THE DELAGOA BAY REVIEW

06/09/2011

AUTO-COLANTE PARA O CARRO

Filed under: Politicamente Correcto, Portugal-Moçambique — ABM @ 11:57 pm

Para quem saiu de África e reparou algo de diferente, quarenta anos depois.

Anúncios

O NOVO VS. O VELHO PROGRAMA DE GOVERNO

Se Pedro Passos Coelho e os seus muchachos não se cuidam, começará em breve a ter-se a impressão que o seu "programa" de governo em pouco se distingue do do seu antecessor, o já saudoso....O...como é mesmo que ele se chamava? Aquele, que segundo uma peça de capa no Correio da Manhã de hoje, tem um tio e um primo com contas offshore muito, muito concorridas.

04/02/2011

ISTO E AQUILO

Para além de alguém baptizar um obscuro canto do seu império com o nome dela - já então uma homenagem barata - Amélia esteve em África. Ei-la aqui posando em cima de um camelo no Egipto, em frente a uma das pirâmides em Gizé, 1903. Cento e oito anos e 19 milhões e meio de pessoas mais tarde, aquilo está nalguma confusão.

5 de Fevereiro de 2011

O Egipto e a Tunísia

Quando houve aquelas chatices todas em Maputo em Setembro de 2010, não sei se se recordam que a grande guerra a seguir foi…..obrigar os 4 milhões de utilizadores de telefones móveis a registarem o nomezinho, a morada e o número de BI com a émecel e com a vodacão. Agora, parece que o catalisador da revolução na Tunísia e neste momento no Egipto (hum, será que com o tal de acordo ortográfico passou a ser Egito?) foram….as mensagens de SMS, os emails, o Facebook e o Twitter. Na Tunísia, o regime ainda não foi a tempo de cortar a internet e as comunicações. No Egipto, eles cortaram mas o Presidente Obama, cujo governo é que dá uns milhares de milhões de dinheiro de “cooperação”, mandou um bafo ao governo egípcio para não cortarem as comunicações do povo.

Em ambos os casos, foi uma complicação cortar a recepção de estações de televisão internacionais por satélite, especialmente a estação Al-Jazeera, que hoje só tinha um tópico na agenda: o que se passvaa dentro do Egipto. E antes, na Tunísia.

As implicações em termos da dinâmica da política e a relação entre governantes e governados, especialmente em sociedades onde a paz é mais ou menos podre, são deveras profundas.

E muito encorajadoras e muito perturbadoras, ao mesmo tempo.

Mais importante: agora os lusofalantes que sehuem os ditames decretados pelo governo dizem “Egito” ? eles agora são os … egícios?

As Rendas

Segundo o Expresso desta semana, em 2010 o número de rendas por pagar passou de 20 para 30 mil e, citando a Associação Nacional dos Proprietários, o montante em dívida passou para 72 milhões de euros – o dobro comparado com 2009. Como a lei portuguesa neste campo tende a ser punitiva para os proprietários, e a justiça punitivamente morosa e cara, prevê-se um pequeno tsunami nesta área em 2011. E como, na cultura portuguesa, entende-se geralmente que proprietário = rico e inquilino = coitadinho, pior vai ser.

A Escrita

A página de há uns dias do Diário de Notícias continha a seguinte, triste notícia:

“O jornalista da TVI José Pedro Barreto, actualmente a desempenhar as funções de editor do Internacional, morreu ontem à noite vitima de um acidente vascular cerebral (AVC), após uma operação. O jornalista, que tinha 62 anos, é descrito pelos colegas como um dos profissionais mais competentes do canal.”

Uma grande perda, pois o Pedro fez um trabalho excelente.

Mas, se ele morreu um dia antes da publicação deste texto, é impossível ele desempenhar as funções “actualmente”.

Mas foi o que saiu.

A Lei

A minha amiga Graça Rodrigues alertou-me para a necessidade – um dever de cidadadnia – de conhecer as leis que os legisladores portugueses vão emanando. Nomeadamente o Decreto-Lei 35/2010 de 15 de Abril (de 2010), que começa assim:

“Os artigos 143.º e 144.º do Código do Processo Civil aprovado pelo Decreto -Lei n.º 44 129, de 28 de Dezembro de 1961, alterado pelo Decreto -Lei n.º 47 690, de 11 de Maio de 1967, pela Lei n.º 2140, de 14 de Março de 1969, pelo Decreto -Lei n.º 323/70, de 11 de Julho, pela Portaria n.º 439/74, de 10 de Julho, pelos Decretos -Leis n.os 261/75, de 27 de Maio, 165/76, de 1 de Março, 201/76, de 19 de Março, 366/76, de 15 de Maio, 605/76, de 24 de Julho, 738/76, de 16 de Outubro, 368/77, de 3 de Setembro, e 533/77, de 30 de Dezembro, pela Lei n.º 21/78, de 3 de Maio, pelos Decretos -Leis n.os 513 -X/79, de 27 de Dezembro, 207/80, de 1 de Julho, 457/80, de 10 de Outubro, 224/82, de 8 de Junho, e 400/82, de 23 de Setembro, pela Lei n.º 3/83, de 26 de Fevereiro, pelos Decretos -Leis n.os 128/83, de 12 de Março, 242/85, de 9 de Julho, 381 -A/85, de 28 de Setembro e 177/86, de 2 de Julho, pela Lei n.º 31/86, de 29 de Agosto, pelos Decretos -Leis n.os 92/88, de 17 de Março, 321 -B/90, de 15 de Outubro, 211/91, de 14 de Junho, 132/93, de 23 de Abril, 227/94, de 8 de Setembro, 39/95, de 15 de Fevereiro, 329 -A/95, de 12 de Dezembro, pela Lei n.º 6/96, de 29 de Fevereiro, pelos Decretos -Leis n.os 180/96, de 25 de Setembro, 125/98, de 12 de Maio, 269/98, de 1 de Setembro, e 315/98, de 20 de Outubro, pela Lei n.º 3/99, de 13 de Janeiro, pelos Decretos -Leis n.os 375 -A/99, de 20 de Setembro, e 183/2000, de 10 de Agosto, pela Lei n.º 30 -D/2000, de 20 de Dezembro, pelos Decretos -Leis n.os 272/2001, de 13 de Outubro, e 323/2001, de 17 de Dezembro, pela Lei n.º 13/2002, de 19 de Fevereiro, e pelos Decretos-Leis n.os 38/2003, de 8 de Março, 199/2003, de 10 de Setembro, 324/2003, de 27 de Dezembro, e 53/2004, de 18 de Março, pela Leis n.º 6/2006, de 27 de Fevereiro, pelo Decreto -Lei n.º 76 -A/2006, de 29 de Março, pelas Leis n.º 14/2006, de 26 de Abril e 53 -A/2006, de 29 de Dezembro, pelos Decretos -Leis n.os 8/2007, de 17 de Janeiro, 303/2007, de 24 de Agosto, 34/2008, de 26 de Fevereiro, 116/2008, de 4 de Julho, pelas Leis n.os 52/2008, de 28 de Agosto, e 61/2008, de 31 de Outubro, pelo Decreto -Lei n.º 226/2008, de 20 de Novembro, e pela Lei n.º 29/2009, de 29 de Junho, passam a ter a seguinte redacção: ……………………”

Tirem-me daqui.

Reprise: A Bomba

Como não podia dizer melhor, cito o artigo de um economista da praça que sabe o que diz:

“O ponto de interrogação que paira sobre a dívida da República Portuguesa explica-se com uma mão-cheia de dados estatísticos: no 1.º trimestre, vencem 10 700 milhões de euros de dívida a curto prazo (Bilhetes do Tesouro, BT); em Abril, há quase 5 mil milhões a vencer a mais longo prazo (Obrigações do Tesouro – OT) mais uns 720 milhões em juros; em Junho, a conta calada atinge o seu pico: cerca de 5 mil milhões de OT mais 2 mil milhões de BT a vencerem nesse mês. No 2.º semestre de 2011, os compromissos caem para menos de metade dos da primeira metade do ano. (E, nos próximos quatro anos, as projecções de compromissos da dívida pública de Portugal ficam muito abaixo do ano de 2011). Logo: a nossa aflição financeira concentra-se no curtíssimo prazo, nos próximos 5 meses!

E é aqui que entra em cena o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF). Uma simples conta leva a concluir que, até ao fim da sua existência, em meados de 2013, o FEEF precisa de se reforçar em dimensão e em maleabilidade de intervenção, se quiser cumprir cabalmente o papel de dissuasor de ataques especulativos contra o euro através dos seus membros da periferia.

A melhor arma de dissuasão é aquela que, por ser tão esmagadora, acaba por nunca ter de ser usada. Para os credores se acalmarem quanto às parcelas mais expostas das dívidas soberanas tituladas em euros, é preciso que o FEEF ganhe o estatuto inquestionável de notação ‘AAA’. Mas isso implica, se toda a Zona Euro se quiser dotar de um mecanismo de apoio capaz de acudir a Portugal e à Espanha (se necessário), que o FEEF+contributo da UE27+FMI se dote de 540 mil milhões de euros disponíveis, quando dispõe actualmente de apenas 410 mil milhões. E, se quiser sinalizar que até a Bélgica e a Itália cabem sob este enorme guarda- -chuva financeiro, aí é preciso juntar mais um milhão de milhões, pelo sim pelo não.

Assim, quando Sarkozy e Merkel rasgam as vestes em público pelo seu querido euro, jurando que nunca o deixarão cair em desgraça, em resposta de Lisboa só devia sair o seguinte pedido: dêem o vosso acordo ao reforço financeiro do FEEF já na cimeira da próxima semana!”

18/12/2010

TRAGA-ME UMA SE FAZ FAVOR

Filed under: Politicamente Correcto — ABM @ 4:56 pm

18 de Dezembro de 2010

Piada de sábado à noite. Os cartoons da série Gente Fina são publicados no jornal brasileiro O Globo e este veio pela mão da imparável Terezinha M. de Carvalho.

Só porque isto já me aconteceu tantas vezes em Portugal – a encomendar, isto é.

 

09/12/2010

ENTRETANTO, NOS EUA….

Filed under: Economia de Moçambique, EUA, Politicamente Correcto — ABM @ 8:26 pm

por ABM (9 de Dezembro de 2010)

Enquanto o Wikileaksgate procede, é bom recordar algum discurso da praxe sobre Moçambique, desta vez pela (creio) insuspeita cadeia televisiva pública americana, a PBS, que em 22 de Novembro (há duas semanas e picos) colocou no ar o que se vê em cima.

Ou seja, enquanto alguns americanos dizem uma coisa, outros dizem outra.

É fascinante.

Entre outros mimos, o exmo. Leitor veja;

– Carlos Castel-Branco a comparar Moçambique com Angola (“oh, sabe, Angola é muito mais corrupta que Moçambique…”);
– a ex-Primeira Luisa Diogo a explicar como as coisas funcionam, economicamente, à beira do Índico;
– lá pelo meio, a conclusão de que afinal a pobreza mantém-se ao mesmo nível há quase uma década;
– uma cena da Mozal – o alumínio, não a poluição;
– Salomão Moiane pontificando durante 23 segundos sobre os mega-projectos
– Luisa Diogo apontando o turismo como “a” indústria do futuro;
– o Manuel Patrakakis no seu restauarante na Costa do Sol a falar poeticamente da “sociedade multicultural e multiracial” afro-mediterrânica-latino-qualquer coisinha moçambicana (ele estava a falar só nos seus clientes, obviamente).

E é destes vôos de dez minutos que se faz a imagem de um país.

Haja santa paciência.

27/11/2010

UM THRILLER COLONIAL

http://www.youtube.com/v/3gCtptcJY0I?fs=1&hl=pt_PT

(em cima: a 6ª Sinfonia de Tchaikowsky, Pathétique, sublimemente interpretada pela orquestra Hoshima, do Japão. Dura 49 minutos e vale todos eles, especialmente os primeiros 20 minutos.)

por ABM (27 de Novembro de 2010)

A minha crítica do livro O Anjo Branco, um romance histórico de José Rodrigues dos Santos.

Introdução

Para quem não acompanhou os eventos, o anúncio inicial, em Portugal continental, da publicação do mais recente romance, da autoria de José Rodrigues dos Santos (JRS) foi acompanhado de informações crípticas de qual seria o seu conteúdo e temática. Alguns desses dados foram sendo gradualmente revelados e reflectidos em textos que escrevi aqui, mais ou menos nesta ordem:

  1. que era sobre Moçambique;
  2. que era baseado na vida do pai do autor;
  3. que versava o que se pode considerar o período final da soberania portuguesa naquele território africano;
  4. que, sendo um romance, assentava em aturada pesquisa factual em torno de inúmeros aspectos desse período;
  5. que conteria informações “explosivas”, um “grande segredo”;
  6. que inovaria, na medida em que trataria numa nova luz a era e os eventos da época, procurando, pelo escrúpulo e objectividade dos factos coligidos, escapar ao conhecido fosso no que concerne a temas ainda considerados para todos os efeitos difíceis de reconciliar, como são as visões do que foi o colonialismo português em Moçambique, e a natureza do conflito armado desencadeado a partir de meados dos anos 60 no Norte de Moçambique.

E mais tarde,

7. que descrevia, em detalhe, um dos episódios hoje mais conhecidos (por alguns portugueses, essencialmente) desse conflito, o chamado Massacre de Wiriyamu, ocorrido em Dezembro de 1972 na localidade com o mesmo nome, situada nos arredores da cidade de Tete, no Norte de Moçambique, em que um grupo de comandos portugueses ( a 6ª Companhia) assassinou de forma bárbara um número considerável (mas parece que não inteiramente quantificado) de aldeões moçambicanos.

A abordagem desta temática – acompanhada de considerável conteúdo biográfico do pai do autor – é algo de novo para JRS, que nasceu e viveu até aos dez anos de idade em Moçambique e cujo pai trabalhou naquela antiga província portuguesa como médico.

Essa biografia foi de certa forma reconstruída, pois em entrevistas concedidas JRS concede que o pai praticamente nunca lhe falou dos eventos relatados à lupa no romance.

JRS, um jornalista que é conhecido em Portugal essencialmente por fazer regularmente, desde há alguns anos a esta parte, a locução dos noticiários num dos canais públicos da televisão portuguesa, teve algum sucesso até esta data como autor de um número de obras de ficção, cuja raiz mais aproximada é aquilo a que se pode chamar “literatura de aeroporto” – livros de mistério, mística e intriga, de fácil leitura, leves, acessível por parte de um mercado digamos que menos exigente.

Aliás a exploração com algum sucesso deste tipo de literatura, basicamente desconsiderada em Portugal pela sua fraca ou nula qualidade, e o seu posicionamento como um produto comercial de grande consumo, distinguiu JRS do que é considerado a norma no mercado livreiro português, na medida em que a forma e a tónica da comercialização das suas obras segue relativamente de perto, ou alinha-se adequadamente, à linha seguida, neste e noutros países, para obras deste género, como é caso com – salvaguardadas algumas abissais diferenças – Sidney Sheldon e Dan Brown, dois casos de sucesso nos Estados Unidos e no resto do mundo.

Por sua parte, generosamente, o autor mostra-se indiferente, ou melhor, não exibe grandes ilusões nem aparenta sentir-se minimamente perturbado, com a rotulação da sua obra como algo menos que bom, procurando, quando muito, a resposta a essa questão no relativo sucesso (à escala portuguesa) obtido com as vendas dos seus livros, o número de países onde é lido e o número de línguas em que as suas obras estão traduzidas.

Este é, notoriamente, um dos segredos mais mal guardados de JRS, que inclusivé numa interessantíssima e relativamente longa série de entrevistas gravadas para a televisão, com um número de autores, principalmente estrangeiros, em que se demonstrou bem preparado e até pessoalmente curioso, repetidamente prescrutou os seus entrevistados sobre as suas obras, como as viam, como se viam, como as concebiam, como as vendiam.

E se a escrita comercial era literatura ou não.

De longe, os entrevistados americanos, pouco afeitos às periclitâncias do meio cultural português, deram as melhores respostas.

Creio que, na essência do sucesso de JRS, residem dois factores primários e muito simples: 1) a especialização num segmento do consumo de livros em que já havia provas de haver mercado inclusivé em Portugal – a tal “literatura de aeroporto”, à la Dan Brown, Sidney Sheldon  e outros – e 2) a sua comercialização quase desavergonhadamente comercial e agressiva, envolvendo todos os grandes canais de distribuição, desde as FNACs até as prateleiras da cadeia de supermercados Continente. Com a imagem e o nome familiares do autor/leitor de notícias do Canal 1 da RTP à frente.

Puro marketing. E muito eficaz.

Mas que por si só diz rigorosamente nada sobre a sua escrita.

Isto para não referir a cobertura incomum dos sucessivos lançamentos por parte da comunicação social a um dos seus, que só alavanca mais o esforço da venda. Há umas semanas assisti, como já referi antes, à cerimónia de lançamento de O Anjo Branco na Sociedade de Geografia de Lisboa e aí notava-se a diferença com outras situações semelhantes: a audiência era a habitual pandilha dos amigos/admiradores/família, mas a imprensa que lá estava parecia que estava a cobrir o evento de uma estrela de rock. Fleugmático, e de forma correspondente, por sua vez JRS portou-se com a modéstia de uma.

Situação em que não é estranha, nem inocente, a fortuita circunstância do autor ser uma cara conhecida por milhões de potenciais consumidores por ler notícias no principal programa de notícias de televisão português. Digamos que uma obra incomparavelmente melhor, concebida por um discreto e até há pouco obscuro professor de história numa universidade pública em Maputo – João Paulo Borges Coelho – apesar de recipiente de um dos grandes prémios de literatura portuguesa (ou melhor, de língua portuguesa) não mereceu, por comparação, sequer uma nota de rodapé em termos de notoriedade.

O Tema e o Contexto

Apesar de volvidos 36 anos desde o golpe de Estado que liquidou a II República e cujos contornos fundamentais eram ser uma ditadura conservadora e defensora do prolongamento, sem data-limite, da soberania portuguesa nos territórios situados um pouco por todo o mundo, com destaque para Angola e Moçambique, e a subsequente substituição por um regime democrático de cariz parlamentar-partidário, até esta data, a exploração e contextualização dessa presença e ainda da chamada descolonização, continuam a ser tópicos de aceso debate em Portugal.

Anote-se que não é para menos. Não há qualquer paralelo, em novecentos anos de história portuguesa, de um processo tão violento e tão abrupto que afectou vários milhões de pessoas, o “retorno” à Europa de cerca de um milhão de portugueses e seus descendentes, perdas patrimoniais incalculáveis e nunca ressarcidas, e a independênca para perto de quinze milhões de africanos, processo que foi precedido por uma guerra que durou cerca de treze anos em três frentes completamente diferentes: Guiné, Angola e Moçambique.

Em Portugal, a atitude prevalecente em relação a esta temática é, apesar de centenas de milhares dos seus cidadãos terem sido compelidos a ir servir e combater nos teatros africanos, de uma quase total apatia e esquecimento.

Uma minoria, especialmente entre os antigos residentes nas antigas províncias africanas, alberga ressentimentos de vária ordem e intensidade, pese o facto de terem já decorrido praticamente quatro décadas desde o final dos eventos.

Creio que o sentimento geral, de parte a parte, é de que, em última instância, quer para os que viveram uma vida de róseas recordações, quer os que combateram principalmente na Guiné e em Moçambique, foi um absurdo de memórias boas e más, de oportunidades perdidas, de glórias e de sofrimento, de amizades perdidas. As antigas províncias seguiram o seu caminho, com todas as oportunidades e todos os problemas inerentes, e, especialmente nos dias que correm, parece que a nação portuguesa ainda não recuperou nem do trauma psicológico nem das consequências mais práticas de ter deixado de ser uma entidade económica e social multi-territorial e multi-cultural, com um projecto histórico centenário. Pois que o caminho seguido a seguir a 1974, simbolizado pelo “para a Europa, e em força” de Mário Soares, em Novembro de 2010, parece estar agora seriamente em risco, sem se vislumbrar um plano alternativo.

Foi neste ambiente que JRS publicou O Anjo Branco.

A história

A história acompanha o percurso, entre os anos 30 e o ano de 1973, de José Branco, desde algures em Portugal, até à sua retirada da cidade de Tete, onde serviu como médico e director do hospital local, na sequência dos eventos de Wiriyamu.

Nota-se que o autor fez um esforço considerável de prestar atenção aos detalhes dos diferentes contextos, desde os nomes, a geografia dos locais, e a linguagem. Em Moçambique, por exemplo, é utilizado abundantemente o linguajar local – o “Yeah”, o “maningue”,  o “tatá”, “matabicho”, etc – que poderão eventualmente impressionar quem conhece esses aspectos mais ou menos lúdicos da vivência local. Ou as marcas de cerveja e dos refrigerantes locais (deve-se ter esquecido da Tombazana, uma velha favorita minha nos recreios da minha escola primária, Rebelo da Silva) e eventos concorrentes com a altura em que decorre a narrativa.

Interessante, mas só isso, e pouco ou nada relevante para quem não conheceu essa realidade.

A estrutura da linha temporal da obra, sendo cronológica, é algo errática, na medida em que, havendo linhas narrativas paralelas – o autor não segue apenas o percurso do pai ficcionalizado, há a considerar o percurso de Diogo, um militar de terceira linha que é fundamental como a ferramenta privilegiada do autor para poder dar a dimensão pretendida ao seu relato – “salta” por vezes vários anos, presume-se que por economia de espaço ou falta de conteúdo. Assim, a personagem Branco casa-se no fim de um capítulo, e no início do capítulo seguinte já haviam passado vários anos. Sem quase qualquer informação do que acontecera entretanto, pelo que o leitor é forçado a presumir que nada aconteceu. Pois se nada foi reportado, só pode ser porque nada aconteceu.

Todo o relato e a evolução das personagens descritas pelo autor, facilmente se apreende, são uma relativamente complexa construção com um objectivo específico, que evolve e se dirige unicamente para um único palco espacial e temporal, uma circunstância fulcral, onde todos os elementos se reúnem: os eventos do massacre ocorrido em meados de Dezembro de 1972 nos arredores de Tete. Que é tratado mesmo no fim do livro, após uma espécie de pré-anúncio de entrada nas portas do Inferno, com uma citação da conhecida obra de Dante Alighieri, a Divina Comédia.

No processo, ao leitor é servido um cocktail de tipologias algo plastificadas, da humanidade que povoava a sociedade colonial moçambicana, vistas naturalmente duma óptica portuguesa – afinal, José Branco e Diogo são portugueses. JRS procura dar um vislumbre da algo inocente, ou ingénua, dolce vita do branco colonial, com a presença do inevitável criado doméstico, os variados funcionários da administração colonial, o agente da Pide, o comandante da PSP, os técnicos de Cabora Bassa, a tropa fandanga, a esposa perfeitamente estúpida, a aérea e inconsequente Mimicas, a boazinha e sacrificada enfermeira espanhola, e até a inevitável bifa boazona como o milho, desempoeirada, sexualmente disponível e entiçada pelo macho latino, casado ou não, na forma de uma estonteante rodesiana, que no fim se descobre que é uma cabra calculista e ainda por agente secreta dos rodesianos – e que, apesar das putativas intimidades, embrulha a personalidade José Branco com a Pide.

Apropriada a essa moldura criada por JRS, a estes coloniais se junta, quase invisível, a massa distante e miserável dos moçambicanos rurais, quase não entidades, deixados ao seu destino, apanhados entre dois fogos, entre a tropa fandanga portuguesa que, à excepção dos comandos (que é descrita como uma tropa especial) JRS caracteriza quase comicamente, e a eficácia silenciosa dos guerrilheiros da Frelimo (os “turras”). Que, como consta no registo histórico, a partir da operação Nó Górdio em 1970, concebida pelo general Kaúlza de Arriaga, o novo cônsul de Marcello Caetano, desviaram a sua atenção e actividade guerrilheira de Cabo Delgado para a zona de Tete.

Naturalmente, não é por acaso que essa massa de gente miserável do mato era invisível para todos menos menos para uma pessoa: a pessoa do pai ficcionalizado, José Branco, que inclusivé cria, tal como o pai real do autor, o Serviço Médico Aéreo, nome um tanto aguerrido para um teco-teco que percorria com uma enfermeira os confins de Tete semanalmente, para acudir de forma minimalista as populações isoladas no mato (muito melhor do que nada,  que era o que havia antes, diga-se).

Finalmente, no relato de JRS, o ingrediente da consciência da nascente nação e das coisas para vir, corporizada na personagem de Domingos Rouco (outro decalque da realidade, desta vez do conhecido Dr. Domingos Arouca, uma figura de referência da história de Moçambique), a correia de transmissão da realidade eminente e do que “realmente” se estava a passar na saga da guerra colonial, para o algo ingénuo Dr. Branco (e por essa via para o leitor mais incauto, e por extensão, à parte de leão da elite colonial).

E a conclusão do relato no desenrolar de eventos que culmina com o massacre das gentes que viviam em Wiriyamu, que – a verdade seja dita, para a ditadura foi essencialmente um muito sério problema de relações públicas, por coincidir com uma visita de Estado que Marcello Caetano fez a Londres em meados de 1973.

Mas Wiriyamu foi mais que isso, claro. Muito mais . Por razões pouco plausíveis, matou-se muita gente inocente à toa.  Poderá ser fácil para muitos a relativização deste episódio, especialmente numa era como a que vivemos, em que se assistiu a episódios como o massacre de 11 de Setembro nos Estados Unidos, os terríveis massacres na Bósnia-Herzegovina ou a casa de horrores que foi o Ruanda em 1995, apenas para mencionar alguns. Mas este – Wiriyamu – foi “nosso” e perpetrado no “nosso” tempo. Por si só isso deveria ser alvo de reflexão. E motivo para a expressão de pesar e de respeito pelos mortos.

Mas o leitor nunca encontrará esta úlima aferição – que é minha- na obra de José Rodrigues dos Santos.

Crítica

Tendo vivido em Moçambique até aos 15 anos, e tendo a esta hora já quase uma vida de leitura dos factos históricos detalhadamente aludidos na obra O Anjo Branco, confesso que, para mim, a leitura deste livro infelizmente ressacava de déjà vu. Por mais vezes que eu gostaria de o ter feito, encontrava-me, paralelamente à leitura do enredo, a “picar” mentalmente os locais, os termos, os trajectos, se isto ou aquilo era exactamente como JRS descrevia. E quanto a isso devo dizer que, no cômputo geral – louvado seja – ele fez mais ou menos o trabalho de casa. Mas, não sendo um revivalista nato,  achei aquilo um tanto chato. Uma distracção, até. Tudo parecia artifical, uma re-criação. Um mero artifício.

Pelo contrário, passei o tempo a interrogar-me como é que alguém que não viveu Moçambique nos anos 60 e 70, irá alguma vez entender o alcance, o detalhe, o significado de todo aquele artilhado de referências. E chego à conclusão que, no essencial, aquilo tudo é basicamente irrelevante, ou melhor, pouco relevante. Especialmente se esse hipotético leitor não for português ou moçambicano (a 24 euros em Portugal a cópia, boa sorte aos meus amigos moçambicanos…) os únicos que poderão entender mais aproximadamente os significados explícitos e implícitos das múltiplas referências.

A sensação de déjà vu percorre ainda a maior parte do relato. Quem estudou a história recente de Portugal, ou quem foi contemporâneo dela, ao ler esta obra estará condenado também a ir “picando” a sequência de eventos em ocorridos naquela altura. Possivelmente interessante para quem não sabe, chato que baste para que, como eu, está careca de saber.

Retirado isso, fica a primeira grande crítica ao que li: o enredo, por si só, é interessante apenas e unicamente por uma razão, e mesmo assim só marginalmente: porque JRS o jornalista estrela da RTP e escritor com algum sucesso nos avisa previamente que aquilo é aproximadamente decalcado do percurso feito pelo seu pai, o Dr Rodrigues dos Santos. Que ao dinamizar a iniciativa do Serviço Médico Aéreo em Tete só pode ser alvo de merecido aplauso. Mas mesmo aí só isso. A personagem descrita no livro é menos que interessante, tem uma tipologia algo bi-dimensional. Sendo a principal do enredo, no fundo é apenas mais uma de um novelo de pessoas que fazem a história ali contada. Não é heróico, não sofre, não faz quase nada de inusitado, entra e sai de cena sem que o leitor sinta que está na presença de alguém invulgar, ou alguém que fez algo de excepcional. Como há uns dias escreveu um exmo. Leitor, pessoas como ele (o pai do autor na vida real) houve-as às dúzias, parecendo quase uma injustiça apontar os feitos desta e ignorar os dos outros todos.

Por outro lado, por definição, sendo o enredo quase matematicamente decalcado duma realidade bem conhecida de quem proventura estiver familiarizado com a realidade moçambicana nos anos 60 e 70, não é, não pode ser um thriller à moda das obras anteriores de JRS.

Nem há ali qualquer revelação incandescente sobre seja o que for.

Portanto, O Anjo Branco nem é um thriller, nem é o herói da história um herói.

Sendo assim, esta obra é então o quê?

A resposta é fácil. Eu creio que JRS se enganou, ou foi enganado, quando supôs, ou quando lhe disseram, quando se convenceu, que a história do seu pai, do seu percurso feito em Moçambique, que culminou com o seu muito breve cruzamento com a tragédia de Wiriyamu em Dezembro de 1972, era uma história interessante ao ponto de merecer – mesmo ficcionalizado – um livro de quase setecentas páginas.

Com todo o devido respeito pelo Sr. Dr. Rodrigues dos Santos e tudo o que fez, não merece.

Ou então, apesar de introduzir o alegórico permitido pela ferramenta da ficcionalização, JRS simplesmente não conseguiu adicionar a dimensão épica, emocional, moral, ao seu texto, que assim se lê um pouco como se vê um documentário da National Geographic sentado em casa em frente ao televisor.

Por falta de melhor justificativo para a razão de ser desta obra no contexto do que JRS é e já fez, o que acabo por magicar é que, talvez subrepticiamente, o filho escritor quis heroificar e honrar o pai médico-aviador com um livro evocativo, para o que aliás se dispôs a calcorrear os confins de Portugal e de África e entrevistar toda uma série de pessoas (algumas das quais apresentou nominalmente na Sociedade de Geografia de Lisboa), coligindo um sem fim de dados, para no fim tentar fazer aquilo que até agora tem tido algum sucesso a fazer: conceber um thriller com um herói.

A leitura desta obra coloca outra questão que abordarei apenas como referência pois já escrevi antes em detalhe mais do que suficiente sobre isso: a ficcionalização ali contida. Só que na altura em que considerei o tema da ficcionalização, fi-lo no abstracto, sem haver lido o texto. Agora que já li, a questão é mais paradoxal, na medida em que o que encontrei foi uma ficção completamente assediada pela realidade dos factos. Imagino que a personagem Diogo seja uma mera ferramenta literária para suportar a explanação, pelo autor, do enredo. Ele é a mosca na parede que vê o que outros não podem ver. Mas mesmo essa personagem serve essencialmente para transmitir factos. E mesmo que este ou aquele facto, ou situação, ou contexto sejam errados para quem está dentro deles, o autor poderá sempre recuar e dizer que essa parte foi ficcionalizada. O leitor mais informado fica assim cercado pela argumentação.

E, pessoalmente, considero esta uma situação que perturba e é por isso que não gosto de ler os chamados “romances históricos”.

Permita-me o exnmo. Leitor dar um exemplo claro do que falo. Há uns tempos atrás enganei-me completamente (acho que fui ludibriado, na verdade) quando comprei a obra Catarina de Bragança, da autoria de Isabel Stilwell, que é um dos pequenos best sellers portugueses recentes e que pensava eu que contava a história da desgraçada filha de João IV que, após a chamada Restauração em 1640, por razões de Estado, casou, mediante o pagamento de um formidável lobolo, o monarca britânico da altura, o incorrigível Carlos II, ele por sua vez “restaurado” no trono depois da breve (e única) fase republicana britânica, liderada por Oliver Cromwell. Já li que baste sobre esta era, mas achei que seria interessante reler a história na versão stilwelliana. Bem, apesar da capa deste livro nada indicar (ao menos a capa de O Anjo Branco indica que é um romance) afinal aquilo era um “romance histórico”, em que Isabel Stilwell permite-se, e quer-nos fazer crer, que estava lá, que sabe, a todo e qualquer momento, o que se passou e o que ia na mente da desgraçada Catarina, da família real portuguesa e de todos os que os rodeavam. Eu achei aquele relato pouco credível e essencialmente insuportável, pois eu queria a verdade ou uma aproximação dela, não o romancear delirante e bem intencionado da Isabel, transplantado para a filha de João IV. Mas estes dias este tipo de literatura anda muito na moda. Eu bem que tento de fugir dele, mas neste caso fui enganado.

De forma mais atenuada, a obra de JRS sofre do mesmo problema.

O Anjo Branco foi também comercializado com a argumentação de que apresentava as coisas de uma nova maneira, um novo olhar sobre a história portuguesa (e moçambicana) recente, mais fria, mais objectiva, mais distanciada das ainda luzentes disputas ideológicas em relação ao julgamento feito da História. De facto, na minha leitura, constatei que JRS deve ter prestado tanta ou mais atenção, e dispendido tanto ou maior esforço, a contar uma estória que fosse tão isenta de julgamento, tão politicamente correcta, tão factualmente incontroversa, quanto aparentemente prestou, e dispendeu, a agregar os miríades pequenos detalhes da vida e dos locais onde se desenvolve o enredo. Isso tem a virtude de o colocar bem na imagem – o politicamente correcto é uma maneira de estar na vida, especialmente em Portugal, especialmente para um popular apresentador de televisão – e de concretizar algo verdadeiramente insólito: o de ter sido capaz de escrever um livro de setecentas páginas sobre o tempo colonial e a guerra em Moçambique, e provavelmente de a obra ser inatacável por parte das várias correntes portuguesas actuais em relação ao tópico, e até da prevalecente doutrina moçambicana em relação ao assunto.

Isso sim, é que foi obra.

Só não sei se, nessa óptica, seja obra que interesse ler. O politicamente correcto tende a não ter paixão, tende a acinzentar a realidade. Tende a corroer e a dissolver as arestas e os contrastes que pessoalmente eu gosto de ler. Prefiro ler Samora e Marcelino, Jorge Jardim, Caetano e Kaúlza de Arriaga e decidir por mim quem tem razão, e quem está a mentir.

Mas se calhar sou só eu a sentir isso.

O Mangalho de José Branco

Para encerrar esta nota que já vai longa, gostava de abordar, à laia de “assuntos quixotescos diversos”, o mangalho de José Branco, assunto que JRS usou como gracejo em mais de uma entrevista que concedeu.

A verdade é que o primeiro capítulo de O Anjo Branco é apenas sobre duas coisas: 1. o nascimento da personagem decalcada da do seu pai, e 2. o descomunal, incontornável, indesmentível, embaraçoso, enorme tamanho do seu pénis. Sendo a obra “realidade ficcionada”, toda a gente logicamente ficou na dúvida se aquilo do mangalho do futuro Dr. Branco era baseado no respectivo órgão do pai de JRS ou se era apenas uma figura de estilo do autor para alguma coisa que tivesse que ter com o contar da história. JRS foi soberbamente evasivo e até gozou com os jornalistas que lhe fizeram a pergunta, que, rindo, estupidamente, deixaram a questão ficar por ali.

Só que a questão é pertinente e constitui um mistério, não tanto porque o herói da fita inspirado na figura do pai tivesse um “monstro” entre as pernas, mas, mais relevante, porque é que JRS achou que aquilo era um assunto mencionável no contexto da obra. É que, da leitura do texto, emerge que o “monstro” parece que afinal não serviu para nada, nem tem praticamente qualquer relevância no enredo. A todos os títulos, a personagem criada por JRS aparenta ser uma pessoa absolutamente normal, que nada fez de extraordinário, certamente não era um James Bond que embananava uma mulher em cada esquina. Aliás, fica-se com a dúvida se a mentalmente indigente Mimicas, a mulher de José Branco, alguma vez viu o “monstro”. Para além da estrondosa aparição no início do texto, esta referência só aparece mais duas vezes, algures durante a adolescência e (o leitor decida o que fazer disto) na passadeira da igreja a caminho do altar, para Branco se casar com a patética Mimicas.

Nesse ponto, pensava eu que era aí que se justificaria a honrosa menção: a noite de núpcias que teria que se seguir ao enlace matrimonial, e que seria para JRS a oportunidade de, com base na precedente referência, fazer o equivalente do Canto Nono de Os Lusíadas, o tal em que os professores no meu tempo de liceu ficavam embasbacados a tentar explicar o que eram e o porquê daquelas orgias lírico-sexuais inventadas pelo poeta Luis de Camões.

Só que nada disso acontece. O Dr. Branco casa com a Mimicas depois nada. Como em Loch Ness, o  “monstro” simplesmente desaparece para nunca mais ser visto. Nem mesmo quando o Dr. Branco se enrola repetidamente com a apetecível rodesiana em Lourenço Marques e algures no Norte, no chão e no ar.

Ou seja, aquilo é tão despropositado, tão fora de contexto, que fica ali, literalmente…pendurado.

JRS lá saberá o que aquilo significa. Mas seria bom se quem lesse, também percebesse.

Em resumo

Esta obra prova que José Rodrigues dos Santos devia centrar-se no tipo de livros que fez antes deste.

O Anjo Branco é legível, pode até ser interessante para algumas pessoas. Mas não está em linha com a obra anterior de JRS. Não é nem um thriller nem sequer uma tentativa de épica. E sofre de uma atroz falta de dimensão humana e de alguns constrangimentos que a meu ver a aproximam apenas de uma estória mais ou menos bem contada, sabendo perigosamente a um mero script de cinema, faltando-lhe a emoção, o empenho, o partidarismo, o drama que caracterizou aquela fase da vida dos portugueses e dos moçambicanos. Focando num dos episódios registados mais tristes da guerra colonial, talvez no afinco em manter a neutralidade politicamente correcta em relação a um tópico ainda rodeado de paixões, o autor apenas a descreve analítica e distanciadamente, passando por cima do horror e injustiça abjecta que o massacre representou.

Fica a homenagem tentada, implícita, ao pai de JRS – a todos os títulos um bom homem, a quem ele, juntamente com a mãe, dedica a obra.

E aqui fica a minha homenagem – às vítimas de Wiriyamu.

30/10/2010

E PLURIBUS SMOKUM

Filed under: Politicamente Correcto — ABM @ 10:58 pm

por ABM (Sábado, 30 de Outubro de 2010)

Enquanto pufo um Marlboro Lights 100 e medito sobre a mudança da hora legal em Portugal esta noite (recuo de uma hora, excelente) queria deixar aqui expressa a minha solidariedade pelo já multisemanal abandono do física e fiscalmente pérfido Hábito a Banir pelo nosso Senador e deixar o vídeo anti-tabágico acima colocado, com a mensagem habitual, para todos os exmos maschambeiros afectados.

(puf).

(puf).

16/10/2010

A ÁFRICA IMAGINADA – E A INVENTADA

por ABM (16 de Outubro de 2010)

Esta nota a propósito de uma conhecida música pop creio que dos anos 80, bastante popular quando eu vivia nos Estados Unidos, chamada I bless the rains down in Africa, tocada por alguém ou uma banda chamada Toto. Acho que foi um êxito mundial.

Eu não sei se o exmo Leitor conhece a música. Fica aqui uma versão não cantada, aptamente tocada pelo Senhor Andy Mcgee:

http://www.youtube.com/v/Z-XYjK1HQ-M?fs=1&hl=pt_PT

Linda, não é?

Pois.

O que eu não sei é se o exmo. Leitor sabe o que é que diz e o que significa a letra da música.

Essa tarefa deixarei nas capazes mãos de um senhor chamado Steve Almond, infelizmente em inglês, porque acho que o Steve não ainda não fala português, ainda menos a versão rebeldemente desortografiada falada aqui do Maschamba.

Mas alinho com o que diz, com apenas um comentário meu:

Como em Moçambique há alguns que se lembram dos saudosos tempos do idealismo revolucionário vivido após a Independência, quando as maiores barbaridades foram feitas com a mais entusiástica, deslumbrada estupidez e empenho ideológico, há também alguns aqui nas Europas, onde há muitos brancos e (ainda) alguns que viveram em África, que ficam exasperados com as suas menções das Áfricas Minhas, os saudosismos dos bons velhos tempos em África (aqui num contexto pejorativo, pois suspeitam logo insidiosamente de terem sido do branco colonial andar de cacete a dar na cabeça do negro), essa coisa toda.

Por inerência ao meu passado e estatuto, eu passo a vida a ouvir disso.

Confesso que não me aquece nem arrefece minimamente.

Eu acho que cada um de nós tem as memórias que tem e deve gozá-las. Às vezes é a única coisa que nos sobra, num mundo cada vez mais plastificado, globalizado, estilizado, desfigurado – socratizado?

Mas o que me exaspera mais é a África inventada, pura e simplesmente.

Como aquela balada meio doce-da-treta de nada menos que do “revolucionário” endeusado do rock americano, o Bob Dylan, ainda por cima composta em plena guerra colonial:

I like to spend some time in Mozambique
The sunny sky is aqua blue
And all the couples dancing cheek to cheek.
It’s very nice to stay a week or two.
There’s lots of pretty girls in Mozambique
And plenty time for good romance
And everybody likes to stop and speak
To give the special one you seek a chance
Or maybe say hello with just a glance.
Lying next to her by the ocean
Reaching out and touching her hand,
Whispering your secret emotion
Magic in a magical land.
And when it’s time for leaving Mozambique,
To say goodbye to sand and sea,
You turn around to take a final peek
And you see why it’s so unique to be
Among the lovely people living free
Upon the beach of sunny Mozambique.

Que eu saiba, o nosso Bob na altura nem sequer meteu os pés em Moçambique, e suspeito que os nossos Libertadores em Dar devem ter dado sete saltos de fúria quando ouviram a letras. Aquilo parece uma cançoneta de segunda categoria  feita para um anúncio turístico de Moçambique nos anos 60.

Aqui, cantada por um japonês que não percebi quem era mas que até não é mau de todo.

http://www.youtube.com/v/md4gbjjRX3o?fs=1&hl=pt_PT

Por minha parte, quando eu dizia a alguém dos Estados Unidos que era de Moçambique (tirando o Chester Crocker, que conheci uma vez, ninguém suspeitava onde ficava) vinham sempre com algum comentário estúpido sobre a canção do Bob Dylan, que na altura nem conhecia, nem ele nem a canção.

Mas, voltando à vaca fria, em I bless the rains down in Africa , cuja letra foi escrita por um tal David Page, atinge-se um novo nível de surrealismo.

É que não há pachorra para aturar este liricismo tipo porno-chachada sobre África. Não é que isto não seja a minha África. É que isto nem sequer existe. Não faz sentido nenhum.

Num curto discurso proferido em 16 de Julho de 2009, o Steve Almond, cujas afinidades africanas parecem ser poucas, mas que aparenta ter bom senso, explica porquê. Sublimemente, ainda que um pouco virado para uma audiência norte-americana, para quem esta canção recorda os tempos de engate namoradeiro dos meninos e meninas de liceu.

http://www.youtube.com/v/4b2aGe8_Ag0?fs=1&hl=pt_PT

05/10/2010

AS COISAS IMPORTANTES NA VIDA

por ABM (5 de Outubro de 2010)

A Standard & Poors, uma dessas nefastas agências internacionais de rating que andam a tentar destruir o Estado Social de José Sócrates, uns dias apenas depois de anunciadas as mais draconianas medidas para pagar as dívidas e os devaneios dos últimos vinte anos, informou que, apesar de estimar que o Produto Interno Bruto de Portugal em 2011 vá baixar pelo menos 1.8 por cento (nota: se a inflação for 3 por cento isto significa uma perda de poder de compra de entre 5 e 15 por cento para o português da classe média – num ano apenas) que não tem a certeza se as medidas agora anunciadas vão ser suficientes para estancar a loucura nas finanças públicas e privadas.

Numa entrevista à RTP em tempo nobre, José Sócrates, como já é costume, e já fez antes várias vezes, jurou a pés juntos que o que anunciou é mais do que suficiente e que agora é que o seu país está no caminho certo.

Está-se a formar a perfeita tempestade económica portuguesa.

Em Moçambique chamam a isto o advento da altura do repolho e do carapau.

E sendo assim esta é a altura de todos reunirmos esforços, de darmos as mãos e de nos concentrarmos nas coisas simples (e favoritas) da vida. Preferencialmente as mais baratas. Como diz a música em cima, dos fabulosos Portuguese Catita Brothers, adaptada do inesquecível Música no Coração.

Pois o mal já está feito e pelos vistos nada nem ninguém se consegue livrar do homem.

Agora é lutar e aguentar.

04/10/2010

VíDEO OFICIAL DE CEM ANOS DE REPÚBLICA

Pessoa colorido por ABM no dia 4 de Outubro de 2010

por ABM (5 de Outubro de 2010)

Esta vinheta é dedicada a todos os nobres republicanos que há cem anos fizeram o favor de conspirar para matar o rei e o seu primogénito e a seguir tomar o poder em Lisboa, para destruir o nefasto regime monárquico e assim assegurar o melhor progresso da nação e a segura protecção das suas colónias.

É também dedicada a todos os que andaram todo este ano a mastigar as virtudes da república, a exaltar os podres da monarquia, a fazer programas e debates e ainda aquele indescritível romance na Érretêpê (em HD) a glorificar os assassinos do regicídio, a dourar e a envenenar a pílula republicana.

Ah, e aquela bandeira. E aquele hino. Foi inspiração divina.

Obrigado a todos. Obrigado. Muito obrigado. Estou mais esclarecido. Sinto hoje, agora, que pertenço.

E se tudo isso tivesse funcionado eu em seguida diria que sim, que estou convencido que tudo isso foi bom e para o melhor de todos nós. Sim, em meu nome pessoal e o do que resta da minha família (o cão e a avestruz contam?) sei que sem a República o que teria sido de todos nós nas mãos desses Braganças. Certamente que teria sido uma sucessão de episódios de corrupção, de escândalos, défices, a perda das colónias, ditaduras, guerras, pobreza sem remédio, tachos para os amigos, uso dos fundos de pensões para tapar buracos, emigração nos milhões, a moeda a perder o valor, militares a intervir no poder, a proibição do divórcio e a manutenção da educação nas mãos dos Maristas, dos Salesianos e outras perigosas seitas católicas.

E – cruzes canhoto – o IVA a 23 por cento.

Mas assim, e felizmente – e graças à República, o Bem de todos nós foi bem gerido e preservado, especialmente agora que se encontra nas sábias mãos dos descendentes dos Golpistas Fundadores, empenhados no Grande Experimento Socialista-ecológico do século XXI. O meu pai sempre disse que filho de golpista é bom golpista. Sei que estamos no bom caminho. Sinto que estamos quase lá.  E até já vejo a luz lá no fundo do túnel. É bela.

É cor de rosa.

Só queria dizer isto.

Mais importante, e finalmente, aqui comemoro esta efeméride  portuguesa, na certeza de que felizmente não estarei vivo para assistir ao segundo centenário e assim ter que ouvir outra  vez a mesma coisa junta e ao mesmo tempo. Não sei se aguentaria.

Alegrem-se as almas: 6 de Outubro, here I come.

Vem aí a crise.

Toque-se, então, o vídeo comemorativo.

VIVA A REPÚBLICA.

http://www.youtube.com/v/9RBCxjZGczE?fs=1&hl=pt_PT

A ESQUERDA, O CENTRO E A DIREITA

Filed under: Politicamente Correcto — ABM @ 7:24 pm

por ABM (4 de Outubro de 2010)

Análise espectográfica da política actual, feita nos termos da ética comportamental, por alguém no Brasil.

Mas transporta bem para outras paragens.

26/09/2010

OU MÁI GÓDE

por ABM (25 de Setembro de 2010)

Peça da estação de televisão portuguesa SIC (sic) sobre a visita de José Sócrates, o actual primeiro-ministro de Portugal,à cidade de Nova Iorque, creio que ontem.

E as suas declarações.

Para quem sabe inglês: sem comentários.

Melhor exemplo (influências do novo acordo ortográfico?):

em português: “as receitas”
em inglês socratiano: “the receipts”

Iu nôu uót ái mine.

16/09/2010

GRANDES DISCURSOS SOBRE EDUCAÇÃO

Filed under: Ensino, Politicamente Correcto — ABM @ 9:43 pm

Dois grandes discursos sobre educação:

PRIMEIRO DISCURSO

Barack Obama, presidente dos EUA, no início do ano escolar 2009-2010, no pavilhão de um liceu no Estado de Virgínia, repleto de gente, dirigindo-se a todos os estudantes norte-americanos, desde o 1º ao 12º ano.

Discurso: em inglês

Duração: 20 minutos

Abordagem: informal, sério

Audiência-alvo: alunos entre o 1º e 12º ano

Tema: A minha educação, o meu futuro

Frase-chave: o vosso futuro e o da América está nas vossas mãos

SEGUNDO DISCURSO

Isabel Alçada, ministra da Educação de Portugal,  encafuada sozinha Deus sabe onde, dirigindo-se aparentemente aos meninos e meninas que vão estudar pela primeira vez na vida, no início do ano escolar 2010-2011.

Discurso: em português

Duração: 5 minutos

Abordagem: estilo meio tia meio Miss Piggy amigalhaça misturado com sermão de Sto. António aos peixinhos

Audiência-alvo: alunos, professores e os pais dos alunos, mas acaba por ser um rol de conselhos dirigidos ao meninos e às meninas

Tema: estudem e obedeçam ao que vos mandarem fazer

Frase-chave: estudar é uma espécie de desporto do cérebro

19/08/2010

PLUS ÇA CHANGE

por ABM (19 de Agosto de 2010)

No actual contexto de aperto financeiro de muitos, e de resmas de demagogia balofa, a revista Visão da semana passada escalpeliza numa página sucinta os detalhes da maior transacção de sempre de uma empresa, a venda da Vivo à Telefónica pela PT.

Numa transacção de 7.500 milhões de euros, ninguém paga um cêntimo de impostos.

A ler, A PT e a Vivo, com vénia.

03/07/2010

COM 35 ANOS DE USO

Filed under: Mia Couto, Politicamente Correcto — ABM @ 2:43 am

por ABM (Sábado, 3 de Julho de 2010)

No dia em que moçambicanos um pouco por toda a parte celebravam 35 anos de independência, o jornal angolano Zwela Angola noticiou a efeméride com um artigo até interessante e bem escrito, texto que no entanto refere ter ido buscar a uma tal Opera Mundi, que é um portal brasileiro, por sinal até muito interessante. É tão bom, tão bom, que até já tem a sua própria entrevista ao Mia Couto, esta feita por e-mail.

E ainda tem uma recensão ao livro do Mia Venenos de Deus, Remédios do Diabo. Com o título “romance de Mia Couto leva personagem e leitor à loucura, como os ‘tresandarilhos’ “. Um título sugestivo, sem dúvida.

Claro que deu um tiro no pé ao capear um texto sobre as cerimónias de despedida do escritor José Saramago com o título “Portugal recebe com honras militares corpo de Saramago”.

Portugal inteiro recebeu? com honras militares? O José Saramago? em Lisboa? o quê? aqueles tropas a quem mandaram tirar o caixão do avião e meter no carro funerário? só se foi isso. Mas acho que os caras da Opera Mundi se espalharam ligeiramente nesta.

O que me chamou a atenção para esta peça do Zwela Angola, no entanto, não foi o texto mais ou menos laudatório.

Foi a escolha da bandeira acima para ilustrar e capear o artigo alusivo à independência moçambicana em 1975.

Agora…hum…será que os nossos brothers angolanos não poderiam ter assinalado o mais nobre feriado moçambicano com uma bandeira menos rota? o país ainda está em convalescença e ainda não tem petróleo (vai ter em breve, segundo as minhas fontes) mas há por aí bandeiras em bom estado e à mão de semear.

Aliás, agora com três voos por semana entre Luanda e Maputo, surgiu a oportunidade de os angolanos finalmente conhecerem o novo Moçambique. Da última vez que estiveram lá, era 1895 e estavam na primeira e na segunda linha do quadrado de Marracuene. Do que li, então salvaram o pêlo aos portugueses e o Sul de Moçambique dos britânicos.

Hoje heróis todos eles, claro.

Presumo.

07/06/2010

A RAZÃO DE SERMOS

Filed under: Politicamente Correcto — ABM @ 2:49 am

por ABM (7 de Junho de 2010)

De acordo com George Carlin, um cómico norte-americano.

Se o exmo leitor for ao sítio no próprio Iutube, há lá muito mais.

Para combater a eventual depressão.

24/04/2010

O 28 DE MAIO DO 25 DE ABRIL

http://www.megavideo.com/v/QHOYAVC0c88b2df95cdaaaecced4af3c7aeeff90

por ABM (24 de Abril de 2010)

Estas coisas das memórias e do seu significado têm tanto que ver com o seu impacto e posterior percepção e re-interpretação como das idades e experiências de cada um de nós.

Quando eu crescia na cidade outrora conhecida como Lourenço Marques, lembro-me muito, muito, vagamente, de que se dizia qualquer coisa no dia 28 de Maio sobre o 28 de Maio. Que terá sido a “Revolução Nacional”. A tal que, descobri mais tarde, descambou para a incontornáveis quatro décadas e meia de Salazar e afins. Pois. Que isto de ser-se português, ou afim, significa que, dada a inabilidade dos políticos e da congregação política de evoluírem e mudarem as coisas, faz mais ou menos parte do processo haver revoluções, hecatombes, golpes de Estado, pronunciamentos militares, etc.

Mas o ponto aqui é que 28 de Maio, nos anos 60 do século passado, com as devidas diferenças ideológicas e fanfarra um tanto quanto mais militarizada, fora o 25 de Abril para muitos da então velha geração. E nessa altura em Lourenço Marques, penso, já ninguém se lembrava do que aquilo fora. Tirando o ocasional velho caquético já ninguém sequer existia que tivesse visto o que aquilo foi, e tirando os quase absolutamente insuportáveis discursos dos senhores da Situação, herdeiros directos desses longinquos ecos da História, ninguém já percebera o que fora e para que fora.

Era mais um feriado.

Estamos a um dia do dia 25 de Abril de 2010. Isso significa que amanhã se assinalará que, há trinta e seis anos, meia dúzia de oficiais militares de baixa patente, com o beneplácito de (mais ou menos) os dois principais ex-chefes militares portugueses (os generais Spínola e Costa Gomes) e na minha opinião o desistismo de um derreado Marcello Caetano, a II República portuguesa acabou e se inaugurou o que se supõe ainda hoje ser uma versão revista da I República, sem os seus exageros e histerismos.

A República Socialista.

Trinta e seis anos é muito tempo e revelador. Em Junho faz trinta e cinco anos que Moçambique é independente e continuamente liderado pelas mesmíssimas pessoas que desde meados dos anos 60 já controlavam, do seu lado, o poder político. Daqui a cinco anos, já terão estado mais tempo no poder continuamente, que os anos durante os quais a União Nacional criada por Salazar governou Portugal.

Circunstancialmente, levou trinta e cinco anos para Portugal mais ou menos bater com o seu virtual nariz no espelho e, depois das repetidas bombas de oxigénio e manobras, ter de se confrontar, como nação, para o seu corpo nú e esfarrapado, sem as muletas de África e das Índias, entrerrado em dívidas e sem os dinheiros oferecidos da CEE e da União Europeia, sem o internacional-porreirismo e o doublespeak da internacional camaradagem, e ter que se perguntar: quem somos nós? o que teremos que fazer e como? com o que podemos contar?

Esta fase da história portuguesa é verdadeiramente fascinante. Parece o fim de um thriller de Agatha Christie. Quem, afinal, matou o morto? como se vai descobrir isso? e o que fazer em seguida?

Mas o tempo não perdoa e a verdade dramática e reveladora está no vídeo acima. Como aconteceu comigo quando era miúdo em Lourenço Marques e, sem ninguém me explicar, eu assistia ao moribundo e insignificante deambular de alguns velhos e políticos cheios de caruncho, sobre a tal supostamente gloriosa revolução do 28 de Maio.

Pese a suposta explosão democrática trazida desta vez, já poucos sabem o que foi isso do 25 de Abril. Ou como foi. Ou quem o fez.

Os mitos das revoluções e os seus protagomistas são muito mais fáceis de manipular, de realçar e de a re-inventar em regimes onde essa experiência passada convém muito aos que mandam agora e que nela buscam a sua fraca legitimidade, que num regime (mais ou menos) democrático cuja legitimidade supostamente só pode ser derivada de votos depositados em urnas e contados um a um. Em Portugal, isso na verdade só aconteceu quase dois anos depois, em Abril de 1976. Poucos se lembram que foi quase por acaso. E mesmo aí foi uma democracia hifenizada: a tal república socialista. O pai, Mário Soares. Até este momento não se passou daí.

É por isso, com algum humor, que aqui assinalo o pronunciamento militar de Abril de 1974, o tal que libertou as colónias e os demónios sociais num dos países mais atrasados do continente europeu, que achou necessário tantos anos para começar vagamente a lidar com as suas hipertrofias. Aproxima-se a hora de mais uma reflexão: continuar o experimento socialista ou tentar outro rumo.

No meio disso, a ironia do tempo: a de as mais jovens camadas da população portuguesa em Abril de 2010 já não saberem bem o que foi o 25 de Abril de 1974, por que foi, para que foi, quem o fez. É apenas mais um feriado em Abril.

Tal como foi o 28 de Maio quando eu era miúdo, em Lourenço Marques.

01/04/2010

A NOVA TOPONÍMIA DE MAPUTO

Filed under: Maputo, Nova Toponímia de Maputo, Politicamente Correcto — ABM @ 9:33 pm

por ABM (Alcoentre, 1 de Abril de 2010)

Esta coisa de mudar os nomes às coisas em partes de África é uma festa que não acaba.

Alguns exmos Leitores não devem ter reparado que há uma semana, pela Resolução 20/AM/2010, a Assembleia Municipal de Maputo mudou os nomes de todos os distritos municipais de Maputo.

Assim, o DM1 passou a chamar-se Kapfumo, o DM2 passou a chamar-se Nlhamankulo, o DM3 KaMaxaquene, o DM4 KaMavota, o DM5 KaMubukwana, o DM6 Ka Tembe e o distrito da Inhaca KaNyaka.

Confesso que nem suspeito quais eram os nomes anteriores. Nem quais as implicações para os nomes (tradicionais?) das localidades afectadas.

Eu também gostava de mudar os nomes dos sítios por onde pairo em Portugal. Mas ninguém me deiixa mudar o nome de Cascais e no caso de Alcoentre, pesem as implicações anatómicas subjacentes e o facto de ser o nome do invasor colonial fascista imperial árabe há mil anos, disseram-me que nem pensar. Ninguém quer e dizem que é muito caro.

Mas mesmo assim quis participar na moda e, em nome dos bons velhos tempos, decidi mudar o nome da rua que dá acesso à minha casa para uma algo mais genuinamente moçambicano, pelo que anuncio a tabuleta que está lá em cima, acabada de fazer, e que deve ser inaugurada lá mais para o verão, juntamente com umas febras, tinto e fados do Sr. José Luis (que está a segurar a tabuleta).

Famba Ti Cunza
, termo de raiz ronga, era o que eu dizia algumas vezes a umas pessoas quando eu era mufana.

18/03/2010

COMO DISSE?

Filed under: José Sócrates, Politicamente Correcto — ABM @ 3:05 am

http://www.youtube.com/v/iJEmL-75Tc8&hl=en_GB&fs=1&

por ABM (19 de Março de 2010)

Lapso freudiano?
forças ocultas?
distracção?
conspiração?
oposição?
sentido de humor?
liberdade de expressão?
atentado ao estado de direito?
ou será apenas que o fulano das apresentações passou-se?

E quem inventou esta mirabulância de uma iniciativa energética para Portugal fosse rotulada com a sigla “re new able”? re, new, able?? “a inspirar Portugal”?

16/02/2010

VAMOS LÁ SER TUGAS À FORÇA

http://www.videosurf.com/vembed/53826666

Watch this video on VideoSurf or see more Made Videos or Nancy Sinatra Videos

por ABM (Cascais, 16 de Fevereiro de 2010)

Gostava de explicar aos exmos leitores que geralmente não gosto de ouvir música no rádio. Tirando as estações de música clássica, desde sempre. Tolero o ocasional devaneio musical mas muito pouco, O que gosto de ouvir na rádio é gente a falar: jornalistas, entrevistados, comentadores, escritores, pessoas que telefonam, debates, etc.

Nos Estados Unidos existe um formato de estação de rádio para isto: chama-se talk radio. Dão notícias, entrevistas, programas em que as pessoas telefonam, programa da manhã com notícias e anedotas para quem está a ir no carro para o emprego, a mesma coisa quando estão a regressar a casa, programas para depois do jantar, conversas a meio da noite. Hoje pouca gente sabe que o Sr. Larry King, que mundialmente é conhecido por fazer entrevistas de meia hora ou uma hora na CNN, tornou-se conhecido nos EUA porque durante anos e anos e anos ele fazia todas as noites da semana, com repetição do melhor programa no sábado à noite, numa cadeia de estações chamada Mutual Broadcasting Network, da meia noite e seis minutos até às cinco da manhã um programa ao vivo. Eram magníficos e muito, muito maus, para o meu sono. Só anos mais tarde é que ele passou para a televisão com a CNN.

Em Portugal, só a estação TSF se aproxima vagamente desse formato (e por isso a escuto mais que as outras todas juntas) e mesmo assim, tirando raras excepções, não é uma estação de talk radio. Nem sequer de notícias é: quando houve um tremor de terra de 6.0 na escala Richter há umas semanas no continente português, eles continuaram a transmitir música gravada como se nada se tivesse passado até ao cimo da hora, quase meia hora depois do safanão. E quando dão notícias, repetem a mesma lenga-lenga ad aeternum, que deve ser para os que tinham os ouvidos entupidos há cinco minutos atrás. As entrevistas são pouquíssimas para o que podiam fazer e demasiado curtas.

Mas o que me irrita mais é que passam música. E com que critérios não sei. Tanto se lhes dá para uma balada dum roqueiro qualquer, como uma salsada moderna que eu não conheço e que, sinceramente, pagaria para não ouvir. Quando começa aquela mistórdia musical sem eira nem beira, tenho o problema adicional que é que o meu velho e delapidado carro tem um rádio que não muda de estação facilmente. Tenho que andar aos murros nos teclados até me aparecer outra estação, e em geral as escolhas são de fugir. Outro dia apanhei umas beatas a rezar o terço vez após vez na Rádio Renascença.

O que me surpreende (e já volto à música). Qualquer vertebrado pensante já se deve ter apercebido do que aconteceu ao mundo nos últimos dez anos. Toda a gente praticamente tem acesso quase gratuito exactamente, precisamente, aos tipos de música que gosta de ouvir. Poder gravá-la via computador ou por uma variedade de meios, e estar uma vida a ouvir Amália, o Frank, o Puccini ou lá o que quiserem é uma banalidade da vida actual. As audiências fragmentaram-se e portanto quem continua a apostar em programação generalista está a dar – na minha humilde opinião – tiros para o ar.  A vantagem de uma talk radio é que é barata, tragável se bem gerida e eu acho que muita gente havia de gostar de ouvir programas interessantes.

E note-se – surpresa – é em português. Feita por portugueses. Como este blogue.

Claro que há uma coisa que em Portugal não funcionaria – e eu suspeito que é por isso que verdadeiramente não há talk radio em Portugal. É que para se ter bom talk radio tem que haver lá gente com cor e com cabeça. E em Portugal regra geral quem tem cor não tem cabeça, e quem tem cabeça não tem cor (nenhuma). É qualquer coisa étnico-cultural daqui. E  em Portugal quase todos vivem para pretender que têm cabeça, mesmo que não tenham. Por exemplo, nunca vi país na terra com mais carros pretos, cinzentos escuros e azuis escuros como este.  Se se for a um centro comercial num domingo numa tarde de inverno, presume-se que todos vieram de um funeral, quer pela cor sorumbática da roupa, quer pela atitude sério-sorumbática das multidões. O português não consegue rir para quem não conhece à sua volta. Deve ter medo que lhe levem os dentes.

Pior ainda, nenhum meio de comunicação social em Portugal regra geral aposta em “personalidades” – a não ser que sejam cómicos gays (na base de que é impossível serem levados a sério) pois que essas são para matar na primeira oportunidade.

A verdade é que, para se ser personalidade, um requisito básico é que tem que se a ter. E tê-la, neste país, significa que, mais cedo ou mais tarde, tem que se dizer esta ou aquela verdadinha que vai infalivelmente seriously piss off o sôr ministro ou o rei da batata frita, que telefona ao patrão da estação a insultar o gajo ou então, como agora está na moda, telefona a uma qualquer holding chamada  Going On, que compra a estação (como faz o patego estúpido do anúncio do Euromilhões) e mete lá um mentecapto a fazer relatos de touradas. Como os portugueses individualmente são seres humanos sublimes mas no agregado são um fenómeno keynesiano de estupidez colectiva induzida exponencial, comem, comem e calam.

Aliás, regra geral o consumidor e o cidadão aqui quase sempre come e cala. Com tudo. Os professores são incompetentes? come e cala. O supermercado vende batatas que apodrecem em dois dias? nimguém vai andar de carro 20 minutos em bichas até ao supermercado fazer o gerente comer as batatas que vendeu. O médico não parece saber o que faz? paga-se e não se bufa. O défice este ano vai estoirar? para o ano há-de ser melhor, alguém que resolva. O vizinho do lado não paga as cotas do condomínio há três anos e comprou um carro novo há dois meses? não esquecer de fazer sempre aquele estranho (e unicamente português) cumprimento simpático mudo à saída no corredor a dizer “olá!” mas que na realidade significa “ó meu grandessíssimo filho da puta como estás tu?”

Por tudo isso, frequentemente sinto que, como os meus concidadãos, o colectivo português vive um quotidiano de entrelinhas acinzentadas, sempre resguardado, sempre à espera da próxima catanada, da próxima sacanice, ou da próxima oportunidade de obter algo em troca de nada, sendo a base da felicidade quando não se leva com ela mais vezes do que é normal, ou quando se constata que os outros (e os outros são todos os outros menos os “amigos”) estão pior que nós. Sendo que o normal é levar com as desgraças em cima. Aí, tem-se pena.

Ah, adoro estas generalizações. É tudo mentira, não é? ok.

E nesta questão da desgraça, o país tornou-se num esquema de pirâmide: a sujeira estes dias democratizou-se, vai do mais baixo ao mais alto nível da sociedade.

Voltando ao rádio, o tema que gostava de fechar aqui. De há uns meses para cá, nas vezes quando me deu para escutar a tal de TSF, comecei a reparar em três coisas.

A primeira, foi que começaram a passar música portuguesa com uma frequência suspeita. Ao princípio pensei que se tinham enganado, que tinham posto a senhora da limpeza a tomar conta da estação, ou que tinham ficado estúpidos e não tinham reparado no ecletismo das suas audiências. Em Alcoentre toda a gente sabe que o que vende é música pimba, fados e a as canções da Ágata a chorar o milésimo desgosto de amor sobre o homem da vida dela que (para variar) se pirou pela vigésima vez com a empregada ucraniana. Em Cascais e Lisboa já não é bem assim. Ainda por cima, as músicas que tocam, que são medíocres quase sem excepção, são de gente que não conheço, cujo estilo não gosto e cujas mensagens nada me dizem.

A segunda coisa que reparei, e que me deixou ainda mais apreensivo, foi que, mesmo quando mudava de estação, acontecia o mesmo, ou seja, levava com uma espécie de música pimba de vanguarda, e habitualmente a mesma que estava a dar na TSF.

A terceira, e de longe a mais desconcertante, foi quando me apercebi que, juntamente com a música pimba de vanguarda portuguesa, começaram a juntar-lhe a mesma gente, mas desta vez ou a tocar em ou em inglês, ou ainda mais surpreendemente, começaram a passar músicas americanas e inglesas, tocadas em inglês, mas por portugueses (!).

Não sei como explicar ao exmo leitor o que é ouvir o these boots are made for walking (a grande canção de Nancy Sinatra, sff de ver em cima) cantados vinte vezes na TSF, pela actriz Maria de Medeiros, irmã da agora deputada socialista residente em Paris e que vem a Lisboa de vez em quando receber o taco e atender as sessões do parlamento. Ou as baladas britânicas do jovem David Fonseca, simpático e esforçado mas para mim uma versão cultural do que é o milho transgénico para a alimentação.

Pois só a noite passada é que esclareci este mistério. Afinal eu não estava a alucinar. É que os poderes constituídos aqui do burgo, em 2006, passaram uma lei qualquer a obrigar as estações de rádio portuguesa a passar 25 a 40 por cento da música que vai para o ar por….. leia-se (decalco de uma peça da RTP):

A lei da Rádio determina que as rádios estão sujeitas ao cumprimento de quotas no que respeita à programação de música portuguesa, que uma portaria de Abril de 2007 fixou em 25 por cento.

O cálculo das percentagens é apurado mensalmente e tem como base o número de composições difundidas por serviço de programas no mês anterior.

A lei estabelece ainda que 60% da emissão de música nacional deve ser preenchida por música composta ou interpretada em língua portuguesa por cidadãos dos Estados membros da União Europeia.

A lei prevê o pagamento de coimas entre os 3 e os 15 mil euros para as estações locais e entre 30 e 50 mil euros nas estações nacionais.

Quando eu vivia fora de Portugal, achava alguma piada e respeitava o facto de que as estações que emitiam para as comunidades portuguesas, quase só passavam fados, música pimba e aqueles clássicos do tempo da Maria Cachucha. Pois era aquilo ou o vasto mar estrangeiro que nos rodeava. Agora, que se tenha importado o costume e que se tenha dele feito lei em Portugal é que foi novidade. Ou seja, em vez dos artistas daqui competirem honestamente pelo privilégio de me tentarem impingir a sua arte, o governo da república socialista portuguesa espeta-nos como uma espécie de IVA cultural em cima e somos obrigados a comer o que nos servem.

Mas como gente como eu não aguenta aquilo, e usando as regras impostas, inventou a música estrangeira, cantada em língua inglesa, por portugueses.

Já não bastava a porcaria do acordo ortográfico e os subsídios aos famosos filmes nacionais que rigorosamente ninguém vê. Esta liberdade socratiana está-se a revelar um verdadeiro assombro cultural.

Felizmente, há a minha teimosia em fazer o que me apetece e a tecnologia. Imitei o que qualquer teenager português hoje faz sem sequer pensar. Por cinco euros e 99 cêntimos, recentemente comprei uma espécie duma cassete com um fiozinho, que liga o meu velho rádio a um aparelhinho que cá se chama um MP3 (mas que na realidade é um MP4), onde gravei na internet não sei quantos gigabytes de: Sinatra, Nat King Cole, Chico Buarque, Óscar Peterson, Walter Wonderley, The Beatles, Mozart, etc etc etc. Até lá tenho o Poker Face da Lady Gágá.

E agora, quando acabam as notícias da TSF no meu carro, a programação passou a ser a minha. Em casa, pela internet e o computador, oiço a LM Radio a partir de Maputo.

Isto antes que eu comece a ouvir a Maria de Medeiros a arranhar o My Way do Frank numa estação portuguesa.

Bie, bie, TSF.

03/02/2010

SOBRE MÁRIO CRESPO

por ABM (Alcoentre, aos 3 de Fevereiro de 2010)

Mário Crespo, o único anchor a sério de uma cadeia de televisão que existe em Portugal em 2010 (made in Moçambique, ao contrário do outro, que é bom mas nada que se compare) escreveu um artigo de opinião muito sério que um jornal da cidade do Porto se recusou a publicar, pelo que ele saiu num obscuríssimo canto duma obscura fundação por obscura razão. Parece-me que o  jornal do Porto perdeu um furo dos antigos. Vá-se lá entender.

O que ele escreveu:

Terça-feira dia 26 de Janeiro. Dia de Orçamento. O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa. Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil (“um louco”) a necessitar de (“ir para o manicómio”). Fui descrito como “um profissional impreparado”. Que injustiça. Eu, que dei aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal. Definiram-me como “um problema” que teria que ter “solução”. Houve, no restaurante, quem ficasse incomodado com a conversa e me tivesse feito chegar um registo. É fidedigno. Confirmei-o. Uma das minhas fontes para o aval da legitimidade do episódio comentou (por escrito): “(…) o PM tem qualidades e defeitos, entre os quais se inclui uma certa dificuldade para conviver com o jornalismo livre (…)”. É banal um jornalista cair no desagrado do poder. Há um grau de adversariedade que é essencial para fazer funcionar o sistema de colheita, retrato e análise da informação que circula num Estado. Sem essa dialéctica só há monólogos. Sem esse confronto só há Yes-Men cabeceando em redor de líderes do momento dizendo yes-coisas, seja qual for o absurdo que sejam chamados a validar. Sem contraditório os líderes ficam sem saber quem são, no meio das realidades construídas pelos bajuladores pagos. Isto é mau para qualquer sociedade. Em sociedades saudáveis os contraditórios são tidos em conta. Executivos saudáveis procuram-nos e distanciam-se dos executores acríticos venerandos e obrigados. Nas comunidades insalubres e nas lideranças decadentes os contraditórios são considerados ofensas, ultrajes e produtos de demência. Os críticos passam a ser “um problema” que exige “solução”. Portugal, com José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e com o executivo de TV que os ouviu sem contraditar, tornou-se numa sociedade insalubre. Em 2010 o Primeiro-ministro já não tem tantos “problemas” nos media como tinha em 2009. O “problema” Manuela Moura Guedes desapareceu. O problema José Eduardo Moniz foi “solucionado”. O Jornal de Sexta da TVI passou a ser um jornal à sexta-feira e deixou de ser “um problema”. Foi-se o “problema” que era o Director do Público. Agora, que o “problema” Marcelo Rebelo de Sousa começou a ser resolvido na RTP, o Primeiro Ministro de Portugal, o Ministro de Estado e o Ministro dos Assuntos Parlamentares que tem a tutela da comunicação social abordam com um experiente executivo de TV, em dia de Orçamento, mais “um problema que tem que ser solucionado”. Eu. Que pervertido sentido de Estado. Que perigosa palhaçada.

O que eu acho que Mário Crespo na verdade queria dizer em vez do que escreveu em cima (ou complementarmente):


http://www.youtube.com/v/QQs316I1awE&hl=en_GB&fs=1&


Eu sei como é.

05/01/2010

White Trash

Filed under: África do Sul, Politicamente Correcto, Racismo — ABM @ 2:50 am
Foto 5 de Roger Ballen - Dresie e Casie, irmãos gémeos, Transvaal Ocidental, 1993

Foto 5 de Roger Ballen - Dresie e Casie, irmãos gémeos, Transvaal Ocidental, 1993

por ABM (Cascais, 4 de Janeiro de 2010)

Ora hoje começa a semana, o ano e a década.

O estatuto de membro do Maschamba tem as suas (poucas) benesses. Assim, generosamente, o JPT enriqueceu a minha mais do que dúbia colecção bibliográfica, oferecendo-me a semana passada um livrinho de fotografias tiradas por Roger Ballen, aparentemente mais uma celebridade de quem, na minha usual e algo indiferente ignorância, nunca tinha ouvido falar. “Afenal”, ele até tem um canto na internet e uma fundação (uma fundação?).

Para além da arte, da qualidade e do estilo, Ballen, que supostamente vive na África do Sul há muitos anos, teve a iniciativa de ter saído algumas vezes do seu indubitavelmente requintado atelier em Joanesburgo até à África do Sul “profunda”, para tirar umas fotografiazitas a alguns dos brancos mais feios que eu já vi na minha vida – aquilo a que nos Estados Unidos se chama normalmente white trash.

O livrinho ofertado pelo Senador JPT tem 64 fotografias, a esmagadora maioria delas sobre o supracitado tema (edição Photo Poche Societé da Natahan, 1997), qual delas a mais assustadora – de uma forma mais ou menos simpática, em que se vislumbra a beleza do feio – e que, presume-se, desafia alguns dos conceitos convencionados sobre os cidadãos brancos daquele país vizinho de Moçambique, que para o observador casual invariavelmente parecem ser estupidamente ricos, estupidamente bonitos e estupidamente bem apetrechados com Porsches, BMW’s, barcos a motor para levarem para a Ponta do Ouro, Inhambane e Xai-Xai e casas de sonho.

Os tais que quando vêm a Moçambique dizem, em inglês, desconcertantemente para o local, I am coming to Africa.

Até 2000, apesar da proximidade geográfica e de quatro dos meus irmãos terem estudado em Nelspruit, Sabié e Belfast, antes da independência apenas estive lá uma manhã, em 1968 (só me lembro da secção dos rebuçados e dos chocolates do OK Bazar) e mais uma semana, em 1984, quando, um nadinha mais desperto para a vida, passei lá uma semana antes de visitar Moçambique pela primeira vez depois da Independência.

Dessa segunda vez, já meio americanizado, fazia algumas perguntas indiscretas aos brancos com quem contactei, que manifestamente não estavam lá muito confortáveis com a situação mas que repetidamente me diziam oh, but we love our blacks! Boa sorte, desejei-lhes eu a todos, de todas as cores, e meti-me de volta no avião para Nova Iorque.

Em 2001, temporariamente a residir em Maputo e após ter feito a descoberta de que se se for de carro directo de Maputo pela estrada N4 na direcção Oeste, se vai dar a Pretória e a Joanesburgo, um dia pus-me à estrada para visitar a casa, no centro de Pretória, onde vivera o incontornável Paul Kruger, presidente do Transvaal entre 1880 e 1900, quando se pirou para a Europa via Lourenço Marques, após o exército inglês ter invadido a sua capital.

Curiosamente, Kruger hoje é recordado pelo (para mim, insípido) facto do seu nome adornar o parque animal que fica na fronteira com Moçambique, um estratagema de charme então congeminado pelo verdadeiro fundador do parque há uns cem anos, um pouco como se fez com a Guebuza Square naquele centro comercial indescritível na baixa de Maputo.

Ao entrar de carro em Pretória, prontamente me perdi e andei às voltas até que à direita duma rua vi o que me pareceu um centro comercial numa área que obviamente era um reduto africaner na cidade. Fui lá para comprar uma Coca-Cola e pedir direcções para a casa de Kruger. Ao estacionar o carro no parque, veio um boer, obviamente muito pobre, mas muito sério e profissional, com um vago ar de agente da Pide, pedir-me dinheiro (em Afrikaans) para guardar o carro.

Dentro do centro comercial, que tinha um ar meio delapidado mas limpo, mais brancos pobres a pedir esmola. Ali dentro só se falava afrikaans (para informação do exmo leitor, eu só sei dizer cac, boerewors e dankie em afrikaans). Na caixa à minha frente estava um casal de boers de idade, obviamente reformados e pouco abonados, a fazer as contas para pagar meia dúzia de coisas para comer (não tinham o dinheiro suficiente e um pacote de manteiga teve que ficar para trás).

Claramente, aquilo para mim, que não conhecia lá muito bem a África do Sul, foi, posso dizer agora, um “momento Roger Ballen”.

Aliás, foi mais do que isso. É que em tempos, na universidade Brown e sob a tutela magistral do meu velho e querido professor de ciência política, Newell Maynard Stultz (então casado com uma sul-africana branca) estudei algumas coisas sobre a evolução do sistema político sul-africano – o que se publicava então (e aqui está uma crítica a um dos seus livros).

E um dos elementos fortes do que nos anos 30 e 40 do século passado se passou teve que ver, para além daquela vaga mania de que Deus lhes tinha dado a África do Sul em testamento e do eterno amor-ódio entre os boers e os sul-africanos de extracção britânica, de um quase prodigioso esforço de educação, de urbanização e de apoio, entre os próprios boers, que em parte explica (minha óptica) muitas das barbaridades que mais tarde se tornaram peças fundamentais do apartheid. Pois até aos anos 40, com a excepção da comunidade boer do Cabo, a maioria dos boers era pobre, analfabeta e rural – tal e qual a quase totalidade da população negra naquele país naquela altura. Portanto parte do apartheid tinha por fim descriminar em favor desses boers pobres, rurais e analfabetos.

Contra quem, dou um rebuçado se o exmo. leitor descobrir.

Mas obviamente e naturalmente e ainda assim muitos ficaram pelo caminho, agravado pela mudança de regime e as sucessivas tentativas da Nova África do Sul de reverter décadas de privilégio e de colocar a população negra sul-africana, senão no centro das atenções dos poderes, pelo menos em pé de igualdade – com os ocasionais exageros da praxe.

Um desses episódios de algum exagero ocorreu em Novembro do ano passado, quando o segundo maior banco sul-africano – o Primeiro Banco Nacional – publicou na sua revista interna que a instituição iria disponibilizar bolsas de estudo aos filhos de todos seus empregados cujos rendimentos anuais fossem inferiores a cem mil randes (isso dá 8.333 randes por mês).

Excepto – literalmente – se eles fossem brancos.

Ou seja, na incompreensível complexidade do actual paradigma sul africano, as bolsas eram exclusivamente destinadas aos filhos dos funcionários “pretos”, definidos algures na lei como descendentes de africanos com a pele total ou parcialmente negra, indianos e chineses.

Uns dias depois a história estoirou nas primeiras páginas dos jornais sul-africanos e um sindicato sul africano acusou os seus responsáveis de serem racistas, mas agora contra os brancos.

O banco, pouco habituado a este tipo de controvérsias, lá teve que fazer um rápido passodoble de relações públicas, seguido de uma espécie de marcha-atrás meio repolhuda, com o seu CEO a tentar explicar que aquilo afinal correspondia ao que a actual lei exigia mas que, enfim, eles iam ver se era mesmo assim e se pudessem também dariam uma ajudinha aos filhos brancos dos seus empregados brancos que ganhavam menos que 8333 randes por mês.

Entretanto, algumas pessoas (do que vi maioritariamente brancas e com nomes que me parecem boers) até formaram um grupo no Fêicebúke para destilar o seu veneno.

O ponto da questão aqui volta a ser o do branco sul-africano pobre. Dantes descaradamente protegido e promovido pelo sistema, mas agora, talvez precisamente em memória do que aconteceu antes, deliberadamente descriminado, até ao detalhe de o segundo maior banco do país publicamente adoptar a política de negar bolsas de estudo aos filhos dos empregados brancos que auferem menos, apenas por os seus pais serem brancos.

Acho que, da maneira como as coisas andam, o Senhor Roger Ballen vai ter matéria abundante para as suas fotografias por mais uns anos.

Ademais, o ANC tem o azar de não ter sítio para lhes fazer uns 24/20.

23/12/2009

A Mensagem de Avatar

avatar-movie-picture-7

por ABM (Cascais, 23 de Dezembro de 2009)

A única vez que eu tinha visto um filme com a tecnologia 3D foi em 1989, quando, de visita a Los Angeles, vi um filme qualquer meio tépido na Disneylândia, sentado ao pé de (atenção) João Bosco Mota Amaral, que na altura ainda era o President-for-life dos Açores. O filme era tão bom que lembro-me melhor do João Bosco que do tema.

Portanto, especialmente após uma exortação monumental publicada na semana passada numa edição do diário lisboeta Público, que basicamente referia o recentemente lançado filme Avatar, realizado por um muito credenciado James Cameron como a segunda vinda de Cristo o Redentor a Hollywood, lá me decidi, após fazer as contas dos descontos da Lusomundo para bilhetes para crianças, reformados e com desconto por ter TV cabo em casa (portuguesices, suponho, mas que vêm a jeito nesta era de derrocada financeira) ir ver o filme.

Confesso que quando entrei na Sala 5 do cinema no Cascaisshopping não sabia que a produção era de ficção científica, pois só tinha visto uma fotografia de um tipo que parecia uma lagartixa meia azul.

Mas antes, uns comentários técnico-logísticos.

Sendo o filme em 3D, o exmo. leitor deve especificamente escolher um assento literalmente no meio da sala, nem para a esquerda, nem para a direita, nem para a frente, nem para trás. Eu fiquei muito atrás e perdi algum do efeito.

Segundo, se estiver num país em que tenha a sorte de não haver legendas em português (que foi o meu caso em Cascais City) tanto melhor. Como o filme é em 3D, ou seja, tem um efeito muito claro de profundidade, quando se inserem as legendas, no écrãn elas parece que ficam mais ou menos penduradas no meio do ar entre as pessoas, des-sintonizando os nossos olhos do efeito 3D. Mas aqui os nossos capatazes do cinema local chutaram para a frente com as legendas para dentro do filme e foi uma porcaria.

Terceiro, beba um cafézinho e vá à última sessão da noite, não à da tarde ou a sessão depois do jantar. É porque a essas vão aqueles meninos e meninas teenagers que chegam à sessão dez minutos depois dela começar sem saber onde é que se sentam, que falam alto uns com os outros em voz alta durante a sessão, que atendem os té-lé-lés, que mandam piadas sem piada uns aos outros sempre que acontece algo no filme, que comem as pipocas como porcos Pata Negra alentejanos na fase da engorda e que arrotam depois de um golo daqueles copos de Coca-Cola de litro e meio. Eu, que pertenço à geração que ia ao cinema em LM nos anos 60 e 70, ainda me lembro com inesgotável saudade do silêncio sepulcral que se fazia sentir nas salas quando as luzes se apagavam e começava a sessão, toda a gente já sentada, sem telefones, sem pipocas, sem meninos e meninas com a bicha solitária.

Ok, então o filme.

Tecnicamente, soberbo. A história pode ser lida a vários níveis, todos eles altamente politicamente correctos para os dias que correm. A acção passa-se num planeta chamado Pandora, em que uma firma qualquer anda a extrair um minério na zona onde vivem há tempos imemoriais em paz e harmonia, umas tribos meio primitivas estilo índios da Amazónia dos que se vêm nas revistas da National Geographic. O convívio entre a operação (mais ou menos uma mina a céu aberto) e os nativos está a ir de mau a pior mas os humanos têm a faca e o queijo na mão (ou seja, a tecnologia para dar cabo dos nativos todos em dez minutos). Mas havia um programazito meio desacreditado e tecnologicamente avançado, de tentar o diálogo entre os nativos e o pessoal da mina, que basicamente os queria dali para fora para que eles pudessem desventrar a terra e tirar o tal minério.

Pelo meio, a inescapável história de amor, a invariável constatação de Grandes Verdades e o rol de sacanices dos vilãos da praxe.

Após ver o filme, lembrei-me vagamente dos devaneios do filósofo Jean Jacques Rousseau e daquele episódio dos padres Jesuítas que no Brasil tentaram no século XVIII proteger os índios das investidas dos colonos portugueses, e o de inúmeros ecologistas e antropólogos que tentaram condicionar projectos de desenvolvimento principalmente no terceiro mundo, para proteger habitats, populações e as suas culturas. Na vida real, habitualmente todos falharam e a máquina da civilização hoje dominante, absorvedora de recursos e técnica e militarmente mais avançada, arrasa por completo tudo o que lhe aparece pela frente.

No filme, creio que só para variar, acontece o contrário.

O que é curioso, pois estamos a entrar numa fase da vida mundial em que já mais ou menos toda a gente percebeu que, irremediavelmente, já praticamente demos cabo da natureza, das culturas, dos recursos naturais. Em Copenhaga, andou tudo à estalada a ver quem pode poluir mais e quem vai pagar dinheiro a quem. Pois é. Vamos a ver como vai ser o nosso futuro. Mas para já, não estou lá muito optimista.

O filme de Cameron foi em parte muito discutido por uma razão completamente diferente. Porque aparentemente os meninos e as meninas hoje, em vez e aprenderem na escola e lerem uns bons livros de vez em quando (ou este blogue), passam os dias alegremente em casa uns dos outros ou, mais frequentemente, em casa a falar uns com os outros na internet, e a descarregar, sem pagar, todas as músicas, filmes e entretenimento que andam por aí. O resultado é que as editoras, os autores, as discográficas, os distribuidores de livros, música e filmes, estão a ir todos à falência (coitados).

No caso do cinema, dado que filmes representam complexos e caros projectos, a ausência de lucros é um verdadeiro beijo da morte. Assim, especula-se se o tipo de filme que Cameron fez – que só pode verdadeiramente ser saboreado num teatro de cinema com óculos 3D – poderá ser uma via para incentivar as pessoas a pagarem bilhetes para irem ao cinema em vez de ficarem em casa a piratiarem os filmes para verem nos seus computadores.

Quanto a isso, também vou esperar sentado.

11/12/2009

Best New Song

MEDAL Nobel-Prize

por ABM (Cascais, 11 de Dezembro de 2009)

Com o JPT em trânsito para a Europa e a Sra Baronesa para o seu retiro de verão em Goa, a loja ficou mais vazia esta semana.

Mas o mundo não parou. Ontem, sentado enquanto bebericava um espesso café com leite, assisti ao vivo na BBC à cerimónia de entrega, pelo Comité Nobel, do Prémio da Paz ao actual presidente dos Estados Unidos, Barack Hussein Obama.

Como muitos dos exmos leitores, cresci com os sucessivos anúncios das entregas dos prémios Nobel a uma variedade de personalidades, quase sempre tudo boa gente, merecedoras dos mais rasgados elogios, nunca deixando de achar curiosa a particularidade de ser uma prerrogativa da Suécia, um relativamente pequeno país escandinavo mais conhecido pelo seu clima inclemente, pela beleza das suas mulheres e pela qualidade dos seus automóveis (Saab e Volvo), gerir e atribuir estes prémios em relação à nata da raça humana. Fazem-no há mais que cem anos e toda a gente leva aquilo muito a sério.

Uma curta pesquisa leva-nos ao seu criador, Alfred Nobel, que na primeira chance pirou-se da Suécia e foi viver para a mais mediterrânica San Remo, com uns saltos a Paris, e ao seu testamento, onde, para além de umas massas valentes para um conjunto de pessoas de que hoje não reza a história (incluindo uns pós para os seus criados e o seu jardineiro – simpático) deixou um fundo estimado, na moeda actual, em cerca de 250 milhões de USD.

Isto supostamente porque Nobel, que enriquecera obscenamente com o negócio dos armamentos e explosivos, ficara horrorizado com a constatação do que se pensava de si quando, aquando da morte do seu irmão Ludwig em 1888, um jornal de Paris por engano ter publicado o seu obituário, intitulando-o le marchand de la mort est mort, elogiando-o mordazmente pelo seu feito de ter “encontrado melhores formas de matar mais gente mais depressa que nunca dantes na história”.

Seja como for, Nobel canalizou a maior parte do seu património para instituir os prémios (apenas cinco no início) que, depois de uma série de peripécias, começaram a ser atribuídos em 1901.

A nomeação de Barack Obama para o prémio Nobel da Paz de 2009 a meu ver só pode ser contabilizada contra o credo que Obama defende desde que decidiu concorrer para a presidência dos Estados Unidos e o que a sua eleição significou para o mundo, após dois mandatos de George W. Bush e o seu quase narcisismo nacionalista (para não falar do resto, incluindo a actual recessão). Pois que – como o próprio ocupou boa parte do seu discurso de aceitação a explicar, algo eloquentemente – nem ele tem obra feita, nem se pode omitir que é um presidente e comandante-em-chefe de um dos mais poderosos exércitos na história do mundo, envolvido em duas guerras violentas neste momento e a congeminar outras tantas.

Mais do que tudo, Obama sobressai pelos valores internacionais que defendeu – internacionalismo, cooperação, de querer tentar fazer coisas novas, de promover valores fundamentais por que, aliás, os Estados Unidos se bateram praticamente desde que ascenderam à cena internacional entre a I e a II Guerras mundiais, tais como a democracia e os direitos humanos. E uma causa relativamente nova – a preservação do ambiente.

Num mundo cada vez mais globalizado e à beira de um ataque de nervos após oito anos de Bush, ainda por cima vindo do primeiro presidente mulato de um país que até recentemente lutava contra os demónios da descriminação racial e com uma história atribulada no cumprimento da sua promessa de igualdade para todos e ascendência com base no mérito, o surgimento algo inesperado deste homem na cena internacional – um mundo cada vez mais globalizado de cidadãos não brancos, terá sido uma inspiração para muitos. Vagamente reminiscente do que foi a atribuição do mesmo prémio ao grande Nelson Mandela (conjuntamente, para quem já não se lembra, a um muito menos celebrado mas igualmente meritório Frederick de Klerk) em 1993.

Mas, convenha-se dizer, se isto fossem os Prémios MTV, Obama nesta altura teria ganho apenas o prémio “Best New Song”.

Ademais, não sei se repararam que no seu longo discurso ele não disse praticamente nada sobre o Médio Oriente, a quase permanente dor de cabeça do mundo desde que acabou a II Guerra Mundial e que promete novas violências.

A ver vamos no que isto vai dar.

Create a free website or blog at WordPress.com.