THE DELAGOA BAY REVIEW

20/02/2020

MÁRIO MACHUNGO E MARCELINO DOS SANTOS, DEZEMBRO DE 2003

Filed under: Mário Machungo e Marcelino dos Santos — ABM @ 12:32 am

Por ironia do destino, aconteceu que Marcelino dos Santos e Mário Machungo, que, pode-se argumentar, representam dois pólos que se opõem (se é que se pode ousar dizer eles terem existido na mistórdia negocial interna da organização) do que terá sido a Frelimo nos anos depois da independência, faleceram no espaço de uma semana um do outro, – o primeiro a 11, o segundo a 17 – provocando algum ruído no que terão sido os respectivos legados ao que hoje é Moçambique.

Sobre Marcelino, 11 anos mais velho que Machungo, já escrevi uma nota.

Sobre Mário Machungo, lá chegarei.

Mário Machungo com Marcelino dos Santos no edifíio do Private do BIM em Maputo, 12 de Dezembro de 2003, aquando da cerimónia de lançamento de um livro do Sr. José Craveirinha, que ajudei a lançar e a realizar (com, entre outros, um filho do Sr. Craveirinha e o Pai do Mia Couto). Machungo era então o Presidente do Conselho de Administração do Banco Internacional de Moçambique. Marcelino era a Eminência Parda do regime.  Joaquim Chissano estava no último ano do seu mandato e Guebuza montava os alicerces do seu império e preparava a sua desastrosa presidência. Fui eu que tirei a fotografia.

12/02/2020

REQUIEM POR MARCELINO DOS SANTOS, 1929-2020

Marcelino dos Santos, uma das figuras mais influentes e duradouras da Frente de Libertação de Moçambique e do seu sucedâneo “político”, e que nasceu no Lumbo (um lugarejo em frente à Ilha de Moçambique) em 20 de Maio de 1929, faleceu hoje (11 de Fevereiro de 2020), em Maputo, com 90 anos de idade.

Desde os primórdios das movimentações nacionalistas com o fim de pôr um fim ao regime colonial português em Moçambique, nos anos 40 do Século XX, Marcelino dos Santos foi, de dentro do grupo de pessoas presentes na altura, a meu ver, a pessoa mais central e crucial do processo que culminou com a formação de uma frente unida e que, a partir do então Tanganica, iniciou, no final de 1964, uma guerrilha contra as autoridades coloniais portuguesas, de que resultou posteriorente a independência de Moçambique.

Se há um fio condutor em tudo o que aconteceu primeiro à Frelimo e depois ao nascente país, para melhor e para pior, esse fio condutor foi Marcelino dos Santos.

Que, infelizmente, era tão nacionalista como comunista, o que, com o apoio de Samora e de Chissano (e de mais meia dúzia de guerrilheiros notáveis, e ainda – principalmente, acho – de uns heróicos 3-5 mil moçambicanos, anónimos hoje, que foram quem de facto andou no mato a arriscar as vidas, aos tiros e a colocar minas terrestres durante dez anos), orientados pelos chineses de Mao e demais países comunistas da época, sucederam em forçar uma independência a martelo, mudando o país nascente de uma ditadura colonial de partido único empenhada em adiar a independência política, para uma infame ditadura comunista de partido único, empenhada em libertar os vizinhos do apartheid.

A revolta em 1974 dos militares portugueses, comandados por um lourenço-marquino comunista, veio mesmo a tempo para a Frelimo, pois Marcelo Caetano na altura preparava-se para despachar as colónias até 1980, pois que já davam mais prejuízo que o que ele achava que o seu país estava disposto a sustentar, sob um manto de “autonomia soberana”. Em Lourenço Marques, ao contrário do que todos hoje parecem julgar, rigorosamente ninguém estava preparado para nada, muito menos os brancos. Como aliás se viu.

Em 1975, perante a impotente, obediente e excitada maralha, reunida em comícios infindáveis, pouco depois de assumir o cargo de líder incontestado, e para que não houvessem dúvidas, o carismático Samora proclamou que, afinal, a coisa não tinha acabado: afinal, a coisa apenas tinha começado.

E repetia vezes sem conta, nos seus comícios obrigatórios sem fim: A Luta Continua. A Luta Continua. A Luta Continua. A Luta Continua.

E assim a luta continuou, agora para todos, no púlpito, Samora, secundado por Marcelino dos Santos.

O resultado foram mais vinte anos de guerra civil e com os vizinhos, que mataram mais que um milhão de cidadãos moçambicanos e destruiram o pouco que havia depois da auto-destruição ao estilo pol-potista dos primeiros anos após 1975, tida como medida necessária para se criar o Novo Moçambique. Todos a ferro e fogo, solidários na miséria e sujeitos às investidas da Snasp e à chambocadas repetidas por causa de tudo e de nada, ajudados depois pelos rodesianos e pelos sul-africanos.

Antes e após 1975, e praticamente até esta data, Marcelino dos Santos, temido e celebrado como o verdadeiro mandarim do regime, permaneceu uma peça-chave na Frelimo, que governou em ditadura até 1994, após o que, já num contexto constitucional multipartidário, concebido antes de Roma principalmente para ficar bem na fotografia e agradar as potências envolvidas, continuou a governar com uma maioria parlamentar e presidencial, operando à superfície como um partido, na prática o efectivo detentor da totalidade do poder político e com uma captura total de todas as instituições do estado moçambicano, incluindo a máquina eleitoral e os tribunais. Que usou.

Mas no seu seio, malgrado a fachada “democrática”, a máquina não mudou quase nada. Tudo ainda é decidido à porta fechada lá naquela sala de reuniões no único prédiozito no meio da Somershield.

É a mesma máquina que, por alturas de 1975, e nos anos seguintes, decapitou e mandou decapitar toda e qualquer oposição ou voz minimamente dissonante aos seus ditames. Em que Marcelino assinou por baixo no infame decreto que supostamente legalizou os assassinatos de, entre outros, o Reverendo Simango e sua mulher e a Dra. Simeão.

E, de facto, a guerra realmente não acabou em 1994. Parou, apenas, por pura exaustão e por acordo entre as partes, que nos anos seguintes mantiveram a mesma animosidade com que se degladiaram anteriormente, a Frelimo sempre com a faca e o queijo na mão, o lado contrário a rosnar com as armas. Foi um mero cessar-fogo, as partes incapazes de se reconciliarem. Os conflitos seguiram-se. O tempo foi passando.

Recentemente, o país viu-se envolvido em mais um escândalo em que 2 mil milhões de dólares em empréstimos fraudulentos foram usados para alguma da sua elite política, ao mais alto nível do Estado, obter benefícios de forma corrupta. Uns foram presos, outros continuam a usufruir do seu pecúlio. Predominantemente, com corajosas poucas excepções, a sociedade moçambicana assobia para o lado, com medo dos esquadrões da morte e dos sucessivos G-40s. A imprensa manda palpites muito ténues e não há oposição. Lá fora, eufemisticamente, refere-se ao regime como uma “democracia musculada” a resvalar para o autoritarismo puro e duro.

Entretanto velho, doente, alheado, desgastado, nos últimos anos, mais ainda passando por uma inédita euforia pelas catorzinhas (nisso de alguma forma ofendendo a alguma dignidade da sua companheira, a nada menos monumental Pamela dos Santos, que, justamente, o abandonou), Marcelino criou uma fundação, escreveu uns poemas e viveu pacatamente os seus últimos dias na mansão que lhe deram na Somershield, na esquina ao pé da antiga Sociedade de Estudos. Adoptou filhos. O seu marxismo impenitente foi pouco discretamente desacreditado e posto pelos seus acólitos na gaveta, respeitosamente, para não o ofender. Ele quase tudo ignorou. Ficou puro nas suas convicções, na sua lapela a nação que ajudou a criar.

O que tanto mais de notável é se se considerar que ele era um mulato culto num ambiente e numa organização em que, desde o primeiro momento, não negros cultos eram, comprovadamente, desconsiderados e rotulados de quase traidores só pelo mero facto de não serem pretos. Mas Marcelino foi sempre eficaz na sua dança, mortíferamente assim e sempre absolutamente fiel à causa da Frelimo e especialmente aos seus líderes (a excepção singular e gritante sendo o Dr. Mondlane, claro, que em 1968 já era um miscast na organização que supostamente liderava), sendo por isso sucessivamente recompensado com o estatuto de Intocável do Regime, desempenhando cargos da maior confiança e responsabilidade – sempre a um passo do poder máximo, especialmente no caso de Samora, o cavalo em que apostou em 1968 e 1969, com estrondoso sucesso. Dizem que Samora não ligava a isso das raças (duvido mas enfim) e parece-me que, para poder governar, ele acharia que tinha que ir buscar apoio e talentos onde os encontrasse. Se há um exemplo disso, ele é, de facto, Marcelino dos Santos.

E Marcelino tinha a vantagem de saber, sem ninguém ter que lhe dizer, que o seu lugar era sempre o de segundo atrás do líder. O que sempre soube fazer, de forma exímia.

A Eminência Parda do regime.

Economicamente, Moçambique hoje produz camarões, vende alguma electricidade aos vizinhos a partir da agora moçambicana Cabora Bassa, na Matola refina escória de alumínio que vem da Ásia e que a Mozal exporta logo de seguida, exporta algum carvão que vem de Tete e está em estágio de iniciar a exportação de gás natural, que se espera que traga alguma receita fiscal- e encha os bolsos pelo menos de alguns (empregos, nem vê-los, apesar da vigorosa e inútil ginástica reguladora da Vitória Diogo). A maior parte da população, que já se cifra em mais que 30 milhões de almas, sobrevive da agricultura de subsistência, do pequeno comércio e da prestação de serviços nas principais cidades e respectivas periferias. Os chineses, os sul-africanos e os indianos estão a tomar conta de tudo, a levar o ouro, as esmeraldas, as florestas e a pesca. E tudo o que se pode converter em dólares ou permita comprar prédios milionários em Maputo. Ninguém os pode parar. E ainda há o tráfico de droga, em que a sua longa costa se tornou numa rota necessária e conveniente. Daqui a trinta anos, serão 60 milhões de moçambicanos.

No mais, não se antevêem perspectivas de nada mudar significativamente, aparte haver mais bocas para alimentar e aparecerem mais uns ricos.

Moçambique, que é independente há 46 anos, sempre sob a égide da Frelimo, permanece um dos países mais pobres, mais corruptos e mais vulneráveis do planeta. Aguenta-se porque tem a África do Sul ali ao lado e porque continua a merecer, legitimamente, toda a ajuda que puder obter. Pois a miséria que prevalece, essa, também é verdadeira.

Quanto ao epílogo colonial, hoje já não há portugueses em Moçambique. Ou melhor, há alguns, são 0.0001% da população. Se bem que, localmente, ainda sabe bem falar-se deles de vez em quando, displicentemente e se calhar apropriadamente, sobre os ex-colonos e os alguns bimbos que vieram a seguir. Há algum investimento português, mas apesar das mais róseas profecias da câmara de comércio bilateral, os riscos são titânicos. A verdade é que há muito que os portugueses já viraram a sua atenção para outros mercados e outros destinos. Curiosamente, a TAP ainda mantém a sua rota para Maputo e o governo português continua a dizer que Moçambique é “muito, muito importante”, dando todos os anos milhões que os portugueses simplesmente não têm. Mas não é muito importante. É muito menos que isso. Portugal não é o Reino Unido e a CPLP não é a Commonwealth. O seu maior feito é ser o país onde fica o Benfica, que tem adeptos em Maputo. O actual presidente português, que passou lá uns breves tempos na juventude, quando o pai era o braço direito do sucessor de Salazar, diz nas entrevistas que ama o lugar e que quer ser sepultado lá quando morrer. Pois, que vá.

Recentemente, parece que o país se tem vindo a meter noutra guerra, desta vez centrada em Cabo Delgado, não se sabendo bem a que propósito, não se percebe ainda para quê e quem anda a mexer os cordelinhos. Já estão novamente a morrer civis inocentes moçambicanos e muitos mais a fugir das miseráveis casas onde sobrevivem.

Não sei se este é o país que Marcelino dos Santos sonhava que viria a ser em 2020.

Mas este é o país que deixou, hoje.

Certamente, num ritual pirotécnico e algo quixotesco, herdado dos tempos da Ditadura, o regime provavelmente irá proclamá-lo novamente Herói da Nação e colocar uma medalha no seu caixão, que depositará numa caixa lá na Praça a caminho do Aeroporto, solenemente.

E depois ficará mais ou menos esquecido nos livros de história.

Bem ou mal, depois se verá.

Marcelino dos Santos mostra as medalhas, anos 80.

26/01/2020

SAMORA MACHEL ENFERMEIRO? OS FACTOS

Filed under: Samora Machel foi enfermeiro? — ABM @ 12:50 am

Há anos que venho lendo textos mais ou menos líricos sobre o percurso pessoal daquele que em 1969, após Chissano se ter esquecido de proteger o Dr. Mondlane da alegada bomba da PIDE, se tornou no warlord  incontestado da Frente de Libertação de Moçambique, de onde transitou directamente para Presidente do novo regime de partido único. Cargo que provavelmente teria sido vitalício (bem, foi) não tivesse acontecido o episódio algo rocambolesco do despenho do avião presidencial russo em Mbuzini.

Um facto central do período do jovem Samora Machel antes da Frelimo, é o de – alguns alegam – ele ter sido enfermeiro em Lourenço Marques e na Inhaca, no final dos anos 50 e início da década de 1960. Há quem jure que ele foi enfermeiro. Outros apenas o aceitam como facto.

O episódio mais recente foi o testemunho do João de Sousa, que, a propósito duma efeméride (a data de nascimento do Guilherme de Melo, no Big Slam), refere que Samora fora enfermeiro.

Pois.

Só que não foi.

Aí há uns trinta e tal anos, ao falar em Coimbra com a Mãe de um amigo de infância, o Diogo, ela, que foi uma enfermeira de renome em Moçambique, explicou-me que ele gostaria de ter sido enfermeiro e até tentou obter a certificação, mas chumbou o curso.

O nome dela (que ainda vive em Coimbra e conheceu o jovem Samora perfeitamente) é Maria Fernanda de Gouveia Pinto. Os dois davam-se tão bem que, supostamente, ele se foi despedir dela antes de se ir juntar à nascente Frente de Libertação no Tanganica.

De facto, ela fez parte do júri que administrou o curso de enfermagem no último trimestre de 1961, no qual Samora chumbou o exame final, com uma nota de 8 valores.

E portanto não era, não foi, enfermeiro. Pode ter trabalhado como auxiliar de enfermagem (que não é a mesma coisa), maqueiro, etc, mas Samora nunca foi enfermeiro.

O documento em baixo, uma cópia do Boletim Provincial em Janeiro de 1962, refere o chumbo de Samora Machel.

 

O Boletim Provincial, Janeiro de 1962.

 

Detalhe. O nome de Maria Fernanda Gouveia Pinto em baixo. O de Samora mais em cima.

25/01/2020

A ESTREIA DO FILME O ZÉ DO BURRO EM LOURENÇO MARQUES, JULHO DE 1971

Filed under: Estreia do filme O Zé do Burro 1971 — ABM @ 3:00 pm

Por cortesia dos senhores do Arquivo da RTP, eis um minuto e meio da estreia do filme “O Zé do Burro”, realizada por Eurico Ferreira, no Cinema Dicca, na Baixa de Lourenço Marques (construído há pouco sobre os escombros do Varietá, em 27 de Julho de 1971, exactamente um ano depois de António Oliveira Salazar ter morrido.

Eurico Ferreira com uma jovem no palco do Cinema Dicca no dia da estreia do “Zé do Burro”, 27 de Julho de 1971.

Na altura com 11 anos, fui ver o filme, não sei bem porquê, talvez porque me tinham vendido a ideia que era um filme divertido para miúdos verem. E recordo-me de na altura o filme ter sido muito badalado, o que era incomum pois ninguém, mas ninguém, passava filmes portugueses em Lourenço Marques.

Na verdade, achei o filme tão patético que até eu achei que aquilo era demais. Aquilo nem para propaganda do regime servia, tão primitivo era na fórmula da missão “civilizadora” dos portugueses em África, em que o pretinho era uma criança imberbe e o mais básico patego português das Boiças um epíteto da modernidade. Eu de facto ri-me muito a ver o filme, mas ri-me por ser tão ridículo.

Ver o vídeo premindo aqui.

10/01/2020

O FUNDO SOBERANO DE MOÇAMBIQUE, 2020

Filed under: Fundo Soberano de Moçambique — ABM @ 1:45 am

Sempre achei que os pobres devem procurar poupar, na medida do possível. Teoricamente, isto pode e deve ser relevante, mesmo quando se trata de um país. No caso de um país dependente em monoculturas, sejam elas quais forem (mas que se destacam sempre quando se trata de gás e petróleo) o argumento tende a ser ainda mais forte, pois existe quase a garantia de um período de vigorosa chuva de dinheiro, seguido da maior incerteza, sendo este processo intergeracional, ou seja, supõe-se que os pais estão a guardar algum para os filhos e os netos.

Sendo uma monocultura, os critérios básicos de risco impõem que o dinheiro poupado seja investido noutros mercados, noutros sectores económicos, segundo critérios objectivos de alocação e gestão desses fundos.

As duas questões tratam-se então de 1) que mecanismo usar e 2) que garantias existem de que o esquema vai mesmo funcionar.

Um mecanismo que se tornou é o do fundo soberano, isto é, resumindo, uma conta para onde fluem os fundos “excedendetários”, que são depois investidos, por um comité nomeado pelo governo do tal de país, habitualmente apoiados por especialistas, empresas de consultoria etc etc.

Em Moçambique, um dos países comprovadamente mais pobres do mundo, e comprovadamente mais corruptos do mundo, quer no sector público, quer no sector privado e afins, estuda-se estes dias criar-se um fundo soberano para pôr de lado algum do dinheiro que se espera comece a jorrar assim que os pipelines estiverem prontos e o gás comece a fluir.

Há uns vinte anos, quando se criou o mecanismo de poupança forçado e muito mais modesto da segurança social, vaticinei que o mesmo corria o risco de se tornar alvo de má gestão, corrupção e, literalmente, rapina. Aliás menos grave porque o dinheiro é menos e de qualquer maneira, a maior parte dos moçambicanos não beneficia do mesmo, ou porque simplesmente a ele não aderem pois não têm rendimentos que o justifiquem, ou, com a mesma probabilidade, porque não viverão o tempo suficiente para dele beneficiarem. O sistema beneficia ainda do facto que, potencialmente, há-de haver sempre muitos mais a descontarem qualquer coisita que os que dele beneficiarão. Portanto, mesmo que se roube ou se gira a coisa com a maior incompetência, há-de haver sempre algum dinheiro para os que sobreviverem o suficiente para receberem uma reforma qualquer, em meticais, com as acutalizações possíveis, um pouco à mercê do câmbio do dólar e do rande.

Mas o facto é que houve várias instâncias de roubo, de má gestão e uma falta considerável de transparência nas contas – quando estas se conhecem.

Um fundo soberano à escala do que se está a falar para as receitas do gás é uma jogada completamente diferente. Algo que nunca se viu em Moçambique, um, repito, dos países comprovadamente mais pobres do mundo, e comprovadamente mais corruptos do mundo, quer no sector público, quer no sector privado e afins.

Assim, pergunto: quem vai gerir, se criado, o fundo, com que regras, transparência e prestação de contas?

Ou, ainda melhor: quem vai ser o polícia que vai impedir os ladrões que vão aparecer?

Para ilustrar sobre o que falo, menciono os 500 milhões de dólares supostamente desviados em Angola pelo então presidente do fundo (e filho do ex-presidente) e refiro ainda ao exmo. Leitor que saiba falar inglês o vídeo, aqui contado de forma jocosa, mas mortífera, o escândalo 1MDB, ocorrido recentemente na Malásia e envolvendo o seu fundo soberano.

 

30/11/2019

A DÍVIDA INTERNA DE MOÇAMBIQUE EM 2019

Filed under: A Dívida Interna em 2019 — ABM @ 1:18 am

Enquanto não chegam as receitas do gás, e à falta da de outro modo perpétua ajuda para minorar as misérias, a Frelimo e o governo de Moçambique fazem o que podem: não tendo crédito lá fora por causa dos roubos perpetrados pela elite Guebuziana, ainda por resolver, endividam-se cá dentro, através da dívida pública, paga a peso de ouro aos bancos que ficam sem apetite para emprestar ao sector privado. O jornal A Verdade, neste e neste artigo referem o assunto, ilustrados pelos dois quadros em baixo.

Tirando cinco mistificantes bancos, entre eles o FNB Moçambique, o Mozabanco do Jófi, o Banco Mais e o Banco Terra, os bancos de topo nadam em lucros com pouco ou nenhum risco, pois investem em títulos públicos.

 

O Estado a endividar-se em 2019 junto da banca, dados para o primeiro semestre de 2019.

21/11/2019

O HOMEM NOVO E AS DUAS PROFECIAS DE SAMORA MACHEL

Filed under: Filipe Nyusi 2019 — ABM @ 3:05 am

 

Recebi esta noite a informação em baixo.

Afinal (ou enfim), quarenta anos depois, parece que se cumpriu a tal profecia do Homem Novo Moçambicano que Samora, o genial primeiro ditador comunista de Moçambique, tanto gostava de referir e que era tão apreciada pelos seus acólitos e a máquina de propaganda do regime – e que serviu como desculpa para as perseguições e depurações e barbaridades dos primeiros anos.

Seguida pela também sua outra conhecida profecia, citada mais tarde, de que, se nada se fizesse, que um dia poderia surgir em Moçambique uma elite negra predadora que faria o pior do colonialismo parecer um piquenique.

A parada entretanto continua na improvável Brooklyn.

New Man, Nyuz ou Nys

 

 

31/10/2019

A CARTA DE ANTÓNIO RITA FERREIRA, 1958

Com vénias ao interessante artigo preparado pelas professoras Cláudia Castelo (Universidade de Coimbra) e Vera Marques Alves e a Revista Etnográfica, edição de Junho de 2019 (páginas 417 a 438). Indirectamente, ao Filipe Rita Ferreira, que levou em cima com o sítio do Pai.

A carta que em baixo reproduzo, foi escrita em 1958 por Rita Ferreira (então um modesto mas dedicado funcionário público colonial que deambulava nas ciências sociais no seu tempo livre) a um seu amigo, que acabara de levar uma catanada do Regime e dos seus defensores em Lourenço Marques. É para mim uma manifestação do dessassombro e lucidez com que Rita Ferreira, e muitos como ele, encaravam aquilo que era Moçambique no raiar da década de 1960, quando a maior parte do continente africano recuperaria a soberania, depois de quase um século de ocupação europeia. Marca pelo que diz de Moçambique e do que o regime português por ali andava a fazer.

Na carta, à laia de consolação ao seu amigo, Rita Ferreira alude a um exercício de bravado “privado”, ou seja, mostra ao amigo um artigo supostamente para publicação em que arrasa o imaginário colonial vigente – mas que, claro nunca será publicado, pois se o fizesse seria imediatamente despedido e possivelmente preso. Sabemos dele, e desta carta, porque ele as guardou e agora chegou à luz do dia.

(início)

A. Rita Ferreira
C.P. 565
Beira
22 de Abril de 1958

Amigo e Sr. Prof.

Muito agradeço a sua carta de 24 do mês findo. A lufa-lufa do serviço e a preparação duma “recapitulação” da classificação e agrupamento étnicos de Moçambique, impediram-me que lhe respondesse há mais tempo. A situação do Quadro Administrativo a respeito de pessoal é cada vez mais angustiosa: não há quem queira ser aspirante. O resultado é que tenho de passar o dia a fazer serviço de dactilógrafo e outro serviço puramente mecânico, que me deixa arrasado.

Escrevi sobre a sua comunicação e a estúpida reacção local, o artigo que lhe mando. O “Notícias”, onde costumo colaborar, não o publicou. Ignoro se por censura interna se por censura oficial.

Creio ter sido, contudo, bastante cauteloso no que escrevi. Se permite que lhe dê a minha opinião, quer parecer-me, pelas referências que li, que o Sr. Prof., impedido como se encontrava de tratar o assunto com a necessária independência devido à posição oficial que ocupa, se viu constrangido a concentrar a sua atenção em aspectos de somenos significação sociológica e a responsabilizar os europeus de Moçambique pela situação que existe. Eu, à base do conhecimento do meio moçambicano que tenho e do que sei que acontece em Angola e S. Tomé, sou, aqui para nós, um tanto mais ousado. Ponho em causa as virtudes do português como colonizador no mundo moderno. Pode ser que tenha sido excelente colonizador há séculos, quando a cultura ocidental se não achava impregnada por factores económicos como hoje em dia. Mas hoje é um péssimo colonizador, o único que em toda a África ainda usa e abusa dessas duas chagas do colonialismo: o trabalho forçado e os castigos corporais. O colonizador português conseguiu criar pelo menos nas três “províncias” que conheço estruturas político-económico-sociais que não podem passar sem o emprego destes dois meios de opressão. Em Angola, a situação do trabalho forçado ainda é pior (mas mais bem organizada) do que em Moçambique: aí o número de negros a distribuir por cada agricultor é fixado pelos próprios Negócios Indígenas e os administradores têm que os fornecer. E em S. Tomé vi os próprios administradores das roças empregarem castigos corporais. Em face destas e doutras cruéis realidade[s], creio que o “luso-tropicalismo” ou outras frases como a que citou de “tradição de colonialismo missionário” têm funções de mito em todo o sistema colonial português e constituem cómodas racionalizações para os teóricos metropolitanos. Estou certo que a elas recorreu para poder chamar a atenção dos responsáveis pela governança, sem que corresse o risco inútil e inglório de ser por eles considerado com desconfiança.

A “situação colonial” portuguesa pode ser definida como o faz George Balandier em relação a todas as “situações coloniais”, mas com essas características não atenuadas, como se diz, pela “brandura dos nossos costumes” ou pelas nossas “ten[d]ências atávicas de assimiladores”, mas exacerbadas pelo nosso atrazo económico, pela nossa irrascibilidade, pela sub-instrução e sub-educação do povinho humilde de onde sai a grande massa dos colonizadores. Oh, senhores, não poder escrever eu livremente sobre as amargas experiências dum homem colonial! O que se passou em mim naquela noite em S. Tomé em que fui insultado pelo administrador da roça onde estava hospedado por ter “ousado” ouvir sem a sua augusta presença as humildes queixas dos cabo-verdianos, angolanos e moçambicanos ali trabalhando em regime compelido. Talvez um dia o faça, já no fim da carreira, e que golpe não vai ser para os teóricos! Um golpe tão grande como vai ser o vibrado pelo trabalho do Prof. Marvin Harris.

Na “situação colonial” portuguesa há algo que “ne marche pas”. Como explicar essas fugas em massa de trabalhadores, de famílias, de tribos para os territórios vizinhos, na Guiné, em Angola, em Moçambique. Só não fogem de S. Tomé por ser uma ilha! Ainda lendo recentemente o trabalho do Prof. Clyde Mitchell sobre os Ajauas da Niassalândia19(para onde, como sabe, emigraram centenas de milhares, talvez algo como um milhão de indígenas de Moçambique) notei sem surpresa a informação de que todos aqueles que interrogou alegaram como motivo de abandono da terra natal, os maus tratos.

Na Federação segundo as últimas estatísticas, há nada menos do que 133.000 trabalhadores activos do sexo masculino de proveniência moçambicana. E na União 150.000. Isto junto aos do Tanganica, perfazem, como vê, quase metade dos homens válidos de Moçambique. E bestificamente, continuamos a dizer (como na recente e saborosa discussão do Plano de Fomento no Conselho Legislativo, quando se falou de mão de obra) que o indígena é preguiçoso e que só por meio de preparação psicológica se pode levar ao trabalho…

A misceginação também tem que se lhe diga. Há milhares de crianças mistas abandonadas pelos pais. E isto é tanto mais notável quanto é certo que no Congo Belga os pais das crianças mistas ilegítimas são sistematicamente chamados à responsabilidade…

Sobre a assimilação nem é bom falar.

Poucos são os que têm a coragem de aludir a esta situação catastrófica. E o Sr. Prof. foi um desses, embora sob evidentes constran-gimentos psicológicos. Nós, os que vemos a situação com certa lucidez, não devemos, realmente, fugir. É preciso que fiquemos, para que possamos analisar, estudar (e, como sabe, ser um dia escutados) o ambiente sociológico que nos cerca. Temos uma tarefa a cumprir.

Os hábitos e pontos de vista locais estão tão empedernidos que me parece só por pressão do Governo Central poderem ser alterados. Quando digo locais, refiro-me também a S. Tomé e Angola. Mas não terá a Metrópole receio de reacções locais de carácter separatista, se quiser pôr em prática certas medidas? É o que me parece que está acontecendo com o problema da mão de obra, por exemplo. Se se pusesse em prática as determinações legais, as repercussões económicas seriam extremamente graves e daí a revolta contra o Governo Central.

Permito-me aconselhá-lo a rodear a sua próxima visita do maior sigilo, pois me constou haver alguns elementos em Lourenço Marques que aguardam a sua vinda para se manifestarem contra si. É realmente lamentável, estúpida e incoerente e própria de ignorantões, a reacção desencadeada pela sua comunicação.

Desculpe esta carta ir um pouco atabalhoada. Tive que a interromper a todo o momento para atender a assuntos de serviço e um deles bem irritante: um dos aspirantes vai de urgência para a metrópole e com esta partida agrava-se a acumulação do expediente. O curioso da situação é que conheço tantos indígenas excelentes dactilógrafos, que andam miseravelmente de porta em porta procurando emprego por salários irrisórios! Aqui há dias, como se aceitam aspirantes, interinos, com a 4.ª classe, um assimilado requereu a sua admissão. Pois foi por aqui uma risota gostosa. Até já pretos há no quadro administrativo, diziam, em grandes galhofas! A situação dos assimilados e mistos é muito angustiosa em face da legislação de salários mínimos e outras regalias, porque ninguém está disposto a dar-lhes os mesmos salários e direitos que se dão aos europeus. Enfim, problemas e mais problemas. A vantagem deste quadro é estarmos em contacto directo com eles.

Muito afectuosamente,

Rita Ferreira

(fim)

 

17/09/2019

SOBRE A MORTE DOS LIBERTADORES DA NAÇÃO, 1986-2019

 

 

Multidão sombria no funeral de Samora Machel, o ditador comunista de Moçambique, falecido num acidente de avião, 28 de Outubro de 1986. Foi sucedido por Joaquim Chissano  o Mandarim, e depois por Armando Guebuza, o do Guebusiness. Não havia internet. A Frelimo manda absoluta e consecutivamente no país há 45 anos, desde 20 de Setembro de 1974. Prepara-se para manter esse controlo no próximo dia 16 de Outubro. Desde há 30 anos, Moçambique é dos países mais pobres do mundo. Foto de uma agência internacional que não consegui identificar.

 

Cartaz partilhado na internet no dia a seguir a se conhecer a morte de Robert Mugabe numa clínica de luxo na Cidade-estado de Singapura, Setembro de 2019. Mugabe governou a antiga Rodésia entre 1980 e o seu afastamento por outro homem forte em 2017. Desde os últimos 15 anos, o Zimbabué é dos países mais pobres do mundo. Mugabe era, e a sua família é, entre as mais ricas de África.

15/09/2019

LOURENÇO MARQUES, 15 DE SETEMBRO DE 1974: UMA FOTOGRAFIA

Filed under: Jean-Claude Francolon, LM 15 de Setembro de 1974 — ABM @ 2:41 pm

Imagem retocada, do grande foto-jornalista Jean-Claude Francolon, um dos Seis da lendária Agência Gamma, baseada em Paris, que pelos vistos viajou até Lourenço Marques aquando das negociações em Lusaka para a entrega de Moçambique à Frelimo, pelo novo regime português, assinada em 7 e formalizada em 20 de Setembro de 1974.

A imagem foi tirada há exactamente 45 anos.

Pelo meio, houve muita coisa. Houve o medo (completamente infundado) que os brancos na África do Sul e Rodésia “acudissem” os seus manos brancos (ah ah ah). Houve um protesto imediato e visceral por parte de alguns brancos, especialmente em Lourenço Marques e na Beira, que essencialmente consistiu na tomada do Rádio Clube, onde fizeram muito barulho e tocaram o hino português durante uns dias (obviamente parece que não tinham percebido o que acontecera), e que só teve o efeito de irritar mais os chefes da Frelimo e ainda mais os chefes da tropa portuguesa, que achavam que já tinham feito muito ao negociar umas “garantias” que nunca valeram a tinta com que foram assinadas. Após uns dias um pouco à toa (quase não havia nem tropas portugueses e muito menos guerrilheiros da Frelimo em Lourenço Marques), em que ocorreram algumas mortes (ninguém sabe quantas) e as habituais pilhagens de lojas e armazéns nos arredores, o assunto foi resolvido quase de forma cavalheiresca por ambas as partes, seguindo-se uma importação, do Norte, pelos portugueses (que queriam mostrar a sua boa fé na entrega do poder prevista nos acordos), de tropas armados de ambos os lados, seguida por uma onda de prisões e de perseguições, também totalmente à toa e à margem da lei, que resolveu o assunto, o qual permanece no imaginário de muitos.

Eu na altura tinha 14 anos de idade, tinha estado em Portugal quase todo o Verão e viajei na TAP para Lourenço Marques na noite de dia 7, quando, em Lisboa, do que me recordo, rigorosamente nada se sabia dos Acordos de Lusaka. Eu nem sequer sabia que se estava a negociar em Lusaka. Cheguei à Cidade, em quase estado de sítio, ao fim da tarde do dia 8 de Setembro. O meu Pai estava com a equipa do Nova Aliança em Nampula (que ele treinava) para um jogo de futebol e só voltou a LM dois dias depois. A minha Mãe estava sózinha em casa com as minhas duas irmãs e a minha gata, na Polana, onde nada de especial se passou.

Nas semanas que se seguiram, assistiu-se ao patrulhamento da Cidade, nunca dantes visto, feito por grupos mistos compostos por guerrilheiros da Frelimo e soldados portugueses, armados até aos dentes com armas de guerra que incluiam bazucas, G-3 e AK47s, os portugueses nas suas fardas verdes e os frelimos ou todos esfarrapados ou com fardas emprestadas pelos tropas portugueses. Uma boa parte dos frelimos não falava nem português nem ronga, a língua nativa mais falada na Cidade. Os médias locais passaram a passar exclusivamente propaganda comunista e afecta à Frelimo, alguma que era quase patética. Uma parte significativa dos residentes, portugueses e brancos, pura e simplesmente fez as malas e foi-se embora. A população nativa estava fleugmática mas radiante com a vinda da Frelimo. Nos três anos seguintes, com a prestimosa e dedicada ajuda dos líderes da Frelimo, cerca de 90 por cento dos brancos de Moçambique saíram “voluntariamente”. Pois quem não estava com a Frelimo, estava contra a Frelimo e os brancos tinham que perceber quem é que mandava agora. E quando já não havia brancos para perseguir, começaram-se a perseguir os moçambicanos uns aos outros, a visão lírica de um Moçambique multifacetado em progresso e harmonia a esfumar-se perante os ímpetos controladores de uma nova elite que se manterá sózinha e a todo e qualquer custo no poder nos 50 anos seguintes, numa espécie de guerra civil sem fim, a economia numa espiral descendente, tornando Moçambique, até hoje, num dos países mais pobres e endividados do planeta.

Arredores de Lourenço Marques, 15 de Setembro de 1974. Uma patrulha mista é celebrada pelos residentes. Dali a cinco dias, o poder do Estado em Moçambique era efectivamente entregue à Frelimo.

 

A legenda da fotografia.

09/09/2019

OS BONS RESIDENTES DE LOURENÇO MARQUES, 1935

Filed under: Os Bons residentes de LM 1935 — ABM @ 10:01 pm

Imagens retocadas.

Leia o Exmo. Leitor esta pérola, que é uma secção de um folheto turístico sobre Lourenço Marques, em língua inglesa, dirigido, presumivelmente, aos mercados estrangeiro e branco sul-africano, publicado em meados da década de 1930. A minha tradução em baixo.

“A atmosfera cosmopolita de Lourenço Marques já foi mencionada e é um dos seus maiores encantos. Certamente que em Lourenço Marques, o visitante encontra algo diferente, algo interessante e agradável. As pessoas são corteses e amigáveis em relação aos estrangeiros, e, ainda que o conhecimento da língua portuguesa seja sem dúvida útil para aqueles que tencionam permanecer na Cidade por um período prolongado, não é essencial. Os nativos são extraordinariamente bem controlados [sic] e fazem excelentes criados, sendo simultaneamente alegres e de confiança. Realmente, o ambiente que se encontra por toda a parte é um de satisfação e de boa vontade. Regra geral, as autoridades portuguesas são extramemente corteses e tentam sempre ajudar, e apesar de existirem algumas restrições que possam ser consideradas incomuns para o cidadão estrangeiro, mas para os que são responsáveis pela aplicação da lei, conseguem fazer o seu trabalho minimizando as dificuldades e a inconveniência. Os residentes [brancos] são boulevardiers [presumo: gostam de estar na rua] e a qualquer hora do dia ou da noite mesmo muito tarde à noite, podem-se encontrar grupos de homens e de mulheres reunidos na Praça 7 de Março, a tomarem os seus refrescos à moda Continental. Os visitantes podem sentar-se aqui e ver a vida da Cidade passar à sua frente. E assim o homem de negócios vestido de branco, o polícia nativo descalço vestindo o seu turbante vermelho e marinheiros de navios estrangeiros misturam-se com turistas protegendo-se do sol, a mistura enorme das diferentes línguas ali faladas tornando o cenário alegre e intrigante.”

29/08/2019

PATRULHANDO UM MACHIMBOMBO A NORTE DE MAPUTO, 1985

Imagem retocada.

Moçambique esteve praticamente num clima de guerra entre 1964 e, especialmente, 1976 e 1992, envolvendo o sucedâneo institucional da Frelimo e a Rodésia, a África do Sul e a Renamo, numa mistura de guerra de subversão e guerra civil.

Em 1985, quando esta imagem foi colhida, Samora Machel já havia assinado um acordo com a África do Sul, mas a guerra continuava e a situação militar era má, causando morte e miséria entre a população. Algo desiludido com o apoio dos aliados comunistas, Machel ensaiou uma aproximação ao Ocidente, visitando Reagan em Washington. No ano seguinte, morria num acidente de avião e era sucedido por Chissano. A guerra endureceria e duraria mais sete anos, acabando num acordo em que, no fim, a Frelimo prevaleceria.

Um soldado do exército, as Forças Populares de Libertação de Moçambique, patrulha um machimbombo a norte de Maputo, 1985. Foto de Paul Weinberg.

O CAMPEÃO DO MUNDO NO RISCO DA LAVAGEM DE DINHEIRO E FINANCIAMENTO DO TERRORISMO, 2019

Filed under: O Campeão da Lavagem do dinheiro e do FT 2019 — ABM @ 9:02 pm

O Basel Institute on Governance, uma fundação suíça que opera sob os auspícios da Universidade da Basileia, publica desde 2012 uma listagem de países que pretende auferir, através de um índice, os riscos de lavagem de dinheiro e de financiamento do terrorismo, baseado em cinco critérios, todos obtidos a partir de informação publicada por instituições idóneas:

  • Qualidade da Estrutura de monitorização e controlo da Lavagem de Dinheiro e contra o Financiamento do Terrorismo
  • Pagamento de Luvas e Corrupção
  • Transparência e Padrões Financeiros
  • Transparência e Prestação de Contas no sector Público
  • Riscos Político e Jurídico

E baseado nestes cinco critérios, qual o país, no Planeta, com o índice mais elevado? Em 2019, eesa distinção cabe à República de Moçambique:

Moçambique no topo de uma lista de 125 países. É questão para perguntar: o que se passa em Moçambique?

Quando, estes dias, alguns tentam fazer passar a ideia de que Moçambique poderia estar a fechar o longo capítulo da guerra com a Renamo, e a inaugurar uma espécie de era dourada com receitas da exploração do gás, a verdade é que nada disso é certo e que, de facto, os perigos presentes e futuros são mais que muitos, desde a mudança climática aos efeitos de uma verdadeira explosão populacional, a que não corresponderá um crescimento económico que permita às pessoas o seu sustento. Nesse aspecto o negócio e as receitas do gás pouca diferença farão. Os sucessivos ataques no Norte, à guisa de uma putativa e incomprovada rebelião por parte de (refere-se) pessoas muçulmanas, as quase indescritíveis dificuldades do regime em lidar com a inenarrável fraude das chamadas dívidas ocultas, perpetrada ao mais alto nível do Estado moçambicano, nada disto augura um futuro positivo, excepto para uma certa elite baseada em Maputo, que tudo faz, em tudo manda e tudo parece poder fazer, com quase total impunidade. Em parte precisamente porque o contexto é um em que, como se infere dos dados acima, o país figura entre os mais corruptos e mal governados no Mundo. E quase nada faz supôr que isso se altere no futuro.

13/07/2019

MOZAMBIQUE DRILL

Filed under: Mozambique Drill Wtf — ABM @ 4:29 pm

Nunca hei-de perceber como é que, havendo tantas outras opções em termos de nomes, porque é que, em todo o mundo, à técnica de se matar alguém a tiro, segundo a qual se dão dois tiros no corpo e um na cabeça, em sequência rápida, se chamou “Mozambique Drill”.

Sei lá, Colômbia Drill para mim fazia mais sentido, ou Chicago Drill.

Nestes vídeos vê-se como se faz e num deles um instrutor que soa a estrangeiro (acho que é sueco) explica a lógica daquilo (que acho que é mesmo neutralizar de vez o oponente).

Enfim.

 

12/06/2019

JORGE, JOANA, CASSAMO E O G.U.M.O., MAIO DE 1974

Em baixo, reprodução de uma (péssima e algo surreal) peça jornalística,  publicada na edição de 18 de Maio de 1974 na revista lisboeta O Século Ilustrado (pp. 21-23) naquelas semanas loucas em que parece que alguns achavam que tudo era possível em Moçambique depois da caída do regime colonial português e em que se badalava a democracia e a liberdade.

Na peça apenas é citado Jorge de Abreu, apesar de o texto ser acompanhado de fotografias de Joana Simeão, Jorge de Abreu e Cassamo Daudo.

A pequena aventura do GUMO durou pouco e a Frelimo não perdoaria a Joana Simeão, originária do maior grupo étnico de Moçambique, que se distinguiu por nunca apoiar a guerrilha (os grandes Macua), o atrevimento de pretender constituir-se como uma alternativa à Frelimo. Ao ponto de a mandar matar. Até hoje, os seus restos mortais permanecem em local desconhecido. Não sei o que aconteceu a Cassamo Daudo (e não Davide, como é referido no texto), sobre o qual sei pouco. Jorge de Abreu era, em 1974 um dos empresários mais ricos e com maior sucesso em Moçambique, e que se considerou moçambicano até ao dia em que morreu (há poucos anos, em Joanesburgo), viveu um longo exílio fora de Moçambique, não sem que antes elementos do governo de Moçambique, no pico do Repolho e do Carapau,  o tivessem convidado a regressar ao país e a retomar os seus negócios, Segundo o seu filho João, que é uma enciclopédia viva sobre Moçambique, Abreu recusou.

 

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20/05/2019

O DEBATE ELEITORAL ENTRE DE KLERK E NELSON MANDELA, 14 DE ABRIL DE 1994

Filed under: Debate De Klerk-Mandela 1994, F W De Klerk, Nelson Mandela — ABM @ 12:55 am

Re-emissão comemorativa da SABC, no 25º aniversário do histórico debate eleitoral entre Frederick W De Klerk e Nelson Mandela, antes da primeira eleição democrática na África do Sul. Na íntegra.

 

17/05/2019

NOVO DOCUMENTÁRIO SOBRE MOÇAMBIQUE: “BRISA SOLAR”

Filed under: Documentário Brisa Solar — ABM @ 12:27 am

Está a passar na televisão portuguesa um documentário em três episódios sobre Moçambique, contrastando algum do passado português com a actualidade moçambicana, que penso que alguns exmos. Leitores poderão achar de interêsse.

Segue a informação em baixo.

Em meados de Junho, será exibido um filme na Cinemateca Nacional em Lisboa, penso que com base nos mesmos materiais.

Imagem de uma gravação que aparece no 2º dos três episódios.

 

Título

Brisa Solar

Tipo:

Documentário

Resumo

Uma viagem por Maputo e pela Beira que regista pequenos e grandes acontecimentos dos espaços pós-coloniais.

Exibição

3 episódios de cerca de uma hora, a serem exibidos pela Rádio Televisão Portuguesa, Canal 2 (RTP2).

Ficha Técnica

Argumento, Realização, Imagem, Som e Montagem: Ana Pissarra e José Nascimento
Misturas: Flak, Carlos Jorge Vales e Guilherme Vales
Dobragem: Costa Neto e Octávio Chambe
Produção: Maria José Peyroteo e Ana Sofia Nunes
Direção de produção: Rita Gonzalez
Direção de produção (Moçambique): Inadelso Cossa
Assistente de produção (Moçambique): Osvaldo Lupini Bambamba (Quilombo Films)
Produção executiva: Rita Gonzalez
Coprodução: Adonis Liranza
Produção: António Câmara Manuel (DuplaCena)
Financiamento ICA – Instituto do Cinema e Audiovisual e RTP – Rádio e Televisão de Portugal
Apoio ao desenvolvimento Programa MEDIA – Creative Europe
Apoio 22 Atelier

Descrição

Numa viagem em torno do edificado mais notável de arquitetura moderna entre Maputo e a Beira, o filme dá voz a estórias privadas que emergem no documentário como memória sensível e que testemunham a dimensão política da história comum entre Portugal e Moçambique.

O documentário realizado por Ana Pissarra e José Nascimento propõe um novo olhar para este património comum, que denuncia um inevitável parentesco entre os dois países e procura entender como é que os valores da democracia expressos pelo modernismo foram integrados pelas sociedades pós-coloniais.

‘As casas foram nacionalizadas e a cidade “passou para a mão do povo”. Os colonos cosmopolitas abandonaram o país e, pela mão da Frente de Libertação, chegaram os novos habitantes à cidade branca. Eram negros e traziam uma cultura rural. A cidade passou a chamar-se Maputo. Mas Lourenço Marques continuou a viver e a envelhecer dentro de Maputo.

Tem hoje um grande valor patrimonial e artístico e, para muitos portugueses, também um valor afetivo. Mas recorda valores racistas e pouco a pouco, será demolida pela especulação imobiliária.
Entre a delicadeza e o apocalíptico, Brisa Solar viaja por Maputo e pela Beira registando pequenos e grandes acontecimentos quotidianos que desenham estes espaços pós-coloniais mestiços.’

14/05/2019

HENRY KISSINGER EM LISBOA, 17-18 DE DEZEMBRO DE 1973

Imagem retocada.

Saiu na rifa a Henry Albert Kissinger, o 56º Secretário de Estado norte-americano, durante os mandatos de Richard Nixon e Gerald Ford, lidar com o golpe militar de Abril de 1974 em Lisboa, que abriu o caminho, algo precipitado, para a independência das colónias portuguesas, Moçambique incluído.

Supostamente, quer Henry Kissinger quer a diplomacia dos EUA, com as mãos meio atadas pelas sucessivas crises e episódios, desde o derrube de Allende no Chile, à Guerra de Yom Kippur no Médio Oriente, ao escândalo de Watergate, foram apanhados desprevenidos (mas provavelmente não surpreendidos) pelo acontecimento.

Em Outubro de 1973, o ataque dos vizinhos árabes a Israel quase sucedeu, não fosse o apoio maciço dos americanos através de um enorme esforço a partir dos EUA e que incluía uma ponte aérea entre os dois países, que necessariamente incluía a utilização da base aérea operada pelas forças armadas norte-americanas na ilha açoriana da Terceira, no arquipélago dos Açores.

Para tal, nos termos dos acordos com Portugal, para fazer tal uso, o governo dos EUA teria primeiro que pedir autorização de passagem dos aviões (houve uma altura em que aterrava e descolava um avião a cada cinco minutos).

Os portugueses, a braços com a guerra colonial, tentaram aproveitar a oportunidade para tentar obter dos americanos alguns equipamentos militares especializados. Kissinger falou com o ministro português português da altura, o jovial Rui Patrício, último ministro dos Estrangeiros de Caetano e do regime. Kissinger terá basicamente dito que ia pensar no assunto mas que entretanto os primeiros aviões da ponte aérea para Israel começavam a aterrar na Base das Lajes dali a cinco minutos.

Mais tarde, mandou um telex a dizer “obrigadinho” ao governo português, disse que mandassem a lista dos equipamentos militares para análise, que basicamente eram para mandar no dia de São Nunca à tarde e, nos dias 17-18 de Dezembro de 1973, esteve em Lisboa para basicamente dar uma dose de charme, durante uma das suas tournées internacionais. Pesem as teorias de conspiração, os americanos eram reticentes em relação a Portugal e ao que andava a fazer e não queriam ser vistos como apoiantes declarados da ditadura. O que facilitou grandemente a vida aos apoiantes da Libertação. Ademais, os EUA não tinham qualquer interesse estratégico na zona a não ser evitar que se tornasse uma coutada soviética, e mesmo aí quando se tornou de facto uma coutada soviética, deixaram andar e o resultado foi o que foi: dez anos depois Samora estava de visita a Washington e a dizer que afinal não era bem comunista. Reagan achou imensa piada e Chester Crocker deu-se palmadinhas nas costas.

O uso da Base das Lajes pelos americanos, implantada no meio do Oceano Atlântico na mesma ilha onde Gungunhana tivera exilado e onde morreu, foi um dos principais travões usados por Salazar no início da década de 60 para condicionar o “militantismo independentista e descolonizador” da Administração Kennedy em relação a Portugal. No que basicamente sucedeu. Após o assassinato de Kennedy em Dallas (22 de Novembro de 1963), o seu sucessor, Lyndon Johnson, basicamente, para além do Vietname, mostrou que tinha muito pouco interesse em conflitos de segunda ordem em locais exóticos.

Durante a visita do Secretário de Estado norte-americano a Lisboa, 17-18 de Dezembro de 1973, posando junto ao monumento aos Egrégios Avós que Criaram o Império lá junto ao Tejo em Belém. Da esquerda: 1) (?)(diplomata português); 2(?); 3) Henry Kissinger; 4) Rui Patrício, ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal.

09/05/2019

OTELO SARAIVA DE CARVALHO ENTREVISTADO, 2014

Filed under: Otelo Saraiva de Carvalho entrevistado 2014 — ABM @ 6:05 am

Entrevistada gravada no dia 23 de abril de 2014 na Cidade de Pontevedra, Espanha, no âmbito da comemoração da Semana Galega da Filosofía, organizada por Aula Castelão.

Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho nasceu em 31 de Agosto de 1936, em Lourenço Marques (actual Maputo). foi membro do chamado Movimento dos Capitães e é considerado por muitos o estratega do movimento militar que derrubou o regime português num golpe levado a cabo em Lisboa no dia 25 de abril de 1974.

 

19/04/2019

O PENSAMENTO COLONIAL PUBLICÁVEL EM 1966

O documento original encontra-se no espólio de João Bénard da Costa, ao cuidado da Casa Comum, que reproduzo abaixo, com vénia:

 

A verdade certa, segundo Matos Gomes, 1966.

O João, um credenciado opositor do regime de Salazar, que em troca o lixou sempre e onde pôde, deve ter ficado impressionado com esta “verdade incontornável”, que terá sido redigida por Francisco Matos Gomes, penso que na altura professor de filosofia no Liceu António Ennes em Lourenço Marques mas, se não me engano, um lendário defensor do “Salazar Uber Alles”, se calhar aquilo que hoje se definiria como extrema direita e ainda da “velha escola” colonial, que basicamente considerava inconcebível, entre outras coisas, uma soberania moçambicana gerida por negros, descontando por completo o pequeno detalhe do já consistente nacionalismo moçambicano.

Isto num contexto em que, no resto de África, as independências confrontavam-se já com os miríades problemas decorrentes das responsabilidades adquiridas.

Hoje é, quiçá demasiadamente  fácil, desconsiderar-se esta perspectiva, que terá tanto de racista como situada fora das correntes históricas que invariavelmente os académicos e investigadores desprezam enquanto factores significativos na persistência do regime pelo tempo que perdurou. Isso é ignorar os factos e o argumento na época, partilhado por muitos portugueses (e sul-africanos brancos, e rodesianos brancos) na altura, eles que detinham a soberania, que, por mais iníqua, desigual e até imoral que pudesse ser, no caso das colónias portuguesas, a Pax Lusitana, que a sua alternativa imediata seria o confisco do que fora edificado, a caça ao branco, uma ditadura negra patrocinada pelo Bloco comunista, uma carnificina e o surgimento de elites negras que simplesmente se serviriam do aparelho de Estado para capturarem aquilo que havia para encherem os bolsos.

Nesse sentido, este nico de comentário de Francisco Matos Gomes, que mereceu ser notada pelo João Bénard da Costa, é deveras revelador, tal como é o comentário abaixo, que pesquei noutro sítio, penso que a cinta de um livro ácido sobre o General Norton de Matos, um militar português com credenciais democráticas que quis concorrer a presidente de Portugal pela Oposição em 1949 e que assim foi sumariamente trucidado pela máquina de Salazar:

A simples frase de Matos Gomes, que assina o livro Oposição Democrática Bancarrota sob o pseudónimo Jorge Vernex, na cinta promocional que envolvia o livro.

O corolário do argumento mais ou menos vigente segundo o qual “o preto é incapaz de se governar” era, claro, a “grande ameaça comunista”, em destaque desde o final da II Guerra Mundial, em que o Bloco Soviético e a China teriam planos de dominação mundial e que de facto já agiam no terreno em África, capacitando, no caso de Moçambique, a Frelimo nas artes marciais e com armamentos que incluiam a celebrada AK-47 (unicamente representada na bandeira nacional moçambicana) e as minas anti-terrestres, que na verdade foram o que, durante algum tempo, tornou a guerra colonial muito mais dura de roer para os renitentes portugueses do regime.

Preso nesta dialéctica, e sob ordens do regime, o exército português viria a apôr a guerrilha tardiamente iniciada a partir do país de Julius Nyerere, o seu grande patrocinador, sem ter havido grande evolução durante quase dez anos.

Que eu saiba não houve diálogos e as pressões de aliados bem intencionados como os Estados Unidos, foram muito mal acolhidos.

O cenário, assim, encaminhou-se para o que veio a seguir, em que tanto se ganhou e tanto se perdeu.

 

 

 

07/01/2019

A ÚLTIMA VISITA DE JOAQUIM CHISSANO À ALEMANHA COMUNISTA, 1989

Filed under: Chissano visita a RDA 1989 — ABM @ 1:22 pm

Imagem retocada e pintada por mim.

 

Foi o fim dos bons velhos tempos da solidariedade comunista. Joaquim Chissano, então presidente de Moçambique, e Erich Honecker, o ditador da Alemanha comunista, em sentido, durante uma cerimónia protocolar de boas-vindas, momentos após a chegada a Berlim da delegação moçambicana, num avião das LAM, 24 de Maio de 1989, uma quarta-feira. Honecker, no poder do satélite soviético desde Outubro de 1976, será afastado menos que seis meses após esta foto ter sido tirada, ainda antes da queda do Muro de Berlim, em Novembro de 1989, que sinalizou o início do desmoronar do império soviético. Morreria refugiado no Chile cinco anos depois e a RDA foi absorvida pela Alemanha Federal. Na mesma altura, Joaquim Chissano e a Frelimo lutavam pela sua sobrevivência enquanto a Renamo demolia o que sobrava do seu país. Em 1989 já Chissano sabia que não podia vencer o conflito e procurava formas de contactar e negociar com a liderança da Renamo. Em 1992, efectivamente, e numa concessão difícil de explicar por parte da Renamo, ganhou a guerra na secretaria. A liderança histórica da Frelimo permanecerá intacta no poder até hoje e Chissano manteve-se na sua liderança até ser substituído em 2003 pelo ambicioso Armando Emílio Guebuza, que, uns anos mais tarde, mais uma vez tentou fisicamente decapitar a Renamo sendo este substituído por Filipe Jacinto Nyusi, previamente desconhecido e um homem da Manchúria imposto por Alberto Joaquim Chipande. O filme continua.

31/12/2018

A PRISÃO DE MANUEL CHANG, O ESTADO E O ESTADO DO JORNALISMO

Filed under: A prisão de Manuel Chang — ABM @ 3:15 pm

O alegado multimilionário Manuel Chang, ex-ministro das Finanças da República de Moçambique, durante um dos inolvidáveis mandatos de Armando Emílio Guebuza.

Do anúncio da prisão do ex-ministro das Finanças de Moçambique na era de Armando Emílio Guebuza (e actual deputado na Assembleia da República de Moçambique, pela Frelimo), ao cair da noite de 28 de Dezembro, ao tentar embarcar num vôo entre Joanesburgo e a cidade do Dubai, e que foi um verdadeiro furo da pequena publicação dirigida por Marcelo Mosse, podem-se já tirar três grandes ilacções.

A primeira ilacção, e provavelmente a com maior peso, é opotencial impacto reputacional sobre o Estado moçambicano, não só porque manifestamente se revela incapaz de lidar com a sua roupa suja, como, cada vez com maiores certezas, se revela capturado por figuras com um perfil moral e ético questionável, que aparentemente se servem do seu estatuto e posição enquanto servidores do Estado, para obterem ilegitimamente benefícios pessoais dos seus cargos, ou através de negociatas ou roubando do erário.

Esta constatação, a que se junta a perpétua suspeita de esquemas e aldrabices eleitorais, ajuda a consolidar a perspectiva de que Moçambique é um Estado Falhado, capturado pela elite política local, ainda que de forma moderadamente sofisticada, a que está associada a quase total inoperância dos sistemas legal, judicial e de vigilância – que aparentam fazerem parte do complot.

A segunda ilacção tem que ver com o estado da comunicação social em Moçambique – mas não só.

A notícia da captura de Chang em Joanesburgo (que eu tive conhecimento através de uma curta mensagem emitida pelo Canalmoz nessa mesmo noite de 28 de Dezembro) apenas afirma o facto da prisão e é acompanhada de uma imagem, possivelmente tirada à sucapa com um telefone móvel, do que parece ser um documento judicial sul-africano, em língua inglesa, supostamente a corroborar as circunstâncias do acto. Posteriormente (escrevo isto na tarde de 31 de Dezembro) várias organizações de notícias reportaram a prisão de Chang mas de forma pouco coerente, citando, no caso da Lusa a embaixada de Moçambique em Pretória para a prisão, e no que concerne às circunstâncias, fonte da embaixada sul-africana (presumo que em Maputo) citando a estação de televisão de Maputo, a STV.

Por outro lado, a peça de Marcelo Mosse diz tanto como não diz. Refere que Chang estava a ser preso por nada menos que as autoridades dos Estados Unidos da América e sujeito a ser extraditado para aquele país para ir a tribunal responder por três crimes graves, descrevendo a sua tipologia, mas não explica que crimes Chang cometeu especificamente – mas refere que não têm que ver com o crime do famoso “empréstimo Ematum”, cuja conta no fim ficou a cargo dos contribuintes moçambicanos.

Mosse não explica como e porque é que os Estados Unidos surgem neste caso, sendo que o tal documento aparentemente judicial sul-africano refere especificamente que os alegados crimes foram cometidos em jurisdição sul-africana – mas Mosse escreveu que não se sabia onde os crimes foram cometidos. O documento diz, preto no branco, que foram cometidos na África do Sul.

Mais: Mosse sugere que afinal sabe tudo e até dá umas dicas meio no ar, refere que envolve mais gente (presumivelmente da high society da nomeclatura moçambicana) mas que para já não dizia nada.

Hoje, ainda em relação a este assunto, Marcelo Mosse pontificou mais, mas ainda vagamente, sobre o seu impacto no actual regime moçambicano. Ele acha que irá ter grande impacto.

Talvez o relato mais surpreendente tenha sido o da Voz da América, que, no seu sítio na internet, para além de referir que Chang iria ser presente a um juiz sul-africano no dia de hoje (31 de Dezembro), se limitou a citar outras entidades para o seu reporte da prisão de Chang – Mosse, a Procuradoria Geral de Moçambique e a Televisão de Moçambique. Ora, se o processo originou nos Estados Unidos, talvez o mais relevante neste momento seria conhecer os detalhes das supostas alegadas acusações (graves) do governo dos Estados Unidos contra o Senhor Chang. Pensaria eu que a VoA, um organismo de comunicação do goerno dos Estados Unidos, estaria em condição privilegiada para obter e reportar em maior detalhe e com fontes seguras sobre este assunto. Mas não.

Todos parecem saber (muito) menos que o Marcelo Mosse e que os impessoais do Whatsapp.

E isto não é jornalismo, em que uns regorgitam pedaços de informação uns dos outros e não se conhece om cerne da questão.

A terceira ilacção é, a confirmar-se, a natureza do acto por parte das autoridades do governo norte-americano no que respeita a Moçambique e a figuras da elite política-económica local.

O Exmo. Leitor recordar-se-á que já não é a primeira vez que o governo dos Estados Unidos “investe” contra figuras locais, isoladamente e ás vezes de forma selectiva, se não caprichosa. Há uns anos, o OFAC, um relativamente pequeno gabinete no Departamento do Tesouro norte-americano, proclamou o patriarca da Família Bachir “barão da droga”. O acto teve algumas consequências menores, mas Bachir permanece em Maputo com a maior parte dos seus negócios e o seu património intactos. Na altura, ficou célebre a afirmação de um alto representante do Estado moçambicano, de que Bachir tinha a “folha limpa”. Ao que se sabe, os americanos mais nada fizeram, e mais nada disseram, até hoje.

Dez anos volvidos desde esse evento, a novel posição de Moçambique enquanto futuro fornecedor de gás de referência nos mercados internacionais tornou-se algo em relação ao qual o governo dos Estados Unidos não é indiferente. Até porque há vários players norte-americanos directa ou indirectamente envolvidos em vários aspectos do processo, e também entidades potencialmente adversárias dos interesses globais norte-americanos, tais como a China. No que a estes processos concerne, a postura moçambicana tem-se revelado permeável, nomeadamente aos interesses da elite local, que tende a associar-se, mais do que respeita aos interesses estratégicos do país e da sua população, a quem dá mais, em esquemas invariavelmente menos transparentes e que, suspeita-se, têm como principal resultado rechearem contas bancárias de que são beneficiários últimos em variadas praças offshore. Ora, ninguém é melhor que os serviços de inteligência norte-americanos para relevarem e analisarem as informações necessárias, e as várias agências do governo norte-americano, para utilizarem os variadíssimos instrumentos ao seu dispor para agirem em relação a estas situações. O que aconteceu a Manuel Chang é apenas um mero e menor exemplo desses instrumentos.

De momento, tudo indica que sabemos ainda muito pouco sobre este processo e que vamos ter que esperar para melhor contextualizar o que significa e ainda as suas consequências. Ao longo das décadas desde a tomada do poder, entregue de bandeja de forma inquestionada pelos revolucionários portugueses, a Frelimo teve uma capacidade surpreendente de driblar e de sobreviver. Será interessante observar o seu comportamento perante o que se vai passar a seguir. Eu, que relativamente a Moçambique já vi o equivalente a dois porcos a voar de bicicleta, espero tudo.

Ou nada.

 

16/12/2018

O THE DELAGOA BAY REVIEW E O MUNDO

Imagem retocada e pintada por mim.

Peço aos exmos. Leitores, o favor de lerem a mensagem em baixo.

O Gelderland, navio da marinha holdandesa, atraca no porto francês de Marselha, 22 de Novembro de 1900, trazendo Paul Kruger de Lourenço Marques, no início do que se veio a tornar o seu exílio. Dois meses antes, o Reino Unido conquistara militarmente o seu país, o antigo Transvaal.

 

A partir desta semana, o The Delagoa Bay Review, que iniciei há quase nove anos, passou a ser um blogue marcado como confidencial e privado.

Isto significa que, todo o seu conteúdo deixou de estar disponível na internet e só poderá ser acedido pelos subscritores ou mediante autorização expressa minha.

Se recebeu esta mensagem, é porque é um subscritor.

Se quiser deixar de ser um subscritor, envie-me uma mensagem.

No período decorrido entretanto, em que investi muitas horas de pesquisa, o blogue foi visitado por cerca de meio milhão de pessoas que fizeram mais de 1.5 milhões de visitas. Tem um número relativamente pequeno de subscritores, menos que 500. Poucos, mas, presumo, bons.

Espero que tenham tido um bom proveito. Sempre foi um hobby pessoal, que oscila entre a procura de algum rigor histórico e o quase estritamente frívolo, espelhando e explorando afectos, curiosidades, questões fundamentais e  mero voyeurismo. Uma boa parte dos materiais dependeram de uma indispensável ajuda dos seus leitores, a quem estou grato.

Cumprimentos,

ABM

30/11/2018

AS OITO MESAS ELEITORAIS DE MARROMEU

Filed under: As 8 Mesas de Marromeu, Uncategorized — ABM @ 3:43 am

 

A pequena Vila de Marromeu, colada ao Zambeze na sua margem Sul,  espelha, estes dias, o que é o Moçambique político no final da segunda década do Século XXI: um País que permanece sob o domínio quase total da elite da Frelimo.

Apesar de volvido quase meio século, a Frelimo de 2018, de um ponto de vista identitário, ideológico, funcional e até humano,  é basicamente a mesma de 1969, ano em que a eliminação de Eduardo Mondlane proporcionou a rápida metamorfosização do que era um movimento guerrilheiro nacionalista numa organização permanente, de matriz marxista, disciplinada e com uma hierarquia, com um sentido de apropriação do Estado e a intenção de o dirigir para sempre, custasse o que custasse, independentemente, nomeadamente,  da capacidade ou incapacidade de gestão, da falência dos seus modelos, da captura dos interesses do Estado pelo partido e por alguns dos seus membros, de um clima de corrupção endémica a quase todos os níveis e, decididamente, da opinião dos eleitores moçambicanos que não querem votar na sua perpetuação no poder.

Nesse sentido, os dez anos da “moralização revolucionária” protagonizada por Samora, em que, já entregue, de forma precipitada, o poder de Estado ao CC da Frelimo em 1974, esta procedeu a expandir agressivamente o seu controlo a todo o país sob a capa do marxismo bélico, da ameaça externa e em defesa da unidade nacional, constituiram um mero interregno, eclipsado no momento da sua morte, até ao surgimento, com a “paz” de 1992, das condições para a sua elite político-militar começar a capturar, com a rapacidade possível, os recursos, os contratos e as rendas.

Pois quem é que, em Moçambique, se atreve, ainda hoje, a questionar o direito dos Pais da Nação a beneficiarem um “pouquinho” da soberania que afinal conquistaram por e para o povo, ao ponto de, no caso das chamadas dívidas ocultas, estes literalmente gozam com a cara de todos em prime time?

O mesmíssimo povo cujos votos a elite e elementos da Frelimo, a nível nacional, se entretêm a driblar desde 1992, quando, relutantemente e como medida de recurso para acabar uma guerra que não conseguia ganhar, aceitou o princípio do pluralismo político e – pasme-se – o capitalismo. Uma corruptela do capitalismo, precise-se.

Neste sentido, a Frelimo está em guerra com os moçambicanos, senão desde os anos 80, pelo menos desde 1992.

 

Curto texto do Mediafax, 28 de Novembro de 2018, referindo a repetição da votação em 8 mesas da Vila de Marromeu, depois de uma verdadeira e evidente pouca vergonha ocorrida na primeira votação. Nesta segunda volta, o que tudo indicia ser um escandaloso roubo voto da população foi ainda mais visível- excepto para a CNE e a Frelimo. Já em 2013, supostamente, a gang local da Frelimo roubou a eleição local.

Quem refere o que acima refiro e conta toda história de forma taxativa e clarividente (o que por si só constitui um acto heróico de coragem cívica e até física, num país só não tem medo quem não fala ou apoia a linha oficial) é José Jaime Macuane, na muito memorável introdução ao seu mais recente trabalho académico, Mozambique’s private sector in the context of conflict, publicado no final de Outubro de 2018 pelo think-tank britânico International Growth Centre e que pode ser lido (em língua inglesa) aqui.

Quando não está a fugir dos esquadrões assassinos próximos do Poder, focados em punir, por encomenda, alegados delitos de opinião contra o Regime e as suas pessoas, Macuane  é professor numa universidade em Maputo.

O ponto saliente, para o assunto, é que o pluralismo político pressupõe a convivência pacífica de pontos de vista contrastantes, livremente expressos pelos cidadãos, pelos meios de comunicação e pelas variadas organizações, sem receios de represálias, complementado por eleições livres em que todos os votos são devidamente contados e ganhe quem os eleitores elegem.

Mas praticamente desde 1992 – ou seja, há vinte e seis anos seguidos – que, quer a legislação eleitoral (sempre complicada) quer os processos eleitorais (sempre caros), quer as instituições encarregadas de gerir os processos eleitorais, até ao mais alto nível da magistratura nacional, têm sido alvo das alterações e manipulações mais alucinantes. Votos desaparecem. Votos aparecem. Eleitores surgem do nada, vindos de machimbombo não se sabe bem de onde, e votam. Urnas são violadas. A Frelimo ordena aos funcionários públicos que votem nela. Quando os crimes e erros são detectados, as comissões e os órgãos de recurso, ou escudam-se em formalidades (“falhou o prazo por um dia”, ou “assinou o papel mas não reconheceu a assinatura”) ou pura e simplesmente os ignoram e dão a vitória ao partido no poder. Candidatos são excluídos das eleições apenas porque sim, enquanto que, no caso de outros, com cadastro criminal confirmado, nada acontece. Sistemas informáticos de contagem de votos misteriosamente surgem com diferenças básicas nas contas de somar.

E quando tudo falha, mandam a polícia e os esquadrões.

Eu não penso que as pessoas afectas à Frelimo e que patrocinam esta patente farsa de democracia pluralista para estrangeiro ver, como a que acabou de acontecer em Marromeu, agem por acaso. Eu realmente acho que são pessoas convictas de que o seu conceito de interesse pessoal e nacional assim as motivam. Para eles, Moçambique é Frelimo e a Frelimo é Moçambique. Sem lhes ocorrer alguma vez que pode haver alternativa, nem que tal possa ser decidido pelo povo em plebiscito.

E portanto fazem canganhiça, fazem da sua campanha um carnaval e abafam a oposição. E quanto mais, melhor.

Mas há aqui dois paradoxos.

O primeiro paradoxo é que, a razão fundamental para o plurismo político, a livre expressão da opinião, e eleições livres, e, fulcralmente, o direito dos cidadãos votarem em quem quiserem, para além de consagrarem direitos humanos básicos e constituirem formas pacíficas de dirimir pressões sociais na sociedade, é que representam uma formidável forma de legitimidade representativa, permitindo aos eleitos agir com base em, e invocando, essa legitimidade, dentro e fora do País.

Quem tenta subverter estes pilares fundamentais num regime que se pretende plural e representativo – o direito de um povo seleccionar e eleger os seus representantes –  e que no agregado constituem um dos direitos mais sagrados que um povo pode ter, conquistados com o advento da soberania nacional,  é ladrão, ditador e vigarista. E nunca poderá invocar nem legitimidade nem representatividade perante o povo e o Mundo.

O segundo paradoxo é que, mesmo tendo eu a impressão que a Frelimo é relativamente popular a nível nacional e em muitas regiões e localidades, no sentido em que tem muitos adeptos que genuina e legitimamente votam na sua marca, que há naquela organização uma subcorrente que, com o mesmo grau de convicção, acredita que isso por si só não é suficiente. E que, de facto, é legítimo recorrer a estes processos de fraude e manipulação eleitoral, para preservar ou aumentar o domínio que tem sobre o Estado e as suas instituições.

Apesar de eticamente repugnante, tudo isto funciona até certo ponto, mesmo na era da internet, do Whatsapp e Facebook, e permite o exercício pleno do poder, até porque não ser contra a Frelimo tem as suas vantagens, como tem acontecido. Mas este paradigma não pode durar para sempre, e constitui uma péssima herança, com consequências graves para o futuro do que é hoje o sétimo país mais miserável do mundo.

Como terá dito o defunto presidente dos Estados Unidos Abraham Lincoln uma vez, pode-se enganar todas as pessoas algumas vezes, ou uma parte das pessoas a maior parte do tempo, mas não é possível enganar todas as pessoas a maior parte do tempo.

Deduzo que no caso das oito mesas de Marromeu, o povo percebeu bem quem estava a enganar quem.

15/11/2018

A PONTE, A CATEMBE E O SUL DE MOÇAMBIQUE

Imagem colorida por mim.

A ponte que liga mais directamente as duas margens da Baía, inaugurada a 10 de Novembro de 2018, versão kitsch.

Moçambique, há décadas um dos países mais pobres, endividados e problemáticos no planeta, inaugurou no dia 10 de Novembro mais uma obra faraónica, uma ponte suspensa que liga a capital à quase rural localidade de Catembe.

O projecto é mais um vestígio da natureza algo apoteótica do mandato e das negociatas do governo de Armando Guebuza.

Tirando o efeito propaganda, as negociatas, a especulação imobiliária na Catembe por parte dos suspeitos do costume – os ricos do regime e os seus acólitos – e o benefício marginal de os mesmos deixarem de ter que se incomodar  com a bicha do ferry às sextas-feiras quando viajam aos fins de semana para as suas dachas na outrora remota Vila da Ponta do Ouro, a utilidade da ponte, concebida, financiada e construída pelos chineses é, por enquanto, a de um elefante branco, agravado por um tarifário milionário para as portagens.

Tudo isto, segundo as contas de um jornal local, por um custo estimado de mais que mil e cem milhões de dólares americanos, se se levar em conta o facto de que a conta vai ter que ser paga em suaves prestações a uma taxa de juro punitiva, assumindo as futuras rendas do gás que há milhões de anos se vem acumulando e que está preso nas areias sob o Índico, bem ao largo da pindérica e infinitamente mais pobre localidade nortenha de Palma.

Factura essa, atalhe-se, que, alega-se, representa uma absoluta obscenidade face ao que deveria ter custado a obra.

A este projecto junta-se o anúncio da quase inexplicável adjudicação para a construção de um aeroporto no Xai-Xai, que estes dias é pouco mais que um resort para os ricos de Maputo num dos redutos a que alguns chamam o Frelimistão. O projecto é um aeroporto de Nacala em ponto pequeno e parece ser já uma iniciativa da Era Nyusi.

Eu pensava que as prioridades nacionais, num contexto e no princípio de que “somos pobres e não há dinheiro”, para o sétimo país menos desenvolvido do Mundo, seriam outras. Coisas banais e menos ofuscantes, como hospitais, escolas, professores, médicos, polícias, tribunais que funcionam, saneamento e manutenção do pouco que já foi feito e que custa dinheiro.

Com a nova ligação directa à Catembe e o crescimento urbano ali previsto, o trânsito da capital, que já é estupidificante, daqui a meia dúzia de anos vai ser um verdadeiro desafio, especialmente ali no fim da 24 de Julho. Face ao caos que se antecipa, talvez o venerando edil, o meu caro Dr. Eneas Comiche, veja aqui a oportunidade de fazer um nó com túneis, pontes e mais estradas para desembrulhar aquilo tudo lá entre o antigo Matadouro e a Brigada Montada. Pois a solução para isso é fácil e já é conhecida: os chineses fazem tudo e depois mandam a conta, que se paga em bens, serviços e rendas de gás.

Eu sei que, para muitos, existe a convenção segundo a qual, exceptuando a prisão do Gungunhana no final de 1895, a História “moderna” de Moçambique começou com os poemas da Noémia, as soirées comunistas do Marcelino em Paris, o tiro solitário do Chipande (que se diz que não foi dado) não sei onde lá no Norte e a assinatura singular do Machel em Lusaka no Dia da Vitória em 1974.

Mas há nesta coisa da inauguração da ponte chinesa entre o fim da 24 de Julho e a Catembe algo evocativo daquela outra história antes dessa História oficiosa, que merece ser referida.

A ponte chinesa foi inaugurada no dia em que, por portaria de um então rei português, SM o Rei D. Luis I, o que era um pequeníssimo espaço urbano infecundo, miserável e delapidado, efectivamente ainda uma ilha rodeada, por um lado, pela Baía, e do outro por um pântano infecto, foi elevada ao estatuto de Cidade, O dúbio privilégio, derivado unicamente da promessa de que o local, que era cobiçadíssimo pelos “outros” imperialistas, os britânicos, servia que nem ginjas para ligar a nascente indústria aurífera, por eles controlada, ao mar. Pois na realidade nem havia orgão municipal por assim dizer (havia umas “comissões” de ilustres locais) nem tão pouco havia….cidadãos. Pois a localidade era, na altura, um “melting pot” de gentes de todas as proveniências, nacionalidades, e raças.

Um outro partido interessado no local eram os Boers, uma espécie de tribo branca, que havia formado um país (a República Sul Africana, não confundir com o actual país), que mais do que ninguém odiava o imperialismo britânico e para quem poder ligar-se ao mar por via de um território pelo menos nominalmente fora da esfera britânica, era um desígnio estratégico.

Desde a terceira década do Século XIX que os britânicos queriam controlar a região a Sul do Limpopo, que mais não seja que para controlar a Baía, considerada naqueles tempos como o melhor porto na costa oriental de África. Apesar de uma fraqueza negocial endémica e uma incapacidade logística notória, os portugueses lá aguentaram os sucessivos embates britânicos, através de uma diplomacia tortuosa, em que a grande penúltima disputa foi rebater a pretensão britânica ao território a Sul da Baía – A Catembe incluída.

Face a essa disputa, no início da década de 1870, Portugal propôs aos britânicos que o assunto fosse submetido a arbitragem internacional. Eles caíram na esparrela e o assunto foi referido para decisão da França. Que através do seu Presidente (com um mandato muito breve), um fulano chamado Mac-Mahon (o mesmo da cerveja 2M), decidiu que o território da Catembe para o Sul seria dos portugas.

A data indicada na decisão de Mac-Mahon, o dia 24 de Julho de 1875 (um sábado) , foi considerada tão significativa para os gestores da Cidade, que mudaram o nome original da sua maior avenida, que se chamou durante algum tempo Francisco Costa, para 24 de Julho, após se ter aberto a segunda via e cimentado os passeios, nos anos 40.

Mais simbólico, ainda, foi a decisão municipal de celebrar o feriado da Cidade, não no dia 10 de Novembro, mas no dia 24 de Julho. Quem cresceu em Lourenço Marques lembra-se bem disso.

A decisão de Mac-Mahon não acabou com o problema dos portugueses conseguirem segurar o que é hoje o Sul de Moçambique (incluindo a Sul da Baía). Havia intenções e planos de comprar ou de simplesmente “confiscar” esse território a Portugal, mesmo durante a década de 1890. Óscar Somershield, por exemplo, um súbdito britânico (de origem sueca) e um racista mórbido que considerava os portugueses entre as “raças inferiores”, que residiu ali durante uns anos, apostava na tomada da região pelo Reino Unido, adquirindo duas concessões, uma situada numa faixa ao longo da costa ao Norte da Cidade, no meio da qual se implantou, a partir dos anos 50 o Bairro dos Cronistas (e que hilariantemente, hoje dá pelo seu apelido, com mais uns “émes” e uns “esses) – e a outra a Sul da Cidade, no que se chamava a Amatongaland, entre a Ponta do Ouro e a Namaacha – que por sua vez os ex- Suázis achavam que lhes pertencia. Quando a coisa correu mal, vendeu os seus direitos a terceiros e voltou para a África do Sul.

E assim é a ironia em que, num 10 de Novembro, assinalando o 131º aniversário do decreto do Rei D. Luis I de 1887, inaugurou-se a ponte que passa a ligar a actual capital de Moçambique a uma parcela do País que só permaneceu portuguesa – e moçambicana – quase por milagre, e no fim do dia, por decisão de Mac-Mahon, decisão essa recordada na então Avenida 24 de Julho, e no anterior feriado do município.

 

04/11/2018

SAMORA E OS PEQUENOS CONTINUADORES NO III CONGRESSO EM 1977

Imagem colorida por mim.

Mais uma foto de propaganda comunista da Frelimo aquando do III Congresso em 1977, com o “banho de criancinhas revolucionárias” a que se chamaram os “continuadores”, orquestrado pela organização do evento. Todos acharam o máximo. Nos dez anos que se seguiram o regime, e a população,incluindo muitas destas crianças,  passariam por horrores sem fim e Samora morreria com a queda do avião presidencial. Mas o regime, ainda que menos inspiradamente, sobreviveu, quase intacto. Até hoje.

01/11/2018

BALTAZAR REBELO DE SOUSA NA MATOLA, 1969, E ILACÇÕES

Da Colecção CC. Imagem retocada e colorida por mim.

 

Imagem colhida durante uma visita protocolar do então Governador-Geral de Moçambique, Baltazar Rebelo de Sousa à  Matola (penso), com a mulher e uma comitiva de madames, 1969. Ver e ser visto por uma audiência maioritariamente negra e rural/suburbana num ambiente aculturado e informal foi uma inovação quase insólita do tradicional estilo “régio”colonial, peculiar a este Governador, cujo mandato, por breve, e por constraste com os antecessores e sucedâneos, que eram digamos que significativamente mais manga-de-alpaca, ficou caracterizado quase somente por isso . Ajudou coincidir com uma certa expectativa optimista de que a sucessão de Caetano a Salazar viria a alterar o regime e ainda que a economia moçambicana crescia a um ritmo quase incrível, incluindo o anúncio da edificação de Cabora-Bassa, sustentando o delírio colonial do “estamos para ficar”. Sendo que na altura não se podia falar da guerra nem de questões relacionadas senão ia-se dentro. No cômputo geral, no entanto, esse ano e meio, mesmo tendo em conta o assassinato do Dr. Mondlane, que foi breve (e erradamente) visto como um recuo para a guerrilha da Frelimo, foi quase completamente irrelevante para o regime e para o futuro de Moçambique. Pelo contrário, foi uma ilusão e uma distracção. Mas tem a particularidade de ser memorável por isso, e também por esse estilo ter sido unicamente absorvido, décadas mais tarde, por um seu filho, que veio a ser eleito presidente da república portuguesa e o tem aplicado consistentemente, ao ponto de se confundir o estilo do cargo com a substância. Para quem conheceu e viveu aquele breve período na capital de Moçambique, Marcelo não tem sido presidente de Portugal. Tem sido o Governador-Geral de Portugal. Que já declarou que, quando um dia morrer, quer ser sepultado na antiga colónia que o Pai um dia, brevemente, governou.

31/10/2018

O PENSAMENTO DE SALAZAR SOBRE AS COLÓNIAS PORTUGUESAS, AGOSTO DE 1963

Grato ao inquiett.

Discurso do ditador, proferido aos portugueses no dia 12 de Agosto de 1963, na altura Presidente do Conselho desde 1930 e chefe do partido único.

Prolonga-se durante uma hora e meia.

Por esta altura, já decorria há dois anos uma guerrilha em Angola. Kennedy tentava pressionar os portugueses, em vão. Nehru capturara Diu, Damão e Goa. A ONU, com a sua nova maioria de membros recentemente admitidos, experimentavam abordagens diplomáticas no sentido de Portugal declarar as suas colónias como….colónias. Num bairro da capital tanzaniana, Mondlane e Marcelino movimentavam-se para, relutantemente, iniciar uma guerrilha.

 

29/10/2018

GUNGUNHANA REVISITADO

Filed under: Gungunhana Revisitado, Mia Couto, Ungulani Ba Ka Khosa — ABM @ 2:04 pm

 

Os 4 de Chaimite, no exílio forçado na Ilha Terceira. Imagem retocada e pintada por mim.

Gonçalo Frota escreveu o seguinte na Ípsílon, publicação cultural do jornal lisboeta Público de 25 de Outubro de 2018, que reproduzo com vénia:

TEATRO
A vida de Gungunhana é contada por vários sotaques no Teattro São Luiz [em Lisboa

A trilogia que Mia Couto dedicou ao imperador de Gaza chega agora a Lisboa, através da companhia O Bando. Netos de Gungunhana é um espectáculo para humanizar o outro e questionar a História.

Ao decidir dedicar uma trilogia à figura do imperador Gungunhana, o escritor moçambicano Mia Couto quis combater a imagem de um herói ou de uma figura trágica, quis convocar vozes que se opusessem, quis escrever para humanizar o outro – contrariando a estratégia que precede a guerra, a de desumanizar o adversário para desferir qualquer ataque sem remorsos. Não é uma ideia que tenha iluminado de forma consciente a adaptação da trilogia As Areias do Imperador ao teatro dirigida por João Brites e levada à cena pel’O Bando no Teatro São Luiz, em Lisboa, até 11 de Novembro. Mas é algo que encenador reconhece nas entrelinhas de um espectáculo que aborda (também) a colonização portuguesa: “Primeiro tem de se classificar o outro como coisa inferior para poder ocupá-lo”, diz. “E até contaminar as tropas com essas ideias para que elas possam cumprir os seus actos pensando que aquilo é outra coisa.”

A desumanização não reclama palco em Netos de Gungunhana. Mas o movimento contrário, o da humanização do outro que Mia Couto reclama para a sua obra, mostra-se através dos vários pontos de vista que fazem avançar a história ou até dos sotaques que vão denunciando as diferentes origens dos protagonistas. E são várias as origens porque João Brites quis construir o espectáculo com um elenco misto – portugueses, moçambicanos e brasileiros que se encarregarão de transportar esta mesma reflexão em diferentes encenações para os teatros dos seus países. Um elenco em que o sotaque, tal como a cor da pele, carrega de imediato esse estatuto de iguais ou diferentes.

Netos de Gungunhana começa, no entanto, em inglês. Uma conferencista – Alessandra Brito, activista política e fundadora do Instituto da Mulher Negra, uma não-actriz – discorre sobre o imperador de Gaza (região no Sul de Moçambique) e apresenta, em traços gerais, a biografia de Gungunhana, partilhada diante de alguns dos seus netos. É uma solução encontrada por Brites para oferecer ao espectador o contexto necessário ao acompanhamento daquilo que realmente lhe interessa – a imersão nas sete histórias dos sete netos, descendentes das sete mulheres (de um total de 300) que puderam acompanhar Gunganhana no momento da sua captura por soldados portugueses em 1895. “A história de Gungunhana é uma espécie de tapete sobre o qual queremos conversar para percebermos outras coisas”, diz o encenador. E refere-se, por exemplo, ao facto de o imperador nunca se ter preparado para a derrota.

Só que João Brites busca também uma zona de transição: entre o inglês e o português (que começa padronizado e se vai desmultiplicando numa admirável diversidade), entre o quotidiano e a representação; entre o academismo que sustenta uma versão dos factos e as histórias que se lhe seguem, inscritas em sangue quente, sem preocupação de sustentar qualquer tese; entre as vozes autorizadas e a multitude de narrativas que se reportam a verdades pessoais.

Mas esta zona de transição, exemplo de como “os mitos nos ajudam a compreender melhor o quotidiano”, é-o também na escolha da conferencista. Alessandra Brito trouxe para o debate criativo “uma perspectiva daquilo que são as lutas e os debates presentes no movimento negro em Portugal neste momento”, explica ao PÚBLICO. Em palco, na pele de académica, começa por falar da “importância de começarmos a pensar a História fora de uma visão eurocêntrica”, sem esquecer que “a cor é herança de uma História que determina a forma como estamos na sociedade”. Daí que, através da experiência de uma família, Netos de Gungunhana forneça alimento suficiente para discutir as narrativas oficiais e o encontro de Portugal com os países colonizados.

Netos de Gungunhana nasce de um encontro fortuito. João Brites cruzou-se com Mia Couto no espaço d’O Bando, em Palmela, e o romancista moçambicano falou-lhe dessa gigantesca empresa de convocar uma série de olhares diferentes para contar a história de Gungunhana. Brites logo encarou a possibilidade de cruzar estes olhares para erguer um espectáculo que aborda uma História comum mas valorizando as diferentes perspectivas, como forma de retirar poder à colonização institucional que continua a persistir entre nós através dos vários exercícios do poder.

À partida, a imensidão das 1200 páginas escritas por Mia Couto apresentava-se como uma ambição demasiado desmedida para caber num espectáculo de duas horas. Daí que tenha cabido a Miguel Jesus, responsável pela dramaturgia, peneirar o texto de Mia Couto e dele extrair uma forma de contar a história sem reproduzir os três romances em palco. E foi Miguel Jesus a propor que a peça siga a narrativa da família de Imani, uma das mulheres de Gungunhana. Porque a escala da família tanto se faz de pequenas contribuições individuais quanto permite extrapolar para a dimensão de uma comunidade ou de uma nação.

O certo é que ao trabalhar com actores portugueses, brasileiros e moçambicanos, e ao apresentar Netos de Gungunhana em cada um dos respectivos países, é também à procura desses outros olhares que João Brites quer partir, tentando provocar os diferentes debates locais que o texto levanta e recusando uma visão deste espectáculo que se sobreponha às outras. Mas dificilmente a peça não caminhará para aquilo que aqui se intui, de um apelo a um futuro que saiba libertar-se e distanciar-se do passado. Aos netos, bisnetos e trinetos de Gungunha cabe contar uma outra História.

[fim]

Sobre o recente trabalho do Mia Couto sobre o ditador Nguni, Mário Santos escreveu o seguinte, publicado no mesmo Público a 20 de Outubro de 2017:

(Não é possível) travar o vento com uma peneira

Os mitos podem forjar nações, mas é a sua contestação que as fortalece. Gungunhana já foi um mito em Moçambique e em Portugal. No último romance de Mia Couto é apenas um homem.

A carta fictícia está datada de 1 de Outubro de 1895 e o remetente é um fictício Germano de Melo, sargento português punido, por haver participado na revolta portuense e republicana de 31 de Janeiro de 1891, com o envio para um remoto posto militar nas ardentes planícies da África Oriental portuguesa, onde se viviam tempos não menos tumultuosos. O destinatário é o histórico tenente Ayres de Ornelas, que alcançou glória militar em Marracuene e Coolela, e em outras batalhas históricas das “campanhas de pacificação” de Gaza. “Que filhos teríamos” indaga retoricamente o sargento, a propósito da sua paixão por uma jovem negra chamada Imani – que é a narradora principal dos dois volumes até agora publicados da “trilogia moçambicana” de Mia Couto (Beira, 1955) intitulada As Areias do Imperador. E logo Germano de Melo transcreve a resposta de Bibliana, profetisa adoecida da “particular cegueira” de ver pelos olhos dos deuses: “Que importa a cor da pele dos que nascerem? Gungunhane terá netos brancos portugueses e os portugueses terão netos africanos! Contrariar essa inclinação é travar o vento com uma peneira. O Tempo […] é um grande misturador de sementes.”

Gungunhane (ou Gungunhana) – que é, evidentemente, o imperador do título genérico da trilogia romanesca do escritor moçambicano – foi o último rei do Estado vátua de Gaza e será aprisionado por Mouzinho de Albuquerque (um português raro, certamente, por contrário à política do “quanto mais devagar melhor”) no seu refúgio em Chaimite, no dia 28 de Dezembro de 1895. O feito demorou uma semana até ser noticiado em Lisboa (bons tempos…), mas deu brado em Portugal, que havia sido humilhado pelo Ultimato inglês, e ecoou na restante Europa, tanto por causa da lenda heróica e letal que aureolava o “Leão de Gaza”, quanto pelas suas consequências geopolíticas: sem essa derrota dos vátuas, é provável que Moçambique não existisse hoje com a configuração que lhe conhecemos.

Poder-se-á dizer, com efeito e com verdade, que as campanhas portuguesas “de conquista e pacificação” em África foram feitas para inglês ver. Recorde-se que, em 1885, em Berlim, as potências coloniais europeias haviam feito depender a partilha de África entre si de uma efectiva capacidade de exploração e controlo dos territórios em disputa. À intenção portuguesa de unir Angola e Moçambique (o Mapa Cor-de-Rosa) opusera-se, em 1890, a Inglaterra (o Ultimato), e as duas potências disputavam também o território controlado por Gungunhana. Por sua vez, o imperador de Gaza não descartaria um aliado europeu que o ajudasse a derrotar os vários inimigos internos. É neste contexto, de sucessivas e contraditórias alianças e traições, que se pode compreender a relevância do aprisionamento do chefe vátua que, com sete das suas inúmeras mulheres e outros elementos do real séquito, seria exilado para os Açores (Terceira), onde veio a morrer, em 1906. O seu captor, o trágico oficial de cavalaria Mouzinho de Albuquerque, suicidara-se cerca de cinco anos antes.

Em 2005, o Museu Militar de Lisboa assinalou os 110 anos decorridos desde o histórico episódio de Chaimite. Entre os presentes, lê-se na imprensa, estavam descendentes portuguesas de Gungunhana. Assim se confirmou a profecia de Bibliana. Mas o processo de mitificação institucional do imperador de Gaza culminara havia já vinte anos, quando o então Presidente moçambicano Samora Machel obteve a solene trasladação para Maputo dos supostos restos mortais de Gungunhana. Supostos porque, como em tantos outros casos semelhantes, a autenticidade do traslado não foi cientificamente comprovada, não sendo improvável que na urna enviada para Moçambique seguissem apenas as “areias” de que fala o título da vasta trilogia de Mia Couto (os primeiros dois volumes somam já mais de 850 páginas).

A produção e instrumentalização política de mitos fundadores comunitários é certamente uma doença infantil do processo de afirmação identitária de nações e Estados. A sua contestação, ou desconstrução, não será menos útil e menos necessária, sendo até mesmo, provavelmente, condição e prova da sua sobrevivência. Se assim for, Moçambique vai no bom caminho. E se a contestação de Gungunhana enquanto ferramenta ideológica de unificação política do país já não é nova, a desconstrução do mito através da ficção tem também precedentes, podendo referir-se aqui o romance Ualalapi (1987), de Ungulani Ba Ka Khosa. Lembram alguns – sem novidade que se note, aliás – que o fratricida Gungunhana alcançou o poder através da violência e do crime, e que durante uma década governou com mão de ferro o seu império, colonizando, explorando e oprimindo outros grupos étnicos autóctones do Sul de Moçambique. Será o caso, em A Espada e a Azagaia, dos vatxopi (ou chopes), povo de onde provém a bela e muito jovem Imani (15 anos à data dos acontecimentos narrados). Bastará dizer que no “Resumo do primeiro volume”, que inaugura A Espada e a Azagaia, se lê: “Os Vatxopi são um povo ocupado e massacrado pelo domínio dos Vanguni [ou vátuas] e que estabeleceram, por esta razão, uma aliança de cooperação militar com as autoridades portuguesas.”

O que é mais interessante, porém, neste romance de Mia Couto, é que a humanidade de Gungunhana cresce na inversa proporção do emagrecimento do mito. No final do segundo volume da trilogia (no primeiro volume, publicado em 2015 e intitulado Mulheres de Cinza, o imperador de Gaza é uma presença ausente que se manifesta só enquanto remoto detonador de uma sequência de tragédias na família da protagonista narradora), o temido e lendário “Leão” é apenas um homem fragilizado e amedrontado. E perplexo com a infinita e universal competência para a traição: “De que vale ter milhões de súbditos, se eles não são fiéis? De que vale possuir centenas de mulheres, se nenhuma delas é realmente nossa? De que vale ser coroado imperador se os que hoje te saúdam venerarão com maior devoção aqueles que te vão derrubar?” (p. 364) Igualmente o lamenta a rainha-mãe: “Tenho pena do meu filho […]. Todos lhe obedecem, ninguém lhe é leal.” (p. 367) Talvez se possa convocar aqui um “dito” atribuído a outra personagem, o padre Rudolfo Fernandes: “Eis a pobreza do nosso destino: acabamos por ter saudade do tirano anterior.” (p. 165)

De igual modo, a representação dos europeus, em geral, e dos portugueses, em particular, é múltipla e contrastada. Já no primeiro volume da trilogia, o sargento republicano, deitando contas à “pretensão imperialista dos ingleses em provar que Portugal não tem condição para governar as suas colónias africanas”, concluía: “Não sei se odeio mais a ambição inglesa ou a vergonhosa submissão das nossas autoridades.” No presente e mais fluído volume, é o tenente Ornelas – que vem juntar a sua qualidade de narrador aos dois anteriores (Imani e Germano de Melo) – quem comenta: “Há no nosso seio correntes mais hostis entre si que as que separam anjos e demónios. Essas desavenças não são exclusivas dos lusitanos. Porque, por estas bandas, andam os europeus em guerra uns com os outros. Por razões políticas, por razões religiosas. Católicos e protestantes brigam como se não tivessem um único Deus. Há mais rivalidade entre ingleses e portugueses do que entre brancos e pretos. Se não há unidade entre os brancos também não existe uma entidade a que se possa chamar ‘os pretos’. […] Como podemos empreender uma guerra se desconhecemos a fronteira que nos separa dos inimigos?” (pp. 317-18)

E se, no primeiro volume, só as cartas de Germano de Melo, inicialmente destinadas ao conselheiro José d’Almeida, vinham intervalar a narração na primeira pessoa feita por Imani, já que o destinatário da correspondência do sargento se manteve mudo, aqui, surge a voz nova do tenente Ayres de Ornelas, criando uma verdadeira troca epistolar. Será, certamente, por esse motivo, ou seja, por razões de conformidade e verosimilhança – a acção decorre no final do século XIX e dois dos três narradores são portugueses –, que esta trilogia romanesca é (quanto aos seus dois primeiros volumes) menos permeada pela inventividade linguística que tem caracterizado o autor, dela estando praticamente ausentes os tão celebrados “miacoutismos”.

Não obstante, Imani surge como a personagem-narradora nuclear, como verdadeira protagonista do romance, e o género, aqui, não será um acaso, sendo a tematização da “condição feminina” recorrente em Mia Couto. Conta o sargento: “Ontem, aflorando este assunto [o seu caso amoroso] com Imani, ela disse algo que me parece irrefutável: que os nossos dois mundos não eram, afinal, tão diversos. E ela está certa. Em África ou na minha pequena aldeia de Portugal, as mulheres partilham as mesmas magras expectativas do que pode ser um casamento.” As vozes de Imani e de Germano de Melo são ambas de personagens de fronteira, em trânsito entre culturas, com identidades críticas. Acentuam a recusa geral de univocidade na construção e na leitura das personagens (as fictícias e as reais) e dos seus actos (aqueles documentados e os outros, só imaginados). À narrativa única da propaganda e do mito, opõe o autor a pluralidade dialógica da ficção e a sua apetência para reconstruir o real. Porque, como já dizia Imani em Mulheres de Cinza, “o pior do passado é o que está ainda por vir”. Tal programa, que Mia Couto não tem deixado de explanar e de explorar, é desde logo legível, aliás, no título do segundo livro publicado pelo autor, em 1990: Cada Homem É Uma Raça.

[fim]

Ver ainda esta curta recensão da peça de teatro sobre Gungunhana no Diário de Notícias de Lisboa, escrita por Maria João Caetano e publicada a 25 de Outubro de 2018.

 

17/10/2018

SAMORA MACHEL A CAMINHO DE LOURENÇO MARQUES, 1975

Filed under: Samora Machel, Samora Moisés Machel — ABM @ 2:47 am

Imagem do fotógrafo holandês Frits Eisenloeffel, com vénia à sua viúva, retocada e pintada por mim.

 

Samora cumprimentado pela sua guarda pessoal da Frente de Libertação de Moçambique ao chegar penso que a Nampula ou a Vila Cabral (não tenho a certeza) ao cair da noite, durante a “marcha do Rovuma ao Maputo”, pouco antes da declaração formal da independência, 1975. Ali ao fundo será o Carlos Alberto?

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