THE DELAGOA BAY REVIEW

06/11/2009

A Visita a Les Charmettes

Filed under: A Portagem para Cintra, MOMENTOS DEEPAK CHOPRA — ABM @ 5:43 pm

2009.1.04 Portagem

por ABM (Cascais, 5 de Novembro de 2009)

Memoravelmente, fui há dias contactado pelo meu amigo CHA e a sua mulher, a excelente Odete, há uns dias, tendo ficado agendado um almoço em sua casa, situada num canto idílico da linda localidade de Galamares, por detrás da Serra de Sintra para quem vem de Cascais, chamado Les Charmettes.

O almoço, que durou seis horas entre divino repasto e muita conversa, foi ontem.

Para tal, tive que me meter no ABMobile e deslocar-me de Cascais para Sintra, para onde já não ia há bastante tempo.

Ora, para quem não conhece o local, havia uma excelente estrada pública que ligava Cascais (ao pé do Centro Comercial Cascais Shopping) a uma rotunda, à entrada de Sintra, que liga à estrada IC 19, que vai para Lisboa – e a Sintra.

A distância é cerca de sete quilómetros, o limite de velocidade entre 50 e 70 kms por hora. Faz-se bem.

Em boa verdade, a velha estrada ainda está lá. Só que, mercê do tesão desenvolvimentista, o neo-fontismo da Era Socratiana pós-Cavaquista, o que encontro quando chego onde eu pensava que estava a tal estrada para Sintra? nada mais nada menos que a entrada para uma fulgurante auto-estrada, novinha em folha, ainda a cheirar a novo, com três vias, limite de velocidade 120 kms por hora.

A nova auto-estrada A16. Vi qualquer coisa sobre isso na televisão mas com tanta estrada a ser inaugurada em tempo de eleições não sabia que era aquilo.

Curioso e algo impressionado, entro na nova via, acelero o ABMobile para 120 kms por hora. E nuns fulminantes três minutos e meio percorro os sete quilómetros.

Só que quando vejo ao longe o cartaz a anunciar a saída para Sintra, vejo também um sinal a anunciar… que tinha que pagar uma portagem.

Uma portagem? uma portagem? mas que brincadeira é esta? logo, vejo que a saída para Sintra estava depois da portagem. “Bolas”, pensei, já fui comido. Chateado, abrandei e aproximei-me da casota, onde estava uma daquelas meninas simpáticas, provavelmente com um Mestrado em Ciências Sociais que tinha que ganhar a vida.

Enquanto me aproximei, fiz algumas contas de cabeça. Bem, afinal quanto valia uma corrida de sete quilómetros e três minutos e meio na A16? Aahh.
Talvez um 25 cêntimos de euro. Não podia ser mais. Não era possível. Aquilo era ridículo. Qualquer dia neste país a gente paga portagem para tirar o carro da garagem. Cambada de comunistas reformados a armar em capitalistas.

Olhei para a menina e disse “bom dia, então que história é esta de portagem? quanto é?”

A menina olhou-me com um ar meio nervoso. “Noventa cêntimos”.

“NOVENTA CÊNTIMOS !?” Noventa Cêntimos, quase um euro, para andar três minutos e meio de Cascais até Sintra!? estão loucos? isto é um roubo !! que ladrões…”

A menina manteve-se calada.

“Ok. Está aqui um euro. Dê-me um recibo. Nada contra si, você só está a trabalhar aqui. Mas eu NUNCA MAIS passo por aqui. Mas onde é que está a velha estrada onde eu costumava passar sem pagar nada e que não era nada má? Não me diga que a mandaram abaixo.”

Afinal a auto-estrada A-16, como cada vez mais nesta terra, não era pública. Era uma concessão, algo muito na moda no Portugal moderno. Uma empresa obtém a concessão, o direito de a explorar durante um número de anos, enterra-se em dívidas e constrói aquilo, e em troca toda a gente que a usa paga-a, ao preço que lhes ocorre e que o governo assina logo por baixo. O princípio é nobre – excepto quando não há nenhuma alternativa, ou a alternativa de “nós povo” é um caminho de cabras aos zigue-zagues. Que, claro, é precisamente o que tende a acontecer quando aparecem estas “concessões” (que agradecem o favor de assim obrigarem o automobilista sensato a evitar perder a cabeça nas estradas “alternativas” e a pagar os seus usurários honorários.

Assim não vale a pena ser cidadão. Ou melhor, vale a pena quando apenas se se é rico.

Mas se eu fosse rico viveria em Mónaco, Manhattan ou Jupiter Island, não em Cascais. Lá há estradas muito melhores e não se paga metade dos impostos que se pagam aqui.

A Sra Dra menina deu-me o recibo e os 10 cêntimos de troco e explicou-me que concordava perfeitamente comigo e que a velha estrada ficava um quilómetro para a esquerda e que se podia usar.

“Mas quando vim para cá os velhos acessos desapareceram e na rotunda só vi sinais para esta auto-estrada” (Portugal está-se a tornar numa verdadeira “rotundocracia” rodoviária).

Ela explicou que havia uma (obscura) estradazinha escondida à direita da estrada que dizia “Linhó” e que essa estradazinha ligava à velha estrada que ligava Cascais a Sintra.

Acelarei o ABMobile e saí da auto-estrada, sentindo-me perfeitamente roubado e ludibriado.

Para gozo do exmos leitores Maschambianos, o recibo do que paguei está no cimo deste texto.

Nos meus tempos de residência nos EUA, era obrigatório os operadores das estradas concessionárias a) meterem uma placa em todas as entradas das suas estradas a anunciar que aquilo era a pagar, e b) as municipalidades indicavam as estradas alternativas.

Neste caso, a velha e excelente (e free) estrada para Sintra pura e simplesmente desapareceu do mapa.

Crápulas. Todos eles.

Eu sei o que alguns dos exmos leitores estão a pensar: “mas, ABM, 90 cêntimos é troco. Não faz muita diferença. Um gelado custa 2 euros.”

Talvez. mas não é assim que eu penso. E neste caso, pelas razões explanadas, ainda pior.

Quando saía da estrada, danado, ainda pensei: “bolas, agora só faltava mesmo era despedirem o Paulo Bento do Sporting”.

Anúncios

Site no WordPress.com.