THE DELAGOA BAY REVIEW

25/02/2012

O IMPÉRIO SOCIALISTA CONTRA-ATACA, 2012

A política portuguesa às vezes mete nojo. A procissão ainda nem chegou ao adro e já se assistem aos mais elaborados malabrismos.

A verdade é que este ano os efeitos decorrentes dos inacreditáveis níveis de endividamento público, privado, soberano e bancário vão-se começar a abater sobre a população, sem contar com a necessidade de se aumentaram mais os impostos, as taxas, as tarifas e mais sei lá o quê.

E o que é que o Partido Socialista, agora em oposição faz?

Pisca o olho. Pisca o olho como se nada tivesse que ver com o que aconteceu e, mais grave, pisca o olho como se pudesse existir alguma via alternativa ao que está a começar a acontecer.

Parafraseando de um outro blogue:

 

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12/12/2011

AS DÍVIDAS SÃO PARA SE PAGAREM

Crise? Qual crise? Um grande álgum dos Supertramp, 1975. Tema desta pequena crónica sobre o momento que se vive em Portugal.

(em cima, a incomparável Marlene Dietrich cantando “Para onde foram as flores” em Londres, 1972. Para além de grande actriz, foi sempre anti-nazi, o que lhe valeu ter sido ostracizada por muitos dos seus compatriotas).

Sempre paguei as minhas dívidas. Mesmo quando não tinha dinheiro, sempre paguei as minhas dívidas. Nunca pedi dinheiro emprestado, sabendo que não o quereria ou poderia vir a pagar. Se tinha dificuldades em pagar, arranjava maneira de liquidar as minhas dívidas. Antes de pedir dinheiro emprestado, fazia contas detalhadas ao centavo, para ver como e quando é que iria pagar o que devia.

É normal. Isto faz parte da vida e não consigo ver as coisas de outra maneira.

Não confundo, nem sou capaz de induzir alguém a confundir, entre “emprestar” e “emprestadar”. A isso chama-se enganar o próximo.

Especialmente amigos e “amigos”. Essa é uma das maiores traições a que assisto e que, no meu caso, dificilmente consigo perdoar.

Se respeito o meu dinheiro, respeito muito mais o dos outros, pelo mero facto que considerei sempre ser um enorme privilégio, e uma marca de respeito e confiança depositadas em mim, quando alguém me emprestava dinheiro ou pedia conselho sobre dinheiro. Trair esse respeito e essa confiança, não o pagando (com juros) é para mim entre as maiores falhas de carácter e de formação que posso conceber.

Com já meio século de existência, já passei por desafios de toda a ordem e, também por razões da profissão que exerci, distingo claramente entre vários tipos de pessoas: as que sabem gerir dinheiro e as que não sabem gerir dinheiro, e as pessoas que têm palavra e as que não têm.

As pessoas que não têm dinheiro e não têm forma de o pagar têm um nome: são pobres – ou para lá caminham.

Eu já fui pobre. Hoje considero-me remediado a resvalar para o pobre (mas não de espírito). Mas, por experiência e por ter a abertura para o conceber, sei o que é ser pobre. Sei o que é ganhar dinheiro e sei o que é perder dinheiro. Ambos os casos exigem uma boa dose de controlo, de humildade e especialmente de carácter. Nada me exaspera mais que ouvir alguém que é, ou se tornou pobre, e que teima em não o constatar. Quem é pobre não pode ter vícios e tem que trabalhar se quiser deixar de ser pobre.

Nos dias em que correm, ser-se pobre, não sendo agradável, tende a não ser um estatuto social, que já foi, quase como uma casta. A pobreza supera-se pelo trabalho e a educação, especialmente a educação. Para quem tem idade para trabalhar e uma educação mínima, a pobreza é por definição uma situação transitória. Para quem não tem idade para trabalhar, assisto com exagerada frequência jovens – que são por definição pobres – a viver alegre e por vezes exuberantemente à custa dos pais, abusando vergonhosamente do compacto social geracional, enquanto que os mais velhos minguam vergonhosamente na miséria, sem o apoio desses jovens, que entretanto cresceram e que insistem em tentar viver a boa vida sem ter em conta o outro lado da moeda desse compacto social geracional.

Os esquemas e apoios dos governos valem o que valem, especialmente no caso dos mais velhos. Em Portugal, o governo faliu. Faliu porque gastou muito mais do que arrecadava em termos de impostos e faliu porque pediu emprestado tanto dinheiro que já nem os juros consegue pagar.

A palavra de um governo expressa-se nos documentos de dívida que assina e que entrega a terceiros, que lha concedem. A partir de meados deste ano, em Portugal, a palavra do governo deixou de ter qualquer valor. Por isso, teve que “pedir ajuda”. “Pedir ajuda” significa pedir mais dinheiro emprestado, desta vez acompanhado de algumas garantias de que “desta vez” vai arranjar maneira de pagar o que deve, corrigindo o seu caminho, que é arrecadar mais dinheiro e pagar atempadamente o que deve.

Quanto a isso, acredita quem quiser. Os mercados tendem a não acreditar.

Neste processo, as responsabilidades pessoal e a colectiva entrecruzam-se. Na actual crise portuguesa, pessoas que sempre pagaram o que deviam e pouparam nos tempos da fartazana estão a ser coagidas a cobrir as asneiras de quem se endividou e viveu acima das suas posses durante, nalguns casos, décadas. Noutros casos, pessoas sem grandes posses viram o tapete ser-lhes puxado por baixo dos pés, ou porque são empregados do Estado e o Estado cortou-lhes o salário, ou porque a economia inverteu e perderam os empregos. Nestes, perdem desmesuradamente mais os segundos, mas os primeiros falam como se fosse o fim do mundo e até fazem greve. Os desempregados não fazem greve. Não podem.

Ficaram mais pobres e não gostam. Mas por ficarem mais pobres, devem procurar reduzir nos seus custos e limpar as suas dívidas. Quem é pobre não pode e não deve ter vícios. Se não conseguem, devem falar com quem devem dinheiro e negociar uma situação alternativa. Não dizer nada e não fazer nada é irresponsável.

Portugal não ficou mais pobre em 2011. Portugal foi sempre pobre, muito mais do que se suporia ao se olhar para o que as pessoas, as empresas e o governo faziam até há pouco tempo. No fim, apenas se andaram todos a enganar nos últimos quinze anos e finalmente, graças a um contexto internacional muito grave e uma última loucura de um agora ex-primeiro-ministro, sujeitaram-se a uma mudança tectónica na medida em que essa realidade se tornou incontornável.

Agora, as pessoas, as empresas e o governo lamentam-se e procuram formas de lidar com a situação.

Uma das formas é consumir menos, o que vai provocar falências e mais desemprego, menos impostos e por essa via menores gastos do governo, nomeadamente com apoios sociais e reformas. As consequências vão ser claramente negativas e corre-se o risco de uma espiral em que uma coisa alimenta outra.

Um dos argumentos mais apetecíveis para lidar com esta situação é, em vez de se trabalhar mais e arranjar maneiras de ir buscar o dinheiro para se pagar o que se deve, é ….não se pagar o que se deve.

O argumento mais simples é que a culpa é de quem emprestou o dinheiro, não de quem o pediu emprestado e que agora diz que se enganou ou que não sabia o que estava a fazer. Ou a melhor: que foi enganado.

Ao nivel macroeconómico, o ajustamento à nova realidade tem sido penosamente demorado, como sempre parece a ser a tendência em relação às coisas portuguesas. Aumentaram-se e vão-se continuar a aumentar os impostos, e espera-se que se arranje maneira de diminuir as despesas do governo, o que não está a acontecer.

O grande embate virá no próximo ano, se entretanto Portugal não sair do euro, o que, a acontecer, será uma catástrofe sem precedente. Nesse embate, irá haver um confronto entre uma realidade em que, no mercado de trabalho, os que ainda têm empregos tê-los-ão mais ou menos garantidos, e outra, em que cerca de um milhão de desempregados (jovens e “velhos”) não terão nada e ficarão sem nada.Nem sequer subsídios de desemprego ou poupanças. Face à grandeza dos números e o seu impacto, poderá haver consequências. Entre elas a tentação de não se pagarem as dívidas. Ou de partir para aventuras políticas pouco condicentes com a actual dispensação constitucional.

Mas neste capítulo já está a haver um custo. Ninguém já empresta dinheiro a Portugal e a empresas e bancos portugueses há quase um ano.

Ninguém a não ser o Banco Central Europeu, sem o qual Portugal já teria, mais do que falido, entrado em colapso total. O BCE não é o credor de último recurso na União Europeia. Mas tem-no sido para Portugal, em parte porque, contabilisticamente, Portugal é irrelevante em termos económicos na Europa – 1 a dois por cento do seu PIB.

Muitos acusam agora os alemães de intransigência em bloquear a abertura das comportas do financiamento “barato e farto” europeu. Esquecendo-se que isso para os alemães significa serem eles a pagar do bolso deles pelas asneiras feitas por, entre outros, os portugueses. Ainda por cima sem qualquer garantia de que não voltariam a fazer a mesmíssima coisa logo a seguir.

Este fim de semana, esperava-se um “momento da verdade” numa reunião de líderes europeus. Em que os putativos maus da fita eram os alemães, que, pelos vistos, um pouco como eu, acreditam que as dívidas são de quem as contraiu e são para serem pagas. Daí resultou uma solução meio acinzentada e imprecisa de se vir a fazer alguma coisa num futuro próximo. Ganhou-se algum tempo, apenas, os britânicos mais uma vez e como sempre ficando à margem da festa.

A economia de mercado tem disto: periodicamente, da mesma maneira que produz riqueza, ajusta-se às novas condições do mercado. Nesse ajuste, não se compadece com os desejos dos governos e menos ainda com o bem estar e “direitos adquiridos” dos seus eleitores. O que urge é, dentro do que se pode fazer, tentar prevenir contra a miséria (que se distingue da pobreza e a qual não permite uma vivência digna).

No fim, os alemães, que pagaram há cem anos a ferro e fogo e aprenderam a lição (tiveram o inferno de Weimar, a depressão, Adolf Hitler, uma guerra intestina) têm razão: a melhor maneira de não ter que lidar com as dívidas excessivas é mesmo não pedir demasiado dinheiro emprestado.

Tivesse agido desse modo, Portugal não estaria na posição em que se encontra hoje.

E a mesma lição se aplica a todos e cada um de nós.

Tudo o resto é conversa.

De mau pagador.

06/12/2011

O QUE FALTA NA EUROPA EM FINAL DE 2011

Visão

 

Tomates

O PRIMEIRO-MINISTRO DE PORTUGAL EM 2013

05/12/2011

SOBRE AS MINHAS PRENDAS DE NATAL EM 2011

Natal português sem bacalhau norueguês não é Natal.

Que fique registado que este Natal e final de ano assinalarão o início do primeiro annus horribilis português em muitas décadas. Se muito boa gente no rectângulo lusitano atér agora ainda andou a queimar (estupidamente, na minha visão reconhecidamente prudente e conomicista) os últimos cartuchos em termos dos seus cada vez mais duvidosos empregos, das suas poupanças ou ainda do que restou dos subsídios de desemprego e – apesar de tudo – o corte de apenas um dos “subsídios” salariais para quem trabalha no “sector público”, daqui a um ano será radicalmente diferente. Para muito pior. Ao ponto de parecer que as forças policiais, linha de frente da ordem e paz domésticas, senão da chamada legalidade democrática (whatever that may mean) se preparam para eventuais perturbações sérias da ordem pública em 2012, treinando e comprando mais uns cassetetes (uma palavra francesa que elegantemente descreve um pau para dar nos cornos a quem não acate a ordem dum agente da nossa segurança).

Há muito que eu simplesmente sublimei o lado material do espírito natalício, que tende a ser um exercício de desperdício caro, para outros e especialmente para mim. Para dar um exemplo, há dois anos, alguém ofereceu-me uma máquina de filmar de vídeo Sony do melhor que havia. Usei-a uma vez, para filmar a festa de aniversário do piriquito de um amigo.

Isto para dizer que, especialmente hoje em dia, dada a massificação das comunicações e o seu preço menos usurpador, um simples email ou um telefonema para mim é, felizmente, mais do que suficiente – uma coisa simples, pois apresentações em filmes e apresentações elaboradas em Powerpoint que não acaba e passo o Natal a tentar responder ao que recebo, habitualmente sem grande sucesso e às tantas irritado.

Uma consequência adicional do crescente uso e facilidade no envio de mensagens electrónicas, adicionalmente, é que, ao contrário de antigamente, quando as pessoas compravam cartões e prendas, que dava trabalho e custava dinheiro, hoje qualquer pessoa manda um cartão de Natal electrónico a qualquer pessoa. As empresas, no que considero uma medida que faz todo o sentido, estão a migrar para o formato electrónico, o que poupa dinheiro e árvores e trabalho e vai dar ao mesmo. Mas aí está outro perigo. Outro dia recebi (e já estou a receber, não percebo porquê) um cartão de Natal do Banco Santander, onde nunca tive conta. É bonito, todo encarnado, e a nevezinha electrónica, que também arranjei premindo uma opção qualquer há um ano, também existe neste blogue.

Claro que se algum amigo mais abonado quiser, sugiro que não me dê nada de electrónico, nem roupa nem útil. Tudo isso, admito, tenho.

O que eu gostava mesmo de ter é o quadro em baixo, do Senhor Malangatana, que vai a leilão nos meus amigos do Palácio do Correio Velho, em Lisboa, que de vez em quando me mandam uma mensagem a dar conta do que vão leiloar. Este leilão então é um luxo, tem um pouco de tudo, vários Malangatanas e até um Arpad-Szénes a preço de saldo.

Este, dizem os especialistas, deverá ir por entre uns meros 10 e uns mais substanciais 20 mil euros, mais Ivas e alcavalas.

Ah, mas que prenda seria. Chegar a casa e dar de caras com uma obra do Mestre.

Claro que, até lá, esperarei sentado ficarei a apreciar aqui esta imagem da obra do nosso grande Mestre de Moçambique, que ele pintou em 1982, cujas cores e caras menos enfadonhas que o habitual, me seduziram.

 

Malangatana, 1982. Ora eis uma prenda de Natal. Alternativamente, mande-me um email simples. A simpatia e amizade não têm preço. Se quiser ver a obra em tamanho maior, prima na imagem duas vezes com o rato do seu computador.

17/11/2011

RTP ÜBER ALLES*

O programa continua dentro de momentos.

*A RTP acima de tudo – em germanês.

“Não há dinheiro. Qual destas três palavras é que o Senhor Deputado não entendeu?” Foi assim que, em termos que considerei refrescantes, um dos actuais ministros, quando discutindo as difíceis opções em termos do que fazer perante a calamidade que se aproxima das costas portuguesas, se dirigiu a um dos parlamentares da oposição.

Na longa tabela do deve e haver das despesas que os sucessivos governos portugueses acharam por bem fazer, a RTP ocupa um lugar de destaque, apesar de, agora se sabe, estarem a aparecer outras entidades públicas ou publicamente detidas, com dívidas monstras nos seus balanços, cuja utilidade e desempenho são menos questionáveis.

A RTP ocupa um lugar de destaque porque sempre foi demasiadamente cara para o que serve, porque tem sido politicamente instrumentalizada para efeitos da manipulação da opinião pública e – principalmente – porque sendo hoje o negócio da informação e do entretenimento isso mesmo – um negócio – simplesmente não entendo porque é que um país falido, sem perspectivas, onera os seus contribuintes com o custo de manter uma loja de bijuteria comunicacional como é o mundo da RTP.

E, este ano, a verba aproxima-se dos quinhentos milhões de euros. Deixe-me o exmo. Leitor colocar a verba em numérico que tem mais piada: são 500.000.000 de euros. Num ano. Para manter a RTP.

Volto a esta questão por três razões.

A primeira razão, é que, supostamente, o governo português actual, por razões da falência próxima do Estado, tem que cortar em muito. Não há dinheiro. Tem que cortar muito e quanto mais depressa melhor. A RTP é um excelente lugar para fazer isso pois é desnecessária, supérflua e contribui zero para o PIB nacional. Ou melhor, contribui negativamente pois extrai dos bolsos dos contribuintes, anos após ano, centenas de milhões de euros.

A segunda razão é ideológica. Pensava eu que o papel de um Estado deixara de ser, desde o advento da era da internet, dos satélites e da comunicação em massas a um custo relativamente baixo, em que o acesso dos cidadãos à informação (seja esta noticiosa ou cultural e de entretenimento) está praticamente garantido, o de assegurar esse acesso a um custo fantasmaglórico, através de uma estrutura que é recorrentemente instrumentalizada para fins políticos menos claros. Pensava eu, também, que os senhores deste governo subscreviam essa tese.

A terceira razão é o que aconteceu quando ontem foi anunciada a conclusão de um estudo, liderado pelo conhecido professor universitário Luis Duque, sobre o que fazer com a RTP.

Do pouco que tomei conhecimento das conclusões desse estudo (estilo bullet points), essas conclusões apontam para uma reformulação de alguns dos serviços, tais como o fecho de algumas estações de cabo, as RTPs regionais, a fusão da RTP Internacional com a RTP África (descobriram a pólvora, aqui) e mais uns embelezamentos diversos. Ou seja, não fecha mas corta umas coisas menores. Por minha parte, nada contra, apesar de eu continuar a achar que aquilo devia ser simplesmente quase tudo fechado e os arquivos mandados para a Torre do Tombo.

Pois não há dinheiro e a gente não precisa de nada daquilo para nada.

Mas eis que surge o inédito, quando nada menos que o Miguel Relvas, o actual ministro dos Assuntos Parlamentares, uma das figuras indómitas da ideologia praguejada pelo actual executivo, surge nas televisões a desdizer as acções recomendadas pelo estudo anunciado. Que não, que não iam fazer nada daquilo, que ele até gostava muito da RTP, que a RTP fazia mais pela cultura que o Instituto Camões (olhem só o exemplo que ele foi buscar), que ele gostava muito da RTP desde os tempos de miúdo, quando ele via os bonecos animados importados a baixo custo da RDA para entreter os meninos do pós-25 de Abril e a Visita da Cornélia.

Fiquei de boca aberta.

Entretanto, todos os meses, tirando as dívidas monstruosas da RTP que vieram não sei bem de onde, quando pago a conta da electricidade (veja-se em baixo) pago uns 5% adicionais dessa conta para a RTP, incidindo sobre esse valor 6% de Imposto de Valor Acrescentado, a menor das tr~es taxas do IVA, que deve ser para dar um toque final de sacanice refinada.

E encontro esses canais perdidos algures na grelha de 130 canais que a Vodafone, agora com o seu novo sistema de cabo de fibra de última geração, canaliza para casa.

Assim, procurarei algum consolo em saber que, pelo menos, quando o país se afundar, fá-lo-á com a RTP.  Vai ser como o naufrágio do Titanic em 1912.

Só que desta vez pagaremos – com IVA a 6% – para podermos ver o naufrágio nacional ao vivo, em televisão estatal, apresentado pelo tal conhecido jornalista nascido em Moçambique, que nos vai piscar o olho direito sorrateiramente uma última vez, antes do pau da bandeira submergir, sob as águas geladas do esquecimento colectivo.

Isto é a parte das contas da minha conta eléctrica de Novembro de 2011. Veja o exmo. Leitor a parte em baixo, respeitante a "contribuição áudio-visual". Pois. Adoro quando chamam "contribuição" aos impostos.

PORTUGAL NO LAGO DOS CISNES

Em cima, Aníbal Cavaco Silva, Pedro Passos Coelho, Vítor Gaspar e Paulo Portas negoceiam o tortuoso caminho do empobrecimento estruturado de Portugal. (Na verdade, são quatro competentes bailarinas do Teatro Bolshoi em 1989, executando a sublime coreografia de Marius Petipa para a grande obra de Pyotr Illyich Tchaikovsky, O Lago dos Cisnes).

Ao fim da tarde outonal de ontem, chegaram a minha casa algumas novidades que caracterizam o momento actual português.

A primeira, é que o governo português contabilizou, ao final de Setembro, 689.400 desempregados, traduzindo-se numa taxa de desemprego de 12.4 por cento. Na verdade, a taxa real é muitíssimo mais alta, a meu ver no mínimo semelhante à de Espanha, que vai pelos 21 por cento. Mesmo assim, estes dados, juntando-se ao verdadeiro exército de sub-empregados (gente com empregos mas salários miseráveis) e ainda mais à multidão de gente excessivamente endividada, constitui a base potencialmente explosiva para coisas para vir.

Em segundo lugar, e não menos importante, no conclusão das análises para se decidir quanto à entrega da segunda tranche do empréstimo para gerir a falência portuguesa (a tranche é do 8.000.000.000 euros), os senhores localmente conhecidos por “troika” foram ao parlamento e à televisão dizer de sua justiça.

O que disseram foi deveras interessante, pois ilustra e confirma algumas coisas que por vezes são menos claras.

Por um lado, confirmaram que, de um modo geral, as coisas estão a correr bem do ponto de vista deles (da “troika) pois os dados macreconómicos, com mais ou menos uns problemas aqui e ali, indicam que os grandes objectivos ainda estão “ao alcance” (aqui, ênfase nas aspas…). Especificamente, referiram que em 2011 se deve ficar mais ou menos por um défice das despesas do governo central de 6%. Um balúrdio, mas em Portugal parece que já todos se habituaram a viver assim há muitos anos.

Por outro lado, confirmaram que há duas tendências graves e as quais não foram, ou melhor, ainda não foram colmatadas.

A primeira, é que, provavelmente por razões de expediente e de sobrevivência política (e também para minorar a miséria que se vai instalando) um pouco como o precedente primeiro-ministro, o actual governo está a tentar desesperadamente atenuar o embate que aí vem. A forma como o faz está à vista: aumentaram muito significativamente em tudo o que respeita a impostos directos e indirectos, estão a fazer alguns mas poucos cortes no fantástico leque de direitos “dinásticos” dos portugueses, e para tapar o buraco de 2011, estão a proceder à venda de património e outros activos do Estado para arranjar o dinheiro que permita que o défice não descambe completamente logo no primeiro ano. Neste capítulo, os Srs. da “troika” especificamente criticaram a decisão do governo de se apropriar dos fundos de pensões dos empregados da Caixa Geral de Depósitos (cerca de seis mil milhões de euros, passando as reformas destes a serem asseguradas pela recolha de impostos junto dos contribuintes).

Ora, isto é tudo muito bonito maa consiste em medidas predadoras e irrepetíveis. Ou seja, se nada mais for feito, como vai ser em 2012?

Mais importante foi o que Paul Thomsen, explicou sem rodeios numa curta mas interessante entrevista que concedeu à RTP ontem à noite e que repetiu várias vezes, para o caso de alguns dos seus espectadores mais burros não apanhar à primeira, à segunda ou à terceira.

O que ele disse é básico: que sem a implementação imediata de um pacote de medidas de “mudança estruturais”, que a) todo o esforço e exercício em curso serão em vão, b) condenarão inexoravelmente os portugueses a viver um padrão material de vida mais baixo e c) em última instância não resolverão o grave problema de falência latente em que ficámos após a loucura de José Sócrates e os seus amigos do Estado Socialista.

O que ele não disse, portanto, e que depreende-se facilmente, é que essas medidas de mudança estrutural não foram e não estão a ser implementadas.

E enquanto dizia isto, aproveitou (já agora, não é)para dizer que na sua opinião os cortes salariais já anunciados para os funcionários públicos deveriam também ser imediatamente aplicados também a quem trabalha no sector privado.

Ora tudo isto é muito grave, em particular porque estes senhores têm o mandato para fazerem o que tem que ser feito e – principalmente – porque já não há tempo a perder. As incertezas a nível do desempenho da economia internacional são mais do que muitas, em especial dos principais parceiros económicos de Portugal.

E as tais mudanças estruturais já deviam ter sido feitas há cinquenta anos, sem as quais qualquer dia, tirando os ricos e os que já saíram e estão para sair de Portugal, qualquer dia nem os que ficam atrás conseguem viver no país.

Por isso seria muito bom se o governo deixasse de mais delongas e, em ver da dança do lago dos cisnes, faça o que tem que ser feito.

01/11/2011

TRABALHAR PARA A DÍVIDA E MESMO ASSIM FALIR

Mais fácil digo que feito.

Ora vamos lá a ver o que se passa na Europa e em Portugal, já que as redacções das televisões portuguesas e o exército de comentadores que têm andado a falar, falar, falar, não têm explicado bem, na minha opinião, o que se passou este fim de semana.

A primeira constatação, de que a maior parte das pessoas já se apercebeu, é que o chamado negócio da Troika em Junho, é insuficiente para evitar o descalabro que se aproxima para Portugal.

Pior, há duas semanas (fiz referência a esta constatação numa nota que escrevi aqui) alguns se aperceberam que as medidas draconianas em parte já em vigor e previstas para 2012, não só não resolvem quase nada como ainda ameaçam degradar mais o ambiente social e económico português.

Parte da solução, alguns referiam, estaria numa tomada de medidas corajosa por parte da Europa, já que a parte crítica do problema tem que ver com a Grécia, o euro, a dívida pan-europeia.

Este fim de semana, enquanto os líderes portugueses estavam perdidos algures no Sul da América Latina, de onde mandaram uns recados meio desesperados, os poderes europeus reuniram-se para “resolver” o problema.

O problema reparte-se por componentes.

A primeira componente e a mais conhecida é que toda a gente já admitiu, é que o volume de dívida da Grécia é….impagável. A Grécia, que já está falida, em breve arrastará a Europa com ela se nada for feito.

A segunda é que, se nada fôr feito entretanto, esse efeito de arrastamento se verificará em economias periclitantes mas muito maiores e que estão a pouca distância de uma crise: a Espanha, a Itália, a Bélgica. Considera-se que Portugal está incluído neste grupo.

A terceira é que, mesmo que tudo o que está previsto funcione e nada mais de mau aconteça, que a Europa estará condenada a um longo, perigoso e complicado, período de estagnação económica, uma vez que um simples exercício de aritmética indica que não há dinheiro disponível para a) investir no desenvolvimento económico b) conceder crédito às pessoas e às empresas.

A quarta e última é que (hum, como é que poderei dizer isto de uma maneira simpática) uma parte considerável da banca europeia – que inclui a portuguesa – está num estado lastimável, pois a) vem aí uma montanha de dívidas incobráveis, b) têm níveis de capital insuficientes e a diminuir rapidamente, c) não têm dinheiro disponível para emprestar mesmo aos bons clientes, d) vão levar agora em cima com uma boa parte das medidas, anunciadas este fim de semana, para perdoar a dívida grega.

Isto para não referir o perigo, que persiste, de uma cadeia de falências que arrasariam o sistema financeiro. Ainda há uns dias um grande banco franco-belga foi “salvo” através de intervenção estatal.

Quais, afinal, foram as “medidas” anunciadas este fim de semana para salvar o euro e as economias da zona euro?

Foram três: 1) o perdão de metade da dívida privada grega, 2) o financiamento da re-capitalisação dos bancos europeus, e 3) o aumento do capital disponível de uma espécie de super-linha de crédito, chamada Facilidade Europeia de Estabilidade Financeira (em inglês, EFSF)

Dada a enorme importância deste tópico, analisemos estas medidas individualmente.

Quanto ao perdão de metade da dívida privada grega, por um lado, analistas indicam que mesmo assim a Grécia teria no ano de 2020 um endividamento global de 120 por cento do seu PIB, o que muitos acreditam que continua a ser miserável e provavelmente insustentável para os gregos. Por outro lado, “perdoar” essa metade da dívida privada significa que quem teria que a perdoar eram bancos e outras instituições financeiras europeias, incluindo bancos portugueses (cerca de 1300 milhões de euros no caso destes) com efeitos demolidores, já que estes à partida já estão em condições de enorme fragilidade.

Quanto ao financiamento da re-capitalisação dos bancos europeus, na reunião mencionou-se a necessidade de um montante global de cerca de 107 mil milhões de euros, para bancos que em princípio levarão em cima com o plano grego mencionado atrás e cuja dívida passaria a valer zero. No caso português fala-se da necessidade de 12 mil milhões de euros, o que não deixa de ser interessante pois a banca portuguesa é menos que um por cento da europeia mas precisa de quase dez por cento do tal montante global. De qualquer modo, não é claro que estes valores endireitem os bancos e lhes permitam voltar a emprestar. Nem se estas medidas efectivamente signifiquem a sua re-nacionalização (afinal, o dinheiro em última instância é dos contribuintes europeus, portugueses incluidos).

Quanto ao aumento de capital da EFSF, falou-se num aumento deste instrumento para mil milhões de euros (lá veio à baila a velha conversa de se “one billion” quer dizer mil milhões ou um milhão de milhões…). Mas – e aqui um gigantesco “mas” – não se percebe de onde virá o dinheiro. Aventou-se o banco central europeu mas a Alemanha disse que não. Falou-se em o dinheiro vir “de fora” (tradução:da China). De Pequim, a China mandou um telegrama a dizer “vocês devem estar mas é a sonhar”. E a conversa, de momento, ficou por aqui, ou seja, quer-se aumentar o montante da EFSF (em boa parte para acautelar eventuais problemas com a Espanha e a Itália) mas ninguém concorda em onde e como se vai arranjar o dinheiro.

A reacção dos mercados esta semana foi o que se esperava: primeiro foi brevemente positiva, e agora que as pessoas começaram a perceber que nada está resolvido, voltaram ao negativo.

A crise continua dentro de momentos.

Em Portugal, como seria de esperar, agora já se começa a fazer barulho para “renegociar”. Renegociar prazos, renegociar taxas de juro, nalguns casos com uns leves pós de dôr de cotovelo por os gregos serem recompensados pela sua incúria com um perdão de dívida e para os portugueses nada de perdão.

Mais surreal, o Partido Socialista português, agora sob a tutela recente e algo efémera do Dr. António José Seguro (condecorado com a Medalha de Ouro da Vila de Penamacor) ruidosamente contempla vetar o demolidor orçamento do governo central para 2012. O que, ocorrendo, inauguraria um novo capítulo no que concerne a irresponsabilidade e inconsistência desta geração de políticos.

Ah, 2012 vai ser um ano de arromba.

A AMÉRICA QUE EU JÁ NÃO RECONHEÇO

Quadro copiado com vénia do Economist, indicando a divisão da riqueza acumulada por fatia da população.

Depois de ter ido literalmente como refugiado para os Estados Unidos em 1977, após o desastre da Descolonização portuguesa, li vivi durante quase quinze anos.

No geral, foi muito bom para mim e para a minha família.

Mas as minhas aspirações eram outras.

Em 1990 iniciei uma espécie de regresso a África, que ainda levou dez anos, com alguns interregnos por Portugal. O regresso não foi regresso e, à sua maneira, a elite portuguesa criou o seu próprio descalabro nos últimos quinze anos.

No entretanto, nos EUA, houve Clinton e Bush e agora Obama. Houve o ataque terrorista em Setembro de 2001, as guerras no Médio Oriente, a maluqueira fiscal quase total e a quase falência do Estado norte-americano, precedida do escândalo total da Enron, o fim da Arthur Andersen & Co., o desfalecimento quase imediato dos mercados financeiros norte-americano e mundial, iniciado com a chamada crise do sub-prime e a falência, numa sexta-feira, do banco Lehman Brothers.

Ainda não se sabe onde isto tudo vai parar. O mundo – o nosso mundo – permanece à beira do abismo.

Agora, aproxima-se a eleição presidenciall de 2012.

É mais do que claro que Barack Obama rigorosamente nada teve que ver com as tragédias que herdou, e as quais não têm soluções fáceis e muito menos paleativos.

Mas ao que eu tenho assistido, do outro lado do Atlântico, é às polémicas mais surreais, especialmente vindas do lado da direita norte-americana. Que, lamentavelmente, em boa parte porque me considero um conservador, traduzem um delírio perigoso da parte de pessoas que parece que ainda não entenderam bem o buraco profundo em que a América, e o mundo, estão metidos.

A tentação fácil é considerar que a substituição do actual presidente ajudaria a resolver os problemas.

Eu acho que o começo da resolução dos problemas que agora afogam uma boa parte do mundo ocidental pouco tem que ver com a eleição presidencial norte-americana.

Pelo contrário.

Eu já não reconheço esta América.

E começo a pensar que já não reconheço este mundo.

(No dia 8 de Outubro, a organização Democratas no Estrangeiro -“Democrats Abroad”- organizou um evento intitulado “Vozes por Obama” na Galeria Nikki Diana Marquandt em Paris.  No evento, um dos que falou foi o autor norte-americano Jake Lamar. Em baixo, um excerto do que ele disse, gravado no Atelier La Main d’Or. Este, pelo menos, diz que não está desiludido).

22/10/2011

ANÍBAL CAVACO SILVA E O FIM DA MACACADA

Nesta data, mapa com as previsivéis ilacções de uma deficiente resolução do "problema grego" - para quem ainda não percebeu. Cavaco Silva percebeu três dias antes de Pedro Passos Coelho. Haja paciência.

Durante esta semana aconteceu algo que à primeira vista parece que não faz sentido nenhum.

Isto porque, pela primeira vez e depois de imensa ginástica e muita sorte, Portugal assistiu à eleição de uma espécie de Santíssima Trindade da chamada direita portuguesa, ao ter, com a re-eleição de Aníbal Cavaco Silva e a eleição do PSD de Pedro Passos Coelho para o poder, um parlamento, um governo e um presidente, da esfera política do chamado centro-direita.

E não faz sentido nenhum porque, no preciso, crucial momento em que o governo do dia apresentou o mais sanguinário orçamento desde que António Oliveira Salazar achou por bem equilibrar as contas nacionais no princípio dos anos 1930, o presidente da república portuguesa, figura estelar do firmamento social democrata, vai a uma de outro modo suporífera sessão da (ainda e sempre) corporativa Ordem dos Economistas, onde se lembra de usar o momento para essencialmente pregar uma rasteira às intenções orçamentais, recentemente reveladas, do governo para 2012, ao dizer (não sugerir ou sequer mandar a proverbial boca) que o orçamento do ano que vem tresanda a inequidade e injustiça.

Passos Coelho, que até tem sido discreto que baste e que supostamente bebe um cházinho semanal com Cavaco em Belém, ficou de boca aberta, enquanto que os comunistas, esquerdistas, sindicatos e afins mal podiam esconder os orgasmos intelectuais com a providencial deixa oferecida pelo presidente.

Levou três dias primeiro que Passos Coelho conseguisse responder ao tirocínio presidencial, resmungando qualquer coisa que se percebe que não se percebe bem.

E, para o analista casual como eu, fica a questão de que raio de Santíssima Trindade é esta em que um dos seus componentes anda aos tiros aos outros em público.

Eu creio que a razão é muito simples, e tem que ver em parte com o fluxograma que coloquei no cimo deste texto, creio que feito por um inglês bem disposto (o Reino Unido ainda tem a libra, o que ajuda).

As medidas já tomadas e listadas no orçamento do governo central para 2012 são draconianas, supostamente mais para os flagelados (e excessivos, e ineficientes) funcionários públicos portugueses, que às vezes parece que são metade de Portugal, mas que mesmo que não sejam, conseguem estoirar alegremente mais do que metade do produto nacional bruto português todos os anos – e sempre a crescer.

Isto fora as dívidas reveladas, as escondidas, as fraudes inexplicadas dos bancos dos amigos e o facto de que parece que tudo o que foi construído nos últimos vinte anos afinal parece que ficou tudo por pagar.

A postura do actual governo foi, e tem sido, honorável. A sua tese de base: os portugueses são gente de bem e vão pagar o que devem, que mais não seja que para continuar a rolar o empréstimo em curso, sem o qual a república resvalecerá inexoravelmente para a falência e quiçá para uma catastrófica saída do euro.

Portanto, como são mentirosos, preguiçosos ou simplesmente incapazes de colocar 150 mil funcionários públicos sem o regime cair, ou cortar aparentemente seja o que for das despesas inacreditáveis a que o governo se foi obrigando a pagar no decurso da República Socialista, os novos senhores da Casa optaram pela via das tomada de medidas fiscais à escala industrial.

Só que, nas últimas semanas surgiram informações, que pelos vistos Cavaco Silva primeiro tomou conhecimento primeiro, e que pelos vistos ou se esqueceu de avisar Passos Coelho nos seus cházinhos semanais ou que este não lhe prestou atenção, que mudaram as circunstâncias radicalmente.

A primeira, é que a Grécia, se tudo ficar na mesma ou mesmo que mude um bocadinho, vai à falência. Aliás, já está falida, agora a questão é como se vai gerir essa falência.

A segunda, é que toda a banca europeia, mesmo sem a falência grega, mas com ela no horizonte, está mesmo à beira do abismo.

E o abismo, se nada mudar já – “já” sendo as reuniões em curso este fim de semana e nos próximos quinze dias – em termos temporais, vai acontecer nos próximos três meses.

Ou antes.

Em terceiro lugar, não é preciso ser J M Keynes – ou Cavaco Silva – para se ter percebido que o actual curso, indicado pelo orçamento português para 2012 e pelas informações macroeconómicas europeias, não só nada contém que possa ajudar a estimular os agentes económicos, como na verdade confirma que o mais provável é a economia europeia, e em especialmente a portuguesa, entre numa espiral descendente que corroerá a fibra e a essência da sociedade e a catapultará para terreno muito perigoso.

Foi o que aconteceu nos anos 1930, para quem não se recorda.

Cavaco Silva apercebeu-se disto antes de Passos Coelho e a sua equipa. Ele entendeu que o orçamento do governo central para 2012 era o cheque garantido para entrar na espiral descendente e que, ainda por cima, Portugal faliria na mesma. Com a agravante de que em seguida, provavelmente para selar a catástrofe, logo a seguir iriam os bancos.

E nesse dia, seria o Fim da Macacada.

Por isso, em tempo real, mudou o discurso.

O que Aníbal Cavaco Silva tentou dizer na Ordem dos Economistas há uns dias é que, se houver, a única salvação para os portugueses é um pacote de ajuda europeu muitíssimo mais substancial do que o quase ofensivamente ruinoso orçamento para 2012 e o empréstimozeco negociado há uns meses.

E, ao fazê-lo em público, quis forçar a mão de Passos Coelho, que ainda andava a fazer de menino bem comportado junto da Troika e ainda dizia que eram os portugueses sozinhos que tinham, que conseguiriam, arrumar a casa.

Levou três dias. Mas Passos Coelho finalmente percebeu.

Que, mais uma vez, e pela segunda vez em seis meses, a salvação do que resta de algum bem-estar dos residentes em Portugal está situada não em Belém e São Bento, mas mais a Norte na Europa.

As medidas a tomar no âmbito do orçamento de 2012 são quase uma política de terra queimada fiscal. Sem qualquer margem de dúvida irão provocar uma tempestade económica, política e social sem precedente desde os últimos dias da famigerada I república. Já estão a começar a fazê-lo.

Mas a verdade é que é preciso muito, muitíssimo mais dinheiro que o que o governo poderá arrancar dos bolsos dos contribuintes para salvar os bancos, para arranjar dinheiro que chegue para emprestar às empresas e às pessoas em 2012, e ainda fazer frente à crescente onda de endividamento com que a República Socialista, com lugar de destaque para José Sócrates, presenteou os portugueses de hoje e das duas gerações que vêm a seguir.

Este fim de semana vão finalmente começar o frio e a chuva em Portugal. Em breve, a não ser que algo venha do Norte entretanto, virão também a fome e a miséria.

Politicamente, fica a paradoxal constatação de que, no actual sistema constitucional e mapa político português, ter uma Santíssima Trindade no poder parece que no fim acaba por não fazer diferença nenhuma.

Nem em bons tempos.

Nem quando se está beira do abismo.

18/10/2011

A ERA DO CARAPAU E O REPOLHO EM PORTUGAL

Muitos moçambicanos se lembram da Era do Carapau e do Repolho.

Agora chegou a vez dos portugueses.

É preciso mesmo estar-se em Portugal para se entender a ironia do que se está a passar.

Por um lado, e finalmente, e inexoravelmente, fizeram-se algumas contas e começou a ser dado conhecimento público da verdadeira dimensão do gigantesco buraco que quinze anos de Estado Socialista, com um breve interlúdio do PSD, e em especial dois anos e meio de governação alucinante de José Sócrates, entre Outubro de 2008 e Junho de 2011, produziram.

Por outro lado, e por uma cruel coincidência, o verão português estendeu-se alegremente pelo Outono, com temperaturas máximas de 30 graus em pleno Outubro e noites suaves. Não chove há meses. Este ano, o clima em Portugal parece o do Sul da Califórnia.

O que ajuda a explicar a aparente demora, por parte dos contribuintes e demais residentes em Portugal, em sequer assinalar a sucessão de anúncios tétricos, por parte do governo do dia, de um crescente montante de dívidas públicas, de uma crescente incapacidade de gerir a despesa pública, e de um crescente rol de medidas, quase todas fiscais, para tentar controlar o turbilhão da dívida pública.

Só pode ser. As pessoas devem estar num estado catatónico entre o choque do que anda a ser anunciado e a anestesia do longo, quente, suave, verão.

O crescendo culminou com um anúncio na noite do dia 12 de Outubro, pelo actual primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, de que, a partir do dia 1 de Janeiro de 2012, praticamente todos os impostos directos e indirectos subirão brutalmente, quase todas as isenções fiscais serão eliminadas, incluindo o confisco, aos funcionários públicos e os cidadãos que recebem reformas do Estado, dos chamados “subsídios” de Natal e de Férias. A partir de quem aufere uns meros, quase míseros, quinhentos euros por mês, o que é um furo acima do chamado salário mínimo nacional português.

A electricidade, a água, os transportes, o gás, as comunicações, a comida, o tabaco, tudo isso subirá significativamente. A lista do que vai subir em preço não acaba.

O resultado global para já? Em 2012, uma parte muito significativa da população portuguesa deverá ter cortes nominais de entre 15 a 30 por cento nos seus rendimentos, contra aumentos de entre 5 e 10 por cento nos preços de muito do que compram, consumem e pagam em impostos.

O efeito combinado será arrasador para muitas pessoas.

E mais se presume virá.

E tudo isto para quê?

Supostamente, não para “resolver” os efeitos da gestão criminosa da coisa pública que foi feita em Portugal nos últimos vinte anos (com lugar de honra para o inesquecível José Sócrates).

Nem sequer para o governo dar um ar da sua graça perante os que neste momento já estão a financiar a falência portuguesa.

Não.

O objectivo primário é meramente evitar a catástrofe social e económica que, diz o governo, quase certamente ocorrerá se medidas drásticas não forem (não fossem) tomadas.

Assim, o anúncio formal feito ontem (17 de Outubro de 2011) do orçamento do governo central para 2012 é um marco histórico no percurso dos portugueses, pois significa o fim dos “happy days” do dinheiro fácil, da vida à custa das gerações futuras, das reformas aos cinquenta anos, do pecúlio da coisa pública à escala industrial.

Finalmente, trinta e seis anos depois da Descolonização, e vinte seis anos depois do início da Era da Euro-subsidiocracia, em que uma nova elite predadora, saída do pronunciamento militar que acabou com a ditadura inventada por António Salazar, entreteve o povo com benesses alucinantes enquanto ao lado fazia as suas negociatas oportunistas, assiste-se agora ao desmoronar do Estado Socialista.

Ou melhor, ao início do seu desmantelamento. De que o orçamento do governo central português para 2012 é apenas o começo.

O melhor, ou seja, o pior, ainda está para vir.

Curiosamente, quase ninguém se refere ao que se está a passar como tal. Quem ler os jornais portugueses fica com a impressão que se está a passar “apenas” um mau bocado.

Em parte percebo porquê. Por três razões.

Primeiro, porque as pessoas ainda vivem em negação da realidade.

Em segundo lugar, porque creio que a ideia do Estado-papá está tão profundamente enraízada na maneira de pensar e ser de tantos portugueses, que a ideia de que a organização da sociedade portuguesa, que é rígida, centralizadora e gerida de cima por uma minoria predadora, e que desde 1975 teve a forma do Estado Socialista, possa vir a ter uma forma diferente daquilo que tem sido, é quase incompreensível para o cidadão médio.

E em terceiro lugar, porque, de facto, pese o carpir dos nacionalistas die-hards (por aqui há muitos), há uma muito desconfortante sensação de que provavelmente os tempos que vêm aí poderão provar o impensável: que, no actual contexto, poderá ser concebível que o que vai ser feito é, dito de uma forma simples, insuficiente.

Ou ainda pior. Que o improvável, quase milenário, projecto nacional português, concebido pelo filho de um francês e de uma leonesa durante o Século XII, se tornou, finalmente, inviável.

Pessoalmente, não sou tão negativo. Penso que os portugueses vão passar um bocado muito mau, em que haverá que tomar decisões difíceis e de fundo sobre a forma como o país funciona e está organizado. Em que o padrão de vida, que voltará a caracterizar-se pela fome, pela miséria, pela falta de oportunidade e pela emigração, continuará a cair enquanto não se tomarem as medidas que é preciso serem tomadas.

Mas a implosão do Estado Socialista implica a criação de um novo Portugal, que pouco ou nada poderá ter que ver com aquilo que quem vive em Portugal pensa que é a sua identidade, ou marca.

Os portugueses não gostam de mudança, a não ser aquela que lhes traga algo mais em troca de nada.

Esses dias acabaram. Provavelmente para sempre.

Mas a maior parte das pessoas ainda não se apercebeu disso.

Os que se aperceberam, ou auguram o Fim (o melodrama suicidário compõe uma parte crucial e muito apreciada do imaginário colectivo português) ou não parecem saber que caminho tomar.

Todos criticam, com alguma razão, o governo do dia. Afinal, as medidas draconianas agora anunciadas poderão bem ter como consequência o fim de um pacto de não agressão social na sociedade portuguesa, que no passado deu provas de uma insidiosa propensidade para a violência. Verdade é que Portugal nunca foi um país de evolução. Como acontece com os terramotos, a sua história recente, desde a chamada Restauração, é uma sequência de episódios em que, a uma paz mais ou menos podre em que um ou mais sectores da sociedade paga os custos dessa paz, sucedem-se as revoluções. Que são violentas, abrangentes e muito dificeis de resolver.

E em que preciosidades como a liberdade e os direitos dos cidadãos tendem a ser os primeiros valores a serem mitigados.

Mas ninguém parece ter alternativas, para além daquela Esquerda perdida no tempo e oportunista, que aparece agora a sugerir que uma espécie de comunismo esclarecido (que em termos fiscais pelo menos 2012 vai parecer ser) ou simplesmente deixar o país falir e renegar o que deve a quem deve.

Pois pois.

Assim, depois de décadas em banho-Maria, finalmente aproxima-se a tempestade.

O que em Moçambique quem tem idade para isso chamava a Era do Carapau e do Repolho.

Mas em Moçambique eram os tempos da guerra, passava-se fome e morria gente todos os dias. Dizem-me que foi um mau momento. Em Portugal não há guerra e o verão californiano estende-se até à terceira semana de Outubro.

Curiosamente, um indício dos desafios dessa realidade veio-me da leitura de uma interessante entrevista que o Professor José Hermano Saraiva, agora com uns provectos 92 anos de idade, e que viu o auge e o estertor do projecto colonial português, deu no final da semana passada a uma publicação que acompanha o Diário de Notícias de Lisboa.

Nessa entrevista, o historiador, conhecido pelos programas televisivos que há muitos anos faz na televisão pública portuguesa, chamados Da Gente e da Alma, às tantas foi questionado acerca da situação actual de Portugal. A quem atribuía a responsabilidade por esta crise e que medidas é que deviam ser tomadas para o País superar a actual “ruptura socieconómica”, perguntaram-lhe.

Eis a sua resposta, na íntegra: “Tão simples! Portugal tinha como principais rendimentos os produtos ultramarinos e as alfândegas e, de uma só vez, acabaram com tudo. Nós não temos produção. [Quanto às medidas a tomar] julgo que nenhumas. Portugal não tem hipóteses de sobrevivência. Portugal era o principal produtor de café, de urânio, de ferro, e deixámos de ser tudo isso. Não temos nada. Somos um País mendigo, vivemos de dinheiro emprestado. (…) Portugal não vai re-erguer-se, não vejo maneira nenhuma de isso acontecer.” (Notícias TV, 14 de Outubro de 2011, pp. 11 e 12).

Internamente, o Arcebispo das Finanças de Portugal, Vítor Gaspar, que vai pontificando nas televisões numa cadência messiânico-papal, diz que vai fazer o que for preciso para endireitar a economia nacional.

Mas se a Grécia, a Espanha e a Itália caírem sozinhas (curiosamente se fosse toda a Europa seria menos mau) Deus salve Portugal.

Baseado na minha experiência africana, face ao que poderá vir a acontecer, cada português que se salve a si próprio.

Esta noite, a famigerada Agência Moody’s baixou a notação de risco de Espanha de AA2 para A1.

Vem aí a tempestade.

E muito pia e latinamente, e mais uma vez, reina a total impunidade em relação ao porquê se chegou aqui e a quem foi responsável pela forma como se chegou a este ponto.

06/10/2011

A DESILUSÃO DE CAVACO E COM CAVACO

Aníbal Cavaco Silva discursando durante o feriado de 5 de Outbro. Em baixo, o que eu pensei sobre o que ele disse. Foto cortesia de a Bola.

 

Não sei precisar o momento em que Aníbal Cavaco Silva me começou a desiludir a sério, enquanto titular do cargo de presidente da república portuguesa.

Não sei se foi quando me apercebi da sua postura esfíngica de diva política (que não é).

Nem sei se foi quando repetidamente me irritava quando, sempre que um jornalista lhe metia um microfone debaixo da boca (situação de que não gosto mas que ele é que permite – se eu fosse presidente mantia os jornalistas a dez metros de distância, tal como faz qualquer presidente dos EUA que se preze) de pontificar socraticamente sobre ele mesmo mas falando dele na terceira pessoa- e mesmo assim cripticamente ou dizendo nada.

Não que interesse. A maior parte do tempo, o que ele diz não interessa. Mas os média portugueses têm esta propensidade para o seguirem perpetuamente, à caça de uma declaração, de uma declaraçãozinha.

Nem tão pouco se foi quando me apercebi da sua penosamente óbvia incapacidade genética de falar com as pessoas através da televisão ou de estar com elas pessoalmente, sob a custódia protectiva da sua esposa-parceira política, uma professora de liceu reformada com uma pensão de (explicou ele uma vez) apenas 800 euros por mês.

Uma impreciosidade pecuniária que só mesmo um investimentozinho oportuno em acções do BPN ajudavam a colmatar.

Nem ainda, na sua teimosia em insistir que “ele” o tal presidente na terceira pessoa que é ele mas que ele sugere que não é ele, invariavelmente não se deve pronunciar sobre este, aquele ou qualquer outro assunto.

Mas que depois permite que se deixe gravar num pasto nos Açores a dizer as mais rascas banalidades sobre vacas e fruta.

Durante muito tempo, pensei que ele seguia esta postura académico-anal-retentiva porque, para além de ser mesmo assim, por debaixo dele ele tinha que lidar com o quiçá menos estável, quase hilariantemente exuberante – e perigoso – José Sócrates. O socialista-in-waiting que emergeu do chiqueiro que foi na altura o chamado escândalo da Casa Pia e que meteu os pregos finais no túmulo em que Portugal rapidamente se está a tornar (bendito povo que ainda não se apercebeu no que está metido).

Mas em Junho, supostamente, ocorreu um episódio histórico na política portuguesa (histórico com “h” pequeno, muito pequeno, atalhe-se): num espasmo momentâneo e irreflectido de alguma sanidade, certamente excessivamente tardio, alguns eleitores puseram Sócrates na rua e votaram maioritariamente para colocar o PSD, o PSD que havia, no poder.

O mesmo PSD onde Aníbal causou algum furor nos “happy crazy years” do arranque da mama europeia – e cujas regras de base ele redigiu – como ministro das finanças e depois como primeiro ministro durante dez anos seguidos.

Lembram-se desses anos?

Os dez anos de Cavaco Silva foram na altura vistos como anos de grande prosperidade, de desenvolvimento e de alguma paz a estabilidade. As empregadas domésticas deixaram de usar passes sociais e compraram Renaults Clio a prestações. Profeticamente, ele terminou essa década liberalizando o crédito…ao consumo. O mesmo que agora nos consume colectivamente.

Mas afinal esses anos não foram bem isso.

Na verdade, foi aquilo que, memoravelmente Joaquim Chissano, lá nas Áfricas, dizia acerca das suas “audiências internas” enquanto presidente executivo de Moçambique: agora se depreende que o que era preciso para andar para a frente nesses anos, era manter as ratazanas à sua volta com a barriga cheia.

E isso ele fez. Foi uma win-win situation. Tirando talvez os despachantes oficiais, acho que esses dez anos foram uma bebedeira nacional a todos os níveis. Os privados comeram o que quiseram, a máquina estatal explodiu em crescimento, as despesas públicas subiram a um patamar estratosférico, procedeu-se alegremente à desindustrialização de Portugal, sob o aliciante lema – que Cavaco Silva e só ele inventou – de que Portugal poderia ser o próximo Sillicon Valley da Europa. O que na verdade equivale a dizer que beduínos marroquinos passassem a fabricar Ipads da Apple (Rip Steve Jobs).

O resultado, anos mais tarde, foi uma absolutamente estranha parceria, em que uma empresa que ninguém sabe bem quem é ganhava dinheiro vendendo – ao governo, ou seja aos contribuintes – uns computadorzecos chamados Magalhães a meninos previamente de rua e que serão a suposta Geração Portuguesa do Futuro.

A Grande Geração da maior implosão demográfica em 900 anos de história, tirando a Gripe Espanhola de 1918 e a Grande Peste de 1348.

Aníbal Cavaco Silva foi posto na rua em 1995. Ou melhor, como ele não iria concorrer, e portanto tecnicamente não podia ser despedido, os eleitores na altura puseram o seu partido na rua, demolindo a sua máquina e abrindo o flanco a outra não mais apta agremiação de talentos, que era a então liderança do PS, personalizada na figura de António Guterres, que era uma espécie de anti-caricatura de Aníbal: tudo fazia, tudo dizia, com tudo e todos dialogava, ao som de uma passagem épica do filme O Gladiador.

Mas, feitas as apresentações e as nomeações, e agora sob diferentes condições – de que destaco a continuação da torrente de euro-donativos, a baixa substancial das taxas de juro e a relativa novidade da capacidade de ambos os sectores público e privado de se passarem a financiar (leia-se endividar) nos mercados internacionais ao preço da uva mijona – os anos de António Guterres caracterizaram-se pela continuação da política do betão, abrindo agora uma nova frente na chamada área social, sempre tão cara para os socialistas.

Era o betão com consciência social, simbolizado pelo cancelamento de uma barragem e a inauguração de um parque de imagens pré-históricas algures do Portugal Profundo.

Em 98, fez-se a Expo que fez a ponte para a bebedeira seguinte, que foi o Euro 2004. Por uns momentos, mais do que quandp ávida e pacoviamente mudavam as matrículas dos seus carros para o padrão europeu, os portugueses equivocaram-se gravemente e pensaram que eram portugueses da Europa.

Ou seja, para além do betão de Cavaco Silva, António Guterres, no que em seguida foi superado soberbabemente por José Sócrates, principiou a gastar o que todos os portugueses não tinham, em subsídios para tudo e mais alguma coisa.

Pelo meio, houve uma eleição presidencial em que Cavaco Silva não teve qualquer chance. Jorge Sampaio, um socialista mediano mas simpático que fora presidente de câmara e que tinha a particularidade de falar bem inglês e de chorar em público de quando em vez, ficou com o lugar. A única vez em que se notou foi quando limpou a poeira aos canos serrados da espingarda presidencial e ejectou o curto, infeliz governo de Santana Lopes, que ficou por aí.

O problema é que, entretanto, a economia portuguesa pura e simplesmente parou. E assim ficou, estática, durante dez anos seguidos, alheia ao que se dissesse ou se fizesse, que não era rigorosamente nada.

No sector público, acumulava-se a pressão explosiva em termos de custos e de eficácia, a quase todos os níveis. Num primeiro susto, que aliás não foi lá muito levado a sério, José Sócrates fingiu que ia fazer reformas. “Fazer reformas” para um socialista habitualmente significa “aumentar impostos”. E assim foi. Trouxeram o Paulo Macedo que mais ou menos começou a fazer com os impostos o que ninguém pelos vistos consegue fazer com a justiça, a saúde, a educação, a gestão da demais coisa pública.

Pelo meio, desta vez por alguma saturação anti-socialista, e por falta de alternativas, creio, Aníbal Cavaco Silva foi eleito presidente. Tal como no final do Século XIX, era a Alternância sem Alternativas.

De nada e para nada serviu, aquele primeiro mandato.

Que foi digamos que mudo. Lá no palácio que foi de Dom Carlos e Dona Amélia, Aníbal pregoava harmonia, ruminava subterraneamente e através da sua corte de assessores quando algo lhe desagradava, agarrou-se uma vez de uma forma inusitada à relativamente exótica questão do estatuto dos Açores. Isto enquanto José Sócrates literalmente fez o que quis e lhe apeteceu. No início de 2009, quando já tudo se começava a desmoronar, manteve um aumento de 3.9% dos salários dos funcionários públicos e disse que o que afinal era preciso era – estaria eu a alucinar? – mais e mais despesa e mais investimento público.

Era preciso dar de comer às ratazanas.

Na sua mais recente campanha, Cavaco Silva foi quase majestático: nem sequer fez campanha, para além duns cartazezitos e uns debates positivamente intragáveis na televisão. Isto já quando o mundo levara o rombo assustador da falência premonitória do banco americano Lehman Brothers e em que o que estava para vir era totalmente previsível: uma arrasadora destruição de valor nos mercados de capitais, a que se seguiria uma ainda mais demolidora secagem dos mercados de crédito. Subitamente, toda a gente descobriu a palavra “risco” e “notação de risco”.

Especialmente em Portugal.

Metodicamente, a Islândia, a Irlanda e a Grécia caíram. Os grandes tomaram severas medidas de contenção.

Quando Sócrates foi finalmente posto fora, após anunciar o seu quinto “Plano de Estabilidade e Crescimento” ou PEC, termo kafkiano-orwelliano que na quase totalidade consistia em fazer aumentar pela quinta vez sucessiva os impostos, Cavaco foi incansavelmente fleugmático.

Afinal, em Portugal, um presidente não manda.

Umas semanas depois, no início de Junho, o PSD de Pedro Passos Coelho, um ex- perpetuamente jovem apparatchik do PSD sem qualquer experiência prévia de governo e que tinha escrito um daqueles livrinhos inspiracionais que agora estão tanto na moda, tomou as rédeas do poder. Possuía as importantes vantagens de não parecer alucinar como José Sócrates e de ser elegível.

Face ao terror económico que se começava a vislumbrar poderia estar para vir, alguns portugueses acharam reconfortante ter agora uma espécie de Santíssima Trindade Laranja a governar a nação: um presidente, um governo e um parlamento laranjas.

Previsivelmente, os primeiros cem dias do novo governo laranja consistiram em fazer duas coisas: dizer que tudo estava a ir de mal a pior e a aumentar impostos. Muitos mais impostos.

O que, claro, todos aceitaram relutantemente pois estava-se a pagar o descalabro de dez anos de República Socialista. E não parecia haver alternativa.

O que não estava previsto é que não fizessem quase mais nada para além disso. Nada de cortes na despesa, nada de ideias novas, nada para além do parlapatanço habitual e típico dos políticos portugueses. Paulo Portas, que se movimentou para ter um lugar à mesa do poder, refugiou-se no recato das Necessidades, e meteu uns seus colaboradores em pastas importantes,em que ainda não se observou nada de substancial.

Neste período, Cavaco Silva, agora em segundo e terminal mandato, pouco disse, para além daquelas estranhas mas já habituais emanações sobre ele mesmo na terceira pessoa, e referindo que as coisas estavam mal e que a gente que se virasse para melhorar as coisas.

E sobre as vaquinhas nos Açores.

É portanto, neste contexto global, que a Aníbal Cavaco Silva ocorreu, ontem, de celebrar o lamentável feriado do dia em que houve um golpe de Estado (mais um, diga-se) resultante de uma conspiração em Lisboa que derrubou em 1910 a monarquia e implantou o actual regime há 101 anos, com um discurso.

A esse chamo o Discurso dos Tempos Difíceis e da Refundação da República.

Quem quiser e tiver a pachorra, pode lê-lo premindo AQUI (curiosamente o sítio do jornal desportivo A Bola).

Qual foi a essência das suas mensagens?

A meu ver, a essência do que disse é que os portugueses estão lixados, que vão passar as passinhas do seu nativo Algarve, que ou arrepiam caminho depressa ou vai tudo por água abaixo, e finalmente que se esqueçam da mama do governo que desta vez não lhes pode ajudar.

O terminar o discurso com uma esforçada mensagem de fé quase divina nas capacidades dos lusitanos, quase parece uma espécie de exercício da praxe para não ficar mal. Ainda assim usa o já desgastado exemplo dos portugueses emigrados, ignorando a perversa dualidade do que isso significa: que os portugueses lá foram são exemplares e têm sucesso tanto porque são portugueses, como porque……justamente, estão lá fora.

Ora, eu ouvi e depois li o que ele disse no seu discurso de 5 de Outubro de 2011 no contexto não de hoje mas no de uma carreira que decorre há quase trinta anos.

E acho curioso que alguém que foi responsável em boa parte pelo país que este é agora, mas que é suposto ser um contraponto à loucura socialista de dez anos, que procurou e obteve o cargo de presidente da república, que me parecia apreender de forma lúcida os tempos que se avizinhavam, que neste momento de constatação da inevitabilidade da mudança, centre o seu discurso nas temáticas de funda da Desgraça e da redescoberta da necessidade do renascimento de um novo “activismo republicano.”

Precisamos de fazer renascer um novo activismo republicano?

Um novo activismo republicano?

Qual deles? o da pulhice nojenta e malcheirosa da I república? o dos quarenta anos da república de Salazar? ou os trinta anos e tal anos de República Socialista, a República a Crédito que terminou com a maior falência nacional em 120 anos?

Nos últimos tempos de Sócrates, quando o via na televisão, eu costumava interrogar-me com frequência sobre em que planeta é que ele pensava que vivia.

Quando vi Aníbal Cavaco Silva a discursar na televisão ontem à tarde, fiz a mesmíssima pergunta.

E a resposta, cada vez mais, parece ser esta.

Que os portugueses mais uma vez estão entregues a si próprios, sem qualquer projecto nacional que não seja ir a reboque dos escombros do projecto europeu, sem o qual não há desígnio nacional, e que os actuais líderes, um pouco como os mais recentes, não estão ali para liderar nem para solucionar.

Estão apenas para cruzar os débitos com os créditos, a tentar vender a língua para agradar ao Brasil e a esperar que venha um milagre de alguma parte. Possivelmente da Europa, o que ele sugere no seu discurso, mas temente de que poderá não ser assim.

A história de Portugal já teve vários destes lamentáveis momentos. Em que se pressente que algo de terrível está para acontecer.

E que ninguém parece preparado para o que está para vir.

E parece que neste caso a história repete-se.

Se se repete, é porque, se calhar, os portugueses merecem. Pois não aprenderam a lição.

Independentemente desse detalhe, nestas circunstâncias, esta república, certamente esta III república, provavelmente, não tem salvação.

E Aníbal Cavaco Silva provou que já não é parte da solução.

É parte do problema.

06/09/2011

O NOVO VS. O VELHO PROGRAMA DE GOVERNO

Se Pedro Passos Coelho e os seus muchachos não se cuidam, começará em breve a ter-se a impressão que o seu "programa" de governo em pouco se distingue do do seu antecessor, o já saudoso....O...como é mesmo que ele se chamava? Aquele, que segundo uma peça de capa no Correio da Manhã de hoje, tem um tio e um primo com contas offshore muito, muito concorridas.

27/07/2011

A BANCA PORTUGUESA ENTRA NO TÚNEL

Os Big Five Portugueses. Destes, um é espanhol e o outro é do governo português.

Duas peças nas notícias de hoje chamam a atenção. O Grupo BCP levou quase um cartão vermelho para arrumar a casa e se preparar para o que vem aí.  Mais folgadamente, o Grupo BPI passa um pouco pelo mesmo.

Suspeito que o BES esteja também bem alerta para os tempos que se avizinham.

Quase implausivamente, os depósitos dos portugueses continuam alegremente a subir nas contas dos bancos. Para eles, os bancos, isso é bom. Muito bom. Dá-lhes liquidez e é uma indicação de que os portugueses ainda acham seguro ter lá as suas poupanças (o mesmo não está a suceder na Irlanda e na Grécia, onde os saldos dos bancos caíram a pique).

Mas a ameaça, havendo, vem de outros quadrantes. Presumo que o crédito mal-parado, assim como as suas consequências em termos de constituição de reservas e custos de recuperação, vão continuar a subir. O nível de bons negócios vai cair.

Tudo isto, mais do que a rentabilidade, vai afectar a liquidez dos bancos, que é o calcanhar de Aquiles em qualquer situação de debilidade económica. Invariavelmente, um banco vai à falência quando não tem liquidez. Os planos para o empréstimo a Portugal incluem um valor expressivo para garantir essa liquidez.

O CEO do BPI sugere que não chega.

De qualquer modo, a rentabilidade já está a ser vertiginosamente afectada. Nos primeiros seis meses de 2011, o BPI ganhou mais lucro com as suas excelentes operações em Angola e Moçambique que com o negócio de Portugal, muitas vezes maior em dimensão – porque o negócio em Portugal contraiu.  As receitas nos mesmos países com as respectivas operações têm sido também um importante contributo para os lucros do BCP, que, para além dos condicionalismos que acima refiro, tem ainda uma base de capital Tier 1 (isto é banquês) relativamente frágil, 5.4%. Então se se levarem em consideração o que está previsto no protocolo de Basileia 3 (mais banquês) os bancos portugueses estão com o problema de terem que aumentar expressivamente o seu capital numa altura em que não há dinheiro para isso e não há interesse particular em ter acções de bancos.

Isto numa altura em que está na moda chamar os nomes todos e mais algum aos bancos, aos banqueiros e tudo o que tenha a ver com banca.

Pois. Carpir é fácil.

Mas ninguém sequer se atreve a sonhar em ir um dia ao seu balcãozinho levantar o seu dinheiro e ele não haver.

Aliás, as chances são que, se isso acontecer, ocorrer o que sucedeu com o BPN em Portugal, ou com o Banco Austral em Moçambique: o governo, ou seja, os contribuintes, contribuirão o que for preciso para estancar uma falência.

Só que, excepto em Angola, que Deus presenteou com poços de petróleo, as contas dos estados já estão à flor da pele.

Por essa razão, convém haver serenidade e ir acompanhando o que se passa. Os bancos, e o governo, têm um percurso a percorrer. Para o bem de nós todos, que o façam com bom senso e sucesso.

E que todos juntos vejamos a luz no fundo do túnel em que vamos entrar.

A VERDADEIRA, ÚNICA FÉ

O que é que os portugueses sabem que os outros não sabem? O que é que os portugueses não sabem que os outros sabem?

13/07/2011

A REVOLUÇÃO CONSERVADORA EM PORTUGAL, JULHO DE 2011

“You cannot legislate the poor into freedom by legislating the wealthy out of freedom. What one person receives without working for, another person must work for without receiving. The government cannot give to anybody anything that the government does not first take from somebody else.

When half of the people get the idea that they do not have to work because the other half is going to take care of them, and when the other half gets the idea that it does no good to work because somebody else is going to get what they work for, that my dear friend is about the end of any nation. You cannot multiply wealth by dividing it”.

(Dr. Adrian Rogers, 1984)

Ao contrário de muitos dos exmos. leitores, eu vivi nos Estados Unidos durante os dois mandatos de Ronald Reagan, que presidiu à “revolução conservadora” norte americana nos anos 80, que, catapultada pelo pragmatismo moderado de Bill Clinton, trouxe enormes riquezas aos norte-americanos, até que a administração de George W. Bush, um pouco como o José Sócrates de Outubro de 2008-Abril de 2011, arrebentou com tudo e mais alguma coisa.

Em Portugal, como resultado da eleição de 5 de Junho, pela primeira vez desde 1974, há um alinhamento entre presidente, parlamento e governo que em Portugal se chama de “direita”. Ou, talves mais hilariante ainda, “liberal”. O que para mim é curioso. Nos EUA um “liberal” é um tipo de esquerda. Lá, o contrário de um liberal é um conservador. Mas um conservador em Portugal é um fascista ou afim.

Mais do que rótulos, no entanto, interessa o conteúdo, ou seja a ideologia, e a doutrina, e as acções daí decorrentes. É o actual alinhamento governamental português, um multifacetado conjunto de pessoas puxadas daqui e dali e liderados por Pedro Passos Coelho, com Cavaco Silva em Belém “conservador”? de “direita”? “liberal”?

Mas em Portugal, o que é que isso quer dizer?

O normal seria olhar para o arco-íris político português e aí buscar a resposta. Dum lado temos a gerontocracia comunista, os agora periclitantes Bloques de Gauche, a seguir os escombros do PS de José Sócrates, e os senhores da presente administração a seguir. Como não há mais nada à direita, ou outra direita, estes devem ser a direita portuguesa.

Mas será que são “a” direita?

E se são, que direita é esta?

Qual a sua visão?

Os seus valores?

O que é que defende?

A minha resposta curta é: “não sei”.

Não sei porque ainda não li nada que emanasse das suas lideranças (PSD e PP) que me faça crer que se está perante uma direita.

Mais importante, aquilo que supostamente vai tentar-se fazer  nos próximos anos nem sequer foi escrito por eles: foi dado em espécie de ultimato por um pequeno grupo de tecnocratas que esteve em Lisboa umas curtas semanas durante o mês de Maio. Em cerca de duzentas páginas, apinhadas de instruções e com datas-limite de execução.

E esse documento foi assinado por todos. Até pelo Partido Socialista de Portugal.

Volvidas umas semanas após o penoso carnaval da selecção do elenco governamental e as tomadas de posse, só se conhecem duas evoluções claras.

A primeira é um imposto “extraordinário” sobre o rendimento das pessoas, para supostamente ajudar a estancar a sangria de gastos públicos que ninguém parece saber em que pára nem tão pouco como a parar.

A segunda é que, do outro lado do mar, uma empresa cujo objecto social é acompanhar os desempenhos dos governos e aferir o risco para quem lhes poderá emprestar dinheiro, veio a público dizer que não acredita nem que o que há para ser feito vai ser feito, nem que isso será suficiente para estancar a tal sangria.

E qual tem sido a reacção dos senhores do poder?

Que a aferição do risco soberano deve ser feita deste lado do mar.

Não dá para perceber. Se isto reflecte uma agenda conservadora, uma agenda “liberal”, de “direita”, alguém que me explique.

No tempo de Reagan, toda a gente sabia, em traços gerais, qual era a agenda da direita e a posição da esquerda.

Em Portugal, em Julho de 2011, não sei a distinção.

Sim, tirou-se José Sócrates da equação.

Mas isso não foi um caminho. Foi apenas uma mudança necessária de recursos humanos.

Antes que mais (e é por isso que cito em cima a frase do Dr. Adrian Rogers, um dos apóstolos da direita religiosa americana do tempo de Ronald Reagan) o que deve distinguir a direita da esquerda deve ser a sua posição relativa às questões essenciais da criação da riqueza e a sua distribuição.

E, do que tenho assistido até ao momento, para além de alguns pronunciamentos obscuros sobre a necessidade de se alterar a actual constituição, que codifica a República Socialista criada em 1975 – que sem o beneplácito do Partido Socialista não muda – ao que parece que se vai assistir é a uma espiral de impostos para se tentar estancar uma espiral de despesas e de dívidas, sem outro fim que não seja um apelo humilhante a terceiros para que salvem os portugueses de si próprios.

Das minhas leituras dos livros de história, é nessas alturas que, nada obstando, as soluções mais radicais e menos consentâneas com as regras do jogo democrático, tendem a afirmar-se. A fome e o caos são muito maus conselheiros, especialmente se as escolhas e os rumos difíceis não são devida e atempadamente postas ao julgamento dos eleitores.

Em Junho, substituiu-se José Sócrates e a sua equipa.

Mas neste momento ainda falta algo.

Maior clareza nas opções e maior definição no espectro político.

Ao que se está a assistir não é certamente uma revolução, não é certamente conservadora, nem liberal.

Parece-me ser mais do mesmo.

21/06/2011

O REGRESSO DOS CHICAGO BOYS

O Titanic tem um novo timoneiro.

O título desta curta crónica é meramente evocativo de um outro experimento cujos contornos na área económica vagamente se assemelham com o que parece que a nova gestão, colocada no poder hoje, depois do indescritível episódio de José Sócrates entre Setembro de 2008 e Maio de 2011, episódio que atirou o já falido modelo económico português para o abismo e com ele arrastou pelo menos dois terços dos portugueses (o remanescente terço é rico e está-se nas tintas).

Esse experimento ocorreu no Chile nos anos 70 e 80, quando cerca de duas dúzias de jovens chilenos, a maior parte educados na Universidade de Chicado, onde na altura pontificava Milton Friedman, fizeram basicamente o que se depreende que consta não num programa governativo formulado em Portugal, mas numa longa lista de acções executivas entregue em Lisboa para assinar aos candidatos para a elição parlamentar de 5 de Junho passado, como moeda de troca de um empréstimo de 78 mil milhões de euros, a verba considerada necessária para ajudar a gerir a falência tão lamentavelmente congeminada por José Sócrates.

Claro que há diferenças enormes no ponto de partida. Portugal é, ou ainda é, uma democracia. Os rapazes de Chicago operaram em plena ditadura do Sr. Augusto Pinochet, que foi uma vergonha. Ou seja, operaram num ambiente de praticamente terrorismo de Estado. E na verdade a maior parte do crescimento e apreciação pelos sacrifícios feitos (refiro-me economicamente apenas) ocorreram depois do desmembramento da ditadura e numa altura em que o governo democraticamente eleito do Chile ponderou de alguma forma as medidas “neo-liberais”  dos anos 70 e 80 com medidas de carácter social.

Mas há também algumas semelhanças supreendentes com o que parece que se quer fazer em Portugal agora. Primeiro, as circunstâncias são igualmente dramáticas, sendo que no caso português o espectro da dívida externa é muito pior que o do Chile dos anos 70, que só se abateu sobre aquela economia no princípio dos anos 80. O remédio, na forma de um pacote de medidas quase alucinante no seu agregado (eu suspeito que a esmagadora maiora dos portugueses não sonha o que está para lhes cair em cima) é … fantástico. Mas é também drástico, e violento.  Pode esta sociedade, em democracia, aguentar este embate?

Mais importante, a fórmula dos Rapazes de Chicago durou quase vinte anos e ocorreu num mundo completamente diferente do de hoje, onde não havia globalização, em que a retoma da crise do princípio dos anos 80 foi assegurada primeiro pelos Estados Unidos e depois pela Europa. O mundo de 2011 é radicalmente diferente. A Europa está à beira de mais uma “crise de crescimento”, os Estados Unidos estão com um défice de proporções bíblicas, o comércio desregulado por via dos acordos da Organização Mundial do Comércio e factores como a energia, o seu custo e a preservação do ambiente constituem sérios bloqueios a políticas de crescimento rápido e de substituição de importações.

Ora as prioridades para Portugal, para além de uma reestruturação fundamental da sua forma de operar enquanto país, são simples e são três:

1. Pagar o verdadeiro balúrdio que deve lá fora.

2. Crescer o volume de negócios, com ênfase absoluto nas exportações.

3. Reduzir os seus (digamos) custos operativos.

Tudo isto ao mesmo tempo e a partir já de hoje, dia 21 de Junho de 2011.

E para tudo isto conta-se com o trabalho do Sr. Pedro Passos Coelho, aliado com o Sr. Paulo Portas, e mais dúzia e meia de uma estranha mistura de políticos inexperimentados e tecnocratas aparentemente batidos em tudo menos em governar portugueses, sob a tutela do Senhor Professor Aníbal Cavaco Silva.

O voto maioritário dos portugueses foi, creio lúcido, na medida em que José Sócrates tinha que ser tirado de onde estava quanto antes. Ele foi. O PS agora terá a chance de recalibrar-se e tentar, do outro lado, vir a oferecer algo que possa servir de alternativa credível ao que quer que seja que vai acontecer.

Mas o voto dos portugueses foi dado em circunstâncias no mínimo invulgares. Em que o programa de governo já estava delineado por estrangeiros representando os credores (entre outros) do empréstimo de 78 mil milhões de euros.

Na realidade, toda a gente já se tinha apercebido de duas coisas: o buraco em que o país se tinha metido, e que o que estava em causa era escolher o elenco que ia fazer o que tinha que ser feito.  Generosamente, e ainda sob a tutela de José Sócrates, o PS conduziu uma campanha que só evidenciou o que era – uma máquina gasta e incapaz.

Aliás, o que sucedeu não foi uma campanha. Foi uma farsa, uma espécie de longa troca de “bites” e de galhardetes pelas televisões, recadinhos da treta de uma lado para o outro.

De qualquer modo, claramente, o pêndulo político girou para o outro lado e quero ver quem e como se vai reformar a República Socialista, sem uma revisão constitucional condicente.

A expressão imediata do nova governação, até agora, é a cara, a experiência e o carácter dos membros do governo. Tirando o Paulo Macedo e o Paulo Portas, lamento mas não lhes conheço as habilidades, e do que li parecem-me ser quase todos, como referi, ou membros das lideranças sem experiência ou tecnocratas geniais mas sem provas dadas em termos de governação.

E todos sabem o que é que os romanos diziam daquela tribo de que alguns de nós descendemos.

Há quem diga que isso é bom. Que eles até são novinhos, de uma nova geração, idade média dos quarenta e picos. Com outras vistas. E, a acreditar no dogma de Passos Coelho, vão comportar-se de outra maneira.

Mas no fundo são os Chicago Boys de Pinochet, sem a máquina de terror, versão portuguesa.

Para os cidadãos portugueses, os próximos dois anos vão ser verdadeiramente uma segunda calamidade, a juntar à primeira, causada por José Sócrates.

Se resultar, Pedro Passos Coelho ascenderá ao panteão dos grandes – e poucos – obreiros desta velha nação.

A ver vai-se.

Que comecem os jogos.

 

 

18/05/2011

O RATING DO RISCO DE PORTUGAL EM 2011

(Em cima: a informação estatística ajuda a entender o nosso mundo, a evolução ao longo dos tempos e os desafios do futuro)

Em semanas recentes, tem-se vindo a questionar em Portugal (e não só, mas fiquemos por aqui) a pertinência e até a validade das notações dadas por empresas especializadas, em relação a países como a Grécia, a Irlanda – e Portugal.

Essas empresas de “rating” (em inglês o termo significa literalmente “dar uma nota”, avaliar de acordo com alguns critérios) – de que se destacam a Moody’s, a Fitch e a Standard & Poor’s – adquiriram renovada notoriedade junto do público não especializado português, nas semanas que antecederam o dia em que o primeiro-ministro apresentou a demissão do cargo, ao ver chumbada a quarta proposta consecutiva de aumento de impostos em cerca de um ano, propostas de legislação essas que, talvez num rasgo de doublespeak orwelliano, se continuam a chamar planos de estabilidade e crescimento – ou PECs.

Considerar “estável” e que faça crescer seja o que for através de meramente aumentando impostos, é algo que me fascina.
Mais do que tudo, essa notoriedade resultou do facto de que, especialmente desde Janeiro, as sucessivas notações dadas a Portugal (o Estado português, para ser mais específico), que eram no sentido de uma crescente degradação, entravam em contradição directa com as também sucessivas declarações do primeiro-ministro, José Sócrates, de que tudo estava mais ou menos bem e que o país poderia (como referiu Sócrates ad nauseum) enfrentar sozinho os seus problemas.

Semana após semana, apesar da fixação de Sócrates em afirmar que Portugal era capaz de enfrentar os seus crescentes problemas com a obtenção de crédito e capacidade de gerar receita para pagar as despesas públicas, as principais empresas de rating foram baixando a notações de risco do país.

Desde cedo, muitos em Portugal, entre eles o governo, ainda que com maior discrição, questionaram e atacaram o papel destas empresas e o seu trabalho. Num vídeo que o meu amigo FB João Neves simpaticamente me enviou ontem, são repetidas acusações bem conhecidas em relação às mesmas – que são falíveis, que são manipuláveis, que têm um estatuto que não deviam ter. Que devia haver outra coisa, uma empresa com outro estatuto, empresas não americanas (a Fitch, Moody’s e S&P são de base norte-americana).

Mas há mais. Uma das críticas mais contundentes contra as empresas de rating foi a sua incapacidade de elencarem e reflectirem nas suas notações os antecedentes que levaram ao quase degelo do sistema financeiro mundial, entre 2007 e Setembro de 2008, data em que, como muitos se lembram, a crise passou para a primeira página dos jornais quando a administração Bush deixou cair o banco norte-americano Lehman Brothers.

Talvez o caso mais gritante tenha sido o da pequena nação europeia da Islândia, que faliu inexoravelmente em cerca de uma semana, tendo tido uma notação máxima de AAA, atribuída por umas das três grandes empresas de rating.

Naturalmente, este tornou-se num assunto político do dia.

Mas antes disso, uma curta nota sobre isto dos ratings e como funcionam.

O QUE SÃO E COMO FUNCIONAM OS RATINGS

Toda a base do negócio no mundo financeiro, que essencialmente é um negócio de intermediação financeira, ou seja, mediar entre quem tem dinheiro e quem precisa de dinheiro, assenta numa adequada e avisada avaliação do risco de cada negócio.
Do risco de que o que é emprestado, o que é investido, vai ou não vai ser pago pela pessoa ou entidade a quem se emprestou, ou em quem se investiu.

Quem empresta dinheiro (e nas nossas vidas privadas é exactamente o mesmo), quer garantias ou conforto, de que o seu dinheiro, mais o seu lucro, na forma de juros, vai ser pago.

Quem precisa de dinheiro tem que estar pronto para, de boa fé (e fico por aqui) prestar as informações e dar as garantias, reais ou outras, de forma a confirmar que pode e que vai, de uma forma ou outra, pagar o que deve.

A complexidade e sofisticação da análise de cada situação em que há alguém que tem dinheiro para emprestar e há alguém que gostava de ver esse dinheiro emprestado, varia. Requer pessoas especialmente treinadas para efectuar essas análises. Como um exemplo, a esmagadora maioria dos bancos hoje em dia possui departamentos especializados nessa actividade, os departamentos de crédito, cuja actividade é analisar os pedidos de crédito de uma forma técnica, segundo um conjunto de critérios (que variam enormemente de instituição para instituição) alguns técnicos, outros não.

Alguns dos critérios técnicos são a análise dos rendimentos, ou receitas do proponente, as suas despesas, as suas dívidas, a sua capacidade de endividamento.

Mas há muitos mais. Dou dois exemplos.

O primeiro: um banco que vai analisar se vai emprestar uma quantia a uma empresa de reparação de televisores que só tem uma pessoa que é o dono, que tem 70 anos de idade e que é o único que sabe reparar televisores, tem que pensar no que vai acontecer se essa pessoa morrer no dia seguinte ou for atropelada. Pois sem essa pessoa não há negócio, não há receitas, e o que for emprestado fica em risco.

O segundo: um proponente em que todos os dados apresentados indiciam que não há qualquer problema quanto à sua capacidade de pagamento, mas que se conhece que já por mais que uma vez simplesmente não liquidou o que devia a outra empresa (hoje em dia qualquer país que se preze mantém listas de devedores precisamente para que isso se conheça).

Por uma questão de uniformização de critérios e de tentativa de transparência, muitas empresas financeiras desenvolveram metodologias e sistemas de notação, em que, por exemplo (era o caso no primeiro banco em que trabalhei, nos EUA), o melhor candidato para a concessão de crédito tem uma nota “A”, e o pior “E”.

Na realidade, a maior parte dos clientes acabam por ficar entre um “A” e um “C”. O banco onde eu trabalhava por norma muito dificilmente emprestava a um cliente com notação de risco “D” e definitivamente nunca emprestava a um “E”.

Refira-se que essas notações são aferições. São avaliações. São opiniões formuladas com um elevado grau de especialização.
Ou seja, isto não é ciência, é arte, com muita informação e técnica pelo meio.

Uma ilustração da natureza algo arbitrária dessas notações é que é frequente nas catacumbas dos bancos há debates, por vezes muito acesos, especialmente entre o departamento comercial (que tipicamente quer avançar com um negócio) e o departamento de crédito (que tem que velar pelo risco e assegurar que as avaliações reflectem a verdade), entre uma notação digamos “C”, em que a operação ainda se pode fazer, e “D”, em que só muito dificilmente se fará. Normalmente, segue-se uma discussão em redor dos factos que justificam a notação dada, no sentido de a alterar. Mesmo aí, há regras, algumas técnicas, outras não.

Havendo dito isto, gostava de realçar que quem faz estas análises é contratado e pago por quem as encomenda, não por quem pede crédito (não directamente, pelo menos) ou pela sociedade em geral.

O que não significa que possam fazer o que quiserem. Nos anos 80 e 90, nos Estados Unidos, vários bancos, que se provou que não concediam crédito em zonas onde residiam cidadãos negros (a esta prática chama-se redlining) foram legalmente obrigados a alterar os seus procedimentos pois tais práticas eram racistas.

GRANDES EMPRESAS E SECTOR PÚBLICO

O panorama muda algo à medida que se sobe na dimensão e natureza dos negócios. A especialização é muito maior, mais cara, mais sofisticada. Emprestar dinheiro, digamos, a uma EDP (no caso português), a uma HCB (no caso moçambicano) a uma Sonangol (caso angolano), ou a um destes Estados, seja directamente, a um dos seus ministérios, ou a uma grande empresa pública ou semi-pública, tende a envolver montantes muito elevados, e operações muito específicas. Não é a mesma coisa que emprestar dinheiro a uma pessoa para comprar uma casa.

Mas no fim do dia aplicam-se as mesmas regras básicas: o dinheiro é para ser pago, tem que dar lucro a quem empresta, tem que haver garantias de que será pago.

E normalmente, para estas operações, há empresas – de que a Fitch, a S&P e a Moody’s são as mais conhecidas – que analisam na análise dos riscos envolvidos e ajudam a formular o preço pelo dinheiro emprestado, na forma de juros.

A regra básica é que, quanto maior o risco, mais altos devem ser o juros a pagar, sendo os juros o custo do dinheiro, que depende de outras coisas como a inflação.

Ora, a forma padronizada de abordar estas operações inclui relatórios de risco que incluem, ou concluem, com notações de risco.
Quem empresta tem o direito de expressar o seu grau de apetite pelo risco. Grandes bancos, fundos de investimento, fundos de pensões e seguradoras, que são os grandes compradores de dívida pública, podem querer emprestar só a países com impecáveis registos de cumprimento das suas obrigações, em detrimento de países com percursos digamos que mais erráticos.

Ou seja, países com uma notação de risco AAA (considerada a nota mais alta na escala de notações internacionalmente aceites).

O CASO DE PORTUGAL

No caso de Portugal (que aqui é visto como “sector público”) a notação risco degradou-se entre 2007 e 2011 de AAA para BBB- (caso do rating da Moody’s).

O impacto directo destas alterações é que o número de entidades dispostas a emprestar secou, e que os que ainda estão dispostos a emprestar (comprar dívida é emprestar) fazem-no mas a um preço muito mais alto.

Porque é que o rating de Portugal cair para um nível apenas ligeiramente acima de “lixo”?

(“lixo” é um termo comum para um rating em que dificilmente se antevê que a entidade a quem se emprestou o dinheiro vá pagar o que pediu emprestado sem dar problemas).

Por seis razões que creio serem do conhecimento geral:

1. Os níveis de endividamento dos sectores público e privado portugueses terem atingido níveis excessivamente elevados.
2. A crescente dificuldade do Estado português em obter fontes de financiamento para as suas despesas.
3. A crescente dificuldade do Estado em obter receitas para pagar o que deve – estamos a falar de impostos e outras receitas fiscais.
4. Uma crescente percepção de que o governo era incapaz de controlar quer o seu nível de endividamento, quer o seu nível de despesas.
5. A constatação de que os níveis “reais” de endividamento público são muito mais altos , quer indirectamente, quer através de obrigações contratuais de pagamentos futuros (notavelmente, através das famosas “parcerias público-privadas” e de alguns grandes projectos públicos como auto-estradas, aeroportos e linhas de comboio de alta velocidade).
6. A economia está a iniciar uma grave recessão, o que se traduzirá em dificuldades económicas, prenunciando dificuldades na obtenção de receitas que cubram as despesas previstas.
Pode-se perguntar sempre: será que o actual rating, e a sua recente evolução, fazem sentido?
Na minha opinião, sim. Claro que sim. Os dados acima referidos são comprováveis e esta é considerada a maior crise em Portugal nos últimos 120 anos. Quem conhece Portugal e ainda não se apercebeu da gravidade da situação, deveria estudar mais o que se está a passar.

CONCLUSÂO

Voltando ao tema abordado no início desta nota, faz sentido, justifica-se questionar as metodologias e as notações dadas a Portugal pelas empresas de rating?

Ou, como parece que aconteceu, processá-las por danos (supostamente) causados pelas suas notações?

Naturalmente que, em estados de direito democráticos, tudo isso se pode fazer.

O meu problema com esta situação é que estas acusações assentam no pressuposto que as notações atribuídas a Portugal erraram na medida em que foram excusadamente severas.

E suspeito que estão associadas à intenção de apoiar a postura política de alguns dos agentes políticos, nomeadamente o governo.
Eu considero que, neste caso, as empresas de rating, sendo intrinsicamente imperfeitas pelas razões que referi acima, se erraram, foi num só sentido:

O tal rating “BBB-“ se calhar devia ter sido atribuído a Portugal em Junho de 2009.

Não em Abril de 2011.

Pois em meados de 2009 a situação cujo desfecho, final e penosamente, se conheceu há um mês -a falência técnica do Estado português – já nessa altura era previsível.

Que, mesmo assim, a democracia portuguesa tenha mantido no poder o governo que seguiu o rumo que seguiu até este momento, é a meu ver um trágico prenúncio e uma grave falha do sistema, cujos efeitos ecoarão nos tempos, política, social e economicamente.

Este povo – eu incluído – não merece o destino que está a ter.

E que vai ter.

Muito grato ao João Neves pelo vídeo que me mandou e à Maria João Freire por me ter dado na cabeça em relação a este assunto.

15/04/2011

PAX GERMANIA ET PAX BRITANNIA

A exposição europeia à dívida dos PIGS é maciça.

Apesar de estar na moda estes dias em Portugal demonizar o papel da Alemanha (e, nos últimos três dias, da Finlândia) na negociação de um empréstimo para ajudar Portugal a sair do enorme buraco financeiro em que está metido, a verdade é que eu sempre achei que os alemães têm alguma razão em estar reticentes em relação ao que aconteceu em Portugal.

O que se passa agora é o equivalente de o exmo Leitor viver num prédio onde a despesa do condomínio tem que ser paga todos os meses, e em que o exmo. Leitor durante uns meses tem que pagar a sua despesa e ainda a de um vizinho que anda sempre em festas e que não paga a quota dele.

Portanto, a motivação alemã para ajudar Portugal não existe.

Não existe?

Talvez exista, se se examinar o quadro em cima, publicado hoje no jornal The Econmist.

O mais interessante no quadro é que realça a exposição principalmente da Alemanha, da Grâ-Bretanha e da França ao endividamento dos PIGS.

O que facilmente demonstra que, se Portugal der um estoiro, vai correr sangue nas ruas de Londres, Paris e Berlim.

E, nestas coisas de incentivos, a auto-preservação continua a ser um dos mais poderosos.

A minha aposta é que, gostem ou não, eles vão emprestar o dinheiro.

Em nome da Pax Europa, dirão.

E do seu próprio bem-estar.

Agora o que os portugueses depois vão fazer com ele, isso é outra história.

Vai mais um aeroportozito?

Mais um TGVzinho?

Pois.

12/04/2011

UM MAIS UM IGUAL A TRÊS

Em cima, o jornalista  José Gomes Ferreira, da estação de televisão portuguesa SIC, durante um breve momento em que teve um rasgo de lucidez, mal contido, antes que se arrisque a ser saneado pelas forças obscuras do politiquês correcto do actual regime.

Agora temos que estar todos à espera que dúzia e meia de técnicos estrangeiros, que desembarcaram esta semana no Aeroporto da Portela estile “Men in Black”, compilem um relatório, para se perceber o que raio realmente se passa em Portugal.

Entretanto, gasta-se horas nos media a tentar adivinhar duas coisas: 1) onde é que se vai cortar o quê, 2) onde é que se vai cobrar mais impostos.

E a taxa de desemprego continua a subir.

11/04/2011

PORTUGAL E AS ESTRELAS

Onde creio que o actual primeiro-ministro anda estes dias. Ou serei eu?

Assisti com curiosidade ao festival que o Partido Socialista engendrou este fim de semana na insuspeita Matosinhos, em preparação para mais uma eleição.

E em particular ao que o actual homem forte do regime tinha para dizer sobre o que se passou e sobre o que se vai passar.

Sobre o que se passou, pouco ou nada. Parece que quem falou não esteve cá nos últimos seis anos e meio, e que as múltiplas insuficiências de Portugal vieram do espaço e embateram inesperadamente na economia.

Que faliu.

Sobre o futuro, dificuldades temperadas com TGV e cor de rosa.

A verdade é que, para mim, a decisão essencial da próxima eleição é sobre três coisas:

1. qual é o plano
2. quais são os débitos e créditos
3. se é Sócrates que vai liderar o governo ou não. Ou seja, se é o mesmo indivíduo que liderou nos últimos seis anos e meio que volta para São Bento ou não.

Naquilo que me foi dado a ver em Matosinhos (como se eu não soubesse já, como se eu não tivesse já convicções) não vi nada. Aquilo foi uma espécie de sessão revivalista daquelas igrejas recentemente surgidas, onde se grita “milagre!” em cada cinco minutos e onde todos dão a mão em cada dez.

E o tempo passa.

E nada acontece, a não ser gerir a falência.

E ainda melhor: o PSD surge com o basicamente inexplicável convite a Fernando Nobre. Uma (creio) irrelevância.

Se calhar não são eles que estão na lua.

Se calhar sou eu.

07/04/2011

NOW MEANS NOW MEANS NOW*

O Portugal do Ali Babá e dos 40 Assessores.

Sabe o exmo Leitor porque é que só foi ontem às 08:40 horas da noite que o ainda primeiro-ministro português José Sócrates finalmente despertou do seu estado de aparente estado de autismo socialista?

Apenas por uma razão.

Porque já não era possível adiar a ilusão por mais um dia.

Mas não foi porque o seu governo continua a gastar muito mais do que recebe de receitas após três Peques.

Nem porque cada dia que passa se descobre que as dívidas escondidas pelos cantos da teia de empresas públicas, privadas e afins é de proporções antediluvianas.

Não.

A razão foi que, após cortado o crédito ao Estado, e em que este encenou um último “leilão” de dívida pública em que os compradores foram os bancos portugueses, estes lhe informaram que estavam a poucos dias da falência.

A maior parte dos bancos, ao contrário do que se possa supor, não vai à falência no sentido normal, ou seja, quando a sua situação de capital líquido é negativo.

A maior parte vai à falência por falta de liquidez. Ou seja, pura e simplesmente deixam de ter dinheiro para pedir emprestado lá fora, para pagar o que pediram emprestado lá fora, para emprestar cá dentro, e nem sequer para poderem dar os seus clientes depositantes o seu (deles, dos depositantes) dinheiro.

Ora como o acesso a dinheiro fácil via o banco central europeu e outras fontes secou a partir do momento em que a espiral da descida dos ratings acelerou, e estes estão endividados lá fora até à ponta da ponta dos cabelos, era uma questão de dias.

Citando uma fonte do governo que logicamente deixou o nome de fora, comunicado em surdina ao jornal Económico, “o factor fundamental que levou a que o Governo solicitasse esta ajuda foram as dificuldades financeiras do sector financeiro, nomeadamente quanto ao risco de falta de liquidez e de levantamento de depósitos, e não tanto por dificuldades de financiamento do Estado”.

Ou seja, mais duas semanas e os clientes dos bancos portugueses nem o seu dinheiro poderiam levantar nos balcões e ATM’s e o governo teria que intervir, nacionalizando praticamente toda a banca portuguesa.

Ora eis algo que haveria de fazer todos os portugueses lembrarem-se com infinito e perpétuo afecto de José Sócrates.

Foi nesse momento que ele percebeu que a brincadeira, finalmente, acabara.

Só uma dica: em Hespanha, o maior cliente e o maior ivestidor em Portugal, a banca está mais ou menos na mesma.

E a crise ainda vai no adro.

Na Irlanda, a braços com uma estrondoso arrebentamento de uma bolha imobiliária (a Hespanha está mais ou menos na mesma situação), depois de uma intervenção de 70 mil milhões de euros, foi revelado ontem, depois de se terem feito umas contas (a que eufemisticamente chama-se stress tests) que os bancos necessitam de uma injecção adicional de 24 mil milhões de euros. A acontecer, basicamente isso significa que toda a banca irlandesa será nacionalizada.

Adicionalmente, há uma pequenina coisa que era o que “realmente” preocupava os bancos portugueses antes do que aconteceu esta semana; a entrada em vigor do que se chama “Basileia 3“, que são critérios mais rígidos e exigentes de capital por parte dos bancos, que essencialmente exigem da parte destes níveis significativamente mais elevados de capital social. O problema deles é que, nesta fase do campeonato, quase ninguém quer entrar com mais capital em bancos, apesar de já se observar uma corrida em alguns bancos italianos e alemães para anteciparem o nível mínimo de capital Tier 1 de 6% em 2015 (ver aqui). No caso dos bancos portugueses, será seguro dizer que se sente algum desconforto.

Definitavemente, por todas as razões, estes são tempos agitados.

*Citação de Hillary Clinton quando há umas semanas incitava o presidente egípcio, Hosni Mubarak, a demitir-se do cargo de presidente. Quer dizer “agora quer dizer agora quer dizer agora”. Na realidade, Hillary disse apenas “Now means now”.

05/04/2011

A TEMPESTADE PERFEITA

O transatlântico britânico Titanic parte para a sua viagem inaugural, Abril de 1912. Uns dias depois, afundou em menos de três horas.

Se eu tentasse inventar um cenário mais apocalítico para o fim da III República portuguesa do que se está a viver, não conseguiria:

1. Um governo socialista demissionário, mas ainda liderado por José Sócrates e os seus coadjuvantes, que não conseguem abrir a boca sem referir que estava tudo bem até eles terem levado um cartão vermelho dos seus opositores;

2. Uma oposição que vai ter que propor o impensável, e que não parece saber como o vai dizer;

3. Taxas de juro de entre oito e dez por cento para pagar não as dívidas do estado, mas os juros dessas dívidas, que são de proporções antediluvianas;

4. Sucessivos anúncios de abaixamento das notações de risco da República e dos bancos que contam, e que já afectam todos os bancos que, no agregado, respondem por mais que 90 por cento de tuda a actividade financeira em Portugal;

5. Uma campanha eleitoral sem contornos definidos, mas que se adivinha suja, descarada e desonesta, para uma eleição a realizar daqui a dois meses, que vão ser sessenta longos, tortuosos dias;

6. A constatação de que a situação é mais do que provavelmente muito pior do que a que tem sido retratada na imprensa;

7. A certeza de que, a partir de hoje, e até ver, os bancos deixaram de ter dinheiro para emprestar seja o que fôr, seja a quem fôr, seja para o que fôr;

8. A persistência do mito de que Portugal realmente tem alguma escolha no que concerne a decisão de pedir ou não ajuda internacional para re-estruturar, re-financiar, re-negociar a sua dívida pública e privada;

9. A percepção alucinante, por parte de alguns agentes políticos, de que isto é apenas mais uma questão de esquerda-direita, ou seja, que há uma solução de esquerda e uma de direita;

10. A sensação de que. para a maioria dos eleitores e contribuintes, isto que está a acontecer não é uma questão que vai exigir uma mudança de regime, de paradigma, que tudo vai alterar e todos vai afectar, de forma contundente.

Olho lá para fora da janela do meu quarto neste fim de tarde de primavera e observo silencioso os pinheiros em frente a minha casa a oscilar tranquilamente com o vento suave.

É a calma antes da tempestade.

A tempestade perfeita.

29/03/2011

SOBRE POSE E POSTURA

Winston Churchill, um estudo sobre postura política no século XX.

(em baixo, o inesquecível desempenho da cantora Madonna ao vivo durante a cerimónia dos Prémios MTV em 1990, interpretando Vogue, um estudo sobre pose)

Algumas pessoas, especialmente José Sócrates e os seus acólitos e adeptos, preparam-se para argumentar, durante a campanha para a próxima eleição parlamentar, que ele, José Sócrates, é a pessoa indicada para prosseguir o caminho que ele próprio tem vindo a traçar para Portugal.

Que ele tem as ideias.

A experiência.

A visão e a motivação.

E vão acusar a sua oposição, principalmente os senhores do PSD e do CDS-PP, de o terem derrubado excusadamente, apenas para tomarem o poder e fazerem o mesmo, ou melhor, pior, que ele, invocando uma insidiosa agenda “neo-liberal”.

Os que alimentam essa visão não entendem algo muito fundamental, que a meu ver pode estar por detrás da razão porque, há uma semana, até o seu relutante apoiante, o PSD, em circunstâncias extraordinárias, deixou cair o seu governo, ainda nem a metade de um mandato minoritário de quatro anos.

E o que considero fundamental, reparto em duas partes.

O que é Fundamental Agora, 1

A primeira, é que os líderes devem ser as pessoas indicadas para as circunstâncias.

Se calhar, José Sócrates realmente nunca foi a pessoa indicada para coisa nenhuma. A meu ver, meramente, estava no sítio certo e na hora certa quando, das catacumbas do seu partido, surge do nada para assumir a liderança do PS. A coisa correu bem durante uns dois anos, até que em 2007 a situação inverteu gravemente. Desde aí, o seu desempenho tem sido essencialmente uma fuga para a frente, acompanhado de uma pestilenta campanha de relações públicas, indignas de um partido que é uma de duas alternativas no infeliz sistema efectivo de alternância que existe em Portugal.

A partir de meados de 2008, José Sócrates tornou-se praticamente numa ameaça à estabilidade da República. Com doses de paninhos quentes, manipulação dos dados e da percepção pública, não só não alertou para os perigos em frente, como ainda por cima deu todos os sinais errados de que as dificuldades eram poucas e facilmente superáveis. Inacreditavelmente, já ia num quarto surrealmente designado “plano de estabilidade e crescimento” quando alguém teve o desassombro de o parar, antes que a chacina fosse terminal.

A partir de 2008, Sócrates devia ter sido retirado do cargo que ainda ocupa. Com dignidade, mas com firmeza.

Pois, se já não era, ele tornou-se então um verdadeiro erro de casting.

Eu faço uma analogia. Em 1939, a Europa enfrentava os ventos da guerra e Neville Chamberlain, um político adepto mas conciliador, ocupava o cargo de primeiro-ministro. Tentara negociar com Adolf Hitler, que tinha a sua agenda marcada para fazer essa guerra. A partir do momento em que a guerra se tornou inevitável, foi substituído por Winston Churchill, até então uma velha raposa que ruminava publicamente contra a ameaça nazi. Naquela hora de mortal ameaça, eu acredito que Winston Churchill foi a pessoa indicada e ao nível do desafio que a Grã-Bretanha – e a Europa e o mundo – precisavam. Mesmo assim, e não deve ser menosprezado o gesto – Chamberlain manteve-se no governo e prestou um valiosíssimo apoio ao esforço que se seguiu. Churchill não estava só.

No actual contexto português, José Sócrates é – já o provou ser – a pessoa errada para liderar Portugal e os portugueses perante o enorme, histórico, desafio que se avizinha.

Mantê-lo no poder seria como o Reino Unido ter mantido Neville Chamberlain como primeiro-ministro para combater Hitler.

O que é Fundamental Agora, 2

A segunda, que parodio acima com um magnífico vídeo de Madonna, e decorre da primeira, é que, na vida e especialmente na política, há uma diferença abissal entre pose e postura.

E se calhar aqui reside o mais sério factor que obsta contra José Sócrates.

José Sócrates, que com ele lamentalvelmente arrasta todo o seu partido, é uma pessoa que privilegia a pose em vez da postura. Sabe estar bem para a fotografia e para o telejornal e dizer as coisas que muita gente gostaria de ouvir.

Em tempos fáceis e de vacas gordas (ou melhor, de empréstimos baratos) essa postura é se calhar inconsequente.

Mas o que se avizinha é um desafio de proporções bíblicas. No poder tem que estar alguém para quem a pose é menos relevante, a palavra de circunstância desvalorizada face ao caminho que tem que ser traçado. É preciso falar verdade e falar duro, ter uma visão e seguir o difícil caminho que tem que ser seguido.

Nesta altura, mais do que nunca, é preciso visão, coragem, e acima de tudo postura, para que se prove agora, hoje, que nós, esta geração de portugueses, em democracia, consegue enfrentar as dificílimas decisões que avizinham e superar as dificuldades e os desafios, deixando às gerações futuras um Portugal melhor.

O dramático é que o PS tem pessoas com esta fibra, com visão e postura. Conheço alguns, cujo percurso segui ao longo dos anos. Capazes de, sem traír os princípios seminais que tipificam o espaço no espectro político que procuram assegurar, fazer o que tem que ser feito e, mais importante, redefinir o modelo ideológico do socialismo português, que está obsoleto e completamente desconfigurado da realidade.

José Sócrates não é uma delas.

28/03/2011

REFLECTINDO SOBRE A CRISE PORTUGUESA

Filed under: A grande crise de 2011, Politica Portuguesa — ABM @ 9:03 pm

Eu acho que esmagadora maioria dos que residem em Portugal ainda nem sequer suspeitam no que está para acontecer.

Eis dois indícios.

O primeiro, que me foi enviado pelo meu caro Carl-Henri:

Mapa do mundo em que os países mais castanhos têm maior dívida pública. No caso português, há ainda a dívida privada e as dívidas futuras ainda não contabilizadas. Que parece que são mais que muitas. Para ver melhor, prima no mapa.

O segundo indício, é uma informação que foi anunciada durante o dia de hoje:

A empresa de notação Standard&Poor’s anunciou um corte no rating a cinco bancos portugueses.

O Banco Santander Totta passou de A/A-1 para BBB/A-3.
A Caixa Geral de Depósitos passou de A-/A-2 para BBB/A-3.
O Banco Espírito e o BESI passou de A-/A-2 para BBB/A-3.
O Banco Português de Investimento passou de A-/A-2 para BBB/A-3
E o Banco Comercial Português passou de BBB+/A-2 para BBB-/A-3.

Fora outros, como a EDP.

Estes são os principais bancos portugueses, os tais que são supostos agora aumentar consideravelmente os seus níveis de capitalização, para reforçar as suas garantias intrínsecas contra um degelo económico.

Entretanto, fala-se do Sporting, da visita do Príncipe Carlos e de Dilma Roussef e Cavaco Silva ainda nem sequer aceitou o pedido de demissão de José Sócrates.

E os gastos públicos continuam a subir. E as taxas de juro.

Se por tudo isto há sentido de urgência, de uma emergência nacional, não reparo.

25/03/2011

O VELHO BARDO COMENTA A SITUAÇÃO PORTUGUESA

O bardo aqui é o antigo político António Barreto. Este comentário foi gravado na noite em que José Sócrates apresentou a demissão do seu cargo ao presidente da república português – ontem, dia 23 de Março de 2011.

Prima aqui em baixo e oiça com atenção.

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