THE DELAGOA BAY REVIEW

17/09/2018

A POSIÇÃO DE MOÇAMBIQUE EM 2017: 180º EM 189

Filed under: Moç 180º de 189 em 2017 — ABM @ 4:56 pm

Em Moçambique há muito tempo que já ninguém liga a estas coisas, com a ideia que “as coisas não são tão más como isso”, o que faz lembrar a conhecida síndrome colonial dos portugueses antes da Independência.

Refere hoje o quase em vias de extinção Diário de Notícias de Lisboa, citando a Agência estatal de notícias Lusa: “Moçambique é o nono país com menor índice de desenvolvimento humano (IDH) do mundo (0,437 valores), ocupando a 180ª posição entre 189 países, informa um relatório global do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.”

O Prémio 44 Anos Seguidos na Cauda do Mundo vai para a Frelimo.

 

Tentando mesmo assim dar um spin positivo a esta péssima mas já habitual informação, referente a 2017, o texto do DN/Lusa diz que estes dados indicam que os números para o ano anterior, “afinal”eram ligeiramente melhores do que anteriormente calculados (0.435 versus 0.418).

O povo moçambicano já se deve sentir melhor com a informação retroactiva.

Mas logo a seguir, para aqueles entre nós que lêem dados estatísticos, o articulista avisa: “Moçambique é um dos exemplos de países que, por não recolher e apresentar os dados pedidos pelo PNUD a tempo, tem uma avaliação que pode não corresponder à realidade, com discrepâncias nos números”.

Pois. Ou seja, se calhar as autoridades moçambicanas não fizeram o trabalho de casa, e assim talvez as coisas não sejam assim tão boas, ou tão más.

Fiquemos na dúvida.

Algumas pérolas partilhadas no relatório do PNUD, que foi publicado ontem:

esperança média de vida – 58,9 anos

média de anos de escolaridade frequentados pela população – 3,5 anos, sendo que 2,5 anos na educação das mulheres e de 4,6 anos na dos homens.

taxa de fertilidade – média de cinco filhos por cada mulher em idade fértil

quinto país do Mundo mais afectado pela tuberculose – 551 pessoas em cada 100 mil têm tuberculose, cerca de quatro vezes mais que a média mundial de  140 pessoas em cada 100 mil.

(PIB) per capita, (calculado em unidades de paridade de poder de compra), é 1.136 dólares, comparado com uma média mundial de 15.439 dólares.

84,6% dos trabalhadores que têm trabalho, têm-no em condições precárias

O país com pior índice de desenvolvimento humano do mundo é o Níger, com 0,354 valores. O melhor é a Noruega.

O PNUD não se envolve nas questões um pouco mais nebulosas dos índices das liberdades e direitos fundamentais dos cidadãos, ou da liberdade de imprensa, da corrupção aos mais alto níveis e ainda menos das liberdades e direitos políticos. Talvez por achar que elas não indiciem “desenvolvimento humano”.

 

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15/09/2018

O JARDIM DA CATARSE COLONIAL, 1975

Penso que, sujeito a confirmação, a imagem foi colhida pelo Ricardo Rangel em 1975. Foi colorida por mim hoje.

 

O Jardim da catarse em Maputo, 1975. Da esquerda: Teodósio Clemente de Gouveia, feito primeiro cardeal de Moçambique em 1946; Mouzinho de Albuquerque, figura militar da chamada “pacificação” na década de 1890; Gago Coutinho, que liderou a delimitação das actuais fronteiras de Moçambique e que ali conduziu missões hidrográficas; a mulher que estava na base do monumento a António Ennes; António Ennes, que teve a ideia peregrina de que Portugal não devia vender Moçambique aos britânicos e aos alemães; e a mulher (“Mãe Pátria”) que estava na base do monumento em memória de Mouzinho. As estátuas de Mouzinho e de Ennes foram premiadas com a sua colocação no Núcleo Museológico da Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, junto à Praça 25 de Junho, na baixa de Maputo.

EDITORIAL DO JORNAL “A VERDADE”, 13 DE SETEMBRO DE 2018

Filed under: Editorial de A Verdade 13.09.2018, Xiconhoca 1977 — ABM @ 1:44 pm

Palavras de ordem do Xiconhoca, 1977, um dos instrumentos da propaganda do então regime comunista de partido único e que manteria esse formato até final dos anos 80.

(Editorial do jornal A Verdade, 13 de Setembro de 2018, actualizado a 15 de Setembro de 2018, editado por mim, aludindo à próxima eleição autárquica, a realizar em Outubro de 2018).

A seriedade de um Governo também se vê nas suas acções prioritárias e, sobretudo, na sua preocupação com o bem-estar do seu povo. Há 43 anos, desde que Moçambique se tornou num país Independente do jugo colonial, o seu desenvolvimento continua a ser eternamente postergado por um grupo de indivíduos que se julga no direito de hipotecar o futuro dos moçambicanos em nome da suposta libertação da nação.

É óbvio que essa “canção” não passa de mais uma música para acalentar a população, enquanto eles prosseguem com as suas agendas de espoliar os moçambicanos. Um exemplo disso é o número de indivíduos ligados à Frelimo que detêm quase todos os recursos e controlam as riquezas do país.

A cada dia que passa, fica evidente para os moçambicanos que o Governo da Frelimo tem estado a apostar no atraso do país. É só olhar actual situação de Moçambique. Os índices de qualidade de vida continuam a deteriorar-se, a economia encontra-se numa situação lastimável e, ao longo de 43 anos, o país não conseguiu ser auto-sustentável na produção de alimentos. O país debate-se com défices notáveis em produtos que poderia produzir para o consumo interno e até ter excedentes para exportar, pois acostumou-se, nos últimos anos, a caridadezinhas, denominadas de ajuda externa, e a importar tudo que consome e, por isso, pouco ou quase nada foi feito para desenvolver a agricultura.

Quando surge uma oportunidade do Governo da Frelimo demonstrar a sua preocupação com as condições em que vivem os moçambicanos, o mesmo direcciona investimentos para sectores que não acrescentam em nada ao bem-estar do povo. Exemplo disso é a decisão do Governo de injectar, este ano, na rádio e televisão públicas, mais de 1 bilião de meticais. Claramente, trata-se de um investimento em propaganda para o partido Frelimo, visto que se aproximam as eleições. Não é novidade para os moçambicanos que a Televisão de Moçambique e a Rádio Moçambique não passam de órgãos de propaganda do Governo da Frelimo.

O mais caricato é que o Governo deixou o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC) a tentar desenrascar-se, em acções de emergências durante época chuvosa 2017/2018, com apenas 145 milhões meticais. Ninguém merece um Governo que não se importa com o sofrimento do seu povo. Portanto, esta é mais uma prova do descaso do Governo da Frelimo em relação à população moçambicana.

 

Nota:

“postergar” – verbo
1. transitivo direto: deixar de preferir; preterir, desprezar.
2. transitivo direto: não fazer caso; desprezar, menosprezar.
exemplo: “um governante que posterga até mesmo artigos constitucionais”

14/09/2018

DOCUMENTÁRIO COM E SOBRE SAMORA MACHEL

Filed under: Samora Moisés Machel — ABM @ 2:23 pm

Um documentário acrítico sobre a personalidade, as ideias e o contexto na era da ditadura samoriana. Todos aluados com o magnetismo carismático do líder do movimento guerrilheiro comunista e nacionalista que ia pôr os pontos nos iis no mundo e em particular no seu mundo. Em que se destacavam os intelectuais e alguns jornalistas estrangeiros, alguns, como John Saul, que até se retratava como “amigo de Samora” (e que continua a tocar na tecla de que foram os sul-africanos que mataram Samora). Mas a impensada retirada do poder colonial, como eu previa, provou ser o menor dos problemas. Em dez anos, Moçambique, em que Samora quis, entre outras preciosidades, ser o Nyerere do Zimbabué, estava de rastos e Samora em apuros. A sua morte física em 1986 assinalou apenas a imposição de uma nova Frelimo, a Frelimo Inc., genialmente inventada por Joaquim Chissano, que ainda persiste com enorme sucesso no final de 2018, ameaçando durar mais tempo que a infame ditadura de António de Oliveira Salazar – o tal que não aceitava descolonizar. A Frelimo, Inc. que ainda insiste no contraponto colonial para justificar os seus falhanços e escamotear a sua rapacidade. Basta ver quem manda e como manda.

 

SAMORA E RONALD REAGAN NA CASA BRANCA, 1985

Filed under: Samora e Ronald Reagan 1985 — ABM @ 4:53 am

Um ano e um mês antes de morrer num acidente de avião. Dois anos depois de se render aos Sul-africanos.

 

AS CANÇÕES DA FRELIMO, REUNIDAS

Filed under: Canções da Frelimo reunidas — ABM @ 4:25 am

Eu não acredito que alguém se deu ao trabalho de reunir aquelas canções todas que a Frelimo dos tempos de partido único, de tudo e de todos,  achava o máximo, mas aqui vai (segue a seguir vídeo com as canções):

0:00 Viva, Viva a FRELIMO (Long Live, Long Live FRELIMO)
0:34 A Internacional (The Internationale)
1:20 Hino da FRELIMO (Anthem of FRELIMO)
2:54 Unidade (Unity)
4:56 Avante, Povos Oprimidos (Forward, Oppressed Peoples)
8:13 Hino da Mulher Moçambicana (Himn of Mozambican Women)
10:56 Exaltemos Mondlane (We Exalt Mondlane)
13:16 Comemoremos o 25 de Setembro (We Commemorate the 25th of September)
16:04 Africa em Luta (Africa in Struggle)
19:38 Vinte e Cinco de Junho, 1962 (Twenty-Fifth of June, 1962)
21:54 Que Belo es Tu Moçambique (How Beautiful you are Mozambique)
25:05 Moçambique Ja Indepêndente (Mozambique is Independent)
26:33 Liberdade a Alegria (Freedom and Joy)
28:30 Somos Construtores do Moçambique Novo (We Are Builders of the New Mozambique)
30:57 Doctor Mondlane e Josina Machel (Doctor Mondlane and Josina Machel)
37:33 Josina
42:06 Saudamos Os Responsaveis (We Salute Our Leaders)
44:22 Continua a Dirigir a Nação, Pai Samora (Continue to Lead the Nation, Father Samora)
46:12 Viva a Conferencia da OMM (Long Live the Conference of the OMM)
49:00 Moçambique é Um Pais Tau Grande (Mozambique is a Large Country)
50:38 O Povo Presta Homenagem a Samora (The People Pay Tribute to Samora)
53:20 Custe o Que Custar (Whatever the Cost)
55:44 Seja Louvado o 25 de Septembro do 1964 (Praised be the 25th of September of 1964)
59:24 Moçambique, Nossa Terra Bendita (Mozambique, Our Blessed Land)

E ainda:

1. Myaka Khume (Ten Years)
2. A Tiku Leli Musambiki (Mozambique Is Our Country)
3. O Aviao Presidencial Foi Car Em M’buzini (The President’s Plane Crashed In M’buzini)
4. Liberdade A Alegria (Liberty Is Happiness)
5. Sonos Construtores Do Mocambique Novo (We Are The Builders Of A New Mozambique)
6. Docta Mondlane E Josina Machel (A song Celebrating The Heroes Who Fell In The Fight For The Nation’s Liberty)
7. Josina
8. Saudamos Os Responsaveis (We Greet Our Leaders)
9. Continua A Dirigir A Nacao, Pai Samora (Samora, Keep On Leading Us)
10. Viva A Conferencia Da OMM (Viva, Conference Of The OMM)
11. Mocambique E Um Pais Tau Grande (Mocambique Is A Big Country)
12. M’buzini
13. O Povo Presta Homenagem A Samora (People’s Homage To Samora)
14. Custe O Que Custar (However Much It Costs)
15. Chendjera Caetano
16. Seja Louvado O 25 De Septembro Do 1964 (We Sing Of September 25th 1964)

 

O CINEMA MOÇAMBICANO E A AUTOCRACIA PÓS-1975

Um espesso documentário de Margarida Cardoso, feito em 2003, sobre aquela maluqueira toda que se seguiu à maluqueira colonial. Tem umas cenas interessantes, outras divertidas e algumas coisas sobre a propaganda comunista e a arte do cinema a que estava associada. Uma espécie de cenário de Leni Riefenstahl – em cuecas. Mete tudo, desde a declaração formal de independência até Samora a meter-se com os sul-africanos na ONU e ainda o Rebelo e o Cabaço com aquele bla bla bla típico da era. E os cineastas, trinta anos mais tarde, a torcerem-se todos a tentarem explicar aquela porcaria toda. Até tem uns pós do Marcelino, a discursar em vestes militares. E a cena de chamarem “bandidos armados” aos filiados na Renamo (ainda chamam, mas agora em privado). E o funeral do grande líder contestado. Ah pois. Uma preciosidade. Um must.

 

WIRYIAMU, 1973

Filed under: Wiryiamu 1973 - documentários — ABM @ 3:28 am

Foi uma vergonha e uma barraca. No meio da guerra colonial, um bando de militares portugueses perde a cabeça e colectivamente massacra uma população indefesa numa localidade com este nome. Foi um evento totalmente atípico daquela guerra de “hit and run” em que basicamente se jogava pelo tempo. Mas segue-se um não menos escandaloso “cover up” pela hierarquia militar e pelo regime. Foi preciso um obscuro padre irlandês denunciar esta barbaridade em Londres. Este é mais um dos documentários do pai da Catarina Furtado, uma apresentadora da RTP. Ainda não percebi bem mas acho que nunca ninguém foi dentro por causa disto. Até hoje.

 

Outro documentário com o mesmo tema:

 

 

JORGE JARDIM

Filed under: Jorge Jardim - documentário — ABM @ 3:16 am

Este é mais um dos documentários do pai da Catarina Furtado, uma apresentadora da RTP, este sobre o Jorge Jardim, um homem das arábias que viveu e operou em Moçambique até pouco antes da independência. Quando vivi lá antes de 1975, pouco sabia dele e muito menos das suas manobras. Entre portugueses e a Frelimo, andou a perder tempo. Que não havia.

 

A CONSTRUÇÃO DE CABORA BASSA REVISITADA

Filed under: Cabora Bassa Revisitada — ABM @ 3:07 am

Este é um dos documentários do pai da Catarina Furtado, uma apresentadora da RTP, este sobre as circunstâncias da edificação duma barragem no rio Zambeze em plena “guerra colonial” e mesmo no meio do teatro da guerrilha. Tudo uma perda de tempo e de recursos. Vale a pena ver. Continuo a achar que alguém devia ter telefonado ao Dr. Mondlane, especialmente depois de Salazar cair da cadeira e antes de uns camaradas derem cabo dele. Mas enfim. Tem piada os moçambicanos entrevistados, quarenta anos depois de andarem a insistir que se diz “Cahora Bassa”, aparecerem aqui a dizerem “Cabora Bassa”.

 

LOURENÇO MARQUES, 1975: COMEÇA A GRANDE PALHAÇADA

Filed under: Documentário Lourenço Marques 1975 — ABM @ 2:55 am

Documentário feito em Lourenço Marques em 1975, quando começa a “revolução contínua” patrocinada pela liderança do bando guerrilheiro nacionalista que era a Frente de Libertação de Moçambique. Sendo hilariante e uma peça de propaganda primária, ilustra bem porque 200 mil portugueses e moçambicanos brancos saíram do país, “voluntaria e rapidamente”. E bem fizeram. Menos que três anos depois deste “documentário” ter sido editado, com grupos dinamizadores, brancos de serviço e tudo, iniciava-se uma guerra que faria a “guerra de libertação” parecer um picnic de crianças. 43 anos mais tarde, as estatísticas e a autocracia instaurada (que começa a parecer uma gerontocracia) indiciam os sucessos e os insucessos do percurso feito.

 

25/08/2018

QUEM NÃO É BENFIQUISTA NÃO É BOM CHEFE DE FAMÍLIA, 1963-4

Filed under: Eusébio, Mário Coluna — ABM @ 11:52 pm

A frase em cima, pensava ser atribuída a Americo Tomás, Presidente da República portuguesa entre 1958 e 1974. Mas não encontro qualquer referência específica a ele alguma vez tê-la proferido.

Dos membros aqui retratados, três foram verdadeiras estrelas que elevaram o desempenho deste clube aos píncaros e eram  originários de Moçambique, então uma “província” portuguesa. Costa Pereira era de Nacala (nascido em 22 de Dezembro de 1929), Coluna nasceu na pequena Ilha da Inhaca a 6 de Agosto de 1935 e Eusébio nasceu em Lourenço Marques a 25 de Janeiro de 1942.

 

A equipa de futebol do Benfica, vencedora da Taça de Portugal, 1963-4, posa para os fotógrafos com o Presidente da República de Portugal. De pé, da esquerda: Raúl, Cruz, Germano, Américo Tomás, Mário Coluna, Cavem e Costa Pereira, De joelhos: Simões, José Augusto, Torres, Eusébio e Serafim.

EÇA DE QUEIROZ E MOÇAMBIQUE, 1900

Filed under: Eça e Moçambique 1900, Eça e Moçambique 1900 — ABM @ 9:56 pm

 

“Para Africa, e em força!” parece ser o conselho do cônsul e o escritor Eça em 1899, o ano em que o Reino Unido discutia repartir Angola e Moçambique com os alemães e comprar (ou abarbatar) o Sul de Moçambique para completar o cerco aos Boers – povo que aliás submeteria a ferro e fogo nos três anos que se seguiram. Mas o facto é que, apesar do que os bem-cheirosos burgueses da capital portuguesa, corporatizados na Sociedade de Geografia de Lisboa, pensavam, nem sequer ocorria ao povão miserável e ignorante ir para África (iam para o Brasil e para a América, locais muito mais apetitosos, ainda hoje). O facto é que não havia dinheiro nem paciência nem gente para colonizar coisa nenhuma. Neste sentido, a putativa colonização portuguesa de África foi durante décadas uma quase ficção, especialmente em Moçambique. Havia lá um punhado de portugueses no imenso mar africano, a chatear e a tentar explorar os nativos, e pouco mais. E – precisamente- Eça não deixa de dar a sua farpazinha no sentido contrário da sua tese, que era pouco mais que wishful thinking, sugerindo que, em vez de África, se colonizasse e desenvolvesse o Alentejo português.

Um excerto de A Ilustre Casa de Ramires, publicado em 1900:

(Para descarregar o livro inteiro e assim ler no seu computador, prima aqui)

Um comentador que não sei quem é, escreveu o seguinte, aqui:

Publicado em 1900, o ano da morte de Eça de Queirós, o romance “A ilustre Casa de Ramires” representa o apogeu do estilo Queirosiano e, segundo os críticos, é aquele romance que melhor representa a sua maturidade inteletual.

É também uma das suas obras mais políticas, questionando a relação do Portugal do século XIX com o seu passado histórico e as suas responsabilidades de então. Tais conjeturas explicam-se pelo facto da obra ter sido escrita e publicada no meio de uma enorme instabilidade política e social. Vivia-se então no rescaldo do Ultimato Inglês e da agitação dos partidos republicanos que aproveitaram a baixa popularidade da Coroa para impulsionar os movimentos anti-monárquicos. Chegou inclusive a haver, a 31 de janeiro de 1891, no Porto, um levantamento militar contra a monarquia na qual os revoltosos tomaram os Paços do Concelho e, da varanda, proclamaram a implantação da república em Portugal, hastearam uma bandeira vermelha e verde e cantaram uma canção de cariz patriótico composta em reação ao ultimato britânico chamada “A Portuguesa” (que é atualmente o Hino nacional). Mas o movimento foi, pouco depois, sufocado por um destacamento da guarda municipal, resultando em 12 mortos e 40 feridos. Os revoltosos capturados foram julgados, tendo 250 sido condenados a penas entre os 18 meses e os 15 anos de degredo em África. “A Portuguesa” foi proibida.

Eça de Queirós sendo cônsul português em Paris e, portanto, parte integrante do poder monárquico vigente, não via com bons olhos este tipo de elevações sociais mas também não estava desatento ao descontentamento e inquietação social que se vivia no inicio do século XX. A mensagem da obra é pois notória: Eça proclama que deve ser a aristocracia a proporcionar os meios para a contenção e social o equilíbrio social apoiada nos valores do passado e no reforço do colonialismo. Esta posição ideológica nos seus romances marca também a distinção das outras fases literárias de Eça onde a crítica corrosiva e a ironia cáustica imperavam. Esta é uma obra de um Eça mais maduro, menos critico, mais optimista, com uma postura de maior esperança nos valores humanos e uma posição ideológica conservadora. De certa forma pode-se dizer que a escrita em Eça foi orientada de acordo com uma visão social que foi mutável durante a sua vida, ou seja, criticou quando achou que era altura de criticar e tentou acalmar consciências quando achou que é altura de apaziguar os ânimos.

 

A FIRMA QUE NUNCA PERDE VOLTA A GANHAR UMA ELEIÇÃO – NA SECRETARIA

Texto gentilmente cedido por João Cabrita, escrito em 25 de Agosto de 2018.

 

Veloso, Rebelo, Chipande, Marcelino, Samora, Chissano, Guebuza, Matsinhe e Machungo. Os Fundadores da Firma (menos os falecidos, os assassinados, os presos e os desacreditados) e sucedâneos da impia ditadura colonial, são orquestrada e ordeiramente adulados, à moda comunista da época, durante o Terceiro Congresso, em Maputo, 1977. Há 56 anos seguidos que é assim, com ligeiros upgrades de estilo e alguma substância em 1975, 1977, 1986 e1994. Para um comentário desportivo de João Cabrita sobre o mais recente episódio, este respeitando a próxima eleição autárquica e envolvendo nada menos que um Machel, e ainda um segmento do “diz que diz” do grande Savana (com vénia) ler em baixo.

 

A Família Machel: Vítima do Sistema que Criou, Defendeu e Ajudou a Consolidar

É ponto assente que o regime da Frelimo travou a candidatura de um membro seu [Samito Machel, filho do Pai] à presidência do Município de Maputo. A nível partidário, manobrou para que Samora Machel Júnior não constasse da lista de candidatos a seleccionar. Por meio da chantagem conseguiu que um punhado de subscritores da campanha eleitoral abandonasse a corrida. Depois, através dos habituais capangas de que dispõe na CNE [Comissão Nacional de Eleições] invalidou a candidatura. Se o lesado vier a recorrer ao Conselho Constitucional, o mais certo é este órgão dar aval à decisão da CNE, pois aí também conta com cumplicidades várias, a começar pelo respectivo presidente.

Mas toda a estrutura instrumentalizada que vicia e adultera o sistema eleitoral vigente, não surgiu agora, nem tão pouco foi propositadamente criada para lidar com a candidatura de um membro dissidente da Frelimo. Trata-se de um estrutura que provem do regime de partido único, instituído pelo pai do candidato em causa, defendido e promovido pelos seus pares – e familiares, e apontado por estes como exemplo a seguir. Um regime que começou por criar uma caricatura de sistema judicial, abolindo o exercício da advocacia privada em que os cidadãos ficaram à mercê de decretos e directivas emanadas do poder político; alterando códigos jurídicos a seu bel-prazer para que se ajustassem à justiça revolucionária, apresentada como ‘rica experiência’ de zonas libertadas; transformando antigos combatentes em juízes de instâncias superiores como o TMR [Tribunal Militar Revolucionário] que mandava para o paredão pessoas sem direito a defesa; manietando ou comprometendo juristas. Em suma, estruturando o Estado e a sociedade à imagem e semelhança do sistema totalitário que impôs à Nação.

É este aparelho judicial que deu e continua a dar cobertura a fraudes e vigarices de toda a espécie. A PGR ou protege quem viola a Constituição ou escuda-se no princípio do segredo de justiça para travar processos e investigações. Um aparelho que desde 1994 tem vindo a legitimar fraudes eleitorais em benefício do próprio regime.

Não há memória que a família Machel se tenha alguma vez insurgido contra este estado de coisas. Ela fez sempre parte do sistema que criou, defendeu e ajudou a consolidar a situação que hoje prevalece. Nunca veio a terreiro condenar as sucessivas burlas eleitorais, ou a solidarizar-se com os defraudados. Como parte do regime, interpretou disputas eleitorais decorrentes da fraude premeditada como simples querelas entre maus perdedores, concretamente entre a Renamo e uma formação política supostamente gloriosa, quando na realidade tratou-se sempre de uma questão de oposição e regime, pois quando os maus perdedores não concorreram, foi a vez do MDM a denunciar a mesma fraude.

Hoje, a família Machel é vítima desse sistema, em moldes escandalosamente evidentes, como os registados desde 1994. Se ontem condenava a Renamo por recorrer à força para reclamar direitos legítimos, hoje apoiantes da candidatura de Samora Machel Júnior surgem em redes sociais a fazer o mesmo; ou pelo menos ameaçam que irão ao ‘focinho’ dos que ‘mexerem na candidatura de Samito’, excluindo, assim, a hipótese de recurso a tribunais que sabem de antemão ser via inconsequente.

Situações destas permitem ainda que se assista às tradicionais demonstrações de hipocrisia, mormente da parte de conhecidos comentadores, nacionais e estrangeiros, ambos acampados em Maputo e que anos a fio tentaram impingir gato por lebre, alegando que ‘as irregularidades registadas em processos eleitorais não alteram significativamente os resultados finais’. Hoje, põem de lado a ladainha repetida ad nauseam desde 1994, insurgindo-se contra a CNE. A ver vamos o que têm a dizer do Conselho Constitucional.

(fim)

O Diz Que Diz do Savana de 24 de Agosto de 2018, página 28.

15/08/2018

SAMORA MACHEL VISITA CABORA BASSA, MAIO DE 1975

Estas imagens são parte do trabalho do fotojornalista holandês Frits Eisenloeffel, exibido aqui e reproduzido com vénia, pela sua importância histórica. (nota: o copyright das imagens é da Sra Immeke Sixma, viúva de Frits).

A visita ao Songo ocorreu em Maio de 1975, creio que inserida na “Marcha do Rovuma ao Maputo”, que antecedeu a declaração formal da independência da colónia portuguesa, em 25 de Junho desse ano, na capital em Lourenço Marques.

Se algum dos Exmos. Leitores conhecer alguém não mencionado aqui, ou conhecer este evento, peço que escreva uma nota para aqui.

Marcelino dos Santos e Samora Machel, então respectivamente  Vice-Presidente e Presidente da Frente de Libertação de Moçambique, falam com um (penso) quadro superior do empreendimento de Cabora Bassa.

Marcelino e Samora.

Marcelino e Samora.

A comitiva da Frelimo visita a barragem, então na fase final da obra.

Marcelino e Samora, durante um discurso perante os trabalhadores e famílias no Songo.

 

Sebastião Mabote, Marcelino e Samora.

 

A assistência 1.

 

A assistência 2.

 

Samora superstar.

 

Samora.

25/06/2018

SOBRE O 56º ANIVERSÁRIO DA FRELIMO

Filed under: 56º aniversário da Frelimo, Eduardo Mondlane — ABM @ 9:41 pm

Em 56 anos, um balanço. Na língua oficial de Moçambique.

 

1962. A antítese colonial.

 

2018. A antítese pós-colonial.

 

Eduardo Mondlane, opus cit

01/06/2018

PICCANINNIES VEM DE PEQUENINOS?

Filed under: Pickanninny ou Pequenino — ABM @ 11:21 pm

Hoje, 1 de Junho de 2018, é assinalado como o Dia Internacional da Criança. Nem de propósito, um Exmo. Leitor Especial contactou-me para apontar algo que eu já havia lido mas que na altura não fazia a mínima ideia do que significava.

Veja o Exmo. Leitor estas imagens de Lourenço Marques e da Beira, no início do Séc. XX, e em especial as legendas.

 

Postal de Lourenço Marques, início do Século XX. A tradução inglesa refere-se às crianças na imagem como piccaninnies.

Picc article Beira.jpg

Postal da Beira

Picc Article Lazarus

Postal dos Lazarus, Lourenço Marques.

Confesso que nunca tinha ouvido falar deste termo, picaninies, que surge aqui num dos postais como tradução para “crianças indígenas”. Mas mesmo aí supus que não tivesse significado ou conotação especial.

Mas nem sempre é assim. O termo inglês/boer kaffir, em português “cafreal”, que penso que inocentemente, no caso português, descreve um não cristão, e que sobreviveu quase inocentemente na culinária moçambicana como uma forma de grelhar frangos (a galinha à cafreal do Piri-Piri em Lourenço Marques era famosa), na vizinha África do Sul tanto afectou a maioria negra pela sua natureza insultuosa e uso pelos brancos locais (supostamente, os boers), que, após o fim do regime de minoria branca em 1994, a sua utilização foi decretada crime com direito a prisão e tudo.

Em vários postais de Moçambique da primeira fase da era colonial africana, invariavelmente a tradução para o termo “indígena” ou “preto”, é kaffir.

No primeiro caso, o tal de piccaninny, como me enganei quanto ao seu significado. Como felizmente hoje pode-se fazer uma consulta rápida na internet, digitei a palavra “piccaninny” e descobri que:

  1. em quase todo o mundo anglófono, incuindo os Estados Unidos da América, a Austrália e Nova Zelândia, é um termo considerado profundamente ofensivo e racista, pelos visados, e é geralmente dirigido a não-brancos;
  2. Em vários países (muitos outros, incluindo vários países africanos, das Caraíbas, etc) o termo piccaninny parece manifestar-se de várias formas;
  3. poderá ter origem na palavra portuguesa “pequenino”, que no Século XIV se escrevia “pequeninno”. Há quem refira que a origem possa ser na língua castelhana. Entre uma e outra versão, penso que a origem portuguesa poderá ser mais credível, se bem que, quem como eu, constata esta situação pela primeira vez, surpreende pela (longa e complexa) evolução etimológica, numa língua estrangeira, de um significado à partida aparentemente inocente, para um insulto racista. Há evidências, no Século XVIII nos Estados Unidos, de o termo significar, literalmente, qualquer coisa pequena, não apenas crianças. Mas esse significado eventualmente perdeu-se. Ficou o insulto. Na língua portuguesa, definitivamente, pequenino não retém estas comotações.

Tão recentemente como há dois anos, quando Boris Johnson, o actual e algo estapafúrdio ministro dos negócios estrangeiros do Reino Unido, terá proferido a palavra algures , daí resultou uma verdadeira tempestade de críticas e acusações de racismo.

Isto porque, descobri, o tal termo “piccaninny”, é usado há centenas de anos no mundo anglófono para rotular essencialmente, por britânicos (e americanos e afins) miúdos não brancos, depreciativamente.

Se de facto o termo teve origem na língua portuguesa (falta fazer esse estudo pelos entendidos nesta língua, que pelos vistos estão a dormir) há quinhentos anos, seria uma improvável herança dos tempos em que os portugueses andavam por aí no mundo a descobrir sítios para fazer negociatas e tentarem enriquecer depressa.

Pessoalmente, não tenho a impressão que esses portugueses antigos fossem particularmente racistas, no sentido em que tal seria, obviamente, mau para os negócios nem o registo das primeiras sortidas pelo mundo o comprova. Aliás, sendo entre os primeiros europeus a chegarem a tantos lugares pelo mundo, deve ter sido qualquer coisa de insólito aquilo que viram e aquilo com que tiveram que lidar, sem terem, inicialmente, qualquer preparação para tal. Eram, notoriamente, adversários de muçulmanos, que aliás reciprocavam à letra em relação aos cristãos. Mas isso era comum em quase toda a Europa desde o fim da Idade Média, a braços com uma guerra religiosa – e comercial – que duraria centenas de anos e que, segundo alguns, ainda não está totalmente resolvida.

O significado último da abertura da rota marítima para a Índia e o Oriente em redor de África foi que assim foi neutralizado o “bloqueio” do Médio Oriente muçulmano entre a Europa e aquela parte do mundo. Os portugueses simplesmente cortaram o papel intermediário dos árabes e muçulmanos e ganharam fortunas incontáveis no processo (quase tudo desperdiçado pelas elites em guerras, porcarias e na boa vida). A partir daí a experiência descambou para, em muitos casos, o aproveitamento das estruturas da escravatura que encontraram em África (que eram, note-se  quase exclusivamente africanas e árabes muçulmanas), a exploração de sociedades ainda fragmentadas em tribos, primitivas e tecnologicamente inferiores e a pilhagem organizada, pura e dura.

Tirando a extracção do ouro do que é hoje o Brasil, os portugueses não enriqueceram particularmente com a coisa. Os verdadeiros campeões foram os britânicos, os holandeses, os franceses, os espanhóis os belgas e as comunidades judias. Pois foi desta longa e vasta investida para fora da Europa que se constituíram as bases para o surgimento do que veio a seguir: a criação de uma enorme reserva de riqueza, a formação das estruturas do capitalismo, da exploração científica e da acumulação do conhecimento que eventualmente estiveram na génese de, inicialmente no Reino Unido, da Revolução Industrial.

E do mundo que temos hoje.

 

 

13/05/2018

A TERRA EM MOÇAMBIQUE É DO POVO E NÃO PODE SER VENDIDA

Filed under: A Terra Não Pode Ser Vendida em Moç — ABM @ 7:25 pm

Uma página no portal do governo de Moçambique refere o seginte:

Entretanto, vejo este anúncio num site de vendas de Moçambique:

Anúncio que li no OLX Moçambique de final de Março de 2018, para a venda de um hectare de terreno no Aterro da Maxaquene por 12 milhões de dólares, negociável.

O PROCESSO CONTRA MANUEL VICENTE EM PORTUGAL TRANSFERE PARA ANGOLA

Filed under: Manuel Vicente 2018 — ABM @ 7:06 pm

 

Manuel Vicente.

 

Editorial do diário lisboeta Público, assinado por David Dinis, 11 de Maio de 2018, depois de ser conhecida a decisão, por um tribunal em Lisboa, autorizando a transferência, para um tribunal angolano, do processo contra Manuel Vicente, ex-Vice-Presidente de Angola, por corromper um magistrado português, pagando-lhe 760 mil euros para arquivar outro processo. O processo contra o magistrafo, que se chama Orlando Figueira, prossegue entretanto em Portugal. Existe em Lisboa a expectativa de que a seguir portugueses e angolanos caiam nos braços um dos outros e que o futuro comum seja novamente róseo.

O QUE DISSE MARIA BARROSO

Grato ao MCB e à CC.

Samora e Graça Machel, o então casal presidencial da República Popular de Moçambique, recebem Mário Soares, então primeiro-ministro de Portugal, e a sua mulher Maria Barroso, no Aeroporto de Mavalane em Maputo, sexta-feira, 31 de Agosto de 1984, para uma visita oficial de quatro dias. O bit de trivia acontecido no fim dessa viagem segue em baixo.

 

O episódio relatado a MCB pela grande Maria Barroso, nos anos 90.

08/05/2018

DHLAKAMA DELENDA EST

Filed under: Afonso Dhlakama 1953-2018 — ABM @ 12:50 am

Eles sempre acharam que, algum dia, de alguma forma, depois de tentarem tudo e mais alguma coisa, sem nunca desistirem, haveriam de conseguir.

 

Afonso Dhlakama, 1 de Janeiro de 1953 – 3 Maio de 2018.

 

A resposta vem doutro tempo, doutro contexto.

20/04/2018

O CASO EMATUM DE JOSÉ SÓCRATES

Filed under: José Sócrates, O CSO Ematum de Sócrates — ABM @ 1:39 am

O Ministério Público português agiu.

17/11/2017

O PLANO 8 DE SETEMBRO

Filed under: O Plano 8 de Setembro — ABM @ 1:49 am

Talvez o episódio mais mal contado da história mais mal contada, relacionada com a entrega, pelas então autoridades portuguesas (essencialmente, os militares que mandavam em Portugal na sequência do golpe de Estado militar ocorrido em 25 de Abril de 1974) do poder central à Frente de Libertação de Moçambique, no dia 20 de Setembro de 1974, foi o que aconteceu a seguir. Essencialmente, os líderes da guerrilha e o governo então empossado em Lourenço Marques, ressabiados pelo que sucedera na Cidade durante quase uma semana, principiaram um processo deliberado de assédio, de perseguição, de confisco e de desconfiança total, visando a sua saída do então ainda território português. Para além de tudo o mais, e que não era pouco, a “revolta radiofónica” em Lourenço Marques, nas suas mentes, “provara” que os portugueses e os brancos de Moçambique nunca poderiam e nunca seriam de confiar. E nunca serviriam (nisso acredito que correctamente) nem alinhariam com o que estariam a planear fazer em seguida no nascente país. Portanto, a perseguição que lhes foi movida, a todos os níveis, de todos os quadrantes, foi uma política deliberada, para os forçar a irem embora, preferencialmente sem nada.

A todos os títulos, a política adopstada foi um sucesso duradouro. A saída dos brancos e portugueses de Moçambique foi maciça, propiciando o colapso da economia e lançando Moçambique para o futuro atribulado que se seguiu.

As autoridades portuguesas a tudo assistiram imperturbadas.

Com vénia a um blogue que visitei recentemente, cito uma peça saída no jornal O País (Maputo) em 23 de Abril de 2009, em que, reportando-se a uma peça da Lusa, refere, na primeira voz, as impressões colhidas por um alto diplomata soviético que testemunhou as ocorrências no local e na altura.

A visão Soviética da expulsão dos Portugueses em 1975: “Samora tratou os portugueses de forma dura”

Diplomatas soviéticos, que deram início às relações diplomáticas entre a URSS e Moçambique, criticaram a política de Samora Machel face à população portuguesa branca, sublinhando que, nesta área, o antigo presidente moçambicano se comportou de forma semelhante ao ditador soviético José Estaline.

“De forma dura, tal como Estaline, foi como Samora Machel tratou os portugueses que viviam em Moçambique. Muitos deles receberam com entusiasmo os combatentes pela independência, quando entraram em Lourenço Marques, e estavam prontos a cooperar de todas as formas com a Frelimo”, escreve Piotr Evsiukov, primeiro embaixador soviético em Moçambique, em “Memórias sobre o trabalho em Moçambique”.

Também aqui se revelou o extremismo de Samora Machel.

“Samora apresentou aos portugueses condições tais de cidadania e de residência em Moçambique de modo a que, na sua esmagadora maioria, eles se sentiram obrigados a abandonarem o país. Com a fuga dos portugueses, a economia de Moçambique entrou em declínio”, recorda.

Piotr Evsiukov revela que Samora Machel era um convicto admirador de José Estaline. “Samora Machel falou-me várias vezes do seu apego e respeito por José Estaline. Durante a visita oficial de uma delegação de Moçambique à URSS, Samora Machel terminou a viagem na Geórgia [local de nascimento de Estaline]. Depois das conversações com Eduard Chevarnadzé, Sérgio Vieira, membro da direcção da Frelimo, veio ter comigo e pediu-me, em nome do presidente, para arranjar um retrato de Estaline. Claro que os camaradas georgianos satisfizeram o pedido com agrado”, escreve Evsiukov.

Arkadi Glukhov, diplomata soviético que chegou antes de Evsiukov para abrir a embaixada da URSS em Lourenço Marques, escreve: “Após o fim da segunda guerra mundial, Lisboa, tendo diante de si os exemplos da queda dos impérios coloniais da Inglaterra e da França, enveredou pela via da reforma intensa do seu sistema colonial, nomeadamente no campo das relações entre raças da política social e cultural“.

Tudo isso foi levado à prática na chamada política de ‘assimilação’, cujos rastos sentimos com evidência quando chegámos a Moçambique”. Porém, continua o diplomata soviético, “esses rastos começaram a desaparecer rapidamente, principalmente depois da entrada em Lourenço Marques das unidades militares da Frelimo e da intensificação das medidas e de todo o tipo de limitações (frequentemente inventadas) contra a população portuguesa, não obstante, em geral, ela ser leal e estar pronta a cooperar com os novos poderes”.

Segundo Glukhov, “no fim de contas, isso levou à partida em massa dos portugueses do país, o que se reflectiu de forma grave na sua vida económica e aumentou a tensão nas relações entre raças”.

08/11/2017

100 ANOS DE INFÂMIA E 50 ANOS DE MOÇAMBIQUE

Completam-se hoje – dia 7 de Novembro de 2017 – cem anos em que, num golpe palaciano, o radical comunista russo Vladimir Lenine assumiu o controlo do império russo e instaurou uma ditadura comunista. Esse regime, que praticaria as mais inenarráveis barbaridades, viria a durar, formalmente, cerca de 73 anos e a sua história divide-se em duas partes. A primeira, decorre desde este golpe até ao final da II Guerra Mundial, sendo nesta fase o alvo das atenções da ditadura comunista os povos do antigo império russo. A segunda, decorre desde o final da II Guerra Mundial e estende-se até ao final dos anos 80, quando o regime finalmente implodiu, sendo no entanto substituído pelo que parece ser um novo regime autoritário.

É na segunda fase do percurso comunista soviético que a coisa se torna verdadeiramente interessante para o resto do mundo. Tendo abocanhado metade da Europa à laia de espojo de guerra, a União Soviética, uma formidável e mortífera máquina de repressão, acha em si a motivação para confrontar o Ocidente, até então o dono virtual de quase tudo (exceptuando os Estados Unidos, a então nova superpotência) ferido de morte pela evolução das sociedades e pela quase absoluta devastação de duas guerras fratricidas no espaço de 30 anos.

Começou pela Ásia, onde, providencialmente, já decorria uma longa guerra civil entre Mao e Chiang, vencida pelo primeiro em 1949. Seguiram-se muitas outras oportunidades de “libertar” povos, frequentemente com o apoio de países que já constituíam – seguindo o rito soviético – “zonas libertadas da humanidade”.

África – e Moçambique – não seriam excepção. Mas os soviéticos (e, depois, os chineses) chegaram relativamente tarde. Em meados dos anos 60, bem ou mal, a maioria dos países africanos já era nominalmente independente.

Excepto, notavelmente, os territórios sob administração portuguesa, administração essa, por sua vez, sob o controlo de um regime curiosamente autoritário e de partido único, sob a gestão uninominal do sublime e enigmático Dr. António de Oliveira Salazar, para quem o desígnio nacional passava precisamente por deter essas colónias, no que, à primeira vista, parecia ter o suporte dos portugueses. Mas não se sabe bem pois não havia muito debate sobre o assunto. Era uma ditadura e quem não concordasse ia dentro.

Pesem os relatos mais ou menos dourados que agora está na moda citar, os primeiros independentistas moçambicanos eram mulatos aburguesados dos arredores de Lourenço Marques, nos anos 20 e 30, cultos e abertos ao mundo, que claramente viam o que estava para vir. Ficaram os escritos, os poemas e os relatos.

Na segunda metade dos anos 50, começou a efectivamente a história moderna de Moçambique independente, quando um punhado de activistas negros de Moçambique se mobilizou para constituirem grupos de pressão com o objectivo de concretizarem a almejada independência, numa altura em que era por demais evidente que os anos 60 seriam a década das independências e que de repente já havia dinheiro para estas coisas. Até os americanos limparam a toalhinha imperial e se lembraram que também foram uma colónia e que tinham algures no seu DNA uma matriz anti-colonial. Mas, por mais bem intencionados que fossem, a maioria eram grupos regionais, tribais, étnicos, metade do tempo chocavam uns com os outros e aquilo simplesmente não funcionava, para delírio do regime português, uma vez que Salazar obviamente achava que iria levar mais 200 anos para se atingir a “maturidade”, como supostamente levou o Brasil, mais ou menos um Bragança. Até para os regimes comunistas (por sua vez racistas inveterados mas encapotando tudo sob a áurea ideologia socialista) que viam no fenómeno do desmoronamento dos antigos impérios europeus uma oportunidade dourada para conquistar terreno e influências, a conflitualidade era ingerível, tornando quase inexequíveis esquemas de apoio a uma guerrilha.

Importa realçar que a independência de Moçambique tem três figuras incontornáveis, apenas, e nesta ordem: 1. Julius Nyerere; 2. Marcelino dos Santos; e o Dr. Eduardo Mondlane.

Nyerere

Julius Nyerere é pouco estudado, infelizmente, pois é uma figura paradigmática no que concerne o seu país e em relação a Moçambique. Muito do que sucedeu à Frelimo se deve à sua perspectiva e intervenção – e tiques ideológicos. Primeiro uma colónia alemã e depois britânica, entre 1919 e 1962, Nyerere era um professor quando ascendeu à liderança do Tanganhica em Dezembro de 1962. Já antes liderava o principal movimento pela independência, que lhe foi fleugmaticamente entregue pelo último governador e a sua mulher (há um filme excelente desse dia na internet). Na altura, já andavam várias pessoas e “movimentos” pelo Norte (no Sul estavam os Rodesianos e os Sul-Africanos, pouco predispostos a suportar independências africanas). Durante algum tempo, Nyerere assistiu à cena enquanto tentava ligar-se a Zanzibar, e basicamente impôs a ideia que um movimento em favor da independência do território vizinho teria que ser só um. Sendo a Tanzânia o santuário desse movimento, ele podia impôr as regras.

Mas faltava um líder.

Julius Nyerere preside a uma reunião em Dar, em 1974, aquando da visita de um grupo de notáveis de Lourenço Marques. À esquerda vê-se Samora e o Sr. José Craverinha, à direita Marcelino e Malangatana.

E não havia um, apesar de já se conhecer Mondlane, uma lenda num país de essencialmente camponeses analfabetos e desesperadamente pobres.

(Nyerere gastaria os anos 60 e parte dos anos 70 com teorias comunizantes como a Ujamaa e flirts dictatoriais).

Mondlane

Nessa altura, Eduardo Mondlane, que se educara a pulso com o apoio da Missão Suíça, entre outros, tinha 40 anos, casara com uma americana branca meio pimba (casamentos entre raças naquela altura eram um evento, especialmente nos Estados Unidos, onde o casal vivia). Era um professor universitário com uma vivência americana e parecia inclinado para fazer uma vida pacata com a sua Janet.

Mas dois eventos alterariam isso radicalmente.

O primeiro foi o impacto, em Eduardo, de uma visita que fez a Moçambique em 1961 (ele era de Manjacaze, um bastião com memórias vívidas das derrotas do tempo de Mouzinho). Se para a pequena comunidade branca e portuguesa a sua passagem foi notada (ele foi o primeiro negro de Moçambique a doutorar-se) a comunidade mulata e negra ficou siderada. Alto, belo, corajoso, erudito – e um deles. Este era o líder que faltava.

O Dr. Eduardo Mondlane. Um intelectual e um académico.

Mas Eduardo não estava convencido que isso era o que queria fazer na vida. Na altura ainda não se falava em guerra mas a perspectiva de passar anos a tentar tirar teimas com o regime português, que dava todos os sinais de querer resistir a sequer discutir autonomia, não lhe parecia ser o melhor plano. Ainda assim, com algum mexer dos cordelinhos por parte de alguns padrinhos americanos “progressistas” que nele viam o potencial de vir a liderar uma nova nação em África, arranjou um emprego na ONU em Nova Iorque.

Segundo o próprio Nyerere – e este foi o segundo evento seminal – é precisamente durante uma visita de Julius Nyerere a Nova Iorque para reuniões anuais, que eles se encontram e Nyerere desafia Mondlane para liderar uma organização unificada de moçambicanos, baseada no seu país. Mondlane aceita ir a Dar es Salaam para ver se está interessado. O resto é história.

Marcelino

Não questionando os sentimentos nacionalistas de ninguém, a meu ver “o” primeiro moçambicano “de gema” foi Marcelino dos Santos. Marcelino foi realmente o primeiro a articular a gíria da independência, o primeiro a pressintir ser aquele o momento histórico para agir, pois enquanto os “outros” futuros líderes seguiam percursos mais ou menos convencionais, ele, que nascera e crescera em Lourenço Marques, filho dum casal remediado, foi parar a Paris no início dos anos 50. A sua experiência, conhecimentos e contactos, adquiridos na capital francesa, seriam de valor incalculável no futuro. Ele não só tinha a visão estratégica mas também os contactos e a forma de chegar à logística para de facto fazer alguma coisa. E fazer fez.

Marcelino poderia e deveria, por mérito próprio, liderar directamente o combate para a independência, quer diplomaticamente, quer no terreno (ele era fisicamente corajoso, algo que o Dr. Mondlane simplesmente não era). Mas tinha um problema insanável: era mulato (casado com uma sul-africana branca e judia de Joanesburgo, a encantadora Pamela) o que era quase universalmente tido como um obstáculo intransponível para um movimento que pretendia galvanizar um país cuja população era 98% negra e cujos membros de base eram todos negros. A raça com que nascemos tem estas coisas. Durante todo o seu longo percurso político, apesar de ser o cérebro do movimento, Marcelino será o eterno Número 2. Mas um Número Dois Imprescindível. Aceitou a liderança de Mondlane e mais tarde, com o apoio do então jovem Joaquim Chissano, orquestrou a ascendência de Machel, na sequência do (a meu ver) inexplicável e suspeito assassinato do Dr. Mondlane.

Alberto Chipande e Marcelino durante os bons velhos tempos da ditadura comunista de partido único, em que se mandava matar pessoas e se legislava por decreto. Marcelino está no fim da vida. Chipande ainda é hoje um kingmaker.

Marcelino tinha outro aspecto que o distinguia: era tanto como nacionalista como um professo e implacável comunista da velha escola, o que, de facto, o favorecia: historicamente, os países comunistas foram aliados sólidos da luta anticolonial. Mondlane não era anti-comunista no sentido em que tinha que engolir sapo após sapo para obter a ajuda “oferecida” pelos países comunistas, de que necessitava desesperadamente, mas de resto, efectivamente, preferia mil vezes liderar uma Frelimo suportada pelo Ocidente e pelos americanos, num contexto de implantação de um regime supostamente mais convencional e – digamos – democrático. Só que os americanos, a partir mesmo de Kennedy, driblados por Salazar com as Lajes, cortaram-lhe as pernas. Ainda assim, a mulher dele, Janet, fez os impossíveis para obter ajuda não militar dos países escandinavos, especialmente da Suécia, com algum sucesso.

Mas fez pouca diferença. Na verdade, quem pagava a conta da guerrilha, quem formava os quadros, quem controlava as coisas, quem impunha a disciplina e vendia a ideologia, eram os países da órbita soviética e chinesa. Com Marcelino a promover os contactos e (presumo) a gozar com os “amigos” de Mondlane, que falavam muito e bem mas nada faziam em relação aos portugueses e limitavam-se a dar umas bolsinhas de estudo, era uma questão de tempo até que acontecesse uma situação em que Mondlane ficaria isolado na sua perspectiva. Em 1969, ideologicamente, a Frelimo tornou-se efectivamente uma organização com uma matriz marxista-leninista, que foi a base ideológica de tudo o que veio a acontecer a seguir.

Em 1974, o Ano Zero da Independência para a Frelimo, independência e comunismo eram sinónimas. O nascente país saíria directamente de uma ditadura colonial para uma ditadura comunista primária, com toda a linguagem, folclore e instrumentos repressivos associados.

E isso traz-nos de volta ao início deste artigo. Muita gente ainda não distingue entre um país se tornar independente e o regime sob o qual ascende a essa independência. Claramente, ela existe. E se por um lado os apoios dos países comunistas apressaram ligeiramente o momento da sua independência, ela veio contaminada por uma ideologia, e as instituições a ela associados, que causaram danos de proporções titânicas a um povo já de si empobrecido e pouco apto a enfrentar os desafios da modernidade. Após uma série de guerras, de uma guerra civil que matou um milhão de pessoas e destruiu as vidas de milhões, e de variadas reformas tendentes a devolver a Moçambique às supostas práticas normais de qualquer país, a herança da estrutura mental do comunismo permanece e pesa sobre toda a nação moçambicana, mantendo-se na prática a dialéctica política do exercício do poder via um partido único e a ausência “activa” do mero conceito de pluralismo. Moçambique hoje é um dos países mais pobres do mundo, com um curioso punhado de ricos, metade indianos, metade membros da nomenclatura da Frelimo.

Penso que, apesar das diferenças, nem Mondlane nem Marcelino alguma vez sonhariam que as coisas iriam acabar assim.

 

26/10/2017

PRINCE MASHELA REFLECTE SOBRE A ÁFRICA DO SUL E ÁFRICA, 2016

Filed under: Jacob Zuma, Prince Mashela e Zuma — ABM @ 1:51 am

Jacob Zuma, o actual presidente da África do Sul.

O texto que se segue é da autoria de Prince Mashela, um interessantíssimo intelectual sul-africano (um xitsonga natural de Mpumalanga) e foi publicado no sítio na internet do jornal Sul-africano The Sowetan em 9 de Maio de 2016.

O Centro para a Política e a Pesquisa (CPR), uma organização sul-africana, descreve assim o autor, que é o seu actual Director Executivo:

Prince Mashela holds a Master’s Degree in Political Science from Rhodes University, South Africa. Before becoming Executive Director of CPR, he was Head of Crime, Justice and Politics Programme at the Institute for Security Studies. He also worked as a speechwriter in The Presidency, and also in the research unit of the Institute for Democracy in South Africa. Prince cut his teeth as a researcher at the Institute for Global Dialogue, where he spent time analysing a range of areas on contemporary African politics. He is a prolific writer on a multiplicity of issues, and he is a sought-after analyst.

O artigo focaliza na actuação e atitude do actual presidente sul-africano, Jacob Zuma, mas também do eleitorado sul-africano.

Aqui, a minha tradução do artigo, a primeira vez que pode ser lido em língua portuguesa, seguida pelo texto original,  que Prince Mashela escreveu em inglês:

ÁFRICA DO SUL FINALMENTE AFRICANA, GRAÇAS A ZUMA

No meio da confusão política que tem cativado a atenção do nosso país, muita gente se tem interrogado se nós chegámos ao fim da África do Sul.

A resposta é simples: aquilo a que se chama um “fim” não existe, não quando nos referimos a um país. A África do Sul vai continuar a existir muitos anos depois de Jacob Zuma se ter ido embora.

O que Zuma fez foi fazer-nos constatar que o nosso é apenas mais um país africano, não aquele país excepcional situado no extremo Sul do continente Africano.

Durante os mandatos de Nelson Mandela e de Thabo Mbeki, alguns, entre nós, costumavam acreditar que o povo negro da África do Sul era melhor que o dos outros países Africanos.

Nós temos todos que agradecer a Zuma por nos revelar o nosso verdadeiro carácter africano; que a ideia de que a força das leis [rule of law] não faz parte daquilo que somos, e que o constitucionalismo é um conceito muito distante de nós enquanto Povo. Senão como é que nós conseguiríamos explicar as milhares de pessoas que enchem estádios inteiros para aplaudir um presidente que violou a constituição do seu país? estas pessoas não fazem ideia do que é o constitucionalismo.

Agora que nós conquistámos o nosso estatuto de sermos apenas mais um vulgar país africano, temos que reflectir e lidar com a realidade desse nosso verdadeiro carácter, e imaginar como é que o nosso futuro será.

Num país Africano típico, o cidadão médio não espera muito dos seus políticos, porque se cansa das repetidas promessas que não são cumpridas.

Num país Africano típico, as pessoas não têm quaisquer ilusões quanto à simbiose entre moralidade e boa governação. O povo sabe que aqueles que detêm o poder, utilizam-no para seu proveito próprio e para o dos seus amigos e familiares.

O conceito de que o Estado é um instrumento para apoiar o desenvolvimento do Povo é um conceito Ocidental, e que tem sido copiado por alguns países Asiáticos.

Os Africanos e os seus líderes não gostam de copiar nada do Ocidente. Ficam felizes de permanecerem Africanos e de fazerem as coisas “à moda Africana”.

Fazer as coisas à moda Africana significa o uso autocrático do poder por reis, chefes e indunas, à base de regras que não estão escritas em papel. Já alguém alguma vez viu um livro de leis tradicionais Africanas?

A ideia que um cidadão comum possa expressar dúvidas ou pôr em causa os dinheiros públicos gastos na casa de um rei ou chefe, não é Africana. Os membros do ANC no Parlamento Sul-Africano e que têm defendido Jacob Zuma são verdadeiros Africanos.

Exigir-se que um líder preste contas é um conceito estrangeiro – Ocidental. Numa situação em que haja conflitos entre o líder e as leis do País, os Africanos simplesmente mudam as leis, para proteger o líder. É por isso que não há um único branco que tenha exigido que o Rei Dalindyebo fosse libertado da prisão.

O problema com os “pretos espertos” é que eles pensam que vivem na Europa, onde os conceitos da democracia foram afinados ao longo de séculos.

O que nós temos que fazer é regressar à realidade nua e crua, e aceitar o facto que o nosso é um típico país Africano. Esse retorno à realidade vai-nos proporcionar uma perspectiva aproximada de como parecerá o futuro da África do Sul….

Este país não se parecerá muito com a Dinamarca. Possivelmente, será mais semelhante à Nigéria, onde os activistas contra a corrupção são a excepção.

Sendo o nosso um país Africano, não se parecerá com a Alemanha. A África do Sul poderá assemelhar-se mais com o Quénia, onde o tribalismo é o factor central nas disputas políticas.

As pessoas não podem alimentar a ilusão de que o dia chegará quando a África do Sul se parecerá como os Estados Unidos da América. O nosso futuro será mais como o do Zimbabué, onde um líder detém mais poder que todo o resto da população junta. Mesmo que Julius Malema viesse a ser presidente, ainda assim seria a mesma coisa.

Os líderes Africanos não gostam da ideia de haver uma população educada, pois é difícil governar gente inteligente. Os próprios Mandela e Mbeki foram corrompidos pela educação Ocidental (Confissão: este colunista também foi corrompido por essa educação). 

Zuma permanece Africano. A sua mentalidade alinha com a do Boko Haram. Ele desconfia das pessoas educadas; aqueles a quem ele apelida de “pretos espertos” [clever blacks]. Lembrem-se, Boko Haram quer dizer “Contra a Educação Ocidental”.

As pessoas que pensam que nós chegámos ao fim da África do Sul não estão cientes que na realidade nos chegámos ao começo de um verdadeiro país Africano, distante das ilusões Ocidentais de sermos a excepção em África. Os que se sentem perturbados por este genuíno carácter Africano precisam de ajuda. O melhor que podemos fazer por essas pessoas é pedir-lhes que observem ali a Norte do rio Limpopo, para descobrirem mais sobre o que é boa governação em África.

O que torna as pessoas mais nervosas sobre o futuro da África do Sul é que elas estão a pensar baseadas em modelos Ocidentais, esquecendo-se que o nosso país é Africano.

A ideia de que um presidente pode ser demitido porque um tribunal tomou uma decisão contra si é Ocidental. Só o Primeiro-Ministro da Islândia é que faz isso; Líderes Africanos jamais o farão.

Analisando cuidadosamente a noção de que a África do Sul está a chegar ao “fim” é a expressão de um sistema de valores Ocidental – de prestação de contas, de moralidade política, do contraditório, etc.

Todos estes são conceitos vindos de Sócrates, Kant, Hegel, etc. Eles não são Africanos.

Todos nós temos, então, que agradecer a Jacob Zuma por nos revelar a verdadeira República Africana da África do Sul, não um qualquer posto avançado de valores Europeus.

(fim)

A versão original:

SA finally African, all thanks to Zuma

In the midst of the political confusion that has gripped our country, many people are wondering if we have come to the end of South Africa.

The answer is simple: the thing called an “end” does not exist, not in relation to a country. SA will be there long after Jacob Zuma is gone.

What Zuma has done is to make us come to the realisation that ours is just another African country, not some exceptional country on the southern tip of the African continent.

During the presidency of Nelson Mandela and Thabo Mbeki, some among us used to believe that the black people of SA are better than those of other African countries.

We must all thank Zuma for revealing our true African character; that the idea of rule of law is not part of who we are, and that constitutionalism is a concept far ahead of us as a people.How else are we to explain the thousands of people who flock to stadiums to clap hands for a president who has violated their country’s constitution? Such people have no idea of constitutionalism.

Now that we have reclaimed our place as another African country, we must reflect on and come to terms with our real character, and imagine what our future portends.

In a typical African country, ordinary people don’t expect much of politicians, because people get tired of repeated empty promises.

In a typical African country, people have no illusions about the unity of morality and governance. People know that those who have power have it for themselves and their friends and families.

The idea that the state is an instrument for people’s development is a Western concept, and has been copied by pockets of Asian countries.

Africans and their leaders don’t like to copy from the West. They are happy to remain African, and do things “the African way”.

The African way is rule by kings, chiefs and indunas in a setting of unwritten rules. Is there anyone who has seen a book of African customary laws?

The idea that a commoner can raise questions about public money spent on the residence of a king is not African. The ANC MPs who have been defending Zuma are true Africans.

Asking a ruler to be accountable is a foreign – Western – idea. In a situation where there is conflict between a ruler and laws, Africans simply change the laws to protect the ruler. This is why no single white person has called for King Dalindyebo to be released from jail.

The problem with clever blacks is that they think they live in Europe,where ideas of democracy have been refined over centuries.

What we need to do is to come back to reality, and accept that ours is a typical African country. Such a return to reality will give us a fairly good idea of what SA’s future might look like…..

This country will not look like Denmark. It might look like Nigeria, where anti-corruption crusaders are an oddity.

Being an African country, ours will not look like Germany. SA might look like Kenya, where tribalism drives politics.
People must not entertain the illusion that a day is coming when SA will look like the US. Our future is more on the side of Zimbabwe, where one ruler is more powerful than the rest of the population. Even if Julius Malema were to become president, it would still be the same.

African leaders don’t like the idea of an educated populace, for clever people are difficult to govern. Mandela and Mbeki were themselves corrupted by Western education. (Admission: this columnist is also corrupted by such education.)

Zuma remains African. His mentality is in line with Boko Haram. He is suspicious of educated people; what he calls “clever blacks”. Remember that Boko Haram means “Against Western Education”.

The people who think we have come to the end of SA don’t realise that we have actually come to the beginning of a real African country, away from the Western illusions of exceptionalism. Those who are unsettled by this true African character need help. The best we can do for them is to ask them to look north of the Limpopo River, to learn more about governance in Africa.

What makes most people restless about the future of SA is that they have Western models in mind, forgetting that ours is an African country.

The idea that a president can resign simply because a court of law has delivered an adverse judgment is Western. Only the Prime Minister of Iceland does that; African rulers will never do that.

Analysed carefully, the notion of SA coming to an “end” is an expression of a Western value system – of accountability, political morality, reason, and so on.

All these are lofty ideas of Socrates,Kant, Hegel, and so on. They are not African.

All of us must thank Jacob Zuma for introducing us to the real African Republic of South Africa, not some outpost of European values.

 

07/10/2017

SOBRE A EFICÁCIA DA VIOLÊNCIA NO CONTROLO SOCIAL, POR JOSÉ JAIME MACUANE

José Jaime Macuane, nascido em Maputo, trabalha na Universidade Dr. Eduardo Mondlane e publicou este texto em 6 de Outubro de 2017, na sequência do assassinato de Mahamudo Amurane, um político Macua, Presidente da Municipalidade de Nampula pelo Movimento Democrático de Moçambique (do qual se distanciara ultimamente) no dia 4 de Outubro.

Desenho de João Augusto Silva, na capa de Grandes Chasses – Tourisme dans l’Afrique Portugaise, publicado em 1937 em Lisboa pela editora Ática.

O texto de JJM, ligeiramente editado por mim:

A Eficácia da Violência no Controlo Social

Na ciência política, o Estado é apresentado como a forma moderna encontrada para a coordenação da acção colectiva em grande escala pelos seres humanos, na prossecução dos seus objectivos.

A principal finalidade do Estado é a garantia da vida, da qual decorrem outras finalidades, como o bem-estar socioeconómico, a justiça e outros que aqui podem ser enumerados.

Quando um Estado não garante a segurança dos seus cidadãos (entenda-se a vida) e os coloca a viver sob o medo da morte súbita e violenta, esse estado (isso mesmo, com letra minúscula) está a dar sinais de falência e a comprometer a sociedade mesmo, sendo mais minimalista, o futuro dos grupos ou classes que o controlam.

Não há países que não tenham crimes, incluindo os violentos. Aliás, a violência é um traço dos conflitos recorrentes entre os seres humanos. A forma como os Estados lidam com a violência diz muito sobre a sua capacidade de coordenação da acção colectiva numa sociedade. O sociólogo alemão Max Weber definiu isso de uma forma emblemática, quando chamou o Estado a entidade que reclama para si o monopólio do uso legítimo da violência dentro de um território. Certamente existem outras discussões sobre o Estado e sobre a violência, que não vou aqui discuti-las por não ser o fórum certo. Mas, que eu saiba, nenhuma coloca o risco à vida dos indivíduos que formam o corpo politico como aceitável na legitimação do Estado.

Um Estado que permite que seus agentes e outros profissionais da violência possam apossar-se dos meios coercivos e usá-los de forma (aparentemente) desregrada, atentando contra a vida dos seus cidadãos, até pode servir os interesses de certos grupos que o controlam num determinado momento, mas, depois de algum tempo, enfraquece-se e torna-se inútil, mesmo para a defesa dos interesses estreitos de alguns grupos que possam ter ganhos decorrentes dessa violência, porque perde a legitimidade para reivindicar o tal monopólio legítimo de uso da força.

A forma recorrente como o estado moçambicano “se revela incapaz” de esclarecer os crimes violentos envolvendo figuras políticas, contribui para a perda de confiança na sua capacidade de garantir a vida e, no limite, as pessoas podem começar a procurar outras formas de proteger as suas vidas. Já apresentei a minha perspectiva sobre isso, de que é uma forma de controlo social pelo medo.

Mas o medo tem uma particularidade: ele só é eficaz para os que continuam vivos e os que esperam que em algum momento as suas vidas melhorem, caso se “comportem” e ajam como os que controlam a violência implícita e explicitamente exigem. Em situações em que a violência se combina com a falta de perspectivas de melhoria das condições de vida, como em contextos onde a economia política deixa pouco espaço para o progresso individual e colectivo fora de certas estruturas, com destaque para as políticas, tenho sérias dúvidas de que o estrito controlo pela violência seja efectivo por longos períodos de tempo.

Moçambique me parece estar a ter essa combinação, a de um Estado que de forma crescente se revela ineficaz na protecção da vida (exemplo, além dos crimes de conotação política, as ondas de crimes nas zonas urbanas), ao mesmo tempo que aumenta a percepção de que as possibilidades de progresso fora da esfera política são mínimas e o estado se encontra cada vez mais fraco para prover bens público básicos, dentre os quais serviços sociais, um bom clima económico e a segurança.

Assassinar figuras como Mahamudo Amurane, que para alguns representavam a centelha da possibilidade de num Estado que funciona, pode até ter ganhos de curto prazo para os mandantes deste crime hediondo. Mas, a longo prazo (talvez até menos, dada a situação de crise “de quase tudo” em que vivemos), os que recorrem à violência como mecanismo de controlo social terão que enfrentar uma sociedade cada vez menos propensa a vergar perante a repressão.

Por outras palavras, o efeito da repressão no controlo social terá graus de eficiência e eficácia marginal cada vez mais decrescentes. O que quer dizer que devem investir cada vez mais recursos na violência e na repressão e com resultados cada vez mais fracos. Até porque ao apostarem no investimento na violência, estarão a deixar de usar recursos para outras áreas que reforçariam a ordem política, como a economia, por exemplo, e no fim nem recursos para investirem nessa violência existirão. Claro que estou a dizer isso pensando que temos pessoas que pensam a longo prazo, o que não parece ser o que acontece neste meu país. Mas o que me parece cada vez mais claro é que o projecto de controlo da sociedade através da violência não tem pernas para andar, porque é um projecto de curto prazo. Os que acham que podem continuar a recorrer à violência para controlar a sociedade, perante um Estado complacente e às vezes cúmplice, devem-se preparar para batalhas muito mais duras no futuro, porque estão a contribuir para enfraquecer aquilo que mais prezam na sua estratégia: o medo da morte e a esperança de algum bem-estar, quando não se incomoda às pessoas erradas.

Ora, numa situação em que cada vez mais a vida é incerta, as perspectivas de melhoria das condições de vida minguam e a violência parece estar fora do controlo, destrói-se as bases do controlo pelo medo. E também da legitimidade do Estado, a entidade de controlo por excelência. Deste modo, no futuro, terão que lidar com muitas pessoas desesperançadas por um Estado que parece que não as protege e não cria condições para perspectivas de progresso futuro.

Os protestos populares em Nampula em reacção ao assassinato de Mahamudo Amurane podem ser apenas um microcosmo da revolta pela esperança roubada, mas também poder ser uma amostra do que as pessoas, quando roubadas a esperança de um Estado possível podem fazer.

Há que se ter cuidado quando se retira a esperança às pessoas.

Já dizia Sun Tzu: “Numa batalha, não encurrale o inimigo. Deixe sempre uma saída. Senão, não lhe restará outra alternativa a não ser lutar pela própria vida. Então, cada soldado inimigo valerá por dez dos seus”.

(fim)

 

António Rita Ferreira, o genial analista da realidade social, antropológica e política de Moçambique, recentemente falecido, uma vez me disse que, no dia em que os Macuas, ainda impactados pela sua cultura de matriz matrilinear e história de um relativo pacifismo, despertassem e se organizassem, que o curso da história de Moçambique se alteraria por completo em relação àquilo que se tem feito, dito e escrito desde as eras pré-colonial, colonial e pós-colonial, em que o foco e a determinação dos eventos se centrou no Sul da antiga colónia e em duas etnias relativamente minoritárias.

 

Fonte: FB de JJM, 6 de Outubro 2017, 12:24 horas

26/08/2017

BUSTO DO GENERAL MACHADO INAUGURADO EM LISBOA EM 2017 – VINDO DE MOÇAMBIQUE

Filed under: História, Joaquim José Machado 2017 — ABM @ 2:08 am

Parte do texto e imagens foram obtidos e reproduzidos com vénia do sítio da Câmara Municipal da Cidade de Lisboa. Para ver a fonte, prima aqui.

 

O busto do General Joaquim José Machado, inaugurado numa rua de Lisboa em Fevereiro de 2017, na praça que também tem o seu nome.

Há uns meses, o sítio da Câmara Municipal de Lisboa noticiou o seguinte:

Lisboa, 10 de Fevereiro de 2017 – O presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, acompanhado pela vereadora da Cultura, Catarina Vaz Pinto, e pelo presidente da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica, António Cardoso, inaugurou o busto do general Joaquim José Machado, no largo, com o mesmo nome do homenageado, em Benfica. 

Na cerimónia, Fernando Medina sublinhou o momento como uma “justa homenagem a um homem que honrou e valorizou a memória de Portugal bem como da cidade de Lisboa” falando do seu percurso de vida e carreira política do general Joaquim Machado.

Como representante da família, o embaixador Manuel Lobo Antunes proferiu algumas palavras sobre o seu bisavô e de como seria uma figura muito querida e motivo de orgulho para todos os seus. Manuel Lobo Antunes explicou ainda que, o busto, da autoria do escultor António Augusto da Costa Mota, esteve durante muitos anos na embaixada portuguesa em Maputo e que foram necessários muitos esforços e a ajuda fundamental da autarquia para que a obra chegasse a Lisboa e ficasse junto à casa do seu avô.

Alguns dos descendentes de Joaquim José Machado e seus amigos, quem incluem António Lobo Antunes, o Embaixador Manuel Lobo Antunes e ainda o Presidente da Câmara Municipal da Cidade de Lisboa.

O general Joaquim José Machado, nasceu em Lagos a 24 de setembro de 1847 e morreu em Lisboa a 22 de fevereiro de 1925. Em 1876 é promovido a capitão e logo escolhido, pelo então Ministro da Marinha e Ultramar, João de Andrade Corvo, para participar numa das duas grandes expedições, que o ministro organizara para empreender o fomento e valorização das colónias de Angola e Moçambique. 

Neste contexto, foi responsável, em 1877, pelo planeamento do traçado do caminho-de-ferro de Lourenço Marques a Pretória, projeto do qual foi encarregado pelo presidente da República do Transvaal, Paul Kruger. Empreendeu, igualmente, a construção de uma ligação ferroviária entre Moçâmedes e a Província de Bié, em Angola.

Reconhecido como Comendador e Grande-Oficial da Ordem Militar de Avis, Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada e Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo, recebeu ainda diversas homenagens em Portugal, Angola e Moçambique.

(fim)

Um curto vídeo do evento:

E ainda aqui um interessante comentário de António Lobo Antunes, bisneto do General.

E aqui um resumo minimalista do seu percurso que compilei em 2012.

Independentemente da sua capacidade e genialidade e sucessos nas missões que desepenhou, Joaquim José Machado é e fará sempre parte de um restrito nome de personalidades cujo impacto na formação do que é hoje Moçambique e é simplesmente incontornável, porque foi bom. A sua família, e quem como eu o estudou minimamente, têm razões sólidas para apreciar este gesto. A sua obra e percurso merecem estudo e conhecimento.

Se eu tivesse que apostar, diria que o busto deve ter vindo ou dos antigos Caminhos de Ferro de Moçambique ou da antiga Escola Preparatória General Joaquim José Machado. Como foi parar à embaixada Portuguesa em Maputo deve ser uma história interessante. E possivelmente incontável.

15/08/2017

MEMORANDO SOBRE O PRIMEIRO COMBATE DA FRENTE DE LIBERTAÇÃO DE MOÇAMBIQUE, 25 DE SETEMBRO DE 1964

Filed under: Alberto Chipande — ABM @ 7:21 pm

Material original guardado na Torre do Tombo em Portugal.

Trata-se de um memorando secreto, datado de 12 de Dezembro de 1967 e originado pelos serviços de inteligência das forças militares portuguesas, situados em Porto Amélia (actualmente, Pemba), que traduz e depois comenta um relato publicado em Agosto desse ano pela Frente de Libertação de Moçambique num seu orgão de propaganda externa em língua inglesa – Mozambique Revolution – que terá sido da autoria de Alberto Chipande e que até esta data é identificado, em Moçambique, como tendo sido o iniciador da guerrilha contra as autoridades coloniais portuguesas, liderando um ataque na localidade de Chai, em Cabo Delgado, no dia 25 de Setembro de 1964, uma sexta-feria, data afixada no calendário (e no imaginário) moçambicano como feriado nacional.

O comentário de quem analisou e assinou o documento indica que a versão oficial e oficiosa do evento, tal como foi apresentada e tem sido mantida pela Frente de Libertação de Moçambique, é completamente falsa.

Um conhecido refrão da Frente de Libertação de Moçambique, indicando que afinal a Independência em 1974 era apenas uma etapa na revolução que a sua liderança de seguida encetaria no nascente país.

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SAMORA MACHEL E RONALD REAGAN: O ENCONTRO NA CASA BRANCA, 19 DE SETEMBRO DE 1985

Filed under: Encontro Reagan Machel 1985 — ABM @ 6:45 pm

Video publicado pela Biblioteca Ronald Reagan em Janeiro de 2017. Quase hilariante, se se conhecer bem o contexto para ambas as partes naquela altura.

 

22/03/2017

O MOZABANCO E O ERRO DE PARALAXE

Filed under: Como vender o Mozabanco, Economia de Moçambique — ABM @ 11:10 pm

Artigo com vénia para o Matias Guente e o Canalmoz, que se publica em Maputo, da sua edição de 22 de Março de 2017 e que constitui uma referência a reter. A imagem em baixo e o título (que era para ser “Moza Laden”) são meus.

Nota

“Erro de paralaxe” é um erro que ocorre pela observação errada na escala de graduação causada por um desvio optico causado pelo ângulo de visão do observador. Pode ocorrer em vidrarias como buretas, provetas, pipetas, etc. Por exemplo, quando é necessário medir um volume na proveta, se você não observar o menisco de um ângulo que faça o menisco ficar exatamente na altura dos seus olhos, você poderá ter uma medida errada e, portanto, um erro de paralaxe, podendo obter uma medida maior ou menor que a correta, dependendo do ângulo de observação. (fonte: Wikipédia)

O texto (minimamente editado por mim):

A batalha final pelo “Moza” e o potencial conflito de interesses de João Figueiredo

Termina amanhã, quinta-feira, [23 de Março de 2017] o prazo de 60 dias que os accionistas do banco “Moza” têm para injectar os cerca de 8,1 mil milhões de meticais para a recapitalização do banco intervencionado em finais Setembro de 2016 pelo Banco de Moçambique.

Até às zero horas de amanhã, os accionistas perdem a prerrogativa de encontrar um parceiro, e o Banco de Moçambique poderá colocar o banco na praça. É pouco provável que haja um milagre de última hora por parte da “Moçambique Capitais”, o maior accionista do “Moza”, que lhe permita encontrar o dinheiro para mostrar a Rogério Zandamela, tal como haviam prometido fazer na decisão que tomaram a 23 de Janeiro em Assembleia-Geral. É quase certo que o único banco genuinamente moçambicano e sem casa-mãe no estrangeiro terá mesmo de ser vendido, e muito provavelmente a estrangeiros, para a sua recapitalização.

Face à pressão do tempo, há também um forte “lobby” nos corredores do Banco de Moçambique daqueles que já marcaram posição para adquirir o “Moza”. Perfilam-se factores que tornam o “Moza” bastante cobiçado: com cerca de 7% da quota de mercado, uma rede de cerca de 50 agências, infra–estruturas modernas e um sistema informático considerado como dos melhores no mercado nacional, 700 trabalhadores, dos quais 99% são moçambicanos, o “Moza” conseguiu, em menos de oito anos de actividade, colocar-se em quarto lugar num “ranking” de dezanove bancos comerciais. É uma questão de injectar dinheiro e olear a máquina, que os carretos engrenam sozinhos.

Segundo apurou o de fontes do Banco de Moçambique estão neste momento com papéis para adquirir o “Moza”: a empresa “Atlas Mara”, de Bob Diamond (que entrou em desinteligências com a “Moçambique Capitais”, numa primeira abordagem do negócio); Eddie Mondlane (filho de Eduardo Mondlane); o “Barclays” (que tem Luísa Diogo como Presidente do Conselho de Administração); a “Société Generale” (da França); um banco malawiano; e um banco marroquino.

O caso curioso de João Figueiredo

Um outro interessado na aquisição do “Moza” é o banco BIC, de Isabel dos Santos (filha de José Eduardo dos Santos, Presidente de Angola) e Américo Amorim (o magnata português da indústria corticeira). E é justamente aqui onde está o problema. Américo Amorim é sócio de João Figueiredo no “Banco Único”, onde Figueiredo já foi Presidente do Conselho de Administração, mantendo actualmente uma quota considerável das acções do banco. João Figueiredo foi nomeado pelo Banco de Moçambique como Presidente do Conselho de Administração provisório do “Moza” na noite de 30 de Setembro. Sendo accionista do “Banco Único”, Figueiredo é praticamente concorrente do “Moza”. O que agrava esta situação de aparente conflito de interesses é o facto de João Figueiredo, na sua qualidade de Presidente do Conselho de Administração provisório do “Moza”, ser também Presidente da Comissão de Avaliação das propostas de recapitalização do “Moza”, que foi criada pelo Governador do Banco de Moçambique, Rogério Zandamela.

João Figueiredo estará, assim, à frente de todo o processo da recapitalização do “Moza”, incluindo o escrutínio dos próximos órgãos sociais do banco. À comissão presidida por Figueiredo também foram conferidos poderes de decidir quem serão os próximos accionistas maioritários do “Moza”. É uma situação curiosa em que o árbitro poderá ser o jogador.

O Canalmoz tentou contactar João Figueiredo, mas todas as nossas tentativas foram infrutíferas. Para já, a situação está a criar um mal-estar generalizado entre o Banco de Moçambique e a “Moçambique Capitais”, a ainda dona do “Moza”, que não vê com bons olhos, sob o ponto de vista ético, a posição de João Figueiredo.

(fim)

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