados líderes governamentais, constituídos em ditadura. O branqueamento do facto de que se vivia em Portugal uma ditadura com quatro décadas, e que sobre toda a realidade colonial se sobrepunha essa maior realidade, aceite ou imposta de que, como disse Oliveira Salazar, “a Nação não se discute”. O branqueamento, finalmente, do facto que o projecto colonial nunca foi nem era per se dos “colonos” nem que estes nunca foram os seus principais beneficiários (como aliás se viu posteriormente): bem ou mal, com mais ou menos democracia, este era o projecto centenário de uma nação europeia, que falhou em constatar no que se passava no mundo e, numa das suas horas de mudança mais cruciais, em lidar condignamente com o fim previsível do capítulo colonial, e em assumir os custos dessa retirada em sangue e em dinheiro – e tomar conta dos que supostamente eram os seus.

Não há nesta história heróis nem criminosos. Quando muito, apostou-se num projecto e num ideal que acabaram mal. E muitos sofreram, em todas as partes, principalmente os agora cidadãos dos países que alguns gostam de referir serem nossos irmãos, cabendo a esta e as próximas gerações sararem as feridas que se mantêm abertas.

Se por mais nenhuma outra  forma, fatalmente, o tempo, o distanciamento e a morte dos seus protagonistas de tal se encarregarão. Já está a acontecer.

Ficará a luta pela verdade.

O Caderno de Memórias Coloniais

É neste contexto global que, com base em várias peças colocadas na imprensa nos últimos dias, surgiu recentemente a publicação, por uma obscura editora sediada em Coimbra, de uma obra soi disant de cariz memorialista, intitulada Caderno de Memórias Colóniais (aqui, CMC), pela mão de Isabela Figueiredo, uma ex-jornalista e professora portuguesa, nascida na actual Maputo em 1963, que cresceu no maior anonimato na Matola desse período e que deixou Moçambique definitivamente com 12 anos, a 22 de Novembro de 1975, para não mais voltar.

Há vinte anos, publicara uma obra, também sobre o tema africano colonial, premiada, mas de que hoje não reza a história.

O seu relato, em formato de uma sequência de textos numerados, cobre o que supostamente viu e sentiu entre os sete e os doze anos de idade.

O Tema de CMC Segundo a Crítica e a Autora

A acreditar pelos textos e entrevistas de Fernanda Câncio, uma articulista do Diário de Notícias, de Eduardo Pitta, um intelectual e poeta de origem moçambicana na revista Ler (transcrito para um blogue com o mesmo nome), de Francisco José Viegas, e de Alexandra Prado Coelho num suplemento do Público, os temas desta obra seriam, mais ou menos por esta ordem, o passado pessoal da autora e um diálogo post-mortem com o pai racista, uma caracterização sua do racismo da sociedade lourenço-marquina entre 1970 (quando efectivamente a autora inicia no seu texto o fio à meada, assumidamente biográfica) e o assumir de um estatuto de “retornada” já em Portugal e no final dos anos 70, com vários comentários feitos com referências posteriores.

À cautela, há algumas nuances no que surge através dos comentários e afirmações feitas nas entrevistas, quer da autora, quer dos seus comentadores.

Sobre CMC, Eduardo Pitta referiu no seu texto na Ler que, apesar de uma certa abundância de informação sobre o período, “faltava, porém, um relato na primeira pessoa. Foi isso que fez Isabela Figueiredo (…), sem poupar nos detalhes”, considerando que CMC “é uma obra imprescindível para compreender o sentido (ou sem sentido) da nossa presença em África”.

Na sua peça, publicada no DN no dia 9 de Janeiro de 2010, Fernanda Câncio refere que CMC “é uma carta de amor a um pai racista”(…)“é a história de uma retornada que assume o racismo português” que “desfaz o postal da África colonial mitificada”. Cita a autora, segundo a qual “comecei a escrever e a gostar do que estava a escrever. Achei que estava a sair bem, Com ternura mas também com violência. Claro que tenho medo de ser mal interpretada. Mas sinto muito alívio. Libertei-me de um fardo que carreguei comigo a vida toda.” O fardo? Ela prossegue: “a verdade é que nós vivíamos num país onde se podia atropelar um negro e não ir para a prisão”.

Câncio refere que a autora foi mais longe: “houve uma espécie de justiça nos massacres dos brancos. Mesmo se ela sabe que quando em Setembro de 1974 mataram famílias conhecidas à catanada, espalhando-lhes os restos pelas machambas, animais e pessoas, tudo o que era branco, à mistura, só por sorte inaudita ela e os pais não fizeram parte das contas”. E cita novamente a autora: “nós não podiamos dar-nos com os pretos e tudo o que eu queria era dar-me com eles”.

Inescapável, o tema do pai, em que Câncio refere o seguinte; “o homem enorme que a pegava ao colo e a levava para todo o lado, para as obras onde era electricista e onde dirigia “os seus muitos pretos” e os agredia com palavras e porrada, para as tardes de camarão grelhado e penalties com os outros homens em que aprendeu a linguagem do racismo, (…). À laia de explicação para a sua escrita, a autora refere a Câncio “tinha de gostar dos meus pais e ao mesmo tempo lidar bem com a minha consciência”.

Na sua peça, Francisco José Viegas, autor do romance Lourenço Marques, considera que CMC é “um dos livros mais tentadores da estação”. E ainda que a autora “é rápida no gatilho, escreve muito, muito bem – melhor do que todos os rendilhados que andam por aí, em súplicas desatendidas.”

Na entrevista com Alexandra Prado Coelho no Público, a autora referiu razões e motivações por detrás da obra, Cita-se abaixo, e na primeira voz.

Sobre o contexto em que escreve a obra, são de relevo, para se entender a obra:

“Foi preciso esperar muito tempo, que o meu pai morresse, que eu fizesse o luto dele, que fizesse uma série de anos de psicanálise, para ter vontade de escrever o que está aí. São coisas que precisava de dizer”

Sobre o assassínio de portugueses e brancos em Setembro de 1974:

“Quando foram os massacres que se seguiram à independência compreendi que era a justa retribuição.”

Sobre a sua solidão e conhecimento da realidade que a rodeava:

“O que acontece é que eu não tinha autorização para brincar com outras crianças, era muito protegida pelos meus pais, provavelmente por ter sido uma filha tardia. Vivia muito encerrada com a minha mãe em casa.”

Sobre o pai e a realidade sobre a qual escreveu:

“O meu pai foi um mediador entre mim e a realidade. Eu conhecia a realidade através dele e do mundo que ele trazia até mim. Portanto só posso culpar o meu pai. O colonialismo é o meu pai, a discriminação é o meu pai, porque foi o meu pai que eu vi fazer isso. Eu andava sempre com ele. Ele gostava muito de mim, levava-me para todo o lado.”

E ainda:

“Acho que nunca falei verdadeiramente com o meu pai sobre como ele me decepcionou por ser um racista.”

E ainda:

“Porque é que eu bato tanto no meu pai aqui? É pela questão do abandono? Não, é porque ele foi mesmo um grande filho da mãe. E porque fez coisas que não devia ter feito, porque as fez à minha frente, porque me magoou, e porque eu nunca lhe disse isso directamente e devia ter dito. E se digo com alguma violência é porque essa violência ainda não está totalmente gasta.”

Finalmente, mais um comentário extra-livro que ajude o leitor talvez a melhor entender o que escreveu:

“Fico muito zangada sempre que vou a uma livraria e sou confrontada com um livro sobre essa imagem [idílica de África] – e depois começo a ler como era bom comer papaia, e como tínhamos uns criados que tratavamos muito bem, e como as roupinhas dos nossos filhos iam todas para eles. Acredito que haja pessoas que não tenham participado activamente em acções destas [de discriminação e violência], mas foram cúmplices, como na Alemanha.”

Presume-se que a autora acima se refere às pessoas que viveram na Alemanha Nazi.

A Crítica

Stritu factu, com alguma sobreposição em alguns dos temas acima relevados, depois de uma leitura atenta dos textos de CMC, e pedindo desculpas a alguns exmos leitores que já o referiram, e pelo que nalguns casos já referi eu próprio, acredito que o tema central desta obra não é o colonialismo na Lourenço Marques colonial. Nem tanto a natureza impia do racismo colonial na velha Lourenço Marques. Nem nehuma confrontação titânica com pesadas consciências sobre um passado supostamente tenebroso.

Este livro não é sobre a experiência colonial de centenas de milhares de pessoas que viveram em África entre 1960 e 1974 e os milhões de moçambicanos que, a breve trecho, bem ou mal, integraram um Moçambique soberano e independente.

Não são as memórias de uma menina simpática e inocente que cresce e apreende a beleza e o amor que a rodeiam num mundo hostil e que não compreende. Não é o Bonjour Tristesse de uma Françoise Sagan.

Nem é sobre algum vislumbre de empatia e solidariedade com o destino e a miséria e a exploração e a humilhação a que muitos moçambicanos negros (os poucos que a autora refere ter visto na sua caixinha de loucuras) tiveram que se sujeitar perante a prepotência racista e neurótica de gente como os seus pais – e que ainda hoje, quarenta anos depois de independência, ocasionalmente se vê, nem sempre alinhada em termos de raça ou cultura, pelo contrário.

Só quem não conhece, só quem não sabe, só quem é que não vê, é que não percebe.

Não.

Este livro é principalmente, quase unicamente, sobre ódio puro e destilado entre duas figuras trágicas. Entre dois monstros horríveis.

É um discurso sintetizado e coisificado de dois seres perturbados, limado ao longo dos anos, em que, morta uma das partes, e não tendo havido uma tão apetecida catarse, foi, para o consolo e consumo egoísta e algo psicótico da parte remanescente, cuspido para o papel, que agora é apresentado, sob a pretensa forma de “arte”.

Quase tudo o resto é apenas, em pano de fundo colonial, um estratagema, um exercício de exibicionismo, um vulgar drag show para mostrar que gosta de chocar, que não se importa de chocar, que não tem barreiras, que pode gritar o que quiser. Os “pretos” aqui são apenas marionetes da tragicomédia, E nós pagamos o bilhete de entrada. Eu paguei.

O primeiro e principal monstro, é a autora, tão obviamente perturbada, tão quixotescamente transfigurada numa menina loira, delicada e sensível com sete, dez anos de idade (acredite quem quiser) que supostamente vivia fechada numa verdadeira caixa de horrores escondida numa Matola (então) distante, bucólica e rural, e que, com o único fito de tentar chocar e surpreender de uma maneira ou outra o leitor completamente desprevenido (nenhum dos críticos citados parece minimamente perturbado pela forma e conteúdo do que aborda, homenagem lhes seja feita), desfere, ataca, arranha, grita, insulta, achincalha, rasga quase tudo e todos. Nada lhe escapa, nem, no fim, especialmente, ela. Obcecada pelo sexo, obcecada pela raça, uma voyeur politicamente correcta do ocaso do Império. Os brancos são lixo. Os negros não são nada. Para ela a vida aos sete, oito, nove dez anos de idade, é uma orgia pérfida de revolta e sedução, em doses iguais, naquela casinha perdida na Matola.

A abordagem não impressiona por um segundo. Se o relato era verdade, era caso de polícia. Se é apenas literatura memorialista, aprende-se muito pouco. Talvez apenas que, em qualquer comunidade, incluindo as coloniais, há extremos que devem ser exorcizados. Não vão as criancinhas acabar assim, patologias por resolver.

Tudo isto embrulhado numa prosa ridícula que é de uma tal pobreza, de uma tal falta de graça, de contexto, de sustentabilidade intelectual, de equilíbrio emocional, que desafiam a inteligência e a sensibilidade de quem como eu teve o rasgo de, avisado, comprar o que só posso qualificar como o pior conjunto de verborreia pretensamente sobre a era colonial em Moçambique que jamais vi. Aquilo é um desatino em cadeia. Esta obra não é uma memória. É a memória de um grito lancinante de ódio contra um pai em relação a quem havia muito e quiçá omitido, unfinished business.

A exploração, a miséria, o racismo generalizado, o tal pano de fundo em que surpreendentemente tão diligentemente circula e que tanto faz por pintar que parte o pincel, com a excepção rara de foder o filho do vizinho preto na Matola, de cujo nome não recorda, ao contrário do idiota do Luisinho branco (ah mas este tem nome) que por cima dela se deitou.

Ainda por cima a autora tem o gáudio de, à propos,  vir referir que está convencida de que é muito boa a escrever. Que tem algo para nos dizer de especial. Que dos seus insanes, vulgares, pirotécnicos regorgitares sobre a sua aparentemente doentia e psicótica, sexualmente perturbada versão luso-tropical de Voando Sobre um Ninho de Cucos em cenário colonial, está a fazer literatura. Literatura memorialista.

Ai sim?

Mas naturalmente: ganhou um prémio qualquer em 1988 (há 21 anos) e enquanto olhava para ele na prateleria em sua casa, ficou a perceber que, se mais nada saberia fazer na vida para além de nutrir um impenitente, incontido, incontível, ingerível, inexorcizável ódio pelo pai, “apercebeu-se” que o que escrevia tinha alguma qualidade. E como no júri em 1988 estavam a Agustina, o Dinis e a Ondina, que lhe deram o único grande, inebriante prazer na vida – o de um elogiozinho e de umas palavras de encorajamento que a posteriori só posso qualificar de tragicamente equivocados – e depois de uns test flights assistidos por meia dúzia de aficcionados num blogue perdido na internet, achou por bem presentear o seu veneno destilado ao público. E como a Fernanda aplaudiu, e o Eduardo Pitta condescendeu, e o Francisco Viegas recomendou – isto é mais do que bom.

É três vezes bom.

Só pode. Pois quem somos nós os outros para julgar poder apreciar?

A outra figura trágica deste compilar de ódios generalizados, com ressalvas, pois é apenas protagonizado pela sua mão, é o (defunto) pai, cuja relação com a filha – a fazer-se uma leitura atenta – está no centro de uma vasta, doentia, distorcida,  forma de apreender a realidade e de lidar com ela. Por essa lente disforme, com uma ajudazinha da mãe na casa da Matola, tudo capta na inocência dos seus reputados e cristalinos sete, oito anitos de idade. A inocência na gaveta. Como o pai era um racista encartado (filha dixit) logo todos os brancos, toda a cidade branca, era como ele. Como o pai tinha desvarios, assim era tudo o resto. O pai, o corpo do pai, o cheiro do pai, o músculo do pai, o não sei quê do pai….

Convém um voo rasante para o exmo leitor se poder inteirar do sabor dos textos de que falo e do ambiente deste Ninho de Cucos da Matola:

Breve excerto do texto 2: “Os brancos iam às pretas. As pretas eram todas iguais e eles não distinguiam a Madalena Xinguile da Emília Cachamba (…) As pretas tinham a cona larga, diziam as mulheres dos brancos (…) A das brancas não, era estreita, porque as brancas não eram umas cadelas fáceis, porque a cona sagrada das brancas só lá tinha chegado o do marido (…) As pretas não eram sérias, as pretas tinham a cona larga, as pretas gemiam alto, porque as cadelas gostavam daquilo. Não valiam nada”.

Início do Texto 3, supostamente sobre a sexualidade do pai dela e a dela, tema favorito para quem ainda não percebeu: “Foder. O meu pai gostava de foder. Eu nunca vi mas via-se. “. E mais adiante, “Quando o meu pai me levantava no ar como se fosse uma coisa, ou me transportava às cavalitas, sentia-me fraca perante a força total, dominada, possuída por ele”. Mais tarde, no texto 24: “Sem me ensinar, o meu pai iniciava-me no prazer que já havia despontado com o estranho fogo do meu padrinho”. No Texto 28, para equilibrar, anuncia que “a Domingas foi quem me masturbou pela primeira vez”.

Hum.

No texto 4, esta pérola, que para variar repete duas vezes, referindo-se à cidade de Lourenço Marques “…era um enorme campo de concentração de negros sem identidade, sem a propriedade do seu corpo, sem existência”.

Tópico do Texto 5: The first fuck (a da autora com o tal de Luisinho – branco – sete anos de idade, mal explicado, pai descobre e dá-lhe um enxerto de pancada) e que começa assim, para variar: “Foder. Essa descoberta tornou-se algo que me envergonhava e desejava”.

No texto 10: Mais sexo. “Quase” engravida do “filho do vizinho preto”. Aos dez anos de idade.

No texto 11: “… o olhar dos negros, nunca fica, para os colonos, isento de culpa: olhar um branco, de frente, era provocação directa; baixar os olhos, admissão de culpa. Se um negro corria, tinha acabado de roubar; se caminhava devagar, procurava o que roubar.”

No texto 14: Sobre a Marília, a quem a autora dá uma bofetaba mas que, como ela era branca e a Marília mulata, a Marília engoliu e calou-se. Isto na Escola Especial em Lourenço Marques.

No texto 17, sobre a guerra no Norte e as tropas portuguesas: “Também havia soldados pretos. Faziam-nos comandos, para irem à frente e morrerem primeiro; assim se poupava um branco. Que os pretos morressem na guerra era mal menor. Era lá entre eles”.

Há 16 páginas às voltas com a saída de Moçambique em 1975 (textos  de 29 a 33). Medíocre.

No texto 34 há um parágrafo inteiro, que constitui o segundo parágrafo inteiro, do texto de Fernanda Câncio no DN. Alguém se esqueceu de pôr lá as aspazinhas e fiquei a pensar que era da autoria de Câncio. Afinal era da autora. E aqui vai: “Todos os lados possuem uma verdade indesmentível. Nada a fazer. Presos na sua certeza absoluta, nenhum admitirá a mentira que edificou para caminhar sem culpa ou caminhar, apenas. Para conseguir dormir, acordar, comer, trabalhar. Para continuar. Há inocentes-inocentes e inocentes-culpados. Há tantas vítimas entre os inocentes-inocentes como entre os inocentes-culpados. Há vítimas-vítimas e vítimas-culpados. Entre as vítimas há carrascos. “

Texto 40: quatro páginas sobre o corpo do pai. As pernas, a barriga, etc. Fico sem palavras.

Texto 41: agora é a vez de alguém que vem por via da mãe, uma mulher, que terá dito, já “retornada”, cito “ Os negros, os cabrões, os filhos da puta. Vim de lá há um ano. Nunca deixei que me faltassem ao respeito. Chamavam-me mamã, chamavam-me tia, e eu dizia-lhes não sou tua mãe, que eu não sou puta. Nem tia, ó meu cabrão. E não me assaltas que eu não sou branca e estrangeira e ponho a polícia atrás de ti, meu escarumba de merda.”

Perto do final, um texto indicado como post chamado Fígado de Porco refere-se ao primeiro aborto que a autora fez, não se sabe quando. Parece que o que saiu pareceu-lhe fígado de porco. Mas este já é tema extra-colonial, é uma espécie de bónus. Não indica quem a pôs assim.

E no meio do texto 41, o que para mim é o grand finale, o que a autora, na sua análise, destila disto tudo: “Um branco que viveu o colonialismo será um branco que viveu o colonialismo até ao dia da morte. E toda a minha verdade é para eles uma traição. Estas palavras, uma traição. Uma afronta à memória do meu pai. Mas com a memória do meu pai podemos bem os dois.”

Tirem-me deste filme doentio.

E como exorcismo merecido, leia-se Noémia de Sousa, José Craveirinha, Mia Couto, Luis Bernardo Honwana, Luis Carlos Patraquim, Calane da Silva, Albino Magaia, Nelson Saúte, Ungulani Baka Kosa, António Pinto de Abreu, Leite de Vasconcelos, Paulina Chiziane, José Eduardo Agualusa. E, last but not least, Carlos Serra. E o meu irmão Amâncio Miguel.

São gente que demonstra que, por mais que todos os electricistas da Matola houvessem atentado contra a dignidade de um povo, por mais humilhações por que tenha passado, ele superou e ressurgiu forte e sorridente.

Quanto aos “retornados”, deixe-os em paz. Eles têm as suas histórias, que não são estas.

São outras.

16/01/2010

Lizzie Had a Dog in LM

Lizzie & Bóbbi

por ABM (Cascais, 16 de Janeiro de 2010)

A lógica da breve discussão prévia o impunha e uns meros 15 euros o resolveram.

Disfarçado de dono de um veleiro de passagem por Cascais, e após breve e inócua aventura na Livraria Bulhosa no Cascais Villa, peregrinei até à quiçá mais próspera e dotada FNAC do Cascais Shopping, com a Dulce Gouveia a reboque, para comprar a grande obra recente da Escritora de origem moçambicana, publicada pela Editora sediada em Coimbra.

Mas na secção dos livros dou logo de caras com o José Rodrigues dos Santos no corredor, que é máfia moçambicana do melhor e estes dias uma espécie de versão lusa do Dan Brown. Com ele não há cá memórias para ninguém. Antes que ele pensasse que eu ia ao livro dele sobre a Al-Khaeda, que se encontra à venda em todas (mas todas) as livrarias, grandes superfícies, aeroportos e até por baixo de vãos de escada, escapuli-me pelo café da loja para o outro lado e fui ter com uma daquelas meninas simpáticas da FNAC que usam um coletezinho verde e nos ajudam a encontrar os livros.

“Olá, boa tarde. Procuro o novo best seller daquela escritora nascida em Moçambique Isabela Figueiredo e não encontro”.

“Só um momento, sefachavor”.

Clic clic clic clic no computador.

“Sim, devemos ter ainda uma cópia na loja, deixe-me ir ver”.

E desapareceu.

15 minutos à espera.

Após o que a menina surgiu do nada com um livrinho pequenino na mão.

“Quanto é?”

“15 euros”.

“15 euros! Bolas. Deixe-me cá ver”.

E peguei no volume. E inspeccionei-o.

Preliminarmente.

Na verdade o livro é algo estranho.

A seguir à capa e a contra-capa, tem quatro folhas verde-alface sem nada, duas de cada lado, que deve ser para o leitor precavido tomar apontamentos. No fim, a seguir à folha verde-alface, diz uma nota que foi composto numa empresa gráfica na bela Vila Nova de Famalicão, “34 anos após o regresso da autora a Portugal”. Ok. Suponho que uma anotação válida para quem ao chegar ao fim do livro ainda não se tiver apercebido desse facto da vida da autora, ou que não saiba fazer contas de subtraír (pois 2009-34 = 1975) infelizmente um provável infortúnio com o estado da educação nos dias que correm.

Só que na pala interior da capa tem mais uma foto simpática da Isabela, esta circa 2009 e sans Bóbbi, e mais uma notinha a dizer que ela nasceu em Lourenço Marques em 1963, que em 1975 veio para Portugal, e que nunca mais voltou.

Espera aí: se aqui diz que ela nasceu lá, que veio para cá e que nunca mais voltou, porque é que no fim do livro diz que ela regressou a Portugal?

É um mistério. Assumo que deve fazer parte da complexa e mística dialética subjacente aos conteúdos ali abordados. Ora veja-se.

Ela nasce e cresce em Moçambique.

Mas ao viajar para Portugal em 1975, regressa.

Ora isto é para mim uma alegoria fantástica.

Tem umas fotografias: na capa (a foto ali no topo) a Isabela avec Bóbbi. Depois duas piquininas de Lourenço Marques nos tempos e que mal se conseguem ver, e a seguir vêm: a Isabela a segurar o rádio de papá debaixo de uma papaeira, a Isabela vestida de saloia portuguesa num barco, a Isabela a fazer pose num parque, a Isabela na marginal de Lourenço Marques e a Isabela na comunhão.

Na página 7, presume-se que para dar o tom do que está para vir, três citações, uma de Paulo Auster a falar do pai (o do Paulo Aster), e duas do italiano Primo Levi, a mastigar a presumível fungibilidade da Memória Humana. Bem, ou pelo menos a dele.

E, presume-se, por osmose subliminar associativa, a da Isabela.

A menção do americano Paulo Auster confunde-me e levanta-me imediatas suspeitas quanto à proeminência fotográfica do Bóbbi. Pois na sua Timbuktu, não a africana mas uma mitológica e utópica urbe, são as memórias do rafeiro Mr. Bones que descascam, numa odisseia tão deprimente como cativante, a existência de Willy Christmas, um homem infeliz e falhado, que morre à porta da casa onde o seu ídolo, Edgar Allan Poe, vivera. Será isso? O que acha, quais as memórias de Bóbbi da sua dona e da Lourenço Marques que a viu nascer e crescer? será que Bóbbi também regressou?

Primo Levi suscitou-me ainda maior supresa. Pois a sua escrita, sendo judeu e tendo passado pelos maiores horrores da carnificina Nazi, incluindo quase um ano em Auschwitz-Birkenau, é mais conhecida pelo conteúdo memorialista desse período – memórias que o perseguiram até à morte. Em 1987, o grande Elie Wiesel, que era professor na Universidade de Boston, onde estudei gestão e um pouco sobre o judaísmo nessa altura e durante dois anos, e ele próprio um sobrevivente do horror Nazi, disse que, quando morreu – e referindo-se às suas peristentes e pungentes memórias – Levi na verdade morrera em Auschwitz mas quarenta anos depois.

Que associações poderá haver entre a obra e o percurso de Primo Levi e este livro de Isabela? A curiosidade avoluma-se dentro de mim.

Procurei, e descubro que o livro não tem índice. Tem, isso sim, em 136 páginas (as que estão numeradas), textos sequenciados, de 1 a 43. Sem títulos. Só os números.

E na verdade, aí me apercebi, afinal aquilo não é só um livro (daí, decorrem, presume-se, os 15 euros).

Logo a seguir ao texto Número 43, depois de uma folha com umas das fotos piquininas de Lourenço Marques que não se vê bem, tem outra onde apenas figura, a meio, a singela e solitária frase, que se presume dedicatória: “À memória do meu pai”.

Repare-se no detalhe: não é em memória do pai. É à memória do pai.

Hum.

E a seguir tem uma página que diz, na vertical, com o texto a apontar na direcção da lomba do livro, em letras garrafais “Adenda” onde, aí sim- surpresa!- tem um índice, mas um indicando o que vem a seguir (aos textos numerados de 1 a 43): seis textos descritos como posts, incluindo o intrigantemente títulado Falta dinamitar o Cristo-Rei e logo abaixo o assaz mais invocativo de assunto gastronómico, Fígado de Porco; e,  finalmente,  Uma conversa com Isabela, que inclui, um pouco como nas (brevemente findas) conversas do Professor Marcello na RTP aos domingos à noite, e à margem das doze páginas do texto da entrevista propriamente dita (feita por não se sabe quem) as sugestões dela de dez livros, cinco datas e cinco lugares.

Portanto, isto é o que se pode chamar um pacote completo.

Que agora é meu.

Por, afinal, uns modestos 15 euros.

E que, feito o investimento e aguçada a curiosidade, vou ler este fim de semana, de fio a pavio.

E de que logo darei conta aos exmos leitores, após reler também a prosa canciana et al.

Para tirarmos esta coisa a limpo de uma vez por todas.

Um bom fim de semana a todos.

10/01/2010

THE BEST OF ISABELA FIGUEIREDO

o horizonte nos contempla

por ABM (Alcoentre, 9 de Janeiro de 2010)

Fernanda Câncio, a putativa (segundo certa imprensa) namorada do actual primeiro-ministro português, José Sócrates, e fogosa escriba num Diário de Notícias infelizmente cada vez menos de referência, escreveu um curioso texto – que saiu na sua edição de hoje – sobre uma sra chamada Isabela, que, depreendo da leitura, como muitos de nós saiu um pouco a pontapé do Moçambique pós- independente e revolucionário aos 12 anos de idade, e sobre um livrinho que ela escreveu e que acabou de ser publicado, que dá pelo nome algo enigmático de Caderno de Memórias Coloniais.

Que não li.

Mas li o comentário de Câncio, que sempre vale alguma coisa e que me deixou algo mistificado.

Vamos por partes.

Deixou-me algo mistificado porque a Fernanda que, como já vi outras pessoas dizer noutras ocasiões, deve perceber tanto da realidade colonial como eu de física nuclear, começa por colocar legiões de “retornados” num vasto manicómio virtual, todos mentirosos e todos vivendo numa ilusão colectivamente induzida com o fito de não enfrentar uma inconfessável série de “crimes contra a Humanidade”, que, lá vai o argumento, só pode ser o que (no meu caso) os nossos pais e avós andaram todos lá pelas Áfricas durante séculos a cometer contra os nativos. Voluntária e até empenhadamente e, no caso do pai da Isabela, com requintes de malvadez.

Isso a acrescentar àquela outra Grande Ilusão Colectiva dos brancos e portugueses da África portuguesa (nunca os de cá, coitados) claro, a de que aquilo era “nosso”. Que se sabia perfeitamente que não era, especialmente a posteriori.

Bem, todos – especifique-se – menos a sua amiga Isabela.

No seu caso, Fernanda diz que a Isabela baseou os Cadernos nos seus escritos, alguns dos quais foi colocando num blogue de que nunca ouvi falar antes na minha vida, que alimenta regularmente e que se chama – algo deceptivamente – Mundo Perfeito. Bem, não pode ser assim tão perfeito como isso, se a imagem de cabeçalho que a Isabela escolheu para a porta do seu blogue é um corpo de mulher de cuecas e com cabeça de cão, sentada numa estufa com flores. É uma invocação que diz muito. Para mim uma alegoria de um mundo perfeito ( aquilo a que Sir Thomas More chamou em tempos de Utopia )podia ser a fotografia acima – mais ou menos. E ainda tem à porta da estufa retinintes e polidos avisos sobre os seus direitos de autora, que, na minha experiência na internet, são ah tão simpáticos como não valem um caracol furado. Neste meio a ofensa não se combate com avisos, combate-se com unhas e dentes.

Ou ignora-se.

Ora eis algo que não me ocorrera antes, isto de ter um blogue na internet, onde vou escrevinhando umas coisinhas e um belo dia, imagino que para aqueles que não têm internet, arranjo uma editora e escarrapacho tudo outra vez numa publicação, à laia de The Best of Maschamba. Bem, sempre tira a impressão fungível e a desconfortável sensação de estar sózinho num submarino e que as palavras que aqui escrevemos em suporte incompreensivelmente electrónico, pareçam um pouco menos aquilo que os americanos chamam pissing in the wind (no nosso vernacular, fazer chichi ao vento). Tenho que falar com o nosso Senador e a Sra Baronesa em reunião de Conselho de Machamba, mas receio que, numa futura edição do Caderno de Memórias Maschambianas, eu seja sumariamente relegado para uma recôndita nota de rodapé.

E lá se iria a etérea sensação da imortalidade literária.

Mas podia oferecer cópias dos livrinhos pelo Natal, o que com um blogue, admita-se, não se pode fazer.

A mistificação do comentário publicado no DN sobre a Isabela tem que ver com a evocação de um passado moçambicano que mais parece uma longa e pesada sessão de terapia duma branca com sentimentos negativos sobre a sua experiência africana e, quiçá, sobre o seu estatuto de retornada num Portugal revolucionário e recém-exorcizado da sua experiência colonial-bélica. Pelo meio, vagueiam ideias da injustiça daquilo tudo, o trauma do (presumo) rescaldo do 7 de Setembro de 1974 e ainda o fantasma do pai, que, recita, chamava coisas feias aos colonizados com pele mais escura e que, num contexto em que – creio – ninguém tinha “direitos”, tinham ainda menos que os colonizados mais clarinhos. A Fernanda, cuja experiência africana (e muito menos moçambicana) repito, desconheço por completo, arremata, no que presumo possa apenas ser uma infeliz exaltação literária, dizendo que vivia-se (em Moçambique) num país onde se podia atropelar um negro e não ir para a prisão. Pois. E esqueceu-se de referir que comíamos meninos pequenos para o matabicho.

Decorre que com a independência tudo isso acabou. E que com os assassínios de brancos por representantes armados da maioria negra nos arredores de Lourenço Marques em 1974 fez-se, apenas, justiça. Ai sim Fernanda? hum, sorte, então eu ter sobrevivido aquela pouca vergonha toda, e não graças à sua boa vontade.

Há aqui dois aspectos que me induzem a pensar que talvez este tipo de intro-retrospecção tenha que ser trabalhado um bocadinho mais.

O primeiro aspecto é que, segundo a Fernanda, cuja retórica para estes efeitos, aceite-se, é mais ou menos irrelevante, a Isabela saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade. Se calhar viajámos os dois no mesmo avião da TAP em alturas diferentes, só que eu tinha 15 anos de idade, diferença que importa para efeitos desta discussão. Pelo menos eu já não era virgem, naquele e em muitos outros aspectos da vida.

Ora, para alguém que saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade, a análise global da situação que a Fernanda diz que a Isabela faz, a crer-se biográfica e despida de preconceitos e análises que só possam ter sido posteriormente adquiridos, devem ser deveras de assombrar, vindos de uma miúda. A minha irmã mais nova, que tinha a mesma idade e teve o mesmíssimo percurso que a Isabela, mal sabia jogar ao berlinde. E lá em casa ainda estamos à espera dos seus cadernos.

Mas admita-se que pode ser que seja a nua verdade no seu caso pessoal, em que a forma como pinta o pai assusta mais que o papão colonial-racista. O que refere dava para horas e horas (e horas e horas) de sessões de psicoterapia.

Mas não logra por um segundo pintar uma realidade maior.

O segundo aspecto é que, por minha parte – e já o tentei explicar uma vez ao JPT e sob pena de me repetir – ao contrário de alguns eu vivi lá, e no meu microcosmo o pai BM e a quase totalidade das pessoas com quem contactava, não chamava nomes a ninguém, branco ou preto, eu não era inibido de me dar com ninguém com base na cor da pele e, se não disputo (mas não desta maneira) a sustentabilidade do tal “ídilio colonial” de Lourenço Marques que a Fernanda diz que não existia (existia, sim, que chatice), pintar essa era e todas as vastas e complexíssimas relações pessoais, económicas, sociais e raciais de Moçambique no fim da era colonial em Lourenço Marques com um simples rótulo de “racismo” e “abuso” é totalmente descabido. É falso. É absurdo. É ridículo. É uma fraude moral, intelectual e histórica. É projectar os seus preconceitos actuais, ignorar as suas causas e tentar justificar moralmente os seus efeitos e a pulhice que veio a seguir, e em que de longe as maiores vítimas – surpresa – foram sempre, e quase só, milhões de moçambicanos, que de uma ditadura passaram directamente para outra, não muito diferente.

Especialmente se se está a falar no começo dos anos 70, em Lourenço Marques.

Claro que lá havia racismo. Claro que havia injustiça, incluindo a racial. Claro que tinha que acabar. Que tinha que mudar. Claro que havia gente como o pai da Isabela. Se calhar até pior. Claro que aquilo era uma ditadura, com tentáculos em Portugal, um anacromismo total num mundo já quase sem impérios coloniais e em que os países comunistas activamente armavam e patrocinavam os que combatiam o que sobrava de colonialismo no mundo. Ser colonial a partir de 1950 tinha o seu custo em lágrimas, suor e sangue. Salazar estava disposto a pagá-lo, outros não. Em 1974, venceram estes.

Mas cuidado ao pintar tudo de negro. O pior racismo que vi na minha vida não foi em Moçambique, foi nos Estados Unidos quando para lá fui viver em 1977. Portugal hoje não é muito melhor. Quotidianamente vejo as maiores injustiças serem cometidas em Portugal hoje que não se distinguem assim tanto das injustiças que haviam em Lourenço Marques e que há em toda a parte. As injustiças económicas que se observavam há quarenta anos em Moçambique, aliás, ainda se mantêm em larga parte. Pois não é de um dia para o outro que se capacitam milhões de pessoas pobres, rurais e analfabetas que vivem de subsistência no mato e se lhes proporciona, e aos seus filhos, condições para ascensão social e económica.

O crime, se é que se pode dizer assim, não era do que a Isabela diz que vislumbrou aos dez anos de idade e muito menos dos tiques racistas do seu partido pai, que não conheci. É de um país que estava na mão de um ditador que escolheu manter um statu quo décadas depois da altura em que deveria ter iniciado medidas para atempadamente preparar e entregar o poder político e a gestão da nação moçambicana aos seus filhos, descomplexadamente e de cabeça erguida.

Provavelmente quer eu quer a Isabela teríamos lá ficado, a viver em paz e sossego e estaríamos a ajudar a construir esse novo país, em vez de andarmos à esmola de familiares hostis e dependentes de amizades que se calhar nunca o foram, olhando no espelho à noite e inventando na mente que aqui pertencíamos.

E a ter que tentar engolir de terceiros a tese de conspiração de que o que ali porventura encontrámos de bom e belo – e que hoje é apenas uma memória, só isso – não foi, não podia ser, que estamos a mentir aos outros e, pior, a nós próprios.

Vão à merda.

Dito isto tudo, acho que um dia destes lá vou ter que ir procurar o tal de livro para ver mesmo do que é que a Isabela está a falar.

Ou talvez não.

Quanto ao blogue, para já fico à porta.

21/12/2009

Café no British Bar e Visita à Cordoaria

Filed under: Desporto, Fernando Lima, Kok Nam, Luís Carlos Patraquim — ABM @ 12:40 am

IMGP4770 BRITISH BAR SM

por ABM (Cascais, aos 20 de Dezembro de 2009)

Um convite inesperado.

Uma tarde agradável, de conversa, uns pregos, uma Coca Cola e umas cervejolas pelo meio no British Bar, seguida de uma visita à exposição do fotógrafo cubano Alberto Korda no Museu da Cordoaria. Depois, regresso ao mesmo bar e mais conversa, mais pregos e mais bebidas. As chamussas são provocatoriamente “africanas”.

Mais tarde, descubro que o British Bar é ponto de encontro informal de alguma diáspora moçambicana às sextas-feiras ao fim do dia. Os sobreviventes seguem depois para um restaurante ali perto, baratusco, a que chamam afectuosamente “a palhota”.

Lá, encontro o Parcídio, meu vizinho quando eu tinha 6 anos e que não via desde então. Deu-me conta dele, do Jó e do Janeca, os irmãos.

Quase estranhei. Essa África, que já só vive na minha cabeça e nos livros, raramente é de carne e osso.

Nada demais para uma tarde, não tivesse o convite que me foi dirigido vindo de nada menos que S.Exa JPT, o “Senador” do Maschamba (dixit CG) de momento em digressão por Olivais e arredores, não fosse perder a verve lusa.

Ainda assim, revelando a sua crescente espiritualidade moçambicana, pediu sem pensar nem hesitar uma 2M ao barman do British Bar, que ficou a olhar para ele. Como é possível não haver uma 2M em Portugal?

Ao lado dele, o grande Kok Nam, aqui passando uma temporada para uma cura de águas. Ao vê-lo mais tarde passear-se no legado de Korda, pensava no dele próprio, para mim mil vezes mais interessante, desde que os seus antepassados largaram Cantão no fim do século XIX e, quiçá via Macau, acabaram em Lourenço Marques. Kok viu a LM colonial crescer e metamorfosear-se em Maputo, a colónia a transformar-se em país, de que ele, um pouco como Korda, fotografou, mas de que até ao momento quase nada se viu. É altura, todos concluímos. Mas falta conspirar. Entretanto, com o Fernando Lima, patrocina o Savana, que a meu ver é de longe o melhor e o mais sério semanário moçambicano.

Do outro lado da mesa, Luis Carlos Patraquim, que só conhecia de nome e das letras, até que a Dulce Gouveia me segredou há algumas semanas que a mulher dele é a Paula Pussolo, a grande jogadora de básquetebol do Desportivo e uma das estrelas da excelência do meu clube de infância. “A primeira grande jogadora de basquetebol em Moçambique a encestar com uma só mão”, assegurou Kok Nam.

Havia mais gente connosco, como o Fernando Florêncio, antropólogo amigo do JPT (ele dá-se com uma perigosa e suspeita quantidade de antropólogos) e o Nuno Kok Nam, o filho de Kok Nam, que apareceu mais tarde.

Desta vez fui eu o fotógrafo. E aqui ficam umas fotografias.

IMGP4771 BW

(JPT pontifica enquanto Patraquim e Fernando escutam e Kok suspira)

IMGP4775 crop bw(Pose tipo Os Vencidos da Vida para o barman do British Bar)

IMGP4779 MNP KOK E PAT AT KORDA(Kok Nam e Patraquim revisitam Korda)

IMGP4792 crop(K,K&K – Kok Nam Korda e Kodak)

Last but not least:

2009.12.18 Kok e Nuno Nam no British Bar Cais do Sodré BW

(Kok Nam e Nuno Kok Nam – duas gerações)

15/10/2009

João Paulo Borges Coelho: Uma Entrevista

taca

por ABM

A propósito da atribuição do Prémio Leya ao académico e Autor moçabicano João Paulo Borges Coelho, para quem dos exmos visitantes Maschambianos não o conhece, em seguida transcrevo, com a devida vénia, uma entrevista que JPBC concedeu ao Notícias de Maputo e que foi publicada em 15 de Agosto de 2006. Não captei o nome do entrevistador.

Repare o exmo leitor que, sendo JPBC branco e filho de português, o entrevistador não conseguiu resistir a fazer três perguntas a inquirir sobre as suas afinidades e sua “moçambicanidade”. Uma praga perfeitamente aceitável no Moçambique actual.

Então, eis o texto da entrevista:

João Paulo Borges Coelho é historiador. Dedica-se à pesquisa e ao ensino, na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), da história contemporânea de Moçambique. É também um escritor que se está a afirmar. Lançou o seu primeiro livro (“As Duas Sombras do Rio”) em 2003 e, no primeiro semestre deste ano, o quinto, intitulado “Crónicas da Rua 513.2”. Pelo meio publicou também “As Visitas do Dr. Valdez”, com que ganhou a edição 2005 do prémio literário José Craveirinha, organizado pela AEMO em parceria com a HCB. A sua escrita literária é um casamento que faz da bagagem científica que carrega com uma ficção sempre relacionada com realidades presentes ou passadas do nosso país. O tema do novo livro é o Moçambique do socialismo, que diz ter sido um tempo “de experiências para lembrar”. Sobre si, sobre este e outros temas que marcam a nossa realidade e não só entrevistámos este proeminente cientista social e valor adquirido na literatura moçambicana, de que passamos a seguir os principais trechos:

N – As suas raízes são portuguesas, apesar de praticamente ter feito a vida em Moçambique. Nasceu no Porto, filho de português. Ocorre-me perguntar, por estes dados, se é moçambicano ou português?

– Sou moçambicano, apesar de ter nascido cá. Nasci no Porto, em 1955, mas as minhas origens maternas são daqui. A minha mãe nasceu no Ibo, a minha avó nasceu no Ibo e a minha bisavó nasceu no Ibo. Ainda há pouco tempo estive lá a ver os túmulos e um deles está referenciado a 1917, duma tia-bisavó. Quer dizer, metade de mim é moçambicana e a outra metade, por via paterna, portuguesa. O mais importante é que eu optei por ser moçambicano.

N – Quais são as suas afinidades com Tete, mais concretamente com o Zumbo, que aparecem em muitos dos seus escritos, tanto de ciência como de ficção?

– Com Tete eu tenho afinidades desde criança, que onde pela primeira vez tive a noção do mundo, com um ou dois anos de idade, foi em Moatize, onde o meu pai trabalhou nas minas de carvão. Em Moatize nasceram dois irmãos meus, portanto foi isso. Com o Zumbo é uma afinidade relativa, apesar de ser especial, porque é um sítio que eu visitei muitas vezes em trabalho. É um sítio que é muito difícil de chegar, está mais para lá, na confluência do Zimbabwe e da Zâmbia, numa espécie de fim do mundo pelas condições em que vive. Então eu decidi fazer um pouco de barulho a volta do Zumbo tal como se podia fazer por muitos outros lugares deste país nas mesmas condições.

N – Apesar de se dizer moçambicano e, ao mesmo tempo, que geneticamente é metade moçambicano e metade português, tem algum afecto especial digamos por Portugal?

– Tenho afinidades, sim. Primeiro porque é a minha terra natal, é terra do meu pai. Mas essas coisas não nos impedem de sermos quem somos. Tenho as minhas afinidades e tomei a minha liberdade de escolher o que sou sem que isso signifique me ter zangado com o pai, nesse sentido. São afinidades, emocionais, culturais que eu acho que para sermos uma coisa não nos devemos necessariamente excluir das outras. Eu acho que todas as experiências e todas as emoções são um capital individual que nós temos e determinam o olhar que nós temos sobre o mundo.

N – Nesse aspecto, no olhar que tem sobre o mundo, e voltando um bocadinho atrás ao que acaba de dizer, que nos obrigam a ser ou uma coisa ou outra, discorda da dupla nacionalidade, que a nossa Constituição rejeita textualmente?

– Sobre isso falo não no sentido legal do país, mas no emocional ou de sentimento. Imaginemos por exemplo um indivíduo de Mocímboa da Praia que tem família na Tanzania com quem comunica numa dessas línguas comuns de um e do outro lado. Para mim a identidade não é uma coisa estática nem feita de acordo com pressupostos teóricos que na prática nem sempre se verificam. Eu acho que ela se processa a vários níveis e à partida temos, num sentido mais amplo, a identidade de seres humanos. Depois vamos descendo a outros níveis até chegarmos a uma identidade especial que é a identidade nacional, que é muito importante porque as relações do mundo ainda se pautam pelas nações, que se regem pelo respeito e reconhecimento a um espaço territorial, a obediência a um estado; há muitas identidades que convivem todas no mesmo espaço e em espaços variados. E até há a identidade individual! Penso que nós devemos viver com os todos os elementos identitários que nos circundam não apenas no nosso meio mais próximo mas também num plano mais amplo. A identidade não é uma caixa fechada nem os seus elementos são estáticos; é uma coisa dinâmica e viva.
“A História é uma ferramenta importante para muitas outras coisas”

N – É historiador, formado primeiro na UEM e depois a outros níveis em universidades estrangeiras. Para além da docência dedica-se à pesquisa. Qual foi o princípio da sua história? Donde é que tudo começou, até decidir que tinha que fazer da História a sua profissão?

– Bom, eu na altura da independência estudava no primeiro ano do curso de história no que é agora a Universidade Eduardo Mondlane; Mas nessa altura mesmo o meu pai enviou-me para estudar para Lisboa, mas a verdade é que não me adaptei e quis voltar para cá…

N – … o que é que foi estudar lá?

– Ia estudar psicologia, sociologia e história também, mas a verdade é que no fundo não estudei nada. Andei a “comer” o dinheiro dele sem cumprir esse propósito. Na altura da transição voltei, comecei a dar aulas de história na Francisco Manyanga no curso nocturno e frequentava o curso de história no Departamento de História da UEM, até concluir o bacharelato em ’78, depois houve aquelas interrupções que levaram ao encerramento de alguns cursos; mas vim a concluir a licenciatura em 80 e tal; depois disso comecei a fazer a minha pós-graduação e o meu doutoramento na Inglaterra, indo e vindo a Moçambique. Concluí em ’93 e desde aí estou ligado à investigação e ensino na UEM.

N – Porquê escolheu a história e não uma engenharia ou medicina, por exemplo?

– Medicina não, nunca me apaixonou. Penso que escolhi esta área porque a história está ligada a mim. Tanto estudei ela como podia ter estudado ciências políticas ou sociologia ou até filosofia, que são áreas para que tenho mais propensão. Ainda bem que estudei história, porque ela é uma ferramenta importante para muitas outras coisas.

N – Escolheu para área de especialização a história contemporânea de Moçambique, em que estuda principalmente o processo de libertação do colonialismo e a última guerra que tivemos. Que fascínio viu neste período tão conturbado, no meio de tanto que também precisa de ser pesquisado?

– Escolhi a história contemporânea porque penso que a sua estrutura ainda hoje influencia a nossa vida. Considero contemporânea a história que vai desde o Estado Novo (anos 1930), que contém estruturas que até hoje de alguma maneira nos influenciam, na economia e em muito mais. Depois, eu fiz uma licenciatura ligada à luta nacionalista, à luta de libertação e de alguma maneira me apaixonei pela luta dos conflitos que nós sofremos. E considero que os sofremos muitos em Moçambique. O facto de estudar guerras não significa gostar delas; para já eu não gosto nada de guerras. Estudo esses conflitos e agora tenho um interesse especial pela integração regional. Depois de vários períodos de grandes divisões está a surgir agora, neste contexto, uma maior cooperação e eu acredito que essa cooperação é uma das chaves que pode aliviar os nossos países digamos de uma situação de maior vulnerabilidade.
“Foram dados passos importantes para a integração regional, mas ela ainda é muito discurso”

N – Entrou num ponto que nos interessa a todos, moçambicanos e outros cidadãos da África Austral, que é a integração regional. Há um processo que está a decorrer, pequenas coisas já começam a ser vistas, como a abertura de fronteiras para a livre circulação de pessoas, mas por enquanto a nível bilateral. Nos próximos tempos muitas outras reformas serão postas em prática com o objectivo de pôr em prática a integração regional. Pelos passos que a SADC está a dar, acha que na actual fase, em que os países ainda são dentro de si muitos países, e mais ainda, no contexto dos particularismos existentes neste bloco, estes passos não são demasiado gigantescos para alguns interesses que se quer se materializem dentro de muito poucos anos?

– Eu ainda acho que para a integração regional há passos importantes que foram dados mas ainda é muito discurso. Está certo que nós devemos ser optimistas, mas não podemos ser demasiado optimistas e pelo contrário mais realistas. Porque de alguma maneira o combustível desta integração é a África do Sul, que aparece como o grande irmão e nós os restantes somos pequenos. Para algumas pessoas a integração é a resolução de todos os problemas. Não podemos ser tão ingénuos! A integração é importante mas não substitui a necessidade que nós temos de uma batalha inacabada que é a integração nacional. Temos que construir a nação talvez não no sentido a que nos referíamos no passado mas naquilo que ela é na realidade. Uma nação tem elementos de unidade, isso é importante, mas não se deve subestimar os seus elementos de diversidade, que também têm a sua importância. É como uma floresta, por exemplo a amazónica, ela é una mas ao mesmo tempo diversificada, o que a faz ter mais valor por exemplo que um eucaliptal, onde os eucaliptos são todos iguais. Do ponto de vista regional temos que estar mais seguros, economicamente, culturalmente, politicamente, etc., para podermos dar passos mais seguros no sentido que queremos dar à nossa integração. Temos ainda muito caminho a andar e nalgum sentido fala-se mais do que se faz. Penso que temos que caminhar devagar mas a fazer um esforço para que o discurso e os actos vão em harmonia.

N – Fala-se mais do que se faz, na sua percepção. O que é que se devia fazer que não está a ser feito?

– Bem, eu não diria o que não se devia fazer. Ainda há muitos aspectos que estão na infância do ponto de vista da integração regional. Do ponto de vista da democracia formal, o parlamento regional ainda é mais uma ideia do que uma realidade. Este parlamento tem que ser bem pensado para garantir a sua funcionalidade e viabilidade; do ponto de vista da economia ainda ha uma demasiada e gritante dependência dos outros países em relação à África do Sul. Lembro-me que era um dos objectivos do bloco regional numa das suas fases passadas reduzir esses índices de dependência e o que se viu na verdade é acentuar essa dependência. E mesmo do ponto de vista de segurança ainda há muito por ser feito. Agora já há um órgão de defesa e segurança, mas não basta olhar para uma situação do Congo para nós ficarmos preocupados com uma situação qualquer durante um processo eleitoral; é uma coisa muito grande e um bocado assustadora. Portanto em muitos casos ainda é preciso muito para podermos criar uma cultura de região e uma identidade regional.

N – No campo da literatura o que escreve é um casamento entre o que tem de bagagem científica, neste caso a História, e a capacidade de criar. Está a publicar livros literários há poucos anos e vai agora na quinta obra, “Crónicas da Rua 513.2”. É uma aposta que fez para abraçar a carreira de escritor?

– Eu desde sempre escrevi, pequenas coisas. Não escrevi obras acabadas exactamente por culpa minha. Eu não sabia no princípio com que identidade haveria de escrever. Identidade no sentido de homem novo, que é uma visão que dominou os jovens da minha época. Este sentido de homem novo retirava-nos a identidade a todos para nos apresentarmos numa identidade específica e ideal que nós deveríamos almejar. Eu não sei se de facto era ideal. Por culpa minha eu nunca soube muito bem a partir de onde iria escrever. Talvez devesse partir de um ponto simples que era escrever a partir de mim próprio e não de ninguém, como faço agora. Quando escrevi o primeiro livro fi-lo na sequência exactamente de uma experiência de trabalho, no Zumbo. Como eram tantas as histórias que me contavam, eu à noite tomava apontamentos de algumas coisas e subitamente comecei a escrever contos dispersos e subitamente comecei a ligar os episódios e acabou num romance. A partir daí ganhei a prática, não espero nenhuma inspiração para escrever e vou escrevendo e publicando os meus livros literários.
“É impressionante como muita gente não tem ideia dos anos ’80. Até alunos na faculdade!”

N – Tem estado a escrever muita literatura nos últimos anos, mais do que o faz na História…

– Sim! Talvez seja uma forma de compensar. Porque o trabalho académico é um trabalho mais sistemático e exigente, embora a literatura também seja exigente, mas num sentido diferente. Os dois mundos, para mim, complementam-se.

N – Pelo ritmo que está a imprimir na publicação literária, está a assumir-se como escritor?

– De alguma forma sim, apesar de escrever e publicar literatura não ser uma coisa planeada. O primeiro livro saiu quando o editor da Caminho, Zeferino Coelho, viu o original e disse-me que publicava; não é uma coisa que eu tenha planeado. Disse-me que se tivesse mais que o entregasse e assim fui escrevendo e entregando. Foi uma coisa natural, diga-se. O meu assumir-me como escritor é no sentido de que escrevo e publico e não necessariamente no estatuto que nós às vezes pensamos que se tem. Nesse sentido não assumo esse estatuto pois eu até gosto de estar na clandestinidade. Sou escritor mas ao mesmo tempo não sou, pelo que acabo de dizer. Na verdade assumo-me como pessoa que escreve.

N – O seu último livro tem uma história interessante, que é o Moçambique dos anos 1980. “Rua 513.2” é a sua rua ou uma em que morou nessa época; é este romance o recordar de vivências por que passou?

– Não é a minha rua nem é a minha biografia. Parti de um imaginário e fui recriando a ideia em função da memória daquilo que nós tivemos nos anos ’80. É uma recordação ao nosso tempo socialista. É impressionante como muita gente não tem ideia de como as coisas se passaram nessa época. Até alunos na faculdade não têm a ideia concreta do que foram esses tempos. Nós temos um problema de memória, esquecemos muito. E é importante lembrar as coisas boas e as coisas ruins. Na minha opinião esse período trouxe muitas coisas de sinal contraditório. Trouxe muita escassez, mas havia menos injustiça social do que há hoje.

N – De alguma forma isso está reflectido no livro. Que descrição daria desses seus nostálgicos anos 1980?

– Quer dizer, era difícil ter comida mas quando a havia sabíamos dividir entre nós. Quem tinha a mais sem ser coagido digamos sabia dividir com o vizinho que não tinha. Não havia tanto roubo, o secretário do GD (Grupo Dinamizador, que era a estrutura de base do poder) era uma pessoa solidária, mas ao mesmo tempo chato, que nos vinha “chatear” em prol de uma boa apresentação da nossa rua e do nosso bairro e às vezes fazia o seu trabalho não tanto com esta motivação mas com motivações pessoais. Havia nesse tempo mais comunicação entre as pessoas. Escrevi este romance muito a base de memórias e são estas mais ou menos as memórias que eu tenho. E não foi num sentido nostálgico que o escrevi, até porque eu não perdi nada e não ganhei nada nesse tempo, simplesmente como todos os moçambicanos passei uma experiência muito importante de lembrar.

“O cidadão comum tem muito mais energias do que as Lurdes Mutolas do processo político”

N – Não se ganhou nada com o nosso socialismo?

– Houve muitas coisas que nós ganhámos, até do ponto de vista daquilo que falávamos há bocado, em termos de identidade nacional. Penso que essa é uma época de referência na construção da nossa identidade. Não falo de ganhar ou perder num sentido de julgamento. Não! É mais num sentido do exercício de lembrar, em que penso ser importante lembrar aquele espírito épico do socialismo. Estou a lembrar essa época sob o ponto de vista do cidadão comum e não necessariamente das vanguardas políticas ou outras. O cidadão comum tem muito mais energias do que as Lurdes Mutolas do processo político.

N – Acompanhou Moçambique de todos os períodos. Que comparação faz entre o Moçambique de “Crónicas da Rua 513.2” e o actual, que em termos economicistas é o da economia de mercado?

– Eu não sei nem devo julgar. Tu bem sabes disso, o historiador não julga e o escritor interpreta emocionalmente. Não sou juiz e teria dificuldade em vestir a sua pele. Em todo o caso, ha muitas coisas que ganhámos e há outras que perdemos. Entre as coisas que perdemos há coisas que incomodam. Há muita ostentação em paredes meias com uma miséria acentuada. Isso incomoda-me muito, tal como me incomodam a marginalização e a exclusão tanto na cidade como no campo. Com todas as dificuldades que temos, por exemplo, não há justificação para ao fim de 30 anos não termos ainda uma ponte sobre o Zambeze. Para mim toda aquela região, riquíssima, dependente do batelão, é revoltante. Por outro lado, ganhámos muitas coisas, de que nos devemos orgulhar muito delas: a abertura que vamos tendo de dentro para dentro, como as liberdades que antes eram limitadas e agora são amplas, são um ganho que devemos considerar. Pelo ritmo a que vamos andando temos estado a ganhar muito mais e isso é bastante positivo sob o ponto de vista de democracia formal.

Pensamentos do vencedor do Prémio Leya de há três anos.

Create a free website or blog at WordPress.com.