THE DELAGOA BAY REVIEW

15/09/2018

O JARDIM DA CATARSE COLONIAL, 1975

Penso que, sujeito a confirmação, a imagem foi colhida pelo Ricardo Rangel em 1975. Foi colorida por mim hoje.

 

O Jardim da catarse em Maputo, 1975. Da esquerda: Teodósio Clemente de Gouveia, feito primeiro cardeal de Moçambique em 1946; Mouzinho de Albuquerque, figura militar da chamada “pacificação” na década de 1890; Gago Coutinho, que liderou a delimitação das actuais fronteiras de Moçambique e que ali conduziu missões hidrográficas; a mulher que estava na base do monumento a António Ennes; António Ennes, que teve a ideia peregrina de que Portugal não devia vender Moçambique aos britânicos e aos alemães; e a mulher (“Mãe Pátria”) que estava na base do monumento em memória de Mouzinho. As estátuas de Mouzinho e de Ennes foram premiadas com a sua colocação no Núcleo Museológico da Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, junto à Praça 25 de Junho, na baixa de Maputo.

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EDITORIAL DO JORNAL “A VERDADE”, 13 DE SETEMBRO DE 2018

Filed under: Editorial de A Verdade 13.09.2018, Xiconhoca 1977 — ABM @ 1:44 pm

Palavras de ordem do Xiconhoca, 1977, um dos instrumentos da propaganda do então regime comunista de partido único e que manteria esse formato até final dos anos 80.

(Editorial do jornal A Verdade, 13 de Setembro de 2018, actualizado a 15 de Setembro de 2018, editado por mim, aludindo à próxima eleição autárquica, a realizar em Outubro de 2018).

A seriedade de um Governo também se vê nas suas acções prioritárias e, sobretudo, na sua preocupação com o bem-estar do seu povo. Há 43 anos, desde que Moçambique se tornou num país Independente do jugo colonial, o seu desenvolvimento continua a ser eternamente postergado por um grupo de indivíduos que se julga no direito de hipotecar o futuro dos moçambicanos em nome da suposta libertação da nação.

É óbvio que essa “canção” não passa de mais uma música para acalentar a população, enquanto eles prosseguem com as suas agendas de espoliar os moçambicanos. Um exemplo disso é o número de indivíduos ligados à Frelimo que detêm quase todos os recursos e controlam as riquezas do país.

A cada dia que passa, fica evidente para os moçambicanos que o Governo da Frelimo tem estado a apostar no atraso do país. É só olhar actual situação de Moçambique. Os índices de qualidade de vida continuam a deteriorar-se, a economia encontra-se numa situação lastimável e, ao longo de 43 anos, o país não conseguiu ser auto-sustentável na produção de alimentos. O país debate-se com défices notáveis em produtos que poderia produzir para o consumo interno e até ter excedentes para exportar, pois acostumou-se, nos últimos anos, a caridadezinhas, denominadas de ajuda externa, e a importar tudo que consome e, por isso, pouco ou quase nada foi feito para desenvolver a agricultura.

Quando surge uma oportunidade do Governo da Frelimo demonstrar a sua preocupação com as condições em que vivem os moçambicanos, o mesmo direcciona investimentos para sectores que não acrescentam em nada ao bem-estar do povo. Exemplo disso é a decisão do Governo de injectar, este ano, na rádio e televisão públicas, mais de 1 bilião de meticais. Claramente, trata-se de um investimento em propaganda para o partido Frelimo, visto que se aproximam as eleições. Não é novidade para os moçambicanos que a Televisão de Moçambique e a Rádio Moçambique não passam de órgãos de propaganda do Governo da Frelimo.

O mais caricato é que o Governo deixou o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC) a tentar desenrascar-se, em acções de emergências durante época chuvosa 2017/2018, com apenas 145 milhões meticais. Ninguém merece um Governo que não se importa com o sofrimento do seu povo. Portanto, esta é mais uma prova do descaso do Governo da Frelimo em relação à população moçambicana.

 

Nota:

“postergar” – verbo
1. transitivo direto: deixar de preferir; preterir, desprezar.
2. transitivo direto: não fazer caso; desprezar, menosprezar.
exemplo: “um governante que posterga até mesmo artigos constitucionais”

14/09/2018

DOCUMENTÁRIO COM E SOBRE SAMORA MACHEL

Filed under: Samora Moisés Machel — ABM @ 2:23 pm

Um documentário acrítico sobre a personalidade, as ideias e o contexto na era da ditadura samoriana. Todos aluados com o magnetismo carismático do líder do movimento guerrilheiro comunista e nacionalista que ia pôr os pontos nos iis no mundo e em particular no seu mundo. Em que se destacavam os intelectuais e alguns jornalistas estrangeiros, alguns, como John Saul, que até se retratava como “amigo de Samora” (e que continua a tocar na tecla de que foram os sul-africanos que mataram Samora). Mas a impensada retirada do poder colonial, como eu previa, provou ser o menor dos problemas. Em dez anos, Moçambique, em que Samora quis, entre outras preciosidades, ser o Nyerere do Zimbabué, estava de rastos e Samora em apuros. A sua morte física em 1986 assinalou apenas a imposição de uma nova Frelimo, a Frelimo Inc., genialmente inventada por Joaquim Chissano, que ainda persiste com enorme sucesso no final de 2018, ameaçando durar mais tempo que a infame ditadura de António de Oliveira Salazar – o tal que não aceitava descolonizar. A Frelimo, Inc. que ainda insiste no contraponto colonial para justificar os seus falhanços e escamotear a sua rapacidade. Basta ver quem manda e como manda.

 

SAMORA E RONALD REAGAN NA CASA BRANCA, 1985

Filed under: Samora e Ronald Reagan 1985 — ABM @ 4:53 am

Um ano e um mês antes de morrer num acidente de avião. Dois anos depois de se render aos Sul-africanos.

 

JORGE JARDIM

Filed under: Jorge Jardim - documentário — ABM @ 3:16 am

Este é mais um dos documentários do pai da Catarina Furtado, uma apresentadora da RTP, este sobre o Jorge Jardim, um homem das arábias que viveu e operou em Moçambique até pouco antes da independência. Quando vivi lá antes de 1975, pouco sabia dele e muito menos das suas manobras. Entre portugueses e a Frelimo, andou a perder tempo. Que não havia.

 

25/08/2018

A FIRMA QUE NUNCA PERDE VOLTA A GANHAR UMA ELEIÇÃO – NA SECRETARIA

Texto gentilmente cedido por João Cabrita, escrito em 25 de Agosto de 2018.

 

Veloso, Rebelo, Chipande, Marcelino, Samora, Chissano, Guebuza, Matsinhe e Machungo. Os Fundadores da Firma (menos os falecidos, os assassinados, os presos e os desacreditados) e sucedâneos da impia ditadura colonial, são orquestrada e ordeiramente adulados, à moda comunista da época, durante o Terceiro Congresso, em Maputo, 1977. Há 56 anos seguidos que é assim, com ligeiros upgrades de estilo e alguma substância em 1975, 1977, 1986 e1994. Para um comentário desportivo de João Cabrita sobre o mais recente episódio, este respeitando a próxima eleição autárquica e envolvendo nada menos que um Machel, e ainda um segmento do “diz que diz” do grande Savana (com vénia) ler em baixo.

 

A Família Machel: Vítima do Sistema que Criou, Defendeu e Ajudou a Consolidar

É ponto assente que o regime da Frelimo travou a candidatura de um membro seu [Samito Machel, filho do Pai] à presidência do Município de Maputo. A nível partidário, manobrou para que Samora Machel Júnior não constasse da lista de candidatos a seleccionar. Por meio da chantagem conseguiu que um punhado de subscritores da campanha eleitoral abandonasse a corrida. Depois, através dos habituais capangas de que dispõe na CNE [Comissão Nacional de Eleições] invalidou a candidatura. Se o lesado vier a recorrer ao Conselho Constitucional, o mais certo é este órgão dar aval à decisão da CNE, pois aí também conta com cumplicidades várias, a começar pelo respectivo presidente.

Mas toda a estrutura instrumentalizada que vicia e adultera o sistema eleitoral vigente, não surgiu agora, nem tão pouco foi propositadamente criada para lidar com a candidatura de um membro dissidente da Frelimo. Trata-se de um estrutura que provem do regime de partido único, instituído pelo pai do candidato em causa, defendido e promovido pelos seus pares – e familiares, e apontado por estes como exemplo a seguir. Um regime que começou por criar uma caricatura de sistema judicial, abolindo o exercício da advocacia privada em que os cidadãos ficaram à mercê de decretos e directivas emanadas do poder político; alterando códigos jurídicos a seu bel-prazer para que se ajustassem à justiça revolucionária, apresentada como ‘rica experiência’ de zonas libertadas; transformando antigos combatentes em juízes de instâncias superiores como o TMR [Tribunal Militar Revolucionário] que mandava para o paredão pessoas sem direito a defesa; manietando ou comprometendo juristas. Em suma, estruturando o Estado e a sociedade à imagem e semelhança do sistema totalitário que impôs à Nação.

É este aparelho judicial que deu e continua a dar cobertura a fraudes e vigarices de toda a espécie. A PGR ou protege quem viola a Constituição ou escuda-se no princípio do segredo de justiça para travar processos e investigações. Um aparelho que desde 1994 tem vindo a legitimar fraudes eleitorais em benefício do próprio regime.

Não há memória que a família Machel se tenha alguma vez insurgido contra este estado de coisas. Ela fez sempre parte do sistema que criou, defendeu e ajudou a consolidar a situação que hoje prevalece. Nunca veio a terreiro condenar as sucessivas burlas eleitorais, ou a solidarizar-se com os defraudados. Como parte do regime, interpretou disputas eleitorais decorrentes da fraude premeditada como simples querelas entre maus perdedores, concretamente entre a Renamo e uma formação política supostamente gloriosa, quando na realidade tratou-se sempre de uma questão de oposição e regime, pois quando os maus perdedores não concorreram, foi a vez do MDM a denunciar a mesma fraude.

Hoje, a família Machel é vítima desse sistema, em moldes escandalosamente evidentes, como os registados desde 1994. Se ontem condenava a Renamo por recorrer à força para reclamar direitos legítimos, hoje apoiantes da candidatura de Samora Machel Júnior surgem em redes sociais a fazer o mesmo; ou pelo menos ameaçam que irão ao ‘focinho’ dos que ‘mexerem na candidatura de Samito’, excluindo, assim, a hipótese de recurso a tribunais que sabem de antemão ser via inconsequente.

Situações destas permitem ainda que se assista às tradicionais demonstrações de hipocrisia, mormente da parte de conhecidos comentadores, nacionais e estrangeiros, ambos acampados em Maputo e que anos a fio tentaram impingir gato por lebre, alegando que ‘as irregularidades registadas em processos eleitorais não alteram significativamente os resultados finais’. Hoje, põem de lado a ladainha repetida ad nauseam desde 1994, insurgindo-se contra a CNE. A ver vamos o que têm a dizer do Conselho Constitucional.

(fim)

O Diz Que Diz do Savana de 24 de Agosto de 2018, página 28.

15/08/2018

SAMORA MACHEL VISITA CABORA BASSA, MAIO DE 1975

Estas imagens são parte do trabalho do fotojornalista holandês Frits Eisenloeffel, exibido aqui e reproduzido com vénia, pela sua importância histórica. (nota: o copyright das imagens é da Sra Immeke Sixma, viúva de Frits).

A visita ao Songo ocorreu em Maio de 1975, creio que inserida na “Marcha do Rovuma ao Maputo”, que antecedeu a declaração formal da independência da colónia portuguesa, em 25 de Junho desse ano, na capital em Lourenço Marques.

Se algum dos Exmos. Leitores conhecer alguém não mencionado aqui, ou conhecer este evento, peço que escreva uma nota para aqui.

Marcelino dos Santos e Samora Machel, então respectivamente  Vice-Presidente e Presidente da Frente de Libertação de Moçambique, falam com um (penso) quadro superior do empreendimento de Cabora Bassa.

Marcelino e Samora.

Marcelino e Samora.

A comitiva da Frelimo visita a barragem, então na fase final da obra.

Marcelino e Samora, durante um discurso perante os trabalhadores e famílias no Songo.

 

Sebastião Mabote, Marcelino e Samora.

 

A assistência 1.

 

A assistência 2.

 

Samora superstar.

 

Samora.

13/05/2018

O QUE DISSE MARIA BARROSO

Grato ao MCB e à CC.

Samora e Graça Machel, o então casal presidencial da República Popular de Moçambique, recebem Mário Soares, então primeiro-ministro de Portugal, e a sua mulher Maria Barroso, no Aeroporto de Mavalane em Maputo, sexta-feira, 31 de Agosto de 1984, para uma visita oficial de quatro dias. O bit de trivia acontecido no fim dessa viagem segue em baixo.

 

O episódio relatado a MCB pela grande Maria Barroso, nos anos 90.

08/11/2017

100 ANOS DE INFÂMIA E 50 ANOS DE MOÇAMBIQUE

Completam-se hoje – dia 7 de Novembro de 2017 – cem anos em que, num golpe palaciano, o radical comunista russo Vladimir Lenine assumiu o controlo do império russo e instaurou uma ditadura comunista. Esse regime, que praticaria as mais inenarráveis barbaridades, viria a durar, formalmente, cerca de 73 anos e a sua história divide-se em duas partes. A primeira, decorre desde este golpe até ao final da II Guerra Mundial, sendo nesta fase o alvo das atenções da ditadura comunista os povos do antigo império russo. A segunda, decorre desde o final da II Guerra Mundial e estende-se até ao final dos anos 80, quando o regime finalmente implodiu, sendo no entanto substituído pelo que parece ser um novo regime autoritário.

É na segunda fase do percurso comunista soviético que a coisa se torna verdadeiramente interessante para o resto do mundo. Tendo abocanhado metade da Europa à laia de espojo de guerra, a União Soviética, uma formidável e mortífera máquina de repressão, acha em si a motivação para confrontar o Ocidente, até então o dono virtual de quase tudo (exceptuando os Estados Unidos, a então nova superpotência) ferido de morte pela evolução das sociedades e pela quase absoluta devastação de duas guerras fratricidas no espaço de 30 anos.

Começou pela Ásia, onde, providencialmente, já decorria uma longa guerra civil entre Mao e Chiang, vencida pelo primeiro em 1949. Seguiram-se muitas outras oportunidades de “libertar” povos, frequentemente com o apoio de países que já constituíam – seguindo o rito soviético – “zonas libertadas da humanidade”.

África – e Moçambique – não seriam excepção. Mas os soviéticos (e, depois, os chineses) chegaram relativamente tarde. Em meados dos anos 60, bem ou mal, a maioria dos países africanos já era nominalmente independente.

Excepto, notavelmente, os territórios sob administração portuguesa, administração essa, por sua vez, sob o controlo de um regime curiosamente autoritário e de partido único, sob a gestão uninominal do sublime e enigmático Dr. António de Oliveira Salazar, para quem o desígnio nacional passava precisamente por deter essas colónias, no que, à primeira vista, parecia ter o suporte dos portugueses. Mas não se sabe bem pois não havia muito debate sobre o assunto. Era uma ditadura e quem não concordasse ia dentro.

Pesem os relatos mais ou menos dourados que agora está na moda citar, os primeiros independentistas moçambicanos eram mulatos aburguesados dos arredores de Lourenço Marques, nos anos 20 e 30, cultos e abertos ao mundo, que claramente viam o que estava para vir. Ficaram os escritos, os poemas e os relatos.

Na segunda metade dos anos 50, começou a efectivamente a história moderna de Moçambique independente, quando um punhado de activistas negros de Moçambique se mobilizou para constituirem grupos de pressão com o objectivo de concretizarem a almejada independência, numa altura em que era por demais evidente que os anos 60 seriam a década das independências e que de repente já havia dinheiro para estas coisas. Até os americanos limparam a toalhinha imperial e se lembraram que também foram uma colónia e que tinham algures no seu DNA uma matriz anti-colonial. Mas, por mais bem intencionados que fossem, a maioria eram grupos regionais, tribais, étnicos, metade do tempo chocavam uns com os outros e aquilo simplesmente não funcionava, para delírio do regime português, uma vez que Salazar obviamente achava que iria levar mais 200 anos para se atingir a “maturidade”, como supostamente levou o Brasil, mais ou menos um Bragança. Até para os regimes comunistas (por sua vez racistas inveterados mas encapotando tudo sob a áurea ideologia socialista) que viam no fenómeno do desmoronamento dos antigos impérios europeus uma oportunidade dourada para conquistar terreno e influências, a conflitualidade era ingerível, tornando quase inexequíveis esquemas de apoio a uma guerrilha.

Importa realçar que a independência de Moçambique tem três figuras incontornáveis, apenas, e nesta ordem: 1. Julius Nyerere; 2. Marcelino dos Santos; e o Dr. Eduardo Mondlane.

Nyerere

Julius Nyerere é pouco estudado, infelizmente, pois é uma figura paradigmática no que concerne o seu país e em relação a Moçambique. Muito do que sucedeu à Frelimo se deve à sua perspectiva e intervenção – e tiques ideológicos. Primeiro uma colónia alemã e depois britânica, entre 1919 e 1962, Nyerere era um professor quando ascendeu à liderança do Tanganhica em Dezembro de 1962. Já antes liderava o principal movimento pela independência, que lhe foi fleugmaticamente entregue pelo último governador e a sua mulher (há um filme excelente desse dia na internet). Na altura, já andavam várias pessoas e “movimentos” pelo Norte (no Sul estavam os Rodesianos e os Sul-Africanos, pouco predispostos a suportar independências africanas). Durante algum tempo, Nyerere assistiu à cena enquanto tentava ligar-se a Zanzibar, e basicamente impôs a ideia que um movimento em favor da independência do território vizinho teria que ser só um. Sendo a Tanzânia o santuário desse movimento, ele podia impôr as regras.

Mas faltava um líder.

Julius Nyerere preside a uma reunião em Dar, em 1974, aquando da visita de um grupo de notáveis de Lourenço Marques. À esquerda vê-se Samora e o Sr. José Craverinha, à direita Marcelino e Malangatana.

E não havia um, apesar de já se conhecer Mondlane, uma lenda num país de essencialmente camponeses analfabetos e desesperadamente pobres.

(Nyerere gastaria os anos 60 e parte dos anos 70 com teorias comunizantes como a Ujamaa e flirts dictatoriais).

Mondlane

Nessa altura, Eduardo Mondlane, que se educara a pulso com o apoio da Missão Suíça, entre outros, tinha 40 anos, casara com uma americana branca meio pimba (casamentos entre raças naquela altura eram um evento, especialmente nos Estados Unidos, onde o casal vivia). Era um professor universitário com uma vivência americana e parecia inclinado para fazer uma vida pacata com a sua Janet.

Mas dois eventos alterariam isso radicalmente.

O primeiro foi o impacto, em Eduardo, de uma visita que fez a Moçambique em 1961 (ele era de Manjacaze, um bastião com memórias vívidas das derrotas do tempo de Mouzinho). Se para a pequena comunidade branca e portuguesa a sua passagem foi notada (ele foi o primeiro negro de Moçambique a doutorar-se) a comunidade mulata e negra ficou siderada. Alto, belo, corajoso, erudito – e um deles. Este era o líder que faltava.

O Dr. Eduardo Mondlane. Um intelectual e um académico.

Mas Eduardo não estava convencido que isso era o que queria fazer na vida. Na altura ainda não se falava em guerra mas a perspectiva de passar anos a tentar tirar teimas com o regime português, que dava todos os sinais de querer resistir a sequer discutir autonomia, não lhe parecia ser o melhor plano. Ainda assim, com algum mexer dos cordelinhos por parte de alguns padrinhos americanos “progressistas” que nele viam o potencial de vir a liderar uma nova nação em África, arranjou um emprego na ONU em Nova Iorque.

Segundo o próprio Nyerere – e este foi o segundo evento seminal – é precisamente durante uma visita de Julius Nyerere a Nova Iorque para reuniões anuais, que eles se encontram e Nyerere desafia Mondlane para liderar uma organização unificada de moçambicanos, baseada no seu país. Mondlane aceita ir a Dar es Salaam para ver se está interessado. O resto é história.

Marcelino

Não questionando os sentimentos nacionalistas de ninguém, a meu ver “o” primeiro moçambicano “de gema” foi Marcelino dos Santos. Marcelino foi realmente o primeiro a articular a gíria da independência, o primeiro a pressintir ser aquele o momento histórico para agir, pois enquanto os “outros” futuros líderes seguiam percursos mais ou menos convencionais, ele, que nascera e crescera em Lourenço Marques, filho dum casal remediado, foi parar a Paris no início dos anos 50. A sua experiência, conhecimentos e contactos, adquiridos na capital francesa, seriam de valor incalculável no futuro. Ele não só tinha a visão estratégica mas também os contactos e a forma de chegar à logística para de facto fazer alguma coisa. E fazer fez.

Marcelino poderia e deveria, por mérito próprio, liderar directamente o combate para a independência, quer diplomaticamente, quer no terreno (ele era fisicamente corajoso, algo que o Dr. Mondlane simplesmente não era). Mas tinha um problema insanável: era mulato (casado com uma sul-africana branca e judia de Joanesburgo, a encantadora Pamela) o que era quase universalmente tido como um obstáculo intransponível para um movimento que pretendia galvanizar um país cuja população era 98% negra e cujos membros de base eram todos negros. A raça com que nascemos tem estas coisas. Durante todo o seu longo percurso político, apesar de ser o cérebro do movimento, Marcelino será o eterno Número 2. Mas um Número Dois Imprescindível. Aceitou a liderança de Mondlane e mais tarde, com o apoio do então jovem Joaquim Chissano, orquestrou a ascendência de Machel, na sequência do (a meu ver) inexplicável e suspeito assassinato do Dr. Mondlane.

Alberto Chipande e Marcelino durante os bons velhos tempos da ditadura comunista de partido único, em que se mandava matar pessoas e se legislava por decreto. Marcelino está no fim da vida. Chipande ainda é hoje um kingmaker.

Marcelino tinha outro aspecto que o distinguia: era tanto como nacionalista como um professo e implacável comunista da velha escola, o que, de facto, o favorecia: historicamente, os países comunistas foram aliados sólidos da luta anticolonial. Mondlane não era anti-comunista no sentido em que tinha que engolir sapo após sapo para obter a ajuda “oferecida” pelos países comunistas, de que necessitava desesperadamente, mas de resto, efectivamente, preferia mil vezes liderar uma Frelimo suportada pelo Ocidente e pelos americanos, num contexto de implantação de um regime supostamente mais convencional e – digamos – democrático. Só que os americanos, a partir mesmo de Kennedy, driblados por Salazar com as Lajes, cortaram-lhe as pernas. Ainda assim, a mulher dele, Janet, fez os impossíveis para obter ajuda não militar dos países escandinavos, especialmente da Suécia, com algum sucesso.

Mas fez pouca diferença. Na verdade, quem pagava a conta da guerrilha, quem formava os quadros, quem controlava as coisas, quem impunha a disciplina e vendia a ideologia, eram os países da órbita soviética e chinesa. Com Marcelino a promover os contactos e (presumo) a gozar com os “amigos” de Mondlane, que falavam muito e bem mas nada faziam em relação aos portugueses e limitavam-se a dar umas bolsinhas de estudo, era uma questão de tempo até que acontecesse uma situação em que Mondlane ficaria isolado na sua perspectiva. Em 1969, ideologicamente, a Frelimo tornou-se efectivamente uma organização com uma matriz marxista-leninista, que foi a base ideológica de tudo o que veio a acontecer a seguir.

Em 1974, o Ano Zero da Independência para a Frelimo, independência e comunismo eram sinónimas. O nascente país saíria directamente de uma ditadura colonial para uma ditadura comunista primária, com toda a linguagem, folclore e instrumentos repressivos associados.

E isso traz-nos de volta ao início deste artigo. Muita gente ainda não distingue entre um país se tornar independente e o regime sob o qual ascende a essa independência. Claramente, ela existe. E se por um lado os apoios dos países comunistas apressaram ligeiramente o momento da sua independência, ela veio contaminada por uma ideologia, e as instituições a ela associados, que causaram danos de proporções titânicas a um povo já de si empobrecido e pouco apto a enfrentar os desafios da modernidade. Após uma série de guerras, de uma guerra civil que matou um milhão de pessoas e destruiu as vidas de milhões, e de variadas reformas tendentes a devolver a Moçambique às supostas práticas normais de qualquer país, a herança da estrutura mental do comunismo permanece e pesa sobre toda a nação moçambicana, mantendo-se na prática a dialéctica política do exercício do poder via um partido único e a ausência “activa” do mero conceito de pluralismo. Moçambique hoje é um dos países mais pobres do mundo, com um curioso punhado de ricos, metade indianos, metade membros da nomenclatura da Frelimo.

Penso que, apesar das diferenças, nem Mondlane nem Marcelino alguma vez sonhariam que as coisas iriam acabar assim.

 

26/08/2017

BUSTO DO GENERAL MACHADO INAUGURADO EM LISBOA EM 2017 – VINDO DE MOÇAMBIQUE

Filed under: História, Joaquim José Machado 2017 — ABM @ 2:08 am

Parte do texto e imagens foram obtidos e reproduzidos com vénia do sítio da Câmara Municipal da Cidade de Lisboa. Para ver a fonte, prima aqui.

 

O busto do General Joaquim José Machado, inaugurado numa rua de Lisboa em Fevereiro de 2017, na praça que também tem o seu nome.

Há uns meses, o sítio da Câmara Municipal de Lisboa noticiou o seguinte:

Lisboa, 10 de Fevereiro de 2017 – O presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, acompanhado pela vereadora da Cultura, Catarina Vaz Pinto, e pelo presidente da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica, António Cardoso, inaugurou o busto do general Joaquim José Machado, no largo, com o mesmo nome do homenageado, em Benfica. 

Na cerimónia, Fernando Medina sublinhou o momento como uma “justa homenagem a um homem que honrou e valorizou a memória de Portugal bem como da cidade de Lisboa” falando do seu percurso de vida e carreira política do general Joaquim Machado.

Como representante da família, o embaixador Manuel Lobo Antunes proferiu algumas palavras sobre o seu bisavô e de como seria uma figura muito querida e motivo de orgulho para todos os seus. Manuel Lobo Antunes explicou ainda que, o busto, da autoria do escultor António Augusto da Costa Mota, esteve durante muitos anos na embaixada portuguesa em Maputo e que foram necessários muitos esforços e a ajuda fundamental da autarquia para que a obra chegasse a Lisboa e ficasse junto à casa do seu avô.

Alguns dos descendentes de Joaquim José Machado e seus amigos, quem incluem António Lobo Antunes, o Embaixador Manuel Lobo Antunes e ainda o Presidente da Câmara Municipal da Cidade de Lisboa.

O general Joaquim José Machado, nasceu em Lagos a 24 de setembro de 1847 e morreu em Lisboa a 22 de fevereiro de 1925. Em 1876 é promovido a capitão e logo escolhido, pelo então Ministro da Marinha e Ultramar, João de Andrade Corvo, para participar numa das duas grandes expedições, que o ministro organizara para empreender o fomento e valorização das colónias de Angola e Moçambique. 

Neste contexto, foi responsável, em 1877, pelo planeamento do traçado do caminho-de-ferro de Lourenço Marques a Pretória, projeto do qual foi encarregado pelo presidente da República do Transvaal, Paul Kruger. Empreendeu, igualmente, a construção de uma ligação ferroviária entre Moçâmedes e a Província de Bié, em Angola.

Reconhecido como Comendador e Grande-Oficial da Ordem Militar de Avis, Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada e Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo, recebeu ainda diversas homenagens em Portugal, Angola e Moçambique.

(fim)

Um curto vídeo do evento:

E ainda aqui um interessante comentário de António Lobo Antunes, bisneto do General.

E aqui um resumo minimalista do seu percurso que compilei em 2012.

Independentemente da sua capacidade e genialidade e sucessos nas missões que desepenhou, Joaquim José Machado é e fará sempre parte de um restrito nome de personalidades cujo impacto na formação do que é hoje Moçambique e é simplesmente incontornável, porque foi bom. A sua família, e quem como eu o estudou minimamente, têm razões sólidas para apreciar este gesto. A sua obra e percurso merecem estudo e conhecimento.

Se eu tivesse que apostar, diria que o busto deve ter vindo ou dos antigos Caminhos de Ferro de Moçambique ou da antiga Escola Preparatória General Joaquim José Machado. Como foi parar à embaixada Portuguesa em Maputo deve ser uma história interessante. E possivelmente incontável.

15/08/2017

MEMORANDO SOBRE O PRIMEIRO COMBATE DA FRENTE DE LIBERTAÇÃO DE MOÇAMBIQUE, 25 DE SETEMBRO DE 1964

Filed under: Alberto Chipande — ABM @ 7:21 pm

Material original guardado na Torre do Tombo em Portugal.

Trata-se de um memorando secreto, datado de 12 de Dezembro de 1967 e originado pelos serviços de inteligência das forças militares portuguesas, situados em Porto Amélia (actualmente, Pemba), que traduz e depois comenta um relato publicado em Agosto desse ano pela Frente de Libertação de Moçambique num seu orgão de propaganda externa em língua inglesa – Mozambique Revolution – que terá sido da autoria de Alberto Chipande e que até esta data é identificado, em Moçambique, como tendo sido o iniciador da guerrilha contra as autoridades coloniais portuguesas, liderando um ataque na localidade de Chai, em Cabo Delgado, no dia 25 de Setembro de 1964, uma sexta-feria, data afixada no calendário (e no imaginário) moçambicano como feriado nacional.

O comentário de quem analisou e assinou o documento indica que a versão oficial e oficiosa do evento, tal como foi apresentada e tem sido mantida pela Frente de Libertação de Moçambique, é completamente falsa.

Um conhecido refrão da Frente de Libertação de Moçambique, indicando que afinal a Independência em 1974 era apenas uma etapa na revolução que a sua liderança de seguida encetaria no nascente país.

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SAMORA MACHEL E RONALD REAGAN: O ENCONTRO NA CASA BRANCA, 19 DE SETEMBRO DE 1985

Filed under: Encontro Reagan Machel 1985 — ABM @ 6:45 pm

Video publicado pela Biblioteca Ronald Reagan em Janeiro de 2017. Quase hilariante, se se conhecer bem o contexto para ambas as partes naquela altura.

 

22/03/2017

FALECEU HELENA DAVIDSON, UMA GRANDE SENHORA DE LOURENÇO MARQUES

Filed under: Helena Davidson, História Moçambique — ABM @ 12:11 am

Helena Davidson

Transcrevo a mensagem gentilmente cedida por Rodrigo Alexander Davidson de Sousa-Pinto, neto de Helena Davidson:

Apesar dos 98 anos (feitos no hospital, no passado dia 13) da nossa queridíssima Mãe, Avó e Bisavó, nenhum de nós estava preparado para a deixar partir. A sua grandeza, presença, amor e generosidade eram de tal forma presentes e radiantes, que apesar de absolutamente gratuitos nos deixam um vazio que não sabemos nem podemos preencher. Mas, através do seu exemplo, aprenderemos a aceitar e, talvez, imitar.

Para além da certeza de que se encontra já a contemplar a face de Cristo e da Sua Mãe Santíssima, na feliz companhia de todos os familiares e amigos que já partiram, acrescentamos uma espécie de consolo na seguinte ideia expressa ontem entre nós:

Despite Avó’s age, we weren’t ever really ready to let her go. How sad it is to think of our lives from now on without Avó being physically present. On the other hand, Avó also deserves a rest from us (the living family, ever so demanding of her presence, her advice, her listening and her love), and to join her beloved departed. I am undoubtedly sure that they are now having a welcome party for her and Grandpa has already arranged for the choirs of angels to sing “Cheek to Cheek “ and “Tea for Two” (Avó’s favourites) and asked Avó to dance with him to those tunes.

De forma a podermos reunir a família dispersa por tantos pontos do globo, tivémos de atrasar o funeral da Avó, pelo que não teremos velório. Assim, informamos que celebraremos as cerimónias na seguinte data e local:

DATA: quarta-feira, 22 de Março de 2017

LOCAL: Capela Mortuária da Igreja de Nova Oeiras

ACOLHIMENTO: 14h00

MISSA DE CORPO PRESENTE: 15H00

ENTERRO: Segue para o Cemitério de Oeiras

Aos que quiserem e puderem estar presentes, agradecemos. Aos que não puderem estar, pedimos a vossa oração pela Avó e por todos os que já partiram (na certeza de que estará ela agora orando por todos nós).

Abusando da vossa paciência, deixo em abaixo a nota de falecimento dirigida à Cruz Vermelha Portuguesa:

Ao Excelentíssimo Senhor

Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa,

Excelência,

É com o maior pesar que informo, porque julgo ser do interesse da Cruz Vermelha Portuguesa, o falecimento da minha Avó materna, ocorrido sábado passado 18/03/2017, pelas 19h00 no Hospital de São Francisco Xavier, em Lisboa, cinco dias depois de ter celebrado o seu 98º aniversário natalício.

A minha Avó, D. MARIA HELENA de Melo Castelão Feijó d’Almeida Fontes DAVIDSON, nascida em 13/03/1919, foi a última Presidente da Secção Feminina da Cruz Vermelha Portuguesa em Moçambique (Lourenço Marques), Presidente da Sociedade de S. Vicente de Paulo em Lourenço Marques, co-fundadora do “Abrigo dos Pequeninos” também em Lourenço Marques, entre tantas outras actividades que toda a vida a orientaram ao serviço dos outros.

Tendo feito parte da sua escolaridade na África do Sul e casado com o meu Avô, sul-africano de origem escocesa e irlandesa, nunca esqueceu as suas origens portuguesas, das quais fazia questão em colocar a par com a sua condição de Moçambicana de Portugal (foi para Moçambique aos 8 anos de idade onde Pai, Dr. César d’Almeida Fontes havia sido colocado como professor e aberto consultório médico). Com excepção do período escolar (1927/1930) e dos cerca de 13 anos (1943/1956) em que viveu entre Durban e East London na África do Sul (onde o marido esteve profissionalmente colocado antes de a companhia de navegação que dirigia relocalizar-se para Moçambique), viveu sempre em Lourenço Marques até 1976, embora deslocando-se à Europa de quando em vez.

Tendo-se dedicado de coração cheio ao serviço dos outros e daquela terra, em nome das suas convicções pessoais, religiosas e nacionais, foi um exemplo de acertividade, persistência e dedicação que lhe valeram ter sido agraciada em 1973 com o grau de Comendador da Ordem de Benemerência, atribuída pelo Senhor Presidente da República e em 1990 com a Cruz Vermelha de Benemerência pela Cruz Vermelha Portuguesa.

Acompanhou no desempenho das funções que exercia como Presidente da Secção Feminina da Cruz Vermelha, os conturbados acontecimentos em Moçambique, desde a Guerra Colonial ao processo de independência e momentos que se lhe seguiram, com perigo para a própria integridade física. Aí se lhe conheceram extraordinárias acções no desempenho das suas funções, desde a participação em operações de evacuação de feridos a visitas a prisões e relatórios sobre as respectivas condições, entre tantas outras. Ao mesmo tempo, sempre na procura de auxiliar os mais necessitados, fazia editar o “Livro das Coisa Boas”, uma compilação de receitas de culinária (ainda hoje nos escaparates e em tantas cozinhas portuguesas), cujos proventos deveriam reverter a favor das obras da Sociedade de São Vicente de Paulo (Vicentinas).

Após a saída de Moçambique, em 1976, fixou residência em Bedfordview, Joanesburgo, na África do Sul, onde de imediato se juntou ao corpo de voluntárias no Hospital Central.  Aos 60 anos, pela primeira vez na vida, teve que arranjar emprego remunerado, tendo aos 67 anos de idade decidido jovialmente ir tirar um curso de contabilidade.  A par do trabalho remunerado, manteve sempre actividade voluntária em dedicação ao próximo, nunca descurando o seu papel e presença de Mulher, Mãe, Avó e Bisavó.

Finalmente, aos 94 anos de idade, já viúva há 14 anos, resolveu vir para Portugal definitivamente, após 86 anos de vida em África. Aqui, continuou na medida das suas possibilidades a prestar serviço aos outros, ajudando como voluntária no Centro Paroquial der Oeiras, onde ia dar o almoço aos “seus velhinhos” (todos mais novos!), o que fez alegremente até Dezembro passado, com 97 anos de idade.

Morreu anteontem, na feliz circunstância de ter tido a família com ela durante a tarde, e nas mãos das duas filhas sobrevivas e de uma das netas.

Foi um exemplo permanente para muitos, uma ajuda e apoio preciosos para imensos e uma Mulher, Mãe, Avó, Bisavó e Portuguesa única e irrepetível. Com todo a sua actividade para com os outros, geria o seu tempo de forma a estar sempre presente junto da família. De forma extraordinária e sem percebermos como conseguia, tinha tempo para todos, talvez com a única excepção de si mesma. Esse tempo era sempre dado com calma e como se não tivesse mais nada para fazer. Nenhum de nós se lembra de uma etapa da vida sem ela.

A par do choro dos que ficam, encheu-se o Céu de alegria pela chegada da nossa Mãe, Avó, Bisavó e amiga. Pelo exemplo de vida, acreditamos que partiu uma das heroínas da história portuguesa do último século.

Com os protestos da mais elevada consideração,

Em nome da família, o neto mais velho,

Rodrigo Alexander Davidson de Sousa-Pinto

São Domingos de Rana, Portugal

18/02/2014

MEMORIALIZANDO VÍTOR CRESPO, 1974, NA PRIMEIRA VOZ

Filed under: Vitor Crespo explica-se — ABM @ 10:08 pm
Após a ditadura colonial terminar, isto. Em baixo, Vitor Crespo tenta explicar o inexplicável.

Após a ditadura colonial terminar, isto e mais vinte anos de guerra. Em baixo, Vitor Crespo tenta explicar o inexplicável daqueles dez meses que antecederam tudo, nas suas próprias palavras. Oiçam com cuidado.

Diz o breve texto da Wikipédia (menos um misterioso e longo relato de medalhística):

Vítor Manuel Trigueiros Crespo (Porto de Mós, 21 de Março de 1932) é um militar português.

Ingressou na Escola Naval, seguindo a carreira de oficial de Marinha. Não foi o único oficial da Marinha de Guerra a participar no golpe de estado do 25 de Abril de 1974. Muitos outros oficiais da Marinha de Guerra Portuguesa também participaram, embora fosse ele o representante da Marinha que se encontrava no posto de comando do MFA, na Pontinha. Foi Alto Comissário e Comandante-Chefe em Moçambique durante a descolonização até à independência do país. Foi membro do Conselho da Revolução. Depois disso integrou o VI Governo Provisório chefiado por Pinheiro de Azevedo como ministro da Cooperação, entre 19 de Setembro de 1975 e 23 de Julho de 1976. Hoje em dia, já no posto de Almirante, serve como director da Biblioteca da Marinha.

Aqui em baixo, um dos mais célebres descolonizadores portugueses, quiçá um dos odiados de estimação da Tribo Branca de Moçambique, na primeira voz:

(Vídeo 1 de 2)

(Vídeo 2 de 2)

31/10/2013

AS MANIFESTAÇÕES CÍVICAS DE 31 DE OUTUBRO DE 2013: MAPUTO, BEIRA E QUELIMANE

No fim das fotografias, veja as declarações de Alice Mabota, em vídeo. A visibilidade e contestação da Liga dos Direitos Humanos e de Alice, sua Presidente, tem sido grande.

As manifestações tiveram como principais objectivos denunciar a criminalidade organizada em Moçambique e a instabilidade política e de segurança resultantes dos diferendos entre os líderes da Frelimo e da Renamo.

Desde a Independência em Junho de 1975, nunca houve nenhuma expressão popular sequer parecida com o que sucedeu hoje, que não fosse da iniciativa da Frelimo e dos seus governos.

MAPUTO:

Foto de Sérgio Costa, partilhada no FB.

Foto de Sérgio Costa, partilhada no FB.  A manifestação na Avenida Dr. Eduardo Mondlane (antiga Av. Pinheiro Chagas). Segundo o grande João de Sousa, nos notíciários da noite, todas as estações de televisão moçambicanas arrancaram com as manifestações excepto a estatal TVM, que iniciou com uma visita que o Presidente Guebuza estará a fazer a Sofala, província onde as forças armadas se encontram numa caça ao homem ao Presidente da Renamo.

Foto de João M Taborda.

Foto de João M Taborda.

Foto de CA.

Foto de CA.

Foto de CA.

Foto de CA.

Foto Paulo Araújo.

Foto Paulo Araújo.

Foto do Canal de Moçambique.

Foto do Canal de Moçambique.

Foto de Mauro Steinway.

Foto de Mauro Steinway.

Foto de João M. Taborda.

Foto de João M. Taborda.

BEIRA:

Foto Magazine CRV.

Foto Magazine CRV. Na Beira, a população ainda está em choque pelo rapto e assassinato de um jovem com 13 anos de idade. Este rapto, como quase todos os outros, teve como objectivo extorquir dinheiro da Família.

Foto do Salim Milas.

Foto do Salim Milas.

QUELIMANE:

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

VÍDEO DO DIA

Em baixo, o vídeo do dia: Alice Mabote, Presidente da Liga de Direitos Humanos, penso que a entidade que organizou a manifestação, em declarações esta manhã.

http://videos.sapo.mz/mNcZU24vTiFBLulFClmP

21/10/2013

ORDEM DE ATAQUE A 8 DE SETEMBRO DE 1974

Filed under: Ordem de Ataque a 8 Set 1974 — ABM @ 7:28 pm

O texto que se reproduz com vénia do Correio da Manhã (de Lisboa), edição de 21 de Outubro de 2013, é um depoimento de Pedro Silva, recolhido por Marta Martins Silva. Reporta-se aos eventos ocorridos após o anúncio, em Moçambique, numa emissão do Rádio Clube de Moçambique, do chamado Acordo de Lusaka, na noite do dia 7 de Setembro de 1974, um sábado. Nos termos desse documento, à meia-noite desse dia entraria finalmente em vigor um cessar-fogo entre a Frente de Libertação de Moçambique e as Forças Armadas portuguesas. E o poder de Estado seria entregue à Frelimo dali a uma semana. Maioritariamente nas cidades, maioritariamente brancos viueram para as ruas, expressaram repúdia pelos termos do Acordo e tomaram de assalto o Rádio Clube de Moçambique, a principal emissora de rádio do então Estado de Moçambique, de onde foram feitos alguns apelos à resistência, maioritariamente sem qualquer efeito prático. Samora Machel e a cúpula da Frelimo nunca perdoaram este acto de insolência, que foi rapidamente rotulado como “reaccionarismo colonialista e racista” e debelado maioritariamente pelas próprias forças armadas portuguesas. No espaço de um ano, a esmagadora maioria dos que puderam, a maior parte dos quais viveu quase toda a vida sob a ditadura de Salazar,  foram-se embora da nação nascente, que desceu numa espiral de recessão, de guerra e num invulgarmente radical experimento de opressão comunista.

O depoimento de Pedro Silva:

“Fomos homens da chefia e reconhecimento de transmissões, desconhecidos até agora, mas orgulhosos do nosso trabalho.

Completada a recruta, fui para a especialidade de radiotelegrafista e, depois da promoção a 1º cabo, fui enviado para o ex-BRT (Batalhão de Reconhecimento de Transmissões), passando a operador de segurança de transmissões. Passei alguns meses no Quartel General em S. Sebastião da Pedreira, Lisboa, na intercepção, escuta e gravação das rádios ao tempo consideradas anti-Estado Novo. Embarquei para a Região Militar de Moçambique a 19 de outubro de 1972 em rendição individual, dado que a nossa ação era estritamente confidencial.”

A primeira página do folheto posto a circular aquando do anúncio público, em Moçambique, do acordo entre os militares portugueses e a guerrilha da Frelimo.

A primeira página do folheto posto a circular aquando do anúncio público, em Moçambique, do acordo entre os militares portugueses e a guerrilha da Frelimo.

“Em Moçambique vivi o célebre 8 de setembro de 1974 [sic], e é aqui que começa uma história que para nós (eu e o 1º cabo Ferreira) ficou marcada nas nossas vidas.

Nesse dia fomos procurados por ordem do nosso comandante, Capitão António Melo de Carvalho, para, uma vez conhecedores das redes de transmissão da Frelimo, tentarmos estabelecer ligação, e posterior diálogo, com algumas das várias estações de onde emitiam os seus comunicados e informações.

O intuito era fazê-los compreender que, apesar da revolução incentivada por colonos em Lourenço Marques, Beira e Nampula, estava tudo sob controlo, pelo que o Acordo de Lusaca seria respeitado pelo MFA.

Isto depois de termos interceptado várias mensagens da Frelimo que diziam que, devido à revolta perpetrada pela população civil, o Acordo de Lusaca – que deveria entrar em vigor no dia 8 de setembro às 00h00 – não passava de um embuste. Samora Machel, numa mensagem interceptada por nós, deu ordens no sentido de atacar tudo e todos.”

O verso do folheto.

O verso do folheto.

“Estava portanto iminente um ataque sem precedentes às nossas tropas, praticamente desarmadas, e à espera de um regresso feliz. Eu e o meu camarada, Vítor Ferreira, sob as ordens do Capitão Melo de Carvalho, iniciámos, no comando de transmissões, tentativas para travar aquilo que seria, em nosso entender, uma chacina.

A primeira mensagem, emitida por mim, foi a seguinte: ‘Aqui Movimento das Forças Armadas em Moçambique. Para: Comandos da Frelimo. Concordamos Acordo de Lusaca. Pedimos não ataquem posições tropas portuguesas. Pedimos vossa colaboração no sentido de eliminarmos grupos reacionários. Saudações.’

Mensagem circulada no dia 8 de Setembro de 1974. Fonte: História das Transmissões Militares, Portugal.

Mensagem circulada no dia 8 de Setembro de 1974, um domingo. Do seu teor, depreende-se que ainda não havia conhecimento dos protestos em algumas cidades de Moçambique. Fonte: História das Transmissões Militares, Portugal.

“Numa primeira instância, os operadores da Frelimo ficaram desconfiados e não responderam logo. Mais tarde, disseram-me que não compreendiam. Para fazerem uma ideia, interceptávamos cerca de 120 letras por minuto. Insisti mais uma vez, e agora, com o mesmo remetente, MFA, mas como destinatário o ‘Camarada Presidente Samora Machel’.

Era o meu camarada Vítor Ferreira que ia registando todas as respostas dadas. O teor das nossas mensagens tinha como fim, única e simplesmente, evitar um ataque que já não era esperado e muitas outras foram enviadas neste nosso exaustivo trabalho. Foi depois das diligências efetuadas através da troca de mensagens que tudo começou a ficar mais claro, e se foi resolvendo sem recurso às armas.”

Mensagem circulado no dia 17 de Setembro de 1974.

Mensagem circulada na 3ª feira, dia 17 de Setembro de 1974, data de início do Ramadão muçulmano. Dali a três dias, em sessão solene em Lourenço Marques, o poder de Estado era entregue ao Governo de Transição, dominado pela Frelimo e liderado por Joaquim Chissano, então com 34 anos de idade (faria 35 anos de idade no dia 22 de Outubro desse ano) . Fonte: História das Transmissões Militares, Portugal.

“Conseguimos falar com os operadores da Frelimo e as nossas mensagens seguintes foram retransmitidas para todos os postos da Frelimo e para o seu Presidente. Após todas estas diligências, [o Acordo de] Lusaca foi em frente e um dos dirigentes da Frelimo, e futuro presidente de Moçambique, fez questão de nos conhecer pessoalmente, dizendo que os nossos nomes iriam ficar na história da independência do país. ”

Nota: Pedro Silva, hoje com 63 anos de idade, prestou serviço militar em Moçambique entre 1972 e 1974 na Cheret (Chefia e Reconhecimento de Transmissões). Na altura dos eventos que descreve tinha 24 anos de idade.

19/10/2013

27 ANOS DEPOIS DAQUELE DOMINGO, 19 DE OUTUBRO DE 1986

Filed under: 27 anos depois de 19 de Out 1986 — ABM @ 11:39 pm
Samora Machel, em dias melhores.

Samora Machel, em dias melhores.

 

João de Sousa, decano da rádio moçambicana, escreveu o seguinte hoje:

“Segunda-feira, 20 de Outubro de 1986. Na porta de entrada da Rádio Moçambique eu esperava pelo José Manuel Peres. Os dois, a partir das 9 horas, iriamos começar mais um programa “Entre as Nove e as Dez”. Um programa que é um marco na minha história como profissional de radiodifusão.

Às 08.10 horas aparece o Ministro da Informação Teodato Hunguana. Pergunta-me se “está alguém na Direcção da Rádio ?”. Digo-lhe que sim. Se a memória não me falha estava o Director Técnico, o Eng. Rufino de Matos.

Minutos depois chega Marcelino dos Santos. Pergunta-me “onde é a direcção da Rádio” ? Encaminho-o para o primeiro andar.

Às 08.30 a programação normal da Emissão Nacional é interrompida. Marcelino dos Santos anuncia a morte de Samora.”

João Cabrita, talvez um dos académicos que melhor estudou o acidente aéreo em que Samora morreu, escreveu:

“A viagem do Presidente Samora Machel à Zâmbia em 19 de Outubro de 1986 era para ser efectuada num Boeing-737 das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), o C9-BAA. Mas dois dias antes da viagem, o Comandante Sá Marques, que era quem iria pilotar o avião, foi notificado de que entretanto havia sido escalado para o voo Maputo-Beira-Maputo. A viagem presidencial passaria a ser feita no Tupolev 134-A. Não obstante o cancelamento do voo das LAM, o Comandante Sá Marques e o Boeing que pilotava juntamente com Baptista Honwana, ficariam para sempre ligados ao acidente que envolveu o Tupolev (C9-CAA) no voo de regresso da Zâmbia para Maputo. Cerca de um quarto de hora depois do Tupolev ter-se despenhado em Mbuzini, o Comandante Sá Marques entrou em contacto com a Torre de Controlo do Aeroporto de Maputo a informar que se encontrava sobre o Limpopo, prevendo aterrar na capital moçambicana dentro de aproximadamente 30 minutos. Sá Marques pediu à Torre de Controlo que lhe fornecesse o boletim meteorológico actualizado no âmbito dos preparativos para uma aproximação final à pista do Aeroporto de Maputo. Em vez disso, a Torre de Controlo pediu a Sá Marques que tentasse entrar em comunicação com o Tupolev presidencial pois havia “perdido contacto com ele”. Várias foram as tentativas do comandante das LAM para entrar em contacto com o Tupolev, mas sem sucesso. Posteriormente, recebeu instruções para regressar à Beira. Nas investigações que se seguiram para determinar a causa do acidente, a parte soviética orientou-as no sentido de demonstrar a existência de um radiofarol (VOR) falso. O voo da LAM, Beira-Maputo, seria a prova crucial. O facto do Boeing- 737 ter entrado em contacto com a Torre de Controlo quando se encontrava a cerca de 190 milhas náuticas de Maputo era, na opinião dos investigadores soviéticos, a indicação da presença de um VOR falso pois, segundo alegavam, o raio de acção da estação VOR de Maputo não tinha esse alcance. Em declarações aos investigadores soviéticos, o Comandante Sá Marques disse ter a certeza de que estava em sintonia com a estação VOR de Maputo, facto confirmado pelo emissor de onda média da Rádio Moçambique instalado na Matola, ao qual também havia recorrido para tornar a verificar se a rota que seguia era a correcta. E acrescentou que quando recebeu instruções para regressar à Beira, continuou a ter indicações nos instrumentos de bordo de que o avião estava em sintonia com a estação VOR do aeroporto de Maputo. Perante a incredulidade dos investigadores, o Comandante Sá Marques sugeriu que se retirassem as caixas negras do Boeing-737 para uma reconstituição da trajectória do voo Beira-Maputo e assim se determinar se o avião havia ou não sido desviado da rota. Numa subsequente entrevista com o comandante das LAM, os investigadores soviéticos apresentaram a Sá Marques “um mapa exibindo o seguimento da minha rota por um radar militar situado no Limpopo. Inclusive, perguntaram-me se tínhamos comunicação com essa base militar e qual a possibilidade desta dar informações sobre a rota. O esquema mostrava um seguimento da rota correcto, com espaçamentos de 5 minutos até ao Limpopo, onde reduzi a velocidade do avião, e no troço seguinte nos mesmos 5 minutos, a distância correspondia a uma velocidade superior a 1500 km /hora, com a particularidade de o trajecto passar a ser ligeiramente curvilíneo”. Sá Marques fez ver aos investigadores soviéticos que era de todo impossível um Boeing -737 voar a mais de 1 500 km/hora, sensivelmente o dobro da velocidade cruzeiro de um avião desse tipo. A não ser, ironizou, que “o meu avião estivesse equipado com um afterburner”. Trata-se de um dispositivo normalmente utilizado em aviões militares, o que lhes confere um maior impulso, permitindo descolagens de pistas curtas, como a de um porta-aviões. Não é usado em aviões comerciais pelo facto de aumentar acentuadamente o consumo de combustível . “A reacção do investigador soviético”, disse Sá Marques, foi “amachucar o mapa, atirando-o para o cesto dos papéis”. A Bernard Craiger, um dos três peritos designados pela ICAO para ajudar a parte moçambicana na investigação das causas do acidente de Mbuzini, coube a responsabilidade de reconstituir a trajectória seguida pelo Boeing -737 das LAM no voo Beira-Maputo. No relatório por si elaborado, Craiger referiu que a trajectória do Boeing-737 havia sido rectilínea. Não obstante os factos, no parecer que apresentou à Comissão de Inquérito sul-africana, a parte soviética insistiu que o Boeing-737 pilotado por Sá Marque e Baptista Honwana havia entrado em sintonia com a estação VOR de Maputo”mais cedo do que o habitual, a uma distância de 190 milhas náuticas (320 km) de Maputo”, acrescentando que “Para o equipamento de bordo poder funcionar em sintonia com o equipamento de terra àquela distância seria necessário um transmissor VOR com uma potência que excedesse os 200 W. No entanto, a potência do transmissor VOR de Maputo não vai além dos 50 W. Por conseguinte, o equipamento de bordo do Boeing 737-200 das LAM, com a matrícula C9-BAA, estava em sintonia com o radiofarol falso a transmitir na frequência dos 112.7 MHz, mas de potência superior à do VOR de Maputo.” Ou outro comandante das LAM, Franklin Bastos, em entrevista a Álvaro Belo Marques, autor do livro “Quem Matou Samora Machel?”, declarou que o radiofarol VOR de Maputo podia ser captado a 200 milhas náuticas. ”

Na 2ª feira, 20 de Outubro, eu, que vivia há vários anos nos EUA, por acaso estava em Lisboa numas curtas férias. Fui abordado às 07:30 horas locais pela minha anfitriã, referindo ter ouvido numa estação local que tinha ocorrido um acidente aéreo e presumia-se que Samora teria perecido no acidente. Quando ouvi isso acordei instantaneamente.

29/05/2013

O POSTAL DE MAPUTO DA TIA ARGENTINA, 1977

Filed under: O Postal de Argentina 1977 — ABM @ 3:22 pm

postal mim avó 1

postal mimi avó

Copiado, com vénia, do Nuno Castelo-Branco, pela importância do seu conteúdo, historicamente relevante mas hoje convenientemente pouco recordado. O título original é Moçambique: O Roubo. 

(início)

O meu pai deixou-nos uma ainda incontável quantidade de caixas, envelopes e dossiers onde ao longo de décadas acumulou todo o tipo de papéis, aliás metodicamente organizados. Hoje encontrei um envelope com postais de “Vistas de Lourenço Marques” e foi um prazer reler alguns daqueles que nos tinham sido endereçados há muitos anos. Escritos por amigos ou familiares, são testemunhos de momentos difíceis passados num território cuja administração passou a ser exercida de uma forma totalmente arbitrária, bem diferente daquela a que as populações estavam habituadas. O exemplar que hoje é aqui postado, foi escrito por uma irmã da minha avó, de seu nome Argentina, mas para nós, a tia Mimi:

“Querido sobrinho Vítor

Mais um ano para a conta e oxalá que assim seja por muitos e muitos anos (1). Que o dia 27 seja passado com saúde, óptima disposição e alegria na companhia dos familiares. Um grande abraço nosso de parabéns. Estão todos bem aí em casa? Esperamos que assim seja. A lista (2) da Leta (3) já saiu, mas na vistoria da Ponte de Cais confiscaram a máquina de lavar mesmo estando autorizada. Refilou forte e feio, de nada adiantou mas já reclamou por escrito. As reclamações deste género é mato. Isto tudo é um pandemónio. A lista da Emília (4) também já saiu e, como particular, todos os eléctricos domésticos foram cortados, incluindo o fogão, máquina de costura, rádio gira-discos e uma ou outra peça de mobiliário. É aguentar e olhar em frente de cara alegre, que mais se pode fazer? Envio este postal como recordação da nossa terra. Já não há disto à venda.
Saudoso abraço à Ana Maria e beijinhos à Angelinha. Abraços aos miúdos. Para ti mais uma vez, as nossas felicitações e um abraço amigo dos tios Mimi e António

Maputo, 19 de Junho de 1977″

Este ambiente de desbragado saque, não foi uma novidade do pós-independência. Tinha começado durante a administração conjunta daquilo a que então se denominou de Governo de Transição, nominalmente sob a tutela de um até então desconhecido camarada que Lisboa despachou para Lourenço Marques, o “comandante” Vítor Crespo, personagem que felizmente não chegou ao ponto das inenarráveis baixezas de um outro futuro “Almirante de aviário”, o Rosa Coutinho. Igualmente “aviado em Almirante”, o simulacro de governador-geral rapidamente tornar-se-ia objecto de todas as conversas, mimoseado pela explícita alcunha do “Vítor Copos”. De forma a tornar tudo mais óbvio, o “Copos” do Crespo, estava justa ou injustamente na mesma linha do certíssimo “Tantos” carimbado na pele de um certo advogado Almeida, nada dado a santidades. Há alegações que para sempre ficarão coladas à reputação das duvidosas celebridades.

Na tropa portuguesa grassava uma total indisciplina. De imediato cessou qualquer sentido de hierarquia, apresentando-se miseravelmente “uniformizada” nas avenidas da capital de Moçambique e sempre pronta para qualquer grosseria. No aeroporto Gago Coutinho, os guedelhudos militares de palito no canto da boca e ameaçadora G-3 à bandoleira, submetiam aqueles que partiam para a Metrópole a todo o tipo de vexames, esvaziando malas e carteiras, confiscando jóias pessoais, por mais insignificantes que estas fossem. Agora sim, os espoliados eram mais que nunca, portugueses de 2ª classe.

Nas citadas “listas” eram riscados items após items, alegando-se “duplicação”. “Tens duas cadeiras destas? Só precisas de uma, esta fica cá! És viúva? Então para que precisas tu de duas alianças? Buíça (5) uma delas!” Nos já então suprapatéticos departamentos do Estado de Moçambique – era assim que há muito a antiga Província Ultramarina oficialmente se denominava -, as exigências burocráticas foram esmagadoras e impiedosamente acrescidas de custas, autenticações e reconhecimentos, atestados para isto e para aquilo, enfim, um ror de enormidades que serviam para dificultar ao máximo, a já muito precária vida dos aflitos e indefesos requerentes. A finalidade de todo o processo era o despojamento total. Há que ter em atenção a existência de uma azáfama censória controleira dos desabafos de uma imensa mole de gente encurralada pelos seus próprios compatriotas, assim se explicando esta série de postais enviados dentro de discretos envelopes.

É este um triste episódio praticamente desconhecido dos portugueses europeus e convém ir divulgando estes postais – o meu pai também arquivou interessantíssimas cartas -, por mim já muito abusivamente promovidos a documentos. Classificados como impublicáveis, alguns dos testemunhos permanecerão guardados, sendo o seu conteúdo deveras embaraçoso para a reputação de muita gente que ainda bem viva, é pesadamente responsável pelo mais vergonhoso e desnecessário desastre da nossa história.

Notas

(1) A tia Mimi (Argentina) refere-se ao dia 27 de Junho, aniversário do meu pai.
(2) A “lista” era uma estulta invenção das autoridades portuguesas, escandalosamente ansiosas por agradarem aos seus novos comparsas – tão ineptos quanto os recém-chegados de Lisboa – que fizeram sentar no “Governo de Transição”. Sob a chefia da dupla Crespo/Chissano, este executivo logo deu início a uma torrente legislativa, ousando estabelecer uns inacreditáveis “pontos prévios”: consideravam estes que os bens materiais dos colonialistas – no nosso caso, cinco gerações! – tinham sido obtidos ao longo de “500 anos de exploração dos moçambicanos e por isso mesmo deveriam em parte ficar na posse do povo de Moçambique”. Em conformidade, o “governo Crespo/Frelimo” significou a despudorada rapina dos bens móveis daqueles que então legalmente passaram a ser considerados como “residentes” (!) e que ao pretenderem sair do país, tinham de pagar pesados impostos, taxas e tarifas, ficando à total mercê dos apetites ou fúrias de quem controlava a fiscalização. Estes abusos consistiram em actos em tudo semelhantes àqueles a que as autoridades do Reich submeteram os concidadãos judeus que nos anos 30 quiseram atempadamente deixar a Alemanha. Após a independência, o absoluto à vontade das autoridades permitiu-lhes passar da usurária taxação, ao puro e simples confiscar de tudo aquilo aparentemente apetecível, por mais risíveis e grotescas que fossem as reivindicações. Tendo aprendido os complicados e copiosos meandros da burocracia portuguesa, logo inventaram uma infinidade de requerimentos a que forçosamente eram anexadas várias cópias de uma minuciosa lista dos bens a embarcar, ou seja, o normal recheio de uma casa: móveis, bibelots, tapetes, brinquedos, talheres, electrodomésticos, louças, roupas, etc. Não esqueçamos uma colossal quantidade de livros que após a consumação do saque foram rasgados, servindo as suas páginas para embrulharem por ruas e avenidas fora, o amendoim torrado, a castanha de caju e as maçarocas assadas, até servindo para o polimento de sapatos. Era esta, a “nova cidade”.
(3) A Leta é a mulher de um primo direito da minha mãe.
(4) A Emília, a nora da tia Mimi.
(5) Buíça quer dizer “passa para cá!”

(fim)

Para que conste.

19/03/2012

SEGUINDO OS PASSOS DA HISTÓRIA: URIA SIMANGO

Filed under: História Moçambique, Os Arquivos da PIDE, Os Simango — ABM @ 7:41 am

Eduardo Mondlane posa com Uria Simango, à direita, respectivamente Presidente e Vice-Presidente da Frelimo. No espaço de um ano, ambos foram eliminados da liderança do movimento.

Achei curioso outro dia ter reparado na quantidade de documentos da PIDE/DGS que ainda existem e que referem factos interessantes e lúdicos da Frelimo, dos seus elementos, dos seus movimentos dentro e fora de Moçambique. Possivelmente um maná para quem gosta de estudar estas coisas, até porque desconheço o que existe em Moçambique sobre o tópico. Em Portugal existe, uma parte está catalogada e pode ser livremente consultada.

Um ofício do Ministério dos Negócios Estrangeiros português para a PIDE, datado de 7 de Março de 1966, dando conta da visita do Rev. Uria Simango a Estocolmo. Este documento está nos arquivos da Torre do Tombo em Lisboa

06/03/2012

LOURENÇO MARQUES, HÁ 135 ANOS, NUMA TERÇA-FEIRA, DIA SETE DE MARÇO

Mapa de Lourenço Marques em 1903, com algumas alterações até 1906, mandado fazer pela Comissão de Melhoramentos do Porto de Lourenço Marques (equipa chefiada pelo Capitão-Tenente Hidrógrafo Hugo de Lacerda). Nesta altura a cidade já reflectia duas das grandes obras da equipa de Joaquim José Machado: a Poente, a linha de caminho de ferro para a África do Sul e o desenho topográfico do que hoje é a parte central de Maputo. Até à Independência, a Praça 25 de Junho tinha o nome de Praça 7 de Março (de 1877), o dia em que Joaquim José Machado e a sua equipa chegaram à então espelunca imunda que era a vila de Lourenço Marques.

Faz hoje 135 anos que eles chegaram. Era uma terça-feira.

A minha cara Cristina Pereira de Lima, filha do grande Alfredo Pereira de Lima, biógrafo do que é hoje a capital de Moçambique, gentilmente enviou o texto em baixo, que reproduzo mais ou menos como recebi, adicionando eu apenas dois parágrafos e as imagens em cima em baixo:

Foi há 135 anos, no dia 7 de Março de 1877, que chegou a Lourenço Marques a expedição de Obras Públicas…

O dia 7 de Março foi um dia histórico para a cidade de Lourenço Marques, porque foi nesse dia que desembarcou a expedição de engenheiros enviada por El-Rei Dom Luis I, e pelo ministro Andrade Corvo, para desenvolver a vila.

Num dos seus depoimentos, afirmou Eduardo de Noronha:

“ É desde o desembarque da Expedição que datam os melhoramentos materiais da Cidade, assim como é indiscutível que esta plêiade brilhante de rapazes inteligentes, saídos da escola, entusiásticos e vigorosos, deram um impulso moral enorme ao presídio, onde o nível intelectual não acusava grandes elevações.”

No seu livro “Casas que fizeram Lourenço Marques” Alfredo Pereira de Lima descreve a chegada da expedição:

…”Foi à expedição de Obras Públicas enviada pelo Ministro Andrade Corvo e que aqui chegou em 7 de Março de 1877, chefiada pelo major de engenheiros, Joaquim José Machado, e a seu trabalho insano, realizado em íntima colaboração com a Câmara Municipal, que Lourenço Marques ficou devendo grande parte do seu progresso.

Essa expedição trouxe até nós técnicos e operários competentes e dedicadíssimos. Foram todos eles homens que se apaixonaram, desde a primeira hora, pela bela obra que seria arrancar Lourenço Marques da sua letargia e pô-la definitivamente no caminho do progresso.

Além do engenheiro director, major Joaquim José Machado, vieram mais três engenheiros, chefes de secção (capitães de engenheiros Afonso de Morais Sarmento, João António Ferreira Maia e o tenente de artilharia, Alfredo Augusto Barros Viana); sete condutores de 1ª classe (tenentes Caldas Xavier, João Carlos Ribeiro, João Maria Pereira, Augusto César Simões, José Eduardo Lopes e os civis Jeremias Willhouse e Francisco Correia Leotte); três condutores de 2ª classe (tenente Joaquim José Lapa, António Sebastião do Nascimento Costa e o civil D. João José de Melo) ; seis condutores auxiliares (alferes António Nunes Bouças, Francisco Augusto Ferreira, João Brito Vaz Coelho, Adolfo Ascanio de Morais Palha, José Alfredo da Cunha Barros, Eduardo Alcântara Ferreira) e ainda desenhadores, apontadores e pessoal operário. Dos operários vindos para armar dezanove barracões de madeira e zinco que a expedição trazia consigo para suprimento da falta de habitações e se ergueram na actual Rua Serpa Pinto e hoje já não existem, Augusto Baptista de Carvalho foi, dos que mais se distinguiu. Depois dedicou-se á construção civil por sua conta e conquistou lugar de prestigio na sociedade da época………

….foram esses homens , técnicos e operários – arrojados e inteligentes – que a Metrópole nos enviou e aqui fizeram escola, que deram um impulso enorme ao desenvolvimento da vila pobre que então era Lourenço Marques. Eles souberam compensar bem os sacrifícios enormes que o Governo Central suportou ao enviar para aqui e manter sem vacilações essa dispendiosa Expedição de Obras Publicas à força de subsídios enviados da Metrópole.

Esses construtores da nova fase da vida de Lourenço Marques que sob a direcção inteligente do major Joaquim José Machado, aqui deixaram uma obra extraordinária em todos os campos, não só na construção civil mas ainda em outras actividades intelectuais e sociais, merecem o nosso mais profundo respeito……”

A esta famosa expedição se deve ainda a trabalhosa drenagem do pântano que asfixiava a vila pobre que naquele tempo era Lourenço Marques.

Para além disso, o seu chefe, Joaquim José Machado, fez o traçado da linha de caminho de ferro que a partir de 1895 ligou Lourenço Marques a Pretória e, adicionalmente, quando o governo português confiscou no final de Junho de 1889 a empreitada inacabada da linha ao consórcio do norte-americano Eduardo Macmurdo, foi Machado quem a reparou e completou.

A estação de caminho de ferro de Lourenço Marques e o Monumento da I Guerra Mundial, aqui nos anos 1930, postal da Newman Art Publishing Company, Cape Town. Quando a linha desenhada e completada por Joaquim José Machado começou a operar em 1895, a “estação” era um barracão desolado situado mais atrás do actual edifício, que foi inaugurado em Março de 1910.

29/02/2012

SAMORA MACHEL REVISITADO: A PERSPECTIVA DE BARNABÉ LUCAS NCOMO

Samora Machel e o Dr. Eduardo Mondlane, na visão idílico-marxista.

Lendo o combativo semanário Canal de Moçambique de hoje, encontrei na sua página 12, remanescentes de um algum passado num texto discretamente intestino-neo-cafreal-pós-colonial. O que achei positivamente evolutivo, dado o precedente da acusação de má companhia em que me achei uma vez em 1, 2, 3 e 4. Talvez o suporte de um blogue seja diferente do de um jornal. Será? Este blogue é meu. Talvez seja essa a diferença.

Resumo: a recente carga branca dos aviões da TAP nem sempre será do agrado de todos os autóctones, o que poderá ser uma chatice.

Mas neste caso, a má companhia a que me refiro acima – claro – não sou eu, mas a quase contundente análise – a segunda parte, depreendo, que se encontra a partir da página 18 do Canal de Moçambique, da mão de Barnabé Lucas Ncomo, que vai em total contraciclo com o exercício de brainwashing nacional em curso na terra do carvão e do camarão.

Merece uma leitura atenta, se crítica.

Afinal, Samora Machel, e os seus vinte anos na vida pública moçambicana, não são assunto fácil de descarnar. Quem sabe não fala e muitas vezes quem fala, fala mal.

Com profunda vénia para o autor e o jornal, aqui vai.

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19/02/2012

OS SIMANGO NO CAIRO, 1973

18/01/2012

MOÇAMBIQUE E A ÍNDIA PORTUGUESA, 1961

O brasão de armas do chamado Estado Português da Índia.

Existem poucos testemunhos do que no texto de Pedro Guerreiro, publicado recentemente e que aqui reproduzo com vénia, resumiu numa linha – que destaco a negrito na sua interpretação do que foi isto tudo: no auge da investida indiana nos territórios de Diu, Damão e Goa, “no outro lado do Índico, Portugal retaliava com a detenção de 12.000 indianos em Moçambique”.

Pouco ou nada sei sobre o que só pode ter sido mais uma tragédia na saga colonial portuguesa. A única referência que ouvi em Moçambique, há alguns anos, estava relacionada com Prakash Ratilal, hoje um empresário em Moçambique, que creio ser de origem indiana, mas que creio ele próprio nunca escreveu nada sobre o assunto.

Se alguém tiver testemunhos ou informação sobre o que aconteceu em Moçambique, agradecia e disponho que use este blogue para dizer alguma coisa.

O magnífico texto de Pedro Guerreiro saiu no jornal Sol de Lisboa de 17.12. 2011, quando passavam cinquenta anos sobre os eventos que ele descreveu.

Chama-se “Como Salazar perdeu a Índia”.

Mas basta lê-lo para se perceber que quase nada havia a perder para Salazar na Índia naquela altura.

Como Salazar perdeu a Índia

Um certo Portugal começava a ruir há 50 anos. A 22 de Janeiro de 1961, um comando liderado por Henrique Galvão tomava o paquete português Santa Maria. A 4 de Fevereiro, o MPLA atacava a cadeia de Luanda e ateava o rastilho para a guerra de libertação de Angola. Um mês e onze dias depois, a UPA matava e esquartejava mais de 800 pessoas no Norte. Entre Março e Abril, o ministro da Defesa, Botelho Moniz, tentava e falhava um golpe palaciano para afastar António de Oliveira Salazar do poder.

As eleições legislativas de 10 de Novembro, manipuladas, são precedidas de intensa agitação. Dois dias antes, um voo da TAP que ligava Casablanca a Lisboa era tomado por opositores do regime que lançaram milhares de panfletos sobre a capital e o Sul do país. Na véspera da votação, um grupo de militantes comunistas foge de Caxias num carro de Salazar. Seguir-se-ia o assalto ao quartel de Beja.

Mas era longe da metrópole e de África que o Portugal colonial iria sofrer, ainda em 1961, a sua primeira amputação. A história da queda do Estado Português da Índia tornar-se-ia paradigmática do autismo do regime perante pressões internas e alterações externas. E tornar-se-ia uma história sobre como se conta uma história: como se quiser contar.

Índia pouco portuguesa

Goa, Damão e Diu. Gerações memorizaram estas três palavras como pedaços de um Portugal que ia do Minho a Timor. Capítulo inquestionável da história lusa no Oriente, a portugalidade do Estado da Índia era no entanto dúbia.

Segundo o censo de 1940, dos seus 624.177 habitantes, apenas 1.371 eram descendentes de portugueses. Um terço professava a fé católica, mas apenas 1,1% da população falava português. «Goa não é uma província portuguesa», concluía à data o diplomata espanhol Juan Carlos Jiménez, citado em Xeque-Mate a Goa, o livro da investigadora Maria Manuel Stocker que conta a verdadeira história do fim da presença portuguesa na Índia. «Goa tem todo o aspecto de uma colónia.

Uma minoria portuguesa ocupa os postos fundamentais, secundados por uns poucos goeses. Existe uma pequena classe média comercial, geralmente hindu ou muçulmana, e o resto da população é simplesmente a típica massa amorfa da Índia, apática, faminta, doente, totalmente indiferente e ignorante de problemas que não sejam os de resolver o milagre diário da alimentação», sentenciava.

Vizinha da União Indiana, que conquistara a independência do Reino Unido em 1947, a Índia Portuguesa, pouco industrializada e de parca capacidade agrícola, dependia economicamente do outro lado de uma fronteira porosa. Goa, Damão e Diu, argumenta Stocker, faziam geográfica, social, cultural, linguística e religiosamente parte da vizinha Índia, não tinham valor nem na economia nem na demografia portuguesas e eram sobretudo fonte de encargos.

Mas, na metrópole, a narrativa era outra – a de que Goa era e queria continuar a ser portuguesa. Contava o Século Ilustrado de 29 de Março de 1947 que, contra «vozes vindas da Índia inglesa» que clamavam o fim da presença lusa, «a população em espectaculosas manifestações pediu que Goa permanecesse portuguesa». O ajuntamento era organizado pelo regime.

Fracasso diplomático

Desde a independência que a Nova Deli de Jawaharlal Nehru reclamava a integração da Índia Portuguesa na União Indiana. Era um imperativo ideológico e nacional. Lisboa, por seu turno, queria preservar a integridade da república unitária e evitar um precedente em relação às restantes colónias. Para o efeito, Portugal alterou em 1946 a designação de ‘colónia’ para ‘província ultramarina’, estreando a Índia Portuguesa o novo estatuto.

Tropas landins em Goa, creio eu. Vinham de Moçambique.

O conflito era inevitável e o contexto seria favorável à Índia. A Inglaterra, tradicional aliada de Portugal, deixara de ser o fiel da balança internacional. Londres, interessada em manter boas relações com Nova Deli, não mais poderia mediar conflitos num mundo polarizado entre Estados Unidos e União Soviética. Washington e Moscovo eram anticolonialistas e o mesmo carácter tinha a recém-criada Organização das Nações Unidas. Todos cortejavam a Índia.

A contenda foi inicialmente diplomática. Como para romper relações seria necessário estabelecê-las primeiro, portugueses e indianos encetaram laços formais em 1949 – Nova Deli quebrou-os em 1953, perante a ausência de diálogo sobre Goa. A questão internacionaliza-se depois, com intervenções de Nehru na ONU e nas conferências dos países não-alinhados. Salazar mobiliza a diplomacia lusa para uma ofensiva mediática junto dos países aliados. O argumentário centrava-se em três pontos: que a Índia Portuguesa fazia parte da nação há 450 anos, que o regime não discriminava raças ou credos e, por fim, que Goa era um posto avançado na luta contra o comunismo.

Mas os argumentos não colhem. Ignorado por Londres, Washington e a Santa Sé, condenado pela ONU, o regime explorou soluções alternativas para a questão de Goa, alvo de um bloqueio económico e de acções de desobediência civil. Muitas ponderadas à porta fechada, porque questionavam princípios sagrados do Estado Novo. Francisco da Costa Gomes, subsecretário de Estado do Exército, propõe a Salazar em 1960 a realização de um referendo. Questionado sobre um possível veredicto, responde ao Presidente do Conselho: «Se tivermos entre 7 e 10% dos votos a favor podemos considerar que a nossa acção na Índia foi uma soma muito positiva. Porque a Índia não é portuguesa». Exploraram-se contactos secretos com o Paquistão e mesmo com a China comunista, a quem seria oferecida uma base naval.

Batalha ficcionada

Nos anos de 1960 e 1961, a ameaça da guerra em África leva o regime a desinvestir na Índia. Os 12.000 militares que nos anos 50 defendiam o território passam a 3.500. Para Nova Deli, é o momento de agir. Lisboa conhecia os planos de invasão desde o Verão de 1961, mas em vez de um reforço militar optou por nova ofensiva mediática centrada na vitimização de uma pequena nação perante um inimigo pró-soviético. Salazar previa uma «heróica defesa» de portugueses e goeses. Mais do que prever, exigiu-a por telegrama ao governador Manuel António Vassalo e Silva, recomendando um «sacrifício total» e declarando que «pode haver apenas soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos». Lisboa transportou para Goa jornalistas portugueses e estrangeiros. Seriam observadores independentes do sacrifício português, mas acabaram por testemunhar algo totalmente diferente.

A guerra estala na manhã de 17 de Dezembro de 1961 com a morte de dois soldados portugueses em Maulinguém. É decretada a mobilização de todos os militares no activo residentes em Goa, mas apenas um tenente miliciano se apresenta às autoridades. Era o prenúncio do desaire. À meia-noite do dia 18, a Marinha e a aviação indianas iniciam o bombardeamento de posições estratégicas e dão cobertura à entrada de 45.000 soldados em território português. A aviação lusa era ali inexistente e as forças navais incapazes de responder ao fogo inimigo. Um pelotão de artilharia anti-aérea português chegara na noite anterior, no último voo para Goa, disfarçado de equipa de futebol, para tomar posições no aeroporto de Dambolim. Encontram armamento do início do século e munições inutilizadas pela humidade.

As forças portuguesas em Goa antevêem o avanço rápido dos indianos e chegam a ponderar um golpe para decretar a rendição do território. Os oficiais acabam por optar por uma resistência mínima com o disparo de «uns tiros simbólicos». Assim sucede, com a excepção de episódios isolados como a batalha do Afonso de Albuquerque, navio que resiste a dois cruzadores, um contra-torpedeiro e cinco fragatas, ou o sacrifício do segundo-tenente Oliveira e Carmo, que em Diu dirige a lancha Vega contra um cruzador indiano e repele vários ataques aéreos. Morreria ao lado de dois outros militares. Ao final da noite de 18 de Dezembro, a bandeira branca esvoaçava em Pangim. A invasão salda-se na morte de 20 portugueses e 21 indianos.

Militares castigados

O sangue derramado não seria suficiente para Salazar escrever a sua narrativa. Recorre à mentira. Em Lisboa, os jornais dão conta da morte de mais de mil portugueses. Os títulos galvanizam a opinião pública em torno do regime mas deixam milhares de famílias de coração nas mãos. Estas só saberiam do destino dos seus filhos meses depois. Os militares portugueses foram aprisionados em campos de concentração indianos. No outro lado do Índico, Portugal retaliava com a detenção de 12.000 indianos em Moçambique. A troca dos reféns acontece a partir de Maio de 1962. O regresso a Lisboa é discreto e inglório. Desembarcam sob a mira das armas da Polícia Militar, são colocados em comboios e encaminhados para as respectivas unidades mobilizadoras. Só depois voltam a casa, cinco meses após a notícia de uma possível morte em terra distante. Dez oficiais do Exército seriam demitidos, cinco reformados compulsivamente e nove suspensos por seis meses.

Goa seria rapidamente esquecida perante o agravamento do conflito em África. Os 463 anos de domínio português na Índia terminariam como uma nota menor da história do Estado Novo, cumpre-se este domingo 50 anos.

(fim)

 

Após ler este texto, o meu amigo J escreveu o seguinte:

“Sobre a detenção de cidadãos indianos residentes em Moçambique, era
miúdo mas recordo-me terem sido utilizados, na Beira, uns grandes
armazéns, na zona do Maquinino, para albergar as famílias detidas,
presumo que a aguardar transporte para a Índia. Os meus colegas de
carteira na escola primária não abrangidos pela medida provavelmente
ou seriam cidadãos de origem paquistanesa, ou possuíam a cidadania
portuguesa.

Muitos anos depois, um colega hindu referia-se com certa animosidade
aos grandes comerciantes de origem paquistanesa que, na Beira, haviam
florescido com a saída de muitos dos hindus, adoptando até uma postura
de subserviência e vassalagem para com o regime português.

Por altura da independência de Moçambique, um acérrimo
anticolonialista, de origem goesa, que nas páginas da imprensa diária
se evidenciava por uma desmesurada militância em prol do novo regime,
fizera questão de guardar numa fundo de uma mala em casa, a bandeira
portuguesa pois, como dizia a família, a amarga experiência vivida na
Índia portuguesa ainda pesava no coração.”

18/12/2011

DIÁLOGOS COM A HISTÓRIA, 1980-2011: OS ASSASSINATOS POLÍTICOS EM MOÇAMBIQUE

Transcrição de uma alegada "Ordem de Execução póstuma".

A imagem em cima circula na internet há muito tempo. Supostamente, reproduz uma “ordem de acção”, datada de 1980, em que terão sido assassinadas figuras conhecidas de Moçambique (Uria Simango, Lázaro Nkavandame, Júlio Razão Nihia, Mateus Ngwegere, Joana Simeão e Paulo Gumane).

Há pelo menos uma pessoa que diz que isto ém tudo falso e uma invenção.

O que se sabe de facto é que os visados eram na altura figuras ingratas do regime vigente e que, à falta de melhor explicação,  simplesmente desapareceram da face da terra. A partir daí supõe-se que o que aconteceu, aconteceu às ordens de alguém na então Frelimo. Mas para além disso, formalmente, não se sabe mais nada.

Ninguém dá a cara.

Ninguém dá detalhes.

Ninguém explica.

Em baixo, um debate havido, entre 24 e 25 de Novembro de 2011, que reflecte as posições e dúvidas prevalecentes, ao melhor estilo Wikileaks.

Pelos vistos, neste e noutros casos, como os homens não não a cara, só Deus sabe a verdade.

Tal como aconteceu com aquele desgraçado empresário que falou mal do Presidente ao Encarregado de Negócios Todd Chapman há precisamente um ano, dou um rebuçado a quem não perceber quem é P F.

As mensagens trocadas, a propósito do documento acima reproduzido:

——

L N – Sem comentarios. O documento fala por si e a história do nosso país ensina. NAO VAMOS ESQUECER O TEMPO QUE PASSOU/ QUEM PODE ESQUECER O QUE PASSOU?

E C – Profundo mais velho… How easy we forget… Eu ainda insisto que deviamos montar comités de verdade e reconciliação… A muito para ser dito deste Belo Moçambique… Muito sangue derramado, muita lágrima…

L N – Já se matou em nome dos “costumes”.. “Usos e tradições da luta armada” sem que os réus tivessem direito a defesa. Viva.

C W – wowwww esse é um documento de grande valia para história de Mocambique…thanks por partilhar.

I N – Só duas questoes: 1- O fuzilado Júlio Razao Nihia será parente do “camarada” Eduardo da Silva Nihia? 2-Será que os ex-integrantes do “Comité”, alguns dos quais com cruzamos nos dias de hoje (Sérgio Vieira e Oscar Monteiro), algum dia sentiram remorsos do que fizeram, em nome do “espirito dos costumes, usos e tradições da luta armada de libertação nacional”?

L N – Os próprios, Sérgio Viera, Óscar Monteiro entre outros.

A P – quem assina é o Jacinto Veloso, outro notável do partido, como querem que exista uma falsa paz podre ? estamos todos com uma amnésia mas temporária claro.

L N – Certa vez, entrevistado pelo O País, Jacinto Veloso disse que não se lembrava de ter assinado esse documento. Isso foi depois de, vasculhados os baús da história, as verdades terem vindo à superficie. Foi apenas uma infrutifera tentativa do ex-general, ex-marxista e hoje um dos mais prósperos empresários em Moçambique.

L N – http://www.canalmoz.co.mz/component/content/article/2-artigos-2007/11875-generais-amnesicos?.html

Generais amnésicos?
http://www.canalmoz.co.mz
CanalMoz – Jornal online do Canal de Moçambique

P F – N, surely you know that this document is a notorious forgery, an invention of the apartheid disinformation machine. You probably do know, but can’t resist throwing any old rubbish at Frelimo.

L N – What? P F my dear friend and collegue, LET the Truth be told

A P – Please respect the families of the victims, by denying you are creating a big issue for the families who are the respectable politicians of our times.

L N – All those falimy are still waiting for make funerals of [their] loved ones, but the guardians….forget where they killied

S C – sempre é melhor atirar-se as culpas ao apartheid?? na altura nem havia tanta coisa assim em que o apartheid tivesse interesse nesta noticia… my god, cada jornalista… se isto é mentira, entao também é mentira que Mondlane morreu no seu office… como reza a nossa historia.

L N – Mondlane morreu em casa de Betty King, uma americana que era secretária da sua esposa Janet Mondlane no Instituto Mocambicano em Dar-Es-Saaam, na manhã de 3 de Fevereiro de 1969. Ele passou pelo escritório, levou alguma correspondência (onde estava o livro armadilhado), e como a mulher se encontrava na Suíça…

R M ‎- “Assassinos fora…” Mano Azagaia….

E C – Mas que tal aderirmos ao Tribunal Penal Internacional.  Não acham que tenha chegado a hora?

M A – Mas porque baterem a boca em inglês se a introdução está na língua de Camões P e L? But ok, any may, we can in inglês.

S C – ‎”…e como a mulher se encontrava na suica…”lol…

M A – O que aconteceu S C quando a mulher estava na Suíça????…….lol

S C – eheheheheh, k pergunta obvia… mas nao sei. eu nao era vivo na altura. heeheh

M A – L você!!!!! Fogo li o jornal e estou com mais dúvidas, afinal quem tem a verdade?

M A – Não podes me dizer? Será segredo pah

V B – Tarde ou cedo a verdade vem à tona. E são os mesmos que dominam as televisões quando estamos em datas festivas. Falam da revolução mas esquecem-se (?), mas jamais admitem a autoria dos crimes cometidos na altura.

M A – A sorte é que muito poucos usam esta ferramenta porque a mesma só está disponível em telemóveis para a classe média inexistente, porque caso contrário estávamos em problemas. Já imagiram se os nossos filhos nos perguntarem onde morreu Eduardo Mondlane?

L N – A Verdade? Só sei que a MENTIRA tantas vezes propalada, se transformou, sobretudo para os próprios, na verdade do consolo.

M A – Errar é humano, quem somos nós para fazermos a justiça? Devem ter agido na emoção e no querer fazer bem para o povo e dai o excesso.

L N – Meu caro, aqueles homens (mulheres e criancas, de acordo com varias fontes, orais e documentais) nao foram julgados. Foram sumariamente executados.

M J – P F grande lambe botas.

M A – Foi o demónio encarnado neles, eles não sabiam o que faziam. Alguns devem ter problemas de sono, vamos lhes perdoar e entregar a justiça a Deus. Apesar de eu achar que o pecado paga-se aqui na terra.

L N – Esses foram os que melhor interpretaram O Príncipe de Nicolau Maquiavel: “Os fins justificam os meios”.

R F – Não vamos esquecer, esta é uma verdade. Ainda bem que lá se foi o monopartidarismo.

M A – Grande teoria essa, e quando e que os meios justificam os fins?

L N – Poder, não é jogo para incautos. E tal como os seus mestres, os camaradas da escola Stanilista…limitaram-se a aplicar quimicamente o que aprenderam.

M A – É preciso virarmos a página e entregarmos a Deus tudo para evitar mos passar o resto das nossas vidas amargura dos e cheios de ódio. A amargura e o ódio não trazem a felicidade desejada e mesmo os pecados trazem a almejada felicidade….

L N – O que mais dói, é que o regime vigente nunca se dignou a entregar as ossadas dos “fuzilados” aos seus legítimos ente-queridos, para, à boa maneira africana, procederem aos funerais.

A M – Sr. P F, por favor, mas na língua de camões, explique-se melhor… Quem sabe até podes ter razão e cá o pessoal estar “equivocado”… Quem não te conhece é que te “compra mano F…

P F – Yes, N – let the truth be told. Except that this document is not the truth, it’s a South African forgery. This is not to excuse the executions of Simango and the others – which probably took place in 1983, not in 1980, much less 1977. But you can’t discuss these matters by using forged documents. And you don’t really believe that Oscar Monteiro was subordinate to Sérgio Vieira in 1980, do you?

L N ‎- P F you are the spokesperson for Monteiro and Vieira? This note is clear. Why they (the comité) never refute?

M A – Hehehehehehe quando dois elefantes se degladeiam a busca da verdade nós os elefantinhos ganhamos porque acabamos sabendo de muitas coisas, então o P F é o porta voz!!!!

P F – What are you talking about N? Of course I’m not a spokesperson for anyone – I merely point out the inherent improbability of Vieira being put in charge of a committee where one of his subordinates was Oscar Monteiro, since Monteiro since Monteiro was higher ranking in Frelimo! A lower ranking cadre would not be put in charge of a higher ranking one in those days. But if you’re insisting on the veracity of this document, perhaps you’d like to tell me where it was first published? What is the original source?

G C – Recorde- se que estes são uma parte de tantos co-cidadãos que morreram, sem contar com aqueles que não figuravam em ordens de accão, executado por meio de chambocados e outros metodos de punicão, mas a história vai julgá-los…

A A – P F, um jornalista ou um … duvido das qualificações técnicas do F, um individuo que tem dificuldade de perceber a nossa história, para lograr os seus intentos acusa o apartheid de forjar os documentos. Tenho pena dele porque só envergonha a classe dos jornalistas.

A A – Se estivesse vivo o Carlos Cardoso estaria sempre enjoado com as publicações falsas de F, para alem de ter memória de crocodilos, nós os outros diríamos que o F é mais um mestre das conspirações intestinais.

P F – Eu era colega de Carlos Cardoso durante uma decada na AIM, e sou co-autor (com Marcelo Mosse) da biografia de Cardoso. Duvido que A A saiba mais de Cardoso que eu. Longe de ser “sempre enjoado” Cardoso era um bom amigo e camarada meu durante quase 20 anos. O jornalismo de Cardoso era investigativo e cuidadoso – certamente ele queria saber a proveniência de documentos duvidosos, em vez de imediatamente os publicar.

H F – Afinal o senhor P F quer dizer que os senhores acima mencionados não foram executados, ou que tiveram uma execucao merecida?

I A – NAO VAMOS!

P F – Sr H F, como já disse, os ditos “reaccionários” foram mortos. Isso nao é a questão. A questao é se o documento usado por L N é genuino ou não. Eu acho que as indicações são que Simango, Kavandame e os outros foram fuzilados em 1983, e não 1980. Execução merecida ? – não, isso não existe. Sou contra a pena de morte em quaisquer circunstâncias.

M A – Mudou de cor que nem um camaleão, acho que se apercebeu que há pessoas atentas ao seu malabarismo lol.

L N – ‎P F, aquela ordem de acção, está nos documentos da Frelimo. Eu encontrei no Bureau de Informação Pública.

A M – O senhor F sabe muito bem que o documento não é nenhuma “forja” do apartheid mas, como é sua “missão” defender o partidão a qualquer custo, aí está… realmente tá virando camaleão…

P F – Sr M, não tenho missao de defender ninguem – como historiador quero saber a proveniência das fontes. Contrário ao que disse N, isso nao e’ nenhum documento da Frelimo. E se Simango e os outros eram fuzilados em 1983, então qualquer documento que fala de execuções de 1980 tem de ser falso.

L N – É muito dificil….P F, sabe e bem, pois Mariano Matsinhe já o disse em entrevista ao Savana que na Frelimo, era prática fuzilar pessoas. Como também sabe que Uria Simango foi vitima de um golpe palaciano, depois da morte de Mondlane (este que foi morrer em casa da secretária da sua esposa quando ela estava na Suiça, facto esse omitido longos anos e matéria de falsidade nos manuais de ensino primário durante a chancelaria de Graça Machel quando ministra da educação) anti-estatutário. Sabe tambem, porque Chipande o disse que eles (Frelimo, os vivos claro) lutaram para SEREM RICOS. Vamos deixar de falatórios baratos. Esse documento é oficial e revela, sem margem de dúvidas, as grandes lições da escola stanilista que foram adquiridas por aqueles que diziam que “Mocambique seria o túmulo do capitalismo” e hoje são os maiores capitalistas, mesmo que a fonte inicial tenha a criação de aves da família dos palmides, comumente conhecidos por patos.

A M – Sr P F, o que é que o senhor recebe em troca, para “defender” o sistema? Já num debate televisivo, alguém no painel ou na plateia, terá levantado o facto de o senhor não ser ser “originalmoz” – o que eu não concordo – que o leva a assumir posições extremamente incofessáveis nos dias que correm. O senhor tá tentando tapar o sol com a peneira, como se diz…

14/12/2011

SOBRE O DIA EM QUE SAMORA MACHEL MORREU, 25 ANOS DEPOIS

Tão novinhos que eles eram. E lá estão os dois. À esquerda, a Sombra. Para os ver em tamanho gigante e a cores em sua casa, prima na imagem acima duas vezes com o rato do seu computador.

Para comemorar um ano de andar a escrevinhar aqui no The Delagoa Bay Blog, cuja leitura por uma leal mão cheia de -espero – espíritos livres que gostam de ver como as coisas são e porque é que são assim, reproduzo em baixo, com vénia, uma nota um tanto cáustica mas eminentemente legível e possivelmente plausível, que encontrei quase por acaso na internet, num blogue muito interessante chamado Tempos Modernos, assinado por um Sr. que se auto-designa Marx e que se parece mesmo muito com o homónimo mais conhecido de outras eras. Ao seu texto chamou O Ano das Cobras e aqui vai, menos uma ou outra gralha e a sua reversão para o velho português, felizmente ainda em vigor em Moçambique:

Um exemplo de estatuária norte-coreana moderna, estilo "querido líder", muito na moda estes dias.

Numa jogada de puro oportunismo político, Armando Emílio Guebuza resolveu fazer de 2011 o «Ano Samora Machel».  À primeira vista, tudo pareceria justificado: afinal, Samora foi o primeiro Presidente de Moçambique independente e, os seus discursos sempre falavam da abolição da exploração. Relembrar Samora à juventude moçambicana seria, portanto, natural.

Acontece que, com Guebuza, a história não é essa.

Samora e Guebuza odiavam-se. Samora e os demais, sabiam do carácter ambicioso de Guebuza e vigiavam-no permanentemente.

Veloso, Guebuza e Machel brindam.

Mas Guebuza era um rapaz trabalhador e esperava a sua vez. À frente do Ministério do Interior, começou laboriosamente a montar um exército paralelo que lhe obedecesse. Para isso, serviu-se da Polícia para a equipar com blindados e carros de assalto. Fazia desfiles de demonstração da sua força.

Em 1984, dirige a “Operação Produção”, que lança milhares de compatriotas na selva de Niassa e Cabo Delgado e subsequente morte ou fuga para a Renamo.

Alimentada com esses novos reforços, o movimento dos “bandidos armados”, inflige derrotas sucessivas no exército governamental e desarticula a economia moçambicana.

Samora desespera e sente-se cada vez mais cercado: afasta Guebuza para a Beira e impõe-lhe residência fixa. Cada vez mais isolado, despromove Sebastião Mabote por suspeita de traição e entendimento com a Renamo. Numa cimeira de chefes de estado no Malawi, ameaça bombardear esse país por suspeita de dar guarida à oposição.

É neste ponto, a caminho de Maputo para demitir mais uns tantos, que se dá a queda do avião em viajava Samora: uma sucessão de erros de navegação aérea, de incompetência da tripulação e de conivência de adversários internos e externos (África do Sul, URSS) provocam um acidente imprevisto.

Mas havia quem sabia e desejava o acontecimento. Samora queria provocar um confronto Leste-Oeste em Moçambique. O confronto não interessava a ninguém e foi preciso acelerar a queda de Machel.

Chissano foi o senhor que se seguiu. Mas Guebuza, aguardou a sua vez e impôs-se, ameaçou contar o que sabia e fez-se eleger como presidente.

Mas que fique claro: Samora e Guebuza sempre se temeram e sempre se odiaram. Vigiavam-se mutuamente no tabuleiro do xadrez moçambicano.

Samora, brought to you by Guebuza, North Korea and The Pepsi-Cola Company.

É por isso que o «Ano Samora Machel» é uma hipocrisia mas, em todo o caso, serve a estratégia guebuziana de propaganda e de demonstração de força.

Mas para melhor humilhar Samora, nada como uma mistela feita com uma estátua norte-coreana bem regada por Pepsi-Cola sul-africana, na praça que foi do Mouzinho de Albuquerque. Agora, sem cavalo e rodeado dos crocodilos que Samora avisava terem que ser mortos no ovo …

Veneno perfeito!

(fim)

11/12/2011

PONTA DOBELA

Uma vista da actual Ponta Dobela.

A história que vou contar ouvi da boca creio que do Dr. Magid Osman, numa conferência a que assisti há uns anos no Hotel Polana.

Ele, que mais tarde chegou a ministro, e que foi accionista e presidente do então BCI (antes da fusão com o Banco de Fomento) era um dos pouquíssimos economistas moçambicanos que em 1975  ficaram atrás e que restaram do impulsivo desmantelamento da economia moçambicana. Outro era Mário Machungo, que mais tarde foi primeiro-ministro durante 11 anos. O resto da maioria da cúpula da Frelimo percebia pouco ou nada de economia e de negócios e passou os anos seguintes em guerras e a suportar projectos marxistas da treta que não deram em nada.

Magid, cujo pai e foi o dono da pequena Camisaria Benfica mesmo colada à então veneranda Mesquita de Lourenço Marques, do outro lado da rua da Papelaria Spanos, e cujo irmão era um bom jogador de futebol, tendo jogado numa equipa que o pai Melo treinou (daí eu os conhecer), desde logo foi integrado nas equipas do novo governo.

Logo a seguir à Independência, não havia relações com a África do Sul, e hoje entende-se que a ideia dos Libertadores era que o regime da África do Sul cairia a seguir, portanto a ideia não era continuar o clima de business as usual com os boers, mas sim de fazer-lhes o que a Tanzania havia feito com Moçambique: abria-se uma espécie de Nachingwea do lado moçambicano da fronteira sul-africana e mandava-se guerrilheiros e bazookas lá para dentro para libertar o outro lado. Bem, está-se a ver como foi.

Mas isso não vem para o caso.

Logo após a Independência, pelo menos os telefones entre a então Lourenço Marques e Pretória ainda funcionavam. E pouco depois de Junho de 1975, alguém do novo governo na capital moçambicana recebeu um telefonema de Pretória: o governo sul-africano desejava ter uma reunião com representantes do governo de Moçambique e perguntavam se havia disponibilidade para ocorrer tal reunião.

Os camaradas olharam-se, quase incrédulos, a ideia era matar os agentes do apartheid e não falar com eles, o que é que os racistas querem, não há hipótese nenhuma de se fazer seja o que for com eles. Mas alguém decidiu permitir que a reunião ocorrese – em Lourenço Marques.

Pretória concordou e, uns dias depois, aterrou em Mavalane um avião da força aérea sul-africana, cheio de homens brancos com o ar mais suspeito do mundo, óculos escuros, que foram levados a uma sala de reunião algures na cidade.

Do lado moçambicano, a Frelimo escolheu uma equipa a dedo, de que fazia parte o então jovem Magid Osman (naquela altura, todos eram desesperadamente jovens, desesperadamente inexperientes e achavam que tinham o rei na barriga).

A reunião, que supostamente durou menos de dez minutos, terá decorrido assim: entraram as duas delegações na sala e sentaram-se em lados opostos da mesa. Um sul-africano levantou-se e disse qualquer coisa como isto: “nós pedimos esta reunião por uma razão apenas. Antes da entrega do governo à Frelimo, o governo português havia acordado construir um novo porto de águas profundas perto da Ponta Dobela. Tudo já está aprovado e pronto para arrancar. Nós só queremos saber se esse projecto é para avançar ou não.”

Calou-se, e sentou-se.

Do lado moçambicano (Magid Osman deve-se recordar dos nomes de quem lá esteve, eu não, infelizmente) a reacção foi de quase indignação. O quê? a zona recém libertada do jugo colonial racista imperialista a lidar com os imperialistas racistas do apartheid? Nem pensar. Não há porto em Dobela coisa nenhuma.

Ouvindo esta resposta, os delegados do governo de Pretória concluiram que nada mais havia a discutir, agradeceram, levantaram-se, foram para os automóveis, que os levaram de volta ao aeroporto e embarcaram de volta para Pretória.

1973. Ponta Dobela. Manuel Pimentel do Santos, então Governador-Geral de Moçambique, mostra o local do suposto futuro porto de águas profundas a Rui Patrício, Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal. (fonte: IICT)

Mais um aspecto da visita de Pimentel dos Santos e Rui Patrício a Ponta Dobela em 1973. (fonte: IICT)

Nos anos seguintes, as relações entre os dois estados deterioraram-se, nomeadamente as económicas. O fluxo de tráfego entre o hinterland sul-africano e a costa foi re-orientado para Durban, Port Elizabeth e o Cabo. Maputo, o porto ideal para a África do Sul e que tanta tanta chatice dera desde que abriu no final do século XIX, ficou positivamente às moscas.

No entanto, se as vontades políticas variam com os tempos, a geografia é o que é: o Sul de Moçambique será sempre o caminho mais directo e mais barato para ligar o complexo agrícola, comercial e industrial de que Joanesburgo é o centro.

A sua competitividade depende unicamente de dois factores: da eficácia e eficiência no transporte de bens entre os dois pontos e da fiscalidade negociada entre os dois países.

Se se compararem as realidades nos últimos quarenta anos, só há dois pontos significativos no que concerne a Maputo.

O primeiro, é que os volumes de que se está a falar agora em termos de carga transportada são muito maiores que há 40 anos.

O segundo, é que houve uma enorme evolução nos transportes marítimos. Hoje utilizam-se navios muitíssimo maiores, muitos dos quais  não conseguem entrar em segurança na baía de Maputo. E não é possível dragar a baía para tornar tal possível. Seria caro demais, provavelmente ambientalmente inexequível e um dia Maputo literalmente cairia ao mar (como aliás, já está a cair, em boa parte devido precisamente às décadas de dragagens ali feitas, que inclusive levaram as areias das suas praias).

E aqui vem o velho projecto de Ponta Dobela à tona novamente.

As grandes vantagens de Dobela é que 1) seria uma mina de dinheiro para Moçambique, pois se as coisas fossem bem feitas, o custo do transporte de bens seria muitíssimo competitivo comparado com os portos sul-africanos (que não se importariam mesmo nada se não fosse feito); 2) seria um porto de águas profundas, ou seja, os mega petroleiros e os mega-transportadores podiam ali atracar e largar e pegar as suas cargas rápida e eficientemente. 3) sendo uma área a começar do zero, ali poderiam-se fazer as infra-estruturas exactamente à medida com o melhor que se faz hoje em dia, e à medida das necessidades; 4) geraria emprego na orla a Sul de Maputo, o que o pessoal ali bem precisa.

O que nos traz aos pontos negativos. Bem, na realidade só há um que me interessa, e que na altura dos fascistas-colonialistas-racistas etc portugueses não devia ter o peso que tem hoje.

É a questão ambiental.

Não sei se o exmo. Leitor sabe onde fica Ponta Dobela. As coordenadas GPS são Latitude : 26. 37.0′ S e Longtitude : 32.55.0′ E.

Se conhece a Ponta de Ouro, fica na costa a uns quilómetros ao Norte, logo a seguir à Lagoa Piti e a uns quilómetros a Sul de Milibangalala.

Eu já nem falo no local em si, que é natureza pristina e essencialmente intocada pelo homem.

Falo, mais, do que está à volta.

E o que está à volta é um imenso património natural, que no dia em que for não volta mais. No mar, campos de coral únicos e fauna animal preciosa. Em terra, reservas naturais e animais já constituídas. Toda a zona é um delicadíssimo eco-sistema que no mínimo urge a maior das maiores precauções no que toca a qualquer projecto de dimensão mínima. Nos anos 20, apenas sei que ali se procedeu a uma matança de elefantes sem precedentes precisamente porque a população daqueles grandes animais havia crescido sem qualquer restrição e estava a destruir a ecologia da zona (foi dessa matança que resultaram duas colecções de fetos de elefante únicas no mundo, uma delas ainda alojada no Museu de História Natural em Maputo (para os do tempo da outra senhora, o Museu Álvaro de Castro).

Ou seja, seria de todo recomendável, antes de se sequer começar a falar no porto, que primeiro se analise o que é que isso quer dizer em termos ecológicos para a zona. E também em termos paisagísticos e turísticos. Ir para a Ponta de Ouro para depois levar na praia em cima com as borras dos petroleiros não vai dar e acabaria com o mais precioso ponto turístico do Sul de Moçambique.

O governo, a elite precisam destes projectos para dinamizarem a economia, capitalizarem numa vantagem estratégica quase única do país e ganharem dinheiro. As pessoas precisam destes projectos para terem empregos.

Mas a natureza, que Deus deu, e que não se conserta facilmente, tem que ser levada em conta.

E, do meu parco conhecimento da zona, aí os desafios serão enormes, senão insuperáveis. E até esta data, não conheço estudos sobre a zona.

A única coisa que vi é o vídeo em baixo, preparado por uns tais de Aquaterramovement,

que dizem que percebem do assunto e que dizem também que construir um porto em Dobela seria provocar uma catástrofe ecológica.

Nesta fase, seria talvez importante analisar esta questão antes que aconteça o mesmo que aconteceu com a Mozal há quinze anos: quando deram por ela, já lá estava, a cintar e poluir a cidade da Matola.

O filme, partes I e II:

04/12/2011

TERRA SONÂMBULA, UM FILME SOBRE MOÇAMBIQUE

Filed under: Cinema, História Moçambique, Mia Couto, Terra Sonâmbula — ABM @ 6:59 pm

"A Noite Estrelada", de Vincent van Gogh.

Do blogue Meia-Palavra copiei o resumo deste filme, escrito por Felipe Cordeiro, mas como não percebia bem aquilo que lá estava adaptei-o ao meu próprio desacordo ortográfico:

Na Moçambique pós-guerra, num cenário devastado onde a cultura e a sobrevivência são dois elementos que se cruzam em “Terra Sonâmbula” (baseado na obra de Mia Couto), somos apresentados ao velho Tuahir e o menino Muidinga que, à procura de abrigo, encontram no mato um machimbombo incendiado e cheio de corpos carbonizados.

Dentro desse machimbombo Muidinga encontra doze diários, pertença de Kindzu, um fugitivo da guerra.

A partir da leitura desses diários, vemos a relação entre Tuahir e Muidinga estremecer. O garoto, que não sabe qual é a sua origem, questiona diversas vezes o velho que o acompanha, querendo saber de onde veio, quem são seus pais e qual é a sua relação com o velho.

As duas narrativas cruzam-se. Nos diários, Kindzu conta as dificuldades em viver num lar que respeita todas as crenças da sua cultura: a adoração dos espíritos, os devaneios do pai pescador, a cegueira social de seus vizinhos, etc. Entretanto, foge do seu meio sem ter de renegar as tradições supersticiosas e torna-se um guerreiro e acreditar em seus sonhos, que afinal não tem. É nesse ponto de tradições e relatos que as histórias se entrecruzam e caminham juntas, nunca sendo uma narrativa dentro da outra, uma influenciando a outra.

Numa terra onde dormir não é uma escolha, a chave para toda a apreciação da obra é saber que sonhos são tão reais quanto uma guerra, e a destruição e a vida caminham juntas por um caminho cheio de obstáculos e anseios.

E aqui, grátis e em sete prestações, o filme, na íntegra, bastando para tal ir vendo por aí abaixo.

Grato ao Issuf Mohamed, cujo pai e o meu se conheciam há 50 anos na velha Lourenço Marques, por me chamar a atenção para o tópico e que no filme é o indiano cantineiro que acaba numa cadeira de rodas, amigo do Kindzu.

23/11/2011

O MOMENTO FUNDACIONAL DA FRELIMO

Filed under: Fundação da Frelimo, História Moçambique, João Cabrita — ABM @ 11:56 am

Não, não foi nenhum destes, apesar de Marcelino ter estado lá.

A linha oficial da Frelimo desde sempre foi a seguinte: “A Frelimo foi fundada em Dar-es-Salaam, Tanzânia, em 25 de Junho de 1962.”

A partir da sua casa aqui na internet, Fernando Gil ontem deu mais um passo no sentido de esclarecer um pequeno detalhe relativo à história da organização que mais tarde combateu e recebeu o poder em Moçambique das autoridades coloniais.

Segundo o testemunho do Sr. Dr. Jaime Maurício Khamba, que mais tarde consubstancia apresentando o documento fundacional que se reproduz em baixo, e de cujo original não sei bem quem tem posse, a Frente de Libertação de Moçambique terá sido, na génese, criada por moçambicanos de quem quase ninguém ouviu falar, na cidade de Accra, no Ghana, no dia 2 de Fevereiro de 1962.

Quatro meses e meio antes e do outro lado de África em relação à Tânzania.

E em inglês.

Alguém sabe quem foram os Srs. Mateus Michinji Mole, Lourenço Milinga, Hlomulo Chitofo Gwambe e Calvino Zeque Mahayeye?

Pois é. Muito poucos.

Para que conste.

A confirmar-se, louros para Fernando Gil e o Dr. Khamba, que ajudou assim a desvendar a história mais mal contada da história recente de Moçambique.

Cópia do documento de Accra. No original, em inglês.

 

Do Reino ao Sul, João Cabrita pondera diferentemente e, com sua autorização, que agradeço reconhecidamente, reproduzo o seu comentário, que também foi encaminhado para o Sr. Fernando Gil:

Mateus Mmole e Lourenço Milinga eram dirigentes da MANU.

Hlomulo Chitofo Gwambe (mais conhecido por Adelino Gwambe) era o presidente da Udenamo. Calvino Mahayeye era membro deste movimento.

uma leitura atenta do documento reproduzido hoje […] deixa transparecer que a 2 de Fevereiro de 1962 houve o desejo dos moçambicanos filiados na UDENAMO e na MANU de formar a Frente de Libertação de Moçambique. Entre o desejo de se formar uma frente e a decisão de se criar essa mesma frente vai uma certa distância, de meses neste caso.

Efectivamente, o anúncio formal da criação da Frelimo foi feito em Acra (para grande irritação do governo do Tanganyika), mas em Junho de 1962, durante a African Freedom Fighters Conference, segundo o depoimento que obtive de Fanuel Mahluza, vice-presidente da Udenamo, e que ele próprio reitera no manuscrito que me entregou para publicação antes de morrer.

O título de capa do “Evening News”, diário publicado em Acra, de 6 de Junho de 1962, pp 1 e 2, é suficientemente elucidativo: “Mozambique parties answer Osagyefo’s close ranks call”.

Antes da partida das delegações da Udenamo e da MANU para Acra, estes dois movimentos estiveram reunidos em Dar es Salam sob os auspícios do governo tanzaniano (Tanganyika) tendo “finalmente decidido unir todas as forças patrióticas de Moçambique por meio da formação de uma frente comum”, segundo reza uma declaração emitida em Dar es Salam a 25 de Maio de 1962.

Segundo me relatou Mahluza, foi Marcelino dos Santos quem deu o nome à Frente de Libertação de Moçambique. Mahluza escolheu o acrónimo, Frelimo.

[…]

De facto, a ideia de se unir os dois movimentos surgiu em Dar es Salam face à política do governo tanzaniano em favorecer mais a MANU (essencialmente maconde e com fortes raízes no Tanganyika e que até advogava uma grande região maconde independente, integrada neste país) do que a Udenamo, por este movimento estar mais identificado com o Gana de Nkrumah, rival de Nyerere em questões nacionalistas. (A África Austral era como que zona exclusiva do Nyerere e que chocava com o pan-africanismo de Nkrumah). 

O Marcelino dos Santos apoiava a ideia da unificação, pois sem ela não era possível funcionar a partir do território tanzaniano. Portanto, da fotografia que reproduziu no seu blog [ver em cima] o Marcelino era o único da Frelimo à altura da independência que participou nesse processo. O Chissano estava em Paris, o Machel ainda não havia chegado (saiu de LM em Março de 1963).

01/11/2011

OS DUQUES DE CONNAUGHT E A PRINCESA PATRICIA EM LOURENÇO MARQUES

Uma fotografia da época com a família real britânica. Da esquerda para a direita: Leopold Battenberg, Marie Louise Schleswig-Holstein, a Príncipe Edward de York, a Duquesa de York com a Princesa Mary, Margaret Connaught, Alexander Battenberg (sentado no chão), o Duque de York com o Príncipe Alberto, a Rainha Vitória, Arthur Connaught (o Duque de Connaught), a Duquesa de Connaught, a Princesa Beatrice, Patricia Connaught (no chão), Ena Battenberg, Helena Vitória de Schleswig-Holstein e Maurice Battenberg. Para ver esta fotografia do tamanho do ecrã do seu computador, prima na imagem duas vezes com o rato do seu computador.

O pai da Princesa Patricia de Connaught. Artur, Príncipe Real e, a partir de 1874, Duque de Connaught e Strathearn (1850-1942) , era o sétimo filho, terceiro varão e supostamente o favorito da Rainha e Imperatriz Vitória – e portanto irmão do que foi mais tarde Rei Eduardo VII. O Duque esteve a maior parte da sua vida em funções militares e de chefia e representação da coroa britânica. Nunca foi grande espingarda mas o que fez, fez com dignidade, especialmente enquanto Governador-Geral do Canadá, antes e durante a I Guerra Mundial.

A mãe de Patricia era Louise, filha do Príncipe Frederico Carlos da Prússia, com quem Artur se casou em 13 de Março de 1879.

Em finais de Fevereiro de 1906, os Duques e a sua filha visitaram a África do Sul. Foram de barco, no Balmoral Castle. Durante a viagem, estiveram brevemente em Lourenço Marques. Uns dias mais tarde, apanharam o navio alemão Prinzregent e rumaram à Beira (7 de Março de 1906) e Zanzibar (fonte: Arquivos Nacionais da Grã-Bretanha, refª FO 367/19/2).

Um ano antes, em Janeiro de 1905, os Duques visitaram Lisboa.

Em 4 de Novembro de 1910, o Duque de Connaught, em representação do monarca britânico, Jorge V, presidiu à primeira sessão do Parlamento da nova União Sul-Africana, na Cidade do Cabo. Desta vez não passaram por Lourenço Marques.

O Príncipe Artur de Connaught, irmão de Patrícia, visitou Lourenço Marques em Dezembro de 1923.

Em sua honra, eventualmente a edilidade e o governo ofereceram um brilhante festa em 1 de março de 1906 e os seus nomes e títulos a duas artérias: A Rua Princesa Patrícia e a Avenida Duques de Connaught.

Tudo isto para que, muitos anos mais tarde, numa curta visita de três dias a Moçambique, em Março de 2008, um babado casal que viveu em Lourenço Marques em 1965 e que nunca esqueceu o que viu, pudesse dizer:

“O nome da nossa filha surge da predilecção que a minha mulher e eu tínhamos por uma rua em Maputo, cheia de jacarandás e que se chamava rua Princesa Patrícia.”

Disse Aníbal Cavaco Silva, de momento presidente de Portugal.

A actual Rua Salvador Allende em Maputo, era anteriormente designada Rua da Princesa Patrícia.

A actual Avenida Friedrich Engels, em Maputo, onde se situa o miradouro para a Baía, era anteriormente designada Avenida dos Duques de Connaught.

31/10/2011

UMA IDEIA DE SALAZAR, PARA QUEM NÃO FAZ IDEIA

Capa de "Salazar, a cadeira do poder".

Até ler o livro cuja capa mostro em cima, nunca tinha ouvido falar de Manuel Poirier Braz. O sítio Wook, onde parece que muita gente compra livros pela internet em Portugal, contém esta algo sumptuosa descrição dele:

Manuel Poirier Braz é licenciado em Direito, pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, possui o Curso Superior de Management do Instituto Nacional de Investigação Industrial (actual INETI) e é diplomado em Marketing, Relações Humanas e Análise Decisional, pela Graduate School of Business Administration da Harvard University. Durante vinte e três anos exerceu diversas actividades em empresas multinacionais, entre as quais, gerente da filial de Lisboa da Rank Xerox, director de Marketing para Portugal, Angola e Moçambique da subsidiária portuguesa do Grupo Dow Chemical, gerente e director-geral, para Portugal e Angola, da consociada portuguesa do Grupo Bristol Meyers. Foi fundador e primeiro presidente da Associação Portuguesa dos Medicamentos de Venda Livre e consultor do ministro dos Assuntos Sociais, para assuntos de Indústria Farmacêutica e Medicamentos. Exerce a advocacia desde 1981 e é membro da Associação Portuguesa de Direito Europeu, da Associação Fiscal Portuguesa, da Associação Portuguesa dos Profissionais de Marketing, da Sociedade de Geografia, do Grémio Literário, da Amnistia Internacional e da Sociedade Histórica da Independência de Portugal.

Já publicou livros que à partida nada têm que ver com este tópico.Um seu livro, saído há pouco tempo, revela a sua experiência na maçonaria (que não li).

Mas depois de ler esta obra, fiquei a conhecê-lo um pouco melhor. Em parte pelo tópico que ele abordou em si – António de Oliveira Salazar – e em parte pela forma como Manuel Braz conta a história.

Como Samora Machel em Moçambique, António Salazar permanece, e permanecerá, uma personalidade e um assunto por debater e resolver em Portugal. Milhares e milhares e milhares de páginas têm sido escritas sobre o conhecido ditador que durante quarenta anos “congelou” a sociedade portuguesa (levando as colónias e milhões de pessoas por arrasto). A maior parte dessas páginas escritas ou é duma erudição inacessível para o povão, ou é, mais ou menos disfarçadamente, tendenciosa.

Felizmente, há uns tempos fez-se um concursozeco da treta numa estação de televisão portuguesa qualquer, para saber quem eram as figuras gratas do Milénio português (o Milénio temporal, não o banco, que anda mal mal mal) e o ditador saiu vencedor, o que teve um efeito engraçado nas hostes. Um dos benefícios dessa palhaçada foi que se escreveu a redobrar sobre Salazar. No pressuposto editorial, suponho, que falar de Salazar vende mais.

Mas na generalidade fez pouca diferença. Os politicamente correctos condenam Salazar, e os politicamente incorrectos elogiam. A maior parte das pessoas permanece ignorante, imersa nas suas próprias opiniões já formadas.

É aqui que entra Manuel Poirier Braz. Que, com o livrinho em cima, conseguiu vários feitos.

O primeiro, e mais importante, é que conseguiu resumir de forma agradável, legível, e equilibrada, as alucinantes primeiras sete décadas e meia da história de Portugal.

Que, como o exmo. Leitor já deve ter percebido, “entubam” durante quase cinquenta na pessoa deste senhor.

Em segundo lugar, Manuel P. Braz tem uma postura relativamente distanciada mas informada dos principais eventos que moldaram a passagem de Salazar pelo governo. Fornece os principais tópicos e trabalha neles sem perder o fio à meada. Para quem quiser saber mais há obras que esmiúçam o homem e a sua obra até ao pintaralho. Mas há, acredito, lugar para obras deste tipo.

Especialmente para quem não estava lá ou aprendeu o que foi que aconteceu.

Em terceiro lugar, o livro está bem escrito. Bem, não: muito bem. É um prazer seguir a história.

Em quarto lugar, no pouco que comenta. Poirier Braz deu o tiro certo na direcção certa.  Eu canso-me de ler as versões facilitistas ou dogmáticas do que foi este episódio da história portuguesa e da ponderação das valências e contributos deste homem. Poirier Braz concentra-se nos factos disponíveis e vai reconstruindo o cenário, o que, para uma obra com 250 páginas, é notável.

Apesar da sua contenção, Poirier Braz destaca pequenos mas cruciais, e deliciosos, detalhes. Gostei particularmente da sua descrição dos dias que se seguiram à tromboze de Salazar em 1968. Ou os anos entre 1958 e 1962, com destaque para o episódio da Índia portuguesa. Achei menos feliz o mini-capítulo sobre as “mulheres” de Salazar. Em parte porque acho que é um assunto que não vale um caracol, em parte porque acho que se sabe pouco e especula-se demais. Ainda assim, aqui Manuel Braz divertiu-se com os seus leitores ensaiando uma espécie de radiografia psico-sociológica de Salazar onde acho que ele acertou mesmo no meio do alvo.

Resumindo, se o exmo. Leitor quiser saber o essencial sobre Salazar, e porque é que a história de Portugal foi o que foi entre 1920 e o fim do século passado, este é o livro da ler: “Salazar – A Cadeira do Poder (Lisboa:Editorial Presença, 2008).

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