THE DELAGOA BAY REVIEW

31/10/2013

AS MANIFESTAÇÕES CÍVICAS DE 31 DE OUTUBRO DE 2013: MAPUTO, BEIRA E QUELIMANE

No fim das fotografias, veja as declarações de Alice Mabota, em vídeo. A visibilidade e contestação da Liga dos Direitos Humanos e de Alice, sua Presidente, tem sido grande.

As manifestações tiveram como principais objectivos denunciar a criminalidade organizada em Moçambique e a instabilidade política e de segurança resultantes dos diferendos entre os líderes da Frelimo e da Renamo.

Desde a Independência em Junho de 1975, nunca houve nenhuma expressão popular sequer parecida com o que sucedeu hoje, que não fosse da iniciativa da Frelimo e dos seus governos.

MAPUTO:

Foto de Sérgio Costa, partilhada no FB.

Foto de Sérgio Costa, partilhada no FB.  A manifestação na Avenida Dr. Eduardo Mondlane (antiga Av. Pinheiro Chagas). Segundo o grande João de Sousa, nos notíciários da noite, todas as estações de televisão moçambicanas arrancaram com as manifestações excepto a estatal TVM, que iniciou com uma visita que o Presidente Guebuza estará a fazer a Sofala, província onde as forças armadas se encontram numa caça ao homem ao Presidente da Renamo.

Foto de João M Taborda.

Foto de João M Taborda.

Foto de CA.

Foto de CA.

Foto de CA.

Foto de CA.

Foto Paulo Araújo.

Foto Paulo Araújo.

Foto do Canal de Moçambique.

Foto do Canal de Moçambique.

Foto de Mauro Steinway.

Foto de Mauro Steinway.

Foto de João M. Taborda.

Foto de João M. Taborda.

BEIRA:

Foto Magazine CRV.

Foto Magazine CRV. Na Beira, a população ainda está em choque pelo rapto e assassinato de um jovem com 13 anos de idade. Este rapto, como quase todos os outros, teve como objectivo extorquir dinheiro da Família.

Foto do Salim Milas.

Foto do Salim Milas.

QUELIMANE:

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

VÍDEO DO DIA

Em baixo, o vídeo do dia: Alice Mabote, Presidente da Liga de Direitos Humanos, penso que a entidade que organizou a manifestação, em declarações esta manhã.

http://videos.sapo.mz/mNcZU24vTiFBLulFClmP

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30/10/2013

A MANIFESTAÇÃO ANUNCIADA EM MAPUTO PARA A MANHÃ DE 31 DE OUTUBRO DE 2013

Imagem que veio de Edwin Honnou e de Fernando Veloso no Facebook, alusiva a uma marcha pela paz a realizar na manhã de hoje em Maputo, num contexto de uma grave perturbação da paz e da tranquilidade públicas no País.

Imagem que veio de Edwin Honnou e de Fernando Veloso no Facebook, alusiva a uma marcha pela paz a realizar na manhã de hoje em Maputo, num contexto de uma grave perturbação da paz e da tranquilidade públicas no País. O percurso anunciado é entre as estátuas do Dr. Mondlane, no ALto-Maé, e a de Samora Machel em frente à sede do Conselho Municipal, em Maputo.

12/03/2012

TURISMO MOÇAMBICANO EM PORTUGAL, 2012

Filed under: Sociedade moçambicana, Turismo em Portugal 2012 — ABM @ 6:33 pm

Assinalando com apreço o crescente intercâmbio entre portugueses que vão visitando Moçambique (alguns para tentar ficar- boa sorte) e de moçambicanos que visitam Portugal, deixo a estes últimos um mapa turístico do rectângulo luso ibérico ocidental que encontrei na internet.

Portugal tem a vantagem de ter mais coisas para ver que Moçambique e de estar tudo contido no equivalente entre a Ponta do Ouro e o Xai-Xai.

A comida e a hospitalidade não têm rival, e aqui ficam as sedes do Benfica, do FC Porto e do Sporting.

Roteiro de Portugal para visitantes de Moçambique, 2012.

29/02/2012

SAMORA MACHEL REVISITADO: A PERSPECTIVA DE BARNABÉ LUCAS NCOMO

Samora Machel e o Dr. Eduardo Mondlane, na visão idílico-marxista.

Lendo o combativo semanário Canal de Moçambique de hoje, encontrei na sua página 12, remanescentes de um algum passado num texto discretamente intestino-neo-cafreal-pós-colonial. O que achei positivamente evolutivo, dado o precedente da acusação de má companhia em que me achei uma vez em 1, 2, 3 e 4. Talvez o suporte de um blogue seja diferente do de um jornal. Será? Este blogue é meu. Talvez seja essa a diferença.

Resumo: a recente carga branca dos aviões da TAP nem sempre será do agrado de todos os autóctones, o que poderá ser uma chatice.

Mas neste caso, a má companhia a que me refiro acima – claro – não sou eu, mas a quase contundente análise – a segunda parte, depreendo, que se encontra a partir da página 18 do Canal de Moçambique, da mão de Barnabé Lucas Ncomo, que vai em total contraciclo com o exercício de brainwashing nacional em curso na terra do carvão e do camarão.

Merece uma leitura atenta, se crítica.

Afinal, Samora Machel, e os seus vinte anos na vida pública moçambicana, não são assunto fácil de descarnar. Quem sabe não fala e muitas vezes quem fala, fala mal.

Com profunda vénia para o autor e o jornal, aqui vai.

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27/02/2012

OS ALBINOS DE MOÇAMBIQUE TAMBÉM SÃO MOÇAMBICANOS

Filed under: Os albinos em Moçambique, Sociedade moçambicana — ABM @ 9:48 pm

Na melhor toalha cai o pano. E não consigo entender esta de, em partes de África, haver atitudes de descriminação “racial” (será isto?) ou a elaboração de mitos envenenados em redor de pessoas albinas. Há uns tempos li um artigo arrepiante sobre este tema, na Tanzânia, que faz fronteira com Moçambique pelo Norte.

Mas parece que esta trágica, lamentável, rasca, deplorável atitude por parte de muita gente se estende a Moçambique. É uma vergonha. Um povo que foi discriminado e que se tornou independente em boa parte com o argumento de também acabar com a discriminação, em 2012, eu ainda ter que ler o que se segue.

Haja decência. Esta gente é tal e qual os outros todos e deve ser respeitada como tal. Pior: têm uma condição que merece cuidados médicos e atenção ao modo como vivem, especialmente nos cuidados com a pele e as dificuldades de visão.

É tempo de recordar: a liberdade e o direito à vida em liberdade, sem constrangimentos de qualquer espécie, não deve ser negada a nenhum cidadão, salvo o que está previsto na Lei.

O que está e continua a contecer com os africanos albinos é uma vergonha.

Reproduzo o artigo, publicado hoje no sítio http://www.rcmpharma.com:

“Em Moçambique, ser albino é sinónimo de mito e todos têm um para contar, como o de que “eles não são enterrados, porque desaparecem” ou “a grávida que encontrar um albino vai ter um bebé albino”, avança a agência Lusa.

Mas o que mais dói à comunidade de albinos moçambicanos é a incompreensão “de quem era suposto saber mais”, principalmente os professores, que se impacientam com as dificuldades de visão de quem a genética deu melanina a menos.

Para vincarem que são “diferentes, mas iguais”, os albinos criaram a Associação Defendendo os Nossos Direitos (ADODS), que completou esta semana um ano.

Além da festa, celebrada na histórica Fortaleza de Maputo, o aniversário da ADODS foi também uma oportunidade para os albinos exorcizarem a angústia provocada pelo estigma, dando testemunhos sobre a sua própria experiência.

Ivo Nhadele, 24 anos, conta à Lusa que perdeu namoradas por não suportar os olhares desconfiados de pais das meninas, amarrados a mitos negativos sobre a condição de albino que existem na sociedade moçambicana.

“Namoradas? Familiares de namoradas, passei por situações que não eram compreensíveis, pois as pessoas não compreendem que, embora a gente tenha uma situação diferente, nós somos parte da sociedade”, frisa Ivo Nhadele.

No domingo, com formação de contabilista, considera que pode ter sido prejudicado várias vezes devido à sua condição de albino, mas é da incompreensão dos professores que sente mais mágoa.

“Nós não estamos a exigir nem merecemos tanta atenção, mas a nossa condição cria-nos dificuldades de visão, não vemos com a mesma facilidade o que está escrito no quadro, e mesmo aqueles que era suposto saberem, como os professores, não nos compreendem”, conta.

Argentina Luís, 21 anos, teve de fazer de Beyoncé num famoso concurso de talentos musicais de um dos canais de televisão moçambicanos, para ganhar respeito do bairro e pararem os “apelidos” depreciativos com que antes era tratada.

“Nós, os albinos, como todo o mundo sabe, sofremos muita discriminação, principalmente das crianças na rua, que nos dizem o que os adultos não têm coragem de dizer”, narra Argentina Luís.

O sonho de ser uma grande cantora tem ajudado Argentina a ignorar o preconceito e a criação da ADODS deu mais força para se impor como “pessoa normal”.

Stela Banze, 26 anos, que na festa de aniversário da organização foi manequim na sala onde foi montada uma exposição fotográfica alusiva à data, para celebrar o “orgulho albino”, diz que o facto de ter feito uma licenciatura em Ciências de Saúde provou-lhe que os albinos são capazes de vencer o estigma e viver normalmente.

“Não é fácil ser albino em Moçambique, porque há muita ignorância, mas o meu lema foi preferir não me achar diferente e, dentro das minhas capacidades, ser uma pessoa normal. Isso mantém-me viva”, realça, lembrando que lutou durante um ano contra um cancro de pele.

O estigma também atingiu os membros mais famosos da comunidade. O músico moçambicano Ali Faque não foi tocar num certo ano à Tanzânia, porque ali os mitos levam muitas vezes à morte por curandeiros, que prometem riqueza a quem foi “tratado à base de órgãos extraídos de albino”.

O reverendo Jamisse Taímo, ex-presidente da Comissão Nacional de Eleições (CNE) e antigo reitor do Instituto Superior de Relações Internacionais conta que viu grávidas desviarem o seu caminho por medo que transmitisse ao bebé o seu albinismo.”

(fim)

24/01/2012

COMO É POSSÍVEL?

Uma mulher de Lourenço Marques, presumivelmente nobre. Foto de Manuel Romão Pereira, fim do século XIX, dos arquivos do IICT em Lisboa, restaurada por mim. Entretanto passaram-se cem anos. Ou não?

 

Deve ter sido por causa da atenção do público em relação ao mau tempo que assolou o Sul de Moçambique na passada semana, que, salvo o meritório protesto de um conjunto de organizações e de alguns cidadãos preocupados, publicado num sítio na internet, quase terá passado despercebido em Maputo um artigo de opinião, enviado de Pemba (para os dos antigamentes, é Porto Amélia) da mão de Pedro Nacuo, um conhecido e até agora reputado jornalista, cronista, autor e professor.

O texto de Nacuo debruça-se sobre um episódio infame, no mínimo um caso de polícia, que, inacreditavelmente, parece ter até este momento escapado à atenção das autoridades e da Lei, se bem que haja indicações de que os factos são do seu conhecimento.

Eis o artigo de opinião que o Notícias de Maputo publicou no sábado, dia 14 de Janeiro de 2012 e que reproduzo na íntegra do magnífico Macua Blogs – incluindo o inacreditável título:

Dizer Por Dizer: Leis que colidem com a tradição!

E há muitas! M’mera ou M’vera (acampamento) é o local especialmente escolhido para acomodar (?) os jovens que vão aos ritos de iniciação masculinos, a mais credível forma de educação na tradição de quase todas as províncias do Norte de Moçambique, portanto de todas as etnias aqui existentes.

O local é sagrado, mistificado, de tal ordem que os jovens (nos últimos tempos, crianças) ficam lá, submetidos às diferentes disciplinas do currículo educativo tradicional, em muitos casos de forma viril, qual se faz com os recrutas na instrução para o serviço militar. Quem de lá sai, considera-se graduado e preparado para os desafios que a vida lhe reserva pela frente. Portanto, para lá da circuncisão, que é algo secundário, o objectivo principal é a educação dos jovens.

Os jovens ficam ao cuidado de gente aparentemente estranha, preparada para num mês mudar comportamentos que corriam o risco de serem perenes, corrigir condutas que poderiam minar o futuro das crianças, para se lhes admoestar uma maneira de estar na sociedade, conforme a tradição dos seus ancestrais.

 E muitos dos comportamentos a corrigir normalmente são do tipo ocidental, que a civilização nos trouxe, a negação à igualdade em reconhecimento àqueles que são velhos ou foram entronizados em representação de quem era autoridade moral.

Quem por lá não passou, na verdade, não merece o respeito devido na sociedade tradicional a que se encontra inserido, chama-se Lúku. É uma qualidade muito humilhante, leva a contradições que nunca acabam.

Quem por lá passou considera-se crescido por ter ido aonde só se vai uma vez e se deixam muitos comportamentos erróneos, para adquirir outros ou solidificar os considerados saudáveis.

Tudo o que lá acontece, não diz, não se leva para casa, não se conta a quem nunca foi. Tudo termina no dia em que o M’mera ou M’vera, fica destruído, normalmente por meio do fogo posto e ninguém mais olha para trás, sinal de que é caso encerrado. Isso é de tal modo mitológico que nem há reportagens jornalísticas que falam do que se passa naquele lugar.

Não há jornalista, desde que não seja Lúku, capaz de tentar reportar para o público o que acontece num M’mera ou M’vera. Marca para sempre a vida dos homens, conquanto possam trilhar depois caminhos díspares. Ainda que depois possam ser muitas vezes doutor, outras vezes dirigente político ou ministro, a saudade que fica, justifica-se pelo respeito que se tem dos ritos de iniciação. Da tradição!

O acampamento é, na verdade, um lugar sagrado, envolto de mitos que acompanham a vida das crianças durante cerca de um mês ou mais, sem a convivência com os seus pais, mas dirigidos por pessoas aparentemente desconhecidas, asseguradas por um líder espiritual, que é o responsável, ao fim e ao cabo, da vida dos petizes.

Há um raio determinado, depois do qual está-se na zona proibida e quem ousa violar os limites tem imediatamente uma valente punição, principalmente se não for quem alguma vez passou por aquilo. Pior se for uma mulher! É nesse limite onde se recebem as comidas vindas das casas dos miúdos, trazidas pelos pais ou seus enviados, sem a certeza de que chegam ou não aos seus destinatários…

Não é que em finais de Dezembro passado uma mulher, aqui em Pemba, violou os limites em relação ao raio proibidíssimo, diz-se, por mais de uma vez? Concluiu-se que o fazia deliberadamente, sobretudo porque sendo da terra, sabe o quanto é interdito.

Caiu nas malhas de homens do acampamento e foi dolorosa e copiosamente violada, por 17 homens, vindo parar no hospital onde ficou internada. A cena saiu para o consumo público, este público que, tendo passado pelos ritos de iniciação, não tem que perguntar quase nada e ela dirá muito pouco do que aconteceu.

Ficou, infelizmente, a história de rir: no hospital, os enfermeiros não sendo Lúkus, só puseram-se a tratá-la, como o fariam a uma pessoa que deliberadamente se meteu debaixo de um carro para que fosse pisada. A polícia prendeu os supostos autores materiais do crime, mas a corporação é composta por homens, alguns deles que bem sabem de que se trata e o líder espiritual mandou recados para quem ousasse mexer nos seus “soldados”.

Ficou um segredo, como é segredo tudo o que lá acontece. Ninguém moral e tradicionalmente condenou a punição aplicada à senhora, ainda que severa, porque as instituições são compostas por pessoas que sabem de que se trata. Aqui a Lei colidiu frontalmente com a tradição. Eu, se não estivesse a dizer por dizer, nem devia dizer isto!

(fim)

A reacção, algo tardia, veio na forma de um comunicado conjunto de organizações cívicas que actuam em Moçambique. Intitulado “Os Talibans de Moçambique”, o texto, divulgado no domingo, dia 22 de Janeiro no sítio da WLSA, uma das organizações que o subscrevem e dirigido à administração do jornal Notícias, diz o seguinte:

No jornal Notícias, a 14 de Janeiro de 2012, o jornalista Pedro Nacuo escreveu uma coluna de opinião sobre um crime ocorrido em Pemba, Cabo Delgado: uma mulher que entrou num espaço reservado aos ritos de iniciação de rapazes, foi “punida” por ordem do responsável pela cerimónia, que ordenou uma violação colectiva.

Ela foi sexualmente violada por 17 homens.

A polícia inicialmente tentou intervir, chegando a deter os violadores, mas foi avisada para não se imiscuir no assunto.

Não se conhece o desfecho final do caso.

No artigo, Pedro Nacuo defende como merecida a “punição” decretada pelo “líder espiritual” e concretizada pelos seus “soldados”: “Ninguém moral e tradicionalmente condenou a punição aplicada à senhora, ainda que severa, porque as instituições são compostas por pessoas que sabem de que se trata”.

Este caso lembra a violação colectiva de uma jovem ordenada por um conselho tribal numa zona rural do Paquistão, em 2002. Só que o desfecho no Paquistão foi o opróbrio nacional e internacional, e o julgamento e condenação dos violadores e dos membros do conselho tribal envolvidos. Enquanto neste caso, o jornalista moçambicano defende a impunidade!

Contrariando a ideologia e valores conservadores, sexistas e talibanescos do jornalista, as autoridades moçambicanas têm que intervir. Para que a justiça seja reposta e para que não seja vã e inútil (e até hipócrita!) a aprovação de tantos instrumentos legais que protegem os direitos de cidadania de todas/os nós, mulheres, homens e crianças. E para mostrar que estamos de verdade num Estado de direito. Menos do que isso é ceder à lei arbitrária decidida e aplicada por líderes locais, indo contra das leis que consideram a violação como crime.

Lembre-se que Pedro Nacuo foi premiado em 2011 na categoria de imprensa escrita à 13ª edição do Prémio Saúde para Jornalistas, promovido pelo Ministério da Saúde, em parceria com o Sindicato Nacional de Jornalistas e a Organização das Nações Unidas. Assim, é assombroso que um jornalista premiado por escrever sobre saúde justifique que a mulher violada tenha sido maltratada pelos enfermeiros do hospital aonde foi levada. Este senhor recebe um prémio do Ministério da Saúde mas está a promover condutas indignas da profissão médica, nomeadamente, rir de um estupro colectivo e culpabilizar a vítima: “Ficou, infelizmente, a história de rir: no hospital, os enfermeiros, não sendo Lúkus (*), só puseram-se a tratá-la, como o fariam a uma pessoa que deliberadamente se meteu debaixo de um carro para que fosse pisada”.

Para finalizar, exigimos que a justiça cumpra as leis do Estado, sancionando os agressores (os violadores e o líder que os guiou) e mandando, assim, uma mensagem forte a quem quer decidir por si os limites da legalidade no país.

Solicitamos que o jornal Notícias publique esta nota como direito de resposta para repor princípios fundamentais dos direitos humanos, que norteiam a nossa jovem democracia.

Assinam:

WLSA Moçambique – Mulher e Lei na África Austral
LAMBDA – Associação de Defesa das Minorias Sexuais
Fórum Mulher
AMMCJ – Associação Moçambicana das Mulheres de Carreira Jurídica
AMCS – Associação das Mulheres na Comunicação Social
FORCOM – Fórum das Rádios Comunitárias

Nota:Lúku: homem que não passou pelos ritos de iniciação

(fim)

Considerando as alegações gravíssimas aqui feitas, as opiniões expressas e a natureza dos factos, surpreende-me totalmente que um assunto desta natureza quase não acuse no “radar” da sociedade moçambicana a todos os níveis e mereça o tratamento que a sua natureza quase bombástica merece.

Nomeadamente:

1. Como é possível que um caso de violação sexual de uma mulher moçambicana em Pemba por 17 homens, passa pelas mãos da autoridade policial local e pelos vistos, aparentemente nada aconteceu?

2. Como é possível que uma mulher violada por 17 homens vai parar a um hospital e ela recebeu – a acreditar nas palavras do jornalista autor do artigo de opinião acima – o tratamento mais vil, infame e desrespeitador que se pode imaginar?

3. Como é possível que um crime desta natureza possa ser “reclassificado” como uma mera ocorrência pelas entidades envolvidas, 17 autores e um mandatário mandados para casa, invocando a desculpa esfarrapada de que envolve religião e tradições, e como tal se justificava?

4. Como é possível em 2012, que qualquer pessoa, que qualquer entidade,  qualquer tradição, qualquer religião, consiga justificar o crime deliberado da violação em massa de uma mulher, como fazendo parte legítima e constituindo “castigo justificável” , seja em que circunstância for?

5. Como é possível que a direcção e os editores do Notícias de Maputo, deixem passar a limpo nas suas páginas como mera afirmação de uma opinião num sábado, a monstruosidade que é dita quase inexplicavelmente pelo seu cronista de Pemba, que desvaloriza um crime hediondo e efectivamente relega mais do que metade de toda a população de Moçambique para o estatuto de carne para canhão, sujeitas a “tradições” e “religiões” que incluem a violação sexual em massa de uma mulher?

6. Como é possível que, em Moçambique, em 2012, em que, pesem todas as dificuldades e constrangimentos, existem entidades e mecanismos com poderes formais e informais como os Srs. Presidente da República, primeiro-ministro, ministro do Interior, ministro da Justiça, Procuradoria, as polícias, etc – e este chocante episódio passe em claro sem que acção decisiva, conclusiva e eloquente seja encetada, dizendo aos criminosos e ao mundo que, em Moçambique, a Lei aplica-se e que, em Moçambique, as mulheres são respeitadas e são para serem respeitadas, que, em Moçambique, estes crimes não são tolerados, e que quem os cometer em Moçambique vai pagar um preço muito caro por eles?

Como é tudo isto possível?

Por mim, em memória da minha mãe e para bem das minhas irmãs e de todas as mulheres moçambicanas que são as nossas colegas e parceiras na vida e as mães dos nossos filhos, e da nobre e rica tradição, desde a Independência, do realce e destaque para o papel crucial das mulheres na sociedade moçambicana, espero que não seja possível.

17/01/2012

TOKOLOSHE E OS DINOSSAUROS

O divertido cartaz anunciando o convívio do antigos alunos dos Salesianos de Moçambique, em Portugal, marcado para Abril de 2012, onde se vão comer uns croquetes e recordar os bons velhos tempos da juventude.

Eu já tinha lido o texto em baixo, que é sobre a realidade sul-africana.

Mas não só.

Apesar de se focar inteligentemente e com humor em coisas digamos que básicas, o que chama a atenção nesta pequena crónica do que me parece ser um jovem sul-africano negro com cerca de vinte anos de idade, é a perpsectiva global invocada e a que eu já havia chamado a atenção por mais do que uma vez nos meus escritos e que creio que muitos de nós, com entre 45-55 anos de idade, também já constatamos, que é o facto de que em África já há algum tempo que “se está completamente noutra”.

No caso que me interessa de sobremaneira – Moçambique (sorry, South Africa) constato-o permanentemente, quando constrasto o discurso oficial e o oficioso nos jornais em Maputo e arredores, e falo com os meus amigos mais jovens, especialmente no Facebook.

Em grande medida, Moçambique, um pouco como acontece na África do Sul, sofre do mesmo problema salientado pelo jovem que assina como Vusi Mabaso e que escreveu esta nota: numa excessiva busca de legitimidade e de identidade baseadas nas tradições e nos brilhantes eventos glorioso-bélicos do passado histórico, na procura de conciliar os imenssíssimos desafios para esta geração e a que vem a seguir, uma parte excessiva do discurso público e dos esforços são dirigidos para items que não têm rigorosamente qualquer relação com a realidade e os valores presentes e ainda menos com os desafios futuros.

E esta constatação é quiçá a maior crítica que possa ser elencada contra a actual geração de políticos em Moçambique.

Em última análise, o diálogo quanto ao passado nunca poderá sobrepor-se à necessidade do diálogo quanto ao que fazer quanto ao futuro.

Pois os custos e as consequências dessa postura são e serão inaceitáveis.

O texto de Vusi Mabaso a que deu o título de The Tokoloshe, no original, em inglês:

400 years ago Africa might as well been another planet in our solar system.

We were living in peace in our thatch huts. The 10 piece of cattle were grazing under the African sky. The head of the family sat in the shade of a tree drinking beer, the wives were working the land and the kids were making clay oxen to play with.

Every man’s dream, even to this day, no matter where on this planet you might come from. It sounds like the African version of the Playboy mansion. You sit in the shade and your multiple wives work for you.

Then the Europeans arrived and laughed at our people who had no education and thought our way of life was savagery. We had to fight them with spears to survive and ultimately lost the battle. They took our land and made us their slaves. They sold us to America and we became a trading commodity.

That is, what it is. We can’t change the past. So now 400 years later, what now?

We had to learn through bloodshed that we were not a planet of another solar system. We are part of this world and in this world there are certain rules that can’t be broken if you want to have food. Whether we like these rules or not, they are a reality. We can fight them like Mugabe does but it would only result in hunger.

Too many Africans are yearning for life as we knew it back then…but they just love the white man’s BMW and Lear Jet. The donkey cart is way too primitive for their liking and the cow hides that once covered our loins are not as “cool” as a Hugo Boss suit. We are a race that conveniently wants to fall back on our traditions when it suits us.

Not everybody has the ability to be as black and white as I am, and I mean that in more than one sense. I accept and acknowledge that. But I had to ask myself where do I fit in? Do I want to go back to my ancestral land in Dundee and demand this land be given back to me so I can acquire a few wives and create my own Playboy Mansion or do I like it here in Sandton with a Blackberry?

You would be horrified if you read all the messages I get on Facebook of people swearing at me, calling me a traitor, a disgrace to all black people in South Africa and that whites are paying me to blog my views.

What they don’t know is that I have been very blessed to come from a long line of fighters that have fought from the days of the spear right up to the AK47. They fought for my freedom and as sure as this sun is going to come up tomorrow, I am not going to mess up all they have fought for.

I have to address this cultural jail that stands between my people and true freedom.

Let us look at the Tokoloshe first.

You slept with your bed raised up on a few bricks so that when the Tokoloshe comes at night, he could move freely around your room without knocking his head against any object. For those that know this superstition will know it is a small mystical hairy thing that looks like a psychotic angry little bear and catches you at night. But if he knocks his head against your bed, you are going to get this menace all over you and he has a temper like no other on earth. Stop laughing, I’m dead serious!

I haven’t seen him yet. I badly wanted to see him when I was small because while others feared him, I thought he sounded cool and wanted to befriend him. My grandmother would look at me in absolute horror when I wanted to see the Tokoloshe. She would tell my mother “Eish this child scares me”.

When my Grandfather returned from exile, he brought me a Teddy Bear from London. I looked at the Teddy and instantly knew this was the Tokoloshe I always wanted to meet. So my bear got named Tokoloshe. I got smacked a few times because I would jump on my Grandmother when she takes her afternoon nap and scare her with Tokoloshe.

But the modern new reborn Tokoloshes sit in Parliament.

Parliament…hmmmm… let us discuss running this country, being an example to the citizens and our traditions.

In a new African landscape how practical is it having multiple wives? Nice idea, being a man. Come on you guys reading this, admit it!

But 20 children? Not so good because if I see what my university education and all the sundry trimmings are costing my father I would hate to think he had to make 20 of us. He would need to join the bank robbers to keep us at university.

My mother didn’t come cheap either, so he would have had to start stealing cattle from the white farmers if he wanted more wives. She cost him 40 head of cattle back in the 80’s. But wow, was she worth every cow! You should see her today in her Chanel dress …but 5 of them?

That is the humorous side of our tradition, but the more serious side is the following reality. There are only two of us and not twenty. So from my first breath my father has been there every step of my way thus far. We are his life and the reason he works this hard. He has spent every moment available guiding me into manhood (without sending me to a bush so some traditional butcher can slaughter my stuff beyond repair) How, as a father will you possibly find the time to devout this kind of attention to 20 kids? I don’t even want to think what life would have been like without my father. Unthinkable.

But what would I have been, if my father happily cavorted around claiming it is his culture and tradition?

I probably would have been marching with Malema on the road to nowhere and my father would have been dead by now. I would be visiting a graveyard and trying to find life’s answers from a stone. Back in the 80’s when he married my mother us blacks haven’t heard of HIV/Aids and those enlightened ones that did know about it, thought it was a homosexual disease.

So unbeknown to us we were killing ourselves. Merrily living out the principles of our tradition, not knowing we are committing suicide and resulting in 2 Million orphans just in South Africa alone, let alone the rest of Africa.

Wouldn’t this be a far more worthy cause to march about than march to get stuff you deliriously think should be given to you for free?

Imagine what must be going through the mind of a 4 year old kid, who is left all alone tonight, with nobody to take care of him or her? None of these orphaned kids asked to be here, so imagine how a child has to try and make sense of all of this?

So why do I still have my parents? Because my father knew he can’t run around making babies that he can’t provide for. He had to think soberly about life with a new millennium looming. He had us because he wanted us. We were to become his legacy. We weren’t conceived in a moment of uncontrolled lust or in the name of an outdated tradition.

We won’t discuss the merits of the social grant for mothers with kids and absent fathers but alarmingly condoms are still very unpopular accessories amongst the population of Africa. Until recently we had that scary old Bat as a minister of health. Tokolosh personified. Beetroot juice and cabbage leaves will cure the disease, while the Chief would shower after a bit of inyama.

What did my father do 7 years ago when I reached puberty? He sat me down and told me the facts and how it all happens. Every time I leave the house he jokingly says he will draw blood when I return and have me tested. He jokes, but it has sunk in so deep now, I think about the consequences every time I see a gorgeous girl.

What do my people do? Until recently it was better swept under the table than discuss the matter. It became unlawful to state a person has died of AIDS on his death certificate. How big is this denial?

Please don’t make a comment after you have read this and tell me this disease was invented by the Apartheid rulers to wipe us out. I’m not even going to discuss that old stale story! And speaking about Apartheid, get over it. It has no relevance in 2011. Dead, gone, born 31-05-1961 and was executed on 27-04-1994. Our ultimate justification for everything that we do wrong can’t come back so we can stone it.

The most bizarre superstition was invented to “cure” the disease. Rape a girl and it goes away. By girl, I mean little ones that had to helpless have their lives taken from them without their consent. Grown men believing in rubbish like this. How in the name of God can you possibly justify this, no matter what your traditions or beliefs are?

We have now for far too long shrugged our shoulders and hid behind our traditions on the one hand and on the other we want to sit at the UN and pretend we have the wisdom to help decide the fate of other countries. In this world we need to merge with, you have:

1. One wife. You sleep around, you die.

2. You have more kids than you can provide for, they starve and when they grow up they will steal to survive because you didn’t have enough money to send them to a decent school. The government schools are a complete waste of time because the teachers are never in class.

3. You can’t sell or trade with your daughters. They are not consumer goods.

4. You study or qualify as an artisan so you can earn your own keep and build your own house. There isn’t enough money going around building 40 Million free houses. You can wait until the sun burns itself out, it is not going to happen. So live with it.

5. Forget the white man’s wealth. It has long gone been transferred to Sydney. There isn’t any left here. Create your own. Forget about redistribution. Use your logic. The wealth of 5 Million whites was never going to send 45 Million blacks into a blissful retirement. The white wealth Malema cries about daily, was only in the hands of a few whites.

So until we move ourselves forward and merge ourselves with the world, we will remain primitive. 17 Years after independence you don’t dance from Beyers Naude to the stock exchange and have foreign journalists film your insanity in the name of freedom. We were freed 17 years ago, embrace it and use your freedom to trade with the world, not crash your own stock market.

We can march up to the Union Buildings until the cows come home. We are not going to move ourselves forward until we free ourselves from ourselves!

(fim)

07/09/2011

FICHA LIMPA. MAIS OU MENOS

Filed under: Crime, Política Moçambique, Sociedade moçambicana — ABM @ 12:20 am

Segundo uma entrevista publicada no jornal americano The Statesman, esta é uma foto do Sr. Bachir na sua casa em Maputo em meados de Abril deste ano, esperando beber um chá como qualquer vulgar moçambicano.

Uma nota difundida ontem pelo Portuguese News Network referia o seguinte:

Em 2010, o Tesouro Americano considerou Momade Bachir Sulemane «Barão de Drogas», depois de uma investigação que apurou que o empresário transportaria droga da Ásia para a Europa.

Adam Szubin, director do Gabinete de Controlo de Bens Estrangeiros do Departamento do Tesouro (OFAC), informou, em Junho de 2010, que Momade Bachir Sulemane, empresário moçambicano, encabeçava uma lista de traficantes de nível internacional, depois de apuradas várias provas da sua actividade.

Porém, esta sexta-feira, 2 de Setembro, a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Policia de Investigação Criminal (PIC) comunicaram que os resultados do caso «MBS» não concluíram evidências suficientes para incriminarem o empresário relativamente ao caso de narcotráfico denunciado pela Casa Branca.

No entanto, Momade Bachir Sulemane é acusado de infracções fiscais e aduaneiras, num comunicado que refere que, durante a investigação feita às suas empresas, foram apurados indícios de ilegalidades como a violação dos procedimentos relativos ao desembaraço aduaneiro e a infracção da legislação cambial.

O Procurador-Geral da República solicitou junto do Ministério Público, do Tribunal Aduaneiro de Maputo, do Tribunal Fiscal de Maputo e da Autoridade Tributária de Moçambique que sejam tomados os devidos procedimentos.

(fim)

O governo norte-americano já difundiu uma nota a reafirmar que mantém a sua posição original.

Afinal em que é que ficamos? Certo é que para já Bachir permanece na lista negra da OFAC.

26/01/2011

SOBRE AS SOCIEDADES EM TRANSIÇÃO

Filed under: Sociedade moçambicana — ABM @ 12:20 am

É fascinante a falta de contraste.

Ainda há umas semanas atrás, a imprensa moçambicana discutia acesamente a obrigatoriedade de os titulares de cargos públicos – presume-se que desde topo até aos níveis médios da hierarquia pública – estarem legalmente obrigados a apresentar anualmente a quem de direito (e aqui já há base para imensa especulação) declarações patrimoniais e de rendimentos.

Que, do que li na altura, não acontecia, ou se acontecia nada daí vinha para a praça pública pois os mecanismos de verificação incluiam fazer a verificação à porta fechada e depois os dados serem arrumados numa gaveta.

Ou seja, é um escrutínio dos servidores do Estado feito por outros servidores do Estado, que essencialmente aos primeiros reportam, à porta fechada.

Mas a imprensa de ontem, com destaque para o Canalmoz, que nestas coisas tende a ser mais sonante, habitualmente, refere preocupações emanadas do Centro de Integridade Pública, quanto a certas inconsistências legais e procedimentais, que permitem….que aquilo que certa legislação refere, ou classifica, como “dirigentes superiores do Estado” (DSE’s) tenham direito a, efectivamente, auferir uma remuneração “secreta”.

Ou seja, uma remuneração que ninguém sabe qual é ou o que é, para além de quem recebe, quem autoriza e quem paga.

Pois o documento, e os seus procedimentos exactos, são secretos.

Ora deixa cá ver:

1. Ninguém sabe quanto ou o que é os DSE’s ganham, qual é a base argumentativa para o estabelecimento dessa remuneração ou sequer quem pede e quem autoriza;

2. Ninguém sabe se os DSE’s apresentam declarações de património e de rendimentos, e, se o fazem, se daí se tira qualquer ilacção.

Esta é realmente uma combinação fascinante.

Só me restam duas perguntas para eu entender melhor esta temática:

1.Qual a razão para esta excepção?

2. Como é possível, nestas circunstâncias, fazer-se o escrutínio público quanto à justeza dessas remunerações e benefícios, ou, talvez mais básico, aferir se um hipotético DSE anda a roubar ou a fazer negociatas?

Pensava, de ler os jornais, que existia um sério problema de percepção de corrupção e de não-prestação de contas, que convinha sanar.

Pelos vistos não há.

Parece que está tudo bem assim como está.

Pois, afinal, dir-se-á, tal é próprio das sociedades em transição.

21/01/2011

PRETO AQUI NÃO ENTRA

Filed under: Racismo, Sociedade moçambicana — ABM @ 1:14 am

No tempo colonial – que, note-se, acabou há quase quarenta anos – pode ser que estas coisas existissem e nem sequer fizessem notícia. Mas estamos no ano da Graça de Deus de 2011. E, com vénia, isto é o que sai hoje no magnífico Diário do País, que se publica em Maputo: cidadão quer ir à praia, mete-se à estrada, e unicamente porque é preto, correm com ele da praia. O cidadão é de Moçambique, e o país onde está é Moçambique.

O chato é que eu acho que isto é tudo verdade.

Algo está mal aqui. Seriamente mal. Os moçambicanos negros, que são quase todos os moçambicanos (não é) devia ser capazes de ir a um raio duma praia no seu país, a um parque, a um restaurante, sem terem que sentir que são olhados ou tratados diferentemente, ou ainda por cima preteridos. Unicamente porque são da raça esmagadoramente maioritária no país.

Em 2011, não fosse isto tão trágico, seria quase cómico.

13/11/2010

O FACEBOOK E OS VÁRIOS MOÇAMBIQUES

por ABM (13 de Novembro de 2010)

A minha amiga Patrícia do Facebook mandou este vídeo do sinopse de uma vida no Facebook. Se o exmo. Leitor ainda não está lá, bem, enfim….ali é diferente.

Eu ainda mal sei mexer na minha conta, aberta por causa desta Casa há uns meses (havia um acesso facilitado ao Maschamba via o tal de Facebook). Durante a maior parte desse tempo, eu tinha vinte “amigos”. Portanto quando o JPT me contactou um dia e me propôs apresentarmos os respectivos um ao outro, eu pensava que eu lhe apresentaria os meus vinte amigos e ele me apresentaria os seus vinte amigos.  Para tal, lá consegui preencher meia dúzia de banalidades sobre mim (quando nasci, onde estudei, coisas desse género) e colocar uma fotografia mais ou menos tal e coisa aqui do rapaz para a rapaziada ver.

O que eu não sabia é que o JPT tinha 3.402 amigos. Assim, durante duas semanas, o meu computador de linha branca com nove anos e dois upgrades esteve perto de pifar umas dez vezes.

Tem sido interessante adaptar-me a este novo mundo dos conhecimentos alargados. O nível do diálogo tem sido supreendentemente sério e culto, sem grande peixarada, atravessando as barreiras culturais, geográficas e temporais. E de facto sinto que tenho algum vislumbre de com que dialogo – e vice versa.

Obviamente que a socio-biologia de quem está no Facebook é relativamente específica. Para além de ser tendencialmente monolingual – 99.9% de com quem me relaciono escreve em língua portuguesa – afinal só lá está quem tiver requisitos específicos: um computador, ligação à internet, literacia informática suficiente para navegar nos meandros da internet e dinheiro para sustentar isto tudo.

Apesar desses elementos limitativos, a relativa minoria moçambicana presente na internet é vibrante e genuína. Pode-se, portanto, assim dizer que, para quem quiser, hoje há um bocado de Moçambique em toda a parte.

Aliás, mais do que um Moçambique. Frequentemente, assisto a um curioso convívio do Moçambique actual com o Moçambique que foi. Muitos dos que viveram naquele país até à Independência, e que depois saíram digamos que abruptamente e em alta velocidade e sem olhar para trás, e que na esmagadora maioria dos casos perderam o rasto dos amigos e conhecidos, de repente estão a reatar essas convivências, mesmo que residualmente. A maior parte claramente parece que está noutra onda completamente diferente, mas sinto que vibra com as recordações da sua juventude africana e partilha o que à primeira vista parece ser a mesmíssima sub-cultura que os diferenciou, no caso de Portugal, enquanto “retornados” – não o sê-lo, mas está-lo. Ou melhor, a sua maneira de estar.

Mais curioso é o conjunto (mais pequeno) dos que viveram em Moçambique depois da Independência e que expressam o mesmíssimo apreço pelas suas recordações, mas neste caso no contexto dos tempos revolucionários e do braço no ar.

Mas há lá de tudo, incluindo este blogue, claro. Até o meu amigo, o Sr. António Rita Ferreira, que estudou Moçambique uma vida inteira, e que amanhã completa 88 anos de idade, passou a ter a semana passada (mea culpa) a sua página pessoal no Facebook (sob o seu pseudónimo literário, António Rita-Ferreira).

Se o exmo Leitor ainda não experimentou o Facebook, vá lá ver. É grátis e não engorda. E pode ser que nos encontremos lá.

08/10/2010

DEUS, O NEGÓCIO E O PECADO NA RUA ARAÚJO EM LOURENÇO MARQUES

A Rua Araújo em dia de sol, anos 1890

por ABM (8 de Outubro de 2010)

Quis divertir-me um pouco hoje.

Vamos lá.

AGRADECIMENTOS

Esta nota é dedicada ao Nuno Quadros, que involuntariamente foi o seu agent provocateur ao mandar-me uma mensagem a dizer que S.Exa. o Aga Khan tinha inaugurado um dos casinos que operaram na Rua Araújo (acho que não, Nuno) e à Sra D. Suzette Malosso que, na plenitude dos seus 82 anos de idade, tendo crescido na cidade aqui focada, lembra-se de coisas que eu não sabia sequer terem existido e que teve a pachorra de aturar os meus interrogatórios.

INTRODUÇÃO

Creio -dizem-me- que uma das expressões enfáticas e mais badaladas da protagonizada ética limpa do então novo regime que se instalou em Moçambique com a retirada da administração portuguesa da governação do país em 1975, foi, literalmente, o encerramento dos estabelecimentos na Rua do Bagamoyo em Maputo (então Rua Araújo em LM, terminologia que se usa doravante, pois o relato situa-se nessa era) e a proibição da sua vida boémia, tida como imoral, decadente, capitalista e exploradora, entre outras coisas, dos corpos e vulnerabilidades das mulheres moçambicanas.

A agenda dos líderes guerrilheiros da Frelimo recentemente chegados à capital, aparentemente horrorizados com os seus decadentes hábitos e costumes, foi, claramente, de dar um sinal das coisas para vir e da Nova Ordem, congeminada lá no meio do mato, em Nachingwea. Aquilo que viam em Lourenço Marques era o colonialismo. e o colonialismo acabara. A prole, emocionada, estúpida e oportunista, aplaudiu logo o gesto de eliminação da prostituição e da vida boémia – e já agora de tudo o resto mais que viesse à cabeça dos Libertadores.

Libertadores para quem, mais do que a Independência, que já era obra, consideravam a Revolução para Criar o Novo Homem Moçambicano o objectivo mais sério, e para quem o exemplo predilecto da pura vivência revolucionária – um pouco como Eça ironiza quando em A Cidade e as Serras “obriga” um rico parisiense a gostar de viver na parca rispidez serrana portuguesa – era aquela vida porreiraça e espartana que tinham andado eles próprios a viver lá no mato no Norte.

A solução clara era simples: o povo genuíno vem do mato, a gente não controla bem as cidades, que estão cheias de colonos brancos que ainda por cima pensam que ainda mandam alguma coisa e que são um veneno e um empecilho à Revolução Moçambicana. Portanto vamos colocar esta gente toda na ordem, mostrar-lhes quem manda aqui e correr com o maior número possível deles, preferencialmente de forma a que o que eles pensam que é deles (mas que é nosso) fique atrás.  E acabar já com os reaccionários vícios deles.

Não demorou muito (basta perguntar a quem passou por esta altura e que especialmente é white ou quase) e as cadeias estavam cheias de gente que foi repetidamente presa durante dias e dias porque atravessou a rua na hora errada, porque não bateu uma continência que não sabia que tinha que fazer, que não parou o carro a tempo quando a banda lá no palácio se lembrou de tocar o novo hino, que se esqueceu do bilhete de identidade naquela noite em que foi ao cinema com os amigos.

E isto era só para os que não tinham feito nada.

Mas na altura a Rua Araújo foi muito mais falada porque era uma medida muito mais visível, mais colectiva e mais ostensiva. O simbolismo era inescapável, e deliberado.

As alegadas putas e os seus alegados proxenetas foram mandados para a reabilitação e a rua (o tal de Araújo que dava o nome à rua foi o primeiro Governador do Presídio de Lourenço Marques, nomeado em 1781) mudou mais uma vez de nome, desta vez para um dos locais sacros da Gloriosa Guerrilha lá longe na Tanzânia: Bagamoyo, a escola para a formação do Novo Homem Moçambicano, cortesia da Frente de Libertação de Moçambique e, durante algum tempo, de Janet Mondlane.

Mas que apropriado.

O encerramento (na altura rotulado como “limpeza”, referido numa edição de Abril de 1975 na outrora Pacatamente Burguesa mas agora Raivosamente Revolucionária revista Tempo – e em que Ricardo Rangel era sócio) coincidiu com a Independência, felizmente para Victor Crespo, o memorável almirante e o último (e único) Alto Comissário em Moçambique, que representou o novo regime português pós-golpe de Estado em 1974 antes de formalizar a entrega do poder aos líderes da guerrilha na data por eles escolhida. Pois refere quem viu,  que o Almirante passava mais tempo no Dancing Aquário na Rua Araújo a beber whiskies e a discutir as colorações epidérmicas das senhoras que lá dançavam, que no seu escritório a fingir que presidia às formalidades da governação e que defendia os interesses do seu país (em boa verdade, parece que na altura ninguém sabia quais eram esses interesses e mesmo assim por essa altura a Frelimo estava-se a marimbar para o que quer que fosse que ele dissesse, que mesmo assim foi nada).

E esse acto apenas foi um começo. No início de Novembro de 1975, numa operação de grande envergadura e que durou dois dias e incluiu três cidades, as forças da Frelimo, de AK47s em riste apontadas contra uma população urbana basicamente inocente e completamente indefesa, pura e simplesmente prenderam cerca de três mil pessoas, que consideraram suspeitas de estarem envolvidas com drogas, prostituição, roubo ou vadiagem. Pois.

Era o legalismo revolucionário, conferido e legitimado pelo Povo.

Na altura da Indepedência eu não soube de nada destas tricas da Frelimo com a Rua Araújo nem do terror dirigido aos “colonos” (ou será que era payback time?), pois estava mais ou menos tranquilamente a estudar a oito mil quilómetros de distância, em Coimbra, onde o mais que havia de aguerrido eram os desenhos dos gigantescos seios das caricaturas do José Vilhena. Um pouco como em Moçambique, a pornografia via-se era na vida política, todos os dias, nos noticiários politizados da Érretêpê.

Dez anos depois de eu ter deixado de residir em Maputo e nove anos depois da Independência, em plena era do Repolho e do Carapau, visitei a cidade, que me pareceu deserta, abandonada e parada no tempo, as pessoas com terror sequer de pensar alto, com medo de lhes ser apontado o dedo por alguém ligado à Nomenclatura. Mas não se sentia qualquer fervor revolucionário. Apenas cansaço, conformidade e um perpétuo esforço de meter alguma coisa no prato. Pois não havia quase nada. Mas ainda assim foi-me discretamente servida uma lista das Grandes Mudanças (para além da de praticamente toda a gente que eu conhecia não estar lá, claro). E o desmantelamento da Rua Araújo estava nos top dez, o que eu achava curioso, até estranho, pois apercebi-me que isso indiciava o simbolismo, na cabeça de muita gente, que aquilo acarretava, antes e depois da Independência.

Se bem que antes da Independência aquilo não era de forma alguma “a” referência nem tinha o relevo que se possa querer dar-lhe. Era apenas mais um dos locais exóticos, quiçá um pouco mais sórdido, da cidade. Eu hoje tenho 50 anos de idade, e nos passeios a pé higiénicos da família BM aos sábados à noite depois do ocasional jantar chinês no Restaurante Hong Kong, lá pelos fins dos anos 60, princípios dos anos 70, devia eu ter uns dez anos de idade, lembro-me muito vagamente do que aquilo parecia, pelo menos a parte da Rua Araújo para quem vem da Praça onde fica a estação dos Caminhos de Ferro: que tinha muitos bares porta sim porta sim, muita gente, muita música aos berros, montanhas de luzes e coloridos anúncios de néon a acender e a apagar, à porta de uns bares e dancings umas fotografias dumas meninas de coro (brancas) muito pintadas com umas coisinhas penduradas nas pontas das maminhas expostas e um ambiente mais ou menos aguerrido.

Nos dias que correm, isto é troco para bebés.

A Rua Araújo nos anos 60, de dia. À noite parecia Las Vegas junto do Índico.

Uns anos depois, a primeira referência que eu vi sobre a antiga Rua Araújo foi na forma de umas fotografias que o saudoso e agora exaltado Ricardo Rangel (que se dava muito bem com o meu pai) publicou e que tirou nessa altura, e que correspondem vagamente ao que eu vira e mais ou menos imaginava ser a Rua Araújo, claro que sem aquela carga ideológica-sociológica-pós-colonial que se sente agora, e que, despida de contexto, dava uma aura quase lunática àquele fenómeno da velha Lourenço Marques.

Casal fotografado por Rangel na Rua Araújo - o sórdido passou a ser arte

Uns anos mais tarde, já no fim dos anos 90, quando a Nomenclatura freliminana  relaxou involuntariamente os costumes públicos e, sem qualquer veio condutor, a capital moçambicana descambou quase completamente para um free for all em termos dos seus hábitos mais prúridos. Alguns decerto se lembram das legiões de jovens serpentes nas esquinas do Polana e da Sommerschield (a baixa era uma cidade fantasma à noite) depois da hora do jantar e todos os passeios em redor da discoteca do Sheik completamente tomada pelos possantes 4×4 da nova classe de “empresários de sucesso” e suas sumptuosas, esculturais acompanhantes.

(Elas eram chamadas serpentes porque quando a gente passava por elas no carro elas faziam assim: “pssssssssssst, psssssssst”)

Houve então muito boa gente na cidade que pensou, e disse, que se calhar fazia mais sentido trazer de volta a velha Rua Araújo e meter isso tudo ali. Mas as coisas não são assim tão fáceis de fazer. Hoje em dia, não estou lá muito dentro dos detalhes do negócio do prazer e do entretenimento maputiano, mas acredito que ainda há muito, muito por fazer.

A verdade sobre a Rua Araújo é muito mais profunda.

E, na minha opinião, se calhar não há rua que mais e melhor espelhe a História desta cidade que hoje é Maputo.

De facto, houve uma lógica muito clara no aparecimento do negócio por que a Rua Araújo se tornou quase mítica. Para a entender, tem que se recuar até ao fim do século XIX e entender o que se passava na região.

Se o exmo Leitor tiver a paciência, acompanhe-me nesta aventura.

A CIDADE APARECE

Apesar da apetência britânica pela baía defronte de Maputo, sucessivamente combatida pelos portugueses com a ajuda do Duque de Magenta (hoje mais conhecido como 2M), o flanco sul da então frágil, precária, indefinida colónia portuguesa, estava praticamente abandonado aos seus habitantes, que faziam mais ou menos o que sempre fizeram, os portugueses tendo o ocasional problema com os ingleses, que se alternavam com os Boers a tomar conta do que é hoje a Suazilândia, e os boers do Transvaal, que também gostariam de ficar com a parte Sul do actual Moçambique.

O momento verdadeiramente fundacional para a cidade – e de tal forma que em meros vinte anos o epicentro de todo o Moçambique se deslocou dois mil quilómetros do eixo Ilha de Moçambique-Nampula para a Baía de Lourenço Marques, ao ponto de a elegante e centenária capital ter sido descartada para os pântanos em redor da Ponta Vermelha – foi o conhecimento pelo mundo da descoberta de ouro no Rand, uns campos situados a Norte da pacatíssima capital boer do Transvaal (nome formal: República Meridional Sul-Africana), Pretória.

Tirando as negociatas do Albasini, pouco fluía entre o interior e a costa.

A "cidade" original não era uma cidade: era uma ilha. A uma distância regulamentar do Presídio, fez-se um aldeamento precário. Na parte baixa desse aldeamento vê-se a Rua dos Mercadores - a original rua de Maputo - mais tarde a Rua Araújo

Assim, quase subitamente, em 1874, na pequena língua de terra situada a Poente de onde Joaquim Araújo se lembrou de mandar edificar o lastimável Presídio de Lourenço Marques, centenas de pesquisadores e aventureiros americanos e australianos ali desembarcaram ao mesmo tempo para se dirigirem para o interior, enquanto que, do Transvaal, centenas de boers faziam a caminhada no sentido contrário, para vir buscar mercadorias e mantimentos aos navios. Nesse ambiente de “fronteira” completamente desregulado, de negócios, bebida e prazer, logo se esboçou um – o primeiro- o primeiro de todos – arruamento onde essas actividades se desenvolveram:

A Rua Araújo.

Que na altura, à boa antiga portuguesa, não tinha nome de gente, mas um nome que traduzia a sua utilidade: o de Rua dos Mercadores. Era um assentamento precário, com casas feitas de madeira, suficientemente sólidas para se poder lá dentro guardar, comprar e vender tudo e em que o português era provavelmente a terceira ou quarta língua mais falada.

Um ano depois, ao fim da tarde do dia 12 de Setembro de 1875, um violento incêndio consumiu tudo o que havia entre a actual estação dos caminhos de ferro e a sede o Banco de Moçambique (dantes o BNU). Para evitar situações semelhantes,o então governador português, um tal de Augusto Castilho, mandou que as casas passassem a ser feitas com materiais mais duráveis: argamassa, tijolo, adobo, telha, zinco. E logo a seguir veio o Major Joaquim José Machado e a sua equipa, que esboçou o plano director do actual centro da cidade. São essas as casas que os postais mais antigos de Lourenço Marques hoje mostram.

A Travessa da Palmeira (hoje fica entre a sede do BIM e a Nova Mesquita). Após o incêndio de 1875, as casas passaram a ser feitas de alvernaria, tijolo e telha.

Com as notícias da descoberta de ouro em Magaliesberg e em Barbeton, a pressão de ligar a Baía ao interior sul-africano britânico e boer foi quase insustentável. Logo se abriu a que ficou conhecida como a Estrada de Lindenbugo (que começava no fim da actual Av. 24 de Julho, a seguir a um enorme quartel que acho que ainda lá está). Lindenburgo (se é que ainda tem esse nome) fica situada a meio caminho entre Maputo e Pretória. Naquela altura Nelspruit (Mmmmmbombélááá!) basicamente não existia e seria assim até o comboio passar por lá anos mais tarde.

As coisas encaminhavam-se, perante o ar atónito dos Rongas, que ali viviam em redor, e que assistiam certamente preocupados com o reboliço enquanto que por sua vez iam fazendo as suas negociatas e de vez em quando umas razias para saquear.

A Rua Araújo, quando em Lourenço Marques se vivia um ambiente de fronteira

Mais um aspecto da Rua Araújo no fim do séc. XIX

Os momentos-chave seguintes foram a inauguração da linha de caminho de ferro para Pretória (1895), logo a seguir a abertura do porto marítimo da cidade, culminando com o desencadear da Guerra Anglo-Boer (1899-1902), um complicado imbróglio militar e político, que trouxeram muita, muita gente à cidade e montanhas de negócio. Nessa altura, Lourenço Marques (ou a sua designação inglesa, Delagoa Bay) estava nas primeiras páginas dos grandes jornais de todo o mundo, a Baía bloqueada pela poderosa marinha britânica (foi ali usado pela primeira vez no mundo o telégrafo sem fios para a coordenação de operações militares-navais. Enfim, vale o que vale).

A linha de caminho de ferro abriu em 1895. O edifício da estação chegou mais do que dez anos depois. Directamente em frente, ficava a Rua Araújo, e à direita o porto marítimo.

E o que é que, fisicamente, estava precisamente no meio disto tudo?

A Rua Araújo.

De facto, a Era de Ouro da Rua Araújo não foi nos anos 50, 60 e até 1975.

Pelo contrário, foi nas quatro décadas anteriores.

OS DIAS DE OURO

Capa dum folheto publicitário em inglês, sobre Lourenço Marques, anos 20.

Estabilizada a guerra e colonizado o Transvaal pela Grã-Bretanha (cujo consulado em LM, desde que abriu sempre esteve no mesmo local onde hoje se encontra a actual embaixada em Maputo), o negócio aumentou sempre e cada vez mais, tendo Lourenço Marques, que entretanto foi praticamente comprada e desenvolvida com capitais ingleses, sul-africanos e boers através de companhias, lá a partir dos anos 20, criado e desenvolvido um negócio novo, complementar, e extremamente rentável, para além do import/export e do álcóol: o negócio do lazer e do prazer para os brancos sul-africanos.

Dia de "São Navio" em Lourenço Marques. A cidade toda acorria ao Cais para assistir ao espectáculo, e cuscar quem chegava e quem partia. Era um evento. Depois ia tudo beber um copo para a Praça 7 de Março.

De facto, a cidade tinha várias valências nesse sentido. Para além de ser organizada, limpa, e bonita, tinha um clima aprazível, ficava junto ao mar, tinha acessibilidades (barco, comboio, estrada, telégrafo para o mundo exterior), boas instalações, boa comida, instalações desportivas e tinha o exotismo informal cultural luso-africano que nem se sonhava existir na África do Sul.

O antigo campo de golfe da Polana. Situava-se imeditamente a seguir ao actual Hotel Polana e estendia-se até à actual embaixada americana e entrava um pouco para dentro da actual Sommerschield.

A entrada do Pavilhão de Chá, junto à antiga praia da Polana e a 150 metros a Norte do actual Clube Naval de Maputo

O bar da Estação de caminho de ferro de Lourenço Marques estava ao nível do que de melhor havia no mundo na altura

Lourenço Marques, com as suas praias, o Pavilhão de Chá, os seus vários hóteis, quiosques, clubs e restaurantes, alegremente acolhia esse negócio, nos anos 20, 30 e princípios dos anos 40.

O cais da estação de caminho de ferro de Lourenço Marques

Nessa altura, para além dos navios, que traziam centenas de marujos, passageiros e homens de negócios à cidade, vinham diariamente comboios de Joanesburgo e de Pretória, cheios de carga e gente, na busca de repouso ou de prazer, ou para apanhar um barco para a Europa, ou regressar à África do Sul.

E, para além de bowling, golfe, a caça, a pesca e o ténis, Lourenço Marques tinha bebidas à descrição, jogo e prostituição, práticas estas proibidas e reprimidas pelos estóicos britânicos e ainda mais pelos puritanos boers. Em Lourenço Marques, para além de vinho, whisky, camarões e cerveja à descrição (incluindo aos domingos e feriados religiosos) até fados e touradas havia,  perante o espanto dos visitantes. E cinema, e excelente ópera italiana, esta no resplandecente Varietá, que ficava do outro extremo da Rua Araújo, junto à Praça Sete de Março (hoje 25 de Junho, o dia da Independência em 1975), a sala de estar da cidade – com chás e delicados bolos de pastelaria servidos às cinco horas da tarde, enquanto música tocada no seu coreto por bandas contratadas, quase todos os dias.

Antes do Polana abrir, o Carlton era o hotel de escolha em Lourenço Marques. Ficava situado a meio da Rua Araújo. Mesmo depois de abrir, durante muito tempo o Polana era considerado fora do caminho.

Cedo a cidade se tornou ponto de visita obrigatório para os milionários e as classes mais abastadas de Joanesburgo e de Pretória, que para ali se dirigiam em conforto exuberante no Blue Train, um comboio de luxo que parava semanalmente na estação de Lourenço Marques.

Que ficava a cem metros da Rua Araújo.

Para além dos navios de passageiros que atracavam todas as semanas no porto, mesmo ao lado.

As touradas e as pegadas de touros eram uma atracção turística única em África.

A meio da Rua Araújo, do lado direito, cedo abriu o Casino Belo, mais exclusivo, e mais abaixo o Casino Costa, os únicos casinos no Sul de África. O Casino Belo (no edifício mais tarde funcionou o conhecido Dancing Aquário, para quem se lembra) era uma luxuosa máquina de fazer dinheiro. Estava aberto toda a noite, sete dias por semana. Tinha uma grande orquestra (o chefe de orquestra do Casino Belo durante dez anos chamava-se Jorge Vara e era o pai da D. Suzette, por isso é que eu sei isto tudo) tocava diariamente, sete dias por semana, das 9 da noite até às 4 da manhã, com um intervalo de meia-hora.

Aspecto da sala de jogo do Casino Belo na Rua Araújo, em Lourenço Marques. Lá dentro, era obrigatório o uso de fato ou smoking e vestido comprido para as senhoras.

Ali encontravam-se as famosas e as originais Taxi Girls de Lourenço Marques(não são as que mais tarde se chamavam pelo mesmo nome, e que basicamente eram prostitutas). Estas eram jovens sul-africanas desesperadamente belas, vestidas de rigor com vestidos compridos, todas as noites, e como referi não eram prostitutas (o que não significa que não dessem uma volta com quem lhes apetecesse). O que elas faziam era que à noite conversavam com os clientes, entretiam-nos e bebiam um copito ou outro. E qualquer homem podia comprar uma “fita” de bilhetes por dois e quinhentos cada bilhete, e por cada bilhete a menina dançaria com ele uma música. No fim quase todas elas acabaram por casar com portugueses de sucesso na cidade e hoje fazem parte do DNA dos descendentes de quem lá viveu (imagino que estrategicamente omitindo os detalhes da sua procedência).

Curiosamente, naquela altura as crianças podiam entrar no Casino, que tinha também umas limousines com motoristas fardados para levarem os clientes e seus convidados para os hotéis ou de volta para o Blue Train.

O Varietá, na altura creio que a segunda Casa de Ópera em toda a África excepto o Cairo, situado na Rua Araújo, no local onde hoje se situam o Cinema Matchedge e o Estúdio 222.

Nesses tempos, ganharam-se e perderam-se verdadeiras fortunas nos casinos da Rua Araújo. Após uns dias de loucura na roleta e no bacharat, muitos dos visitantes mal tinham dinheiro para pagar o bilhete de comboio de volta para Joanesburgo e Pretória e houve um número considerável de suicídios, cometidos por gente que perdeu tudo o que tinha nas mesas de jogo.

Na Rua Araújo, o negócio da noite não era só para os ricos. Era socialmente vertical. Os bares, cabarets e salas de jogo da Rua anualmente atendiam milhares e milhares de marinheiros, viajantes, homens de negócios, etc, trazidos pelo movimento louco no porto e no caminho de ferro.

Curiosamente, quase todo o negócio era entre brancos – incluindo, malgré as suspeitas da Frelimo, a prostituição. Mas do lado esquerdo da Rua Araújo, houve mais tarde uma casa amarela, o Bar Pinguim, que era o único sítio na Rua Araújo onde havia, para além de prostitutas brancas, prostitutas negras e mulatas e cujo ambiente era puro caos estilo filmes do Texas. Nos anos 50 era um hangout favorito de, entre outros, o poeta Reinaldo Ferreira.

Durante esses anos, a autoridade policial, especializada e presente, mantinha a ordem, num misto de negligência latina e pauladas vigorosas. Alguns se recordarão dum agente de polícia alto e encorpado que vigiava a Rua Araújo, e que era legendário por resolver problemas de rua com uma saraivada de cacetadas, o que supostamente funcionava bem junto dos marujos e dos tropas mais alcoolizados.

Convenientemente situadas perto da Rua Araújo, havia grandes casas de prostituição, negócios legais, de porta aberta. As prostitutas eram praticamente todas brancas, a maioria francesas e sul-africanas. Refiro por exemplo uma luxuosa mansão que existia na rua a seguir à antiga Paiva Manso (não faço ideia qual é o nome da rua hoje) e que era a maior e considerada a melhor, gerida por uma senhora que era conhecida na cidade pela sua generosidade e que tinha vários filhos que se formaram todos na África do Sul.

Belo, proprietário do principal casino, era uma figura conhecida na cidade, riquíssimo, generoso, respeitado. O primeiro frigorífico eléctrico doméstico que houve em Moçambique foi ele que o instalou em sua casa. Teve três filhos, um deles o Ernesto, outro que foi gerente da Casa Coimbra (aquele prédio mesmo ao lado esquerdo do Banco de Moçambique na 25 de Setembro em Maputo) e um terceiro sobre o qual nada sei.

O FIM DE UMA ERA

O fim desta Era Dourada da Rua Araújo começou quando, lá muito longe, do outro lado do mundo, em Lisboa, o ditador Oliveira Salazar, tentando perpetuamente fintar os jogos de cadeira locais com as diferentes facções sociais (são sempre as mesmas: radicais vs católicos vs maçónicos vs monárquicos, a treta do costume), com a intervenção do seu antigo amigo e antigo colega de carteira, Manuel Gonçalves Cerejeira, então Cardeal de Lisboa e representante da Igreja Católica Apostólica Romana em Portugal, celebrou em 1940 (ano em que se celebrou também o tricentenário da reaquisição da independência portuguesa das mãos dos Hespanholes) um entendimento formal entre o Estado português e o Vaticano, a que se chamou Concordata.

Através desse documento, para todos os efeitos, a Igreja Católica encerrou um trágico capítulo aberto com o advento da I república e assumiu uma parceria com o Estado português que teve assinaláveis ramificações por todo o Império.

Em Lisboa, os três amigos: o Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, o Presidente do Conselho, Oliveira Salazar, e o seu Presidente, Óscar Carmona. Dos três, só Salazar nunca meteu os pés em Moçambique.

Talvez não seja coincidência que nessa altura, se começou a construir a actual Catedral de Maputo, que foi concluída em 1944, recorrendo os poderes locais para a sua construção essencialmente a trabalho escravo nativo, o que enfim, é mais uma pequena vergonha e uma expressão do tal colonialismo no seu pior (alguém devia meter lá uma placa na parede para que se soubesse e se lembrasse essa vergonha).

A expressão da Trilogia do Poder Imperial no centro de Lourenço Marques: o Estado (a Câmara Municipal), a Igreja (a Catedral) e o vulto de Mousinho. Em 75, Samora despachou Mousinho para um canto da "fortaleza" antes de rebaptizar o local de Praça Mousinho de Albuquerque para Praça da Independência. E de meter uma gigantesca fotografia sua na fachada. Mousinho out, Samora in.

Em Agosto de 1944, já a II Guerra Mundial estava a começar a chegar ao seu término, num navio Serpa Pinto obscenamente artilhado para acolher Sua Católica Eminência, o Cardeal Patriarca de Lisboa, Manuel Gonçalves Cerejeira, viaja para Moçambique e desembarca em Lourenço Marques para inaugurar com imperial pompa a nova catedral, que ficou situada mesmo ao lado do também novo e imponente edifício da Câmara Municipal de Lourenço Marques, talvez para simbolizar a nova parceria entre o Estado e a Igreja – algo que acontecia pela primeira vez em Moçambique, cujo pluralismo religioso era palpável.

O quarto de cama de Gonçalves Cerejeira no Serpa Pinto

A sala de jantar do Cardeal Cerejeira no Serpa Pinto

O Serpa Pinto até tinha uma espécie de "sala do trono" para o Cardeal Cerejeira. Isto hoje dava um filme.

Pouco depois, a prostituição e os jogos de casino foram ilegalizados e desmantelados em Lourenço Marques.

Na Rua Araújo, ficaram os bares, os dancings e o ocasional jogo ilegal. A prostituição passou para a clandestinidade.

O RESSURGIMENTO

Mas a Rua Araújo não morreu.

Pouco depois, no início dos anos 60, com a instauração do apartheid do Sr. Verwoerd na África do Sul e a preparação e o início do que veio a ser a guerra pela Independência, Lourenço Marques conheceu um período de enorme movimento de pessoas, de investimento e de crescimento. Muitos portugueses vieram viver e trabalhar para a cidade, o número de visitantes da África do Sul, que agora viajavam em carros particulares, cresceu significativamente, e os navios começaram a chegar da Metrópole cheios de jovens militares sózinhos, muitos desejosos de fazer uma escalada na Rua Araújo para beber uns copitos e talvez experimentar o deslumbre de uma experiênciazinha sexual, para depois se ocuparem da defesa do território. E o movimento de navios, aviões e comboios cresceu quase exponencialmente. A cidade fervilhava.

O mito das LM Prawns: acima, o Restaurante da Costa do Sol, nas mãos da família luso-greco-moçambicana Petrakakis desde 1938.

Os usos e os costumes entretanto liberalizaram-se, muito mais em Moçambique do que era a norma quer na Metrópole portuguesa, quer no ambiente severo de Calvinismo puritano imposto na África do Sul – apesar de, nas praias e nos cafés de Lourenço Marques, serem as bifas que deixavam os locais de boca aberta, as meninas locais manietadas pelos velhos costumes dos seus pais portugueses.

Ainda que com a Pide a mordiscar, o Regime nervoso e a guerra dois mil quilómetros ao Norte a desenvolver-se, o ambiente na cidade tornou-se muito mais sofisticado e multiracial, começaram a aparecer galerias de arte, surge toda uma geração de pintores e escultores portugueses e moçambicanos, brancos e negros e com temas africanos, lojas de moda, a Sociedade de Estudos, a Casa Amarela, os bikinis, a mini-saia, veio a revolução musical com o rock, vomitado 24 horas por dia, sete dias por semana pela LM Radio, a Estação 2 do Rádio Clube que era de longe a mais popular em todo o Sul de África. Do Rádio Clube veio também a  marrabenta e inaugurou-se também a primeira estação de FM stereo, com jazz e música clássica, em todo o território português.

Em termos de desporto, tudo havia e tudo se fazia tudo na cidade. Campos de futebol de básquet, piscinas, golfe, mini-golfe, hóquei, equitação, aviação, tiro, regatas, pesca, pesca submarina. Era uma obsessão. Em entre 50 e 60 surgem estrelas como Coluna, Velasco, Matateu, Eusébio, Lage, Mário Albuquerque, Fernando Adrião, Dulce Gouveia, Mussá Tembe e tantos outros. A lista não acaba.

Nos anos 60, o pai BM, à esquerda, treinava equipas de futebol em Lourenço Marques.

Por sua parte, a Rua Araújo acompanhava todo este ambiente à sua maneira, com mulheres, marijuana, misturada com cerveja, vinho, shows de striptease (alguém se lembra da famosa travesti Belinda?) e com verdadeiras sessões de pancadaria que inevitavelmente envolviam comandos, fuzileiros e a polícia de choque a correr atrás deles com cacetetes. Segundo o Eduardo Pitta, até havia um discreto underground gay e lésbico na Rua Araújo que a Maluda vagamente confirma. O Carlos Gil esteve lá nos seus tempos de teenager e no seu livro Xicuembo deu uns lamirés da fauna louca que aquilo era.

Como em toda a parte, dizem-me que havia prostituição para todas as cores, todos os gostos e todas as bolsas. Mas se calhar a Rua Araújo não era o ponto principal dessa actividade. quando muito era um ponto de começo.

O Hotel Central e o Dancing Aquário, um conhecido empório da Rua Araújo e ponto de paragem de Vítor Crespo.

Foi esta Rua Araújo que Ricardo Rangel conheceu e retratou nos anos 60. E que, em meados dos anos 70, ajudou a destruir na sua revista.

De certa maneira, para a velha rua, esse foi apenas mais um momento da sua vida.

Uma nova metamorfose do que fora.

Viva a futura amizade entre os povos da CPLP !

E com o tempo, essa imagem do que fora nos anos 60 e 70, congelou-se e tornou-se num cliché, e pior, no todo, excluindo os quase cem anos que o precederam. Até Licínio de Azevedo recorreu agora a ele para o seu recente filme “Margarida”.

O tal símbolismo que eu acho que, isoladamente, não teve.

EPÍLOGO

Hoje, a Rua Araújo – a Rua do Bagamoyo – sobrevive precariamente, um dinossauro da história da Cidade, o seu berço irreconhecido, maltratado, desrespeitado, ignorado pelos cidadãos da Cidade, aguardando por melhores dias, quando eventualmente haja outro ressurgimento da Baixa da Cidade e uma outra apreciação do seu rico passado.

Que forma terá esse ressurgimento, ninguém sabe.

Uf. Depois disto, vou jantar ao chinês ali na esquina.

Bom fim de semana.

01/10/2010

EM EUROS, SE FACHAVOR

Filed under: Portugal-Moçambique, Sociedade moçambicana — ABM @ 8:45 pm

Uma das entradas da Escola Portuguesa de Moçambique

por ABM (1 de Outubro de 2010)

O Diário de Notícias de Maputo de hoje informou na sua primeira página que, apesar de instruções em contrário, a Escola Portuguesa de Moçambique, situada em Maputo, e frequentada principalmente por alunos portugueses e moçambicanos (cujos pais optaram pelo sistema de ensino português para os seus filhos) continuava a cobrar propinas em euros, em vez de meticais. E basicamente protestou pelo acto de “desobediência” daquela instituição.

O que a peça (não assinada) do DN não indicou, e que pode não ser evidente para quem não vive em Maputo, são duas coisas.

A primeira é que, ao cobrar os seus honorários em euros, isso significa que, especialmente para quem ganha e tem acesso apenas a meticais, o custo de frequentar aquela escola efectivamente duplicou no espaço de um ano.

A segunda, é que, se se ignorar o primeiro ponto, dado o actual contexto do país, não é assim tão fácil como isso arranjar euros para pagar as propinas da escola dos meninos.

Há um elemento adicional que deve ser referido. É que a prática de cobrar em Maputo na moeda europeia não cabe na cabeça de ninguém. É, apenas, meramente, mais uma portuguesada.

Apenas igualado pela portuguesada ainda mais estúpida e absurda, de obrigar os portugueses que residem em Moçambique e que têm o azar de precisar de alguma coisa dos seus serviços consulares (grande cônsul, by the way), de terem que fazer precisamente a mesma coisa.

Não que sejam os únicos que tenham a majestática atitude umbiguista anal-retentiva. Lembro-me que uma vez, por exemplo, que tive que renovar os meus passaportes português e norte-americano em Maputo, há uns tempos. Na embaixada americana, tive que pagar em dólares americanos, e no consulado português, em euros. Quanto aos dólares, ainda vá que não vá, pois havia-os com abundância. Mas ir comprar euros com meticais para pagar o novo passaporte (a um preço absolutamente ultrajante, quer o câmbio quer o custo da emissão do documento) foi um filme, e no fim lembro-me que não tinham o troco em euros para me dar (mas claro!) e em que moeda é que eu recebi o meu troco?

O exmo. Leitor que adivinhe.

Grande país, este Portugal, que, onde quer que esteja, sempre se esforça para tornar o dia-a-dia dos seus cidadãos mais fácil.

Já viram o que é que seria se os nossos hermanos moçambicanos decidissem, só para chatear, instruir a sua embaixada em Lisboa para cobrar os seus emolumentos em meticais, obrigando quem quisesse ir a Moçambique, a ir desencantar meticais em Portugal para comprar um visto?

Já é mais do que altura para endireitar estas coisas.

DEUS AINDA É TAX FREE

Se o exmo Leitor for ao Vaticano e visitar a Capela Sistina e torcer o pescoço até doer, lá em cima num canto vê isto

por ABM (30 de Setembro de 2010)

Há três dias o genial Paul Fauvet, actualmente editor da aparentemente moribunda Agência de Informações de Moçambique (o sítio da AIM na internet parece que pifou, suponho que por falta de pagamento) e decano do jornalismo de era após a Independência, parece que se passou dos carretes e escreveu uma peça que basicamente é uma invectiva dirigida directamente a uma dessas religiões surgidas há relativamente pouco tempo, a Igreja Universal do Reino de Deus.

Mais conhecida como IURD.

Infelizmente, apesar do Paul escrever português tão bem como qualquer outro, o seu artigo chegou-me em inglês e para quem lê a língua, mesmo que seja bad english, está aqui.

Para além de referir en passant que o big boss da IURD (um senhor chamado Edir Macedo) esteve dentro por evasão fiscal e anda a ser investigado por branqueamento de capitais lá na sua base no Brasil, Fauvet acusa a organização de ser sinistra, moral e formalmente corrupta, extorquindo dinheiro de muita gente que quase não tem nada através de “milagres”, com o único objectivo de enriquecer obscenamente a sua hierarquia.

Fauvet rebola-se a contar os detalhes dos tais “milagres” – que refere ser o principal argumento de venda desta organização (considerando-a tudo menos uma organização religiosa legítima) que acusa de serem perigosas e pouco engenhosas fraudes cometidas contra a sociedade, especialmente os milhares e milhares de crédulos que pelos vistos consomem aquilo tudo e ainda pagam o dízimo e mais qualquer coisa.

E ainda por cima não paga impostos.

Fauvet conclui a sua peça expressando a sua indignação por a IURD moçambicana andar agora a “contaminar” a imprensa moçambicana, comprando espaços nas publicações locais, onde vendem escandalosa e impunemente o seu produto, nalguns casos nem sequer colocando o aviso obrigatório de que se trata de nada mais, nada menos, do que publicidade “comercial”.

Ora, antes de mais confesso-me um discreto admirador do Fauvet destes dias (não de quando ele era um entusiástico servidor da Revolução Moçambicana, sobre o qual aliás sei relativamente pouco). A idade realmente fez-lhe bem.

Mas acho que ele está completamente errado.

Por três razões.

A primeira é que, como ele sabe, há leis que regulam estas coisas. E se aparece um tipo que vem do Brasil com umas ideias peregrinas sobre a salvação das almas dos outros que por acaso inclui uma taxa de 10 por cento mais qualquer coisa do salário em troca dum carnaval qualquer – e age dentro do que as leis prescrevem – as coisas são assim. Cada um tem o direito de ter o seu deus e de fazer o que acha certo e moral, por mais estúpido que pareça aos outros. Creio que nesta fase do campeonato já se passou o tempo em que, por exemplo, os católicos, os muçulmanos e os judeus cada um acha que a sua é que é a única e verdadeira religião, em detrimento das outras.

Nestas coisas, o princípio do respeitinho é muito bonito.

A segunda é que -admitamos- visto de fora, isto das novas religiões parece ser um verdadeiro negócio da China, pois, literalmente, a) custa tostões e dá milhões, b) como as pastelarias e os restaurantes, é um negócio onde só circula cash, o que dá para escapar a todos os controlos e mais algum e fazer os maiores truques, de entre os quais a lavagem de dinheiro é o mais corriqueiro c) não paga impostos nenhuns, d) em que milhares acriticamente dão milhões a meia dúzia, que só têm um chefe que está no Brasil, em troca de praticamente nada a não ser umas vagas promessas, e) são protegidos pelas leis que regulam as confissões religiosas, e, se necessário, por advogados de topo pagos a peso de ouro se por acaso houver algum probleminha.

Mas, strictu facto, não é por aqui que se faz ou desfaz uma religião.

Finalmente, discordo (amigavelmente) de Paul porque quase todas as confissões religiosas mais recentes são habitualmente alvo de suspeitas e críticas por parte de sociedades onde tipicamente pontificam religiões solidamente estabelecidas e com uma longa presença, por vezes milenar, elas próprias originalmente estabelecidas frequentemente pelos mesmos métodos, por imposição ditatorial ou pelo fio da espada, todas elas com alguns percursos menos polidos, mas todas elas hoje inquestionáveis e as detentoras da putativa verdade única.

Mais grave, ou talvez não, gostava de salientar que as religiões mais estabelecidas são hoje caracteristicamente mais sóbrias, mais reservadas, menos dadas à procura de novos aderentes.

Surpreende-me vagamente que, tendo eu 50 anos de idade, em todo este tempo a única religião que alguma vez me veio bater à porta para me explicar em que é que acreditava e para ver se me convencia de alguma coisa foram dois jovens mormons americanos brancos loirinhos vestidos de calça preta e camisa branca, com sacolas e umas tabuletas com os nomes deles ao peito, com o ar mais ridículo do mundo, que um dia há já uns bons anos atrás, me vieram bater à porta em Alcoentre City (mesmo assim levaram uma corrida em dois minutos).

Tirando o memorável Padre Oshea (católico e de extracção irlandesa) me ter vindo cumprimentar ao meu quarto na Universidade americana de Brown na minha primeira semana de aulas há quase trinta anos, nunca na minha vida um representante católico, muçulmano ou judeu alguma vez me quis explicar ou convencer de seja o que for. Nunca nenhum sequer me tentou explicar em que é que acreditava.

Ora isto necessariamente tem consequências, especialmente num país tão aberto, dinâmico, problemático e diverso como Moçambique, onde há uma gigantesca percentagem da população (mais de metade tem menos que 25 anos de idade) que não adere à partida a qualquer das religiões mais estabelecidas, e que, logo, se encontra perfeitamente aberta para escutar as mensagens sobre o bem e o mal e a salvação nesta e noutra vida que alguém lhes trouxer.

Se as religiões mais estabelecidas pouco ou nada fizerem para atrair ou sequer falar a língua e procurar entender os problemas específicos desta camada da população, estas pessoas vão olhar para outras escolhas mais disponíveis e inteligíveis.

A meu ver, o sucesso das IURDes deste mundo reflecte em parte o fraco esforço destas religiões de se apresentarem de uma forma eficaz junto destas populações.

E isso a IURD faz, bem ou mal, mas eficazmente, se levianamente, montando uma poderosa máquina de cobranças, que financia novas formas de comunicar, muito mais baratas e eficazes, como a televisão, a rádio, os enormes cinemas que estão às moscas e compram por tuta e meia para aqueles comícios dos milagres.

Aliás a IURD não inventou nada. Quem inventou todo o método e definiu as regras de funcionamento foram os norte-americanos, há muitos anos.

Há um acrescento que considero apropriado referir no caso de Moçambique, que, tirando os minúsculos territórios que os portugueses detiveram no vasto manto indiano, foi o único território onde os portugueses estiveram em que foram (literalmente) obrigados, pela Grã-Bretanha a permitir a diversidade religiosa e a liberdade de culto, ainda no século XIX. É por isso que, quem ler a história desse país, rapidamente constatará que, apesar dos esforços levados a cabo especialmente após a concordata que Salazar celebrou com o Vaticano em 1940, dando alguma primazia à religião católica, Moçambique há muito que tinha no seu território praticantes das religiões protestantes, a Missão Suíça, adventistas, luteranos, anglicanos, muçulmanos (cuja presença milenar especialmente nas costas do que é hoje Moçambique por demais evidente), testemunhas de Jeová e até uma mão cheia de judeus.

Como curiosidade, o grande Henrique Paiva Couceiro (há uma biografia rápida dele feita pelo Vasco Pulido Valente que se recomenda), um dos que passou por Moçambique brevemente nos tempos do Sr Mousinho e do Sr Gungunhana (e que por isso teve direito a nome de rua em Maputo, e a seguir direito a que fosse obliterada no Novo Ordenamento), e que entre outras coisas foi um pródigo Governador de Angola, considerava no primeiro quartel do século passado, que Portugal deveria sumariamente despachar Moçambique (venda, leasing, fosse o que fosse), e isto por duas razões básicas.

A primeira é que ele achava que Portugal não tinha população suficiente para poder possivelmente alguma vez sequer tentar colonizar territórios tão vastos como Angola e Moçambique.

A segunda é que, em termos da diversidade das suas culturas e religiões, ele achava que aquilo (aquilo sendo a então colónia de Moçambique) nunca poderia alguma vez vir a ser português.

Sendo eu quase perfeitamente ateu, sempre apreciei o convívio com essa diversidade religiosa e cultural e o seu valioso património para o País e para as pessoas, trazendo conforto, ajuda, apoio moral e códigos de conduta.

Assim, se de facto a IURD em Moçambique anda a esticar a corda estes dias, como Paul Fauvet postula, acredito que o governo tem todo um conjunto de leis e todo um aparato administrativo para aquilatar eventuais violações a essas leis.

Tirando isso, apenas podemos lamentar perante aquilo que à primeira vista parece ser pouco mais que um esquema de pirâmide marginalmente religioso que, recorrendo à táctica da venda da banha da cobra – os milagres garantidos, as soluções fáceis do “reza e será curado ou recompensado”, explora os mais pobres, os mais expostos, os menos instruídos.

Creio, no entanto, que, dentro das circunstâncias, esta parece ser de facto uma área de enorme potencial para crescimento. E fiquei parvo hoje ao descobrir que, se o exmo. Leitor quiser tirar uns cursos pela internet e começar a sua própria Igreja dos Milagres, há uma excelente alternativa disponível imediatamente, bastando para tal ter um cartão de crédito Visa ou Mastercard à mão. Chama-se Universidade Gospel. Ensina tudo e em português. Mas deve haver muitas mais.

(Hum, será que dava para criar a….Igreja do Maschamba, com Bispo Jpt, Bispa Baronesa, Apóstolo ABM….?)

Portanto, para quem não gostar da IURD, sempre pode começar a estudar e criar a sua própria igreja. Faça os seus próprios milagres, transmita as mensagens que quiser, arranje o seu próprio rebanho- e, naturalmente – faça o seu preço.

Aliás, há uma tal de Igreja Maná cujo dono (bispo? profeta? apóstolo?) chama-se Jorge Tadeu, é um branco de Moçambique, que costumava dar na televisão e que parece que vende daquilo a potes. Do que vi, pareciam estar todos bem felizes da vida.

O negócio de salvar almas é fabuloso, legal e divertido.

E não se esqueça: é também tax-free.

29/09/2010

DIZ-ME QUEM ÉS, DIR-TE-EI A QUEM TELEFONAS

Filed under: Sociedade moçambicana — ABM @ 1:06 am

Ele teria gostado que as coisas fossem assim

por ABM (28 de Setembro de 2010)

A postura de o governo moçambicano ter mandado implementar, num prazo relativamente curto, a obrigatoriedade da identificação dos titulares de todos os chips de telefone móvel que operam em Moçambique (até ao dia 15 de Novembro) é perfeitamente legítima.

Em países como Portugal, que são apenas medianamente repressivos, isso já funciona assim há bastante tempo.

E é legítima, atalhe-se, por todas as razões que têm sido invocadas pelos responsáveis do governo nesta matéria – neste caso o Sr. Director-Geral do Instituto Nacional de Comunicações de Moçambique,  Américo Muchanga (no texto acima referenciado misteriosamente promovido a ministro, como o nosso exmo Leitor Sérgio Braz atentamente apontou, o que agradeço reconhecidamente).

Mas também pelas razões que não invoca – e que não entendo porquê – e que toda a gente e mais alguém sabe perfeitamente quais são: que o governo e o seu aparato de segurança simplesmente adorariam meter as mãos em cima das pessoas que começaram a circular as mensagens por sms incitando a população a manifestar-se no dia 1 de Setembro passado.

Tivessem tido acesso a essa informação, provavelmente a esta hora teria tudo ido dentro.

Logicamente, dizer nesta altura que se está a fazer o registo dos titulares dos cartões de telefone para reprimir quem envie mensagens a incitar à revolta é politicamente incorrecto e se calhar, como em breve vai acontecer com o escape para o ar livre dos gases tóxicos da Mozal, poluíria um pouco o ambiente conciliatório pós-diluviano que se respira de momento.

Portanto o que acontece é que as autoridades fingem que fazem o que estão a fazer porque não é para o que é, e as pessoas fingem que não acreditam que aquilo é para o que é mas para o que se afirma que é.

Há algumas vantagens laterais para este registo em massa.

Uma, é que vai crescer a pressão para as pessoas terem alguma documentação de identificação. Dado que há 5.7 milhões de cartões telefónicos na rua, registar toda esta gente até ao dia 15 de Novembro vai ser uma guerra. Mas acredito que, do ponto de vista administrativo, já devia ter sido feito desde o princípio e é bom para a sociedade.

Mas imagino que no dia 15 de Novembro, se vão desligar os telefones de quem não se registou, vai haver um apagão telefónico.

O outro é que há uma longa e prezada tradição, em Moçambique, de pessoas anónimas enviarem mensagens, elas também anónimas, a ameaçar, a caluniar e a denunciar terceiros, sem nunca assumirem as responsabilidades ou darem a cara.

Talvez com as medidas agora em curso, essa tradição tenha os dias contados.

25/09/2010

A LEI QUE É MAS NÃO É

Filed under: Sociedade moçambicana — ABM @ 3:36 am

Alguém se lembra dos Irmãos Metralha?

por ABM ( 25 de Setembro de 2010)

Ao ler os jornais de Maputo ontem de manhã, vários textos noticiavam algo que me confundiu.

O Canalmoz, do caro Fernando Veloso, referia o seguinte, da pena de Cláudio Saúte:

O director da Unidade Técnica da Reforma Legal (UTREL), Abdul Carimo, assegurou que, depois de se concluir com as últimas rectificações da proposta de Código de conduta dos titulares de cargos públicos,
o mesmo será entregue aos ministérios da Justiça e da Função Pública, que, por seu turno, o vão depositar junto ao Conselho de Ministros e Assembleia da República para apreciação e aprovação.

Trata-se da mais recente investida pública para tentar calar aqueles que clamam que a corrupção grassa no País.
Mas noutros jornais li que afinal já existe há vários anos em Moçambique legislação que manda que os titulares dos principais cargos públicos da República apresentem regularmente declarações de rendimentos e patrimoniais.
A proposta é tímida; sim, todos os titulares dos órgãos de soberania e da administração teriam que apresentar declarações, que depois seriam “depositadas” não sei bem onde (bem, sei: o Conselho Constitucional, Procuradoria Geral da República, Conselho Superior da Magistratura Judicial, que, à porta fechada, veriam…..se tinham sido depositadas.
Numa gaveta.
Fechada.
Em casos de dúvidas, que não se explica como podem ser suscitadas, o órgão depositante poderia pensar maturamente se seria pertinente divulgar os dados depositados – espera-se que atempadamente – pelo titular visado.
Não explica como é que estes órgãos agiriam, e à partida não estou a ver Suas Excelências a vasculhar com ar crítico as declarações de rendimentos e patrimoniais das outras Excelências e a dar-lhes uma fisgada em caso de prevaricação.
Pois.
Só que há aqui umas questões associadas que merecem atenção.
Creio que todo este exercício tem por fim a fiscalização de uma coisa muito simples: se o titular anda a roubar ou não.
Correcto?
E também ocorre porque o que toda a gente e mais alguém se farta de dizer à boca cheia é que Moçambique é um paraíso de corrupção.
É o que toda a gente diz.
Sem nunca, jamais, se apontar um nome, aparte do ocasional cordeiro em desfavor que é crucificado na praça pública.
Ora, aqui parece que há um sério problema de credibilidade sistémica.
A corrupção é ligeiramente diferente da ladroagem.
É mais discreta na maior parte dos casos. É menos óbvia para quem não percebe nada do assunto e não sabe onde procurar. É mais planeada e muito mais sofisticada do que meramente assaltar o único banco da esquina.
Mas no essencial é relativamente fácil de detectar. Quanto ganha o titular x por mês? que património tinha no momento y e mais tarde (digamos um ou dois anos) no momento z? depois é investigar.
Ora se uma pessoa tem um rendimento digamos de dois mil dólares por mês e um carro e uma casa, e três anos depois é accionista de um banco, de uma companhia telefónica e de cinco empresas, e tem no banco quinhentos mil dólares, pode-se mais ou menos assumir que essa pessoa andou a roubar no negócio da corrupção, enquanto era titular de um cargo público qualquer.
Não?
Mas se se passar uma lei, quando já há uma que não é acatada, para obter informações de rendimentos e patrimoniais de servidores do Estado que depois vão parar à gaveta fechada de uma entidade cujo papel parece ser manter a gaveta fechada, então onde está a transparência?
Não está em parte nenhuma, porque não existirá nenhuma transparência.
E sem transparência, podem-se fazer os discursos todos no mundo sobre combate à corrupção, sobre integridade, sobre o fim das elites corruptas, pois tudo isso é perder tempo, pura e simplesmente.
Neste jogo, ninguém engana ninguém.
É mais uma questão de quem está calado e quem não está.
Quem liga, ou não liga.
Quem acha que é importante, e quem acha que não é.

24/09/2010

FUME CIGARROS MOZAL KING SIZE SEM FILTRO

Por ABM (24 de Setembro de 2010)

Por entre as repercussões trazidas pelos problemas havidos em Maputo e arredores há três semanas, algo não mudou: a autorização dada para que a Mozal possa emitir gases tóxicos em quantidades industriais sobre a população da metrópole moçambicana durante seis meses a partir do final deste ano.

No entanto, o debate persiste. De Angola, surpreendentemente, vem este texto, publicado ontem pela Angop e enviado de Maputo:

Os moçambicanos residentes perto da multinacional Mozal, arredores de Maputo, fábrica que a partir de Novembro vai emitir fumos directamente para a atmosfera, poderão ter problemas neurológicos e cancerígenos, garante um estudo sul-africano.

Em Abril, a multinacional de alumínios maioritariamente detida pela australiana BHP Billiton e responsável por mais de 50 por cento das exportações nacionais, Mozal, solicitou ao Ministério da Coordenação da Acção Ambiental (MICOA) uma licença especial para emitir fumos directamente para a atmosfera (“bypass”) durante seis meses.

O Governo autorizou a emissão de fumos mediante estudos que, segundo o MICOA, “envolveram peritos e estudantes da Universidade Eduardo Mondlane”. Os estudos, no entanto, têm sido fortemente contestados pela coligação de organizações ambientalistas.

Em Julho, a Mozal realizou três encontros públicos com elementos do Governo, sociedade civil e jornalistas para explicar o processo, tendo o seu presidente, Michael Fraser, garantindo que o “bypass” (necessário para a reparação dos centros de tratamento de fumos) traria “dano zero” aos trabalhadores, comunidade e ambiente natural envolvente.

Na ocasião, também o consultor ambientalista da Mozal explicou à imprensa que as emissões teriam “um nível de concentração de poluentes muito abaixo do que a Organização Mundial da Saúde (OMS) impõe”.

Porém, um estudo realizado pela organização não governamental GroundWork, em parceria com a moçambicana Justiça Ambiental (JA!), e apresentado publicamente hoje, em Maputo (durante um encontro promovido pela coligação de ambientalistas), diz que há “elevados problemas” na área circundante à Mozal.

A análise foi feita em Julho, em três zonas da Matola (no centro da Matola, nas zonas da Mozal e da fábrica Cimentos de Moçambique), a partir da medição da qualidade do ar no período da noite, durante cinco dias, ao longo de três semanas.

Nesse período de tempo, os investigadores verificaram concentrações médias diárias que variavam entre os 31,61 e os 110,61 microgramas de partículas finas por metro cúbico de ar, quando o limite diário estabelecido internacionalmente é de 25 microgramas por metro cúbico.

“A quantidade de poluição no ar é acima da média aceitável”, sublinhou o epidemiologista ambiental e colaborador da GroundWork, Rico Euripidou, acrescentando que perante tais resultados “ficaria muito preocupado”.

O responsável exemplificou que se “houver rastos de metais, como chumbo e mercúrio, ligados às partículas de ar (respiradas pelos habitantes), poderá haver problemas sérios de saúde”, nomeadamente “neurológicos” e “cancro”.

Segundo o epidemiologista, as poeiras encontradas nas amostras afectam particularmente “o desenvolvimento normal das crianças e as mulheres grávidas, sobretudo do feto, que pode sofrer danos para sempre”.

Para Rico Euripidou, falta “igualdade” no processo, dada a inexistência de um fórum onde a sociedade civil partilhe experiências e preocupações com o Governo, como acontece na vizinha África do Sul, onde, em 2004, a BHP Billiton realizou um “bypass” de 72 horas, tendo alertado a população para os possíveis problemas respiratórios.

Apesar de ter sido realizado no âmbito de outro projecto, e não em particular para a Mozal, a JA! vai usar os dados, “os únicos que tem”, e admite a hipótese de entregá-los ao MICOA.

Ou seja, a acreditar nestes dados (e eu acredito), e para variar, a BHP Billiton está a fazer em Moçambique precisamente o que nunca lhe deixariam (nem deixaram) fazer na África do Sul e que, quando construíram a fábrica na Matola, com fanfarra e muita promessa, disseram na altura que jamais fariam: poluir e tornar Moçambique no caixote de lixo tóxico das grandes multinacionais.

09/09/2010

REFLEXÕES SOBRE OS EVENTOS DE 1 DE SETEMBRO

Filed under: Desporto, Mia Couto, Sociedade moçambicana — ABM @ 11:19 pm

por ABM (9 de Setembro de 2010)

Estes dias têm sido mais para ler que para comentar. Eis dois testemunhos, um por alguém que conheço, outro não.

Já o economista moçambicano Dr. João Mosca foi mais duro, enquanto o CIP (liderado por Marcelo Mosse) acusou.

Em Portugal, alguma distracção esta noite com a “resolução” do contrato de Carlos Queiroz, curtamente anunciado pelo incomparável Gilberto Madaíl antes da hora do jantar.

07/09/2010

CASA ASSALTADA, TRANCAS NA PORTA

Filed under: Economia de Moçambique, Sociedade moçambicana — ABM @ 9:58 pm

por ABM (7 de Setembro de 2010)

Após os eventos da semana passada em Maputo, e uns dias de acções de bastidores, o governo moçambicano reagiu a meio da tarde de hoje.

Segundo o jornal o País, difundido a partir de Maputo, as medidas anunciadas foram (cito, com agradecimentos ao V e ao C):

1.
a) Retirar o aumento anunciado na tarifa de energia para os consumidores de escalão social dos consumos mensais até 100 kwh.
b) Reduzir o aumento anunciado da tarifa de energia dos consumidores do escalão doméstico cujo consumo mensal se situa entre 100 e 300 Kwh, de 13.4% para 7%.
c) Eliminar a dupla cobrança da taxa de lixo nas facturas de energia para os consumidores do sistema pré-pago (Credelec).
d) Continuar com a facilitação das novas ligações de energia para as famílias nas zonas periféricas das cidades, pagando a taxa promocional de 875 Mt e em prestações, sempre que for necessário.
e) Reduzir o valor da taxa de ligação domiciliária de água dos actuais 4 mil MT para 2 mil MT, com possibilidade de pagamento em prestações.
f) Manter inalterada a tarifa de água de 150 MT/ Mês para os consumidores até 5 metros cúbicos, equivalentes a 5 mil litros.
g) Manter o preço anterior do pão através da introdução de subsídio.
h) Manter as medidas fiscais em curso para a batata, tomate, cebola e ovos, nomeadamente, o estabelecimento de preços de referência abaixo dos reais para cobrança de direitos aduaneiros e IVA.
i) Baixar o preço do arroz (3ª. Qualidade) em 7.5%, diferindo os direitos aduaneiros sobre este produto.
j) Suspender temporáriamente a sobretaxa de importação do açúcar.
k) Congelar o aumento dos salários e subsídios dos dirigentes superiores do Estado até que o Governo conclua a avaliação em curso.
l) Congelar o aumento dos salários e subsídios dos membros dos Conselhos de Administração das Empresas Públicas e das empresas maioritariamente participadas pelo Estado, devendo os salários serem pagos em moeda nacional, até que o Governo conclua a avaliação em curso.
m) Negociar margens de comercialização para os produtos abrangidos por estas medidas
n) Promover o consumo do pão que adicione a farinha de mandioca com vista a baixar os custos de produção e o preço ao consumidor final.

2. As medidas de congelamento dos aumentos salariais indicadas têm em vista obter poupanças para posterior reorientação para o subsídios necessários. Outrossim, as medidas de carácter fiscal deverão ser assumidas como transitórias (até Dezembro de 2010), tendo em conta a sua insustentabilidade no médio e longo prazo, condicionada pela evolução da conjuntura internacional.

MEDIDAS DE ÂMBITO MACROECONÓMICO

Para garantir a sustentabilidade das medidas tomadas, o Governo decidiu, igualmente, acelerar a implementação das acções na esfera macroeconómica, nomeadamente:

a) Conter as despesas públicas tendo em vista a realização de poupança para posterior reorientação para o subsídio do custo dos produtos essenciais, através da racionalização da despesa corrente, em particular nas rubricas de:
· Passagens aérea (redução de viagens dentro e fora do pais e redefinição do direito do uso da classe executiva), ajudas de custo, combustíveis, lubrificantes e comunicações;
· A não libertação do cativo obrigatório da rubrica dos bens e serviços.
b) Não aprovação de reforços orçamentais, sem contrapartida.
c) Não criação de novas instituições que acarretem custos adicionais para o Orçamento do Estado.
d) Reforço de medidas tendentes a estabilização do Metical.
e) Disciplinar a actividade bancária intensificando as inspecções junto às instituições financeiras.
f) Reforçar o mecanismo de monitoria de entrada e saídas de divisas no País.
g) Reforçar a obrigatoriedade de fixação, facturação e pagamento das despesas em moeda nacional, o que também, concorre para a preservação e valorização do Metical.
h) Reforçar as acções inspectivas de colocação de preços dos produtos nos estabelecimentos comerciais.represente cerca de metade da tarifa doméstica normal.
j) Prosseguir com a intensificação do uso do quadrolec, facilitando a ligação de energia para beneficiar as famílias de baixa de renda, vivendo em casas não convencionais.
k) Privilegiar os consumidores de baixa de renda nas revisões da tarifa de água.
l) Manter e assegurar os subsídios aos transportes urbanos de passageiros.
m) Analisar a estrutura dos produtos importados para atender os rendimentos de diferentes camadas sociais.

A julgar por alguns comentários feitos no sítio do jornal o País, a reacção parece ser cautelosa.

Da leitura das medidas agora adoptadas, ocorrem algumas ilacções:

1. O seu impacto nas causas apontadas mais óbvias para o que aconteceu a semana passada, que é imediato;

2. Claramente, se por um lado facilitou-se a vida a algumas camadas urbanas mais desfavorecidas, por outro lado inaugurou-se agora uma era de maior austeridade a vários níveis. Não vai ser um regresso aos tempos do carapau e ao repolho, mas ficou provado que como as coisas estavam não podia continuar.

3. As medidas agora aprovadas apenas compram tempo ao governo, que vai ter que tomar medidas de fundo, sem torpedear demasiado as regras do mercado. Não vai ser fácil.

4. Muitas das medidas reflectem bom senso e boas intenções. Mas não se entende bem como serão feitos os débitos e os créditos nalguns casos, nem quem vai pagar a despesa adicional implícita nos subsídios. O comunicado sugere que no fim do dia os débitos serão iguais aos créditos mas ao mesmo tempo reconhece explicitamente a sua insustentabilidade a prazo (daí muitas das medidas serem transitórias até ao final do ano).

5. De uma assentada, e por um tempo, aquilo que chamam urban politics tomou conta da agenda nacional moçambicana. Quase todas as medidas anunciadas destinam-se exclusivamente a abranger quem vive nas cidades e arredores, com óbvio enfoque nos consumidores com rendimentos mais baixos (no contexto urbano, claro).

6. Tornou-se ainda mais óbvio agora ser caro, politicamente arriscado e um contra-senso não haver mais produção nacional de comida. Alguém que dê 300 mil hectares de terrenos a uns brasileiros, a uns americanos ou a uns canadianos, com uns jovens moçambicanos ao lado para aprender, e pôr aquilo a produzir coisas básicas como tomate, milho, ovos, cebola, mandioca, etc. Por haver uma crise internacional as pessoas não podem deixar de comer.

Numa nota final, e para se entender o clima que ainda se faz sentir na capital, reporta hoje a jornalista Marta Cruz de Maputo (do jornal lisboeta Sol) que “desde ontem que a Mcel e a Vodacom, as duas únicas operadoras de telefones móveis em Moçambique, não permitem o uso da funcionalidade de mensagens escritas (sms). De recordar que este era o principal meio de comunicação dos manifestantes nos protestos da semana passada”. Suspeito que a suspensão deste serviço por parte das empresas de comunicações terá sido ordenada pelo governo.

Just in case.

MOÇAMBIQUE SEGUNDO A CENTRAL INTELLIGENCE AGENCY

por ABM (7 de Setembro de 2010)

O maschambeiro honoris causa Carlos Gil chamou a atenção (que se agradece) para a existência, no sítio da norte americana CIA, de uma colecção de estatísticas sobre Moçambique, contendo as informações disponíveis mais recentes, que incluem alguns factos exóticos e interessantes mas que na globalidade ajudam a dar uma ideia do que é mais ou menos a realidade do país estes dias e que têm a virtude de estarem quantificados.

Sendo um conjunto interessante de ler, traduzi as partes mais interessantes, que se seguem abaixo, podendo o exmo. Leitor se quiser consultar aqui as mesmas no original em língua inglesa.

O que mais impressiona? quase tudo impressiona, mas destaco alguns dados:

1. o aumento dramático da população em 35 anos
2. O facto de que, dos cerca de 22 milhões de moçambicanos vivos hoje, mais de metade nasceram depois de 1990, ou seja, cerca de 80% dos moçambicanos de hoje não estavam vivos em 1975
3. a pobreza e o considerável desequilíbrio nos rendimentos
4. o tamanho reduzido da economia
5. a incidência da sida
7. a prevalência quase esmagadora da agricultura de subsistência como actividade da vasta maioria da população
8. a reduzida dimensão agricultura que, como actividade comercial, ocupa uns meros 0.3% do território e cerca de 1/18 do terrenos aptos para a agricultura, mas que ocupa 80% dos adultos, produzindo um terço da riqueza nacional
9. o facto de que em média cada moçambicana tem mais que cinco filhos
10. que menos de 0,3% da população não é negra (pensava que seria um pouco mais)
11. que a esperança média de vida seja tão baixa
12. a elevada taxa de urbanização

O que vai tornar os próximos vinte anos muito interessantes.

Então aqui seguem os dados:

1. É o 35º maior país do mundo em termos de área total, mais ou menos duas vezes o tamanho da Califórnia, cerca de 8 vezes a área de Portugal
2. Tem 4.571 kms de fronteiras terrestres
3. Maior fronteira – Malawi com 1.571 kms
4. 2ª maior fronteira – Zimbabué com 1.231 kms
5. Fronteira mais curta – Suazilândia com 105 kms
6. 2.470 kms de costa marítima
7. ponto mais alto – Monte Binga, 2.436 metros
8. Terreno cultivável: 5.4% do território
9. Terreno cultivado: 0.3% do território
10. População 2010 estimada: 21.7 milhões
11. população, por pirâmide etária:
a. 0-14 anos de idade – 44%
b. 15-62 anos – 53%
c. acima de 62 anos – 3%
12. Idade Mediana (50% da população acima, 50% população abaixo): 17.5 anos
13. taxa de crescimento anual da população – 1.8%
14. taxa de natalidade: 38 nascimentos por 1.000 pessoas (23º no mundo)
15. taxa de mortalidade: 20 mortes por cada 1000 pessoas (5º no mundo)
16. Percentagem da população considerada urbana: 37%
17. Taxa de urbanização: 4.1% ao ano
18. Mortalidade infantil: 106 mortes por cada mil nascimentos (7º no mundo)
19. expectativa de vida média (em anos) 42 para homens, 40.5 para mulheres (221º no mundo)
20. Rácio de fertilidade médio da população: 5.13 crianças por cada mulher
21. Prevalência de Sida na população: taxa de 12.5% (8º maior no mundo)
22. Nº de pessoas com Sida: 1.5 milhões (5º mais alto do mundo)
23. Raças na população:
a. negra – 99.66%
b. “euro-africanos” (mulatos?) – 0.2%
c. indianos 0.08%
d. brancos – 0.06%
24. Religiões:
a. católicos – 24%
b. muçulmanos – 18%
c. cristão sionista – 18%
d. outras – 18%
e. nenhuma – 23%
25. Línguas mais faladas
a. Macua – 26%
b. Changana – 13%
c. Português – 9% (27% fala como 2ª língua)
d. Elomwe – 8%
e. Cisena – 7%
f. Chuabo – 6%
g. Outras línguas – 32%
26. % de pessoas com mais de 15 anos de idade que sabem ler e escrever – 48% da população (64% dos homens, 33% nas mulheres)
27. do eleitorado que votou, % que votou em Armando Guebuza nas últimas eleições – 76.3%
28. do eleitorado que votou, % que votou Frelimo nas últimas eleições – 74.7%
29. PIB (base purchasing power parity) 2009 estimado – 20 mil milhões USD (122º no mundo)
30. PIB por pessoa – 900 dólares/ano (217º no mundo)
31. Composição do PIB:
a. Agricultura – 29%
b. Indústria – 25%
c. Serviços – 45%
32. População em idade de trabalhar: 9.8 milhões
33. Sectores em que população em 32 acima trabalha:
a. Agricultura – 81%
b. Indústria – 6%
c. Serviços – 13%
34. Taxa estimada de desemprego – 21%
35. % da população abaixo do nível da pobreza (2001) – 70%
36. % do rendimento por escalões da população:
a. os 10% mais ricos detêm 39% do rendimento nacional
b. os 10% mais pobres detêm 2% do rendimento nacional
37. Orçamento do governo (2009)
a. Despesas – 2.800 milhões de USD
b. Receitas – 2.300 milhões USD
38. dívida pública : 3.7% do PIB (2008)
39. Electricidade (2007):
a. Produção – 16 mil milhões de KW
b. Consumo – 10 mil milhões de KW
c. Exportação – 12 mil milhões de KW
d. Importação – 8 mil milhões de KW
40. Consumo de petróleo – 18 mil barris por dia
41. Gás natural (2008):
a. Produção – 3.3 mil milhões de m3
b. Exportação – 3.2 mil milhõs de m3
c. Consumo – 100 milhões m3
42. Exportações (2009 est) – 2.000 milhões USD
43. Importações (2009 est) – 3.100 milhões USD
44. Dívida externa (31.12.2009) – 4.160 milhões USD
45. Nº telefones fixos – 80 mil
46. Nº telefones móveis – 4.5 milhões
47. nº de utilizadores de internet (2008) – 350 mil
48. Nº de aeroportos
a. Pavimentados – 23
b. Não pavimentados – 83
49. kms de linha férrea – 4.800 kms
50. kms de estrada
a. pavimentada – 5.685 kms
b. não pavimentada – 24.715 kms
51. Melhor blogue a seguir sobre o país – o Maschamba

Aos moçambicanos, desejo um bom feriado.

THE BEST OF MAPUTO RIOT ANALYSIS*

Filed under: Sociedade moçambicana — ABM @ 12:50 am

Nos bons velhos tempos era tudo família

por ABM (7 de Setembro de 2010)

O clima de terror e de violência mais ou menos generalizada que se viveram na área metropolitana de Maputo na passada semana têm sido alvo das mais variadas análises e reflexões.

A que aqui na Casa não se escapou, como se calhar não poderia ser de outra forma.

Quem não sente não é boa gente.

Ainda é cedo para se contextualizar o sucedido e se calhar vai levar algum tempo antes que surjam estudos mais aprofundados sobre os eventos. Nesta data ainda aparecem dados novos, como a contabilização dos mortos (ontem de manhã o governo moçambicano já mencionava serem 13), um algo elevado número de presos, o anúncio pelo governo que, no que concerne aos preços, agira em conformidade com as exigências do FMI.

No essencial, para já, parece-me haver duas visões diametralmente opostas em jogo aqui: a) que a violência que se viu era injustificada, ilegal e predadora; b) que se justificava face ao impacto significativo dos aumentos nos preços de alguns bens de consumo.

É aparente, e creio que ainda está por resolver, a percepção de que se consumou um divórcio entre o Poder e a parte mais frágil do Povo.

Entre a nomeclatura no poder, e os que não estão no poder.

Ou entre as classes mais abastadas, e as menos abastadas.

Talvez.

E a partir daí cada um disparou para o seu lado.

De longe, o texto mais alucinante der ler se calhar foi publicado este domingo passado no jornal britânico The Observer, assinado por um tal de Raj Patel e que pode ser lido premindo aqui.

E que logo no título (que se calhar o Raj não inventou) aponta o aquecimento global como responsável primário pela violência em Maputo. O quê? lendo o texto e uma argumentação algo tortuosa, consegue-se vagamente apreender onde é que o Raj está a tentar chegar. Mas fico com a impressão que o Raj se trespassou da cabeça. Rapidamente, a culpa passa do aquecimento global para a globalização económica, especialmente no que toca ao comércio de produtos alimentares. E conclui referindo que, em última análise, afinal a rebelião era mais generalizada e política, citando Alice Mabote e Diamantino Nhampossa.

Uma interessante e vasta teoria da conspiração, em que as pessoas não são pessoas. São peões do Destino.

A segunda análise no topo do surrealismo analítico afinal estava aqui na Casa, profundamente escondida num texto prenho de ligações pelo nosso Senador. Na sua excelente Adenda sobre os moralismos que falam, se o exmo leitor clicar o nome de Henrique Fialho, vai ter ao blogue onde ele escreve, e em que ele cita esta jóia da análise sócio-política, que, lá, remete para nada menos que aqui.

Quando vi a imagem familiar da mulher de cuecas e com cara de cão sentada numa estufa cheia de flores, pensei logo: “hum, mas onde é que eu já vi isto?”

Logo me lembrei, claro.

Então afinal o que pensa o arauto da literatura de cariz biográfico colonial pós-colonial moçambicano (Pitta dixit) sobre a recente violência em Maputo?

O seu comentário, ao contrário do longo solilóquio do Raj, é muito mais curto, mas não o suficiente para demonstrar que a distância entre Almada e partes de Maputo é maior que a geográfica: é à escala cósmica.

Em Almada, que fica, como diria Vicotr Hugo, à láutre coté du pont (de Cascais City vêm-se as luzes a cintilar à noite), reputa-se que residem muitos daqueles que votam ligeira ou substancialmente à esquerda do partido do eng. José Sócrates.

Aqueles que acham que tudo deve ser nivelado, partilhado, cobrando impostos aqui e gastando-os ali.

Os que agora andam aos gritos a clamar por mais Estado social.

Aqueles para quem ser rico, ou mais abastado, é um insulto aos que não têm.

Para quem a economia de mercado é sinónimo de uma luta de classes em que os menos abonados têm necessariamente que ser apoiados pelo Estado.

Para quem a promessa da República Socialista é principalmente o algo em troco de nada.

E vai daí, lêem algumas notícias do que se passa em Maputo e dizem o quê?

Esta nossa amiga, que, da última vez que olhei, recordo ter dito (ou foi o editor?) que lá nasceu e que “regressou” a Portugal e nunca mais meteu os pés desde que o pai lhe meteu num avião da Tap em 1975 one way com destino a Lisboa, em resposta ao que aconteceu, sugere que os ricos de Moçambique que paguem a crise.

Pagando mais impostos sobre as viaturas todo-o-terreno, as habitações que adquirem e outros “artigos de luxo” (não indica quais).

Para subsidiar o pão, a electricidade e a água aos menos abonados.

O nosso Senador creio que mais ou menos aludiu à questão: é por demais aparente que a Sra nem sequer suspeita do que é viver em Moçambique hoje. Que impostos se pagam, o que o governo faz e não faz, quais são as contas do orçamento do Estado moçambicano, quais os seus constrangimentos, quem e quantos são os “ricos.

E quantos são os pobres.

De facto, nem sei como a nossa insigne não foi mais longe. Tal como ela descreveu no seu recente bestseller que teria sido justiça poética matarem-se os brancos que por lá estavam no rescaldo do 7 de Setembro de 1974 (não a celebração dos Acordos de Lusaka, agora um feriado nacional a que se já dá o título de Dia da Vitória, mas os dias em que a capital ficou envolvida em violência e morreram centenas de pessoas), não seria de esperar dela defender aplicar-se a mesma justiça poética aos colonos (agora pretos) de hoje? esses ricos de 4×4 e com casarão na Sommerschield?

Decorre do raciocínio, não é? resolver tudo à porrada. Fazer um 25 de Abril em Moçambique.

Afinal, segundo dados de 2003, os 10% economicamente no topo da população moçambicana detinham 40% da riqueza nacional, enquanto que os 10% mais pobres detinham apenas 2.1%

Pois. Mandar postas de bacalhau à distância é fácil.

Há cento e cinquenta anos, Henry David Thoreau escreveu um relativamente curto ensaio sobre o direito, a obrigação dos cidadãos se revoltarem contra os governos na medida em que estes os reprimiam para agir contra o seu interesse. Apesar de autenticamente americano, tem um cariz universal e inspirou líderes como Ghandi, Martin Luther King, Jr e outros.

Talvez nesta altura de protestos e repressão seja interessante ler Sobre a Desobediência Civil. Para quem quiser ler está aqui. Em língua portuguesa.

E entretanto esperar e deixar os moçambicanos resolverem os seus problemas como acharem melhor.

Também foi para isso que lutaram para ser independentes.

* O melhor das análises dos distúrbios de Maputo.

09/03/2010

A NOVA MAPUTO DOS RICOS

Filed under: A nova Maputo dos Ricos, A nova Maputo dos ricos, Maputo — ABM @ 10:59 am

por ABM (9 de Março de 2010)

Se alguém tiver dúvidas quanto à pobreza ou riqueza, à ambição ou negociatas, ou ainda à sul-africanização, ou melhor, a Joanesburguização ou Durbanização da cidade de Maputo, observe apenas as visualizações, em baixo, do que se planeia (mais ou menos) para a marginal e os terrenos da defunta Feira Agrícola, Comercial e Industrial de Moçambique (FACIM) cuja pertença ignoro.

As maquetes foram-me enviadas pelo amigo do amigo do amigo. O que, se não me engano, significa que a esta hora metade de Maputo e arredores já as viu.

Longe de mim questionar o progresso e o crescimento da cidade, que não se soube libertar a tempo de ficar ensanduichada nos anos 60 e 70 pelos terrenos circundantes difíceis, pelo desafio de rasgar auto-estradas para Norte e uma ponte para Sul (a atempada libertação da longa noite colonial não deu tempo para isso, presume-se, e a pancadaria que veio a seguir também não deu tempo para mais).

Mas fazer ali uma espécie de Bairro da Coop 2 em estilo Noveau Sandton em frente à nesga da Baía é, enfim, algo menos do que eu esperava.

Eu sei que, ao preço que comanda o metro quadrado de terreno e de construção na cidade, surpreende-me que não apareça algum a fazer uma torre de 110 andares como aquelas no Dubai. É negócio, se calhar bom negócio, e se houver quem pague isto tudo, ainda melhor.

As minhas dúvidas existenciais, aliás, são outras. Fazer prédios ali se calhar até é a parte fácil. Mais duvidoso é saber como vai ser com coisas mais mundanas, tais como a infra-estrutura de água, electricidade e esgotos necessárias para suportar este projecto. Não havendo caves (a quota de água ali é elevada) onde vão parar os carros todos, e se os esgotos vão cair todos directamente na Baía ou se o projecto inclui a colocação de uma estação de tratamento de resíduos para a cidade. Finalmente, impermeabilizando-se uma área tão sensível e com uma enorme barreira atrás a qual não tem qualquer sistema formal de escoamento de águas pluviais, para onde é que vão escoar as águas quando cair uma daquelas chuvas a à antiga sobre Maputo?

Isto para não mencionar o facto elementar que aqueles terrenos não são terrenos normais: há cem anos, foram aterros feitos sobre uma praia, ou seja, não são à partida os melhores para se construirem sobre eles dezenas de prédios (razão pela qual nada se construiu ali durante mais que sessenta anos e aquilo era um parque verde da cidade, para quem não se lembra, com eucaliptos para suporte e drenagem). Na eventualidade de um tremor de terra mais estranho, as construções aí correrão o risco decorrente da liquefacção dos terrenos.

Já o referi antes e não sou o primeiro a dizê-lo: acho que é altura de se fazer uma ponte para a Catembe e expandir a cidade para Sul. E uma auto-estrada para Norte

E começar a pensar nos investimentos em infra-estrutura de base.

E em reabilitar e manter o que já existe.

E criar mais parques e zonas verdes para a cidade.

Mas isto é só uma opinião minha.

23/02/2010

VOLANTE À DIREITA EM MOÇAMBIQUE

Jorge Vara exibe o seu primeiro carro em Lourenço Marques, 1 de Setembro de 1938

por ABM (23 de Fevereiro de 2010)

Tendo crescido em Moçambique, como toda a gente ali, habituei-me a viajar em automóveis com volante à direita e com o trânsito pela esquerda.

Uns anos mais tarde, descobri que a maior parte do resto do mundo, incluindo na “metrópole” (Portugal) se conduzia pelo lado direito da estrada. O que era curioso mas nada de especial.

Em 1978, por dez dólares e com a ajuda do pai BM, que me deu umas lições básicas, tirei a minha carta de condução nos Estados Unidos da América, onde vivia, e onde se conduzia pela direita, as ruas eram largas e bem sinalizadas e as regras muito simples.

Nunca tive problemas nenhuns até voltar a Moçambique na segunda metade dos anos 90 e me sentei pela primeira vez a conduzir pela esquerda. O problema era com os meus reflexos: quando vinha de férias ou de serviço a Portugal, por mais que uma vez, sem pensar duas vezes, quando dava por mim estava a conduzir  no lado esquerdo da estrada, para desespero dos sempre tão corteses motoristas portugueses, que aproveitavam logo para fazer comentários à minha ascendência feminina em termos pouco laudatórios.

Como passageiro, ainda hoje quando estou mais distraído, é comum, querendo eu entrar num carro quando estou fora de Moçambique, dirigir-me para o lado…do condutor.

Porque é que se conduz em Moçambique pelo lado esquerdo? a resposta é fácil: porque se conduzia à esquerda em todos os países com que faz fronteira, cujas regras de condução derivam dos padrões estabelecidos pela Grã-Bretanha.

Em Portugal europeu conduzia-se pelo lado esquerdo da estrada. Segundo um interessantíssimo historial deste tema num blogue brasileiro, foram os franceses no tempo da sua revolução que inventaram o padrão da condução pelo lado direito das estradas, cerca de 1794. Como a seguir invadiram quase tudo à sua volta, levaram essa regra com eles.

Depois das guerras napoleónicas, a regra da condução pela esquerda na Europa permaneceu nos países que mais resistiram a tirania francesa; o Reino Unido, o império austro-húngaro e … Portugal.

Claro que ajudou que na realidade, para ajudar os portugueses a organizarem-se contra os franceses, a Inglaterra naquela altura praticamente ocupou Portugal, o que durou uns largos anos.

E o costume ficou.

Foi só após a primeira república ter caído de podre e ter sido instaurada a Ditadura (na altura só, e com “D” maiúsculo, Salazar sendo ainda uma incógnita), é que, de uma assentada, tudo mudou. Em meados de 1928, um ano após criada a Junta Autónoma de Estradas, foi legislado o primeiro código da estrada português e, pelo decreto n.º 18.406, de 31 de Maio de 1928, estabalecida a circulação pela direita nas estradas. Até então, a circulação automóvel em Portugal e nas suas colónias era feita pela esquerda, copiando a prática britânica.

Assim, a partir das 5 horas da manhã de 1 de Junho de 1928 em Lisboa, e à meia noite no resto de Portugal continental, para os cerca de 31 mil condutores com carta de condução e cerca de 28.000 automóveis então existentes, passou a ser obrigatória a circulação rodoviária pelo lado direito das estradas. O mesmo aconteceu na Guiné, em Angola e Timor e, presume-se, na Fortaleza de São João Baptista de Ajudá.

Mas em Macau, Goa e Moçambique, tendo em atenção as suas situações específicas, manteve-se a condução pelo lado esquerdo das estradas.

Em Timor, a condução passou a ser feita pela direita em Junho de 1928. Mas em 1975, na sequência da anexação de Timor pela Indonésia, o sentido da condução foi alterado para o lado esquerdo. E assim ficou até hoje.

10/01/2010

THE BEST OF ISABELA FIGUEIREDO

o horizonte nos contempla

por ABM (Alcoentre, 9 de Janeiro de 2010)

Fernanda Câncio, a putativa (segundo certa imprensa) namorada do actual primeiro-ministro português, José Sócrates, e fogosa escriba num Diário de Notícias infelizmente cada vez menos de referência, escreveu um curioso texto – que saiu na sua edição de hoje – sobre uma sra chamada Isabela, que, depreendo da leitura, como muitos de nós saiu um pouco a pontapé do Moçambique pós- independente e revolucionário aos 12 anos de idade, e sobre um livrinho que ela escreveu e que acabou de ser publicado, que dá pelo nome algo enigmático de Caderno de Memórias Coloniais.

Que não li.

Mas li o comentário de Câncio, que sempre vale alguma coisa e que me deixou algo mistificado.

Vamos por partes.

Deixou-me algo mistificado porque a Fernanda que, como já vi outras pessoas dizer noutras ocasiões, deve perceber tanto da realidade colonial como eu de física nuclear, começa por colocar legiões de “retornados” num vasto manicómio virtual, todos mentirosos e todos vivendo numa ilusão colectivamente induzida com o fito de não enfrentar uma inconfessável série de “crimes contra a Humanidade”, que, lá vai o argumento, só pode ser o que (no meu caso) os nossos pais e avós andaram todos lá pelas Áfricas durante séculos a cometer contra os nativos. Voluntária e até empenhadamente e, no caso do pai da Isabela, com requintes de malvadez.

Isso a acrescentar àquela outra Grande Ilusão Colectiva dos brancos e portugueses da África portuguesa (nunca os de cá, coitados) claro, a de que aquilo era “nosso”. Que se sabia perfeitamente que não era, especialmente a posteriori.

Bem, todos – especifique-se – menos a sua amiga Isabela.

No seu caso, Fernanda diz que a Isabela baseou os Cadernos nos seus escritos, alguns dos quais foi colocando num blogue de que nunca ouvi falar antes na minha vida, que alimenta regularmente e que se chama – algo deceptivamente – Mundo Perfeito. Bem, não pode ser assim tão perfeito como isso, se a imagem de cabeçalho que a Isabela escolheu para a porta do seu blogue é um corpo de mulher de cuecas e com cabeça de cão, sentada numa estufa com flores. É uma invocação que diz muito. Para mim uma alegoria de um mundo perfeito ( aquilo a que Sir Thomas More chamou em tempos de Utopia )podia ser a fotografia acima – mais ou menos. E ainda tem à porta da estufa retinintes e polidos avisos sobre os seus direitos de autora, que, na minha experiência na internet, são ah tão simpáticos como não valem um caracol furado. Neste meio a ofensa não se combate com avisos, combate-se com unhas e dentes.

Ou ignora-se.

Ora eis algo que não me ocorrera antes, isto de ter um blogue na internet, onde vou escrevinhando umas coisinhas e um belo dia, imagino que para aqueles que não têm internet, arranjo uma editora e escarrapacho tudo outra vez numa publicação, à laia de The Best of The Delagoa Bay Review. Bem, sempre tira a impressão fungível e a desconfortável sensação de estar sózinho num submarino e que as palavras que aqui escrevemos em suporte incompreensivelmente electrónico, pareçam um pouco menos aquilo que os americanos chamam pissing in the wind (no nosso vernacular, fazer chichi ao vento). Tenho que falar com o nosso Senador e a Sra Baronesa em reunião de Conselho de Machamba, mas receio que, numa futura edição do Caderno de Memórias Delagoabaianas, eu seja sumariamente relegado para uma recôndita nota de rodapé.

E lá se iria a etérea sensação da imortalidade literária.

Mas podia oferecer cópias dos livrinhos pelo Natal, o que com um blogue, admita-se, não se pode fazer.

A mistificação do comentário publicado no Diário de Notícias sobre a Isabela tem que ver com a evocação de um passado moçambicano que mais parece uma longa e pesada sessão de terapia duma branca com sentimentos negativos sobre a sua experiência africana e, quiçá, sobre o seu estatuto de retornada num Portugal revolucionário e recém-exorcizado da sua experiência colonial-bélica. Pelo meio, vagueiam ideias da injustiça daquilo tudo, o trauma do (presumo) rescaldo do 7 de Setembro de 1974 e ainda o fantasma do pai, que, recita, chamava coisas feias aos colonizados com pele mais escura e que, num contexto em que – creio – ninguém tinha “direitos”, tinham ainda menos que os colonizados mais clarinhos. A Fernanda, cuja experiência africana (e muito menos moçambicana) repito, desconheço por completo, arremata, no que presumo possa apenas ser uma infeliz exaltação literária, dizendo que vivia-se (em Moçambique) num país onde se podia atropelar um negro e não ir para a prisão. Pois. E esqueceu-se de referir que comíamos meninos pretos pequeninos para o matabicho.

Decorre que com a independência tudo isso acabou. E que com os assassínios de brancos por representantes armados da maioria negra nos arredores de Lourenço Marques em 1974 fez-se, apenas, justiça. Ai sim Fernanda? hum, sorte, então eu ter sobrevivido aquela pouca vergonha toda, e não graças à sua boa vontade.

Há aqui dois aspectos que me induzem a pensar que talvez este tipo de intro-retrospecção tenha que ser trabalhado um bocadinho mais.

O primeiro aspecto é que, segundo a Fernanda, cuja retórica para estes efeitos, aceite-se, é mais ou menos irrelevante, a Isabela saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade. Se calhar viajámos os dois no mesmo avião da TAP em alturas diferentes, só que eu tinha 15 anos de idade, diferença que importa para efeitos desta discussão. Pelo menos eu já não era virgem, naquele e em muitos outros aspectos da vida.

Ora, para alguém que saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade, a análise global da situação que a Fernanda diz que a Isabela faz, a crer-se biográfica e despida de preconceitos e análises que só possam ter sido posteriormente adquiridos, devem ser deveras de assombrar, vindos de uma miúda. A minha irmã mais nova, que tinha a mesma idade e teve o mesmíssimo percurso que a Isabela, mal sabia jogar ao berlinde. E lá em casa ainda estamos à espera dos seus cadernos.

Mas admita-se que pode ser que seja a nua verdade no seu caso pessoal, em que a forma como pinta o pai assusta mais que o papão colonial-racista. O que refere dava para horas e horas (e horas e horas) de sessões de psicoterapia.

Mas não logra por um segundo pintar uma realidade maior.

O segundo aspecto é que, por minha parte – e já o tentei explicar uma vez ao JPT e sob pena de me repetir – ao contrário de alguns eu vivi lá e, no meu microcosmo, o pai BM e a quase totalidade das pessoas com quem contactava, não chamava nomes a ninguém, branco ou preto, eu não era inibido de me dar com ninguém com base na cor da pele e, se não disputo (mas não desta maneira) a sustentabilidade do tal “ídilio colonial” de Lourenço Marques que a Fernanda diz que não existia (existia, sim, que chatice), pintar essa era e todas as vastas e complexíssimas relações pessoais, económicas, sociais e raciais de Moçambique no fim da era colonial em Lourenço Marques com um simples rótulo de “racismo” e “abuso” é totalmente descabido. É falso. É absurdo. É ridículo. É uma fraude moral, intelectual e histórica. É projectar os seus preconceitos actuais, ignorar as suas causas e tentar justificar moralmente os seus efeitos e a pulhice que veio a seguir, e em que de longe as maiores vítimas – surpresa – foram sempre, e quase só, milhões de moçambicanos, que de uma ditadura fascista e colonial passaram directamente para outra, não muito diferente.

Especialmente, destaco, se se estiver a falar no começo dos anos 70, em Lourenço Marques.

Claro que lá havia racismo. Montes. Claro que havia injustiça, incluindo a racial. Claro que tinha que acabar. Que tinha que mudar. Claro que havia gente como o pai da Isabela. Se calhar até bem pior. Claro que aquilo era uma ditadura, com tentáculos em Portugal, um anacromismo total num mundo já quase sem impérios coloniais e em que os países comunistas activamente armavam e patrocinavam os que combatiam o que sobrava de colonialismo no mundo. Ser colonial a partir de 1950 tinha o seu custo em lágrimas, suor e sangue. Salazar estava disposto a pagá-lo, outros não. Em 1974, venceram estes.

Mas cuidado ao pintar tudo de negro. O pior racismo que vi na minha vida não foi em Moçambique. Foi nos Estados Unidos quando para lá fui viver em 1977. Portugal hoje não é muito melhor. Quotidianamente vejo as maiores injustiças serem cometidas em Portugal hoje que não se distinguem assim tanto das injustiças que haviam em Lourenço Marques e que há em toda a parte. As injustiças económicas que se observavam há quarenta anos em Moçambique, aliás, ainda se mantêm em larga parte. Pois não é de um dia para o outro que se capacitam milhões de pessoas pobres, rurais e analfabetas que vivem de subsistência no mato e se lhes proporciona, e aos seus filhos, condições para ascensão social e económica.

O crime, se é que se pode dizer assim, não era do que a Isabela diz que vislumbrou aos dez anos de idade e muito menos dos tiques racistas do seu partido pai, que não conheci e pelos vistos ainda bem. É de um país que estava na mão de um ditador que escolheu manter um statu quo décadas depois da altura em que deveria ter iniciado medidas para atempadamente preparar e entregar o poder político e a gestão da nação moçambicana aos seus filhos, descomplexadamente e de cabeça erguida.

Provavelmente quer eu quer a Isabela teríamos lá ficado, a viver em paz e sossego e estaríamos a ajudar a construir esse então novo país, em vez de andarmos à esmola de familiares hostis e dependentes de amizades que se calhar nunca o foram, olhando no espelho à noite e inventando na mente o delírio de que aqui pertencíamos.

E a ter que tentar engolir de terceiros a tese de conspiração de que o que ali porventura encontrámos de bom e belo – e que hoje é apenas uma memória, só isso – não foi, não podia ser, que estamos a mentir aos outros e, pior, a nós próprios.

Vão à merda.

Dito isto tudo, acho que um dia destes lá vou ter que ir procurar o tal de livro para ver mesmo do que é que a Isabela está a falar.

Ou talvez não.

Quanto ao blogue, para já fico à porta.

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