THE DELAGOA BAY REVIEW

06/10/2011

A DESILUSÃO DE CAVACO E COM CAVACO

Aníbal Cavaco Silva discursando durante o feriado de 5 de Outbro. Em baixo, o que eu pensei sobre o que ele disse. Foto cortesia de a Bola.

 

Não sei precisar o momento em que Aníbal Cavaco Silva me começou a desiludir a sério, enquanto titular do cargo de presidente da república portuguesa.

Não sei se foi quando me apercebi da sua postura esfíngica de diva política (que não é).

Nem sei se foi quando repetidamente me irritava quando, sempre que um jornalista lhe metia um microfone debaixo da boca (situação de que não gosto mas que ele é que permite – se eu fosse presidente mantia os jornalistas a dez metros de distância, tal como faz qualquer presidente dos EUA que se preze) de pontificar socraticamente sobre ele mesmo mas falando dele na terceira pessoa- e mesmo assim cripticamente ou dizendo nada.

Não que interesse. A maior parte do tempo, o que ele diz não interessa. Mas os média portugueses têm esta propensidade para o seguirem perpetuamente, à caça de uma declaração, de uma declaraçãozinha.

Nem tão pouco se foi quando me apercebi da sua penosamente óbvia incapacidade genética de falar com as pessoas através da televisão ou de estar com elas pessoalmente, sob a custódia protectiva da sua esposa-parceira política, uma professora de liceu reformada com uma pensão de (explicou ele uma vez) apenas 800 euros por mês.

Uma impreciosidade pecuniária que só mesmo um investimentozinho oportuno em acções do BPN ajudavam a colmatar.

Nem ainda, na sua teimosia em insistir que “ele” o tal presidente na terceira pessoa que é ele mas que ele sugere que não é ele, invariavelmente não se deve pronunciar sobre este, aquele ou qualquer outro assunto.

Mas que depois permite que se deixe gravar num pasto nos Açores a dizer as mais rascas banalidades sobre vacas e fruta.

Durante muito tempo, pensei que ele seguia esta postura académico-anal-retentiva porque, para além de ser mesmo assim, por debaixo dele ele tinha que lidar com o quiçá menos estável, quase hilariantemente exuberante – e perigoso – José Sócrates. O socialista-in-waiting que emergeu do chiqueiro que foi na altura o chamado escândalo da Casa Pia e que meteu os pregos finais no túmulo em que Portugal rapidamente se está a tornar (bendito povo que ainda não se apercebeu no que está metido).

Mas em Junho, supostamente, ocorreu um episódio histórico na política portuguesa (histórico com “h” pequeno, muito pequeno, atalhe-se): num espasmo momentâneo e irreflectido de alguma sanidade, certamente excessivamente tardio, alguns eleitores puseram Sócrates na rua e votaram maioritariamente para colocar o PSD, o PSD que havia, no poder.

O mesmo PSD onde Aníbal causou algum furor nos “happy crazy years” do arranque da mama europeia – e cujas regras de base ele redigiu – como ministro das finanças e depois como primeiro ministro durante dez anos seguidos.

Lembram-se desses anos?

Os dez anos de Cavaco Silva foram na altura vistos como anos de grande prosperidade, de desenvolvimento e de alguma paz a estabilidade. As empregadas domésticas deixaram de usar passes sociais e compraram Renaults Clio a prestações. Profeticamente, ele terminou essa década liberalizando o crédito…ao consumo. O mesmo que agora nos consume colectivamente.

Mas afinal esses anos não foram bem isso.

Na verdade, foi aquilo que, memoravelmente Joaquim Chissano, lá nas Áfricas, dizia acerca das suas “audiências internas” enquanto presidente executivo de Moçambique: agora se depreende que o que era preciso para andar para a frente nesses anos, era manter as ratazanas à sua volta com a barriga cheia.

E isso ele fez. Foi uma win-win situation. Tirando talvez os despachantes oficiais, acho que esses dez anos foram uma bebedeira nacional a todos os níveis. Os privados comeram o que quiseram, a máquina estatal explodiu em crescimento, as despesas públicas subiram a um patamar estratosférico, procedeu-se alegremente à desindustrialização de Portugal, sob o aliciante lema – que Cavaco Silva e só ele inventou – de que Portugal poderia ser o próximo Sillicon Valley da Europa. O que na verdade equivale a dizer que beduínos marroquinos passassem a fabricar Ipads da Apple (Rip Steve Jobs).

O resultado, anos mais tarde, foi uma absolutamente estranha parceria, em que uma empresa que ninguém sabe bem quem é ganhava dinheiro vendendo – ao governo, ou seja aos contribuintes – uns computadorzecos chamados Magalhães a meninos previamente de rua e que serão a suposta Geração Portuguesa do Futuro.

A Grande Geração da maior implosão demográfica em 900 anos de história, tirando a Gripe Espanhola de 1918 e a Grande Peste de 1348.

Aníbal Cavaco Silva foi posto na rua em 1995. Ou melhor, como ele não iria concorrer, e portanto tecnicamente não podia ser despedido, os eleitores na altura puseram o seu partido na rua, demolindo a sua máquina e abrindo o flanco a outra não mais apta agremiação de talentos, que era a então liderança do PS, personalizada na figura de António Guterres, que era uma espécie de anti-caricatura de Aníbal: tudo fazia, tudo dizia, com tudo e todos dialogava, ao som de uma passagem épica do filme O Gladiador.

Mas, feitas as apresentações e as nomeações, e agora sob diferentes condições – de que destaco a continuação da torrente de euro-donativos, a baixa substancial das taxas de juro e a relativa novidade da capacidade de ambos os sectores público e privado de se passarem a financiar (leia-se endividar) nos mercados internacionais ao preço da uva mijona – os anos de António Guterres caracterizaram-se pela continuação da política do betão, abrindo agora uma nova frente na chamada área social, sempre tão cara para os socialistas.

Era o betão com consciência social, simbolizado pelo cancelamento de uma barragem e a inauguração de um parque de imagens pré-históricas algures do Portugal Profundo.

Em 98, fez-se a Expo que fez a ponte para a bebedeira seguinte, que foi o Euro 2004. Por uns momentos, mais do que quandp ávida e pacoviamente mudavam as matrículas dos seus carros para o padrão europeu, os portugueses equivocaram-se gravemente e pensaram que eram portugueses da Europa.

Ou seja, para além do betão de Cavaco Silva, António Guterres, no que em seguida foi superado soberbabemente por José Sócrates, principiou a gastar o que todos os portugueses não tinham, em subsídios para tudo e mais alguma coisa.

Pelo meio, houve uma eleição presidencial em que Cavaco Silva não teve qualquer chance. Jorge Sampaio, um socialista mediano mas simpático que fora presidente de câmara e que tinha a particularidade de falar bem inglês e de chorar em público de quando em vez, ficou com o lugar. A única vez em que se notou foi quando limpou a poeira aos canos serrados da espingarda presidencial e ejectou o curto, infeliz governo de Santana Lopes, que ficou por aí.

O problema é que, entretanto, a economia portuguesa pura e simplesmente parou. E assim ficou, estática, durante dez anos seguidos, alheia ao que se dissesse ou se fizesse, que não era rigorosamente nada.

No sector público, acumulava-se a pressão explosiva em termos de custos e de eficácia, a quase todos os níveis. Num primeiro susto, que aliás não foi lá muito levado a sério, José Sócrates fingiu que ia fazer reformas. “Fazer reformas” para um socialista habitualmente significa “aumentar impostos”. E assim foi. Trouxeram o Paulo Macedo que mais ou menos começou a fazer com os impostos o que ninguém pelos vistos consegue fazer com a justiça, a saúde, a educação, a gestão da demais coisa pública.

Pelo meio, desta vez por alguma saturação anti-socialista, e por falta de alternativas, creio, Aníbal Cavaco Silva foi eleito presidente. Tal como no final do Século XIX, era a Alternância sem Alternativas.

De nada e para nada serviu, aquele primeiro mandato.

Que foi digamos que mudo. Lá no palácio que foi de Dom Carlos e Dona Amélia, Aníbal pregoava harmonia, ruminava subterraneamente e através da sua corte de assessores quando algo lhe desagradava, agarrou-se uma vez de uma forma inusitada à relativamente exótica questão do estatuto dos Açores. Isto enquanto José Sócrates literalmente fez o que quis e lhe apeteceu. No início de 2009, quando já tudo se começava a desmoronar, manteve um aumento de 3.9% dos salários dos funcionários públicos e disse que o que afinal era preciso era – estaria eu a alucinar? – mais e mais despesa e mais investimento público.

Era preciso dar de comer às ratazanas.

Na sua mais recente campanha, Cavaco Silva foi quase majestático: nem sequer fez campanha, para além duns cartazezitos e uns debates positivamente intragáveis na televisão. Isto já quando o mundo levara o rombo assustador da falência premonitória do banco americano Lehman Brothers e em que o que estava para vir era totalmente previsível: uma arrasadora destruição de valor nos mercados de capitais, a que se seguiria uma ainda mais demolidora secagem dos mercados de crédito. Subitamente, toda a gente descobriu a palavra “risco” e “notação de risco”.

Especialmente em Portugal.

Metodicamente, a Islândia, a Irlanda e a Grécia caíram. Os grandes tomaram severas medidas de contenção.

Quando Sócrates foi finalmente posto fora, após anunciar o seu quinto “Plano de Estabilidade e Crescimento” ou PEC, termo kafkiano-orwelliano que na quase totalidade consistia em fazer aumentar pela quinta vez sucessiva os impostos, Cavaco foi incansavelmente fleugmático.

Afinal, em Portugal, um presidente não manda.

Umas semanas depois, no início de Junho, o PSD de Pedro Passos Coelho, um ex- perpetuamente jovem apparatchik do PSD sem qualquer experiência prévia de governo e que tinha escrito um daqueles livrinhos inspiracionais que agora estão tanto na moda, tomou as rédeas do poder. Possuía as importantes vantagens de não parecer alucinar como José Sócrates e de ser elegível.

Face ao terror económico que se começava a vislumbrar poderia estar para vir, alguns portugueses acharam reconfortante ter agora uma espécie de Santíssima Trindade Laranja a governar a nação: um presidente, um governo e um parlamento laranjas.

Previsivelmente, os primeiros cem dias do novo governo laranja consistiram em fazer duas coisas: dizer que tudo estava a ir de mal a pior e a aumentar impostos. Muitos mais impostos.

O que, claro, todos aceitaram relutantemente pois estava-se a pagar o descalabro de dez anos de República Socialista. E não parecia haver alternativa.

O que não estava previsto é que não fizessem quase mais nada para além disso. Nada de cortes na despesa, nada de ideias novas, nada para além do parlapatanço habitual e típico dos políticos portugueses. Paulo Portas, que se movimentou para ter um lugar à mesa do poder, refugiou-se no recato das Necessidades, e meteu uns seus colaboradores em pastas importantes,em que ainda não se observou nada de substancial.

Neste período, Cavaco Silva, agora em segundo e terminal mandato, pouco disse, para além daquelas estranhas mas já habituais emanações sobre ele mesmo na terceira pessoa, e referindo que as coisas estavam mal e que a gente que se virasse para melhorar as coisas.

E sobre as vaquinhas nos Açores.

É portanto, neste contexto global, que a Aníbal Cavaco Silva ocorreu, ontem, de celebrar o lamentável feriado do dia em que houve um golpe de Estado (mais um, diga-se) resultante de uma conspiração em Lisboa que derrubou em 1910 a monarquia e implantou o actual regime há 101 anos, com um discurso.

A esse chamo o Discurso dos Tempos Difíceis e da Refundação da República.

Quem quiser e tiver a pachorra, pode lê-lo premindo AQUI (curiosamente o sítio do jornal desportivo A Bola).

Qual foi a essência das suas mensagens?

A meu ver, a essência do que disse é que os portugueses estão lixados, que vão passar as passinhas do seu nativo Algarve, que ou arrepiam caminho depressa ou vai tudo por água abaixo, e finalmente que se esqueçam da mama do governo que desta vez não lhes pode ajudar.

O terminar o discurso com uma esforçada mensagem de fé quase divina nas capacidades dos lusitanos, quase parece uma espécie de exercício da praxe para não ficar mal. Ainda assim usa o já desgastado exemplo dos portugueses emigrados, ignorando a perversa dualidade do que isso significa: que os portugueses lá foram são exemplares e têm sucesso tanto porque são portugueses, como porque……justamente, estão lá fora.

Ora, eu ouvi e depois li o que ele disse no seu discurso de 5 de Outubro de 2011 no contexto não de hoje mas no de uma carreira que decorre há quase trinta anos.

E acho curioso que alguém que foi responsável em boa parte pelo país que este é agora, mas que é suposto ser um contraponto à loucura socialista de dez anos, que procurou e obteve o cargo de presidente da república, que me parecia apreender de forma lúcida os tempos que se avizinhavam, que neste momento de constatação da inevitabilidade da mudança, centre o seu discurso nas temáticas de funda da Desgraça e da redescoberta da necessidade do renascimento de um novo “activismo republicano.”

Precisamos de fazer renascer um novo activismo republicano?

Um novo activismo republicano?

Qual deles? o da pulhice nojenta e malcheirosa da I república? o dos quarenta anos da república de Salazar? ou os trinta anos e tal anos de República Socialista, a República a Crédito que terminou com a maior falência nacional em 120 anos?

Nos últimos tempos de Sócrates, quando o via na televisão, eu costumava interrogar-me com frequência sobre em que planeta é que ele pensava que vivia.

Quando vi Aníbal Cavaco Silva a discursar na televisão ontem à tarde, fiz a mesmíssima pergunta.

E a resposta, cada vez mais, parece ser esta.

Que os portugueses mais uma vez estão entregues a si próprios, sem qualquer projecto nacional que não seja ir a reboque dos escombros do projecto europeu, sem o qual não há desígnio nacional, e que os actuais líderes, um pouco como os mais recentes, não estão ali para liderar nem para solucionar.

Estão apenas para cruzar os débitos com os créditos, a tentar vender a língua para agradar ao Brasil e a esperar que venha um milagre de alguma parte. Possivelmente da Europa, o que ele sugere no seu discurso, mas temente de que poderá não ser assim.

A história de Portugal já teve vários destes lamentáveis momentos. Em que se pressente que algo de terrível está para acontecer.

E que ninguém parece preparado para o que está para vir.

E parece que neste caso a história repete-se.

Se se repete, é porque, se calhar, os portugueses merecem. Pois não aprenderam a lição.

Independentemente desse detalhe, nestas circunstâncias, esta república, certamente esta III república, provavelmente, não tem salvação.

E Aníbal Cavaco Silva provou que já não é parte da solução.

É parte do problema.

25/01/2011

A CRISE PODE PROSSEGUIR AGORA

O actual presidente, treinando em Lourenço Marques, Moçambique, 1965.

 

Após a quase agonizante fase de espera para tirar isto das presidenciais da agenda, lá se procedeu ao ritual da eleição, num domingo com um frio e vento de rachar. Metade do eleitorado ficou em casa, talvez para poupar na gasolina, que está a 1 euro e 67 cêntimos o litro. Uma parte também não saíu de casa porque não tinha maneira de saber onde é que iria votar (eu falhei por uma nesga).  No fim, 23 por cento do eleitorado, ou 54 por cento dos que se incomodaram a votar, elegeu Aníbal Cavaco Silva para mais um mandato.

As surpresas:

1. O tamanho da sova eleitoral que Manuel Alegre levou. Talvez seja desta que ele desaparece de vez da política portuguesa.

2. O tamanho do voto do Dr. Fernando Nobre. Metade protesto, metade simpatia pela sua pessoa, presumo.

3. O grau de ressabianço de um dos candidatos perdedores, que, por ter tido direito a menos de um por cento dos votos, não tem direito a ser mencionado aqui.

4. O maior grau de ressabianço de Cavaco Silva no seu discurso protocolar de vitória. Parece que ficou mesmo chateado com os belisques à sua reputação. Andam muito sensíveis, os nossos políticos.

5. A sensação com que fiquei, ao vê-lo falar, de que Marcelo Rebelo de Sousa começou ontem a sua campanha para presidente quando Cavaco sair de cena. Este é o único cargo que eu sei que ele gostaria de ter na vida. Boa sorte!

Acabadas as festividades, volta-se à crise. Que, apesar de tudo, ainda não se abateu a sério sobre o país.

E José Sócrates ainda a residir no palácio de São Bento.

22/01/2011

NADA MUDOU AINDA

O futuro próximo: Portugal o terceiro a contar do fim em crescimento do PIB, com uma estimativa de -1 por cento em 2011.

Na ante-véspera da eleição presidencial portuguesa, inquéritos de última hora, como antecipado, prevêm que Aníbal Cavaco Silva seja re-eleito presidente para mais um mandato de cinco anos. Nada de novo aqui, para além de alguma indigestão por uma campanha particularmente devassa de conteúdo.

José Sócrates ainda é primeiro-ministro e Pedro Passos Coelho ainda está à espera de uma oportunidade.

Entretanto, como sempre sem explicação aparente, um litro de gasolina de 95 octanas vende a um euro e cinquenta e oito cêntimos à porta da minha casa e já se notam os efeitos do IVA de 23 por cento a penetrar em tudo o que se compra ou se paga.

Esta semana, os funcionários públicos estão a abrir com alguma incredulidade os seus comprovativos de salários e a ver o início da razia que pouco mais que é o começo da factura por 35 anos de “socialismo”.

Ainda que as notícias indiquem que as vendas automóveis tiveram em Dezembro um pico de 30 por cento em relação ao ano anterior. “Antecipação da compra por razões fiscais”, foi a razão apontada.

As notícias indicam também o maior número de residentes desempregados desde há muitos anos, e a confirmação da tendência para uma cada vez mais crescente desigualdade entre os que ganham mais e os que ganham menos em Portugal, o que não deixa de ser curioso tendo em conta o tal de “socialismo”.

E uma vacina contra a febre amarela passou de uma penada de 15 cêntimos para cem euros. “Actualização”, foi a explicação.

Os bancos portugueses mantêm a habitual postura esfíngica, mas cada vez mais se denota um certo desesperozinho em arranjar funding para manter as suas operações. Este não vai ser um ano fácil, apesar do aparente tsunami de crédito mal parado, das taxas de juro cada vez mais punitivas e da fiscalidade usurária que cada vez mais se abate sobre quem trabalha para o que ganha e para quem poupou e tem que gerir essas poupanças.

Na televisão, o lixo falante culpa os alemães e exige indignado o que em Moçambique se chama, algo eufemísticamente, “cooperação”. Cooperação essa que, dependendo de quem se leia, vai dos 50 aos 100 mil milhões de euros. Para não falar dos espanholes, e, surpreendentemente, dos belgas, que parece que precisam de muito mais “cooperação”.

Isto tudo muito interessante, pois quando Barack Obama criou uma linha de dois mil mil milhões de dólares para segurar a economia americana há quase dois anos, os europeus andaram armados em carapaus de corrida a dizer que no seu continente não havia dessas coisas e que agora é que era a Era do Euro. Pois parece que as Instâncias e os treinadores de bancada, estão a falar de um fundo de apoio de … dois mil mil milhões de euros.

Se os alemães deixarem, claro.

Tirando tudo isto, que apenas empobrecerá o português médio este ano entre 15 e 25 por cento, e estar fazer um pouco mais frio do que o habitual esta semana, rigorosamente nada mudou.

Ainda.

 

PS- Para variar, o “ainda” em cima é no sentido português, não o moçambicano.

19/01/2011

A MINHA DECLARAÇÃO DE VOTO NAS PRESIDENCIAIS PORTUGUESAS EM 2011

Após assistir à campanha eleitoral e de ouvir atentamente a discussão, pelos candidatos, das prioridades nacionais, cumprindo o dever cívico de optar pela minha escolha para presidente do Portugal actual, em baixo reproduzo o meu boletim de voto.

E deixo à imaginação do exmo. Leitor de qual será a minha escolha.

 

 

30/12/2010

O ÚLTIMO DEBATE PRESIDENCIAL PORTUGUÊS

Filed under: José Sócrates, Politica Portuguesa, Presidenciais 2010 — ABM @ 3:20 am

30 de Dezembro de 2010

A grande Ella Fitzgerald acima, acima consegue dizer mais nos 6 minutos e 36 segundos que a levaram a cantar o imortal Samba de Uma Só Nota, que o que foi dito na cerca de uma hora que levou o debate esta noite entre Cavaco Silva e Manuel Alegre – que era suposto ser o único “grande” debate da campanha presidencial portuguesa.

O debate foi pouco menos que medíocre.

O formato não ajuda. A Judite passou o tempo de cronómetro a cortar a palavra aos dois, chamando-lhes artificial e republicanamente de “candidato Cavaco” e “candidato Manuel Alegre”, o que os dois, estupidamente mimicavam, chamando-se entre si a mesma coisa. Sendo o tempo breve, e sendo isto Portugal, a consequência é que menos que nada havia para dizer que fizesse algum sentido. O “debate” foi na melhor das hipóteses uma troca mal ensaiada de piropos, alguns cuspidos espontaneamente, outros tirados de uns papelinhos que os dois pretendentes ao trono da República tinham à sua frente.

Portanto, na falta de conteúdo, fico-me pelas superficialidades:

1. ou era do meu televisor hiper-de-luxo-HD, ou os dois estavam mais pintados que uma corista em dia de espectáculo. Cavaco estava mal pintado, tinha um mancha do lado esquerdo da cara dele (ou seja, do lado direito na imagem), a gravata dourada esquivada para o lado direito. Manuel estava mais bem pintadinho e a gravata era menos carnavalesca e o fato era decididamente melhor. Parecia um executivo da Portugal Telecom a anunciar um grande dividendo.

2. Cavaco Silva pareceu menos à vontade, os ataques dele estavam mal ensaiados e pareciam mais defesas encapotadas que ataques genuínos. Manuel Alegre esteve sempre mais composto e bem disposto.

3. Enquanto que a voz de Manuel Alegre era o paradigma da clareza cristalina e transpirava boa dicção, a voz de Cavaco Silva era tão fanhosa que mal se ouvia. Alegre fala a partir das cordas vocais, a voz de Cavaco parece que vem do estômago. Por causa de Cavaco, tive que subir o som do meu televisor, suscitando o imediato protesto de quem lá estava, incluindo a minha gata Kitty, que só para chatear anda com cio há três semanas seguidas. Não há alguém que dê umas lições ao candidato Silva de como falar de forma que se faça entender na televisão?

4. A Judite Correia, uma jornalista da estação pública de televisão de todos nós (1 milhão de euros do erário público por dia) e que era suposto “moderar”, estava tão particularmente “speedada” esta noite que até fazia impressão. A sua intervenção parecia uma daquelas consultas de hospital público em que o essencial era despachar o paciente antes que ele morra na marquesa. Ajudava a atropelar o que quer que seja que o candidato Cavaco e o candidato Alegre tentassem dizer. Ora sendo isso já pouco (o que eles tinham para dizer) o efeito foi cacofónico.

5. o candidato Alegre foi sempre tentando abraçar o lado social-humanitário-lírico-poético da Grande Herança Socialista, sem nunca mencionar que foi precisamente por causa desse tipo de discurso sem contabilização dos débitos e créditos, e dos Amigos Socialistas dos últimos quinze anos, que Portugal está a resvalar a partir de dia 1 de Janeiro, para a maior recessão económica de que há memória desde os saudosos tempos da I República. Desta vez sem as falinhas mansas da União Europeia e sem subsídios. Vai ser lindo, ver Portugal a voar sem rede por baixo. Faz-me lembrar um pouco quando eu saí das Colónias em 75, até os bilhetes de avião os meus pais tiveram que comprar.

6. Por sua parte, o candidato Cavaco, o pai do Portugal moderno (pós-soarista) e o verdadeiro arquitecto da infernal máquina subsídio-fiscal (e das grandes negociatas) que começou a descambar imediatamente após o seu desmaio na tomada de posse de António Guterres em 1995, procurou evidenciar o seu valiante contributo, enquanto presidente, para o bem comum e a “estabilidade”, nos anos do seu primeiro mandato – o mesmíssimo mandato de José Sócrates, que usou a mesmíssima máquina para espalhar o Estado Socialista e ganhar votos. Afirmação que não me convenceu por um segundo, pois se houve um pai para o “monstro”, foi Aníbal Cavaco Silva. Só que na altura quase ninguém notou porque em tempos de vacas gordas não se nota o que é que o monstro realmente come. Quando chegaram as vacas magras, todos repararam mas então já era tarde demais. E aparentemente Sócrates nunca soube o que era um monstro, ou uma vaca, gorda ou magra.

A parte do eleitorado que já não está quase completamente alienada por isto tudo no dia 23 vai re-eleger, com a provavelmente mais baixa taxa de participação da história desta república, o mal menor. Aníbal Cavaco Silva será presidente.

E é, de facto, assim, apropriado e até edificante, que seja Aníbal Cavaco Silva a presidir à nojice que já se faz sentir e que vai caracterizar a vida dos portugueses durante os próximos anos. Esses já com e sem Sócrates.

No fim, é uma espécie de penitência partilhada.

Porque, no fundo, no fundo, ele merece-nos.

E nós a ele.

28/12/2010

TIREM-ME DAQUI 2

Filed under: Politica Portuguesa, Presidenciais 2010 — ABM @ 12:51 am
O Nando, o Aníbal, o Chico e o Manel.

O Nando, o Aníbal, o Chico e o Manel.

27 de Dezembro de 2010

A sucessão dos assim-chamados debates presidenciais está-se a tornar de dia para dia, pior. Está a chegar ao ponto em que o dever cívico se está a tornar em não os ver.

Esta noite, enquanto mascava distraidamente o jantar, vi aquilo que passou por mais um debate, este entre o Fernando Nobre, que é o senhor da AMI, e um candidato que nem sei bem quem é e que se chama Defensor Moura. Acho que é um autarca do Norte mas não sei. Nem sei se quero saber.

Meu Deus.

Mas estes senhores não têm quem os aconselhe umas coisas mínimas em termos de estratégia? de estratégias de campanha? de debate? o curto tempo que tinham passaram-no basicamente a agredirem-se a a ver quem era mais esperto (algo que no fim fiquei sem perceber também).

Se calhar eu estou mimado com os malefícios das eleições americanas, onde se sabe anos antes quem é que está a concorrer, o que nos dá algum tempo para vagamente perceber quem é, ou são os candidatos. Estes, entretanto, vão arranjando dinheiro e montando estruturas de campanha, que os assistem em termos do que devem fazer, devem dizer, devem debater.

Em Portugal não. Tirando Cavaco Silva e Manuel Alegre, um porque é o actual presidente, e o outro porque sempre o quis ser (espero sinceramente que esta seja a última vez), e que têm algum apoio logístico (e mesmo assim…), os outros nem dá para perceber o que lhes deu. Apareceram assim, de repente, do nada.

É como se eu, achando-me iluminado pelos deuses, uma noite decidisse concorrer a presidente do país. Mesmo em Portugal, as coisas não funcionam assim. É preciso mais que ser um bom homem e com ideias (ideias que nenhum dos candidatos parece ter, ainda por cima).

Mas o pior foi esta do esquema dos debates. Juntaram todos e esperam que os vejamos a esgrimar alternadamente em curtas séries de menos que uma hora, com uma jornalista no meio a disparar à esquerda e à direita. O debate de hoje deve ter sido entre o 4º e o 6º nas sondagens. Os dois pareciam um par de velhotes num café a discutir a actualidade nacional: impossível de os levar a sério. O país à beira de uma síncope económica e possivelmente social, e os candidatos a discutir não se sabe bem o quê.

Parte do problema já o referi, reside  na natureza do cargo, que é só muito marginalmente executivo. Ou seja, o que é que se pode esperar dum candidato, face à actual situação? pouco, para além de que não abane mais o barco do que ele já anda. A partir daí, quem está na presidência pode chamar a atenção da cidadania para o que quiser, que no fim do dia quem decide as coisas é o governo e o parlamento, dependendo da correlação de forças.

E tudo indica que se avizinha uma fase em que provavelmente os senhores do PSD serão governo, com uma maioria maior ou menor. Quem nessa altura estiver a exercer o cargo de presidente – provavelmente Aníbal Cavaco Silva – vai dizer as coisas do costume e assinar por baixo quando e onde lhe for dito.

Certamente não vai resolver nenhuma das desgraças que estão prestes a abater-se sobre os portugueses.

Assim, felizmente, constato que esta “campanha” presidencial acaba dentro de semanas.

A ver se se passa para o que tem que ser feito a seguir.

18/12/2010

TIREM-ME DAQUI

Filed under: Politica Portuguesa, Presidenciais 2010 — ABM @ 4:18 pm

A antiga sede da Pide em Louremço Marques. Hoje, mais uma ruína de Maputo.

18 de Dezembro de 2010

Sou só eu ou os debates em Portugal entre os candidatos para o cargo de presidente no mandato que começa no ano que vem estão a ser simplesmente impossíveis de aturar? já houve três debates, e cada um me parece que consegue o feito de ser pior que o anterior.

Não há pachorra.

Vamos lá a ver – e eu já o referi num texto há uns tempos num blogue onde escrevia antes deste: à partida, creio que, para melhor ou pior, por uma variedade de razões, Aníbal Cavaco Silva vai ganhar facilmente a eleição à primeira volta.

Especialmente se conseguir manter-se calado o mais possível, o que não tem feito.

A partir daí, a ideia de ter que aturar dez debates a dois – dez, nada menos – para esclarecer o eleitorado sobre não sei bem o quê, parece interessante mas ao mesmo tempo insuportável.

Porquê insuportável?

Eu explico porquê.

Porque, apesar de as candidaturas para presidente serem uninominais, ou seja, de indivíduos, e das suas ideias, perfis e personalidades, na verdade há muito que o processo eleitoral presidencial português está alinhado com o restante processo político, ou seja, reflecte os alinhamentos das diferentes máquinas partidárias.

E quanto a isso, temos a máquina partidária PSD/CDS contra a máquina PS, com uns restinhos no fundo do cesto para os outros, de que mencionarei apenas o camarada Chico Pereira do PC e o Dr. Fernando Nobre da AMI.

Isto não é a eleição americana, em que há candidatos à nomeação pelos democratas e pelos republicanos, que depois debatem, ou melhor, se degladiam, pelo cargo presidencial. Que, esse sim, é um cargo executivo.  Aí, apesar de tudo, há margem para algum debate e interesse. Há substância.

E mesmo assim, no fim do dia, este é um não-combate entre um incumbente, Cavaco Silva, e um dinossaurus rex socialista, o Dr. Manuel Alegre. Um não-combate em que de um se diz de nota ter tido as primeiras relações sexuais com a criada lá em casa, e do outro que assinou a ficha da Pide quando foi à tropa em Moçambique (cuja sede em Lourenço Marques era o casarão cheio de azulejos lá em cima) a dizer que sim, que estava alinhado com o regime. Touché, Manel. Há cinquenta anos tu fugiste não sei para onde na Argélia enquanto os nossos boys andavam aos tiros em África e a gente também não fez grande mossa disso.

O que tem piada – e desespera ao mesmo tempo – é ter que assistir a discursos e a debates em que se tenta protagonizar a função presidencial precisamente por aquilo que, por desígnio, não é.  Tendencial, e constitucionalmente, é bom presidente aquele que está calado e faz pouco ou nada. Quando raramente sai dessa postura, quase sempre fica o caldo entornado. É assim há cem anos. Mais, se se incluírem os últimos anos de D. Carlos, que foi um rei investido com mais ou menos os mesmos poderes “moderadores”. A esse mataram-no, e ao filho de 18 anos, que não fez mal a ninguém.

A crise que se vive em Portugal não é presidencial. É uma crise de regime e de um povo que anda na lua há 35 anos seguidos, confundindo democracia com economia, mordomias e negociatas.

Agora, chegou a hora de se fazerem contas.

E à partida não é este ou aquele presidente que vai resolver isso.

 

 

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