THE DELAGOA BAY REVIEW

02/05/2013

O QUE O HENRIQUE RAPOSO DIZ SOBRE O QUE O FRANCISCO VIEGAS DISSE DE LOURENÇO MARQUES

Capa de um folheto publicitário de Lourenço Marques, anos 30, adaptado.

Capa de um folheto publicitário de Lourenço Marques, anos 30, adaptado.

 

Com vénia para o semanário Expresso, Lisboa.

O Purgatório dos Retornados

por Henrique Raposo, em crónica A Tempo e a Desmodo

Francisco, já não sei se o teu romance enformou a minha visão sobre os retornados ou se encaixou na visão que eu já tinha sobre esta trágica tribo perdida, mas o certo é que Lourenço Marques acerta no alvo . E explico já porquê.

Quase 30 anos depois, Miguel regressa a Moçambique para tentar encontrar Sara, a sua primeira paixão, o seu princípio do mundo revelado no fundo de uma piscina moçambicana no início dos anos 70. Esta misteriosa Sara voltou a Moçambique para logo desaparecer naquela imensidão. Enquanto procura Sara entre estradas e lagos intermináveis, Miguel flutua nas memórias da meninice africana e da dura devolução à metrópole (são mais devolvidos do que retornados, não é verdade?). Nestas flutuações, meu querido Francisco, fica evidente o pior dos tabus – o confronto entre o soldado português e o colono português – e a pergunta assombrada pela tragédia: criados nos espaços abertos de África, como é que milhares de pessoas se habituaram a viver em paralelepípedos de doze andares ou em vilas beirãs? A viagem é, portanto, um pretexto para Miguel confrontar estes fantasmas. Aliás, ele próprio é um fantasma. Eis o que escrevi no espaço em branco da última página: “livro de fantasmas, personagens que parecem flutuar acima do presente, só habitam as memórias do passado”. Acrescentei ainda: “será que Sara existe mesmo? Não será ela um fantasma?”. E este lado fantasmagórico é reforçado pela tua técnica favorita: a arrancada à Futre em monólogo (repara no rigor literário e quiça científico da expressão). A grande arte do diálogo é, na verdade, a grande arte do monólogo. Os teus monólogos, catedrais de pormenores e emoções, dão o ritmo certo à memória melancólica de Domingos (o polícia moçambicano), do último médico branco de Lichinga e, claro, de Miguel, esse fantasma preso no purgatório dos retornados. Sim, um purgatório.

Através desta tapeçaria de monólogos, tu consegues retratar o retornado como uma figura a pairar num limbo entre dois mundos, ou melhor, entre dois Portugais. O primeiro era aquele que existia em África, uma república moçambicana que era Portugal mas em bom, um Portugal que era o Brasil novamente, um Portugal com gente solta, alegre, cosmopolita, com cor na roupa, sem o cinzento-castanho-preto cá de cima, uma pátria sem relação com o Portugal daqui, o Portugal da metrópole, o segundo mundo desta história. Este Portugal europeu era tão distante como aquela tia-avó que toleramos no dia de natal desde que ela se sente a um canto com os canídeos e gatídeos, mas, entre 74 e 75, o retornado ficou sem acesso à sua pátria, teve mesmo de embarcar para o colo da tia-avó, foi forçado a viver um futuro que não era o seu. E que ainda não é seu. Sim, aceitou viver aqui, mas o seu coração permanece africano, a sua lealdade está com aquele futuro que não pôde viver. Como foi possível a adaptação?, perguntava eu há pouco. Não foi possível. A conversa da “boa integração dos retornados” esconde uma tragédia silenciada: para o retornado, a metrópole foi um beco claustrofóbico que lembrava, e ainda lembra, um futuro que ficou por viver, um país que ficou por ficou por fazer . Ele está há 40 anos no purgatório. O céu ou o inferno só chegariam se tivesse ficado em África.

Para terminar, convém registar a universalidade do tema. A tragédia do retornado é a história clássica do fim de um mundo, do desaparecimento de um modo de vida, de um modo de ver e sentir o mundo. Um leitor estrangeiro sem qualquer conhecimento da história portuguesa pode relacionar Lourenço Marques com o drama dos sulistas em 1865, por exemplo. Aliás, Miguel e a figura do retornado em geral têm aquele encanto crepuscular de Ethan, a personagem de A Desaparecida. No fundo, meu querido amigo, o teu romance pega no fantasma universal da pátria perdida e mostra as cinzas de uma Cartago que foi nossa, que é nossa. Se não te importas, os romanos ficam para outra conversa.

(Da série “Cartas a amigos”)

(fim)

O Nuno agradeceu.

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30/11/2010

FERNANDO PESSOA

Filed under: Fernando Pessoa — ABM @ 6:24 pm

por ABM (30 de Novembro de 2010)

Morreu há 75 anos, hoje.

27/06/2010

HOMENAGEM AOS AÇORES

por ABM (Domingo, 27 de Junho de 2010)

Apesar da minha vertente africana, pai e mãe (e linhagem até aos colonos originais das ilhas no séc. XV e XVI) nasceram e cresceram na ilha açoriana de São Miguel, sobre a qual as únicas coisas que eu sabia até aos doze anos, para além duma hilariante visita do meu avô paterno MIM a Moçambique em 1968, eram um cartaz promocional da ilha igual à fotografia acima exibida e que estava na cozinha dos BM, e o misterioso sotaque dos meus pais, que os acompanhou até ao dia em que morreram – e que é particular à Ilha de São Miguel, e tão diferente do sotaque falado na cidade de Lourenço Marques.

Em Moçambique, o sotaque do pai BM era legendário e a sua proveniência gentilmente parodiada. Lembro-me de, antes da independência, a revista Tempo, na sua versão light antes de 1975, ter feito, no fim das suas edições, uma espécie de “dicionário” de termos. com a respectiva explicação, que usavam para fazer algum comentário local. Para a entrada “açoriano”, a tradução era “Botelho de Melo”.

As duas melhores amigas da mãe BM em mais que vinte anos de África, eram duas açoreanas, Conceição e Maiana, com quem manteve contacto até falecer em 2005 nos Estados Unidos.

Quando vivi década e meia na costa Leste dos Estados Unidos, tive então o raro privilégio de conviver com tanta gente de lá, no que é considerada ainda a “décima Ilha”. E que incluíram alguns mais conhecidos: a Natália, o Onésimo, o Martins Garcia, o Cristóvão de Aguiar, o Adelino Ferreira (director do Portuguese Times, onde escrevi durante mais que duas décadas, para ver se não me esquecia de como se falava e escrevia em língua portuguesa) etc.

E com este sotaque, ao mesmo tempo tão familiar e tão peculiar dos micaelenses, um vulto tão familiar em casa.

Definitivamente, uma forma tão diferente e tão peculiar de se ser português.

E em particular com o sentido de humor, sentido aestético e a maneira de estar dos açorianos, que não tem igual em quase parte nenhuma. Eu acho que o próprio Fernando Pessoa, cuja mãe era uma açoriana da Ilha Terceira, subestimava esse efeito, preferindo elaborar referências místicas sobre a sua proveniência beirã e judia, notoriamente mais diluída. Mas não conheço muito que tenha sido escrito sobre a sua mãe, que viveu até 1925 (morreu na Amadora) e que era de Angra do Heroísmo, cidade onde Pessoa esteve em Maio de 1902 para visitar a família materna. Escreve-se tanto sobre o homem mas a mãe a relação com a mãe, e a terra da mãe, quase népia. O primeiro poema conhecido de Fernando Pessoa? dedicado à sua mãe, que o guardou para a posteridade:

À MINHA QUERIDA MÃE

Eis me aqui em Portugal
Nas terras onde eu nasci.
Por muito que goste delas,
Ainda gosto mais de ti.

(26-7-1895)

Mãe açoriana é outra loiça.

Para quem não conhece o sotaque e humor de São Miguel, que eu conheço relativamente bem, aqui fica um saborzinho num domingo de início de verão, com estas duas jóias. Na primeira, uma paródia à série “Doutor House”. Na segunda, um micaelense conta detalhes de uma visita à América.

Bom fim de semana.

E vivam os açorianos, incluindo o que fez estes filmes.

06/02/2010

Churchill e Quental na Parede numa Sexta-Feira

por ABM (Alcoentre, sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2010)

Foto tirada há momentos de duas imagens penduradas no centro de operações do Maschamba da Região Não Autónoma do Ribatejo.

Winston Churchill é para mim uma figura genial e tragicomédica, incontornável para o século XX e uma figura que viveu como poucos a sua era. A imagem de Churchill achei interessante porque o apanha (na Florida, princípios dos anos 60 no iate de um amigo ricaço americano) de chapéu à cowboy e a ler uma cópia da revista Time. Passou por Lourenço Marques aquando da guerra anglo-boer em 1900 e no fim da vida passava férias numa Ilha da Madeira avant AJJ.

A imagem de Quental trouxe-a de Ponta Delgada (comprada numa loja de velharias) uma vez que fui lá há alguns vinte anos, para um “encontro de escritores açorianos” – encontro em que eu era o único presente que para variar não era nem açoriano nem escritor. Mas como o meu avô MIM era um poeta e figura castiça local, e era bom rapaz e filho assumido de açorianos, fui aceite como membro incondicional da confraria com um vago estatuto de “observador”.

Para além das suas crises de neurastenia (agora diz-se “bipolar”) e de alguns exotismos e namoros socialistas (os de então) Antero de Quental foi alguém que, de quase lado nenhum, surgiu nas letras portuguesas nos anos 60 do século XIX e foi dos primeiros que, sem aprumos, diagnosticou de forma inequívoca aquilo que até hoje considero o discurso mais verdadeiro e perturbador sobre a cultura e civilização portuguesas – as herdadas. Isto numa altura em que, como posteriormente se veio a repetir, o sistema político do seu tempo apostava numa entente cordiale entre oponentes políticos que se revesavam na disposição do espólio nacional. Chamaram-lhe, na propaganda daqueles tempos, “regeneração”. Tirando o Fontes (e mesmo assim), aquilo foi mais uma pulhice feita em Lisboa.

Mas ao menos naquele tempo o António José da Vila (Marquês de Ávila) assinou a portaria de interdição publicamente e fechou as conferências, não é bem o mesmo que se faz agora, que é mandar um recado à Prisa por interposta pessoa, dizer à PT para comprar um grupo de comunicação e ainda subterraneamente despachar as vozes que incomodam.

Houve uma altura em que eu rotineiramente oferecia às pessoas com quem me dava, cópias do texto da sua conferência (do Casino) intitulada Causas da Decadência dos Povos da Península Ibérica. Que li pela primeira vez em 1980 nos EUA numa cadeira na Universidade Brown, dada pelo Onésimo Teotónio Almeida. Tinha a dupla vantagem de dizer o que havia a dizer em poucas páginas e de custar só cinco euros. Cento e cinquenta anos depois de escrito, como muito do que disseram a seguir os seus amigos Eça e o Oliveira Martins (e outros), mantém uma actualidade perturbadora. José Bruno Carreiro e a sua (de Antero) namorada (post mortem) Ana Maria Almeida Martins escreveram ampla e brilhantemente sobre ele.

Dessa viagem, tenho uma fotografia exorcizante de eu a acenar em cima do banco do jardim em Ponta Delgada onde em Setembro de 1891 o Antero deu (sem pontaria) o tiro que acabou por o matar.

Bem, isto tudo a propósito da interessante citação feita pelo JPT de um comentário do Ruy Cinnati sobre uma estátua que ele tinha em casa de São João Baptista com um tomahawk na mão.

05/02/2010

Portugal, por Eça, 1867

Filed under: Citações, Eça de Queiroz, Politica Portuguesa — ABM @ 5:15 am

por ABM (Alcoentre, 6 de Fevereiro de 2010)

Nestes dias, por alguma razão, citações como esta andam nas cabeças de muitos.

30/01/2010

J D Salinger e Catcher in The Rye

Filed under: J.D. Salinger — ABM @ 4:24 am



por ABM (Alcoentre, 30 de Janeiro de 2010)

Só quem conviveu algum tempo de perto com a cultura norte-americana é que melhor compreenderá o mistério e o lugar de Cathcer in the Rye, a obra publicada em 1951 pelo escritor J D Salinger, que morreu na quarta-feira passada com 91 anos de idade.

Sobre o próprio Salinger muito se escreveu, pois desde 1953 e até à sua morte esta semana viveu praticamente em reclusão. A sua última obra data de meados dos anos 60 do século passado.

Mas o culto e a atenção e o fascínio sempre se centraram em Catcher in the Rye, cuja popularidade surgiu desde que a obra foi publicada e até este dia.

Como parte do processo de tentar melhor entender a cultura americana, e para além de ler obras como Alexis de Tocqueville e Henry David Thoreau, naturalmente que li, no princípio dos anos 80, na cidade de Providence, a conhecida obra de Salinger, que então morava ali ao lado numa vila no lindo Estado de New Hampshire, que faz fronteira com a província canadiana do Québèc. A impressão com que fiquei foi que Salinger concebeu o que mais tarde se confirmou na cultura norte-americana, um arquetipo literário da alienação do teenager americano rebelde, imagem poucos anos imortalizada no cinema por James Dean. Sendo que foi nessa década que surgiu nos EUA a figura do teenager autónomo e “pensante” como fenómeno social. Até então, os adolescentes eram uma espécie de apêndice menor da estrutura familiar, sem grandes direitos nem voz. Imaginei então que, para os adolescentes daqueles anos, Catcher in the Rye fora uma revelação, uma bíblia, um guia.

Muito – tudo – mudou para os adolescentes desde então.

Mas o mistério de Catcher in the Rye e de J D permanecerão connosco, expressão literária de uma maturação na sociedade norte americana dos anos 50, quase totalmente incompreensível no resto do mundo de então e prenúncio do que estava para vir.

10/01/2010

THE BEST OF ISABELA FIGUEIREDO

o horizonte nos contempla

por ABM (Alcoentre, 9 de Janeiro de 2010)

Fernanda Câncio, a putativa (segundo certa imprensa) namorada do actual primeiro-ministro português, José Sócrates, e fogosa escriba num Diário de Notícias infelizmente cada vez menos de referência, escreveu um curioso texto – que saiu na sua edição de hoje – sobre uma sra chamada Isabela, que, depreendo da leitura, como muitos de nós saiu um pouco a pontapé do Moçambique pós- independente e revolucionário aos 12 anos de idade, e sobre um livrinho que ela escreveu e que acabou de ser publicado, que dá pelo nome algo enigmático de Caderno de Memórias Coloniais.

Que não li.

Mas li o comentário de Câncio, que sempre vale alguma coisa e que me deixou algo mistificado.

Vamos por partes.

Deixou-me algo mistificado porque a Fernanda que, como já vi outras pessoas dizer noutras ocasiões, deve perceber tanto da realidade colonial como eu de física nuclear, começa por colocar legiões de “retornados” num vasto manicómio virtual, todos mentirosos e todos vivendo numa ilusão colectivamente induzida com o fito de não enfrentar uma inconfessável série de “crimes contra a Humanidade”, que, lá vai o argumento, só pode ser o que (no meu caso) os nossos pais e avós andaram todos lá pelas Áfricas durante séculos a cometer contra os nativos. Voluntária e até empenhadamente e, no caso do pai da Isabela, com requintes de malvadez.

Isso a acrescentar àquela outra Grande Ilusão Colectiva dos brancos e portugueses da África portuguesa (nunca os de cá, coitados) claro, a de que aquilo era “nosso”. Que se sabia perfeitamente que não era, especialmente a posteriori.

Bem, todos – especifique-se – menos a sua amiga Isabela.

No seu caso, Fernanda diz que a Isabela baseou os Cadernos nos seus escritos, alguns dos quais foi colocando num blogue de que nunca ouvi falar antes na minha vida, que alimenta regularmente e que se chama – algo deceptivamente – Mundo Perfeito. Bem, não pode ser assim tão perfeito como isso, se a imagem de cabeçalho que a Isabela escolheu para a porta do seu blogue é um corpo de mulher de cuecas e com cabeça de cão, sentada numa estufa com flores. É uma invocação que diz muito. Para mim uma alegoria de um mundo perfeito ( aquilo a que Sir Thomas More chamou em tempos de Utopia )podia ser a fotografia acima – mais ou menos. E ainda tem à porta da estufa retinintes e polidos avisos sobre os seus direitos de autora, que, na minha experiência na internet, são ah tão simpáticos como não valem um caracol furado. Neste meio a ofensa não se combate com avisos, combate-se com unhas e dentes.

Ou ignora-se.

Ora eis algo que não me ocorrera antes, isto de ter um blogue na internet, onde vou escrevinhando umas coisinhas e um belo dia, imagino que para aqueles que não têm internet, arranjo uma editora e escarrapacho tudo outra vez numa publicação, à laia de The Best of The Delagoa Bay Review. Bem, sempre tira a impressão fungível e a desconfortável sensação de estar sózinho num submarino e que as palavras que aqui escrevemos em suporte incompreensivelmente electrónico, pareçam um pouco menos aquilo que os americanos chamam pissing in the wind (no nosso vernacular, fazer chichi ao vento). Tenho que falar com o nosso Senador e a Sra Baronesa em reunião de Conselho de Machamba, mas receio que, numa futura edição do Caderno de Memórias Delagoabaianas, eu seja sumariamente relegado para uma recôndita nota de rodapé.

E lá se iria a etérea sensação da imortalidade literária.

Mas podia oferecer cópias dos livrinhos pelo Natal, o que com um blogue, admita-se, não se pode fazer.

A mistificação do comentário publicado no Diário de Notícias sobre a Isabela tem que ver com a evocação de um passado moçambicano que mais parece uma longa e pesada sessão de terapia duma branca com sentimentos negativos sobre a sua experiência africana e, quiçá, sobre o seu estatuto de retornada num Portugal revolucionário e recém-exorcizado da sua experiência colonial-bélica. Pelo meio, vagueiam ideias da injustiça daquilo tudo, o trauma do (presumo) rescaldo do 7 de Setembro de 1974 e ainda o fantasma do pai, que, recita, chamava coisas feias aos colonizados com pele mais escura e que, num contexto em que – creio – ninguém tinha “direitos”, tinham ainda menos que os colonizados mais clarinhos. A Fernanda, cuja experiência africana (e muito menos moçambicana) repito, desconheço por completo, arremata, no que presumo possa apenas ser uma infeliz exaltação literária, dizendo que vivia-se (em Moçambique) num país onde se podia atropelar um negro e não ir para a prisão. Pois. E esqueceu-se de referir que comíamos meninos pretos pequeninos para o matabicho.

Decorre que com a independência tudo isso acabou. E que com os assassínios de brancos por representantes armados da maioria negra nos arredores de Lourenço Marques em 1974 fez-se, apenas, justiça. Ai sim Fernanda? hum, sorte, então eu ter sobrevivido aquela pouca vergonha toda, e não graças à sua boa vontade.

Há aqui dois aspectos que me induzem a pensar que talvez este tipo de intro-retrospecção tenha que ser trabalhado um bocadinho mais.

O primeiro aspecto é que, segundo a Fernanda, cuja retórica para estes efeitos, aceite-se, é mais ou menos irrelevante, a Isabela saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade. Se calhar viajámos os dois no mesmo avião da TAP em alturas diferentes, só que eu tinha 15 anos de idade, diferença que importa para efeitos desta discussão. Pelo menos eu já não era virgem, naquele e em muitos outros aspectos da vida.

Ora, para alguém que saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade, a análise global da situação que a Fernanda diz que a Isabela faz, a crer-se biográfica e despida de preconceitos e análises que só possam ter sido posteriormente adquiridos, devem ser deveras de assombrar, vindos de uma miúda. A minha irmã mais nova, que tinha a mesma idade e teve o mesmíssimo percurso que a Isabela, mal sabia jogar ao berlinde. E lá em casa ainda estamos à espera dos seus cadernos.

Mas admita-se que pode ser que seja a nua verdade no seu caso pessoal, em que a forma como pinta o pai assusta mais que o papão colonial-racista. O que refere dava para horas e horas (e horas e horas) de sessões de psicoterapia.

Mas não logra por um segundo pintar uma realidade maior.

O segundo aspecto é que, por minha parte – e já o tentei explicar uma vez ao JPT e sob pena de me repetir – ao contrário de alguns eu vivi lá e, no meu microcosmo, o pai BM e a quase totalidade das pessoas com quem contactava, não chamava nomes a ninguém, branco ou preto, eu não era inibido de me dar com ninguém com base na cor da pele e, se não disputo (mas não desta maneira) a sustentabilidade do tal “ídilio colonial” de Lourenço Marques que a Fernanda diz que não existia (existia, sim, que chatice), pintar essa era e todas as vastas e complexíssimas relações pessoais, económicas, sociais e raciais de Moçambique no fim da era colonial em Lourenço Marques com um simples rótulo de “racismo” e “abuso” é totalmente descabido. É falso. É absurdo. É ridículo. É uma fraude moral, intelectual e histórica. É projectar os seus preconceitos actuais, ignorar as suas causas e tentar justificar moralmente os seus efeitos e a pulhice que veio a seguir, e em que de longe as maiores vítimas – surpresa – foram sempre, e quase só, milhões de moçambicanos, que de uma ditadura fascista e colonial passaram directamente para outra, não muito diferente.

Especialmente, destaco, se se estiver a falar no começo dos anos 70, em Lourenço Marques.

Claro que lá havia racismo. Montes. Claro que havia injustiça, incluindo a racial. Claro que tinha que acabar. Que tinha que mudar. Claro que havia gente como o pai da Isabela. Se calhar até bem pior. Claro que aquilo era uma ditadura, com tentáculos em Portugal, um anacromismo total num mundo já quase sem impérios coloniais e em que os países comunistas activamente armavam e patrocinavam os que combatiam o que sobrava de colonialismo no mundo. Ser colonial a partir de 1950 tinha o seu custo em lágrimas, suor e sangue. Salazar estava disposto a pagá-lo, outros não. Em 1974, venceram estes.

Mas cuidado ao pintar tudo de negro. O pior racismo que vi na minha vida não foi em Moçambique. Foi nos Estados Unidos quando para lá fui viver em 1977. Portugal hoje não é muito melhor. Quotidianamente vejo as maiores injustiças serem cometidas em Portugal hoje que não se distinguem assim tanto das injustiças que haviam em Lourenço Marques e que há em toda a parte. As injustiças económicas que se observavam há quarenta anos em Moçambique, aliás, ainda se mantêm em larga parte. Pois não é de um dia para o outro que se capacitam milhões de pessoas pobres, rurais e analfabetas que vivem de subsistência no mato e se lhes proporciona, e aos seus filhos, condições para ascensão social e económica.

O crime, se é que se pode dizer assim, não era do que a Isabela diz que vislumbrou aos dez anos de idade e muito menos dos tiques racistas do seu partido pai, que não conheci e pelos vistos ainda bem. É de um país que estava na mão de um ditador que escolheu manter um statu quo décadas depois da altura em que deveria ter iniciado medidas para atempadamente preparar e entregar o poder político e a gestão da nação moçambicana aos seus filhos, descomplexadamente e de cabeça erguida.

Provavelmente quer eu quer a Isabela teríamos lá ficado, a viver em paz e sossego e estaríamos a ajudar a construir esse então novo país, em vez de andarmos à esmola de familiares hostis e dependentes de amizades que se calhar nunca o foram, olhando no espelho à noite e inventando na mente o delírio de que aqui pertencíamos.

E a ter que tentar engolir de terceiros a tese de conspiração de que o que ali porventura encontrámos de bom e belo – e que hoje é apenas uma memória, só isso – não foi, não podia ser, que estamos a mentir aos outros e, pior, a nós próprios.

Vão à merda.

Dito isto tudo, acho que um dia destes lá vou ter que ir procurar o tal de livro para ver mesmo do que é que a Isabela está a falar.

Ou talvez não.

Quanto ao blogue, para já fico à porta.

15/11/2009

Citação de Eça de Queirós

Filed under: Bloguismo, Citações, Eça de Queiroz, Politica Portuguesa — ABM @ 6:11 am

Eça.jpg

por ABM (Cascais, 15 de Novembro de 2009)

Não sei bem porquê, esta frase tem sido muito citada nos blogues portugueses e brasileiros estes dias.

Hum. Deve ser sindroma pós-eleitoral. Mas não sei se no Brasil houve eleições recentemente. Em Portugal definitivamente houve (em Moçambique também e é tudo o que se me oferece dizer) e já estão todos positivamente engasgados em escândalos e psico-drama do mais dramático. Qualquer coisa sobre escutas telefónicas, que agora andam muito na moda, tais como a intercepção de e-mails e a sua posterior divulgação por terceiros a quartos, para quintos julgarem e sextos sobre eles deambularem.

Enfim.

Claro que a minha história favorita de Eça – infelizmente falsa – relaciona-se com o episódio em que ele teria reclamado junto da companhia das águas de Lisboa sobre um corte de água, escrevendo uma nota ao seu presidente nos seguintes termos: “Excelentíssimo. Senhor: Vossa Excelência cortou-me a água. Gostaria de cortar algo a Vossa Excelência”.

Na realidade a carta que ele redigiu está aqui e não tinha bem essa simplicidade límpida.

Infelizmente para os visados, o ponto alto da minha semana foi a minha compra de um teclado novo para o computador portátil que utilizo, um daqueles exteriores que se ligam ao computador através de um cabo USB (USB – Universal Serial Bus, ou Autocarro Universal em Série) e que comprei no Staples Office Centre de Cascais City em saldo por 9 euros e 99 cêntimos. O teclado do portátil é lindo e funciona lindamente, mas é um teclado inglês, sem acentos e o cê de cedilha. Para colocar um acento eu tinha que fazer uma tal ginástica de sequência de carregamento de teclas que eu ficava tonto e acabava por errar. Ora para uma audiência selecta como a do Maschamba (por exemplo, tremo só de pensar no que a D. Vera diria se um dia escrevesse com os acentos todos ao contrário) eu tinha que fazer alguma coisa. Ainda pensei em fingir que era um estudante pobre na escola primária e pedir um desses computadores Magalhães com que o governo do Sr. Engenheiro Sócrates quer colocar Portugal na vanguarda do modernismo mas a minha amiga Lurdes Crespinda da Secretaria da Escola Primária disse-me que com 49 anos a coisa pareceria suspeita. Eu ainda tentei convencê-la dizendo “mas há ministros que já fizeram pior do que isso!”. Ao que ela respondeu que se eu fosse ministro que ela também faria, mas que eu não era.

13/10/2009

J&M Lazarus e Lisboa, Abril de 1915

jmlazarus

por ABM

Dando uma achega à detalhada inserção do JPT, relativa aos primeiros fotógrafos a operar em Moçambique, acima reproduzo um anúncio publicitário de J & M Lazarus, que terão operado em Barberton no fim do século XIX mais ou menos na altura em que naquela vila da então República Sul Africana Meridional (mais tarde, Transvaal, a seguir Mpumalanga) ocorrera uma corrida ao ouro falsa, depois mudaram-se para Lourenço Marques (mais tarde, Maputo), onde operaram durante alguns anos e deixaram um interessante espólio fotográfico na forma de postais e trabalhos para a então edilidade. Os irmãos Lazarus depois mudaram-se para Lisboa, onde passaram a operar, sendo mencionados nomeadamente no espólio da colecção fotográfica da presidência da república portuguesa, donde se deduz serem então considerados entre os melhores fotógrafos da capital portuguesa.

Obtive o anúncio acima reproduzido numa interessantíssima revista lisboeta, dirigida à classe burguesa, que se chama Contemporanea (sem acento circunflexo), edição de Abril de 1915, página 13.

A Europa estava então nos primeiros seis meses da I Guerra Mundial (então conhecida apenas como a Grande Guerra) e Portugal na altura ainda não fazia parte do conflito. Entraria mais tarde para salvar as colónias e porque, quase caricatamente, os militares portugueses, com tesão de mijo porventura por causa do Gungunhana, achavam que podiam jogar a sério na Liga Principal. De uma Paris assediada pelos alemães a Leste, um correspondente da revista, Justino de Montalvão, redigira um sórdido e sombrio artigo, descrevendo as vicissitudes dos parisienses, a cidade silenciosa, às escuras, sem transportes e sem vida nocturna, sob a constante ameaça dos bombardeamentos pelos zeppelins alemães.

Em Abril de 1915 a república portuguesa existia há apenas cinco anos, desde que houvera umas escaramuças em Lisboa e o rei fugira e se procedera ao envio de telegramas para as províncias e colónias a avisar que fora instaurada uma – a -república. O novo regime era caracterizado por um optimismo quase fantasioso, uma instabilidade total e um anti-clericalismo sem precedente, mas já mostrava sinais claros de estar a perder o rumo e assustado pelos efeitos de uma potencialmente catastrófica participação no conflito mundial. Estupidamente, entrou 11 meses depois: La Lys foi infame; de resto foi apenas muito mau: um submarino (o U-155, que no fim roubou uns chicharros para um churrasco) mandou uns tiros contra Ponta Delgada, a cidade do Funchal foi atacada uma vez, Paul von Lettow-Vorbeck fez o que bem quis no Norte de Moçambique durante quatro anos e houve umas chaticezitas em Angola.

No cômputo geral, os 7500 soldados portugueses mortos num único dia em La Lys (9 de Abril de 1918) permitiram que a delegação portuguesa tomasse um lugar entre os vencedores em Versailles, pedisse umas massas valentes e mantivesse o Império.

Nas páginas da Contemporanea, surpreendentemente pelo menos para mim, que tinha a impressão que a melhoria nas relações entre a República e a Igreja Católica só ocorrera com a ditadura de Sidónio Pais, há um artigo acompanhado de fotografias, atestando parcialmente esse degêlo já em Abril de 1915, alternando fotografias do General Pimenta de Castro e do seu governo (caracteristicamente breve: nomeado a 28 de Janeiro, derrubado em 15 de Maio) com imagens das procissões e missas que decorriam na capital portuguesa durante a Páscoa Católica nesse mês: um mar negro de devotos à porta das igrejas.

Nesse ano de 1915, um obscuro tradutor de nome Fernando António Nogueira de Seabra Pessoa, anestesiado por doses consideráveis de aguardente Águia Real, escrevia confusos gatafunhos e deixava frases soltas sobre literatura, misticismo e astrologia no seu livro de notas e, assinando sob o então novel pseudónimo de Álvaro de Campos, enviava uma carta indignada ao Diário de Notícias, reclamando contra o tratamento feito nas suas páginas ao Nº1 da revista Orpheu, a um artigo ali contido e escrito por “um tal” de Fernando Pessoa, e ainda ao livro, então publicado, de Mário de Sá Carneiro. A carta termina assim: ” espero da lealdade jornalística de V.Exa a inserção desta carta em lugar onde pelo menos os jornalistas a leiam. Na impossibilidade de fazer os nossos críticos compreender, tentemos ao menos levá-los a fingir que compreendem.”

Que foi o que fiz.

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