THE DELAGOA BAY REVIEW

29/03/2011

A IGREJA, O ESTADO E O ENSINO COLONIAL, POR FILIPE ZAU

A fachada da catedral de São Pedro no Vaticano.

Com vénia, reproduzo em baixo um interessantíssimo artigo publicado no Jornal de Angola (Luanda) de hoje. Sendo o seu enfoque primário Angola, não deixa de conter informações transversais ao que se passou um pouco por todo o império colonial português.

O autor é o Doutor Filipe Zau, que, segundo indica o jornal, é doutorado em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais.

Segue o texto, tal como publicado, incluindo o título original da peça.

A IGREJA NA LUTA PELA INSTRUÇÃO E A INDEPENDÊNCIA

Quando a administração colonial, após o início da luta armada em Angola, pôs fim à Lei do Indigenato, incrementou a rede de escolas públicas e procurou aumentar o número de professores, alterou de forma significativa o índice de escolarização na colónia, sem que essa evolução positiva tivesse satisfeito as necessidades de aprendizagem da maioria da população angolana, nomeadamente, em áreas rurais.
Entre 1964 e 1969, formavam-se, em média por ano, nas escolas do magistério existentes, cerca de cem professores primários, o que era manifestamente insuficiente.

Em 1973, o número de alunos, em todo o ensino primário, correspondia a 512.942, um terço dos quais portugueses. Apesar do enorme esforço levado a cabo pela administração colonial, de um momento para o outro tornava-se impossível recuperar o tempo perdido. Para além disso, os sistemas educativos são incapazes de dar respostas imediatas e eficientes às expectativas políticas de curto prazo. A formação de professores e gestores educacionais de qualidade é sempre demorada e, como refere António Nóvoa, “não há ensino de qualidade, nem reforma educativa, nem inovação pedagógica, sem uma adequada formação de professores”.

Um ensino religioso

Salvo as iniciativas levadas a cabo pelo manicongo Mvemba-a-Nzinga de formar núcleos escolares no reino do Congo, em Angola não havia uma tradição de ensino sistematizado e o número de pessoas cultas ou que desejavam cultivar-se era ínfimo. A maior parte dos portugueses residentes em Angola passava os anos a amealhar um pecúlio que lhes permitisse viver desafogadamente na metrópole, de onde, muitas vezes, não saíam as mulheres, nem os filhos.

No início do século XIX, as missões encontravam-se em franca decadência, sendo, em 1834, extintas as ordens religiosas. Por essa altura, em Luanda, só havia um padre capuchinho e um carmelita.
Antes da primeira metade do século XIX, o ensino estava entregue aos jesuítas e o esforço para estabelecer o ensino público foi infrutífero. De recordar que, pela Lei de 3 de Setembro de 1759, o marquês de Pombal mandou extinguir a Companhia de Jesus, o que colocava, desde logo, os ensinos primário, industrial e agrícola sem mestres e ao abandono. O decreto de 15 de Dezembro de 1856 abriu novas oportunidades aos sacerdotes europeus para paroquiar nas igrejas de Angola e Moçambique, proporcionando, entre outras regalias, passagens, ajudas de custo, aumento de gratificações e um excedente para o serviço de ensino.

No dia 7 de Abril de 1857, o Conselho Ultramarino, que havia incluído o apostolado missionário nas suas actividades, abriu concurso para o provimento das diferentes igrejas de Angola. Os párocos serviam durante oito anos, eram colocados em freguesias do litoral e do sertão angolano e, cumulativamente, exerciam o ensino primário.

Em resultado deste concurso chegaram a Angola, em 1858, os primeiros oito párocos europeus para serem colocados nas paróquias do Bembe, S. José do Ambriz (cuja ocupação militar se havia confirmado, apenas, em Maio de 1855), Huíla e Cassange, nas freguesias de S. João Baptista de Gazengo, Santo Hilarião do Golungo Alto, Benguela e Pungo Andongo. No novo concelho de Malange foi colocado um cónego africano, de nome Necessidades, que ali veio a falecer em Junho seguinte.

No dia 14 de Abril de 1861, tomou posse da Diocese de Angola o Bispo D. Manuel de Santa Rita Barros, que desembarcou em Luanda, no dia 2 de Setembro, trazendo consigo párocos, cónegos, professores e 12 ordinandos, uns do Seminário Patriarcal e outros do Seminário de Cernache do Bonjardim, com destino à frequência do Seminário Diocesano, que, nos princípios de Novembro, abriu no Edifício do Paço, antigo Colégio de Jesus. Em relatório apresentado pelo padre José Maria Antunes, em 1 de Dezembro de 1894, levado ao exame da Junta Geral das Missões, estas deviam distanciar entre si, em média um grau no sentido ocidente-oriente e dois graus no sentido norte-sul.

Havia, à época, ainda segundo Martins dos Santos, quatro centros de missões já solidamente estabelecidos: Malange e Caconda, desde 1890, Cassinga (1886), e Huíla (1881). Malange era a missão central e dali irradiaram os missionários para fundarem as missões do Libolo (1893), Mussuco (1900), Bângalas (1913), Cacuso (1925), Minungo (1929), Saurimo (1930), Mussolo (1937), Salazar (Ndalatando) (1937), Dembos (1938), Dundo (1940), Cazanga (1941), Lombe (1946), Chiengue (1950) e Quibala (1951).

De Caconda irradiaram para estabelecer as missões de Cachingues (1892), Bailundo (1894), Vila da Ponte (1894), Huambo (1910), Sambo (1912), Cúchi (1912), Galangue (1922), Mupa (1923), Ganda (1927), Omupanda (1928), Bimbe (1929), Quipeio (1933), Balombo (1933), Andulo (1933), Silva Porto (Cuito) (1934), Nova Lisboa (Huambo) (1935); Caála (1935), Nova Sintra (1936), Entre-Rios (1939), Cuamato (1940), Caiundo (1940), Vila Junqueiro (1940), Baixo Cubango (1940), Chinguar (1942), Canhe (1942), Mungo (1948), Bela Vista (1948), Bundas (1950) e Nharea (1950).

Da Huíla, as missões do Jau (1889), Chivinguiro (1892), Quihita (1894), Gambos (1897), Munhino (1898), Chipelongo (1902), Vimania (1902), Chiúlo (1916), Sá da Bandeira (Lubango) (1935) e Quilengues (1938). De Lândana, as missões de Cabinda (1891), Luáli (1890-1892), Lucula (1893), Lunuango (1902), Maiombe (1922), Santo António do Zaire (1930) e Ambrizete-Tomboco (1935).

Em 1901, destacavam-se os padres do Espírito Santo, que tinham a seu cargo, na então colónia de Angola, as missões seguintes: Lândana, Cabinda, Luáli, e Lucula, no distrito do Congo. Luanda e Libolo, no distrito de Luanda. Malange, Canâmboa e Mussuco, no distrito da Lunda. Caconda, Bailundo, Bié, Catoco, Cassinga e Massaca, no distrito de Benguela. Huíla, Munhino, Chivinguiro, Jau, Quihita, Gambos, Cubal e Cuanhama, no distrito de Moçâmedes.

O clero nativo

Afirma também Martins dos Santos, que as tentativas para remediar o défice de missionários com a ordenação de um maior número de sacerdotes africanos, acabaram por não corresponder às expectativas, uma vez que eram considerados incapazes de exercer a influência necessária junto dos seus compatriotas. “Estes viam-nos com certa desconfiança, considerando que fossem mandatários servis dos brancos, membros renegados e degenerados da sua raça ou da sua tribo”. Os europeus não aceitavam a orientação religiosa dos padres nativos, consequentemente, os seus ensinamentos eram menosprezados.

De facto, a preparação eclesiástica do clero nativo era deficiente, já que as aulas e os próprios cursos não funcionavam com regularidade, uma vez que não existia seminário. Chegou-se a acusar o bispo de ordenar padres que liam mal e compreendiam o latim litúrgico com dificuldade. Os sacerdotes africanos eram pura e simplesmente considerados analfabetos, o que os fazia sentir diminuídos face aos seus colegas europeus. Estes, por sua vez, não se mostravam razoáveis e compreensíveis. Bem pelo contrário, acentuavam mais as diferenças que os separavam dos sacerdotes africanos que sentiam ainda a dificuldade de se divorciar dos seus hábitos e costumes culturais, alguns deles, incompatíveis, na altura, com a forma de estar exigida pela Igreja Católica. Como Angola não possuía condições que permitissem a preparação intelectual e religiosa dos candidatos ao sacerdócio, procurou-se ultrapassar este obstáculo enviando jovens seminaristas para a Europa e Brasil.

O decreto de 23 de Julho de 1853 criou o Seminário Episcopal de Luanda com o fim de apoiar as dioceses de Angola e S. Tomé, servir de hospício aos missionários e suprir a falta de liceu e demais aulas públicas. Mas apenas no dia 29 de Junho de 1910, D. João Evangelista de Lima Vital conferia ordens de presbítero a dois alunos do seminário diocesano, ambos negros, os primeiros de um primeiro viveiro eclesiástico. Em 50 anos, apenas cinco padres tinham sido ordenados em Angola.

Acordo missionário

Em 7 de Maio de 1940 foi assinado na cidade do Vaticano, pelos plenipotenciários do Pontífice Pio XII e do Presidente da República Portuguesa, a Concordata, para a metrópole e, integrada nela, o Acordo Missionário, para o Ultramar. Este nos seus artigos 3º, 6º, 66º-69º e 81º fala de “indígenas”, “população indígena”, “pessoal indígena”. O artigo 66º estabelece que o “ensino especialmente destinado aos indígenas deverá ser inteiramente direccionado ao pessoal missionário e aos auxiliares”. Permite o uso da “língua indígena” somente no ensino da religião (Art.69º). A Concordata tolerava, de “harmonia com os princípios da Igreja”, o uso da “língua indígena” no ensino da religião católica (Art.16º). A mesma Concordata discriminava escolas para os indígenas e europeus (Art. 15º) e destacava a “evangelização dos indígenas” (Art.º 19). Mais tarde, a Lei do Indigenato entendia o uso dos “idiomas nativos” no ensino somente como instrumento de difusão da língua portuguesa: “O ensino a que se refere este artigo procurará sempre difundir a língua portuguesa, mas, como instrumento dele, poderá ser autorizado o emprego dos idiomas nativos». [LEI DO INDIGENATO, Decreto-Lei nº 39.666, suplemento ao Bº 22, 1ª série, de 31/05/1994, art. 6º, § 1].

Estes e outros factos tiveram influência na posição pró-independentista de uma parte do clero africano: o cónego Manuel das Neves e os padres Joaquim Pinto de Andrade, Martinho Samba Lino Alves de Guimarães e Domingos Gaspar, que foram presos pela PIDE. Igual destino teve o cónego Manuel Franklin da Costa e os padres Vicente José Rafael e Alexandre do Nascimento, que também foram nesse ano exilados para residirem em instituições religiosas na metrópole.
A prisão do cónego Manuel das Neves, no dia 21 de Março de 1961, deixou o Arcebispo de Luanda, D. Moisés Alves de Pinho, bastante preocupado: “Para os africanos, tudo o que não seja protestar contra a prisão de padres nativos e de numerosos leigos detidos pela PIDE, tudo o que não seja reconhecer-lhes direito à independência, e isso já, sem demora, desagradará. Quanto ao elemento europeu, por sua vez, desejará a afirmação sob o ponto de vista governamental, desejará a consagração da política de integração. Não o fazendo vamos passar por estar incondicionalmente ao lado dos africanos e contra o Governo.”
Os sacerdotes exilados entregaram ao Núncio Apostólico em Lisboa, em Outubro de 1963, uma missiva onde diziam o seguinte: “nós sabemos que a emancipação de Angola se há-de efectivar, cedo ou tarde, com ou sem a Igreja. Porém, ­perante este dilema, sem deixarmos de ser angolanos, o nosso sacerdócio não tolera a indiferença, tanto mais que a perspectiva “sem Igreja” facilmente se converte em “contra a Igreja”, quando em situações idênticas, a Igreja não se insere, no momento devido, mediante os seus cristãos nos “ventos da História”. Neste espírito de apostolado, sofremos a prisão, o exílio, as torturas físicas e morais, as incompreensões, o desprezo, as acusações tão falsas como ignóbeis, as difamações mais maquiavélicas, o abandono e as restrições nas próprias liberdades sacerdotais. E esta situação eterniza-se sem esperança de solução.”

O ensino público

Complementarmente aos 100 professores primários anualmente formados, eram, também, em cada ano, preparados 200 “monitores escolares”, que tinham como habilitações literárias apenas a 4ª classe. Em 1971, estes “formadores” correspondiam a mais de dois terços de todos os docentes existentes nas zonas rurais. Um pouco melhor preparados para a docência estavam os “professores de posto”, que também eram escassos para cobrirem as necessidades da instrução primária em Angola. Nesta conformidade, facilmente se reconfirma que, desde a implantação do ensino oficial em Angola, a 14 de Agosto de 1845, até ao início da luta armada em 1961, o ensino primário não estava dirigido às populações africanas, salvo para os que estivessem minimamente associados a uma matriz cultural urbana.

Durante o Governo de Transição, através do decreto de 25 de Junho de 1975, foram revistos os vencimentos do pessoal docente do ensino primário em Angola. Segundo Martins dos Santos, “(…) deu-se satisfação a velhas aspirações, aumentando o vencimento a auferir e subindo estes servidores públicos na escala do funcionalismo. A publicação deste diploma era a prova cabal de que, até então, se não tinha querido a sério resolver certos problemas, mantendo um sistema injusto e revoltante, que de algum modo contribuiu para o desprestígio e aviltamento da classe. Merecem ser fixados os nomes dos governantes que intervieram na elaboração do decreto e que o subscreveram: Johnny Pinnock Eduardo, primeiro vogal do Colégio Presidencial; Lopo Fortunato Ferreira do Nascimento, membro do Colégio Presidencial; José N’Dele, também membro do Colégio Presidencial; Jerónimo Elavoco Wanga, titular do Ministério da Educação e Cultura; Saidy Vieira Dias Mingas, do Ministério do Planeamento e Finanças; António da Silva Cardoso, Alto-Comissário de Portugal em Angola”.

(fim)

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18/01/2011

O INÍCIO DE 2011 EM DEZ ACTOS

O ano de 2011 começou bem – ou não?

Or veja-se a minha curta resenha:

1. Depois de uma série de distúrbios na Tunísia, o presidente do regime que o mantém há 23 anos, fugiu. Falta ver o que é que o regime vai fazer a seguir. Diz que vai fazer uma eleição. Mas depois de uma ditadura de 23 anos, o que é que se pode eleger? À primeira vista assunto pouco relevante, mas levanta questões quanto a outros países onde situações com algumas semelhanças existem.

2. O Sudão ensaia uma partição na linha Norte-Sul. Com o petróleo, no meio, por resolver. Hum, tirando a Eritreia, quando foi a última vez que uma nação-estado ao estilo pós-colonial africano fez isto, e viveu para contar a história?

3. Parece não haver maneira de a Costa do Marfim ir ao lugar. O habitual problema: ou se aldraba, ou simplesmente não se liga às leis e aos compromissos eleitorais. No fim, o poder fica na rua, ou com obscuros militares, talvez o menos desejável dos resultados. E uma lembrança da fragilidade dos sistemas e das instituições. E da atitude.

4. Enquanto isso, Jeffrey Sachs, académico e bardo-mor de uma certa forma de desenvolvimentismo chique de Manhattan, que parece que só ele parece saber o que é, elogiou a taxa de crescimento do PIB moçambicano e preconizou em Maputo esta semana finda coisas fantásticas para vir, juntamente com algumas verdades de La Palisse, como aquela de se ter que renegociar alguns contratos milionários para algumas multinacionais e de se ter que ter mais cuidado com as concessões de terrenos agrícolas. É sempre bom ver a realidade de Moçambique quando se vê através de uns relatórios em Nova Iorque.

5. Já Prakash Ratilal, agora tornado banqueiro mercurial e mais próximo do terreno, não é tão optimista quanto aos próximos tempos. Ele lá sabe, e tentou explicar porquê. Bombásticamente, o jornal lisboeta Público de hoje cita umas linhas do que ele disse e cobriu tudo com o relativamente bombástico título ” o modelo económico moçambicano não é sustentável”. Bem, é e vai ser enquanto metade das despesas públicas do Estado moçambicano continuarem a ser generosamente pagas pelos infames estrangeiros, juntamente com um cocktail de “soft loans” e pacotes de ajuda e ainda doses industriais de investimentos extratcivos e de infra-estruturas. Os pobres assim não morrem, os ricos ficam mais ricos e os doadores dormem melhor. É assim há quase trinta anos. É a situação win-win-win. À moçambicana.

6. Esta semana foi revelado que, para além da actual autêntica rapina das florestas moçambicanas, realizada neste caso por –surpresa! – a empresa chinesa Tienhe Ldª, parceira da igualmente chinesa Miti, Ldª, os moçambicanos, ao apreenderem uma remessa ilegal de nada menos que 161 contentores de madeira em bruto (leia-se: cento e sessenta e um contentores) após uma inspecção (por denúncia) de um navio atracado em Pemba, encontraram lá dentro de um deles (e aqui cito a sempre inquestionável AIM) “126 dentes de marfim, uma ponta de rinoceronte, animal em extinção no país, carapuças [sic] de pangolins, peças de arte fabricadas com base em marfim e excremento de elefantes”. Portanto no mínimo mataram uma manada de elefantes, um rinoceronte e tiraram os carapuços aos pangolins. A contínua matança dos animais de Moçambique para decorar as casas dos chineses e o genocídio florestal em curso em Moçambique há muito que deixaram de me surpreender. No fundo é como aquela  história dos fumos corrosivos da Mozal que só corroem os centros de tratamento, mas não os pulmões dos Maputianos. A história do excremento de elefante é que é uma novidade para mim. Contrabandear excremento de elefante para a China? para quê?

7. Na frente espiritual, o Vaticano lá encontrou e validou um “milagre” que justificasse a beatificação do genial João Paulo II, a ser formalizada a 1 de Maio, dia que nos países outrora conhecidos por comunistas celebram os trabalhadores (para variar os americanos celebram o trabalho, no início de Setembro). Agora procura-se mais um milagre para a santificação. Eu acho que, por uma questão de desburocratização administrativa do processo, devia-se reverter para o sistema moçambicano de decretar heróis, ou o velho processo dos romanos, em que o imperador tinha o direito de proclamar fulano ou cicrano deus. Assim arrumava-se o assunto de uma vez com um papel.

8. Em Portugal, a campanha presidencial assume foros de patético. Em parte porque ninguém percebe bem o que é que um presidente pode fazer para lidar com o crescente clima de recessão. Todos suspeitam que não pode fazer nada a não ser possivelmente piorar as coisas. Felizmente o suplício acaba no próximo fim de semana, após o que a crise poderá continuar. Para já, todos os impostos dispararam mas só daqui a uns seis meses é que se vai começar a sentir o embate. Mas as apostas para a queda de Sócrates são mais curtas.

9. Regressados os restos mortais do saudoso Malangatana a Moçambique, ele foi sepultado na sua terra natal com a pompa e o respeito devidos. Já em Portugal, onde ele morreu, foi tratado com o mesmo respeito. Em Maputo, até o Eduardo White se deu ao trabalho de preparar algo para ser lido na cerimónia do enterro, com alguma ajuda da Lucrécia Paco. Assim, até apetece morrer.

10. Roberto Chichorro inaugura uma exposição da sua arte no próximo dia 21 numa galeria de arte em Cascais. Pelas 21:30 horas.

Olhando bem lá para cima, já me começa a parecer que 2010 foi há uma vida.

11/10/2010

A QUESTÃO ESSENCIAL DA VIDA

Filed under: António Botelho de Melo, James Le Fanu, Religião, Viagens — ABM @ 8:11 pm

A capa do livro de James Le Fanu, que eu li e que analiso mais lá em baixo.

por ABM (11 de Outubro de 2010)

Se o Exmo. Leitor quiser ver a análise da obra salte a secção que se segue.

INTRODUÇÃO: DEUS E ABM

Desde que a Mãe BM, nos primórdios dos anos 60, naquele tempo católica devota e praticante assídua, me depositou imberbe na catequese da Igreja de Santo António da Polana para aprender a sua religião ( educação essa que foi complementada via um acordo qualquer entre o Estado e a Igreja Católica com uma espécie de dose dupla de indoctrinação aos sábados de manhã na Escola Primária Rebelo da Silva, hoje, a Escola Primária 3 de Fevereiro em Maputo) que se me colocou a questão da existência de Deus e o Enquadramento da Humanidade no Esquema Geral das Coisas.

A contracapa do livro de Le Fanu com o seu teaser. Prima na imagem para ler o que diz.

Para mim nunca foi uma questão importante: rapaz algo precoce nestas coisas, desde logo estudei a questão, não porque ela me mistificasse, nem sequer porque nunca por um segundo que fosse que eu acreditasse na tese de um mundo criado por uma entidade divina etc e tal (aka Deus), que a seguir criou tudo e a seguir criou os homens “à sua imagem” para fazer sei lá bem o quê (pois alguém que me explique isso em três linhas ou menos).

Estudei a questão porque eu, que me achava razoavelmente inteligente e lógico, não entendia porque é que me parecia que eu era a única pessoa no planeta que sentia isso e, quando olhava à minha volta, quase toda a gente que eu conhecia estava perfeitamente à vontade em ir à missa, confessar-se, falar com os seus deuses, tinha medo deles, pedia-lhes favores, metia cunhas, seguia o que me pareciam ordens ante-medievais para o seu comportamento e morais, etc e tal.

Simplesmente era algo que não entendia.

E como eu odiava aqueles rituais todos. O senta-levanta- ajoelha-senta outra vez-levanta outra vez, a confissão a um padre de saias escondido num cubículo às escuras, as horas de blá-blá-blá que para mim eram um suplício, ainda por cima aos domingos às sete da manhã, quando o que eu queria era ir à praia ou para a piscina do Desportivo.

Imagem do chamado Concílio do Vaticano II, tirada em Setembro de 1962. A missa deixou de ser falada em latim e os padres passaram a rezar a missa de frente para os fiéis. Não fiquei impressionado.

Os padres com quem eu contactava, com a excepção de um, talvez pela sua estupidez, arrogância, aparente falta de cultura e desregrada mania de que um miúdo era uma espécie de saco acrítico a quem se despeja o que se quiser sem direito a contexto e análise, só pioraram a coisa, achando que me instilariam a sua fé por simples imposição dogmática ou à porrada, estilo “vais acreditar nisto senão levas no focinho”.

E oh se eu levei no focinho de quase todos eles (cabrões de merda), especialmente quando um dia disse ao padre Arnaldo lá na igreja de Santo António, em alto e bom som, em pleno comício de meninos de catequese bem comportados (todos brancos) que não, que não acreditava que tinha sido Deus que tinha afundado o Titanic no trágico naufrágio ocorrido na noite de 15 de Abril de 1912 (a imagem vinha no livro da catequese, com fotografia e tudo). Tinha sido um iceberg. Eu lera na Enciclopédia Universal lá em casa. Ele aí passou-se dos carretes, bateu, gritou, castigou, mandou-me rezar dez pais-nossos e queixou-se aos meus pais que eu era malcriado e do piorio.

Enfim. Sobrevivi.

Segundo o meu manual da catequese, foi Deus quem afundou o Titanic e matou aquela gente toda.

Isto durou o que pareceu uma eternidade até que, uma noite, com 12 anos, após estudar o assunto mais aturadamente, marquei e tive uma conversa muito séria com a mãe BM, que para variar nessa noite estava a rezar o terço. A mãe BM era a combatente católica da família, enquanto que o pai BM basicamente ignorava o assunto, limitando-se a seguir os passos mínimos obrigatórios para acomodar a minha mãe e não fazer ondas. Ele disse-me isso muitos anos mais tarde, mas desde sempre dava para ver que o seu empenho nestes assuntos não era o mesmo do dela.

Nessa noite, pedi-lhe que por favor acabasse com aquilo tudo: ela já tinha feito o que ela achava ser o seu dever de transmitir-me os seus valores religiosos, o que eu entendia e respeitava. Eu já tinha percebido tudo o que os padres andavam a tentar dizer. Mas não acreditava nem tinha fé e já estava farto e por isso por favor que me deixassem de chatear com estas coisas de Deus e de ter que ir a catequeses e seminários e romarias e missas pois eu já não podia ver aquilo à minha frente.

Para atenuar o choque, tacticamente, lá lhe disse que talvez um dia mais tarde na vida (mais propriamente, o Dia de São Nunca à Tarde) eu levasse com um relâmpago em cima e visse a Luz e essa coisa toda. Mas por enquanto nada me atraía ao Sobrenatural.

Nem eu alguma vez perdera o sono com o assunto.

Para minha supresa, a mãe BM pousou o terço e aquiesceu. No dia seguinte, assinou o papelinho que me permitia isentar-me da aulas de Moral e Religião na Escola Preparatória General Machado (o tal que fez o plano da cidade e acabou o caminho de ferro, Carlos) e deixei de frequentar a Igreja de Santo António da Polana aos fins de semana.

Manteve-se apenas a obrigação de eu ir à missa do Galo na noite de Natal.

Entretanto cresci, e desde então, sempre mantive uma postura de enorme respeito e curiosidade por todas as religiões, e apreciação do que de bom (e de mau, atalhe-se) delas pode vir.

Tecto da Capela Sistina no vaticano: a visão do Divino há quinhentos anos. Por Michelangelo.

O não me inscrever na fé católica (ou em qualquer outra) não significava que não tivesse as mesmas questões e dúvidas que me parece que muitas pessoas – e muitas religiões e ainda o marxismo-leninismo – se colocam e procuram responder, como de onde viemos, o que estamos a fazer aqui, qual a razão para a nossa existência, qual o nosso objectivo enquanto por aqui andamos.

Pelo contrário. Sou um leitor ávido (mas casual) de boa literatura sobre os assuntos de geologia, astronomia, paleoantropologia, até biologia e filosofia (versão light), no sentido de melhor entender “isto” que somos e em que vivemos.

E bem divertido é tentar entender o que é que as ciências andam a descobrir por aí. Muito se descobriu nos últimos trinta anos. Muito mais do que eu alguma vez sonhara ser possível durante a minha curta estadia nesta terra.

A minha mais recente leitura sobre estes temas foi o livro cuja capa é acima retratada, Porquê Nós?, com o subtítulo O Mistério da Nossa Existência, pelo médico e escritor britânico James de Fanu, mais ou menos aptamente traduzido do inglês para língua portuguesa (com ortografia pré-acordo, graças a D….oops) e que foi recentemente posto à venda em Portugal (Porto: Livraria Civilização Editora, 2009, 15 euros no Continente).

O LIVRO

A obra de Le Fanu, que tem apenas 350 páginas, e cujo conteúdo é facilmente acessível a mentes menos treinadas nestas coisas (ou seja, não se perde facilmente o fio à meada) tem três aspectos que achei interessantes de abordar.

O primeiro, é que actualiza, quem o lê, para os raciocínios mais recentes sobre as origens do homem e do que o rodeia e para as mais recentes descobertas científicas feitas, em que o Shangri-la foram a descoberta do DNA e, mais recentemente, o mapeamento do genoma humano, que foi anunciado ao mundo em 2001.

O segundo, é uma excelente, inteligente, detalhada, a meu ver um pouco longa demais, discussão das teorias da evolução dos seres vivos, primeiro publicitadas ao mundo com a publicação, em 1859, de Sobre a Origem das Espécies, da autoria de Charles Darwin.

O terceiro é que, lá para o fim do livro, apesar de não cruzar a barreira do cientificamente plausível, o nosso Fanu não pôde deixar de fazer umas curtas deambulações sobre o Além e a Entidade Superior Divina Que Tudo Sabe e Tudo Faz.

Mas, consistentemente, diga-se, pára ao afirmar que a Ciência não consegue por si só comprovar essa existência. Ok, eu já esperava qualquer coisa deste género.

De certa forma, as mensagens que Le Fanu transmite são ao mesmo tempo desconcertantes e encorajadoras, quer pelo que já se descobriu, quer pelo que nem sequer ainda se suspeita como funciona. Dou dois exemplos que ele esmioçou em algum detalhe.

A PERFEIÇÃO (OU DEUS) ESTÁ NOS DETALHES

Um, é que, apesar de se conhecer hoje em algum detalhe a composição e natureza do DNA, comum a todos os seres vivos e que tem cerca de três mil milhões de componentes, e de ser ter passado os últimos anos à caça do que aquilo é e como opera, praticamente ainda não se chegou a parte nenhuma em termos de um entendimento mínimo quanto à sua arquitectura e o seu funcionamento. Suspeita-se, por exemplo, que a maior parte da estrutura do genoma humano é “lixo”, ou seja, informação genética que à partida não parece fazer nada nem servir para nada. E depois há a algo desconcertante constatação de que, à primeira vista, em termos de estrutura do DNA, o do homem só difere ligeiramente (2 por cento) do DNA do macaco ou da mosca.

O DNA dela é 98 por cento mosca, segundo Le Fanu

O outro exemplo é que, segundo Le Fanu, andou-se os últimos dez anos a estudar os supostos “verdadeiros” elementos diferenciadores que tornam a espécie animal a que chamamos os humanos, única na natureza: o cérebro e a consciência, ou inteligência.

Resumindo, apesar dos imensos estudos, e do muito que já se descobriu, verdadeiramente,  ninguém percebe ou consegue explicar minimamente como funciona.

Ninguém sabe como pensamos. Ainda menos como sonhamos.

Uma descrição que considero particularmente feliz da parte dele é a sua explicação de como passámos de macacos para gente, usando e descodificando em termos que se entendam, os registos científicos existentes hoje em dia. Le Fanu explica como é que se sabe que Lucy, a senhora que viveu algures em África e cujos ossos o Dr. Leakey encontrou, já andava de pé há uns milhões de anos, o tamanho do seu cérebro (25% mais pequeno que os nossos) e porque é que era importante ela já andar de pé maquela altura (podia correr melhor, podia segurar objectos com as mãos livres tais como um pau para ferrar uma nos cornos de um leão ou construir uma rede).

Outra curiosidade: se o exmo. Leitor parar e olhar para a sua mão, vai reparar que, em relação aos restantes quatro dedos, o seu polegar está mais recuado e mais atrás. E pode tocar todos os outros quatro dedos. É isso que nos permite segurar objectos e fazer quase tudo com as mãos, com uma precisão enorme. Nas mãos dos nossos primos macacos o polegar está no mesmo plano que os restantes dedos, o que significa que não pode fazer isso. Enorme vantagem para os humanos.

Mais uma curiosidade: fruto da evolução dos nossos antepassados, neste caso antepassadas, o facto de andarem de pé e de, ninguém sabe como nem porquê, os nossos cérebros terem “subitamente” aumentado significativamente de dimensão a partir do momento da concepção, as mulheres (comparativamente com as macacas) passaram a ter muito mais dificuldades  no processo de dar à luz, correndo facilmente perigo de vida, pois o “canal” por onde sai o bebé é mais apertado, pois está “encaixado” numa estrutura óssea originalmente desenhada para andarmos com as mãos no chão mas que foi “puxada” para cima quando começámos a andar de pé. Sendo agora as cabeças dos bebés muito maiores do que anteriormente, estima-se que uma macaca quase não tem dores de parto, enquanto que uma mulher normal sofre dores de parto que tendem a ser de assustar a morte.

A EVOLUÇÂO QUE FOI MAS QUE AFINAL NÃO FOI

Talvez o que mais me surpreendeu no livro de Le Fanu foi a constatação, na sua (longa) crítica da teoria da evolução avançada por Darwin há mais que um século, que afinal as coisas não são bem como eu pensava e que de facto permanecem buracos e inconsistências sérias. Talvez a mais surpreendente é que – surpresa- o registo fóssil identificado até agora, não confirma directamente que houve uma “evolução” das espécies.

O que parece que aconteceu foi mais uma sequência ainda não totalmente explicada (agora está na moda que, quando não se sabe o que foi, então foi um enorme meteorito que mandou com tudo abaixo) do surgimento sem qualquer explicação de um considerável ou enorme número de novas espécies – de que se destaca a Grande Mãe de todos eles, a Explosão Cambriana – que vivem e evoluem mais ou menos pacificamente durante uns largos milhões ou dezenas de milhões de anos, e de repente desaparecem também quase sem deixar rasto, inexplicavelmente.

Para ser mais preciso, mais do que 95 por cento de tudo o que já viveu na Terra está extinto.

Ou seja, a “evolução” é mais uma sequência disconexa de surgimentos de espécies animais e vegtais em massa, seguida de extinções em massa.

Ninguém sabe de onde é que ela veio e quem a fez

No fim de centenas de milhões de anos e de uma linha incompreensivelmente longa e ramificada (e essencialmente ainda completamente por mapear) destes processos, com o resto da bicharada e as espécies vegetais, aqui estamos nós hoje, a Grande Espécie, os homo sapiens.

Que se saiba, a única espécie viva que alguma vez existiu por estas bandas que pensa.

Mas que há meros sete mil anos ainda não usava nem a escrita nem o sabão. E vagueava em bandos e matava bichos e apanhava das árvores para comer.

Mas de repente, quando noventa e oito por cento da Humanidade ainda andava de tanga (incluindo os antepassados do europeus) e às pauladas uns aos outros, no que é hoje o Médio Oriente, apareceram como que por milagre os sumérios, e depois os egípcios, com a sua inacreditável civilização, e muito mais tarde os romanos, os primeiros imperialistas europeus (os últimos, na versão clássica, foram os portugueses, claro).

ABM no Cairo; Been there, done that.

Para quê isto tudo? Porquê?

Lamento, mas a resposta é que não parece haver qualquer lógica subjacente. Como refere Le Fanu num canto da página 277, citando o biólogo evolucionista George Gaylord, estamos aqui, agora , simplesmente porque sim: O homem resulta de um processo natural, sem propósito, que não o tinha em mente.

Portanto, para já, do ponto de vista científico, Deus e um Propósito parece que não fazem parte da Equação.

A não ser que o exmo Leitor ache que sim. Uma das maravilhas da mente (e Le Fanu gasta várias páginas deliciosas precisamente neste tópico) é que as pessoas podem pensar quase absolutamente tudo aquilo que quiserem. Faz parte desta indescritível faculdade de aprender, de reter, de processar, de criar e de imaginar, que só nós temos, encapsulados nesta bola azul que gira em volta de uma estrelinha num obscuro canto dum inimaginavelmente vasto Universo.

É tudo uma questão de se acreditar. Ou de fé, como se diz.

Por exemplo, todas as semanas, para minha perpétua surpresa, a Mrs. BM tem fé de que vai ganhar o Euromilhões. Eu, mais consistente e pragmaticamente, apenas espero que, se ela ganhar, me dê algum.

Alternativamente, o exmo. Leitor poderá querer ler o mais recente thriller de José Rodrigues dos Santos, o autor, jornalista que pisca o olho quando lê os noticiários na RTP e personalidade nascida em Moçambique, que se chama A Fórmula de Deus. Segundo a sua algo divertida mas detalhada explicação em inglês socratiano, reproduzida no vídeo ali em baixo (ele aqui está a puxar pelo seu livro no mercado anglófono, e cujo título em inglês é The Einstein Enigma) a obra é um complexo enredo que inclui um português, o Dalai Lama, o cientista Albert Enstein e os iranianos, em que no fim se descobre que existe afinal uma prova científica da existência de Deus.

http://www.youtube.com/v/ebA4KGVEPQY?fs=1&hl=pt_PT

Para já, se o José não se importar, vou esperar pela resposta, sentado.

08/10/2010

DEUS, O NEGÓCIO E O PECADO NA RUA ARAÚJO EM LOURENÇO MARQUES

A Rua Araújo em dia de sol, anos 1890

por ABM (8 de Outubro de 2010)

Quis divertir-me um pouco hoje.

Vamos lá.

AGRADECIMENTOS

Esta nota é dedicada ao Nuno Quadros, que involuntariamente foi o seu agent provocateur ao mandar-me uma mensagem a dizer que S.Exa. o Aga Khan tinha inaugurado um dos casinos que operaram na Rua Araújo (acho que não, Nuno) e à Sra D. Suzette Malosso que, na plenitude dos seus 82 anos de idade, tendo crescido na cidade aqui focada, lembra-se de coisas que eu não sabia sequer terem existido e que teve a pachorra de aturar os meus interrogatórios.

INTRODUÇÃO

Creio -dizem-me- que uma das expressões enfáticas e mais badaladas da protagonizada ética limpa do então novo regime que se instalou em Moçambique com a retirada da administração portuguesa da governação do país em 1975, foi, literalmente, o encerramento dos estabelecimentos na Rua do Bagamoyo em Maputo (então Rua Araújo em LM, terminologia que se usa doravante, pois o relato situa-se nessa era) e a proibição da sua vida boémia, tida como imoral, decadente, capitalista e exploradora, entre outras coisas, dos corpos e vulnerabilidades das mulheres moçambicanas.

A agenda dos líderes guerrilheiros da Frelimo recentemente chegados à capital, aparentemente horrorizados com os seus decadentes hábitos e costumes, foi, claramente, de dar um sinal das coisas para vir e da Nova Ordem, congeminada lá no meio do mato, em Nachingwea. Aquilo que viam em Lourenço Marques era o colonialismo. e o colonialismo acabara. A prole, emocionada, estúpida e oportunista, aplaudiu logo o gesto de eliminação da prostituição e da vida boémia – e já agora de tudo o resto mais que viesse à cabeça dos Libertadores.

Libertadores para quem, mais do que a Independência, que já era obra, consideravam a Revolução para Criar o Novo Homem Moçambicano o objectivo mais sério, e para quem o exemplo predilecto da pura vivência revolucionária – um pouco como Eça ironiza quando em A Cidade e as Serras “obriga” um rico parisiense a gostar de viver na parca rispidez serrana portuguesa – era aquela vida porreiraça e espartana que tinham andado eles próprios a viver lá no mato no Norte.

A solução clara era simples: o povo genuíno vem do mato, a gente não controla bem as cidades, que estão cheias de colonos brancos que ainda por cima pensam que ainda mandam alguma coisa e que são um veneno e um empecilho à Revolução Moçambicana. Portanto vamos colocar esta gente toda na ordem, mostrar-lhes quem manda aqui e correr com o maior número possível deles, preferencialmente de forma a que o que eles pensam que é deles (mas que é nosso) fique atrás.  E acabar já com os reaccionários vícios deles.

Não demorou muito (basta perguntar a quem passou por esta altura e que especialmente é white ou quase) e as cadeias estavam cheias de gente que foi repetidamente presa durante dias e dias porque atravessou a rua na hora errada, porque não bateu uma continência que não sabia que tinha que fazer, que não parou o carro a tempo quando a banda lá no palácio se lembrou de tocar o novo hino, que se esqueceu do bilhete de identidade naquela noite em que foi ao cinema com os amigos.

E isto era só para os que não tinham feito nada.

Mas na altura a Rua Araújo foi muito mais falada porque era uma medida muito mais visível, mais colectiva e mais ostensiva. O simbolismo era inescapável, e deliberado.

As alegadas putas e os seus alegados proxenetas foram mandados para a reabilitação e a rua (o tal de Araújo que dava o nome à rua foi o primeiro Governador do Presídio de Lourenço Marques, nomeado em 1781) mudou mais uma vez de nome, desta vez para um dos locais sacros da Gloriosa Guerrilha lá longe na Tanzânia: Bagamoyo, a escola para a formação do Novo Homem Moçambicano, cortesia da Frente de Libertação de Moçambique e, durante algum tempo, de Janet Mondlane.

Mas que apropriado.

O encerramento (na altura rotulado como “limpeza”, referido numa edição de Abril de 1975 na outrora Pacatamente Burguesa mas agora Raivosamente Revolucionária revista Tempo – e em que Ricardo Rangel era sócio) coincidiu com a Independência, felizmente para Victor Crespo, o memorável almirante e o último (e único) Alto Comissário em Moçambique, que representou o novo regime português pós-golpe de Estado em 1974 antes de formalizar a entrega do poder aos líderes da guerrilha na data por eles escolhida. Pois refere quem viu,  que o Almirante passava mais tempo no Dancing Aquário na Rua Araújo a beber whiskies e a discutir as colorações epidérmicas das senhoras que lá dançavam, que no seu escritório a fingir que presidia às formalidades da governação e que defendia os interesses do seu país (em boa verdade, parece que na altura ninguém sabia quais eram esses interesses e mesmo assim por essa altura a Frelimo estava-se a marimbar para o que quer que fosse que ele dissesse, que mesmo assim foi nada).

E esse acto apenas foi um começo. No início de Novembro de 1975, numa operação de grande envergadura e que durou dois dias e incluiu três cidades, as forças da Frelimo, de AK47s em riste apontadas contra uma população urbana basicamente inocente e completamente indefesa, pura e simplesmente prenderam cerca de três mil pessoas, que consideraram suspeitas de estarem envolvidas com drogas, prostituição, roubo ou vadiagem. Pois.

Era o legalismo revolucionário, conferido e legitimado pelo Povo.

Na altura da Indepedência eu não soube de nada destas tricas da Frelimo com a Rua Araújo nem do terror dirigido aos “colonos” (ou será que era payback time?), pois estava mais ou menos tranquilamente a estudar a oito mil quilómetros de distância, em Coimbra, onde o mais que havia de aguerrido eram os desenhos dos gigantescos seios das caricaturas do José Vilhena. Um pouco como em Moçambique, a pornografia via-se era na vida política, todos os dias, nos noticiários politizados da Érretêpê.

Dez anos depois de eu ter deixado de residir em Maputo e nove anos depois da Independência, em plena era do Repolho e do Carapau, visitei a cidade, que me pareceu deserta, abandonada e parada no tempo, as pessoas com terror sequer de pensar alto, com medo de lhes ser apontado o dedo por alguém ligado à Nomenclatura. Mas não se sentia qualquer fervor revolucionário. Apenas cansaço, conformidade e um perpétuo esforço de meter alguma coisa no prato. Pois não havia quase nada. Mas ainda assim foi-me discretamente servida uma lista das Grandes Mudanças (para além da de praticamente toda a gente que eu conhecia não estar lá, claro). E o desmantelamento da Rua Araújo estava nos top dez, o que eu achava curioso, até estranho, pois apercebi-me que isso indiciava o simbolismo, na cabeça de muita gente, que aquilo acarretava, antes e depois da Independência.

Se bem que antes da Independência aquilo não era de forma alguma “a” referência nem tinha o relevo que se possa querer dar-lhe. Era apenas mais um dos locais exóticos, quiçá um pouco mais sórdido, da cidade. Eu hoje tenho 50 anos de idade, e nos passeios a pé higiénicos da família BM aos sábados à noite depois do ocasional jantar chinês no Restaurante Hong Kong, lá pelos fins dos anos 60, princípios dos anos 70, devia eu ter uns dez anos de idade, lembro-me muito vagamente do que aquilo parecia, pelo menos a parte da Rua Araújo para quem vem da Praça onde fica a estação dos Caminhos de Ferro: que tinha muitos bares porta sim porta sim, muita gente, muita música aos berros, montanhas de luzes e coloridos anúncios de néon a acender e a apagar, à porta de uns bares e dancings umas fotografias dumas meninas de coro (brancas) muito pintadas com umas coisinhas penduradas nas pontas das maminhas expostas e um ambiente mais ou menos aguerrido.

Nos dias que correm, isto é troco para bebés.

A Rua Araújo nos anos 60, de dia. À noite parecia Las Vegas junto do Índico.

Uns anos depois, a primeira referência que eu vi sobre a antiga Rua Araújo foi na forma de umas fotografias que o saudoso e agora exaltado Ricardo Rangel (que se dava muito bem com o meu pai) publicou e que tirou nessa altura, e que correspondem vagamente ao que eu vira e mais ou menos imaginava ser a Rua Araújo, claro que sem aquela carga ideológica-sociológica-pós-colonial que se sente agora, e que, despida de contexto, dava uma aura quase lunática àquele fenómeno da velha Lourenço Marques.

Casal fotografado por Rangel na Rua Araújo - o sórdido passou a ser arte

Uns anos mais tarde, já no fim dos anos 90, quando a Nomenclatura freliminana  relaxou involuntariamente os costumes públicos e, sem qualquer veio condutor, a capital moçambicana descambou quase completamente para um free for all em termos dos seus hábitos mais prúridos. Alguns decerto se lembram das legiões de jovens serpentes nas esquinas do Polana e da Sommerschield (a baixa era uma cidade fantasma à noite) depois da hora do jantar e todos os passeios em redor da discoteca do Sheik completamente tomada pelos possantes 4×4 da nova classe de “empresários de sucesso” e suas sumptuosas, esculturais acompanhantes.

(Elas eram chamadas serpentes porque quando a gente passava por elas no carro elas faziam assim: “pssssssssssst, psssssssst”)

Houve então muito boa gente na cidade que pensou, e disse, que se calhar fazia mais sentido trazer de volta a velha Rua Araújo e meter isso tudo ali. Mas as coisas não são assim tão fáceis de fazer. Hoje em dia, não estou lá muito dentro dos detalhes do negócio do prazer e do entretenimento maputiano, mas acredito que ainda há muito, muito por fazer.

A verdade sobre a Rua Araújo é muito mais profunda.

E, na minha opinião, se calhar não há rua que mais e melhor espelhe a História desta cidade que hoje é Maputo.

De facto, houve uma lógica muito clara no aparecimento do negócio por que a Rua Araújo se tornou quase mítica. Para a entender, tem que se recuar até ao fim do século XIX e entender o que se passava na região.

Se o exmo Leitor tiver a paciência, acompanhe-me nesta aventura.

A CIDADE APARECE

Apesar da apetência britânica pela baía defronte de Maputo, sucessivamente combatida pelos portugueses com a ajuda do Duque de Magenta (hoje mais conhecido como 2M), o flanco sul da então frágil, precária, indefinida colónia portuguesa, estava praticamente abandonado aos seus habitantes, que faziam mais ou menos o que sempre fizeram, os portugueses tendo o ocasional problema com os ingleses, que se alternavam com os Boers a tomar conta do que é hoje a Suazilândia, e os boers do Transvaal, que também gostariam de ficar com a parte Sul do actual Moçambique.

O momento verdadeiramente fundacional para a cidade – e de tal forma que em meros vinte anos o epicentro de todo o Moçambique se deslocou dois mil quilómetros do eixo Ilha de Moçambique-Nampula para a Baía de Lourenço Marques, ao ponto de a elegante e centenária capital ter sido descartada para os pântanos em redor da Ponta Vermelha – foi o conhecimento pelo mundo da descoberta de ouro no Rand, uns campos situados a Norte da pacatíssima capital boer do Transvaal (nome formal: República Meridional Sul-Africana), Pretória.

Tirando as negociatas do Albasini, pouco fluía entre o interior e a costa.

A "cidade" original não era uma cidade: era uma ilha. A uma distância regulamentar do Presídio, fez-se um aldeamento precário. Na parte baixa desse aldeamento vê-se a Rua dos Mercadores - a original rua de Maputo - mais tarde a Rua Araújo

Assim, quase subitamente, em 1874, na pequena língua de terra situada a Poente de onde Joaquim Araújo se lembrou de mandar edificar o lastimável Presídio de Lourenço Marques, centenas de pesquisadores e aventureiros americanos e australianos ali desembarcaram ao mesmo tempo para se dirigirem para o interior, enquanto que, do Transvaal, centenas de boers faziam a caminhada no sentido contrário, para vir buscar mercadorias e mantimentos aos navios. Nesse ambiente de “fronteira” completamente desregulado, de negócios, bebida e prazer, logo se esboçou um – o primeiro- o primeiro de todos – arruamento onde essas actividades se desenvolveram:

A Rua Araújo.

Que na altura, à boa antiga portuguesa, não tinha nome de gente, mas um nome que traduzia a sua utilidade: o de Rua dos Mercadores. Era um assentamento precário, com casas feitas de madeira, suficientemente sólidas para se poder lá dentro guardar, comprar e vender tudo e em que o português era provavelmente a terceira ou quarta língua mais falada.

Um ano depois, ao fim da tarde do dia 12 de Setembro de 1875, um violento incêndio consumiu tudo o que havia entre a actual estação dos caminhos de ferro e a sede o Banco de Moçambique (dantes o BNU). Para evitar situações semelhantes,o então governador português, um tal de Augusto Castilho, mandou que as casas passassem a ser feitas com materiais mais duráveis: argamassa, tijolo, adobo, telha, zinco. E logo a seguir veio o Major Joaquim José Machado e a sua equipa, que esboçou o plano director do actual centro da cidade. São essas as casas que os postais mais antigos de Lourenço Marques hoje mostram.

A Travessa da Palmeira (hoje fica entre a sede do BIM e a Nova Mesquita). Após o incêndio de 1875, as casas passaram a ser feitas de alvernaria, tijolo e telha.

Com as notícias da descoberta de ouro em Magaliesberg e em Barbeton, a pressão de ligar a Baía ao interior sul-africano britânico e boer foi quase insustentável. Logo se abriu a que ficou conhecida como a Estrada de Lindenbugo (que começava no fim da actual Av. 24 de Julho, a seguir a um enorme quartel que acho que ainda lá está). Lindenburgo (se é que ainda tem esse nome) fica situada a meio caminho entre Maputo e Pretória. Naquela altura Nelspruit (Mmmmmbombélááá!) basicamente não existia e seria assim até o comboio passar por lá anos mais tarde.

As coisas encaminhavam-se, perante o ar atónito dos Rongas, que ali viviam em redor, e que assistiam certamente preocupados com o reboliço enquanto que por sua vez iam fazendo as suas negociatas e de vez em quando umas razias para saquear.

A Rua Araújo, quando em Lourenço Marques se vivia um ambiente de fronteira

Mais um aspecto da Rua Araújo no fim do séc. XIX

Os momentos-chave seguintes foram a inauguração da linha de caminho de ferro para Pretória (1895), logo a seguir a abertura do porto marítimo da cidade, culminando com o desencadear da Guerra Anglo-Boer (1899-1902), um complicado imbróglio militar e político, que trouxeram muita, muita gente à cidade e montanhas de negócio. Nessa altura, Lourenço Marques (ou a sua designação inglesa, Delagoa Bay) estava nas primeiras páginas dos grandes jornais de todo o mundo, a Baía bloqueada pela poderosa marinha britânica (foi ali usado pela primeira vez no mundo o telégrafo sem fios para a coordenação de operações militares-navais. Enfim, vale o que vale).

A linha de caminho de ferro abriu em 1895. O edifício da estação chegou mais do que dez anos depois. Directamente em frente, ficava a Rua Araújo, e à direita o porto marítimo.

E o que é que, fisicamente, estava precisamente no meio disto tudo?

A Rua Araújo.

De facto, a Era de Ouro da Rua Araújo não foi nos anos 50, 60 e até 1975.

Pelo contrário, foi nas quatro décadas anteriores.

OS DIAS DE OURO

Capa dum folheto publicitário em inglês, sobre Lourenço Marques, anos 20.

Estabilizada a guerra e colonizado o Transvaal pela Grã-Bretanha (cujo consulado em LM, desde que abriu sempre esteve no mesmo local onde hoje se encontra a actual embaixada em Maputo), o negócio aumentou sempre e cada vez mais, tendo Lourenço Marques, que entretanto foi praticamente comprada e desenvolvida com capitais ingleses, sul-africanos e boers através de companhias, lá a partir dos anos 20, criado e desenvolvido um negócio novo, complementar, e extremamente rentável, para além do import/export e do álcóol: o negócio do lazer e do prazer para os brancos sul-africanos.

Dia de "São Navio" em Lourenço Marques. A cidade toda acorria ao Cais para assistir ao espectáculo, e cuscar quem chegava e quem partia. Era um evento. Depois ia tudo beber um copo para a Praça 7 de Março.

De facto, a cidade tinha várias valências nesse sentido. Para além de ser organizada, limpa, e bonita, tinha um clima aprazível, ficava junto ao mar, tinha acessibilidades (barco, comboio, estrada, telégrafo para o mundo exterior), boas instalações, boa comida, instalações desportivas e tinha o exotismo informal cultural luso-africano que nem se sonhava existir na África do Sul.

O antigo campo de golfe da Polana. Situava-se imeditamente a seguir ao actual Hotel Polana e estendia-se até à actual embaixada americana e entrava um pouco para dentro da actual Sommerschield.

A entrada do Pavilhão de Chá, junto à antiga praia da Polana e a 150 metros a Norte do actual Clube Naval de Maputo

O bar da Estação de caminho de ferro de Lourenço Marques estava ao nível do que de melhor havia no mundo na altura

Lourenço Marques, com as suas praias, o Pavilhão de Chá, os seus vários hóteis, quiosques, clubs e restaurantes, alegremente acolhia esse negócio, nos anos 20, 30 e princípios dos anos 40.

O cais da estação de caminho de ferro de Lourenço Marques

Nessa altura, para além dos navios, que traziam centenas de marujos, passageiros e homens de negócios à cidade, vinham diariamente comboios de Joanesburgo e de Pretória, cheios de carga e gente, na busca de repouso ou de prazer, ou para apanhar um barco para a Europa, ou regressar à África do Sul.

E, para além de bowling, golfe, a caça, a pesca e o ténis, Lourenço Marques tinha bebidas à descrição, jogo e prostituição, práticas estas proibidas e reprimidas pelos estóicos britânicos e ainda mais pelos puritanos boers. Em Lourenço Marques, para além de vinho, whisky, camarões e cerveja à descrição (incluindo aos domingos e feriados religiosos) até fados e touradas havia,  perante o espanto dos visitantes. E cinema, e excelente ópera italiana, esta no resplandecente Varietá, que ficava do outro extremo da Rua Araújo, junto à Praça Sete de Março (hoje 25 de Junho, o dia da Independência em 1975), a sala de estar da cidade – com chás e delicados bolos de pastelaria servidos às cinco horas da tarde, enquanto música tocada no seu coreto por bandas contratadas, quase todos os dias.

Antes do Polana abrir, o Carlton era o hotel de escolha em Lourenço Marques. Ficava situado a meio da Rua Araújo. Mesmo depois de abrir, durante muito tempo o Polana era considerado fora do caminho.

Cedo a cidade se tornou ponto de visita obrigatório para os milionários e as classes mais abastadas de Joanesburgo e de Pretória, que para ali se dirigiam em conforto exuberante no Blue Train, um comboio de luxo que parava semanalmente na estação de Lourenço Marques.

Que ficava a cem metros da Rua Araújo.

Para além dos navios de passageiros que atracavam todas as semanas no porto, mesmo ao lado.

As touradas e as pegadas de touros eram uma atracção turística única em África.

A meio da Rua Araújo, do lado direito, cedo abriu o Casino Belo, mais exclusivo, e mais abaixo o Casino Costa, os únicos casinos no Sul de África. O Casino Belo (no edifício mais tarde funcionou o conhecido Dancing Aquário, para quem se lembra) era uma luxuosa máquina de fazer dinheiro. Estava aberto toda a noite, sete dias por semana. Tinha uma grande orquestra (o chefe de orquestra do Casino Belo durante dez anos chamava-se Jorge Vara e era o pai da D. Suzette, por isso é que eu sei isto tudo) tocava diariamente, sete dias por semana, das 9 da noite até às 4 da manhã, com um intervalo de meia-hora.

Aspecto da sala de jogo do Casino Belo na Rua Araújo, em Lourenço Marques. Lá dentro, era obrigatório o uso de fato ou smoking e vestido comprido para as senhoras.

Ali encontravam-se as famosas e as originais Taxi Girls de Lourenço Marques(não são as que mais tarde se chamavam pelo mesmo nome, e que basicamente eram prostitutas). Estas eram jovens sul-africanas desesperadamente belas, vestidas de rigor com vestidos compridos, todas as noites, e como referi não eram prostitutas (o que não significa que não dessem uma volta com quem lhes apetecesse). O que elas faziam era que à noite conversavam com os clientes, entretiam-nos e bebiam um copito ou outro. E qualquer homem podia comprar uma “fita” de bilhetes por dois e quinhentos cada bilhete, e por cada bilhete a menina dançaria com ele uma música. No fim quase todas elas acabaram por casar com portugueses de sucesso na cidade e hoje fazem parte do DNA dos descendentes de quem lá viveu (imagino que estrategicamente omitindo os detalhes da sua procedência).

Curiosamente, naquela altura as crianças podiam entrar no Casino, que tinha também umas limousines com motoristas fardados para levarem os clientes e seus convidados para os hotéis ou de volta para o Blue Train.

O Varietá, na altura creio que a segunda Casa de Ópera em toda a África excepto o Cairo, situado na Rua Araújo, no local onde hoje se situam o Cinema Matchedge e o Estúdio 222.

Nesses tempos, ganharam-se e perderam-se verdadeiras fortunas nos casinos da Rua Araújo. Após uns dias de loucura na roleta e no bacharat, muitos dos visitantes mal tinham dinheiro para pagar o bilhete de comboio de volta para Joanesburgo e Pretória e houve um número considerável de suicídios, cometidos por gente que perdeu tudo o que tinha nas mesas de jogo.

Na Rua Araújo, o negócio da noite não era só para os ricos. Era socialmente vertical. Os bares, cabarets e salas de jogo da Rua anualmente atendiam milhares e milhares de marinheiros, viajantes, homens de negócios, etc, trazidos pelo movimento louco no porto e no caminho de ferro.

Curiosamente, quase todo o negócio era entre brancos – incluindo, malgré as suspeitas da Frelimo, a prostituição. Mas do lado esquerdo da Rua Araújo, houve mais tarde uma casa amarela, o Bar Pinguim, que era o único sítio na Rua Araújo onde havia, para além de prostitutas brancas, prostitutas negras e mulatas e cujo ambiente era puro caos estilo filmes do Texas. Nos anos 50 era um hangout favorito de, entre outros, o poeta Reinaldo Ferreira.

Durante esses anos, a autoridade policial, especializada e presente, mantinha a ordem, num misto de negligência latina e pauladas vigorosas. Alguns se recordarão dum agente de polícia alto e encorpado que vigiava a Rua Araújo, e que era legendário por resolver problemas de rua com uma saraivada de cacetadas, o que supostamente funcionava bem junto dos marujos e dos tropas mais alcoolizados.

Convenientemente situadas perto da Rua Araújo, havia grandes casas de prostituição, negócios legais, de porta aberta. As prostitutas eram praticamente todas brancas, a maioria francesas e sul-africanas. Refiro por exemplo uma luxuosa mansão que existia na rua a seguir à antiga Paiva Manso (não faço ideia qual é o nome da rua hoje) e que era a maior e considerada a melhor, gerida por uma senhora que era conhecida na cidade pela sua generosidade e que tinha vários filhos que se formaram todos na África do Sul.

Belo, proprietário do principal casino, era uma figura conhecida na cidade, riquíssimo, generoso, respeitado. O primeiro frigorífico eléctrico doméstico que houve em Moçambique foi ele que o instalou em sua casa. Teve três filhos, um deles o Ernesto, outro que foi gerente da Casa Coimbra (aquele prédio mesmo ao lado esquerdo do Banco de Moçambique na 25 de Setembro em Maputo) e um terceiro sobre o qual nada sei.

O FIM DE UMA ERA

O fim desta Era Dourada da Rua Araújo começou quando, lá muito longe, do outro lado do mundo, em Lisboa, o ditador Oliveira Salazar, tentando perpetuamente fintar os jogos de cadeira locais com as diferentes facções sociais (são sempre as mesmas: radicais vs católicos vs maçónicos vs monárquicos, a treta do costume), com a intervenção do seu antigo amigo e antigo colega de carteira, Manuel Gonçalves Cerejeira, então Cardeal de Lisboa e representante da Igreja Católica Apostólica Romana em Portugal, celebrou em 1940 (ano em que se celebrou também o tricentenário da reaquisição da independência portuguesa das mãos dos Hespanholes) um entendimento formal entre o Estado português e o Vaticano, a que se chamou Concordata.

Através desse documento, para todos os efeitos, a Igreja Católica encerrou um trágico capítulo aberto com o advento da I república e assumiu uma parceria com o Estado português que teve assinaláveis ramificações por todo o Império.

Em Lisboa, os três amigos: o Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, o Presidente do Conselho, Oliveira Salazar, e o seu Presidente, Óscar Carmona. Dos três, só Salazar nunca meteu os pés em Moçambique.

Talvez não seja coincidência que nessa altura, se começou a construir a actual Catedral de Maputo, que foi concluída em 1944, recorrendo os poderes locais para a sua construção essencialmente a trabalho escravo nativo, o que enfim, é mais uma pequena vergonha e uma expressão do tal colonialismo no seu pior (alguém devia meter lá uma placa na parede para que se soubesse e se lembrasse essa vergonha).

A expressão da Trilogia do Poder Imperial no centro de Lourenço Marques: o Estado (a Câmara Municipal), a Igreja (a Catedral) e o vulto de Mousinho. Em 75, Samora despachou Mousinho para um canto da "fortaleza" antes de rebaptizar o local de Praça Mousinho de Albuquerque para Praça da Independência. E de meter uma gigantesca fotografia sua na fachada. Mousinho out, Samora in.

Em Agosto de 1944, já a II Guerra Mundial estava a começar a chegar ao seu término, num navio Serpa Pinto obscenamente artilhado para acolher Sua Católica Eminência, o Cardeal Patriarca de Lisboa, Manuel Gonçalves Cerejeira, viaja para Moçambique e desembarca em Lourenço Marques para inaugurar com imperial pompa a nova catedral, que ficou situada mesmo ao lado do também novo e imponente edifício da Câmara Municipal de Lourenço Marques, talvez para simbolizar a nova parceria entre o Estado e a Igreja – algo que acontecia pela primeira vez em Moçambique, cujo pluralismo religioso era palpável.

O quarto de cama de Gonçalves Cerejeira no Serpa Pinto

A sala de jantar do Cardeal Cerejeira no Serpa Pinto

O Serpa Pinto até tinha uma espécie de "sala do trono" para o Cardeal Cerejeira. Isto hoje dava um filme.

Pouco depois, a prostituição e os jogos de casino foram ilegalizados e desmantelados em Lourenço Marques.

Na Rua Araújo, ficaram os bares, os dancings e o ocasional jogo ilegal. A prostituição passou para a clandestinidade.

O RESSURGIMENTO

Mas a Rua Araújo não morreu.

Pouco depois, no início dos anos 60, com a instauração do apartheid do Sr. Verwoerd na África do Sul e a preparação e o início do que veio a ser a guerra pela Independência, Lourenço Marques conheceu um período de enorme movimento de pessoas, de investimento e de crescimento. Muitos portugueses vieram viver e trabalhar para a cidade, o número de visitantes da África do Sul, que agora viajavam em carros particulares, cresceu significativamente, e os navios começaram a chegar da Metrópole cheios de jovens militares sózinhos, muitos desejosos de fazer uma escalada na Rua Araújo para beber uns copitos e talvez experimentar o deslumbre de uma experiênciazinha sexual, para depois se ocuparem da defesa do território. E o movimento de navios, aviões e comboios cresceu quase exponencialmente. A cidade fervilhava.

O mito das LM Prawns: acima, o Restaurante da Costa do Sol, nas mãos da família luso-greco-moçambicana Petrakakis desde 1938.

Os usos e os costumes entretanto liberalizaram-se, muito mais em Moçambique do que era a norma quer na Metrópole portuguesa, quer no ambiente severo de Calvinismo puritano imposto na África do Sul – apesar de, nas praias e nos cafés de Lourenço Marques, serem as bifas que deixavam os locais de boca aberta, as meninas locais manietadas pelos velhos costumes dos seus pais portugueses.

Ainda que com a Pide a mordiscar, o Regime nervoso e a guerra dois mil quilómetros ao Norte a desenvolver-se, o ambiente na cidade tornou-se muito mais sofisticado e multiracial, começaram a aparecer galerias de arte, surge toda uma geração de pintores e escultores portugueses e moçambicanos, brancos e negros e com temas africanos, lojas de moda, a Sociedade de Estudos, a Casa Amarela, os bikinis, a mini-saia, veio a revolução musical com o rock, vomitado 24 horas por dia, sete dias por semana pela LM Radio, a Estação 2 do Rádio Clube que era de longe a mais popular em todo o Sul de África. Do Rádio Clube veio também a  marrabenta e inaugurou-se também a primeira estação de FM stereo, com jazz e música clássica, em todo o território português.

Em termos de desporto, tudo havia e tudo se fazia tudo na cidade. Campos de futebol de básquet, piscinas, golfe, mini-golfe, hóquei, equitação, aviação, tiro, regatas, pesca, pesca submarina. Era uma obsessão. Em entre 50 e 60 surgem estrelas como Coluna, Velasco, Matateu, Eusébio, Lage, Mário Albuquerque, Fernando Adrião, Dulce Gouveia, Mussá Tembe e tantos outros. A lista não acaba.

Nos anos 60, o pai BM, à esquerda, treinava equipas de futebol em Lourenço Marques.

Por sua parte, a Rua Araújo acompanhava todo este ambiente à sua maneira, com mulheres, marijuana, misturada com cerveja, vinho, shows de striptease (alguém se lembra da famosa travesti Belinda?) e com verdadeiras sessões de pancadaria que inevitavelmente envolviam comandos, fuzileiros e a polícia de choque a correr atrás deles com cacetetes. Segundo o Eduardo Pitta, até havia um discreto underground gay e lésbico na Rua Araújo que a Maluda vagamente confirma. O Carlos Gil esteve lá nos seus tempos de teenager e no seu livro Xicuembo deu uns lamirés da fauna louca que aquilo era.

Como em toda a parte, dizem-me que havia prostituição para todas as cores, todos os gostos e todas as bolsas. Mas se calhar a Rua Araújo não era o ponto principal dessa actividade. quando muito era um ponto de começo.

O Hotel Central e o Dancing Aquário, um conhecido empório da Rua Araújo e ponto de paragem de Vítor Crespo.

Foi esta Rua Araújo que Ricardo Rangel conheceu e retratou nos anos 60. E que, em meados dos anos 70, ajudou a destruir na sua revista.

De certa maneira, para a velha rua, esse foi apenas mais um momento da sua vida.

Uma nova metamorfose do que fora.

Viva a futura amizade entre os povos da CPLP !

E com o tempo, essa imagem do que fora nos anos 60 e 70, congelou-se e tornou-se num cliché, e pior, no todo, excluindo os quase cem anos que o precederam. Até Licínio de Azevedo recorreu agora a ele para o seu recente filme “Margarida”.

O tal símbolismo que eu acho que, isoladamente, não teve.

EPÍLOGO

Hoje, a Rua Araújo – a Rua do Bagamoyo – sobrevive precariamente, um dinossauro da história da Cidade, o seu berço irreconhecido, maltratado, desrespeitado, ignorado pelos cidadãos da Cidade, aguardando por melhores dias, quando eventualmente haja outro ressurgimento da Baixa da Cidade e uma outra apreciação do seu rico passado.

Que forma terá esse ressurgimento, ninguém sabe.

Uf. Depois disto, vou jantar ao chinês ali na esquina.

Bom fim de semana.

02/10/2010

REZA VS. NÃO REZA

Filed under: Religião, Sociedade portuguesa — ABM @ 4:34 pm

por ABM (2 de Outubro de 2010)

Segundo um estudo do European Social Survey, recentemente publicado no Economist, extrapolado com base em dados de 2008, revelam que 25 por cento dos portugueses nunca vão à missa, o que coloca os lusos a meio das tabela dos europeus entrevistados, e em que, num extremo, quase 100 por cento dos cipriotas vão regularmente à missa (devem ter contado só os do lado grego da ilha, já que os outros são muçulmanos) e dois terços dos checos não metem lá os pés.

Significa isto que os outros 75 por cento dos portugueses vão à missa? ou esta faz parte daquelas situações em que todos dizem que são católicos e todos dizem que vão à missa mas depois na prática não é assim?

01/10/2010

DEUS AINDA É TAX FREE

Se o exmo Leitor for ao Vaticano e visitar a Capela Sistina e torcer o pescoço até doer, lá em cima num canto vê isto

por ABM (30 de Setembro de 2010)

Há três dias o genial Paul Fauvet, actualmente editor da aparentemente moribunda Agência de Informações de Moçambique (o sítio da AIM na internet parece que pifou, suponho que por falta de pagamento) e decano do jornalismo de era após a Independência, parece que se passou dos carretes e escreveu uma peça que basicamente é uma invectiva dirigida directamente a uma dessas religiões surgidas há relativamente pouco tempo, a Igreja Universal do Reino de Deus.

Mais conhecida como IURD.

Infelizmente, apesar do Paul escrever português tão bem como qualquer outro, o seu artigo chegou-me em inglês e para quem lê a língua, mesmo que seja bad english, está aqui.

Para além de referir en passant que o big boss da IURD (um senhor chamado Edir Macedo) esteve dentro por evasão fiscal e anda a ser investigado por branqueamento de capitais lá na sua base no Brasil, Fauvet acusa a organização de ser sinistra, moral e formalmente corrupta, extorquindo dinheiro de muita gente que quase não tem nada através de “milagres”, com o único objectivo de enriquecer obscenamente a sua hierarquia.

Fauvet rebola-se a contar os detalhes dos tais “milagres” – que refere ser o principal argumento de venda desta organização (considerando-a tudo menos uma organização religiosa legítima) que acusa de serem perigosas e pouco engenhosas fraudes cometidas contra a sociedade, especialmente os milhares e milhares de crédulos que pelos vistos consomem aquilo tudo e ainda pagam o dízimo e mais qualquer coisa.

E ainda por cima não paga impostos.

Fauvet conclui a sua peça expressando a sua indignação por a IURD moçambicana andar agora a “contaminar” a imprensa moçambicana, comprando espaços nas publicações locais, onde vendem escandalosa e impunemente o seu produto, nalguns casos nem sequer colocando o aviso obrigatório de que se trata de nada mais, nada menos, do que publicidade “comercial”.

Ora, antes de mais confesso-me um discreto admirador do Fauvet destes dias (não de quando ele era um entusiástico servidor da Revolução Moçambicana, sobre o qual aliás sei relativamente pouco). A idade realmente fez-lhe bem.

Mas acho que ele está completamente errado.

Por três razões.

A primeira é que, como ele sabe, há leis que regulam estas coisas. E se aparece um tipo que vem do Brasil com umas ideias peregrinas sobre a salvação das almas dos outros que por acaso inclui uma taxa de 10 por cento mais qualquer coisa do salário em troca dum carnaval qualquer – e age dentro do que as leis prescrevem – as coisas são assim. Cada um tem o direito de ter o seu deus e de fazer o que acha certo e moral, por mais estúpido que pareça aos outros. Creio que nesta fase do campeonato já se passou o tempo em que, por exemplo, os católicos, os muçulmanos e os judeus cada um acha que a sua é que é a única e verdadeira religião, em detrimento das outras.

Nestas coisas, o princípio do respeitinho é muito bonito.

A segunda é que -admitamos- visto de fora, isto das novas religiões parece ser um verdadeiro negócio da China, pois, literalmente, a) custa tostões e dá milhões, b) como as pastelarias e os restaurantes, é um negócio onde só circula cash, o que dá para escapar a todos os controlos e mais algum e fazer os maiores truques, de entre os quais a lavagem de dinheiro é o mais corriqueiro c) não paga impostos nenhuns, d) em que milhares acriticamente dão milhões a meia dúzia, que só têm um chefe que está no Brasil, em troca de praticamente nada a não ser umas vagas promessas, e) são protegidos pelas leis que regulam as confissões religiosas, e, se necessário, por advogados de topo pagos a peso de ouro se por acaso houver algum probleminha.

Mas, strictu facto, não é por aqui que se faz ou desfaz uma religião.

Finalmente, discordo (amigavelmente) de Paul porque quase todas as confissões religiosas mais recentes são habitualmente alvo de suspeitas e críticas por parte de sociedades onde tipicamente pontificam religiões solidamente estabelecidas e com uma longa presença, por vezes milenar, elas próprias originalmente estabelecidas frequentemente pelos mesmos métodos, por imposição ditatorial ou pelo fio da espada, todas elas com alguns percursos menos polidos, mas todas elas hoje inquestionáveis e as detentoras da putativa verdade única.

Mais grave, ou talvez não, gostava de salientar que as religiões mais estabelecidas são hoje caracteristicamente mais sóbrias, mais reservadas, menos dadas à procura de novos aderentes.

Surpreende-me vagamente que, tendo eu 50 anos de idade, em todo este tempo a única religião que alguma vez me veio bater à porta para me explicar em que é que acreditava e para ver se me convencia de alguma coisa foram dois jovens mormons americanos brancos loirinhos vestidos de calça preta e camisa branca, com sacolas e umas tabuletas com os nomes deles ao peito, com o ar mais ridículo do mundo, que um dia há já uns bons anos atrás, me vieram bater à porta em Alcoentre City (mesmo assim levaram uma corrida em dois minutos).

Tirando o memorável Padre Oshea (católico e de extracção irlandesa) me ter vindo cumprimentar ao meu quarto na Universidade americana de Brown na minha primeira semana de aulas há quase trinta anos, nunca na minha vida um representante católico, muçulmano ou judeu alguma vez me quis explicar ou convencer de seja o que for. Nunca nenhum sequer me tentou explicar em que é que acreditava.

Ora isto necessariamente tem consequências, especialmente num país tão aberto, dinâmico, problemático e diverso como Moçambique, onde há uma gigantesca percentagem da população (mais de metade tem menos que 25 anos de idade) que não adere à partida a qualquer das religiões mais estabelecidas, e que, logo, se encontra perfeitamente aberta para escutar as mensagens sobre o bem e o mal e a salvação nesta e noutra vida que alguém lhes trouxer.

Se as religiões mais estabelecidas pouco ou nada fizerem para atrair ou sequer falar a língua e procurar entender os problemas específicos desta camada da população, estas pessoas vão olhar para outras escolhas mais disponíveis e inteligíveis.

A meu ver, o sucesso das IURDes deste mundo reflecte em parte o fraco esforço destas religiões de se apresentarem de uma forma eficaz junto destas populações.

E isso a IURD faz, bem ou mal, mas eficazmente, se levianamente, montando uma poderosa máquina de cobranças, que financia novas formas de comunicar, muito mais baratas e eficazes, como a televisão, a rádio, os enormes cinemas que estão às moscas e compram por tuta e meia para aqueles comícios dos milagres.

Aliás a IURD não inventou nada. Quem inventou todo o método e definiu as regras de funcionamento foram os norte-americanos, há muitos anos.

Há um acrescento que considero apropriado referir no caso de Moçambique, que, tirando os minúsculos territórios que os portugueses detiveram no vasto manto indiano, foi o único território onde os portugueses estiveram em que foram (literalmente) obrigados, pela Grã-Bretanha a permitir a diversidade religiosa e a liberdade de culto, ainda no século XIX. É por isso que, quem ler a história desse país, rapidamente constatará que, apesar dos esforços levados a cabo especialmente após a concordata que Salazar celebrou com o Vaticano em 1940, dando alguma primazia à religião católica, Moçambique há muito que tinha no seu território praticantes das religiões protestantes, a Missão Suíça, adventistas, luteranos, anglicanos, muçulmanos (cuja presença milenar especialmente nas costas do que é hoje Moçambique por demais evidente), testemunhas de Jeová e até uma mão cheia de judeus.

Como curiosidade, o grande Henrique Paiva Couceiro (há uma biografia rápida dele feita pelo Vasco Pulido Valente que se recomenda), um dos que passou por Moçambique brevemente nos tempos do Sr Mousinho e do Sr Gungunhana (e que por isso teve direito a nome de rua em Maputo, e a seguir direito a que fosse obliterada no Novo Ordenamento), e que entre outras coisas foi um pródigo Governador de Angola, considerava no primeiro quartel do século passado, que Portugal deveria sumariamente despachar Moçambique (venda, leasing, fosse o que fosse), e isto por duas razões básicas.

A primeira é que ele achava que Portugal não tinha população suficiente para poder possivelmente alguma vez sequer tentar colonizar territórios tão vastos como Angola e Moçambique.

A segunda é que, em termos da diversidade das suas culturas e religiões, ele achava que aquilo (aquilo sendo a então colónia de Moçambique) nunca poderia alguma vez vir a ser português.

Sendo eu quase perfeitamente ateu, sempre apreciei o convívio com essa diversidade religiosa e cultural e o seu valioso património para o País e para as pessoas, trazendo conforto, ajuda, apoio moral e códigos de conduta.

Assim, se de facto a IURD em Moçambique anda a esticar a corda estes dias, como Paul Fauvet postula, acredito que o governo tem todo um conjunto de leis e todo um aparato administrativo para aquilatar eventuais violações a essas leis.

Tirando isso, apenas podemos lamentar perante aquilo que à primeira vista parece ser pouco mais que um esquema de pirâmide marginalmente religioso que, recorrendo à táctica da venda da banha da cobra – os milagres garantidos, as soluções fáceis do “reza e será curado ou recompensado”, explora os mais pobres, os mais expostos, os menos instruídos.

Creio, no entanto, que, dentro das circunstâncias, esta parece ser de facto uma área de enorme potencial para crescimento. E fiquei parvo hoje ao descobrir que, se o exmo. Leitor quiser tirar uns cursos pela internet e começar a sua própria Igreja dos Milagres, há uma excelente alternativa disponível imediatamente, bastando para tal ter um cartão de crédito Visa ou Mastercard à mão. Chama-se Universidade Gospel. Ensina tudo e em português. Mas deve haver muitas mais.

(Hum, será que dava para criar a….Igreja do Maschamba, com Bispo Jpt, Bispa Baronesa, Apóstolo ABM….?)

Portanto, para quem não gostar da IURD, sempre pode começar a estudar e criar a sua própria igreja. Faça os seus próprios milagres, transmita as mensagens que quiser, arranje o seu próprio rebanho- e, naturalmente – faça o seu preço.

Aliás, há uma tal de Igreja Maná cujo dono (bispo? profeta? apóstolo?) chama-se Jorge Tadeu, é um branco de Moçambique, que costumava dar na televisão e que parece que vende daquilo a potes. Do que vi, pareciam estar todos bem felizes da vida.

O negócio de salvar almas é fabuloso, legal e divertido.

E não se esqueça: é também tax-free.

12/05/2010

DEUS E NEGAR O ÓCIO

Filed under: Religião — ABM @ 6:33 pm

por ABM (12 de Maio de 2010)

Em cima, cópia de vídeo de uma sessão de estratégia argumentativo-angariadora de uma equipa da Igreja Universal do Reino de Deus, creio que no Brasil, divulgada há dias e que terá sido gravada em Janeiro deste ano.

A abordagem dos sacerdotes (?) é um tanto predadora, mais que o “tá à pidir” habitual, mas enfim. Quem editou a peça obviamente aproveitou para arrear umas cacetadas.

15/04/2010

DEUS E O MEU CORREIO ELECTRÓNICO

Filed under: António Botelho de Melo, Religião — ABM @ 8:14 pm



por ABM (15 de Abril de 2010)

Sempre recebi essas mensagens, mas o facto de nos últimos meses ter aumentado a sua frequência, me levou a pensar mais sobre o assunto.

Antes, um pouco de contexto:

Apesar de toda uma educação formal nos bastidores moçambicanos da igreja católica colonial nos anos 60 – a igreja arqui-conservadora dos senhores cardeal Cerejeira e o então bispo Custódio Alvim Pereira, e de a mãe BM ter sido quase toda a sua vida uma católica dedicada, eu não sou religioso.

Nunca fui.

Simplesmente, nunca acreditei que existisse um ou mais deuses no universo. Não acredito que um ou mais deuses tenha passado mensagens transcendentais e códigos de conduta celestiais para que nós, que sobrevivemos precaria e perenemente à superficie da terra, nós, descendentes prolíficos de um punhado de austrolopitecus quaisquer que sobraram em África de uma qualquer série de razias naturais que em tempos ainda não identificados assolaram o planeta, possamos saber o que é isso de viver uma vida decente e moral, que saibamos o que é a diferença entre o certo e o errado.

Para isso, a razão, a moral e o bom senso bastam a maior parte do tempo.

Mais: qualquer pessoa, crente ou não, que leia um bom livro de história, rapida e facilmente constatará que da corporização e codificação das religiões ao longo dos séculos tem resultado tanto bem como mal.

Em nome das respectivas deificações e específicos paradigmas, cometeram-se as maiores carnificinas, as maiores injustiças, entre os seres humanos.

E se calhar evitaram-se males piores.

E também se fez muito bem.

Ao mesmo tempo, obrigo-me, por princípio, e na esperança de alguma reciprocidade, a respeitar quem acredita que existe um ou mais deuses e as mensagens que supostamente constituem a expressão do que essas entidades quererão que seja feito pelos homens que nelas acreditam. Faço-o primariamente pela constatação básica de que, normalmente, as religiões organizadas podem ser formidáveis catalisadores do bem para muita gente boa e moral.

Algo muito fácil para mim, que tive a relativa sorte de crescer e viver em países mais ou menos plurais política e religiosamente.

E, ao nível pessoal, também constato que muito boa gente aguenta-se psicologicamente perante os por vezes pesados desafios da vida por sentir que existe esse apoio que a sua religião presta.

Bom para eles e elas.

Onde a coisa começa a andar mal é quando este ou aquele crente, esta ou aquela religião, começa a sentir que a sua verdade é a única verdade universal, que se aplica a mim, e que quem não está com ela está contra ela.

Essa intolerância, que se expressa das variadíssimas formas, é perigosa e fomentadora de problemas. Muitos. Há quem diga que hoje em dia se vive mais uma confrontação entre essas visões do homem e do divino. Nalgumas,aparentemente ínfimas franjas destas audiências, resolve-se as disputas à bomba e em espectáculos de assassínios em massa, o palco os media cada vez mais interligados e globalizados.

Eu não escondo as minhas convicções, mas também não faço delas propaganda. Não está no centro do meu universo. A maior parte do tempo, estou calado.

E por isso não me surpreende nada quando, ocasionalmente, alguém que eu conheça relativamente bem me aborde sobre assuntos de religião, assunto que, de facto, estudei, ao contrário de muito boa gente, que fala do que não sabe.

Mas no mundo da internet, onde se trocam milhares de mensagens por ano, existe uma forma de propagação da fé que me tem vindo a ser encaminhada, por pessoas que até conheço bem, e que de certa forma me surpreende.

Com a recessão económica, constato que a sua frequência aumentou.

São aquelas longas mensagens, frequentemente apresentações de slides com música “celestial” a acompanhar, em que o autor (não necessariamente o emissor da mensagem, que apenas se associa pelo gesto de a re-enviar) me exorta a ler a palavra do seu deus, a fazer isto ou aquilo, com promessas de vida eterna feliz e a garantia de uma ida súbita para o inferno se eu não re-enviar a mesma dentro de x minutos para toda a gente que está registada no meu (parco) ficheiro de endereços de correio electrónico ou, ainda pior, se eu simplesmente apagar a mensagem.

Ora, por definição, eu sou quase absolutamente imune à evangelização religiosa exógena, venha ela de quem vier e sob que forma vier. E nos meus 50.3 anos de vida, já praticamente vi, li e ouvi tudo, desde a vigorosa proliferação das religiões mais estabelecidas até ao fenómeno da tele-evangelização inovadora, inventada nos Estados Unidos quando eu lá vivia, e que se foi espalhando pelo mundo, incluindo a sua explosão em Portugal nos anos 90 do século passado e em Moçambique a seguir.

Consistente com a minha abordagem ao assunto, não reajo. Não é algo que me concerne particularmente. Nalguns casos leio o que me é enviado, noutros não, e tudo apago. Discreta e respeitosamente.

Ao mesmo tempo, não entendo o fenómeno, que vem acompanhado de outros fenómenos menores de superstição organizada, astrologia, profecias do fim do mundo, etc. Pois não é assim que eu penso e se calhar apenas indica que quem me conhece, não conhece tão bem como possa parecer ao início.

Mas enviar algo deste tipo, que à partida presumo ser um assunto sério para quem envia, com a ligeireza com que por vezes assisto, é algo um pouco desconcertante. Pois, algo paradoxalmente, eu trato este assunto com pouca ligeireza.

Mais: será mesmo possível, hoje em dia, converter ou de alguma forma influenciar alguém, em termos religiosos, enviando uma carrada de mensagens com conteúdos religiosos, profecias, ameaças de inferno, promessas do cumprimento de desejos, etc?

Não creio.

Mas se o exmo. Leitor acredita nestas coisas, peço que re-envie nos próximos dez minutos esta crónica a quinze dos seus melhores amigos senão esteja certo de que as duas piores coisas que lhe possam acontecer na vida (escolha agora) irão acontecer nas próximas 24 horas, sem apelo nem agravo.

07/01/2010

Se Eu Fosse Rico

Filed under: António Botelho de Melo, Cinema, Música, Religião — ABM @ 1:16 am
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Stereoscópio de Lourenço Marques, fim do século XIX, vista da Baía

por ABM (Cascais, 6 de Janeiro de 2010)

Hoje à hora de jantar, por razões assaz obscuras, o Dr Micael (10.5 anos de idade) deu-lhe na cabeça de rezar para pedir a benção de Deus para várias coisas, depois de comermos o mais epicúrio jantar de toda a minha vida (tenho que dizer estas coisas para o caso da Patroa vir espreitar isto no Maschamba, sorry).

Depois de pedir saúde e longa vida para a mãe, pai, avó, irmã, padrasto (eu), cães, cadelas, avestruz e a professora, eu sugeri-lhe (suscitando a imediata ira da mãe, que leva estas coisas muito a sério) que pedisse sorte para a mãe ganhar o Euromilhões e assim ficarmos ricos de uma assentada.

Combati indignado a acusação de abuso do favor Divino dizendo que pedir umas massas ao Senhor lá em cima não era um pecado per se.

E, enquanto rapidamente se passou para a questão de o que é que cada um faria se fosse rico, eu lembrei-me da velha canção que fui apanhar no Iutúbe há bocadinho, que para os mais velhos deve ser vagamente familiar: Topol, representando o pobre judeu russo Reb Tévje em Um Violista no Telhado, 1971, cantando Se eu Fosse Rico.

Que eu vi num cinema de Lourenço Marques lá para 1972.

http://www.youtube.com/v/RBHZFYpQ6nc&hl=en_US&fs=1&

27/12/2009

RESSACA DE NATAL

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por ABM (Cascais, 27 de Dezembro de 2009)

Tirando a oportunidade fortuita de ter uma desculpa para uma espécie de apresentação de cumprimentos anuais a quem de outro modo basicamente nada se disse durante todo o ano, já há muito tempo que não gosto do circo do Natal. Gasta-se dinheiro demais basicamente em coisas que de outro modo ningém no seu perfeito juízo compraria e muito menos ofereceria – e para isso já temos aniversários, sendo que o meu, em Janeiro, vem logo a seguir ao Natal, o que em termos logísticos me deixa em overdose nestes meses e depois em descanso obrigatório durante os restantes dez meses do ano.

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Camarões tigre e bacalhau com natas misturado com bocados de camarão - uma novidade da Patroa

Além disso, apesar de ser tudo divino, nesta altura há comida a mais para tão pouco tempo. Eu gosto de comer tanto como qualquer pessoa, mas gosto de comer bem comedidamente. Hoje já não há nada de comedido na altura do Natal. Os jantares são de arromba e a casa transforma-se temporariamente numa pastelaria conventual de tal forma que constitui um perigo para quem não pode ou não deve comer uma série de coisas e que tenta manter um nível de peso normal.

Mais importante, o episódio do Natal ilustra de forma singular a evolução das relações familiares (nenhuma, alguma ou muita) e a entrada do consumismo ao nível familiar.

Normalmente, se as relações familiares não são de comentar durante o ano, no Natal tudo de alguma forma se exacerba – o bom mas especialmente o mau. Eu, infelizmente, sempre fui particularmente sensível ao mau, que tende a contaminar o (pouco de) bom. Um gesto, uma palavra, uma atitude basta, para me fazer pensar que tão bom seria se eu estivesse, em vez de naquele convívio meio forçado, a pescar sózinho com um esquimó no Pólo Norte e a falar do degelo glacial. A ocasião acaba por ser o mesmo que durante o resto do ano, só que mais assim e com as pessoas e as situações à nossa frente para o confirmar.

Quanto ao consumismo, representado pelos “presentes” que se dão e recebem nesta altura, pelo menos no meu caso, já há muito tempo que se passou daquilo que eu considero razoável, e tenho a impressão que isso se passa com muita gente. Para além do caro, do supérfluo, do inútil, do despropositado e do exagerado (os miúdos tipicamente recebem um absurdo em termos de brinquedos, gadgets e equipamento electrónico), muita gente gasta o que não tem ou o que não deve nestes tempos incertos, num frenesim que no fim de contas não passa disso – uma espécie de febre que passa depressa.

Imagino que para muitos crentes cristãos todo este carnaval deve ser no mínimo desconcertante.

As boas notícias é que isto passa sempre e que acabamos por sobreviver este regurgitar colectivo mais ou menos como dantes.

Portanto, mais do que desejar aos exmos leitores que tenham tido um bom Natal, mais desejo que o tenham sobrevivido.

No meu caso, passei uma boa parte do meu tempo quietinho a criar uma coisa chamada The Delagoa Bay Company, um pequeno blogue sobre desporto de Moçambique e de “moçambicanos” quase todo antes da independência. Quase tudo só fotografias, do que apanhei dos tempos, desavergonhadamente incidente sobre o velho Grupo Desportivo Lourenço Marques. Mas tenta ter um pouco de tudo, desde imagens do Frank Martiniuk a meter um cesto pelo Desportivo, à Dulce Gouveia nos seus tempos de combate na piscina e no campo de basquetebol, e ao Mário Albuquerque a encestar pelo Sporting Clube de Lourenço Marques.

E acima de tudo tive o raro e grato prazer e a honra de ter pessoalmente oferecido ao JPT, Senador do Maschamba, as prendas que lhe eram devidas. Que foram reciprocadas com duas magníficas obras, uma delas da sua autoria, sobre Moçambique, o ficheiro dá pelo nome de pimmentel2003 mas a obra dá pelo mais prosaico título de Matuga no Mato: imagens sobre os portugueses em discursos rurais moçambicanos. Leitura de Natal neste blogue.

Esta, sim, uma ocasião de festa.

Pai Natal Sporting e Senador

O pai Natal entrega uma dose de Reserva Sporting para o JPT enfrentar o resto da época futebolística do maior clube de futebol português a usar a côr verde

Agora tenho que me preocupar novamente com as coisas comezinhas da vida, tal como a enorme destruição que o temporal de alguns dias atrás trouxe ao meu reduto no Ribatejo, em que telhados, muros e árvores voaram com os ventos sentidos naquela zona.

Como dizem os franceses, Ah, la vie est belle mais les hommes dont cábe delle…

23/11/2009

A Igreja de Troufa Real

Filed under: Arte, História, Ilha de Moçambique, Religião, Sociedade portuguesa — ABM @ 12:56 pm

11046_181639004722_181630479722_2780687_5308326_n(maquete da futura Igreja católica no Alto do Restelo, em Lisboa)

por ABM (Alcoentre, 23 de Novembro de 2009)

Tenho assistido com algum indisfarçável gozo, ao aparecimento, no discurso público, das críticas à construção de uma igreja católica nova no Alto do Restelo, a coliona que se situa mais ou menos por detrás da Torre de Belém em Lisboa.

A maquete do que vai ser constrúido, e que foi oferta dum arquitecto chamado Troufa Real, está ali em cima.

O futuro edificio é suposto evocar Francisco Xavier, um Navarrense (em sua vida, viu desolado o Reino de Navarra ser absorvido por Leão e Castilha, onde ficou até hoje) que deambulou pela Europa e que com Inácio de Loyola e mais uns compadres fundou a Companhia de Jesus (uma espécie de Opus Dei que depois foi corrida a pontapé de Portugal), até que o então Papa o despachou para Lisboa e o colocou ao serviço de João II, que queria espalhar a fé pelos nativos nos vários cantos por onde os seus súbditos andavam a fazer pilhagens e negociatas.

A caminho de Goa em 1540, Xavier permaneceu durante seis meses na Ilha de Moçambique, por causa dos ventos adversos. Consta que gostou e até quis ficar em África a pregar mas o capitão do navio em que seguia disse que as instruções do rei eram para o colocar em Goa e ele lá foi.

Nos doze anos seguidos, Francisco de Xavier andou um pouco por toda a parte a tentar pregar o catolicismo até morrer em Dezembro de 1552 de um “febrão” num buraco qualquer na China onde os portugueses comerciavam. Depois de uma série de peripécias, os seus restos mortais (menos um osso, que ia para o Japão mas ficou em Macau) foram faustosamente depositados numa igreja em Goa, onde estão. Desde 1622 que é um santo da Igreja Católica e o padroeiro dos missionários.

A maior parte dos portugueses pensam que ele era português. Pois.

Bem, com esta inspiração do São Francisco Xavier, baseado aparentemente na ideia peregrina de que haverá uma relação entre a colina por detrás de onde fica a Torre de Belém e os Descobrimentos dos portugueses e os seus esforços de evangelização, o arquitecto concebeu uma igreja que é suposto ser uma nau a navegar nas ondas e quanto ao minarete acho que perdi algo na explicação. Com 100 metros de altura (altura do Prédio de 33 Andares na baixa de Maputo) promete ser um mamarracho dos antigos. Talvez bom para alugar às empresas de serviços telefones móveis pois a cobertura da zona será excelente e sempre daria uma renda à igreja. Como se não fosse suficiente, o nosso arquitecto, que parece rivalizar com Tomás Taveira na criatividade, juntou-lhe as cores garridas que se podem ver na imagem acima.

Admitamos que aquilo parece mais uma igreja revivalista-africanista-adventista em Las Vegas que uma igraja para Bétinhos do Alto do Restelo.

Mas – hey – quem sou eu para fazer mais do que escrever o que penso e subscrever (a convite do meu cúmplice em matérias de arquitectura, o Dr Nuno C Mendes) uma destas coisas muito em voga na internet estes dias – um abaixo-assinado electrónico no feicebúque?

O que considero curioso é que pelos vistos, apesar de Portugal estar pejado de igrejas e afins, não há uma decente no Alto do Restelo, um recanto chiquérrimo e abastado que baste da Cidade de Lisboa. Numa entrevista ao prestigiado Correio da Manhã de Lisboa (não o de Maputo, que é do Refinaldo Xilengue) o padre local, António Colimão, refere que aquela zona fora autonomizada da paróquia de Santa Maria de Belém (lá em baixo) e as missas andavam a ser celebradas num (que horror) barracão. Por isso falou com o Troufa Real e com a sua congregação, que deslindou uns míseros três milhões de euros, sacou um terreno grátis da Câmara Municipal de Lisboa e deitou mãos à obra. Aquilo levou uns dez a quinze anos até chegar agora à fase da construção.

Por isso, o bom padre não entende bem porque é que as pessoas agora deram para contestar a obra.

Bem, senhor padre, talvez seja porque ninguém realmente tinha olhado a sério para a sua catedral xaveriana à estilo de Macau/Las Vegas, não é?

Claro que a Igreja Católica Portuguesa vive um dilema em Portugal. Como referi, o país está repleto de edifícios religiosos, alguns com quase mil anos ou mais. Mas hoje estão todos nos sítios errados e efectivamente são mais museus e monumentos que igrejas. Não são locais conducivos à partilha da fé e do convívio que se pretende e se espera no Século XXI. A maior parte são frios, escuros, pouco funcionais. Custam um balúrdio obsceno para manter e para pouco mais servem do que oficiar missas, casamentos, baptizados e funerais. Nestes dias, mais funerais que outra coisa.

Acresce que, especialmente nos últimos quarenta anos, tem havido grandes alterações na localização da população, que se urbanizou em redor de Lisboa e do Porto. No vasto subúrbio destas duas cidades, há poucas igrejas, enquanto que nas zonas rurais é quase uma em cada esquina, e todas às moscas. Em Alcoentre City, por exemplo, há várias igrejas, frequentadas por meia dúzia de beatas e apenas um padre, que corre as capelas regularmente (até há pouyco num Audi A4, wow) a dar uma missita aqui e outra ali. Aliás, nunca lhe pus a vista em cima uma vez em 20 anos, o que diz muito dos tempos que correm, pois antigamente o padre da paróquia era um membro visível da comunidade (as minhas fontes revelaram-me confidencialmente que Alcoentre agora tem um novo padre, igualmente invisível).

Portanto que o Sr. Padre do Alto do Restelo queira ter a sua igreja é perfeitamente normal. Agora, não se surpreenda que as pessoas achem que o que vai ser construído pareça um casino chinês de Macau em dia de festa de fim de ano.

Dizem-me que Deus perdoa tudo, mas não sei se vai deixar esta passar.

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