THE DELAGOA BAY REVIEW

05/04/2011

MAPUTO, A KA TEMBE E O FUTURO

Filed under: A Catembe e o Futuro, Maputo, Ponte da Catembe — ABM @ 7:09 pm

A estação ferroviária de Lourenço Marques cerca de 1909: a sua abertura em 1895 foi a revolução total no Moçambique colonial.

Tudo indica que, possivelmente antes que cesse o segundo e último mandato de Armando Guebuza, a capital moçambicana passará a beneficiar de uma ponte que ligará directamente a Catembe (segundo uma recente alteração, que adopto, Ka Tembe) à baixa da cidade.

Onde neste preciso momento mil metros quadrados andam a ser vendidos por quase um milhão de dólares.

E quase não há.

Numa visita feita o dia de ontem à até recentemente pacata localidade, o Presidente, num daqueles comícios mais ou menos da praxe com a população, entre outros assuntos menores, como o que aconteceu ao Fundo Distrital de Desenvolvimento (uma medida que invariavelmente vem à baila), falou nesta questão.

Não sobre a ponte propriamente dita, cujo financiamento anda agora a ser negociado, e que certamente há-de representar uma dívida considerável para o erário público, e traduzida em portagens sustentáveis apenas para os mais abonados.

Ao que o Presidente Guebuza referiu-se foi à especulação imobiliária na zona.

Com a construção da ponte, pela primeira vez desde a Independência, abre-se uma nova, gigantesca e estruturante “frente” imobiliária para a crescente metrópole. Basta olhar para um mapa e constatar o que significa para a cidade a ligação à outra margem da Baía.

E eis o que me surpreende – especialmente dado estarmos a falar de Moçambique, onde, por um dogma curiosa e teimosamente preservado dos tempos do comunismo, a terra é tida como pertencendo ao povo, essa titularidade residindo directamente nas mãos do Estado, ou seja, do governo.

Sendo a ponte um projecto que poderá revolucionar Maputo em várias vertentes, e que na história da cidade só encontra precedente na inauguração da linha de caminho de ferro que primeiro ligou a velha Lourenço Marques a Pretória em 1895, supreende-me que nada tenha lido ainda sobre as medidas imediatas que devem ser tomadas na Ka Tembe.

Ainda por cima se se tiver em conta que a Ka Tembe é, efectivamente, um bairro de Maputo, ou seja, que reporta ao seu Conselho Municipal, na capital.

E tendo em conta que alguém, de alguma forma, vai ter que pagar a ponte.

E, mais importante, que a região vai passar a integrar Maputo, ou seja, vai deixar de ser mato para ser cidade, exigindo extensas obras de infra-estruturas como água, electricidade, esgotos, estradas, comunicações, escolas, estações da polícia, lojas, jardins, instalações desportivas, etc.

Acresce que Maputo não pode de forma alguma correr o risco de cometer o erro feito entre os anos 60-80, de se deixar “cintar” pelo tipo de urbanização que existe a norte, em que a zona está dividida em milhares e milhares de pequenos lotes com palhotas e construções precárias, sem condições, muito difícil de alterar para integrar a necessária expansão do que eufemísticamente se chama a Cidade do Cimento.

Pois este é o último grande espaço livre para onde a cidade se pode expandir. se tal acontecer, perde-se a última chance de continuar a expansão moderna da cidade – com infra-estruturas, para a vertical, com uma configuração virada para o futuro.

Ora, a única maneira de assegurar que isto seja feito é com a intervenção do Estado, aqui realmente agindo em defesa do bem comum.

O Estado deveria imediatamente agir para 1. “congelar” e declarar de utilidade pública num perímetro de uns cinco quilómetros em redor de onde a ponte irá desembocar na Ka Tembe, 2. levar a cabo um estudo quanto ao eventual aterro, esgotos, acessibilidades, loteamento, planeamento de áreas para uso público e privado, planeamento do que é que vai poder ser construído e onde, como, quando, a que preços, impacto ambiental, etc 3. Submeter esse plano ao escrutínio público para debate e posterior aprovação, 4. Ao mesmo tempo elaborar o plano financeiro que está subjacente a toda a operação, no que toca a custos, receitas e endividamento, e finalmente 5. seguir o plano aprovado sem fazer nem deixar fazer-se canganhiça pelo meio.

Este procedimento é normal e já devia estar feito e sido divulgado há muito tempo.

Antes da Independência, Maputo fez isto mais do que uma vez.

Mas até agora, não há conhecimento de qualquer plano ter sido trazido a público.

Em vez disso, assiste-se ao Presidente, numa espécie dum comício informal, ontem, em diálogo com a população, referir-se quase de passagem à preocupação dos actuais residentes quanto à febre especulativa que já se faz sentir no local – e a que muitos em nada beneficiará. Certamente não ao bem comum.

E quando se fala aqui em “febre especulativa”, toda a gente sabe perfeitamente de quem se está a falar. De certeza que não é o povão que está metido nisso.

O processo de concessão de DUAT’s continua (mal, pelos vistos) como se nada se passasse de invulgar.

Ora, dada a dimensão, importância crucial e impacto deste projecto, pelas razões acima aludidas, é absolutamente cristalina a evidência de que a única entidade que pode, que deve e no fim que tem que “especular” com os terrenos da Ka Tembe é o próprio Estado, talvez através duma entidade especificamente criada para o efeito, que assegure que se vão buscar os dinheiros necessários para as infra-estruturas que vão ter que ser criadas.

Criar a ponte com o resultado que se vai criar apenas mais uma oportunidade de aumentar mais fortunas privadas resultantes das consequentes negociatas imobiliárias, para criar mais uma espécie de Xipamanine para os ricos, é contraproducente, ilógico e quase certamente pouco moral.

Especialmente num país com os contornos de Moçambique.

Especialmente numa cidade como a cidade de Maputo.

16/11/2010

A MOZAL E OS FUMOS DE BELULUANE

por ABM (16 de Novembro de 2010)

Cerca das 18 horas de Maputo de hoje, recebi a lacónica nota intitulada MOZAL STATEMENT FTC’s NOVEMBER 2010 emanada pela Mozal, escrita em inglês, para variar, confirmando que amanhã, dia 17 de Novembro, a fábrica de alumínio situada a meio caminho entre Maputo e Boane, começaria a emitir os gases poluentes para a região da grande Maputo sem qualquer filtragem, durante quatro a cinco meses.

Sobre este assunto acho que já disse quase tudo o que tinha para dizer. Nomeadamente, que isto é um atentado aos direitos dos moçambicanos, que parece que o governo do dia muito lamentavelmente demitiu-se do seu dever de proteger o seu país contra estes actos de violência perpetrados de fora, e que a empresa BHP Billiton escreveu uma das páginas mais tristes do seu percurso, usando e abusando dos seus poderes para vergonhosamente enfiar o seu lixo pela goela abaixo de um governo dócil e de uma população indefesa.

Eu acredito piamente no capitalismo. Mas isto não é capitalismo. Nos tempos que correm, é lixo empresarial ao mais alto nível.

De particular e lamentável interesse, foi eu ter que ler, por mais que uma vez, as quase lancinantes defesas da indefensável argumentação apresentada pelas instâncias governamentais por nada menos que Paul Fauvet, que, usando e abusando do seu estatuto de prima donna dinosáurica da igualmente dinosáurica, governamental Agência de Informação de Moçambique, embarcou nos ataques mais infecundos a que já tive que assistir em algum tempo, dirigidos aos que legal, moral e legitimamente questionam a autorização inacreditavelmente concedida para este ataque à saúde da população de Maputo, chegando ao despautério de sugerir que os que tomavam tal posição estariam ao serviço de forças ocultas, dirigidas de fora.

Só mesmo faltava esta.

Fauvet, que percebe tanto de FTC’s como eu percebo de reactores nucleares em naves espaciais, até chegou ao ponto de tentar vir para cima de nós dar lições de aritmética fumeira, atestando a factualidade dos míticos, ocultos, mirabulantes estudos feitos a martelo por uns “especialistas” da UEM para fingir que a coisa era feita “cientificamente”. Só que se esqueceu que nem todos de entre os muito poucos que o lêem estes dias compram essa banha da cobra que só pode (só pode) ter sido encomendada.

Até faz impressão ver o Fauvet, que andou de braço no ar nos tempos com o Cardoso a clamar aquela mística “pureza” espartana do marxismo-leninismo samoriano (no fim tão pura como os fumos que a partir de amanhã discretamente passarão a ser inalados pelos inocentes cidadãos de Maputo e Matola), vir agora tentar defender o estritamente indefensável: que a BHP Billiton, o maior conglomerado industrial e químico do mundo, com fundos praticamente ilimitados, com os conhecimentos mais especializados e a obrigação de assumir a responsabilidade total pelos seus processos fabris, de entre os quais aquela fábrica inacreditavelmente situada a 14 quilómetros da baixa de Maputo, a escassos quilómetros do lago artifical a partir do qual toda a gente bebe água na grande Maputo e dentro duma área urbana com pelo menos 2, 3 milhões de pessoas, depois de quase dez anos de operação contínua, não reparou, não previu, “esqueceu-se”, que os filtros daqueles venenos que emite em Beluluane, estavam a ficar podres e precisavam de ser substituídos; que afinal “não tinha” qualquer plano de contingência que minimizasse a pulhice que agora vai fazer; que, estritamente para poupar dinheiro, acha económica e ecologicamente justificado fazer o que nunca se atreveu ou atreveria a fazer em quase qualquer outra parte do mundo, pois certamente levava com dez processos seguidos em tribunais que funcionam mesmo. E perderia. Porque afinal – coitadinhos dos pobres accionistas BHP Billitons – não se pode fechar a fábrica, pois a fornalhazinha tem que ficar acesa e a cuspir lingotes 24 horas por dia.

Não podem desligar a fornalhazinha, lamenta-se o Paul nos seus escritos. Coitadinhos.

Se isto é augúrio do que vai ser a esperada industrialização de Moçambique – conglomerados internacionais a agir desta forma, fábricas a operar desta maneira, construídas no meio de zonas urbanas, com accionistas milionários que acham que podem ganhar mais lucros nas costas duma população indefesa, com ligações intestinais às instâncias mandantes, que até as agências de informação nacionais colocam ao seu serviço – o futuro prevê-se verdadeiramente, incontornavelmente, sinistro.

Há mais que cem anos, o escritor britânico Charles Dickens avisou contra isto mesmo: contra a rapacidade daqueles que, à guisa das liberdades inerentes ao sistema capitalista, não param perante qualquer obstáculo para assegurar o retorno incremental no seu investimento.

Esquecendo-se que, a essas liberdades, correspondem responsabilidades.

E no dia em que os representantes do povo consentem nessa rapacidade, só se pode lamentar esse facto.

A Mozal anda a divertir-nos há anos com os seus comparativamente ridículos exercícios de charme a que chama eufemisticamente de “responsabilidade social”: uma casinha aqui, uma enfermeirazinha ali, um donativozinho acolá. Enquanto isso, vomita o precioso alumínio, carregado diariamente e às toneladas para o porto de Maputo, de onde desaparece, recebendo em troca montanhas de escória de alumínio que nem sequer existem em Moçambique. E isso enquanto usufrui do estatuto fiscal de uma offshore e quase a soberania de um estado dentro de um estado, maximizando os seus lucros.

Pois essa “responsabilidade social” devia incluir pagar os impostos que devia pagar e o respeito pelo país onde se situa e as pessoas que ali vivem. Tentar encantar as pessoas com migalhas e depois agir desta maneira é obviar o que parece ser o seu credo:

Que os fins justificam os meios.

08/10/2010

DEUS, O NEGÓCIO E O PECADO NA RUA ARAÚJO EM LOURENÇO MARQUES

A Rua Araújo em dia de sol, anos 1890

por ABM (8 de Outubro de 2010)

Quis divertir-me um pouco hoje.

Vamos lá.

AGRADECIMENTOS

Esta nota é dedicada ao Nuno Quadros, que involuntariamente foi o seu agent provocateur ao mandar-me uma mensagem a dizer que S.Exa. o Aga Khan tinha inaugurado um dos casinos que operaram na Rua Araújo (acho que não, Nuno) e à Sra D. Suzette Malosso que, na plenitude dos seus 82 anos de idade, tendo crescido na cidade aqui focada, lembra-se de coisas que eu não sabia sequer terem existido e que teve a pachorra de aturar os meus interrogatórios.

INTRODUÇÃO

Creio -dizem-me- que uma das expressões enfáticas e mais badaladas da protagonizada ética limpa do então novo regime que se instalou em Moçambique com a retirada da administração portuguesa da governação do país em 1975, foi, literalmente, o encerramento dos estabelecimentos na Rua do Bagamoyo em Maputo (então Rua Araújo em LM, terminologia que se usa doravante, pois o relato situa-se nessa era) e a proibição da sua vida boémia, tida como imoral, decadente, capitalista e exploradora, entre outras coisas, dos corpos e vulnerabilidades das mulheres moçambicanas.

A agenda dos líderes guerrilheiros da Frelimo recentemente chegados à capital, aparentemente horrorizados com os seus decadentes hábitos e costumes, foi, claramente, de dar um sinal das coisas para vir e da Nova Ordem, congeminada lá no meio do mato, em Nachingwea. Aquilo que viam em Lourenço Marques era o colonialismo. e o colonialismo acabara. A prole, emocionada, estúpida e oportunista, aplaudiu logo o gesto de eliminação da prostituição e da vida boémia – e já agora de tudo o resto mais que viesse à cabeça dos Libertadores.

Libertadores para quem, mais do que a Independência, que já era obra, consideravam a Revolução para Criar o Novo Homem Moçambicano o objectivo mais sério, e para quem o exemplo predilecto da pura vivência revolucionária – um pouco como Eça ironiza quando em A Cidade e as Serras “obriga” um rico parisiense a gostar de viver na parca rispidez serrana portuguesa – era aquela vida porreiraça e espartana que tinham andado eles próprios a viver lá no mato no Norte.

A solução clara era simples: o povo genuíno vem do mato, a gente não controla bem as cidades, que estão cheias de colonos brancos que ainda por cima pensam que ainda mandam alguma coisa e que são um veneno e um empecilho à Revolução Moçambicana. Portanto vamos colocar esta gente toda na ordem, mostrar-lhes quem manda aqui e correr com o maior número possível deles, preferencialmente de forma a que o que eles pensam que é deles (mas que é nosso) fique atrás.  E acabar já com os reaccionários vícios deles.

Não demorou muito (basta perguntar a quem passou por esta altura e que especialmente é white ou quase) e as cadeias estavam cheias de gente que foi repetidamente presa durante dias e dias porque atravessou a rua na hora errada, porque não bateu uma continência que não sabia que tinha que fazer, que não parou o carro a tempo quando a banda lá no palácio se lembrou de tocar o novo hino, que se esqueceu do bilhete de identidade naquela noite em que foi ao cinema com os amigos.

E isto era só para os que não tinham feito nada.

Mas na altura a Rua Araújo foi muito mais falada porque era uma medida muito mais visível, mais colectiva e mais ostensiva. O simbolismo era inescapável, e deliberado.

As alegadas putas e os seus alegados proxenetas foram mandados para a reabilitação e a rua (o tal de Araújo que dava o nome à rua foi o primeiro Governador do Presídio de Lourenço Marques, nomeado em 1781) mudou mais uma vez de nome, desta vez para um dos locais sacros da Gloriosa Guerrilha lá longe na Tanzânia: Bagamoyo, a escola para a formação do Novo Homem Moçambicano, cortesia da Frente de Libertação de Moçambique e, durante algum tempo, de Janet Mondlane.

Mas que apropriado.

O encerramento (na altura rotulado como “limpeza”, referido numa edição de Abril de 1975 na outrora Pacatamente Burguesa mas agora Raivosamente Revolucionária revista Tempo – e em que Ricardo Rangel era sócio) coincidiu com a Independência, felizmente para Victor Crespo, o memorável almirante e o último (e único) Alto Comissário em Moçambique, que representou o novo regime português pós-golpe de Estado em 1974 antes de formalizar a entrega do poder aos líderes da guerrilha na data por eles escolhida. Pois refere quem viu,  que o Almirante passava mais tempo no Dancing Aquário na Rua Araújo a beber whiskies e a discutir as colorações epidérmicas das senhoras que lá dançavam, que no seu escritório a fingir que presidia às formalidades da governação e que defendia os interesses do seu país (em boa verdade, parece que na altura ninguém sabia quais eram esses interesses e mesmo assim por essa altura a Frelimo estava-se a marimbar para o que quer que fosse que ele dissesse, que mesmo assim foi nada).

E esse acto apenas foi um começo. No início de Novembro de 1975, numa operação de grande envergadura e que durou dois dias e incluiu três cidades, as forças da Frelimo, de AK47s em riste apontadas contra uma população urbana basicamente inocente e completamente indefesa, pura e simplesmente prenderam cerca de três mil pessoas, que consideraram suspeitas de estarem envolvidas com drogas, prostituição, roubo ou vadiagem. Pois.

Era o legalismo revolucionário, conferido e legitimado pelo Povo.

Na altura da Indepedência eu não soube de nada destas tricas da Frelimo com a Rua Araújo nem do terror dirigido aos “colonos” (ou será que era payback time?), pois estava mais ou menos tranquilamente a estudar a oito mil quilómetros de distância, em Coimbra, onde o mais que havia de aguerrido eram os desenhos dos gigantescos seios das caricaturas do José Vilhena. Um pouco como em Moçambique, a pornografia via-se era na vida política, todos os dias, nos noticiários politizados da Érretêpê.

Dez anos depois de eu ter deixado de residir em Maputo e nove anos depois da Independência, em plena era do Repolho e do Carapau, visitei a cidade, que me pareceu deserta, abandonada e parada no tempo, as pessoas com terror sequer de pensar alto, com medo de lhes ser apontado o dedo por alguém ligado à Nomenclatura. Mas não se sentia qualquer fervor revolucionário. Apenas cansaço, conformidade e um perpétuo esforço de meter alguma coisa no prato. Pois não havia quase nada. Mas ainda assim foi-me discretamente servida uma lista das Grandes Mudanças (para além da de praticamente toda a gente que eu conhecia não estar lá, claro). E o desmantelamento da Rua Araújo estava nos top dez, o que eu achava curioso, até estranho, pois apercebi-me que isso indiciava o simbolismo, na cabeça de muita gente, que aquilo acarretava, antes e depois da Independência.

Se bem que antes da Independência aquilo não era de forma alguma “a” referência nem tinha o relevo que se possa querer dar-lhe. Era apenas mais um dos locais exóticos, quiçá um pouco mais sórdido, da cidade. Eu hoje tenho 50 anos de idade, e nos passeios a pé higiénicos da família BM aos sábados à noite depois do ocasional jantar chinês no Restaurante Hong Kong, lá pelos fins dos anos 60, princípios dos anos 70, devia eu ter uns dez anos de idade, lembro-me muito vagamente do que aquilo parecia, pelo menos a parte da Rua Araújo para quem vem da Praça onde fica a estação dos Caminhos de Ferro: que tinha muitos bares porta sim porta sim, muita gente, muita música aos berros, montanhas de luzes e coloridos anúncios de néon a acender e a apagar, à porta de uns bares e dancings umas fotografias dumas meninas de coro (brancas) muito pintadas com umas coisinhas penduradas nas pontas das maminhas expostas e um ambiente mais ou menos aguerrido.

Nos dias que correm, isto é troco para bebés.

A Rua Araújo nos anos 60, de dia. À noite parecia Las Vegas junto do Índico.

Uns anos depois, a primeira referência que eu vi sobre a antiga Rua Araújo foi na forma de umas fotografias que o saudoso e agora exaltado Ricardo Rangel (que se dava muito bem com o meu pai) publicou e que tirou nessa altura, e que correspondem vagamente ao que eu vira e mais ou menos imaginava ser a Rua Araújo, claro que sem aquela carga ideológica-sociológica-pós-colonial que se sente agora, e que, despida de contexto, dava uma aura quase lunática àquele fenómeno da velha Lourenço Marques.

Casal fotografado por Rangel na Rua Araújo - o sórdido passou a ser arte

Uns anos mais tarde, já no fim dos anos 90, quando a Nomenclatura freliminana  relaxou involuntariamente os costumes públicos e, sem qualquer veio condutor, a capital moçambicana descambou quase completamente para um free for all em termos dos seus hábitos mais prúridos. Alguns decerto se lembram das legiões de jovens serpentes nas esquinas do Polana e da Sommerschield (a baixa era uma cidade fantasma à noite) depois da hora do jantar e todos os passeios em redor da discoteca do Sheik completamente tomada pelos possantes 4×4 da nova classe de “empresários de sucesso” e suas sumptuosas, esculturais acompanhantes.

(Elas eram chamadas serpentes porque quando a gente passava por elas no carro elas faziam assim: “pssssssssssst, psssssssst”)

Houve então muito boa gente na cidade que pensou, e disse, que se calhar fazia mais sentido trazer de volta a velha Rua Araújo e meter isso tudo ali. Mas as coisas não são assim tão fáceis de fazer. Hoje em dia, não estou lá muito dentro dos detalhes do negócio do prazer e do entretenimento maputiano, mas acredito que ainda há muito, muito por fazer.

A verdade sobre a Rua Araújo é muito mais profunda.

E, na minha opinião, se calhar não há rua que mais e melhor espelhe a História desta cidade que hoje é Maputo.

De facto, houve uma lógica muito clara no aparecimento do negócio por que a Rua Araújo se tornou quase mítica. Para a entender, tem que se recuar até ao fim do século XIX e entender o que se passava na região.

Se o exmo Leitor tiver a paciência, acompanhe-me nesta aventura.

A CIDADE APARECE

Apesar da apetência britânica pela baía defronte de Maputo, sucessivamente combatida pelos portugueses com a ajuda do Duque de Magenta (hoje mais conhecido como 2M), o flanco sul da então frágil, precária, indefinida colónia portuguesa, estava praticamente abandonado aos seus habitantes, que faziam mais ou menos o que sempre fizeram, os portugueses tendo o ocasional problema com os ingleses, que se alternavam com os Boers a tomar conta do que é hoje a Suazilândia, e os boers do Transvaal, que também gostariam de ficar com a parte Sul do actual Moçambique.

O momento verdadeiramente fundacional para a cidade – e de tal forma que em meros vinte anos o epicentro de todo o Moçambique se deslocou dois mil quilómetros do eixo Ilha de Moçambique-Nampula para a Baía de Lourenço Marques, ao ponto de a elegante e centenária capital ter sido descartada para os pântanos em redor da Ponta Vermelha – foi o conhecimento pelo mundo da descoberta de ouro no Rand, uns campos situados a Norte da pacatíssima capital boer do Transvaal (nome formal: República Meridional Sul-Africana), Pretória.

Tirando as negociatas do Albasini, pouco fluía entre o interior e a costa.

A "cidade" original não era uma cidade: era uma ilha. A uma distância regulamentar do Presídio, fez-se um aldeamento precário. Na parte baixa desse aldeamento vê-se a Rua dos Mercadores - a original rua de Maputo - mais tarde a Rua Araújo

Assim, quase subitamente, em 1874, na pequena língua de terra situada a Poente de onde Joaquim Araújo se lembrou de mandar edificar o lastimável Presídio de Lourenço Marques, centenas de pesquisadores e aventureiros americanos e australianos ali desembarcaram ao mesmo tempo para se dirigirem para o interior, enquanto que, do Transvaal, centenas de boers faziam a caminhada no sentido contrário, para vir buscar mercadorias e mantimentos aos navios. Nesse ambiente de “fronteira” completamente desregulado, de negócios, bebida e prazer, logo se esboçou um – o primeiro- o primeiro de todos – arruamento onde essas actividades se desenvolveram:

A Rua Araújo.

Que na altura, à boa antiga portuguesa, não tinha nome de gente, mas um nome que traduzia a sua utilidade: o de Rua dos Mercadores. Era um assentamento precário, com casas feitas de madeira, suficientemente sólidas para se poder lá dentro guardar, comprar e vender tudo e em que o português era provavelmente a terceira ou quarta língua mais falada.

Um ano depois, ao fim da tarde do dia 12 de Setembro de 1875, um violento incêndio consumiu tudo o que havia entre a actual estação dos caminhos de ferro e a sede o Banco de Moçambique (dantes o BNU). Para evitar situações semelhantes,o então governador português, um tal de Augusto Castilho, mandou que as casas passassem a ser feitas com materiais mais duráveis: argamassa, tijolo, adobo, telha, zinco. E logo a seguir veio o Major Joaquim José Machado e a sua equipa, que esboçou o plano director do actual centro da cidade. São essas as casas que os postais mais antigos de Lourenço Marques hoje mostram.

A Travessa da Palmeira (hoje fica entre a sede do BIM e a Nova Mesquita). Após o incêndio de 1875, as casas passaram a ser feitas de alvernaria, tijolo e telha.

Com as notícias da descoberta de ouro em Magaliesberg e em Barbeton, a pressão de ligar a Baía ao interior sul-africano britânico e boer foi quase insustentável. Logo se abriu a que ficou conhecida como a Estrada de Lindenbugo (que começava no fim da actual Av. 24 de Julho, a seguir a um enorme quartel que acho que ainda lá está). Lindenburgo (se é que ainda tem esse nome) fica situada a meio caminho entre Maputo e Pretória. Naquela altura Nelspruit (Mmmmmbombélááá!) basicamente não existia e seria assim até o comboio passar por lá anos mais tarde.

As coisas encaminhavam-se, perante o ar atónito dos Rongas, que ali viviam em redor, e que assistiam certamente preocupados com o reboliço enquanto que por sua vez iam fazendo as suas negociatas e de vez em quando umas razias para saquear.

A Rua Araújo, quando em Lourenço Marques se vivia um ambiente de fronteira

Mais um aspecto da Rua Araújo no fim do séc. XIX

Os momentos-chave seguintes foram a inauguração da linha de caminho de ferro para Pretória (1895), logo a seguir a abertura do porto marítimo da cidade, culminando com o desencadear da Guerra Anglo-Boer (1899-1902), um complicado imbróglio militar e político, que trouxeram muita, muita gente à cidade e montanhas de negócio. Nessa altura, Lourenço Marques (ou a sua designação inglesa, Delagoa Bay) estava nas primeiras páginas dos grandes jornais de todo o mundo, a Baía bloqueada pela poderosa marinha britânica (foi ali usado pela primeira vez no mundo o telégrafo sem fios para a coordenação de operações militares-navais. Enfim, vale o que vale).

A linha de caminho de ferro abriu em 1895. O edifício da estação chegou mais do que dez anos depois. Directamente em frente, ficava a Rua Araújo, e à direita o porto marítimo.

E o que é que, fisicamente, estava precisamente no meio disto tudo?

A Rua Araújo.

De facto, a Era de Ouro da Rua Araújo não foi nos anos 50, 60 e até 1975.

Pelo contrário, foi nas quatro décadas anteriores.

OS DIAS DE OURO

Capa dum folheto publicitário em inglês, sobre Lourenço Marques, anos 20.

Estabilizada a guerra e colonizado o Transvaal pela Grã-Bretanha (cujo consulado em LM, desde que abriu sempre esteve no mesmo local onde hoje se encontra a actual embaixada em Maputo), o negócio aumentou sempre e cada vez mais, tendo Lourenço Marques, que entretanto foi praticamente comprada e desenvolvida com capitais ingleses, sul-africanos e boers através de companhias, lá a partir dos anos 20, criado e desenvolvido um negócio novo, complementar, e extremamente rentável, para além do import/export e do álcóol: o negócio do lazer e do prazer para os brancos sul-africanos.

Dia de "São Navio" em Lourenço Marques. A cidade toda acorria ao Cais para assistir ao espectáculo, e cuscar quem chegava e quem partia. Era um evento. Depois ia tudo beber um copo para a Praça 7 de Março.

De facto, a cidade tinha várias valências nesse sentido. Para além de ser organizada, limpa, e bonita, tinha um clima aprazível, ficava junto ao mar, tinha acessibilidades (barco, comboio, estrada, telégrafo para o mundo exterior), boas instalações, boa comida, instalações desportivas e tinha o exotismo informal cultural luso-africano que nem se sonhava existir na África do Sul.

O antigo campo de golfe da Polana. Situava-se imeditamente a seguir ao actual Hotel Polana e estendia-se até à actual embaixada americana e entrava um pouco para dentro da actual Sommerschield.

A entrada do Pavilhão de Chá, junto à antiga praia da Polana e a 150 metros a Norte do actual Clube Naval de Maputo

O bar da Estação de caminho de ferro de Lourenço Marques estava ao nível do que de melhor havia no mundo na altura

Lourenço Marques, com as suas praias, o Pavilhão de Chá, os seus vários hóteis, quiosques, clubs e restaurantes, alegremente acolhia esse negócio, nos anos 20, 30 e princípios dos anos 40.

O cais da estação de caminho de ferro de Lourenço Marques

Nessa altura, para além dos navios, que traziam centenas de marujos, passageiros e homens de negócios à cidade, vinham diariamente comboios de Joanesburgo e de Pretória, cheios de carga e gente, na busca de repouso ou de prazer, ou para apanhar um barco para a Europa, ou regressar à África do Sul.

E, para além de bowling, golfe, a caça, a pesca e o ténis, Lourenço Marques tinha bebidas à descrição, jogo e prostituição, práticas estas proibidas e reprimidas pelos estóicos britânicos e ainda mais pelos puritanos boers. Em Lourenço Marques, para além de vinho, whisky, camarões e cerveja à descrição (incluindo aos domingos e feriados religiosos) até fados e touradas havia,  perante o espanto dos visitantes. E cinema, e excelente ópera italiana, esta no resplandecente Varietá, que ficava do outro extremo da Rua Araújo, junto à Praça Sete de Março (hoje 25 de Junho, o dia da Independência em 1975), a sala de estar da cidade – com chás e delicados bolos de pastelaria servidos às cinco horas da tarde, enquanto música tocada no seu coreto por bandas contratadas, quase todos os dias.

Antes do Polana abrir, o Carlton era o hotel de escolha em Lourenço Marques. Ficava situado a meio da Rua Araújo. Mesmo depois de abrir, durante muito tempo o Polana era considerado fora do caminho.

Cedo a cidade se tornou ponto de visita obrigatório para os milionários e as classes mais abastadas de Joanesburgo e de Pretória, que para ali se dirigiam em conforto exuberante no Blue Train, um comboio de luxo que parava semanalmente na estação de Lourenço Marques.

Que ficava a cem metros da Rua Araújo.

Para além dos navios de passageiros que atracavam todas as semanas no porto, mesmo ao lado.

As touradas e as pegadas de touros eram uma atracção turística única em África.

A meio da Rua Araújo, do lado direito, cedo abriu o Casino Belo, mais exclusivo, e mais abaixo o Casino Costa, os únicos casinos no Sul de África. O Casino Belo (no edifício mais tarde funcionou o conhecido Dancing Aquário, para quem se lembra) era uma luxuosa máquina de fazer dinheiro. Estava aberto toda a noite, sete dias por semana. Tinha uma grande orquestra (o chefe de orquestra do Casino Belo durante dez anos chamava-se Jorge Vara e era o pai da D. Suzette, por isso é que eu sei isto tudo) tocava diariamente, sete dias por semana, das 9 da noite até às 4 da manhã, com um intervalo de meia-hora.

Aspecto da sala de jogo do Casino Belo na Rua Araújo, em Lourenço Marques. Lá dentro, era obrigatório o uso de fato ou smoking e vestido comprido para as senhoras.

Ali encontravam-se as famosas e as originais Taxi Girls de Lourenço Marques(não são as que mais tarde se chamavam pelo mesmo nome, e que basicamente eram prostitutas). Estas eram jovens sul-africanas desesperadamente belas, vestidas de rigor com vestidos compridos, todas as noites, e como referi não eram prostitutas (o que não significa que não dessem uma volta com quem lhes apetecesse). O que elas faziam era que à noite conversavam com os clientes, entretiam-nos e bebiam um copito ou outro. E qualquer homem podia comprar uma “fita” de bilhetes por dois e quinhentos cada bilhete, e por cada bilhete a menina dançaria com ele uma música. No fim quase todas elas acabaram por casar com portugueses de sucesso na cidade e hoje fazem parte do DNA dos descendentes de quem lá viveu (imagino que estrategicamente omitindo os detalhes da sua procedência).

Curiosamente, naquela altura as crianças podiam entrar no Casino, que tinha também umas limousines com motoristas fardados para levarem os clientes e seus convidados para os hotéis ou de volta para o Blue Train.

O Varietá, na altura creio que a segunda Casa de Ópera em toda a África excepto o Cairo, situado na Rua Araújo, no local onde hoje se situam o Cinema Matchedge e o Estúdio 222.

Nesses tempos, ganharam-se e perderam-se verdadeiras fortunas nos casinos da Rua Araújo. Após uns dias de loucura na roleta e no bacharat, muitos dos visitantes mal tinham dinheiro para pagar o bilhete de comboio de volta para Joanesburgo e Pretória e houve um número considerável de suicídios, cometidos por gente que perdeu tudo o que tinha nas mesas de jogo.

Na Rua Araújo, o negócio da noite não era só para os ricos. Era socialmente vertical. Os bares, cabarets e salas de jogo da Rua anualmente atendiam milhares e milhares de marinheiros, viajantes, homens de negócios, etc, trazidos pelo movimento louco no porto e no caminho de ferro.

Curiosamente, quase todo o negócio era entre brancos – incluindo, malgré as suspeitas da Frelimo, a prostituição. Mas do lado esquerdo da Rua Araújo, houve mais tarde uma casa amarela, o Bar Pinguim, que era o único sítio na Rua Araújo onde havia, para além de prostitutas brancas, prostitutas negras e mulatas e cujo ambiente era puro caos estilo filmes do Texas. Nos anos 50 era um hangout favorito de, entre outros, o poeta Reinaldo Ferreira.

Durante esses anos, a autoridade policial, especializada e presente, mantinha a ordem, num misto de negligência latina e pauladas vigorosas. Alguns se recordarão dum agente de polícia alto e encorpado que vigiava a Rua Araújo, e que era legendário por resolver problemas de rua com uma saraivada de cacetadas, o que supostamente funcionava bem junto dos marujos e dos tropas mais alcoolizados.

Convenientemente situadas perto da Rua Araújo, havia grandes casas de prostituição, negócios legais, de porta aberta. As prostitutas eram praticamente todas brancas, a maioria francesas e sul-africanas. Refiro por exemplo uma luxuosa mansão que existia na rua a seguir à antiga Paiva Manso (não faço ideia qual é o nome da rua hoje) e que era a maior e considerada a melhor, gerida por uma senhora que era conhecida na cidade pela sua generosidade e que tinha vários filhos que se formaram todos na África do Sul.

Belo, proprietário do principal casino, era uma figura conhecida na cidade, riquíssimo, generoso, respeitado. O primeiro frigorífico eléctrico doméstico que houve em Moçambique foi ele que o instalou em sua casa. Teve três filhos, um deles o Ernesto, outro que foi gerente da Casa Coimbra (aquele prédio mesmo ao lado esquerdo do Banco de Moçambique na 25 de Setembro em Maputo) e um terceiro sobre o qual nada sei.

O FIM DE UMA ERA

O fim desta Era Dourada da Rua Araújo começou quando, lá muito longe, do outro lado do mundo, em Lisboa, o ditador Oliveira Salazar, tentando perpetuamente fintar os jogos de cadeira locais com as diferentes facções sociais (são sempre as mesmas: radicais vs católicos vs maçónicos vs monárquicos, a treta do costume), com a intervenção do seu antigo amigo e antigo colega de carteira, Manuel Gonçalves Cerejeira, então Cardeal de Lisboa e representante da Igreja Católica Apostólica Romana em Portugal, celebrou em 1940 (ano em que se celebrou também o tricentenário da reaquisição da independência portuguesa das mãos dos Hespanholes) um entendimento formal entre o Estado português e o Vaticano, a que se chamou Concordata.

Através desse documento, para todos os efeitos, a Igreja Católica encerrou um trágico capítulo aberto com o advento da I república e assumiu uma parceria com o Estado português que teve assinaláveis ramificações por todo o Império.

Em Lisboa, os três amigos: o Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, o Presidente do Conselho, Oliveira Salazar, e o seu Presidente, Óscar Carmona. Dos três, só Salazar nunca meteu os pés em Moçambique.

Talvez não seja coincidência que nessa altura, se começou a construir a actual Catedral de Maputo, que foi concluída em 1944, recorrendo os poderes locais para a sua construção essencialmente a trabalho escravo nativo, o que enfim, é mais uma pequena vergonha e uma expressão do tal colonialismo no seu pior (alguém devia meter lá uma placa na parede para que se soubesse e se lembrasse essa vergonha).

A expressão da Trilogia do Poder Imperial no centro de Lourenço Marques: o Estado (a Câmara Municipal), a Igreja (a Catedral) e o vulto de Mousinho. Em 75, Samora despachou Mousinho para um canto da "fortaleza" antes de rebaptizar o local de Praça Mousinho de Albuquerque para Praça da Independência. E de meter uma gigantesca fotografia sua na fachada. Mousinho out, Samora in.

Em Agosto de 1944, já a II Guerra Mundial estava a começar a chegar ao seu término, num navio Serpa Pinto obscenamente artilhado para acolher Sua Católica Eminência, o Cardeal Patriarca de Lisboa, Manuel Gonçalves Cerejeira, viaja para Moçambique e desembarca em Lourenço Marques para inaugurar com imperial pompa a nova catedral, que ficou situada mesmo ao lado do também novo e imponente edifício da Câmara Municipal de Lourenço Marques, talvez para simbolizar a nova parceria entre o Estado e a Igreja – algo que acontecia pela primeira vez em Moçambique, cujo pluralismo religioso era palpável.

O quarto de cama de Gonçalves Cerejeira no Serpa Pinto

A sala de jantar do Cardeal Cerejeira no Serpa Pinto

O Serpa Pinto até tinha uma espécie de "sala do trono" para o Cardeal Cerejeira. Isto hoje dava um filme.

Pouco depois, a prostituição e os jogos de casino foram ilegalizados e desmantelados em Lourenço Marques.

Na Rua Araújo, ficaram os bares, os dancings e o ocasional jogo ilegal. A prostituição passou para a clandestinidade.

O RESSURGIMENTO

Mas a Rua Araújo não morreu.

Pouco depois, no início dos anos 60, com a instauração do apartheid do Sr. Verwoerd na África do Sul e a preparação e o início do que veio a ser a guerra pela Independência, Lourenço Marques conheceu um período de enorme movimento de pessoas, de investimento e de crescimento. Muitos portugueses vieram viver e trabalhar para a cidade, o número de visitantes da África do Sul, que agora viajavam em carros particulares, cresceu significativamente, e os navios começaram a chegar da Metrópole cheios de jovens militares sózinhos, muitos desejosos de fazer uma escalada na Rua Araújo para beber uns copitos e talvez experimentar o deslumbre de uma experiênciazinha sexual, para depois se ocuparem da defesa do território. E o movimento de navios, aviões e comboios cresceu quase exponencialmente. A cidade fervilhava.

O mito das LM Prawns: acima, o Restaurante da Costa do Sol, nas mãos da família luso-greco-moçambicana Petrakakis desde 1938.

Os usos e os costumes entretanto liberalizaram-se, muito mais em Moçambique do que era a norma quer na Metrópole portuguesa, quer no ambiente severo de Calvinismo puritano imposto na África do Sul – apesar de, nas praias e nos cafés de Lourenço Marques, serem as bifas que deixavam os locais de boca aberta, as meninas locais manietadas pelos velhos costumes dos seus pais portugueses.

Ainda que com a Pide a mordiscar, o Regime nervoso e a guerra dois mil quilómetros ao Norte a desenvolver-se, o ambiente na cidade tornou-se muito mais sofisticado e multiracial, começaram a aparecer galerias de arte, surge toda uma geração de pintores e escultores portugueses e moçambicanos, brancos e negros e com temas africanos, lojas de moda, a Sociedade de Estudos, a Casa Amarela, os bikinis, a mini-saia, veio a revolução musical com o rock, vomitado 24 horas por dia, sete dias por semana pela LM Radio, a Estação 2 do Rádio Clube que era de longe a mais popular em todo o Sul de África. Do Rádio Clube veio também a  marrabenta e inaugurou-se também a primeira estação de FM stereo, com jazz e música clássica, em todo o território português.

Em termos de desporto, tudo havia e tudo se fazia tudo na cidade. Campos de futebol de básquet, piscinas, golfe, mini-golfe, hóquei, equitação, aviação, tiro, regatas, pesca, pesca submarina. Era uma obsessão. Em entre 50 e 60 surgem estrelas como Coluna, Velasco, Matateu, Eusébio, Lage, Mário Albuquerque, Fernando Adrião, Dulce Gouveia, Mussá Tembe e tantos outros. A lista não acaba.

Nos anos 60, o pai BM, à esquerda, treinava equipas de futebol em Lourenço Marques.

Por sua parte, a Rua Araújo acompanhava todo este ambiente à sua maneira, com mulheres, marijuana, misturada com cerveja, vinho, shows de striptease (alguém se lembra da famosa travesti Belinda?) e com verdadeiras sessões de pancadaria que inevitavelmente envolviam comandos, fuzileiros e a polícia de choque a correr atrás deles com cacetetes. Segundo o Eduardo Pitta, até havia um discreto underground gay e lésbico na Rua Araújo que a Maluda vagamente confirma. O Carlos Gil esteve lá nos seus tempos de teenager e no seu livro Xicuembo deu uns lamirés da fauna louca que aquilo era.

Como em toda a parte, dizem-me que havia prostituição para todas as cores, todos os gostos e todas as bolsas. Mas se calhar a Rua Araújo não era o ponto principal dessa actividade. quando muito era um ponto de começo.

O Hotel Central e o Dancing Aquário, um conhecido empório da Rua Araújo e ponto de paragem de Vítor Crespo.

Foi esta Rua Araújo que Ricardo Rangel conheceu e retratou nos anos 60. E que, em meados dos anos 70, ajudou a destruir na sua revista.

De certa maneira, para a velha rua, esse foi apenas mais um momento da sua vida.

Uma nova metamorfose do que fora.

Viva a futura amizade entre os povos da CPLP !

E com o tempo, essa imagem do que fora nos anos 60 e 70, congelou-se e tornou-se num cliché, e pior, no todo, excluindo os quase cem anos que o precederam. Até Licínio de Azevedo recorreu agora a ele para o seu recente filme “Margarida”.

O tal símbolismo que eu acho que, isoladamente, não teve.

EPÍLOGO

Hoje, a Rua Araújo – a Rua do Bagamoyo – sobrevive precariamente, um dinossauro da história da Cidade, o seu berço irreconhecido, maltratado, desrespeitado, ignorado pelos cidadãos da Cidade, aguardando por melhores dias, quando eventualmente haja outro ressurgimento da Baixa da Cidade e uma outra apreciação do seu rico passado.

Que forma terá esse ressurgimento, ninguém sabe.

Uf. Depois disto, vou jantar ao chinês ali na esquina.

Bom fim de semana.

A HIPÉRBOLE MAPUTIANA

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07/10/2010

SOBRE A FORTALEZA DE MAPUTO

Postal turístico da Fortaleza de Maputo, anos 60

por ABM (7 de Outubro de 2010)

No dia 4 de Abril de 2009, o nosso Grande Senador escreveu neste repositório de informação totalmente grátis que é o Maschamba, uma nota intitulada Vasco da Gama, em que, tendo estado na cidade de Inhambane, basicamente resmungava por ver uma estátua meio pirosa mas perfeitamente utilizável do conhecido navegador português que veio por ali abaixo e subiu por ali acima a caminho das Índias, espetada na parte de trás de um edifício municipal local. Na sua histórica viagem, em 1497 Gama parou para uma aguada e uns petiscos em Inhambane, onde terá sido bem tratado, e seguiu caminho para Norte, à procura dos tão falados negócios da Índia.

No dia 10 desse mês, às páginas tantas, eu, que ainda não tinha o nobre estatuto de estar deste lado da paliçada, depois de ler o texto Senatorial e de resmungar qualquer coisa sobre isso dos monumentos históricos portugueses (que agora, quer se goste ou não, são moçambicanos, pois estão no local e fazem parte da sua história), a propósito do tema, escrevi o seguinte:

O que queria realçar é o seguinte: a que hoje chamam Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição em Maputo é basicamente uma fraude, uma espécie de castelo da Disneylândia feita durante a II Guerra Mundial pelos então patrões da cidade para os turistas sul-africanos que vinham a LM fazer uns negócios e dar umas voltas no Casino Belo (que ficava na Praça Mac Mahon (ou lá como se chama hoje) em frente à estação dos CFM e ir à praia.

O local corresponde mais ou menos ao sítio onde houve de facto uma miseranda paliçada de paus e barro na ponta da língua de terra onde estava a “fortaleza”. Não é bem o mesmo que as fortificações de Moçambique, Sofala, Tete, etc, que sim, foram feitas nos tempos das rotas da Índia (de que LM nunca fez parte). Mas, pronto, tem um ar “vintage” colonial e, mais importante, tinha um átrio porreiro para se pôr o cavalo do Mousinho a olhar para a cara do António Enes.

Estes tiques das elites no poder são perfeitamente entendíveis. No tempo dos faróes egípcios, quando havia um que tinha sido por alguma razão percepcionado como um grandessíssimo cabrão, o que vinha a seguir mandava apagar das inscrições de pedra a sua cara, o seu nome e descrições dos seus feitos. Supostamente, era como se não tivesse existido nunca. Quatro mil anos depois, estes “black holes” eram perfeitamente identificados e reconstruídos. É uma chatice, esta mania de uns quererem os factos, e outros quererem os factos que querem, uma espécie de história feita por encomenda.

Felizmente, daqui a duzentos anos ninguém em Moçambique se vai lembrar deste episodiozito e antecipo que, sem dor nem remorso, os moçambicanos de então recordarão com a indiferença que o tempo causa, e aproveitarão o tal património que resta (sendo o único que se me afigura como inapagável a velha Lourenço Marques) para atrair turistas e contar estórias coloridas. Para suprema irritação de alguns dos presentes, na velha língua dos portugueses.

O nosso Senador, como é costume e usando da sua poderosa e abundante verve sociológica, discordou logo e despachou-me socraticamente: “discordo que [a fortaleza de Maputo]seja uma “fraude” no sentido de dar uma autenticidade genética aos monumentos.”

Hã?

Dado que ontem tive que andar a correr nos meus ficheiros à procura dos postais da velha câmara Municipal de Lourenço Marques para outro texto, por acaso cruzei-me com umas fotografias da “fortaleza” e um magnífico texto creio que da pena do Sr. Pedro Nunes, num blogue chamado Moçambique Multimédia, (que copio desavergonhadamente e com vénia até ao chão)  e que creio que passam da opinião meramente verbal para algo um pouco mais condicente com o que eu referi há um ano e meio atrás.

Mas antes do que se segue um brevíssimo comentário: Moçambique tem uma grande história e da melhor e mais esplêndida arquitectura militar portuguesa em quase todo o mundo. Menciono aqui a da Ilha de Moçambique, e há mais algumas espalhadas por aí. Tudo do mais genuíno que há.

Bom para o turismo.

Então vamos lá. Refere o Sr. Pedro Nunes:

Em diagonal à velha Casa Amarela é a Fortaleza Nova do Presídio, reconstruída em 1940 sobre o alicerce da primitiva. Que aliás nunca existiu, capaz e completa em qualquer tempo.Entra-se, e é um pequeno museu de sugestivas antiguidades históricas.Artilharia velha na parada, armas e peças no quartel da entrada á direita, epígrafos e pedras de armas arrancadas ás fortalezas do Norte e postas nas paredes do quartel da esquerda, com restos dum arco e pilastras de Sofala (1506), relíquias de arte sacra noutra ala em que se guarda a primitiva imagem de Nossa Senhora da capela do Presídio ( que data de 1819), retratos, bustos, espadas e recordações de grandes figuras históricas noutra sala e na caserna em frente os restos da vida quotidiana de outros tempos.

Fora plantas, desenhos e fotografias de sítios e coisas antigas.Conjunto eloquênte, acima de tudo simbólico, a principiar na Fortaleza reconstruída no alicerce primitivo, com imaginação e estilo, e poderosamente sugestiva. A falta mais sensível será,além de não ser verdadeira, não ter agora o flanco sul metido ao rio, com água pelo rodapé da muralha enterrada funda na praia, mas isso é culpa antiga dos aterros do começo do século XX e das grandes obras que já haviam modificado e acrescentado a Fortaleza para a fazer Quartel de Caçadores, e depois Capitania dos Portos, com casas à frente e alcândoradas nos baluartes e nas cortinas. Qualquer semelhança que possa haver entre a fortaleza atual, bonita como um brinquedo, e a realidade histórica, é, pois, pura imaginação.Durantes décadas seguidas o problema máximo da terra foi sempre acabar-se a fortaleza, isto é, transformarem-se em alvenarias as barracas, as palhotas e a estacada, fazer-se ao menos de pedra vermelha barrada a cal, em amarelo ou branco, o segundo baluarte, com pequenas ameias abertas no murinho estreito.

Sede de todos os embrionários serviços públicos da povoação, a fortaleza velha, á medida que perdeu o valor militar por ter passado a defesa para a orla do Presídio, foi-se rodeando de “acrescentos” encostados ás muralhas aproveitadas para paredes, e, transformadas as casernas em quartos com alpendres, ninhadas de crianças a brincar pela extinta parada, arames de roupa estendida ao sol em toda a parte, parecia a irreconhecível fortaleza uma típica Ilha do Porto, a quem nem sequer faltava o ambiente castiço dos marítimos da capitania a gozar a folga, exibindo-se nas preguiçosas cadeiras de lona em calças velhas e camisola interior.A restituição foi ao menos um ato de justiça elementar, com as conjecturas possíveis.

Mas os portugueses ficaram, embora fossem morrendo, uns atrás dos outros, governadores, oficiais e soldados.Adaptava-se cada um como podia com os velhos instintos da “Lusotropicalidade”. A verdade é que a “Feitoria da Sociedade dos negociantes da Baía de Lourenço Marques”crescia em Delagoa – designação internacional que a terra tinha.E foi assim que a cidade principiou, com dezesseis pessoas apenas.Construiu-se o Armazém Real,com a cal conduzida, provavelmente, da barreira de conchas que existe na margem do Rio Matola..Eram negros, além do pedreiro, o carpinteiro que fez as portas assim como o ferreiro de Inhambane que fabricou as ferragens,e o calafate que consertava a lancha do Estado.

A iluminação dos quartéis era com azeite de baleia, fabricado nas praias da baía pelos baleeiros Ingleses e Americanos.Quem tratava dos doentes era um curandeiro Landim, que, por cada soldado que curava recebia de pagamento uma capulana. De vez em quando entrava um navio estrangeiro que trocava qualquer coisa por marfim, pois o barco de viagem só chegava de ano a ano, e ás vezes naufragava.
Assim ia a vida em Lourenço Marques no começo do século XIX, ao principiar o estabelecimento miserável que é hoje a cidade encantadora, fascinante e requintada.

Antes das fotografias, há ainda mais uma coisa que acho piada mas que é essencialmente um segundo e delicioso barrete e que é…..(ta-raaam)

O ENFORCAMENTO DO GOVERNADOR RIBEIRO DIONÍSIO NA ÁRVORE

Dionísio António Ribeiro foi um governador de Lourenço Marques. “Governador de Presídio”, isto é, o que significava que governava principalmente a si próprio, pois então não havia nada de nada no local a não ser uma palhotas.

Isto até ter perturbado os poderes locais, que o prenderam e o executaram. Ponho o cargo dele acima entre aspas porque, se se ler a pouca literatura que existe sobre o assunto, o homem era mais um habilidoso pulha vigarista malcheiroso negociante de banha da cobra que basicamente fazia uns biscates para o governo português, o que era pouco ou nada (leia-se o Lobato e o Fernandes).

Ribeiro, que, ao que se entende dos relatos, naquela altura era o que hoje se pode chamar em Maputo um “empresário local de sucesso”, tentou forçar a sua sorte nos negócios usando o seu então recente e dúbio título de “Governador de Presídio” (a edificação em si era uma inegavelmente nojenta e destituta espelunca) e as poucas munições de que dispunha, para tentar extorquir concessões das tribos locais, de que se menciona os Maxaquenes.

Ora, uns dissidentes do Sr. Shaka Zulu (nada menos) liderados pelo Sr. Manicusse (ou Soshangane, nunca acerto nestes nomes) que por acaso passaram por lá enquanto fugiam dos homens do Sr. Shaka Zulu, deram-lhe cabo do canastro, derrubaram mais uma vez o “presídio” e foram para mais ao Norte, arrasando e conquistando tudo e todos pelo caminho (menos os Chopes, não me perguntem porquê) para fundar o mais tarde chamado Império de Gaza.

O Manicusse lá em cima, foi o que foi pai de Muzila, que foi pai de Gungunhana. Também havia monarquia cá.

Conto este episódio porque se os exmos Leitores forem ver na internet hoje em dia menções sobre a Fortaleza de Maputo, quase todas vêm com uma colorida chachada sobre uma “lenda” em que refere que Dionísio Ribeiro (após supostamente ter sido arrastado da “fortaleza” pela porta…) foi enforcado pelos funcionários do Sr. Manicusse numa velha árvore hoje situada mesmo em frente à entrada Poente da actual “fortaleza”. Isto tudo em 1883.

E que a “fortaleza foi atacada e a guarnição dizimada”.

Ai sim?

Bem, de facto, há aqui uns pequenos problemas.

O primeiro problema é que o episódio de Dionísio Ribeiro ocorreu cinquenta anos antes, ou seja em 1833, não em 1883, mais ou menos na altura em que os Suázis e os Zulus andaram pelo que é hoje o Sul de Moçambique a matar e a arrasar tudo e mais alguma coisa.

Há quem diga que deve ter sido em parte resultado do aquecimento global versão século XIX: para além do Sr Shaka Zulu, claro, que não era para brincadeiras, naquela altura uma grande parte de Moçambique atravessou uma das piores secas de sempre, quase dez anos seguidos, o que causou todo o tipo de problemas entre as populações, de entre os quais o colonialismo era provavelmente o menos importante. Muita gente morreu de fome e houve muito milando porque as populações tiveram que ir à procura de água e de comida.

Ribeiro terá sido morto mais precisamente, no dia 13 Outubro de 1833.

Eu sei que isto da data pode parecer uma gralha, mas pelos vistos a gralha já se espalhou de tal maneira que a ficção tornou-se a realidade. E agora até já temos o neto de Soshangane a matar o Dionísio, cinquenta anos depois de ele ter sido morto pelo avô.

Segundo, antes que se invente uma heróica investida na “fortaleza”, na verdade Dionísio Ribeiro foi capturado quando estava a tentar fugir numa barcaça da Ilha Xefina (pois que a “fortaleza” não aguentava com três homens a atirar pedras, nem tinha uma “guarnição” por assim dizer).

Terceiro, antes que se faça disto mais um daqueles episódios de resistência proto-nacionalista moçambicana contra os tugas de então (pois pelos vistos só havia dois em LM, e ainda por cima odiavam-se) os registos indicam que todo o episódio não passava, na realidade, de uma teia de tricas entre ele, um outros tugas rivais dele chamados Vicente e Nobre, e o Governador provincial, que estava no conforto do seu palácio lá na Ilha de Moçambique*.

Tiveram foi azar, pois Soshangane também não era para brincadeiras.

Finalmente, e não menos importante: em 1833 a veneranda árvore não existia no local para se poder lá pendurar o desgraçado do Ribeiro.

Não estava lá.

Ok.

Vamos então às fotografias, cortesia da Casa.

Não se esqueça: para ver melhor prima nas fotos para ampliar.

A "fortaleza", fim do séc. XIX. Sim, é "aquilo" à direita. Se o exmo. Leitor ampliar a foto verá os canhões a apontar para a baía. Aquilo à esquerda da "fortaleza" é um pontão de terra.

A "fortaleza" vista de poente no mesmo dia. É o que está directamente em frente ao exmo. Leitor, incluindo a cabana à direita. Pode-se ver o mastro meio dançante, onde creio estar uma bandeira

Uma nota de rodapé: entre a foto em cima e a que se segue, houve extensíssimos trabalhos de aterramento na cidade, em que se puxaram as areias das barreiras (que caiam abruptamente sobre a baía, tal como ainda se vê hoje na Catembe) e se aterrou a baía para o local em que se encontram hoje.

Uma consequência desses trabalhos é que a esquina da “fortaleza” que havia até há uns 110 anos no que é hoje a baixa de Maputo, e que nas duas primeiras fotos está directamente em cima da baía, agora está a uns cem metros da água.

Veja-se:

Nesta fotografia já se nota muito da actual Maputo. Mas se o exmo Leitor olhar atentamente, nesta precisa foto a "fortaleza" ainda está no seu estado original, tal como se vê nas fotos em cima, mas dentro de terra uns cem metros e atrás do então edifício da Capitania Buildings, que o ofuscava

Nesta foto, tirada já depois da II Guerra Mundial, a "fortaleza" foi "reconstruída" em pedra da Ponta Vermelha, fachada que basicamente nunca na vida teve, e com aquelas ameias óptimas para os miúdos brincarem, canhões, placas centenárias na parede, etc. Tudo ficção.

Aquilo no fundo foi um pouco como o que parece que os Aga Khans fizeram ao Hotel Polana agora. Oops: Polana Serena Hotel Maputo.

Após o derrube (criminoso) dos Capitania Buildings e uns trabalhos de jardinagem, a "fortaleza" assume o seu esplendor, aqui cerca de 1973. Boa para enganar os boers que vinham passear até à cidade

Portanto, exmo. Leitor, goze a Fortaleza de Maputo e lembre-se: se quiser, com um bocado de dinheiro, pode sempre construir o seu próprio passado.

O Vasco da Gama empedrado entretanto deve continuar esquecido lá no quintal do Conselho Municipal de Inhambane.

* ver Alexandre Lobato, “A Invasão Vátua de Lourenço Marques em 1833”, em Quatro Estudos e Uma Evocação para a História de Lourenço Marques (Estudos Moçambicanos, Junta de Investigações do Ultramar, 1961) pp. 119-140.

06/10/2010

O ANÚNCIO DA REPÚBLICA EM LOURENÇO MARQUES, 1910

A república foi proclamada no dia 8 de Outubro de 1910 - no mesmíssimo edifício em que Dom Luiz Filipe lançara a primeira pedra três anos antes

por ABM (6 de Outubro de 2010)

Ontem referi a curta visita do herdeiro da coroa portuguesa a Moçambique em 1907.

Agora, a república.

Em cima, uma imagem do que terá sido o acto de proclamação do regime republicano em Lourenço Marques.

Logo a seguir, a actual Av. 25 de Setembro, que era uma língua que acabava mais ou menos em frente ao Hotel Tivoli, e se chamava Avenida Dom Carlos, levou com uma actualização toponímica súbita e revolucionária e passou a chamar-se, até a Frelimo vir tomar conta do pagode em 1975, Avenida da República.

Como o exmo. Leitor pode atestar, os bons costumes são para seguir.

E já agora, havendo algumas dúvidas existenciais ou residuais quanto a onde se localizou realmente a primeira Câmara Municipal de Maputo (construída de raíz, já que o município já existia há mais que trinta anos lá para 1910), aqui deixo umas fotografias da época da minha pequena colecção.

O edifício ainda existe e fica situado mesmo em frente à sede do Grupo Desportivo de Maputo.

Pessoalmente, apesar de praticamente viver no Desportivo, só estive à porta do edifício quando era miúdo aquando do julgamento dum tal Zeca Russo (lembro-me muito mal dos detalhes), em que fiquei não sei quanto tempo pendurado numa árvore juntamente com uma série de miúdos, para ver o homem, que era uma espécie de celebridade local.

Tudo isto dedico ao meu caro Sr. Machado da Graça, como eu um apreciador da grande capital moçambicana e da sua história.

Pode ser que nada disto tenha qualquer interesse para a maior parte das pessoas, mas fica aqui o registo.

A CMLM num postal do Lázarus

A CMLM vista de cima das barreiras. Ao lado vê-se o paiol, que foi à vida uns anos depois

O edifício visto do outro lado. Repare-se onde era a praia. Tudo foi mais tarde com terras arrastadas das barreiras

Esta está num dos álbuns do Rufino e tem a cara do presdiente da Câmara na altura, que era lá para 1928

30/09/2010

POLANA FOREVER

O hotel nos tempos da outra senhora

por ABM (29 de Setembro de 2010)

É oficial. Diz a nota de imprensa que recebi hoje:

Após 21 meses de obras profundas, orçadas em 25 milhões de dólares, o Polana Serena Hotel reabriu, posicionando-se como um hotel de cinco estrelas de luxo e dando o seu contributo para o crescimento económico e social de Moçambique.

Detido pelo Aga Khan Fund for Economic Development (AKFED), o Polana Serena Hotel renasceu no início deste mês, reabrindo as suas portas após profundas obras de reabilitação que lhe restituíram o esplendor, luxo e glamour dos seus tempos áureos.

Mantendo-se a histórica fachada, todo o hotel foi intervencionado, incluindo entrada, lobby, bar, salão de baile, restaurantes, quartos e bar.

O Polana Serena Hotel conta agora com um total de 142 quartos e complementa-se, entre outras facilidades, com dois restaurantes, dois bares, sendo um deles, o Aquarius Bar, separado do edifício do hotel, e o salão polivalente.

Fico contente com o esforço da organização e rezo que a reabilitação não tenha tornado o Polana numa piroseira como as outras. Só vendo. Mas a 82 euros o visto vai ter que esperar até ter que ser mesmo.

E eu não sei se o exmo. Leitor reparou na pequena dislexia conceptual cometida logo no início do texto: aquela em que diz que o Polana se posicionava “como um hotel de cinco estrelas de luxo” da capital.

Ora vamos lá a ver.

Pensava que os dois conceitos queriam dizer a mesma coisa.

Pode-se ser um hotel de luxo sem ser de cinco estrelas?

Pode-se ser de cinco estrelas sem ser de luxo?

Enfim, não se pode reclamar.

Afinal, quem acabou de gastar 25 milhões de dólares em renovações num hotel de cinco estrelas de luxo se calhar já não tem dinheiro para pagar a alguém que faça um pequeno texto a dizer que acabou de gastar 25 milhões num hotel de cinco estrelas de luxo.

03/09/2010

A CIDADE IDEAL

por ABM (3 de Setembro de 2010)

A propósito de algumas reverberações mentais no que concerne aquilo a que os anglos chamam urban politics, aplicado agora à realidade maputiana, será se calhar apropriado reproduzir um interessante comentário duns tais Srs. F. Floris e D. Moschetti, (grato ao meu amigo V) intitulado despudoradamente Bairros da Lata: Vulcões prestes a Explodir e que apareceu em Novembro de 2008 no misterioso sítio dos Irmãos Combonianos, que se reproduz com vénia (mas que pode ser lido na fonte).

Pensando bem, é de facto um elegantíssimo exercício de delicadeza verbal lusofónica (ou um fenómeno cultural por si só?) chamar-se “cidade do caniço” aos crescentes bairros da lata em redor da Maputo de cimento. Onde permanecem por esclarecer as regras de avanço de uma e de recuo da outra.

Não subscrevo tudo o que aqui vai, mas creio que no conjunto é um sóbrio convite à reflexão.

Então cá vai:

O êxodo rural, as calamidades naturais e a crise económica global estão a fazer aumentar assustadoramente a população urbana pobre, sobretudo nos países a sul do mundo. Com habitantes a viverem na incerteza e na precariedade, sem oportunidades reais, os bairros-de-lata configuram-se como vulcões prontos a explodir a qualquer momento e pretexto.

Em África a população das grandes cidades aumentou 10 a 12 vezes entre 1960 e 2005. Este incremento não esteve associado a um desenvolvimento económico correspondente. Pelo contrário: o produto interno bruto (PIB) diminuiu 0,66 por cento ao ano. Contudo, as cidades em África jogam um papel crucial no crescimento económico nacional. Hoje, em geral, a taxa anual média de crescimento da população africana anda à volta de 4 por cento, enquanto o das grandes cidades atinge 8 por cento, e não são casos excepcionais os de cidades que crescem 10 por cento ou mais, especialmente em regiões onde o êxodo rural se acentua devido a calamidades naturais ou fenómenos ligados ao desenvolvimento desigual do território.

Miragem

Além disso, a taxa de crescimento populacional em instalações urbanas precárias e marginais é por vezes superior a 25 por cento ao ano. Anualmente, mais de 5 milhões de africanos procuram uma nova residência nas periferias das cidades. A grande maioria da nova população urbana parece destinada a sobreviver na total incerteza, na precariedade, na procura, destituída de oportunidades reais, de uma melhoria das suas condições de vida, à margem da «grande miragem» representada pela cidade moderna. Escreve Peter C. W. Gutkind, autoridade de renome mundial no campo da antropologia urbana, falecido em 2001: «As cidades da África são, na maioria, novas. O seu nascimento é fruto da colonização que modelou a estrutura urbana com base em modelos não africanos, que favorecem um modo de vida completamente diferente e alheio à realidade local.» O resto fê-lo a incúria para com as zonas rurais – falta de investimentos e de apoio à economia familiar e de políticas tendentes à protecção dos solos – e a ausência de investimentos na construção civil popular nas cidades.

O primeiro factor, isto é, a falta de projectos tendentes a proteger as áreas rurais, provoca a fuga das aldeias e determina a decisão de procurar algures um lugar onde satisfazer as necessidades que a vida nas aldeias não satisfaz. Esta procura concentra-se na única alternativa possível: a cidade. Assim, a presença de um sistema urbano inarticulado implica e favorece a concentração de populações em pouquíssimos centros, que têm de acolher fluxos relevantes de gente.

Bairros-de-lata

É um «crescimento urbano sem cidade» que dá origem aos famigerados «slums», os bairros-de-lata: espaços autoconstruídos em terrenos do Estado, sem que haja um único tijolo, uma única viga de ferro e um único metro quadrado de vidro. «Nos países em vias de desenvolvimento», recorda-nos o professor Claudio Stroppa, «a dissolução da estrutura agrária agrava o êxodo dos camponeses sem terra; os bairros-de-lata acolhem-nos e desempenham um papel de mediação entre cidade e campo. Os bairros-de-lata muitas vezes consolidam-se e oferecem aos seus habitantes um “sucedâneo” da vida urbana, porventura miserável, mas muito intensa.»

Os efeitos destas contradições são evidentes na expansão das cidades. Trata-se de espaços complexos, onde estão presentes muitos dos contrastes que caracterizam a vida do planeta. Trata-se de cidades divididas por numerosas fronteiras, cujo simples atravessamento produz o sentido de passagem de uma fronteira a outra. Mas são fronteiras não simplesmente físicas: para entrar nos slums passa-se pela «fronteira do medo», enquanto para aceder aos bairros ricos se atravessa a «fronteira do bem-estar».

As cidades assim fragmentadas, em vez de serem lugares de encontro e de integração entre grupos sociais diferentes pelo nível económico, cultura e proveniência, transformam-se numa espécie de arquipélago constituído por muitas ilhas, marcadas pela qualidade das suas construções, pela presença (ou ausência) de infra-estruturas e serviços, pelas maiores ou menores condições de segurança.
Obviamente, as ilhas comunicam, os seus habitantes entrelaçam relações, e uma chave de entrada de uma ilha a outra é a conveniência económica, capaz de instituir relações e níveis de comunicação. Os ricos precisam de mão-de-obra barata e os pobres precisam de trabalhar. Nascem, assim, os intercâmbios, as subempreitadas, o fornecimento de serviços, o comércio nos slums de produtos industriais. Protagonista deste fluxo é o sector informal da economia, capaz de gerar postos de trabalho, riqueza e capacidade de poupança para a maioria dos habitantes das residências informais.

Confrontações

As ilhas vivem lado a lado e, no dia-a-dia, por vezes confrontam-se. Mas apresentam aspectos fortemente contrastantes: há island cities, «cidades-ilhas» ricas, do Primeiro Mundo, e outras pobres, do Terceiro Mundo. De um ponto de vista estético, o moderno arranha-céus e a barraca são os símbolos de cidades-arquipélagos, como Nairobi, Joanesburgo e Rio de Janeiro.

As island cities vivem em dois níveis. Uma parte «está no alto», ligada economicamente com o resto do mundo, porque a tecnologia que sustenta a rede global permite trabalhar e comunicar via éter. Esta parte do arquipélago está acima da outra e, muitas vezes, comunica mais em sentido horizontal, com as distantes cidades do mesmo nível, do que verticalmente, com o resto da própria cidade. A parte pobre do arquipélago, pelo contrário, está fortemente ligada à terra, porque luta diariamente para pertencer a essa terra, quer ocupando as estradas com os trabalhos informais, quer construindo a sua casa, geralmente pequena, pelo menos ao início, para poder ser edificada no menor espaço de tempo possível.

Na África Subsariana, na América Latina, no Médio Oriente e em algumas regiões da Ásia, a urbanização sem crescimento é também o resultado de uma conjuntura mundial específica – a crise da dívida do fim dos anos 70 e a reestruturação das economias em vias de desenvolvimento sob a égide do Fundo Monetário Internacional (FMI) nos anos 80 – e não tanto do êxito sabe-se lá de que lei coerciva do progresso tecnológico.

Explosão

A explosão dos bairros-de-lata foi analisada pelo relatório das Nações Unidas de 2003, The Challenge of Slums, «O desafio dos bairros-de-lata». O texto, o primeiro autêntico estudo a nível mundial sobre a pobreza urbana, compreende inteligentemente diversas sondagens locais, de Abidjão a Sydney, e estatísticas globais que incluem, pela primeira vez, a China e os países do antigo bloco soviético. O relatório lança uma advertência sobre a ameaça planetária da pobreza urbana. Os autores definem os bairros-de-lata como espaços caracterizados por sobrepovoamento, habitação precária ou informal, reduzido acesso à água corrente e aos serviços de saneamento, vaga definição dos direitos de propriedade.

Trata-se de uma definição pluridimensional e, em parte, restritiva, na base da qual se calcula, contudo, que a população dos bairros-de-lata atingia em 2001 pelo menos a 921 milhões de pessoas. Hoje os habitantes destes aglomerados representam 78,2 por cento da população urbana dos países menos desenvolvidos e um sexto dos cidadãos do planeta. Considerando a estrutura demográfica da maior parte das cidades do Terceiro Mundo, pelo menos metade desta população tem uma idade inferior a 20 anos.

A taxa mais elevada de habitantes de bairros-de-lata regista-se na Etiópia e no Chade, com 99,4 por cento da população urbana. Seguem-se o Afeganistão, com 98,5 por cento, e o Nepal, com 92 por cento. Todavia, as populações urbanas que mais se encontram na miséria são certamente as de Maputo (Moçambique) e Kinshasa (R. D. Congo), onde o rendimento de dois terços dos habitantes é inferior ao mínimo vital diário. Em Nova Deli, os urbanistas deploram a existência de «bairros-de-lata dentro de bairros-de-lata»: nos espaços periféricos, à histórica classe pobre da cidade expulsa em meados dos anos 70 acrescentam-se recém-chegados, que colonizam os últimos espaços livres. No Cairo, Egipto, os que chegam agora ocupam e arrendam partes de habitações sobre os tectos, gerando novos bairros-de-lata «suspensos no ar».

População subestimada

A população dos bairros-de-lata é muitas vezes subestimada, por vezes em grandes proporções. No final dos anos 80, por exemplo, Banguecoque, a capital da Tailândia, tinha uma taxa oficial de pobreza só de 5 por cento, mas alguns estudos demonstravam que um quarto da população, o equivalente a 1,10 milhões de pessoas, vivia nos bairros-de-lata e em habitações de risco.

Existem mais de 250 mil bairros-de-lata no mundo. As cinco grandes metrópoles da Ásia do Sul (Carachi, Bombaim, Deli, Calcutá e Dacca) albergam quase 15 mil zonas urbanas tipo do bairros-de-lata, para uma população total de mais de 20 milhões de pessoas. Os habitantes dos bairros-de-lata são ainda mais numerosos nas costas da África Ocidental, enquanto imensas urbanizações de pobreza se estendem até à Anatólia e aos planaltos de Etiópia, envolvem as zonas aos pés dos Andes e dos Himalaias, proliferam à sombra dos arranha-céus da Cidade do México, Joanesburgo (África do Sul), Manila (Filipinas), São Paulo (Brasil) e colonizam as margens do rio Amazonas, do Congo, do Níger, do Nilo, do Tigre, do Ganges, do Irrawaddy e do Mekong.

Os nomes do «planeta-bairros-de-lata» são todos intercambiáveis e, ao mesmo tempo, únicos no seu género: bustees em Calcutá, chawl e zopadpatti em Bombaim, katchi abadi em Carachi, kampung em Jacarta, iskwater em Manila, shammasa em Cartum, umjodolo em Burban, intra-muros em Rabat, bidonville em Abidjão, baladi no Cairo, gecekondou em Ancara, conventillos em Quito, favelas no Brasil, villas miséria em Buenos Aires e colónias populares na Cidade do México.

Um estudo recente, publicado pela «Harvard Law Review», calcula que 85 por cento dos habitantes das cidades do Terceiro Mundo não possui nenhum título de propriedade legal. Está em acto uma contradição estridente, porque o terreno onde crescem os slums é de propriedade dos governos, enquanto as casas construídas são de propriedade de poucos que impõem rendas puxadas aos pobres urbanos, os quais não possuem sequer a barraca em que vivem.

Dependência

As formas de instalação dos bairros-de-lata são muito variáveis: desde as invasões colectivas da Cidade do México e Lima aos complexos e muitas vezes ilegais sistemas de arrendamento dos terrenos na periferia de Pequim, Carachi e Nairobi. Em algumas cidades, por exemplo em Nairobi, o Estado é formalmente proprietário da periferia urbana, mas a especulação fundiária permite ao sector privado realizar enormes proventos à custa dos mais pobres. Os aparelhos políticos, nacionais e regionais, contribuem para este mercado informal – e para a especulação fundiária ilegal – e conseguem inclusive controlar as vassalagens políticas dos habitantes e explorar um fluxo regular de rendas e luvas. Destituídos de títulos de propriedade legais, os habitantes dos bairros-de-lata são obrigados a uma dependência quase feudal com relação aos políticos e burocratas locais. A mínima infracção à legalidade clientelar resolve-se com a expulsão.

A oferta de infra-estruturas, pelo contrário, está longe dos ritmos de urbanização, e os bairros-de-lata muitas vezes não têm qualquer acesso ao saneamento e aos serviços do sector público. E todavia, apesar de serem locais que se definem em termos de ausência – aquilo que não têm diz o que são –, os slums atingirão os 2 mil milhões de habitações em 2030, porque representam a única solução habitacional para a humanidade em excesso do século XXI.

Os bairros-de-lata poderão transformar-se em vulcões prestes a explodir? E os habitantes poderão transformar-se em sujeitos políticos capazes de «fazer história»? Muito dependerá da capacidade de desenvolver uma cultura de organização colectiva, mesmo se, como explicava Kapushinski, «os pobres, normalmente, estão calados. A miséria não chora, não tem voz. A miséria sofre, mas sofre em silêncio. A miséria não se revolta. De facto, os pobres só se insurgem quando pensam poder mudar alguma coisa». Saberemos ser parte desta mudança?

Amontoados nas cidades

Durante este ano de 2008, a população urbana terá superado a população rural. O processo de urbanização do planeta desenvolveu-se mais rapidamente do que o previsto pelo Clube de Roma no famoso estudo «Os limites do crescimento» publicado em 1972. Em 1950 existiam no mundo 86 aglomerados urbanos com mais de um milhão de habitantes. Hoje são 400. E calcula-se que, no ano 2015, serão 550. Desde 1950, os centros urbanos absorveram dois terços da explosão demográfica do mundo. Hoje os números da população urbana (3200 milhões de pessoas) ultrapassam os do conjunto da população mundial em 1960.

As previsões indicam que 95 por cento do crescimento da humanidade terá lugar nas zonas urbanas dos países emergentes. A população destes países deverá duplicar no curso da próxima geração. Este crescimento será liderado por países como a China, a Índia e o Brasil. A característica mais espectacular desta evolução será o multiplicar-se das cidades com mais de oito milhões de habitantes e o impacto das megacidades com mais de 20 milhões de habitantes. Na Ásia, por exemplo, em 1995 só Tóquio tinha atingido estes níveis de urbanização. Mas calcula-se que em 2025 só na Ásia haverá mais de 10 aglomerados urbanos destas dimensões, entre eles: Jacarta, na Indonésia, que terá uma população estimada em 24,9 milhões de habitantes; Dacca, no Bangladesh, que terá uma população de 25 milhões; Carachi no Paquistão com 26,5 milhões de habitantes; Xangai, na China, com 27 milhões; Bombaim, na Índia, com 33 milhões.

Mas a urbanização não dirá respeito só às megacidades. O crescimento urbano acentuar-se-á sobretudo nas cidades pequenas e médias, zonas urbanas secundárias, muitas vezes a acrescer sem planificação e serviços adequados. A China é o exemplo desta urbanização: o número das cidades passou de 196 em 1978 para 640 em 2008. Também na África, o crescimento explosivo de grandes cidades como Lagos, na Nigéria (que passou de 300 mil habitantes em 1950 para os 10 milhões de hoje) foi acompanhado pelo crescimento de pequenos aglomerados urbanos, como Ouagadougou no Burkina Faso, Douala nos Camarões, Antananarivo no Madagáscar. Na América Latina, enquanto antes o crescimento urbano foi monopolizado pelas grandes urbes, hoje são as cidades pequenas a crescer mais, como Tijuana no México, Curitiba, Salvador e Belém, no Brasil, Temuco no Chile. Na China, o êxodo da população rural para as cidades é determinado por uma revolução industrial e um processo de transformação social em acto. Mas em muitos dos países do Sul o processo de urbanização é alimentado por outras causas e não é acompanhado pela industrialização nem por qualquer outra forma de desenvolvimento e de promoção social.

02/09/2010

AS GUERRAS DO PÃO

por ABM (2 de Setembro de 2010)

A propósito do que se está a passar estes dias em Maputo.

Tenho vindo desde há uns meses, nesta casa, a realçar, por um lado, a periclitância, em aspectos cruciais, do “milagre económico” moçambicano, especialmente no que concerne o cidadão e consumidor médio moçambicano.

Por outro lado, tenho manifestado alguma estranheza pelo facto de, apesar de se prever e ser perfeitamente expectável um recrudescer na taxa de inflação – que tem um efeito económico corrosivo e um impacto político explosivo na população em geral – de facto a imprensa e os agentes políticos, em vez de dizer, preto no branco, que se avizinhava um período de dificuldades e de sacrifício, quer uma parte crítica da imprensa, quer o discurso oficial e oficioso, consistentemente focava na “história de sucesso” da economia moçambicana, com correspondentes associações à eliminação da pobreza e a um número quase infinito de investimentos (privado estrangeiro, governamental estrangeiro, governamental nacional, donativos, “cooperação” etc).

Ora, excluindo os chamados mega-investimentos, se até ao final do ano transacto se assistiu a uma crescente asfixia nos factores de base que definem a economia moçambicana, esse contexto agudizou-se muito significativamente no primeiro semestre do ano.

Como era de esperar, o metical desvalorizou significativamente, seguido por uma pressão insustentável nos preços dos alimentos e energia. O custo do dinheiro (na forma de taxas de juro) subiu e, mais grave no contexto actual, a menor liquidez na economia, quer em meticais (em pouco assistida pela recente emissão de obrigações do tesouro moçambicano) mas especialmente em dólares, coloca novos desafios aos agentes económicos, incluindo as instituições financeiras, neste momento na parte final da maior expansão creditícia da história económica do país.

No fim do dia, a equação macroeconómica é simples e conhecida de todos: 1) o país continua a importar muito mais do que exporta, 2) continuam a haver consideráveis obstáculos ao investimento privado estrangeiro, 3) permanecem os desafios enormes de se encontrar alimento e emprego para uma população pouco habilitada, rural ou recentemente urbanizada.

No entanto estas não foram causas directas das perturbações de ontem e de hoje em Maputo.

A maioria da população moçambicana, que vive nas zonas rurais e cultiva o que come, é relativamente imune a eventuais oscilações nos preços dos alimentos.

O mesmo não acontece com as populações urbanizadas, especialmente em Maputo, onde a maioria dos residentes da cidade e arredores não tem a possibilidade de, por exemplo, manter um emprego na cidade e uma machamba para obter alimento.

Como em qualquer cidade, têm que pagar renda, água, luz, comida e transporte.

Ora, como é sabido, o custo destes factores acabou de aumentar significativamente, sendo que, presume-se, os salários auferidos pela maioria da população não acompanharam a taxa da inflação.

De entre estes, o mais politicamente sensível é o preço do pão, que constitui um pilar da alimentação, especialmente entre os cidadãos mais pobres.

Especialmente os que vivem nas cidades e em seu redor.

Creio que é neste contexto global que se criaram as condições para que uma camada da população se sinta autorizada para agir da forma como se tem observado.

Este é um problema sério que vai ter que ser resolvido.

Gostava de recordar aos exmos leitores que infelizmente não há aqui novidade. Há precedentes para este tipo de situação. Um dos mais terríveis ocorreu na União Soviética nos anos 30, quando o ditador Estaline, para manter o pulso nas cidades, mandou brigadas para o mato que obrigavam os agricultores a entregarem-lhe as suas colheitas para alimentar as cidades, tendo milhões de agricultores morrido de fome como consequência.

E é interessante recordar as chamadas Lutas do Pão em Portugal continental nos anos 20 do século passado. Um interessante e elucidativo artigo de Jofre Alves sobre o assunto dá detalhes sobre como foi e permitirá ao exmo. Leitor estabelecer alguns paralelos com o que se passa em Maputo.

Esta não é a única leitura dos eventos de Maputo ontem e hoje, em que já se lamentam várias mortes e perto de uma centena de feridos.
Alguns jornais de Maputo hoje editorializavam furiosamente, apontando o dedo ao poder político (que por sua vez, reduz o fenómeno ao oportunismo de meia dúzia de mal intencionados) ou ainda às disparidades sócio-económicas visíveis em Maputo.

Não ajuda que a geografia da cidade de Maputo, na ausência de acções concertadas por parte das autoridades policiais, permita que literalmente meia dúzia de pessoas consigam fácil e rapidamente selar a cidade e colocá-la quase sob estado de sítio.

24/04/2010

O NOVO CENTRAL PARK DE MAPUTO


por ABM (24 de Abril de 2010)

Armando Guebuza anunciou ao mundo ontem que um dos maiores espaços ainda verdes à volta da cintura da cidade de Maputo, chamado o paiol de Malhazine, será fechado e convertido num parque e jardim com 600 hectares.

Este espaço fica situado quase directamente a Norte da cidade para quem vai pelo Bairro da Coop acima, à direita da Avenida de Moçambique.

Após décadas em que os parques da cidade foram abusados, menosprezados e até confiscados, eis uma medida extremamente positiva e com enorme impacto para o futuro da cidade. A governância está de parabéns.

No Google Earth, o futuro parque tem o aspecto que se pode ver acima.

01/04/2010

A NOVA TOPONÍMIA DE MAPUTO

Filed under: Maputo, Nova Toponímia de Maputo, Politicamente Correcto — ABM @ 9:33 pm

por ABM (Alcoentre, 1 de Abril de 2010)

Esta coisa de mudar os nomes às coisas em partes de África é uma festa que não acaba.

Alguns exmos Leitores não devem ter reparado que há uma semana, pela Resolução 20/AM/2010, a Assembleia Municipal de Maputo mudou os nomes de todos os distritos municipais de Maputo.

Assim, o DM1 passou a chamar-se Kapfumo, o DM2 passou a chamar-se Nlhamankulo, o DM3 KaMaxaquene, o DM4 KaMavota, o DM5 KaMubukwana, o DM6 Ka Tembe e o distrito da Inhaca KaNyaka.

Confesso que nem suspeito quais eram os nomes anteriores. Nem quais as implicações para os nomes (tradicionais?) das localidades afectadas.

Eu também gostava de mudar os nomes dos sítios por onde pairo em Portugal. Mas ninguém me deiixa mudar o nome de Cascais e no caso de Alcoentre, pesem as implicações anatómicas subjacentes e o facto de ser o nome do invasor colonial fascista imperial árabe há mil anos, disseram-me que nem pensar. Ninguém quer e dizem que é muito caro.

Mas mesmo assim quis participar na moda e, em nome dos bons velhos tempos, decidi mudar o nome da rua que dá acesso à minha casa para uma algo mais genuinamente moçambicano, pelo que anuncio a tabuleta que está lá em cima, acabada de fazer, e que deve ser inaugurada lá mais para o verão, juntamente com umas febras, tinto e fados do Sr. José Luis (que está a segurar a tabuleta).

Famba Ti Cunza
, termo de raiz ronga, era o que eu dizia algumas vezes a umas pessoas quando eu era mufana.

30/03/2010

QUEM VIVE NA PERIFERIA

por ABM (Alcoentre, 30 de Março de 2010)

Nas últimas semanas referi primeiro um projecto ambicioso para construir um bairro de luxo nos aterros onde se situava a FACIM na zona baixa da cidade de Maputo, e a seguir um artigo sobre o crescimento quase desmedido da periferia da capital moçambicana. É oportuno ver o quadro acima, baseado em dados da ONU, sobre o que se tem passado no mundo, e tirar uma ou duas ilacções.

Refira-se que os dados, citados numa peça do Economist desta semana, compreendem o periodo entre 1990 e 2007, ou seja, excluem os efeitos da crise que estalou em Outubro de 2008 e que começou com a falência do banco norte-americano Lehman Brothers.

Já por mais que uma vez afirmei que a maior revolução em termos do planeta e da nossa espécie, iniciada no século XVIII na Europa e que agora percorre o planeta, é a urbanização, isto é, a saída em massa das populações das zonas rurais para cidades. Esta migração tem tido e continuará a ter consequências profundíssimas em todos os aspectos da vida e actividade humanas, para o ambiente, para a terra. É uma revolução cataclísmica.

Referirei aqui a África do Sul, que está no quadro, e Moçambique e Portugal, que não estão.

Em vinte anos, a população sul-africana que vive em bairros da lata, que em 2007 se estimava ser cerca de 8.4 milhões de pessoas, diminuiu em cerca de metade em termos percentuais. Ou seja, presume-se que essa alteração assentou na integração de milhões de pessoas na fibra das cidades sul-africanas, o que em parte reflecte a evidência de que o objectivo – o sonho – de um (essencialmente, negro) sul-africano poder viver numa cidade é não só altamente desejável como um objectivo exequível.

Ora a taxa de sucesso nesta migração, ainda que se tenha reflectido em maiores taxas de criminalidade e a saturação das infra-estruturas sul-africanas, paradoxalmente é se calhar o maior sucesso da fase do pós-apartheid. De certa forma manteve a África do Sul a caminho do futuro (e o futuro, inexoravelmente, é a urbanização) e politicamente permitiu manter a paz política através da concretização do novo “sonho sul-africano” e ainda (pelo menos por enquanto) relegar para segundo plano a questão emocional mas largamente irrelevante da posse da terra, que naquele país podia ser tão quente senão mais do que no vizinho Zimbabué. Que está e vai estar de rastos.

No caso de Portugal, a saída das pessoas das zonas rurais, quer por via da urbanização para as cidades portuguesas, quer por via da emigração (que na verdade é outra forma de urbanização) acentuou-se nos anos 50 do século passado e percentualmente está a atingir os níveis médios da Europa Ocidental, com a consequência que um tema recorrente e popular na política portuguesa nos últimos anos é a “desertificação” das zonas rurais e interiores (as principais cidades portuguesas situam-se na faixa litoral atlântica). Esta tendência não se vai alterar. As muitas vilas e aldeias portuguesas, que hoje fazem lembrar as boom towns desertas do Faroeste americano de há cento e trinta anos atrás, irão continuar a esvaziar-se à medida que as gerações mais velhas morrem. As escolas continuarão a fechar, os serviços a deslocarem-se para onde está agora a viver a maior parte dos portugueses (fábricas, hospitais, polícia, serviços). O luxuoso capricho de tentar “fixar” as populações no interior tem sido apenas isso: luxuoso, e caprichoso.

O caso de Moçambique é mais difícil de quantificar mas mais interessante .

É mais interessante pelo percurso da sua urbanização e pelas escolhas políticas feitas antes e depois da independência.

Nos anos 50 e 70 e até 1974, as cidades moçambicanas, em larga parte “alimentadas” pelo crescimento económico e industrial e pela migração de quadros médios e técnicos especializados, a maior parte dos quais vindos de Portugal dada a inexistência de meios de os formar na então província portuguesa (mais conhecidos localmente por “os brancos”) caracterizavam-se pelo crescimento concumitante de vastas periferias residenciais e industriais para onde gradualmente se deslocavam as populações africanas vindas das zonas rurais. No Sul, essa migração era há muito “desviada” pela então deslocação de centenas de milhares de homens para alimentar a indústria mineira e agrícola sul-africana, iniciada nos anos 80 do século XIX com as descobertas de vastos depósitos de ouro e de diamantes em Kimberley e no Witswatersrand.

Mas a situação alterou-se radicalmente com o advento da independência, quando a economia entrou em colapso quase imediato e radical, e a liderança política da altura fez dogma da ruralidade, consagrada numa legislação chamada lei da terra – legislação e dogma que, com enormes, quase aberrantes buracos, permanecem até este dia, com algumas consequências funestas.

O efeito combinado destas realidades foi que a população moçambicana permaneceu no mato e quer o processo de modernização social, representado pela urbanização, que invariavelmente se traduz em mais oportunidades de trabalho, maior disponibilidade de serviços e qualidade de vida, congelou. De facto, a apregoação das virtudes da vida rural tornou-se em quase uma religião de Estado e uma forte (mas, a meu ver, falsa no longo prazo) mola de apoio do regime. Ainda hoje faz parte do discurso político a (totalmente falaciosa) afirmação de que uma das grandes “conquistas” da independência foi a posse da terra pelo “povo” (na realidade, à disposição de quem manda).

Pois a prazo, a terra é apenas – apenas – um factor de produção. Como exemplo, nos Estados Unidos, de longe a maior potência agrícola do planeta, menos que 1 por cento da população trabalha a terra.

A segunda migração urbana de Moçambique consistiu em tirar os portugueses e seus descendentes (“os brancos”) das cidades e substitui-los por moçambicanos. Para o efeito, o governo, que, convenientemente, apregoava uma linha dura de marxismo-leninismo, para além da terra, nacionalizou quase tudo. Em 1984, quando visitei Moçambique pela primeira vez desde a independência, as cidades e arredores estavam congeladas, as casas construídas até 1974 cheias de gente que viera do mato e quase sem nada que fazer. Os efeitos das guerras e da consequente repressão começavam a fazer-se sentir.

A terceira migração ocorreu no fim dos anos 80 quando a guerrilha da Renamo, com o apoio logístico das forças de segurança sul-africanas, espalhou a guerra pelas vastas zonas rurais moçambicanas e aterrorizou as populações que ali viviam, uma parte das quais fugiu e refugiou-se nas cidades e suas periferias, cujo controlo e relativa segurança eram ainda asseguradas pela Frelimo. Quando a guerra acabou em Outubro de 1992, as principais cidades moçambicanas estavam inundadas por gente rural essencialmente refugiada.

Uma boa parte da qual não voltou para os campos, que estavam abadonados, minados e sem quaisquer infra-estruturas. Afinal, a miséria peri-urbana era menos sombria que a enorme incerteza de sobreviver no mato, sem qualquer rede de apoio.

As cidades moçambicanas e o establishment político levaram algum tempo a reagir. A ideologia “ruralista” e a lei da terra intocadas, a sensação do observador externo era que se esperava que, cessadas as hostilidades, as pessoas voltariam para os campos e tudo voltaria a ser como dantes.

Só que não voltaram.

E aconteceu entretanto outro fenómeno; a população continuou (e continua) a crescer agressivamente. O que significa que em 2008 Moçambique passa a ter um cenário curioso: ao mesmo tempo, apesar de todos os esforços, continua com perto de 80 por cento da sua população total, que se cifra perto dos 22 milhões de pessoas (havia 6 milhões em 1974) a viver no mato e primariamente da subsistência – eufemisticamente descrita como “actividade agrícola”- enquanto que os remanescentes 20 por cento residem nas cidades e suas periferias, as quais, na sua configuração básica, continuam a ter quase exactamente a mesma estrutura que tinham em 1974, com a agravante dela não ter sido mantida nem tão pouco expandida.

Aliás daqui se extrai uma curiosa estatística: apesar de percentualmente, segundo os magos destas coisas, haver hoje uma percentagem da população abaixo de um mitológico (qualquer) “limiar da pobreza absoluta”, em números reais hoje há muito mais moçambicanos na miséria do que nunca.

Os poderes constituídos, convertidos entretanto a uma espécie de capitalismo keynesiano em que os capitalistas são eles e a parte keynesiana é composta por um curioso sortido de países doadores, ONG’s, empréstimos de instituições internacionais e grandes empresas, têm feito o que podem. O que se tem traduzido por “grandes” projectos de extracção daquilo que os portugueses pelos vistos se esqueceram que estava debaixo dos seus pés durante 475 anos.

Só que, à excepção daquela estação espacial que é a Mozal, e que fica entre Boane e a Matola, esses projectos têm que ficar situados por cima de onde os bens se encontram, que são sítios como Moatize, Moma, Pande, etc.

Bom, mas não vai resolver por si só o problema dos números.

Nos países que passaram por este processo, a urbanização foi acompanhada por forte (ou melhor, quase selvagem) crescimento industrial e comercial nas cidades e suas periferias, que geravam, bem ou mal, empregos aos milhares.

Mas o mundo de hoje já não é o que era. Não é fácil promover a substituição de produtos manufacturados importados pelos mesmos produzidos domesticamente, até porque, neste caso, como se sabe, só entre a China e a vizinha África do Sul, não há quase nada que Moçambique possa possivelmente fazer que estes dois países não façam melhor, mais barato, mais depressa e com maior qualidade.

Portanto, se já há algum (peco aqui pela contenção) sub-emprego urbano e suburbano pela ausência de uma “revolução comercial e industrial” urbana, como é que vai ser quando, nos próximos 50 anos, aproximadamente metade da população rural de Moçambique, e os seus descendentes, se deslocarem para as periferias das cidades, em busca de emprego e de uma melhor vida? Estamos a falar de 12 milhões de pessoas. Como vão Maputo-Matola, a Beira, Nampula, Chimoio, Xai-Xai, Inhambane, aguentar?

Como vai ser gerir Maputo com cinco, seis milhões de habitantes, noventa por cento dos quais provavelmente, praticamente, à beira da miséria?

Por outro lado, o que vai acontecer nas zonas rurais?

Este irá ser seguramente um dos maiores desafios da liderança da geração dos pós-fundadores.

Um desafio logístico, político e de paradigma.

27/03/2010

A OUTRA MAPUTO

Filed under: A outra Maputo, Maputo, Maputografia, Quem Vive na Periferia — ABM @ 4:06 am

Quando Maputo era LM, 1970. Vista da rotunda ao pé do Hotel Girassol. Foto tirada pelo pai BM

por ABM (Alcoentre, 27 de Março de 2010)

Há dias, falou-se nesta casa num mega-projecto que cedo se confirmou e que importará num investimento imobiliário de luxo na zona da FACIM, com o valor de 1200 milhões de dólares.

O meu amigo Deep Throat do Centro (DTC) referiu-me um artigo da autoria de Floris e Moschetti, publicado há um ano na Além-Mar e que aborda assunto concomitante, que é a inexorável migração das populações rurais para as zonas urbanas e, neste caso, o que é que isso pode significar. Merece leitura e aqui se reproduz com vénia:

Bairros de lata: vulcões prestes a explodir
por: F. FLORIS e D. MOSCHETTI

O êxodo rural, as calamidades naturais e a crise económica global estão a fazer aumentar assustadoramente a população urbana pobre, sobretudo nos países a sul do mundo. Com habitantes a viverem na incerteza e na precariedade, sem oportunidades reais, os bairros-de-lata configuram-se como vulcões prontos a explodir a qualquer momento e pretexto.

Em África a população das grandes cidades aumentou 10 a 12 vezes entre 1960 e 2005. Este incremento não esteve associado a um desenvolvimento económico correspondente. Pelo contrário: o produto interno bruto (PIB) diminuiu 0,66 por cento ao ano. Contudo, as cidades em África jogam um papel crucial no crescimento económico nacional. Hoje, em geral, a taxa anual média de crescimento da população africana anda à volta de 4 por cento, enquanto o das grandes cidades atinge 8 por cento, e não são casos excepcionais os de cidades que crescem 10 por cento ou mais, especialmente em regiões onde o êxodo rural se acentua devido a calamidades naturais ou fenómenos ligados ao desenvolvimento desigual do território.

Miragem

Além disso, a taxa de crescimento populacional em instalações urbanas precárias e marginais é por vezes superior a 25 por cento ao ano. Anualmente, mais de 5 milhões de africanos procuram uma nova residência nas periferias das cidades. A grande maioria da nova população urbana parece destinada a sobreviver na total incerteza, na precariedade, na procura, destituída de oportunidades reais, de uma melhoria das suas condições de vida, à margem da «grande miragem» representada pela cidade moderna. Escreve Peter C. W. Gutkind, autoridade de renome mundial no campo da antropologia urbana, falecido em 2001: «As cidades da África são, na maioria, novas. O seu nascimento é fruto da colonização que modelou a estrutura urbana com base em modelos não africanos, que favorecem um modo de vida completamente diferente e alheio à realidade local.» O resto fê-lo a incúria para com as zonas rurais – falta de investimentos e de apoio à economia familiar e de políticas tendentes à protecção dos solos – e a ausência de investimentos na construção civil popular nas cidades.

O primeiro factor, isto é, a falta de projectos tendentes a proteger as áreas rurais, provoca a fuga das aldeias e determina a decisão de procurar algures um lugar onde satisfazer as necessidades que a vida nas aldeias não satisfaz. Esta procura concentra-se na única alternativa possível: a cidade. Assim, a presença de um sistema urbano inarticulado implica e favorece a concentração de populações em pouquíssimos centros, que têm de acolher fluxos relevantes de gente.

Bairros-de-lata

É um «crescimento urbano sem cidade» que dá origem aos famigerados «slums», os bairros-de-lata: espaços autoconstruídos em terrenos do Estado, sem que haja um único tijolo, uma única viga de ferro e um único metro quadrado de vidro. «Nos países em vias de desenvolvimento», recorda-nos o professor Claudio Stroppa, «a dissolução da estrutura agrária agrava o êxodo dos camponeses sem terra; os bairros-de-lata acolhem-nos e desempenham um papel de mediação entre cidade e campo. Os bairros-de-lata muitas vezes consolidam-se e oferecem aos seus habitantes um “sucedâneo” da vida urbana, porventura miserável, mas muito intensa.»

Os efeitos destas contradições são evidentes na expansão das cidades. Trata-se de espaços complexos, onde estão presentes muitos dos contrastes que caracterizam a vida do planeta. Trata-se de cidades divididas por numerosas fronteiras, cujo simples atravessamento produz o sentido de passagem de uma fronteira a outra. Mas são fronteiras não simplesmente físicas: para entrar nos slums passa-se pela «fronteira do medo», enquanto para aceder aos bairros ricos se atravessa a «fronteira do bem-estar».

As cidades assim fragmentadas, em vez de serem lugares de encontro e de integração entre grupos sociais diferentes pelo nível económico, cultura e proveniência, transformam-se numa espécie de arquipélago constituído por muitas ilhas, marcadas pela qualidade das suas construções, pela presença (ou ausência) de infra-estruturas e serviços, pelas maiores ou menores condições de segurança.

Obviamente, as ilhas comunicam, os seus habitantes entrelaçam relações, e uma chave de entrada de uma ilha a outra é a conveniência económica, capaz de instituir relações e níveis de comunicação. Os ricos precisam de mão-de-obra barata e os pobres precisam de trabalhar. Nascem, assim, os intercâmbios, as subempreitadas, o fornecimento de serviços, o comércio nos slums de produtos industriais. Protagonista deste fluxo é o sector informal da economia, capaz de gerar postos de trabalho, riqueza e capacidade de poupança para a maioria dos habitantes das residências informais.

Confrontações

As ilhas vivem lado a lado e, no dia-a-dia, por vezes confrontam-se. Mas apresentam aspectos fortemente contrastantes: há island cities, «cidades-ilhas» ricas, do Primeiro Mundo, e outras pobres, do Terceiro Mundo. De um ponto de vista estético, o moderno arranha-céus e a barraca são os símbolos de cidades-arquipélagos, como Nairobi, Joanesburgo e Rio de Janeiro.

As island cities vivem em dois níveis. Uma parte «está no alto», ligada economicamente com o resto do mundo, porque a tecnologia que sustenta a rede global permite trabalhar e comunicar via éter. Esta parte do arquipélago está acima da outra e, muitas vezes, comunica mais em sentido horizontal, com as distantes cidades do mesmo nível, do que verticalmente, com o resto da própria cidade. A parte pobre do arquipélago, pelo contrário, está fortemente ligada à terra, porque luta diariamente para pertencer a essa terra, quer ocupando as estradas com os trabalhos informais, quer construindo a sua casa, geralmente pequena, pelo menos ao início, para poder ser edificada no menor espaço de tempo possível.

Na África Subsariana, na América Latina, no Médio Oriente e em algumas regiões da Ásia, a urbanização sem crescimento é também o resultado de uma conjuntura mundial específica – a crise da dívida do fim dos anos 70 e a reestruturação das economias em vias de desenvolvimento sob a égide do Fundo Monetário Internacional (FMI) nos anos 80 – e não tanto do êxito sabe-se lá de que lei coerciva do progresso tecnológico.

Explosão

A explosão dos bairros-de-lata foi analisada pelo relatório das Nações Unidas de 2003, The Challenge of Slums, «O desafio dos bairros-de-lata». O texto, o primeiro autêntico estudo a nível mundial sobre a pobreza urbana, compreende inteligentemente diversas sondagens locais, de Abidjão a Sydney, e estatísticas globais que incluem, pela primeira vez, a China e os países do antigo bloco soviético. O relatório lança uma advertência sobre a ameaça planetária da pobreza urbana. Os autores definem os bairros-de-lata como espaços caracterizados por sobrepovoamento, habitação precária ou informal, reduzido acesso à água corrente e aos serviços de saneamento, vaga definição dos direitos de propriedade.

Trata-se de uma definição pluridimensional e, em parte, restritiva, na base da qual se calcula, contudo, que a população dos bairros-de-lata atingia em 2001 pelo menos a 921 milhões de pessoas. Hoje os habitantes destes aglomerados representam 78,2 por cento da população urbana dos países menos desenvolvidos e um sexto dos cidadãos do planeta. Considerando a estrutura demográfica da maior parte das cidades do Terceiro Mundo, pelo menos metade desta população tem uma idade inferior a 20 anos.

A taxa mais elevada de habitantes de bairros-de-lata regista-se na Etiópia e no Chade, com 99,4 por cento da população urbana. Seguem-se o Afeganistão, com 98,5 por cento, e o Nepal, com 92 por cento. Todavia, as populações urbanas que mais se encontram na miséria são certamente as de Maputo (Moçambique) e Kinshasa (R. D. Congo), onde o rendimento de dois terços dos habitantes é inferior ao mínimo vital diário. Em Nova Deli, os urbanistas deploram a existência de «bairros-de-lata dentro de bairros-de-lata»: nos espaços periféricos, à histórica classe pobre da cidade expulsa em meados dos anos 70 acrescentam-se recém-chegados, que colonizam os últimos espaços livres. No Cairo, Egipto, os que chegam agora ocupam e arrendam partes de habitações sobre os tectos, gerando novos bairros-de-lata «suspensos no ar».

População subestimada

A população dos bairros-de-lata é muitas vezes subestimada, por vezes em grandes proporções. No final dos anos 80, por exemplo, Banguecoque, a capital da Tailândia, tinha uma taxa oficial de pobreza só de 5 por cento, mas alguns estudos demonstravam que um quarto da população, o equivalente a 1,10 milhões de pessoas, vivia nos bairros-de-lata e em habitações de risco.

Existem mais de 250 mil bairros-de-lata no mundo. As cinco grandes metrópoles da Ásia do Sul (Carachi, Bombaim, Deli, Calcutá e Dacca) albergam quase 15 mil zonas urbanas tipo do bairros-de-lata, para uma população total de mais de 20 milhões de pessoas. Os habitantes dos bairros-de-lata são ainda mais numerosos nas costas da África Ocidental, enquanto imensas urbanizações de pobreza se estendem até à Anatólia e aos planaltos de Etiópia, envolvem as zonas aos pés dos Andes e dos Himalaias, proliferam à sombra dos arranha-céus da Cidade do México, Joanesburgo (África do Sul), Manila (Filipinas), São Paulo (Brasil) e colonizam as margens do rio Amazonas, do Congo, do Níger, do Nilo, do Tigre, do Ganges, do Irrawaddy e do Mekong.

Os nomes do «planeta-bairros-de-lata» são todos intercambiáveis e, ao mesmo tempo, únicos no seu género: bustees em Calcutá, chawl e zopadpatti em Bombaim, katchi abadi em Carachi, kampung em Jacarta, iskwater em Manila, shammasa em Cartum, umjodolo em Burban, intra-muros em Rabat, bidonville em Abidjão, baladi no Cairo, gecekondou em Ancara, conventillos em Quito, favelas no Brasil, villas miséria em Buenos Aires e colónias populares na Cidade do México.

Um estudo recente, publicado pela «Harvard Law Review», calcula que 85 por cento dos habitantes das cidades do Terceiro Mundo não possui nenhum título de propriedade legal. Está em acto uma contradição estridente, porque o terreno onde crescem os slums é de propriedade dos governos, enquanto as casas construídas são de propriedade de poucos que impõem rendas puxadas aos pobres urbanos, os quais não possuem sequer a barraca em que vivem.

Dependência

As formas de instalação dos bairros-de-lata são muito variáveis: desde as invasões colectivas da Cidade do México e Lima aos complexos e muitas vezes ilegais sistemas de arrendamento dos terrenos na periferia de Pequim, Carachi e Nairobi. Em algumas cidades, por exemplo em Nairobi, o Estado é formalmente proprietário da periferia urbana, mas a especulação fundiária permite ao sector privado realizar enormes proventos à custa dos mais pobres. Os aparelhos políticos, nacionais e regionais, contribuem para este mercado informal – e para a especulação fundiária ilegal – e conseguem inclusive controlar as vassalagens políticas dos habitantes e explorar um fluxo regular de rendas e luvas. Destituídos de títulos de propriedade legais, os habitantes dos bairros-de-lata são obrigados a uma dependência quase feudal com relação aos políticos e burocratas locais. A mínima infracção à legalidade clientelar resolve-se com a expulsão.

A oferta de infra-estruturas, pelo contrário, está longe dos ritmos de urbanização, e os bairros-de-lata muitas vezes não têm qualquer acesso ao saneamento e aos serviços do sector público. E todavia, apesar de serem locais que se definem em termos de ausência – aquilo que não têm diz o que são –, os slums atingirão os 2 mil milhões de habitações em 2030, porque representam a única solução habitacional para a humanidade em excesso do século XXI.

Os bairros-de-lata poderão transformar-se em vulcões prestes a explodir? E os habitantes poderão transformar-se em sujeitos políticos capazes de «fazer história»? Muito dependerá da capacidade de desenvolver uma cultura de organização colectiva, mesmo se, como explicava Kapushinski, «os pobres, normalmente, estão calados. A miséria não chora, não tem voz. A miséria sofre, mas sofre em silêncio. A miséria não se revolta. De facto, os pobres só se insurgem quando pensam poder mudar alguma coisa». Saberemos ser parte desta mudança?

Amontoados nas cidades

Durante este ano de 2008, a população urbana terá superado a população rural. O processo de urbanização do planeta desenvolveu-se mais rapidamente do que o previsto pelo Clube de Roma no famoso estudo «Os limites do crescimento» publicado em 1972. Em 1950 existiam no mundo 86 aglomerados urbanos com mais de um milhão de habitantes. Hoje são 400. E calcula-se que, no ano 2015, serão 550. Desde 1950, os centros urbanos absorveram dois terços da explosão demográfica do mundo. Hoje os números da população urbana (3200 milhões de pessoas) ultrapassam os do conjunto da população mundial em 1960.

As previsões indicam que 95 por cento do crescimento da humanidade terá lugar nas zonas urbanas dos países emergentes. A população destes países deverá duplicar no curso da próxima geração. Este crescimento será liderado por países como a China, a Índia e o Brasil. A característica mais espectacular desta evolução será o multiplicar-se das cidades com mais de oito milhões de habitantes e o impacto das megacidades com mais de 20 milhões de habitantes. Na Ásia, por exemplo, em 1995 só Tóquio tinha atingido estes níveis de urbanização. Mas calcula-se que em 2025 só na Ásia haverá mais de 10 aglomerados urbanos destas dimensões, entre eles: Jacarta, na Indonésia, que terá uma população estimada em 24,9 milhões de habitantes; Dacca, no Bangladesh, que terá uma população de 25 milhões; Carachi no Paquistão com 26,5 milhões de habitantes; Xangai, na China, com 27 milhões; Bombaim, na Índia, com 33 milhões.

Mas a urbanização não dirá respeito só às megacidades. O crescimento urbano acentuar-se-á sobretudo nas cidades pequenas e médias, zonas urbanas secundárias, muitas vezes a acrescer sem planificação e serviços adequados. A China é o exemplo desta urbanização: o número das cidades passou de 196 em 1978 para 640 em 2008. Também na África, o crescimento explosivo de grandes cidades como Lagos, na Nigéria (que passou de 300 mil habitantes em 1950 para os 10 milhões de hoje) foi acompanhado pelo crescimento de pequenos aglomerados urbanos, como Ouagadougou no Burkina Faso, Douala nos Camarões, Antananarivo no Madagáscar. Na América Latina, enquanto antes o crescimento urbano foi monopolizado pelas grandes urbes, hoje são as cidades pequenas a crescer mais, como Tijuana no México, Curitiba, Salvador e Belém, no Brasil, Temuco no Chile. Na China, o êxodo da população rural para as cidades é determinado por uma revolução industrial e um processo de transformação social em acto. Mas em muitos dos países do Sul o processo de urbanização é alimentado por outras causas e não é acompanhado pela industrialização nem por qualquer outra forma de desenvolvimento e de promoção social.

09/03/2010

A NOVA MAPUTO DOS RICOS

Filed under: A nova Maputo dos Ricos, A nova Maputo dos ricos, Maputo — ABM @ 10:59 am

por ABM (9 de Março de 2010)

Se alguém tiver dúvidas quanto à pobreza ou riqueza, à ambição ou negociatas, ou ainda à sul-africanização, ou melhor, a Joanesburguização ou Durbanização da cidade de Maputo, observe apenas as visualizações, em baixo, do que se planeia (mais ou menos) para a marginal e os terrenos da defunta Feira Agrícola, Comercial e Industrial de Moçambique (FACIM) cuja pertença ignoro.

As maquetes foram-me enviadas pelo amigo do amigo do amigo. O que, se não me engano, significa que a esta hora metade de Maputo e arredores já as viu.

Longe de mim questionar o progresso e o crescimento da cidade, que não se soube libertar a tempo de ficar ensanduichada nos anos 60 e 70 pelos terrenos circundantes difíceis, pelo desafio de rasgar auto-estradas para Norte e uma ponte para Sul (a atempada libertação da longa noite colonial não deu tempo para isso, presume-se, e a pancadaria que veio a seguir também não deu tempo para mais).

Mas fazer ali uma espécie de Bairro da Coop 2 em estilo Noveau Sandton em frente à nesga da Baía é, enfim, algo menos do que eu esperava.

Eu sei que, ao preço que comanda o metro quadrado de terreno e de construção na cidade, surpreende-me que não apareça algum a fazer uma torre de 110 andares como aquelas no Dubai. É negócio, se calhar bom negócio, e se houver quem pague isto tudo, ainda melhor.

As minhas dúvidas existenciais, aliás, são outras. Fazer prédios ali se calhar até é a parte fácil. Mais duvidoso é saber como vai ser com coisas mais mundanas, tais como a infra-estrutura de água, electricidade e esgotos necessárias para suportar este projecto. Não havendo caves (a quota de água ali é elevada) onde vão parar os carros todos, e se os esgotos vão cair todos directamente na Baía ou se o projecto inclui a colocação de uma estação de tratamento de resíduos para a cidade. Finalmente, impermeabilizando-se uma área tão sensível e com uma enorme barreira atrás a qual não tem qualquer sistema formal de escoamento de águas pluviais, para onde é que vão escoar as águas quando cair uma daquelas chuvas a à antiga sobre Maputo?

Isto para não mencionar o facto elementar que aqueles terrenos não são terrenos normais: há cem anos, foram aterros feitos sobre uma praia, ou seja, não são à partida os melhores para se construirem sobre eles dezenas de prédios (razão pela qual nada se construiu ali durante mais que sessenta anos e aquilo era um parque verde da cidade, para quem não se lembra, com eucaliptos para suporte e drenagem). Na eventualidade de um tremor de terra mais estranho, as construções aí correrão o risco decorrente da liquefacção dos terrenos.

Já o referi antes e não sou o primeiro a dizê-lo: acho que é altura de se fazer uma ponte para a Catembe e expandir a cidade para Sul. E uma auto-estrada para Norte

E começar a pensar nos investimentos em infra-estrutura de base.

E em reabilitar e manter o que já existe.

E criar mais parques e zonas verdes para a cidade.

Mas isto é só uma opinião minha.

29/01/2010

MAPUTO A NADAR

O Mercado Central em Maputo, 27 de Janeiro de 2010

por ABM (Alcoentre, 28 de Janeiro de 2010)

O JPT anda tão ocupado entre livros e blogues e a docência e a dolce vita da Sommerschield, que não deve ter reparado que depois de uma valente carga de água, a baixa de Maputo, um pouco como acontece com Veneza nas marés vivas, inundou mais uma vez ontem. Mas as minhas fontes secretas de informação discretamente tiraram as fotos que se seguem, captadas ontem na baixa da capital moçambicana e enviadas para o centro de operações ribatejano do Maschamba.

O que é curioso é que a cidade de Maputo, um invulgar aglomerado urbano especialmente se se tiver em conta que as cidades criadas pelos portugueses são invariavelmente um intragável e quase medieval emaranhado de casas e ruas, e que tem um traçado considerado moderno e bem conseguido, tem apenas um, incontornável, indesculpável, inexplicável calcanhar de Aquiles: a baixa.

Porquê?

As razões do problema são fáceis de explicar. Como o erro ocorreu é mais difícil explicar, pois acho que dava para perceber o que iria acontecer.

Antes de Maputo ser o que era, a Lourenço Marques original era uma língua de praia que quando a maré subia ficava uma espécie de ilha onde hoje de situam os terrenos entre a Praça 25 de Junho e a estação dos caminhos de ferro.

Eventualmente, essa “ilha” foi ligada aos terrenos confinantes, aterrando a depressão que a separava dos então chamados Altos do Maé (que nem suspeito quem tivesse sido) e logo por cima foi construída a actual Avenida 25 de Setembro.

Só que alguém se enganou e deixou ali ficar uma depressão em relação aos terrenos (sobre os quais já se tinha construído) onde hoje ficam as ruas do Bagamoyo e Consiglieri Pedroso.

O resultado? Quando chove muito, a zona entre o Hotel Tivoli e o Mercado Central inundam, sem apelo nem agravo. É por essa razão que a actual sede do Millennium-BIM, começada a construir ainda antes de 1974 para ser a sede do então BCCI, e que tem quatro andares por baixo do piso térreo, tem uma estranha configuração no seu piso térreo. Literalmente, são barreiras dissimuladas para impedir que, numa cheia, as águas entrem para dentro do edifício. Mas já aconteceu.

Já houve vários esforços feitos para tentar resolver o problema, o mais recente dos quais durante a memorável vereação do Dr. Eneias Comiche, mas em última instância a área de recolha das águas que para ali fluem – praticamente metade da cidade de Maputo cimento – é demasiado grande para que a baixa aguente um tal embate.

Portanto, para quem está na baixa, a solução para já e estar atento aos boletins meteorológicos e mexer-se depressa na eventualidade de uma chuva torrencial.

E ter um barco a remos.

Detalhe da Avenida 25 de Setembro (para os menos informados, novo nome da velha Avenida da República)

Mais uma perspectiva da baixa inudada no dia 27 de Janeiro de 2010

22/01/2010

MAPUTO EM PANO DE FUNDO

por ABM (Cascais, 21 de Janeiro de 2010)

Não pagámos a renda e eu fiquei desligado durante dois dias. Coisas da internet.

Junto uma canção excelente, agradável, segundo o nosso leitor Sr, Sérgio Braz (cuja informação agradeço) da banda moçambicana 340 ml, que anda por Gauteng.

Os seus membros são Pedro (voz, sampler e percursão), Tiago (guitarra, coro e teclado), Rui (baixo e coro) e Paulo (percussão e coro) estudaram e vivem na África do Sul.

Já editaram dois álbuns: Moving (2003) e Sorry For The Delay ( 2008).

Como certas histórias que se contam por aí, eu oiço tanto a canção, ou vejo as pessoas a dançar à minha frente, como vejo ali tudo o que está à volta.

Maputo, Moçambique, no esplendor da sua decadência e renascença.

E danço.

A canção é Fairy Tales.

Voltem sempre. Magnífico.

16/01/2010

Lizzie Had a Dog in LM

Lizzie & Bóbbi

por ABM (Cascais, 16 de Janeiro de 2010)

A lógica da breve discussão prévia o impunha e uns meros 15 euros o resolveram.

Disfarçado de dono de um veleiro de passagem por Cascais, e após breve e inócua aventura na Livraria Bulhosa no Cascais Villa, peregrinei até à quiçá mais próspera e dotada FNAC do Cascais Shopping, com a Dulce Gouveia a reboque, para comprar a grande obra recente da Escritora de origem moçambicana, publicada pela Editora sediada em Coimbra.

Mas na secção dos livros dou logo de caras com o José Rodrigues dos Santos no corredor, que é máfia moçambicana do melhor e estes dias uma espécie de versão lusa do Dan Brown. Com ele não há cá memórias para ninguém. Antes que ele pensasse que eu ia ao livro dele sobre a Al-Khaeda, que se encontra à venda em todas (mas todas) as livrarias, grandes superfícies, aeroportos e até por baixo de vãos de escada, escapuli-me pelo café da loja para o outro lado e fui ter com uma daquelas meninas simpáticas da FNAC que usam um coletezinho verde e nos ajudam a encontrar os livros.

“Olá, boa tarde. Procuro o novo best seller daquela escritora nascida em Moçambique Isabela Figueiredo e não encontro”.

“Só um momento, sefachavor”.

Clic clic clic clic no computador.

“Sim, devemos ter ainda uma cópia na loja, deixe-me ir ver”.

E desapareceu.

15 minutos à espera.

Após o que a menina surgiu do nada com um livrinho pequenino na mão.

“Quanto é?”

“15 euros”.

“15 euros! Bolas. Deixe-me cá ver”.

E peguei no volume. E inspeccionei-o.

Preliminarmente.

Na verdade o livro é algo estranho.

A seguir à capa e a contra-capa, tem quatro folhas verde-alface sem nada, duas de cada lado, que deve ser para o leitor precavido tomar apontamentos. No fim, a seguir à folha verde-alface, diz uma nota que foi composto numa empresa gráfica na bela Vila Nova de Famalicão, “34 anos após o regresso da autora a Portugal”. Ok. Suponho que uma anotação válida para quem ao chegar ao fim do livro ainda não se tiver apercebido desse facto da vida da autora, ou que não saiba fazer contas de subtraír (pois 2009-34 = 1975) infelizmente um provável infortúnio com o estado da educação nos dias que correm.

Só que na pala interior da capa tem mais uma foto simpática da Isabela, esta circa 2009 e sans Bóbbi, e mais uma notinha a dizer que ela nasceu em Lourenço Marques em 1963, que em 1975 veio para Portugal, e que nunca mais voltou.

Espera aí: se aqui diz que ela nasceu lá, que veio para cá e que nunca mais voltou, porque é que no fim do livro diz que ela regressou a Portugal?

É um mistério. Assumo que deve fazer parte da complexa e mística dialética subjacente aos conteúdos ali abordados. Ora veja-se.

Ela nasce e cresce em Moçambique.

Mas ao viajar para Portugal em 1975, regressa.

Ora isto é para mim uma alegoria fantástica.

Tem umas fotografias: na capa (a foto ali no topo) a Isabela avec Bóbbi. Depois duas piquininas de Lourenço Marques nos tempos e que mal se conseguem ver, e a seguir vêm: a Isabela a segurar o rádio de papá debaixo de uma papaeira, a Isabela vestida de saloia portuguesa num barco, a Isabela a fazer pose num parque, a Isabela na marginal de Lourenço Marques e a Isabela na comunhão.

Na página 7, presume-se que para dar o tom do que está para vir, três citações, uma de Paulo Auster a falar do pai (o do Paulo Aster), e duas do italiano Primo Levi, a mastigar a presumível fungibilidade da Memória Humana. Bem, ou pelo menos a dele.

E, presume-se, por osmose subliminar associativa, a da Isabela.

A menção do americano Paulo Auster confunde-me e levanta-me imediatas suspeitas quanto à proeminência fotográfica do Bóbbi. Pois na sua Timbuktu, não a africana mas uma mitológica e utópica urbe, são as memórias do rafeiro Mr. Bones que descascam, numa odisseia tão deprimente como cativante, a existência de Willy Christmas, um homem infeliz e falhado, que morre à porta da casa onde o seu ídolo, Edgar Allan Poe, vivera. Será isso? O que acha, quais as memórias de Bóbbi da sua dona e da Lourenço Marques que a viu nascer e crescer? será que Bóbbi também regressou?

Primo Levi suscitou-me ainda maior supresa. Pois a sua escrita, sendo judeu e tendo passado pelos maiores horrores da carnificina Nazi, incluindo quase um ano em Auschwitz-Birkenau, é mais conhecida pelo conteúdo memorialista desse período – memórias que o perseguiram até à morte. Em 1987, o grande Elie Wiesel, que era professor na Universidade de Boston, onde estudei gestão e um pouco sobre o judaísmo nessa altura e durante dois anos, e ele próprio um sobrevivente do horror Nazi, disse que, quando morreu – e referindo-se às suas peristentes e pungentes memórias – Levi na verdade morrera em Auschwitz mas quarenta anos depois.

Que associações poderá haver entre a obra e o percurso de Primo Levi e este livro de Isabela? A curiosidade avoluma-se dentro de mim.

Procurei, e descubro que o livro não tem índice. Tem, isso sim, em 136 páginas (as que estão numeradas), textos sequenciados, de 1 a 43. Sem títulos. Só os números.

E na verdade, aí me apercebi, afinal aquilo não é só um livro (daí, decorrem, presume-se, os 15 euros).

Logo a seguir ao texto Número 43, depois de uma folha com umas das fotos piquininas de Lourenço Marques que não se vê bem, tem outra onde apenas figura, a meio, a singela e solitária frase, que se presume dedicatória: “À memória do meu pai”.

Repare-se no detalhe: não é em memória do pai. É à memória do pai.

Hum.

E a seguir tem uma página que diz, na vertical, com o texto a apontar na direcção da lomba do livro, em letras garrafais “Adenda” onde, aí sim- surpresa!- tem um índice, mas um indicando o que vem a seguir (aos textos numerados de 1 a 43): seis textos descritos como posts, incluindo o intrigantemente títulado Falta dinamitar o Cristo-Rei e logo abaixo o assaz mais invocativo de assunto gastronómico, Fígado de Porco; e,  finalmente,  Uma conversa com Isabela, que inclui, um pouco como nas (brevemente findas) conversas do Professor Marcello na RTP aos domingos à noite, e à margem das doze páginas do texto da entrevista propriamente dita (feita por não se sabe quem) as sugestões dela de dez livros, cinco datas e cinco lugares.

Portanto, isto é o que se pode chamar um pacote completo.

Que agora é meu.

Por, afinal, uns modestos 15 euros.

E que, feito o investimento e aguçada a curiosidade, vou ler este fim de semana, de fio a pavio.

E de que logo darei conta aos exmos leitores, após reler também a prosa canciana et al.

Para tirarmos esta coisa a limpo de uma vez por todas.

Um bom fim de semana a todos.

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