THE DELAGOA BAY REVIEW

27/11/2010

UM THRILLER COLONIAL

http://www.youtube.com/v/3gCtptcJY0I?fs=1&hl=pt_PT

(em cima: a 6ª Sinfonia de Tchaikowsky, Pathétique, sublimemente interpretada pela orquestra Hoshima, do Japão. Dura 49 minutos e vale todos eles, especialmente os primeiros 20 minutos.)

por ABM (27 de Novembro de 2010)

A minha crítica do livro O Anjo Branco, um romance histórico de José Rodrigues dos Santos.

Introdução

Para quem não acompanhou os eventos, o anúncio inicial, em Portugal continental, da publicação do mais recente romance, da autoria de José Rodrigues dos Santos (JRS) foi acompanhado de informações crípticas de qual seria o seu conteúdo e temática. Alguns desses dados foram sendo gradualmente revelados e reflectidos em textos que escrevi aqui, mais ou menos nesta ordem:

  1. que era sobre Moçambique;
  2. que era baseado na vida do pai do autor;
  3. que versava o que se pode considerar o período final da soberania portuguesa naquele território africano;
  4. que, sendo um romance, assentava em aturada pesquisa factual em torno de inúmeros aspectos desse período;
  5. que conteria informações “explosivas”, um “grande segredo”;
  6. que inovaria, na medida em que trataria numa nova luz a era e os eventos da época, procurando, pelo escrúpulo e objectividade dos factos coligidos, escapar ao conhecido fosso no que concerne a temas ainda considerados para todos os efeitos difíceis de reconciliar, como são as visões do que foi o colonialismo português em Moçambique, e a natureza do conflito armado desencadeado a partir de meados dos anos 60 no Norte de Moçambique.

E mais tarde,

7. que descrevia, em detalhe, um dos episódios hoje mais conhecidos (por alguns portugueses, essencialmente) desse conflito, o chamado Massacre de Wiriyamu, ocorrido em Dezembro de 1972 na localidade com o mesmo nome, situada nos arredores da cidade de Tete, no Norte de Moçambique, em que um grupo de comandos portugueses ( a 6ª Companhia) assassinou de forma bárbara um número considerável (mas parece que não inteiramente quantificado) de aldeões moçambicanos.

A abordagem desta temática – acompanhada de considerável conteúdo biográfico do pai do autor – é algo de novo para JRS, que nasceu e viveu até aos dez anos de idade em Moçambique e cujo pai trabalhou naquela antiga província portuguesa como médico.

Essa biografia foi de certa forma reconstruída, pois em entrevistas concedidas JRS concede que o pai praticamente nunca lhe falou dos eventos relatados à lupa no romance.

JRS, um jornalista que é conhecido em Portugal essencialmente por fazer regularmente, desde há alguns anos a esta parte, a locução dos noticiários num dos canais públicos da televisão portuguesa, teve algum sucesso até esta data como autor de um número de obras de ficção, cuja raiz mais aproximada é aquilo a que se pode chamar “literatura de aeroporto” – livros de mistério, mística e intriga, de fácil leitura, leves, acessível por parte de um mercado digamos que menos exigente.

Aliás a exploração com algum sucesso deste tipo de literatura, basicamente desconsiderada em Portugal pela sua fraca ou nula qualidade, e o seu posicionamento como um produto comercial de grande consumo, distinguiu JRS do que é considerado a norma no mercado livreiro português, na medida em que a forma e a tónica da comercialização das suas obras segue relativamente de perto, ou alinha-se adequadamente, à linha seguida, neste e noutros países, para obras deste género, como é caso com – salvaguardadas algumas abissais diferenças – Sidney Sheldon e Dan Brown, dois casos de sucesso nos Estados Unidos e no resto do mundo.

Por sua parte, generosamente, o autor mostra-se indiferente, ou melhor, não exibe grandes ilusões nem aparenta sentir-se minimamente perturbado, com a rotulação da sua obra como algo menos que bom, procurando, quando muito, a resposta a essa questão no relativo sucesso (à escala portuguesa) obtido com as vendas dos seus livros, o número de países onde é lido e o número de línguas em que as suas obras estão traduzidas.

Este é, notoriamente, um dos segredos mais mal guardados de JRS, que inclusivé numa interessantíssima e relativamente longa série de entrevistas gravadas para a televisão, com um número de autores, principalmente estrangeiros, em que se demonstrou bem preparado e até pessoalmente curioso, repetidamente prescrutou os seus entrevistados sobre as suas obras, como as viam, como se viam, como as concebiam, como as vendiam.

E se a escrita comercial era literatura ou não.

De longe, os entrevistados americanos, pouco afeitos às periclitâncias do meio cultural português, deram as melhores respostas.

Creio que, na essência do sucesso de JRS, residem dois factores primários e muito simples: 1) a especialização num segmento do consumo de livros em que já havia provas de haver mercado inclusivé em Portugal – a tal “literatura de aeroporto”, à la Dan Brown, Sidney Sheldon  e outros – e 2) a sua comercialização quase desavergonhadamente comercial e agressiva, envolvendo todos os grandes canais de distribuição, desde as FNACs até as prateleiras da cadeia de supermercados Continente. Com a imagem e o nome familiares do autor/leitor de notícias do Canal 1 da RTP à frente.

Puro marketing. E muito eficaz.

Mas que por si só diz rigorosamente nada sobre a sua escrita.

Isto para não referir a cobertura incomum dos sucessivos lançamentos por parte da comunicação social a um dos seus, que só alavanca mais o esforço da venda. Há umas semanas assisti, como já referi antes, à cerimónia de lançamento de O Anjo Branco na Sociedade de Geografia de Lisboa e aí notava-se a diferença com outras situações semelhantes: a audiência era a habitual pandilha dos amigos/admiradores/família, mas a imprensa que lá estava parecia que estava a cobrir o evento de uma estrela de rock. Fleugmático, e de forma correspondente, por sua vez JRS portou-se com a modéstia de uma.

Situação em que não é estranha, nem inocente, a fortuita circunstância do autor ser uma cara conhecida por milhões de potenciais consumidores por ler notícias no principal programa de notícias de televisão português. Digamos que uma obra incomparavelmente melhor, concebida por um discreto e até há pouco obscuro professor de história numa universidade pública em Maputo – João Paulo Borges Coelho – apesar de recipiente de um dos grandes prémios de literatura portuguesa (ou melhor, de língua portuguesa) não mereceu, por comparação, sequer uma nota de rodapé em termos de notoriedade.

O Tema e o Contexto

Apesar de volvidos 36 anos desde o golpe de Estado que liquidou a II República e cujos contornos fundamentais eram ser uma ditadura conservadora e defensora do prolongamento, sem data-limite, da soberania portuguesa nos territórios situados um pouco por todo o mundo, com destaque para Angola e Moçambique, e a subsequente substituição por um regime democrático de cariz parlamentar-partidário, até esta data, a exploração e contextualização dessa presença e ainda da chamada descolonização, continuam a ser tópicos de aceso debate em Portugal.

Anote-se que não é para menos. Não há qualquer paralelo, em novecentos anos de história portuguesa, de um processo tão violento e tão abrupto que afectou vários milhões de pessoas, o “retorno” à Europa de cerca de um milhão de portugueses e seus descendentes, perdas patrimoniais incalculáveis e nunca ressarcidas, e a independênca para perto de quinze milhões de africanos, processo que foi precedido por uma guerra que durou cerca de treze anos em três frentes completamente diferentes: Guiné, Angola e Moçambique.

Em Portugal, a atitude prevalecente em relação a esta temática é, apesar de centenas de milhares dos seus cidadãos terem sido compelidos a ir servir e combater nos teatros africanos, de uma quase total apatia e esquecimento.

Uma minoria, especialmente entre os antigos residentes nas antigas províncias africanas, alberga ressentimentos de vária ordem e intensidade, pese o facto de terem já decorrido praticamente quatro décadas desde o final dos eventos.

Creio que o sentimento geral, de parte a parte, é de que, em última instância, quer para os que viveram uma vida de róseas recordações, quer os que combateram principalmente na Guiné e em Moçambique, foi um absurdo de memórias boas e más, de oportunidades perdidas, de glórias e de sofrimento, de amizades perdidas. As antigas províncias seguiram o seu caminho, com todas as oportunidades e todos os problemas inerentes, e, especialmente nos dias que correm, parece que a nação portuguesa ainda não recuperou nem do trauma psicológico nem das consequências mais práticas de ter deixado de ser uma entidade económica e social multi-territorial e multi-cultural, com um projecto histórico centenário. Pois que o caminho seguido a seguir a 1974, simbolizado pelo “para a Europa, e em força” de Mário Soares, em Novembro de 2010, parece estar agora seriamente em risco, sem se vislumbrar um plano alternativo.

Foi neste ambiente que JRS publicou O Anjo Branco.

A história

A história acompanha o percurso, entre os anos 30 e o ano de 1973, de José Branco, desde algures em Portugal, até à sua retirada da cidade de Tete, onde serviu como médico e director do hospital local, na sequência dos eventos de Wiriyamu.

Nota-se que o autor fez um esforço considerável de prestar atenção aos detalhes dos diferentes contextos, desde os nomes, a geografia dos locais, e a linguagem. Em Moçambique, por exemplo, é utilizado abundantemente o linguajar local – o “Yeah”, o “maningue”,  o “tatá”, “matabicho”, etc – que poderão eventualmente impressionar quem conhece esses aspectos mais ou menos lúdicos da vivência local. Ou as marcas de cerveja e dos refrigerantes locais (deve-se ter esquecido da Tombazana, uma velha favorita minha nos recreios da minha escola primária, Rebelo da Silva) e eventos concorrentes com a altura em que decorre a narrativa.

Interessante, mas só isso, e pouco ou nada relevante para quem não conheceu essa realidade.

A estrutura da linha temporal da obra, sendo cronológica, é algo errática, na medida em que, havendo linhas narrativas paralelas – o autor não segue apenas o percurso do pai ficcionalizado, há a considerar o percurso de Diogo, um militar de terceira linha que é fundamental como a ferramenta privilegiada do autor para poder dar a dimensão pretendida ao seu relato – “salta” por vezes vários anos, presume-se que por economia de espaço ou falta de conteúdo. Assim, a personagem Branco casa-se no fim de um capítulo, e no início do capítulo seguinte já haviam passado vários anos. Sem quase qualquer informação do que acontecera entretanto, pelo que o leitor é forçado a presumir que nada aconteceu. Pois se nada foi reportado, só pode ser porque nada aconteceu.

Todo o relato e a evolução das personagens descritas pelo autor, facilmente se apreende, são uma relativamente complexa construção com um objectivo específico, que evolve e se dirige unicamente para um único palco espacial e temporal, uma circunstância fulcral, onde todos os elementos se reúnem: os eventos do massacre ocorrido em meados de Dezembro de 1972 nos arredores de Tete. Que é tratado mesmo no fim do livro, após uma espécie de pré-anúncio de entrada nas portas do Inferno, com uma citação da conhecida obra de Dante Alighieri, a Divina Comédia.

No processo, ao leitor é servido um cocktail de tipologias algo plastificadas, da humanidade que povoava a sociedade colonial moçambicana, vistas naturalmente duma óptica portuguesa – afinal, José Branco e Diogo são portugueses. JRS procura dar um vislumbre da algo inocente, ou ingénua, dolce vita do branco colonial, com a presença do inevitável criado doméstico, os variados funcionários da administração colonial, o agente da Pide, o comandante da PSP, os técnicos de Cabora Bassa, a tropa fandanga, a esposa perfeitamente estúpida, a aérea e inconsequente Mimicas, a boazinha e sacrificada enfermeira espanhola, e até a inevitável bifa boazona como o milho, desempoeirada, sexualmente disponível e entiçada pelo macho latino, casado ou não, na forma de uma estonteante rodesiana, que no fim se descobre que é uma cabra calculista e ainda por agente secreta dos rodesianos – e que, apesar das putativas intimidades, embrulha a personalidade José Branco com a Pide.

Apropriada a essa moldura criada por JRS, a estes coloniais se junta, quase invisível, a massa distante e miserável dos moçambicanos rurais, quase não entidades, deixados ao seu destino, apanhados entre dois fogos, entre a tropa fandanga portuguesa que, à excepção dos comandos (que é descrita como uma tropa especial) JRS caracteriza quase comicamente, e a eficácia silenciosa dos guerrilheiros da Frelimo (os “turras”). Que, como consta no registo histórico, a partir da operação Nó Górdio em 1970, concebida pelo general Kaúlza de Arriaga, o novo cônsul de Marcello Caetano, desviaram a sua atenção e actividade guerrilheira de Cabo Delgado para a zona de Tete.

Naturalmente, não é por acaso que essa massa de gente miserável do mato era invisível para todos menos menos para uma pessoa: a pessoa do pai ficcionalizado, José Branco, que inclusivé cria, tal como o pai real do autor, o Serviço Médico Aéreo, nome um tanto aguerrido para um teco-teco que percorria com uma enfermeira os confins de Tete semanalmente, para acudir de forma minimalista as populações isoladas no mato (muito melhor do que nada,  que era o que havia antes, diga-se).

Finalmente, no relato de JRS, o ingrediente da consciência da nascente nação e das coisas para vir, corporizada na personagem de Domingos Rouco (outro decalque da realidade, desta vez do conhecido Dr. Domingos Arouca, uma figura de referência da história de Moçambique), a correia de transmissão da realidade eminente e do que “realmente” se estava a passar na saga da guerra colonial, para o algo ingénuo Dr. Branco (e por essa via para o leitor mais incauto, e por extensão, à parte de leão da elite colonial).

E a conclusão do relato no desenrolar de eventos que culmina com o massacre das gentes que viviam em Wiriyamu, que – a verdade seja dita, para a ditadura foi essencialmente um muito sério problema de relações públicas, por coincidir com uma visita de Estado que Marcello Caetano fez a Londres em meados de 1973.

Mas Wiriyamu foi mais que isso, claro. Muito mais . Por razões pouco plausíveis, matou-se muita gente inocente à toa.  Poderá ser fácil para muitos a relativização deste episódio, especialmente numa era como a que vivemos, em que se assistiu a episódios como o massacre de 11 de Setembro nos Estados Unidos, os terríveis massacres na Bósnia-Herzegovina ou a casa de horrores que foi o Ruanda em 1995, apenas para mencionar alguns. Mas este – Wiriyamu – foi “nosso” e perpetrado no “nosso” tempo. Por si só isso deveria ser alvo de reflexão. E motivo para a expressão de pesar e de respeito pelos mortos.

Mas o leitor nunca encontrará esta úlima aferição – que é minha- na obra de José Rodrigues dos Santos.

Crítica

Tendo vivido em Moçambique até aos 15 anos, e tendo a esta hora já quase uma vida de leitura dos factos históricos detalhadamente aludidos na obra O Anjo Branco, confesso que, para mim, a leitura deste livro infelizmente ressacava de déjà vu. Por mais vezes que eu gostaria de o ter feito, encontrava-me, paralelamente à leitura do enredo, a “picar” mentalmente os locais, os termos, os trajectos, se isto ou aquilo era exactamente como JRS descrevia. E quanto a isso devo dizer que, no cômputo geral – louvado seja – ele fez mais ou menos o trabalho de casa. Mas, não sendo um revivalista nato,  achei aquilo um tanto chato. Uma distracção, até. Tudo parecia artifical, uma re-criação. Um mero artifício.

Pelo contrário, passei o tempo a interrogar-me como é que alguém que não viveu Moçambique nos anos 60 e 70, irá alguma vez entender o alcance, o detalhe, o significado de todo aquele artilhado de referências. E chego à conclusão que, no essencial, aquilo tudo é basicamente irrelevante, ou melhor, pouco relevante. Especialmente se esse hipotético leitor não for português ou moçambicano (a 24 euros em Portugal a cópia, boa sorte aos meus amigos moçambicanos…) os únicos que poderão entender mais aproximadamente os significados explícitos e implícitos das múltiplas referências.

A sensação de déjà vu percorre ainda a maior parte do relato. Quem estudou a história recente de Portugal, ou quem foi contemporâneo dela, ao ler esta obra estará condenado também a ir “picando” a sequência de eventos em ocorridos naquela altura. Possivelmente interessante para quem não sabe, chato que baste para que, como eu, está careca de saber.

Retirado isso, fica a primeira grande crítica ao que li: o enredo, por si só, é interessante apenas e unicamente por uma razão, e mesmo assim só marginalmente: porque JRS o jornalista estrela da RTP e escritor com algum sucesso nos avisa previamente que aquilo é aproximadamente decalcado do percurso feito pelo seu pai, o Dr Rodrigues dos Santos. Que ao dinamizar a iniciativa do Serviço Médico Aéreo em Tete só pode ser alvo de merecido aplauso. Mas mesmo aí só isso. A personagem descrita no livro é menos que interessante, tem uma tipologia algo bi-dimensional. Sendo a principal do enredo, no fundo é apenas mais uma de um novelo de pessoas que fazem a história ali contada. Não é heróico, não sofre, não faz quase nada de inusitado, entra e sai de cena sem que o leitor sinta que está na presença de alguém invulgar, ou alguém que fez algo de excepcional. Como há uns dias escreveu um exmo. Leitor, pessoas como ele (o pai do autor na vida real) houve-as às dúzias, parecendo quase uma injustiça apontar os feitos desta e ignorar os dos outros todos.

Por outro lado, por definição, sendo o enredo quase matematicamente decalcado duma realidade bem conhecida de quem proventura estiver familiarizado com a realidade moçambicana nos anos 60 e 70, não é, não pode ser um thriller à moda das obras anteriores de JRS.

Nem há ali qualquer revelação incandescente sobre seja o que for.

Portanto, O Anjo Branco nem é um thriller, nem é o herói da história um herói.

Sendo assim, esta obra é então o quê?

A resposta é fácil. Eu creio que JRS se enganou, ou foi enganado, quando supôs, ou quando lhe disseram, quando se convenceu, que a história do seu pai, do seu percurso feito em Moçambique, que culminou com o seu muito breve cruzamento com a tragédia de Wiriyamu em Dezembro de 1972, era uma história interessante ao ponto de merecer – mesmo ficcionalizado – um livro de quase setecentas páginas.

Com todo o devido respeito pelo Sr. Dr. Rodrigues dos Santos e tudo o que fez, não merece.

Ou então, apesar de introduzir o alegórico permitido pela ferramenta da ficcionalização, JRS simplesmente não conseguiu adicionar a dimensão épica, emocional, moral, ao seu texto, que assim se lê um pouco como se vê um documentário da National Geographic sentado em casa em frente ao televisor.

Por falta de melhor justificativo para a razão de ser desta obra no contexto do que JRS é e já fez, o que acabo por magicar é que, talvez subrepticiamente, o filho escritor quis heroificar e honrar o pai médico-aviador com um livro evocativo, para o que aliás se dispôs a calcorrear os confins de Portugal e de África e entrevistar toda uma série de pessoas (algumas das quais apresentou nominalmente na Sociedade de Geografia de Lisboa), coligindo um sem fim de dados, para no fim tentar fazer aquilo que até agora tem tido algum sucesso a fazer: conceber um thriller com um herói.

A leitura desta obra coloca outra questão que abordarei apenas como referência pois já escrevi antes em detalhe mais do que suficiente sobre isso: a ficcionalização ali contida. Só que na altura em que considerei o tema da ficcionalização, fi-lo no abstracto, sem haver lido o texto. Agora que já li, a questão é mais paradoxal, na medida em que o que encontrei foi uma ficção completamente assediada pela realidade dos factos. Imagino que a personagem Diogo seja uma mera ferramenta literária para suportar a explanação, pelo autor, do enredo. Ele é a mosca na parede que vê o que outros não podem ver. Mas mesmo essa personagem serve essencialmente para transmitir factos. E mesmo que este ou aquele facto, ou situação, ou contexto sejam errados para quem está dentro deles, o autor poderá sempre recuar e dizer que essa parte foi ficcionalizada. O leitor mais informado fica assim cercado pela argumentação.

E, pessoalmente, considero esta uma situação que perturba e é por isso que não gosto de ler os chamados “romances históricos”.

Permita-me o exnmo. Leitor dar um exemplo claro do que falo. Há uns tempos atrás enganei-me completamente (acho que fui ludibriado, na verdade) quando comprei a obra Catarina de Bragança, da autoria de Isabel Stilwell, que é um dos pequenos best sellers portugueses recentes e que pensava eu que contava a história da desgraçada filha de João IV que, após a chamada Restauração em 1640, por razões de Estado, casou, mediante o pagamento de um formidável lobolo, o monarca britânico da altura, o incorrigível Carlos II, ele por sua vez “restaurado” no trono depois da breve (e única) fase republicana britânica, liderada por Oliver Cromwell. Já li que baste sobre esta era, mas achei que seria interessante reler a história na versão stilwelliana. Bem, apesar da capa deste livro nada indicar (ao menos a capa de O Anjo Branco indica que é um romance) afinal aquilo era um “romance histórico”, em que Isabel Stilwell permite-se, e quer-nos fazer crer, que estava lá, que sabe, a todo e qualquer momento, o que se passou e o que ia na mente da desgraçada Catarina, da família real portuguesa e de todos os que os rodeavam. Eu achei aquele relato pouco credível e essencialmente insuportável, pois eu queria a verdade ou uma aproximação dela, não o romancear delirante e bem intencionado da Isabel, transplantado para a filha de João IV. Mas estes dias este tipo de literatura anda muito na moda. Eu bem que tento de fugir dele, mas neste caso fui enganado.

De forma mais atenuada, a obra de JRS sofre do mesmo problema.

O Anjo Branco foi também comercializado com a argumentação de que apresentava as coisas de uma nova maneira, um novo olhar sobre a história portuguesa (e moçambicana) recente, mais fria, mais objectiva, mais distanciada das ainda luzentes disputas ideológicas em relação ao julgamento feito da História. De facto, na minha leitura, constatei que JRS deve ter prestado tanta ou mais atenção, e dispendido tanto ou maior esforço, a contar uma estória que fosse tão isenta de julgamento, tão politicamente correcta, tão factualmente incontroversa, quanto aparentemente prestou, e dispendeu, a agregar os miríades pequenos detalhes da vida e dos locais onde se desenvolve o enredo. Isso tem a virtude de o colocar bem na imagem – o politicamente correcto é uma maneira de estar na vida, especialmente em Portugal, especialmente para um popular apresentador de televisão – e de concretizar algo verdadeiramente insólito: o de ter sido capaz de escrever um livro de setecentas páginas sobre o tempo colonial e a guerra em Moçambique, e provavelmente de a obra ser inatacável por parte das várias correntes portuguesas actuais em relação ao tópico, e até da prevalecente doutrina moçambicana em relação ao assunto.

Isso sim, é que foi obra.

Só não sei se, nessa óptica, seja obra que interesse ler. O politicamente correcto tende a não ter paixão, tende a acinzentar a realidade. Tende a corroer e a dissolver as arestas e os contrastes que pessoalmente eu gosto de ler. Prefiro ler Samora e Marcelino, Jorge Jardim, Caetano e Kaúlza de Arriaga e decidir por mim quem tem razão, e quem está a mentir.

Mas se calhar sou só eu a sentir isso.

O Mangalho de José Branco

Para encerrar esta nota que já vai longa, gostava de abordar, à laia de “assuntos quixotescos diversos”, o mangalho de José Branco, assunto que JRS usou como gracejo em mais de uma entrevista que concedeu.

A verdade é que o primeiro capítulo de O Anjo Branco é apenas sobre duas coisas: 1. o nascimento da personagem decalcada da do seu pai, e 2. o descomunal, incontornável, indesmentível, embaraçoso, enorme tamanho do seu pénis. Sendo a obra “realidade ficcionada”, toda a gente logicamente ficou na dúvida se aquilo do mangalho do futuro Dr. Branco era baseado no respectivo órgão do pai de JRS ou se era apenas uma figura de estilo do autor para alguma coisa que tivesse que ter com o contar da história. JRS foi soberbamente evasivo e até gozou com os jornalistas que lhe fizeram a pergunta, que, rindo, estupidamente, deixaram a questão ficar por ali.

Só que a questão é pertinente e constitui um mistério, não tanto porque o herói da fita inspirado na figura do pai tivesse um “monstro” entre as pernas, mas, mais relevante, porque é que JRS achou que aquilo era um assunto mencionável no contexto da obra. É que, da leitura do texto, emerge que o “monstro” parece que afinal não serviu para nada, nem tem praticamente qualquer relevância no enredo. A todos os títulos, a personagem criada por JRS aparenta ser uma pessoa absolutamente normal, que nada fez de extraordinário, certamente não era um James Bond que embananava uma mulher em cada esquina. Aliás, fica-se com a dúvida se a mentalmente indigente Mimicas, a mulher de José Branco, alguma vez viu o “monstro”. Para além da estrondosa aparição no início do texto, esta referência só aparece mais duas vezes, algures durante a adolescência e (o leitor decida o que fazer disto) na passadeira da igreja a caminho do altar, para Branco se casar com a patética Mimicas.

Nesse ponto, pensava eu que era aí que se justificaria a honrosa menção: a noite de núpcias que teria que se seguir ao enlace matrimonial, e que seria para JRS a oportunidade de, com base na precedente referência, fazer o equivalente do Canto Nono de Os Lusíadas, o tal em que os professores no meu tempo de liceu ficavam embasbacados a tentar explicar o que eram e o porquê daquelas orgias lírico-sexuais inventadas pelo poeta Luis de Camões.

Só que nada disso acontece. O Dr. Branco casa com a Mimicas depois nada. Como em Loch Ness, o  “monstro” simplesmente desaparece para nunca mais ser visto. Nem mesmo quando o Dr. Branco se enrola repetidamente com a apetecível rodesiana em Lourenço Marques e algures no Norte, no chão e no ar.

Ou seja, aquilo é tão despropositado, tão fora de contexto, que fica ali, literalmente…pendurado.

JRS lá saberá o que aquilo significa. Mas seria bom se quem lesse, também percebesse.

Em resumo

Esta obra prova que José Rodrigues dos Santos devia centrar-se no tipo de livros que fez antes deste.

O Anjo Branco é legível, pode até ser interessante para algumas pessoas. Mas não está em linha com a obra anterior de JRS. Não é nem um thriller nem sequer uma tentativa de épica. E sofre de uma atroz falta de dimensão humana e de alguns constrangimentos que a meu ver a aproximam apenas de uma estória mais ou menos bem contada, sabendo perigosamente a um mero script de cinema, faltando-lhe a emoção, o empenho, o partidarismo, o drama que caracterizou aquela fase da vida dos portugueses e dos moçambicanos. Focando num dos episódios registados mais tristes da guerra colonial, talvez no afinco em manter a neutralidade politicamente correcta em relação a um tópico ainda rodeado de paixões, o autor apenas a descreve analítica e distanciadamente, passando por cima do horror e injustiça abjecta que o massacre representou.

Fica a homenagem tentada, implícita, ao pai de JRS – a todos os títulos um bom homem, a quem ele, juntamente com a mãe, dedica a obra.

E aqui fica a minha homenagem – às vítimas de Wiriyamu.

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