THE DELAGOA BAY REVIEW

15/08/2017

MEMORANDO SOBRE O PRIMEIRO COMBATE DA FRENTE DE LIBERTAÇÃO DE MOÇAMBIQUE, 25 DE SETEMBRO DE 1964

Filed under: Alberto Chipande — ABM @ 7:21 pm

Material original guardado na Torre do Tombo em Portugal.

Trata-se de um memorando secreto, datado de 12 de Dezembro de 1967 e originado pelos serviços de inteligência das forças militares portuguesas, situados em Porto Amélia (actualmente, Pemba), que traduz e depois comenta um relato publicado em Agosto desse ano pela Frente de Libertação de Moçambique num seu orgão de propaganda externa em língua inglesa – Mozambique Revolution – que terá sido da autoria de Alberto Chipande e que até esta data é identificado, em Moçambique, como tendo sido o iniciador da guerrilha contra as autoridades coloniais portuguesas, liderando um ataque na localidade de Chai, em Cabo Delgado, no dia 25 de Setembro de 1964, uma sexta-feria, data afixada no calendário (e no imaginário) moçambicano como feriado nacional.

O comentário de quem analisou e assinou o documento indica que a versão oficial e oficiosa do evento, tal como foi apresentada e tem sido mantida pela Frente de Libertação de Moçambique, é completamente falsa.

Um conhecido refrão da Frente de Libertação de Moçambique, indicando que afinal a Independência em 1974 era apenas uma etapa na revolução que a sua liderança de seguida encetaria no nascente país.

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SAMORA MACHEL E RONALD REAGAN: O ENCONTRO NA CASA BRANCA, 19 DE SETEMBRO DE 1985

Filed under: Encontro Reagan Machel 1985 — ABM @ 6:45 pm

Video publicado pela Biblioteca Ronald Reagan em Janeiro de 2017. Quase hilariante, se se conhecer bem o contexto para ambas as partes naquela altura.

 

22/03/2017

FALECEU HELENA DAVIDSON, UMA GRANDE SENHORA DE LOURENÇO MARQUES

Filed under: Helena Davidson, História Moçambique — ABM @ 12:11 am

Helena Davidson

Transcrevo a mensagem gentilmente cedida por Rodrigo Alexander Davidson de Sousa-Pinto, neto de Helena Davidson:

Apesar dos 98 anos (feitos no hospital, no passado dia 13) da nossa queridíssima Mãe, Avó e Bisavó, nenhum de nós estava preparado para a deixar partir. A sua grandeza, presença, amor e generosidade eram de tal forma presentes e radiantes, que apesar de absolutamente gratuitos nos deixam um vazio que não sabemos nem podemos preencher. Mas, através do seu exemplo, aprenderemos a aceitar e, talvez, imitar.

Para além da certeza de que se encontra já a contemplar a face de Cristo e da Sua Mãe Santíssima, na feliz companhia de todos os familiares e amigos que já partiram, acrescentamos uma espécie de consolo na seguinte ideia expressa ontem entre nós:

Despite Avó’s age, we weren’t ever really ready to let her go. How sad it is to think of our lives from now on without Avó being physically present. On the other hand, Avó also deserves a rest from us (the living family, ever so demanding of her presence, her advice, her listening and her love), and to join her beloved departed. I am undoubtedly sure that they are now having a welcome party for her and Grandpa has already arranged for the choirs of angels to sing “Cheek to Cheek “ and “Tea for Two” (Avó’s favourites) and asked Avó to dance with him to those tunes.

De forma a podermos reunir a família dispersa por tantos pontos do globo, tivémos de atrasar o funeral da Avó, pelo que não teremos velório. Assim, informamos que celebraremos as cerimónias na seguinte data e local:

DATA: quarta-feira, 22 de Março de 2017

LOCAL: Capela Mortuária da Igreja de Nova Oeiras

ACOLHIMENTO: 14h00

MISSA DE CORPO PRESENTE: 15H00

ENTERRO: Segue para o Cemitério de Oeiras

Aos que quiserem e puderem estar presentes, agradecemos. Aos que não puderem estar, pedimos a vossa oração pela Avó e por todos os que já partiram (na certeza de que estará ela agora orando por todos nós).

Abusando da vossa paciência, deixo em abaixo a nota de falecimento dirigida à Cruz Vermelha Portuguesa:

Ao Excelentíssimo Senhor

Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa,

Excelência,

É com o maior pesar que informo, porque julgo ser do interesse da Cruz Vermelha Portuguesa, o falecimento da minha Avó materna, ocorrido sábado passado 18/03/2017, pelas 19h00 no Hospital de São Francisco Xavier, em Lisboa, cinco dias depois de ter celebrado o seu 98º aniversário natalício.

A minha Avó, D. MARIA HELENA de Melo Castelão Feijó d’Almeida Fontes DAVIDSON, nascida em 13/03/1919, foi a última Presidente da Secção Feminina da Cruz Vermelha Portuguesa em Moçambique (Lourenço Marques), Presidente da Sociedade de S. Vicente de Paulo em Lourenço Marques, co-fundadora do “Abrigo dos Pequeninos” também em Lourenço Marques, entre tantas outras actividades que toda a vida a orientaram ao serviço dos outros.

Tendo feito parte da sua escolaridade na África do Sul e casado com o meu Avô, sul-africano de origem escocesa e irlandesa, nunca esqueceu as suas origens portuguesas, das quais fazia questão em colocar a par com a sua condição de Moçambicana de Portugal (foi para Moçambique aos 8 anos de idade onde Pai, Dr. César d’Almeida Fontes havia sido colocado como professor e aberto consultório médico). Com excepção do período escolar (1927/1930) e dos cerca de 13 anos (1943/1956) em que viveu entre Durban e East London na África do Sul (onde o marido esteve profissionalmente colocado antes de a companhia de navegação que dirigia relocalizar-se para Moçambique), viveu sempre em Lourenço Marques até 1976, embora deslocando-se à Europa de quando em vez.

Tendo-se dedicado de coração cheio ao serviço dos outros e daquela terra, em nome das suas convicções pessoais, religiosas e nacionais, foi um exemplo de acertividade, persistência e dedicação que lhe valeram ter sido agraciada em 1973 com o grau de Comendador da Ordem de Benemerência, atribuída pelo Senhor Presidente da República e em 1990 com a Cruz Vermelha de Benemerência pela Cruz Vermelha Portuguesa.

Acompanhou no desempenho das funções que exercia como Presidente da Secção Feminina da Cruz Vermelha, os conturbados acontecimentos em Moçambique, desde a Guerra Colonial ao processo de independência e momentos que se lhe seguiram, com perigo para a própria integridade física. Aí se lhe conheceram extraordinárias acções no desempenho das suas funções, desde a participação em operações de evacuação de feridos a visitas a prisões e relatórios sobre as respectivas condições, entre tantas outras. Ao mesmo tempo, sempre na procura de auxiliar os mais necessitados, fazia editar o “Livro das Coisa Boas”, uma compilação de receitas de culinária (ainda hoje nos escaparates e em tantas cozinhas portuguesas), cujos proventos deveriam reverter a favor das obras da Sociedade de São Vicente de Paulo (Vicentinas).

Após a saída de Moçambique, em 1976, fixou residência em Bedfordview, Joanesburgo, na África do Sul, onde de imediato se juntou ao corpo de voluntárias no Hospital Central.  Aos 60 anos, pela primeira vez na vida, teve que arranjar emprego remunerado, tendo aos 67 anos de idade decidido jovialmente ir tirar um curso de contabilidade.  A par do trabalho remunerado, manteve sempre actividade voluntária em dedicação ao próximo, nunca descurando o seu papel e presença de Mulher, Mãe, Avó e Bisavó.

Finalmente, aos 94 anos de idade, já viúva há 14 anos, resolveu vir para Portugal definitivamente, após 86 anos de vida em África. Aqui, continuou na medida das suas possibilidades a prestar serviço aos outros, ajudando como voluntária no Centro Paroquial der Oeiras, onde ia dar o almoço aos “seus velhinhos” (todos mais novos!), o que fez alegremente até Dezembro passado, com 97 anos de idade.

Morreu anteontem, na feliz circunstância de ter tido a família com ela durante a tarde, e nas mãos das duas filhas sobrevivas e de uma das netas.

Foi um exemplo permanente para muitos, uma ajuda e apoio preciosos para imensos e uma Mulher, Mãe, Avó, Bisavó e Portuguesa única e irrepetível. Com todo a sua actividade para com os outros, geria o seu tempo de forma a estar sempre presente junto da família. De forma extraordinária e sem percebermos como conseguia, tinha tempo para todos, talvez com a única excepção de si mesma. Esse tempo era sempre dado com calma e como se não tivesse mais nada para fazer. Nenhum de nós se lembra de uma etapa da vida sem ela.

A par do choro dos que ficam, encheu-se o Céu de alegria pela chegada da nossa Mãe, Avó, Bisavó e amiga. Pelo exemplo de vida, acreditamos que partiu uma das heroínas da história portuguesa do último século.

Com os protestos da mais elevada consideração,

Em nome da família, o neto mais velho,

Rodrigo Alexander Davidson de Sousa-Pinto

São Domingos de Rana, Portugal

18/02/2014

MEMORIALIZANDO VÍTOR CRESPO, 1974, NA PRIMEIRA VOZ

Filed under: Vitor Crespo explica-se — ABM @ 10:08 pm
Após a ditadura colonial terminar, isto. Em baixo, Vitor Crespo tenta explicar o inexplicável.

Após a ditadura colonial terminar, isto e mais vinte anos de guerra. Em baixo, Vitor Crespo tenta explicar o inexplicável daqueles dez meses que antecederam tudo, nas suas próprias palavras. Oiçam com cuidado.

Diz o breve texto da Wikipédia (menos um misterioso e longo relato de medalhística):

Vítor Manuel Trigueiros Crespo (Porto de Mós, 21 de Março de 1932) é um militar português.

Ingressou na Escola Naval, seguindo a carreira de oficial de Marinha. Não foi o único oficial da Marinha de Guerra a participar no golpe de estado do 25 de Abril de 1974. Muitos outros oficiais da Marinha de Guerra Portuguesa também participaram, embora fosse ele o representante da Marinha que se encontrava no posto de comando do MFA, na Pontinha. Foi Alto Comissário e Comandante-Chefe em Moçambique durante a descolonização até à independência do país. Foi membro do Conselho da Revolução. Depois disso integrou o VI Governo Provisório chefiado por Pinheiro de Azevedo como ministro da Cooperação, entre 19 de Setembro de 1975 e 23 de Julho de 1976. Hoje em dia, já no posto de Almirante, serve como director da Biblioteca da Marinha.

Aqui em baixo, um dos mais célebres descolonizadores portugueses, quiçá um dos odiados de estimação da Tribo Branca de Moçambique, na primeira voz:

(Vídeo 1 de 2)

(Vídeo 2 de 2)

31/10/2013

AS MANIFESTAÇÕES CÍVICAS DE 31 DE OUTUBRO DE 2013: MAPUTO, BEIRA E QUELIMANE

No fim das fotografias, veja as declarações de Alice Mabota, em vídeo. A visibilidade e contestação da Liga dos Direitos Humanos e de Alice, sua Presidente, tem sido grande.

As manifestações tiveram como principais objectivos denunciar a criminalidade organizada em Moçambique e a instabilidade política e de segurança resultantes dos diferendos entre os líderes da Frelimo e da Renamo.

Desde a Independência em Junho de 1975, nunca houve nenhuma expressão popular sequer parecida com o que sucedeu hoje, que não fosse da iniciativa da Frelimo e dos seus governos.

MAPUTO:

Foto de Sérgio Costa, partilhada no FB.

Foto de Sérgio Costa, partilhada no FB.  A manifestação na Avenida Dr. Eduardo Mondlane (antiga Av. Pinheiro Chagas). Segundo o grande João de Sousa, nos notíciários da noite, todas as estações de televisão moçambicanas arrancaram com as manifestações excepto a estatal TVM, que iniciou com uma visita que o Presidente Guebuza estará a fazer a Sofala, província onde as forças armadas se encontram numa caça ao homem ao Presidente da Renamo.

Foto de João M Taborda.

Foto de João M Taborda.

Foto de CA.

Foto de CA.

Foto de CA.

Foto de CA.

Foto Paulo Araújo.

Foto Paulo Araújo.

Foto do Canal de Moçambique.

Foto do Canal de Moçambique.

Foto de Mauro Steinway.

Foto de Mauro Steinway.

Foto de João M. Taborda.

Foto de João M. Taborda.

BEIRA:

Foto Magazine CRV.

Foto Magazine CRV. Na Beira, a população ainda está em choque pelo rapto e assassinato de um jovem com 13 anos de idade. Este rapto, como quase todos os outros, teve como objectivo extorquir dinheiro da Família.

Foto do Salim Milas.

Foto do Salim Milas.

QUELIMANE:

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

VÍDEO DO DIA

Em baixo, o vídeo do dia: Alice Mabote, Presidente da Liga de Direitos Humanos, penso que a entidade que organizou a manifestação, em declarações esta manhã.

http://videos.sapo.mz/mNcZU24vTiFBLulFClmP

21/10/2013

ORDEM DE ATAQUE A 8 DE SETEMBRO DE 1974

Filed under: Ordem de Ataque a 8 Set 1974 — ABM @ 7:28 pm

O texto que se reproduz com vénia do Correio da Manhã (de Lisboa), edição de 21 de Outubro de 2013, é um depoimento de Pedro Silva, recolhido por Marta Martins Silva. Reporta-se aos eventos ocorridos após o anúncio, em Moçambique, numa emissão do Rádio Clube de Moçambique, do chamado Acordo de Lusaka, na noite do dia 7 de Setembro de 1974, um sábado. Nos termos desse documento, à meia-noite desse dia entraria finalmente em vigor um cessar-fogo entre a Frente de Libertação de Moçambique e as Forças Armadas portuguesas. E o poder de Estado seria entregue à Frelimo dali a uma semana. Maioritariamente nas cidades, maioritariamente brancos viueram para as ruas, expressaram repúdia pelos termos do Acordo e tomaram de assalto o Rádio Clube de Moçambique, a principal emissora de rádio do então Estado de Moçambique, de onde foram feitos alguns apelos à resistência, maioritariamente sem qualquer efeito prático. Samora Machel e a cúpula da Frelimo nunca perdoaram este acto de insolência, que foi rapidamente rotulado como “reaccionarismo colonialista e racista” e debelado maioritariamente pelas próprias forças armadas portuguesas. No espaço de um ano, a esmagadora maioria dos que puderam, a maior parte dos quais viveu quase toda a vida sob a ditadura de Salazar,  foram-se embora da nação nascente, que desceu numa espiral de recessão, de guerra e num invulgarmente radical experimento de opressão comunista.

O depoimento de Pedro Silva:

“Fomos homens da chefia e reconhecimento de transmissões, desconhecidos até agora, mas orgulhosos do nosso trabalho.

Completada a recruta, fui para a especialidade de radiotelegrafista e, depois da promoção a 1º cabo, fui enviado para o ex-BRT (Batalhão de Reconhecimento de Transmissões), passando a operador de segurança de transmissões. Passei alguns meses no Quartel General em S. Sebastião da Pedreira, Lisboa, na intercepção, escuta e gravação das rádios ao tempo consideradas anti-Estado Novo. Embarquei para a Região Militar de Moçambique a 19 de outubro de 1972 em rendição individual, dado que a nossa ação era estritamente confidencial.”

A primeira página do folheto posto a circular aquando do anúncio público, em Moçambique, do acordo entre os militares portugueses e a guerrilha da Frelimo.

A primeira página do folheto posto a circular aquando do anúncio público, em Moçambique, do acordo entre os militares portugueses e a guerrilha da Frelimo.

“Em Moçambique vivi o célebre 8 de setembro de 1974 [sic], e é aqui que começa uma história que para nós (eu e o 1º cabo Ferreira) ficou marcada nas nossas vidas.

Nesse dia fomos procurados por ordem do nosso comandante, Capitão António Melo de Carvalho, para, uma vez conhecedores das redes de transmissão da Frelimo, tentarmos estabelecer ligação, e posterior diálogo, com algumas das várias estações de onde emitiam os seus comunicados e informações.

O intuito era fazê-los compreender que, apesar da revolução incentivada por colonos em Lourenço Marques, Beira e Nampula, estava tudo sob controlo, pelo que o Acordo de Lusaca seria respeitado pelo MFA.

Isto depois de termos interceptado várias mensagens da Frelimo que diziam que, devido à revolta perpetrada pela população civil, o Acordo de Lusaca – que deveria entrar em vigor no dia 8 de setembro às 00h00 – não passava de um embuste. Samora Machel, numa mensagem interceptada por nós, deu ordens no sentido de atacar tudo e todos.”

O verso do folheto.

O verso do folheto.

“Estava portanto iminente um ataque sem precedentes às nossas tropas, praticamente desarmadas, e à espera de um regresso feliz. Eu e o meu camarada, Vítor Ferreira, sob as ordens do Capitão Melo de Carvalho, iniciámos, no comando de transmissões, tentativas para travar aquilo que seria, em nosso entender, uma chacina.

A primeira mensagem, emitida por mim, foi a seguinte: ‘Aqui Movimento das Forças Armadas em Moçambique. Para: Comandos da Frelimo. Concordamos Acordo de Lusaca. Pedimos não ataquem posições tropas portuguesas. Pedimos vossa colaboração no sentido de eliminarmos grupos reacionários. Saudações.’

Mensagem circulada no dia 8 de Setembro de 1974. Fonte: História das Transmissões Militares, Portugal.

Mensagem circulada no dia 8 de Setembro de 1974, um domingo. Do seu teor, depreende-se que ainda não havia conhecimento dos protestos em algumas cidades de Moçambique. Fonte: História das Transmissões Militares, Portugal.

“Numa primeira instância, os operadores da Frelimo ficaram desconfiados e não responderam logo. Mais tarde, disseram-me que não compreendiam. Para fazerem uma ideia, interceptávamos cerca de 120 letras por minuto. Insisti mais uma vez, e agora, com o mesmo remetente, MFA, mas como destinatário o ‘Camarada Presidente Samora Machel’.

Era o meu camarada Vítor Ferreira que ia registando todas as respostas dadas. O teor das nossas mensagens tinha como fim, única e simplesmente, evitar um ataque que já não era esperado e muitas outras foram enviadas neste nosso exaustivo trabalho. Foi depois das diligências efetuadas através da troca de mensagens que tudo começou a ficar mais claro, e se foi resolvendo sem recurso às armas.”

Mensagem circulado no dia 17 de Setembro de 1974.

Mensagem circulada na 3ª feira, dia 17 de Setembro de 1974, data de início do Ramadão muçulmano. Dali a três dias, em sessão solene em Lourenço Marques, o poder de Estado era entregue ao Governo de Transição, dominado pela Frelimo e liderado por Joaquim Chissano, então com 34 anos de idade (faria 35 anos de idade no dia 22 de Outubro desse ano) . Fonte: História das Transmissões Militares, Portugal.

“Conseguimos falar com os operadores da Frelimo e as nossas mensagens seguintes foram retransmitidas para todos os postos da Frelimo e para o seu Presidente. Após todas estas diligências, [o Acordo de] Lusaca foi em frente e um dos dirigentes da Frelimo, e futuro presidente de Moçambique, fez questão de nos conhecer pessoalmente, dizendo que os nossos nomes iriam ficar na história da independência do país. ”

Nota: Pedro Silva, hoje com 63 anos de idade, prestou serviço militar em Moçambique entre 1972 e 1974 na Cheret (Chefia e Reconhecimento de Transmissões). Na altura dos eventos que descreve tinha 24 anos de idade.

19/10/2013

27 ANOS DEPOIS DAQUELE DOMINGO, 19 DE OUTUBRO DE 1986

Filed under: 27 anos depois de 19 de Out 1986 — ABM @ 11:39 pm
Samora Machel, em dias melhores.

Samora Machel, em dias melhores.

 

João de Sousa, decano da rádio moçambicana, escreveu o seguinte hoje:

“Segunda-feira, 20 de Outubro de 1986. Na porta de entrada da Rádio Moçambique eu esperava pelo José Manuel Peres. Os dois, a partir das 9 horas, iriamos começar mais um programa “Entre as Nove e as Dez”. Um programa que é um marco na minha história como profissional de radiodifusão.

Às 08.10 horas aparece o Ministro da Informação Teodato Hunguana. Pergunta-me se “está alguém na Direcção da Rádio ?”. Digo-lhe que sim. Se a memória não me falha estava o Director Técnico, o Eng. Rufino de Matos.

Minutos depois chega Marcelino dos Santos. Pergunta-me “onde é a direcção da Rádio” ? Encaminho-o para o primeiro andar.

Às 08.30 a programação normal da Emissão Nacional é interrompida. Marcelino dos Santos anuncia a morte de Samora.”

João Cabrita, talvez um dos académicos que melhor estudou o acidente aéreo em que Samora morreu, escreveu:

“A viagem do Presidente Samora Machel à Zâmbia em 19 de Outubro de 1986 era para ser efectuada num Boeing-737 das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), o C9-BAA. Mas dois dias antes da viagem, o Comandante Sá Marques, que era quem iria pilotar o avião, foi notificado de que entretanto havia sido escalado para o voo Maputo-Beira-Maputo. A viagem presidencial passaria a ser feita no Tupolev 134-A. Não obstante o cancelamento do voo das LAM, o Comandante Sá Marques e o Boeing que pilotava juntamente com Baptista Honwana, ficariam para sempre ligados ao acidente que envolveu o Tupolev (C9-CAA) no voo de regresso da Zâmbia para Maputo. Cerca de um quarto de hora depois do Tupolev ter-se despenhado em Mbuzini, o Comandante Sá Marques entrou em contacto com a Torre de Controlo do Aeroporto de Maputo a informar que se encontrava sobre o Limpopo, prevendo aterrar na capital moçambicana dentro de aproximadamente 30 minutos. Sá Marques pediu à Torre de Controlo que lhe fornecesse o boletim meteorológico actualizado no âmbito dos preparativos para uma aproximação final à pista do Aeroporto de Maputo. Em vez disso, a Torre de Controlo pediu a Sá Marques que tentasse entrar em comunicação com o Tupolev presidencial pois havia “perdido contacto com ele”. Várias foram as tentativas do comandante das LAM para entrar em contacto com o Tupolev, mas sem sucesso. Posteriormente, recebeu instruções para regressar à Beira. Nas investigações que se seguiram para determinar a causa do acidente, a parte soviética orientou-as no sentido de demonstrar a existência de um radiofarol (VOR) falso. O voo da LAM, Beira-Maputo, seria a prova crucial. O facto do Boeing- 737 ter entrado em contacto com a Torre de Controlo quando se encontrava a cerca de 190 milhas náuticas de Maputo era, na opinião dos investigadores soviéticos, a indicação da presença de um VOR falso pois, segundo alegavam, o raio de acção da estação VOR de Maputo não tinha esse alcance. Em declarações aos investigadores soviéticos, o Comandante Sá Marques disse ter a certeza de que estava em sintonia com a estação VOR de Maputo, facto confirmado pelo emissor de onda média da Rádio Moçambique instalado na Matola, ao qual também havia recorrido para tornar a verificar se a rota que seguia era a correcta. E acrescentou que quando recebeu instruções para regressar à Beira, continuou a ter indicações nos instrumentos de bordo de que o avião estava em sintonia com a estação VOR do aeroporto de Maputo. Perante a incredulidade dos investigadores, o Comandante Sá Marques sugeriu que se retirassem as caixas negras do Boeing-737 para uma reconstituição da trajectória do voo Beira-Maputo e assim se determinar se o avião havia ou não sido desviado da rota. Numa subsequente entrevista com o comandante das LAM, os investigadores soviéticos apresentaram a Sá Marques “um mapa exibindo o seguimento da minha rota por um radar militar situado no Limpopo. Inclusive, perguntaram-me se tínhamos comunicação com essa base militar e qual a possibilidade desta dar informações sobre a rota. O esquema mostrava um seguimento da rota correcto, com espaçamentos de 5 minutos até ao Limpopo, onde reduzi a velocidade do avião, e no troço seguinte nos mesmos 5 minutos, a distância correspondia a uma velocidade superior a 1500 km /hora, com a particularidade de o trajecto passar a ser ligeiramente curvilíneo”. Sá Marques fez ver aos investigadores soviéticos que era de todo impossível um Boeing -737 voar a mais de 1 500 km/hora, sensivelmente o dobro da velocidade cruzeiro de um avião desse tipo. A não ser, ironizou, que “o meu avião estivesse equipado com um afterburner”. Trata-se de um dispositivo normalmente utilizado em aviões militares, o que lhes confere um maior impulso, permitindo descolagens de pistas curtas, como a de um porta-aviões. Não é usado em aviões comerciais pelo facto de aumentar acentuadamente o consumo de combustível . “A reacção do investigador soviético”, disse Sá Marques, foi “amachucar o mapa, atirando-o para o cesto dos papéis”. A Bernard Craiger, um dos três peritos designados pela ICAO para ajudar a parte moçambicana na investigação das causas do acidente de Mbuzini, coube a responsabilidade de reconstituir a trajectória seguida pelo Boeing -737 das LAM no voo Beira-Maputo. No relatório por si elaborado, Craiger referiu que a trajectória do Boeing-737 havia sido rectilínea. Não obstante os factos, no parecer que apresentou à Comissão de Inquérito sul-africana, a parte soviética insistiu que o Boeing-737 pilotado por Sá Marque e Baptista Honwana havia entrado em sintonia com a estação VOR de Maputo”mais cedo do que o habitual, a uma distância de 190 milhas náuticas (320 km) de Maputo”, acrescentando que “Para o equipamento de bordo poder funcionar em sintonia com o equipamento de terra àquela distância seria necessário um transmissor VOR com uma potência que excedesse os 200 W. No entanto, a potência do transmissor VOR de Maputo não vai além dos 50 W. Por conseguinte, o equipamento de bordo do Boeing 737-200 das LAM, com a matrícula C9-BAA, estava em sintonia com o radiofarol falso a transmitir na frequência dos 112.7 MHz, mas de potência superior à do VOR de Maputo.” Ou outro comandante das LAM, Franklin Bastos, em entrevista a Álvaro Belo Marques, autor do livro “Quem Matou Samora Machel?”, declarou que o radiofarol VOR de Maputo podia ser captado a 200 milhas náuticas. ”

Na 2ª feira, 20 de Outubro, eu, que vivia há vários anos nos EUA, por acaso estava em Lisboa numas curtas férias. Fui abordado às 07:30 horas locais pela minha anfitriã, referindo ter ouvido numa estação local que tinha ocorrido um acidente aéreo e presumia-se que Samora teria perecido no acidente. Quando ouvi isso acordei instantaneamente.

29/05/2013

O POSTAL DE MAPUTO DA TIA ARGENTINA, 1977

Filed under: O Postal de Argentina 1977 — ABM @ 3:22 pm

postal mim avó 1

postal mimi avó

Copiado, com vénia, do Nuno Castelo-Branco, pela importância do seu conteúdo, historicamente relevante mas hoje convenientemente pouco recordado. O título original é Moçambique: O Roubo. 

(início)

O meu pai deixou-nos uma ainda incontável quantidade de caixas, envelopes e dossiers onde ao longo de décadas acumulou todo o tipo de papéis, aliás metodicamente organizados. Hoje encontrei um envelope com postais de “Vistas de Lourenço Marques” e foi um prazer reler alguns daqueles que nos tinham sido endereçados há muitos anos. Escritos por amigos ou familiares, são testemunhos de momentos difíceis passados num território cuja administração passou a ser exercida de uma forma totalmente arbitrária, bem diferente daquela a que as populações estavam habituadas. O exemplar que hoje é aqui postado, foi escrito por uma irmã da minha avó, de seu nome Argentina, mas para nós, a tia Mimi:

“Querido sobrinho Vítor

Mais um ano para a conta e oxalá que assim seja por muitos e muitos anos (1). Que o dia 27 seja passado com saúde, óptima disposição e alegria na companhia dos familiares. Um grande abraço nosso de parabéns. Estão todos bem aí em casa? Esperamos que assim seja. A lista (2) da Leta (3) já saiu, mas na vistoria da Ponte de Cais confiscaram a máquina de lavar mesmo estando autorizada. Refilou forte e feio, de nada adiantou mas já reclamou por escrito. As reclamações deste género é mato. Isto tudo é um pandemónio. A lista da Emília (4) também já saiu e, como particular, todos os eléctricos domésticos foram cortados, incluindo o fogão, máquina de costura, rádio gira-discos e uma ou outra peça de mobiliário. É aguentar e olhar em frente de cara alegre, que mais se pode fazer? Envio este postal como recordação da nossa terra. Já não há disto à venda.
Saudoso abraço à Ana Maria e beijinhos à Angelinha. Abraços aos miúdos. Para ti mais uma vez, as nossas felicitações e um abraço amigo dos tios Mimi e António

Maputo, 19 de Junho de 1977″

Este ambiente de desbragado saque, não foi uma novidade do pós-independência. Tinha começado durante a administração conjunta daquilo a que então se denominou de Governo de Transição, nominalmente sob a tutela de um até então desconhecido camarada que Lisboa despachou para Lourenço Marques, o “comandante” Vítor Crespo, personagem que felizmente não chegou ao ponto das inenarráveis baixezas de um outro futuro “Almirante de aviário”, o Rosa Coutinho. Igualmente “aviado em Almirante”, o simulacro de governador-geral rapidamente tornar-se-ia objecto de todas as conversas, mimoseado pela explícita alcunha do “Vítor Copos”. De forma a tornar tudo mais óbvio, o “Copos” do Crespo, estava justa ou injustamente na mesma linha do certíssimo “Tantos” carimbado na pele de um certo advogado Almeida, nada dado a santidades. Há alegações que para sempre ficarão coladas à reputação das duvidosas celebridades.

Na tropa portuguesa grassava uma total indisciplina. De imediato cessou qualquer sentido de hierarquia, apresentando-se miseravelmente “uniformizada” nas avenidas da capital de Moçambique e sempre pronta para qualquer grosseria. No aeroporto Gago Coutinho, os guedelhudos militares de palito no canto da boca e ameaçadora G-3 à bandoleira, submetiam aqueles que partiam para a Metrópole a todo o tipo de vexames, esvaziando malas e carteiras, confiscando jóias pessoais, por mais insignificantes que estas fossem. Agora sim, os espoliados eram mais que nunca, portugueses de 2ª classe.

Nas citadas “listas” eram riscados items após items, alegando-se “duplicação”. “Tens duas cadeiras destas? Só precisas de uma, esta fica cá! És viúva? Então para que precisas tu de duas alianças? Buíça (5) uma delas!” Nos já então suprapatéticos departamentos do Estado de Moçambique – era assim que há muito a antiga Província Ultramarina oficialmente se denominava -, as exigências burocráticas foram esmagadoras e impiedosamente acrescidas de custas, autenticações e reconhecimentos, atestados para isto e para aquilo, enfim, um ror de enormidades que serviam para dificultar ao máximo, a já muito precária vida dos aflitos e indefesos requerentes. A finalidade de todo o processo era o despojamento total. Há que ter em atenção a existência de uma azáfama censória controleira dos desabafos de uma imensa mole de gente encurralada pelos seus próprios compatriotas, assim se explicando esta série de postais enviados dentro de discretos envelopes.

É este um triste episódio praticamente desconhecido dos portugueses europeus e convém ir divulgando estes postais – o meu pai também arquivou interessantíssimas cartas -, por mim já muito abusivamente promovidos a documentos. Classificados como impublicáveis, alguns dos testemunhos permanecerão guardados, sendo o seu conteúdo deveras embaraçoso para a reputação de muita gente que ainda bem viva, é pesadamente responsável pelo mais vergonhoso e desnecessário desastre da nossa história.

Notas

(1) A tia Mimi (Argentina) refere-se ao dia 27 de Junho, aniversário do meu pai.
(2) A “lista” era uma estulta invenção das autoridades portuguesas, escandalosamente ansiosas por agradarem aos seus novos comparsas – tão ineptos quanto os recém-chegados de Lisboa – que fizeram sentar no “Governo de Transição”. Sob a chefia da dupla Crespo/Chissano, este executivo logo deu início a uma torrente legislativa, ousando estabelecer uns inacreditáveis “pontos prévios”: consideravam estes que os bens materiais dos colonialistas – no nosso caso, cinco gerações! – tinham sido obtidos ao longo de “500 anos de exploração dos moçambicanos e por isso mesmo deveriam em parte ficar na posse do povo de Moçambique”. Em conformidade, o “governo Crespo/Frelimo” significou a despudorada rapina dos bens móveis daqueles que então legalmente passaram a ser considerados como “residentes” (!) e que ao pretenderem sair do país, tinham de pagar pesados impostos, taxas e tarifas, ficando à total mercê dos apetites ou fúrias de quem controlava a fiscalização. Estes abusos consistiram em actos em tudo semelhantes àqueles a que as autoridades do Reich submeteram os concidadãos judeus que nos anos 30 quiseram atempadamente deixar a Alemanha. Após a independência, o absoluto à vontade das autoridades permitiu-lhes passar da usurária taxação, ao puro e simples confiscar de tudo aquilo aparentemente apetecível, por mais risíveis e grotescas que fossem as reivindicações. Tendo aprendido os complicados e copiosos meandros da burocracia portuguesa, logo inventaram uma infinidade de requerimentos a que forçosamente eram anexadas várias cópias de uma minuciosa lista dos bens a embarcar, ou seja, o normal recheio de uma casa: móveis, bibelots, tapetes, brinquedos, talheres, electrodomésticos, louças, roupas, etc. Não esqueçamos uma colossal quantidade de livros que após a consumação do saque foram rasgados, servindo as suas páginas para embrulharem por ruas e avenidas fora, o amendoim torrado, a castanha de caju e as maçarocas assadas, até servindo para o polimento de sapatos. Era esta, a “nova cidade”.
(3) A Leta é a mulher de um primo direito da minha mãe.
(4) A Emília, a nora da tia Mimi.
(5) Buíça quer dizer “passa para cá!”

(fim)

Para que conste.

19/03/2012

SEGUINDO OS PASSOS DA HISTÓRIA: URIA SIMANGO

Filed under: História Moçambique, Os Arquivos da PIDE, Os Simango — ABM @ 7:41 am

Eduardo Mondlane posa com Uria Simango, à direita, respectivamente Presidente e Vice-Presidente da Frelimo. No espaço de um ano, ambos foram eliminados da liderança do movimento.

Achei curioso outro dia ter reparado na quantidade de documentos da PIDE/DGS que ainda existem e que referem factos interessantes e lúdicos da Frelimo, dos seus elementos, dos seus movimentos dentro e fora de Moçambique. Possivelmente um maná para quem gosta de estudar estas coisas, até porque desconheço o que existe em Moçambique sobre o tópico. Em Portugal existe, uma parte está catalogada e pode ser livremente consultada.

Um ofício do Ministério dos Negócios Estrangeiros português para a PIDE, datado de 7 de Março de 1966, dando conta da visita do Rev. Uria Simango a Estocolmo. Este documento está nos arquivos da Torre do Tombo em Lisboa

06/03/2012

LOURENÇO MARQUES, HÁ 135 ANOS, NUMA TERÇA-FEIRA, DIA SETE DE MARÇO

Mapa de Lourenço Marques em 1903, com algumas alterações até 1906, mandado fazer pela Comissão de Melhoramentos do Porto de Lourenço Marques (equipa chefiada pelo Capitão-Tenente Hidrógrafo Hugo de Lacerda). Nesta altura a cidade já reflectia duas das grandes obras da equipa de Joaquim José Machado: a Poente, a linha de caminho de ferro para a África do Sul e o desenho topográfico do que hoje é a parte central de Maputo. Até à Independência, a Praça 25 de Junho tinha o nome de Praça 7 de Março (de 1877), o dia em que Joaquim José Machado e a sua equipa chegaram à então espelunca imunda que era a vila de Lourenço Marques.

Faz hoje 135 anos que eles chegaram. Era uma terça-feira.

A minha cara Cristina Pereira de Lima, filha do grande Alfredo Pereira de Lima, biógrafo do que é hoje a capital de Moçambique, gentilmente enviou o texto em baixo, que reproduzo mais ou menos como recebi, adicionando eu apenas dois parágrafos e as imagens em cima em baixo:

Foi há 135 anos, no dia 7 de Março de 1877, que chegou a Lourenço Marques a expedição de Obras Públicas…

O dia 7 de Março foi um dia histórico para a cidade de Lourenço Marques, porque foi nesse dia que desembarcou a expedição de engenheiros enviada por El-Rei Dom Luis I, e pelo ministro Andrade Corvo, para desenvolver a vila.

Num dos seus depoimentos, afirmou Eduardo de Noronha:

“ É desde o desembarque da Expedição que datam os melhoramentos materiais da Cidade, assim como é indiscutível que esta plêiade brilhante de rapazes inteligentes, saídos da escola, entusiásticos e vigorosos, deram um impulso moral enorme ao presídio, onde o nível intelectual não acusava grandes elevações.”

No seu livro “Casas que fizeram Lourenço Marques” Alfredo Pereira de Lima descreve a chegada da expedição:

…”Foi à expedição de Obras Públicas enviada pelo Ministro Andrade Corvo e que aqui chegou em 7 de Março de 1877, chefiada pelo major de engenheiros, Joaquim José Machado, e a seu trabalho insano, realizado em íntima colaboração com a Câmara Municipal, que Lourenço Marques ficou devendo grande parte do seu progresso.

Essa expedição trouxe até nós técnicos e operários competentes e dedicadíssimos. Foram todos eles homens que se apaixonaram, desde a primeira hora, pela bela obra que seria arrancar Lourenço Marques da sua letargia e pô-la definitivamente no caminho do progresso.

Além do engenheiro director, major Joaquim José Machado, vieram mais três engenheiros, chefes de secção (capitães de engenheiros Afonso de Morais Sarmento, João António Ferreira Maia e o tenente de artilharia, Alfredo Augusto Barros Viana); sete condutores de 1ª classe (tenentes Caldas Xavier, João Carlos Ribeiro, João Maria Pereira, Augusto César Simões, José Eduardo Lopes e os civis Jeremias Willhouse e Francisco Correia Leotte); três condutores de 2ª classe (tenente Joaquim José Lapa, António Sebastião do Nascimento Costa e o civil D. João José de Melo) ; seis condutores auxiliares (alferes António Nunes Bouças, Francisco Augusto Ferreira, João Brito Vaz Coelho, Adolfo Ascanio de Morais Palha, José Alfredo da Cunha Barros, Eduardo Alcântara Ferreira) e ainda desenhadores, apontadores e pessoal operário. Dos operários vindos para armar dezanove barracões de madeira e zinco que a expedição trazia consigo para suprimento da falta de habitações e se ergueram na actual Rua Serpa Pinto e hoje já não existem, Augusto Baptista de Carvalho foi, dos que mais se distinguiu. Depois dedicou-se á construção civil por sua conta e conquistou lugar de prestigio na sociedade da época………

….foram esses homens , técnicos e operários – arrojados e inteligentes – que a Metrópole nos enviou e aqui fizeram escola, que deram um impulso enorme ao desenvolvimento da vila pobre que então era Lourenço Marques. Eles souberam compensar bem os sacrifícios enormes que o Governo Central suportou ao enviar para aqui e manter sem vacilações essa dispendiosa Expedição de Obras Publicas à força de subsídios enviados da Metrópole.

Esses construtores da nova fase da vida de Lourenço Marques que sob a direcção inteligente do major Joaquim José Machado, aqui deixaram uma obra extraordinária em todos os campos, não só na construção civil mas ainda em outras actividades intelectuais e sociais, merecem o nosso mais profundo respeito……”

A esta famosa expedição se deve ainda a trabalhosa drenagem do pântano que asfixiava a vila pobre que naquele tempo era Lourenço Marques.

Para além disso, o seu chefe, Joaquim José Machado, fez o traçado da linha de caminho de ferro que a partir de 1895 ligou Lourenço Marques a Pretória e, adicionalmente, quando o governo português confiscou no final de Junho de 1889 a empreitada inacabada da linha ao consórcio do norte-americano Eduardo Macmurdo, foi Machado quem a reparou e completou.

A estação de caminho de ferro de Lourenço Marques e o Monumento da I Guerra Mundial, aqui nos anos 1930, postal da Newman Art Publishing Company, Cape Town. Quando a linha desenhada e completada por Joaquim José Machado começou a operar em 1895, a “estação” era um barracão desolado situado mais atrás do actual edifício, que foi inaugurado em Março de 1910.

29/02/2012

SAMORA MACHEL REVISITADO: A PERSPECTIVA DE BARNABÉ LUCAS NCOMO

Samora Machel e o Dr. Eduardo Mondlane, na visão idílico-marxista.

Lendo o combativo semanário Canal de Moçambique de hoje, encontrei na sua página 12, remanescentes de um algum passado num texto discretamente intestino-neo-cafreal-pós-colonial. O que achei positivamente evolutivo, dado o precedente da acusação de má companhia em que me achei uma vez em 1, 2, 3 e 4. Talvez o suporte de um blogue seja diferente do de um jornal. Será? Este blogue é meu. Talvez seja essa a diferença.

Resumo: a recente carga branca dos aviões da TAP nem sempre será do agrado de todos os autóctones, o que poderá ser uma chatice.

Mas neste caso, a má companhia a que me refiro acima – claro – não sou eu, mas a quase contundente análise – a segunda parte, depreendo, que se encontra a partir da página 18 do Canal de Moçambique, da mão de Barnabé Lucas Ncomo, que vai em total contraciclo com o exercício de brainwashing nacional em curso na terra do carvão e do camarão.

Merece uma leitura atenta, se crítica.

Afinal, Samora Machel, e os seus vinte anos na vida pública moçambicana, não são assunto fácil de descarnar. Quem sabe não fala e muitas vezes quem fala, fala mal.

Com profunda vénia para o autor e o jornal, aqui vai.

1 de 4.

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4 de 4.

19/02/2012

OS SIMANGO NO CAIRO, 1973

18/01/2012

MOÇAMBIQUE E A ÍNDIA PORTUGUESA, 1961

O brasão de armas do chamado Estado Português da Índia.

Existem poucos testemunhos do que no texto de Pedro Guerreiro, publicado recentemente e que aqui reproduzo com vénia, resumiu numa linha – que destaco a negrito na sua interpretação do que foi isto tudo: no auge da investida indiana nos territórios de Diu, Damão e Goa, “no outro lado do Índico, Portugal retaliava com a detenção de 12.000 indianos em Moçambique”.

Pouco ou nada sei sobre o que só pode ter sido mais uma tragédia na saga colonial portuguesa. A única referência que ouvi em Moçambique, há alguns anos, estava relacionada com Prakash Ratilal, hoje um empresário em Moçambique, que creio ser de origem indiana, mas que creio ele próprio nunca escreveu nada sobre o assunto.

Se alguém tiver testemunhos ou informação sobre o que aconteceu em Moçambique, agradecia e disponho que use este blogue para dizer alguma coisa.

O magnífico texto de Pedro Guerreiro saiu no jornal Sol de Lisboa de 17.12. 2011, quando passavam cinquenta anos sobre os eventos que ele descreveu.

Chama-se “Como Salazar perdeu a Índia”.

Mas basta lê-lo para se perceber que quase nada havia a perder para Salazar na Índia naquela altura.

Como Salazar perdeu a Índia

Um certo Portugal começava a ruir há 50 anos. A 22 de Janeiro de 1961, um comando liderado por Henrique Galvão tomava o paquete português Santa Maria. A 4 de Fevereiro, o MPLA atacava a cadeia de Luanda e ateava o rastilho para a guerra de libertação de Angola. Um mês e onze dias depois, a UPA matava e esquartejava mais de 800 pessoas no Norte. Entre Março e Abril, o ministro da Defesa, Botelho Moniz, tentava e falhava um golpe palaciano para afastar António de Oliveira Salazar do poder.

As eleições legislativas de 10 de Novembro, manipuladas, são precedidas de intensa agitação. Dois dias antes, um voo da TAP que ligava Casablanca a Lisboa era tomado por opositores do regime que lançaram milhares de panfletos sobre a capital e o Sul do país. Na véspera da votação, um grupo de militantes comunistas foge de Caxias num carro de Salazar. Seguir-se-ia o assalto ao quartel de Beja.

Mas era longe da metrópole e de África que o Portugal colonial iria sofrer, ainda em 1961, a sua primeira amputação. A história da queda do Estado Português da Índia tornar-se-ia paradigmática do autismo do regime perante pressões internas e alterações externas. E tornar-se-ia uma história sobre como se conta uma história: como se quiser contar.

Índia pouco portuguesa

Goa, Damão e Diu. Gerações memorizaram estas três palavras como pedaços de um Portugal que ia do Minho a Timor. Capítulo inquestionável da história lusa no Oriente, a portugalidade do Estado da Índia era no entanto dúbia.

Segundo o censo de 1940, dos seus 624.177 habitantes, apenas 1.371 eram descendentes de portugueses. Um terço professava a fé católica, mas apenas 1,1% da população falava português. «Goa não é uma província portuguesa», concluía à data o diplomata espanhol Juan Carlos Jiménez, citado em Xeque-Mate a Goa, o livro da investigadora Maria Manuel Stocker que conta a verdadeira história do fim da presença portuguesa na Índia. «Goa tem todo o aspecto de uma colónia.

Uma minoria portuguesa ocupa os postos fundamentais, secundados por uns poucos goeses. Existe uma pequena classe média comercial, geralmente hindu ou muçulmana, e o resto da população é simplesmente a típica massa amorfa da Índia, apática, faminta, doente, totalmente indiferente e ignorante de problemas que não sejam os de resolver o milagre diário da alimentação», sentenciava.

Vizinha da União Indiana, que conquistara a independência do Reino Unido em 1947, a Índia Portuguesa, pouco industrializada e de parca capacidade agrícola, dependia economicamente do outro lado de uma fronteira porosa. Goa, Damão e Diu, argumenta Stocker, faziam geográfica, social, cultural, linguística e religiosamente parte da vizinha Índia, não tinham valor nem na economia nem na demografia portuguesas e eram sobretudo fonte de encargos.

Mas, na metrópole, a narrativa era outra – a de que Goa era e queria continuar a ser portuguesa. Contava o Século Ilustrado de 29 de Março de 1947 que, contra «vozes vindas da Índia inglesa» que clamavam o fim da presença lusa, «a população em espectaculosas manifestações pediu que Goa permanecesse portuguesa». O ajuntamento era organizado pelo regime.

Fracasso diplomático

Desde a independência que a Nova Deli de Jawaharlal Nehru reclamava a integração da Índia Portuguesa na União Indiana. Era um imperativo ideológico e nacional. Lisboa, por seu turno, queria preservar a integridade da república unitária e evitar um precedente em relação às restantes colónias. Para o efeito, Portugal alterou em 1946 a designação de ‘colónia’ para ‘província ultramarina’, estreando a Índia Portuguesa o novo estatuto.

Tropas landins em Goa, creio eu. Vinham de Moçambique.

O conflito era inevitável e o contexto seria favorável à Índia. A Inglaterra, tradicional aliada de Portugal, deixara de ser o fiel da balança internacional. Londres, interessada em manter boas relações com Nova Deli, não mais poderia mediar conflitos num mundo polarizado entre Estados Unidos e União Soviética. Washington e Moscovo eram anticolonialistas e o mesmo carácter tinha a recém-criada Organização das Nações Unidas. Todos cortejavam a Índia.

A contenda foi inicialmente diplomática. Como para romper relações seria necessário estabelecê-las primeiro, portugueses e indianos encetaram laços formais em 1949 – Nova Deli quebrou-os em 1953, perante a ausência de diálogo sobre Goa. A questão internacionaliza-se depois, com intervenções de Nehru na ONU e nas conferências dos países não-alinhados. Salazar mobiliza a diplomacia lusa para uma ofensiva mediática junto dos países aliados. O argumentário centrava-se em três pontos: que a Índia Portuguesa fazia parte da nação há 450 anos, que o regime não discriminava raças ou credos e, por fim, que Goa era um posto avançado na luta contra o comunismo.

Mas os argumentos não colhem. Ignorado por Londres, Washington e a Santa Sé, condenado pela ONU, o regime explorou soluções alternativas para a questão de Goa, alvo de um bloqueio económico e de acções de desobediência civil. Muitas ponderadas à porta fechada, porque questionavam princípios sagrados do Estado Novo. Francisco da Costa Gomes, subsecretário de Estado do Exército, propõe a Salazar em 1960 a realização de um referendo. Questionado sobre um possível veredicto, responde ao Presidente do Conselho: «Se tivermos entre 7 e 10% dos votos a favor podemos considerar que a nossa acção na Índia foi uma soma muito positiva. Porque a Índia não é portuguesa». Exploraram-se contactos secretos com o Paquistão e mesmo com a China comunista, a quem seria oferecida uma base naval.

Batalha ficcionada

Nos anos de 1960 e 1961, a ameaça da guerra em África leva o regime a desinvestir na Índia. Os 12.000 militares que nos anos 50 defendiam o território passam a 3.500. Para Nova Deli, é o momento de agir. Lisboa conhecia os planos de invasão desde o Verão de 1961, mas em vez de um reforço militar optou por nova ofensiva mediática centrada na vitimização de uma pequena nação perante um inimigo pró-soviético. Salazar previa uma «heróica defesa» de portugueses e goeses. Mais do que prever, exigiu-a por telegrama ao governador Manuel António Vassalo e Silva, recomendando um «sacrifício total» e declarando que «pode haver apenas soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos». Lisboa transportou para Goa jornalistas portugueses e estrangeiros. Seriam observadores independentes do sacrifício português, mas acabaram por testemunhar algo totalmente diferente.

A guerra estala na manhã de 17 de Dezembro de 1961 com a morte de dois soldados portugueses em Maulinguém. É decretada a mobilização de todos os militares no activo residentes em Goa, mas apenas um tenente miliciano se apresenta às autoridades. Era o prenúncio do desaire. À meia-noite do dia 18, a Marinha e a aviação indianas iniciam o bombardeamento de posições estratégicas e dão cobertura à entrada de 45.000 soldados em território português. A aviação lusa era ali inexistente e as forças navais incapazes de responder ao fogo inimigo. Um pelotão de artilharia anti-aérea português chegara na noite anterior, no último voo para Goa, disfarçado de equipa de futebol, para tomar posições no aeroporto de Dambolim. Encontram armamento do início do século e munições inutilizadas pela humidade.

As forças portuguesas em Goa antevêem o avanço rápido dos indianos e chegam a ponderar um golpe para decretar a rendição do território. Os oficiais acabam por optar por uma resistência mínima com o disparo de «uns tiros simbólicos». Assim sucede, com a excepção de episódios isolados como a batalha do Afonso de Albuquerque, navio que resiste a dois cruzadores, um contra-torpedeiro e cinco fragatas, ou o sacrifício do segundo-tenente Oliveira e Carmo, que em Diu dirige a lancha Vega contra um cruzador indiano e repele vários ataques aéreos. Morreria ao lado de dois outros militares. Ao final da noite de 18 de Dezembro, a bandeira branca esvoaçava em Pangim. A invasão salda-se na morte de 20 portugueses e 21 indianos.

Militares castigados

O sangue derramado não seria suficiente para Salazar escrever a sua narrativa. Recorre à mentira. Em Lisboa, os jornais dão conta da morte de mais de mil portugueses. Os títulos galvanizam a opinião pública em torno do regime mas deixam milhares de famílias de coração nas mãos. Estas só saberiam do destino dos seus filhos meses depois. Os militares portugueses foram aprisionados em campos de concentração indianos. No outro lado do Índico, Portugal retaliava com a detenção de 12.000 indianos em Moçambique. A troca dos reféns acontece a partir de Maio de 1962. O regresso a Lisboa é discreto e inglório. Desembarcam sob a mira das armas da Polícia Militar, são colocados em comboios e encaminhados para as respectivas unidades mobilizadoras. Só depois voltam a casa, cinco meses após a notícia de uma possível morte em terra distante. Dez oficiais do Exército seriam demitidos, cinco reformados compulsivamente e nove suspensos por seis meses.

Goa seria rapidamente esquecida perante o agravamento do conflito em África. Os 463 anos de domínio português na Índia terminariam como uma nota menor da história do Estado Novo, cumpre-se este domingo 50 anos.

(fim)

 

Após ler este texto, o meu amigo J escreveu o seguinte:

“Sobre a detenção de cidadãos indianos residentes em Moçambique, era
miúdo mas recordo-me terem sido utilizados, na Beira, uns grandes
armazéns, na zona do Maquinino, para albergar as famílias detidas,
presumo que a aguardar transporte para a Índia. Os meus colegas de
carteira na escola primária não abrangidos pela medida provavelmente
ou seriam cidadãos de origem paquistanesa, ou possuíam a cidadania
portuguesa.

Muitos anos depois, um colega hindu referia-se com certa animosidade
aos grandes comerciantes de origem paquistanesa que, na Beira, haviam
florescido com a saída de muitos dos hindus, adoptando até uma postura
de subserviência e vassalagem para com o regime português.

Por altura da independência de Moçambique, um acérrimo
anticolonialista, de origem goesa, que nas páginas da imprensa diária
se evidenciava por uma desmesurada militância em prol do novo regime,
fizera questão de guardar numa fundo de uma mala em casa, a bandeira
portuguesa pois, como dizia a família, a amarga experiência vivida na
Índia portuguesa ainda pesava no coração.”

18/12/2011

DIÁLOGOS COM A HISTÓRIA, 1980-2011: OS ASSASSINATOS POLÍTICOS EM MOÇAMBIQUE

Transcrição de uma alegada "Ordem de Execução póstuma".

A imagem em cima circula na internet há muito tempo. Supostamente, reproduz uma “ordem de acção”, datada de 1980, em que terão sido assassinadas figuras conhecidas de Moçambique (Uria Simango, Lázaro Nkavandame, Júlio Razão Nihia, Mateus Ngwegere, Joana Simeão e Paulo Gumane).

Há pelo menos uma pessoa que diz que isto ém tudo falso e uma invenção.

O que se sabe de facto é que os visados eram na altura figuras ingratas do regime vigente e que, à falta de melhor explicação,  simplesmente desapareceram da face da terra. A partir daí supõe-se que o que aconteceu, aconteceu às ordens de alguém na então Frelimo. Mas para além disso, formalmente, não se sabe mais nada.

Ninguém dá a cara.

Ninguém dá detalhes.

Ninguém explica.

Em baixo, um debate havido, entre 24 e 25 de Novembro de 2011, que reflecte as posições e dúvidas prevalecentes, ao melhor estilo Wikileaks.

Pelos vistos, neste e noutros casos, como os homens não não a cara, só Deus sabe a verdade.

Tal como aconteceu com aquele desgraçado empresário que falou mal do Presidente ao Encarregado de Negócios Todd Chapman há precisamente um ano, dou um rebuçado a quem não perceber quem é P F.

As mensagens trocadas, a propósito do documento acima reproduzido:

——

L N – Sem comentarios. O documento fala por si e a história do nosso país ensina. NAO VAMOS ESQUECER O TEMPO QUE PASSOU/ QUEM PODE ESQUECER O QUE PASSOU?

E C – Profundo mais velho… How easy we forget… Eu ainda insisto que deviamos montar comités de verdade e reconciliação… A muito para ser dito deste Belo Moçambique… Muito sangue derramado, muita lágrima…

L N – Já se matou em nome dos “costumes”.. “Usos e tradições da luta armada” sem que os réus tivessem direito a defesa. Viva.

C W – wowwww esse é um documento de grande valia para história de Mocambique…thanks por partilhar.

I N – Só duas questoes: 1- O fuzilado Júlio Razao Nihia será parente do “camarada” Eduardo da Silva Nihia? 2-Será que os ex-integrantes do “Comité”, alguns dos quais com cruzamos nos dias de hoje (Sérgio Vieira e Oscar Monteiro), algum dia sentiram remorsos do que fizeram, em nome do “espirito dos costumes, usos e tradições da luta armada de libertação nacional”?

L N – Os próprios, Sérgio Viera, Óscar Monteiro entre outros.

A P – quem assina é o Jacinto Veloso, outro notável do partido, como querem que exista uma falsa paz podre ? estamos todos com uma amnésia mas temporária claro.

L N – Certa vez, entrevistado pelo O País, Jacinto Veloso disse que não se lembrava de ter assinado esse documento. Isso foi depois de, vasculhados os baús da história, as verdades terem vindo à superficie. Foi apenas uma infrutifera tentativa do ex-general, ex-marxista e hoje um dos mais prósperos empresários em Moçambique.

L N – http://www.canalmoz.co.mz/component/content/article/2-artigos-2007/11875-generais-amnesicos?.html

Generais amnésicos?
http://www.canalmoz.co.mz
CanalMoz – Jornal online do Canal de Moçambique

P F – N, surely you know that this document is a notorious forgery, an invention of the apartheid disinformation machine. You probably do know, but can’t resist throwing any old rubbish at Frelimo.

L N – What? P F my dear friend and collegue, LET the Truth be told

A P – Please respect the families of the victims, by denying you are creating a big issue for the families who are the respectable politicians of our times.

L N – All those falimy are still waiting for make funerals of [their] loved ones, but the guardians….forget where they killied

S C – sempre é melhor atirar-se as culpas ao apartheid?? na altura nem havia tanta coisa assim em que o apartheid tivesse interesse nesta noticia… my god, cada jornalista… se isto é mentira, entao também é mentira que Mondlane morreu no seu office… como reza a nossa historia.

L N – Mondlane morreu em casa de Betty King, uma americana que era secretária da sua esposa Janet Mondlane no Instituto Mocambicano em Dar-Es-Saaam, na manhã de 3 de Fevereiro de 1969. Ele passou pelo escritório, levou alguma correspondência (onde estava o livro armadilhado), e como a mulher se encontrava na Suíça…

R M ‎- “Assassinos fora…” Mano Azagaia….

E C – Mas que tal aderirmos ao Tribunal Penal Internacional.  Não acham que tenha chegado a hora?

M A – Mas porque baterem a boca em inglês se a introdução está na língua de Camões P e L? But ok, any may, we can in inglês.

S C – ‎”…e como a mulher se encontrava na suica…”lol…

M A – O que aconteceu S C quando a mulher estava na Suíça????…….lol

S C – eheheheheh, k pergunta obvia… mas nao sei. eu nao era vivo na altura. heeheh

M A – L você!!!!! Fogo li o jornal e estou com mais dúvidas, afinal quem tem a verdade?

M A – Não podes me dizer? Será segredo pah

V B – Tarde ou cedo a verdade vem à tona. E são os mesmos que dominam as televisões quando estamos em datas festivas. Falam da revolução mas esquecem-se (?), mas jamais admitem a autoria dos crimes cometidos na altura.

M A – A sorte é que muito poucos usam esta ferramenta porque a mesma só está disponível em telemóveis para a classe média inexistente, porque caso contrário estávamos em problemas. Já imagiram se os nossos filhos nos perguntarem onde morreu Eduardo Mondlane?

L N – A Verdade? Só sei que a MENTIRA tantas vezes propalada, se transformou, sobretudo para os próprios, na verdade do consolo.

M A – Errar é humano, quem somos nós para fazermos a justiça? Devem ter agido na emoção e no querer fazer bem para o povo e dai o excesso.

L N – Meu caro, aqueles homens (mulheres e criancas, de acordo com varias fontes, orais e documentais) nao foram julgados. Foram sumariamente executados.

M J – P F grande lambe botas.

M A – Foi o demónio encarnado neles, eles não sabiam o que faziam. Alguns devem ter problemas de sono, vamos lhes perdoar e entregar a justiça a Deus. Apesar de eu achar que o pecado paga-se aqui na terra.

L N – Esses foram os que melhor interpretaram O Príncipe de Nicolau Maquiavel: “Os fins justificam os meios”.

R F – Não vamos esquecer, esta é uma verdade. Ainda bem que lá se foi o monopartidarismo.

M A – Grande teoria essa, e quando e que os meios justificam os fins?

L N – Poder, não é jogo para incautos. E tal como os seus mestres, os camaradas da escola Stanilista…limitaram-se a aplicar quimicamente o que aprenderam.

M A – É preciso virarmos a página e entregarmos a Deus tudo para evitar mos passar o resto das nossas vidas amargura dos e cheios de ódio. A amargura e o ódio não trazem a felicidade desejada e mesmo os pecados trazem a almejada felicidade….

L N – O que mais dói, é que o regime vigente nunca se dignou a entregar as ossadas dos “fuzilados” aos seus legítimos ente-queridos, para, à boa maneira africana, procederem aos funerais.

A M – Sr. P F, por favor, mas na língua de camões, explique-se melhor… Quem sabe até podes ter razão e cá o pessoal estar “equivocado”… Quem não te conhece é que te “compra mano F…

P F – Yes, N – let the truth be told. Except that this document is not the truth, it’s a South African forgery. This is not to excuse the executions of Simango and the others – which probably took place in 1983, not in 1980, much less 1977. But you can’t discuss these matters by using forged documents. And you don’t really believe that Oscar Monteiro was subordinate to Sérgio Vieira in 1980, do you?

L N ‎- P F you are the spokesperson for Monteiro and Vieira? This note is clear. Why they (the comité) never refute?

M A – Hehehehehehe quando dois elefantes se degladeiam a busca da verdade nós os elefantinhos ganhamos porque acabamos sabendo de muitas coisas, então o P F é o porta voz!!!!

P F – What are you talking about N? Of course I’m not a spokesperson for anyone – I merely point out the inherent improbability of Vieira being put in charge of a committee where one of his subordinates was Oscar Monteiro, since Monteiro since Monteiro was higher ranking in Frelimo! A lower ranking cadre would not be put in charge of a higher ranking one in those days. But if you’re insisting on the veracity of this document, perhaps you’d like to tell me where it was first published? What is the original source?

G C – Recorde- se que estes são uma parte de tantos co-cidadãos que morreram, sem contar com aqueles que não figuravam em ordens de accão, executado por meio de chambocados e outros metodos de punicão, mas a história vai julgá-los…

A A – P F, um jornalista ou um … duvido das qualificações técnicas do F, um individuo que tem dificuldade de perceber a nossa história, para lograr os seus intentos acusa o apartheid de forjar os documentos. Tenho pena dele porque só envergonha a classe dos jornalistas.

A A – Se estivesse vivo o Carlos Cardoso estaria sempre enjoado com as publicações falsas de F, para alem de ter memória de crocodilos, nós os outros diríamos que o F é mais um mestre das conspirações intestinais.

P F – Eu era colega de Carlos Cardoso durante uma decada na AIM, e sou co-autor (com Marcelo Mosse) da biografia de Cardoso. Duvido que A A saiba mais de Cardoso que eu. Longe de ser “sempre enjoado” Cardoso era um bom amigo e camarada meu durante quase 20 anos. O jornalismo de Cardoso era investigativo e cuidadoso – certamente ele queria saber a proveniência de documentos duvidosos, em vez de imediatamente os publicar.

H F – Afinal o senhor P F quer dizer que os senhores acima mencionados não foram executados, ou que tiveram uma execucao merecida?

I A – NAO VAMOS!

P F – Sr H F, como já disse, os ditos “reaccionários” foram mortos. Isso nao é a questão. A questao é se o documento usado por L N é genuino ou não. Eu acho que as indicações são que Simango, Kavandame e os outros foram fuzilados em 1983, e não 1980. Execução merecida ? – não, isso não existe. Sou contra a pena de morte em quaisquer circunstâncias.

M A – Mudou de cor que nem um camaleão, acho que se apercebeu que há pessoas atentas ao seu malabarismo lol.

L N – ‎P F, aquela ordem de acção, está nos documentos da Frelimo. Eu encontrei no Bureau de Informação Pública.

A M – O senhor F sabe muito bem que o documento não é nenhuma “forja” do apartheid mas, como é sua “missão” defender o partidão a qualquer custo, aí está… realmente tá virando camaleão…

P F – Sr M, não tenho missao de defender ninguem – como historiador quero saber a proveniência das fontes. Contrário ao que disse N, isso nao e’ nenhum documento da Frelimo. E se Simango e os outros eram fuzilados em 1983, então qualquer documento que fala de execuções de 1980 tem de ser falso.

L N – É muito dificil….P F, sabe e bem, pois Mariano Matsinhe já o disse em entrevista ao Savana que na Frelimo, era prática fuzilar pessoas. Como também sabe que Uria Simango foi vitima de um golpe palaciano, depois da morte de Mondlane (este que foi morrer em casa da secretária da sua esposa quando ela estava na Suiça, facto esse omitido longos anos e matéria de falsidade nos manuais de ensino primário durante a chancelaria de Graça Machel quando ministra da educação) anti-estatutário. Sabe tambem, porque Chipande o disse que eles (Frelimo, os vivos claro) lutaram para SEREM RICOS. Vamos deixar de falatórios baratos. Esse documento é oficial e revela, sem margem de dúvidas, as grandes lições da escola stanilista que foram adquiridas por aqueles que diziam que “Mocambique seria o túmulo do capitalismo” e hoje são os maiores capitalistas, mesmo que a fonte inicial tenha a criação de aves da família dos palmides, comumente conhecidos por patos.

A M – Sr P F, o que é que o senhor recebe em troca, para “defender” o sistema? Já num debate televisivo, alguém no painel ou na plateia, terá levantado o facto de o senhor não ser ser “originalmoz” – o que eu não concordo – que o leva a assumir posições extremamente incofessáveis nos dias que correm. O senhor tá tentando tapar o sol com a peneira, como se diz…

14/12/2011

SOBRE O DIA EM QUE SAMORA MACHEL MORREU, 25 ANOS DEPOIS

Tão novinhos que eles eram. E lá estão os dois. À esquerda, a Sombra. Para os ver em tamanho gigante e a cores em sua casa, prima na imagem acima duas vezes com o rato do seu computador.

Para comemorar um ano de andar a escrevinhar aqui no The Delagoa Bay Blog, cuja leitura por uma leal mão cheia de -espero – espíritos livres que gostam de ver como as coisas são e porque é que são assim, reproduzo em baixo, com vénia, uma nota um tanto cáustica mas eminentemente legível e possivelmente plausível, que encontrei quase por acaso na internet, num blogue muito interessante chamado Tempos Modernos, assinado por um Sr. que se auto-designa Marx e que se parece mesmo muito com o homónimo mais conhecido de outras eras. Ao seu texto chamou O Ano das Cobras e aqui vai, menos uma ou outra gralha e a sua reversão para o velho português, felizmente ainda em vigor em Moçambique:

Um exemplo de estatuária norte-coreana moderna, estilo "querido líder", muito na moda estes dias.

Numa jogada de puro oportunismo político, Armando Emílio Guebuza resolveu fazer de 2011 o «Ano Samora Machel».  À primeira vista, tudo pareceria justificado: afinal, Samora foi o primeiro Presidente de Moçambique independente e, os seus discursos sempre falavam da abolição da exploração. Relembrar Samora à juventude moçambicana seria, portanto, natural.

Acontece que, com Guebuza, a história não é essa.

Samora e Guebuza odiavam-se. Samora e os demais, sabiam do carácter ambicioso de Guebuza e vigiavam-no permanentemente.

Veloso, Guebuza e Machel brindam.

Mas Guebuza era um rapaz trabalhador e esperava a sua vez. À frente do Ministério do Interior, começou laboriosamente a montar um exército paralelo que lhe obedecesse. Para isso, serviu-se da Polícia para a equipar com blindados e carros de assalto. Fazia desfiles de demonstração da sua força.

Em 1984, dirige a “Operação Produção”, que lança milhares de compatriotas na selva de Niassa e Cabo Delgado e subsequente morte ou fuga para a Renamo.

Alimentada com esses novos reforços, o movimento dos “bandidos armados”, inflige derrotas sucessivas no exército governamental e desarticula a economia moçambicana.

Samora desespera e sente-se cada vez mais cercado: afasta Guebuza para a Beira e impõe-lhe residência fixa. Cada vez mais isolado, despromove Sebastião Mabote por suspeita de traição e entendimento com a Renamo. Numa cimeira de chefes de estado no Malawi, ameaça bombardear esse país por suspeita de dar guarida à oposição.

É neste ponto, a caminho de Maputo para demitir mais uns tantos, que se dá a queda do avião em viajava Samora: uma sucessão de erros de navegação aérea, de incompetência da tripulação e de conivência de adversários internos e externos (África do Sul, URSS) provocam um acidente imprevisto.

Mas havia quem sabia e desejava o acontecimento. Samora queria provocar um confronto Leste-Oeste em Moçambique. O confronto não interessava a ninguém e foi preciso acelerar a queda de Machel.

Chissano foi o senhor que se seguiu. Mas Guebuza, aguardou a sua vez e impôs-se, ameaçou contar o que sabia e fez-se eleger como presidente.

Mas que fique claro: Samora e Guebuza sempre se temeram e sempre se odiaram. Vigiavam-se mutuamente no tabuleiro do xadrez moçambicano.

Samora, brought to you by Guebuza, North Korea and The Pepsi-Cola Company.

É por isso que o «Ano Samora Machel» é uma hipocrisia mas, em todo o caso, serve a estratégia guebuziana de propaganda e de demonstração de força.

Mas para melhor humilhar Samora, nada como uma mistela feita com uma estátua norte-coreana bem regada por Pepsi-Cola sul-africana, na praça que foi do Mouzinho de Albuquerque. Agora, sem cavalo e rodeado dos crocodilos que Samora avisava terem que ser mortos no ovo …

Veneno perfeito!

(fim)

11/12/2011

PONTA DOBELA

Uma vista da actual Ponta Dobela.

A história que vou contar ouvi da boca creio que do Dr. Magid Osman, numa conferência a que assisti há uns anos no Hotel Polana.

Ele, que mais tarde chegou a ministro, e que foi accionista e presidente do então BCI (antes da fusão com o Banco de Fomento) era um dos pouquíssimos economistas moçambicanos que em 1975  ficaram atrás e que restaram do impulsivo desmantelamento da economia moçambicana. Outro era Mário Machungo, que mais tarde foi primeiro-ministro durante 11 anos. O resto da maioria da cúpula da Frelimo percebia pouco ou nada de economia e de negócios e passou os anos seguintes em guerras e a suportar projectos marxistas da treta que não deram em nada.

Magid, cujo pai e foi o dono da pequena Camisaria Benfica mesmo colada à então veneranda Mesquita de Lourenço Marques, do outro lado da rua da Papelaria Spanos, e cujo irmão era um bom jogador de futebol, tendo jogado numa equipa que o pai Melo treinou (daí eu os conhecer), desde logo foi integrado nas equipas do novo governo.

Logo a seguir à Independência, não havia relações com a África do Sul, e hoje entende-se que a ideia dos Libertadores era que o regime da África do Sul cairia a seguir, portanto a ideia não era continuar o clima de business as usual com os boers, mas sim de fazer-lhes o que a Tanzania havia feito com Moçambique: abria-se uma espécie de Nachingwea do lado moçambicano da fronteira sul-africana e mandava-se guerrilheiros e bazookas lá para dentro para libertar o outro lado. Bem, está-se a ver como foi.

Mas isso não vem para o caso.

Logo após a Independência, pelo menos os telefones entre a então Lourenço Marques e Pretória ainda funcionavam. E pouco depois de Junho de 1975, alguém do novo governo na capital moçambicana recebeu um telefonema de Pretória: o governo sul-africano desejava ter uma reunião com representantes do governo de Moçambique e perguntavam se havia disponibilidade para ocorrer tal reunião.

Os camaradas olharam-se, quase incrédulos, a ideia era matar os agentes do apartheid e não falar com eles, o que é que os racistas querem, não há hipótese nenhuma de se fazer seja o que for com eles. Mas alguém decidiu permitir que a reunião ocorrese – em Lourenço Marques.

Pretória concordou e, uns dias depois, aterrou em Mavalane um avião da força aérea sul-africana, cheio de homens brancos com o ar mais suspeito do mundo, óculos escuros, que foram levados a uma sala de reunião algures na cidade.

Do lado moçambicano, a Frelimo escolheu uma equipa a dedo, de que fazia parte o então jovem Magid Osman (naquela altura, todos eram desesperadamente jovens, desesperadamente inexperientes e achavam que tinham o rei na barriga).

A reunião, que supostamente durou menos de dez minutos, terá decorrido assim: entraram as duas delegações na sala e sentaram-se em lados opostos da mesa. Um sul-africano levantou-se e disse qualquer coisa como isto: “nós pedimos esta reunião por uma razão apenas. Antes da entrega do governo à Frelimo, o governo português havia acordado construir um novo porto de águas profundas perto da Ponta Dobela. Tudo já está aprovado e pronto para arrancar. Nós só queremos saber se esse projecto é para avançar ou não.”

Calou-se, e sentou-se.

Do lado moçambicano (Magid Osman deve-se recordar dos nomes de quem lá esteve, eu não, infelizmente) a reacção foi de quase indignação. O quê? a zona recém libertada do jugo colonial racista imperialista a lidar com os imperialistas racistas do apartheid? Nem pensar. Não há porto em Dobela coisa nenhuma.

Ouvindo esta resposta, os delegados do governo de Pretória concluiram que nada mais havia a discutir, agradeceram, levantaram-se, foram para os automóveis, que os levaram de volta ao aeroporto e embarcaram de volta para Pretória.

1973. Ponta Dobela. Manuel Pimentel do Santos, então Governador-Geral de Moçambique, mostra o local do suposto futuro porto de águas profundas a Rui Patrício, Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal. (fonte: IICT)

Mais um aspecto da visita de Pimentel dos Santos e Rui Patrício a Ponta Dobela em 1973. (fonte: IICT)

Nos anos seguintes, as relações entre os dois estados deterioraram-se, nomeadamente as económicas. O fluxo de tráfego entre o hinterland sul-africano e a costa foi re-orientado para Durban, Port Elizabeth e o Cabo. Maputo, o porto ideal para a África do Sul e que tanta tanta chatice dera desde que abriu no final do século XIX, ficou positivamente às moscas.

No entanto, se as vontades políticas variam com os tempos, a geografia é o que é: o Sul de Moçambique será sempre o caminho mais directo e mais barato para ligar o complexo agrícola, comercial e industrial de que Joanesburgo é o centro.

A sua competitividade depende unicamente de dois factores: da eficácia e eficiência no transporte de bens entre os dois pontos e da fiscalidade negociada entre os dois países.

Se se compararem as realidades nos últimos quarenta anos, só há dois pontos significativos no que concerne a Maputo.

O primeiro, é que os volumes de que se está a falar agora em termos de carga transportada são muito maiores que há 40 anos.

O segundo, é que houve uma enorme evolução nos transportes marítimos. Hoje utilizam-se navios muitíssimo maiores, muitos dos quais  não conseguem entrar em segurança na baía de Maputo. E não é possível dragar a baía para tornar tal possível. Seria caro demais, provavelmente ambientalmente inexequível e um dia Maputo literalmente cairia ao mar (como aliás, já está a cair, em boa parte devido precisamente às décadas de dragagens ali feitas, que inclusive levaram as areias das suas praias).

E aqui vem o velho projecto de Ponta Dobela à tona novamente.

As grandes vantagens de Dobela é que 1) seria uma mina de dinheiro para Moçambique, pois se as coisas fossem bem feitas, o custo do transporte de bens seria muitíssimo competitivo comparado com os portos sul-africanos (que não se importariam mesmo nada se não fosse feito); 2) seria um porto de águas profundas, ou seja, os mega petroleiros e os mega-transportadores podiam ali atracar e largar e pegar as suas cargas rápida e eficientemente. 3) sendo uma área a começar do zero, ali poderiam-se fazer as infra-estruturas exactamente à medida com o melhor que se faz hoje em dia, e à medida das necessidades; 4) geraria emprego na orla a Sul de Maputo, o que o pessoal ali bem precisa.

O que nos traz aos pontos negativos. Bem, na realidade só há um que me interessa, e que na altura dos fascistas-colonialistas-racistas etc portugueses não devia ter o peso que tem hoje.

É a questão ambiental.

Não sei se o exmo. Leitor sabe onde fica Ponta Dobela. As coordenadas GPS são Latitude : 26. 37.0′ S e Longtitude : 32.55.0′ E.

Se conhece a Ponta de Ouro, fica na costa a uns quilómetros ao Norte, logo a seguir à Lagoa Piti e a uns quilómetros a Sul de Milibangalala.

Eu já nem falo no local em si, que é natureza pristina e essencialmente intocada pelo homem.

Falo, mais, do que está à volta.

E o que está à volta é um imenso património natural, que no dia em que for não volta mais. No mar, campos de coral únicos e fauna animal preciosa. Em terra, reservas naturais e animais já constituídas. Toda a zona é um delicadíssimo eco-sistema que no mínimo urge a maior das maiores precauções no que toca a qualquer projecto de dimensão mínima. Nos anos 20, apenas sei que ali se procedeu a uma matança de elefantes sem precedentes precisamente porque a população daqueles grandes animais havia crescido sem qualquer restrição e estava a destruir a ecologia da zona (foi dessa matança que resultaram duas colecções de fetos de elefante únicas no mundo, uma delas ainda alojada no Museu de História Natural em Maputo (para os do tempo da outra senhora, o Museu Álvaro de Castro).

Ou seja, seria de todo recomendável, antes de se sequer começar a falar no porto, que primeiro se analise o que é que isso quer dizer em termos ecológicos para a zona. E também em termos paisagísticos e turísticos. Ir para a Ponta de Ouro para depois levar na praia em cima com as borras dos petroleiros não vai dar e acabaria com o mais precioso ponto turístico do Sul de Moçambique.

O governo, a elite precisam destes projectos para dinamizarem a economia, capitalizarem numa vantagem estratégica quase única do país e ganharem dinheiro. As pessoas precisam destes projectos para terem empregos.

Mas a natureza, que Deus deu, e que não se conserta facilmente, tem que ser levada em conta.

E, do meu parco conhecimento da zona, aí os desafios serão enormes, senão insuperáveis. E até esta data, não conheço estudos sobre a zona.

A única coisa que vi é o vídeo em baixo, preparado por uns tais de Aquaterramovement,

que dizem que percebem do assunto e que dizem também que construir um porto em Dobela seria provocar uma catástrofe ecológica.

Nesta fase, seria talvez importante analisar esta questão antes que aconteça o mesmo que aconteceu com a Mozal há quinze anos: quando deram por ela, já lá estava, a cintar e poluir a cidade da Matola.

O filme, partes I e II:

04/12/2011

TERRA SONÂMBULA, UM FILME SOBRE MOÇAMBIQUE

Filed under: Cinema, História Moçambique, Mia Couto, Terra Sonâmbula — ABM @ 6:59 pm

"A Noite Estrelada", de Vincent van Gogh.

Do blogue Meia-Palavra copiei o resumo deste filme, escrito por Felipe Cordeiro, mas como não percebia bem aquilo que lá estava adaptei-o ao meu próprio desacordo ortográfico:

Na Moçambique pós-guerra, num cenário devastado onde a cultura e a sobrevivência são dois elementos que se cruzam em “Terra Sonâmbula” (baseado na obra de Mia Couto), somos apresentados ao velho Tuahir e o menino Muidinga que, à procura de abrigo, encontram no mato um machimbombo incendiado e cheio de corpos carbonizados.

Dentro desse machimbombo Muidinga encontra doze diários, pertença de Kindzu, um fugitivo da guerra.

A partir da leitura desses diários, vemos a relação entre Tuahir e Muidinga estremecer. O garoto, que não sabe qual é a sua origem, questiona diversas vezes o velho que o acompanha, querendo saber de onde veio, quem são seus pais e qual é a sua relação com o velho.

As duas narrativas cruzam-se. Nos diários, Kindzu conta as dificuldades em viver num lar que respeita todas as crenças da sua cultura: a adoração dos espíritos, os devaneios do pai pescador, a cegueira social de seus vizinhos, etc. Entretanto, foge do seu meio sem ter de renegar as tradições supersticiosas e torna-se um guerreiro e acreditar em seus sonhos, que afinal não tem. É nesse ponto de tradições e relatos que as histórias se entrecruzam e caminham juntas, nunca sendo uma narrativa dentro da outra, uma influenciando a outra.

Numa terra onde dormir não é uma escolha, a chave para toda a apreciação da obra é saber que sonhos são tão reais quanto uma guerra, e a destruição e a vida caminham juntas por um caminho cheio de obstáculos e anseios.

E aqui, grátis e em sete prestações, o filme, na íntegra, bastando para tal ir vendo por aí abaixo.

Grato ao Issuf Mohamed, cujo pai e o meu se conheciam há 50 anos na velha Lourenço Marques, por me chamar a atenção para o tópico e que no filme é o indiano cantineiro que acaba numa cadeira de rodas, amigo do Kindzu.

23/11/2011

O MOMENTO FUNDACIONAL DA FRELIMO

Filed under: Fundação da Frelimo, História Moçambique, João Cabrita — ABM @ 11:56 am

Não, não foi nenhum destes, apesar de Marcelino ter estado lá.

A linha oficial da Frelimo desde sempre foi a seguinte: “A Frelimo foi fundada em Dar-es-Salaam, Tanzânia, em 25 de Junho de 1962.”

A partir da sua casa aqui na internet, Fernando Gil ontem deu mais um passo no sentido de esclarecer um pequeno detalhe relativo à história da organização que mais tarde combateu e recebeu o poder em Moçambique das autoridades coloniais.

Segundo o testemunho do Sr. Dr. Jaime Maurício Khamba, que mais tarde consubstancia apresentando o documento fundacional que se reproduz em baixo, e de cujo original não sei bem quem tem posse, a Frente de Libertação de Moçambique terá sido, na génese, criada por moçambicanos de quem quase ninguém ouviu falar, na cidade de Accra, no Ghana, no dia 2 de Fevereiro de 1962.

Quatro meses e meio antes e do outro lado de África em relação à Tânzania.

E em inglês.

Alguém sabe quem foram os Srs. Mateus Michinji Mole, Lourenço Milinga, Hlomulo Chitofo Gwambe e Calvino Zeque Mahayeye?

Pois é. Muito poucos.

Para que conste.

A confirmar-se, louros para Fernando Gil e o Dr. Khamba, que ajudou assim a desvendar a história mais mal contada da história recente de Moçambique.

Cópia do documento de Accra. No original, em inglês.

 

Do Reino ao Sul, João Cabrita pondera diferentemente e, com sua autorização, que agradeço reconhecidamente, reproduzo o seu comentário, que também foi encaminhado para o Sr. Fernando Gil:

Mateus Mmole e Lourenço Milinga eram dirigentes da MANU.

Hlomulo Chitofo Gwambe (mais conhecido por Adelino Gwambe) era o presidente da Udenamo. Calvino Mahayeye era membro deste movimento.

uma leitura atenta do documento reproduzido hoje […] deixa transparecer que a 2 de Fevereiro de 1962 houve o desejo dos moçambicanos filiados na UDENAMO e na MANU de formar a Frente de Libertação de Moçambique. Entre o desejo de se formar uma frente e a decisão de se criar essa mesma frente vai uma certa distância, de meses neste caso.

Efectivamente, o anúncio formal da criação da Frelimo foi feito em Acra (para grande irritação do governo do Tanganyika), mas em Junho de 1962, durante a African Freedom Fighters Conference, segundo o depoimento que obtive de Fanuel Mahluza, vice-presidente da Udenamo, e que ele próprio reitera no manuscrito que me entregou para publicação antes de morrer.

O título de capa do “Evening News”, diário publicado em Acra, de 6 de Junho de 1962, pp 1 e 2, é suficientemente elucidativo: “Mozambique parties answer Osagyefo’s close ranks call”.

Antes da partida das delegações da Udenamo e da MANU para Acra, estes dois movimentos estiveram reunidos em Dar es Salam sob os auspícios do governo tanzaniano (Tanganyika) tendo “finalmente decidido unir todas as forças patrióticas de Moçambique por meio da formação de uma frente comum”, segundo reza uma declaração emitida em Dar es Salam a 25 de Maio de 1962.

Segundo me relatou Mahluza, foi Marcelino dos Santos quem deu o nome à Frente de Libertação de Moçambique. Mahluza escolheu o acrónimo, Frelimo.

[…]

De facto, a ideia de se unir os dois movimentos surgiu em Dar es Salam face à política do governo tanzaniano em favorecer mais a MANU (essencialmente maconde e com fortes raízes no Tanganyika e que até advogava uma grande região maconde independente, integrada neste país) do que a Udenamo, por este movimento estar mais identificado com o Gana de Nkrumah, rival de Nyerere em questões nacionalistas. (A África Austral era como que zona exclusiva do Nyerere e que chocava com o pan-africanismo de Nkrumah). 

O Marcelino dos Santos apoiava a ideia da unificação, pois sem ela não era possível funcionar a partir do território tanzaniano. Portanto, da fotografia que reproduziu no seu blog [ver em cima] o Marcelino era o único da Frelimo à altura da independência que participou nesse processo. O Chissano estava em Paris, o Machel ainda não havia chegado (saiu de LM em Março de 1963).

01/11/2011

OS DUQUES DE CONNAUGHT E A PRINCESA PATRICIA EM LOURENÇO MARQUES

Uma fotografia da época com a família real britânica. Da esquerda para a direita: Leopold Battenberg, Marie Louise Schleswig-Holstein, a Príncipe Edward de York, a Duquesa de York com a Princesa Mary, Margaret Connaught, Alexander Battenberg (sentado no chão), o Duque de York com o Príncipe Alberto, a Rainha Vitória, Arthur Connaught (o Duque de Connaught), a Duquesa de Connaught, a Princesa Beatrice, Patricia Connaught (no chão), Ena Battenberg, Helena Vitória de Schleswig-Holstein e Maurice Battenberg. Para ver esta fotografia do tamanho do ecrã do seu computador, prima na imagem duas vezes com o rato do seu computador.

O pai da Princesa Patricia de Connaught. Artur, Príncipe Real e, a partir de 1874, Duque de Connaught e Strathearn (1850-1942) , era o sétimo filho, terceiro varão e supostamente o favorito da Rainha e Imperatriz Vitória – e portanto irmão do que foi mais tarde Rei Eduardo VII. O Duque esteve a maior parte da sua vida em funções militares e de chefia e representação da coroa britânica. Nunca foi grande espingarda mas o que fez, fez com dignidade, especialmente enquanto Governador-Geral do Canadá, antes e durante a I Guerra Mundial.

A mãe de Patricia era Louise, filha do Príncipe Frederico Carlos da Prússia, com quem Artur se casou em 13 de Março de 1879.

Em finais de Fevereiro de 1906, os Duques e a sua filha visitaram a África do Sul. Foram de barco, no Balmoral Castle. Durante a viagem, estiveram brevemente em Lourenço Marques. Uns dias mais tarde, apanharam o navio alemão Prinzregent e rumaram à Beira (7 de Março de 1906) e Zanzibar (fonte: Arquivos Nacionais da Grã-Bretanha, refª FO 367/19/2).

Um ano antes, em Janeiro de 1905, os Duques visitaram Lisboa.

Em 4 de Novembro de 1910, o Duque de Connaught, em representação do monarca britânico, Jorge V, presidiu à primeira sessão do Parlamento da nova União Sul-Africana, na Cidade do Cabo. Desta vez não passaram por Lourenço Marques.

O Príncipe Artur de Connaught, irmão de Patrícia, visitou Lourenço Marques em Dezembro de 1923.

Em sua honra, eventualmente a edilidade e o governo ofereceram um brilhante festa em 1 de março de 1906 e os seus nomes e títulos a duas artérias: A Rua Princesa Patrícia e a Avenida Duques de Connaught.

Tudo isto para que, muitos anos mais tarde, numa curta visita de três dias a Moçambique, em Março de 2008, um babado casal que viveu em Lourenço Marques em 1965 e que nunca esqueceu o que viu, pudesse dizer:

“O nome da nossa filha surge da predilecção que a minha mulher e eu tínhamos por uma rua em Maputo, cheia de jacarandás e que se chamava rua Princesa Patrícia.”

Disse Aníbal Cavaco Silva, de momento presidente de Portugal.

A actual Rua Salvador Allende em Maputo, era anteriormente designada Rua da Princesa Patrícia.

A actual Avenida Friedrich Engels, em Maputo, onde se situa o miradouro para a Baía, era anteriormente designada Avenida dos Duques de Connaught.

31/10/2011

UMA IDEIA DE SALAZAR, PARA QUEM NÃO FAZ IDEIA

Capa de "Salazar, a cadeira do poder".

Até ler o livro cuja capa mostro em cima, nunca tinha ouvido falar de Manuel Poirier Braz. O sítio Wook, onde parece que muita gente compra livros pela internet em Portugal, contém esta algo sumptuosa descrição dele:

Manuel Poirier Braz é licenciado em Direito, pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, possui o Curso Superior de Management do Instituto Nacional de Investigação Industrial (actual INETI) e é diplomado em Marketing, Relações Humanas e Análise Decisional, pela Graduate School of Business Administration da Harvard University. Durante vinte e três anos exerceu diversas actividades em empresas multinacionais, entre as quais, gerente da filial de Lisboa da Rank Xerox, director de Marketing para Portugal, Angola e Moçambique da subsidiária portuguesa do Grupo Dow Chemical, gerente e director-geral, para Portugal e Angola, da consociada portuguesa do Grupo Bristol Meyers. Foi fundador e primeiro presidente da Associação Portuguesa dos Medicamentos de Venda Livre e consultor do ministro dos Assuntos Sociais, para assuntos de Indústria Farmacêutica e Medicamentos. Exerce a advocacia desde 1981 e é membro da Associação Portuguesa de Direito Europeu, da Associação Fiscal Portuguesa, da Associação Portuguesa dos Profissionais de Marketing, da Sociedade de Geografia, do Grémio Literário, da Amnistia Internacional e da Sociedade Histórica da Independência de Portugal.

Já publicou livros que à partida nada têm que ver com este tópico.Um seu livro, saído há pouco tempo, revela a sua experiência na maçonaria (que não li).

Mas depois de ler esta obra, fiquei a conhecê-lo um pouco melhor. Em parte pelo tópico que ele abordou em si – António de Oliveira Salazar – e em parte pela forma como Manuel Braz conta a história.

Como Samora Machel em Moçambique, António Salazar permanece, e permanecerá, uma personalidade e um assunto por debater e resolver em Portugal. Milhares e milhares e milhares de páginas têm sido escritas sobre o conhecido ditador que durante quarenta anos “congelou” a sociedade portuguesa (levando as colónias e milhões de pessoas por arrasto). A maior parte dessas páginas escritas ou é duma erudição inacessível para o povão, ou é, mais ou menos disfarçadamente, tendenciosa.

Felizmente, há uns tempos fez-se um concursozeco da treta numa estação de televisão portuguesa qualquer, para saber quem eram as figuras gratas do Milénio português (o Milénio temporal, não o banco, que anda mal mal mal) e o ditador saiu vencedor, o que teve um efeito engraçado nas hostes. Um dos benefícios dessa palhaçada foi que se escreveu a redobrar sobre Salazar. No pressuposto editorial, suponho, que falar de Salazar vende mais.

Mas na generalidade fez pouca diferença. Os politicamente correctos condenam Salazar, e os politicamente incorrectos elogiam. A maior parte das pessoas permanece ignorante, imersa nas suas próprias opiniões já formadas.

É aqui que entra Manuel Poirier Braz. Que, com o livrinho em cima, conseguiu vários feitos.

O primeiro, e mais importante, é que conseguiu resumir de forma agradável, legível, e equilibrada, as alucinantes primeiras sete décadas e meia da história de Portugal.

Que, como o exmo. Leitor já deve ter percebido, “entubam” durante quase cinquenta na pessoa deste senhor.

Em segundo lugar, Manuel P. Braz tem uma postura relativamente distanciada mas informada dos principais eventos que moldaram a passagem de Salazar pelo governo. Fornece os principais tópicos e trabalha neles sem perder o fio à meada. Para quem quiser saber mais há obras que esmiúçam o homem e a sua obra até ao pintaralho. Mas há, acredito, lugar para obras deste tipo.

Especialmente para quem não estava lá ou aprendeu o que foi que aconteceu.

Em terceiro lugar, o livro está bem escrito. Bem, não: muito bem. É um prazer seguir a história.

Em quarto lugar, no pouco que comenta. Poirier Braz deu o tiro certo na direcção certa.  Eu canso-me de ler as versões facilitistas ou dogmáticas do que foi este episódio da história portuguesa e da ponderação das valências e contributos deste homem. Poirier Braz concentra-se nos factos disponíveis e vai reconstruindo o cenário, o que, para uma obra com 250 páginas, é notável.

Apesar da sua contenção, Poirier Braz destaca pequenos mas cruciais, e deliciosos, detalhes. Gostei particularmente da sua descrição dos dias que se seguiram à tromboze de Salazar em 1968. Ou os anos entre 1958 e 1962, com destaque para o episódio da Índia portuguesa. Achei menos feliz o mini-capítulo sobre as “mulheres” de Salazar. Em parte porque acho que é um assunto que não vale um caracol, em parte porque acho que se sabe pouco e especula-se demais. Ainda assim, aqui Manuel Braz divertiu-se com os seus leitores ensaiando uma espécie de radiografia psico-sociológica de Salazar onde acho que ele acertou mesmo no meio do alvo.

Resumindo, se o exmo. Leitor quiser saber o essencial sobre Salazar, e porque é que a história de Portugal foi o que foi entre 1920 e o fim do século passado, este é o livro da ler: “Salazar – A Cadeira do Poder (Lisboa:Editorial Presença, 2008).

27/10/2011

COMENTÁRIO DO COMANDANTE LUIS BRITO DIAS SOBRE O INCIDENTE DE MBUZINI

O malogrado que transportou os malogrados.

A propósito da surpreende caça às bruxas aparentemente e mais uma vez em curso em relação ao assunto referido acima, repesco e anexo texto copiado do semanário Zambeze, que se publica em Maputo, na sua edição de 28 de Agosto de 2008, com vénia. Grato ainda ao Carlos Schmidt pelo envio de fotocópia da publicação.

O comentário do Sr. Comandante Luis Brito Dias (NOTA: com as alterações efectuadas após a mensagem de correcção gentilmente enviada pelo Sr. Comandante em 28 de Outubro e que consta na secção dos comentários em baixo) :

Li com muita atenção as declarações do Sr. Sérgio Vieira a respeito do desastre de Mbuzini (jornal O País, 15 de Agosto de 2008), assunto que me interessa sobremaneira, pois trabalhei em Moçambique como piloto da DETA /LAM durante 17 anos. Presentemente trabalho no Extremo Oriente como comandante de uma transportadora aérea, pilotando aviões do tipo Boeing 747-400. É evidente que o Sr. Sérgio Vieira mente descaradamente pois ele era na altura do acidente o Ministro da Segurança, portanto com responsabilidades no que veio a acontecer.

Samora teve uma morte inglória e claro que ele também foi o responsável pelo que aconteceu pois entregou a sua própria vida nas mãos de pilotos que revelaram desleixo, negligência e incúria. Todos os pilotos que voavam na LAM na altura sabem perfeitamente que o acidente de Mbuzini deveu-se a negligência e incúria por parte da tripulação técnica. Aliás, após o acidente, o Sr. Sérgio Vieira fez chegar aos pilotos da LAM a mensagem, tipo ameaça bem clara, para se manterem calados e não abrirem a boca. Foi por essa razão que nenhum Comandante foi nomeado para fazer parte da comissão de inquérito. O único que foi nomeado foi um co-piloto da LAM, que tinha sido da Força Aérea e era membro do Partido Frelimo, e por isso facilmente controlável. Este co-piloto começou a ver a nojeira que era a Comissão de Inquérito e arranjou maneira de se baldar rapidamente pois em consciência não podia participar na deturpação da verdade. Os pilotos soviéticos além de terem pouca experiência, voavam muito pouco e as licenças de voo que foram apresentadas no inquérito são falsas. Foram emitidas posteriormente.

Na altura eu era co-piloto do DC-10 da LAM, e num voo de Lisboa para Maputo, juntamente com o Comandante, demonstrámos a Mariano Matsinhe e a outro ministro da Frelimo que seguiam a bordo, o que realmente tinha acontecido. Eles foram nossos convidados no cockpit. Até fizemos a viragem ou mudança de rumo inicial, bem como a manipulação errada dos selectores de instrumentos de navegação para lhes mostrar o que se passara na noite no desastre de Mbuzini. Para além de não trazerem combustível de reserva o que aconteceu foi que dos 5 tripulantes no cockpit, 3 estavam entretidos a dividir as bebidas alcoólicas que iriam sobejar, até 6 minutos antes do impacto final. Só o co-piloto e o navegador é que estavam a tomar “conta” do voo. Tudo isto está registado na transcrição do CVR (Cockpit Voice Recorder).

O Comandante só se apercebeu que estavam perdidos 3 minutos antes do impacto final. A desorientação era tal que nem ligaram nenhuma ao aviso sonoro (GPWS) que o avião ia bater no chão sem estar na configuração de aterragem. Quebraram muitas regras básicas de “ouro” da aviação, mas a mais importante foi terem chegado à “Altitude de Segurança”, publicada para Maputo, que é de 3 000 pés, e continuarem a descer sem terem contacto visual com o solo ou, em alternativa, indicação electrónica correcta dos equipamentos de navegação de Maputo. Neste caso, o ILS ou o VOR de Maputo.

O que sucedeu foi que eles em vez de seleccionarem o ILS de Maputo (110.3) enganaram-se e seleccionaram o VOR de Matsapa (112.3) e desviaram-se de rota para a Radial 045 de Matsapa em vez de estarem na Radial 045 do VOR de Maputo. O navegador do Tupolev enganou-se, pois no sistema russo quem selecciona as rádio-ajudas são os navegadores e não os pilotos. Ele já vinha com o VOR de Maputo seleccionado (112.7), mas ao mudar de frequência para o ILS de Maputo (110.3) que é uma rádio-ajuda de aproximação à pista e não de navegação em rota, cometeu o erro fatal. Os selectores dos dígitos decimais são independentes dos dígitos das centenas. Ou seja, primeiro teria que mudar de 112 para 110 e depois de 0.7 para 0.3 com um selector independente. O que aconteceu foi que ele deixou ficar o 112 e só alterou de 0.7 para 0.3 o que veio a coincidir com a frequência do VOR de Matsapa. Foi esta manipulação errada de sistemas que levou a tripulação a fazer uma viragem de rota. Como estavam “distraídos” no cockpit não houve ninguém que verificasse as manipulações dos selectores de frequência. Uma das regras básicas é que sempre que se muda qualquer coisa no cockpit essa acção tem que ser verificada e aceite pelo outro piloto.

Nada disso foi feito. Estas foram as causas imediatas do acidente, mas houve outros factores que também contribuíram, tais como a fadiga da tripulação, a falta de combustível, a inactividade prolongada da tripulação, a falta de verificações de simulador de voo, etc. Um acidente de aviação nunca acontece por si só. É sempre um acumular de eventos que vão culminar num fim trágico. Não querendo ser arrogante, mas a minha experiência de 31 anos de aviação bem como a participação em inquéritos de acidentes aeronáuticos deixam-me perfeitamente à vontade para falar destas situações.

Depois de tantos anos de poder do ANC na África do Sul, e apesar de muita investigação por parte das novas autoridades sul-africanas, quer a nível da Comissão da Verdade e da Reconciliação, quer a nível da polícia mandatada pelo Presidente Thabo Mbeki há mais de dois anos, não foi encontrado qualquer vestígio de tentativa de interferência no voo por parte das autoridades sul-africanas do anterior regime. As teorias conspiracionistas voltaram-se então para supostos mentores internos, o que é muito duvidoso e sem cabimento. Os factos falam por si…

(fim)

Um nota do jornal acrescentou:

Em declarações posteriores à publicação do seu artigo, o Comandante Luís Brito Dias referiu que “a primeira indicação para nos mantermos calados foi dada verbalmente pelo então director das LAM, que nos avisou claramente de onde vinham as instruções.” Luís Dias acrescenta que “a outra vez foi numa discussão privada com uma pessoa muito chegada a Sérgio Vieira que até nos disse, num tom ainda mais ameaçador, que se nós (pilotos da LAM ) continuássemos a falar, acabaríamos presos.” O Comandante Dias refere que “nessa conversa até estavam presentes outros dois pilotos da LAM que ficaram estupefactos com o tom da ameaça.”

Houve ainda uma outra ameaça nesse sentido, vinda de um dos membros da Comissão de Inquérito moçambicana”, acrescentou a fonte.

Avisos idênticos foram transmitidos a todo o pessoal do Aeroporto de Maputo e da Aeronáutica Civil. Os primeiros indícios da mão pesada da segurança moçambicana, após o acidente de Mbuzini, reflectiram-se na Torre de Controlo do Aeroporto, em que o controlador de tráfego aéreo de serviço na noite do acidente viria a ser detido. Igualmente presos pelo Snasp foram funcionários ligados à área da meteorologia por terem contactado o Aeroporto Internacional de Joanesburgo para uma actualização do estado do tempo. O pedido a Joanesburgo foi feito depois do Comandante Sá Marques, do voo TM103 da LAM, vindo da Beira, ter informado a Torre de Controlo de Maputo de que não poderia continuar por mais tempo em espera e que uma alternativa seria desviar o seu voo para a capita sul-africana uma vez que não era possível aterrar em Maputo. O voo TM103 acabou por ser desviado para a Beira no meio de grande pandemónio no interior da Torre de Controlo do Aeroporto de Maputo em que agentes do Ministério da Segurança ficaram alarmados por se ter dado a conhecer à África do Sul que algo de anormal se estava a passar.

Pelos vistos o João Cabrita mais do que tem razão.

Ah, as saudades que tantos parecem ter dos bons velhos tempos.

O documento:

Capa, topo.

Capa, parte inferior.

Artigo, topo.

Artigo, parte inferor.

25/10/2011

A FAMÍLIA REAL PORTUGUESA EM MOÇAMBIQUE, 1959

Há uns tempos referi que a única vez que um membro da família real portuguesa havia estado em Moçambique fora em Julho/Agosto de 1907, aquando da visita do Príncipe Real, SAR D. Luiz Filipe.

O meu amigo no Facebook, José Crespo de Carvalho, anotou que não era bem assim. Na verdade, a família real portuguesa visitou Moçambique em 1959, como se pode ver em baixo. Adicionalmente, SAR D. Duarte Pio, actual Duque de Bragança e chefe da casa real portuguesa, prestou serviço militar no Norte de Moçambique entre 1965-1967. Diz o José: ” SAR D. Duarte Pio por volta de 1965/67 voltou à Beira (estava a prestar serviço militar no Norte nos helis) era Tenente. Ficou instalado na casa de hóspedes (casa existente nos jardins da casa do Engº Jorge Jardim). Houve um beberete na casa dele para os Monárquicos que quisessem lá ir com os tradicionais discursos. Houve também um jantar com D. Duarte mas mais restrito, com os “dirigentes” da Causa Monárquica.

Eis as fotos, tiradas pelo Sr. Engº Crespo de Carvalho, que foram gentilmente facultadas pelo José, cujos pais guardaram até esta data, e que foram restauradas por mim.

No fim, uma breve nota do José sobre a Pide.

SAR D. Duarte Nuno à chegada à Beira. É o do meio. Segundo relata o José Crespo de Carvalho, "quem os esperava: as forças vivas da terra, o Senhor Bispo D. Sebastião Soares de Resende, o Governador do Distrito de Manica e Sofala, o Capitão do Porto da Beira, o Comandante das Forças Armadas da Região Centro, directores de serviços , Obras Públicas (Engº Serpa Pinto), o Director de Agricultura e Florestas, Engº Manuel Crespo de Carvalho (representante da Causa Monárquica e quem acompanhou na visita a F. R.), a minha Mãe que era directora e inspectora do exercicio Farmacêutico , Maria Luisa Crespo de Carvalho. Havia muita gente à espera vê-se atrás de uma cerca de onde vem SAR D. Duarte depois de os ter ido cumprimentar."

D. Duarte Nuno na aerogare da Beira.

Num outro vôo (como era de protocolo e não vá o diabo tecê-las) vieram os filhos de SAR D. Duarte Nuno. À direita SAR D. Duarte Pio, o actual pretendente ao trono português.

SAR D. Miguel, filho de SAR D. Duarte Nuno.

SAR D. Henrique, assistido pela mãe, SAR D. Maria Francisca de Órleans e Bragança.

SAR D. Duarte Nuno numa machamba algures nos arredores da Beira.

SAR D. Duarte Nuno com os filhos e outras pessoas que ainda não identifiquei.

SAR D. Duarte Nuno com os filhos.

SAR D. Duarte Pio, o actual Duque de Bragança, entre José Crespo de Carvalho e o seu irmão, na varanda da residência dos Crespo de Carvalho na Beira, depois de tomar o matabicho.

Se não me engano a senhora é SAR a Duquesa de Bragança.

SAR o Duque de Bragança com o filho, Duarte Pio.

SAR D. Duarte Nuno na Gorongosa.

SAR D. Duarte Nuno na Gorongosa a ver a bicharada.

Um leão na Gorongosa naquele dia da visita real.

A Pide e a Visita Real

Face a uma dúvida minha quanto a um “incidente” com a Pide, o Jo´se esclareceu: “Não houve problemas com a Pide mas sim com um Chico Esperto da Pide que queria mostrar trabalho. Passo a explicar: como representante e “dirigente” da causa Monárquica em Moçambique foi o meu Pai que organizou o encontro que se realizou em casa do Engº Jorge Jardim. Uns dias antes da reunião foi ter com o Inspector Chefe da Pide (Inspector Campos) para o convidar a estar presente na reunião ou que mandasse lá alguém para ver e ouvir o que lá se ia passar. O Inspector Campos disse que não ia nem mandava lá ninguém pois confiava inteiramente nas pessoas que lá iriam estar presntes e nos Monárquicos em geral. O meu Pai insistiu mas ele repetiu que confiava nele. Passadas umas semanas da reunião vieram a minha casa três agentes para falar com o Meu Pai que os mandou subir para a sala. Recusaram-se e disseram-lhe que os teria que acompanhar. O meu Pai ao princípio recusou [prestar declarações], perguntando o motivo. Que falariam quando chegassem ao posto da Pide. Começaram a querer saber coisas da reunião com tons agressivos. O meu Pai disse-lhes que não tinham categoria para o interrogar e que só falava com o chefe deles. Começaram aos berros a ver se o intimidavam mas o meu Pai berrava com eles e dizia só falar com o Inspector Chefe. A sorte do meu Pai que já estava a ver o caso mal parado, foi que o Inspector Campos que nunca ia lá a essa hora naquele dia foi. Ouvindo os berros abriu a porta e ouviu o que o meu Pai estava a dizer logo entrou na sala e mandou que imediatamente mandassem o seu motorista levar o meu Pai a casa. Pediu logo ali mil desculpas e ordenou que os três agentes fossem à tarde ter com ele ao gabinete para esclarecer quem tinha sido o mandante de tal disparate. Dias mais tarde foi a nossa casa pedir desculpas ao meu Pai. Tinha sido um inspector mais novo que era Chico Esperto e que queria apresentar serviço. Já não teria sido a primeira vez. Foi transferido pouco tempo depois. Anos mais tarde fez outra burricada com o motorista do meu Pai (mas com a intenção de o chatear) saiu-se novamente mal pois em tribunal o Juíz não só não lhe deu razão como o repreendeu por abuso de poder.”

24/10/2011

INAUGURADA A ESTÁTUA A SAMORA MACHEL EM MAPUTO, 2011

A agora descerrada estátua homenageando o primeiro presidente de Moçambique, situada onde estava a estátua de Mouzinho de Albuquerque na antiga praça Mouzinho de Albuquerque. Para quem estiver distraído, há outra quase igual uns cem metros abaixo na rua, mas mais pequena. De braço no ar e tudo.

 

O obra de arte importada da Coreia do Norte.

 

Os rapazes da Libertação no momento da inauguração do monumento a Samora, vinte cinco anos até ao dia em que o Tupolev presidencial se estampou contra as colinas de Mbuzini.

21/10/2011

SAMORA MACHEL VINTE CINCO ANOS DEPOIS: OS EVENTOS E A NOTA DE FERNANDO LIMA

Samora Machel revisitado - mais uma vez.

Por razões evidentes de regime, mas também históricas e de senso comum, Samora Machel é lembrado e comemorado, mesmo vinte cinco anos após o seu desparecimento físico num acidente, ou incidente, aéreo, cujas causas ainda fazem correr tinta (vejam-se os esforços continuados de Mamã Graça e os tiros quase hilariantes trocados entre o Sérgio Vieira e o João Cabrita).

Lamentavelmente (suponho que deve ser qualquer coisa ainda a ver com a herança cultural portuguesa) celebra-se, não o dia em que nasceu, mas o dia em que morreu. Eu sei que Samora Machel nasceu num 29 de Setembro e que em Moçambique este mês já está pejado de feriados. Mas comemorá-lo não tem que ser um feriado. Senão qualquer dia Moçambique fica como Portugal, com tantos feriados que não se trabalha. E acima de tudo, Moçambique precisa que se trabalhe. Não querendo ser dogmático, eu diria: querem celebrar Samora? então trabalhem mais.

Esta semana, por exemplo, finalmente, lá se fez o gesto de colocar no lugar vago por Mouzinho de Albuquerque uma estátua menos má de Samora (importada da Coreia do Norte, doze metros de altura, sem pedestal, um bocadinho demais ao estilo do Querido Líder lá nos confins da península coreana mas enfim) mais uma vez recompondo a bem conseguida estética da praça em frente ao edifício do Conselho Municipal e, espero, salvando-a de vez de um plano de reconfiguração totalmente surreal que circulou em tempos pelos circuitos subterrâneos da máfia moçambicana na internet, creio que da autoria do Sr. Arquitecto José Forjaz.

36 anos depois de Mouzinho out, Samora in.

Mas, para além de uma romaria ao local do acidente/incidente em Mbuzini, na vizinha África do Sul, e do gesto simpático de Jacob Zuma e de Sua Eternidade salazarenta o Sr. Robert, terem publicamente agradecido qualquer coisinha pela catástrofe libertadora infligida ao povo moçambicano sob a liderança de Samora logo a seguir à declaração de “independência” (na verdade, Moçambique tornou-se independente dez dias após a assinatura dos acordos em Lusaka, no final da primeira semana de Setembro de 1974), o prato forte foi uma conferência sobre Samora em Maputo.

A conferência teve a interessante, e provavelmente única, e irrepetível, característica, de reunir sob o mesmo tecto uma boa parte dos protagonistas ainda vivos dos eventos de que resultou, entre 1974 e 1992, a entrega, ou a tomada, dos governos da maior parte dos países da África Austral, para as mãos de elites nacionais, seguindo apenas um pouco mais tardiamente o curso de quase todo o resto da humanidade.

Papá António e Mamã Graça na Conferência sobre Samora.

Sobre a mesma, com profunda vénia, reproduzo em seguida o magnífico texto da autoria de Fernando Lima, participante, espectador, jornalista e também gestor de media, que viveu muitos dos eventos ali tratados e que pelos vistos esteve sentado lá o dia inteiro a ouvir o que as pessoas tinham para dizer. Este texto foi publicado no jornal Savana, que se publica em Maputo, na sua edição de hoje.

Aqui vai:

Quando Samora era Jack Dempsey

Por Fernando Lima em Savana, 21 de Outubro de 2011

Terça-feira fui ao Centro de Conferências, ali para os lados do Miramar, aqui na capital, e fiz como disse que faria o Dr. Almeida Santos, um dos ilustres oradores no simpósio dedicado a Samora Machel. Apesar de não ter convite, fiz-me à sala e passei lá o dia todo. Ouvi 15 intervenções e como não levava bloco de notas passo a citar de memória.

Do que gostei mesmo foi das memórias de Albino Maheche, um “mais velho”, enfermeiro de profissão, que fui aprendendo a conhecer pelas bandas do ministério da Saúde no pós-independência.

Maheche, um contemporâneo e amigo de Samora, trouxe à colação as suas recordações da vivência em comum com o então jovem enfermeiro Machel. E ficámos todos a saber do seu fascínio pelo boxe, como era hábito na década de 50/60. Craveirinha, também contemporâneo de ambos, redige o famoso poema de exaltação ao combate de desforra protagonizado pelo pugilista negro Joe Louis em Berlim. (“A desforra do nosso Joe Louis frente ao Max Schmmeling/veio no telégrafo e saiu no jornal Notícias/mas quanto ao resto em Lourenço Marques…/Nada !/O resto não saiu no jornal Notícias/Não saiu na Rádio Clube de Moçambique./Só o Brado Africano é que está a dizer./Portanto guarda bem guardado este Brado/e treina muito bem este boxe !”).

Samora, na camarata onde viviam os aspirantes a enfermeiros, levava a alcunha de Jack Dempsey, um formidável boxeiro americano, campeão de pesados entre 1919 e 1926. Para melhorar o seu boxe, Samora golpeava com frequência um saco de areia na casa de banho e assistia aos combates que tinham lugar habitualmente no pavilhão do Malhangalene (hoje Estrela Vermelha).

Também ficámos a saber que um padre católico na Catedral o apoiou nas matérias lectivas do 2º. ciclo dos liceus, que gostava das disciplinas de História, Geografia e Português, sabendo de cor várias estrofes dos Lusíadas de Luís de Camões, leitura obrigatória na escola.

Quase inevitavelmente, os jovens Maheche e Machel cruzam-se com o Dr. Mondlane, então hospedado no Khovo (Missão Suiça), vindo dos Estados Unidos. Ali se cruzam também com o poeta Virgílio de Lemos (exilado desde 1963 em França) que queria que os dois se juntassem ao movimento independentista. Lemos tornou-se conhecido por ter apelidado a bandeira portuguesa de “kapulana verde e vermelha” e mais tarde foi preso durante 14 meses por advogar a independência de Moçambique.

Na opinião de Maheche, o estilo contestatário de Machel não ajudou a sua progressão na enfermagem. Numa das aulas, a propósito de enfermeiros e massagens, Samora jocoso quis saber quem dava massagens ao ditador Salazar, conhecido como asceta e celibatário.

Os monitores tomaram-no de ponta e nem sequer o deixaram fazer prova oral de um exame onde tinha positiva na escrita.

Pelo relato da sua filha Ornila fiquei a conhecer um bocadinho mais do Samora doméstico. Dos jantares em família, apesar de ser o “camarada presidente”. Dos treinos dedicados às meninas “para saberem caminhar como senhoras” equilibrando um livro no alto da cabeça, como cruzar as pernas, como sentar e levantar. De como o trautear a canção “canta, canta minha gente, deixa a tristeza para lá” deu origem a semanas de rigoroso “chá” sobre liberalismo e libertinagem.

Não sabe a Ornila porventura que o dito Martinho da Vila, o autor brasileiro da canção, em carne e osso, na sua primeira visita a Moçambique depois da independência, por causa da “libertinagem”, foi impedido de actuar em Maputo e, para salvar a digressão, foi mandado para a Beira, onde actuou para uma plateia de militantes da Frelimo no pavilhão do Ferroviário.

Por causa da mesma libertinagem, anos mais tarde, Bob Marley foi impedido de vir a Moçambique, pois passou a cerimónia da independência do Zimbabwe, no Rufaro Stadium, a fumar vigorosos charros de suruma, mesmo por detrás da delegação oficial moçambicana. O que me recorda a simpatia que os “freaks” citadinos nutriam por Samora à altura da independência, alegadamente por não ser contrário à legalização da “cannabis”. As razões prendem-se com um famoso discurso, em que perante o rufar inebriante dos tambores, Samora disse qualquer coisa como “a cultura é como a suruma a subir pelas nossas veias”.

Voltando para o Zimbabwe, da ajuda de Samora à independência da Rodésia do Sul se encarregou Robert Mugabe, também convidado do simpósio. E como a história é habitualmente feita pelos vencedores, ficaram na gaveta as memórias de Mugabe como pacato professor de inglês na cidade de Quelimane, enquanto Samora apostava numa guerrilha vitoriosa das forças com a sigla ZIPA (Exército Popular do Zimbabwe). E como a história dá muitas voltas, mais tarde os comandantes do ZIPA acabaram presos em Moçambique por solicitação de Mugabe, como documentado por Dzinashe Machingura. Mas isto seria matéria de dissertação para os saudosos Fernando Honwana e Rafael Maguni, por sinal o primeiro embaixador de Moçambique no novo Zimbabwe.

Mugabe falou de Samora, mas aproveitou o microfone aberto e um moderador temeroso do [seu] estatuto “chefe de Estado” para perorar longamente sobre a guerra no Iraque, a selvajaria de George W. Bush, as maquinações de Sarkozy, a ineficácia da União Africana na questão líbia e até o harém de prostitutas à disposição do primeiro-ministro italiano Sílvio Berlusconni.

Quando um jovem exaltado o interpelou sobre os moçambicanos pretos que hoje se substituem aos colonos brancos na partilha das riquezas, Mugabe passou ao lado do debate dizendo secamente que era melhor que as riquezas fossem desfrutadas por nacionais do que por estrangeiros.

Almeida Santos, provavelmente o mais famoso advogado do Moçambique colonial, amigo de Craveirinha, Nogar, Luís Bernardo, Malangatana, de Graça e Samora, mostrou que tem a oratória em forma. Chamou de “preguiçoso” a Luís Bernardo Honwana, o moderador do seu painel, por continuar a ser o nosso escritor de uma obra só, o cão tinhoso que as nossas crianças descobrem na escola pública.

E como Almeida Santos não deixa créditos por mãos alheias, disse ao simpósio que sugeriu a Samora o pacto com a África do Sul que ficou conhecido como o Acordo de Nkomati e organizou a apresentação em Londres a Harry Oppenheimmer, o sul-africano patrão da Anglo-American e crítico do apartheid. Tal como tinha acontecido com Ronald Reagan, Samora descrito por Almeida Santos como “um conquistador” , “um sedutor” , entrou na sala onde estava Oppenheimmer e, por entre efusivos abraços, tratou-se como “Senhor Capital”. Aparentemente, foi “amor à primeira vista”.

Menos simpático ficou na fotografia o já falecido jornalista Pinto Coelho, a quem Almeida Santos revelou ter pedido o “frete” de fazer uma reportagem favorável sobre Samora para preparar o que depois foi a sua viagem triunfal a Portugal [em 1983]. E lá deixou cair também que Samora se “esqueceu” dos papéis para o discurso na Assembleia da República mas conseguiu arrancar um dos mais espectaculares improvisos da sua primeira visita à antiga metrópole colonial.

Noite fora, Marcelino dos Santos, que já disse que ele era a própria Frelimo, vestiu pose mais modesta para falar do humanismo do companheiro Samora, dando os respectivos recados, socorrendo-se do belo poema de Jorge Rebelo, “não basta que seja pura e justa a nossa causa/ é necessário que a pureza e a justiça vivam dentro de nós”. Uma espécie de desforra à recente afronta na reunião nacional de quadros da Frelimo onde o mandaram calar.

Gostei da postura mais académica, menos presidencial de Joaquim Chissano dissertando sobre o Estado-Nação, dos “conselhos” de Prakash Ratilal à juventude que pensa que o futuro é um pronto-a vestir e Óscar Monteiro, que replicou sobre a tradicional “intuição” atribuída a Samora. Gostei que Mário Machungo tenha desenterrado o “samorismo” que defendia Aquino de Bragança, ele que foi um dos vergastados do congresso de Quelimane por defender regras e o rigor na economia moçambicana. Gostei da intervenção emocionada do general Chipande, clarificando a morte do padre holandês (se não me engano em Nangololo) às mãos de dissidentes da Manu ( que um lapsus linguae atribuiu à Renamo), embora não estivesse lá Gruveta para contestar a teoria do primeiro tiro em Chai. Na versão portuguesa, e na cola dos acontecimentos em Angola e no Congo, o assassinato do padre foi o início da luta armada.

A Universidade Eduardo Mondlane organizou o debate mas esteve muito fraca na matéria crítica que podia e deveria ter trazido ao Simpósio. Quando se elevam a categorias históricas termos como “o pai da nação” e o “criador da geração 8 de Março”, fica a impressão que a academia continua a reboque dos acontecimentos, incapaz de aportes críticos e investigações sérias e seguras, indicativas de protagonismo independente dos poderes do dia. Deliberado ou não, os louros das contribuições foram para fora dos muros da universidade.

Armando Guebuza, fez questão de seguir o debate de fio a pavio. Certamente que já deitou contas à vida de como quer ficar na história dos seus dois mandatos constitucionais: eventualmente pela via das presidências abertas ou pelos sete bis aos distritos.

Porém, na “família da Frelimo”, há duas famílias que lhe estarão indelevelmente gratas: os descendentes de Mondlane e Samora. A presidência Guebuza, aparentemente, sarou ou procurou claramente pôr fim às feridas expostas destas duas famílias com contas a ajustar no seio da Frelimo.

Com a poeira e os ventos que nos afagam a memória, o futuro será certamente o melhor juiz.

(fim)

06/10/2011

BARNABÉ LUCAS NCOMO ESCREVE SOBRE BONIFÁCIO GRUVETA

Esta semana, por decreto governamental, Bonifácio Gruveta foi elevado ao estatuto de "herói nacional" de Moçambique.

Na semana em que Bonifácio Gruveta Massamba foi a enterrar na Zambézia, e o governo decretou o seu estatuto de “herói nacional”, o Sr. Barnabé Lucas Ncomo escreveu o texto que se segue e que foi publicado no dia 4 de Outubro de 2011 em Maputo no Canal de Moçambique e que aqui se reproduz na íntegra e com vénia.

Bonifácio Gruveta foi um dos membros da original equipa da Frente de Libertação de Moçambique que tomou o poder na então ainda colónia portuguesa escassos dias após a assinatura da rendição e a entrega do governo aos seus membros. Efectivamente, governou a Zambézia entre 1974 e 1977.

Sobre ele, redigi o texto que pode ser visto premindo AQUI.

Segue o texto de Barnanbé Lucas Ncomo.

Sobre “a compaixão”, “a bondade”, e “o heroísmo” de Bonifácio Gruveta

Seria bom – julgamos nós – que as emoções de alguns não resvalem em insultos à inteligência de outros moçambicanos. Isso obrigaria a que se chame para a tribuna pública outras testemunhas, de entre os quais também alguns mortos, combatentes da primeira hora na luta de libertação nacional a partir de Tanzania, tais como o Francisco Cufa, o Lino Abraão, o Lourenço Mutaca e muitos outros que, por sinal, eram também zambezianos de gema como o próprio Bonifácio Gruveta, que caíram na desgraça por consequência da brutalidade e da cobardia de homens como Bonifácio Gruveta e de outros que, hoje, graças a exclusão a que os novos tempos os sujeitam na distribuição do bolo na “manada humana” a que sempre pertenceram por vontade própria, despertam para a realidade amarga e crua em que se mergulharam.

Lamento ter que escrever isto num momento em que o sangue nas veias de Gruveta ainda não secou, exactamente num momento em que o seu corpo acaba de descer à terra. É o preço da imprudência de alguns que fazem da comunicação social televisiva, da imprensa escrita, do Facebook e de alguns sites da Internet locais de orgias de insultos. Não estaria aqui.

Importa imiscuirmo-nos nas emoções que a morte do major-general Bonifacio Gruveta Massamba levantou no seio de algumas pessoas neste país. Não o faríamos se tais emoções se situassem apenas do lado dos históricos camaradas do finado, e da sua família em particular.

Outras vozes se fizeram presentes no exaltar da “compaixão” que caracterizou o finado em vida. Entre soluços e lamentações se recorreu até à figura do malogrado Dr. David Alone para testificar “a bondade” e “a humanidade” heróica do morto.

Julgamos que é preciso respeitar os mortos, sim senhor, mesmo que em vida tenham sido torcionários! Mas endeusá-los pode chocar suas vítimas, estejam estas vivas ou mortas. Há pessoas a quem, simplesmente, se deve inclinar a cabeça perante os seus cadáveres, e pedir que descansem em paz. O ir para além disso pode conduzir a grosserias do tamanho do mundo e a insultos à inteligência de muitos.

Que alguns dos ilustres que proclamaram a independência de Moçambique tenham tido alguma compaixão para com quem tenha tido o azar de cair-lhes nas mãos, a ponto de livrar este ou aqueloutro da forca durante a época em que tais ilustres assassinavam a seu bel-prazer, não se nega. Mas isso não os transforma em homens bondosos, e nem os exime da responsabilidade sobre as vidas tiradas aos que não tinham quem por eles intercedesse nos tempos da dança macabra imposta por esses ilustres.

Neste momento de dor pela morte física de quem se permitiu, por opção, de forma voluntária e em consciência, pactuar com o pior das maldades humanas, é preciso virarmo-nos para o nosso interior e reflectir. A morte não se trata de brincadeira nenhuma. É dura, embora para alguns seja dura apenas quando lhes invade o tecto. Alguns dirão: “outros é que mandavam matar, Gruveta não concordava, até salvou do Dr. David Alone!”.

Que seja! Mas, e os outros, a quem ele permitiu seu fuzilamento, liderando até tal acção em praça pública, eram menos pessoas do que o Dr. Alone, ou simplesmente fê-lo porque aqueles não tinham diplomas que lhes conferisse o estatuto de gente? Mesmo que admita que tais assassinados em público haviam cometido algum crime de sangue, ficou sempre por desvendar os tribunais que os julgaram e as condições de defesa que se lhes foram proporcionadas.

Nenhumas, que saiba!…

Há um facto que importa compartilhar com outros cidadãos deste país: Em algumas circunstâncias, existe alguma semelhança de objectivos entre os “assassinos em nome dum Estado” e os “assassinos vulgares” quando estes dão de bandeja o que outros não têm. Tal objectivo repousa sempre nos benefícios que advêm como contrapartida da sua aparente benevolência para com outros seres humanos.

Os assassinos de que estamos aqui a falar são pessoas que acidentalmente fazem bem a alguns na esperança de angariarem aliados.

Moldam as consciências das pessoas para que os ajudem a varrer para debaixo do tapete o sangue de suas vítimas. Tais pessoas, por eles beneficiadas, estão proibidas de cuspir-lhes na memória, mesmo que estes estejam a par das atrocidades praticadas pelo benevolente. O custo benefício é sempre a formatação mental dos beneficiados, que devem saber relevar as acções criminosas protagonizadas “acidentalmente” pelo benevolente no decurso da luta pelo bem-estar na vida, elevando para o patamar de heroísmo apenas as acções de beneficência que o assassino benevolente lhes proporcionou. O contrário seria uma ingratidão imperdoável.

Dado que as mortes dos inocentes assassinados transformam-se sempre no quinhão que permite aos beneficiados saírem da desgraça em que estão mergulhados, estes, nada mais de bom têm a fazer senão fechar os olhos aos crimes de sangue que o seu benevolente comete. Testemunhar, em praça pública, sobre os benefícios adquiridos na hora da sentença fúnebre daquele, é a marca que caracteriza o espectáculo da relação entre o benfeitor morto e as suas vítimas de esmola. Os beneficiados de circunstância, transformam então suas vozes, de órfãos desmamados, num todo o país; numa toda a Zambézia: “Ele era boa pessoa; “Preocupava-se com o desenvolvimento da Zambézia; “Dava apoio a toda a gente; etc., etc”. Como se o favor a si proporcionado pelo torcionário de ontem tivesse resolvido o problema de todos outros moçambicanos à sua volta!?…

De seguida, os beneficiados não tardam a exigir que se erga na sua cidade uma estátua, bem enorme, do seu herói, para que todos passem então a venerá-lo.
Tivemos também o privilégio de conhecer o Dr. David Alone, a tal figura que se exuma, e se destaca, para fundamentar a “humanidade” manifesta de quem em contrapartida permitiu a morte de milhares de outros fora dos tribunais.

Com ele (David Alone), também privámos, tendo-nos posto ao corrente das suas peripécias da vida e da mágoa que transportava na alma. Não é verdade que morria de amores pelo finado de hoje a ponto de conjecturar homenageá-lo em obra escrita. Alone conhecia a pele de lobo que o seu salvador de circunstância vestia.

Mas o problema não se reduz a isso: Invocar-se o nome duma ilustre figura como o Dr. Alone para testemunhar em defesa de quem “se vinha de gozo” pela dor de outrem sem ter em conta que aquele Doutor teve apenas a sorte de encontrá-lo num momento em que alguma lucidez lhe invadia o cérebro, pode conduzir a situações extremas de análise, o que não se pretende neste momento em que as atenções de muitos estão viradas para a consolidação e desenvolvimento da instituição democrática no país.

Seria bom – julgamos nós – que as emoções de alguns não resvalem em insultos a inteligência de outros moçambicanos. Isso obrigaria a que se chame para a tribuna pública outras testemunhas, de entre os quais também alguns mortos, combatentes da primeira hora na luta de libertação nacional a partir de Tanzânia, tais como o Francisco Cufa, o Lino Abraão, o Lourenço Mutaca e muitos outros que, por sinal, eram também zambezianos de gema como o próprio Bonifácio Gruveta, que caíram na desgraça por consequência da brutalidade e da cobardia de homens como Bonifácio Gruveta e de outros que, hoje, graças a exclusão a que os novos tempos os sujeitam na distribuição do bolo na “manada humana” a que sempre pertenceram por vontade própria, despertam para a realidade amarga e crua em que se mergulharam.

Está claro que enquanto naquela “manada” se lhes garantia o quinhão por direito de participação efectiva nas tramas contra as vidas de outros cidadãos, tudo estava bom. Agora que se entrou na fase histórica de “cada um por si, Deus por todos” descobrem os nossos heróicos senhores que não têm poder nenhum, “foram simplesmente usados por outros” e é preciso denunciá-lo aos irmãos, a quem ontem se virou as costas.

Muitos destes senhores, da verdade absoluta de ontem, como o finado de que se fala, já rendidos, proporcionam-nos um espectáculo absolutamente espantoso. No leito da morte, assumem-se já como islâmicos ou bons cristãos depois de terem pactuado na destruição das vidas de outros seres humanos em nome do “pensamento comum” e da “inexistência de Deus”. Num divórcio que aparenta ser todo ele contencioso, recusam-se que seus corpos se juntem a de seus camaradas no mausoléu que juntos construíram para si próprios nos tempos áureos da unidade de pensamento.

Numa atitude que caracteriza a sina dos homens pequenos, apartam-se de tudo na esperança de quebrar os corações dos da casa, na esperança de que estes venham em socorro do irmão em apuros.

O que repugna nesta história toda é que há gente que cai na cilada. Acham que todos os moçambicanos devem sentir pena dum homem “que tudo fez para nos libertar do colonialismo português”, mas que já não é suficientemente valorizado. Exige-se então que todos nós descubramos as mágoas do defunto nos últimos anos de sua vida (mágoas eventualmente confessadas em privado com próximos), e que passemos então, todos, a acreditar que o homem foi usado e descartado, por ser de lá e não de cá, como se todos nós tivéssemos culpa que alguns nasçam com vocação congénita de serem usados!

É preciso que reflictamos: Bonifácio Gruveta não foi usado por ninguém. Fazia parte de um todo que jamais se preocupou com o desenvolvimento nem dos zambezianos, nem dos quelimanenses quaisquer como se procura propalar por aqui. Ele e seus camaradas na FRELIMO preocuparam-se, sim, foi com o seu desenvolvimento pessoal.

É verdade que Gruveta lutou contra um sistema condenável para libertar o país e seus concidadãos, não o negamos. Contudo, Gruveta está entre os históricos da FRELIMO que não foram honestos connosco. Se tivesse dito aos moçambicanos que longe de “libertar o homem e a terra” a missão que o movia resumia-se à continuação da opressão em substituição do colonialismo português, talvez muitos não o tivessem seguido. Porque decidiram de livre e espontânea vontade instituir um sistema sanguinário no país. Ninguém os mandou fazer o que fizeram.

Cansados de matar às escondidas como o fazia o colonialismo português, Bonifácio Gruveta e seus camaradas acabaram, eles mesmos, instituindo o que o próprio colonialismo português se esqueceu de instituir oficialmente em Moçambique: a pena capital.

Embora se louve a iniciativa de luta empreendida por Gruveta contra o colonialismo português, não deixa de ser verdade que longe de libertar acabou por transformar, por iniciativa própria e de seus camaradas todos os moçambicanos em escravos do seu pensamento. Mandava matar todos aqueles que não concordassem com ele e seus camaradas, imputando a esses crimes sem sequer conduzi-los aos tribunais para serem julgados. Nos tempos áureos do seu “bem-estar político e social” a lei era ele e seus camaradas.

As pessoas resistiram, uns de armas na mão, outros por outras vias, acabando por ganhar a batalha, vencendo-o a ele e a seus camaradas. É este o quadro real que alguns procuram esquecer.

Não somos contra os que se beneficiaram da “sua bondade” em vida; aqueles que por mão dele conseguiram coisas que a maioria não conseguia. Somos contra aqueles que, na sua pobre inocência, insultam outros, transformando a amizade pessoal que os ligava ao finado Gruveta em tábua de limpeza onde se procura escorrer o sangue dos que por iniciativa dele, e de seus camaradas, morreram.

Gostaríamos que ao chorarem seus mortos “bondosos”, os familiares, amigos e camaradas o fizessem no silêncio dos seus seres, sem precisarem de ferir a sensibilidade de outros. Porque os familiares, amigos e camaradas do “bondoso morto” da Zambézia, não são, por si sós, todos os moçambicanos ou todos os zambezianos. Há zambezianos e muitos outros moçambicanos que foram enlutados pela acção voluntária do homem cujos feitos positivos, direccionados apenas a alguns, se generalizam a todos os zambezianos.

Lamentamos ter que escrever isto num momento em que o sangue nas veias de Gruveta ainda não secou, exactamente num momento em que o seu corpo acaba de descer à terra. É o preço da imprudência de alguns que fazem da comunicação social televisiva, da imprensa escrita, do Facebook e de alguns sites da Internet, locais de orgias de insultos. Não estaríamos aqui.

Com o mundo cheio de torcionários benevolentes, só nos falta um dia vir a público alguém a exigir que se eleve ao estatuto de “grande benevolente” o assassino (escondido – diga-se de passagem) de Siba Siba Macuacua e outros mais, simplesmente porque um dia se beneficiaram de algo desse assassino. Porque tal como os heróicos assassinos da República moçambicana de ontem, que bondosamente não se cansavam de dar apoio, bolsas de estudo e uma mão carinhosa aos que a eles se aproximavam de mão estendida, não espanta que o oculto assassino do malogrado jovem economista esteja hoje também a salvar “alguma humanidade” à sua volta, dentre os quais filhos, sobrinhos, enteados, vizinhos, conterrâneos, etc.

Em jeito de despedida, gostaríamos de inclinar a nossa cabeça e dizer o seguinte: Desejamos que o major-general Gruveta descanse em paz.
Aos Sheiks e Padres atiramos a espinhosa missão de salvar a sua alma: tal como todos, os que vão a Deus de alma aberta, se lhe perdoem os “deslizes pecaminosos” que tenha cometido em vida, pois a ser verdadeira a teoria da sua marginalização e exclusão nos últimos anos da sua vida, fora apenas vítima de si próprio, e daquilo em que acreditou.

Avisos não lhe faltaram.

Gostamos de ver nas suas exéquias fúnebres um dos sonantes filhos de duas das vítimas do regime que ele impôs aos moçambicanos – o Lutero Simango – a inclinar-se perante o seu corpo inerte. A ter que se falar de grandezas humanas, isto é quanto basta: conhecer e viver na essência do termo. Nada obrigava Lutero a estar no funeral dum homem como Bonifácio Gruveta senão o amor ao próximo e à vida.

29/09/2011

BONIFÁCIO GRUVETA MASSAMBA, 1942-2011: UM LIBERTADOR

Filed under: Bonifácio Gruveta Massamba, História Moçambique — ABM @ 12:18 am

Bonifácio Gruveta Massamba, numa foto recente. Faleceu ontem (28 de Setembro de 2011) com 68 anos de idade.

Até esta manhã nunca tinha ouvido falar de Bonifácio Gruveta.

Mas um curto sms de um amigo meu de Moçambique ao fim desta manhã despertou-me a atenção.

A mensagem, quase críptica, dizia apenas “morreu o bonifácio, uma das figuras mais tenebrosas da frelimo, que ordenou os fuzilamentos do campo de futebol de quelimane.”

Fui ver na internet quem era, ou melhor, foi, Bonifácio Gruveta.

Bonifácio Gruveta Massamba, ultimamente general na reserva, deputado com assento na Comissão Permanente do parlamento moçambicano, alto quadro dos históricos da Frelimo, ex-Coordenador da Região do Delta no Gabinete do Plano do Zambeze. membro do Conselho de Estado por efeito do Despacho Presidencial Nº133/2005, de 14 de Dezembro desse ano, e “empresário de sucesso”, terá sido um dos originais, verdadeiros Libertadores moçambicanos.

Tinha 69 anos de idade.

Ele estava lá desde o Início, ou seja de 1964, e nos meandros da guerrilha, ao ponto de parodiar, numa entrevista que concedeu ao Diário da Zambézia de 8 de Setembro de 2010 (entrevista dada no dia anterior na conceituada se algo atribulada Universidade de Mussa Bin Bique, que na altura lhe atribuiu o grau de Doutor Honoris Causa) se de facto teria sido ele e não Alberto Chipande a dar o tal famoso primeiro salvo nas guerra para expelir o vírus lusitano das terras de Moçambique. Ele sugere que não foi Chipande. Não que interesse muito, mas enfim, a versão Chipandiana já fazia parte do folclore nacional e da aura daqueles tempos.

Assunto pelos vistos de interesse nacional, e que fez jorrar rios de tinta nos jornais, a julgar inclusivé pelo texto do oficioso Notícias de Maputo de hoje (28 de Setembro de 2011), onde, não se sabendo ainda que Bonifácio havia falecido (nenhum jornal tendo por isso noticiado a sua morte) Eliseu Machava rosnava contra os detractores da versão chipandiana do Tiro Original e descreve em detalhe o primeiro tiro da guerra pela Independência, que terá sido desferido contra os famigerados colonialistas às 19 horas do dia 25 de Setembro de 1964 na localidade de Chai. Foram onze os libertadores, para além do então jovem Chipande, um tal António Chicapa.

Mas Bonifácio na ocasião da sua investitura com o Honoris Causa foi mais incisivo noutros temas. Referindo-se a recentes livros de “memórias” dos seus colegas da Libertação Sérgio Vieira e o legível “Voo Rasante” de Jacinto Veloso, disse – e cito: ““Tudo aquilo que os meus companheiros escreveram não é verdade, por isso, tenham calma”.

Como? o quê? é tudo mentira?

O Jovem Bonifácio

No que li na internet – essencialmente testemunhos avulsos – parece haver alguma percepção de ter havido “falhas” na chamada Frente da Zambézia na altura do arranque das hostilidades, e cujo responsável seria Bonifácio, então um miúdo com 22 anos de idade.

Que era, consoante a estratégia de penetração da Frente, nascido lá, a 6 de Junho de 42.

Na tese de doutoramento de José Luis Cabaço (475 páginas cuja leitura recomendo e em que Bonifácio é citado cinco vezes no texto em si), lê-se que Gruveta não precisou de grande incentivo para se juntar à guerra contra os portugueses. Nascido perto de Quelimane, em miúdo vira o seu pai ser obrigado a fazer trabalhos forçados na zona do Gurué: “ Numa noite, os sipaios vieram à procura do meu pai. Tiraram-lhe o casaco, amarraram-no e foram. Dois dias depois apercebemo-nos que já estavam preparados e iam partir para o Gurué. Então eu fui-me despedir do meu pai. Entre duas estações havia um pequeno apeadeiro. Eu vi o meu pai a ser levado para o trabalho forçado. Acenei-o e ele também levantou a mão acenando para mim. Todos nós chorámos. Lá no Gurué, aonde ia meu pai, vivia um primo meu. Filho da irmã do meu pai. Então ele tomou conhecimento, tratou lá com os amigos e ele ficou a trabalhar numa carpintaria da empresa, portanto, do Manuel Freitas Junqueiro.”

Citando ainda da tese do José Luis Cabaço, com 19 anos Bonifácio sentia na pele o que era ser “preto do mato” na nomenclatura colonial moçambicana. Nas suas palavras, “Nós sentíamos a dominação colonial porque sem você ser assimilado você não tinha direito a bom emprego, porque mesmo para ser motorista você tinha que ser assimilado. Fui a Gurué para trabalhar na fábrica de chá da Companhia da Zambézia, e lá eu ganhava um escudo por dia, isto em 1958. Tinha ração, farinha e carne seca,, que vinha do mato, dos caçadores.”

Essencialmente, Bonifácio conta a história que foi comum à esmagadora maioria dos habitantes de raça negra que viviam na outrora colónia portuguesa: que eram menos que cidadãos de terceira classe e sem grandes hipóteses ou oportunidades de ultrapassar o paradigma então existente.

Exceptuando nos tempos mais recentes, em que já era afectuosamente apelidado de “velho Gruva”, ele é distinta mas discretamente, quase mudamente caracterizado como uma figura sinistra nos anos logo após 1975. Ele foi Governador da Zambézia entre 1975 e 1977 e depois perdi-lhe o rasto. Tirando a mensagem que recebi, não encontro quase nenhuns registos específicos de em que consistiu a sua actuação para que merecesse o rótulo, para além duma segunda mensagem, em resposta à minha expressão de desconhecimento, que vai mais abaixo, e uma referência numa reportagem de 1994.

Bonifácio o Libertador

Tendo passado os anos da guerra no esquema de protecção pessoal dos líderes da Frente, havendo ainda uma referência a ter coadjuvado Francisco Manyanga, comandante do Campo de Tunduru, na Tanzânia, Bonifácio foi o primeiro governador da Zambézia após a entrega do poder pelo governo português à Frelimo em 1975. Aliás, Bonifácio entrou na cidade de Quelimane (parando brevemente na sua terra natal, Namacata, para abraçar a mãe, que não o via há dez anos) seguido das suas forças da Frelimo em apoteose popular no dia 17 de Setembro de 1974, uns dias após fechada a rendição portuguesa e a transferência formal de poderes para a Frente, tendo, depois de um comício “de ordem”, ficado instalados na casa dos Padres Capuchinhos de Puglia em Quelimane, para total espanto dos mesmos, incluindo os padres Prosperino Gallipoli e Francesco Monticchio, e que não sonhavam ser essa considerada por estes a moradia mais segura da cidade. Isto durante um mês, até a tropa portuguesa vagar o quartel militar da cidade.

Antes disso, Bonifácio fez parte da delegação da Frente que se sentou na State House em Lusaka com os novos líderes portugueses em 1974 para negociar e assinar os termos desa rendição e a entrega do governo do território.

Que, como se sabe, foi coisa rápida. A partir do dia 20 de Setembro de 1974 – uma semana e meia após os acordos assinados em Lusaka, Moçambique efectivamente estava sob o controlo da Frente. A cerimónia em 25 de Junho de 1975, nove meses mais tarde, foi apenas uma formalidade administrativa.

Bonifácio o Governante

Talvez um ténue indício de como terá sido esse período da inaugurada Soberania Popular na Zambézia nas mãos de Bonifácio, então um líder guerrilheiro batido e muito bem relacionado dentro do novo paradigma do poder e com apenas 32 anos de idade, é dado quase inocente, se inadvertidamente, numa entrevista que Manuel Araújo, um político da Zambézia que agora vai concorrer pelo partido MDM para a liderança da municipalidade de Quelimane na eleição intercalar naquela cidade em 7 de Dezembro próximo. Numa entrevista ao País que foi publicada há pouco mais que uma semana, a certo passo Manuel Araújo, que pertence a uma geração que já nada tem que ver com a anterior, disse o seguinte:

“Na história de Moçambique, a Frelimo tinha criado quatro frentes. Eu tive o privilégio de ter tido uma cadeira sobre a história da Frelimo, no Instituto Superior de Relações Internacionais, que nos explicava os contornos da luta armada de libertação nacional. Essas frentes eram: Cabo Delgado, Niassa, Tete e Quelimane. (nota minha: não houve a 5ª frente no Sul?) Duas dessas frentes fracassaram e acabaram por serem encerradas por dificuldades: a de Tete e a de Quelimane. Por isso, houve sempre um mal-estar por parte da Frelimo com a Zambézia. Houve um erro estratégico por parte da Frelimo. Daí que apareceu o ódio visceral em que a parte dura da Frelimo tem e isso nunca conseguimos ultrapassar nestes 35 anos. Quando a Renamo chegou, encontrou um terreno fértil, pois quando a Frelimo chegou em 1975 disse: “vocês não alinharam connosco e agora vamos ver quem é que tem poder”. Se se recorda, a maior parte dos combates durante a guerra civil deu-se no Vale do Rio Zambeze. Nesse processo, houve generais, como Lagos Lidimo, que comandaram essas operações e que cometeram atrocidades gravíssimas: mataram milhares de pessoas utilizando bombas, aviões“mig” e helicópteros, sendo, por isso, que a população de todos os distritos da Zambézia se ressente desse processo.”

Foi nesta altura que pelos vistos ocorreu aquilo a que o meu amigo moçambicano se referiu ao fim do dia de hoje num segundo “sms”. Cito-o: “Bonifácio Gruveta Massamba foi um dos matadores da Frelimo, o Khmer Rouge de Moçambique. Foi (ele) que em tempos mandou encerrar as escolas de Quelimane e obrigou a crianças a irem para o estádio, a fim de assistirem aos fuzilamentos.”

A única outra referência aos “fuzilamentos”, que não sei de quem, ou porquê, foi feita em Outubro de 1994 por Afonso Dlakhama, o líder da Renamo, então a concorrer para a eleição desse ano e que se encontrava na Zambézia, vista como um bastião de apoio da Renamo. Um artigo do jornal português Público de dia 5 de Outubro de 1994 refere o que então disse à multidão num comício. «Vocês lembram-se dos fuzilamentos no estádio de Quelimane, dirigidos por este governador da Frelimo, o Bonifácio Gruveta?» A multidão, primeiro tímida, respondeu em coro: «Sim!»

Bonifácio Barão da Política Zambeziana

Mas na mesma entrevista a que acima se aludiu, o Prof. Araújo lamenta o esquecimento a que supostamente estaria sujeito o seu conterrâneo Bonifácio Gruveta.

O que se torna algo desconcertante, se se tiver em conta ser do conhecimento público e sugerir-se que o edil cessante de Quelimane, Pio Matos, eleito pelas listas da Frelimo, viu o seu partido literalmente puxar-lhe o tapete por debaixo dos pés precisamente porque Pio de Matos, entre outras razões – e cito um recente trabalho do magnífico jornal Savana sobre o assunto – “se recusava a prestar vassalagem a algumas figuras históricas da Frelimo que tomam a Zambézia como sua propriedade privada e interferiam em demasia na gestão diária daquela autarquia. Citam o nome de Bonifácio Gruveta, intitulado como o “Dono da Zambézia”.

A peça do Savana vai um bocado mais longe: “Gruveta, apoiante de um outro candidato da Frelimo Lourenço Abubacar (empresário e proprietário do Hotel Milénio), ganhou apoios na cúpula formal da Frelimo nomeadamente da parte do Secretário-Geral, Filipe Paúnde, do controverso secretário Edson Macuácua e da própria ministra Carmelita Namashilua”.

Certamente que se espera que o desaparecimento deste grande “barão” da política zambeziana (como se diz de alguns políticos do norte português) influirá no decorrer dos eventos nos próximos meses pelo menos em Quelimane.

O Major-General e Evo Fernandes

Uns anos atrás, sem razão aparente, Gruveta foi misturado com o assassinato de Evo Fernandes, um líder da Renamo, que na altura se degladiava com a Frelimo numa guerra arrasadora. Uma nota do África Confidencial de 26 de Junho de 1988 especulava que Gruveta estivera em Portugal quando Evo Fernandes, então Secretário-Geral da Renamo, foi assassinado em Cascais, supostamente a mando da SNASP. Num desmentido cuja leitura hoje é quase hilariante, no dia 22 de Abril de 1988, a Agência de Informação de Moçambique, que então se assumia ainda como o braço armado do regime para a área da informação (hum, quem mandava lá na altura? Há que reler o livro de Fauvet & Mosse) emite um comunicado desmentindo vigorosamente a presença de Bonifácio em Portugall, afirmação que fora feita à Agência Lusa em Lisboa pela viúva de Fernandes. “No passado fim de semana estive na Beira a acompanhar uma delegação do Partido Socialista da República Popular Democrática do Iémen” citam o então Major-General. Para fechar o assunto, os jovens da AIM arremataram com um ainda mais inverosímil testemunho, o do…fotógrafo Kok Nam, Conclui o comunicado assim: “a presença de Bonifácio Gruveta em Moçambique foi ainda confirmada pelo fotógrafo da revista Tempo (então outro instrumento ideológico do regime) Kok Nam, que referiu que estivera com Gruveta nos escritórios da Tempo na passada segunda-feira”. Ah bom, se o Kok viu é porque é verdade, presuma-se, terá sido o raciocínio. Porque fotógrafo não mente. Enfim. O que de facto Paulo Oliveira, então um operativo da Pide da Frelimo (mas agora um pacatíssimo cidadão anónimo a viver tranquilamente na Linha do Estoril) escreveu sobre o episódio é que o “isco” que levou Evo a expor-se ao assassino contratado por Sérgio Vieira e a Frelimo (um tal de Alexandre Chagas, que a seguir foi dentro na Tuga) terá sido de facto – ironia das ironias – um putativo encontro com Bonifácio Gruveta, que aparentemente foi-lhe vendido como um elemento de uma suposta “ala liberal” dentro da Frente e que se encontraria em Cascais. Fernandes acreditou e foi assassinado por Chagas e os seus colegas a caminho do “encontro”.

Bonifácio o Empresário de Sucesso

Recentemente, e cito a mensagem da Agência Lusa de hoje, “a imprensa moçambicana associou (o General Gruveta) nos últimos tempos a empresas responsáveis pela pilhagem de madeira exportada de Moçambique para a China, uma imputação que o general rejeitou veementemente.” O algo panfletário mas sempre legível Canal de Moçambique, publicado em Maputo, foi bem mais longe nas acusações. Na sua edição de 2 de Fevereiro de 2007 referiu-se assim ao General: “nas investigações que levou a cabo durante a sua estadia na Zambézia (o jornal) soube que o coro de queixas dos fiscais da área florestal, nessa conferência, foi muito forte. Houve quem di s s e s s e c l a r a e abertamente que mandar travar o saque e fazer cumprir a lei era, o mesmo que assinar a certidão de desemprego. “Quem faz isto são os chefes. Temos medo de ficar desempregados”. Para quem já teve a oportunidade de estar na Zambézia e frequentar os v á r i o s c í r c u l o s s o c i a i s m u i t o rapidamente se terá apercebido que existe um nome temível: Bonifácio Gruveta Massamba. Este general é uma espécie da “lei suprema”. “Até os governadores sabem que ele é quem d e f a c t o m a n d a n a p r o v í n c i a ” . “Parecem bonecos nas mãos dele”. Também lhe chamam o “campeão do saque” e o “protector dos predadores”.

Bonifácio Gruveta era um accionista de referência de uma das principais empresas madeireiras locais.

Há ainda o caso um pouco mirabulante da sua parceria num projecto turístico multi-milionário na pequena Ilha do Fogo em Pebane, que, caracteristicamente, originalmente estava perfeitamente bloqueado e inviabilizado até que, logo após Bonifácio se ter associado a ele, como que por magia, tudo foi viabilizado. Os sócios referidos neste que é o maior investimento turístico da história da Zambézia são os Srs. Torrie Potgieter, Johannes van Heerden, Marius Boer, Bonifácio Gruveta e Belmiro Lampião. Nada mau, para uma ilhota deserta com menos que 44 hectares, a vinte quilómetros da costa zambeziana. Nada mau, para um ex-guerrilheiro sem dinheiro e sem experiência de gestão.

Mas entenda-se que só se não fosse assim é que surpreenderia.

O Velho Gruva

A popularidade do “Velho Gruva” entre as gerações mais jovens e intocadas (e ignorantes na quase totalidade) pelo passado recente do após-Independência, subiu consideravelmente quando, em total contra-corrente com a Frelimo e o governo durante as graves perturbações da ordem pública em 2010, Bonifácio basicamente foi à televisão e disse que as pessoas que se haviam revoltado tinham razão.

Estimo que mais que 90 por cento de quem está vivo na Zambézia (e em Moçambique) hoje não tinha nascido naquele dia em 1974 quando o jovem Bonfácio “marchou” sobre a cidade de Quelimane, sob o olhar atónito dos brancos locais, que em breve aviaram as malas.

Apropriadamente, o Diário da Zambézia já fez as honras ao velho General na sua edição de hoje na internet. “Outra vez luto para Zambézia. Mas porquê tem que ser assim? Morreu mesmo o General Bonifácio Massamba Gruveta? Inacreditável. Mas não há como foi se embora aquele que defendia os interesses do seu povo. O primeiro Governador da província após a independência nacional. Gruveta foi-se e deixa muita coisa numa altura em que a província e a cidade o precisava. O que terá acontecido com o velho pahh? Não havia como salva-lo? Lágrimas não param de chover no seio dos zambezianos porque mais uma vez foi-se mais um. Porquê tem que ser assim? O velho “Gruva” como o tratávamos, era amigo, embora alguns o temiam, mas era simples pessoa. Varios “sms” via celular circulam pela morte do general na reserva. Questiona-se se é verdade ou não. Porque estaria-se a mentir? Nada, será que o velho foi-se mesmo numa altura destas? Não há palavras neste momento e apenas dizer “adeus embondeiro”. Paz a sua alma.”

Uma nota final. Se algo se pode aperceber desta pequena crónica biográfica, é que muito pouco está escrito sobre capítulos inteiros da história de Moçambique. Em que, quer se queira quer não, personalidades como o General Bonifácio Gruveta Massamba nela estão inescapavelmente inscritos. Entendê-las, e o seu percurso, é entender o que foi, quando foi, onde foi e porque foi.

Num discurso proferido no feriado de 7 de Setembro de 2006, o Presidente Armando Guebuza referiu-se a, entre outros, Bonifácio Gruveta, como uma “figura lendária” do firmamento moçambicano.

Gerações futuras – certamente não esta – o decidirão.

Para já, ainda não percebi o que foi aquilo dos fuzilamentos em frente às crianças de escola. Pois nada encontro escrito sobre o assunto.

Mas pelos vistos, na Zambézia, em Quelimane, todos se lembram desses dias.

22/09/2011

AS METÁFORAS DO MEDO, POR MIA COUTO

Manifestantes, quase todos brancos, em frente ao Palácio da Rádio em Lourenço Marques, Setembro de 1974, na sequência do anúncio, numa cidade zambiana a três mil quilómetros de distância, de um cessar-fogo em Moçambique e da entrega directa do poder pelo Estado português à Frente de Libertação de Moçambique e uma Independência sob o comunismo dali a menos que dez meses.

Interessante, curta e algo atribulada prelecção do biólogo e escritor Mia Couto, de Moçambique, numa iniciativa cultural que presumo evocativa das Conferências do Casino de 1871, denominada Conferências do Estoril. Em 2011.

O meu corolário ao que é dito:

O medo também inclui o medo de encarar o passado.
O medo também inclui o medo de chamar os nomes às coisas.
O medo inclui também ignorar o medo dos outros.

16/09/2011

CHAIMITE, O FILME, 1953

Antes de ontem à noite desloquei-me à nova Torre do Tombo em Lisboa, para assistir ao lançamento formal de um livro sobre Henrique de Paiva Couceiro, compilado pelo Prof. Filipe Ribeiro de Menezes (com “z” no fim) que reproduz uma parte, menos de um terço, dos documentos que constituem, a partir dessa data, património da nação portuguesa. O livro, editado pela Dom Quixote, já está à venda.

Durante as exéquias de doação formal do espólio de cerca de cinco mil documentos (generosidade da família Paiva Couceiro, na pessoa do meu muito caro Miguel de Paiva Couceiro), foram projectados menos de cinco minutos de um filme de que eu mal ouvira falar e que nunca tinha visto na vida, chamado “Chaimite”, nome da mitológica localidade da nação vátua, em que o Régulo Gungunhana capitulou às armas portuguesas no final do ano de 1895.

Por curiosidade, e para minha surpresa, o filme, que foi trazido ao público português no início de Abril de 1953, foi transcrito para o Iutube, e eu fui ver.

O que posso dizer sobre o filme?

Primeiro, é que é de uma dialéctica, especialmente em final de 2011, quase hilariante, uma versão kistch da então prevalecente atitude convencional portuguesa sobre os territórios sob controlo colonial. É divertido porque hoje muita gente já não se lembra (e alguns não se esquecem) de como era. Neste filme, está-lhe na flor da pele.

Especialmente para quem conhece ou conheceu a região Sul de Moçambique e as suas culturas, e em particular a sua história recente (refiro-me ao final do século XIX) ver este filme é duplamente divertido. A começar pela cena da germanicamente bela menina tuga de saia comprida e com predilecções agrícola-desenvolvimentalistas, sentada à mesa, meio apategada, surpreendida pelo obviamente mais batido tuga cafrealizado a dizer-lhe qualquer coisa coisa como “eu gostava maningue de ter uma machamba no mato”. Ela, de olhos muito abertos, exclama: “maaniingue?! maa-chambaa?! Mas o que é isso?!” Apenas para sermos confortados pela sua politicamente correcta, recém-adquirida lusitano-cafrealização no momento final do filme, quando, finalmente preso o nefasto líder rebelde pelos Heróis e regressada a Pax Lusitana ao Sul dos domínios do rei dos Algarves e apêndices e adjacências, o seu interlocutor, afinal um puro sangue lusitano encapotado (mas claro) diz “ah, afinal vale a pena viver”, ao que ela responde, em apoteose final que prenuncia a justeza do que certamente viria a seguir, “maningue!.

Ah pois. Imagino os meus amigos moçambicanos em Maputo a ver isto hoje, dariam voltas nas cadeiras.

Mas se calhar deviam ver. Que mais não seja o de ouvir landin (ou ronga) dos anos 1950 e assistir ao actor Carlos Benfica, que não sei quem é, desempenhar o papel de Gungunhana.

Pelo meio, um relato dos eventos naquele ano de viragem de 1895, de que fez parte, naturalmente, Henrique de Paiva Couceiro, sem descurar os restantes.

Quem ignora a história, e como ela é e foi protagonizada, tende a ignorar aspectos aparentemente suaves mas importantes das suas próprias origens.

Penosamente, em baixo, compilei as ligações todas que permitem, se o exmo. leitor tiver um tempinho, ver o filme. É de borla e, penso eu, vale mais que isso.

Então vamos lá.

Parte 1 de 11

Parte 2 de 11

Parte 3 de 11

Parte 4 de 11

Parte 5 de 11

Parte 6 de 11

Parte 7 de 9

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Parte 9 de 11

Parte 10 de 11

Parte 11 de 11

07/09/2011

HENRIQUE DE PAIVA COUCEIRO, POR HENRIQUE DE PAIVA COUCEIRO

Henrique de Paiva Couceiro (à direita) com João de Azevedo Coutinho, aqui em Maio de 1915. Arquivo de Miguel de Paiva Couceiro, neto de HPC, dentro em pouco parte dos arquivos nacionais portugueses.

 

Para aqueles que passaram com menos que 12 valores nas aulas de história é relativamente fácil perder-se o rasto a Henrique de Paiva Couceiro, especialmente num registo de cem anos impenitentemente republicano, republicanismo esse que ao próprio ofendia, e que ele combateu praticamente até à data da sua morte. Não há amor perdido, aqui.

Relativamente mais fácil é recordar que ele foi talvez dos elementos mais instrumentais nas então chamadas “campanhas de pacificação da África Oriental Portuguesa” em 1895. Foi ele, com a prestimosa assistência de um punhado de oficiais portugueses e uma mistórdia de gente recrutada à pressa, que na madrugada dum sábado, o dia 2 de Fevereiro de 1895, segurou o quadrado de Marracuene, ali às portas da vulnerável Lourenço Marques, contra um poderoso ataque de forças afectas ao Régulo Gungunhana, criando o momentum que culminou com a derrota de Gungunhana no fim desse ano, assegurando assim no terreno o não menos importante mas certamente muito mais perfumado, trabalho do governo português em Lisboa e de Luís Soveral em Londres, assim permitindo que, oitenta anos depois, Moçambique viesse a ter a geografia física e humana que ainda tem.

A vida de Henrique de Paiva Couceiro, no entanto, merece um estudo aparte.

Pois muitíssimo mais aconteceu que a sua algo fugaz (mas fulgurante, se algo subestimada) passagem por terras africanas.

Para muitos, muito mais diz o seu combate e postura contra a primeira república e o Estado Novo, em defesa do regresso ao regime monárquico. Que mais não seja porque, enquanto muitos falavam e alegremente comprometiam os seus princípios, ele manteve os mesmos princípios e fez alguma – muita – coisa.

E eis que, oportunamente, surjem agora dois eventos dignos de nota.

O primeiro, é a generosa doação à nação portuguesa, por parte da Família Paiva Couceiro, do seu espólio pessoal, cuidadosamente catalogado. Ficará ao cuidado dos senhores da Torre do Tombo em Lisboa.

O segundo, não menos significativo, é a publicação, com data de lançamento marcada para o próximo dia 14 de Setembro de 2011, da obra Paiva Couceiro – Diários, Correspondência e Escritos Dispersos (Lisboa: Publicações D.Quixote, 840 páginas, cerca de 32 euros).

Para além de uma introdução por Miguel de Paiva Couceiro, seu neto, e que viveu uns anos na Beira, saliento a preciosa coordenação e uma introdução, pelo Professor Doutor Filipe Ribeiro de Meneses (adoro estes títulos académicos portugueses), uma estrela que desponta entre uma nova geração de historiadores portugueses, previamente autor de uma muito badalada biografia de António Oliveira Salazar e cujas credenciais académicas, rigor e boa escrita fazem pressupor que esta obra se vai tornar numa das referências bibliográficas obrigatórias sobre esta enigmática e fascinante figura das histórias de Portugal, de Moçambique e de Angola nos séculos XIX e XX.

Nota de Convite para o Acto de Doação e Lançamento do livro.

 

A capa do livro que vai ser lançado no dia 14 de Setembro.

 

 

16/08/2011

ALGUMAS OBRAS DE ALFREDO PEREIRA DE LIMA SOBRE MOÇAMBIQUE

Filed under: Alfredo Pereira de Lima, História Moçambique — ABM @ 11:24 pm

Imagens gentilmente enviadas por Cristina Pereira de Lima Macedo e sua irmã Maria Antónia e restauradas por mim.

O Eng. Mertens, então Presidente da Câmara Municipal de Lourenço Marques, condecora Alfredo Pereira de Lima com a Medalha de Ouro da Cidade, pelo seu trabalho de que o que se vê em baixo é apenas uma parte.

 

"A Controvérsia sobre Colombo", 1966.

"A História de Louis Trichardt", 1964. O "Voortrekker" boer está sepultado em plena baixa de Maputo e Pereira de Lima, com um colega da África do Sul, descobriram o local da sepultura, que é um dos monumentos da cidade.

 

"Cartograma da Penetração Goesa em Moçambique, Séculos XVI a XIX".

 

"Casas Que Fizeram Lourenço Marques", 1968.

"Edifícios Históricos de Lourenço Marques".

"Na Pista do Tesouro de Kruger", 1963.

 

"Os Milhões de Kruger", 1963.

"Para a História das Comunicações em Lourenço Marques".

"Pedras Que Já Não Falam".

"Terras da Moamba", 1973.

 

 

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