THE DELAGOA BAY REVIEW

01/01/2010

Não Deixar a Casa dos Pais

Filed under: Paternidade, Sociedade portuguesa — ABM @ 6:40 pm

Leaving Home Eurostat

por ABM (Alcoentre, 1 de Janeiro de 2010)

O maior dogma da vida moderna nas sociedades modernas são os filhos – tê-los, criá-los, torná-los adultos e prepará-los para a vida. Já falei sobre isso antes aqui. Para além de estupidamente caro, acaba na prática por ser um processo inteiramente falível, pois os pais hoje não criam nem educam, apenas se limitam a pagar as facturas enquanto trabalham, ficando os filhos ao abandono das créches, das escolas, dos amigos, da televisão e da internet. A relação familiar é algo que se forma no entretanto, pelo mero convívio e a experiência comum, seja ela boa ou má.

Digno de uma boa novela de Charles Dickens.

Mais interessante é a constatação de que, para além do resto, os meninos e as meninas cada vez ficam em casa dos pais mais tempo. Presumivelmente à custa dos papás e das mamãs. Como curiosidade e via o Economist da semana passada, o Eurostat, uma fábrica de estatísticas da União Europeia, publicou os dados que acima se reproduzem, respeitantes a 2007 (portanto antes do recente tombo na economia mundial).

Se bem que mais ou menos dentro da média, os dados indicam que os meninos e meninas portugueses naquele ano ficavam a viver com papá e mamã (ou, com quase a mesma frequência, o papá ou a mamã e mais com quem os respectivos vivem) até quase aos trinta anos de idade.

Trinta anos de idade.

Ou seja, para uma pessoa de meia idade em Portugal (45 a 55 anos de idade) isto representa uma embatida tripla: suporta a compra de uma casa, um carro etc, suporta os filhos até eles terem cerca de trinta anos de idade e ainda suportam os pais, que em Portugal recebem em média reformas de 300 euros por mês.

Quando chegar a sua vez de deixar de trabalhar, não poderá, pois mesmo que quisesse, não poupou nada. Gastou o que tinha e não tinha com a geração acima e a geração abaixo. Que agradecem. Ou não.

Isto faz-me pensar como os tempos mudaram – e dizem-me que não sou exemplo, por ter “saído de casa” cerca dos 15 anos de idade (em parte fruto de inesgotável e interessada generosidade de vários terceiros) e ter começado a trabalhar mais ou menos a tempo inteiro aos 18 anos de idade, incluindo o pagamento das propinas de duas universidades, carro, roupa, comida, etc.

Nos anos 70 éra-se adulto aos 21 anos, com direito a festa com os amigos e até uma “chave dos 21 anos”.  Até aí se tudo corresse bem os pais gastavam algum dinheiro com casa, comida e a roupa lavada para a criança/adolescente/jovem adulto. Os estudos eram estatais e com algumas excepções custavam pouco ou nada. Não havia vícios nem necessidades prementes fora disto. Quando acabavam o liceu ou a universidade, e nalguns casos antes, os jovens iam trabalhar. Viviam como podiam e acampavam juntos até haver dinheiro para se fazer mais alguma coisa. Primeiro alugavam um buraco algures, depois tentavam fazer vôos mais altos.

Hoje, é a atitude subjacente a esta permanência prolongada em casa dos progenitores que me chama a atenção.

De certa maneira, convencionou-se aceitável, efectivamente, prolongar a adolescência até aos vinte e tal, trinta anos de idade.

Parece que se pode ter a prerrogativa da vida adulta mas sem os custos, as responsabilidades e os sacrifícios inerentes.

Sendo que, paradoxalmente, hoje em dia cresce-se mais depressa quer física quer emocional, quer intelectualmente que há trinta ou quarenta anos atrás. Ou seja, tirando ao pequeno aspecto de não trabalharem nem terem fundos próprios, os jovens ficam adultos mais cedo.

E hoje os “requisitos de vida normais” para um adolescente ou um jovem adulto são muitos e o seu custo quase astronómico enquanto adicional do que uma casa gasta normalmente.

Os pais, às vezes não sei bem como, pagam tudo.

Mas na esmagadora maioria dos casos há uma barreira que não se pode atravessar: a maior parte dos pais simplesmente não tem recursos suficientes para comprar ou alugar uma casa para o seu rebento de 20-30 anos de idade fazer, também à sua custa, o que bem lhe apetece.

Portanto os meninos e as meninas ficam em casa dos seus pais, numa convivência nem sempre consensual ou saudável.

Frequentemente, adiando a reboque disto tudo a decisão de constituir família, agravando a cada vez mais grave (na Europa e em Portugal) implosão demográfica agora em curso.

Mesmo que estes jovens arranjem um dia uma casa (depois de sair de casa dos pais) terão durante muito tempo a chance de comprar ou alugar um apartamento de uma ou duas assoalhadas, o que dificulta a decisão de fazer crescer a família.

A saída dos filhos de debaixo do ninho familiar não é apenas uma questão logística: é um rito e uma parte fundamental do processo de afirmar a sua independência e de aterrar no mundo real, sem a participação e interferência constante dos pais.

Que, por mais não seja do que serem quem os donos da sua casa e pagarem as contas a estas pessoas, podem interferir muito.

É um paradigma que não sei onde irá levar.

12/10/2009

Ano Novo, Piolhos Novos (não pulgas)

Filed under: Paternidade — ABM @ 8:25 pm

ct</ins>enocephalides-canis

por ABM

Até um Maschambeiro convicto sai do sério de vez em quando. Hoje aconteceu um desses episódios.

Eu conto.

Aqui em casa mantenho, com sofrível sucesso, um aspirante a teenager (“adolescente” nos termos do AO) que me acompanha nas deambulações geográficas curriculares desde há vários anos, tendo tido passagens duradouras por, para além de um escola na elegante Vila de Cascais – onde frequenta uma escola selecta e cheia de regras, daquelas onde se usa gravata, juntamente com um perfumado conjunto de bétinhos e betinhas – escolas nas supostamente muito mais precárias cidades de Luanda e Maputo.

Enfim, é um futuro cidadão e, mais importante, um futuro contribuinte, dos tais que vão ter 1.1 filhos, pagar com os seus impostos as auto-estradas, o novo aeroporto e o têgêvê do Engenheiro Sócrates, para além das miserandas reformas a gente como eu, qye tem a dúbia sorte de se deparar com uma esperança média de vida de 78.9 anos.

A minha primeira reacção, ao olhar para as escolas onde ele andou, é presumir que, em termos de qualidade, salubridade e higiene, Cascais se colocaria muito acima das suas congéneres em Maputo e Luanda. Há mais dinheiro, melhor infra-estrutura, o nível médio de vida em geral é melhor, etc.

O surpreendente é que, no entanto, desde que S.Exa anda nesta escola, a experiência tem provado o contrário.

Há uns tempos, recebi um preocupado e-mail da escola, soberbamente escrito, em que a Exma. Senhora Directora alertava os paizinhos das lindas crianças para a possibilidade dos jovens chegarem a casa com piolhos no cabelo. Fatalista e formal, ela tentou dourar a pílula dizendo “bem, sabem, estas coisas acontecem, sabem como são os meninos, metem as mãos em toda a parte”, etc e tal.

E terminava indicando que tínhamos que inspeccionar S.Exa regularmente e fazer coisas como catar os piolhos e meter champô anti-piolhos no cabelo para não haver problemas – mais ou menos o que eu já faço com as minhas duas cadelas sul africanas Cookie e Hot Dog, também conhecidas como as Chiquérrimas.

Contactada a escola, confirmou-se haver uma mini-epidemia de piolhos e portanto aqui em casa despoletou-se imediatamente o PCP (Plano de Contingência contra Pulgas) onde basicamente se tentava evitar não que as cadelas passassem os ditos invertebrados para o míudo mas precisamente o contrário.

Como parte do processo, logo descobri que o champô dele custa cinco vezes o das cadelas, o que me inspirou logo a fazer umas sérias poupanças usando o das cadelas, no que fui imediata e indignadamente impedido pela Patroa, que defendeu vigorosamente que para espécies animais diferentes se usam champôs diferentes.

Para variar, como o champô das cadelas já acabou, agora usamos o do menino para elas, com os correspondentes custos acrescidos.

Há uns escassos dias, começou o ano escolar português, o que significa o habitual corropio de paga propinas, compra canetas, compra livros, paga fotografia de grupo dos meninos, paga deslocação ao Jardim Zoológico, compra uniforme, etc – uma pequena fortuna, com o correspondente rol de e-mails da menina da Secretaria da escola (a “menina” deve ter uns 90 anos de idade…), incluindo as complexas medidas preventivas no caso de ocorrer uma infecção da Gripe A por um dos alunos ou corpo docente.

Portanto tudo feito e tudo a postos.

Mas hoje de manhã, ao verificar a minha parca correspondência electrónica, encontrei a seguinte carta da escola, indicando … o eclodir de nova epidemia piolheira. Uma escassa semana depois das aulas recomeçarem!

Eis o meu dilema: este miúdo andou por todos os lados e mais algum nos sítios supostamente mais sujos, em escolas com muito mais gente, supostamente mais exposto a tudo e mais alguma coisa, e nunca apanhou nada, nem pulgas, nem piolhos nem malária, nem diarreias, nem em Luanda, nem em Maputo.

Mas em Cascais, com os meninos bétinhos e escola com planos de contingência para tudo e mais alguma coisa, já vai na segunda epidemia de piolhos.

É um paradoxo… ou então estes putos aqui são uns grandes porcos.

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