THE DELAGOA BAY REVIEW

18/12/2011

REINALDO FERREIRA EM LOURENÇO MARQUES: UMA NOTA DE MADALENA MENDONÇA SANTOS

Filed under: Literatura Moçambique, Reinaldo Ferreira — ABM @ 1:07 pm

A baixa de Lourenço Marques em 1970, o Café Scala à esquerda, o Continental à direita. Foto do magnífico sítio Xirico. Para ver no tamanho máximo, prima na imagem duas vezes.

(Nota escrita por Madelena para a Nova Gazeta do Montijo, reproduzida em Alfarrabia da Universidade do Minho)

 

Aquele senhor que desde a infância me conhece
Com que direito se enternece
Quando me vê?

In Poemas, de Reinaldo Ferreira

Estes pedaços de prosa têm aparecido várias vezes rodeados de poesia. Assalta-me a memória uma das muitas definições que eu e os outros da minha geração tivemos que decorar na escola: uma ilha é um pedaço de terra, rodeado de água por todos os lados. E, agora modéstias de parte, parece que a página fica mais bonita: um pedaço de prosa, rodeado de poesia por todos os lados!

As ilhas são entidades quase míticas, cenário possível de muitas lendas e aventuras, prova máxima da resistência humana…. “Que faria sozinho numa ilha deserta?” ou “Quem levaria consigo para uma ilha deserta?” Ou ainda “Que objectos…” são perguntas irresistíveis, a que se seguem respostas convenientemente mentirosas, por parte dos alvos da curiosidade pública. Contudo, parece que a fantasia das ilhas está perigosamente ameaçada pelos espaços do Espaço, da Lua, Marte, outros planetas…

Mas as ilhas, tal como a prosa, são terra firme, ou quase firme. Na água que as rodeia, no mar, aí sim, se escondem os tesouros. Escondem-se dos olhos e da ambição dos homens. Em terra firme, aguentamos uma vida inteira. No mar, mergulhamos e voltamos à superfície. Não é suportável, por muito tempo. Também pela intensidade das sensações. E a poesia faz-se de sensações intensas, imensas e únicas.

Por isso, recordo, quase nos primórdios das minhas lembranças, o primeiro mergulho na poesia.

Nesse tempo, onde eu vivia, não havia televisão. Mas havia telefonia, claro! E gira-discos. Era um móvel, que ocupava o seu espaço…Não cabia num cantinho qualquer e convinha estar bem visível, pois destinava-se a tocar discos e a enfeitar. Os discos eram de vinil. Tudo isto soa a muito tempo….Agora há aparelhagens e CD. Mas nós, os mais antigos, ainda guardamos os discos de vinil. É o lado museu das nossas casas, que os nossos filhos, hoje, talvez não entendam. Mas um dia vão entender, quando substituírem o CD por um ínfimo chip…

Naquele tempo cantava-se, como hoje ainda se canta, os poetas maiores. Mas também se dizia ou recitava esses poetas maiores. Assim se divulgava a poesia, os poetas, os versos que ainda sabemos de cor, tal como sabemos que uma ilha é um pedaço de terra rodeada de água por todos os lados…

João Villaret era dono de uma voz mágica, que dizia português bem dito, fosse ele de Portugal ou do Brasil ( Essa Nega Fulô), com a mesma perfeição inspirada. Dizia o ciúme do Fado Falado e a revolta do Cântico Negro, a simplicidade da Procissão…Tudo, no respeito profundo à palavra dita. Púnhamos o disco, acertávamos as rotações, setenta e oito, quarenta e cinco ou trinta e três e ali ficávamos a ouvir o “diseur” transfigurando a voz, conforme o poema ou o poeta.

Não há amor como o primeiro, dizem. Talvez nem sempre seja verdade…mas neste caso é. E foi talvez por ter encontrado, tão cedo, um poeta como Reinaldo Ferreira e uma voz como a de Villaret, que desenvolvi o gosto por alguma poesia, por esta precisamente, em que o aspecto formal se dilui, em que conta o ritmo, a musicalidade e a alma do poeta, ali à mão de quem lê (ou ouve).

Não ponho esperança em mais nada
E se puser
Há-de ser ambição tão desmedida
Que não me caiba sequer
No que me resta de vida.
Ambição tão irreal
Tão paranóica, tamanha
Como a grandeza de Espanha,
Com Granada e o Escurial.

Estes são versos lindos e quase desconhecidos. Os últimos versos deste poema repousam com o poeta:

À terra dá-se o melhor
A terra não nos dá nada.

Aliás, quando se fala de Reinaldo Ferreira, constato que o seu nome não é muito conhecido. Mas se falarmos da Menina dos Olhos Tristes do Zeca Afonso e do Adriano Correia de Oliveira?

Menina dos olhos tristes
O que tanto a faz chorar?
– O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Conhecemos? Sabemos que Luís Cília também a musicou e cantou? Quem sabe que Reinaldo Ferreira também emprestou o seu talento à Casa Portuguesa de Amália Rodrigues? Eu sei, porque o meu pai mo disse há muitos, muitos anos. Teve o privilégio de conhecer e conviver com o poeta, e passou-me o testemunho da sua admiração.

O meu pai, esse “senhor que desde a infância me conhece”. E “com que direito se enternece/ quando me vê” Foi em conversa com o meu pai que levei a cabo a habitual pesquisa, para elaborar uma pequena nota biográfica do autor. Há poucos dias. Pedi-lhe que me dissesse tudo o que sabia. Falou-me do grupo de amigos, em Lourenço Marques, das tertúlias dos Café Scala, Continental, da letra da Casa Portuguesa, escrita num guardanapo de papel, no Girassol, da letra de um fado que trouxe da Metrópole (dessa Alfama que me chama/ trago a chama que se chama/ sentimento e emoção) da doença, cancro do pulmão, que aos trinta e sete anos o levou, e da obra que no ano seguinte foi publicada.

Referiu Eugénio Lisboa e o Dr Fernando Ferreira, amigos que trataram de “dar” o poeta ao mundo. Falou, inevitavelmente, no pai, outro Reinaldo Ferreira, o Repórter X. E disse versos. “Mínimo sou/ Mas quando ao Nada empresto a minha elementar realidade/ O Nada é só o resto”

Só faltam as datas: nascimento em Barcelona, a 20 de Março de 1922 e morte a 30 de Junho de 1959, em Lourenço Marques.

Sr Director, rodeie este escrito de poesia!

Leitura sugerida: Poemas de Reinaldo Ferreira

Porque “navegar é preciso”, aqui fica o seguinte “aviso à navegação”… A obra deste autor pode ser lida, na íntegra, na Internet, através do endereço:

http://alfarrabio.di.uminho.pt/reinaldo/

Aí poderá encontrar e conhecer melhor o poeta, através de outros amigos e admiradores, que se dedicaram à construção deste “espaço” e a quem já dirigi as minhas sinceras felicitações.

MMS

(fim)

09/10/2010

REINALDO FERREIRA: POEMAS, MÚSICA E A RUA BAGAMOYO

Reinaldo Ferreira

Quando ontem acabava um texto sobre a Rua Bagamoyo (anteriormente, Araújo), a D. Suzette cantarolou uma canção que atribui ao poeta Reinaldo Ferreira. Só sabia esta parte do poema:

Rua Araújo que
o tempo entardeceu
de ti não fujo, porque
sofres como eu
Saudade eterna dos
Tempos que já lá vão
(….?)

Se alguém souber do resto, agradeço mandar para aqui.

Reinaldo Edgar Azevedo e Silva Ferreira, cuja obra tem uma ligação a com Moçambique, foi para Lourenço Marques em 1941, onde chegou a chefe de posto e fez obra no então Rádio Clube de Moçambique. Hoje está sepultado no cemitério central de Maputo, cidade onde morreu em 30 de Junho de 1959. Tinha apenas 37 anos de idade. Na sua campa estará inscrito um texto de sua autoria:

Mínimo sou.
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade,
O Nada é só o resto.

Numa crónica no jornal português A Capital, publicada em 24 de Junho de 2005 e citada em Sorumbático, Carlos Pinto Coelho escreveu “…..todos sabíamos de cor algum poema dele e dava-me sempre para imaginar o Reinaldo, boémio intranquilo e solitário, rabiscando aqueles versos a uma mesa do Pinguim, que era um dos cabarets de putas e marinheiros da Rua Araújo, junto ao porto. Aquela Rosie só existiu, talvez, na mente daquele homem genuinamente angustiado, para quem a vida era só interrogação, solidariedade, elegância e pouco mais.”

Quando não estava a trabalhar no Rádio Clube, entre doses de Johnnie Walker e pastéis de bacalhau, Reinaldo oscilava habitualmente entre o Café Scala e o Bar Pinguim na Rua Araújo.

Em baixo o poema Eu Rosie, supostamente (supostamente pois parece que não encontrei confirmação) referente a uma Taxi Girl da Rua Araújo, real ou imaginada, que aliás já foi aqui referido pelo nosso Senador há cerca de um ano, mas sem os detalhes “araujianos” que lhes estão associados:

Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
De um par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh…
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une – é estar ausentes.

Mas, só para chatear, o Reinaldo escreveu um dos grandes hinos da portugalidade, imortalizada na cidade das acácias pelo Maestro Artur Fonseca e VM Sequeira:

Numa casa portuguesa fica bem
pão e vinho sobre a mesa.
Quando à porta humildemente bate alguém,
senta-se à mesa co’a gente.
Fica bem essa fraqueza, fica bem,
que o povo nunca a desmente.
A alegria da pobreza
está nesta grande riqueza
de dar, e ficar contente.

Quatro paredes caiadas,
um cheirinho á alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
sob um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera…
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

No conforto pobrezinho do meu lar,
há fartura de carinho.
A cortina da janela e o luar,
mais o sol que gosta dela…
Basta pouco, poucochinho p’ra alegrar
uma existéncia singela…
É só amor, pão e vinho
e um caldo verde, verdinho
a fumegar na tijela.

Quatro paredes caiadas,
um cheirinho á alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
sob um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera…
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

Enfim, este poema de moçambicano tem pouco, mas tem piada saber pois quase qualquer português a sabe cantar.

Mas Kanimambo, que também é dele, já tem qualquer coisa de africano, naquela versão retro-luso-treto-africana, como os portugas que tentam dançar a marrabenta.

Eu por acaso gosto de duas versões da canção, a original, sublime, cantada por João Maria Tudela, e outra, mais kitsch, cantada pelos demolidores Catita Brothers. Como é fim de semana, ficam aqui as duas.

A versão original de Kanimambo:

A versão de Kanimambo pelos fantásticos Catita Brothers:

Finalmente, ligando o som do computador do Exmo. Leitor e premindo aqui, uma excelente leitura de cinco poemas do enigmático poeta.

Create a free website or blog at WordPress.com.