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28/11/2009

A I República de Pulido Valente

Filed under: História, Vasco Pulido Valente — ABM @ 2:17 pm

bandeira-de-portugal 19 Junho 1911

por ABM (Cascais, 28 de Novembro de 2009)

A 2 de Junho deste ano, Leonor Beleza apresentou ao mundo no nº13 da Rua do Século um livrinho chamado Portugal – Ensaios de História e de Política, com “apenas” 333 páginas, escrito por Vasco Pulido Valente, que eu conhecia apenas de umas excelentes colunas que ele vai publicando aqui no burgo, e que teria como habitualmente passado completamente por baixo do meu radar, não fosse o alerta dado por um amigo, o que me motivou a deixar o conforto da bucólica Alcoentre e venturar-me na loja da Worten no Centro Comercial Colombo em Lisboa e largar 14 euros e meio.

Apesar de estar apenas no segundo ensaio, creio poder dizer em segurança que mais do que valeu o investimento.

Um dos problemas de não ter estado lá quando as coisas aconteceram e de não ser especialista em certos períodos da história de Portugal é que frequentemente, ao ler os livros que nos são supostos fazer entender melhor o que aconteceu e porquê é perder-se o fio à meada e, ainda mais, perdermo-nos na confusão de nomes, datas e lugares. De forma magistral, nestes ensaios o Sr. Pulido Valente dá uma grande ajuda não só a entender o que sucedeu, mas ainda a entender a confusão que foi e o enorme impacto do que aconteceu nos últimos dois séculos da história portuguesa – sem perder o fio à meada.

A parte que já li cobre o período que vai desde o embarque da família real portuguesa para o Brasil, até ao final do que Valente apelida de “A Velha República”.

No ensaio que se debruça sobre o que no fundo foi uma desgastante e sangrenta guerra civil até ao estabelecimento do que veio a ser conhecido como Rotativismo, já nos anos 50 do século XVIII, impressionou não só a violência mas também a solução, o que atestou o nível de desenvolvimento social e económico do país. Foi uma paz pôdre, feita em Lisboa para comprar alguma paz. E só isso.

Mas foi o ensaio relativo à I República que me chocou mais. Tendo nós crescido na república, esta foi invariavelmente celebrada e vendida como uma coisa boa, uma modernização, uma melhoria em relação à monarquia e aos seus privilégios antiquados, que foi derrubada depois do Regicídio e de umas movimentações militares em Lisboa.

Daqui a menos de um ano vão-se celebrar cem anos de regime republicano em Portugal e quero ver o que vai ser dito em celebração da sua excelência.

O relato de Vasco Pulido Valente diz que foi tudo menos isso.

O que considerei curioso. A primeira vez que vi uma bandeira da monarquia (que foi branca e azul durante grande parte do séc. XIX) foi em casa do meu avô paterno MIM na Ilha de São Miguel quando tinha 13 anos e estava de visita “de África”(como ele dizia). Pensava que era uma bandeira de um clube local mas ele logo me corrigiu. Lembrei-me que o meu avô nascera em 1895 e portanto se ele se lembrava dos tempos da monarquia, o que, claro, ele se lembrava. E perguntei-lhe o que é que a monarquia tinha de tão mau que teve que se matar a família real e fazer um golpe de estado. A resposta dele é que pelo menos na monarquia havia ordem e que depois com a república foi uma confusão que ninguém se entendia. E ficou por ali.

Havia muitos aspectos da I República que eu não entendia, especialmente toda a violência que permeou aquela era, o radicalismo praticado e em particular o seu anti-clericalismo quase rábido, que, fazendo a leitura do conteúdo algo asséptico e meramente factual de muitos livros publicados sobre a matéria, não dá para entender muito bem o que se passou.

O texto de Valente sobre essa era é assombroso. Quase assustador. E deprimente. Ele vai ao ponto de considerar (pelos vistos correctamente) esse período como um de terrorismo de Estado, uma ditadura pura e dura por parte de um punhado de republicanos radicais,  contra a elite que em Lisboa regia o país, e contra todo o resto do país, onde vivia a esmagadora maioria do que hoje se chama “povo” – pavimentando o caminho para o que Salazar fez a seguir. Foi uma república imposta a fogo e ferro, em que o mero mudar da bandeira e do hino nacional (uma decisão por si só “revolucionária”) acabou por ser um detalhe.

Para quem quiser ver a pouca vergonha que aquilo tudo foi, leia-se este livro, a parte “A República Velha (1910-1917) pp. 47-118.

Acho que finalmente percebi o comentário do meu avô.

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