THE DELAGOA BAY REVIEW

25/02/2012

O IMPÉRIO SOCIALISTA CONTRA-ATACA, 2012

A política portuguesa às vezes mete nojo. A procissão ainda nem chegou ao adro e já se assistem aos mais elaborados malabrismos.

A verdade é que este ano os efeitos decorrentes dos inacreditáveis níveis de endividamento público, privado, soberano e bancário vão-se começar a abater sobre a população, sem contar com a necessidade de se aumentaram mais os impostos, as taxas, as tarifas e mais sei lá o quê.

E o que é que o Partido Socialista, agora em oposição faz?

Pisca o olho. Pisca o olho como se nada tivesse que ver com o que aconteceu e, mais grave, pisca o olho como se pudesse existir alguma via alternativa ao que está a começar a acontecer.

Parafraseando de um outro blogue:

 

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12/12/2011

AS DÍVIDAS SÃO PARA SE PAGAREM

Crise? Qual crise? Um grande álgum dos Supertramp, 1975. Tema desta pequena crónica sobre o momento que se vive em Portugal.

(em cima, a incomparável Marlene Dietrich cantando “Para onde foram as flores” em Londres, 1972. Para além de grande actriz, foi sempre anti-nazi, o que lhe valeu ter sido ostracizada por muitos dos seus compatriotas).

Sempre paguei as minhas dívidas. Mesmo quando não tinha dinheiro, sempre paguei as minhas dívidas. Nunca pedi dinheiro emprestado, sabendo que não o quereria ou poderia vir a pagar. Se tinha dificuldades em pagar, arranjava maneira de liquidar as minhas dívidas. Antes de pedir dinheiro emprestado, fazia contas detalhadas ao centavo, para ver como e quando é que iria pagar o que devia.

É normal. Isto faz parte da vida e não consigo ver as coisas de outra maneira.

Não confundo, nem sou capaz de induzir alguém a confundir, entre “emprestar” e “emprestadar”. A isso chama-se enganar o próximo.

Especialmente amigos e “amigos”. Essa é uma das maiores traições a que assisto e que, no meu caso, dificilmente consigo perdoar.

Se respeito o meu dinheiro, respeito muito mais o dos outros, pelo mero facto que considerei sempre ser um enorme privilégio, e uma marca de respeito e confiança depositadas em mim, quando alguém me emprestava dinheiro ou pedia conselho sobre dinheiro. Trair esse respeito e essa confiança, não o pagando (com juros) é para mim entre as maiores falhas de carácter e de formação que posso conceber.

Com já meio século de existência, já passei por desafios de toda a ordem e, também por razões da profissão que exerci, distingo claramente entre vários tipos de pessoas: as que sabem gerir dinheiro e as que não sabem gerir dinheiro, e as pessoas que têm palavra e as que não têm.

As pessoas que não têm dinheiro e não têm forma de o pagar têm um nome: são pobres – ou para lá caminham.

Eu já fui pobre. Hoje considero-me remediado a resvalar para o pobre (mas não de espírito). Mas, por experiência e por ter a abertura para o conceber, sei o que é ser pobre. Sei o que é ganhar dinheiro e sei o que é perder dinheiro. Ambos os casos exigem uma boa dose de controlo, de humildade e especialmente de carácter. Nada me exaspera mais que ouvir alguém que é, ou se tornou pobre, e que teima em não o constatar. Quem é pobre não pode ter vícios e tem que trabalhar se quiser deixar de ser pobre.

Nos dias em que correm, ser-se pobre, não sendo agradável, tende a não ser um estatuto social, que já foi, quase como uma casta. A pobreza supera-se pelo trabalho e a educação, especialmente a educação. Para quem tem idade para trabalhar e uma educação mínima, a pobreza é por definição uma situação transitória. Para quem não tem idade para trabalhar, assisto com exagerada frequência jovens – que são por definição pobres – a viver alegre e por vezes exuberantemente à custa dos pais, abusando vergonhosamente do compacto social geracional, enquanto que os mais velhos minguam vergonhosamente na miséria, sem o apoio desses jovens, que entretanto cresceram e que insistem em tentar viver a boa vida sem ter em conta o outro lado da moeda desse compacto social geracional.

Os esquemas e apoios dos governos valem o que valem, especialmente no caso dos mais velhos. Em Portugal, o governo faliu. Faliu porque gastou muito mais do que arrecadava em termos de impostos e faliu porque pediu emprestado tanto dinheiro que já nem os juros consegue pagar.

A palavra de um governo expressa-se nos documentos de dívida que assina e que entrega a terceiros, que lha concedem. A partir de meados deste ano, em Portugal, a palavra do governo deixou de ter qualquer valor. Por isso, teve que “pedir ajuda”. “Pedir ajuda” significa pedir mais dinheiro emprestado, desta vez acompanhado de algumas garantias de que “desta vez” vai arranjar maneira de pagar o que deve, corrigindo o seu caminho, que é arrecadar mais dinheiro e pagar atempadamente o que deve.

Quanto a isso, acredita quem quiser. Os mercados tendem a não acreditar.

Neste processo, as responsabilidades pessoal e a colectiva entrecruzam-se. Na actual crise portuguesa, pessoas que sempre pagaram o que deviam e pouparam nos tempos da fartazana estão a ser coagidas a cobrir as asneiras de quem se endividou e viveu acima das suas posses durante, nalguns casos, décadas. Noutros casos, pessoas sem grandes posses viram o tapete ser-lhes puxado por baixo dos pés, ou porque são empregados do Estado e o Estado cortou-lhes o salário, ou porque a economia inverteu e perderam os empregos. Nestes, perdem desmesuradamente mais os segundos, mas os primeiros falam como se fosse o fim do mundo e até fazem greve. Os desempregados não fazem greve. Não podem.

Ficaram mais pobres e não gostam. Mas por ficarem mais pobres, devem procurar reduzir nos seus custos e limpar as suas dívidas. Quem é pobre não pode e não deve ter vícios. Se não conseguem, devem falar com quem devem dinheiro e negociar uma situação alternativa. Não dizer nada e não fazer nada é irresponsável.

Portugal não ficou mais pobre em 2011. Portugal foi sempre pobre, muito mais do que se suporia ao se olhar para o que as pessoas, as empresas e o governo faziam até há pouco tempo. No fim, apenas se andaram todos a enganar nos últimos quinze anos e finalmente, graças a um contexto internacional muito grave e uma última loucura de um agora ex-primeiro-ministro, sujeitaram-se a uma mudança tectónica na medida em que essa realidade se tornou incontornável.

Agora, as pessoas, as empresas e o governo lamentam-se e procuram formas de lidar com a situação.

Uma das formas é consumir menos, o que vai provocar falências e mais desemprego, menos impostos e por essa via menores gastos do governo, nomeadamente com apoios sociais e reformas. As consequências vão ser claramente negativas e corre-se o risco de uma espiral em que uma coisa alimenta outra.

Um dos argumentos mais apetecíveis para lidar com esta situação é, em vez de se trabalhar mais e arranjar maneiras de ir buscar o dinheiro para se pagar o que se deve, é ….não se pagar o que se deve.

O argumento mais simples é que a culpa é de quem emprestou o dinheiro, não de quem o pediu emprestado e que agora diz que se enganou ou que não sabia o que estava a fazer. Ou a melhor: que foi enganado.

Ao nivel macroeconómico, o ajustamento à nova realidade tem sido penosamente demorado, como sempre parece a ser a tendência em relação às coisas portuguesas. Aumentaram-se e vão-se continuar a aumentar os impostos, e espera-se que se arranje maneira de diminuir as despesas do governo, o que não está a acontecer.

O grande embate virá no próximo ano, se entretanto Portugal não sair do euro, o que, a acontecer, será uma catástrofe sem precedente. Nesse embate, irá haver um confronto entre uma realidade em que, no mercado de trabalho, os que ainda têm empregos tê-los-ão mais ou menos garantidos, e outra, em que cerca de um milhão de desempregados (jovens e “velhos”) não terão nada e ficarão sem nada.Nem sequer subsídios de desemprego ou poupanças. Face à grandeza dos números e o seu impacto, poderá haver consequências. Entre elas a tentação de não se pagarem as dívidas. Ou de partir para aventuras políticas pouco condicentes com a actual dispensação constitucional.

Mas neste capítulo já está a haver um custo. Ninguém já empresta dinheiro a Portugal e a empresas e bancos portugueses há quase um ano.

Ninguém a não ser o Banco Central Europeu, sem o qual Portugal já teria, mais do que falido, entrado em colapso total. O BCE não é o credor de último recurso na União Europeia. Mas tem-no sido para Portugal, em parte porque, contabilisticamente, Portugal é irrelevante em termos económicos na Europa – 1 a dois por cento do seu PIB.

Muitos acusam agora os alemães de intransigência em bloquear a abertura das comportas do financiamento “barato e farto” europeu. Esquecendo-se que isso para os alemães significa serem eles a pagar do bolso deles pelas asneiras feitas por, entre outros, os portugueses. Ainda por cima sem qualquer garantia de que não voltariam a fazer a mesmíssima coisa logo a seguir.

Este fim de semana, esperava-se um “momento da verdade” numa reunião de líderes europeus. Em que os putativos maus da fita eram os alemães, que, pelos vistos, um pouco como eu, acreditam que as dívidas são de quem as contraiu e são para serem pagas. Daí resultou uma solução meio acinzentada e imprecisa de se vir a fazer alguma coisa num futuro próximo. Ganhou-se algum tempo, apenas, os britânicos mais uma vez e como sempre ficando à margem da festa.

A economia de mercado tem disto: periodicamente, da mesma maneira que produz riqueza, ajusta-se às novas condições do mercado. Nesse ajuste, não se compadece com os desejos dos governos e menos ainda com o bem estar e “direitos adquiridos” dos seus eleitores. O que urge é, dentro do que se pode fazer, tentar prevenir contra a miséria (que se distingue da pobreza e a qual não permite uma vivência digna).

No fim, os alemães, que pagaram há cem anos a ferro e fogo e aprenderam a lição (tiveram o inferno de Weimar, a depressão, Adolf Hitler, uma guerra intestina) têm razão: a melhor maneira de não ter que lidar com as dívidas excessivas é mesmo não pedir demasiado dinheiro emprestado.

Tivesse agido desse modo, Portugal não estaria na posição em que se encontra hoje.

E a mesma lição se aplica a todos e cada um de nós.

Tudo o resto é conversa.

De mau pagador.

22/10/2011

ANÍBAL CAVACO SILVA E O FIM DA MACACADA

Nesta data, mapa com as previsivéis ilacções de uma deficiente resolução do "problema grego" - para quem ainda não percebeu. Cavaco Silva percebeu três dias antes de Pedro Passos Coelho. Haja paciência.

Durante esta semana aconteceu algo que à primeira vista parece que não faz sentido nenhum.

Isto porque, pela primeira vez e depois de imensa ginástica e muita sorte, Portugal assistiu à eleição de uma espécie de Santíssima Trindade da chamada direita portuguesa, ao ter, com a re-eleição de Aníbal Cavaco Silva e a eleição do PSD de Pedro Passos Coelho para o poder, um parlamento, um governo e um presidente, da esfera política do chamado centro-direita.

E não faz sentido nenhum porque, no preciso, crucial momento em que o governo do dia apresentou o mais sanguinário orçamento desde que António Oliveira Salazar achou por bem equilibrar as contas nacionais no princípio dos anos 1930, o presidente da república portuguesa, figura estelar do firmamento social democrata, vai a uma de outro modo suporífera sessão da (ainda e sempre) corporativa Ordem dos Economistas, onde se lembra de usar o momento para essencialmente pregar uma rasteira às intenções orçamentais, recentemente reveladas, do governo para 2012, ao dizer (não sugerir ou sequer mandar a proverbial boca) que o orçamento do ano que vem tresanda a inequidade e injustiça.

Passos Coelho, que até tem sido discreto que baste e que supostamente bebe um cházinho semanal com Cavaco em Belém, ficou de boca aberta, enquanto que os comunistas, esquerdistas, sindicatos e afins mal podiam esconder os orgasmos intelectuais com a providencial deixa oferecida pelo presidente.

Levou três dias primeiro que Passos Coelho conseguisse responder ao tirocínio presidencial, resmungando qualquer coisa que se percebe que não se percebe bem.

E, para o analista casual como eu, fica a questão de que raio de Santíssima Trindade é esta em que um dos seus componentes anda aos tiros aos outros em público.

Eu creio que a razão é muito simples, e tem que ver em parte com o fluxograma que coloquei no cimo deste texto, creio que feito por um inglês bem disposto (o Reino Unido ainda tem a libra, o que ajuda).

As medidas já tomadas e listadas no orçamento do governo central para 2012 são draconianas, supostamente mais para os flagelados (e excessivos, e ineficientes) funcionários públicos portugueses, que às vezes parece que são metade de Portugal, mas que mesmo que não sejam, conseguem estoirar alegremente mais do que metade do produto nacional bruto português todos os anos – e sempre a crescer.

Isto fora as dívidas reveladas, as escondidas, as fraudes inexplicadas dos bancos dos amigos e o facto de que parece que tudo o que foi construído nos últimos vinte anos afinal parece que ficou tudo por pagar.

A postura do actual governo foi, e tem sido, honorável. A sua tese de base: os portugueses são gente de bem e vão pagar o que devem, que mais não seja que para continuar a rolar o empréstimo em curso, sem o qual a república resvalecerá inexoravelmente para a falência e quiçá para uma catastrófica saída do euro.

Portanto, como são mentirosos, preguiçosos ou simplesmente incapazes de colocar 150 mil funcionários públicos sem o regime cair, ou cortar aparentemente seja o que for das despesas inacreditáveis a que o governo se foi obrigando a pagar no decurso da República Socialista, os novos senhores da Casa optaram pela via das tomada de medidas fiscais à escala industrial.

Só que, nas últimas semanas surgiram informações, que pelos vistos Cavaco Silva primeiro tomou conhecimento primeiro, e que pelos vistos ou se esqueceu de avisar Passos Coelho nos seus cházinhos semanais ou que este não lhe prestou atenção, que mudaram as circunstâncias radicalmente.

A primeira, é que a Grécia, se tudo ficar na mesma ou mesmo que mude um bocadinho, vai à falência. Aliás, já está falida, agora a questão é como se vai gerir essa falência.

A segunda, é que toda a banca europeia, mesmo sem a falência grega, mas com ela no horizonte, está mesmo à beira do abismo.

E o abismo, se nada mudar já – “já” sendo as reuniões em curso este fim de semana e nos próximos quinze dias – em termos temporais, vai acontecer nos próximos três meses.

Ou antes.

Em terceiro lugar, não é preciso ser J M Keynes – ou Cavaco Silva – para se ter percebido que o actual curso, indicado pelo orçamento português para 2012 e pelas informações macroeconómicas europeias, não só nada contém que possa ajudar a estimular os agentes económicos, como na verdade confirma que o mais provável é a economia europeia, e em especialmente a portuguesa, entre numa espiral descendente que corroerá a fibra e a essência da sociedade e a catapultará para terreno muito perigoso.

Foi o que aconteceu nos anos 1930, para quem não se recorda.

Cavaco Silva apercebeu-se disto antes de Passos Coelho e a sua equipa. Ele entendeu que o orçamento do governo central para 2012 era o cheque garantido para entrar na espiral descendente e que, ainda por cima, Portugal faliria na mesma. Com a agravante de que em seguida, provavelmente para selar a catástrofe, logo a seguir iriam os bancos.

E nesse dia, seria o Fim da Macacada.

Por isso, em tempo real, mudou o discurso.

O que Aníbal Cavaco Silva tentou dizer na Ordem dos Economistas há uns dias é que, se houver, a única salvação para os portugueses é um pacote de ajuda europeu muitíssimo mais substancial do que o quase ofensivamente ruinoso orçamento para 2012 e o empréstimozeco negociado há uns meses.

E, ao fazê-lo em público, quis forçar a mão de Passos Coelho, que ainda andava a fazer de menino bem comportado junto da Troika e ainda dizia que eram os portugueses sozinhos que tinham, que conseguiriam, arrumar a casa.

Levou três dias. Mas Passos Coelho finalmente percebeu.

Que, mais uma vez, e pela segunda vez em seis meses, a salvação do que resta de algum bem-estar dos residentes em Portugal está situada não em Belém e São Bento, mas mais a Norte na Europa.

As medidas a tomar no âmbito do orçamento de 2012 são quase uma política de terra queimada fiscal. Sem qualquer margem de dúvida irão provocar uma tempestade económica, política e social sem precedente desde os últimos dias da famigerada I república. Já estão a começar a fazê-lo.

Mas a verdade é que é preciso muito, muitíssimo mais dinheiro que o que o governo poderá arrancar dos bolsos dos contribuintes para salvar os bancos, para arranjar dinheiro que chegue para emprestar às empresas e às pessoas em 2012, e ainda fazer frente à crescente onda de endividamento com que a República Socialista, com lugar de destaque para José Sócrates, presenteou os portugueses de hoje e das duas gerações que vêm a seguir.

Este fim de semana vão finalmente começar o frio e a chuva em Portugal. Em breve, a não ser que algo venha do Norte entretanto, virão também a fome e a miséria.

Politicamente, fica a paradoxal constatação de que, no actual sistema constitucional e mapa político português, ter uma Santíssima Trindade no poder parece que no fim acaba por não fazer diferença nenhuma.

Nem em bons tempos.

Nem quando se está beira do abismo.

18/10/2011

A ERA DO CARAPAU E O REPOLHO EM PORTUGAL

Muitos moçambicanos se lembram da Era do Carapau e do Repolho.

Agora chegou a vez dos portugueses.

É preciso mesmo estar-se em Portugal para se entender a ironia do que se está a passar.

Por um lado, e finalmente, e inexoravelmente, fizeram-se algumas contas e começou a ser dado conhecimento público da verdadeira dimensão do gigantesco buraco que quinze anos de Estado Socialista, com um breve interlúdio do PSD, e em especial dois anos e meio de governação alucinante de José Sócrates, entre Outubro de 2008 e Junho de 2011, produziram.

Por outro lado, e por uma cruel coincidência, o verão português estendeu-se alegremente pelo Outono, com temperaturas máximas de 30 graus em pleno Outubro e noites suaves. Não chove há meses. Este ano, o clima em Portugal parece o do Sul da Califórnia.

O que ajuda a explicar a aparente demora, por parte dos contribuintes e demais residentes em Portugal, em sequer assinalar a sucessão de anúncios tétricos, por parte do governo do dia, de um crescente montante de dívidas públicas, de uma crescente incapacidade de gerir a despesa pública, e de um crescente rol de medidas, quase todas fiscais, para tentar controlar o turbilhão da dívida pública.

Só pode ser. As pessoas devem estar num estado catatónico entre o choque do que anda a ser anunciado e a anestesia do longo, quente, suave, verão.

O crescendo culminou com um anúncio na noite do dia 12 de Outubro, pelo actual primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, de que, a partir do dia 1 de Janeiro de 2012, praticamente todos os impostos directos e indirectos subirão brutalmente, quase todas as isenções fiscais serão eliminadas, incluindo o confisco, aos funcionários públicos e os cidadãos que recebem reformas do Estado, dos chamados “subsídios” de Natal e de Férias. A partir de quem aufere uns meros, quase míseros, quinhentos euros por mês, o que é um furo acima do chamado salário mínimo nacional português.

A electricidade, a água, os transportes, o gás, as comunicações, a comida, o tabaco, tudo isso subirá significativamente. A lista do que vai subir em preço não acaba.

O resultado global para já? Em 2012, uma parte muito significativa da população portuguesa deverá ter cortes nominais de entre 15 a 30 por cento nos seus rendimentos, contra aumentos de entre 5 e 10 por cento nos preços de muito do que compram, consumem e pagam em impostos.

O efeito combinado será arrasador para muitas pessoas.

E mais se presume virá.

E tudo isto para quê?

Supostamente, não para “resolver” os efeitos da gestão criminosa da coisa pública que foi feita em Portugal nos últimos vinte anos (com lugar de honra para o inesquecível José Sócrates).

Nem sequer para o governo dar um ar da sua graça perante os que neste momento já estão a financiar a falência portuguesa.

Não.

O objectivo primário é meramente evitar a catástrofe social e económica que, diz o governo, quase certamente ocorrerá se medidas drásticas não forem (não fossem) tomadas.

Assim, o anúncio formal feito ontem (17 de Outubro de 2011) do orçamento do governo central para 2012 é um marco histórico no percurso dos portugueses, pois significa o fim dos “happy days” do dinheiro fácil, da vida à custa das gerações futuras, das reformas aos cinquenta anos, do pecúlio da coisa pública à escala industrial.

Finalmente, trinta e seis anos depois da Descolonização, e vinte seis anos depois do início da Era da Euro-subsidiocracia, em que uma nova elite predadora, saída do pronunciamento militar que acabou com a ditadura inventada por António Salazar, entreteve o povo com benesses alucinantes enquanto ao lado fazia as suas negociatas oportunistas, assiste-se agora ao desmoronar do Estado Socialista.

Ou melhor, ao início do seu desmantelamento. De que o orçamento do governo central português para 2012 é apenas o começo.

O melhor, ou seja, o pior, ainda está para vir.

Curiosamente, quase ninguém se refere ao que se está a passar como tal. Quem ler os jornais portugueses fica com a impressão que se está a passar “apenas” um mau bocado.

Em parte percebo porquê. Por três razões.

Primeiro, porque as pessoas ainda vivem em negação da realidade.

Em segundo lugar, porque creio que a ideia do Estado-papá está tão profundamente enraízada na maneira de pensar e ser de tantos portugueses, que a ideia de que a organização da sociedade portuguesa, que é rígida, centralizadora e gerida de cima por uma minoria predadora, e que desde 1975 teve a forma do Estado Socialista, possa vir a ter uma forma diferente daquilo que tem sido, é quase incompreensível para o cidadão médio.

E em terceiro lugar, porque, de facto, pese o carpir dos nacionalistas die-hards (por aqui há muitos), há uma muito desconfortante sensação de que provavelmente os tempos que vêm aí poderão provar o impensável: que, no actual contexto, poderá ser concebível que o que vai ser feito é, dito de uma forma simples, insuficiente.

Ou ainda pior. Que o improvável, quase milenário, projecto nacional português, concebido pelo filho de um francês e de uma leonesa durante o Século XII, se tornou, finalmente, inviável.

Pessoalmente, não sou tão negativo. Penso que os portugueses vão passar um bocado muito mau, em que haverá que tomar decisões difíceis e de fundo sobre a forma como o país funciona e está organizado. Em que o padrão de vida, que voltará a caracterizar-se pela fome, pela miséria, pela falta de oportunidade e pela emigração, continuará a cair enquanto não se tomarem as medidas que é preciso serem tomadas.

Mas a implosão do Estado Socialista implica a criação de um novo Portugal, que pouco ou nada poderá ter que ver com aquilo que quem vive em Portugal pensa que é a sua identidade, ou marca.

Os portugueses não gostam de mudança, a não ser aquela que lhes traga algo mais em troca de nada.

Esses dias acabaram. Provavelmente para sempre.

Mas a maior parte das pessoas ainda não se apercebeu disso.

Os que se aperceberam, ou auguram o Fim (o melodrama suicidário compõe uma parte crucial e muito apreciada do imaginário colectivo português) ou não parecem saber que caminho tomar.

Todos criticam, com alguma razão, o governo do dia. Afinal, as medidas draconianas agora anunciadas poderão bem ter como consequência o fim de um pacto de não agressão social na sociedade portuguesa, que no passado deu provas de uma insidiosa propensidade para a violência. Verdade é que Portugal nunca foi um país de evolução. Como acontece com os terramotos, a sua história recente, desde a chamada Restauração, é uma sequência de episódios em que, a uma paz mais ou menos podre em que um ou mais sectores da sociedade paga os custos dessa paz, sucedem-se as revoluções. Que são violentas, abrangentes e muito dificeis de resolver.

E em que preciosidades como a liberdade e os direitos dos cidadãos tendem a ser os primeiros valores a serem mitigados.

Mas ninguém parece ter alternativas, para além daquela Esquerda perdida no tempo e oportunista, que aparece agora a sugerir que uma espécie de comunismo esclarecido (que em termos fiscais pelo menos 2012 vai parecer ser) ou simplesmente deixar o país falir e renegar o que deve a quem deve.

Pois pois.

Assim, depois de décadas em banho-Maria, finalmente aproxima-se a tempestade.

O que em Moçambique quem tem idade para isso chamava a Era do Carapau e do Repolho.

Mas em Moçambique eram os tempos da guerra, passava-se fome e morria gente todos os dias. Dizem-me que foi um mau momento. Em Portugal não há guerra e o verão californiano estende-se até à terceira semana de Outubro.

Curiosamente, um indício dos desafios dessa realidade veio-me da leitura de uma interessante entrevista que o Professor José Hermano Saraiva, agora com uns provectos 92 anos de idade, e que viu o auge e o estertor do projecto colonial português, deu no final da semana passada a uma publicação que acompanha o Diário de Notícias de Lisboa.

Nessa entrevista, o historiador, conhecido pelos programas televisivos que há muitos anos faz na televisão pública portuguesa, chamados Da Gente e da Alma, às tantas foi questionado acerca da situação actual de Portugal. A quem atribuía a responsabilidade por esta crise e que medidas é que deviam ser tomadas para o País superar a actual “ruptura socieconómica”, perguntaram-lhe.

Eis a sua resposta, na íntegra: “Tão simples! Portugal tinha como principais rendimentos os produtos ultramarinos e as alfândegas e, de uma só vez, acabaram com tudo. Nós não temos produção. [Quanto às medidas a tomar] julgo que nenhumas. Portugal não tem hipóteses de sobrevivência. Portugal era o principal produtor de café, de urânio, de ferro, e deixámos de ser tudo isso. Não temos nada. Somos um País mendigo, vivemos de dinheiro emprestado. (…) Portugal não vai re-erguer-se, não vejo maneira nenhuma de isso acontecer.” (Notícias TV, 14 de Outubro de 2011, pp. 11 e 12).

Internamente, o Arcebispo das Finanças de Portugal, Vítor Gaspar, que vai pontificando nas televisões numa cadência messiânico-papal, diz que vai fazer o que for preciso para endireitar a economia nacional.

Mas se a Grécia, a Espanha e a Itália caírem sozinhas (curiosamente se fosse toda a Europa seria menos mau) Deus salve Portugal.

Baseado na minha experiência africana, face ao que poderá vir a acontecer, cada português que se salve a si próprio.

Esta noite, a famigerada Agência Moody’s baixou a notação de risco de Espanha de AA2 para A1.

Vem aí a tempestade.

E muito pia e latinamente, e mais uma vez, reina a total impunidade em relação ao porquê se chegou aqui e a quem foi responsável pela forma como se chegou a este ponto.

06/10/2011

A DESILUSÃO DE CAVACO E COM CAVACO

Aníbal Cavaco Silva discursando durante o feriado de 5 de Outbro. Em baixo, o que eu pensei sobre o que ele disse. Foto cortesia de a Bola.

 

Não sei precisar o momento em que Aníbal Cavaco Silva me começou a desiludir a sério, enquanto titular do cargo de presidente da república portuguesa.

Não sei se foi quando me apercebi da sua postura esfíngica de diva política (que não é).

Nem sei se foi quando repetidamente me irritava quando, sempre que um jornalista lhe metia um microfone debaixo da boca (situação de que não gosto mas que ele é que permite – se eu fosse presidente mantia os jornalistas a dez metros de distância, tal como faz qualquer presidente dos EUA que se preze) de pontificar socraticamente sobre ele mesmo mas falando dele na terceira pessoa- e mesmo assim cripticamente ou dizendo nada.

Não que interesse. A maior parte do tempo, o que ele diz não interessa. Mas os média portugueses têm esta propensidade para o seguirem perpetuamente, à caça de uma declaração, de uma declaraçãozinha.

Nem tão pouco se foi quando me apercebi da sua penosamente óbvia incapacidade genética de falar com as pessoas através da televisão ou de estar com elas pessoalmente, sob a custódia protectiva da sua esposa-parceira política, uma professora de liceu reformada com uma pensão de (explicou ele uma vez) apenas 800 euros por mês.

Uma impreciosidade pecuniária que só mesmo um investimentozinho oportuno em acções do BPN ajudavam a colmatar.

Nem ainda, na sua teimosia em insistir que “ele” o tal presidente na terceira pessoa que é ele mas que ele sugere que não é ele, invariavelmente não se deve pronunciar sobre este, aquele ou qualquer outro assunto.

Mas que depois permite que se deixe gravar num pasto nos Açores a dizer as mais rascas banalidades sobre vacas e fruta.

Durante muito tempo, pensei que ele seguia esta postura académico-anal-retentiva porque, para além de ser mesmo assim, por debaixo dele ele tinha que lidar com o quiçá menos estável, quase hilariantemente exuberante – e perigoso – José Sócrates. O socialista-in-waiting que emergeu do chiqueiro que foi na altura o chamado escândalo da Casa Pia e que meteu os pregos finais no túmulo em que Portugal rapidamente se está a tornar (bendito povo que ainda não se apercebeu no que está metido).

Mas em Junho, supostamente, ocorreu um episódio histórico na política portuguesa (histórico com “h” pequeno, muito pequeno, atalhe-se): num espasmo momentâneo e irreflectido de alguma sanidade, certamente excessivamente tardio, alguns eleitores puseram Sócrates na rua e votaram maioritariamente para colocar o PSD, o PSD que havia, no poder.

O mesmo PSD onde Aníbal causou algum furor nos “happy crazy years” do arranque da mama europeia – e cujas regras de base ele redigiu – como ministro das finanças e depois como primeiro ministro durante dez anos seguidos.

Lembram-se desses anos?

Os dez anos de Cavaco Silva foram na altura vistos como anos de grande prosperidade, de desenvolvimento e de alguma paz a estabilidade. As empregadas domésticas deixaram de usar passes sociais e compraram Renaults Clio a prestações. Profeticamente, ele terminou essa década liberalizando o crédito…ao consumo. O mesmo que agora nos consume colectivamente.

Mas afinal esses anos não foram bem isso.

Na verdade, foi aquilo que, memoravelmente Joaquim Chissano, lá nas Áfricas, dizia acerca das suas “audiências internas” enquanto presidente executivo de Moçambique: agora se depreende que o que era preciso para andar para a frente nesses anos, era manter as ratazanas à sua volta com a barriga cheia.

E isso ele fez. Foi uma win-win situation. Tirando talvez os despachantes oficiais, acho que esses dez anos foram uma bebedeira nacional a todos os níveis. Os privados comeram o que quiseram, a máquina estatal explodiu em crescimento, as despesas públicas subiram a um patamar estratosférico, procedeu-se alegremente à desindustrialização de Portugal, sob o aliciante lema – que Cavaco Silva e só ele inventou – de que Portugal poderia ser o próximo Sillicon Valley da Europa. O que na verdade equivale a dizer que beduínos marroquinos passassem a fabricar Ipads da Apple (Rip Steve Jobs).

O resultado, anos mais tarde, foi uma absolutamente estranha parceria, em que uma empresa que ninguém sabe bem quem é ganhava dinheiro vendendo – ao governo, ou seja aos contribuintes – uns computadorzecos chamados Magalhães a meninos previamente de rua e que serão a suposta Geração Portuguesa do Futuro.

A Grande Geração da maior implosão demográfica em 900 anos de história, tirando a Gripe Espanhola de 1918 e a Grande Peste de 1348.

Aníbal Cavaco Silva foi posto na rua em 1995. Ou melhor, como ele não iria concorrer, e portanto tecnicamente não podia ser despedido, os eleitores na altura puseram o seu partido na rua, demolindo a sua máquina e abrindo o flanco a outra não mais apta agremiação de talentos, que era a então liderança do PS, personalizada na figura de António Guterres, que era uma espécie de anti-caricatura de Aníbal: tudo fazia, tudo dizia, com tudo e todos dialogava, ao som de uma passagem épica do filme O Gladiador.

Mas, feitas as apresentações e as nomeações, e agora sob diferentes condições – de que destaco a continuação da torrente de euro-donativos, a baixa substancial das taxas de juro e a relativa novidade da capacidade de ambos os sectores público e privado de se passarem a financiar (leia-se endividar) nos mercados internacionais ao preço da uva mijona – os anos de António Guterres caracterizaram-se pela continuação da política do betão, abrindo agora uma nova frente na chamada área social, sempre tão cara para os socialistas.

Era o betão com consciência social, simbolizado pelo cancelamento de uma barragem e a inauguração de um parque de imagens pré-históricas algures do Portugal Profundo.

Em 98, fez-se a Expo que fez a ponte para a bebedeira seguinte, que foi o Euro 2004. Por uns momentos, mais do que quandp ávida e pacoviamente mudavam as matrículas dos seus carros para o padrão europeu, os portugueses equivocaram-se gravemente e pensaram que eram portugueses da Europa.

Ou seja, para além do betão de Cavaco Silva, António Guterres, no que em seguida foi superado soberbabemente por José Sócrates, principiou a gastar o que todos os portugueses não tinham, em subsídios para tudo e mais alguma coisa.

Pelo meio, houve uma eleição presidencial em que Cavaco Silva não teve qualquer chance. Jorge Sampaio, um socialista mediano mas simpático que fora presidente de câmara e que tinha a particularidade de falar bem inglês e de chorar em público de quando em vez, ficou com o lugar. A única vez em que se notou foi quando limpou a poeira aos canos serrados da espingarda presidencial e ejectou o curto, infeliz governo de Santana Lopes, que ficou por aí.

O problema é que, entretanto, a economia portuguesa pura e simplesmente parou. E assim ficou, estática, durante dez anos seguidos, alheia ao que se dissesse ou se fizesse, que não era rigorosamente nada.

No sector público, acumulava-se a pressão explosiva em termos de custos e de eficácia, a quase todos os níveis. Num primeiro susto, que aliás não foi lá muito levado a sério, José Sócrates fingiu que ia fazer reformas. “Fazer reformas” para um socialista habitualmente significa “aumentar impostos”. E assim foi. Trouxeram o Paulo Macedo que mais ou menos começou a fazer com os impostos o que ninguém pelos vistos consegue fazer com a justiça, a saúde, a educação, a gestão da demais coisa pública.

Pelo meio, desta vez por alguma saturação anti-socialista, e por falta de alternativas, creio, Aníbal Cavaco Silva foi eleito presidente. Tal como no final do Século XIX, era a Alternância sem Alternativas.

De nada e para nada serviu, aquele primeiro mandato.

Que foi digamos que mudo. Lá no palácio que foi de Dom Carlos e Dona Amélia, Aníbal pregoava harmonia, ruminava subterraneamente e através da sua corte de assessores quando algo lhe desagradava, agarrou-se uma vez de uma forma inusitada à relativamente exótica questão do estatuto dos Açores. Isto enquanto José Sócrates literalmente fez o que quis e lhe apeteceu. No início de 2009, quando já tudo se começava a desmoronar, manteve um aumento de 3.9% dos salários dos funcionários públicos e disse que o que afinal era preciso era – estaria eu a alucinar? – mais e mais despesa e mais investimento público.

Era preciso dar de comer às ratazanas.

Na sua mais recente campanha, Cavaco Silva foi quase majestático: nem sequer fez campanha, para além duns cartazezitos e uns debates positivamente intragáveis na televisão. Isto já quando o mundo levara o rombo assustador da falência premonitória do banco americano Lehman Brothers e em que o que estava para vir era totalmente previsível: uma arrasadora destruição de valor nos mercados de capitais, a que se seguiria uma ainda mais demolidora secagem dos mercados de crédito. Subitamente, toda a gente descobriu a palavra “risco” e “notação de risco”.

Especialmente em Portugal.

Metodicamente, a Islândia, a Irlanda e a Grécia caíram. Os grandes tomaram severas medidas de contenção.

Quando Sócrates foi finalmente posto fora, após anunciar o seu quinto “Plano de Estabilidade e Crescimento” ou PEC, termo kafkiano-orwelliano que na quase totalidade consistia em fazer aumentar pela quinta vez sucessiva os impostos, Cavaco foi incansavelmente fleugmático.

Afinal, em Portugal, um presidente não manda.

Umas semanas depois, no início de Junho, o PSD de Pedro Passos Coelho, um ex- perpetuamente jovem apparatchik do PSD sem qualquer experiência prévia de governo e que tinha escrito um daqueles livrinhos inspiracionais que agora estão tanto na moda, tomou as rédeas do poder. Possuía as importantes vantagens de não parecer alucinar como José Sócrates e de ser elegível.

Face ao terror económico que se começava a vislumbrar poderia estar para vir, alguns portugueses acharam reconfortante ter agora uma espécie de Santíssima Trindade Laranja a governar a nação: um presidente, um governo e um parlamento laranjas.

Previsivelmente, os primeiros cem dias do novo governo laranja consistiram em fazer duas coisas: dizer que tudo estava a ir de mal a pior e a aumentar impostos. Muitos mais impostos.

O que, claro, todos aceitaram relutantemente pois estava-se a pagar o descalabro de dez anos de República Socialista. E não parecia haver alternativa.

O que não estava previsto é que não fizessem quase mais nada para além disso. Nada de cortes na despesa, nada de ideias novas, nada para além do parlapatanço habitual e típico dos políticos portugueses. Paulo Portas, que se movimentou para ter um lugar à mesa do poder, refugiou-se no recato das Necessidades, e meteu uns seus colaboradores em pastas importantes,em que ainda não se observou nada de substancial.

Neste período, Cavaco Silva, agora em segundo e terminal mandato, pouco disse, para além daquelas estranhas mas já habituais emanações sobre ele mesmo na terceira pessoa, e referindo que as coisas estavam mal e que a gente que se virasse para melhorar as coisas.

E sobre as vaquinhas nos Açores.

É portanto, neste contexto global, que a Aníbal Cavaco Silva ocorreu, ontem, de celebrar o lamentável feriado do dia em que houve um golpe de Estado (mais um, diga-se) resultante de uma conspiração em Lisboa que derrubou em 1910 a monarquia e implantou o actual regime há 101 anos, com um discurso.

A esse chamo o Discurso dos Tempos Difíceis e da Refundação da República.

Quem quiser e tiver a pachorra, pode lê-lo premindo AQUI (curiosamente o sítio do jornal desportivo A Bola).

Qual foi a essência das suas mensagens?

A meu ver, a essência do que disse é que os portugueses estão lixados, que vão passar as passinhas do seu nativo Algarve, que ou arrepiam caminho depressa ou vai tudo por água abaixo, e finalmente que se esqueçam da mama do governo que desta vez não lhes pode ajudar.

O terminar o discurso com uma esforçada mensagem de fé quase divina nas capacidades dos lusitanos, quase parece uma espécie de exercício da praxe para não ficar mal. Ainda assim usa o já desgastado exemplo dos portugueses emigrados, ignorando a perversa dualidade do que isso significa: que os portugueses lá foram são exemplares e têm sucesso tanto porque são portugueses, como porque……justamente, estão lá fora.

Ora, eu ouvi e depois li o que ele disse no seu discurso de 5 de Outubro de 2011 no contexto não de hoje mas no de uma carreira que decorre há quase trinta anos.

E acho curioso que alguém que foi responsável em boa parte pelo país que este é agora, mas que é suposto ser um contraponto à loucura socialista de dez anos, que procurou e obteve o cargo de presidente da república, que me parecia apreender de forma lúcida os tempos que se avizinhavam, que neste momento de constatação da inevitabilidade da mudança, centre o seu discurso nas temáticas de funda da Desgraça e da redescoberta da necessidade do renascimento de um novo “activismo republicano.”

Precisamos de fazer renascer um novo activismo republicano?

Um novo activismo republicano?

Qual deles? o da pulhice nojenta e malcheirosa da I república? o dos quarenta anos da república de Salazar? ou os trinta anos e tal anos de República Socialista, a República a Crédito que terminou com a maior falência nacional em 120 anos?

Nos últimos tempos de Sócrates, quando o via na televisão, eu costumava interrogar-me com frequência sobre em que planeta é que ele pensava que vivia.

Quando vi Aníbal Cavaco Silva a discursar na televisão ontem à tarde, fiz a mesmíssima pergunta.

E a resposta, cada vez mais, parece ser esta.

Que os portugueses mais uma vez estão entregues a si próprios, sem qualquer projecto nacional que não seja ir a reboque dos escombros do projecto europeu, sem o qual não há desígnio nacional, e que os actuais líderes, um pouco como os mais recentes, não estão ali para liderar nem para solucionar.

Estão apenas para cruzar os débitos com os créditos, a tentar vender a língua para agradar ao Brasil e a esperar que venha um milagre de alguma parte. Possivelmente da Europa, o que ele sugere no seu discurso, mas temente de que poderá não ser assim.

A história de Portugal já teve vários destes lamentáveis momentos. Em que se pressente que algo de terrível está para acontecer.

E que ninguém parece preparado para o que está para vir.

E parece que neste caso a história repete-se.

Se se repete, é porque, se calhar, os portugueses merecem. Pois não aprenderam a lição.

Independentemente desse detalhe, nestas circunstâncias, esta república, certamente esta III república, provavelmente, não tem salvação.

E Aníbal Cavaco Silva provou que já não é parte da solução.

É parte do problema.

06/09/2011

O NOVO VS. O VELHO PROGRAMA DE GOVERNO

Se Pedro Passos Coelho e os seus muchachos não se cuidam, começará em breve a ter-se a impressão que o seu "programa" de governo em pouco se distingue do do seu antecessor, o já saudoso....O...como é mesmo que ele se chamava? Aquele, que segundo uma peça de capa no Correio da Manhã de hoje, tem um tio e um primo com contas offshore muito, muito concorridas.

13/07/2011

A REVOLUÇÃO CONSERVADORA EM PORTUGAL, JULHO DE 2011

“You cannot legislate the poor into freedom by legislating the wealthy out of freedom. What one person receives without working for, another person must work for without receiving. The government cannot give to anybody anything that the government does not first take from somebody else.

When half of the people get the idea that they do not have to work because the other half is going to take care of them, and when the other half gets the idea that it does no good to work because somebody else is going to get what they work for, that my dear friend is about the end of any nation. You cannot multiply wealth by dividing it”.

(Dr. Adrian Rogers, 1984)

Ao contrário de muitos dos exmos. leitores, eu vivi nos Estados Unidos durante os dois mandatos de Ronald Reagan, que presidiu à “revolução conservadora” norte americana nos anos 80, que, catapultada pelo pragmatismo moderado de Bill Clinton, trouxe enormes riquezas aos norte-americanos, até que a administração de George W. Bush, um pouco como o José Sócrates de Outubro de 2008-Abril de 2011, arrebentou com tudo e mais alguma coisa.

Em Portugal, como resultado da eleição de 5 de Junho, pela primeira vez desde 1974, há um alinhamento entre presidente, parlamento e governo que em Portugal se chama de “direita”. Ou, talves mais hilariante ainda, “liberal”. O que para mim é curioso. Nos EUA um “liberal” é um tipo de esquerda. Lá, o contrário de um liberal é um conservador. Mas um conservador em Portugal é um fascista ou afim.

Mais do que rótulos, no entanto, interessa o conteúdo, ou seja a ideologia, e a doutrina, e as acções daí decorrentes. É o actual alinhamento governamental português, um multifacetado conjunto de pessoas puxadas daqui e dali e liderados por Pedro Passos Coelho, com Cavaco Silva em Belém “conservador”? de “direita”? “liberal”?

Mas em Portugal, o que é que isso quer dizer?

O normal seria olhar para o arco-íris político português e aí buscar a resposta. Dum lado temos a gerontocracia comunista, os agora periclitantes Bloques de Gauche, a seguir os escombros do PS de José Sócrates, e os senhores da presente administração a seguir. Como não há mais nada à direita, ou outra direita, estes devem ser a direita portuguesa.

Mas será que são “a” direita?

E se são, que direita é esta?

Qual a sua visão?

Os seus valores?

O que é que defende?

A minha resposta curta é: “não sei”.

Não sei porque ainda não li nada que emanasse das suas lideranças (PSD e PP) que me faça crer que se está perante uma direita.

Mais importante, aquilo que supostamente vai tentar-se fazer  nos próximos anos nem sequer foi escrito por eles: foi dado em espécie de ultimato por um pequeno grupo de tecnocratas que esteve em Lisboa umas curtas semanas durante o mês de Maio. Em cerca de duzentas páginas, apinhadas de instruções e com datas-limite de execução.

E esse documento foi assinado por todos. Até pelo Partido Socialista de Portugal.

Volvidas umas semanas após o penoso carnaval da selecção do elenco governamental e as tomadas de posse, só se conhecem duas evoluções claras.

A primeira é um imposto “extraordinário” sobre o rendimento das pessoas, para supostamente ajudar a estancar a sangria de gastos públicos que ninguém parece saber em que pára nem tão pouco como a parar.

A segunda é que, do outro lado do mar, uma empresa cujo objecto social é acompanhar os desempenhos dos governos e aferir o risco para quem lhes poderá emprestar dinheiro, veio a público dizer que não acredita nem que o que há para ser feito vai ser feito, nem que isso será suficiente para estancar a tal sangria.

E qual tem sido a reacção dos senhores do poder?

Que a aferição do risco soberano deve ser feita deste lado do mar.

Não dá para perceber. Se isto reflecte uma agenda conservadora, uma agenda “liberal”, de “direita”, alguém que me explique.

No tempo de Reagan, toda a gente sabia, em traços gerais, qual era a agenda da direita e a posição da esquerda.

Em Portugal, em Julho de 2011, não sei a distinção.

Sim, tirou-se José Sócrates da equação.

Mas isso não foi um caminho. Foi apenas uma mudança necessária de recursos humanos.

Antes que mais (e é por isso que cito em cima a frase do Dr. Adrian Rogers, um dos apóstolos da direita religiosa americana do tempo de Ronald Reagan) o que deve distinguir a direita da esquerda deve ser a sua posição relativa às questões essenciais da criação da riqueza e a sua distribuição.

E, do que tenho assistido até ao momento, para além de alguns pronunciamentos obscuros sobre a necessidade de se alterar a actual constituição, que codifica a República Socialista criada em 1975 – que sem o beneplácito do Partido Socialista não muda – ao que parece que se vai assistir é a uma espiral de impostos para se tentar estancar uma espiral de despesas e de dívidas, sem outro fim que não seja um apelo humilhante a terceiros para que salvem os portugueses de si próprios.

Das minhas leituras dos livros de história, é nessas alturas que, nada obstando, as soluções mais radicais e menos consentâneas com as regras do jogo democrático, tendem a afirmar-se. A fome e o caos são muito maus conselheiros, especialmente se as escolhas e os rumos difíceis não são devida e atempadamente postas ao julgamento dos eleitores.

Em Junho, substituiu-se José Sócrates e a sua equipa.

Mas neste momento ainda falta algo.

Maior clareza nas opções e maior definição no espectro político.

Ao que se está a assistir não é certamente uma revolução, não é certamente conservadora, nem liberal.

Parece-me ser mais do mesmo.

21/06/2011

O REGRESSO DOS CHICAGO BOYS

O Titanic tem um novo timoneiro.

O título desta curta crónica é meramente evocativo de um outro experimento cujos contornos na área económica vagamente se assemelham com o que parece que a nova gestão, colocada no poder hoje, depois do indescritível episódio de José Sócrates entre Setembro de 2008 e Maio de 2011, episódio que atirou o já falido modelo económico português para o abismo e com ele arrastou pelo menos dois terços dos portugueses (o remanescente terço é rico e está-se nas tintas).

Esse experimento ocorreu no Chile nos anos 70 e 80, quando cerca de duas dúzias de jovens chilenos, a maior parte educados na Universidade de Chicado, onde na altura pontificava Milton Friedman, fizeram basicamente o que se depreende que consta não num programa governativo formulado em Portugal, mas numa longa lista de acções executivas entregue em Lisboa para assinar aos candidatos para a elição parlamentar de 5 de Junho passado, como moeda de troca de um empréstimo de 78 mil milhões de euros, a verba considerada necessária para ajudar a gerir a falência tão lamentavelmente congeminada por José Sócrates.

Claro que há diferenças enormes no ponto de partida. Portugal é, ou ainda é, uma democracia. Os rapazes de Chicago operaram em plena ditadura do Sr. Augusto Pinochet, que foi uma vergonha. Ou seja, operaram num ambiente de praticamente terrorismo de Estado. E na verdade a maior parte do crescimento e apreciação pelos sacrifícios feitos (refiro-me economicamente apenas) ocorreram depois do desmembramento da ditadura e numa altura em que o governo democraticamente eleito do Chile ponderou de alguma forma as medidas “neo-liberais”  dos anos 70 e 80 com medidas de carácter social.

Mas há também algumas semelhanças supreendentes com o que parece que se quer fazer em Portugal agora. Primeiro, as circunstâncias são igualmente dramáticas, sendo que no caso português o espectro da dívida externa é muito pior que o do Chile dos anos 70, que só se abateu sobre aquela economia no princípio dos anos 80. O remédio, na forma de um pacote de medidas quase alucinante no seu agregado (eu suspeito que a esmagadora maiora dos portugueses não sonha o que está para lhes cair em cima) é … fantástico. Mas é também drástico, e violento.  Pode esta sociedade, em democracia, aguentar este embate?

Mais importante, a fórmula dos Rapazes de Chicago durou quase vinte anos e ocorreu num mundo completamente diferente do de hoje, onde não havia globalização, em que a retoma da crise do princípio dos anos 80 foi assegurada primeiro pelos Estados Unidos e depois pela Europa. O mundo de 2011 é radicalmente diferente. A Europa está à beira de mais uma “crise de crescimento”, os Estados Unidos estão com um défice de proporções bíblicas, o comércio desregulado por via dos acordos da Organização Mundial do Comércio e factores como a energia, o seu custo e a preservação do ambiente constituem sérios bloqueios a políticas de crescimento rápido e de substituição de importações.

Ora as prioridades para Portugal, para além de uma reestruturação fundamental da sua forma de operar enquanto país, são simples e são três:

1. Pagar o verdadeiro balúrdio que deve lá fora.

2. Crescer o volume de negócios, com ênfase absoluto nas exportações.

3. Reduzir os seus (digamos) custos operativos.

Tudo isto ao mesmo tempo e a partir já de hoje, dia 21 de Junho de 2011.

E para tudo isto conta-se com o trabalho do Sr. Pedro Passos Coelho, aliado com o Sr. Paulo Portas, e mais dúzia e meia de uma estranha mistura de políticos inexperimentados e tecnocratas aparentemente batidos em tudo menos em governar portugueses, sob a tutela do Senhor Professor Aníbal Cavaco Silva.

O voto maioritário dos portugueses foi, creio lúcido, na medida em que José Sócrates tinha que ser tirado de onde estava quanto antes. Ele foi. O PS agora terá a chance de recalibrar-se e tentar, do outro lado, vir a oferecer algo que possa servir de alternativa credível ao que quer que seja que vai acontecer.

Mas o voto dos portugueses foi dado em circunstâncias no mínimo invulgares. Em que o programa de governo já estava delineado por estrangeiros representando os credores (entre outros) do empréstimo de 78 mil milhões de euros.

Na realidade, toda a gente já se tinha apercebido de duas coisas: o buraco em que o país se tinha metido, e que o que estava em causa era escolher o elenco que ia fazer o que tinha que ser feito.  Generosamente, e ainda sob a tutela de José Sócrates, o PS conduziu uma campanha que só evidenciou o que era – uma máquina gasta e incapaz.

Aliás, o que sucedeu não foi uma campanha. Foi uma farsa, uma espécie de longa troca de “bites” e de galhardetes pelas televisões, recadinhos da treta de uma lado para o outro.

De qualquer modo, claramente, o pêndulo político girou para o outro lado e quero ver quem e como se vai reformar a República Socialista, sem uma revisão constitucional condicente.

A expressão imediata do nova governação, até agora, é a cara, a experiência e o carácter dos membros do governo. Tirando o Paulo Macedo e o Paulo Portas, lamento mas não lhes conheço as habilidades, e do que li parecem-me ser quase todos, como referi, ou membros das lideranças sem experiência ou tecnocratas geniais mas sem provas dadas em termos de governação.

E todos sabem o que é que os romanos diziam daquela tribo de que alguns de nós descendemos.

Há quem diga que isso é bom. Que eles até são novinhos, de uma nova geração, idade média dos quarenta e picos. Com outras vistas. E, a acreditar no dogma de Passos Coelho, vão comportar-se de outra maneira.

Mas no fundo são os Chicago Boys de Pinochet, sem a máquina de terror, versão portuguesa.

Para os cidadãos portugueses, os próximos dois anos vão ser verdadeiramente uma segunda calamidade, a juntar à primeira, causada por José Sócrates.

Se resultar, Pedro Passos Coelho ascenderá ao panteão dos grandes – e poucos – obreiros desta velha nação.

A ver vai-se.

Que comecem os jogos.

 

 

10/05/2011

AS REGRAS DO JOGO

Filed under: José Sócrates, Paulo Portas, Politica Portuguesa — ABM @ 6:05 am

O demissionário primeiro-ministro português mantém uma visão curiosa da realidade.

Sentei-me ontem à noite para assistir, pela televisão, a um “debate” entre José Sócrates, o demissionário mas ainda primeiro-ministro de Portugal, e líder do Partido Socialista, e Paulo Portas, político que lidera um pequeno partido do centro-direita chamado Centro Democrático Social – Partido Popular (raio de nome).

O “debate”, transmitido na estação de televisão luso-espanhola TVI, durou cerca de 45 minutos, seguido por cerca de uma hora de comentários desportivos por parte de jornalistas e analistas políticos.

Aquilo a que assisti foi uma enorme desilusão. Principalmente, não pelo que os dois políticos disseram ou não disseram, que foi o costume e o esperado, mas pela forma como se comportaram todos, especialmente a “moderadora”, uma jornalista que foi rapinada a peso de ouro há dias à falida mas publicamente financiada RTP.

Ao que assisti foi uma corrida lancinante contra o tempo, cada um dos candidatos a tentar dizer o que lhe apetecia, a moderadora incapaz de segurar seja o que for, incluindo o tempo, todos se interrompendo mutuamente, em aparente desrespeito total pelo que presumo que foram regras do jogo previamente acordadas pelas partes.

Foi lamentável, desprezível, a aproximar-se do execrável. Um insulto e um total desrespeito por quem tomou o tempo para escutar o que estes senhores tinham para dizer.

E este era suposto ser o mais interessante da série de “debates” em antecipação da eleição parlamentar portuguesa de 5 de Junho.

Não que interesse muito. Para mim, é muito claro que José Sócrates tem que ir. Nem devia ter que o dizer, pois considero esta constatação tão óbvia.

Estritamente falando, votar no Partido Comunista Português ou no Bloco da Esquerda é perder tempo. É escolher uns fulanos bem falantes e sempre indignados, que vivem numa órbita ainda mais exterior que Sócrates, sentados nas bancadas de fora, a insultar os outros, apenas enchendo os noticiários com barulho.

E isto só porque as estações de televisão portuguesas inventaram um bizantino esquema de atribuição de tempo de antena a estas curiosidades políticas, em nome de um putativo pluralismo no discurso político público. O governo aprovou uma coisa qualquer? temos que ouvir 45 insuportáveis segundos de treta por parte de cada um dos partidos com assento parlamentar, às vezes até do solitário, irrelevante, inconsequente, marionetizado, Partido dos Verdes.

Haja santa paciência.

Portanto, a decisão útil é se se deve votar no PSD ou no CDS no dia 5 de Junho.

Nestes termos, Sócrates, o pior primeiro-ministro português desde o Ultimato Britânico de 1890, ou talvez antes, perdeu o debate mesmo antes de abrir a boca.

Mas não antes de ter a chance de vir mais uma vez com aquele discurso orwelliano de como ele é que sabia o que estava a fazer e que toda a realidade em redor é que estava mal (maliciosamente?) descrita.

Que o enorme buraco em que ele meteu dez milhões de portugueses não é um buraco.

Portas, sendo que era à partida o vencedor, foi medíocre, não tanto pelo que disse, mas pela forma como o disse. Interrompia, não se calava, não era sucinto, sujeitando-nos a ter que assistir à moderadora repetidamente a dizer para ele se calar. Lá disse o básico dos básicos sobre Sócrates, mas mesmo aí mal.

Em resumo, mais um dia infeliz na periclitante casa da democracia portuguesa, com a ressalva de que pelo menos as habituais afirmações ficcionadas do ainda primeiro-ministro foram devidamente rotuladas em tempo real. Para variar.

11/04/2011

PORTUGAL E AS ESTRELAS

Onde creio que o actual primeiro-ministro anda estes dias. Ou serei eu?

Assisti com curiosidade ao festival que o Partido Socialista engendrou este fim de semana na insuspeita Matosinhos, em preparação para mais uma eleição.

E em particular ao que o actual homem forte do regime tinha para dizer sobre o que se passou e sobre o que se vai passar.

Sobre o que se passou, pouco ou nada. Parece que quem falou não esteve cá nos últimos seis anos e meio, e que as múltiplas insuficiências de Portugal vieram do espaço e embateram inesperadamente na economia.

Que faliu.

Sobre o futuro, dificuldades temperadas com TGV e cor de rosa.

A verdade é que, para mim, a decisão essencial da próxima eleição é sobre três coisas:

1. qual é o plano
2. quais são os débitos e créditos
3. se é Sócrates que vai liderar o governo ou não. Ou seja, se é o mesmo indivíduo que liderou nos últimos seis anos e meio que volta para São Bento ou não.

Naquilo que me foi dado a ver em Matosinhos (como se eu não soubesse já, como se eu não tivesse já convicções) não vi nada. Aquilo foi uma espécie de sessão revivalista daquelas igrejas recentemente surgidas, onde se grita “milagre!” em cada cinco minutos e onde todos dão a mão em cada dez.

E o tempo passa.

E nada acontece, a não ser gerir a falência.

E ainda melhor: o PSD surge com o basicamente inexplicável convite a Fernando Nobre. Uma (creio) irrelevância.

Se calhar não são eles que estão na lua.

Se calhar sou eu.

07/04/2011

NOW MEANS NOW MEANS NOW*

O Portugal do Ali Babá e dos 40 Assessores.

Sabe o exmo Leitor porque é que só foi ontem às 08:40 horas da noite que o ainda primeiro-ministro português José Sócrates finalmente despertou do seu estado de aparente estado de autismo socialista?

Apenas por uma razão.

Porque já não era possível adiar a ilusão por mais um dia.

Mas não foi porque o seu governo continua a gastar muito mais do que recebe de receitas após três Peques.

Nem porque cada dia que passa se descobre que as dívidas escondidas pelos cantos da teia de empresas públicas, privadas e afins é de proporções antediluvianas.

Não.

A razão foi que, após cortado o crédito ao Estado, e em que este encenou um último “leilão” de dívida pública em que os compradores foram os bancos portugueses, estes lhe informaram que estavam a poucos dias da falência.

A maior parte dos bancos, ao contrário do que se possa supor, não vai à falência no sentido normal, ou seja, quando a sua situação de capital líquido é negativo.

A maior parte vai à falência por falta de liquidez. Ou seja, pura e simplesmente deixam de ter dinheiro para pedir emprestado lá fora, para pagar o que pediram emprestado lá fora, para emprestar cá dentro, e nem sequer para poderem dar os seus clientes depositantes o seu (deles, dos depositantes) dinheiro.

Ora como o acesso a dinheiro fácil via o banco central europeu e outras fontes secou a partir do momento em que a espiral da descida dos ratings acelerou, e estes estão endividados lá fora até à ponta da ponta dos cabelos, era uma questão de dias.

Citando uma fonte do governo que logicamente deixou o nome de fora, comunicado em surdina ao jornal Económico, “o factor fundamental que levou a que o Governo solicitasse esta ajuda foram as dificuldades financeiras do sector financeiro, nomeadamente quanto ao risco de falta de liquidez e de levantamento de depósitos, e não tanto por dificuldades de financiamento do Estado”.

Ou seja, mais duas semanas e os clientes dos bancos portugueses nem o seu dinheiro poderiam levantar nos balcões e ATM’s e o governo teria que intervir, nacionalizando praticamente toda a banca portuguesa.

Ora eis algo que haveria de fazer todos os portugueses lembrarem-se com infinito e perpétuo afecto de José Sócrates.

Foi nesse momento que ele percebeu que a brincadeira, finalmente, acabara.

Só uma dica: em Hespanha, o maior cliente e o maior ivestidor em Portugal, a banca está mais ou menos na mesma.

E a crise ainda vai no adro.

Na Irlanda, a braços com uma estrondoso arrebentamento de uma bolha imobiliária (a Hespanha está mais ou menos na mesma situação), depois de uma intervenção de 70 mil milhões de euros, foi revelado ontem, depois de se terem feito umas contas (a que eufemisticamente chama-se stress tests) que os bancos necessitam de uma injecção adicional de 24 mil milhões de euros. A acontecer, basicamente isso significa que toda a banca irlandesa será nacionalizada.

Adicionalmente, há uma pequenina coisa que era o que “realmente” preocupava os bancos portugueses antes do que aconteceu esta semana; a entrada em vigor do que se chama “Basileia 3“, que são critérios mais rígidos e exigentes de capital por parte dos bancos, que essencialmente exigem da parte destes níveis significativamente mais elevados de capital social. O problema deles é que, nesta fase do campeonato, quase ninguém quer entrar com mais capital em bancos, apesar de já se observar uma corrida em alguns bancos italianos e alemães para anteciparem o nível mínimo de capital Tier 1 de 6% em 2015 (ver aqui). No caso dos bancos portugueses, será seguro dizer que se sente algum desconforto.

Definitavemente, por todas as razões, estes são tempos agitados.

*Citação de Hillary Clinton quando há umas semanas incitava o presidente egípcio, Hosni Mubarak, a demitir-se do cargo de presidente. Quer dizer “agora quer dizer agora quer dizer agora”. Na realidade, Hillary disse apenas “Now means now”.

05/04/2011

A TEMPESTADE PERFEITA

O transatlântico britânico Titanic parte para a sua viagem inaugural, Abril de 1912. Uns dias depois, afundou em menos de três horas.

Se eu tentasse inventar um cenário mais apocalítico para o fim da III República portuguesa do que se está a viver, não conseguiria:

1. Um governo socialista demissionário, mas ainda liderado por José Sócrates e os seus coadjuvantes, que não conseguem abrir a boca sem referir que estava tudo bem até eles terem levado um cartão vermelho dos seus opositores;

2. Uma oposição que vai ter que propor o impensável, e que não parece saber como o vai dizer;

3. Taxas de juro de entre oito e dez por cento para pagar não as dívidas do estado, mas os juros dessas dívidas, que são de proporções antediluvianas;

4. Sucessivos anúncios de abaixamento das notações de risco da República e dos bancos que contam, e que já afectam todos os bancos que, no agregado, respondem por mais que 90 por cento de tuda a actividade financeira em Portugal;

5. Uma campanha eleitoral sem contornos definidos, mas que se adivinha suja, descarada e desonesta, para uma eleição a realizar daqui a dois meses, que vão ser sessenta longos, tortuosos dias;

6. A constatação de que a situação é mais do que provavelmente muito pior do que a que tem sido retratada na imprensa;

7. A certeza de que, a partir de hoje, e até ver, os bancos deixaram de ter dinheiro para emprestar seja o que fôr, seja a quem fôr, seja para o que fôr;

8. A persistência do mito de que Portugal realmente tem alguma escolha no que concerne a decisão de pedir ou não ajuda internacional para re-estruturar, re-financiar, re-negociar a sua dívida pública e privada;

9. A percepção alucinante, por parte de alguns agentes políticos, de que isto é apenas mais uma questão de esquerda-direita, ou seja, que há uma solução de esquerda e uma de direita;

10. A sensação de que. para a maioria dos eleitores e contribuintes, isto que está a acontecer não é uma questão que vai exigir uma mudança de regime, de paradigma, que tudo vai alterar e todos vai afectar, de forma contundente.

Olho lá para fora da janela do meu quarto neste fim de tarde de primavera e observo silencioso os pinheiros em frente a minha casa a oscilar tranquilamente com o vento suave.

É a calma antes da tempestade.

A tempestade perfeita.

29/03/2011

SOBRE POSE E POSTURA

Winston Churchill, um estudo sobre postura política no século XX.

(em baixo, o inesquecível desempenho da cantora Madonna ao vivo durante a cerimónia dos Prémios MTV em 1990, interpretando Vogue, um estudo sobre pose)

Algumas pessoas, especialmente José Sócrates e os seus acólitos e adeptos, preparam-se para argumentar, durante a campanha para a próxima eleição parlamentar, que ele, José Sócrates, é a pessoa indicada para prosseguir o caminho que ele próprio tem vindo a traçar para Portugal.

Que ele tem as ideias.

A experiência.

A visão e a motivação.

E vão acusar a sua oposição, principalmente os senhores do PSD e do CDS-PP, de o terem derrubado excusadamente, apenas para tomarem o poder e fazerem o mesmo, ou melhor, pior, que ele, invocando uma insidiosa agenda “neo-liberal”.

Os que alimentam essa visão não entendem algo muito fundamental, que a meu ver pode estar por detrás da razão porque, há uma semana, até o seu relutante apoiante, o PSD, em circunstâncias extraordinárias, deixou cair o seu governo, ainda nem a metade de um mandato minoritário de quatro anos.

E o que considero fundamental, reparto em duas partes.

O que é Fundamental Agora, 1

A primeira, é que os líderes devem ser as pessoas indicadas para as circunstâncias.

Se calhar, José Sócrates realmente nunca foi a pessoa indicada para coisa nenhuma. A meu ver, meramente, estava no sítio certo e na hora certa quando, das catacumbas do seu partido, surge do nada para assumir a liderança do PS. A coisa correu bem durante uns dois anos, até que em 2007 a situação inverteu gravemente. Desde aí, o seu desempenho tem sido essencialmente uma fuga para a frente, acompanhado de uma pestilenta campanha de relações públicas, indignas de um partido que é uma de duas alternativas no infeliz sistema efectivo de alternância que existe em Portugal.

A partir de meados de 2008, José Sócrates tornou-se praticamente numa ameaça à estabilidade da República. Com doses de paninhos quentes, manipulação dos dados e da percepção pública, não só não alertou para os perigos em frente, como ainda por cima deu todos os sinais errados de que as dificuldades eram poucas e facilmente superáveis. Inacreditavelmente, já ia num quarto surrealmente designado “plano de estabilidade e crescimento” quando alguém teve o desassombro de o parar, antes que a chacina fosse terminal.

A partir de 2008, Sócrates devia ter sido retirado do cargo que ainda ocupa. Com dignidade, mas com firmeza.

Pois, se já não era, ele tornou-se então um verdadeiro erro de casting.

Eu faço uma analogia. Em 1939, a Europa enfrentava os ventos da guerra e Neville Chamberlain, um político adepto mas conciliador, ocupava o cargo de primeiro-ministro. Tentara negociar com Adolf Hitler, que tinha a sua agenda marcada para fazer essa guerra. A partir do momento em que a guerra se tornou inevitável, foi substituído por Winston Churchill, até então uma velha raposa que ruminava publicamente contra a ameaça nazi. Naquela hora de mortal ameaça, eu acredito que Winston Churchill foi a pessoa indicada e ao nível do desafio que a Grã-Bretanha – e a Europa e o mundo – precisavam. Mesmo assim, e não deve ser menosprezado o gesto – Chamberlain manteve-se no governo e prestou um valiosíssimo apoio ao esforço que se seguiu. Churchill não estava só.

No actual contexto português, José Sócrates é – já o provou ser – a pessoa errada para liderar Portugal e os portugueses perante o enorme, histórico, desafio que se avizinha.

Mantê-lo no poder seria como o Reino Unido ter mantido Neville Chamberlain como primeiro-ministro para combater Hitler.

O que é Fundamental Agora, 2

A segunda, que parodio acima com um magnífico vídeo de Madonna, e decorre da primeira, é que, na vida e especialmente na política, há uma diferença abissal entre pose e postura.

E se calhar aqui reside o mais sério factor que obsta contra José Sócrates.

José Sócrates, que com ele lamentalvelmente arrasta todo o seu partido, é uma pessoa que privilegia a pose em vez da postura. Sabe estar bem para a fotografia e para o telejornal e dizer as coisas que muita gente gostaria de ouvir.

Em tempos fáceis e de vacas gordas (ou melhor, de empréstimos baratos) essa postura é se calhar inconsequente.

Mas o que se avizinha é um desafio de proporções bíblicas. No poder tem que estar alguém para quem a pose é menos relevante, a palavra de circunstância desvalorizada face ao caminho que tem que ser traçado. É preciso falar verdade e falar duro, ter uma visão e seguir o difícil caminho que tem que ser seguido.

Nesta altura, mais do que nunca, é preciso visão, coragem, e acima de tudo postura, para que se prove agora, hoje, que nós, esta geração de portugueses, em democracia, consegue enfrentar as dificílimas decisões que avizinham e superar as dificuldades e os desafios, deixando às gerações futuras um Portugal melhor.

O dramático é que o PS tem pessoas com esta fibra, com visão e postura. Conheço alguns, cujo percurso segui ao longo dos anos. Capazes de, sem traír os princípios seminais que tipificam o espaço no espectro político que procuram assegurar, fazer o que tem que ser feito e, mais importante, redefinir o modelo ideológico do socialismo português, que está obsoleto e completamente desconfigurado da realidade.

José Sócrates não é uma delas.

25/03/2011

O VELHO BARDO COMENTA A SITUAÇÃO PORTUGUESA

O bardo aqui é o antigo político António Barreto. Este comentário foi gravado na noite em que José Sócrates apresentou a demissão do seu cargo ao presidente da república português – ontem, dia 23 de Março de 2011.

Prima aqui em baixo e oiça com atenção.

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11/02/2011

O MOMENTO MÁGICO QUE PORTUGAL VIVE

Hoje foi um dia particularmente interessante para acompanhar as notícias portuguesas.

Os items que me suscitaram alguma curiosidade:

1. A meio da manhã, no mais recente leilão de divida soberana portuguesa, as taxas exigidas pelos credores já atingiam 7.63% quando o Banco Central Europeu interveio mais uma vez, comprando o papel e forçando as taxas ligeiramente mais para baixo. A coisa está linda.

2. Dados publicados também hoje, indicam que, só no mês de Janeiro, a inflação homóloga portuguesa cifrou-se em 4.6 por cento.

3. Tive o azar, durante a tarde, de ouvir parte do debate quinzenal no parlamento português – aquele em que o primeiro-ministro vai lá e andam uma parte do dia na esgrima política. Foi mais uma vez uma expressão do surreal e do patético. José Sócrates tem esta capacidade curiosa de enumerar todos os “bits” de informação que no fim do dia sejam favoráveis aos seus pontos de vista. Os seus oponentes políticos, com a eventual e apenas parcial excepção de Paulo Portas, não têm oratória para contrapor ao discurso de Menino Sorrateiro Espertalhão do primeiro-ministro e dos seus colegas. Mais grave, todos parecem alheios à situação actual.

4. Enquanto isso, noticiou-se que alguns bancos estão finalmente, timidamente, a subir as taxas de juro que pagam aos seus depositantes. Só que estão a pagar entre 2 e 3 por cento para prazos até aos seis meses.

5. O que me leva ao seguintes pontos:

a) se o exmo Leitor dever dinheiro a um banco, as taxas de juro que paga pelo seu empréstimo estão a disparar e não vejo senão subidas nos próximos tempos.

b) se for aforrador, ou seja, tiver dinheiro depositado no seu banco, apesar das subidas nas taxas de que falam os jornais, repare que só em Janeiro a inflação homóloga foi de 4.6 por cento. Se receber 3 por cento, ao fim do ano está a perder 1.6 por cento. Parece pouco. Mas não é.

c) O cenário geral para quem vive em Portugal é que 1) o imposto sobre o seu rendimento subiu, 2) o seu salário diminuiu ou não aumentou, 3) o IVA (Imposto de Valor Acrescentado) aumentou de 21 para 23 por cento., 4) a gasolina está ao preço mais alto de sempre, cerca de 1 euro e meio por cada litro, 5) a inflação vai subir.

Para um funcionário público no topo da carreira, isto pode significar uma dimunuição no poder de compra de cerca de 20 por cento.

Num só ano, o que é obra.

Sem falar nos efeitos dos aumentos nos descontos para a segurança social e reforma e da idade mínima para a reforma.

E tudo isto se os bancos, que se estão a aguentar através de aumentos consideráveis naquilo que cobram aos clientes, e os balões de oxigénio do Banco Central Europeu, não tiverem mais problemas (eu acho que vão aguentar-se mas vai ser apertado).

Na política, persiste o jogo do gato e do rato. O governo minoritário do PS agarra-se ao papão da crise para se manter, e a oposição não parece ter a coragem de dar um passo em frente. Surpreendentemente, todos estão a gerir o proceso via a falta de liderança, à espera que apareça o momento mágico para a mudança.

Isto sem mencionar as aparições de Paulo Penedos, célebre acusado num caso de corrupção, e António Vara, indiciado noutro. Ambos foram gravados a dizer que estão perfeitamente inocentes de tudo e que tudo o que deles se diz é pura malícia e fabricação, como certamente tentarão provar num tribunal, se e quando tal se proporcionar.

Vive-se hoje o Portugal de Ali Babá e de Sheherezade.

É uma vertigem.

25/01/2011

A CRISE PODE PROSSEGUIR AGORA

O actual presidente, treinando em Lourenço Marques, Moçambique, 1965.

 

Após a quase agonizante fase de espera para tirar isto das presidenciais da agenda, lá se procedeu ao ritual da eleição, num domingo com um frio e vento de rachar. Metade do eleitorado ficou em casa, talvez para poupar na gasolina, que está a 1 euro e 67 cêntimos o litro. Uma parte também não saíu de casa porque não tinha maneira de saber onde é que iria votar (eu falhei por uma nesga).  No fim, 23 por cento do eleitorado, ou 54 por cento dos que se incomodaram a votar, elegeu Aníbal Cavaco Silva para mais um mandato.

As surpresas:

1. O tamanho da sova eleitoral que Manuel Alegre levou. Talvez seja desta que ele desaparece de vez da política portuguesa.

2. O tamanho do voto do Dr. Fernando Nobre. Metade protesto, metade simpatia pela sua pessoa, presumo.

3. O grau de ressabianço de um dos candidatos perdedores, que, por ter tido direito a menos de um por cento dos votos, não tem direito a ser mencionado aqui.

4. O maior grau de ressabianço de Cavaco Silva no seu discurso protocolar de vitória. Parece que ficou mesmo chateado com os belisques à sua reputação. Andam muito sensíveis, os nossos políticos.

5. A sensação com que fiquei, ao vê-lo falar, de que Marcelo Rebelo de Sousa começou ontem a sua campanha para presidente quando Cavaco sair de cena. Este é o único cargo que eu sei que ele gostaria de ter na vida. Boa sorte!

Acabadas as festividades, volta-se à crise. Que, apesar de tudo, ainda não se abateu a sério sobre o país.

E José Sócrates ainda a residir no palácio de São Bento.

22/01/2011

NADA MUDOU AINDA

O futuro próximo: Portugal o terceiro a contar do fim em crescimento do PIB, com uma estimativa de -1 por cento em 2011.

Na ante-véspera da eleição presidencial portuguesa, inquéritos de última hora, como antecipado, prevêm que Aníbal Cavaco Silva seja re-eleito presidente para mais um mandato de cinco anos. Nada de novo aqui, para além de alguma indigestão por uma campanha particularmente devassa de conteúdo.

José Sócrates ainda é primeiro-ministro e Pedro Passos Coelho ainda está à espera de uma oportunidade.

Entretanto, como sempre sem explicação aparente, um litro de gasolina de 95 octanas vende a um euro e cinquenta e oito cêntimos à porta da minha casa e já se notam os efeitos do IVA de 23 por cento a penetrar em tudo o que se compra ou se paga.

Esta semana, os funcionários públicos estão a abrir com alguma incredulidade os seus comprovativos de salários e a ver o início da razia que pouco mais que é o começo da factura por 35 anos de “socialismo”.

Ainda que as notícias indiquem que as vendas automóveis tiveram em Dezembro um pico de 30 por cento em relação ao ano anterior. “Antecipação da compra por razões fiscais”, foi a razão apontada.

As notícias indicam também o maior número de residentes desempregados desde há muitos anos, e a confirmação da tendência para uma cada vez mais crescente desigualdade entre os que ganham mais e os que ganham menos em Portugal, o que não deixa de ser curioso tendo em conta o tal de “socialismo”.

E uma vacina contra a febre amarela passou de uma penada de 15 cêntimos para cem euros. “Actualização”, foi a explicação.

Os bancos portugueses mantêm a habitual postura esfíngica, mas cada vez mais se denota um certo desesperozinho em arranjar funding para manter as suas operações. Este não vai ser um ano fácil, apesar do aparente tsunami de crédito mal parado, das taxas de juro cada vez mais punitivas e da fiscalidade usurária que cada vez mais se abate sobre quem trabalha para o que ganha e para quem poupou e tem que gerir essas poupanças.

Na televisão, o lixo falante culpa os alemães e exige indignado o que em Moçambique se chama, algo eufemísticamente, “cooperação”. Cooperação essa que, dependendo de quem se leia, vai dos 50 aos 100 mil milhões de euros. Para não falar dos espanholes, e, surpreendentemente, dos belgas, que parece que precisam de muito mais “cooperação”.

Isto tudo muito interessante, pois quando Barack Obama criou uma linha de dois mil mil milhões de dólares para segurar a economia americana há quase dois anos, os europeus andaram armados em carapaus de corrida a dizer que no seu continente não havia dessas coisas e que agora é que era a Era do Euro. Pois parece que as Instâncias e os treinadores de bancada, estão a falar de um fundo de apoio de … dois mil mil milhões de euros.

Se os alemães deixarem, claro.

Tirando tudo isto, que apenas empobrecerá o português médio este ano entre 15 e 25 por cento, e estar fazer um pouco mais frio do que o habitual esta semana, rigorosamente nada mudou.

Ainda.

 

PS- Para variar, o “ainda” em cima é no sentido português, não o moçambicano.

30/12/2010

O ÚLTIMO DEBATE PRESIDENCIAL PORTUGUÊS

Filed under: José Sócrates, Politica Portuguesa, Presidenciais 2010 — ABM @ 3:20 am

30 de Dezembro de 2010

A grande Ella Fitzgerald acima, acima consegue dizer mais nos 6 minutos e 36 segundos que a levaram a cantar o imortal Samba de Uma Só Nota, que o que foi dito na cerca de uma hora que levou o debate esta noite entre Cavaco Silva e Manuel Alegre – que era suposto ser o único “grande” debate da campanha presidencial portuguesa.

O debate foi pouco menos que medíocre.

O formato não ajuda. A Judite passou o tempo de cronómetro a cortar a palavra aos dois, chamando-lhes artificial e republicanamente de “candidato Cavaco” e “candidato Manuel Alegre”, o que os dois, estupidamente mimicavam, chamando-se entre si a mesma coisa. Sendo o tempo breve, e sendo isto Portugal, a consequência é que menos que nada havia para dizer que fizesse algum sentido. O “debate” foi na melhor das hipóteses uma troca mal ensaiada de piropos, alguns cuspidos espontaneamente, outros tirados de uns papelinhos que os dois pretendentes ao trono da República tinham à sua frente.

Portanto, na falta de conteúdo, fico-me pelas superficialidades:

1. ou era do meu televisor hiper-de-luxo-HD, ou os dois estavam mais pintados que uma corista em dia de espectáculo. Cavaco estava mal pintado, tinha um mancha do lado esquerdo da cara dele (ou seja, do lado direito na imagem), a gravata dourada esquivada para o lado direito. Manuel estava mais bem pintadinho e a gravata era menos carnavalesca e o fato era decididamente melhor. Parecia um executivo da Portugal Telecom a anunciar um grande dividendo.

2. Cavaco Silva pareceu menos à vontade, os ataques dele estavam mal ensaiados e pareciam mais defesas encapotadas que ataques genuínos. Manuel Alegre esteve sempre mais composto e bem disposto.

3. Enquanto que a voz de Manuel Alegre era o paradigma da clareza cristalina e transpirava boa dicção, a voz de Cavaco Silva era tão fanhosa que mal se ouvia. Alegre fala a partir das cordas vocais, a voz de Cavaco parece que vem do estômago. Por causa de Cavaco, tive que subir o som do meu televisor, suscitando o imediato protesto de quem lá estava, incluindo a minha gata Kitty, que só para chatear anda com cio há três semanas seguidas. Não há alguém que dê umas lições ao candidato Silva de como falar de forma que se faça entender na televisão?

4. A Judite Correia, uma jornalista da estação pública de televisão de todos nós (1 milhão de euros do erário público por dia) e que era suposto “moderar”, estava tão particularmente “speedada” esta noite que até fazia impressão. A sua intervenção parecia uma daquelas consultas de hospital público em que o essencial era despachar o paciente antes que ele morra na marquesa. Ajudava a atropelar o que quer que seja que o candidato Cavaco e o candidato Alegre tentassem dizer. Ora sendo isso já pouco (o que eles tinham para dizer) o efeito foi cacofónico.

5. o candidato Alegre foi sempre tentando abraçar o lado social-humanitário-lírico-poético da Grande Herança Socialista, sem nunca mencionar que foi precisamente por causa desse tipo de discurso sem contabilização dos débitos e créditos, e dos Amigos Socialistas dos últimos quinze anos, que Portugal está a resvalar a partir de dia 1 de Janeiro, para a maior recessão económica de que há memória desde os saudosos tempos da I República. Desta vez sem as falinhas mansas da União Europeia e sem subsídios. Vai ser lindo, ver Portugal a voar sem rede por baixo. Faz-me lembrar um pouco quando eu saí das Colónias em 75, até os bilhetes de avião os meus pais tiveram que comprar.

6. Por sua parte, o candidato Cavaco, o pai do Portugal moderno (pós-soarista) e o verdadeiro arquitecto da infernal máquina subsídio-fiscal (e das grandes negociatas) que começou a descambar imediatamente após o seu desmaio na tomada de posse de António Guterres em 1995, procurou evidenciar o seu valiante contributo, enquanto presidente, para o bem comum e a “estabilidade”, nos anos do seu primeiro mandato – o mesmíssimo mandato de José Sócrates, que usou a mesmíssima máquina para espalhar o Estado Socialista e ganhar votos. Afirmação que não me convenceu por um segundo, pois se houve um pai para o “monstro”, foi Aníbal Cavaco Silva. Só que na altura quase ninguém notou porque em tempos de vacas gordas não se nota o que é que o monstro realmente come. Quando chegaram as vacas magras, todos repararam mas então já era tarde demais. E aparentemente Sócrates nunca soube o que era um monstro, ou uma vaca, gorda ou magra.

A parte do eleitorado que já não está quase completamente alienada por isto tudo no dia 23 vai re-eleger, com a provavelmente mais baixa taxa de participação da história desta república, o mal menor. Aníbal Cavaco Silva será presidente.

E é, de facto, assim, apropriado e até edificante, que seja Aníbal Cavaco Silva a presidir à nojice que já se faz sentir e que vai caracterizar a vida dos portugueses durante os próximos anos. Esses já com e sem Sócrates.

No fim, é uma espécie de penitência partilhada.

Porque, no fundo, no fundo, ele merece-nos.

E nós a ele.

23/11/2010

QUERIDO PAI NATAL

Filed under: José Sócrates, Politica Portuguesa — ABM @ 4:22 pm

por ABM (23 de Novembro de 2010)


O meu amigo Zé Manel mandou-me esta mensagem, que a esta hora percorre as redes de amigos na internet:

Meu Querido Pai Natal

Neste último ano o Pai Natal levou o meu cantor e dançarino preferido, o Michael Jackson, o meu actor preferido, Pactrick Swayze, e também a minha actriz preferida, Farrah Fawcett.

Quero lembrar ao Pai Natal este ano que o meu político preferido é o Engenheiro José Sócrates.

Obrigado Pai Natal.

Zézinho

10/11/2010

JUROS DA DÍVIDA PORTUGUESA A SETE POR CENTO

por ABM (11 de Novembro de 2010)

A canção acima, dedico ao Manuel Petrakakis, do Restaurante da Costa do Sol, como eu apreciador de Frank.

O título, a José Sócrates.

27/10/2010

FUMO NEGRO NA CHAMINÉ

Fumo negro a sair da chaminé da Capela Sistina no Vaticano: ainda não há Papa. Em Lisboa, não há acordo quanto ao orçamento para 2011.

por ABM (27 de Outubro de 2010)

Depois de cinco dias de negociações à porta fechada entre duas equipas representando o PS de José Sócrates e o PSD de Pedro Coelho, um agitado Eduardo Catroga, que liderava a equipa do PSD, apareceu na televisão portuguesa ao vivo às 11 horas da manhã de hoje (hora de Lisboa) com uma longa, longa, longa diatribe, tentando explicar em detalhe minucioso afinal o que se passou lá dentro na mesa das negociações.

Da sua descrição, aquilo foi uma “barraca” desde o primeiro momento, uma confrontação entre um suspeito desassambramento dos PSD’s e o já habitual orçamentismo cha cha cha cor de rosa dos PS’s.

A conclusão de Catroga: o PSD não detectou no PS a vontade política de chegar a um acordo, especialmente no que concerne a cortes nas despesas.

Falta ouvir a choradeira do PS e entender se o PSD vai ou não vai vetar a proposta de orçamento.

A situação, assim, agrava-se e sobe mais a pressão sobre Portugal. Nos mercados internacionais hoje vai ser uma festa. Estejam atentos aos impactos.

Não posso deixar de salientar a gravidade do que aqui se está a passar. Isto é mau, mau, mau, muito mau.

Poderei voltar ao assunto em adenda, pois o filme de hoje ainda não acabou. No jogo comunicacional, o PSD ganhou um ponto por aparecer primeiro na televisão a apontar o dedo. Mas falta ouvir os raciocínios dos senhores do PS.

15/10/2010

SÓCRATES REVISITADO

Filed under: Economia Portuguesa, José Sócrates, Politica Portuguesa — ABM @ 12:01 am

http://www.youtube.com/v/BDwSzZAYRMU?fs=1&hl=pt_PT

por ABM (14 de Outubro de 2010)

Para quem não se lembra, compilado creio pelos senhores do 31 da Armada, uns amigos do nosso Senador, alguns momentos que vale a pena recordar, para referência futura.

10/10/2010

AO VIVO, DE MAPUTO, É O PROF. MARCELO !!

Mais uma Conversa em Família de Marcelo

por ABM (10 de Outubro de 2010)

Marcelo Rebelo de Sousa, filho de Baltazar, diz que gosta de estar em Maputo, que adora Moçambique, a que chama a sua segunda pátria (pois alguns saberão o que isso é), país onde o ano e tal em que o seu pai esteve como Governador-Geral entre 68 e 70 deixou memórias cor de rosa.

Pena é que a seguir a 1970 mais uma vez nada aconteceu, quase nada fez e quase nada foi feito, preparando-se assim o estágio para uma Independência atribulada e a martelo.

Estando esta noite na capital moçambicana por razões profissionais (é professor universitário e está lá a fazer qualquer coisa de académico), instalado num estúdio um tanto asfixiante da RTP, de lá fez a sua aparição semanal no noticiário da luso-espanhola Televisão Independente (aka TVI) que difunde em Portugal, pedindo um número de vezes desculpa por ter que dizer o que tinha para dizer do “estrangeiro” – para os portugueses, claro, já que ele estava na sua segunda pátria.

Como se fizesse alguma diferença.

Depois de mais uma daquelas entrevistas de crítica soft dada pelo Mia (que descreveu como “o papa das letras moçambicanas” – please) em relação ao que se passa em Maputo e arredores, e em que diplomaticamente não pegou num único ponto do que foi abordado quanto à actual situação moçambicana, Marcelo de seguida disparou quase inesperadamente para um quase demasiadamente longo e algo lancinante solilóquio sobre as próximas duas semanas políticas portuguesas, em que – avisou – se não houvesse um orçamento aprovado no parlçamento português no dia 29 de Outubro, que tal seria quase o fim da Grande Macaca em Portugal.

E fez a lista, como se a gente não soubesse já: que os credores internacionais cortariam o crédito à república e aos bancos portugueses, que o rating soberano português passaria de caca da vaca para junk de boi, e que a partir daí haveria uma governação por duodécimos, que não permitira fazer-se nada até Maio de 2011, a data mais próxima a partir da qual, constitucionalmente, poderão ser convocadas eleições parlamentares. Havendo pelo meio uma eleição presidencial, o que só adicionaria mais à confusão.

A sua conclusão era simples mas não sei se entendi bem: Marcelo, que é suposto ser um histórico do PSD, fez um daqueles apelos de “estadista” a José Sócrates para que se entendesse com Passos Coelho.

Tudo bem até aqui.

Mas a seguir usa o mesmo palanquim para dizer a Pedro Passos Coelho, o líder do seu próprio partido a última vez que olhei, que se entendesse com o PS de José Sócrates no sentido de viabilizar o orçamento para 2011, nem que para tal (mas será que entendi mesmo bem?) Pedro Passos Coelho tivesse que engolir mais uma vez uma solene e pública promessa, talvez feita irreflectidamente aos seus acólitos, de que não permitiria aumentos em impostos – em nome do interesse superior da Nação no sentido de evitar o descalabro imediato.

Se Marcelo, ao vivo e encavalitado com Mia em Maputo no estúdio da RTP, tivesse avisado Sócrates para alinhar com Passos Coelho e com o PSD, eu facilmente entenderia.

Ele é do PSD e compete-lhe realçar as falhas do PS.

Mas mandar um recado a Passos Coelho e ao PSD para alinhar com Sócrates?

Tirando o lado lúdico da questão, o que é que afinal Marcelo sabe que o resto de nós não sabe?

Numa altura que me parece de crescentes dificuldades, crescente indefinição, crescentes tensões, algumas delas ainda por cima causadas por quem está no poder há quase 15 anos seguidos e por uma dispensa constitucional que, estupidamente, não prevê um descalabro político durante quase seis meses (na verdade Cavaco pode resolver o problema em três tempos nomeando um qualquer para gerir o governo, é o que diz a constituição portuguesa), Marcelo sugere que ao líder do seu partido, o PSD, viabilize o programa do PS?

Assim só e sem mais nada?

Ao vivo, de Maputo, com Mia ao lado?

Sem mais detalhes?

Entendam-se e aprovem o orçamento?

Sugere que passemos agora a ter, efectivamente, um governo “PS-D”?

Pedro Passos Sócrates

Mas então, se é assim, se não há opções, se não há escolha, se não há consequências em relação aos princípios que os políticos são supostos defender, se é uma questão de aprovar as coisas sem reflexão do que o eleitorado transmite aos mandatados, então para quê ligar à política?

Às vezes o sistema político português parace-me mais ser aquela série televisiva americana:

Twilight Zone.

Twilight Cavaco

05/10/2010

AS COISAS IMPORTANTES NA VIDA

por ABM (5 de Outubro de 2010)

A Standard & Poors, uma dessas nefastas agências internacionais de rating que andam a tentar destruir o Estado Social de José Sócrates, uns dias apenas depois de anunciadas as mais draconianas medidas para pagar as dívidas e os devaneios dos últimos vinte anos, informou que, apesar de estimar que o Produto Interno Bruto de Portugal em 2011 vá baixar pelo menos 1.8 por cento (nota: se a inflação for 3 por cento isto significa uma perda de poder de compra de entre 5 e 15 por cento para o português da classe média – num ano apenas) que não tem a certeza se as medidas agora anunciadas vão ser suficientes para estancar a loucura nas finanças públicas e privadas.

Numa entrevista à RTP em tempo nobre, José Sócrates, como já é costume, e já fez antes várias vezes, jurou a pés juntos que o que anunciou é mais do que suficiente e que agora é que o seu país está no caminho certo.

Está-se a formar a perfeita tempestade económica portuguesa.

Em Moçambique chamam a isto o advento da altura do repolho e do carapau.

E sendo assim esta é a altura de todos reunirmos esforços, de darmos as mãos e de nos concentrarmos nas coisas simples (e favoritas) da vida. Preferencialmente as mais baratas. Como diz a música em cima, dos fabulosos Portuguese Catita Brothers, adaptada do inesquecível Música no Coração.

Pois o mal já está feito e pelos vistos nada nem ninguém se consegue livrar do homem.

Agora é lutar e aguentar.

01/10/2010

OS PECS DE JOSÉ SÓCRATES

Filed under: Economia Portuguesa, José Sócrates — ABM @ 2:06 am
arnaldo

Os dois pecs do Arnaldo Schuártzenegro

por ABM (30 de Setembro de 2010)

Para que fique registado e para futura referência, pois daqui a meia dúzia de semanas já ninguém se lembra, aqui se deixa, cortesia do Jornal de Negócios de hoje, publicado em Lisboa, o que o actual governo português disse ontem que gostaria fazer com os contribuintes portugueses no ano fiscal de 2011, e a que cá chamam o PEC 3 (daí o título desta nota).

Em inglês, o termo pec é uma abreviatura e calão para a palavra pectoral, significando “peito” (vide imagem acima do Arnaldo). Mas aqui na terra dos signatários do Acordo Ortográfico, é uma sigla: “PEC” significa “Plano de Estabilidade e Crescimento”, termo cunhado em tempos nas catacumbas marketeiras do PS, provavelmente para dar um nome mais sonante e vagamente dinâmico ao orçamento do governo português.

Pois um orçamento qualquer um faz. A minha mãe BM, que tinha a 4ª classe, portanto ligeiramente menos que o Sr. Engenheiro, e que durante anos foi dona de casa e criou oito filhos, sabia perfeitamente fazer um orçamento.

Mas -ah- não é qualquer um que faz um Plano de Estabilidade e Crescimento. Dito assim, a coisa soa muito menos que um vulgar orçamento com custos e receitas. É uma expressão aspiracional, inspiracional, tranquilizadora, que denota optimismo, carácter, foco, dedicação, objectivos.

É outra loiça.

Já não é débitos e créditos. Custos e receitas. Impostos e despesa.

É um mapa metafórico, catártico e metafísico, para juntos os portugueses passarem da existencial, fedorenta, presente merdeur, para o mais etéreo Xangri-lá da República Socialista: afirmar o Estado Social, sugerindo subliminarmente que não vão o desgraçado povo e a periclitante classe média ter que pagar os pretéritos desvarios: serão os ricos, as empresas, os bancos (!). Os outros.

Pois.

O problema é que, neste momento, sendo que todos já se perceberam que economicamente se está à beira de uma bomba económica (para não dizer social), sendo este o terceiro “plano” em menos de oito meses, e dado a seu impacto (aparenta que todos vão pagar) isto não é, por definição, um plano.

Pelas mesmas razões, reflecte tudo menos “estabilidade”.

A não ser que se considere que o Titanic se afundou estavelmente na noite de 15 de Abril de 1912.

E quanto ao crescimento……alguém estava a delirar, não?

Mas com o uso do termo, sempre fica o residual. O residualzinho. Aquela vaga ideia de que, afinal, há visão e método na loucura.

E certamente há. E haverá.

Pelo menos até se chegar ao PEC 4.

Então vamos lá ao texto (com vénia) do JNeg:

O PEC PEC PEC

Das 19 medidas apresentadas, 15 são do lado da despesa e as restantes quatro do lado da receita.

Despesa

1 – Reduzir os salários dos órgãos de soberania e da Administração Pública, incluindo institutos públicos, entidades reguladoras e empresas públicas. Esta redução é progressiva e abrangerá apenas as remunerações totais acima de 1500 euros/mês. Incidirá sobre o total de salários e todas as remunerações acessórias dos trabalhadores, independentemente da natureza do seu vínculo. Com a aplicação de um sistema progressivo de taxas de redução a partir daquele limiar, obter-se-á uma redução global de 5% nas remunerações [nota – a redução global significa que há aqui gente que vai levar com um corte de 10 por cento no seu salário];

2 – Congelar [todas] as pensões;

3 – Congelar [todas] as promoções e progressões na função pública;

4 -Congelar [todas] as admissões e reduzir o número de contratados;

5 – Reduzir as ajudas de custo, horas extraordinárias e acumulação de funções, eliminando a acumulação de vencimentos públicos com pensões do sistema público de aposentação;

6 – Reduzir as despesas no âmbito do Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente com medicamentos e meios complementares de diagnóstico;

7 – Reduzir os encargos da ADSE;

8 – Reduzir em 20% as despesas com o Rendimento Social de Inserção;

9 – Eliminar o aumento extraordinário de 25% do abono de família nos 1º e 2º escalões e eliminar os 4º e 5º escalões desta prestação;

10 – Reduzir as transferências do Estado para o Ensino e sub-sectores da Administração: Autarquias e Regiões Autónomas, Serviços e Fundos Autónomos;

11 – Reduzir as despesas no âmbito do Programa de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Administração Central (PIDDAC);

12 – Reduzir as despesas com indemnizações compensatórias e subsídios às empresas;

13 – Reduzir em 20% as despesas com a frota automóvel do Estado;

14 – Extinguir/fundir organismos da Administração Pública directa e indirecta;

15 – Reorganizar e racionalizar o Sector Empresarial do Estado reduzindo o número de entidades e o número de cargos dirigentes.

Receita

1 – Redução da despesa fiscal

Revisão das deduções à colecta do IRS (já previsto no PEC);
Revisão dos benefícios fiscais para pessoas colectivas;
Convergência da tributação dos rendimentos da categoria H com regime de tributação da categoria A (já previsto no PEC);

2 – Aumento da receita fiscal

Aumento da taxa normal do IVA em 2 por cento [para 23%].;
Revisão das tabelas anexas ao Código do IVA;
Imposição de uma contribuição ao sistema financeiro em linha com a iniciativa em curso no seio da União Europeia;

3 – Aumento da receita contributiva

Aumento em 1 por cento da contribuição dos trabalhadores para a Caixa Geral de Aposentações, alinhando com a taxa de contribuição para a Segurança Social.
Código contributivo (já previsto no PEC).

4 – Aumento de outra receita não fiscal

Revisão geral do sistema de taxas, multas e penalidades no sentido da actualização dos seus valores e do reforço da sua fundamentação jurídico-económica.
Outras receitas não fiscais previsíveis resultantes de concessões várias: jogos, explorações hídricas e telecomunicações.

Nota: após começar a ser disseminado o conteúdo do “plano”, os mercados internacionais reagiram violentamente, baixando hoje o preço que exigem pela dívida portuguesa (prazo dez anos) de uns estonteantes 6.7% para uns fantásticos…6.4%. Como referência, pela venda da sua dívida, a Alemanha paga neste momento 2%. Aos 4.6% de diferença chama-se “o factor PEC3”.

30/09/2010

A RECESSÃO A CORES E EM 3D

3d

Coloque os óculos: chegou o PEC 3-D

por ABM (29 de Setembro de 2010)

Dramaticamente pré-anunciado à nação portuguesa durante o decorrer do dia de hoje, exactamente às 20 horas a face de José Sócrates surgiu ao vivo em quase todos os televisores portugueses, com uma barra por baixo a avisar (no canal em que assisti à prelecção) “primeiro ministro anuncia medidas de austeridade”.

Como entrada, José Sócrates colocou a temática de forma nada menos que apocalíptica, afirmando que o que está em causa neste momento difícil da nação era defender o “nosso” modelo de sociedade – um americano diria que era o portuguese way of life. Um socialista estes dias chama-lhe o Estado Social.

E leu a lista, de que escrevinhei as seguintes notas:

Nos custos:

1. forte redução de toda a despesa pública
a. corte de 5% nos salários públicos de forma progressiva a partir dos 1500 euros/mês
b. congelamento das ajudas de custo e despesas automóveis
c. congelamento dos programas de investimento
d. congelamento dos valores das pensões
e. etc

2. Esta dieta estatal a ser complementada com uma “melhoria da receita” (adoro estas nuances linguísticas):

a. criar um tecto nos já miserandos benefícios fiscais
b. 2% aumento do Iva para 23%
c. alterar das tabelas fiscais para sacar mais um pouquinho aqui e ali
d. aumentar os custos com tudo e mais alguma coisa que uma pessoa possa ter que exigir da máquina administrativa estatal, incluindo as taxas de justiça, o que significa que só os ricos e os pobres a ela poderão recorrer, uns porque são ricos, os outros porque paga o erário público;
e. lançar um novo imposto sobre o sector financeiro

As minhas conclusões preliminares em relação ao que foi anunciado:

1. Com estas medidas confirma-se a lei do pêndulo orçamental-fiscal português: a seguir à bebedeira dos últimos anos, vem a ressaca.
2. A partir de 2011, os portugueses passam a ganhar como Marroquinos, mas a pagar impostos como se fossem Suecos
3. Com esta medida, o PS de Sócrates puxou efectivamente o tapete por debaixo do PSD de Passos Coelhos, que se vai ver grego para inventar algum protagonismo.
4. Só que desconfio que esta história do corte na despesa seja treta. Não acredito que vá acontecer. O PS é pródigo nisso.
5. Muito possivelmente, Portugal vai entrar novamente em recessão e em estagnação. Anda nisto há quinze anos.
6. As taxas de desemprego e sub-emprego vão subir mais.
7. A economia paralela vai aumentar e a corrupção vai voltar.
8. A inflação vai subir e derreter o dinheiro das pessoas.
9. Mais grave que tudo, continua a não haver uma visão de como este país se vai desenvolver nos próximos vinte anos, o que, se se contar com os trinta e cinco anos desde a revolta, a descolonização e a imposição da democracia,, vai totalizar 50 anos de andar à deriva.
10. Quem puder, que emigre. Para muita gente, isto de Portugal pode mesmo não valer a pena. Tipo chão que deu uvas. Se tivesse menos que 55 anos, era pedido de visto para a Austrália, o Brasil ou o Canadá. África, não nos querem lá.
11. Rezemos fervorosamente que amanhã de manhã os mercados internacionais e os parceiros achem que isto chega. Pois senão é que a coisa vai ficar mesmo, mesmo, mal.
12. Tudo isto torna este num momento verdadeiramente mágico e especial para assinalar 100 anos de regime republicano em Portugal. Os poucos monárquicos que sobram devem andar a rebolar no chão a rir.

E assim está formalmente inaugurada a fase do começo da pior parte da maior queda económica portuguesa em 80 anos. É altura do exmo. Leitor colocar os seus óculos 3D e olhar para a frente.

Mais sobre este assunto amanhã.

26/09/2010

OU MÁI GÓDE

por ABM (25 de Setembro de 2010)

Peça da estação de televisão portuguesa SIC (sic) sobre a visita de José Sócrates, o actual primeiro-ministro de Portugal,à cidade de Nova Iorque, creio que ontem.

E as suas declarações.

Para quem sabe inglês: sem comentários.

Melhor exemplo (influências do novo acordo ortográfico?):

em português: “as receitas”
em inglês socratiano: “the receipts”

Iu nôu uót ái mine.

10/05/2010

ESTOU CHOCADO, CHOCADO

Filed under: José Sócrates, Politica Portuguesa, Sociedade portuguesa — ABM @ 8:48 pm

http://www.youtube.com/v/pYWSudD21cE&hl=pt_PT&fs=1&

por ABM (10 de Maio de 2010)

Estou chocado, chocado, chocado, com as alegações de que Rui Pedro Soares, o mercurial ascendente-descendente administrador da Portugal Telecom, juntamente com Armando Vara no centro do tal não evento da não-compra da estação de televisão TVI pela PT no ano passado, uns meses antes da eleição parlamentar portuguesa, é sobrinho de Mário Soares.

Poderá ser que ele afinal tenha vastos talentos que a razão desconheça.

Para inspiração, apresento um vídeozito musical que nos vem dos Brasis. A tal de deputada Cidinha parece que não é sobrinha de ninguém.

E agora uma inside story maschambiana: o que se calhar ninguém se lembra foi quando Rui Pedro Soares era pessoa quase totalmente anónima e desconhecida e vivia quietinho num apartamento nas Torres Vermelhas em Maputo, há uns quinze anos.

Pois é.

18/03/2010

COMO DISSE?

Filed under: José Sócrates, Politicamente Correcto — ABM @ 3:05 am

http://www.youtube.com/v/iJEmL-75Tc8&hl=en_GB&fs=1&

por ABM (19 de Março de 2010)

Lapso freudiano?
forças ocultas?
distracção?
conspiração?
oposição?
sentido de humor?
liberdade de expressão?
atentado ao estado de direito?
ou será apenas que o fulano das apresentações passou-se?

E quem inventou esta mirabulância de uma iniciativa energética para Portugal fosse rotulada com a sigla “re new able”? re, new, able?? “a inspirar Portugal”?

19/02/2010

GRANDES DISCURSOS DA HISTÓRIA

Filed under: EUA, José Sócrates, Politica Portuguesa — ABM @ 6:21 pm

por ABM (Alcoentre, 19 de Fevereiro de 2010)

O “Prémio Maschamba 2010” para os melhores excertos de discursos feitos por grandes líderes mundiais nos últimos 50 anos vai para o último discurso.


JOHN FITZGERALD KENNEDY, 27 de Janeiro de 1961

(dirigido aos jornalistas e à imprensa em Washington. Kennedy foi assassinado em 22 de Novembro de 1963)

http://www.youtube.com/v/xhZk8ronces&hl=en_US&fs=1&


RICHARD MILHOUSE NIXON, 17 de Novembro de 1973

(defendendo-se em relação ao escândalo de Watergate. Nixon demitiu-se da presidência dos EUA em 9 de Agosto de 1974)

http://www.youtube.com/v/sh163n1lJ4M&hl=en_US&fs=1&

BILL CLINTON, 26 de Janeiro de 1998

(defendendo-se de acusações de que teria tido relações sexuais na Casa Branca com uma jovem de 25 anos, Monica Lewinski. Apesar do desgaste, concluiu o segundo mandato)

http://www.youtube.com/v/nP5FunbZvJ8&hl=en_US&fs=1&

JOSÉ SÓCRATES, 18 de Fevereiro de 2010

(defendendo-se de persistentes indícios, baseados em gravações captadas pela polícia, de que engendrou uma conspiração contra meios de comunicação social portugueses para eliminar opiniões contrárias às suas)

http://tv1.rtp.pt/noticias/player.swf?image=http://img.rtp.pt/icm/noticias/images/8e/8ea3658818203ddaf479e69df9ca60fa_N.jpg&streamer=rtmp://video2.rtp.pt/flv/RTPFiles&file=/informacao/socras_50540.flv

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