THE DELAGOA BAY REVIEW

03/12/2011

EM CUAMBA, 2011, BRANCO=COLONIALISTA

Filed under: Uncategorized — ABM @ 3:04 pm

Maria Moreno, candidata ao cargo de presidente da municipalidade de Cuamba, uma pequena cidade no Niassa.

Lourenço Vicente, o candidato à municipalidade de Cuamba pela Frelimo. Foto publicada no Faísca, publicação de Lichinga que cobre o Niassa, na sua edição de ontem, 6ª feira, 2 de Dezembro de 2011.

Segundo a Wikipédia, “Cuamba é uma cidade da província moçambicana do Niassa, localizada no distrito do mesmo nome. Administrativamente, Cuamba é um município, com um governo local eleito, uma área de 131 km² e uma população de 56 801 habitantes. Antes da Independência, tinha o nome de Nova Freixo. Foi elevada à categoria de cidade em 30 de Setembro de 1971.”

Se  o exmo. Leitor se deslocar de Nampula directamente para Oeste na Estrada Nacional 8, a meio caminho de Chiponde, na fronteira com o Malawi, encontra a cidade.

Cuamba não seria alvo de grande realce não fossem dois eventos recentes.

O primeiro evento, é que, vai-se lá saber porquê, a Frelimo, que na última eleição praticamente arrasou a oposição em todas as frentes – presidencial, parlamentar e municipal – há uns tempos decidiu, despejar os seus próprios eleitos para algumas cidades e convocar eleições intercalares.

A razão formal era que os titulares estavam a ter um mau desempenho.

Numa eleição intercalar, o mandato dos vencedores prolonga-se apenas até ao final do prazo do mandato dos eleitos anteriores. Estamos, portanto, a falar de um período remanescente de cerca de dois anos.

Cuamba é uma dessas municipalidades.

Na eleição de Cuamba, uma municipalidade com quase todos os habituais problemas das demais edilidades moçambicanas (há uma lista desses problemas que se pode ver premindo aqui), os candidatos de renome são um senhor chamado Vicente Lourenço, pela Frelimo, e uma senhora chamada Maria Moreno, por parte de um partido recente, surgido quase no final da última eleição presidencial, chamado Movimento Democrático de Moçambique, ou MDM.

Das informações que vou lendo, tirando Pemba, em que parece que o candidato da Frelimo é sério e considerado o favorito, nas outras duas já não é bem assim.

De certa forma surpreende, pois o domínio da Frelimo tende a ser arrasador em praticamente todas as esferas da vida política, civil e governamental do país. Desde o presidente do Tribunal Constitucional em Maputo ao reles cão da rua em Cuamba, com ou sem cartão de membro, quase todos pertencem à teia formal ou informal desse partido, que faz questão de se identificar com a própria nacionalidade e identidade do país.

A Frelimo tem influência, dinheiro que baste e uma máquina eleitoral sem rival.

E tem muita gente boa e com juízo – excepto, ao que parece, em Quelimane e Cuamba, em que, diz-se, os candidatos do MDM, respectivamente Manuel Araújo e Maria Moreno, são melhores que os seus contrapartes e têm estado a gerir uma campanha melhor, apesar do que parece um investimento inusitado, se algo tardio, pela máquina da Frelimo, que, em desespero de causa, despachou Eduardo Mulembwé, que foi a segunda figura do Estado durante anos e até recentemente, para a pequena cidade macua, a ver se espantava a caça.

As eleições realizam-se na próxima 4ª feira, dia 7 de Dezembro de 2011.

Se o exmo. Leitor quiser ler uns artigos interessantes sobre esta eleição, sugiro que leia, entre outros, alguns recortes no excelente excelente sítio que é o Macua Blogues.

Maria Moreno, cuja fotografia se encontra em cima, e que tem uma relativamente curta carreira política, primeiro na Renamo e mais recentemente no MDM, parece que teve o seu trabalho facilitado devido à má gestão dos edis demitidos – e que eram todos da Frelimo – e pela notória dificuldade no actual candidato da Frelimo, que parece não ter nem capacidade pessoal nem jeito nenhum para andar em campanhas.

Ou pelo menos parece que não tem.

O que me fez escrever isto tudo – e é a segunda razão porque Cuamba é o tema desta minha crónica- foi uma notinha publicada pelo jornal de Maputo A Verdade ao princípio da tarde de hoje na sua página no Facebook.

Diz a nota do conceituado jornal de Maputo, sob o título “Inaceitável”:

“O nosso jornalista que está em Cuamba, a cobrir as eleições, está a ser impedido de acompanhar a caravana de campanha de Vicente Lourenço, do partido Frelimo, por haver reportado os comentários racistas proferidos por este candidato a edil.  Recorde-se que na quinta-feira [1 de Dezembro de 2011], Vicente afirmou que “votar na Maria Moreno (candidata do MDM) é votar num branco, e no regresso do colonialismo”. O candidato foi mais longe, desta vez no mercado conhecido por Burundi, ao dizer aos jovens vendedores que se não votarem nele correm o risco de ver a cidade de Cuamba “assaltada por beirenses e portugueses”.

Não duvidando da veracidade do que reportou o jornalista do A verdade, e sendo o candidato Vicente preto e a candidata Maria José mulata (acho sempre curioso que um mulato para os americanos é preto e para os moçambicanos é branco. Vá lá uma pessoa tentar entender) ficam algumas questões para reflexão.

– O que pensa a Frelimo do que foi proferido duas vezes em campanha, em 1 de Dezembro de 2011, pelo seu candidato em Cuamba?

– É aceitável hoje em dia um político proferir este tipo de declarações impunemente?

– Qual é o problema com beirenses e portugueses irem viver e trabalhar para Cuamba?

– Num plano mais largo, pretende Moçambique ser ou vir a ser uma sociedade plural e multiracial no Século XXI, em que um cidadão, pela mera circunstância de ter uma dada epiderme,  não será discriminado, nem privilegiado, ou perpetua-se em capicua o racismo a que todos fazem referência e que constituiu uma das principais injustiças e uma das molas principais para se acabar com o domínio colonial português há quase cinquenta anos?

Nas décadas que se avizinham, Moçambique enfrentará desafios enormes, alguns inimagináveis, que exigirão o contributo de todos, com as suas capacidades, habilidades e génio. Num país que é 98% negro, importaria esclarecer se raça e etnia são, como se diz que foi no tempo colonial, critério de selecção acima de talento e capacidades.

Para entendermos melhor se, em Cuamba, no dia 7, sendo ambos moçambicanos, a candidata Moreno ganhou porque era a melhor para o cargo, ou o candidato Lourenço ganhou simplesmente porque é preto.

Só para a gente saber.

10/10/2011

O PRÉMIO DA FRASE POLITICAMENTE INCORRECTA DA SEMANA É DE….MO IBRAHIM!

Filed under: Uncategorized — ABM @ 11:50 pm

O Sr. Mo Ibrahim, milionário filantropo para África.

Ao fim do dia de hoje, a Fundação Mo Ibrahim, criada pelo senhor cuja foto está em cima, anunciou em Londres que vai atribuir o Prémio Mo Ibrahim de Sucesso na Liderança a Pedro Pires, um líder cabo verdiano.

Pedro Pires, aqui em 2008. Foto da CNN. Laureado Lusofónico Nº2.

O prémio tem duas componentes. Para além de uma soma paga imediatamente de cinco milhões de dólares, o beneficiário passará a receber 200 mil dólares por ano todos os anos enquanto estiver vivo.

Nada mau. E se calhar Pedro Pires mais do que merece.

O problema – se é que o há, nestas coisas nunca se sabe – é o desabafozito do Sr. Ibrahim, um indígena da atribulada nação do Sudão, que em parte para resolver a salsada que por lá anda desde que os britânicos largaram o poder para as instâncias locais, acabou de se dividir ao meio, ficando os campos de petróleo no meio até ver.

Ora vejam só a mensagem “de gracejo” que a portuguesa lusa Agência Lusa deve ter-se apressado a traduzir ainda aquilo estava quente:

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segunda-feira, 10 de Outubro de 2011 | 17:54

Mo Ibrahim lamenta que Sudão não tenha sido colónia portuguesa

O empresário Mo Ibrahim lamentou hoje que o Sudão não seja uma antiga colónia portuguesa como Moçambique e Cabo Verde, de onde são originários dois dos três vencedores de um prémio de boa governação em África.
«Quem me dera que o Sudão tivesse sido uma colónia portuguesa», gracejou hoje em Londres, no final da cerimónia de anúncio do vencedor da edição de 2011 do prémio Mo Ibrahim, no valor de cinco milhões de dólares (3,7 milhões de euros).

O empresário sudanês comentava o fato de o ex-Presidente cabo-verdiano Pedro Pires se ter juntado hoje ao pequeno clube de laureados, onde figura outro lusófono, o ex-chefe de Estado moçambicano Joaquim Chissano.

fonte: Diário Digital / Lusa

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Pressinto que o que resta dos colonialistas portugueses agradece vivamente a simpática mensagem de Mo Ibrahim.

Na verdade, Joaquim Chissano, um outro beneficiário da generosidade institucional da Fundação que o Sr. Ibrahim achou por bem criar, presumo que mais para incentivar a que se roube, pilhe e mate menos, do que a recompensar aquilo que qualquer político que se preze devia fazer sem ninguém ter que lhe dar nada (nada para além do que eles já levam, claro), recentemente expressou a igualmente interessante afirmação, já não me lembro bem a propósito de quê, de que o colonialismo português em Moçambique fora pior que o apartheid sul-africano. Muito pior. Já não me lembro quais foram as razões que invocou.

O Presidente Joaquim Chissano, Laureado lusofónico Nº1

Eu compreendo totalmente o lamento de Joaquim Chissano e pessoalmente sempre tive alguma pena de Portugal não ter sido uma colónia norte-americana, tipo Puerto Rico, ou como parece que alguns madeirenses no poder dizem que ser a actual situação com o “contenente”. Em que o colonizado é colonizado, sim, mas cobra por isso. E bem.

Pois afinal estas coisas dos colonialismos podem-se comparar facilmente, não é? o colonialismo A é melhor que o B, C fica lá pelo meio, etc e tal. Eu tenho um amigo brasileiro que dizia ter pena de o Brasil não ter sido colonizado pelos holandeses. E um americano que lamentava não terem sido os Estados Unidos colonizados pelos suecos (se bem que eu ache que o que ele queria mesmo dizer era “pelas suecas”).

Já o sempre saudoso Samora Machel, sempre que podia, nos seus discursos gostava de gozar com os portugueses (aqui no sentido gerúndio, e se calhar com carradas de razão) lamentando-se de a sua terra ter sido colonizada pelo país mais pobre, atrasado e periférico da Europa Ocidental. Ah, como eu o entendo. Eu próprio fiquei de boca aberta quando, com 12 anos de idade, saí da então Lourenço Marques e visitei a “metrópole”. Pensei qualquer coisa como “o quê? estes gajos é que mandam em nós? devo estar a sonhar”. E afinal, não há nada como ter um G-19 à porta, junto com o FMI, o Banco Mundial, o ADB, o IFC e mais meia dúzia de organizações, sem se omitir uma menção honrosa às carradas de ONG’s, com quem se vai amigavelmente negociando as prioridades nacionais, num clima de total parceria. Que é o que se passa em Moçambique desde que terminou tragicamente a fase “revolucionária” do pós-Independência.

Aliás, estudando a história de Portugal, sobre a qual sei algumas coisas, imagino vagamente que, pese o genocídio, a injustiça e o gigantesco rol de sacanices que devem ter sido perpetradas na altura, provavelmente a colonização romana da “sua” Lusitânia afinal deve ter sido coisa boa, pois para além de me parecer que antes da Pax Romana a margem ocidental da península devia ser uma macacada das antigas, tribos analfabetas e guerreiras permanentemente à estalada umas com as outras, cada um a falar a sua língua, religiões das mais estapafúrdias que se possam imaginar, uma economia agrária, de pastorícia e de rapina. Os romanos, em três tempos, deram cabo desta gente toda e trouxeram ordem ao pagode. O que muitos séculos depois deu no que se chama hoje Portugal, passou a ter uma língua nacional (bem, tem duas, se se contarem as velhotas que falam mirandês enquanto fazem crochet em frente à lareira lá no Norte), uma só religião que não é “romana” por acaso, uma herança cultural em termos de leis e costumes, estradas, pontes e demais infra-estruturas. Quando o Império Romano se desfez finalmente, com um empurrãozinho dos Bárbaros, ficou a herançazita, e o sémen do que estava para vir em Braccara Augusta (oops, Braga). A única nésguia de civilização que os proto-lusos conseguiam encontrar era na sua outrora matriz colonial. Os árabes que uns anitos depois colonizaram devem ter feito muita coisa boa mas por uma perfeitamente entendível aversão anti-colonial, os poderes emergentes despacharam as mesquitas, mudaram os nomes que interessavam e demoliram o que havia para demolir. Ficaram apenas vestígios, tais como essas palavras e esses sítios todos com nomes começados com “al” (tais como “aldrabão”, “alcunha” e “Alverca”) e uma vaga sensação nacional de que tudo o que previamente foi mouro (ou seja, situado na margem Sul do Rio Mondego) é preguiçoso, complacente e muito provavelmente vigarista. Qualquer portuense explica esta teoria melhor do que eu, mas o Pinto da Costa melhor do que todos, para não falar de Eça de Queiroz, que há cento e tal anos esteve uns tempos em Évora e Lisboa e como consequência do que viu escreveu umas crónicas que deram cabo da reputação nacional de vez.

Claro que o paradoxo desta dialéctica, a de Mo, de Samora e de muito boa gente, é pressupor que houve bons e houve mais colonialismos. Nomeadamente, que o dos britânicos era bom e que o dos portugueses era mau.

Por mim, que assisti a parte do processo, acho que é uma conversa um pouco extemporânea e depende da consideração de muitos factores.

No fim do dia, Pedro Pires está de parabéns.

E quem fala português fica de olhos arregalados com a estranha coincidência de, dos quatro laureados com o Prémio (o do Sr. Mandela é honorário), um ser Joaquim Chissano, e agora o outro ser Pedro Pires.

Mo Ibrahim, rói-te de inveja.

23/03/2011

A ALUCINAÇÃO SOCRATIANA

Filed under: Uncategorized — ABM @ 8:41 pm

23 de Março de 2011

A demissão de José Sócrates e do seu governo esta noite assinalam várias coisas para Portugal e os seus eleitores e contribuintes.

Quiçá a mais óbvia, e cujos benefícios não são de menosprezar, é a garantia de que deverá finalmente terminar o newspeak hilariante da gleba governativa, quanto à realidade social e económica portuguesa.

Em que o Programa de Estabilidade e Crescimento nem é um programa, nem de estabilidade e muito menos de crescimento.

Em que ao aumentar dos impostos chama-se “melhoria de receita”.

Em que cada estatística positiva congeminada pela máquina de propaganda esconde os factos que pressagiam aquilo de mau que muitos analistas vinham – sob acusação de estarem a mentir – a alertar.

Não havia dinheiro mas gastava-se. Chamava-se a quatro aumentos de impostos seguidos num só ano “plano de estabilidade e crescimento” – isto enquanto a economia se afundava e não se vislumbrava forma de a reformular e reactivar. Recorria-se a sucessivos truques de prestidigitação contabilística para dourar a pílula aqui e ali. Com um pérfido número maníaco-depressivo, ora estava tudo bem, ora estava tudo mal. Quando na verdade estava tudo, está tudo, mal e a deteriorar-se.

Termina, assim, após 35 anos de indescritível duração, o modelo do Estado Socialista. Ou pelo menos, a mais recente versão deste regime, instaurado à paulada e sob ameaça de um golpe comunista entre 1974 e 1976. Pois sendo o regime democrático, os eleitores poderão achar muito bem entregar-lhes novamente um mandato que lhe permita fazer surgir a sua cara sorridente e facilitista no panorama nacional.

Que pelos vistos não enganam os detentores de capital estrangeiros.

Os portugueses enfrentam, desta vez com estridente clareza, a decisão do caminho que pretenderão seguir no futuro.

Em termos de finanças públicas e uma boa parte das finanças particulares, simplesmente dito, o país está falido. Mais do que falido. O custo da máquina governamental, que representa mais do que metade de tudo o que ali se produz, é exagerado e desproporcionado face àquilo que as pessoas podem pagar. O modelo socialista-nacional-porreirista apostava numa elaborada teia de impostos, de endividamento gigantesco, de negociatas com meia dúzia de amigos, e uns programazecos de ajuda ao pobrezito, com fartas reformas à geração actual, tudo temperado com uma ideologia grandiloquente e inexequível e uma propaganda dulcificada.

Levou 35 longos anos a chegar aqui, mas ninguém exacerbou tanto os vícios e malefícios do Estado Socialista como os seis anos de José Sócrates. Um seu predecessor, António Guterres fez um ensaio nos anos 90, mas ao pé de José Sócrates, Guterres era um mero aprendiz de feiticeiro.

Alguns, entre eles o próprio, dirão que foi aquilo que aconteceu em Setembro de 2008 que foi a causa da actual emergência.

Não foi.

A bomba que ainda está para explodir sobre as cabeças dos portugueses (lamento: o pior ainda não chegou, nem por sombras) já vinha do final do tempo quando Aníbal Cavaco Silva foi primeiro-ministro. Cavaco criou o “monstro” do sector público e das grandes negociatas das auto-estradas, pontes e grandes obras de regime. Ele, que teve o benefício de enormes subsídios a fundo perdido da Comunidade Económica Europeia (mais tarde a União Europeia), criou a face do Portugal moderno. Nessa altura Portugal entrou no SME (que desembocou na zona euro). Com esse alinhamento precário, as taxas de juro baixaram assombrosamente e tudo, todos, precipitaram-se a endividarem-se. Sem outra saída, os bancos juntaram-se à festa.

Tudo isso teria sido bom se tivesse havido crescimento económico.

Mas não houve crescimento nenhum. Zero. Nicles. Efectivamente, tudo estava parado e quer o sector público quer o sector privado a consumir desalmadamente, tudo, todos a carregar no cartão de crédito.

A dívida agora está aí, para ser paga.

Em vez das reformas que têm que ser feitas, começando com Guterres, veio a tropa fandanga Socialista, cantando canções de equidade, nisso ajudada pelo bacoco discurso comunista e pela indignidade neo-chique do Bloco da Equerda. Mais uma vez e sempre todos e tudo a carregar no cartão de crédito.

Depois de um pequeno interregno inexplicável em que José Manuel Durão Barroso saltou para presidir à Comissão da União Europeia e deixa atrás Santana Lopes para levar com Jorge Sampaio em cima, começa a Alucinação Socrática.

José Sócrates, que do quase nada surje após mais uma purga nas hostes socialistas (que tem lá boa gente) elevou às alturas o Artifício Socialista. Sem olhar ao custo-receita, meteu-se numa série de programas tão interessantes como impraticáveis. Uma fábrica de pequenos computadores chamados Magalhães que ainda hoje não sei o que lhe deu. Substituir a electricidade feita a carvão, gasóleo e gás por geradores a vento, que custam dezenas de vezes mais ao quilowatt. Excelente ideia quando se é rico. Mas Portugal não era nem é rico. Programas para os pobres à barda, uma generosidade simpática excepto quando é feito com os impostos de receitas que já estavam a faltar e que subsidiam, com dinheiro que não existe, o ócio de quem devia virar-se mais para meter o pão na mesa (eu já fui pobre e sei extactamente o que isso é).

O momento mais alucinante da Alucinação Socratiana não foi aquele caso estranho das comissões pagas em relação a um centro comercial na margem Sul do rio Tejo, tão arrojadamente manipuladas pela Justiça, nem tão pouco o descobrir-se que a sua equipa engendrou meios quasi- criminais (pelos vistos nunca se saberá) para calar programas de notícias de televisão ou ainda abafar o director do actual jornal lisboeta Sol, ainda mais assustadoramente manipuladas pela Justiça.

Nem quando se pagou a milhares de empregados públicos para se reformarem, pagando-lhes de reforma o mesmo que eles ganhariam se tivessem ficado a trabalhar mais uns anos, pois se ficassem mais uns anos as suas reformas, como tinha que acontecer, seriam cortadas.

Não.

O momento em que se entendeu que algo de muito seriamente errado ocorria nos raciocínios do primeiro-ministro agora demissionário, foi quando, no final de 2008, quando já se apercebia a plenitude e o alcance do tsunami económico e social que viria do desmoronar financeiro na Europa e nos Estados Unidos, José Sócrates, alegremente, manteve um discurso de oásis e um aumento a todos os funcionários públicos de quase quatro por cento para todo o ano de 2009. Por curiosidade precisamente, o ano em que, em Setembro, foi a votos e vence com uma maioria simples.

Oportunista, o eleitorado votou PS.

A partir de 2010, já não havia como gerir a coisa pública, deixando positivamente indisposta a Sra D. Manuela Ferreira Leite, no PSD, que não acreditava no que estava a assistir. Mas ela não tinha jeito nem uma chance contra a máquina propagandística do PS e os PSD’s substituíram-na por Pedro Passos Coelho.

Que para mim permanece uma incógnita.

À partida, teve quase exactamente o mesmo percurso de José Sócrates: é jovem, inexperiente e um mero produto da máquina partidária.

Não lhe conheço grandes rasgos de visão quanto ao futuro de Portugal.

Não sei, talvez a ideia seja ele ser assessorado pelos decanos do seu partido e puxado por Cavaco Silva, que agora está no seu mandato final como presidente, que inaugurou estrondosamente com o silêncio cortante com que deixou cair Sócrates e o PS.

Quanto aos socialistas, prevendo-se a sua continuada presença na cena nacional, talvez esta seja uma boa altura para reflectir sobre os seus objectivos e visão. Um país pobre e falido que pretende como actividade principal redistribuir a maior parte da sua riqueza entre os pobres, fazer as negociatas e os grandes projectos para os amigos e alimentar um sector público insustentável, e que ainda por cima não cresce, não é um país. É um equívoco, uma fraude e um convite aberto à emigração para quem tiver o rasgo e a iniciativa para tal, deixando atrás um país falido, cheio de velhos reformados e sem quem lhes pague as reformas, gerido por uma plutocracia política-empresarial que invariavelmente sacará para si, como sempre, o melhor corte do bife.

Talvez um bom começo seja mudar algumas caras na sua liderança.

A procissão ainda vai no adro.

27/01/2011

A HOMENAGEM A EUSÉBIO E AS ORGANIZAÇÕES PORTUGAL

Filed under: Uncategorized — ABM @ 12:06 am

Imagem tirada pelo incomparável Rogério Carreira, que esteve lá, durante a homenagem a Eusébio no dia do seu 69º aniversário. Durante os minutos em que ... a electricidade pifou no Coliseu dos Recreios na baixa de Lisboa.

Ok, não quero ser muito mauzinho. Apanhei por puro acaso e levei em cima com a maior parte do “especial” da RTP para comemorar 69 anos de idade e 50 anos de carreira no futebol de Portugal do jogador de futebol Eusébio. Isto quando a patroa não me roubava o controlo remoto e mudava de canal, que ela não estava para estas cantigas.

O que dizer do “especial” de Eusébio? Os meus comentários da noite:

1. De longe o que mais me tocou foi o depoimento do Sr. Mário Coluna, que mais uma vez provou a sua grandeza e magistral maneira de estar, que nem uma apresentadorazeca com tiques de excesso de excitação conseguiu perturbar. Aliás, como foi possível homenagear Eusébio sem aproveitar para fazer coisa parecida ao Sr. Mário Coluna é um daqueles mistérios da vida. Mas ele estar lá foi muito bom.

2. Gostei do vídeo com a alocução do Sr. Presidente de Moçambique. Guebuza foi muito simpático, ainda que se perceba vagamente, especialmente em Moçambique, que metade do mundo se torça todo com a Questão Eusébio em dois aspectos. O primeiro é que, sendo que ele mais do que moçambicanérrimo e mais do que made in Moçambique e made in Africa, foi bafejado a noite toda como o português mais português de todos (que acho que também é, genuinamente). A segunda é que, enquanto os Libertadores andavam na guerra da Libertação lá no Cabo Delgado aos tiros aos soldados e aos colonos brancos, e a comer merda de elefante no mato, e em Lourenço Marques o Malangatana e o Craveirinha e o Nogar e esses todos levavam a ocasional visitinha do Sr. inspector da Pide entre pinturas e poemas, o Eusébio parece que se estava a marimbar para isso tudo e era a incontestável mega-estrela do Portugal colonial e  ditatorial, Salazar a gozar o prato, na sua mão o cartão de visita da arregimentada visão de um multirracialismo que, aceitemos, naquela altura era pouco mais que pura teoria. Os portugueses de então, como hoje, não são racistas – excepto quando são, o que é quase sempre. Perguntem a qualquer português preto e ele explica.  Mas no futebol parece que não são, pois não há racismo que obste a qualidade e o sucesso a meter golos. E aquela geração de pretos e mulatos de Moçambique, sem nada dizer sobre o assunto, ensinou isso em duas décadas. Curiosamente, nunca, mas nunca, ouvi Eusébio falar sobre o assunto. E mesmo quando se deu a turbulenta caminhada para a independência de Moçambique, não sei se ele disse alguma coisa. Reparei de facto que ontem à o presidente moçambicano foi muito simpático – mas nunca aferiu directamente a moçambicanidade de Eusébio.

Não que importe. Creio que Eusébio, como o Sr. Mário Coluna, verdadeiramente, estão acima, e merecem, o respeito e admiração dos dois povos.

3. A parte dos vídeos do programa foi interessante, pois elencava alguns dos inesquecíveis momentos que o tornaram numa figura maior e num mito do desporto e da vida social dos portugueses.

4. A música achei uma bimbalhada.

5. Foi, por tudo isso, pela solenidade mediática do evento, e pelo aparente esforço logístico levado a cabo pelo Benfica e pela RTP (que custa aos contribuintes 1 milhão de euros por dia em impostos, em boa parte visível todos os meses nas lusas contas de electricidade) que considero absolutamente incompreensível a falha de electricidade que, pensava eu, nos pouparia do inane discurso do actual presidente da Cãmara Municipal de Lisboa. Então montam uma operação na baixa de Lisboa, com transmissão directa para todo o mundo e arredores, e a electricidade vai ao ar? imperdoável. E mais imperdoável foi ter que ver novamente o presidente da Câmara vir ao palco com um menino do Benfica na mão e repetir tudo o que disse. Não se pode pedir a demissão dum ministro qualquer por causa disto?

24/12/2010

A NAÇÃO MARAVILHA

Filed under: Uncategorized — ABM @ 5:22 pm

24 de Dezembro de 2010

Para quem segue os noticiários portugueses, pode ter a sensação grata de que, apesar das algo draconianas medidas tomadas recentemente, reflectidas num orçamento do governo para 2011 que já está mais ou menos aprovado, os problemas estão enquadrados e o mal quantificado.

Não estão, nem de perto, nem de longe.

Mas desde há algum tempo que desisti de sequer tentar fazer o argumento, pois só chateio e parece, de qualquer maneira, que as pessoas também não sabem o que fazer, senão vagamente esperar pelo melhor e entretanto continuar a viver alegremente, aparentemente sem alterar o seu estilo de vida.

Há que recordar que, havendo 11 por cento de taxa de desemprego e menos dinheiro, isso não quer dizer que os restantes 89 por cento tenham necessariamente que estar a sofrer.

Mas veja-se só estes quatro itens:

1. Foi anunciado que, na absolutamente obscura situação de falência virtual do Banco Português de Negócios – que, inacreditavelmente, ainda está aberto e paga os salários na totalidade a 20 empregados para estarem em casa há dois anos – será necessário aumentar o seu capital em mais 500 milhões de euros. Isto a juntar aos cerca de 4.500 milhões de euros de que fiz registo mental de já terem sido dispendidos.

2. foi revelado que por despacho do governo, 326 milhões de euros de depósitos de pessoas e empresas, associados a processos judiciais, foram pura e simplesmente usados para despesas, sem que tal fosse reflectido adequadamente na contabilidade como sendo dinheiro que o governo deve.

3. Ontem, a Fitch Ratings, uma das três principais empresas internacionais de classificação do risco, desceu a sua notação para a república portuguesa de AA– para A+. Isto não é mau: é péssimo.

4. E como se tal não bastasse, esta manhã a mesma empresa anunciou que baixara a sua notação de risco para a Caixa Geral de Depósitos de A+ para A. Há uns dias atrás, havia feito o mesmo ao Banco Comercial Português e ao Banco Espírito Santo.

Para quem não está dentro desta coisa das notações de risco, as notações gerais são, excluindo as intermédias:

AAA : as melhores, seguras e estáveis
AA : empresas boas, mas de menor qualidade e maior risco que as de cima;
A : empresas em que a sua situação económica pode afectar a sua situação financeira (isto é, obter financiamentos); e
BBB : empresas de qualidade média, em situação satisfatória neste momento.

Se ninguém reparou, neste momento podemos ver o ministro português das finanças a acabar de fazer uma visita à China para sugerir aos chineses que comprem dívida soberana portuguesa. E José Sócrates vai a 1 de Janeiro próximo assistir ao início do mandato presidencial de Dilma Rousseff no Brasil – e tentar negociar com o governo brasileiro a compra de alguma dívida soberana portuguesa.

Os analistas domésticos revezam-se a mandar biscas para o ar quanto a se o Fundo Monetário Internacional (FMI) vai “entrar” em Portugal, ou seja, se vai ser convidado a forçar a imposição de medidas mais impopulares à população portuguesa.

Pois para mim não é o FMI o importante. É tomar as medidas que têm que ser tomadas.

E, para variar, o governo socratiano tomou uma: numa altura destas, decretou um aumento no chamado salário mínimo nacional. Bem sei que 500 euros não é nada, etc e tal. Mas numa altura destas, parece-me pior do que estúpido e arrogante: parece-me ser mais uma medida eleitoralista e mais uma forma demagógica de demonizar o patronato português.E mais uma manobra de piscar o olho a uma audiência que se espera responda quando o PSD ou o PP apresentarem no parlamento uma moção de censura e ela passar.

Uma coisa é certa: ocorrendo, a progressiva deterioração da economia vai ter sempre mais impacto em que recebe menos. Que pode passar por se juntar aos já 600 mil portugueses sem emprego, e para os quais os chamados subsídios de desemprego já só abonam dois terços deste grupo.

E em Janeiro já se anunciam aumentos de preços muito acima da taxa de crescimento dos salários.

2011 promete ser um ano deveras interessante.

Um feliz Natal aos exmos. Leitores e suas famílias.

03/12/2009

ANNO VII DE UM BLOGUE

Filed under: Uncategorized — ABM @ 12:51 pm

rio zambeze
(vista aérea de troço do Rio Zambeze)

por ABM (Cascais, 3 de Dezembro de 2009)

Feliz 6º aniversário ao Maschamba. Comemorado com recortes musicais do Iutube.

http://www.youtube.com/v/m44z-223UYE&hl=en_US&fs=1&

http://www.youtube.com/v/glNjsOHiBYs&hl=en_US&fs=1&

http://www.youtube.com/v/k4SLSlSmW74&hl=en_US&fs=1&

http://www.youtube.com/v/ajyPvPKi2GY&hl=en_US&fs=1&

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