THE DELAGOA BAY REVIEW

15/08/2012

SÓ SE VIVE UMA VEZ

Filed under: Frank Sinatra, Sinatra em Moçambique — ABM @ 9:48 pm

A Voz.

Do meu ponto de vista, este foi o mais memorável concerto de Sinatra. Foi no Madison Square Garden em Nova Iorque, na noite de domingo, dia 13 de Outubro de 1974. Dois meses antes, nos EUA, Richard Nixon demitiu-se de presidente dos EUA em desgraça, na sequência do escândalo de Watergate. Um mês antes, os mandantes do golpe de estado militar em Portugal entregaram o governo do então Estado de Moçambique, onde eu nascera e vivia em infantil e iludida felicidade, aos comissários da Frelimo, depois de um acordo assinado num país ao Norte e que foi celebrado em Lourenço Marques de forma digamos que politicamente menos correcta. E uma semana e um dia depois deste concerto em Nova Iorque, uma qualquer altercação entre militares na baixa de Lourenço Marques descambou em mais um incidente grave, acelerando o êxodo maciço dos brancos de Moçambique, de súbito tornados personnas non gratas. Na Ásia, os norte-americanos perdiam o pulso ao Vietname do Sul, que deixariam precisamente no dia 25 de Abril de 1975, o mesmo dia em que, já eu em Coimbra a estudar num liceu e a nadar, os portugueses elegiam uma Assembleia Constituinte, desferindo a primeira machadada no plano comunista de simplesmente tomar o poder. Ainda assim tentaram. Até ao fim do outono de 1975, o país estaria a ferro e fogo, a seguir viria a República Socialista, uma palhaçada medíocre, tépida e demagoga que só entraria em falência técnica em meados de 2010 com José Sócrates. Ao lado do Vietname, no Laos, ainda em 75, um obscuro general comunista, Pol Pot, iniciou um dos grandes e mais insanes massacres do Comunismo no Século XX, que em dois anos chegou a um total estimado de dois milhões de pessoas deliberadamente mortas.

Estes foram tempos não menos memoráveis para um jovem com 14 anos de idade, o sétimo de oito filhos dum casal açoriano com um marcado sentido de aventura “imperial”, que despertava cedo para o mundo e para os verdadeiros desafios da vida.

Mas Frank Sinatra, que aprendi a gostar de ouvir com o meu pai no seu modesto gira-discos em Lourenço Marques, é Sinatra. Inconfundível, inimitável, genial, o seu repertório o luxo de uma geração. Em 1975, em Coimbra, com 15 anos de idade, matei-me em poupanças e nem sei bem como, comprei um disco da Voz, que ouvi vezes sem conta e com o qual de olhos fechados celebrava a vida e o futuro enquanto tudo se parecia estar literalmente a desmoronar em meu redor. Não desisti. Nada disso. Ainda o tenho. O disco de Sinatra resume o concerto que, graças a um simpático senhor no Youtube, se pode ver e ouvir em baixo.

E cujo hino, My Way, dedico, um tanto parola mas genuína e sentidamente a algumas pessoas:

Ao Manuel Petrakakis, que partilha o meu apreço sinatriano e me fazia o favor de o tocar quando eu ia para a Costa do Sol comer os camarões no restaurante dele nas noites quentes da agora Maputo.

Ao grande Kok Nam, um grande homem que fazia grande fotografia, relação do meu pai que também foi minha, que esta semana foi cedo demais e cuja vida pretendo celebrar mais uma vez.

Ao Luis Nhachote, que mantém acesa a chama do grande jornalismo em Moçambique quando parece que há gente que se prostitui por duas moedas.

Ao meu pai Melo, que me ensinou uns truques para encarar a vida.

Ao meu irmão Chico.

10/11/2010

JUROS DA DÍVIDA PORTUGUESA A SETE POR CENTO

por ABM (11 de Novembro de 2010)

A canção acima, dedico ao Manuel Petrakakis, do Restaurante da Costa do Sol, como eu apreciador de Frank.

O título, a José Sócrates.

24/09/2010

A BOMBA INTERGERACIONAL

Filed under: Frank Sinatra, Sociedade portuguesa — ABM @ 4:49 am

O que diz o estudo da OCDE

Um dos problemas da presente “crise” é a aparente dificuldade de muitos em entendê-la, quer pela – nalguns casos – dificuldade técnica em digerir alguns dos seus fundamentos, quer pela dieta ideológico-identitária que lhes cinge a visão das coisas.

Há uns tempos, a revista The Economist, que de vez em quando destila aqueles relatórios que poucos ou nenhuns lêem, apresentou o quadro acima.

O quadro apresenta três informações interessantes.

À esquerda, mostra, para cada um dos principais países da OCDE (com particularidade de incluir Portugal, que, apesar das más línguas, está nos top 30 do mundo em muitas das estatísticas) a idade em que, nesse país uma pessoa se tem (pode?) reformar e passar a receber uma pensão de reforma.

Em Portugal, por exemplo, uma pessoa pode reformar-se aos 65 anos de idade.

A seguir, a barra azul de cima mostra, para os anos entre 1965 e 1970, com base na idade mínima obrigatória para a reforma, o número de anos que, com base na expectativa de vida das pessoas, alguém em média ficava a receber uma reforma.

Em Portugal, por exemplo, uma pessoa que se reformava nessa altura (entre 1965 e 1970) em geral recebia uma pensão de reforma durante uns quatro anos. E depois morria.

Por baixo, vê-se a barra côr de laranja a mesma estatística mas para os anos entre 2002 e 2007.

Em Portugal, por exemplo, uma pessoa que se reformava nessa altura (entre 2002 e 2007) em geral deverá receber uma pensão de reforma durante uns dezasseis anos antes de, pelo menos estatisticamente, morrer.

Agora faça-se umas contas de cabeça.

Entre 1965 e 1970, as pensões de reforma eram baixas por comparação com hoje. De facto, eram quase caricatas.

E o número de reformados não excedia cerca de duzentos mil (estimativa minha com base no dedo no ar).

A população activa já era de cerca de 4.5 milhões de pessoas.

Fazendo as contas, em 1970, para cada reformado haviam 22,5 pessoas a trabalhar e a pagar impostos.

Com as mudanças vindas com a troca de regime político em 1974, sobre todos choveram direitos, a que necessariamente teve que corresponder a obrigação de os custear.

E de entre esses, poucos foram tão descaradamente abusados como o do “direito” à reforma.

De facto, em Portugal, as reformas tornaram-se um verdadeiro negócio da China. Uma empresa que se quisesse discretamente ver livre dum empregado, mandava-o para a reforma aos 40 e aos 50 anos de idade, sem qualquer dificuldade. Quase todos os dias, os jornais portugueses publicam dados, com nomes e valores, de pessoas que têm uma, duas, três, quatro reformas – ao mesmo tempo – contabilizadas de forma no mínimo bizantina. Algumas das regras eram simplesmente inacreditáveis.

E no caso dos políticos e afins, o descalabro era e parece que continua a ser, bem, simplesmente obsceno.

Lembro-me de um caso duma secretária da Assembleia da República portuguesa que, para se aproveitar duma regra que baseava a sua futura reforma no salário que auferiria no último ano de emprego, arranjou maneira de ser nomeada assessora duma coisa qualquer nesse ano, cargo pago a peso de ouro, e doze meses depois era como se lhe tivesse saído o euromilhões.

Mas, por mais imorais que sejam essas situações – se os problemas fossem só esses não seria tão grave.

O que agrava a situação é que, hoje, Portugal hoje em dia tem cerca de 2.9 milhões de reformados – e o número continua a subir.

Reformados que – felizes eles e desgraçados os contribuintes – levam em média dezasseis anos a morrer.

E que – infelizmente para os reformados – em média recebem umas pensões de reforma miseráveis – ente 300 e 400 euros por mês.

Mas os números não omitem a realidade: hoje, cada 1.6 pessoas que trabalham (e esses continuam pelos 4.6 milhões) sustentam um reformado.

Por quatro vezes mais tempo do que acontecia há quarenta anos.

Com a bolha financeira pública prestes a explodir, este assunto vai ter que ser resolvido. Da forma mais difícil.

A maneira mais fácil será subir a idade a partir da qual se pagam reformas para os 75 anos de idade.

Dessa forma, a maior parte das pessoas morrerá (provavelmente de fome e de doença) antes de poder ir buscar o seu primeiro cheque à segurança social. Salvava-se o estado, mas para muitas pessoas seria uma verdadeira calamidade. E presumo que seria considerado politicamente inaceitável.

A outra seria subir os impostos a toda a gente uns dez por cento, colocando a fasquia fiscal na estratosfera a nível mundial. Já está a acontecer.

À partida, o gráfico acima indica que, estando entre os piores casos a nível da OCDE, Portugal não é o pior caso.

Mas isso não serve de consolo. Com os problemas dos outros podemos nós todos, não é?

Aliás, com as pressões sobre os orçamentos da saúde, da educação e até da defesa nacional (agora ninguém quer sequer pagar o maldito do submarino) e a dívida pública e privada a atingir o insustentável, o problema de como encarar a questão das reformas e como funcionam em Portugal, tende a ser menosprezado.

Mas para mim, que tenho 50 anos de idade, a questão é muito simples.

A minha geração andou uma vida a pagar reformas muitas das quais não foram descontadas, e algumas certamente não foram merecidas. E quando chegar a nossa vez, vamos receber uma miséria, tardiamente, e por pouco tempo.

Aquilo que pouparmos entretanto, seja dinheiro no banco, imóveis ou acções, já está a ser e continuará a ser cada vez mais impenitentemente taxado até se acabar, para financiar os faraónicos programas dos sucessivos governos e as suas obrigações pecuniárias.

E, simplesmente dito, ou os nossos filhos não vão ter como nos sustentar na velhice.

Ou não vão querer fazê-lo.

Portanto, exmo. Leitor, siga este parco conselho:

Sorria e goze a vida. Vá à praia, sofra com o Sporting, coma um bom bife, leia um bom livro.

Ou trauteie comigo aqui em baixo o Frank Sinatra e um tipo qualquer, um dos meus velhos favoritos, Fly me to the Moon.

Enquanto pode.

30/01/2010

Sinatra Forever

Filed under: António Botelho de Melo, Frank Sinatra, Música — ABM @ 10:25 pm

por ABM (Alcoentre, 30 de Janeiro de 2010)

Aprendi com o pai BM a gostar do Frank Sinatra, e foi uma lição que gostei de aprender.

Sobre ele durante anos só conhecia um fantástico repertório, uma voz ímpar e das melhores dicções de inglês que já escutei (o exmo leitor tente entender o que os Deep Purple dizem em Smoke on the Water, que tive que escutar ods meus irmãos no princípio dos anos 70).

Gostar de Sinatra para a minha geração (a nascida em 1960) já era algo estranho, que eu complementava com uma apreciação (única na casa dos BM) por música clássica, jazz e outros tipos de música que já não é chique mencionar-se como Paul Mauriat e Waldo de los Rios.

Mas Sinatra resiste bem aos tempos e tem os seus adeptos. Um dos maiores prazres da minha rotina nos meus tempos de Maputo era ir jantar ao Restaurante da Costa do Sol, com cujo dono, o grande Manuel Petrakakis, partilho a paixão sinatriana, e quando me sentava, mão invisível logo removia aquela música estilo zurrapa internacional que se toca enquanto está lá, e põe um longo CD com as músicas favoritas do Frank.

Que mais se pode pedir neste mundo, senão o folclore africano em frente ao restaurante numa tarde quente, um bom prato de ameijoas com uma Coca-Cola bem gelada, enquanto se ouve umas canções pelo Frank?

Hoje faço anos e a patroa, que está de viagem, mandou-me num e-mail o que está acima, a mais bem conseguida balada de Sinatra (andamos em contenção de custos).  I’ve got you under my skin é um dos clássicos mais bem conseguidos pelo imortal Cole Porter, com arranjo pelo insuperável Nelson Riddle.

E a única canção cuja letra sei cantar desde o princípio ao fim.

E com ela brindo a todos, leitores, amores, amigos, inimigos (só hoje).

A vida também é isto.

Às vezes é só isto.

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