THE DELAGOA BAY REVIEW

15/12/2010

O PORTUGAL DE UMBHALANE SENA

por ABM (14 de Dezembro de 2010)

Há uns tempos atrás, comprei num antiquário a imagem acima, que era para oferecer a um senhor que eu conheço, de origem indiana, chamado Fahrid.

Entretanto, a vida deu sete voltas e a velha imagem ficou dentro de um envelope, de onde a tirei outro dia, não sabendo já o que lá estava.

É uma imagem da cidade portuguesa de Diu, quando era portuguesa. Uma das cidades fortificadas que os antigos portugueses tinham por aí, para assegurar os seus negócios, a sua segurança e também para fazer valor aos reis portugueses o título adicional de “senhor do comércio e da navegação”.

A coisa de facto durou pouco. Os portugueses foram senhores da navegação e comércio por umas décadas no século XVI, e depois iniciou-se uma longa agonia, que durou quase uns quatrocentos anos, que incluiu a entrega de Bombaím (hoje Mumbai) e o Ceilão (hoje o Sri Lanka) como parte do dote pago a Carlos II para desposar a miserável Catarina de Bragança e assim oferecer vaga cobertura à então recentemente re-adquirida independência do reino de Portugal.

A Índia foi “britânica” durante uns anos, e os portugueses mantiveram-se nos seus pequenos enclaves de Diu, Damão, Goa, e dois territórios no interior chamados Dadrá e Nagar-Aveli.

Até que, de duas penadas, Nehru acabou com a fantasia.

Diu hoje aparentemente é pouco mais que um obscuro apêndice no colosso indiano, encostado lá em cima ao pé de um dos mais fecundos centros de negócios da Índia.

Um dos leitores deste blogue colecciona imagens de lugares e fortificações onde os portugueses antigos estiveram. Em Moçambique, tirando aquela ilha lá para cima, a maioria destas fortificações durou pouco ou nada, por esta ou aquela razão. E nem cidade alguma se formou em seu redor.

O que foi, para essa gente, viver ali, tão longe da sua terra?

Ou não era assim que pensavam?

Mal imagino que terá sido.

Ma por outro lado, se calhar dirão os mesmos de quem viveu em África até ao terceiro quartel do século XX.

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11/10/2010

A QUESTÃO ESSENCIAL DA VIDA

Filed under: António Botelho de Melo, James Le Fanu, Religião, Viagens — ABM @ 8:11 pm

A capa do livro de James Le Fanu, que eu li e que analiso mais lá em baixo.

por ABM (11 de Outubro de 2010)

Se o Exmo. Leitor quiser ver a análise da obra salte a secção que se segue.

INTRODUÇÃO: DEUS E ABM

Desde que a Mãe BM, nos primórdios dos anos 60, naquele tempo católica devota e praticante assídua, me depositou imberbe na catequese da Igreja de Santo António da Polana para aprender a sua religião ( educação essa que foi complementada via um acordo qualquer entre o Estado e a Igreja Católica com uma espécie de dose dupla de indoctrinação aos sábados de manhã na Escola Primária Rebelo da Silva, hoje, a Escola Primária 3 de Fevereiro em Maputo) que se me colocou a questão da existência de Deus e o Enquadramento da Humanidade no Esquema Geral das Coisas.

A contracapa do livro de Le Fanu com o seu teaser. Prima na imagem para ler o que diz.

Para mim nunca foi uma questão importante: rapaz algo precoce nestas coisas, desde logo estudei a questão, não porque ela me mistificasse, nem sequer porque nunca por um segundo que fosse que eu acreditasse na tese de um mundo criado por uma entidade divina etc e tal (aka Deus), que a seguir criou tudo e a seguir criou os homens “à sua imagem” para fazer sei lá bem o quê (pois alguém que me explique isso em três linhas ou menos).

Estudei a questão porque eu, que me achava razoavelmente inteligente e lógico, não entendia porque é que me parecia que eu era a única pessoa no planeta que sentia isso e, quando olhava à minha volta, quase toda a gente que eu conhecia estava perfeitamente à vontade em ir à missa, confessar-se, falar com os seus deuses, tinha medo deles, pedia-lhes favores, metia cunhas, seguia o que me pareciam ordens ante-medievais para o seu comportamento e morais, etc e tal.

Simplesmente era algo que não entendia.

E como eu odiava aqueles rituais todos. O senta-levanta- ajoelha-senta outra vez-levanta outra vez, a confissão a um padre de saias escondido num cubículo às escuras, as horas de blá-blá-blá que para mim eram um suplício, ainda por cima aos domingos às sete da manhã, quando o que eu queria era ir à praia ou para a piscina do Desportivo.

Imagem do chamado Concílio do Vaticano II, tirada em Setembro de 1962. A missa deixou de ser falada em latim e os padres passaram a rezar a missa de frente para os fiéis. Não fiquei impressionado.

Os padres com quem eu contactava, com a excepção de um, talvez pela sua estupidez, arrogância, aparente falta de cultura e desregrada mania de que um miúdo era uma espécie de saco acrítico a quem se despeja o que se quiser sem direito a contexto e análise, só pioraram a coisa, achando que me instilariam a sua fé por simples imposição dogmática ou à porrada, estilo “vais acreditar nisto senão levas no focinho”.

E oh se eu levei no focinho de quase todos eles (cabrões de merda), especialmente quando um dia disse ao padre Arnaldo lá na igreja de Santo António, em alto e bom som, em pleno comício de meninos de catequese bem comportados (todos brancos) que não, que não acreditava que tinha sido Deus que tinha afundado o Titanic no trágico naufrágio ocorrido na noite de 15 de Abril de 1912 (a imagem vinha no livro da catequese, com fotografia e tudo). Tinha sido um iceberg. Eu lera na Enciclopédia Universal lá em casa. Ele aí passou-se dos carretes, bateu, gritou, castigou, mandou-me rezar dez pais-nossos e queixou-se aos meus pais que eu era malcriado e do piorio.

Enfim. Sobrevivi.

Segundo o meu manual da catequese, foi Deus quem afundou o Titanic e matou aquela gente toda.

Isto durou o que pareceu uma eternidade até que, uma noite, com 12 anos, após estudar o assunto mais aturadamente, marquei e tive uma conversa muito séria com a mãe BM, que para variar nessa noite estava a rezar o terço. A mãe BM era a combatente católica da família, enquanto que o pai BM basicamente ignorava o assunto, limitando-se a seguir os passos mínimos obrigatórios para acomodar a minha mãe e não fazer ondas. Ele disse-me isso muitos anos mais tarde, mas desde sempre dava para ver que o seu empenho nestes assuntos não era o mesmo do dela.

Nessa noite, pedi-lhe que por favor acabasse com aquilo tudo: ela já tinha feito o que ela achava ser o seu dever de transmitir-me os seus valores religiosos, o que eu entendia e respeitava. Eu já tinha percebido tudo o que os padres andavam a tentar dizer. Mas não acreditava nem tinha fé e já estava farto e por isso por favor que me deixassem de chatear com estas coisas de Deus e de ter que ir a catequeses e seminários e romarias e missas pois eu já não podia ver aquilo à minha frente.

Para atenuar o choque, tacticamente, lá lhe disse que talvez um dia mais tarde na vida (mais propriamente, o Dia de São Nunca à Tarde) eu levasse com um relâmpago em cima e visse a Luz e essa coisa toda. Mas por enquanto nada me atraía ao Sobrenatural.

Nem eu alguma vez perdera o sono com o assunto.

Para minha supresa, a mãe BM pousou o terço e aquiesceu. No dia seguinte, assinou o papelinho que me permitia isentar-me da aulas de Moral e Religião na Escola Preparatória General Machado (o tal que fez o plano da cidade e acabou o caminho de ferro, Carlos) e deixei de frequentar a Igreja de Santo António da Polana aos fins de semana.

Manteve-se apenas a obrigação de eu ir à missa do Galo na noite de Natal.

Entretanto cresci, e desde então, sempre mantive uma postura de enorme respeito e curiosidade por todas as religiões, e apreciação do que de bom (e de mau, atalhe-se) delas pode vir.

Tecto da Capela Sistina no vaticano: a visão do Divino há quinhentos anos. Por Michelangelo.

O não me inscrever na fé católica (ou em qualquer outra) não significava que não tivesse as mesmas questões e dúvidas que me parece que muitas pessoas – e muitas religiões e ainda o marxismo-leninismo – se colocam e procuram responder, como de onde viemos, o que estamos a fazer aqui, qual a razão para a nossa existência, qual o nosso objectivo enquanto por aqui andamos.

Pelo contrário. Sou um leitor ávido (mas casual) de boa literatura sobre os assuntos de geologia, astronomia, paleoantropologia, até biologia e filosofia (versão light), no sentido de melhor entender “isto” que somos e em que vivemos.

E bem divertido é tentar entender o que é que as ciências andam a descobrir por aí. Muito se descobriu nos últimos trinta anos. Muito mais do que eu alguma vez sonhara ser possível durante a minha curta estadia nesta terra.

A minha mais recente leitura sobre estes temas foi o livro cuja capa é acima retratada, Porquê Nós?, com o subtítulo O Mistério da Nossa Existência, pelo médico e escritor britânico James de Fanu, mais ou menos aptamente traduzido do inglês para língua portuguesa (com ortografia pré-acordo, graças a D….oops) e que foi recentemente posto à venda em Portugal (Porto: Livraria Civilização Editora, 2009, 15 euros no Continente).

O LIVRO

A obra de Le Fanu, que tem apenas 350 páginas, e cujo conteúdo é facilmente acessível a mentes menos treinadas nestas coisas (ou seja, não se perde facilmente o fio à meada) tem três aspectos que achei interessantes de abordar.

O primeiro, é que actualiza, quem o lê, para os raciocínios mais recentes sobre as origens do homem e do que o rodeia e para as mais recentes descobertas científicas feitas, em que o Shangri-la foram a descoberta do DNA e, mais recentemente, o mapeamento do genoma humano, que foi anunciado ao mundo em 2001.

O segundo, é uma excelente, inteligente, detalhada, a meu ver um pouco longa demais, discussão das teorias da evolução dos seres vivos, primeiro publicitadas ao mundo com a publicação, em 1859, de Sobre a Origem das Espécies, da autoria de Charles Darwin.

O terceiro é que, lá para o fim do livro, apesar de não cruzar a barreira do cientificamente plausível, o nosso Fanu não pôde deixar de fazer umas curtas deambulações sobre o Além e a Entidade Superior Divina Que Tudo Sabe e Tudo Faz.

Mas, consistentemente, diga-se, pára ao afirmar que a Ciência não consegue por si só comprovar essa existência. Ok, eu já esperava qualquer coisa deste género.

De certa forma, as mensagens que Le Fanu transmite são ao mesmo tempo desconcertantes e encorajadoras, quer pelo que já se descobriu, quer pelo que nem sequer ainda se suspeita como funciona. Dou dois exemplos que ele esmioçou em algum detalhe.

A PERFEIÇÃO (OU DEUS) ESTÁ NOS DETALHES

Um, é que, apesar de se conhecer hoje em algum detalhe a composição e natureza do DNA, comum a todos os seres vivos e que tem cerca de três mil milhões de componentes, e de ser ter passado os últimos anos à caça do que aquilo é e como opera, praticamente ainda não se chegou a parte nenhuma em termos de um entendimento mínimo quanto à sua arquitectura e o seu funcionamento. Suspeita-se, por exemplo, que a maior parte da estrutura do genoma humano é “lixo”, ou seja, informação genética que à partida não parece fazer nada nem servir para nada. E depois há a algo desconcertante constatação de que, à primeira vista, em termos de estrutura do DNA, o do homem só difere ligeiramente (2 por cento) do DNA do macaco ou da mosca.

O DNA dela é 98 por cento mosca, segundo Le Fanu

O outro exemplo é que, segundo Le Fanu, andou-se os últimos dez anos a estudar os supostos “verdadeiros” elementos diferenciadores que tornam a espécie animal a que chamamos os humanos, única na natureza: o cérebro e a consciência, ou inteligência.

Resumindo, apesar dos imensos estudos, e do muito que já se descobriu, verdadeiramente,  ninguém percebe ou consegue explicar minimamente como funciona.

Ninguém sabe como pensamos. Ainda menos como sonhamos.

Uma descrição que considero particularmente feliz da parte dele é a sua explicação de como passámos de macacos para gente, usando e descodificando em termos que se entendam, os registos científicos existentes hoje em dia. Le Fanu explica como é que se sabe que Lucy, a senhora que viveu algures em África e cujos ossos o Dr. Leakey encontrou, já andava de pé há uns milhões de anos, o tamanho do seu cérebro (25% mais pequeno que os nossos) e porque é que era importante ela já andar de pé maquela altura (podia correr melhor, podia segurar objectos com as mãos livres tais como um pau para ferrar uma nos cornos de um leão ou construir uma rede).

Outra curiosidade: se o exmo. Leitor parar e olhar para a sua mão, vai reparar que, em relação aos restantes quatro dedos, o seu polegar está mais recuado e mais atrás. E pode tocar todos os outros quatro dedos. É isso que nos permite segurar objectos e fazer quase tudo com as mãos, com uma precisão enorme. Nas mãos dos nossos primos macacos o polegar está no mesmo plano que os restantes dedos, o que significa que não pode fazer isso. Enorme vantagem para os humanos.

Mais uma curiosidade: fruto da evolução dos nossos antepassados, neste caso antepassadas, o facto de andarem de pé e de, ninguém sabe como nem porquê, os nossos cérebros terem “subitamente” aumentado significativamente de dimensão a partir do momento da concepção, as mulheres (comparativamente com as macacas) passaram a ter muito mais dificuldades  no processo de dar à luz, correndo facilmente perigo de vida, pois o “canal” por onde sai o bebé é mais apertado, pois está “encaixado” numa estrutura óssea originalmente desenhada para andarmos com as mãos no chão mas que foi “puxada” para cima quando começámos a andar de pé. Sendo agora as cabeças dos bebés muito maiores do que anteriormente, estima-se que uma macaca quase não tem dores de parto, enquanto que uma mulher normal sofre dores de parto que tendem a ser de assustar a morte.

A EVOLUÇÂO QUE FOI MAS QUE AFINAL NÃO FOI

Talvez o que mais me surpreendeu no livro de Le Fanu foi a constatação, na sua (longa) crítica da teoria da evolução avançada por Darwin há mais que um século, que afinal as coisas não são bem como eu pensava e que de facto permanecem buracos e inconsistências sérias. Talvez a mais surpreendente é que – surpresa- o registo fóssil identificado até agora, não confirma directamente que houve uma “evolução” das espécies.

O que parece que aconteceu foi mais uma sequência ainda não totalmente explicada (agora está na moda que, quando não se sabe o que foi, então foi um enorme meteorito que mandou com tudo abaixo) do surgimento sem qualquer explicação de um considerável ou enorme número de novas espécies – de que se destaca a Grande Mãe de todos eles, a Explosão Cambriana – que vivem e evoluem mais ou menos pacificamente durante uns largos milhões ou dezenas de milhões de anos, e de repente desaparecem também quase sem deixar rasto, inexplicavelmente.

Para ser mais preciso, mais do que 95 por cento de tudo o que já viveu na Terra está extinto.

Ou seja, a “evolução” é mais uma sequência disconexa de surgimentos de espécies animais e vegtais em massa, seguida de extinções em massa.

Ninguém sabe de onde é que ela veio e quem a fez

No fim de centenas de milhões de anos e de uma linha incompreensivelmente longa e ramificada (e essencialmente ainda completamente por mapear) destes processos, com o resto da bicharada e as espécies vegetais, aqui estamos nós hoje, a Grande Espécie, os homo sapiens.

Que se saiba, a única espécie viva que alguma vez existiu por estas bandas que pensa.

Mas que há meros sete mil anos ainda não usava nem a escrita nem o sabão. E vagueava em bandos e matava bichos e apanhava das árvores para comer.

Mas de repente, quando noventa e oito por cento da Humanidade ainda andava de tanga (incluindo os antepassados do europeus) e às pauladas uns aos outros, no que é hoje o Médio Oriente, apareceram como que por milagre os sumérios, e depois os egípcios, com a sua inacreditável civilização, e muito mais tarde os romanos, os primeiros imperialistas europeus (os últimos, na versão clássica, foram os portugueses, claro).

ABM no Cairo; Been there, done that.

Para quê isto tudo? Porquê?

Lamento, mas a resposta é que não parece haver qualquer lógica subjacente. Como refere Le Fanu num canto da página 277, citando o biólogo evolucionista George Gaylord, estamos aqui, agora , simplesmente porque sim: O homem resulta de um processo natural, sem propósito, que não o tinha em mente.

Portanto, para já, do ponto de vista científico, Deus e um Propósito parece que não fazem parte da Equação.

A não ser que o exmo Leitor ache que sim. Uma das maravilhas da mente (e Le Fanu gasta várias páginas deliciosas precisamente neste tópico) é que as pessoas podem pensar quase absolutamente tudo aquilo que quiserem. Faz parte desta indescritível faculdade de aprender, de reter, de processar, de criar e de imaginar, que só nós temos, encapsulados nesta bola azul que gira em volta de uma estrelinha num obscuro canto dum inimaginavelmente vasto Universo.

É tudo uma questão de se acreditar. Ou de fé, como se diz.

Por exemplo, todas as semanas, para minha perpétua surpresa, a Mrs. BM tem fé de que vai ganhar o Euromilhões. Eu, mais consistente e pragmaticamente, apenas espero que, se ela ganhar, me dê algum.

Alternativamente, o exmo. Leitor poderá querer ler o mais recente thriller de José Rodrigues dos Santos, o autor, jornalista que pisca o olho quando lê os noticiários na RTP e personalidade nascida em Moçambique, que se chama A Fórmula de Deus. Segundo a sua algo divertida mas detalhada explicação em inglês socratiano, reproduzida no vídeo ali em baixo (ele aqui está a puxar pelo seu livro no mercado anglófono, e cujo título em inglês é The Einstein Enigma) a obra é um complexo enredo que inclui um português, o Dalai Lama, o cientista Albert Enstein e os iranianos, em que no fim se descobre que existe afinal uma prova científica da existência de Deus.

http://www.youtube.com/v/ebA4KGVEPQY?fs=1&hl=pt_PT

Para já, se o José não se importar, vou esperar pela resposta, sentado.

19/03/2010

ANTEBELLUM

por ABM (Lisboa, 19 de Março de 2010)

Este é um prelúdio à minha nota sobre o lançamento do livro O Olho de Hertzog, por João Paulo Borges Coelho (JPBC).

Gosto de pontualidade. Para mim é algo natural. Cresci com ela. Prezo-a. É uma parte essencial, imprescindível da vida complexa. É eminentemente desejável para que a vida seja mais fácil e mais eficiente para todos. E exequível. É a homenagem a esta verdade incontestável: a de que o bem mais precioso que temos, mais que a saúde, o dinheiro e o sexo, é o tempo. Reconheço que muita gente não repara nisso.

E só menciono esta questão aqui por duas razões.

A primeira é que em Portugal a pontualidade é, na maioria das situações, uma prática em pouco uso. Nem tanto porque há pessoas que não sabem o que é a pontualidade: elas sabem. E até têm um magnífico arsenal de desculpas para a sua não-pontualidade. O problema é que parece que há mais gente que não conhece o conceito, creio que mais numa óptica latino-casualística de “há tempo para tudo” (o que naturalmente o desvaloriza e donde o paradoxo é que só há tempo se houver pontualidade por parte da maioria) e há os que acham que a sua falta de pontualidade inscreve-se como uma espécie de estatuto de entidade superior, em que quanto mais importante se é (ou se pensa que é) mais se pode ignorar a pontualidade. Pessoas “importantes” em Portugal fazem-se esperar. Decorre que quem é pontual e espera, terá estatuto inerente de menoridade.

E, mais grave, há curiosas instâncias em que se assiste à codificação e institucionalização da falta de pontualidade, que assim acaba por ser aceite em vez de sancionada. Recentemente, passei por uma situação em que marquei uma consulta com um médico, para uma quinta-feira às 11 horas. Eu estava lá a horas. O “sotôr” apareceu ao meio dia e descobri então que a sua pródiga assistente havia marcado cinco pessoas para ele ver nesse dia e às mesmas 11 horas. Quando fui atendido, à uma hora da tarde, preguei-lhe um valente raspanete e saí, sem consulta e sem pagar um tusto e com a garantia de nunca mais voltar. Mas não antes dele, que na primeira parte da nossa curta conversa basicamente me tentou explicar que não tinha que explicar nada – o seu estatuto assim lhe daria mais essa prerrogativa – em tom de meia confissão, me vir para cima com a justificação de que se ele marcasse horas específicas para cada pessoa que ele via ele acabaria por passar fome pois os pacientes frequentemente marcam e não aparecem sem dar cavaco ou chegam tarde e a más horas.

Em Cascais eu conheço um senhor de origem alemã e que vive em Portugal há muitos anos. O Dr. Luiz é médico cirurgião e do nosso relacionamento depreendo que os alemães quando nascem, metem-lhes um “chip” da pontualidade na cabeça. Com base nesta amostra (que infelizmente é só ele) a pontualidade parece que faz parte do DNA dos alemães. E das conversas que tenho tido com ele, essa tem sido uma das bases da sua quase infindável conflitualidade na sua vida portuguesa (e ele adora Portugal, na versão lúdico-turística, claro): ele planeia a sua vida e é pontual, e quase ninguém à volta dele é. Como exemplo, esta semana ele contratou uma empresa de reparação de aparelhos de ar-condicionado para vir fazer uma reparação em casa dele. A empresa indicou que uma equipa sua estaria em sua casa esta manhã às dez horas da manhã. Apareceram às 11 e meia. Ele ficou sentado na sala uma hora e meia à espera dos técnicos, e como consequência do atraso desmarcou um almoço comigo pois à hora de almoço S.Exas estavam lá a trabalhar. Eu, que tinha o almoço com ele, fiquei a arder (e a comer uma sanduíche de queijo em casa) e danado com este, mais este, exemplo da (falta de) pontualidade vigente.

Isto vem a propósito da minha ida ontem ao centro de Lisboa para assistir a uma cerimónia a marcar a publicação do livro O Olho de Hertzog, pelo escritor e professor universitário JPBC. Eu, que praticamente nunca vou a estas cerimónias (a última foi em Maputo há uns dez anos para o lançamento de um livrinho de poemas do meu caríssimo Eddy White, então meu colega, acreditem ou não) anotei a informação divulgada aqui há dois dias pela nossa cara Senhora Baronesa, que referiu ser a dita na sede da Sociedade de Geografia de Lisboa, ontem pelas 18 horas. E assim me preparei e me dirigi de Cascais para Lisboa no meu Maschambamobile, cerca das 17 horas. Como o trânsito para o centro da cidade a essa hora estava leve, cheguei cedo. Estacionei no parque situado por baixo dos Restauradores e fui até à porta da sede da Sociedade de Geografia, que fica na Rua de Santo Antão (na realidade a sede fica no lado direito do edifício do Coliseu dos Recreios). Aí, descobri que me tinha esquecido de colocar um daqueles chips de memória na minha máquina fotográfica. Olhei para o relógio, vi que ainda tinha algum (pouco) tempo, e disparei para o Rossio à procura de uma loja que as vendesse. Encontrei uma loja entre o Rossio e o Elevador de Santa Justa, paguei e voltei a correr para a Sociedade de Geografia. Eram exactamente 18 horas.

Quando entrei, não vi ninguém. Dirigi-me ao porteiro e perguntei onde é que se realizava a cerimónia do lançamento de um livro por um senhor moçambicano. Ele olhou de lado e apontou para uma porta: “é ali. Mas a cerimónia só começa às sete da noite”. Dali a uma hora. Fiquei ali a olhar para ele.

Bem, para passar o tempo antes do lançamento do livro em Lisboa, voltei para a rua e tirei algumas fotografias na rua, que estão a seguir.

Na próxima nota, referirei a cerimónia de lançamento do livro O Olho de Hertzog, por JPBC , em Lisboa.

As fotos, de uma Lisboa ao fim de uma tarde de primavera, dia 18 de Março de 2010.

A Praça dos Restauradores e a Estação do Rossio

A estação do Rossio, onde Sidónio Pais foi assassinado em Dezembro de 1918

Fachada do Hotel Avenida Palace, por onde Eça de Queiroz passou

Fachada do antigo cinema Condes, hoje um café

Avenida da Liberdade, na direcção da Praça do Marquês de Pombal

O antigo palácio do Conde de Arnoso, agora usado pelo governo

O elevador da Glória

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