THE DELAGOA BAY REVIEW

29/03/2011

A IGREJA, O ESTADO E O ENSINO COLONIAL, POR FILIPE ZAU

A fachada da catedral de São Pedro no Vaticano.

Com vénia, reproduzo em baixo um interessantíssimo artigo publicado no Jornal de Angola (Luanda) de hoje. Sendo o seu enfoque primário Angola, não deixa de conter informações transversais ao que se passou um pouco por todo o império colonial português.

O autor é o Doutor Filipe Zau, que, segundo indica o jornal, é doutorado em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais.

Segue o texto, tal como publicado, incluindo o título original da peça.

A IGREJA NA LUTA PELA INSTRUÇÃO E A INDEPENDÊNCIA

Quando a administração colonial, após o início da luta armada em Angola, pôs fim à Lei do Indigenato, incrementou a rede de escolas públicas e procurou aumentar o número de professores, alterou de forma significativa o índice de escolarização na colónia, sem que essa evolução positiva tivesse satisfeito as necessidades de aprendizagem da maioria da população angolana, nomeadamente, em áreas rurais.
Entre 1964 e 1969, formavam-se, em média por ano, nas escolas do magistério existentes, cerca de cem professores primários, o que era manifestamente insuficiente.

Em 1973, o número de alunos, em todo o ensino primário, correspondia a 512.942, um terço dos quais portugueses. Apesar do enorme esforço levado a cabo pela administração colonial, de um momento para o outro tornava-se impossível recuperar o tempo perdido. Para além disso, os sistemas educativos são incapazes de dar respostas imediatas e eficientes às expectativas políticas de curto prazo. A formação de professores e gestores educacionais de qualidade é sempre demorada e, como refere António Nóvoa, “não há ensino de qualidade, nem reforma educativa, nem inovação pedagógica, sem uma adequada formação de professores”.

Um ensino religioso

Salvo as iniciativas levadas a cabo pelo manicongo Mvemba-a-Nzinga de formar núcleos escolares no reino do Congo, em Angola não havia uma tradição de ensino sistematizado e o número de pessoas cultas ou que desejavam cultivar-se era ínfimo. A maior parte dos portugueses residentes em Angola passava os anos a amealhar um pecúlio que lhes permitisse viver desafogadamente na metrópole, de onde, muitas vezes, não saíam as mulheres, nem os filhos.

No início do século XIX, as missões encontravam-se em franca decadência, sendo, em 1834, extintas as ordens religiosas. Por essa altura, em Luanda, só havia um padre capuchinho e um carmelita.
Antes da primeira metade do século XIX, o ensino estava entregue aos jesuítas e o esforço para estabelecer o ensino público foi infrutífero. De recordar que, pela Lei de 3 de Setembro de 1759, o marquês de Pombal mandou extinguir a Companhia de Jesus, o que colocava, desde logo, os ensinos primário, industrial e agrícola sem mestres e ao abandono. O decreto de 15 de Dezembro de 1856 abriu novas oportunidades aos sacerdotes europeus para paroquiar nas igrejas de Angola e Moçambique, proporcionando, entre outras regalias, passagens, ajudas de custo, aumento de gratificações e um excedente para o serviço de ensino.

No dia 7 de Abril de 1857, o Conselho Ultramarino, que havia incluído o apostolado missionário nas suas actividades, abriu concurso para o provimento das diferentes igrejas de Angola. Os párocos serviam durante oito anos, eram colocados em freguesias do litoral e do sertão angolano e, cumulativamente, exerciam o ensino primário.

Em resultado deste concurso chegaram a Angola, em 1858, os primeiros oito párocos europeus para serem colocados nas paróquias do Bembe, S. José do Ambriz (cuja ocupação militar se havia confirmado, apenas, em Maio de 1855), Huíla e Cassange, nas freguesias de S. João Baptista de Gazengo, Santo Hilarião do Golungo Alto, Benguela e Pungo Andongo. No novo concelho de Malange foi colocado um cónego africano, de nome Necessidades, que ali veio a falecer em Junho seguinte.

No dia 14 de Abril de 1861, tomou posse da Diocese de Angola o Bispo D. Manuel de Santa Rita Barros, que desembarcou em Luanda, no dia 2 de Setembro, trazendo consigo párocos, cónegos, professores e 12 ordinandos, uns do Seminário Patriarcal e outros do Seminário de Cernache do Bonjardim, com destino à frequência do Seminário Diocesano, que, nos princípios de Novembro, abriu no Edifício do Paço, antigo Colégio de Jesus. Em relatório apresentado pelo padre José Maria Antunes, em 1 de Dezembro de 1894, levado ao exame da Junta Geral das Missões, estas deviam distanciar entre si, em média um grau no sentido ocidente-oriente e dois graus no sentido norte-sul.

Havia, à época, ainda segundo Martins dos Santos, quatro centros de missões já solidamente estabelecidos: Malange e Caconda, desde 1890, Cassinga (1886), e Huíla (1881). Malange era a missão central e dali irradiaram os missionários para fundarem as missões do Libolo (1893), Mussuco (1900), Bângalas (1913), Cacuso (1925), Minungo (1929), Saurimo (1930), Mussolo (1937), Salazar (Ndalatando) (1937), Dembos (1938), Dundo (1940), Cazanga (1941), Lombe (1946), Chiengue (1950) e Quibala (1951).

De Caconda irradiaram para estabelecer as missões de Cachingues (1892), Bailundo (1894), Vila da Ponte (1894), Huambo (1910), Sambo (1912), Cúchi (1912), Galangue (1922), Mupa (1923), Ganda (1927), Omupanda (1928), Bimbe (1929), Quipeio (1933), Balombo (1933), Andulo (1933), Silva Porto (Cuito) (1934), Nova Lisboa (Huambo) (1935); Caála (1935), Nova Sintra (1936), Entre-Rios (1939), Cuamato (1940), Caiundo (1940), Vila Junqueiro (1940), Baixo Cubango (1940), Chinguar (1942), Canhe (1942), Mungo (1948), Bela Vista (1948), Bundas (1950) e Nharea (1950).

Da Huíla, as missões do Jau (1889), Chivinguiro (1892), Quihita (1894), Gambos (1897), Munhino (1898), Chipelongo (1902), Vimania (1902), Chiúlo (1916), Sá da Bandeira (Lubango) (1935) e Quilengues (1938). De Lândana, as missões de Cabinda (1891), Luáli (1890-1892), Lucula (1893), Lunuango (1902), Maiombe (1922), Santo António do Zaire (1930) e Ambrizete-Tomboco (1935).

Em 1901, destacavam-se os padres do Espírito Santo, que tinham a seu cargo, na então colónia de Angola, as missões seguintes: Lândana, Cabinda, Luáli, e Lucula, no distrito do Congo. Luanda e Libolo, no distrito de Luanda. Malange, Canâmboa e Mussuco, no distrito da Lunda. Caconda, Bailundo, Bié, Catoco, Cassinga e Massaca, no distrito de Benguela. Huíla, Munhino, Chivinguiro, Jau, Quihita, Gambos, Cubal e Cuanhama, no distrito de Moçâmedes.

O clero nativo

Afirma também Martins dos Santos, que as tentativas para remediar o défice de missionários com a ordenação de um maior número de sacerdotes africanos, acabaram por não corresponder às expectativas, uma vez que eram considerados incapazes de exercer a influência necessária junto dos seus compatriotas. “Estes viam-nos com certa desconfiança, considerando que fossem mandatários servis dos brancos, membros renegados e degenerados da sua raça ou da sua tribo”. Os europeus não aceitavam a orientação religiosa dos padres nativos, consequentemente, os seus ensinamentos eram menosprezados.

De facto, a preparação eclesiástica do clero nativo era deficiente, já que as aulas e os próprios cursos não funcionavam com regularidade, uma vez que não existia seminário. Chegou-se a acusar o bispo de ordenar padres que liam mal e compreendiam o latim litúrgico com dificuldade. Os sacerdotes africanos eram pura e simplesmente considerados analfabetos, o que os fazia sentir diminuídos face aos seus colegas europeus. Estes, por sua vez, não se mostravam razoáveis e compreensíveis. Bem pelo contrário, acentuavam mais as diferenças que os separavam dos sacerdotes africanos que sentiam ainda a dificuldade de se divorciar dos seus hábitos e costumes culturais, alguns deles, incompatíveis, na altura, com a forma de estar exigida pela Igreja Católica. Como Angola não possuía condições que permitissem a preparação intelectual e religiosa dos candidatos ao sacerdócio, procurou-se ultrapassar este obstáculo enviando jovens seminaristas para a Europa e Brasil.

O decreto de 23 de Julho de 1853 criou o Seminário Episcopal de Luanda com o fim de apoiar as dioceses de Angola e S. Tomé, servir de hospício aos missionários e suprir a falta de liceu e demais aulas públicas. Mas apenas no dia 29 de Junho de 1910, D. João Evangelista de Lima Vital conferia ordens de presbítero a dois alunos do seminário diocesano, ambos negros, os primeiros de um primeiro viveiro eclesiástico. Em 50 anos, apenas cinco padres tinham sido ordenados em Angola.

Acordo missionário

Em 7 de Maio de 1940 foi assinado na cidade do Vaticano, pelos plenipotenciários do Pontífice Pio XII e do Presidente da República Portuguesa, a Concordata, para a metrópole e, integrada nela, o Acordo Missionário, para o Ultramar. Este nos seus artigos 3º, 6º, 66º-69º e 81º fala de “indígenas”, “população indígena”, “pessoal indígena”. O artigo 66º estabelece que o “ensino especialmente destinado aos indígenas deverá ser inteiramente direccionado ao pessoal missionário e aos auxiliares”. Permite o uso da “língua indígena” somente no ensino da religião (Art.69º). A Concordata tolerava, de “harmonia com os princípios da Igreja”, o uso da “língua indígena” no ensino da religião católica (Art.16º). A mesma Concordata discriminava escolas para os indígenas e europeus (Art. 15º) e destacava a “evangelização dos indígenas” (Art.º 19). Mais tarde, a Lei do Indigenato entendia o uso dos “idiomas nativos” no ensino somente como instrumento de difusão da língua portuguesa: “O ensino a que se refere este artigo procurará sempre difundir a língua portuguesa, mas, como instrumento dele, poderá ser autorizado o emprego dos idiomas nativos». [LEI DO INDIGENATO, Decreto-Lei nº 39.666, suplemento ao Bº 22, 1ª série, de 31/05/1994, art. 6º, § 1].

Estes e outros factos tiveram influência na posição pró-independentista de uma parte do clero africano: o cónego Manuel das Neves e os padres Joaquim Pinto de Andrade, Martinho Samba Lino Alves de Guimarães e Domingos Gaspar, que foram presos pela PIDE. Igual destino teve o cónego Manuel Franklin da Costa e os padres Vicente José Rafael e Alexandre do Nascimento, que também foram nesse ano exilados para residirem em instituições religiosas na metrópole.
A prisão do cónego Manuel das Neves, no dia 21 de Março de 1961, deixou o Arcebispo de Luanda, D. Moisés Alves de Pinho, bastante preocupado: “Para os africanos, tudo o que não seja protestar contra a prisão de padres nativos e de numerosos leigos detidos pela PIDE, tudo o que não seja reconhecer-lhes direito à independência, e isso já, sem demora, desagradará. Quanto ao elemento europeu, por sua vez, desejará a afirmação sob o ponto de vista governamental, desejará a consagração da política de integração. Não o fazendo vamos passar por estar incondicionalmente ao lado dos africanos e contra o Governo.”
Os sacerdotes exilados entregaram ao Núncio Apostólico em Lisboa, em Outubro de 1963, uma missiva onde diziam o seguinte: “nós sabemos que a emancipação de Angola se há-de efectivar, cedo ou tarde, com ou sem a Igreja. Porém, ­perante este dilema, sem deixarmos de ser angolanos, o nosso sacerdócio não tolera a indiferença, tanto mais que a perspectiva “sem Igreja” facilmente se converte em “contra a Igreja”, quando em situações idênticas, a Igreja não se insere, no momento devido, mediante os seus cristãos nos “ventos da História”. Neste espírito de apostolado, sofremos a prisão, o exílio, as torturas físicas e morais, as incompreensões, o desprezo, as acusações tão falsas como ignóbeis, as difamações mais maquiavélicas, o abandono e as restrições nas próprias liberdades sacerdotais. E esta situação eterniza-se sem esperança de solução.”

O ensino público

Complementarmente aos 100 professores primários anualmente formados, eram, também, em cada ano, preparados 200 “monitores escolares”, que tinham como habilitações literárias apenas a 4ª classe. Em 1971, estes “formadores” correspondiam a mais de dois terços de todos os docentes existentes nas zonas rurais. Um pouco melhor preparados para a docência estavam os “professores de posto”, que também eram escassos para cobrirem as necessidades da instrução primária em Angola. Nesta conformidade, facilmente se reconfirma que, desde a implantação do ensino oficial em Angola, a 14 de Agosto de 1845, até ao início da luta armada em 1961, o ensino primário não estava dirigido às populações africanas, salvo para os que estivessem minimamente associados a uma matriz cultural urbana.

Durante o Governo de Transição, através do decreto de 25 de Junho de 1975, foram revistos os vencimentos do pessoal docente do ensino primário em Angola. Segundo Martins dos Santos, “(…) deu-se satisfação a velhas aspirações, aumentando o vencimento a auferir e subindo estes servidores públicos na escala do funcionalismo. A publicação deste diploma era a prova cabal de que, até então, se não tinha querido a sério resolver certos problemas, mantendo um sistema injusto e revoltante, que de algum modo contribuiu para o desprestígio e aviltamento da classe. Merecem ser fixados os nomes dos governantes que intervieram na elaboração do decreto e que o subscreveram: Johnny Pinnock Eduardo, primeiro vogal do Colégio Presidencial; Lopo Fortunato Ferreira do Nascimento, membro do Colégio Presidencial; José N’Dele, também membro do Colégio Presidencial; Jerónimo Elavoco Wanga, titular do Ministério da Educação e Cultura; Saidy Vieira Dias Mingas, do Ministério do Planeamento e Finanças; António da Silva Cardoso, Alto-Comissário de Portugal em Angola”.

(fim)

15/10/2010

MOÇAMBIQUE, PORTUGAL E A GUERRA ANGLO-BOER DE 1899-1902

Uma família boer rural, cerca de 1886

por ABM (15 de Outubro de 2010)

Numa Pesquisa que fiz a semana passada e relacionada com a Rua de Bagamoyo (preteritamente conhecida como Rua Araújo), descortinei alguns dados dispersos que compilei para a nota que se segue. Alguns factos são mais conhecidos que outros, mas pode ser que a compilação faça leitura interessante.

Além disso, é sexta-feira – e fim de semana!

A Guerra Anglo-Boer de 1899-1902

A grande guerra Anglo-Boer de 1899-1902 foi um conflito titânico, estranho, sinistro, opondo o vasto poderio do império britânico, então no seu pico, e duas minúsculas repúblicas “brancas” fundadas na distância possível da então britânica Colónia do Cabo, mas situadas mais ou menos do outro lado da então recentemente delimitada fronteira moçambicana (que corresponde aproximadamente às delimitações actualmente em vigor entre Moçambique e a África do Sul).

Na fronteira acabada de delimitar entre Moçambique e a República Sul-Africana (boer), cerca de 1891. Na imagem, os senhores em primeiro plano são uma delegação de Gungunhana. Os elementos da nação-estado moderna, importados da Europa, em estranha coexistência com a tradição imemorial africana.

No pico do conflito, que na altura seria, em termos mediáticos o equivalente nestes dias do que os Estados Unidos andam a fazer na região do Iraque-Irão-Afganistão desde há meia dúzia de anos, a Grã-Bretanha tinha no terreno na África do Sul cerca de quinhentos mil homens em armas.

Contra quem? Se se partir do princípio que as populações negras no Sul de África eram basicamente ignoradas e não participavam no processo político (em termos militares, desempenharam um papel importante de suporte e de retaguarda, principalmente em relação aos britânicos, que mesmo assim para eles eram considerados apenas ligeiramente menos piores que os boers), as duas repúblicas boer, o Estado Livre de Orange (território que creio hoje mantém o nome e estutura territorial) e a República Sul-Africana (durante muitos anos conhecida como Transvaal e após o arranjo de 1994 foi reorganizada para o que hoje são as províncias de Mpumalanga e Gauteng), tinham, se muito, entre homens mulheres e crianças, cem mil pessoas a viver lá.

Mesmo em língua portuguesa, existem fantásticas histórias e análises sobre quase todos os aspectos deste que certamente foi um conflito acompanhado atentamente pela imprensa a nível mundial. E sobre as suas causas.

Curiosamente, depreende-se facilmente que os relatórios de imprensa e a opinião pública naquela altura dividiam-se claramente entre os paradigmas do apoio imperial pela visão da Pax Britannica, e o apoio pela legitimidade e irredetutibilidade do combate dos boers.

A todos os títulos, à partida era um verdadeiro desafio entre um David e um Golias.

Na minha humilde opinião, na base de tudo, estavam apenas alguns, simples, factores:

1. no território do Transvaal encontraram-se os maiores depósitos de ouro que o mundo jamais viram (num canto do Estado Livre de Orange situava-se Kimberley, um dos maiores depósitos de diamantes até então encontrados, achado que esteve na base da fortuna de Cecil Rhodes e a génese da empresa De Beers);

2. a herança da visão imperial de Cecil Rhodes, um dos mais célebres colonialistas britânicos, perante a qual, tal como acontecera com Portugal anos antes ao ser corrido do que é hoje o Zimbabué, a soberania boer era simplesmente inaceitável em última instância.

E

3. um ódio declarado e visceral dos boers em relação aos britânicos, que simplesmente não os deixavam viver em paz e sossego.

Já em 1880-1881 os boers, que eram essencialmente agricultores (é que que quer dizer boer em português- a palavra diz-se “búer”) e que quarenta anos antes haviam formado as repúblicas para escapar ao jugo inglês mais a Sul na Colónia do Cabo (onde mesmo assim permaneceu durante muitos uma maioria boer que as apoiava moral e materialmente), tiveram um primeira guerra para reafirmar a sua independência em relação ao império britânico.

Guerra que foi seguida por mais incidentes, de que se destaca o fiasco do Raid de Starr Jameson em Joanesburgo em uns anos mais tarde, incidente da quase total responsabilidade de Cecil Rhodes e das suas relações (Jameson era um grande amigo seu e basicamente agia às suas ordens. Rhodes na altura era nada menos que o homem mais rico do Império britânico e o primeiro ministro da Colónia do Cabo).

Cecil John Rhodes, o arquitecto da "grande África do Sul". Odiado por Paul Kruger. Está sepultado nas colinas de Mattopos, no Zimbabué de Robert Mugabe.

A guerra de 1899-1902 foi de uma tal violência que é difícil de imaginar estes dias. Para contrariar alguns revezes iniciais, os britânicos enviaram para a zona do conflito todo o seu poderio e ainda o famigerado Lord Kitchener, já então célebre pela forma sanguinária como resolvera uma rebelião no Sudão uns anos antes (basicamente pela exterminação em massa).

Entre outras inovações, Kitchener operacionalizou um elaborado sistema de fortificações vigiadas com centenas de quilómetros de comprimento, para literalmente imobilizar e caçar os rebeldes boer, que desde cedo passaram a fazer uma guerra de guerilha (termo cunhado, e forma de acção militar primeiro inventada, nas guerras napoleónicas em Portugal e Espanha).

Kitchener implementou ainda um sistema de campos de concentração, onde colocou e basicamente torturou e matou milhares de mulheres e crianças boer, esta no fim do dia a razão porque os rebeldes acabaram por se render.

Exemplo da política de terra queimada seguida pelo exército britânico

Para além dos campos de concentração para mulheres e crianças dentro do que é hoje a África do Sul, Kitchener mandou fisicamente exilar de África os prisioneiros de guerra boer para campos de concentração localizados na Índia, no Sri Lanka, nas Bermudas e na Ilha de Santa Helena, a mesma onde Napoleão morreu exilado em 1821.

Procedeu ainda a executar uma implacável política de terra queimada nas repúblicas invadidas, em que destruiu com dinamite e fogo praticamente todas as casas, quintas, árvores, utensílios, poços, estradas, animais e colheitas dos boers. Vilas inteiras consideradas sem valor estratégico foram completamente arrasadas.

Lord Kitchener. Se fosse hoje estava preso em Haia. Naquela altura, foi um herói do Império britânico.

Desde o início que os boers estavam incomparavelmente mal armados, sendo uma das curiosidades da guerra que usavam uma espingarda de tiro único chamada Guedes, que fora desenhada por um militar português e encomendadas numa fábrica algures na Europa. Mas, por alguma razão, no fim os portugueses cancelaram a encomenda e o Transvaal comprou-as baratinho (tinham o selo real do rei português D. Luiz, imagine-se). Eficaz na guerrilha, mas nessa altura o exército britânico dispunha já de novas gerações da sinistra metralhadora Vickers-Maxim, cujo efeito era absolutamente devastador. Nos últimos dezoito meses da guerra, os boers combateram quase exclusivamente com armas que tomavam do soldados britânicos que combatiam.

Imagem do que então chamavam Comandos boer, com as suas espingardas de tiro único, excelentes para a guerra de guerrilha, algumas concebidas pelo militar português Guedes.

Para ambos os lados do conflito, o número de mortos em combate nesses quase três anos aproximou-se dos vinte mil, ou seja, perto do dobro do número total de militares portugueses mortos em 13 anos das chamadas guerras coloniais em três frentes de batalha africanas entre 1961 e 1974.

Mas o número de mortos por doença e tortura e péssimas condições foi muitíssimo mais elevado. No cômputo final, as repúblicas boer foram quase completamente destruídas e cerca de um terço de toda a população boer (civis e “militares”) pereceu nesses trinta meses de conflito.

Um terço do total da população boer morreu em dois anos e meio de conflito.

A guerra terminou com um tratado de paz que foi assinado no fim de Maio de 1902, e a inclusão das antigas repúblicas boer no que se tornou mais tarde a União Sul-Africana. Alguns boers voltaram às suas casas destruídas e tentaram refazer as suas vidas, agora como desconsolados súbditos da coroa britânica.

Com o tempo e grande habilidade, os líderes boer voltaram à cena nacional, mas isso é outra história.

Um jovem Winston Churchill fugiu do cativeiro boer através de Lourenço Marques, de onde foi para Durban, onde foi recebido como um herói. A saga foi importante para a sua carreira futura como político e estadista.

Durante todo este tempo, do outro lado da fronteira Leste e do Protectorado da Suazilândia, estavam Moçambique, Lourenço Marques, alguns portugueses e a linha de caminho de ferro que ligava a já de facto capital moçambicana à capital boer, Pretória.

O Ouro de Kruger

Alguns dos mais velhos poderão recordar-se que, em Moçambique, até aos anos 50 do século passado, falava-se no ouro de Kruger (o carismático e enigmático presidente do Transvaal.

A lenda – há até pelo menos um livro sobre ela, em português – refere que, nos últimos dias antes da ocupação de Pretória pelo exército britânico, que os boers, que dali fugiram para Leste na direcção de Lourenço Marques ao longo da linha de caminho de ferro, removeram dos cofres dos seus bancos e do tesouro nacional uma grande quantidade de ouro, que terão enterrado algures em volta da fronteira entre Moçambique e a África do Sul.

É tudo treta.

Na realidade, de acordo com as memórias do legendário líder boer Jan Smuts (em tempos era o nome dado ao aeroporto de Joanesburgo mas agora foi enfiado na gaveta pela nova África do Sul) essencialmente por causa de mau planeamento, apesar das medidas para evacuar a capital boer, uma grande quantidade de ouro permaneceu no Tesouro do Transvaal e no Banco Nacional em Pretória até ao dia 4 de Junho de 1900, o dia antes dos britânicos entrarem na capital boer (para onde, aliás, algum tempo depois a mãe do poeta Fernando Pessoa foi viver, e onde ficou até 1913).

Na manhã desse dia, apressadamente, Smuts mandou que o ouro fosse recolhido e depositado em caixas no cais da estação de caminhos de ferro de Pretória. Aí, foi colocado num comboio escoltado que ao meio dia partiu na direcção de Lourenço Marques, já sob o fogo de armas e canhões britânicos – o último comboio sob o controlo da república boer a deixar Pretória.

Exemplo dum comboio na África do Sul durante a guerra. Este estava nas mãos dos britânicos e estava assim protegido para defender o tambor com vapor sob pressão dos ataques dos boers.

Às duas horas da manhã do dia seguinte, 5 de Junho de 1900, o comboio parou na vila de Machadodorp, a meio caminho de Nelspruit (Mmmmmmbombélááá!) onde Paul Kruger, o ainda presidente boer, tinha então a sua base logística.

Uma parte do ouro foi usado logo ali para efectuar pagamentos. Segundo o diário de Meinbert Noome, um oficial boer, o resto – sessenta e duas caixas cheias de ouro – foram entregues em Lourenço Marques no dia 31 de Agosto de 1900, aos cuidados da firma alemã Wilken & Ackerman, que, em troca, creditou a conta do governo boer no estrangeiro com um crédito no contravalor, em libras, do metal que fora entregue – uma fortuna. Com este dinheiro, o que sobrou da autoridade republicana boer comprou mantimentos e apoiou muitos boers que tinham fugido da guerra.

Em Moçambique, os oficiais e administradores da antiga república boer do Transvaal instalaram-se no que fora o edifício do consulado norte-americano em Lourenço Marques e constituíram uma Proviant Commissie, que geria esses fundos e organizava e providenciava assistência aos exilados da guerra.

Uns dias depois, a 11 de Setembro de 1900, o próprio presidente Paul Kruger chegava a Lourenço Marques. Foi recebido por Gerard Pott, até então o cônsul do seu país em Lourenço Marques e também cônsul da Holanda. Após uma estadia de algumas semanas, partiu para a Europa num navio da marinha real holandesa enviado pela soberana holandesa, Guilhermina. Às oito da manhã de 24 de Setembro de 1900, o exército britânico ocupava Komatipoort, do outro lado de Ressano Garcia.

Formalmente, no entanto, a guerra ainda duraria outros oito meses.

Paul Kruger, o monumental presidente da República do Transvaal. Por ter permitido a criação de uma reserva natural na enorme língua de terra a nascente da sua república, na altura deram o seu nome ao futuro parque nacional.

E aqui chegamos à parte interessante.

De Lourenço Marques para….Peniche, Alcobaça e as Caldas da Raínha

No final de 1900, havia mais do que mil e quinhentos boers refugiados no lado português da fronteira, isto é, no Sul de Moçambique, e, desses, quase todos estavam em Lourenço Marques, empilhados uns em cima dos outros. Alguns, os mais doentes, ficaram na velha residência de Gerard Pott no centro da cidade (não confundir com os Pott Buildings, Era outra casa). Muitos morreram de doença e ferimentos na cidade.

No porto de Lourenço Marques, boers aguardam o momento para embarcar em navios para a Europa. Ao fundo pode-se ver a fachada da então fortaleza da cidade. No topo à esquerda fica o que hoje é a Praça 25 de Junho em Maputo - a antiga Praça 7 de Março.

Receosos que os boers se organizassem em território português e voltassem novamente a entrar no Transavaal e continuassem a guerra, os britânicos, que mais ou menos controlavam a cidade a partir da sua base no edifício do consulado britânico em Lourenço Marques (que ainda hoje é a embaixada daquele país ao pé da Rádio Moçambique) e segundo um relato do The New York Times datado de 7 de Março de 1901 e publicado na sua edição de 21 de Abril desse ano, baseados nas alegações de um jornalista de um dos jornais britânicos que estava então na cidade, de que os boers estariam a preparar uma contra-ofensiva a partir de território moçambicano, insistiram com as autoridades portuguesas para que os refugiados boers saissem da cidade imediatamente– mas não de volta para o Transvaal, onde ainda decorria a guerra.

Gravura da época de boers a discutir as notícias num quiosque de Lourenço Marques, durante a guerra.

Entre os refugiados encontravam-se centenas de militares boers, de que se destacava um tal General Pienaar, que estava acompanhado pela sua família (sobre ele, ver mais abaixo).

Em parte com a ajuda do dinheiro acumulado dos boers com a venda do ouro, uma solução foi encontrada.

Eles iriam para Portugal.

Em navios da marinha real portuguesa.

Os Boers em Portugal

Diz o relato do Sr. George van den Hurk:

Depois da captura britânica da linha de caminho de ferro Pretória-Komatipoort, um número considerável de Boers, alguns com as suas famílias, procuraram refúgio naquele que era, então, o território português neutro de Moçambique. Tratava-se de algo especialmente necessário para os homens que tinham sido rebeldes do Cabo, uma vez que eram frequentemente mortos pelos soldados britânicos após a sua captura. Chegou a constar que alguns deles tinham voltado a atravessar a fronteira em Lourenço Marques para combaterem os ingleses quando e como lhes conviesse. A Grã-Bretanha pressionou Portugal para lidar com esta ameaça; o resultado foi a transferência dos refugiados Boer para Portugal, onde ficaram alojados nos chamados campos abertos para prisioneiros de guerra e internados civis.


A edição do The New York Times de 14 de Março de 1901 reportava que, no dia anterior, em Portugal, estavam a ser feitos preparativos no porto de Lisboa, para acolher os refugiados boers que eram ali esperados dentro de dias.

Continua van den Hurk:

No dia 27 de Março de 1901, o General Pienaar, oito dos seus oficiais de campo e cerca de 650 soldados, chegaram a Lisboa no navio “Benguela”. Uma semana mais tarde chegava o “Zaire”, trazendo o Comandante H.P. Mostert, juntamente com três membros da sua família e um grupo de 56 mulheres e 172 crianças. [o remanescente, segundo o New York Times, dos refugiados boers em Lourenço Marques]. No dia seguinte, a corveta portuguesa “Afonso de Albuquerque” desembarcava mais dez Boers.

Ao todo, 1260 adultos e 173 crianças chegaram a Lisboa para detenção sob custódia.

(De notar que nas suas memórias da guerra, escritas num campo de prisioneiros na Ilha de Santa Helena pelo mais credível General Ben Viljoen, no capítulo 22 do seu livro, ele às tantas refere, ao relatar a retirada boer já na região entre Nelspruit e Ressano Garcia: um tal Pienaar, que se arrogou o título de general quando entrou em território português, fugiu pela fronteira com cerca de 800 homens. Contudo, estes homens foram desarmados e enviados para Lisboa. Claramente, Viljoen não estava tão impressionado com Pienaar como aparentemente estavam os portugueses. É preciso ainda referir que naquela altura o título de “general” era utilizado com enorme liberalismo.

A corveta Afonso de Albuquerque, da marinha real portuguesa.

Talvez ainda resquícios do traumatizante Ultimato britânico de 11 de Janeiro de 1890, segundo o The New York Times de 1 de Abril de 1901, os boers foram recebidos à sua chegada a Lisboa por uma grande e jubilante multidão portuguesa, gritando ovações e tratando os refugiados como verdadeiros heróis, em quase total contraste com (continua o relato) a sobranceria com que foi tratada a delegação britânica liderada por Lord Carringto, que se deslocara a Lisboa na mesma altura para formalmente notificar o rei D. Carlos da morte da rainha Vitória e da sucessão ao trono pelo seu filho, o futuro Eduardo VII.

Filheto em língua portuguesa, alusivo aos boers. Este encontrei nos arquivos electrónicos do Pacheco Pereira. Se o exmo. Leitor quiser ler, prima duas vezes na imagem. Pelo que referem os poemas, percebe-se facilmente de que lado do conflito estavam os seus autores.

Diz ainda van den Hurk:

À sua chegada, foram alojados em Peniche, onde 380 homens foram acomodados num velho forte; em Alcobaça, 376 homens ficaram alojados num mosteiro e, nas Caldas da Rainha, 320 homens, mulheres e crianças foram realojados. As famílias que tinham outras possibilidades económicas tiveram a oportunidade de alugar casas na vizinhança. Adicionalmente, pequenos grupos ficaram em Abrantes, Tomar e S. Julião da Barra.

A todo o tempo era permitida a liberdade de movimento entre os campos, bem como a troca de alojamento, se desejado. Os Boers eram vistos como prisioneiros de guerra, mas não eram guardados, nem confinados aos seus campos, embora tivessem de se apresentar duas vezes por dia aos seus guardas.

O primeiro jogo de Râguebi em Portugal

Um curioso e curto trabalho (oito páginas) escrito por Floris van den Merwe sobre a prática do râguebi durante a guerra anglo-boer contém um curioso relato sobre os refugiados boers em Portugal. Cita do livro “Os Boers em Portugal”, escrito por Darius de Klerk (terá sido publicado em 1985, mas que não consegui encontrar) o seguinte, na sua página 38:

O futebol (referendo-se ao râguebi) era completamente desconhecido em Portugal nesses dias, pelo menos nas províncias. O público em Alcobaça gostava de ver os boers a jogar este novo tipo de jogo, mas as suas regras deixaram-nos confusos durante muito, muito tempo.

E na página 48 :

Quando os boers chegaram, o parque nas Caldas da Rainha era pouco mais que um terreno desolado, por isso em breve eles começaram a utilizá-lo para jogar algum tipo de jogo com a bola. Naturalmente, os locais nunca tinham ouvido falar de râguebi nesses dias.

Após a assinatura do tratado que findou a guerra em 31 de Maio de 1902, os prisioneiros e refugiados boers foram autorizados pelos britânicos a regressar à sua terra natal., tendo tal ocorrido durante o verão, até final de Agosto de 1902.

O London Times de 21 de Julho de 1902 reportou que no dia 19 de Julho, após se reunirem em Lisboa, vindos dos vários pontos de acolhimento, cerca de 900 boers, embarcaram no navio Bavarian, que saíu em direcção à Cidade do Cabo cerca das 18 horas.

No verão de 1902, o Bavarian, no fotografia acima, levou a maioria dos refugiados boers de Portugal para a Cidade do Cabo.

Ainda hoje, no cemitério de St. George, em Lisboa, existe um pequeno monumento, inaugurado em 1913, em memória dos refugiados boers que morreram em Portugal durante esse período de exílio português.

Uma rara fotografia, com data de 1901, da "Escola dos Refugiados Boers das Caldas da Rainha". Foto dos Arquivos Nacionais da Holanda. Para ver a foto com maior tamanho, prima com o rato na fotografia e depois outra vez.

05/10/2010

A MONARQUIA PORTUGUESA EM MOÇAMBIQUE, 1907

Sua Alteza Real Dom Luiz Filipe de Órléans e Bragança, Príncipe da Beira, na residência do Governador-Geral na Ponta Vermelha em Lourenço Marques, no dia 2 a Agosto de 1907

por ABM (5 de Outubro de 2010)

O Príncipe Real e a Sua comitiva na esplanada do Palácio da Ponta Vermelha  em Lourenço Marques (hoje ainda a capital moçambicana, Maputo), momentos antes de se deslocar para a cerimónia da colocação da primeira pedra do Palácio da Cidade [o edifício situado directamente em frente à piscina do Desportivo em Maputo e que foi o primeiro assento da gestão municipal, antes de ser transferido em 1945 para o actual edifício do Conselho Municipal, na Praça da Independência] no dia 2 de Agosto de 1907.

Da esquerda para a direita,

Sentados:
Coronel António Costa, ajudante de campo do Príncipe;
Conselheiro Ayres d’Ornellas, Ministro do Ultramar;
Dom Luiz Filipe;
Conselheiro Alfredo Freire de Andrade, Governador de Moçambique;
O 6º Marquês de Lavradio, D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 1º Tenente da Armada e Oficial às Ordens do Príncipe;

De pé:

Capitão-Tenente José Francisco da Silva, Chefe de Gabinete do Ministro;
1º Tenente da Armada, 9º Conde da Ponte, D. Manuel Maria José Ferrão de Castelo-Branco, Ajudante de Campo do Ministro;
Dr. Barros da Fonseca, médico da Real Câmara;
Padre José Vicente da Costa, Capelão da Casa Real;
Dois Oficiais, Ajudantes do Governador, Lopes e Torre do Valle.

A visita de Luiz Filipe, herdeiro da coroa, às colónias portuguesas de São Tomé, Moçambique, Angola e Cabo Verde, decorreu entre 1 de Julho e 27 de Setembro de 1907 e foi essencialmente um exercício de relações públicas e afirmação de soberania perante os demais poderes europeus.

Tirando as expedições reais a Marrocos no século XV, foi a única vez que um membro duma família real portuguesa esteve em África.

O nome original da cidade de Pemba, Porto Amélia, era o da sua mãe, Amélie de Órléans, a rainha portuguesa e uma francesa pertencente à Casa de Órléans, cujo pai era o pretendente à coroa francesa. Quando ela se casou aportuguesou o nome próprio para Amélia.

A cidade moçambicana da Beira ainda hoje tem o nome de um dos títulos de Dom Luiz Filipe, cujo nome completo era (ok cá vamos nós) Luís Filipe Maria Carlos Amélio Vítor Manuel António Lourenço Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis Bento de Bragança Saxe – Cobourg-Gotha e Orléans.

Para além de Príncipe da Beira (neste caso da província portuguesa da Beira) ele tinha ainda os títulos de Duque de Bragança e da Saxónia, Duque de Barcelos; Marquês de Vila Viçosa; e Conde de Arraiolos, de Barcelos, de Neiva e de Ourém. Foi Grã-Cruz da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e foi ainda Cavaleiro da Ordem da Jarreteira.

Luiz Filipe veio para Lourenço Marques, de onde seguiu para vários pontos da costa moçambicana e depois visitou ainda a África do Sul e a (então) Rodésia, onde deu dose de charme aos ingleses e aos boers.

Mousinho de Albuquerque, conhecido pela prisão do régulo Gungunhana em Chaimite no dia de Natal de 1895, foi nomeado aio (preceptor) de Dom Luiz em 1898. O príncipe tinha 13 anos de idade.  Em Janeiro de 1902 Mousinho cometeu suicídio.

O herdeiro da coroa portuguesa na cerimónia de lançamento da primeira pedra da primeira câmara municipal de Lourenço Marques, a 2 de Agosto de 1907

Os três edificios na imagem ainda hoje existem em Maputo, ficam mesmo em frente à sede do Desportivo. O edifício à esquerda foi a original sede do Conselho Municipal da cidade. No local do armazém à direita construiu-se no princípio dos anos 70 o Prédio 33 andares.

Outro ângulo da primeira Câmara Municipal de Lourenço Marques. Note-se a praia ali mesmo ao lado e a barreira a descer até mesmo em frente aos edifícios. Durante anos, o primeiro campo de futebol do Desportivo situava-se mesmo em frente ao edifício. Em tempos, pelo Sr. José Craveirinha, ofereci uma fotografia em que se vê o campo. Essa fotografia está na Sala dos Troféus do Desportivo, com dedicatória minha.

Precisamente cinco meses depois de tiradas estas fotografias, Luiz Filipe foi assassinado numa rua de Lisboa por um punhado de extremistas republicanos, juntamente com o seu pai, o rei Dom Carlos. A este evento, ocorrido no dia 1 de Fevereiro de 1908, os portugueses chamam “o Regicídio”.

Faltava-lhe um mês para completar 19 anos de idade.

Para variar, os seus assassinos conhecidos, Buíça e Costa, foram quase imediatamente “reabilitados” e são hoje admirados e festejados pelas instâncias oficiosas do regime. A RTP, estação do governo português, fez há meses uma longa série estilo novela brasileira sobre eles.

Mas os exmos Leitores sabem como são estas coisas: o reles assassino de hoje é um libertador amanhã. O terrorista de hoje é o freedom fighter de amanhã.

No fundo nunca se sabe ao certo quem é quem, não é?

Pois quem ganha gosta sempre de fazer a História.

E depois fica sempre aquela dúvida.

Aquela duvidazinha.

24/04/2010

O 28 DE MAIO DO 25 DE ABRIL

http://www.megavideo.com/v/QHOYAVC0c88b2df95cdaaaecced4af3c7aeeff90

por ABM (24 de Abril de 2010)

Estas coisas das memórias e do seu significado têm tanto que ver com o seu impacto e posterior percepção e re-interpretação como das idades e experiências de cada um de nós.

Quando eu crescia na cidade outrora conhecida como Lourenço Marques, lembro-me muito, muito, vagamente, de que se dizia qualquer coisa no dia 28 de Maio sobre o 28 de Maio. Que terá sido a “Revolução Nacional”. A tal que, descobri mais tarde, descambou para a incontornáveis quatro décadas e meia de Salazar e afins. Pois. Que isto de ser-se português, ou afim, significa que, dada a inabilidade dos políticos e da congregação política de evoluírem e mudarem as coisas, faz mais ou menos parte do processo haver revoluções, hecatombes, golpes de Estado, pronunciamentos militares, etc.

Mas o ponto aqui é que 28 de Maio, nos anos 60 do século passado, com as devidas diferenças ideológicas e fanfarra um tanto quanto mais militarizada, fora o 25 de Abril para muitos da então velha geração. E nessa altura em Lourenço Marques, penso, já ninguém se lembrava do que aquilo fora. Tirando o ocasional velho caquético já ninguém sequer existia que tivesse visto o que aquilo foi, e tirando os quase absolutamente insuportáveis discursos dos senhores da Situação, herdeiros directos desses longinquos ecos da História, ninguém já percebera o que fora e para que fora.

Era mais um feriado.

Estamos a um dia do dia 25 de Abril de 2010. Isso significa que amanhã se assinalará que, há trinta e seis anos, meia dúzia de oficiais militares de baixa patente, com o beneplácito de (mais ou menos) os dois principais ex-chefes militares portugueses (os generais Spínola e Costa Gomes) e na minha opinião o desistismo de um derreado Marcello Caetano, a II República portuguesa acabou e se inaugurou o que se supõe ainda hoje ser uma versão revista da I República, sem os seus exageros e histerismos.

A República Socialista.

Trinta e seis anos é muito tempo e revelador. Em Junho faz trinta e cinco anos que Moçambique é independente e continuamente liderado pelas mesmíssimas pessoas que desde meados dos anos 60 já controlavam, do seu lado, o poder político. Daqui a cinco anos, já terão estado mais tempo no poder continuamente, que os anos durante os quais a União Nacional criada por Salazar governou Portugal.

Circunstancialmente, levou trinta e cinco anos para Portugal mais ou menos bater com o seu virtual nariz no espelho e, depois das repetidas bombas de oxigénio e manobras, ter de se confrontar, como nação, para o seu corpo nú e esfarrapado, sem as muletas de África e das Índias, entrerrado em dívidas e sem os dinheiros oferecidos da CEE e da União Europeia, sem o internacional-porreirismo e o doublespeak da internacional camaradagem, e ter que se perguntar: quem somos nós? o que teremos que fazer e como? com o que podemos contar?

Esta fase da história portuguesa é verdadeiramente fascinante. Parece o fim de um thriller de Agatha Christie. Quem, afinal, matou o morto? como se vai descobrir isso? e o que fazer em seguida?

Mas o tempo não perdoa e a verdade dramática e reveladora está no vídeo acima. Como aconteceu comigo quando era miúdo em Lourenço Marques e, sem ninguém me explicar, eu assistia ao moribundo e insignificante deambular de alguns velhos e políticos cheios de caruncho, sobre a tal supostamente gloriosa revolução do 28 de Maio.

Pese a suposta explosão democrática trazida desta vez, já poucos sabem o que foi isso do 25 de Abril. Ou como foi. Ou quem o fez.

Os mitos das revoluções e os seus protagomistas são muito mais fáceis de manipular, de realçar e de a re-inventar em regimes onde essa experiência passada convém muito aos que mandam agora e que nela buscam a sua fraca legitimidade, que num regime (mais ou menos) democrático cuja legitimidade supostamente só pode ser derivada de votos depositados em urnas e contados um a um. Em Portugal, isso na verdade só aconteceu quase dois anos depois, em Abril de 1976. Poucos se lembram que foi quase por acaso. E mesmo aí foi uma democracia hifenizada: a tal república socialista. O pai, Mário Soares. Até este momento não se passou daí.

É por isso, com algum humor, que aqui assinalo o pronunciamento militar de Abril de 1974, o tal que libertou as colónias e os demónios sociais num dos países mais atrasados do continente europeu, que achou necessário tantos anos para começar vagamente a lidar com as suas hipertrofias. Aproxima-se a hora de mais uma reflexão: continuar o experimento socialista ou tentar outro rumo.

No meio disso, a ironia do tempo: a de as mais jovens camadas da população portuguesa em Abril de 2010 já não saberem bem o que foi o 25 de Abril de 1974, por que foi, para que foi, quem o fez. É apenas mais um feriado em Abril.

Tal como foi o 28 de Maio quando eu era miúdo, em Lourenço Marques.

04/04/2010

GUINÉ-BISSAU

Filed under: Portugal-África — ABM @ 2:22 am

por ABM (Alcoentre, 4 de Abril de 2010)

Como é viver num país onde não parece haver “ordem estabelecida”? felizmente não faço uma ideia clara, se bem que testemunhei em pessoa os eventos de 1975 em Portugal continental, o que já deu para uma vida.

Mas o que se vem passando na Guiné estes últimos anos é obra. Numa altura em que já se tornou mais ou menos fora de moda fazer golpes militares, nesse pequeno país que foi um território menor (geograficamente falando) do espólio africano português, continua a tê-los, quase alegremente. Com a agravante dos rumores persistentes de que aquilo pode estar a tornar-se em mais uma plataforma giratória das rotas da cocaína (um pouco como Portugal).

Não conheço a Guiné apesar de ter lido já algumas coisas sobre aquele país e de ter uma amiga em Angola que é de lá. Praticamente indefensável aos preços que Salazar estava disposto a pagar, foi o calcanhar de Aquiles da guerra em três frentes e uma das causas mais directas da discreta rebelião militar que desembocou no pronunciamento militar em Abril de 1974.

Basicamente, queriam que os militares ali fizessem a omelete sem ovos. Nenhum militar que eu conheça gosta de fazer omeletes sem ovos. Na guerra moderna, há coragem mas raramente há milagres.

O percurso desde a independência tem sido penoso e imagino que o custo dessa instabilidade cai directamente sobre a pele dos seus cidadãos.

No mais recente episódio, não se percebe o que o governo português anda a fazer, mas imagino que, fora de cena, estejam a tentar resolver a coisa.

Nem se percebe como é que os militares, os últimos garantes da ordem, são os principais protagonistas da desordem.

O Dr. Amílcar Cabral, uma figura notável dos anos 60 e que lutou por aquela terra (juntamente com Cabo Verde) não ficaria nada satisfeito.

23/02/2010

VOLANTE À DIREITA EM MOÇAMBIQUE

Jorge Vara exibe o seu primeiro carro em Lourenço Marques, 1 de Setembro de 1938

por ABM (23 de Fevereiro de 2010)

Tendo crescido em Moçambique, como toda a gente ali, habituei-me a viajar em automóveis com volante à direita e com o trânsito pela esquerda.

Uns anos mais tarde, descobri que a maior parte do resto do mundo, incluindo na “metrópole” (Portugal) se conduzia pelo lado direito da estrada. O que era curioso mas nada de especial.

Em 1978, por dez dólares e com a ajuda do pai BM, que me deu umas lições básicas, tirei a minha carta de condução nos Estados Unidos da América, onde vivia, e onde se conduzia pela direita, as ruas eram largas e bem sinalizadas e as regras muito simples.

Nunca tive problemas nenhuns até voltar a Moçambique na segunda metade dos anos 90 e me sentei pela primeira vez a conduzir pela esquerda. O problema era com os meus reflexos: quando vinha de férias ou de serviço a Portugal, por mais que uma vez, sem pensar duas vezes, quando dava por mim estava a conduzir  no lado esquerdo da estrada, para desespero dos sempre tão corteses motoristas portugueses, que aproveitavam logo para fazer comentários à minha ascendência feminina em termos pouco laudatórios.

Como passageiro, ainda hoje quando estou mais distraído, é comum, querendo eu entrar num carro quando estou fora de Moçambique, dirigir-me para o lado…do condutor.

Porque é que se conduz em Moçambique pelo lado esquerdo? a resposta é fácil: porque se conduzia à esquerda em todos os países com que faz fronteira, cujas regras de condução derivam dos padrões estabelecidos pela Grã-Bretanha.

Em Portugal europeu conduzia-se pelo lado esquerdo da estrada. Segundo um interessantíssimo historial deste tema num blogue brasileiro, foram os franceses no tempo da sua revolução que inventaram o padrão da condução pelo lado direito das estradas, cerca de 1794. Como a seguir invadiram quase tudo à sua volta, levaram essa regra com eles.

Depois das guerras napoleónicas, a regra da condução pela esquerda na Europa permaneceu nos países que mais resistiram a tirania francesa; o Reino Unido, o império austro-húngaro e … Portugal.

Claro que ajudou que na realidade, para ajudar os portugueses a organizarem-se contra os franceses, a Inglaterra naquela altura praticamente ocupou Portugal, o que durou uns largos anos.

E o costume ficou.

Foi só após a primeira república ter caído de podre e ter sido instaurada a Ditadura (na altura só, e com “D” maiúsculo, Salazar sendo ainda uma incógnita), é que, de uma assentada, tudo mudou. Em meados de 1928, um ano após criada a Junta Autónoma de Estradas, foi legislado o primeiro código da estrada português e, pelo decreto n.º 18.406, de 31 de Maio de 1928, estabalecida a circulação pela direita nas estradas. Até então, a circulação automóvel em Portugal e nas suas colónias era feita pela esquerda, copiando a prática britânica.

Assim, a partir das 5 horas da manhã de 1 de Junho de 1928 em Lisboa, e à meia noite no resto de Portugal continental, para os cerca de 31 mil condutores com carta de condução e cerca de 28.000 automóveis então existentes, passou a ser obrigatória a circulação rodoviária pelo lado direito das estradas. O mesmo aconteceu na Guiné, em Angola e Timor e, presume-se, na Fortaleza de São João Baptista de Ajudá.

Mas em Macau, Goa e Moçambique, tendo em atenção as suas situações específicas, manteve-se a condução pelo lado esquerdo das estradas.

Em Timor, a condução passou a ser feita pela direita em Junho de 1928. Mas em 1975, na sequência da anexação de Timor pela Indonésia, o sentido da condução foi alterado para o lado esquerdo. E assim ficou até hoje.

06/02/2010

O SEGREDO DE CONSTÂNCIA

Filed under: António Botelho de Melo, Portugal-África — ABM @ 5:02 am

por ABM (Alcoentre, Sábado, 6 de Fevereiro de 2010)

A confirmação chegou num banal e-mail de um primo nos Açores à uma hora e quarenta minutos da madrugada do passado dia 14 de Janeiro de 2010 e concluiu um processo que eu começara muitos anos antes: a confirmação absoluta de quem era Constância, a jovem e elegante senhora cuja imagem aparece no topo deste texto, e que foi tirada em Agosto de 1892.

Há cerca de 118 anos, portanto.

De entre as informações sobre a genealogia familiar que obtive há quase trinta e cinco anos dos meus avós açorianos (bem, aquilo foi mais “extrair” que “obter”) e que visitei algumas vezes quando ainda vivia em Moçambique, há já algum tempo atrás referi aos exmos leitores uns detalhes curiosos sobre um tal Manuel Jacinto Lopes, que é meu tio-bisavô. Como referi na altura, do que descobri, o que me surpreendeu foi a mulher dele.

Mas confesso que, das pesquisas familiares que efectuei, a seguir a descobrir que os meus avós maternos se haviam conhecido e casado nos Estados Unidos da América nos anos 20 do século passado, onde estiveram emigrados alguns anos antes de regressarem a São Miguel, a descoberta mais fascinante de todas foi no que concerne a enigmática Constância.

Por três razões.

A primeira, foi que a minha avó paterna me ofereceu a fotografia de (então) uma tal “tia” Constância – a que está lá em cima – juntamente com algumas outras velhas fotos de família.

A segunda, foi que a minha mãe chegou a conhecer a senhora quando era menina nos anos 30. Lembrava-se dela perfeitamente. De tudo, desde a cor dos olhos, o sotaque, o sentido de humor, a cultura, etc. E que nunca se casara. Nessa altura Constância já era velhinha e morreria poucos anos depois.

A terceira foi que, confirmado pela minha mãe, a minha avó e agora pela minha tia paterna, Constância era mulata e falava com sotaque brasileiro.

Ora, para quem supunha ter sólidas raízes açorianas até aos primeiros colonos (estes, colonos mesmo) das ilhas açorianas no século XVI, e antes destes até obscura fidalguia do reino de Leão e Castela no Século XI, antes de Portugal existir como nação independente, a notícia de haver a possibilidade de uma raiz africana negra na família BM foi uma surpresa – uma grande surpresa. Uma total surpresa. Pois à partida não ocorria. Nada o aparentava e não havia registos que tal indicassem.

A primeira vez que ouvi dizer que Constância era mulata foi por puro acaso. Veio da boca de uma velha prima da minha avó paterna, que por acaso estava de visita a sua casa num sábado em fins de Agosto de 1975. Tinha eu 15 anos de idade e estava de férias no delapidado casarão de verão dos meus avós em Vila Franca do Campo, que fica perto do porto situado em frente ao Ilhéu da Vila. Esse casarão fora dos meus bisavós paternos, pais da mãe do pai BM.

Nessa tarde, lembrei-me de mostrar-lhe as fotografias que a minha avó tinha acabado de me dar, inocentemente, para ver se ela, sendo kokuana e portanto desses tempos, conhecia as pessoas ali retratadas. Quando eventualmente lhe exibi a fotografia da Constância, ela imediatamente disse que a conhecera muito bem, sim, que fora uma senhora muito culta, muito prendada, muito simpática, muito engraçada. E, mais baixinho, inclinando-se levemente na minha direcção, disse, “e, sabes, ela era mulata”. Quando ela me faz esta revelação, fiquei literalmente de boca aberta. Não era possível. Como era possível?! Uma mulata nos Açores naquela altura?

Olhei novamente para a fotografia. Olhei de seguida para os olhos azuis claros e cristalinos que brilhavam na face fina, rosada e elegante da velha prima Ernestina, agora mais sorridente pois via nos meus olhos arregalados a surpresa e a curiosidade suscitada pela sua revelação.

Confesso que não sou assim grande perito em termos de analisar os traços finos no que concerne a classificação das raças. Já em Moçambique, tendia a distinguir quatro ou cinco raças e fazia muito poucas distinções a partir daí. E, neste caso, a senhora na fotografia não me parecia nada de especial. Parecia-me, naquela pose rígida e distante, ser branca. Quero dizer, a foto está um pouco para o escuro e velha.

Mas a prima da minha avó foi categórica; “olha bem para o cabelo dela. O cabelo era carapinha”. E inclinou-se, segredando-me no ouvido novamente, baixinho, como que para ninguém ouvir, apesar de não estar rigorosamente ninguém na enorme sala de música naquele terceiro andar do poeirento palacete dos meus bisavós: “como os pretos.” (ela dizia a palavra no sotaque de São Miguel: “prâtos”).

Dei um salto e fui ter com a minha avó na cozinha, que ficava situada um andar abaixo e mais uma corrida por um longo corredor para as traseiras da casa. “Ò avó, a prima Ernestina (ah estes nomes antigos) diz que a tia Constância era mulata!”. A minha avó, que era enorme e tinha o porte de um lutador de sumo, e que era muito ciosa do seu estatuto de senhora na então sociedade açoriana, virou-se lentamente e fitou-me, silenciosa durante uns segundos. E após uma pausa, disse-me apenas: “sim, é verdade. Mas – ò rapazinho – aqui não se fala disso”.

Mas…então…ahh…mas…se a Constância era “tia” (minha não era) e era mulata, então isso significava que temos “prâtos” na família?! Então, ela era tia de quem? A minha avó deu-me uma resposta meio esfarrapada e fiquei na mesma. Pois nos Açores “não se falava disso”.

Pelos vistos estas questões de raça nos Açores do século XIX e XX eram assunto que não se discutia – mesmo. Não sei bem como era possível, dado que raça não é coisa que se esconde debaixo da cama, mas foi ao que assisti.

A resposta em maior detalhe, levei trinta e três anos para confirmar. E aponta para a existência de uma raiz africana na genealogia dos BM.

Ei-la.

A história é verdadeiramente fascinante.

De seu nome completo Constância Sinclética Botelho de Mendonça, ela era irmã do meu bisavô paterno, Francisco Botelho de Mendonça (pai da mãe do meu pai BM – a minha avó Clotilde) – que portanto também era mulato.

Recuemos uma geração. O pai de Constância – um meu trisavô – foi um açoriano que emigrou para o Brasil nas primeiras décadas do século XIX. Terá feito bom dinheiro no negócio de peles em Pernambuco, assim reza a lenda familiar.

Em meados do século, ele casou-se com uma senhora mulata, filha de uma escrava africana e de um branco, cujas identidades se desconhecem, em Pernambuco. Ali tiveram duas filhas, uma tal Gonegundes (de quem perdi o rasto) e Constância Sinclética.

Poucos anos mais tarde, subitamente, o meu trisavô açoriano contraiu tifo, doença que na altura invariavelmente era fatal. Doente, resolveu regressar aos Açores com a sua jovem família. Vendeu tudo o que tinha e fez-se aos Açores de barco, levando com ele baús cheios de haveres, prata e dinheiro. Quando embarcaram, a mulher dele (a minha trisavó) já estava grávida de um terceiro filho – o meu bisavô.

Durante a viagem, o meu trisavô morreu de tifo. Pelo que a Ponta Delgada chegaram a minha trisavó brasileira, já viúva, com duas filhas, e ainda grávida. Já em terra, ela deu à luz um bebé rapaz – o meu bisavô, a quem deu o nome de Francisco Botelho de Mendonça. Quando se confirmou que era um rapaz, e de acordo com a lei naquele tempo, parte dos bens que vieram do Brasil foram constituídos em herança do bebé e os baús contendo esses bens foram selados até que o jovem atingisse os 21 anos.

Ainda hoje, dado pela mãe BM, eu tenho um pequeno paliteiro de prata, que fazia parte da herança de Francisco, que viera do Brasil nessa viagem de barco e que esperou selada nos baús até ele ter idade para dela tomar posse.

Sendo jovem, a mãe de Sinclética, uma viúva com alguns bens, casou-se uma segunda vez em São Miguel com um membro da família Félix Machado e teve mais quatro filhos. Assim, os descendentes da família Félix Machado partilham este património genético com os BM.

Quando Francisco, que, como Constância e Gonugundes, já era filho de uma mulata com um branco, portanto um mulato “diluído” (não sei se há nomes especiais para estas coisas) atingiu a maioridade, casou com uma senhora cuja nome era, depois de casarem – e lá vamos nós outra vez com os nomes – a encantadora e culta Ludovina Amélia Lopes Botelho de Mendonça. Os apelidos já vieram depois do casamento.

Constância era, portanto, cunhada de Ludovina (irmã do Sr. Visconde da Palmeira) e viveu nos Açores, solteira, até à sua morte. Com o seu humor e distinto sotaque brasileiro.

Francisco e Ludovina tiveram duas filhas, Margarida e Clotilde, esta última a mãe do pai BM.

O meu pai.

E que viveram toda a vida no enorme e poeirento palacete em Vila Franca do Campo onde eu, num dia de verão em Agosto de 1975, me sentei na sala de música com a prima Ernestina e lhe mostrei uma velha foto.

Que me revelaram o segredo de Constância.

16/01/2010

Lizzie Had a Dog in LM

Lizzie & Bóbbi

por ABM (Cascais, 16 de Janeiro de 2010)

A lógica da breve discussão prévia o impunha e uns meros 15 euros o resolveram.

Disfarçado de dono de um veleiro de passagem por Cascais, e após breve e inócua aventura na Livraria Bulhosa no Cascais Villa, peregrinei até à quiçá mais próspera e dotada FNAC do Cascais Shopping, com a Dulce Gouveia a reboque, para comprar a grande obra recente da Escritora de origem moçambicana, publicada pela Editora sediada em Coimbra.

Mas na secção dos livros dou logo de caras com o José Rodrigues dos Santos no corredor, que é máfia moçambicana do melhor e estes dias uma espécie de versão lusa do Dan Brown. Com ele não há cá memórias para ninguém. Antes que ele pensasse que eu ia ao livro dele sobre a Al-Khaeda, que se encontra à venda em todas (mas todas) as livrarias, grandes superfícies, aeroportos e até por baixo de vãos de escada, escapuli-me pelo café da loja para o outro lado e fui ter com uma daquelas meninas simpáticas da FNAC que usam um coletezinho verde e nos ajudam a encontrar os livros.

“Olá, boa tarde. Procuro o novo best seller daquela escritora nascida em Moçambique Isabela Figueiredo e não encontro”.

“Só um momento, sefachavor”.

Clic clic clic clic no computador.

“Sim, devemos ter ainda uma cópia na loja, deixe-me ir ver”.

E desapareceu.

15 minutos à espera.

Após o que a menina surgiu do nada com um livrinho pequenino na mão.

“Quanto é?”

“15 euros”.

“15 euros! Bolas. Deixe-me cá ver”.

E peguei no volume. E inspeccionei-o.

Preliminarmente.

Na verdade o livro é algo estranho.

A seguir à capa e a contra-capa, tem quatro folhas verde-alface sem nada, duas de cada lado, que deve ser para o leitor precavido tomar apontamentos. No fim, a seguir à folha verde-alface, diz uma nota que foi composto numa empresa gráfica na bela Vila Nova de Famalicão, “34 anos após o regresso da autora a Portugal”. Ok. Suponho que uma anotação válida para quem ao chegar ao fim do livro ainda não se tiver apercebido desse facto da vida da autora, ou que não saiba fazer contas de subtraír (pois 2009-34 = 1975) infelizmente um provável infortúnio com o estado da educação nos dias que correm.

Só que na pala interior da capa tem mais uma foto simpática da Isabela, esta circa 2009 e sans Bóbbi, e mais uma notinha a dizer que ela nasceu em Lourenço Marques em 1963, que em 1975 veio para Portugal, e que nunca mais voltou.

Espera aí: se aqui diz que ela nasceu lá, que veio para cá e que nunca mais voltou, porque é que no fim do livro diz que ela regressou a Portugal?

É um mistério. Assumo que deve fazer parte da complexa e mística dialética subjacente aos conteúdos ali abordados. Ora veja-se.

Ela nasce e cresce em Moçambique.

Mas ao viajar para Portugal em 1975, regressa.

Ora isto é para mim uma alegoria fantástica.

Tem umas fotografias: na capa (a foto ali no topo) a Isabela avec Bóbbi. Depois duas piquininas de Lourenço Marques nos tempos e que mal se conseguem ver, e a seguir vêm: a Isabela a segurar o rádio de papá debaixo de uma papaeira, a Isabela vestida de saloia portuguesa num barco, a Isabela a fazer pose num parque, a Isabela na marginal de Lourenço Marques e a Isabela na comunhão.

Na página 7, presume-se que para dar o tom do que está para vir, três citações, uma de Paulo Auster a falar do pai (o do Paulo Aster), e duas do italiano Primo Levi, a mastigar a presumível fungibilidade da Memória Humana. Bem, ou pelo menos a dele.

E, presume-se, por osmose subliminar associativa, a da Isabela.

A menção do americano Paulo Auster confunde-me e levanta-me imediatas suspeitas quanto à proeminência fotográfica do Bóbbi. Pois na sua Timbuktu, não a africana mas uma mitológica e utópica urbe, são as memórias do rafeiro Mr. Bones que descascam, numa odisseia tão deprimente como cativante, a existência de Willy Christmas, um homem infeliz e falhado, que morre à porta da casa onde o seu ídolo, Edgar Allan Poe, vivera. Será isso? O que acha, quais as memórias de Bóbbi da sua dona e da Lourenço Marques que a viu nascer e crescer? será que Bóbbi também regressou?

Primo Levi suscitou-me ainda maior supresa. Pois a sua escrita, sendo judeu e tendo passado pelos maiores horrores da carnificina Nazi, incluindo quase um ano em Auschwitz-Birkenau, é mais conhecida pelo conteúdo memorialista desse período – memórias que o perseguiram até à morte. Em 1987, o grande Elie Wiesel, que era professor na Universidade de Boston, onde estudei gestão e um pouco sobre o judaísmo nessa altura e durante dois anos, e ele próprio um sobrevivente do horror Nazi, disse que, quando morreu – e referindo-se às suas peristentes e pungentes memórias – Levi na verdade morrera em Auschwitz mas quarenta anos depois.

Que associações poderá haver entre a obra e o percurso de Primo Levi e este livro de Isabela? A curiosidade avoluma-se dentro de mim.

Procurei, e descubro que o livro não tem índice. Tem, isso sim, em 136 páginas (as que estão numeradas), textos sequenciados, de 1 a 43. Sem títulos. Só os números.

E na verdade, aí me apercebi, afinal aquilo não é só um livro (daí, decorrem, presume-se, os 15 euros).

Logo a seguir ao texto Número 43, depois de uma folha com umas das fotos piquininas de Lourenço Marques que não se vê bem, tem outra onde apenas figura, a meio, a singela e solitária frase, que se presume dedicatória: “À memória do meu pai”.

Repare-se no detalhe: não é em memória do pai. É à memória do pai.

Hum.

E a seguir tem uma página que diz, na vertical, com o texto a apontar na direcção da lomba do livro, em letras garrafais “Adenda” onde, aí sim- surpresa!- tem um índice, mas um indicando o que vem a seguir (aos textos numerados de 1 a 43): seis textos descritos como posts, incluindo o intrigantemente títulado Falta dinamitar o Cristo-Rei e logo abaixo o assaz mais invocativo de assunto gastronómico, Fígado de Porco; e,  finalmente,  Uma conversa com Isabela, que inclui, um pouco como nas (brevemente findas) conversas do Professor Marcello na RTP aos domingos à noite, e à margem das doze páginas do texto da entrevista propriamente dita (feita por não se sabe quem) as sugestões dela de dez livros, cinco datas e cinco lugares.

Portanto, isto é o que se pode chamar um pacote completo.

Que agora é meu.

Por, afinal, uns modestos 15 euros.

E que, feito o investimento e aguçada a curiosidade, vou ler este fim de semana, de fio a pavio.

E de que logo darei conta aos exmos leitores, após reler também a prosa canciana et al.

Para tirarmos esta coisa a limpo de uma vez por todas.

Um bom fim de semana a todos.

10/01/2010

THE BEST OF ISABELA FIGUEIREDO

o horizonte nos contempla

por ABM (Alcoentre, 9 de Janeiro de 2010)

Fernanda Câncio, a putativa (segundo certa imprensa) namorada do actual primeiro-ministro português, José Sócrates, e fogosa escriba num Diário de Notícias infelizmente cada vez menos de referência, escreveu um curioso texto – que saiu na sua edição de hoje – sobre uma sra chamada Isabela, que, depreendo da leitura, como muitos de nós saiu um pouco a pontapé do Moçambique pós- independente e revolucionário aos 12 anos de idade, e sobre um livrinho que ela escreveu e que acabou de ser publicado, que dá pelo nome algo enigmático de Caderno de Memórias Coloniais.

Que não li.

Mas li o comentário de Câncio, que sempre vale alguma coisa e que me deixou algo mistificado.

Vamos por partes.

Deixou-me algo mistificado porque a Fernanda que, como já vi outras pessoas dizer noutras ocasiões, deve perceber tanto da realidade colonial como eu de física nuclear, começa por colocar legiões de “retornados” num vasto manicómio virtual, todos mentirosos e todos vivendo numa ilusão colectivamente induzida com o fito de não enfrentar uma inconfessável série de “crimes contra a Humanidade”, que, lá vai o argumento, só pode ser o que (no meu caso) os nossos pais e avós andaram todos lá pelas Áfricas durante séculos a cometer contra os nativos. Voluntária e até empenhadamente e, no caso do pai da Isabela, com requintes de malvadez.

Isso a acrescentar àquela outra Grande Ilusão Colectiva dos brancos e portugueses da África portuguesa (nunca os de cá, coitados) claro, a de que aquilo era “nosso”. Que se sabia perfeitamente que não era, especialmente a posteriori.

Bem, todos – especifique-se – menos a sua amiga Isabela.

No seu caso, Fernanda diz que a Isabela baseou os Cadernos nos seus escritos, alguns dos quais foi colocando num blogue de que nunca ouvi falar antes na minha vida, que alimenta regularmente e que se chama – algo deceptivamente – Mundo Perfeito. Bem, não pode ser assim tão perfeito como isso, se a imagem de cabeçalho que a Isabela escolheu para a porta do seu blogue é um corpo de mulher de cuecas e com cabeça de cão, sentada numa estufa com flores. É uma invocação que diz muito. Para mim uma alegoria de um mundo perfeito ( aquilo a que Sir Thomas More chamou em tempos de Utopia )podia ser a fotografia acima – mais ou menos. E ainda tem à porta da estufa retinintes e polidos avisos sobre os seus direitos de autora, que, na minha experiência na internet, são ah tão simpáticos como não valem um caracol furado. Neste meio a ofensa não se combate com avisos, combate-se com unhas e dentes.

Ou ignora-se.

Ora eis algo que não me ocorrera antes, isto de ter um blogue na internet, onde vou escrevinhando umas coisinhas e um belo dia, imagino que para aqueles que não têm internet, arranjo uma editora e escarrapacho tudo outra vez numa publicação, à laia de The Best of Maschamba. Bem, sempre tira a impressão fungível e a desconfortável sensação de estar sózinho num submarino e que as palavras que aqui escrevemos em suporte incompreensivelmente electrónico, pareçam um pouco menos aquilo que os americanos chamam pissing in the wind (no nosso vernacular, fazer chichi ao vento). Tenho que falar com o nosso Senador e a Sra Baronesa em reunião de Conselho de Machamba, mas receio que, numa futura edição do Caderno de Memórias Maschambianas, eu seja sumariamente relegado para uma recôndita nota de rodapé.

E lá se iria a etérea sensação da imortalidade literária.

Mas podia oferecer cópias dos livrinhos pelo Natal, o que com um blogue, admita-se, não se pode fazer.

A mistificação do comentário publicado no DN sobre a Isabela tem que ver com a evocação de um passado moçambicano que mais parece uma longa e pesada sessão de terapia duma branca com sentimentos negativos sobre a sua experiência africana e, quiçá, sobre o seu estatuto de retornada num Portugal revolucionário e recém-exorcizado da sua experiência colonial-bélica. Pelo meio, vagueiam ideias da injustiça daquilo tudo, o trauma do (presumo) rescaldo do 7 de Setembro de 1974 e ainda o fantasma do pai, que, recita, chamava coisas feias aos colonizados com pele mais escura e que, num contexto em que – creio – ninguém tinha “direitos”, tinham ainda menos que os colonizados mais clarinhos. A Fernanda, cuja experiência africana (e muito menos moçambicana) repito, desconheço por completo, arremata, no que presumo possa apenas ser uma infeliz exaltação literária, dizendo que vivia-se (em Moçambique) num país onde se podia atropelar um negro e não ir para a prisão. Pois. E esqueceu-se de referir que comíamos meninos pequenos para o matabicho.

Decorre que com a independência tudo isso acabou. E que com os assassínios de brancos por representantes armados da maioria negra nos arredores de Lourenço Marques em 1974 fez-se, apenas, justiça. Ai sim Fernanda? hum, sorte, então eu ter sobrevivido aquela pouca vergonha toda, e não graças à sua boa vontade.

Há aqui dois aspectos que me induzem a pensar que talvez este tipo de intro-retrospecção tenha que ser trabalhado um bocadinho mais.

O primeiro aspecto é que, segundo a Fernanda, cuja retórica para estes efeitos, aceite-se, é mais ou menos irrelevante, a Isabela saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade. Se calhar viajámos os dois no mesmo avião da TAP em alturas diferentes, só que eu tinha 15 anos de idade, diferença que importa para efeitos desta discussão. Pelo menos eu já não era virgem, naquele e em muitos outros aspectos da vida.

Ora, para alguém que saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade, a análise global da situação que a Fernanda diz que a Isabela faz, a crer-se biográfica e despida de preconceitos e análises que só possam ter sido posteriormente adquiridos, devem ser deveras de assombrar, vindos de uma miúda. A minha irmã mais nova, que tinha a mesma idade e teve o mesmíssimo percurso que a Isabela, mal sabia jogar ao berlinde. E lá em casa ainda estamos à espera dos seus cadernos.

Mas admita-se que pode ser que seja a nua verdade no seu caso pessoal, em que a forma como pinta o pai assusta mais que o papão colonial-racista. O que refere dava para horas e horas (e horas e horas) de sessões de psicoterapia.

Mas não logra por um segundo pintar uma realidade maior.

O segundo aspecto é que, por minha parte – e já o tentei explicar uma vez ao JPT e sob pena de me repetir – ao contrário de alguns eu vivi lá, e no meu microcosmo o pai BM e a quase totalidade das pessoas com quem contactava, não chamava nomes a ninguém, branco ou preto, eu não era inibido de me dar com ninguém com base na cor da pele e, se não disputo (mas não desta maneira) a sustentabilidade do tal “ídilio colonial” de Lourenço Marques que a Fernanda diz que não existia (existia, sim, que chatice), pintar essa era e todas as vastas e complexíssimas relações pessoais, económicas, sociais e raciais de Moçambique no fim da era colonial em Lourenço Marques com um simples rótulo de “racismo” e “abuso” é totalmente descabido. É falso. É absurdo. É ridículo. É uma fraude moral, intelectual e histórica. É projectar os seus preconceitos actuais, ignorar as suas causas e tentar justificar moralmente os seus efeitos e a pulhice que veio a seguir, e em que de longe as maiores vítimas – surpresa – foram sempre, e quase só, milhões de moçambicanos, que de uma ditadura passaram directamente para outra, não muito diferente.

Especialmente se se está a falar no começo dos anos 70, em Lourenço Marques.

Claro que lá havia racismo. Claro que havia injustiça, incluindo a racial. Claro que tinha que acabar. Que tinha que mudar. Claro que havia gente como o pai da Isabela. Se calhar até pior. Claro que aquilo era uma ditadura, com tentáculos em Portugal, um anacromismo total num mundo já quase sem impérios coloniais e em que os países comunistas activamente armavam e patrocinavam os que combatiam o que sobrava de colonialismo no mundo. Ser colonial a partir de 1950 tinha o seu custo em lágrimas, suor e sangue. Salazar estava disposto a pagá-lo, outros não. Em 1974, venceram estes.

Mas cuidado ao pintar tudo de negro. O pior racismo que vi na minha vida não foi em Moçambique, foi nos Estados Unidos quando para lá fui viver em 1977. Portugal hoje não é muito melhor. Quotidianamente vejo as maiores injustiças serem cometidas em Portugal hoje que não se distinguem assim tanto das injustiças que haviam em Lourenço Marques e que há em toda a parte. As injustiças económicas que se observavam há quarenta anos em Moçambique, aliás, ainda se mantêm em larga parte. Pois não é de um dia para o outro que se capacitam milhões de pessoas pobres, rurais e analfabetas que vivem de subsistência no mato e se lhes proporciona, e aos seus filhos, condições para ascensão social e económica.

O crime, se é que se pode dizer assim, não era do que a Isabela diz que vislumbrou aos dez anos de idade e muito menos dos tiques racistas do seu partido pai, que não conheci. É de um país que estava na mão de um ditador que escolheu manter um statu quo décadas depois da altura em que deveria ter iniciado medidas para atempadamente preparar e entregar o poder político e a gestão da nação moçambicana aos seus filhos, descomplexadamente e de cabeça erguida.

Provavelmente quer eu quer a Isabela teríamos lá ficado, a viver em paz e sossego e estaríamos a ajudar a construir esse novo país, em vez de andarmos à esmola de familiares hostis e dependentes de amizades que se calhar nunca o foram, olhando no espelho à noite e inventando na mente que aqui pertencíamos.

E a ter que tentar engolir de terceiros a tese de conspiração de que o que ali porventura encontrámos de bom e belo – e que hoje é apenas uma memória, só isso – não foi, não podia ser, que estamos a mentir aos outros e, pior, a nós próprios.

Vão à merda.

Dito isto tudo, acho que um dia destes lá vou ter que ir procurar o tal de livro para ver mesmo do que é que a Isabela está a falar.

Ou talvez não.

Quanto ao blogue, para já fico à porta.

23/12/2009

José António Saraiva, os Jovens e o Pai

sapatilhas da moda nb kiks

por ABM (Cascais, 23 de Dezembro de 2009)

A propósito dos meus queixumes cinematográficos sobre os jovens, refiro a crónica de José António Saraiva, que dá a sua visão sobre o assunto. Claro que peca pela abrangência. Mas em média está correcto e aponta o dedo aos filhos da classe média (bem, da média-baixa para cima).

Li esta coluna não porque comprei o semanário lisboeta Sol, de que JAS é director, mas porque estava um monte de jornais para oferta à saída do cinema a semana passada e eu peguei numa cópia.

Gosto muito de ler JAS desde os idos tempos em que comprava, numa mercearia portuguesa na zona de Fox Point, em Providence, Rhode Island (EUA) inexplicavelmente espessas cópias do Expresso. Não era todas as semanas pois a mercearia só recebia algumas cópias e se eu chegasse tarde não havia nada para ninguém.

JAS era para mim o prato forte e leitura obrigatória do Expresso e nunca entendi muito bem a decisão dele sair de lá para fundar o Sol. Do pouco que sei, este jornal, não sendo editorialmente mau, não vale muito sem ele e parece-me que tenta ser o antigo Expresso sem o ser. O problema é que nem o actual Expresso se parece com o antigo Expresso.

Pode ser que seja eu que tenha mudado. Mas não acho.

Acresce que o jornal tem tido problemas financeiros aparentemente sérios e tem seguido uma estratégia muito peculiar de insistir em ser vendido nos países africanos onde se fala português, o que não entendo pois o mercado lá para as notícias e análise que o jornal faz cá não é grande. Não só não é grande como não se compadece com as pressões culturais, diplomáticas e políticas que caracterizam o tortuoso eixo que liga Lisboa às capitais dos países onde se fala português – especialmente Angola e Moçambique (que conheço melhor) onde há bons jornais e bons escribas.

E, do que fui informado, uma parte do capital do Sol está nas mãos de interesses angolanos. Qual a lógica, não sei.

Mas JAS continua em forma, mais velhinho e sábio como alguns de nós. O estilo e a substância não alteraram muito com os anos.

E, meritoriamente, sai no feitio ao pai, o grande António José Saraiva, que tive o prazer de ver quando visitou a Universidade Brown e em que falámos de um livro que ele então havia publicado recentemente, A Inquisição e os Cristãos Novos, que eu acabara de ler e tinha feito um (ridículo) trabalho para uma cadeira creio que do prof. Onésimo Teotónio Almeida.

Para mais sobre a Inquisição e os Cristãs Novos, leia-se esta entrevista de Francisco Bettencourt, que em tempos leccionou na Brown e em que fala da obra do pai Saraiva (chamando-lhe uma “tese marxista” – hum).

21/10/2009

TAPologia

Filed under: Portugal-África — ABM @ 3:39 pm

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– por ABM

Este é o segundo texto sobre o assunto. O primeiro eclipsou-se por erro da Secretaria do Maschamba Cá Vai versão 2.

A TAPologia é o estudo de como uma empresa de transporte aéreo tecnicamente falida consegue sobreviver alegremente 35 anos seguidos à custa de saudáveis e ocasionais subvenções dos contribuintes do país em que se baseia.

Neste contexto, é de notar a informação divulgada hoje, que indica que nos primeiros nove meses de 2009 a TAP transportou 303 mil pessoas de e para África – o que por definição inclui muitos desta honrosa comunidade Maschambiana.

A mesma informação indica que este número representa um aumento de 6.7% se comparado com 2008.

Mais interessante é que em 2009 esses 303 mil passageiros, que representaram 6.4% de todos os passageiros que usaram aquela empresa, contribuiram para 17.2% das suas receitas.

Ou seja, a crise agudiza, mas África soma e segue. E paga a factura.

01/10/2009

A Medida do Orgulho Nacional

Filed under: Portugal-África — ABM @ 12:33 am

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(por ABM)

Tendo eu vivido em sítios exóticos como os EUA, Portugal, Moçambique e Angola, e visitado o Brasil várias vezes, sempre achei que, na minha escala cósmica pessoal da exibição do orgulho nacional os portugueses eram um caso difícil de comparar dada a sua inusitada capacidade para uma auto-crítica por vezes iconoclasta, difícil de contextualizar quando comparados com os estrangeiros.

Por comparação, os norte-americanos pareciam irritantemente orgulhosos (“we are the best country on the face of the earth”), os moçambicanos sempre vibrantes mas discretos e os angolanos uma espécie de americanos de África (um problema sério para os sul-africanos, cuja exibição de superioridade paternalista junto dos angolanos irrita-os de sobremaneira). E os brasileiros cantavam o seu amor brasileiro aos berros e a dançar o samba, pintados de verde e amarelo.

Mas não há maneira de medir estas coisas. Ou melhor, não havia, em parte, até o Economist publicar hoje este estudo, levado a cabo por um tal Reputation Institute, que formalmente fez um estudo de 33 países cujas conclusões o exmo leitor pode encontrar premindo aqui.

A classificação dos portugueses não me surpreendeu, ainda que estar em 19º lugar num planeta com duzentos e tais países não é assim tanto um caso de desesperar.

O que me surpreendeu foi ver o Brasil, a África do Sul e o Japão abaixo de Portugal. Afinal?! E os EUA em 11º lugar, atrás da Índia, da China e de (meu Deus) da Espanha.

As coisas nem sempre parecem o que são, pelos vistos.

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