THE DELAGOA BAY REVIEW

09/02/2010

GUEVARA E A FRELIMO, 1965

Filed under: Che Guevara, História Moçambique, Marcelino dos Santos — ABM @ 5:14 am

Guevara despede-se de Marcelino dos Santos

Eduardo Mondlane com Ernesto Guevara

por ABM (Cascais, 9 de Fevereiro de 2010)

Dos anais da história: fotos da visita do revolucionário de Cuba à sede da Frelimo, em Dar-es-Salaam, capital da Tanzânia, no dia 14 de Fevereiro de 1965.

Para a semana faz 45 anos que aconteceu.

Tanto quanto se soube, nada resultou desta visita.

20/12/2009

Alfredo Korda e as Fotos do Ideal Cubano

Filed under: Che Guevara, História, Icones, Kok Nam — ABM @ 5:10 am

che-korda

por ABM (Cascais, 19 de Dezembro de 2009)

Até ontem apenas conhecia o nome de Alfredo Korda vagamente porque, quando morreu em 2001, ele foi apontado como o autor da “fotografia mais reproduzida do mundo” – que eu para variar reproduzo acima mais uma vez. Trata-se de uma imagem de Ernesto Guevara, camarada de armas durante algum tempo do ditador comunista cubano Fidel Castro.

Sempre houve algo na ditadura comunista cubana que me escapou. Nomeadamente, a mistura de romanticismo e de superioridade moral que eles, e muitos os seus acólitos e simpatizantes, ao longo dos anos, conseguiram associar à ditadura, através de furiosos esforços de propaganda onde e quando possível (e elevado ao nível do patético agora com a associação entre o decrepitante Fidel e esse mais do que improvável petro-líder da venezuelana “revolução bolivariana”, Hugo Chávez).

O que me penaliza, pois das poucas vezes que convivi com cubanos lá do regime, genuinamente simpatizei com eles ao nível pessoal, mas se e quando a cassete do regime arranca, perco-me. Já não tenho pachorra.

Nem me atrevo a entrar nas razões porque é que o retrato de Ernesto Guevara, tirado por Korda num comício qualquer em Havana em 1960, foi tão reproduzido e mistificado. A internet está pejada de análises e interpretações. Até já li comparações com as imagens prototipadas de Jesus Cristo de Nazaré. Eu, que já li em detalhe sobre a vida de Guevara, não estou minimamente impressionado. Não sei qual é o fascínio com ele. Na melhor das hipóteses, foi um jovem aventureiro à escala global. Até se lembrou de ir a Dar-es-Salaam em 1965 pregar não sei bem o quê aos jovens nacionalistas da Frelimo. Tentar espalhar a mensagem da revolução comunista? ensinar a mexer numa AK47? se calhar impressionou o jovem Samora, mas depreendo que não aconteceu o mesmo com Mondlane.

Mas, para quem gostar, cito um seu admirador, o jornalista, membro emérito do Partido Comunista e escritor português José Saramago, que por alguma razão gosta muito de falar em espanhol e terá dito, naquela prosápia lírico-ideológica:

“…Che Guevara, si tal se puede decir, ya existía antes de haber nacido, Che Guevara, si tal se puede afirmar, continúa existiendo después de haber muerto. Porque Che Guevara es sólo el otro nombre de lo que hay de más justo y digno en el espíritu humano. Lo que tantas veces vive adormecido dentro de nosotros. Lo que debemos despertar para conocer y conocemos, para agregar el paso humilde
de cada uno al camino de todos.”

Enfim.

Nem sei qual é o fascínio com a ditadura cubana, que, com aquele regime indescritível na parte Norte da Coreia, aqui estamos em 2010 e insistem em resistir ao seu anunciado acaso, badalando as suas falidas virtudes, os anacronismos políticos da história actual.

Se houve justificação para derrubar o regime ditatorial e corrupto de Fulgêncio Baptista em 1959 (de quem, para variar, apanhei a foto em baixo, confortavelmente a jogar golfe com a mulher Marta em Setembro de 1968 no Clube de Golfe do Estoril, a vila em Portugal onde ele viveu em apagado exílio quase até ao fim da vida), se se compararem os sete anos da sua pulhice com os 50 anos da de Fidel, por mais carismático e charmoso que ele possa ser, o diabo leve a escolha. Talvez mais grave no caso de Fidel Castro, pois 50 anos de ditadura cobre quase três gerações de cubanos, tornado menos intolerável nos primeiros trinta pelos subsídios generosos dos comunistas soviéticos mas agora uma caricatura prostituída e dolarizada do “socialismo”.

Fulgencio Batista                     wife(The Baptistas golfing in Estoril)

No meio disto, temos o bom Senhor Alfredo Korda, alvo de uma exposição em Lisboa neste momento, que tive a oportunidade de visitar ontem, num daqueles dias de frio e chuva invernal.

Korda foi um fotógrafo decente que nasceu, cresceu e que vivia em Havana, ganhando a sua vida como fotógrafo comercial, quando o seu país sofreu a reviravolta de 1959. Ele simpatizava com Fidel e o que ele dizia naquela altura sobre os ricos e os pobres e a necessidade de dar uma volta às coisas, o que não era difícil pois tudo indica que Cuba era, para além de um exemplo típico do terceiro-mundo latino-americano, uma espécie de prostíbulo da Máfia norte-americana. Por alguma razão, conectaram um com o outro e assim foi que Korda foi fotografando oficiosamente o ditador nas suas andanças até que em 1968 misteriosamente ele “muda de ramo”, passando a fazer fotografia submarina para uma instituiçãozeca qualquer do governo cubano. Para além dumas fotos simpáticas à la National Geographic, daí não rezou história.

01 kordach[1]
(Alfredo Korda posa para la posteridad)

Diana Diaz, a sua filha (e aparentemente uma boa filha) que obviamente respeita o pai e que quer preservar e contextualizar a sua memória e trabalho, presumo que como alguém que era um tipo decente e que testemunhou a história de Cuba a ser feita, à margem da exposição de Lisboa deu algumas dicas sobre o que realmente terá acontecido em Março de 1968 e que diz muito do regime: nessa altura, os comunistas cubanos nacionalizaram todos os negócios privados do país, incluindo o estúdio fotográfico do seu pai, e confiscaram todos os arquivos de negativos dele. Não acredito que o fotógrafo tenha ficado lá muito satisfeito, e Diana ficou sem um património que de direito deveria hoje ser seu.

(é de salientar a algo subrreptícia mas fundamental defesa do seu direito como dono do seu espólio, pelos vistos nas mãos do regime desde 1968, quando, por mais que uma vez, quer Korda quer Diana especificamente referem que o fotógrafo fez todo o trabalho por sua conta, não empregado pelas instituições do regime. Só quem não quer perceber isto é que não entende).

Assim, em 1968 Korda literalmente ficou sem forma de ganhar a vida e teve que ir fazer a tal de fotografia submarina, empregado como funcionário público.

Presumo, assim, (não tenho registo das origens) que uma boa parte das fotos que se podem ver na exposição lá na Cordoaria, seja o que conseguiu escapulir às mãos do estado Cubano mais o que a propaganda deles quis pôr cá fora. Quase todas elas excelentes fotografias. Korda era bom fotógrafo, tinha bom equipamento e teve a oportunidade. Ilustrou uma parte da história de Cuba.

abm-korda-fidel

(ABM fotografa Korda a fotografar Fidel a ser observado por duas muchachas)

Talvez mais importante, para mim, houve algo no que Korda fez que me chamou a atenção e que fez parte de uma tendência global. No início dos anos 60 do século passado, Fidel e Castro, juntamente com John F. Kennedy nos EUA – este no outro lado da “barricada” ideológica – foram os primeiros líderes políticos que deliberadamente se deixaram fotografar por detrás da fachada formal e ritualista do poder, inaugurando, numa altura de grande massificação dos mass media visuais enquanto condicionantes da opinião pública, uma era de percepção de uma “aproximação” e de uma “humanização” dos líderes aos olhos da opinião pública, especialmente quando eram jovens e atraentes – Kennedy e Castro devem ter sido os líderes mas jovens e carismáticos dessa era. A partir desta fase, passou a ser normal ver os líderes na sua condição mais mundana, a comer um hamburguer, a fumar um charuto, a dar umas raquetadas de ténis, a coçar o nariz, com os sapatos todos sujos. Os movimentos sociais que se seguiram, de que se distinguiram as convulsões nos EUA (incluindo Woodstock) e em Maio de 1968 em Paris, em que os principais protagonistas foram os jovens, deram credibilidade à ideia de que o mundo pertencia aos jovens e que os “velhos” líderes eram moeda caduca. Creio que, neste contexto, a cara jovial, irreverente e barbuda do Sr. Guevara ilustrava o espírito da era.

Imagens que totalmente enganam, pois nada referem sobre a real mola que faz mover o Poder, que dão a ilusão da intimidade e da proximidade de quem provavelmente nunca sequer se aproximarão nem entenderão, e que resvalam no culto da personalidade.

Também nisso, Korda, creio que quase sem o saber, foi pioneiro.

E a força do seu trabalho foi tal, que por vezes não se sabe diferenciar a mensagem do mensageiro.

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