THE DELAGOA BAY REVIEW

28/06/2012

PORTUGAL EM 2012: À PROCURA DA DESRESPONSABILIZAÇÃO

900 anos de pára e arranca, entre o infame e o sublime. Em 2012, está-se numa fase do infame.

O Zé Pedro Cobra achou por bem fazer o comentário no vídeo em baixo, batendo numa cultura nacional de (total) irresponsabilidade e do implícito no termo “faça-se” como corolário da mesma.

Mais profundamente, creio que se vive ainda os resquícios da ausência de um contrato social exequível entre uma classe dominante predadora e por vezes parasita que domina o sistema político e económico português desde meados do Século XIX, e uma multidão vasta, beata, miserável e despossessa, que sobrevive e que cada vez mais foi mais explorada pela primeira.

Momentaneamente, no delírio revolucionário e infantil logo após 1974, pensou-se que seria o contrário (os comunistas certamente o pensaram, e os socialistas tentaram, mas falharam redondamente) mas não. Nem pensar. Apenas saíram uns ladrões profissionais (Salazar, que apenas roubava as almas e a liberdade, estava fora de cena há seis anos) e entraram outros, mais amadores.

Mas aprenderam depressa.

A culpa é de todos, pois a prática, fartamente sancionada por leis que não funcionam, por tribunais que não funcionam, por pessoas que, num relativismo moral perfeitamente negociado, não consideram a irresponsabilidade criticável, é sancionada, tornando-se a norma social numa espécie de gangsterismo à escala industrial, em que o pequenino aldraba um pouco, e o grande aldraba correspondentemente mais.

E o país que têm no fim é resultado disso mesmo: uma incongruência venenosa, sempre irreconciliável a prazo e economicamente inviável, embrulhada numa bandeira verde e encarnada. Pois os ricos e os que mandam sempre acabam por beneficiar, lavando depois as mãos como Pôncio Pilatos da xafurdice nojenta que conseguem criar para extorquir o seu quinhão e os despossessos (ou a um minguante subsídio do desemprego para o serem) mesmo sendo conservadores e votarem PSD e CDS e irem à missa, acabam por ser enrabados, ficando com a farta conta por pagar, na forma de impostos e taxas acrescidos e um padrão de vida muito mais baixo.

Exceptuando os ricos que meteram o dinheiro em bancos situados em praças financeiras inauditáveis, através de entidades offshore imprescrutáveis, ser-se português no início do Século XXI é sinónimo de se ser pobre, de não se ter oportunidades na vida, com a novidade de agora isso abranger todas as gerações (pois não vai haver dinheiro para pagar reformas e a despesa médica, não como até agora).

“Faça-se, pague-se”.

O resultado que se vê estes dias ameaça tornar o regime numa espécie de socialismo conservador de chacha duma pseudo-direita fabricada, mais uma vez buscando mais um créditozinho externo para tapar o buraco e mais uma onda de emigração por parte daqueles (agora pobres mas supostamente educados) que ainda têm a vida pela frente e que querem ganhar algum, confirmando a impenitente incapacidade do país de se reformar e de responsabilizar as pessoas e as instituições apesar de tudo o que já se sabe.

Salazar e Cunhal lá em cima devem estar a rebolar-se no chão a rir, desta vez os dois juntos e pela mesma razão, para variar.

Mas eles são apenas o outro lado, quiçá mais quixotesco, da mesma moeda.

E essa moeda é esta cultura e mentalidade do sucesso através do favor, da cunha, do amigo que coça as costas do amigo, do algo em troca de nada, do querer ter e não querer pagar,  da mediocridade encapotada em graus académicos inventados,  das leis feitas à medida, com buracos também feitos à medida, da burocracia sufocante que emascula.

E, acima de tudo, da impunidade, a social e a formal.

O excentrismo português em relação à Europa não é só geográfico: é também mental, cultural e moral. E, infelizmente para os portugueses, os centro-europeus não querem pagar os custos inerentes à irresponsabilidade. Em parte porque, na medida do possível, não têm que o fazer.

Por isso o Zé bem pode fazer estes vídeos. E fez bem em fazer este. Mas na minha opinião, e por enquanto, ele está apenas a mijar contra o vento.

15/05/2012

A CORRUPÇÃO E A JUSTIÇA IÓ-IÓ EM PORTUGAL

Filed under: Corrupção e a justiça portuguesa 2012 — ABM @ 8:37 am

Desta vez, uma nota do político Dr. Ricardo Sá Fernandes.

NÃO ME CALO

por Ricardo Sá Fernandes

1.Vale a pena combater a corrupção? Para dois juízes do Tribunal da Relação de Lisboa, não.

Como deverá uma pessoa agir para não ser perseguida nem pelo corruptor nem pela justiça? Ou foge e fica calada, ou aceita o suborno ou, se achar que isso é insuportável, denuncia anonimamente, de preferência através da internet.

Mas há uma coisa que nunca deverá fazer: assumir que denuncia a corrupção, precaver-se contra os ataques do corruptor e colaborar com as autoridades. A não ser que seja tolo e queira ser perseguido e enxovalhado.

2.Em 2006, fui contactado por um indivíduo que, telefonando sob uma identidade dissimulada, pediu um encontro particular num bar de um hotel, para tratar de assunto do interesse de ambos.

Desconfiado de uma abordagem criminosa, fui, mas gravei a conversa, para me poder defender, se o sujeito pretendesse “virar” a conversa contra mim e tentasse passar de criminoso a vítima. O que veio a acontecer e é um “clássico” nas máfias da corrupção.

A conversa era para tentar corromper o meu irmão, vereador em Lisboa. No dia seguinte, depositei a única cópia da gravação no Ministério Público. E denunciei a corrupção.

O MP pediu-me para ir a novo encontro e obter nova gravação, agora com autorização judicial. E assim foi. Tive mais duas conversas que foram prova decisiva na acusação e condenação do corruptor, a qual, finalmente, foi garantida em Janeiro passado, por um acórdão do Supremo Tribunal.

3.Esta história devia ter tido um desfecho rápido e útil – exemplar – para a prevenção da corrupção.

Todavia, a condenação do corruptor percorreu um sinuoso caminho e eu acabei a enfrentar vários processos, de natureza criminal, civil e disciplinar, contra um exército de juristas por ele contratados para proteger o seu objectivo ilícito de ficar dono do maior e mais bem situado terreno disponível para construção, em Lisboa (na ex-Feira Popular).

4.Depois de absolvido na 1ª instância e de o MP ter sustentado a justeza da decisão, fui agora condenado por dois juízes da Relação num acórdão com assinaturas ilegíveis (mas um deles já veio a público gabar-se da sua autoria), pelo crime de gravação ilícita: a que eu próprio fiz, para evitar que o corruptor pudesse convencer alguém, como tentou, de que eu é que o teria aliciado – e que imediatamente entreguei ao Ministério Público.

5.O acórdão utiliza dois argumentos. Diz que, tendo eu optado por ir ao encontro, fui eu que criei o perigo! Por outro lado, numa extraordinária ponderação de valores, não vislumbra qualquer supremacia do meu direito à honra e à defesa da verdade sobre o direito à palavra do corruptor.

Duvidam que um tribunal superior do vosso país sustente tais propósitos insultuosos para qualquer consciência cívica? Leiam o acórdão e julguem por vós.

6.Mas o mais grave é que o tribunal, para legitimar a condenação, sem pedido de ninguém e sem consultar nenhuma das provas do julgamento, decidiu alterar a matéria de facto dada como assente, invertendo o seu sentido.

Onde se lia que não fora provado que eu actuara sabendo da natureza criminosa da minha conduta – como de facto não sabia, com uma convicção partilhada por juízes, procuradores, advogados e jurisconsultos de todo o mundo (também em Portugal) –, passou a constar que eu bem sabia que estava a cometer um crime, numa decisão eivada da mais repulsiva arbitrariedade.

Nem pediram à 1ª instância a fundamentação que alegaram que faltava, nem determinaram novo julgamento, nem sequer aplicaram uma pena (remetendo tal escolha para a 1ª instância, numa singular originalidade). Parece que aquilo que importava era assegurar que o denunciante da corrupção não se ia “safar”.

7.Este acórdão alcança objectivamente dois fins fundamentais: a) intimidar quem quiser denunciar a corrupção; b) humilhar o denunciante concreto deste caso, voz demasiado incómoda.

8.Mas eu não me rendo. Poderão os juízes ameaçar-me com novos processos, como um deles já fez. Poderão prender-me. Mas não me calarão.

A justiça é o mais precioso dos valores da vida em comunidade. Não pode estar nas mãos de gente desta. Por isso, continuarei este combate. Pela minha dignidade e por quem confia em mim. Pela justiça portuguesa, incluindo pela grande maioria dos juízes portugueses. Pela decência na sociedade portuguesa.

 

Notas: 1. este texto foi publicado no jornal lisboeta Público de 14 de Mao de 2012, 2. O juiz aludido no texto é Rui Rangel.

03/05/2012

O PORTUGAL DOS PEQUENINOS, 1890-2012

Um leitor casual da realidade portuguesa não tem habitualmente uma cápsula histórica e temporal como a dos 48 minutos e 6 segundos que dura esta explicação do que foi e é Portugal: um belo país, especialmente, ou só, para alguns. O documentário, com uma mão pesada do Fernando Rosas, é no entanto eminentemente interessante. Após vê-lo, o Leitor poderá aferir se o curioso título aqui em cima faz sentido ou não. Me parece que sim.

Donos de Portugal from Donos de Portugal on Vimeo.

01/12/2011

O FADO PORTUGUÊS MAIS MOÇAMBICANO

Em baixo, o fado, cantado pela diva.”] Crónica dedicada à Maria João Quadros e ao José Luis Silva.

A propósito de se achar que o fado passou a ser mais hoje que há uma semana.

Hoje em dia é quase politicamente incorrecto alguém debruçar-se sobre o que é e o que era – pelo menos para alguns – ser-se, ou ter-se sido, português em Moçambique. Por todas as razões e mais alguma, a experiência, sustentada nos alicerces de uma imposição colonial, ruiu como um baralho de cartas. Se não necessariamente assim, tinha que ser. A esmagadora maioria dos cerca de (e meros) vinte mil portugueses que por lá andam estes dias nem suspeitam como foi e, às vezes infeliz e caricatamente, focam-se quase unicamente na sua recém-adquirida “moçambicanização”, vestindo toscamente a nova capulana cultural, dizendo “maningue”, deixando aquilo que são metido na gaveta para quando vão de férias à terrinha ver os familiares, os amigos do liceu e fazer umas comprinhas à FNAC no Colombo. Como se enganassem alguém com essa postura, em particular os moçambicanos. Em Portugal, tornam-se estrangeirados – o termo vernacular mais venenoso é “cafrealizados”, estatuto que a RTP Internacional e a internet atenuam de alguma forma. Confrontados por alguns locais com um passado sobre o qual leram nas sebentas, e os que lá estiveram antes, são displicentes e categóricos: esses não eram portugueses como eles. Eram muito piores: eram todos racistas, colonialistas, ressabiados (afinal a despossessão sumária dos seus bens e experiências sem apelo nem agravo será, para estes, justa e merecida) e agora, ainda por cima, saudosistas, termo que de vez em quando estudo com assumido sentido de humor e que, do que assisto, rotula quase tão perfeitamente quem o profere como a quem se dirije.

Tudo isto tão vão como inconsequente, no tempo e numa era de vertiginosa globalização, em que, dentro de vinte anos quase ninguém de entre as partes envolvidas estará vivo para dizer como foi.

Atrás ficarão os mitos, por mais algum tempo.

Depois, tudo será esquecido.

Excepto uns registos resumidos do passado, manietados pelas ideologias prevalecentes, a língua colonial, agora na posse plena das duas populações, e os vultos sorumbáticos das estruturas arquitectuais e demais infra-estrutura, sombras discretas de um passado adivinhado.

Como foi ser-se português, numa estranha diáspora algures no meio da África Oriental Portuguesa, na reluzente Lourenço Marques colonial, nos anos 30, 40, 50 do século XX?

É assunto que daria panos para mangas. No substrato, o enorme confronto entre a pequenez, a tacanhez, a falta de oportunidade e o espartilho social, económico e até moral a que os indígenas portugueses referem em relação à sua terra, e a oportunidade, os “horizontes mais largos” (termo usado por José Maria Tudela numa entrevista ao Correio da Manhã, 23 de Agosto de 2002) e a óbvia descompressão social, moral e material encontrada no caldo colonial urbano moçambicano.

Em que, admita-se, a esmagadora maioria dos moçambicanos negros, excluídos das cidades e da economia, eram pano de fundo. Envolvente, mas pano de fundo mesmo assim.

Apanhado numa geração de transição, eu próprio já só apanhei sombras desses tempos ao mesmo tempo bucólicos e turbulentos, de cujo fim Rui Knoply deu aviso claro num majestoso poema. Felizmente, através de preciosos conhecimentos aqui e ali, vou apanhando histórias, escritos, recolho impressões desse outro mundo e cujo chão me viu nascer.

Assim, aqui assinalo, pela segunda vez neste blogue, e a propósito de o fado (juntamente com a música da mariachi mexicana) ter sido decretado “património imaterial da humanidade, uma pequena mas inesquecível manifestação dessa era.

Este fado – Uma Casa Portuguesa – foi composto pelo Maestro Artur Fonseca, que dirigia a orquestra de salão do Rádio Clube de Moçambique, com letra de Reinaldo Ferreira, poeta e bardo que andou anos por Lourenço Marques, onde morreu e que (ainda) está sepultado no cemitério hoje abandonado do Alto-Maé em Maputo, e Vasco Matos Sequeira, na altura um reconhecido jornalista e poeta, cujo pai, Gustavo, era historiador.

Cantado pela primeira vez pela angolana Sara Chaves no Teatro Manuel Rodrigues em Lourenço Marques numa quase certamente quente noite de uma 4ª feira, 30 de Janeiro de 1952, num sarau em honra de uma delegação do Colégio Militar de Lisboa, que então visitava Moçambique.

Mais tarde memoravelmente interpretado pela diva, Amália Rodrigues.

Este fado é alegre, musicalmente agradável, reprodutor de uma exo-saudade idílica e exageradamente generoso, em parte porque não tropeça nas muitas razões que fizeram com que Portugal, uma miserável pequena ditadura e uma sociedade em quase tudo parada no tempo, fosse um tão apetecível lugar de onde se emigrar. Bom para ser escrito e composto numa mesa do Café Scala em Lourenço Marques, num dia de verão, enquanto se bebia uma Laurentina e mastigava uns tremoços.

Naquela altura, Portugal só era lindo para quem estava em Moçambique porque estava tão longe.

Vindo a sua letra da mão de Reinaldo Ferreira, que supostamente foi comparado apenas com Fernando Pessoa por António José Saraiva e Óscar Lopes e de quem se terá dito ter “o mesmo sentir pensado, a mesma disponibilidade imensamente céptica e fingidora de crenças, recordações ou afetos, o mesmo gosto amargo de assumir todas as formas de negatividade ou avesso lógico”, o poema só pode ser interpretado como um dos mais sublimes exercícios de sarcasmo dos afectos concebidos na língua portuguesa. Talvez aí tenha estado a mão de Vasco Matos Sequeira.

Mas este fado nunca foi visto nem apercebido como tal, em parte por se enquadrar tão precisamente na grelha popularucho-travestipoética prevalecente e imposta nos círculos de então.

Nesse aspecto, para mim, será sempre um fado moçambicano, dos tempos em que alguns ali viviam uma forma muito peculiar de se ser português.

Em que a distância, a saudade e o isolamento se prestavam à alegoria.

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01/11/2011

A AMÉRICA QUE EU JÁ NÃO RECONHEÇO

Quadro copiado com vénia do Economist, indicando a divisão da riqueza acumulada por fatia da população.

Depois de ter ido literalmente como refugiado para os Estados Unidos em 1977, após o desastre da Descolonização portuguesa, li vivi durante quase quinze anos.

No geral, foi muito bom para mim e para a minha família.

Mas as minhas aspirações eram outras.

Em 1990 iniciei uma espécie de regresso a África, que ainda levou dez anos, com alguns interregnos por Portugal. O regresso não foi regresso e, à sua maneira, a elite portuguesa criou o seu próprio descalabro nos últimos quinze anos.

No entretanto, nos EUA, houve Clinton e Bush e agora Obama. Houve o ataque terrorista em Setembro de 2001, as guerras no Médio Oriente, a maluqueira fiscal quase total e a quase falência do Estado norte-americano, precedida do escândalo total da Enron, o fim da Arthur Andersen & Co., o desfalecimento quase imediato dos mercados financeiros norte-americano e mundial, iniciado com a chamada crise do sub-prime e a falência, numa sexta-feira, do banco Lehman Brothers.

Ainda não se sabe onde isto tudo vai parar. O mundo – o nosso mundo – permanece à beira do abismo.

Agora, aproxima-se a eleição presidenciall de 2012.

É mais do que claro que Barack Obama rigorosamente nada teve que ver com as tragédias que herdou, e as quais não têm soluções fáceis e muito menos paleativos.

Mas ao que eu tenho assistido, do outro lado do Atlântico, é às polémicas mais surreais, especialmente vindas do lado da direita norte-americana. Que, lamentavelmente, em boa parte porque me considero um conservador, traduzem um delírio perigoso da parte de pessoas que parece que ainda não entenderam bem o buraco profundo em que a América, e o mundo, estão metidos.

A tentação fácil é considerar que a substituição do actual presidente ajudaria a resolver os problemas.

Eu acho que o começo da resolução dos problemas que agora afogam uma boa parte do mundo ocidental pouco tem que ver com a eleição presidencial norte-americana.

Pelo contrário.

Eu já não reconheço esta América.

E começo a pensar que já não reconheço este mundo.

(No dia 8 de Outubro, a organização Democratas no Estrangeiro -“Democrats Abroad”- organizou um evento intitulado “Vozes por Obama” na Galeria Nikki Diana Marquandt em Paris.  No evento, um dos que falou foi o autor norte-americano Jake Lamar. Em baixo, um excerto do que ele disse, gravado no Atelier La Main d’Or. Este, pelo menos, diz que não está desiludido).

18/10/2011

A ERA DO CARAPAU E O REPOLHO EM PORTUGAL

Muitos moçambicanos se lembram da Era do Carapau e do Repolho.

Agora chegou a vez dos portugueses.

É preciso mesmo estar-se em Portugal para se entender a ironia do que se está a passar.

Por um lado, e finalmente, e inexoravelmente, fizeram-se algumas contas e começou a ser dado conhecimento público da verdadeira dimensão do gigantesco buraco que quinze anos de Estado Socialista, com um breve interlúdio do PSD, e em especial dois anos e meio de governação alucinante de José Sócrates, entre Outubro de 2008 e Junho de 2011, produziram.

Por outro lado, e por uma cruel coincidência, o verão português estendeu-se alegremente pelo Outono, com temperaturas máximas de 30 graus em pleno Outubro e noites suaves. Não chove há meses. Este ano, o clima em Portugal parece o do Sul da Califórnia.

O que ajuda a explicar a aparente demora, por parte dos contribuintes e demais residentes em Portugal, em sequer assinalar a sucessão de anúncios tétricos, por parte do governo do dia, de um crescente montante de dívidas públicas, de uma crescente incapacidade de gerir a despesa pública, e de um crescente rol de medidas, quase todas fiscais, para tentar controlar o turbilhão da dívida pública.

Só pode ser. As pessoas devem estar num estado catatónico entre o choque do que anda a ser anunciado e a anestesia do longo, quente, suave, verão.

O crescendo culminou com um anúncio na noite do dia 12 de Outubro, pelo actual primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, de que, a partir do dia 1 de Janeiro de 2012, praticamente todos os impostos directos e indirectos subirão brutalmente, quase todas as isenções fiscais serão eliminadas, incluindo o confisco, aos funcionários públicos e os cidadãos que recebem reformas do Estado, dos chamados “subsídios” de Natal e de Férias. A partir de quem aufere uns meros, quase míseros, quinhentos euros por mês, o que é um furo acima do chamado salário mínimo nacional português.

A electricidade, a água, os transportes, o gás, as comunicações, a comida, o tabaco, tudo isso subirá significativamente. A lista do que vai subir em preço não acaba.

O resultado global para já? Em 2012, uma parte muito significativa da população portuguesa deverá ter cortes nominais de entre 15 a 30 por cento nos seus rendimentos, contra aumentos de entre 5 e 10 por cento nos preços de muito do que compram, consumem e pagam em impostos.

O efeito combinado será arrasador para muitas pessoas.

E mais se presume virá.

E tudo isto para quê?

Supostamente, não para “resolver” os efeitos da gestão criminosa da coisa pública que foi feita em Portugal nos últimos vinte anos (com lugar de honra para o inesquecível José Sócrates).

Nem sequer para o governo dar um ar da sua graça perante os que neste momento já estão a financiar a falência portuguesa.

Não.

O objectivo primário é meramente evitar a catástrofe social e económica que, diz o governo, quase certamente ocorrerá se medidas drásticas não forem (não fossem) tomadas.

Assim, o anúncio formal feito ontem (17 de Outubro de 2011) do orçamento do governo central para 2012 é um marco histórico no percurso dos portugueses, pois significa o fim dos “happy days” do dinheiro fácil, da vida à custa das gerações futuras, das reformas aos cinquenta anos, do pecúlio da coisa pública à escala industrial.

Finalmente, trinta e seis anos depois da Descolonização, e vinte seis anos depois do início da Era da Euro-subsidiocracia, em que uma nova elite predadora, saída do pronunciamento militar que acabou com a ditadura inventada por António Salazar, entreteve o povo com benesses alucinantes enquanto ao lado fazia as suas negociatas oportunistas, assiste-se agora ao desmoronar do Estado Socialista.

Ou melhor, ao início do seu desmantelamento. De que o orçamento do governo central português para 2012 é apenas o começo.

O melhor, ou seja, o pior, ainda está para vir.

Curiosamente, quase ninguém se refere ao que se está a passar como tal. Quem ler os jornais portugueses fica com a impressão que se está a passar “apenas” um mau bocado.

Em parte percebo porquê. Por três razões.

Primeiro, porque as pessoas ainda vivem em negação da realidade.

Em segundo lugar, porque creio que a ideia do Estado-papá está tão profundamente enraízada na maneira de pensar e ser de tantos portugueses, que a ideia de que a organização da sociedade portuguesa, que é rígida, centralizadora e gerida de cima por uma minoria predadora, e que desde 1975 teve a forma do Estado Socialista, possa vir a ter uma forma diferente daquilo que tem sido, é quase incompreensível para o cidadão médio.

E em terceiro lugar, porque, de facto, pese o carpir dos nacionalistas die-hards (por aqui há muitos), há uma muito desconfortante sensação de que provavelmente os tempos que vêm aí poderão provar o impensável: que, no actual contexto, poderá ser concebível que o que vai ser feito é, dito de uma forma simples, insuficiente.

Ou ainda pior. Que o improvável, quase milenário, projecto nacional português, concebido pelo filho de um francês e de uma leonesa durante o Século XII, se tornou, finalmente, inviável.

Pessoalmente, não sou tão negativo. Penso que os portugueses vão passar um bocado muito mau, em que haverá que tomar decisões difíceis e de fundo sobre a forma como o país funciona e está organizado. Em que o padrão de vida, que voltará a caracterizar-se pela fome, pela miséria, pela falta de oportunidade e pela emigração, continuará a cair enquanto não se tomarem as medidas que é preciso serem tomadas.

Mas a implosão do Estado Socialista implica a criação de um novo Portugal, que pouco ou nada poderá ter que ver com aquilo que quem vive em Portugal pensa que é a sua identidade, ou marca.

Os portugueses não gostam de mudança, a não ser aquela que lhes traga algo mais em troca de nada.

Esses dias acabaram. Provavelmente para sempre.

Mas a maior parte das pessoas ainda não se apercebeu disso.

Os que se aperceberam, ou auguram o Fim (o melodrama suicidário compõe uma parte crucial e muito apreciada do imaginário colectivo português) ou não parecem saber que caminho tomar.

Todos criticam, com alguma razão, o governo do dia. Afinal, as medidas draconianas agora anunciadas poderão bem ter como consequência o fim de um pacto de não agressão social na sociedade portuguesa, que no passado deu provas de uma insidiosa propensidade para a violência. Verdade é que Portugal nunca foi um país de evolução. Como acontece com os terramotos, a sua história recente, desde a chamada Restauração, é uma sequência de episódios em que, a uma paz mais ou menos podre em que um ou mais sectores da sociedade paga os custos dessa paz, sucedem-se as revoluções. Que são violentas, abrangentes e muito dificeis de resolver.

E em que preciosidades como a liberdade e os direitos dos cidadãos tendem a ser os primeiros valores a serem mitigados.

Mas ninguém parece ter alternativas, para além daquela Esquerda perdida no tempo e oportunista, que aparece agora a sugerir que uma espécie de comunismo esclarecido (que em termos fiscais pelo menos 2012 vai parecer ser) ou simplesmente deixar o país falir e renegar o que deve a quem deve.

Pois pois.

Assim, depois de décadas em banho-Maria, finalmente aproxima-se a tempestade.

O que em Moçambique quem tem idade para isso chamava a Era do Carapau e do Repolho.

Mas em Moçambique eram os tempos da guerra, passava-se fome e morria gente todos os dias. Dizem-me que foi um mau momento. Em Portugal não há guerra e o verão californiano estende-se até à terceira semana de Outubro.

Curiosamente, um indício dos desafios dessa realidade veio-me da leitura de uma interessante entrevista que o Professor José Hermano Saraiva, agora com uns provectos 92 anos de idade, e que viu o auge e o estertor do projecto colonial português, deu no final da semana passada a uma publicação que acompanha o Diário de Notícias de Lisboa.

Nessa entrevista, o historiador, conhecido pelos programas televisivos que há muitos anos faz na televisão pública portuguesa, chamados Da Gente e da Alma, às tantas foi questionado acerca da situação actual de Portugal. A quem atribuía a responsabilidade por esta crise e que medidas é que deviam ser tomadas para o País superar a actual “ruptura socieconómica”, perguntaram-lhe.

Eis a sua resposta, na íntegra: “Tão simples! Portugal tinha como principais rendimentos os produtos ultramarinos e as alfândegas e, de uma só vez, acabaram com tudo. Nós não temos produção. [Quanto às medidas a tomar] julgo que nenhumas. Portugal não tem hipóteses de sobrevivência. Portugal era o principal produtor de café, de urânio, de ferro, e deixámos de ser tudo isso. Não temos nada. Somos um País mendigo, vivemos de dinheiro emprestado. (…) Portugal não vai re-erguer-se, não vejo maneira nenhuma de isso acontecer.” (Notícias TV, 14 de Outubro de 2011, pp. 11 e 12).

Internamente, o Arcebispo das Finanças de Portugal, Vítor Gaspar, que vai pontificando nas televisões numa cadência messiânico-papal, diz que vai fazer o que for preciso para endireitar a economia nacional.

Mas se a Grécia, a Espanha e a Itália caírem sozinhas (curiosamente se fosse toda a Europa seria menos mau) Deus salve Portugal.

Baseado na minha experiência africana, face ao que poderá vir a acontecer, cada português que se salve a si próprio.

Esta noite, a famigerada Agência Moody’s baixou a notação de risco de Espanha de AA2 para A1.

Vem aí a tempestade.

E muito pia e latinamente, e mais uma vez, reina a total impunidade em relação ao porquê se chegou aqui e a quem foi responsável pela forma como se chegou a este ponto.

16/09/2011

CHAIMITE, O FILME, 1953

Antes de ontem à noite desloquei-me à nova Torre do Tombo em Lisboa, para assistir ao lançamento formal de um livro sobre Henrique de Paiva Couceiro, compilado pelo Prof. Filipe Ribeiro de Menezes (com “z” no fim) que reproduz uma parte, menos de um terço, dos documentos que constituem, a partir dessa data, património da nação portuguesa. O livro, editado pela Dom Quixote, já está à venda.

Durante as exéquias de doação formal do espólio de cerca de cinco mil documentos (generosidade da família Paiva Couceiro, na pessoa do meu muito caro Miguel de Paiva Couceiro), foram projectados menos de cinco minutos de um filme de que eu mal ouvira falar e que nunca tinha visto na vida, chamado “Chaimite”, nome da mitológica localidade da nação vátua, em que o Régulo Gungunhana capitulou às armas portuguesas no final do ano de 1895.

Por curiosidade, e para minha surpresa, o filme, que foi trazido ao público português no início de Abril de 1953, foi transcrito para o Iutube, e eu fui ver.

O que posso dizer sobre o filme?

Primeiro, é que é de uma dialéctica, especialmente em final de 2011, quase hilariante, uma versão kistch da então prevalecente atitude convencional portuguesa sobre os territórios sob controlo colonial. É divertido porque hoje muita gente já não se lembra (e alguns não se esquecem) de como era. Neste filme, está-lhe na flor da pele.

Especialmente para quem conhece ou conheceu a região Sul de Moçambique e as suas culturas, e em particular a sua história recente (refiro-me ao final do século XIX) ver este filme é duplamente divertido. A começar pela cena da germanicamente bela menina tuga de saia comprida e com predilecções agrícola-desenvolvimentalistas, sentada à mesa, meio apategada, surpreendida pelo obviamente mais batido tuga cafrealizado a dizer-lhe qualquer coisa coisa como “eu gostava maningue de ter uma machamba no mato”. Ela, de olhos muito abertos, exclama: “maaniingue?! maa-chambaa?! Mas o que é isso?!” Apenas para sermos confortados pela sua politicamente correcta, recém-adquirida lusitano-cafrealização no momento final do filme, quando, finalmente preso o nefasto líder rebelde pelos Heróis e regressada a Pax Lusitana ao Sul dos domínios do rei dos Algarves e apêndices e adjacências, o seu interlocutor, afinal um puro sangue lusitano encapotado (mas claro) diz “ah, afinal vale a pena viver”, ao que ela responde, em apoteose final que prenuncia a justeza do que certamente viria a seguir, “maningue!.

Ah pois. Imagino os meus amigos moçambicanos em Maputo a ver isto hoje, dariam voltas nas cadeiras.

Mas se calhar deviam ver. Que mais não seja o de ouvir landin (ou ronga) dos anos 1950 e assistir ao actor Carlos Benfica, que não sei quem é, desempenhar o papel de Gungunhana.

Pelo meio, um relato dos eventos naquele ano de viragem de 1895, de que fez parte, naturalmente, Henrique de Paiva Couceiro, sem descurar os restantes.

Quem ignora a história, e como ela é e foi protagonizada, tende a ignorar aspectos aparentemente suaves mas importantes das suas próprias origens.

Penosamente, em baixo, compilei as ligações todas que permitem, se o exmo. leitor tiver um tempinho, ver o filme. É de borla e, penso eu, vale mais que isso.

Então vamos lá.

Parte 1 de 11

Parte 2 de 11

Parte 3 de 11

Parte 4 de 11

Parte 5 de 11

Parte 6 de 11

Parte 7 de 9

Parte 8 de 11

Parte 9 de 11

Parte 10 de 11

Parte 11 de 11

12/04/2011

UM MAIS UM IGUAL A TRÊS

Em cima, o jornalista  José Gomes Ferreira, da estação de televisão portuguesa SIC, durante um breve momento em que teve um rasgo de lucidez, mal contido, antes que se arrisque a ser saneado pelas forças obscuras do politiquês correcto do actual regime.

Agora temos que estar todos à espera que dúzia e meia de técnicos estrangeiros, que desembarcaram esta semana no Aeroporto da Portela estile “Men in Black”, compilem um relatório, para se perceber o que raio realmente se passa em Portugal.

Entretanto, gasta-se horas nos media a tentar adivinhar duas coisas: 1) onde é que se vai cortar o quê, 2) onde é que se vai cobrar mais impostos.

E a taxa de desemprego continua a subir.

07/04/2011

ECONOMIA DE QUÊ?

Filed under: Economia Portuguesa, Globalização, Sociedade portuguesa — ABM @ 4:39 pm

O Economist de ontem referiu o resultado de um inquérito internacional sobre o capitalismo. À questão “concorda que a economia de mercado é a melhor para o futuro do mundo”, as respostas foram as seguintes:

Percentagem dos que concordaram com a frase "a economia de mercado é a melhor para o futuro do mundo".

Suspeito, insidiosamente, que Portugal não participou neste inquérito porque a maioria dos inquiridos não sabia o que era uma economia de mercado.

Na realidade, a discussão pública do modelo de sociedade que as forças vivas da sociedade portuguesa querem (entendendo-se por isso os bardos que aparecem nos programas de televisão e os que publicam livros intragáveis e mal organizados do que é aquilo que pensam) tem sido quase cómico, e mais o seria não fosse a situação tão dramática.

Pelo meio, há a manipulação da imprensa, às vezes por ela própria, pois este país é uma patética manta de retalhos ideológicos que se batalham rua a rua, casa a casa, emprego a emprego, pelo que acham que são as suas justas convicções. No topo estão os PS’s contra os PSD’s, depois os esquerdenhos (PCPs, BEs e Cia Limitada), os minoritários da direita (CDSs e outros que não conheço), monárquicos, maçónicos, católicos, opus deis, independentes que acham que por si só são movimentos, humanistas, etc.

Às vezes apetece vomitar, pois numa emergência, pelo menos em democracia, há que haver uma coisa horrível chamada “consenso”, e uma cara que consubstancie esse consenso.

E aí é que a porca torce o rabo.

É que em 858 anos de Portugal (aqui conto a partir da bula papal de 1143) falando muito muito genericamente, só houve três tipos de consenso:

1. O consenso é o que o rei diz que é.
2. O consenso é o que o partido diz que é (só nos vinte anos do rotativismo no fim da monarquia, e mesmo esse viu-se no que deu)
3. O consenso é o que o Salazar diz que é.

Ou seja, consenso em democracia, em que se senta tudo à noite em volta da fogueira e alguém diz “então, o que é que vamos fazer agora aqui com o nosso país?”, não conheço. As elites políticas arrasam-se desrespeitosamente umas às outras e o eleitorado vai a reboque.

E este é o país onde já se encara com naturalidade a equipa de futebol do Sport Lisboa e Benfica ir ao Norte e levar com pedregulhos em cima nas auto-estradas, e a do Futebol Clube do Porto vir a Lisboa e no fim dum jogo apagarem-lhes as luzes do estádio e ligar os repuxos de rega para os chatear.

Com exemplos de consenso e civismo destes, à espera de ver fico das soluções que vão ser agora propostas.

29/03/2011

A IGREJA, O ESTADO E O ENSINO COLONIAL, POR FILIPE ZAU

A fachada da catedral de São Pedro no Vaticano.

Com vénia, reproduzo em baixo um interessantíssimo artigo publicado no Jornal de Angola (Luanda) de hoje. Sendo o seu enfoque primário Angola, não deixa de conter informações transversais ao que se passou um pouco por todo o império colonial português.

O autor é o Doutor Filipe Zau, que, segundo indica o jornal, é doutorado em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais.

Segue o texto, tal como publicado, incluindo o título original da peça.

A IGREJA NA LUTA PELA INSTRUÇÃO E A INDEPENDÊNCIA

Quando a administração colonial, após o início da luta armada em Angola, pôs fim à Lei do Indigenato, incrementou a rede de escolas públicas e procurou aumentar o número de professores, alterou de forma significativa o índice de escolarização na colónia, sem que essa evolução positiva tivesse satisfeito as necessidades de aprendizagem da maioria da população angolana, nomeadamente, em áreas rurais.
Entre 1964 e 1969, formavam-se, em média por ano, nas escolas do magistério existentes, cerca de cem professores primários, o que era manifestamente insuficiente.

Em 1973, o número de alunos, em todo o ensino primário, correspondia a 512.942, um terço dos quais portugueses. Apesar do enorme esforço levado a cabo pela administração colonial, de um momento para o outro tornava-se impossível recuperar o tempo perdido. Para além disso, os sistemas educativos são incapazes de dar respostas imediatas e eficientes às expectativas políticas de curto prazo. A formação de professores e gestores educacionais de qualidade é sempre demorada e, como refere António Nóvoa, “não há ensino de qualidade, nem reforma educativa, nem inovação pedagógica, sem uma adequada formação de professores”.

Um ensino religioso

Salvo as iniciativas levadas a cabo pelo manicongo Mvemba-a-Nzinga de formar núcleos escolares no reino do Congo, em Angola não havia uma tradição de ensino sistematizado e o número de pessoas cultas ou que desejavam cultivar-se era ínfimo. A maior parte dos portugueses residentes em Angola passava os anos a amealhar um pecúlio que lhes permitisse viver desafogadamente na metrópole, de onde, muitas vezes, não saíam as mulheres, nem os filhos.

No início do século XIX, as missões encontravam-se em franca decadência, sendo, em 1834, extintas as ordens religiosas. Por essa altura, em Luanda, só havia um padre capuchinho e um carmelita.
Antes da primeira metade do século XIX, o ensino estava entregue aos jesuítas e o esforço para estabelecer o ensino público foi infrutífero. De recordar que, pela Lei de 3 de Setembro de 1759, o marquês de Pombal mandou extinguir a Companhia de Jesus, o que colocava, desde logo, os ensinos primário, industrial e agrícola sem mestres e ao abandono. O decreto de 15 de Dezembro de 1856 abriu novas oportunidades aos sacerdotes europeus para paroquiar nas igrejas de Angola e Moçambique, proporcionando, entre outras regalias, passagens, ajudas de custo, aumento de gratificações e um excedente para o serviço de ensino.

No dia 7 de Abril de 1857, o Conselho Ultramarino, que havia incluído o apostolado missionário nas suas actividades, abriu concurso para o provimento das diferentes igrejas de Angola. Os párocos serviam durante oito anos, eram colocados em freguesias do litoral e do sertão angolano e, cumulativamente, exerciam o ensino primário.

Em resultado deste concurso chegaram a Angola, em 1858, os primeiros oito párocos europeus para serem colocados nas paróquias do Bembe, S. José do Ambriz (cuja ocupação militar se havia confirmado, apenas, em Maio de 1855), Huíla e Cassange, nas freguesias de S. João Baptista de Gazengo, Santo Hilarião do Golungo Alto, Benguela e Pungo Andongo. No novo concelho de Malange foi colocado um cónego africano, de nome Necessidades, que ali veio a falecer em Junho seguinte.

No dia 14 de Abril de 1861, tomou posse da Diocese de Angola o Bispo D. Manuel de Santa Rita Barros, que desembarcou em Luanda, no dia 2 de Setembro, trazendo consigo párocos, cónegos, professores e 12 ordinandos, uns do Seminário Patriarcal e outros do Seminário de Cernache do Bonjardim, com destino à frequência do Seminário Diocesano, que, nos princípios de Novembro, abriu no Edifício do Paço, antigo Colégio de Jesus. Em relatório apresentado pelo padre José Maria Antunes, em 1 de Dezembro de 1894, levado ao exame da Junta Geral das Missões, estas deviam distanciar entre si, em média um grau no sentido ocidente-oriente e dois graus no sentido norte-sul.

Havia, à época, ainda segundo Martins dos Santos, quatro centros de missões já solidamente estabelecidos: Malange e Caconda, desde 1890, Cassinga (1886), e Huíla (1881). Malange era a missão central e dali irradiaram os missionários para fundarem as missões do Libolo (1893), Mussuco (1900), Bângalas (1913), Cacuso (1925), Minungo (1929), Saurimo (1930), Mussolo (1937), Salazar (Ndalatando) (1937), Dembos (1938), Dundo (1940), Cazanga (1941), Lombe (1946), Chiengue (1950) e Quibala (1951).

De Caconda irradiaram para estabelecer as missões de Cachingues (1892), Bailundo (1894), Vila da Ponte (1894), Huambo (1910), Sambo (1912), Cúchi (1912), Galangue (1922), Mupa (1923), Ganda (1927), Omupanda (1928), Bimbe (1929), Quipeio (1933), Balombo (1933), Andulo (1933), Silva Porto (Cuito) (1934), Nova Lisboa (Huambo) (1935); Caála (1935), Nova Sintra (1936), Entre-Rios (1939), Cuamato (1940), Caiundo (1940), Vila Junqueiro (1940), Baixo Cubango (1940), Chinguar (1942), Canhe (1942), Mungo (1948), Bela Vista (1948), Bundas (1950) e Nharea (1950).

Da Huíla, as missões do Jau (1889), Chivinguiro (1892), Quihita (1894), Gambos (1897), Munhino (1898), Chipelongo (1902), Vimania (1902), Chiúlo (1916), Sá da Bandeira (Lubango) (1935) e Quilengues (1938). De Lândana, as missões de Cabinda (1891), Luáli (1890-1892), Lucula (1893), Lunuango (1902), Maiombe (1922), Santo António do Zaire (1930) e Ambrizete-Tomboco (1935).

Em 1901, destacavam-se os padres do Espírito Santo, que tinham a seu cargo, na então colónia de Angola, as missões seguintes: Lândana, Cabinda, Luáli, e Lucula, no distrito do Congo. Luanda e Libolo, no distrito de Luanda. Malange, Canâmboa e Mussuco, no distrito da Lunda. Caconda, Bailundo, Bié, Catoco, Cassinga e Massaca, no distrito de Benguela. Huíla, Munhino, Chivinguiro, Jau, Quihita, Gambos, Cubal e Cuanhama, no distrito de Moçâmedes.

O clero nativo

Afirma também Martins dos Santos, que as tentativas para remediar o défice de missionários com a ordenação de um maior número de sacerdotes africanos, acabaram por não corresponder às expectativas, uma vez que eram considerados incapazes de exercer a influência necessária junto dos seus compatriotas. “Estes viam-nos com certa desconfiança, considerando que fossem mandatários servis dos brancos, membros renegados e degenerados da sua raça ou da sua tribo”. Os europeus não aceitavam a orientação religiosa dos padres nativos, consequentemente, os seus ensinamentos eram menosprezados.

De facto, a preparação eclesiástica do clero nativo era deficiente, já que as aulas e os próprios cursos não funcionavam com regularidade, uma vez que não existia seminário. Chegou-se a acusar o bispo de ordenar padres que liam mal e compreendiam o latim litúrgico com dificuldade. Os sacerdotes africanos eram pura e simplesmente considerados analfabetos, o que os fazia sentir diminuídos face aos seus colegas europeus. Estes, por sua vez, não se mostravam razoáveis e compreensíveis. Bem pelo contrário, acentuavam mais as diferenças que os separavam dos sacerdotes africanos que sentiam ainda a dificuldade de se divorciar dos seus hábitos e costumes culturais, alguns deles, incompatíveis, na altura, com a forma de estar exigida pela Igreja Católica. Como Angola não possuía condições que permitissem a preparação intelectual e religiosa dos candidatos ao sacerdócio, procurou-se ultrapassar este obstáculo enviando jovens seminaristas para a Europa e Brasil.

O decreto de 23 de Julho de 1853 criou o Seminário Episcopal de Luanda com o fim de apoiar as dioceses de Angola e S. Tomé, servir de hospício aos missionários e suprir a falta de liceu e demais aulas públicas. Mas apenas no dia 29 de Junho de 1910, D. João Evangelista de Lima Vital conferia ordens de presbítero a dois alunos do seminário diocesano, ambos negros, os primeiros de um primeiro viveiro eclesiástico. Em 50 anos, apenas cinco padres tinham sido ordenados em Angola.

Acordo missionário

Em 7 de Maio de 1940 foi assinado na cidade do Vaticano, pelos plenipotenciários do Pontífice Pio XII e do Presidente da República Portuguesa, a Concordata, para a metrópole e, integrada nela, o Acordo Missionário, para o Ultramar. Este nos seus artigos 3º, 6º, 66º-69º e 81º fala de “indígenas”, “população indígena”, “pessoal indígena”. O artigo 66º estabelece que o “ensino especialmente destinado aos indígenas deverá ser inteiramente direccionado ao pessoal missionário e aos auxiliares”. Permite o uso da “língua indígena” somente no ensino da religião (Art.69º). A Concordata tolerava, de “harmonia com os princípios da Igreja”, o uso da “língua indígena” no ensino da religião católica (Art.16º). A mesma Concordata discriminava escolas para os indígenas e europeus (Art. 15º) e destacava a “evangelização dos indígenas” (Art.º 19). Mais tarde, a Lei do Indigenato entendia o uso dos “idiomas nativos” no ensino somente como instrumento de difusão da língua portuguesa: “O ensino a que se refere este artigo procurará sempre difundir a língua portuguesa, mas, como instrumento dele, poderá ser autorizado o emprego dos idiomas nativos». [LEI DO INDIGENATO, Decreto-Lei nº 39.666, suplemento ao Bº 22, 1ª série, de 31/05/1994, art. 6º, § 1].

Estes e outros factos tiveram influência na posição pró-independentista de uma parte do clero africano: o cónego Manuel das Neves e os padres Joaquim Pinto de Andrade, Martinho Samba Lino Alves de Guimarães e Domingos Gaspar, que foram presos pela PIDE. Igual destino teve o cónego Manuel Franklin da Costa e os padres Vicente José Rafael e Alexandre do Nascimento, que também foram nesse ano exilados para residirem em instituições religiosas na metrópole.
A prisão do cónego Manuel das Neves, no dia 21 de Março de 1961, deixou o Arcebispo de Luanda, D. Moisés Alves de Pinho, bastante preocupado: “Para os africanos, tudo o que não seja protestar contra a prisão de padres nativos e de numerosos leigos detidos pela PIDE, tudo o que não seja reconhecer-lhes direito à independência, e isso já, sem demora, desagradará. Quanto ao elemento europeu, por sua vez, desejará a afirmação sob o ponto de vista governamental, desejará a consagração da política de integração. Não o fazendo vamos passar por estar incondicionalmente ao lado dos africanos e contra o Governo.”
Os sacerdotes exilados entregaram ao Núncio Apostólico em Lisboa, em Outubro de 1963, uma missiva onde diziam o seguinte: “nós sabemos que a emancipação de Angola se há-de efectivar, cedo ou tarde, com ou sem a Igreja. Porém, ­perante este dilema, sem deixarmos de ser angolanos, o nosso sacerdócio não tolera a indiferença, tanto mais que a perspectiva “sem Igreja” facilmente se converte em “contra a Igreja”, quando em situações idênticas, a Igreja não se insere, no momento devido, mediante os seus cristãos nos “ventos da História”. Neste espírito de apostolado, sofremos a prisão, o exílio, as torturas físicas e morais, as incompreensões, o desprezo, as acusações tão falsas como ignóbeis, as difamações mais maquiavélicas, o abandono e as restrições nas próprias liberdades sacerdotais. E esta situação eterniza-se sem esperança de solução.”

O ensino público

Complementarmente aos 100 professores primários anualmente formados, eram, também, em cada ano, preparados 200 “monitores escolares”, que tinham como habilitações literárias apenas a 4ª classe. Em 1971, estes “formadores” correspondiam a mais de dois terços de todos os docentes existentes nas zonas rurais. Um pouco melhor preparados para a docência estavam os “professores de posto”, que também eram escassos para cobrirem as necessidades da instrução primária em Angola. Nesta conformidade, facilmente se reconfirma que, desde a implantação do ensino oficial em Angola, a 14 de Agosto de 1845, até ao início da luta armada em 1961, o ensino primário não estava dirigido às populações africanas, salvo para os que estivessem minimamente associados a uma matriz cultural urbana.

Durante o Governo de Transição, através do decreto de 25 de Junho de 1975, foram revistos os vencimentos do pessoal docente do ensino primário em Angola. Segundo Martins dos Santos, “(…) deu-se satisfação a velhas aspirações, aumentando o vencimento a auferir e subindo estes servidores públicos na escala do funcionalismo. A publicação deste diploma era a prova cabal de que, até então, se não tinha querido a sério resolver certos problemas, mantendo um sistema injusto e revoltante, que de algum modo contribuiu para o desprestígio e aviltamento da classe. Merecem ser fixados os nomes dos governantes que intervieram na elaboração do decreto e que o subscreveram: Johnny Pinnock Eduardo, primeiro vogal do Colégio Presidencial; Lopo Fortunato Ferreira do Nascimento, membro do Colégio Presidencial; José N’Dele, também membro do Colégio Presidencial; Jerónimo Elavoco Wanga, titular do Ministério da Educação e Cultura; Saidy Vieira Dias Mingas, do Ministério do Planeamento e Finanças; António da Silva Cardoso, Alto-Comissário de Portugal em Angola”.

(fim)

11/02/2011

O MOMENTO MÁGICO QUE PORTUGAL VIVE

Hoje foi um dia particularmente interessante para acompanhar as notícias portuguesas.

Os items que me suscitaram alguma curiosidade:

1. A meio da manhã, no mais recente leilão de divida soberana portuguesa, as taxas exigidas pelos credores já atingiam 7.63% quando o Banco Central Europeu interveio mais uma vez, comprando o papel e forçando as taxas ligeiramente mais para baixo. A coisa está linda.

2. Dados publicados também hoje, indicam que, só no mês de Janeiro, a inflação homóloga portuguesa cifrou-se em 4.6 por cento.

3. Tive o azar, durante a tarde, de ouvir parte do debate quinzenal no parlamento português – aquele em que o primeiro-ministro vai lá e andam uma parte do dia na esgrima política. Foi mais uma vez uma expressão do surreal e do patético. José Sócrates tem esta capacidade curiosa de enumerar todos os “bits” de informação que no fim do dia sejam favoráveis aos seus pontos de vista. Os seus oponentes políticos, com a eventual e apenas parcial excepção de Paulo Portas, não têm oratória para contrapor ao discurso de Menino Sorrateiro Espertalhão do primeiro-ministro e dos seus colegas. Mais grave, todos parecem alheios à situação actual.

4. Enquanto isso, noticiou-se que alguns bancos estão finalmente, timidamente, a subir as taxas de juro que pagam aos seus depositantes. Só que estão a pagar entre 2 e 3 por cento para prazos até aos seis meses.

5. O que me leva ao seguintes pontos:

a) se o exmo Leitor dever dinheiro a um banco, as taxas de juro que paga pelo seu empréstimo estão a disparar e não vejo senão subidas nos próximos tempos.

b) se for aforrador, ou seja, tiver dinheiro depositado no seu banco, apesar das subidas nas taxas de que falam os jornais, repare que só em Janeiro a inflação homóloga foi de 4.6 por cento. Se receber 3 por cento, ao fim do ano está a perder 1.6 por cento. Parece pouco. Mas não é.

c) O cenário geral para quem vive em Portugal é que 1) o imposto sobre o seu rendimento subiu, 2) o seu salário diminuiu ou não aumentou, 3) o IVA (Imposto de Valor Acrescentado) aumentou de 21 para 23 por cento., 4) a gasolina está ao preço mais alto de sempre, cerca de 1 euro e meio por cada litro, 5) a inflação vai subir.

Para um funcionário público no topo da carreira, isto pode significar uma dimunuição no poder de compra de cerca de 20 por cento.

Num só ano, o que é obra.

Sem falar nos efeitos dos aumentos nos descontos para a segurança social e reforma e da idade mínima para a reforma.

E tudo isto se os bancos, que se estão a aguentar através de aumentos consideráveis naquilo que cobram aos clientes, e os balões de oxigénio do Banco Central Europeu, não tiverem mais problemas (eu acho que vão aguentar-se mas vai ser apertado).

Na política, persiste o jogo do gato e do rato. O governo minoritário do PS agarra-se ao papão da crise para se manter, e a oposição não parece ter a coragem de dar um passo em frente. Surpreendentemente, todos estão a gerir o proceso via a falta de liderança, à espera que apareça o momento mágico para a mudança.

Isto sem mencionar as aparições de Paulo Penedos, célebre acusado num caso de corrupção, e António Vara, indiciado noutro. Ambos foram gravados a dizer que estão perfeitamente inocentes de tudo e que tudo o que deles se diz é pura malícia e fabricação, como certamente tentarão provar num tribunal, se e quando tal se proporcionar.

Vive-se hoje o Portugal de Ali Babá e de Sheherezade.

É uma vertigem.

04/02/2011

ISTO E AQUILO

Para além de alguém baptizar um obscuro canto do seu império com o nome dela - já então uma homenagem barata - Amélia esteve em África. Ei-la aqui posando em cima de um camelo no Egipto, em frente a uma das pirâmides em Gizé, 1903. Cento e oito anos e 19 milhões e meio de pessoas mais tarde, aquilo está nalguma confusão.

5 de Fevereiro de 2011

O Egipto e a Tunísia

Quando houve aquelas chatices todas em Maputo em Setembro de 2010, não sei se se recordam que a grande guerra a seguir foi…..obrigar os 4 milhões de utilizadores de telefones móveis a registarem o nomezinho, a morada e o número de BI com a émecel e com a vodacão. Agora, parece que o catalisador da revolução na Tunísia e neste momento no Egipto (hum, será que com o tal de acordo ortográfico passou a ser Egito?) foram….as mensagens de SMS, os emails, o Facebook e o Twitter. Na Tunísia, o regime ainda não foi a tempo de cortar a internet e as comunicações. No Egipto, eles cortaram mas o Presidente Obama, cujo governo é que dá uns milhares de milhões de dinheiro de “cooperação”, mandou um bafo ao governo egípcio para não cortarem as comunicações do povo.

Em ambos os casos, foi uma complicação cortar a recepção de estações de televisão internacionais por satélite, especialmente a estação Al-Jazeera, que hoje só tinha um tópico na agenda: o que se passvaa dentro do Egipto. E antes, na Tunísia.

As implicações em termos da dinâmica da política e a relação entre governantes e governados, especialmente em sociedades onde a paz é mais ou menos podre, são deveras profundas.

E muito encorajadoras e muito perturbadoras, ao mesmo tempo.

Mais importante: agora os lusofalantes que sehuem os ditames decretados pelo governo dizem “Egito” ? eles agora são os … egícios?

As Rendas

Segundo o Expresso desta semana, em 2010 o número de rendas por pagar passou de 20 para 30 mil e, citando a Associação Nacional dos Proprietários, o montante em dívida passou para 72 milhões de euros – o dobro comparado com 2009. Como a lei portuguesa neste campo tende a ser punitiva para os proprietários, e a justiça punitivamente morosa e cara, prevê-se um pequeno tsunami nesta área em 2011. E como, na cultura portuguesa, entende-se geralmente que proprietário = rico e inquilino = coitadinho, pior vai ser.

A Escrita

A página de há uns dias do Diário de Notícias continha a seguinte, triste notícia:

“O jornalista da TVI José Pedro Barreto, actualmente a desempenhar as funções de editor do Internacional, morreu ontem à noite vitima de um acidente vascular cerebral (AVC), após uma operação. O jornalista, que tinha 62 anos, é descrito pelos colegas como um dos profissionais mais competentes do canal.”

Uma grande perda, pois o Pedro fez um trabalho excelente.

Mas, se ele morreu um dia antes da publicação deste texto, é impossível ele desempenhar as funções “actualmente”.

Mas foi o que saiu.

A Lei

A minha amiga Graça Rodrigues alertou-me para a necessidade – um dever de cidadadnia – de conhecer as leis que os legisladores portugueses vão emanando. Nomeadamente o Decreto-Lei 35/2010 de 15 de Abril (de 2010), que começa assim:

“Os artigos 143.º e 144.º do Código do Processo Civil aprovado pelo Decreto -Lei n.º 44 129, de 28 de Dezembro de 1961, alterado pelo Decreto -Lei n.º 47 690, de 11 de Maio de 1967, pela Lei n.º 2140, de 14 de Março de 1969, pelo Decreto -Lei n.º 323/70, de 11 de Julho, pela Portaria n.º 439/74, de 10 de Julho, pelos Decretos -Leis n.os 261/75, de 27 de Maio, 165/76, de 1 de Março, 201/76, de 19 de Março, 366/76, de 15 de Maio, 605/76, de 24 de Julho, 738/76, de 16 de Outubro, 368/77, de 3 de Setembro, e 533/77, de 30 de Dezembro, pela Lei n.º 21/78, de 3 de Maio, pelos Decretos -Leis n.os 513 -X/79, de 27 de Dezembro, 207/80, de 1 de Julho, 457/80, de 10 de Outubro, 224/82, de 8 de Junho, e 400/82, de 23 de Setembro, pela Lei n.º 3/83, de 26 de Fevereiro, pelos Decretos -Leis n.os 128/83, de 12 de Março, 242/85, de 9 de Julho, 381 -A/85, de 28 de Setembro e 177/86, de 2 de Julho, pela Lei n.º 31/86, de 29 de Agosto, pelos Decretos -Leis n.os 92/88, de 17 de Março, 321 -B/90, de 15 de Outubro, 211/91, de 14 de Junho, 132/93, de 23 de Abril, 227/94, de 8 de Setembro, 39/95, de 15 de Fevereiro, 329 -A/95, de 12 de Dezembro, pela Lei n.º 6/96, de 29 de Fevereiro, pelos Decretos -Leis n.os 180/96, de 25 de Setembro, 125/98, de 12 de Maio, 269/98, de 1 de Setembro, e 315/98, de 20 de Outubro, pela Lei n.º 3/99, de 13 de Janeiro, pelos Decretos -Leis n.os 375 -A/99, de 20 de Setembro, e 183/2000, de 10 de Agosto, pela Lei n.º 30 -D/2000, de 20 de Dezembro, pelos Decretos -Leis n.os 272/2001, de 13 de Outubro, e 323/2001, de 17 de Dezembro, pela Lei n.º 13/2002, de 19 de Fevereiro, e pelos Decretos-Leis n.os 38/2003, de 8 de Março, 199/2003, de 10 de Setembro, 324/2003, de 27 de Dezembro, e 53/2004, de 18 de Março, pela Leis n.º 6/2006, de 27 de Fevereiro, pelo Decreto -Lei n.º 76 -A/2006, de 29 de Março, pelas Leis n.º 14/2006, de 26 de Abril e 53 -A/2006, de 29 de Dezembro, pelos Decretos -Leis n.os 8/2007, de 17 de Janeiro, 303/2007, de 24 de Agosto, 34/2008, de 26 de Fevereiro, 116/2008, de 4 de Julho, pelas Leis n.os 52/2008, de 28 de Agosto, e 61/2008, de 31 de Outubro, pelo Decreto -Lei n.º 226/2008, de 20 de Novembro, e pela Lei n.º 29/2009, de 29 de Junho, passam a ter a seguinte redacção: ……………………”

Tirem-me daqui.

Reprise: A Bomba

Como não podia dizer melhor, cito o artigo de um economista da praça que sabe o que diz:

“O ponto de interrogação que paira sobre a dívida da República Portuguesa explica-se com uma mão-cheia de dados estatísticos: no 1.º trimestre, vencem 10 700 milhões de euros de dívida a curto prazo (Bilhetes do Tesouro, BT); em Abril, há quase 5 mil milhões a vencer a mais longo prazo (Obrigações do Tesouro – OT) mais uns 720 milhões em juros; em Junho, a conta calada atinge o seu pico: cerca de 5 mil milhões de OT mais 2 mil milhões de BT a vencerem nesse mês. No 2.º semestre de 2011, os compromissos caem para menos de metade dos da primeira metade do ano. (E, nos próximos quatro anos, as projecções de compromissos da dívida pública de Portugal ficam muito abaixo do ano de 2011). Logo: a nossa aflição financeira concentra-se no curtíssimo prazo, nos próximos 5 meses!

E é aqui que entra em cena o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF). Uma simples conta leva a concluir que, até ao fim da sua existência, em meados de 2013, o FEEF precisa de se reforçar em dimensão e em maleabilidade de intervenção, se quiser cumprir cabalmente o papel de dissuasor de ataques especulativos contra o euro através dos seus membros da periferia.

A melhor arma de dissuasão é aquela que, por ser tão esmagadora, acaba por nunca ter de ser usada. Para os credores se acalmarem quanto às parcelas mais expostas das dívidas soberanas tituladas em euros, é preciso que o FEEF ganhe o estatuto inquestionável de notação ‘AAA’. Mas isso implica, se toda a Zona Euro se quiser dotar de um mecanismo de apoio capaz de acudir a Portugal e à Espanha (se necessário), que o FEEF+contributo da UE27+FMI se dote de 540 mil milhões de euros disponíveis, quando dispõe actualmente de apenas 410 mil milhões. E, se quiser sinalizar que até a Bélgica e a Itália cabem sob este enorme guarda- -chuva financeiro, aí é preciso juntar mais um milhão de milhões, pelo sim pelo não.

Assim, quando Sarkozy e Merkel rasgam as vestes em público pelo seu querido euro, jurando que nunca o deixarão cair em desgraça, em resposta de Lisboa só devia sair o seguinte pedido: dêem o vosso acordo ao reforço financeiro do FEEF já na cimeira da próxima semana!”

19/01/2011

A MINHA DECLARAÇÃO DE VOTO NAS PRESIDENCIAIS PORTUGUESAS EM 2011

Após assistir à campanha eleitoral e de ouvir atentamente a discussão, pelos candidatos, das prioridades nacionais, cumprindo o dever cívico de optar pela minha escolha para presidente do Portugal actual, em baixo reproduzo o meu boletim de voto.

E deixo à imaginação do exmo. Leitor de qual será a minha escolha.

 

 

15/12/2010

MANEIRAS DE ESTAR NA VIDA

Filed under: António Botelho de Melo, Sociedade portuguesa — ABM @ 3:30 am

por ABM (15 de Dezembro de 2010)

Isto dava para um estudo em sociologia em como alguns vêem o mundo:

O tapete de entrada do meu apartamento em Cascais:

O tapete de entrada do apartamento de um vizinho:

Já uma vez falei com o vizinho e disse que aquilo estava mal colocado e levei um discurso em como é mesmo assim.

Portanto fui eu que não percebi.

O PORTUGAL DE UMBHALANE SENA

por ABM (14 de Dezembro de 2010)

Há uns tempos atrás, comprei num antiquário a imagem acima, que era para oferecer a um senhor que eu conheço, de origem indiana, chamado Fahrid.

Entretanto, a vida deu sete voltas e a velha imagem ficou dentro de um envelope, de onde a tirei outro dia, não sabendo já o que lá estava.

É uma imagem da cidade portuguesa de Diu, quando era portuguesa. Uma das cidades fortificadas que os antigos portugueses tinham por aí, para assegurar os seus negócios, a sua segurança e também para fazer valor aos reis portugueses o título adicional de “senhor do comércio e da navegação”.

A coisa de facto durou pouco. Os portugueses foram senhores da navegação e comércio por umas décadas no século XVI, e depois iniciou-se uma longa agonia, que durou quase uns quatrocentos anos, que incluiu a entrega de Bombaím (hoje Mumbai) e o Ceilão (hoje o Sri Lanka) como parte do dote pago a Carlos II para desposar a miserável Catarina de Bragança e assim oferecer vaga cobertura à então recentemente re-adquirida independência do reino de Portugal.

A Índia foi “britânica” durante uns anos, e os portugueses mantiveram-se nos seus pequenos enclaves de Diu, Damão, Goa, e dois territórios no interior chamados Dadrá e Nagar-Aveli.

Até que, de duas penadas, Nehru acabou com a fantasia.

Diu hoje aparentemente é pouco mais que um obscuro apêndice no colosso indiano, encostado lá em cima ao pé de um dos mais fecundos centros de negócios da Índia.

Um dos leitores deste blogue colecciona imagens de lugares e fortificações onde os portugueses antigos estiveram. Em Moçambique, tirando aquela ilha lá para cima, a maioria destas fortificações durou pouco ou nada, por esta ou aquela razão. E nem cidade alguma se formou em seu redor.

O que foi, para essa gente, viver ali, tão longe da sua terra?

Ou não era assim que pensavam?

Mal imagino que terá sido.

Ma por outro lado, se calhar dirão os mesmos de quem viveu em África até ao terceiro quartel do século XX.

27/11/2010

UM THRILLER COLONIAL

http://www.youtube.com/v/3gCtptcJY0I?fs=1&hl=pt_PT

(em cima: a 6ª Sinfonia de Tchaikowsky, Pathétique, sublimemente interpretada pela orquestra Hoshima, do Japão. Dura 49 minutos e vale todos eles, especialmente os primeiros 20 minutos.)

por ABM (27 de Novembro de 2010)

A minha crítica do livro O Anjo Branco, um romance histórico de José Rodrigues dos Santos.

Introdução

Para quem não acompanhou os eventos, o anúncio inicial, em Portugal continental, da publicação do mais recente romance, da autoria de José Rodrigues dos Santos (JRS) foi acompanhado de informações crípticas de qual seria o seu conteúdo e temática. Alguns desses dados foram sendo gradualmente revelados e reflectidos em textos que escrevi aqui, mais ou menos nesta ordem:

  1. que era sobre Moçambique;
  2. que era baseado na vida do pai do autor;
  3. que versava o que se pode considerar o período final da soberania portuguesa naquele território africano;
  4. que, sendo um romance, assentava em aturada pesquisa factual em torno de inúmeros aspectos desse período;
  5. que conteria informações “explosivas”, um “grande segredo”;
  6. que inovaria, na medida em que trataria numa nova luz a era e os eventos da época, procurando, pelo escrúpulo e objectividade dos factos coligidos, escapar ao conhecido fosso no que concerne a temas ainda considerados para todos os efeitos difíceis de reconciliar, como são as visões do que foi o colonialismo português em Moçambique, e a natureza do conflito armado desencadeado a partir de meados dos anos 60 no Norte de Moçambique.

E mais tarde,

7. que descrevia, em detalhe, um dos episódios hoje mais conhecidos (por alguns portugueses, essencialmente) desse conflito, o chamado Massacre de Wiriyamu, ocorrido em Dezembro de 1972 na localidade com o mesmo nome, situada nos arredores da cidade de Tete, no Norte de Moçambique, em que um grupo de comandos portugueses ( a 6ª Companhia) assassinou de forma bárbara um número considerável (mas parece que não inteiramente quantificado) de aldeões moçambicanos.

A abordagem desta temática – acompanhada de considerável conteúdo biográfico do pai do autor – é algo de novo para JRS, que nasceu e viveu até aos dez anos de idade em Moçambique e cujo pai trabalhou naquela antiga província portuguesa como médico.

Essa biografia foi de certa forma reconstruída, pois em entrevistas concedidas JRS concede que o pai praticamente nunca lhe falou dos eventos relatados à lupa no romance.

JRS, um jornalista que é conhecido em Portugal essencialmente por fazer regularmente, desde há alguns anos a esta parte, a locução dos noticiários num dos canais públicos da televisão portuguesa, teve algum sucesso até esta data como autor de um número de obras de ficção, cuja raiz mais aproximada é aquilo a que se pode chamar “literatura de aeroporto” – livros de mistério, mística e intriga, de fácil leitura, leves, acessível por parte de um mercado digamos que menos exigente.

Aliás a exploração com algum sucesso deste tipo de literatura, basicamente desconsiderada em Portugal pela sua fraca ou nula qualidade, e o seu posicionamento como um produto comercial de grande consumo, distinguiu JRS do que é considerado a norma no mercado livreiro português, na medida em que a forma e a tónica da comercialização das suas obras segue relativamente de perto, ou alinha-se adequadamente, à linha seguida, neste e noutros países, para obras deste género, como é caso com – salvaguardadas algumas abissais diferenças – Sidney Sheldon e Dan Brown, dois casos de sucesso nos Estados Unidos e no resto do mundo.

Por sua parte, generosamente, o autor mostra-se indiferente, ou melhor, não exibe grandes ilusões nem aparenta sentir-se minimamente perturbado, com a rotulação da sua obra como algo menos que bom, procurando, quando muito, a resposta a essa questão no relativo sucesso (à escala portuguesa) obtido com as vendas dos seus livros, o número de países onde é lido e o número de línguas em que as suas obras estão traduzidas.

Este é, notoriamente, um dos segredos mais mal guardados de JRS, que inclusivé numa interessantíssima e relativamente longa série de entrevistas gravadas para a televisão, com um número de autores, principalmente estrangeiros, em que se demonstrou bem preparado e até pessoalmente curioso, repetidamente prescrutou os seus entrevistados sobre as suas obras, como as viam, como se viam, como as concebiam, como as vendiam.

E se a escrita comercial era literatura ou não.

De longe, os entrevistados americanos, pouco afeitos às periclitâncias do meio cultural português, deram as melhores respostas.

Creio que, na essência do sucesso de JRS, residem dois factores primários e muito simples: 1) a especialização num segmento do consumo de livros em que já havia provas de haver mercado inclusivé em Portugal – a tal “literatura de aeroporto”, à la Dan Brown, Sidney Sheldon  e outros – e 2) a sua comercialização quase desavergonhadamente comercial e agressiva, envolvendo todos os grandes canais de distribuição, desde as FNACs até as prateleiras da cadeia de supermercados Continente. Com a imagem e o nome familiares do autor/leitor de notícias do Canal 1 da RTP à frente.

Puro marketing. E muito eficaz.

Mas que por si só diz rigorosamente nada sobre a sua escrita.

Isto para não referir a cobertura incomum dos sucessivos lançamentos por parte da comunicação social a um dos seus, que só alavanca mais o esforço da venda. Há umas semanas assisti, como já referi antes, à cerimónia de lançamento de O Anjo Branco na Sociedade de Geografia de Lisboa e aí notava-se a diferença com outras situações semelhantes: a audiência era a habitual pandilha dos amigos/admiradores/família, mas a imprensa que lá estava parecia que estava a cobrir o evento de uma estrela de rock. Fleugmático, e de forma correspondente, por sua vez JRS portou-se com a modéstia de uma.

Situação em que não é estranha, nem inocente, a fortuita circunstância do autor ser uma cara conhecida por milhões de potenciais consumidores por ler notícias no principal programa de notícias de televisão português. Digamos que uma obra incomparavelmente melhor, concebida por um discreto e até há pouco obscuro professor de história numa universidade pública em Maputo – João Paulo Borges Coelho – apesar de recipiente de um dos grandes prémios de literatura portuguesa (ou melhor, de língua portuguesa) não mereceu, por comparação, sequer uma nota de rodapé em termos de notoriedade.

O Tema e o Contexto

Apesar de volvidos 36 anos desde o golpe de Estado que liquidou a II República e cujos contornos fundamentais eram ser uma ditadura conservadora e defensora do prolongamento, sem data-limite, da soberania portuguesa nos territórios situados um pouco por todo o mundo, com destaque para Angola e Moçambique, e a subsequente substituição por um regime democrático de cariz parlamentar-partidário, até esta data, a exploração e contextualização dessa presença e ainda da chamada descolonização, continuam a ser tópicos de aceso debate em Portugal.

Anote-se que não é para menos. Não há qualquer paralelo, em novecentos anos de história portuguesa, de um processo tão violento e tão abrupto que afectou vários milhões de pessoas, o “retorno” à Europa de cerca de um milhão de portugueses e seus descendentes, perdas patrimoniais incalculáveis e nunca ressarcidas, e a independênca para perto de quinze milhões de africanos, processo que foi precedido por uma guerra que durou cerca de treze anos em três frentes completamente diferentes: Guiné, Angola e Moçambique.

Em Portugal, a atitude prevalecente em relação a esta temática é, apesar de centenas de milhares dos seus cidadãos terem sido compelidos a ir servir e combater nos teatros africanos, de uma quase total apatia e esquecimento.

Uma minoria, especialmente entre os antigos residentes nas antigas províncias africanas, alberga ressentimentos de vária ordem e intensidade, pese o facto de terem já decorrido praticamente quatro décadas desde o final dos eventos.

Creio que o sentimento geral, de parte a parte, é de que, em última instância, quer para os que viveram uma vida de róseas recordações, quer os que combateram principalmente na Guiné e em Moçambique, foi um absurdo de memórias boas e más, de oportunidades perdidas, de glórias e de sofrimento, de amizades perdidas. As antigas províncias seguiram o seu caminho, com todas as oportunidades e todos os problemas inerentes, e, especialmente nos dias que correm, parece que a nação portuguesa ainda não recuperou nem do trauma psicológico nem das consequências mais práticas de ter deixado de ser uma entidade económica e social multi-territorial e multi-cultural, com um projecto histórico centenário. Pois que o caminho seguido a seguir a 1974, simbolizado pelo “para a Europa, e em força” de Mário Soares, em Novembro de 2010, parece estar agora seriamente em risco, sem se vislumbrar um plano alternativo.

Foi neste ambiente que JRS publicou O Anjo Branco.

A história

A história acompanha o percurso, entre os anos 30 e o ano de 1973, de José Branco, desde algures em Portugal, até à sua retirada da cidade de Tete, onde serviu como médico e director do hospital local, na sequência dos eventos de Wiriyamu.

Nota-se que o autor fez um esforço considerável de prestar atenção aos detalhes dos diferentes contextos, desde os nomes, a geografia dos locais, e a linguagem. Em Moçambique, por exemplo, é utilizado abundantemente o linguajar local – o “Yeah”, o “maningue”,  o “tatá”, “matabicho”, etc – que poderão eventualmente impressionar quem conhece esses aspectos mais ou menos lúdicos da vivência local. Ou as marcas de cerveja e dos refrigerantes locais (deve-se ter esquecido da Tombazana, uma velha favorita minha nos recreios da minha escola primária, Rebelo da Silva) e eventos concorrentes com a altura em que decorre a narrativa.

Interessante, mas só isso, e pouco ou nada relevante para quem não conheceu essa realidade.

A estrutura da linha temporal da obra, sendo cronológica, é algo errática, na medida em que, havendo linhas narrativas paralelas – o autor não segue apenas o percurso do pai ficcionalizado, há a considerar o percurso de Diogo, um militar de terceira linha que é fundamental como a ferramenta privilegiada do autor para poder dar a dimensão pretendida ao seu relato – “salta” por vezes vários anos, presume-se que por economia de espaço ou falta de conteúdo. Assim, a personagem Branco casa-se no fim de um capítulo, e no início do capítulo seguinte já haviam passado vários anos. Sem quase qualquer informação do que acontecera entretanto, pelo que o leitor é forçado a presumir que nada aconteceu. Pois se nada foi reportado, só pode ser porque nada aconteceu.

Todo o relato e a evolução das personagens descritas pelo autor, facilmente se apreende, são uma relativamente complexa construção com um objectivo específico, que evolve e se dirige unicamente para um único palco espacial e temporal, uma circunstância fulcral, onde todos os elementos se reúnem: os eventos do massacre ocorrido em meados de Dezembro de 1972 nos arredores de Tete. Que é tratado mesmo no fim do livro, após uma espécie de pré-anúncio de entrada nas portas do Inferno, com uma citação da conhecida obra de Dante Alighieri, a Divina Comédia.

No processo, ao leitor é servido um cocktail de tipologias algo plastificadas, da humanidade que povoava a sociedade colonial moçambicana, vistas naturalmente duma óptica portuguesa – afinal, José Branco e Diogo são portugueses. JRS procura dar um vislumbre da algo inocente, ou ingénua, dolce vita do branco colonial, com a presença do inevitável criado doméstico, os variados funcionários da administração colonial, o agente da Pide, o comandante da PSP, os técnicos de Cabora Bassa, a tropa fandanga, a esposa perfeitamente estúpida, a aérea e inconsequente Mimicas, a boazinha e sacrificada enfermeira espanhola, e até a inevitável bifa boazona como o milho, desempoeirada, sexualmente disponível e entiçada pelo macho latino, casado ou não, na forma de uma estonteante rodesiana, que no fim se descobre que é uma cabra calculista e ainda por agente secreta dos rodesianos – e que, apesar das putativas intimidades, embrulha a personalidade José Branco com a Pide.

Apropriada a essa moldura criada por JRS, a estes coloniais se junta, quase invisível, a massa distante e miserável dos moçambicanos rurais, quase não entidades, deixados ao seu destino, apanhados entre dois fogos, entre a tropa fandanga portuguesa que, à excepção dos comandos (que é descrita como uma tropa especial) JRS caracteriza quase comicamente, e a eficácia silenciosa dos guerrilheiros da Frelimo (os “turras”). Que, como consta no registo histórico, a partir da operação Nó Górdio em 1970, concebida pelo general Kaúlza de Arriaga, o novo cônsul de Marcello Caetano, desviaram a sua atenção e actividade guerrilheira de Cabo Delgado para a zona de Tete.

Naturalmente, não é por acaso que essa massa de gente miserável do mato era invisível para todos menos menos para uma pessoa: a pessoa do pai ficcionalizado, José Branco, que inclusivé cria, tal como o pai real do autor, o Serviço Médico Aéreo, nome um tanto aguerrido para um teco-teco que percorria com uma enfermeira os confins de Tete semanalmente, para acudir de forma minimalista as populações isoladas no mato (muito melhor do que nada,  que era o que havia antes, diga-se).

Finalmente, no relato de JRS, o ingrediente da consciência da nascente nação e das coisas para vir, corporizada na personagem de Domingos Rouco (outro decalque da realidade, desta vez do conhecido Dr. Domingos Arouca, uma figura de referência da história de Moçambique), a correia de transmissão da realidade eminente e do que “realmente” se estava a passar na saga da guerra colonial, para o algo ingénuo Dr. Branco (e por essa via para o leitor mais incauto, e por extensão, à parte de leão da elite colonial).

E a conclusão do relato no desenrolar de eventos que culmina com o massacre das gentes que viviam em Wiriyamu, que – a verdade seja dita, para a ditadura foi essencialmente um muito sério problema de relações públicas, por coincidir com uma visita de Estado que Marcello Caetano fez a Londres em meados de 1973.

Mas Wiriyamu foi mais que isso, claro. Muito mais . Por razões pouco plausíveis, matou-se muita gente inocente à toa.  Poderá ser fácil para muitos a relativização deste episódio, especialmente numa era como a que vivemos, em que se assistiu a episódios como o massacre de 11 de Setembro nos Estados Unidos, os terríveis massacres na Bósnia-Herzegovina ou a casa de horrores que foi o Ruanda em 1995, apenas para mencionar alguns. Mas este – Wiriyamu – foi “nosso” e perpetrado no “nosso” tempo. Por si só isso deveria ser alvo de reflexão. E motivo para a expressão de pesar e de respeito pelos mortos.

Mas o leitor nunca encontrará esta úlima aferição – que é minha- na obra de José Rodrigues dos Santos.

Crítica

Tendo vivido em Moçambique até aos 15 anos, e tendo a esta hora já quase uma vida de leitura dos factos históricos detalhadamente aludidos na obra O Anjo Branco, confesso que, para mim, a leitura deste livro infelizmente ressacava de déjà vu. Por mais vezes que eu gostaria de o ter feito, encontrava-me, paralelamente à leitura do enredo, a “picar” mentalmente os locais, os termos, os trajectos, se isto ou aquilo era exactamente como JRS descrevia. E quanto a isso devo dizer que, no cômputo geral – louvado seja – ele fez mais ou menos o trabalho de casa. Mas, não sendo um revivalista nato,  achei aquilo um tanto chato. Uma distracção, até. Tudo parecia artifical, uma re-criação. Um mero artifício.

Pelo contrário, passei o tempo a interrogar-me como é que alguém que não viveu Moçambique nos anos 60 e 70, irá alguma vez entender o alcance, o detalhe, o significado de todo aquele artilhado de referências. E chego à conclusão que, no essencial, aquilo tudo é basicamente irrelevante, ou melhor, pouco relevante. Especialmente se esse hipotético leitor não for português ou moçambicano (a 24 euros em Portugal a cópia, boa sorte aos meus amigos moçambicanos…) os únicos que poderão entender mais aproximadamente os significados explícitos e implícitos das múltiplas referências.

A sensação de déjà vu percorre ainda a maior parte do relato. Quem estudou a história recente de Portugal, ou quem foi contemporâneo dela, ao ler esta obra estará condenado também a ir “picando” a sequência de eventos em ocorridos naquela altura. Possivelmente interessante para quem não sabe, chato que baste para que, como eu, está careca de saber.

Retirado isso, fica a primeira grande crítica ao que li: o enredo, por si só, é interessante apenas e unicamente por uma razão, e mesmo assim só marginalmente: porque JRS o jornalista estrela da RTP e escritor com algum sucesso nos avisa previamente que aquilo é aproximadamente decalcado do percurso feito pelo seu pai, o Dr Rodrigues dos Santos. Que ao dinamizar a iniciativa do Serviço Médico Aéreo em Tete só pode ser alvo de merecido aplauso. Mas mesmo aí só isso. A personagem descrita no livro é menos que interessante, tem uma tipologia algo bi-dimensional. Sendo a principal do enredo, no fundo é apenas mais uma de um novelo de pessoas que fazem a história ali contada. Não é heróico, não sofre, não faz quase nada de inusitado, entra e sai de cena sem que o leitor sinta que está na presença de alguém invulgar, ou alguém que fez algo de excepcional. Como há uns dias escreveu um exmo. Leitor, pessoas como ele (o pai do autor na vida real) houve-as às dúzias, parecendo quase uma injustiça apontar os feitos desta e ignorar os dos outros todos.

Por outro lado, por definição, sendo o enredo quase matematicamente decalcado duma realidade bem conhecida de quem proventura estiver familiarizado com a realidade moçambicana nos anos 60 e 70, não é, não pode ser um thriller à moda das obras anteriores de JRS.

Nem há ali qualquer revelação incandescente sobre seja o que for.

Portanto, O Anjo Branco nem é um thriller, nem é o herói da história um herói.

Sendo assim, esta obra é então o quê?

A resposta é fácil. Eu creio que JRS se enganou, ou foi enganado, quando supôs, ou quando lhe disseram, quando se convenceu, que a história do seu pai, do seu percurso feito em Moçambique, que culminou com o seu muito breve cruzamento com a tragédia de Wiriyamu em Dezembro de 1972, era uma história interessante ao ponto de merecer – mesmo ficcionalizado – um livro de quase setecentas páginas.

Com todo o devido respeito pelo Sr. Dr. Rodrigues dos Santos e tudo o que fez, não merece.

Ou então, apesar de introduzir o alegórico permitido pela ferramenta da ficcionalização, JRS simplesmente não conseguiu adicionar a dimensão épica, emocional, moral, ao seu texto, que assim se lê um pouco como se vê um documentário da National Geographic sentado em casa em frente ao televisor.

Por falta de melhor justificativo para a razão de ser desta obra no contexto do que JRS é e já fez, o que acabo por magicar é que, talvez subrepticiamente, o filho escritor quis heroificar e honrar o pai médico-aviador com um livro evocativo, para o que aliás se dispôs a calcorrear os confins de Portugal e de África e entrevistar toda uma série de pessoas (algumas das quais apresentou nominalmente na Sociedade de Geografia de Lisboa), coligindo um sem fim de dados, para no fim tentar fazer aquilo que até agora tem tido algum sucesso a fazer: conceber um thriller com um herói.

A leitura desta obra coloca outra questão que abordarei apenas como referência pois já escrevi antes em detalhe mais do que suficiente sobre isso: a ficcionalização ali contida. Só que na altura em que considerei o tema da ficcionalização, fi-lo no abstracto, sem haver lido o texto. Agora que já li, a questão é mais paradoxal, na medida em que o que encontrei foi uma ficção completamente assediada pela realidade dos factos. Imagino que a personagem Diogo seja uma mera ferramenta literária para suportar a explanação, pelo autor, do enredo. Ele é a mosca na parede que vê o que outros não podem ver. Mas mesmo essa personagem serve essencialmente para transmitir factos. E mesmo que este ou aquele facto, ou situação, ou contexto sejam errados para quem está dentro deles, o autor poderá sempre recuar e dizer que essa parte foi ficcionalizada. O leitor mais informado fica assim cercado pela argumentação.

E, pessoalmente, considero esta uma situação que perturba e é por isso que não gosto de ler os chamados “romances históricos”.

Permita-me o exnmo. Leitor dar um exemplo claro do que falo. Há uns tempos atrás enganei-me completamente (acho que fui ludibriado, na verdade) quando comprei a obra Catarina de Bragança, da autoria de Isabel Stilwell, que é um dos pequenos best sellers portugueses recentes e que pensava eu que contava a história da desgraçada filha de João IV que, após a chamada Restauração em 1640, por razões de Estado, casou, mediante o pagamento de um formidável lobolo, o monarca britânico da altura, o incorrigível Carlos II, ele por sua vez “restaurado” no trono depois da breve (e única) fase republicana britânica, liderada por Oliver Cromwell. Já li que baste sobre esta era, mas achei que seria interessante reler a história na versão stilwelliana. Bem, apesar da capa deste livro nada indicar (ao menos a capa de O Anjo Branco indica que é um romance) afinal aquilo era um “romance histórico”, em que Isabel Stilwell permite-se, e quer-nos fazer crer, que estava lá, que sabe, a todo e qualquer momento, o que se passou e o que ia na mente da desgraçada Catarina, da família real portuguesa e de todos os que os rodeavam. Eu achei aquele relato pouco credível e essencialmente insuportável, pois eu queria a verdade ou uma aproximação dela, não o romancear delirante e bem intencionado da Isabel, transplantado para a filha de João IV. Mas estes dias este tipo de literatura anda muito na moda. Eu bem que tento de fugir dele, mas neste caso fui enganado.

De forma mais atenuada, a obra de JRS sofre do mesmo problema.

O Anjo Branco foi também comercializado com a argumentação de que apresentava as coisas de uma nova maneira, um novo olhar sobre a história portuguesa (e moçambicana) recente, mais fria, mais objectiva, mais distanciada das ainda luzentes disputas ideológicas em relação ao julgamento feito da História. De facto, na minha leitura, constatei que JRS deve ter prestado tanta ou mais atenção, e dispendido tanto ou maior esforço, a contar uma estória que fosse tão isenta de julgamento, tão politicamente correcta, tão factualmente incontroversa, quanto aparentemente prestou, e dispendeu, a agregar os miríades pequenos detalhes da vida e dos locais onde se desenvolve o enredo. Isso tem a virtude de o colocar bem na imagem – o politicamente correcto é uma maneira de estar na vida, especialmente em Portugal, especialmente para um popular apresentador de televisão – e de concretizar algo verdadeiramente insólito: o de ter sido capaz de escrever um livro de setecentas páginas sobre o tempo colonial e a guerra em Moçambique, e provavelmente de a obra ser inatacável por parte das várias correntes portuguesas actuais em relação ao tópico, e até da prevalecente doutrina moçambicana em relação ao assunto.

Isso sim, é que foi obra.

Só não sei se, nessa óptica, seja obra que interesse ler. O politicamente correcto tende a não ter paixão, tende a acinzentar a realidade. Tende a corroer e a dissolver as arestas e os contrastes que pessoalmente eu gosto de ler. Prefiro ler Samora e Marcelino, Jorge Jardim, Caetano e Kaúlza de Arriaga e decidir por mim quem tem razão, e quem está a mentir.

Mas se calhar sou só eu a sentir isso.

O Mangalho de José Branco

Para encerrar esta nota que já vai longa, gostava de abordar, à laia de “assuntos quixotescos diversos”, o mangalho de José Branco, assunto que JRS usou como gracejo em mais de uma entrevista que concedeu.

A verdade é que o primeiro capítulo de O Anjo Branco é apenas sobre duas coisas: 1. o nascimento da personagem decalcada da do seu pai, e 2. o descomunal, incontornável, indesmentível, embaraçoso, enorme tamanho do seu pénis. Sendo a obra “realidade ficcionada”, toda a gente logicamente ficou na dúvida se aquilo do mangalho do futuro Dr. Branco era baseado no respectivo órgão do pai de JRS ou se era apenas uma figura de estilo do autor para alguma coisa que tivesse que ter com o contar da história. JRS foi soberbamente evasivo e até gozou com os jornalistas que lhe fizeram a pergunta, que, rindo, estupidamente, deixaram a questão ficar por ali.

Só que a questão é pertinente e constitui um mistério, não tanto porque o herói da fita inspirado na figura do pai tivesse um “monstro” entre as pernas, mas, mais relevante, porque é que JRS achou que aquilo era um assunto mencionável no contexto da obra. É que, da leitura do texto, emerge que o “monstro” parece que afinal não serviu para nada, nem tem praticamente qualquer relevância no enredo. A todos os títulos, a personagem criada por JRS aparenta ser uma pessoa absolutamente normal, que nada fez de extraordinário, certamente não era um James Bond que embananava uma mulher em cada esquina. Aliás, fica-se com a dúvida se a mentalmente indigente Mimicas, a mulher de José Branco, alguma vez viu o “monstro”. Para além da estrondosa aparição no início do texto, esta referência só aparece mais duas vezes, algures durante a adolescência e (o leitor decida o que fazer disto) na passadeira da igreja a caminho do altar, para Branco se casar com a patética Mimicas.

Nesse ponto, pensava eu que era aí que se justificaria a honrosa menção: a noite de núpcias que teria que se seguir ao enlace matrimonial, e que seria para JRS a oportunidade de, com base na precedente referência, fazer o equivalente do Canto Nono de Os Lusíadas, o tal em que os professores no meu tempo de liceu ficavam embasbacados a tentar explicar o que eram e o porquê daquelas orgias lírico-sexuais inventadas pelo poeta Luis de Camões.

Só que nada disso acontece. O Dr. Branco casa com a Mimicas depois nada. Como em Loch Ness, o  “monstro” simplesmente desaparece para nunca mais ser visto. Nem mesmo quando o Dr. Branco se enrola repetidamente com a apetecível rodesiana em Lourenço Marques e algures no Norte, no chão e no ar.

Ou seja, aquilo é tão despropositado, tão fora de contexto, que fica ali, literalmente…pendurado.

JRS lá saberá o que aquilo significa. Mas seria bom se quem lesse, também percebesse.

Em resumo

Esta obra prova que José Rodrigues dos Santos devia centrar-se no tipo de livros que fez antes deste.

O Anjo Branco é legível, pode até ser interessante para algumas pessoas. Mas não está em linha com a obra anterior de JRS. Não é nem um thriller nem sequer uma tentativa de épica. E sofre de uma atroz falta de dimensão humana e de alguns constrangimentos que a meu ver a aproximam apenas de uma estória mais ou menos bem contada, sabendo perigosamente a um mero script de cinema, faltando-lhe a emoção, o empenho, o partidarismo, o drama que caracterizou aquela fase da vida dos portugueses e dos moçambicanos. Focando num dos episódios registados mais tristes da guerra colonial, talvez no afinco em manter a neutralidade politicamente correcta em relação a um tópico ainda rodeado de paixões, o autor apenas a descreve analítica e distanciadamente, passando por cima do horror e injustiça abjecta que o massacre representou.

Fica a homenagem tentada, implícita, ao pai de JRS – a todos os títulos um bom homem, a quem ele, juntamente com a mãe, dedica a obra.

E aqui fica a minha homenagem – às vítimas de Wiriyamu.

25/11/2010

A GREVE GERAL EM PORTUGAL

Esperei até agora para tentar perceber o que se passou em Portugal hoje.

E o que concluo é que se passou muito pouco.

Eu explico porquê.

Aparentemente, cerca de dois terços dos funcionários públicos portugueses, e menos que dez por cento de quem trabalha no sector privado, fez greve hoje para – supostamente – protestar contra as medidas relativamente severas, ou pelo menos inéditas, que vão ser adoptadas pelo governo a partir de Janeiro de 2011.

Medidas como cortes salariais, mais impostos directos, mais impostos indirectos, menos direitos. maior precaridade (menos no sector público, isto é).

Mas, na prática, o dia decorreu muito como uma espécie de feriado nacional. Quando muito, mais sorumbático.

Na imprensa escrita e pelas televisões, desde as sete horas da manhã, os jornalistas percorreram empresas e serviços públicos a ver quem estava ou não aberto. Uns estavam, outros não, o que não dava por si só margem para se fazer uma ilacção. Os líderes sindicais fizeram o seu melhor para pintar a imagem de um glorioso protesto. Mas não convenceram. Pelo menos, não me convenceram.

O que me chocou foi a mais do que aparente falta de entusiasmo, onde quer que se olhasse. Pelo contrário, o “protesto”, se é que tanto, soube mais a conformidade e desalento pela situação actual, que raiva ou indignação.

Ao fim da tarde, o governo, na pessoa da sua ministra do Trabalho, limitou-se a descontar os efeitos da greve, práticos e políticos. A meu ver um erro, pois podia-se limitar a reconhecer a existência de um sentimento geral de descontentamento.

Mas foi o que fez.

Ao fim do dia, os comentaristas da praça ruminaram pouco sobre o assunto, talvez porque havia pouco sobre o qual ruminar. Aliás, durante todo o dia, os noticiários indicavam que as taxas de juro da dívida portuguesa estavam novamente acima dos sete por cento. Que as bolsas estavam em queda. Que o horror na Irlanda era de facto assustador. Que a sombra do que por lá se passava se podia projectar sobre Portugal. A imprensa anglo-saxónica, como é costume, gritava que Portugal estava a seguir à Irlanda. Que vinha aí o FMI.

Salientou-se mais do que uma vez que 2011 vai ser um horror.

Portanto a questão coloca-se: tirando assinalar-se a prática de um direito democrático etc e tal, tirando estar-se a exercer o direito a protestar contra o que o governo está a fazer, tirando que se observa a uma palpável deterioração na situação económica e, quase certamente, social, qual foi o efeito real desta greve geral?

Tanto quanto se sabe, o governo não pode recuar: está a gastar demasiado e não tem as receitas para custear a máquina estatal. Já aumentou os impostos de várias formas, numa tentativa para diminuir o défice. Mas não está a conseguir fazê-lo.

O que é que o governo pode dar?

O que é is sindicatos querem, ou podem, extrair do governo?

Em ambos os casos, a resposta é: nada, ou quase nada.

Sendo pouco menos que tépido, o protesto nem sequer convenceu.

Dou uma base de comparação, que foram os protestos em Moçambique a 1 e 2 de Setembro último. Nesse caso, por todas as razões e mais alguma, o protesto fez com que todos parassem para pensar. Teve impactos claros, especialmente pela percepção da violência e do descontrolo (mais do que a realidade, até). As pessoas, os políticos, discutiram, medidas foram tomadas.

Houve consequências.

Da greve geral de hoje, em Portugal, para já, não se prevêem quaisquer consequências.

E não alterou o que já se sabia.

Que todos terão que apertar o cinto.

Que isto é o começo de um mau período.

Que não há volta a dar.

E que ninguém gosta do que está para vir.

13/11/2010

O FACEBOOK E OS VÁRIOS MOÇAMBIQUES

por ABM (13 de Novembro de 2010)

A minha amiga Patrícia do Facebook mandou este vídeo do sinopse de uma vida no Facebook. Se o exmo. Leitor ainda não está lá, bem, enfim….ali é diferente.

Eu ainda mal sei mexer na minha conta, aberta por causa desta Casa há uns meses (havia um acesso facilitado ao Maschamba via o tal de Facebook). Durante a maior parte desse tempo, eu tinha vinte “amigos”. Portanto quando o JPT me contactou um dia e me propôs apresentarmos os respectivos um ao outro, eu pensava que eu lhe apresentaria os meus vinte amigos e ele me apresentaria os seus vinte amigos.  Para tal, lá consegui preencher meia dúzia de banalidades sobre mim (quando nasci, onde estudei, coisas desse género) e colocar uma fotografia mais ou menos tal e coisa aqui do rapaz para a rapaziada ver.

O que eu não sabia é que o JPT tinha 3.402 amigos. Assim, durante duas semanas, o meu computador de linha branca com nove anos e dois upgrades esteve perto de pifar umas dez vezes.

Tem sido interessante adaptar-me a este novo mundo dos conhecimentos alargados. O nível do diálogo tem sido supreendentemente sério e culto, sem grande peixarada, atravessando as barreiras culturais, geográficas e temporais. E de facto sinto que tenho algum vislumbre de com que dialogo – e vice versa.

Obviamente que a socio-biologia de quem está no Facebook é relativamente específica. Para além de ser tendencialmente monolingual – 99.9% de com quem me relaciono escreve em língua portuguesa – afinal só lá está quem tiver requisitos específicos: um computador, ligação à internet, literacia informática suficiente para navegar nos meandros da internet e dinheiro para sustentar isto tudo.

Apesar desses elementos limitativos, a relativa minoria moçambicana presente na internet é vibrante e genuína. Pode-se, portanto, assim dizer que, para quem quiser, hoje há um bocado de Moçambique em toda a parte.

Aliás, mais do que um Moçambique. Frequentemente, assisto a um curioso convívio do Moçambique actual com o Moçambique que foi. Muitos dos que viveram naquele país até à Independência, e que depois saíram digamos que abruptamente e em alta velocidade e sem olhar para trás, e que na esmagadora maioria dos casos perderam o rasto dos amigos e conhecidos, de repente estão a reatar essas convivências, mesmo que residualmente. A maior parte claramente parece que está noutra onda completamente diferente, mas sinto que vibra com as recordações da sua juventude africana e partilha o que à primeira vista parece ser a mesmíssima sub-cultura que os diferenciou, no caso de Portugal, enquanto “retornados” – não o sê-lo, mas está-lo. Ou melhor, a sua maneira de estar.

Mais curioso é o conjunto (mais pequeno) dos que viveram em Moçambique depois da Independência e que expressam o mesmíssimo apreço pelas suas recordações, mas neste caso no contexto dos tempos revolucionários e do braço no ar.

Mas há lá de tudo, incluindo este blogue, claro. Até o meu amigo, o Sr. António Rita Ferreira, que estudou Moçambique uma vida inteira, e que amanhã completa 88 anos de idade, passou a ter a semana passada (mea culpa) a sua página pessoal no Facebook (sob o seu pseudónimo literário, António Rita-Ferreira).

Se o exmo Leitor ainda não experimentou o Facebook, vá lá ver. É grátis e não engorda. E pode ser que nos encontremos lá.

10/11/2010

JUROS DA DÍVIDA PORTUGUESA A SETE POR CENTO

por ABM (11 de Novembro de 2010)

A canção acima, dedico ao Manuel Petrakakis, do Restaurante da Costa do Sol, como eu apreciador de Frank.

O título, a José Sócrates.

25/10/2010

ANTES DA FESTA, OS TEMAS BÁSICOS

Filed under: Saúde, Sociedade portuguesa — ABM @ 3:30 am

Sinal internacional que indica a proximidade de um hospital.

por ABM (25 de Outubro de 2010)

Estes dias vivem-se em Portugal momentos de reflexão pré-Orçamento do governo central para o ano de 2011, documento esse que estará a ser negociado à porta fechada entre grupos nomeados pelo PS e pelo PSD.

Já está mais ou menos assente que esse orçamento não vai reflectir qualquer visão para o futuro dos portugueses ou do desenvolvimento do país.

Na realidade, vai ser mais um exercício contabilístico do desespero à última hora e da oportunidade política, que já não vai a tempo de evitar uma recessão em 2011 cujos efeitos são ainda imprevisíveis.

Na face de um regime de Ali Babá e os 40 Ladrões e dívidas e despesas monstras e ainda a ameaça do corte dos continuados financiamentos lá de fora, agora os débitos têm que se aproximar dos créditos, algo que em quinze anos seguidos de nacional porreirismo Socialista (e até certo ponto social-democrata) não aconteceu e que só agravaram perigosamente após a hecatombe internacional em finais de 2008.

Para além da possibilidade de coisas inacreditáveis como a eliminação das deduções da matéria colectável nos impostos das despesas com a educação e a saúde, e a apropriação do Estado dos Fundos de Pensões para estoirar a tapar os buracos imediatos, fico quase boquiaberto que até na área saúde, que em Portugal é supostamente garantida a todos os cidadãos mas que anda a descambar perigosamente, esse acesso está-se a tornar cada vez mais dúbio.

O que é curioso, se se tiver em conta que esse acesso terá sido uma das grandes bandeiras do pós-25 de Abril e um dos grandes responsáveis pelo quase assombroso melhoramento nas estatísticas de qualidade de vida dos portugueses.

E que é uma medida inconstestavelmente Socialista.

Ou seja, sem dinheiro e aparentemente sem ideias e sem princípios, é a própria República Socialista que contribui para abalar um dos seus mais visíveis pilares. Pois parece que essa área tem muito que se faça para melhorar mas não se fez e agora não há dinheiro.

Neste contexto, achei refrescante ver as declarações do Senhor Tony Benn, parte dum notoriamente tendencioso documentarista americano. Ele, um esquerdista convicto, estava lá quando o Reino Unido introduziu o sistema nacional de saúde britânico em 1948. E explica o que foi, como foi e porque foi.

Mais importante, um pouco como em Portugal, ele refere algo importante sobre o Reino Unido, que por vezes se esquece no luso rectângulo: há muito que esta questão deixou de ser uma bandeira de esquerda ou de direita.

Algo que alguns lobbies portugueses parece que ou não se aperceberam ou, pior ainda, não querem perceber.

E o velho Benn ainda diz algo relevante sobre o que é uma democracia e como deve funcionar.

Neste dias que correm, é sempre salutar rever os temas básicos.

Um senhor no Iútube fez o favor de traduzir. Sofrivelmente e em pós-ortografês.

04/10/2010

VíDEO OFICIAL DE CEM ANOS DE REPÚBLICA

Pessoa colorido por ABM no dia 4 de Outubro de 2010

por ABM (5 de Outubro de 2010)

Esta vinheta é dedicada a todos os nobres republicanos que há cem anos fizeram o favor de conspirar para matar o rei e o seu primogénito e a seguir tomar o poder em Lisboa, para destruir o nefasto regime monárquico e assim assegurar o melhor progresso da nação e a segura protecção das suas colónias.

É também dedicada a todos os que andaram todo este ano a mastigar as virtudes da república, a exaltar os podres da monarquia, a fazer programas e debates e ainda aquele indescritível romance na Érretêpê (em HD) a glorificar os assassinos do regicídio, a dourar e a envenenar a pílula republicana.

Ah, e aquela bandeira. E aquele hino. Foi inspiração divina.

Obrigado a todos. Obrigado. Muito obrigado. Estou mais esclarecido. Sinto hoje, agora, que pertenço.

E se tudo isso tivesse funcionado eu em seguida diria que sim, que estou convencido que tudo isso foi bom e para o melhor de todos nós. Sim, em meu nome pessoal e o do que resta da minha família (o cão e a avestruz contam?) sei que sem a República o que teria sido de todos nós nas mãos desses Braganças. Certamente que teria sido uma sucessão de episódios de corrupção, de escândalos, défices, a perda das colónias, ditaduras, guerras, pobreza sem remédio, tachos para os amigos, uso dos fundos de pensões para tapar buracos, emigração nos milhões, a moeda a perder o valor, militares a intervir no poder, a proibição do divórcio e a manutenção da educação nas mãos dos Maristas, dos Salesianos e outras perigosas seitas católicas.

E – cruzes canhoto – o IVA a 23 por cento.

Mas assim, e felizmente – e graças à República, o Bem de todos nós foi bem gerido e preservado, especialmente agora que se encontra nas sábias mãos dos descendentes dos Golpistas Fundadores, empenhados no Grande Experimento Socialista-ecológico do século XXI. O meu pai sempre disse que filho de golpista é bom golpista. Sei que estamos no bom caminho. Sinto que estamos quase lá.  E até já vejo a luz lá no fundo do túnel. É bela.

É cor de rosa.

Só queria dizer isto.

Mais importante, e finalmente, aqui comemoro esta efeméride  portuguesa, na certeza de que felizmente não estarei vivo para assistir ao segundo centenário e assim ter que ouvir outra  vez a mesma coisa junta e ao mesmo tempo. Não sei se aguentaria.

Alegrem-se as almas: 6 de Outubro, here I come.

Vem aí a crise.

Toque-se, então, o vídeo comemorativo.

VIVA A REPÚBLICA.

http://www.youtube.com/v/9RBCxjZGczE?fs=1&hl=pt_PT

02/10/2010

REZA VS. NÃO REZA

Filed under: Religião, Sociedade portuguesa — ABM @ 4:34 pm

por ABM (2 de Outubro de 2010)

Segundo um estudo do European Social Survey, recentemente publicado no Economist, extrapolado com base em dados de 2008, revelam que 25 por cento dos portugueses nunca vão à missa, o que coloca os lusos a meio das tabela dos europeus entrevistados, e em que, num extremo, quase 100 por cento dos cipriotas vão regularmente à missa (devem ter contado só os do lado grego da ilha, já que os outros são muçulmanos) e dois terços dos checos não metem lá os pés.

Significa isto que os outros 75 por cento dos portugueses vão à missa? ou esta faz parte daquelas situações em que todos dizem que são católicos e todos dizem que vão à missa mas depois na prática não é assim?

24/09/2010

A BOMBA INTERGERACIONAL

Filed under: Frank Sinatra, Sociedade portuguesa — ABM @ 4:49 am

O que diz o estudo da OCDE

Um dos problemas da presente “crise” é a aparente dificuldade de muitos em entendê-la, quer pela – nalguns casos – dificuldade técnica em digerir alguns dos seus fundamentos, quer pela dieta ideológico-identitária que lhes cinge a visão das coisas.

Há uns tempos, a revista The Economist, que de vez em quando destila aqueles relatórios que poucos ou nenhuns lêem, apresentou o quadro acima.

O quadro apresenta três informações interessantes.

À esquerda, mostra, para cada um dos principais países da OCDE (com particularidade de incluir Portugal, que, apesar das más línguas, está nos top 30 do mundo em muitas das estatísticas) a idade em que, nesse país uma pessoa se tem (pode?) reformar e passar a receber uma pensão de reforma.

Em Portugal, por exemplo, uma pessoa pode reformar-se aos 65 anos de idade.

A seguir, a barra azul de cima mostra, para os anos entre 1965 e 1970, com base na idade mínima obrigatória para a reforma, o número de anos que, com base na expectativa de vida das pessoas, alguém em média ficava a receber uma reforma.

Em Portugal, por exemplo, uma pessoa que se reformava nessa altura (entre 1965 e 1970) em geral recebia uma pensão de reforma durante uns quatro anos. E depois morria.

Por baixo, vê-se a barra côr de laranja a mesma estatística mas para os anos entre 2002 e 2007.

Em Portugal, por exemplo, uma pessoa que se reformava nessa altura (entre 2002 e 2007) em geral deverá receber uma pensão de reforma durante uns dezasseis anos antes de, pelo menos estatisticamente, morrer.

Agora faça-se umas contas de cabeça.

Entre 1965 e 1970, as pensões de reforma eram baixas por comparação com hoje. De facto, eram quase caricatas.

E o número de reformados não excedia cerca de duzentos mil (estimativa minha com base no dedo no ar).

A população activa já era de cerca de 4.5 milhões de pessoas.

Fazendo as contas, em 1970, para cada reformado haviam 22,5 pessoas a trabalhar e a pagar impostos.

Com as mudanças vindas com a troca de regime político em 1974, sobre todos choveram direitos, a que necessariamente teve que corresponder a obrigação de os custear.

E de entre esses, poucos foram tão descaradamente abusados como o do “direito” à reforma.

De facto, em Portugal, as reformas tornaram-se um verdadeiro negócio da China. Uma empresa que se quisesse discretamente ver livre dum empregado, mandava-o para a reforma aos 40 e aos 50 anos de idade, sem qualquer dificuldade. Quase todos os dias, os jornais portugueses publicam dados, com nomes e valores, de pessoas que têm uma, duas, três, quatro reformas – ao mesmo tempo – contabilizadas de forma no mínimo bizantina. Algumas das regras eram simplesmente inacreditáveis.

E no caso dos políticos e afins, o descalabro era e parece que continua a ser, bem, simplesmente obsceno.

Lembro-me de um caso duma secretária da Assembleia da República portuguesa que, para se aproveitar duma regra que baseava a sua futura reforma no salário que auferiria no último ano de emprego, arranjou maneira de ser nomeada assessora duma coisa qualquer nesse ano, cargo pago a peso de ouro, e doze meses depois era como se lhe tivesse saído o euromilhões.

Mas, por mais imorais que sejam essas situações – se os problemas fossem só esses não seria tão grave.

O que agrava a situação é que, hoje, Portugal hoje em dia tem cerca de 2.9 milhões de reformados – e o número continua a subir.

Reformados que – felizes eles e desgraçados os contribuintes – levam em média dezasseis anos a morrer.

E que – infelizmente para os reformados – em média recebem umas pensões de reforma miseráveis – ente 300 e 400 euros por mês.

Mas os números não omitem a realidade: hoje, cada 1.6 pessoas que trabalham (e esses continuam pelos 4.6 milhões) sustentam um reformado.

Por quatro vezes mais tempo do que acontecia há quarenta anos.

Com a bolha financeira pública prestes a explodir, este assunto vai ter que ser resolvido. Da forma mais difícil.

A maneira mais fácil será subir a idade a partir da qual se pagam reformas para os 75 anos de idade.

Dessa forma, a maior parte das pessoas morrerá (provavelmente de fome e de doença) antes de poder ir buscar o seu primeiro cheque à segurança social. Salvava-se o estado, mas para muitas pessoas seria uma verdadeira calamidade. E presumo que seria considerado politicamente inaceitável.

A outra seria subir os impostos a toda a gente uns dez por cento, colocando a fasquia fiscal na estratosfera a nível mundial. Já está a acontecer.

À partida, o gráfico acima indica que, estando entre os piores casos a nível da OCDE, Portugal não é o pior caso.

Mas isso não serve de consolo. Com os problemas dos outros podemos nós todos, não é?

Aliás, com as pressões sobre os orçamentos da saúde, da educação e até da defesa nacional (agora ninguém quer sequer pagar o maldito do submarino) e a dívida pública e privada a atingir o insustentável, o problema de como encarar a questão das reformas e como funcionam em Portugal, tende a ser menosprezado.

Mas para mim, que tenho 50 anos de idade, a questão é muito simples.

A minha geração andou uma vida a pagar reformas muitas das quais não foram descontadas, e algumas certamente não foram merecidas. E quando chegar a nossa vez, vamos receber uma miséria, tardiamente, e por pouco tempo.

Aquilo que pouparmos entretanto, seja dinheiro no banco, imóveis ou acções, já está a ser e continuará a ser cada vez mais impenitentemente taxado até se acabar, para financiar os faraónicos programas dos sucessivos governos e as suas obrigações pecuniárias.

E, simplesmente dito, ou os nossos filhos não vão ter como nos sustentar na velhice.

Ou não vão querer fazê-lo.

Portanto, exmo. Leitor, siga este parco conselho:

Sorria e goze a vida. Vá à praia, sofra com o Sporting, coma um bom bife, leia um bom livro.

Ou trauteie comigo aqui em baixo o Frank Sinatra e um tipo qualquer, um dos meus velhos favoritos, Fly me to the Moon.

Enquanto pode.

22/09/2010

A JUSTIÇA PORTUGUESA EM TRÊS MOMENTOS

Filed under: Portugal-Moçambique, Sociedade portuguesa — ABM @ 2:28 am

por ABM (21 de Setembro de 2010)

A justiça portuguesa em três momentos. Com um bocadinho de férias em Moçambique à mistura.

MOMENTO NÚMERO UM DA JUSTIÇA PORTUGUESA: 2000

Segundo Rui Gaudêncio, do jornal Público, de Lisboa, no dia 16 de Dezembro de 2006, a propósito dum tal chamado Caso Lanalgo:

Quatro funcionários da Administração Fiscal, um empresário e dois leiloeiros vão a julgamento no caso da venda ilegal do imóvel da Lanalgo, um conhecido armazém de moda na Baixa de Lisboa, entretanto já falido, que em 2000 foi vendido pelas Finanças por 450 mil euros (90 mil contos). A base inicial do negócio era nove vezes superior, ou seja, quatro milhões de euros (800 mil contos). O comprador foi uma empresa sediada no paraíso fiscal de Gibraltar, que tem como sócio maioritário António Varela – também acusado neste processo.

MOMENTO NÚMERO DOIS DA JUSTIÇA PORTUGUESA: 2006

Continua o relato de Rui Gaudêncio, do jornal Público, acima referido:

O juíz de instrução do 5.º Juízo do Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa decidiu, no início de Dezembro [de 2006] levar a julgamento os sete suspeitos, confirmando a acusação do Ministério Público (MP), dois documentos que o PÚBLICO consultou. O MP considerou os arguidos co-autores de um crime de participação económica em negócio e, por isso, estão sujeitos a uma pena de prisão de até cinco anos. O chefe da repartição do 3.º Bairro Fiscal de Lisboa, onde correu o processo de penhora da Lanalgo – pelo facto de a empresa dever ao Estado perto de 1,4 milhões de euros (277 mil contos) de IRC, IRS e IVA – foi ainda acusado de um crime de peculato, por usar dinheiro público para destino diferente daquele a que estava afectado, e um crime de subtracção de documentos.

Tudo indica que os sete arguidos serão julgados, mas a decisão do juiz de instrução ainda não transitou em julgado. O facto de o magistrado ter confirmado a acusação do MP reduz as possibilidades de recurso, podendo os arguidos alegar apenas nulidades (violações graves dos procedimentos legais que nunca chegam a produzir efeitos).

Segundo a acusação, em Julho de 1999, o chefe da repartição do 3.º Bairro de Lisboa, Bertolino Figueira, determinou a publicação de um anúncio de venda do estabelecimento da Lanalgo, apesar de ter penhorado apenas os bens móveis e imóveis e não o estabelecimento (que incluía a manutenção dos contratos de trabalho dos 145 funcionários da empresa).

A venda seria feita por carta fechada e o valor-base do negócio era de cerca de quatro milhões de euros (cerca de três milhões pelo imóvel e um milhão pelos bens móveis).

O anúncio de que a venda se faria “sem prejuízo dos direitos dos trabalhadores” acabou por levar a que não houvesse qualquer proposta de compra. Para o MP, os moldes do anúncio, “com um tão gravoso ónus a recair sobre o potencial adquirente do bem penhorado – ter que assumir a posição de entidade patronal de 145 trabalhadores” -, justifica a ausência de propostas.

Depois disso, Bertolino Figueira submeteu à consideração superior, no caso, a 1.ª Direcção de Finanças de Lisboa (DFL), que a venda fosse feita por negociação particular, admitindo que quatro milhões até seria um valor baixo para a venda, se os trabalhadores não estivessem salvaguardados. Alertou, nessa altura, a 1.ª DFL que o fisco se “arriscava a ser ultrapassado” pela eventual declaração da falência, já que neste caso o Estado teria que dividir o dinheiro do património da empresa com os outros credores.

Em Outubro, Joaquim Baptista, técnico principal da 1.º DFL e outro dos arguidos, fez um parecer detectando as irregularidades do anúncio, já que a penhora tinha sido feita aos bens móveis e ao imóvel e não ao estabelecimento comercial. Indicava que, na execução fiscal, não existia sequer qualquer referência à existência de trabalhadores nem ao seu número. Joaquim Baptista propõe, por isso, que a venda seja feita de acordo com a penhora ou se corrija a mesma, defendendo que “seria preferível” a primeira opção.

No mesmo documento acaba, por, no entender do MP, se contrariar, já que acaba por falar em “unidade económica”, a que atribui um valor-base de 2,24 milhões de euros, sem que, na opinião dos magistrados, fundamente a redução do preço.

Apesar de Bertolino Figueira ter sugerido uma advogada para fazer a negociação, Joaquim Baptista insiste que tal não é compatível com a sua profissão e sugere a Soleilões ou a Jurisvenda (as duas propriedade dos mesmos sócios, dois dos arguidos do processo). Uns dias mais tarde, Joaquim Alves, chefe de divisão da 1.ª DFL, outro dos acusados, emite um parecer em concordância com o de Joaquim Baptista. O director de Finanças adjunto da 1.ª DFL, Francisco Lourenço – em quem o director; José Maria Pires, delegou competências – concorda com as sugestões e nomeia a Soleilões para fazer a negociação.

Em 15 de Dezembro, os dois sócios da Soleilões, Eduardo Silva e Rui Perdigão, informam Bertolino Figueira que tinham uma proposta de 450 mil euros apenas para o imóvel, que tinha que estar “livre de ónus ou encargos de pessoas e bens”. A proposta é encaminhada para a 1.ª DFL, sendo apreciada pelos três arguidos desta direcção “de imediato”. A venda é autorizada em Janeiro e a 17 de Abril de 2000 a escritura pública é feita em Lisboa.

Segundo o MP, os arguidos da administração fiscal actuaram em conluio com os dois leiloeiros para favorecer António Varela, tendo preterido determinados procedimentos da venda executiva e violando os deveres de zelo a que estavam obrigados. Três anos mais tarde o Tribunal Central Administrativo, em Lisboa, confirma a anulação do negócio devido às várias irregularidades detectadas.

COROLÁRIO DO MOMENTO Nº2

Como corolário do Momento Dois da Justiça Portuguesa, adiciono o texto do jornalista Miguel Ganhão, que escreveu isto para o jornal Correio da Manhã, em 4 de Dezembro de 2007:

Recorde-se que o imóvel da Lanalgo foi avaliado em três milhões de euros (com o recheio a valer 200 milhões) e que a realização da hasta pública, no dia 14 de Dezembro de 2000, ficou deserta. Face a esta situação, Bertolino Figueira iniciou o processo de oferta por carta particular, pedindo um prolongamento de trinta dias para arranjar comprador. No dia 15 de Dezembro o imóvel foi adquirido por 450 mil euros pela empresa Tayama, uma offshore situada em Gibraltar e que é propriedade do mesmo empresário dono do avião que foi apreendido na Venezuela com duas cidadãs portuguesas alegadamente envolvidas em tráfico de droga.

A venda por carta particular foi realizada sem publicidade nos principais órgãos de comunicação, sendo apenas publicado um edital na porta da repartição de Finanças. Bertolino Figueira reafirmou que as “irregularidades” da venda foram sancionadas pelas chefias e que “havia urgência na alienação do imóvel”.

Para além de Bertolino Figueira, estão a ser julgados o ex-director adjunto Guerreiro Lourenço, Joaquim Augusto Baptista e Joaquim Manuel Pombo Alves por parte da Administração Fiscal, e dois responsáveis da empresa Soleilões, Eduardo Manuel Cunha da Silva e Rui Noel Perdigão. Estão arroladas mais de 60 testemunhas de Defesa e Acusação.

MOMENTO NÚMERO TRÊS DA JUSTIÇA PORTUGUESA: 2010

Segundo Ricardo Marques, do jornal Expresso, de Lisboa, no dia 18 de Setembro de 2010, a propósito de um problema administrativo na sede do Supremo Tribunal de Justiça de Portugal:

Vários volumes de pelo menos quatro processos desapareceram nas instalações do Supremo Tribunal de Justiça (STJ). A falta dos documentos foi notada em Maio e o caso, depois de esgotados todos os meios internos de investigação, foi comunicado ao Ministério Público e ao Conselho de Oficiais de Justiça.

Dois dos volumes desaparecidos pertencem a um processo em que terão sido desviados quatro milhões de euros por dois sócios de uma empresa leiloeira. Os dois homens, que trabalhavam com vários tribunais na venda de património de empresas falidas, levavam imóveis a leilão, mas depositavam o dinheiro das transações nas suas contas pessoais. Os factos terão ocorrido entre 2000 e 2003. Um dos arguidos conseguiu fugir para Moçambique e nunca voltou.

O desaparecimento dos dois volumes em falta, de um total de 21 que constituem o processo, foi comunicado ao presidente do STJ a 13 de Maio, por correio eletrónico. “De imediato, fez-se um visionamento total da informação recolhida pelas câmaras de videovigilâncias existentes, sem se ter obtido qualquer resultado concreto”, explicou ao Expresso, por escrito, Noronha do Nascimento, presidente do STJ.

Ao mesmo tempo, vários funcionários começaram a procurar os documentos no edifício da Praça do Comércio, em Lisboa. Não só não conseguiram encontrá-los como perceberam que havia mais volumes – de outros processos e de outras secções criminais do Supremo – que não estavam onde deveriam estar. “Houve mais alguns processos desaparecidos, poucos. Já todos eles tinham sido decididos definitivamente”, esclareceu Noronha do Nascimento. O caso foi comunicado ao Conselho de Oficiais de Justiça e, em 16 de junho de 2010, à Procuradoria-Geral da República.

O único processo em curso de onde faltam documentos é mesmo o da leiloeira. Os dois arguidos foram condenados a penas diferentes e por um número distinto de crimes. Um deles, que fugiu para o Brasil mas acabou por ser capturado e extraditado para Portugal há três anos, foi condenado a oito anos de prisão e está preso. O outro, que ainda se encontra em Moçambique, foi condenado a 12 anos de cadeia e foi ele que, em virtude de a pena o permitir, avançou com o recurso para o Supremo.

Para colmatar o desaparecimento dos dois volumes e proceder à reconstituição do processo, os advogados e o Ministério Público tiveram de ser notificados para entregarem cópias dos documentos que tivessem consigo. Ao mesmo tempo, o Supremo teve de pedir ao tribunal de 1.º instância as restantes peças processuais. “Por força dessa reconstituição, pode haver algum atraso na decisão”, referiu Noronha do Nascimento.

Os processos incompletos, segundo apurou o Expresso, pertencem às 3.ª e 5.ª secções do Supremo e estariam numa sala pertencente ao Ministério Público, que tem instalações no primeiro e no terceiro piso do tribunal. “Não confirmo que todos os processos desaparecidos estavam na mesma sala. Nada garante que o desaparecimento tivesse ocorrido nessa mesma sala, e é muito possível que tivesse sucedido noutro sítio”, adiantou o presidente do STJ, sublinhando que “é proibida a instalação de videovigilância nos gabinetes e noutros locais eminentemente privados, por força da lei de dados pessoais”.

Imagino que o português acima mencionado deve ser um dos famosos empresários de sucesso em Moçambique.

13/08/2010

SOBRE A CULTURA DE TRABALHO AFRICANA

Filed under: Economia de Moçambique, Sociedade portuguesa — ABM @ 3:33 am

por ABM (Sexta-feira, 13 de Agosto de 2010)

Na edição de Agosto da revista Prestígio, que por estas alturas já deve estar a circular em Maputo, li um interessante comentário feito por Rui Guerra, despoletado por uma afirmação de Mo Ibrahim, empresário sudanês (e uma espécie de estrela depois de instituir um prémio que já beneficiou Joaquim Chissano) que, num discurso que fez numa visita recente a Maputo, fez uma daquelas declarações arrebatadoras e abrangentes que todos costumamos fazer sentados à volta dum café em privado, mas que na realidade dificilmente resistem uma análise ponderada.

Este tipo de análise é muito comum na cultura portuguesa. Invariavelmente começa mais ou menos assim: “o problema de Portugal é….”. E disparam em todas as direcções, no espaço, no modo e no tempo, desde a permanência exagerada do predilecto ditador do século XX, até ao assassínio dos Távoras, o derrube da monarquia, o extremismo de Afonso Costa, a manutenção extemporânea das colónias e a fixação no futebol (entre outras).

A minha favorita é que o problema de Portugal é estar no seu DNA a mania das elites vigentes em Lisboa alegremente alternarem-se ou derrubarem-se impenitentemente, não em defesa dos interesses dos que lá vivem, mas dos seus próprios interesses, fazendo uma pirueta desssa realidade e vendendo-a como uma qualquer gloriosa revolução imparável, moderna e civilizadora que a todos beneficiará e que perpetuará a existência da nação – até que mais uma crise qualquer faça surgir os senhores que se seguem. É uma espécie de nacionalismo feito à medida. Não aconetce nada durante quarenta anos, e de repente um terramoto 8.0 na escala de Richter.

É a história vista um pouco como as sucessivas camadas de uma cebola, com uma pitada de marxismo atirada ao barulho.

Mas voltando ao Rui Guerra e ao Mo.

Segundo o Rui, a afirmação da hora de Mo foi que o problema de África era que “os africanos não têm uma cultura de trabalho”.

Se calhar acertadamente, mas só parcialmente assim.

Rui Guerra não concorda e rebate Mo, em três frentes. Refere os milhões de mamanas e os agricultores no mato que trabalham que nem cães e de sol a sol.

Refere ainda que o fazem, apesar de na maioria dos casos não terem minimamente condições para o fazerem e ainda menos para prosperarem.

E refere que se calhar (e a meu ver, o que se esperaria precisamente de Mo Ibrahim) o dedo se devia ser apontado às elites locais e à sua deficiente liderança.

Rui Guerra conclui referindo que, não havendo nem condições nem recompensa adequada pelo trabalho, que não existe motivação para trabalhar – donde se conclui que, por outros caminhos, ele “afenal” concorda com a aferição do Sr. Ibrahim.

O que Rui Guerra está a dizer corresponde àquele velho ditado africano, segundo o qual se não há banana, não há macaco.

Com base na minha alguma experiência na área do trabalho, em Moçambique, em Portugal, em Angola e nos estados Unidos, este tópico dava para escrever um livro.

Mas como aqui no Maschamba o nosso Senador urge-nos para nos deixarmos de discursos e ir directo aos assuntos (a sua razão principal é que defende que os Maschambianos não têm pachorra para andar a ler textos demasiadamente espessos) farei apenas algumas anotações.

E referirei, por maioria de razão, apenas Moçambique.

Primeiramente, há que ver que – e já referi esse tema nesta casa mais que uma vez – que há dois Moçambiques, o das cidades e o do mato.

Focarei apenas na cidade, que conheço melhor.

A vida em cidades como Maputo, apesar de oferecerem oportunidades (e por isso atraem crescentes multidões vindas do mato, onde ainda está a viver Deus sabe como a esmagadora maioria da população), apesar de tudo ainda constitui um enorme desafio. Em geral, há infelizmente muito menos oportunidades de trabalho do que a procura. Permanecem enormes disparidades nas diferentes esferas de actividade, excesso de procura nos trabalhos menos qualificados e falta de quadros em muitas outras áreas.

Isso significa que há gente muito bem paga pelo que faz, e gente estupidamente mal paga. Por exemplo os empregados domésticos, onde os salários são uma anedota em termos do que proporcionam em termos de condições de vida aos trabalhadores. Viver com menos de cem dólares por mês em Maputo é menos que sobreviver.

Ou esperar que um caixa de um banco que ganha 300 dólares por mês e que vive com a mulher e três filhos numa palhota no outro extremo do Zimpeto, apareça todos os dias às sete e meia da manhã no local de trabalho com um fato impecável, sorridente e pronto para uma jorna (mas- tiro o chapéu a Rui Guerra – a minha experiência é que eles e elas apareciam, e faziam o seu trabalho, condignamente).

Mas esta é a lei da oferta e da procura. Não há como dar a volta ao assunto e por isso a situação persiste. E vai durar muito tempo ainda antes que o cenário se altere.

E segundo, apontarei dois aspectos relativamente claros que nem por isso são “africanos” per se mas que creio têm relevância.

O primeiro aspecto tem que ver com o equilíbrio da relação que as pessoas com a  empresa onde trabalham (e o trabalho que faz) e com a sua vida pessoal e familiar. Na África do Sul, na Europa (Portugal mais ou menos) e nos Estados Unidos, pareceu-me haver uma maior dedicação das pessoas em relação às empresas onde trabalham, muito frequentemente em detrimento da sua vida pessoal e familiar.

O que é relativamente fácil: são relativamente bem pagas, têm boas condições de vida, os países onde vivem têm toda uma infra-estrutura desenvolvida e estão bem treinadas. Têm água e electricidade 24/24 horas em casa, não falta gasolina, a comida está no supermercado, coisas desses género.

Em Moçambique, apesar daquela deliciosa relação de trabalho instituída pela legislação de origem portuguesa a qual, por exemplo, os empresários sul-africanos nunca jamais irão entender, nem sempre é assim. Pelo contrário. As dificuldades são significativas, quer para as pessoas que trabalham, quer para o seu círculo familiar alargado e rede de amigos. E as pessoas nem sempre estão bem formadas para as funções que desempenham ou têm condições de trabalho. Ou para aprenderem.

Isto de o emprego não ser a religião número um de cada um não é necessariamente mau (e se calhar é mais saudável a longo prazo que a paranóia induzida que se vê no mundo mais industrializado).

Mas para os Mo Ibrahims deste mundo, cuja vida é quase singularmente medida pelo que fazem no emprego, essa percepção de um maior distanciamento é logo convertido em falta de cultura de trabalho.

O que me traz ao segundo aspecto, que está relacionado com o primeiro.

Em Moçambique, regra geral, a família e os amigos importam. E as redes de amizades e de familiares são muito mais extensas que as unidades familiares nucleares que se vêm na Europa e noutros países, onde a “família” (como todas as empresas se espremem para promover, em seu interesse) é a imediata (pais, filhos e irmãos) mais a empresa onde trabalham e quem lá trabalha. Uma morte, uma doença, um problema, despoleta muito mais depressa uma ausência (física ou virtual) em Moçambique, do que o que, regra geral, se vê nuns EUA e na Europa.

E faz algum sentido que assim seja. Em África, muito mais que em países com perfis muito diferentes devido à sua muito maior riqueza, natureza dos mercados de trabalho e hábitos e estruturas de apoio sociais, hoje em dia há muito menos necessidade, e, logo, dependência, das redes familiar e de amigos como sustentáculos de sobrevivência de última instância. Numa aflição, numa situação de desemprego, em África, são a família e os amigos que nos valem antes que tudo o mais. Ignorar isso é brincar com o fogo.

A meu ver a maneira adequada de lidar com isto é entender o contexto, dialogar com as pessoas com respeito e tentar reconciliar os interesses das partes. Às vezes é delicado, às vezes é exequível, e às vezes é ridículo (por exemplo, o pai do trabalhador não pode morrer três vezes num ano, isso é batota).

Moçambique está a passar por uma fase muito acelerada de mudança, de transição de uma sociedade agrária e pouco qualificada, para uma sociedade moderna, em que convivem bolsas de modernidade com bolsas tradicionais de onde as primeiras emergiram. Se calhar mais do que noventa por cento de quem vive numa cidade moçambicana hoje tem pelo menos avós que viviam no mato e eram analfabetos. Os poucos que adquiriam autonomia e conforto financeiro fazem-no há relativamente pouco tempo. Os laços tradicionais e familiares estão presentes.

Portanto a evolução de valores faz-se gradualmente. As tradições importam. Têm uma razão de ser. Uma lógica concreta.

Mas no fim do dia, concordo com o argumento final do Rui: se houver um trabalhador qualificado (ou qualificável via programas credíveis de capacitação, o que permanece um enorme desafio a todos os níveis), trabalho aliciante e um salário que suporte uma vida decente, há cultura de trabalho. Não me venham lá com tretas. Nisso, África não difere do resto do mundo.

Pelo contrário, para certas funções o trabalho deve e tem que ser mais remunerado às vezes que em outros países. É mais uma vez a regra da procura e da oferta.

Rui Guerra tem razão em ruminar: Mo Ibrahim poderia ter sido mais generoso no comentário que fez. Aquilo é quase fazer pouco dos pobres.

Decerto devem ter sido todas essas centenas de milhões dólares que Mo tem na sua conta bancária que, momentaneamente, obscureceram a sua conhecida e, creio, genuína empatia para com os seus irmãos africanos.

01/07/2010

VÁ A HELSÍNQUIA POR APENAS 99 EUROS!

Filed under: António Botelho de Melo, Sociedade portuguesa — ABM @ 8:55 pm

por ABM (Quinta-feira, 1 de Julho de 2010)

Às vezes interrogo-me se as pessoas que trabalham em certas empresas pensam que nós deste lado da paliçada, e que somos supostos consumir os produtos deles, temos “estúpido” escrito na testa.

Como utente aficionado da empresa Transportes Áereos Portugueses, empresa que, ao contrário da PT, continua a ser dúbia posse do Tesouro Nacional, e que agora dá pelo nome comercial de TAP-Air Portugal, há muito tempo que subscrevo um serviço que eles fornecem na internet, através do qual recebo quase diariamente mensagens promocionais de viagens e destinos que eles entendem por bem promover.

Nada de mais, que eu saiba hoje em dia toda a gente faz isso, é promoção barata e eu não me importo.

Por isso não me perturbou minimamente que a TAP me tenha enviado esta tarde uma mensagem cujo título é o título desta pequena crónica, seguido pela imagem acima que o exmo Leitor pode ler.

E que pode ser visto directamente premindo aqui com o rato do seu computador.

Ok, os factos: nunca fui a Helsínquia e para ser honesto não faço tenção de lá ir. Não é o que está em causa. O que está em causa é que estamos no dia 1 de Julho de 2010 e, mesmo com o mundo a acabar e o José S. a esventrar-nos as finanças públicas e privadas, e o prof. Aníbal a apelar para fazermos férias lá para os lados de Boliqueime, presumo que ainda haja muito boa gente que possa estar a pensar em fazer férias au dehors.

Lógico é que a TAP utilize esta altura para nos tentar aliciar com o que achar que deve tentar aliciar-nos e, nesse sentido, Helsínquia poderá ser um destino tão interessante como outro qualquer.

Só que – o exmo. Leitor que olhe bem para a mensagem.

Preferencialmente, sugiro, com uma lupa.

A parte que se vê bem da mensagem é que custa “apenas 99 euros” para ir a Helsínquia.

A parte em que se tem que usar a lupa e apontar bem para se ver o que está lá a dizer, é mais interessante, e diz o seguinte:

a) “apenas” 99 euros afinal é mesmo só para ir para lá. Por exemplo, no caso de o viajante quiser emigrar para lá definitivamente. Se quiser voltar para Lisboa, são mais 99 eurozitos. Portanto, na realidade a tarifa aérea custa 198 euros, o que até continua a não ser mau, tendo em conta que aquilo fica no raio que o parta mais velho ao pé da Rússia.

b) que esta tarifa que afinal é de 198 euros, só é válida para o período entre 1 de Novembro e 10 de Dezembro de 2010, em que o regresso ocorra até ao dia 15 de Dezembro E a marcação feita até 31 de Julho de 2010. E a viagem feita no avião que liga directamente Lisboa à capital da Finlândia (presumo que o único mas o Leitor sabe como são estes tipos do marketing, nunca dão ponto sem nó).

Ora, estamos no dia 1 de Julho de 2010.

E, portanto, como sugestão de umas férias, a menina do marketing lá da TAP, decidiu, no dia 1 de Julho de 2010, convidar-me, enquanto olho lá para fora para o sol azul, sinto a leve e quente aragem de Cascais City e o observo o mar sereno lá ao fundo, a ir a correr até ao dia 31 de Julho ao escritório da TAP, comprar um bilhete de avião, para ir passar uns dias a um sítio entre 1 de Novembro e 10 de Dezembro, situado no outro lado do fim do mundo, e onde nessa altura as temperaturas rondam os dez graus abaixo de zero e onde o único sítio seguro onde se pode estar é enfiado numa sauna de madeira com o aquecedor ligado ao máximo.

Logicamente, dentro dos parâmetros mais latos, a TAP pode mandar para a minha caixa do correio quase tudo o que quiser. Pode até tentar vender-me uma ida à China para daqui a dois anos.

Mas no dia 1 de Julho de 2010, se calhar fazia mais sentido focar-se em coisas mais imediatas e comezinhas, coisas que pessoas que têm vidas normais e que não sabem bem o que vão fazer daqui a cinco meses, poderão de facto comprar.

E já agora, que metessem o texto sobre o que nos estão a tentar vender, em letra que se possa ler.

A SUBSIDIÁRIA HESPANHOLA

por ABM (Quinta-feira, 1 de Julho de 2010)

Esta nota vem na sequência de um desabafo algo apressado que fiz atrás.

Eu sei que pode ser penoso para alguns dos exmos. Leitores acompanhar este assunto meio esdrúxulo de uma assembleia geral de uma empresa de telefones portuguesa e porque é que eu atrás refiro ao que aconteceu como o equivalente da explosão de uma bomba atómica no firmamento económico português.

Mas peço a indulgência de me acompanharem, e eu prometo manter as coisas simples. O assunto acho que importa entender.

Ora vamos lá.

Era Uma Vez a Pê Tê

A PT, sigla que descreve a empresa anteriormente conhecida como Portugal Telecom, opera um conjunto de empresas total ou parcialmente detidas, desde as redes de telefone, dados, conteúdos, televisão por cabo, satélite, etc. Outrora um gigante (para Portugal) publicamente detido, a empresa foi sendo privatizada e hoje é uma empresa privada, mesmo se alguns dos seus accionistas sejam entidades afins ou alinhadas com os governos do dia. Dada a sua dimensão e importância para Portugal, o governo há uns anos atrás achou por bem criar algo chamado “acções douradas” (em inglês, golden shares), que são apenas 500 acções, mas a quem foram conferidos o direito de veto numa série de circunstâncias. É uma espécie de Conselho da Revolução no mundo dos negócios (o Conselho da Revolução existiu em Portugal até 1982, que não era eleito e era composto por uns ilustres quaisquer, tinha a função de fiscalizar e vetar o que os cidadãos e o governo faziam. Podia vetar legislação aprovada pelo parlamento).

A Galinha dos Ovos de Ouro

De entre as várias negociatas que fez ao longo dos anos, muitas delas más, fez uma que foi um verdadeiro negócio da China: há uns anos atrás, ainda estava o Brasil naquela fase indefinida de crescimento, a PT comprou metade uma empresa no Brasil chamada Vivo. A Vivo essencialmente opera na área dos telefones móveis mas tem hoje sérios atractivos: a) cerca de 47 milhões de clientes (isso é cinco vezes mais que a totalidade da população portuguesa) e a crescer rapidamente, b) é muito rentável, c) tem perspectivas de crescimento consideráveis, se se compararem com o mercado português, que está esgotado, ou com os restantes investimentos da empresa, que nem chegam aos calcanhares daquilo que a Vivo representa, d) complementando o que está dito atrás, opera no Brasil, de longe a maior nação na América Latina, e que tem vindo a crescer de forma muito interessante nos últimos cinco anos. O Brasil é considerado um mercado estratégico para Portugal e para as empresas portuguesas; e e) os lucros da Vivo neste momento representam 46 por cento das receitas brutas do grupo PT. É muito dinheiro.

De Lá Nem Bons Ventos Nem Bons Casamentos

O pequeno problema que a PT teve neste caso desde a origem, tem que ver com quem se meteu quando comprou a metade da Vivo (e recordo que quem estava do lado da empresa hespanhola na altura era um português, o genial António Viana Baptista, filho de José Viana Baptista, um antigo…ministro português dos Transportes e Comunicações).

A empresa hespanhola chama-se Telefónica, S.A., que é suposto ser a equivalente da PT em Hespanha.

Mas há uma pequenina diferença entre as duas.

É que, em termos de capitalização bolsista e dimensão dos negócios, a PT está para a Telefónica como eu estou para o Eng. Belmiro de Azevedo (o pater familias da Sonae).

Só para o exmo. Leitor ter uma vaga noção do que falo, neste momento a capitalização bolsista da PT (isto é, o valor total do número das acções emitidas vezes o valor da cotação de cada acção) é de cerca de 8 mil milhões de euros. A da Telefónica é de 84 mil milhões de euros. Só dez e meia vezes maior.

O que, em termos reais, significa que a PT lidar com a Telefónica é o mesmo que o exmo. Leitor querer beber um cházinho em sua casa com uma manada de búfalos raivosos.

O Campeão do Mundo Lá da Rua

Para os portugueses, a PT não é uma empresa qualquer.

É um “peso-pesado”.

É a maior empresa cotada na bolsa portuguesa. Em Maio de 2010, a PT representava 17.56 por cento da totalidade da capitalização do PSI 20, o conjunto das principais empresas portugueses cotadas em bolsa, no que era seguida pela EDP com 14.51 por cento e a Galp Energia com 13.51 por cento (ver a fonte desta informação).

Os portugueses em geral, e os políticos e os homens de negócios pós-25 de Abril ainda mais, vivem esta alegoria, agora e mais uma vez posta em causa por este evento: acreditam no capitalismo, acreditam na Europa, e ainda mais bradam a necessidade de irmos para Hespanha.

Mas mantendo a “independência nacional”. Ou, mais caritativa e quiçá mais tesamente, “mantendo os centros de decisão dentro de fronteiras”.

Esquecem-se de um pequeno detalhe: que, do lado de lá da fronteira, acontece precisamente o mesmo. Os hespanhóis também acreditam no capitalismo. Acreditam na Europa.

E acreditam que Portugal é ou poderá vir a ser, uma coutada sua, para caçarem até não haver mais caça.

No que são acompanhados por meia dúzia de angolanos com muito, muito, muito, dinheiro (é o petróleo, estúpido).

A diferença é que, no Portugal actual, os portugueses não parecem possuir de momento o génio nem, muito especialmente, o capital requerido, para travar este combate.

Isso já se viu em vários casos em ponto, como por exemplo na “expansão” do BCP para outros mercados, em que a Espanha foi quase sumariamente ignorada, para além de umas trocas de participações, a Caixa Geral de Depósitos viu-se grega para entrar lá dentro, e houve o quase caricato (mas genial) acto de despedida do Sr. António Champalimaud, quando foi até Madrid e vendeu todo o seu grupo financeiro ao Grupo Santander, quase provocando o pânico em Lisboa, e que motivou a célebre frase de um ministro, dizendo que Portugal não era uma “república das bananas”. Que o era, provou-se logo a seguir, quando partes do império Champalimaud foram retalhados e dados aos amigos, entre os quais a Caixa Geral e o próprio BCP, que já na altura era maioritariamente detido por estrangeiros, vingando o apelo patriótico de Jardim Gonçalves, que clamava para que os centros de decisão das empresas permanecesse em Portugal – isto é, sob o seu controlo.

Ou seja, desde o 25 de Abril, nunca se formulou uma estratégia de soberania nacional alternativa ao “orgulhosamente sós” de Salazar. Foram todos enchendo o papo com este ou aquele negociozinho, este ou aquele subsidiozinho, a capturazinha administrativa desta ou aquela oportunidade.

E aqui estamos, em 1 de Julho de 2010, os Hespanhóis prontos a começar a dar a machadada final.

E são estes os grandes sócios da PT e os donos da outra metade da empresa brasileira Vivo.

A Vivo a Cores e ao Rubro

Desde há cerca de dois anos, a Telefónica começou a sondar a PT para lhe vender a sua metade da Vivo. Não é preciso ser-se nem Henrique Granadeiro, nem Zeinal Bava, o descendente de família com raízes moçambicanas que agora aufere um salário milionário como o número um executivo da PT, para se perceber que, tendo em conta a evolução da Vivo e do mercado brasileiro, que, sem ela, a PT valia pouco mais que um chavo. Se vendesse e tivesse depois ideias de como investir esse lucro, ainda se podia encarar uma venda.

Mas a PT nunca apresentou, nem parece ter ideias do que fazer se vendesse a Vivo.

Coitados.

Por sua parte, a Telefónica, desejosa de aumentar o seu espólio de participações, insistia em que a PT saísse da Vivo.

E, há uns meses, passou ao ataque.

Comprou mais acções da PT na bolsa e tornou-se um dos seus accionistas de referência.

Formalmente, propôs à PT um preço pela venda da sua participação.

A PT recusou.

A seguir, subiu consideravelmente a parada.

A PT recusou outra vez.

Até que a semana passada, a Telefónica colocou na mesa um preço quase exorbitante (segundo o artigo do Economist de hoje, uma medida do seu próprio desespero) : oferecia 7.15 mil milhões de euros pelos 50 por cento da Vivo que são da PT.

E deu um prazo para os accionistas da PT se decidirem.

A reunião dos accionistas da PT realizada (a Assembleia Geral, ou AG) ontem ao fim da manhã era para decidir se vendiam ou não.

A Assembleia Geral da PT

Na AG da PT realizada na manhã de ontem, estiveram representados 68.5 por cento da totalidade dos accionistas. Dos votos presentes, para se aprovar a venda da participação de 50% da PT na Vivo, eram necessários 50 por cento mais um voto de entre os presentes. Sabe-se que 73 por cento dos accionistas votaram por vender. Entre eles, incluia-se o Banco Espírito Santo, um dos principais accionistas e uma presença quase histórica na PT. Mas o representante do Estado português apareceu na sala com a sua “acção dourada” (500 acções com direitos especiais) e votou contra. Ordens de Sócrates.

E assim, não foi aprovada a venda.

O Que Disse Ricardo Salgado

Numa conferência de imprensa a seguir à assembleia de accionistas, Ricardo Salgado, presidente do BES, disse tudo o que havia a dizer nestas circunstâncias.

Que, independentemente de tudo o resto, a matemática era (é só podia ser) uma.

Que a capitalização bolsista total da PT hoje era de cerca de 7.8 mil milhões de euros.

Que a oferta da Telefónica pela venda dos 50 por cento da Vivo era de 7.2 mil milhões de euros

Que a diferença entre a oferta de uma participação da PT e a própria capitalização bolsista da PT era de apenas 800 milhões de euros.

E fez uma pergunta retórica: será que tudo o que a PT tem para além da Vivo só vale 800 milhões de euros?

A sua resposta óbvia e cristalina: que o preço oferecido pela Telefónica era mais do que bom, mas que, não havendo resolução para esta situação, que o passo lógico seguinte será a Telefónica simplesmente fazer uma OPA sobre a PT (ou seja, comprar toda a PT através de uma Oferta Pública de Aquisição), transferir na mesma a Vivo para a Telefónica, e ficar com o resto ou mais tarde vender a carcaça do que resta da PT a outra entidade.

Ricardo Salgado foi mais longe na sua explicação: referiu que, devido ao pacote de regulamentação bancária conhecido como Basileia III, irá haver uma muito maior exigência do reforço do capital e da gestão dos riscos por parte dos bancos, entre os quais o seu, o que essencialmente não vai permitir ao BES, futuramente, deter participações em empresas não financeiras (como a PT).

Ou seja, a prazo, o BES, o maior accionista na PT, vai ter que vender a sua participação na PT de qualquer maneira. Basicamente, não terá como evitar ter que tomar esta medida.

E o lucro de uma venda da Vivo permitiria ao BES talvez reforçar os seus capitais próprios (como se espera que Basileia III virá impor). Ou a PT fazer outra coisa qualquer, como por exemplo limpar o seu passivo, que não é pequeno.

Ilacções

O governo português cometeu um erro de proporções verdadeiramente épicas ao vetar a venda da Vivo, pois isso poderá forçar a Telefónica, e, por extensão, a Hespanha, a testar a ideia, detida por alguns portugueses, de que o capitalismo que se pratica dentro de fronteiras lusas é ou pode ser diferente do que já está postulado para a União Europeia.

Pior, o que referiu Ricardo Salgado é totalmente correcto: o passo lógico seguinte da Telefónica é comprar a PT e torná-la numa subsidiária sua.

Será caricato usar as acções douradas para parar isto. Mas se o fizer, a PT e o governo português terão uma guerra de proporções épicas pela mão.

O que é mau para os negócios.

E a reacção, sempre fleugmática, da Comissão Europeia já foi divulgada e refere o seguinte: The Commission believes that the “golden share” is incompatible with european legislation, in particular as it constitutes an unjustified restriction on the free movement of capital and the right of establishment, in so far as it hinders both direct investment and portfolio investment.

E assim eu pergunto novamente uma questão de fundo, a única questão de conteúdo para esta geração de portugueses:

Que país é este que a actual geração de portugueses afinal quer que venha a ser?

Uma subsidiária de Hespanha?

Um país que pratica o capitalismo só quando lhe convém?

Se José Sócrates acha que a PT é “estratégica”, então que a compre e meta lá uns amigos a tomar conta daquilo. E voltaremos todos ao capitalismo cha cha cha dos tempos do condicionalismo do professor Salazar.

Para ver se é melhor.

30/06/2010

A PT E A BOMBA ATÓMICA

por ABM (quarta-feira, 30 de Junho de 2010)

Como se não bastasse a equipa espanhola de futebol ter ontem derrotado os Adamastores por um pouco expressivo 1 a 0, no rescaldo da Assembleia Geral da portuguesa Portugal Telecom realizada hoje sentiu-se na cara, pela primeira vez em muitos anos, os efeitos da globalização gradual em que a nação portuguesa se meteu quando saiu de África e, pela mão de Mário Soares, embarcou no projecto europeu.

O que sucedeu hoje foi uma verdadeira bomba atómica.

Foi quase triste ouvir ao vivo o que Ricardo Salgado, um dos grandes banqueiros dos últimos anos, ter que dizer o que ele tinha para dizer, numa conferência de imprensa na SIC Notícias.

Ele tinha toda a razão e mais algumas.

O que só torna mais dramático o que se está a viver neste preciso momento.

Em termos económicos, o que aconteceu hoje é absolutamente marcante.

Futuramente, em termos económicos, creio que se poderá dizer que, no registo da história económica de Portugal, haverá uma nova demarcação:

Haverá o “antes” da AG da PT de hoje e o “depois da AG da PT”.

Nem aquele simulacro de soberania que é as “acções douradas” do governo na PT disfarçaram o que aconteceu hoje.

Meu Deus ao que se chegou. E ainda em minha vida.

Portugal, uma colónia de Espanha.

Como tenho que ir ao cinema (quando escrevo estas linhas é após a hora do jantar em Cascais City) referirei o assunto quando voltar.

(Nota: ver a crónica seguinte, A Subsidiária Hespanhola)

27/06/2010

HOMENAGEM AOS AÇORES

por ABM (Domingo, 27 de Junho de 2010)

Apesar da minha vertente africana, pai e mãe (e linhagem até aos colonos originais das ilhas no séc. XV e XVI) nasceram e cresceram na ilha açoriana de São Miguel, sobre a qual as únicas coisas que eu sabia até aos doze anos, para além duma hilariante visita do meu avô paterno MIM a Moçambique em 1968, eram um cartaz promocional da ilha igual à fotografia acima exibida e que estava na cozinha dos BM, e o misterioso sotaque dos meus pais, que os acompanhou até ao dia em que morreram – e que é particular à Ilha de São Miguel, e tão diferente do sotaque falado na cidade de Lourenço Marques.

Em Moçambique, o sotaque do pai BM era legendário e a sua proveniência gentilmente parodiada. Lembro-me de, antes da independência, a revista Tempo, na sua versão light antes de 1975, ter feito, no fim das suas edições, uma espécie de “dicionário” de termos. com a respectiva explicação, que usavam para fazer algum comentário local. Para a entrada “açoriano”, a tradução era “Botelho de Melo”.

As duas melhores amigas da mãe BM em mais que vinte anos de África, eram duas açoreanas, Conceição e Maiana, com quem manteve contacto até falecer em 2005 nos Estados Unidos.

Quando vivi década e meia na costa Leste dos Estados Unidos, tive então o raro privilégio de conviver com tanta gente de lá, no que é considerada ainda a “décima Ilha”. E que incluíram alguns mais conhecidos: a Natália, o Onésimo, o Martins Garcia, o Cristóvão de Aguiar, o Adelino Ferreira (director do Portuguese Times, onde escrevi durante mais que duas décadas, para ver se não me esquecia de como se falava e escrevia em língua portuguesa) etc.

E com este sotaque, ao mesmo tempo tão familiar e tão peculiar dos micaelenses, um vulto tão familiar em casa.

Definitivamente, uma forma tão diferente e tão peculiar de se ser português.

E em particular com o sentido de humor, sentido aestético e a maneira de estar dos açorianos, que não tem igual em quase parte nenhuma. Eu acho que o próprio Fernando Pessoa, cuja mãe era uma açoriana da Ilha Terceira, subestimava esse efeito, preferindo elaborar referências místicas sobre a sua proveniência beirã e judia, notoriamente mais diluída. Mas não conheço muito que tenha sido escrito sobre a sua mãe, que viveu até 1925 (morreu na Amadora) e que era de Angra do Heroísmo, cidade onde Pessoa esteve em Maio de 1902 para visitar a família materna. Escreve-se tanto sobre o homem mas a mãe a relação com a mãe, e a terra da mãe, quase népia. O primeiro poema conhecido de Fernando Pessoa? dedicado à sua mãe, que o guardou para a posteridade:

À MINHA QUERIDA MÃE

Eis me aqui em Portugal
Nas terras onde eu nasci.
Por muito que goste delas,
Ainda gosto mais de ti.

(26-7-1895)

Mãe açoriana é outra loiça.

Para quem não conhece o sotaque e humor de São Miguel, que eu conheço relativamente bem, aqui fica um saborzinho num domingo de início de verão, com estas duas jóias. Na primeira, uma paródia à série “Doutor House”. Na segunda, um micaelense conta detalhes de uma visita à América.

Bom fim de semana.

E vivam os açorianos, incluindo o que fez estes filmes.

24/05/2010

A CONTRACICLO

Filed under: António Botelho de Melo, Sociedade portuguesa — ABM @ 4:23 pm

por ABM (24 de Maio de 2010)

Quando o exmo Leitor Maschambiano der um passeio um dia destes pela marginal até à Beverly Hills portuguesa – Cascais e arredores – antes de chegar ao centro da próspera vila deparará, pelo lado direito, com um gigantesco e estranho edifício, que mais parece uma nave espacial esquisita que acabou de aterrar em frente ao mar. Trata-se de um badalado novo complexo habitacional de luxo, a que, para variar, se deu o sempre comercialmente apetecível, anglicizado, título de Estoril Sol Residence.

Eu suspeito sempre de complexos habitacionais com nomes ingleses em Portugal porque normalmente esta é uma forma imediata e (pouco) subliminar de sugerir que o lugar ou é muito exclusivo, ou é muito caro, ou ambos. E é também um pouco o correspondente imobiliário ao tique de muitos ilustres da vida empresarial portuguesa, especialmente os que publicam, de entulhar os seus escritos com anglicismos, muitos deles com excelentes termos correspondentes em português. Mas dizer coisas como sub-contratar (outsourcing) e part-time (tempo parcial) em inglês dá logo aquele ar místico de que a peça andou a ler e a aprender alguma coisa etérea lá fora que a gente cá dentro não sabe.

Eu tenho uma ligação peculiar e muito pessoal com o lugar, onde durante umas décadas operou o paradigmático Hotel Estoril-Sol, de cinco estrelas, e onde, se me recordo das fotografias no salão de entrada (o…..lobby) Sua Sereníssima Alteza a Princesa Grace de Mónaco (antes a actriz norte-americana Grace Kelly) ficou quando visitou Portugal nos anos 60. Em 1976, sendo eu nadador entornado de Moçambique, fui convocado para integrar a a equipa de natação que foi aos jogos olímpicos de Montréàl, no Canadá. Ora, a “preparação” (na verdade um estágiozinho à medida do que era o país na altura) deveria ser feita numa piscina de 50 metros. Na altura havia poucas em Portugal – Olivais, Évora, Coimbra…e a piscina do Hotel Estoril-Sol. Já não me lembro bem porquê (Olivais estava em obras, Évora estava sem água, Coimbra foi fechada pelos jogadores de futebol do Académico em protesto por não receberem os salários, e a do Estoril-Sol ninguém se lembrou na altura) pegaram na equipa e mandaram-nos todos durante umas cinco ou seis semanas para …. a piscina do Complexo de Montjuich, em Barcelona.

Quando regressámos a Portugal depois de estar a banhos em Barcelona, alguém tinha falado com alguém do Hotel Estoril-Sol, que na altura, devido à Gloriosa Revolução Socialista do Nobre Povo Português, estava completamente às moscas, e eis que o vosso ABM, de repente, apesar de com 16 anos e num delicadíssimo e adiantado estado de pelintrice (nessa altura nem dinheiro tinha para comprar um fato de banho), foi instalado numa das melhores suites do hotel de cinco estrelas durante quatro semanas, situada no lado direito do último andar do Estoril-Sol, com todas as mordomias inerentes e disponíveis no local. Todas as manhãs, um empregado solícito e vestido de rigor acordava-me na cama ligando a música ambiente e abrindo as cortinas e servia-me um magnífico pequeno almoço na enorme varanda da suite, de onde se via toda a costa do Estoril e onde, vestido com um daqueles fartos robes turcos brancos, bebericava o sumo de laranja e lia distraidamente sobre os feitos da Grande Revolução dos Cravos no Diário de Notícias, se não me engano então nas mãos de José Saramago (no que foi sucedido pelo Mário Mesquita).

Do que me recordo, nessa altura, para além do ocasional turista, o enorme hotel estava quase completamente vazio – excepto nós (que éramos meia dúzia) e …. todas as dançarinas do espectáculo de dança do Casino do Estoril, que ficava ali perto, e que eram cerca de duas dúzias, todas elas jovens belezas nórdicas estonteantes de cartaz, com pernas infindáveis e aspecto físico digamos que desesperadamente impecável, e que falavam naquelas línguas lá do norte das Europas e que para mim soavam a dialectos hutu.

A razão porque estávamos ali era porque o hotel mantinha uma piscina de 50 metros, onde treinávamos duas vezes por dia, altura em que parte da piscina era encerrada ao público. Cedo de manhã naquele mês de Junho-Julho, quando íamos treinar, era habitual estarmos lá só nós…e as meninas do Casino Estoril nas cadeiras de reclinar ao lado da piscina, a apanhar banhos de sol para ganhar mais côr.

Enfim.

Há uns anos, depois de uma daquelas novelas de faca e alguidar envolvendo o próprio casino (agora na esfera da organização Stanley Ho), a Câmara Municipal de Cascais e mais meia dúzia de organismos, o velho hotel foi demolido juntamente com a piscina e naquele lugar disseram que ia ser construído qualquer coisa de monumental para o povão ver.

Essa qualquer coisa, é o conjunto de prédios que acima descrevo, desenhados por um tal de Arquitecto Gonçalo Byrne (e eu que pensava que em Portugal era ou Siza Vieira ou nada) e está quase terminada.

E para além de um mastodonte, parece que a obra é virulentamente odiada por alguns. Há uns dias, o meu amigo Cha mandou-me um daqueles discursos arrasantes sobre o edifício, que deixo aqui.

Em nome do equilíbrio argumentativo, também deixo ao exmo Leitor o acesso ao lugar dos senhores que estão comercializar os seus espaços, onde, para além de se fazer referência aos prédios como A escultura, contém daquelas frases cintilantes e típicas do marketing de luxo, tais como mais do que uma declaração de amor, o Empreendimento, representa uma natural representação de que a vida flúi em eterno movimento, e que nesse dinâmico e contínuo processo de transformação, ‘nada se perde, tudo se transforma’. Como bem anunciam os sábios. Como sonham e realizam os optimistas, os que crêem e vivem a felicidade.

Não sei bem o que o que é que o tipo que escreveu esta descrição dos interiores da Estoril Sol Residence (ESR) tomou antes de escrever isto , mas quero tomar também um pouco.

Mas indo rapidamente para os finalmentes, o que o povão na rua diz é que aquilo é tão caro, tão caro, que a ESR provavelmente acabará por ser arrebatada pelos mitológicos milionários angolanos que nestes dias não saberão o que fazer com os seus petrodólares.

Quando, para efeitos deste texto, quis averiguar quanto ao custo de um apartamento lá, levei uma encantadora e penosa descarga de conversa que, espremida, dizia qualquer coisa como “aparece cá e a gente depois fala”.

Como eu sei que o leitor maschambiano quer saber estas coisas (ademais, pode haver interessados, pois estatisticamente quem visita esta casa está mesmo lá em cima), segui o velho esquema do “se não podes caçar com o cão, caça com o gato”. E com dois clics fui parar ao anúncio num desses sítios onde se vende tudo e mais alguma coisa e em que – ahá – alguém está a tentar despachar, por via da famosa modalidade de cedência de posição, um modesto apartamento tipo 3, com uns confortáveis 196 metros quadrados, por uns míseros 1.750.000 euros. Dá 8.928.57 euros por metro quadrado, se se excluirem os dois lugares de estacionamento e uma arrecadação com uns impressionantes 14 metros quadrados. Mais uma vez, a descrição detalhada do apartamento está aqui.

A este preço, claro, acrescentem-se os custos com a escritura e registo, o imposto imobiliário, e depois a contribuição anual e a quota do condomínio, e a empregada, que vão para as dezenas de milhares de euros anuais.

E, garantidamente, uma visita das finanças portuguesas a perguntar de onde é que veio o dinheiro.

Mas para os que verdadeiramente crêem e vivem a felicidade, afinal isto são apenas detalhes, não é? Pequenos obstáculos no longo percurso para o Zen terreno.

Confesso que não gostei muito da configuração. Pois apesar toda esta área útil, o Sr Arquitecto Byrne deve estar a sonhar se pensa que eu compraria um apartamento destes com um quarto banho social com apenas 2.4 metros quadrados. Brincamos, Gonçalo? Eu lá em casa tenho armários maiores do que isto.

Contudo, a arrecadação, ah, essa já dava para mostrar aos amigos.

Com o desabar da economia há ano e meio, e o aguçar do apetite das repartições de finanças em todo o mundo, projectos como o ESR aparecem agora um pouco a contraciclo. O bom povo português e gentes um pouco por toda a parte neste momento preocupam-se com coisas mesquinhas tais como meter o pão na mesa e gasolina no tanque e ficam raivosos com estas nefastas manifestações de riqueza, achando que, nestes casos, a inveja não só é justa: é moral.

Mas para os ricos que escaparem de pagar a crise, o empreendimento é uma pechincha e aquele aspecto de nave espacial preta estacionada no sítio onde ficava o velho Hotel Estoril-Sol é muito apropriado.

Pois de facto os ricos vivem noutro mundo.

Na piscina do Estoril-Sol, 1976. Um rebuçado a quem descobrir quem é um futuro maschambeiro

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