THE DELAGOA BAY REVIEW

12/03/2012

CAVACO SILVA – REFLEXÃO SOBRE UM PRESIDENTE EM FIM DE MANDATO

Aníbal Cavaco Silva, numa re-interpretação fotogáfica minha. Na verdade, estive a testar um programa que é suposto pintar fotografias a preto e branco e o resultado foi este. Serve para ilustrar o que tenho para dizer em baixo.

Os norte-americanos têm um nome para os presidentes durante o final do seu segundo mandato: lame duck . Que em português quer dizer qualquer coisa como “pato mole”. O termo é suposto traduzir a incapacidade do presidente, a partir de certo ponto do seu segundo e último mandato de quatro anos (em Portugal é cinco) de conseguir, ou até de ter legitimidade para, tentar tomar certas iniciativas, legislativas ou outras, especialmente após o seu sucessor ter sido escolhido.

Portugal não segue bem estes rituais, em parte porque os seus presidentes, dada a natureza parlamentar dos sucessivos regimes republicanos e o seu incestuoso alinhamento com os poderes “moderadores” da monarquia a partir da segunda metade do Século XIX, não mandam: “presidem”.

E presidir vale o que vale, dependendo muito de quem desempenha o cargo, das circunstâncias e, até certo ponto, do que diz aquela obra de rendilhados socialisto-democráticos que é a actual constituição.

Em princípio, formalmente, um presidente português pode fazer pouco em relação a um governo que não lhe presta vassalagem. Pode vetar as leis mas logo a seguir é fintado numa segunda votação. Pode mandar fazer algo eufemisticamente chamado “fiscalização preventiva da legislação”, que é uma forma muito portuga de mostrar que não acha piada ao que lhe é metido à frente para assinar mas que, à falta de melhor, manda para os senhores do Tribunal Constitucional dizerem de sua justiça. O resultado disso vai depender de se o douto tribunal está cheio de amigos, povoado de constitucionalistas convictos, ou se de facto o governo do dia é tão idiota que elabora leis inconstitucionais. A realidade tende a ser uma mistura das três.

Uma das formas muito populares de um presidente português tentar influenciar a agenda política nacional é ir à televisão e mandar papos. Os mandatos de Mário Soares só são memoráveis por isso e por ele agir como se fosse um monarca, fazendo “presidências abertas”. A imprensa, sem mais que fazer, ia a reboque.

Sendo que os portugueses actualmente seguem a política com base nos primeiros doze minutos e meio dos telejornais das televisões, que habitualmente ajem como se estivessem quase sincronizadas naquilo que sai nesses preciosos minutos. As máquinas partidárias e a entourage presidencial já sabem o suficiente para manipularem as coisas de forma a que a declaraçãozinha com a bombinha seja feita a tempo do vídeo voltar para a estação de televisão, ser tratado, editado, analisado e comentado, para sair como um acto político de significado “presidencial” às 20 horas, a hora tardia em que parece que a maioria dos portugueses assiste impávida aos noticiários, presume-se que sentada na mesa de jantar e com a colher de sopa na boca.

Nestas questões da comunicação política, os portugueses são ajudantes de ajudantes de amadores se comparados com o que se passa nos Estados Unidos, realidade que conheci e acompanho. Mas o PS de José Sócrates, ainda que duma forma mafiosa e aparolada, chegou perto de um grau elevado na arte da feitiçaria comunicacional. Houve dias em que eu pensava que os alinhamentos das notícias eram feitos num gabinete em São Bento pelos seus assessores (continuo a achar que foram). Por mais que uma vez, despediram jornalistas, puseram jornais e televisões em alvoroço, encostaram a Procuradoria Geral da República e a Polícia Judiciária à parede, numa curiosa versão berlusconorrasca da democracia.

Tudo isto nos traz ao Prof. Aníbal Cavaco Silva e a esta semana.

Aníbal Cavaco Silva é um pequeno puzzle comunicacional. Tem zero de charme e ainda menos presença. Não tem quase jeito nenhum para comunicar. Mas eu suspeito que, paradoxalmente, a sua índole, tal como a do actual ministro português das finanças, faz o gosto de muitos portugueses precisamente por causa disso: tirando Mário Soares, que se desenvolve muito bem em frente e atrás das câmaras e à sua maneira engana gregos e troianos enquanto faz o que lhe apetece, praticamente todos os líderes portugueses de renome eram de uma ineficácia comunicacional absolutamente atroz, a começar por António de Oliveira Salazar, que falava sentado a olhar com os óculos para os papéis, que governava por decreto pessoal fechado no seu gabinete à tarde (com algum apoio de Pides, GNR e companhia) e que tinha uma voz que mais parecia o Pato Donaldo. Sintomático é que este ditador durante quatro décadas e que mal aparecia na rua é por muitos admirado e considerado o Português do Milénio.

Têm em comum terem sido estudantes com boas notas de famílias rurais sem grandes recursos, tornados professores universitários com cátedra e falsos modestos – “anti-políticos” – assunto que por si só dava para escrever mais um artigo.

Ramalho Eanes era mais ou menos a mesma coisa, mas uma versão militarizada e não académica. Rígido, militarista, formal, anal-retentivo, distante, usando fatos baratos, falava com um tom de voz que parecia sempre que estava a pregar um ralhete a quem o estivesse a ouvir. Foi um herói subestimado que em 1975 afastou Portugal do caos comunista da troika Cunhal-Costa Gomes-Vasco Gonçalves, presidiu a tempos muitos difíceis e fez um bom trabalho dadas as circunstâncias, mas em termos comunicacionais parecia que ele, e o seu país, estavam noutro planeta.

Jorge Sampaio parecia-se um pouco mais com Mário Soares mas sem o mesmo talento e aparentando estar sempre à beira de um ataque de nervos. Socialista, presidiu ao gradual e inexorável afundamento do seu país sem parecer dar minimamente por isso, usando uma vez uma raramente utilizada prerrogativa presidencial para expelir Pedro Santana Lopes (e o PSD) do cargo de primeiro-ministro e no seu lugar instalar, por puro acaso da oportunidade (na altura rolaram mais do que uma cabeça nas chefias dos partidos) um então obscuro ex-ministro socialista do Ambiente do qual não se sabia ao certo se tinha ou não um curso, se tinha ou não recebido luvas por causa de um centro comercial na outra margem do Tejo, se sabia o que ia fazer ou não, se sabia falar inglês técnico ou não (não sabia).

O seu nome era José Sócrates.

Quando foi eleito presidente, em parte pela habitual falha no grau de abertura do regime actual (eleger-se um Obama em Portugal é uma impossibilidade matemática), em parte resultado de uma doentia propensidade para se apostar nos habituais profissionais políticos senatoriais, bem oleados e conectados, Aníbal Cavaco Silva era suposto ajudar, de alguma forma, a contrariar, ou pelo menos atenuar, os efeitos da então “avalanche socialista”.

As alternativas na eleição de então eram más demais para contemplar, o que facilitou a sua escolha.

Havia em muita gente a impressão que, depois do assassínio de Sá Carneiro, Cavaco encaminhara o PSD e Portugal. Hoje sabe-se que não foi nada disto, mas enfim.

Na altura, o Partido Socialista detinha uma maioria absoluta, que bisou em 2009, aumentando vergonhosa, imoral e fraudulentamente os salários dos funcionários públicos e criminosamente gastando o que já se sabia era totalmente incomportável para os contribuintes. A maioria do eleitorado, estupidificado, seguiu-o.

Mas o que Cavaco fez após ter sido eleito não foi equilibrar coisa nenhuma. Erradamente, foi à televisão e disse que iria cooperar piosa, discreta e pacificamente com o governo de José Sócrates, sabendo-se que pretendia exercer a sua putativa influência (que era, como se pode aferir, zero) nos bastidores, a partir da velha residência de D. Carlos e Dona Amélia na Freguesia de Santa Maria de Belém.

Sorrateiro, José Sócrates fez os habituais gestos conciliatórios em prime time mas de facto marimbou-se completamente no presidente, que, complexado por natureza, nem sequer sabia bem como reagir, e literalmente fez o que lhe apetecia e com quem lhe apetecia.

E, em jogos de bastidores, e na comunicação social, Sócrates batia Belém dez a zero.

A oportunidade para a vingança de Cavaco Silva surgiu imprevisível e veio de fora, quando, resultado de um acto de loucura premeditada, as autoridades nos EUA deixaram o banco norte-americano Lehman Brothers falir no início do Outono de 2008.  No espaço de um ano, Sócrates, idiota como sempre foi (o qualificativo é retrospectivo, na altura apenas se suspeitava) apressou a falência da República e o fim do Estado Socialista, pois não se pode ir gastando cada vez mais e ir aumentando os impostos com nomes pomposos, se orwellianos (lembram-se dos “Planos de Estabilidade e Crescimento”? “Novas Oportunidades”? “Rendimento Social Garantido”? “Plano Tecnológico”? please…) e não esperar que a bomba não exploda.

A bomba explodiu, e de que maneira, em Abril-Maio de 2011, quando uns telefonemas urgentes de Londres e Bruxelas avisavam que a falência do estado português estava por semanas, ou mesmo dias. Os chefes dos bancos privados até foram às televisões, suando e piscando o olho aflito para quem percebesse, que a coisa estava por dias. Concretamente, se os bancos não conseguissem assegurar a sua liquidez, faliriam em dias, precipitando uma crise económica e financeira de proporções inimagináveis. Já então, como desde então, Portugal vivia de balões de oxigénio concedidos avulsamente pelo Banco Central Europeu. Nessa altura, a pouca vergonha que foi, e é, a fraude criminosa do BPN e a falência inexplicada do BPP, já decorriam alegremente, com milhares de milhões de euros dos contribuintes a fluir sabe-se lá para onde, para quê e porquê. Burros, os jornalistas não conseguiam, ou não queriam, explicar.

Pedro Passos Coelho, então um obscuro produto da máquina do PSD, sem qualquer experiência de governação e com o mesmo tipo de CV extremamente duvidável que José Sócrates, mas com mais juízo e mais bem assessorado, fez a sua jogada.

Como lhe competia, escondendo o seu alívio na pompa presidencial e no seu feitio professorial introspectivo, Cavaco Silva convocou novas eleições. O PSD venceu com uma maioria absoluta cozinhada com Paulo Portas (que se tornou na Hillary Clinton portuguesa, salvo seja) e Sócrates exilou-se em Paris, mantendo os telemóveis de Portugal em roaming.

E aqui estamos nós, nove meses depois disso, em que, pela primeira vez em cento e vinte anos o país está falido (e a piorar em cada dia que passa) e pela primeira vez na Terceira República há uma maioria idologicamente alinhada em termos de governo, parlamento e presidente e expeditamente já se assinou um termo de dívida inexequível e se começou, em vez de cobrar impostos, a extorqui-los alegremente.

Neste contexto, qual tem sido o desempenho do Prof. Cavaco Silva?

Numa curta palavra: medíocre.

Ele bem tenta fazer alguma coisa. Mas não consegue. Não se consegue perceber o que é que ele anda a fazer e a dizer, nem porque é que ele diz o que diz quando o diz.

Diz que quer consolar e encorajar os portugueses a enfrentar os demónios soltos por José Sócrates e o Estado Socialista (que em boa parte ele, Cavaco, criou) mas depois faz afirmações desconexas e estupidificantes sobre a sua reforma milionária, as suas mais valias milionárias no BPN, as explicações mais obtusas sobre como comprou um palacete de mais que um milhão de euros no Algarve via uma troca da sua prévia, muito mais modesta casota, a sua dificuldade, vivendo ofuscadamente num palácio à custa do erário público e com nada menos que três reformas milionárias, em pagar as suas contas pessoais. Numa ocasião referiu que devemos estar caladinhos e não comentar as agências (americanas, ainda por cima!) de rating, uns meses depois diz precisamente o contrário.

Ele, que é um retrato fiel e acabado do que significa ser um político profissional no Portugal moderno, passa a vida a querer sugerir que não o é. Diz que não: que foi técnico no Banco de Portugal e Professor universitário (pois, tem as reformas milionárias para o demonstrar). E que só está na política para servir os portugueses. Claro Aníbal, we believe you. Pior, tenta ir mais longe ao querer protagonizar-se como um anti-político, sabendo que as sondagens indicam que o eleitorado está farto deles todos até à ponta dos cabelos.

Ele, que agora é suposto estar alinhado ideologicamente com quem manda, não se importa de enviar repetidos sinais no sinal contrário, colocando em cheque as medidas draconianas que estão sendo postas em vigor para evitar a todo o custo o percurso grego (e para tal, não basta dizê-lo repetidamente). Passos Coelho e os seus correligionários mais do que uma vez devem ter ficado a meditar se este presidente está do lado deles ou contra eles.

Ele, que aparenta não ter equipa de comunicação a assessorá-lo, pelo menos uma capaz, não dá conferências de imprensa ou comunica eficazmente o que tem para dizer, limitando-se a fazer o que parecem declarações de improviso, à porta de um sítio qualquer que vai inaugurar ou visitar, invariavelmente dizendo coisas em que não batem a bota com a perdigota, em vez do que se presume ser o que devia estar a dizer e fazer estes dias: apoiar os esforços do governo e principalmente dos portugueses nesta fase infame das suas vidas.

A semana passada, intestinalmente, a propósito de uma obscura publicação qualquer que praticamente ninguém lê, tudo indica que fez o que comentadores referem como um ajuste de contas a posteriori com o politicamente defunto José Sócrates. Diz-se traído por este – até institucionalmente! Touché. Só foi relevante por ter saído agora e por ter sido basicamente um disparate – mais um. Se não se dava com ele, tivesse-o dito na altura, despedisse-o, não é agora que se aceita que venha registar as suas incapacidades publicamente. Pior, dá um ar infeliz de tó-tó presidencial, ter-se submetido às sevícias de Sócrates sem nada fazer e nada dizer quando podia e devia tê-lo feito.

Ou isto fazia parte da gestão discreta da sua influência?

A passada semana assinalou também o fim do primeiro dos cinco anos deste segundo mandato do Prof. Cavaco Silva.

O lugar dele, prerrogativas e dispensações constitucionais aparte, é em boa parte aquilo que ele fizer dele (do lugar). Do que se viu do primeiro ano, os receios inerentes quanto ao que ele possa dizer e fazer nos próximos quatro anos, não deixam muita margem para conforto, sendo que o caminho a seguir é relativamente claro: o imperativo económico manter-se-á, e reza-se que do súbito empobrecimento nacional, da venda a retalho do que resta de uma soberania que levou mil anos a construir, não resulte o caos social.

Neste contexto, o que pode fazer um presidente português?

Muita coisa, mas nada do que Cavaco tem andado a fazer há um ano seguido.

Portugal já vive uma emergência, não precisa de ter alguém no cargo presidencial que parece não saber quando usar o fósforo para atear o fogo, ou um balde para o apagar.

Entretanto, num outro registo, Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa e António Vitorino pré-posicionam-se para o sucederem. O mero facto de já andarem a contar espingardas assinala o próximo estatuto de Cavaco Silva como pato mole.

25/01/2011

A CRISE PODE PROSSEGUIR AGORA

O actual presidente, treinando em Lourenço Marques, Moçambique, 1965.

 

Após a quase agonizante fase de espera para tirar isto das presidenciais da agenda, lá se procedeu ao ritual da eleição, num domingo com um frio e vento de rachar. Metade do eleitorado ficou em casa, talvez para poupar na gasolina, que está a 1 euro e 67 cêntimos o litro. Uma parte também não saíu de casa porque não tinha maneira de saber onde é que iria votar (eu falhei por uma nesga).  No fim, 23 por cento do eleitorado, ou 54 por cento dos que se incomodaram a votar, elegeu Aníbal Cavaco Silva para mais um mandato.

As surpresas:

1. O tamanho da sova eleitoral que Manuel Alegre levou. Talvez seja desta que ele desaparece de vez da política portuguesa.

2. O tamanho do voto do Dr. Fernando Nobre. Metade protesto, metade simpatia pela sua pessoa, presumo.

3. O grau de ressabianço de um dos candidatos perdedores, que, por ter tido direito a menos de um por cento dos votos, não tem direito a ser mencionado aqui.

4. O maior grau de ressabianço de Cavaco Silva no seu discurso protocolar de vitória. Parece que ficou mesmo chateado com os belisques à sua reputação. Andam muito sensíveis, os nossos políticos.

5. A sensação com que fiquei, ao vê-lo falar, de que Marcelo Rebelo de Sousa começou ontem a sua campanha para presidente quando Cavaco sair de cena. Este é o único cargo que eu sei que ele gostaria de ter na vida. Boa sorte!

Acabadas as festividades, volta-se à crise. Que, apesar de tudo, ainda não se abateu a sério sobre o país.

E José Sócrates ainda a residir no palácio de São Bento.

18/10/2010

MARCELO APÓS TP MPM-LIS

Filed under: Marcelo R de Sousa, Portugal-Moçambique — ABM @ 12:55 am

Je suis revenu du Maputu aujourd'hui.

por ABM (18 de Outubro de 2010)

A semana passada entupi e envenenei os canais maschambianos ao mencionar na Casa a presença de Marcelo Rebelo de Sousa num estúdio de televisão em Maputo, de onde se dirigiu à Nação portuguesa, tremelicante com as tsunamianas notícias das subidas de impostos e o possível chumbo no orçamento de 2011.

Então, sobre Moçambique, onde estava, serviu-nos chá,  charme, Mia, e livros.

Esta semana (eu vi o seu segmento porque a sogra vê – diz que ele lhe simplifica aquela confusão da carpidaria da semana em parágrafos sucintos que ela depois usa para falar com as amigas ao telefone),  já de regresso à base em Lisboa (ele vive em Cascais City) o Prof. Marcelo encantou novamente.

Mal se sentou na cadeira da TVI, com aquele ar de quem esteve uma semana no Bazaruto em vez de a trabalhar arduamente, disse logo que acabara de chegar de Maputo (no TAP da manhã) e que tinha o seguinte a dizer sobre Moçambique (aí disparei a correr buscar um lápis e um papel).

Segue-se o que ele disse, mais ou menos tal e qual, vai em bullets

–  em relação aos episódios de 1-2 de Setembro em Maputo, que havia uma primeira camada da população que estava serena [não explicou qual];

– que havia uma segunda camada do burgo que eram os políticos, em que Sr G fez remodelação ministerial (mudou um amigo e despediu outros três), cancelou ida a Espanha que já era o segundo cancelamento;

– sobre a economia, que recusou cortar nos gastos mas que a inflação está a ser mortífera, em que o salário mínimo moçambicano é um quinto do português mas que as coisas básicas que se têm que comprar em Maputo City e arredores custam o mesmo que na Tuga;

– e ainda havia o factor de milhões de jovens que estavam a crescer e que em breve entrariam na sociedade, com o impacto previsível [presumo que de imprevisibilidade];

– que não há oposição política em Moçambique, ou melhor, que a oposição é feita apenas pelos jornais – com menções honrosas para o Savana de Fernando Lima e de Kok Nam e o Zambeze, que acho que é do Fernando Veloso [sem mencionar nomes. ele tinha uma cópia do Savana deste fim de semana passado na mão com ele – que inveja…]

– Que o Sr. G fez bem em demarcar-se dum senhor que era barão da droga e dono dum shopping mas que devia parar a ostentação da riqueza entre os ricos e os poderosos em Moçambique [depois disse qualquer coisa sobre um Jaguar da filha do presidente que não percebi]

– que ele achava que os tops moçambicanos pareciam que estavam a tentar copiar o modelo angolano de desenvolvimento/enriquecimento [não percebi] das elites, mas que não funcionava pois Moçambique é pobre e que portanto não havia massa crítica para fazer as negociatas que os generais angolanos fazem.

E no fim da sua intervenção, o já habitual “ah que saudades de quando o meu pai foi governador-geral naquele aninho e meio”, que foi o melhor período da sua vida, etc e tal.

Isto foi o que ele disse.

Estatutariamente, aqui não se faz análise política.

Mas o que o Professor disse fez-me pensar.

Hum.

É que a semana passada ele estava em Maputo e disse basicamente pouco ou nada e foi só mel e rosas sobre Moçambique. Livros moçambicanos, ah a boa gente, conversinha de alcova com o Mia. Chit chat.

Chegado a Lisboa uma semana depois, e diz o que disse (mais ou menos) acima. Com uma cópia do Savana na mão.

Post Criptum

O que eu vi, menos a parte final que referi e que não está aqui, pode ser vista premindo AQUI.

10/10/2010

AO VIVO, DE MAPUTO, É O PROF. MARCELO !!

Mais uma Conversa em Família de Marcelo

por ABM (10 de Outubro de 2010)

Marcelo Rebelo de Sousa, filho de Baltazar, diz que gosta de estar em Maputo, que adora Moçambique, a que chama a sua segunda pátria (pois alguns saberão o que isso é), país onde o ano e tal em que o seu pai esteve como Governador-Geral entre 68 e 70 deixou memórias cor de rosa.

Pena é que a seguir a 1970 mais uma vez nada aconteceu, quase nada fez e quase nada foi feito, preparando-se assim o estágio para uma Independência atribulada e a martelo.

Estando esta noite na capital moçambicana por razões profissionais (é professor universitário e está lá a fazer qualquer coisa de académico), instalado num estúdio um tanto asfixiante da RTP, de lá fez a sua aparição semanal no noticiário da luso-espanhola Televisão Independente (aka TVI) que difunde em Portugal, pedindo um número de vezes desculpa por ter que dizer o que tinha para dizer do “estrangeiro” – para os portugueses, claro, já que ele estava na sua segunda pátria.

Como se fizesse alguma diferença.

Depois de mais uma daquelas entrevistas de crítica soft dada pelo Mia (que descreveu como “o papa das letras moçambicanas” – please) em relação ao que se passa em Maputo e arredores, e em que diplomaticamente não pegou num único ponto do que foi abordado quanto à actual situação moçambicana, Marcelo de seguida disparou quase inesperadamente para um quase demasiadamente longo e algo lancinante solilóquio sobre as próximas duas semanas políticas portuguesas, em que – avisou – se não houvesse um orçamento aprovado no parlçamento português no dia 29 de Outubro, que tal seria quase o fim da Grande Macaca em Portugal.

E fez a lista, como se a gente não soubesse já: que os credores internacionais cortariam o crédito à república e aos bancos portugueses, que o rating soberano português passaria de caca da vaca para junk de boi, e que a partir daí haveria uma governação por duodécimos, que não permitira fazer-se nada até Maio de 2011, a data mais próxima a partir da qual, constitucionalmente, poderão ser convocadas eleições parlamentares. Havendo pelo meio uma eleição presidencial, o que só adicionaria mais à confusão.

A sua conclusão era simples mas não sei se entendi bem: Marcelo, que é suposto ser um histórico do PSD, fez um daqueles apelos de “estadista” a José Sócrates para que se entendesse com Passos Coelho.

Tudo bem até aqui.

Mas a seguir usa o mesmo palanquim para dizer a Pedro Passos Coelho, o líder do seu próprio partido a última vez que olhei, que se entendesse com o PS de José Sócrates no sentido de viabilizar o orçamento para 2011, nem que para tal (mas será que entendi mesmo bem?) Pedro Passos Coelho tivesse que engolir mais uma vez uma solene e pública promessa, talvez feita irreflectidamente aos seus acólitos, de que não permitiria aumentos em impostos – em nome do interesse superior da Nação no sentido de evitar o descalabro imediato.

Se Marcelo, ao vivo e encavalitado com Mia em Maputo no estúdio da RTP, tivesse avisado Sócrates para alinhar com Passos Coelho e com o PSD, eu facilmente entenderia.

Ele é do PSD e compete-lhe realçar as falhas do PS.

Mas mandar um recado a Passos Coelho e ao PSD para alinhar com Sócrates?

Tirando o lado lúdico da questão, o que é que afinal Marcelo sabe que o resto de nós não sabe?

Numa altura que me parece de crescentes dificuldades, crescente indefinição, crescentes tensões, algumas delas ainda por cima causadas por quem está no poder há quase 15 anos seguidos e por uma dispensa constitucional que, estupidamente, não prevê um descalabro político durante quase seis meses (na verdade Cavaco pode resolver o problema em três tempos nomeando um qualquer para gerir o governo, é o que diz a constituição portuguesa), Marcelo sugere que ao líder do seu partido, o PSD, viabilize o programa do PS?

Assim só e sem mais nada?

Ao vivo, de Maputo, com Mia ao lado?

Sem mais detalhes?

Entendam-se e aprovem o orçamento?

Sugere que passemos agora a ter, efectivamente, um governo “PS-D”?

Pedro Passos Sócrates

Mas então, se é assim, se não há opções, se não há escolha, se não há consequências em relação aos princípios que os políticos são supostos defender, se é uma questão de aprovar as coisas sem reflexão do que o eleitorado transmite aos mandatados, então para quê ligar à política?

Às vezes o sistema político português parace-me mais ser aquela série televisiva americana:

Twilight Zone.

Twilight Cavaco

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