THE DELAGOA BAY REVIEW

22/09/2011

MOMENTOS DEEPAK CHOPRA Nº2: O MEU FRIGORÍFICO DA HOOVER

Filed under: Frigorífico da Hoover — ABM @ 9:48 am

O venerável logotipo da Hoover, marca do meu frigorífico avariado.

Nos Bons Velhos Tempos:  Hoover=Qualidade

Quando eu vivia em África, há o que parece um milhão de anos, política aparte, em minha casa havia pelo menos duas coisas que nesse tempo se podia depender: os electrodomésticos Hoover e a sua assistência técnica.

No caso dos Botelhos de Melo, essa constatação materializava-se na forma de um quase gigantesco aspirador Hoover, que era uma espécie de cilindro deitado com rodinhas em baixo, e em que na ponta tinha a mangueira com a qual se aspirava alegremente a casa. Dentro do cilindro, havia um saco de pano que retia as poeiras recolhidas na vasta casa de arquitectura colonial dos anos 30 em que cresci e que tinha nos quartos chão de madeira que era regularmente engraxado. E para tal tínhamos também uma esquisita máquina com três escovas circulares que puxavam o lustre da cera, depois desta ser penosamente espalhada com um pano amarelo, todo besuntado na tal graxa.

Que era da Hoover.

Em cerca de onze anos seguidos nessa casa, nunca me recordo de qualquer dos dois aparelhos ter falhado. Se tal aconteceu, terão sido rapidamente reparados.

A Hoover em 2001

Avancemos trinta anos. Em meados de 2001, em Portugal, quis comprar um novo frigorífico para a minha delapidada casa de campo no meio do Ribatejo português.

O mundo hoje já não é o que era. Desloquei-me a uma dessas lojas em Lisboa que tem filas e filas de frigoríficos de todas as formas, feitos, cores e preços, para escolher o meu novo frigorífico.

A escolha parecia difícil, até que vi um frigorífico. Da Hoover. Era um frigorífico modelo Optima da Hoover. Não só era o que eu queria em termos de aspecto e volumetria mas também – era um Hoover! Lembrei-me logo do aspirador Hoover da mãe Melo em Lourenço Marques, que só não sobreviveu a Descolonização.

Quando o insípido, ignorante e incompetente vendedor da loja finalmente me fez o favor de reparar em mim, a conversa foi breve. Apontei para o Hoover e disse apenas duas palavras: “é este”. Fui à caixa, paguei e mandei entregar o objecto lá no Ribatejo.

Uns dias depois, dois rapazes com um ar um tanto rasco-subversivo, apareceram lá no Ribatejo numa carrinha. De lá de dentro tiraram o meu novo frigorífico e um tanto penosamente o carregram até à minha cozinha, substituindo um desses frigoríficos pindéricos de marca doméstica que o pai Melo me dera quando o substituiu na sua casa por um desses monstruosos frigoríficos americanos.

Deram-me um papel a assinar e desapareceram.

Na verdade, na altura eu ainda andava a trabalhar pelas Áfricas e por isso o meu novo Hoover mal trabalhou. A casa estava fechada e a electricidade desligada. Só quando, muito raramente, eu lá ia, eu ligava o frigorífico. Era bonito, silencioso e trabalhava lindamente.

E assim foi durante algum tempo, até que me radiquei temporariamente novamente na Tugalândia, altura em que a electricidade lá no mato passou a ficar ligada em permanência, o mesmo acontecendo com o meu frigorífico Hoover.

Isto até ao ano passado.

A EDP no Ribatejo: Preços Suecos, qualidade do Burundi

Uma palavrinha sobre o fornecimento de electricidade no Ribatejo. Para quem agora está habituado à qualidade do fornecimento de electricidade nas principais cidades e subúrbios portugueses, o fornecimento de electricidade no Ribatejo provavelmente parecerá algo mais semelhante ao que acontece na nação africana do Burundi. O fornecimento é regularmente cortado sem aviso algum. “Avaria”, diz-me de forma enfadonha a menina do call center da EDP. “É esperar um bocadinho”. Há mais alguma coisa em que podemos ajudá-lo, Senhor ABM?” Odeio este verniz oco e incompetente das multidões dos call centers. Só o saber que aquilo é gente jovem a tentar meter o pão na mesa é que me impede de lhes ferrar a jugular. Mas enfim.

De facto, a electricidade no Ribatejo não é só má, muito pior que a que se tem, por exemplo, em Lisboa: é também errática, o que é muito mais grave. O normal é não ter nem a potência ou a voltagem suficientes durante o dia, como frequentemente se observam “picos” de voltagem. Quase não vale a pena reclamar pois o normal é nada se fazer para melhorar a qualidade do serviço prestado. É uma quase fatalidade portuguesa: Portugal é Lisboa e a Linha do Estoril. O resto é campo ou paisagem. E o mesmo se aplica a tudo o resto. Em Lisboa qualquer casa de repasto vende Coca-Cola Light. Na maioria do Ribatejo, que fica a menos que 50 quilómetros da Capital, não têm. “Aqui ninguém bebe isso”. Em Lisboa subscreve-se um serviço de internet móvel que custa um balúrdio para se ter acesso à internet a 7.2 megas de velocidade (para descarregamentos apenas, para uploads é patético) e geralmente funciona. No Ribatejo não. Eu, que pago o mesmo que um tipo de Lisboa, recebo um sinal distante, a velocidade é errante, e meia volta aquilo parece que funciona a carvão.

O exmo. Leitor já está mesmo a perceber o que aconteceu a seguir. Um dia chego à tal delapidada casa de campo e descubro que o meu frigorífico Hoover está com um problema: não está a congelar, a ventoinha na área do cogelador pifou e o aparelho parece funcionar sem parar.

Contactei a EDP.

Não sabiam de nada, não viram nada, não registaram nada.

Foi, portanto um fenómeno paranormal.

Irritado, fui à Vila ali a três quilómetros no dia seguinte e perguntei se havia um especialista em frigoríficos.

Claro que havia.

O Senhor Lourenço dos Frigoríficos

Na verdade, o Sr. Lourenço dos Frigoríficos não era dali mas alguém me deu o telefone dele. Liguei-lhe pelo télelé e expliquei-lhe o que via. Ele ouviu em silêncio, disse que devia ser isto ou aquilo (não percebi nada) e marcou uma visita para dali a uns dias.

Quando lá apareceu, não antes de entretanto adiar a visita duas vezes, uma porque a filha tinha ranho verde escuro a correr da narina esquerda e a segunda porque o carro dele terá tido a necessidade de uma intervenção urgente não especificada, foi até à cozinha com uma caixa de ferramentas, andou às voltas a ver o aparelho, ligou, desligou, ligou, mexeu em tudo o que havia para ser mexido, tirou temperaturas, espreitou por detrás e, sem grandes demoras, disse que iria meter mais gás na tubagem de refrigeração e uma ventoinha nova na zona mais fria, e calibraria aquilo tudo. De seguida, foi até ao carro dele (um BMW, nada menos) andou às voltas numas caixas que tinha da bagageira, tirou umas peças, e andou às voltas em redor do meu Hoover. Meia hora e sessenta eurozitos no bolso mais tarde, o aparelho deveria estar de volta ao seu esplendor prévio.

Ênfase no termo “deveria”. Pois quase ainda não tinha o rasto de poeira barrenta atrás do BMW do Lourenço dos Frigoríficos (doravante LdF) cruzado o horizonte em frente à casa, e já o meu Hoover emitia um chiado estridente da zona da ventoinha.

Nessa noite telefonei ao LdF a reclamar o barulho, que ainda constrastava mais com o silêncio positivamente sepulcral da casa. Ele respondeu casualmente com um “ah, pois, deve ter sido ….”(mais uma coisa qualquer que não percebi). Lentamente e com o tom de quem sabe exactamente do que fala, proclamou que aquilo era uma coisa de nada e que no dia seguinte com uma simples chave de fendas resolveria o problema.

Bem, para fazer uma longa história curta, o LdF foi ainda mais duas vezes lá a casa visitar o Hoover mas a coisa nunca voltou ao sítio.

Um ano mais tarde – ou seja há menos de uma semana – cheguei à conclusão que o frigorífico não estava a congelar adequadamente agora na parte debaixo, e voltara à situação de funcionar praticamente sem nunca parar.

Roguei uma praga que não se deve repetir aqui mas que é qualquer coisa como “fornique-se”, recordei o conhecido adágio português de que o barato sai caro e decidi fazer o que qualquer português tende a temer.

Decidi levar o caso à marca.

Ir à Marca Hoover

Claro! Mas o que estava eu a pensar quando contactei o LdF? Afinal, ele não trabalha para a Hoover! Quando muito, ele trabalha para o BMW dele. E veja-se o resultado.

Portanto iria contactar a Hoover e tinha a certeza que em dois tempos teria um técnico Hoover de chapéuzinho encarnado e eficiência britânica, que colocaria o meu de outro modo novo aparelho a funcionar correctamente.

Sentei-me em frente ao meu computador e pelo Gúguele procurei a Hoover em Portugal. Encontrei o sítio deles logo de seguida.

O sítio é um tanto esquisito. Parece que a Hoover de Portugal opera de forma subalterna da Hoover de Itália mas tem o seu canto português. Procurei o serviço pós-venda e levou-me algum tempo a perceber como chegar lá.

A forma mais rápida de contactar os Srs da Hoover Portugal era pelo telefone. E havia dois, um 707 200 188 e um 21 318 9700.

Não tem forma de se contactar a empresa por e-mail, o que é uma burrice sem fim.

Como eu me recuso a usar os números começados pelos dígitos 707 em Portugal, pois são uma roubalheia vergonhosa e desonesta para com os clientes e utentes de qualquer negócio (aliás mandei a empresa que me fornece o serviço de telefone para barrar há dias, depois de dois ultrajes seguidos com estes esquemas reles de extrair dinheiro das pessoas indevidamente), utilizei o outro número.

E liguei para o número 21 318 9700. O sítio da Hoover Portugal ndicava que era da sede da empresa em Alverca do Ribatejo.

Mesmo ao lado do meu canto ribatejano.

O Primeiro Contacto com a Hoover

Esta tarde, depois de um café e as tarefas do dia concluídas, lá liguei para a Hoover.

Sem grande surpresa, não havia gente do outro lado da linha. Havia sim, um daqueles sistemas electrónicos de encaminhamento de chamadas, muito na moda estes dias e fantástico quando funciona. De entre as várias opções, eu tentei a que me parecia mais lógica para saber quem é que reparava os aparelhos Hoover perto da minha zona. Para tal, naveguei alegremente pelos menús e acabeu numa linha chamada “Apoio a Centros de Atendimento”. Depois de uns toques à espera, atendeu um homem. Expliquei-lhe que o meu Hoover Optima tinha um problema e que eu pretendia saber como resolvê-lo

– “O equipamento está sob garantia ou fora de garantia”, perguntou.

– “Está fora.”

– “Onde é que está o equipamento?”

– “Zona Oeste do Ribatejo.”

– “Qual é o código postal?”

– “2066.”

-“Um momento”.

Esperei.

Esperei.

“Tôu.”

-“Sim.”

– “A empresa que presta este serviço é a Romel Sat, fica situada na zona de Santarém e o contacto deles é o 243 309 642.”

– “Muito obrigado, Boa tarde”.

– “Boa tarde.”

E desligou.

O Contacto com a Romel Sat em Santarém

Às 16:22 horas liguei para a empresa de Santarém. Atendeu um homem que obviamente devia ser ele mesmo o Senhor Romel Sat. Expliquei-lhe ao que vinha e a resposta dele foi essencialmente dividida em três partes: a) ele tinha muito trabalho, b) ele não ia à zona do Ribatejo onde estava o meu Hoover, c) eu devia contactar o representante da Hoover nas Caldas da Rainha, que ficava mais perto. Que não sabia quem era e cujo contacto também não tinha. “Procure na internet”, despachou-me. E desligou.

Não me pareceu lá muito a imagem de serviço e eficiência que eu pressuporia com a Hoover.

Na internet não encontrei nada sobre a Hoover nas Caldas da Raínha.

Decidi então ligar novamente para a sede da Hoover Portugal em Alverca para ver se me davam o contacto correcto de quem faz o serviço de reparações da Hoover para a zona Oeste do Ribatejo.

Do Segundo Ao Décimo Nono Contacto com a Hoover Portugal

Cerca das 16:25 horas, novamente, liguei para o 21 318 9700.

Novamente, o menu de mensagens de encaminhamento.

E aí, uma surpresa.

É que, independentemente do que eu fizesse, ninguém atendia.

Nos vinte minutos seguintes, liguei dezassete vezes seguidas para o número principal da Hoover Portugal em Alverca. Depois entrava na dança das opções do menu de atendimento telefónico.

Na opção de “outros assuntos” a minha chamada era pura e simplesmente desligada.

Na opção “reclamações”, a mesma coisa. Uma vez, ainda nesta opção, o telefone tocou 18 vezes seguidas, e de seguida a chamada desligou na mesma.

Na opção “centros de assistência técnica”, tocava três ou quatro vezes e a chamada desligava. Uma vez o telefone tocou quinze vezes e a chamada desligou.

Hum.

O que é que se passa com estes senhores? Se calhar era dia da santa local lá em Alverca.

Parece que as minhas gratas memórias do velho aspirador e do engraxador da Hoover da Mãe Melo em África afinal são só isso mesmo.

Memórias.

Follow-Up Um – 21 de Setembro de 2011

Mas eu não desisto disto facilmente.

Antes de deitar para o lixo o meu frigorífico Hoover, vou ter que me convencer que os Srs da Hoovers de hoje são mesmo aquilo que parecem ser: pessoas que parece que andam distraídas demais e que já se esqueceram da marca que representam e de que os seus clientes são quem lhes põe a comida à mesa todos os dias.

Ora, a Hoover Portugal, no seu sítio tem os seus contactos:

Candy Hoover Portugal, Ldª
Estrada nacional nº10,
Edifício Pratagi, bloco 4 – 1º,
2615-129 Alverca

Tel: +351 21 318 97 00
Fax: +351 21 353 78 05

E, meio escondido no seu sítio tem os contactos da sua casa-mãe na….Itália:

Candy Elettrodomestici S.r.l.
via privata Eden Fumagalli 20047 Brugherio, Milão, Itália.

Tel. ++39/039/20861
Fax ++39/039/2086237.

Estou tentado a contactar primeiro os srs que mandam na Candy Hoover Portugal e a perguntar-lhes se ele têm a mínima noção da imagem de bagunçada com que fiquei da minha experiência desta tarde.

E se isto não resultar, poderei ainda contactar os Srs da Candy Elettrodomestici S.r.l. em Brugherio, a perguntar se eles têm a mínima noção da aparente bagunçada que parece que reina na sua operação em Portugal.

Se nada disto funcionar, deito fora o meu Hoover Optima, compro outro frigorífico e declaro defunta a Hoover, os seus produtos e especialmente o seu apoio e atenção ao Cliente..

Follow-Up Dois – 22 de Setembro de 2011

1. Tentei novamente contactar telefonicamente a Hoover Portugal de manhã. Sete vezes. Todas as opções de contacto continuam a não funcionar.
2. Vou tentar falar para a casa mãe na Itália (pelo Skype que é mais barato).
3. Para variar, o número de telefone indicado no sítio da Hoover para a Candy Elettrodomestici na Itália é inválido. Eu tentei telefonar para lá e é o que descobri).
4. Meu Deus com quem estou metido.

16/09/2011

MOMENTO DEEPAK CHOPRA Nº1: O EMAIL DA IKEA

Filed under: Email do IKEA, MOMENTOS DEEPAK CHOPRA — ABM @ 3:48 pm

A foto que veio num email que recebi hoje.

Inauguro hoje uma nova categoria de textos relacionados com o tema “como é viver em Portugal”. Coisas do dia a dia que às vezes não me parecem fazer sentido, mas que alguém pensou, ou deveria ter pensado, como devia de ser. Por vezes cuidadosamente. A essas constatações chamo “momentos Deepak Chopra”.

O Sr. Deepak Chopra, (que me perdoe), é uma espécie de guru cuja filosofia central supostamente se centra na frase algo cosmológica “”se compreendermos a nossa verdadeira natureza e soubermos viver em harmonia com as leis naturais, a sensação de bem-estar, de entusiasmo pela vida e a abundância material surgirão facilmente”.

Ele muito popular. Não comigo, mas é.

Claro que ele nunca viveu em Portugal. Não viveu 40 anos sob uma ditadura, nunca foi descolonizado, nunca esteve numa revolução “socialista”, nem nunca, estou certo, viveu num país com uma burocracia impenitente, com uma plutocracia rapaz, e uma incapacidade latente e generalizada de abraçar a mudança.

Posto isto, o meu momento Deepak Chopra de hoje, que é o Nº1.

O EMAIL DA LOJA IKEA

Esta tarde, recebi no meu email pessoal a seguinte mensagem:

PARA: ABM
DE: IKEA
ASSUNTO: Parabéns. Obtenha 2000 euros e equipe a sua casa numa loja IKEA.

Muitos Parabéns! Está seleccionado para receber o cheque IKEA.
Verifique já como receber e mobilar a sua casa.


Grande Promoção Especial!

Esta é a oportunidade para mobilar a sua casa,
com o cheque de 2000 Euros para a loja IKEA.

Não perca mais tempo. Participe neste preciso momento!

Verifique aqui como pode obter o cheque

Promoção Especial : Cheque-4108-IKEA

O seu email foi sorteado para se habilitar a um cheque IKEA no valor de 2000 euros. Este cheque é digirido apenas às pessoas seleccionadas para participar. Não perca esta oportunidade e verifique já se pode mobilar a sua casa.

Recebeu esta mensagem promocional devido ao seu email se encontrar activado no programa para o poder usufruir de descontos e campanhas promocionais que lhe poderão interessar. Caso não pretenda continuar a receber as nossas campanhas publicitárias por favor faça reply a este mesmo email colocando no subject ou assunto a palavra remover. Agradecemos a sua participação e por favor não responda acerca de outras questões devido ao processo ser automático.

(fim)

Na verdade, no original a mensagem não tinha este aspecto. As primeiras palavras claramente indiciavam que eu tinha ganho um cheque.

Mas lendo por ali em baixo a coisa começa a cheirar a mais um esquema de caçar negócio.

Em troca da “possibilidade” – com a mesma probabilidade que um asteróide me cairá na cabeça daqui a dois minutos – de eu ganhar o supracitado cheque, quase certamente se primeiro fizer um pequeno balúrdio em compras.

Claro que há um pequeno detalhe que sempre me fascina. Que é onde é que os meninos do marketing da Ikea foram buscar o meu endereço de email. A única coisa que comprei lá este anos, se tanto, foram umas velas em saldo e umas lâmpadas para um candeeiro.

Mas no fim a questão é só uma: para que é que a Ikea me manda mensagens a sugerir que eu praticamente tenho um cheque de dois mil euros no bolso, quando aquilo é uma mera, quiçá rasca, rifa para a meia dúzia de pessoas que usa as suas lojas?

Após escrever isto, apaguei a mensagem e a vida continua

E este foi o momento Deepak Chopra Nº1.

06/11/2009

A Visita a Les Charmettes

Filed under: A Portagem para Cintra, MOMENTOS DEEPAK CHOPRA — ABM @ 5:43 pm

2009.1.04 Portagem

por ABM (Cascais, 5 de Novembro de 2009)

Memoravelmente, fui há dias contactado pelo meu amigo CHA e a sua mulher, a excelente Odete, há uns dias, tendo ficado agendado um almoço em sua casa, situada num canto idílico da linda localidade de Galamares, por detrás da Serra de Sintra para quem vem de Cascais, chamado Les Charmettes.

O almoço, que durou seis horas entre divino repasto e muita conversa, foi ontem.

Para tal, tive que me meter no ABMobile e deslocar-me de Cascais para Sintra, para onde já não ia há bastante tempo.

Ora, para quem não conhece o local, havia uma excelente estrada pública que ligava Cascais (ao pé do Centro Comercial Cascais Shopping) a uma rotunda, à entrada de Sintra, que liga à estrada IC 19, que vai para Lisboa – e a Sintra.

A distância é cerca de sete quilómetros, o limite de velocidade entre 50 e 70 kms por hora. Faz-se bem.

Em boa verdade, a velha estrada ainda está lá. Só que, mercê do tesão desenvolvimentista, o neo-fontismo da Era Socratiana pós-Cavaquista, o que encontro quando chego onde eu pensava que estava a tal estrada para Sintra? nada mais nada menos que a entrada para uma fulgurante auto-estrada, novinha em folha, ainda a cheirar a novo, com três vias, limite de velocidade 120 kms por hora.

A nova auto-estrada A16. Vi qualquer coisa sobre isso na televisão mas com tanta estrada a ser inaugurada em tempo de eleições não sabia que era aquilo.

Curioso e algo impressionado, entro na nova via, acelero o ABMobile para 120 kms por hora. E nuns fulminantes três minutos e meio percorro os sete quilómetros.

Só que quando vejo ao longe o cartaz a anunciar a saída para Sintra, vejo também um sinal a anunciar… que tinha que pagar uma portagem.

Uma portagem? uma portagem? mas que brincadeira é esta? logo, vejo que a saída para Sintra estava depois da portagem. “Bolas”, pensei, já fui comido. Chateado, abrandei e aproximei-me da casota, onde estava uma daquelas meninas simpáticas, provavelmente com um Mestrado em Ciências Sociais que tinha que ganhar a vida.

Enquanto me aproximei, fiz algumas contas de cabeça. Bem, afinal quanto valia uma corrida de sete quilómetros e três minutos e meio na A16? Aahh.
Talvez um 25 cêntimos de euro. Não podia ser mais. Não era possível. Aquilo era ridículo. Qualquer dia neste país a gente paga portagem para tirar o carro da garagem. Cambada de comunistas reformados a armar em capitalistas.

Olhei para a menina e disse “bom dia, então que história é esta de portagem? quanto é?”

A menina olhou-me com um ar meio nervoso. “Noventa cêntimos”.

“NOVENTA CÊNTIMOS !?” Noventa Cêntimos, quase um euro, para andar três minutos e meio de Cascais até Sintra!? estão loucos? isto é um roubo !! que ladrões…”

A menina manteve-se calada.

“Ok. Está aqui um euro. Dê-me um recibo. Nada contra si, você só está a trabalhar aqui. Mas eu NUNCA MAIS passo por aqui. Mas onde é que está a velha estrada onde eu costumava passar sem pagar nada e que não era nada má? Não me diga que a mandaram abaixo.”

Afinal a auto-estrada A-16, como cada vez mais nesta terra, não era pública. Era uma concessão, algo muito na moda no Portugal moderno. Uma empresa obtém a concessão, o direito de a explorar durante um número de anos, enterra-se em dívidas e constrói aquilo, e em troca toda a gente que a usa paga-a, ao preço que lhes ocorre e que o governo assina logo por baixo. O princípio é nobre – excepto quando não há nenhuma alternativa, ou a alternativa de “nós povo” é um caminho de cabras aos zigue-zagues. Que, claro, é precisamente o que tende a acontecer quando aparecem estas “concessões” (que agradecem o favor de assim obrigarem o automobilista sensato a evitar perder a cabeça nas estradas “alternativas” e a pagar os seus usurários honorários.

Assim não vale a pena ser cidadão. Ou melhor, vale a pena quando apenas se se é rico.

Mas se eu fosse rico viveria em Mónaco, Manhattan ou Jupiter Island, não em Cascais. Lá há estradas muito melhores e não se paga metade dos impostos que se pagam aqui.

A Sra Dra menina deu-me o recibo e os 10 cêntimos de troco e explicou-me que concordava perfeitamente comigo e que a velha estrada ficava um quilómetro para a esquerda e que se podia usar.

“Mas quando vim para cá os velhos acessos desapareceram e na rotunda só vi sinais para esta auto-estrada” (Portugal está-se a tornar numa verdadeira “rotundocracia” rodoviária).

Ela explicou que havia uma (obscura) estradazinha escondida à direita da estrada que dizia “Linhó” e que essa estradazinha ligava à velha estrada que ligava Cascais a Sintra.

Acelarei o ABMobile e saí da auto-estrada, sentindo-me perfeitamente roubado e ludibriado.

Para gozo do exmos leitores Maschambianos, o recibo do que paguei está no cimo deste texto.

Nos meus tempos de residência nos EUA, era obrigatório os operadores das estradas concessionárias a) meterem uma placa em todas as entradas das suas estradas a anunciar que aquilo era a pagar, e b) as municipalidades indicavam as estradas alternativas.

Neste caso, a velha e excelente (e free) estrada para Sintra pura e simplesmente desapareceu do mapa.

Crápulas. Todos eles.

Eu sei o que alguns dos exmos leitores estão a pensar: “mas, ABM, 90 cêntimos é troco. Não faz muita diferença. Um gelado custa 2 euros.”

Talvez. mas não é assim que eu penso. E neste caso, pelas razões explanadas, ainda pior.

Quando saía da estrada, danado, ainda pensei: “bolas, agora só faltava mesmo era despedirem o Paulo Bento do Sporting”.

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