THE DELAGOA BAY REVIEW

02/03/2014

A ESCOLHA DO IMPERADOR, 2014

Filed under: A escolha do Imperador 2014 — ABM @ 5:34 pm

Para quem conhece a saga de Star Wars.

May the Force be With Us.

May the Force be With Us.

O Candidato Manchuriano. Adivinhe quem é.

18/02/2014

MEMORIALIZANDO VÍTOR CRESPO, 1974, NA PRIMEIRA VOZ

Filed under: Vitor Crespo explica-se — ABM @ 10:08 pm
Após a ditadura colonial terminar, isto. Em baixo, Vitor Crespo tenta explicar o inexplicável.

Após a ditadura colonial terminar, isto e mais vinte anos de guerra. Em baixo, Vitor Crespo tenta explicar o inexplicável daqueles dez meses que antecederam tudo, nas suas próprias palavras. Oiçam com cuidado.

Diz o breve texto da Wikipédia (menos um misterioso e longo relato de medalhística):

Vítor Manuel Trigueiros Crespo (Porto de Mós, 21 de Março de 1932) é um militar português.

Ingressou na Escola Naval, seguindo a carreira de oficial de Marinha. Não foi o único oficial da Marinha de Guerra a participar no golpe de estado do 25 de Abril de 1974. Muitos outros oficiais da Marinha de Guerra Portuguesa também participaram, embora fosse ele o representante da Marinha que se encontrava no posto de comando do MFA, na Pontinha. Foi Alto Comissário e Comandante-Chefe em Moçambique durante a descolonização até à independência do país. Foi membro do Conselho da Revolução. Depois disso integrou o VI Governo Provisório chefiado por Pinheiro de Azevedo como ministro da Cooperação, entre 19 de Setembro de 1975 e 23 de Julho de 1976. Hoje em dia, já no posto de Almirante, serve como director da Biblioteca da Marinha.

Aqui em baixo, um dos mais célebres descolonizadores portugueses, quiçá um dos odiados de estimação da Tribo Branca de Moçambique, na primeira voz:

(Vídeo 1 de 2)

(Vídeo 2 de 2)

25/01/2014

A PRESIDÊNCIA IMPERIAL II: CHINA HOUSE EM MAPUTO

Filed under: Presidência Imperial - China House — ABM @ 8:38 pm
A luxuosa nova ala do Complexo presidencial moçambicano. Ninguém sabe quanto custou

A luxuosa nova ala do Complexo presidencial moçambicano, situado junto aos antigos Grémio e Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra, em frente à Somershield, tornados residência presidencial após a Independência. Obviamente uma Obra do Regime Guebuza, ninguém sabe quanto custou ou quais foram as contrapartidas. A cosntrução esteve a cargo de uma empresa estatal chinesa e foi paga com um empréstimo que a China fez ao erário público de Moçambique. Esta foto de satélite data de final de Setembro de 2013. O complexo foi inaugurado ontem, 24 de Janeiro de 2014.

Refere o texto noticiário da Agence France Presse publicado hoje (traduzido por mim do texto original em inglês):

O Presidente moçambicano Armando Guebuza inaugurou o opulento novo complexo presidencial de gabinetes, construído pelos chineses, em Maputo, na sexta-feira.

“Queremos expressar a nossa gratidão ao governo da República Popular da China por criar as condições que permitiram a construção deste projecto”, referiu Guebuza durante um banquete.

O edifício de dois andares, pintado em côr de pêssego, situado em frente às águas azuis da Baía de Maputo, inclui candelabros de cristal, interiores forrados a mármore e uma sumptuosa sala de banquetes.

Por comparação, o vasto novo complexo torna minúsculo o anterior edifício [Palácio da Ponta Vermelha] com apenas um andar, onde Guebuza costumava receber personalidades estrangeiras.

Representantes do governo não divulgaram os custos com a sua construção, que foram financiados com um empréstimo feito pelo governo Chinês.

Durante um discurso que incluiu um brinde com champanhe, Guebuza considerou o edifício “outro testemunho da amizade e cooperação entre o povo de Moçambique e o povo da China”.

A Foreign Economic Construction Corporation, uma empresa chinesa, construiu o vasto palácio de dois andares em apenas dezoito meses.

A empresa estatal chinesa, que também construiu as novas terminais doméstica e internacional do Aeroporto de Maputo e um estádio desportivo[no Zimpeto], começou este mês a construção [no antigo Parque de Campismo da cidade, agora o Centro de Conferências Joaquim Chissano] de um hotel de cinco estrelas, com um custo estimado de 250 milhões de dólares americanos.

Com 71 anos de idade, Guebuza terá apenas meses durante os quais poderá usufruir o seu novo gabinete antes da eleição presidencial que se realizará em Outubro próximo. Ele reside na residência presidencial, situada ao lado do novo complexo.

No ano passado, Guebuza viajou até à China para obter fundos para projectos de infra-estrutura.

Guebuza fala com Xi Jinping, o presidente chinês, no Grande Salão do Povo em Pequim, 13 de Maio de 2013

Guebuza fala com Xi Jinping, o presidente chinês, no Grande Salão do Povo em Pequim, 13 de Maio de 2013. Foto de Jason Lee, AFP, com um toque meu.

A maior parte das redes de electricidade, de caminhos de ferro e de estradas moçambicanas datam da era colonial, que terminou há quatro décadas, parte das quais foram destruídas numa guerra civil que durou 16 anos e que terminou em 1992.

(fim)

06/12/2013

HOMENAGEANDO NELSON MANDELA

Filed under: A morte de Nelson Mandela — ABM @ 3:06 am

Assinalando a passagem do Sr. Nelson Mandela pelas nossas vidas, o seu alto exemplo e a alguma inspiração que nos trouxe.

Nelson Mandela faleceu na África do Sul ontem à noite, dia 5 de Dezembro de 2013.

Nelson Mandela faleceu na África do Sul ontem à noite, dia 5 de Dezembro de 2013. Na imagem, o Presidente Mandela entrega o troféu do Campeonato Mundial de Rugby ao capitão da equipa sul-africana, François Pienaar, após a sua vitória na final contra a Nova Zelândia, no Estádio Ellis Park, em Joanesburgo, no dia 24 de Junho de 1995. Esta foi, talvez, a cena mais paradigmática do titânico e por vezes aparentemente insuperável esforço pessoal de Mandela de fazar emendas com os Boers, cuja resistência, enquanto grupo, a um regime democrático (ou seja, de maioria negra) na África do Sul só rivalizou com a sua resistência ao domínio colonial britânico durante o Século XIX. O tempo dirá se o seu esforço, e a sua mensagem sobre a necessidade de reconciliação e de convivência entre todos os sul-africanos, perdurará.

03/11/2013

A PRESIDÊNCIA IMPERIAL I

Filed under: Presidência Imperial - Hawker 850 XP — ABM @ 7:16 am
Um avião de luxo executivo Hawker 850 XP.  A força aérea" de Moçambique acabou de adquirir um.

Um avião executivo de luxo Hawker 850 XP. A “força aérea” de Moçambique acabou de adquirir um, segundo o sítio Defence Web, publicado no dia 1 de Novembro de 2013. Fabricado nos Estados Unidos da América. Tem um custo estimado de 14 milhões de dólares.

O Sítio DefenceWeb, que se especializa em assuntos militares africanos, publicou no dia 1 de Novembro o seguinte texto, algo hilariante:

The Mozambican Air Force has taken delivery of a Hawker 850XP business jet, the latest acquisition for the country’s small air arm and a major boost to its capacity.

The aircraft entered service in September, according to Air Forces Daily, after being bought second hand from the United States. It left Fort Lauderdale Executive Airport in Florida on its delivery flight on September 9 and had its US registration cancelled on September 18 following its transfer to the Force Aerea de Mocambique (Mozambique Air Force).

The aircraft will most likely be used for VIP duties and is a major boost to the Air Force, which is almost entirely inoperable, although efforts of late have been made to restore some flying capacity. The Air Force has suffered poor serviceability since independence from Portugal in 1975 and the collapse of the Soviet Union and its financial support in the early 1990s.

Portugal, due to its historic relationship with the country, has over the last several years provided much assistance to Mozambique’s military. In July 2012 Portugal delivered a second FTB-337G Milirole utility aircraft to the country, as part of the CTM (Cooperação Técnico-Militar) technical military cooperation agreement between Mozambique and Portugal. This agreement also includes training and the FAP is working with the Mozambique Air Force on pilot and ground crew training in both countries.

Indeed, Portuguese advisors are training aircrew and mechanics at the recently formed Escola Prática de Aviação (EPA – School of Practical Aviation) at the Air Force’s base at Maputo-Mavalene International Airport.

The two FTB-337Gs are used for medical evacuations, maritime surveillance and pilot training, alongside a Cessna 152 and a Piper PA-32 Seneca, acquired around 2011. A Cessna 172 is also used for training at the EPA, according to Air Forces Daily. These aircraft fly approximately 650 hours per year.

According to the IISS’s The Military Balance 2012, none of the Air Force’s combat aircraft are operational, with only a few transports (two An-26s, two CASA 212s and a Cessna 182) and several Z-326 trainers still flying.

(fim)

O interior da nova aquisição da Força Aérea de Moçambique.

O interior da nova aquisição da Força Aérea de Moçambique. Dada a natureza e configuração, presume-se que será para uso presidencial e afim, evitando assim a necessidade das personalidades que o irão utilizar, de se deslocarem pelas estradas naconais ou de voar na frota das Linhas Aéreas de Moçambique. Em desconforto.

Uma empresa especializada no assunto refere que o custo estimado desta aeronave é de 13.7 milhões de dólares, excluindo os custos de manutenção e operacionais. O texto da Defence Web refere que o avião comprado é em segunda mão e não indica o preço pago.

31/10/2013

AS MANIFESTAÇÕES CÍVICAS DE 31 DE OUTUBRO DE 2013: MAPUTO, BEIRA E QUELIMANE

No fim das fotografias, veja as declarações de Alice Mabota, em vídeo. A visibilidade e contestação da Liga dos Direitos Humanos e de Alice, sua Presidente, tem sido grande.

As manifestações tiveram como principais objectivos denunciar a criminalidade organizada em Moçambique e a instabilidade política e de segurança resultantes dos diferendos entre os líderes da Frelimo e da Renamo.

Desde a Independência em Junho de 1975, nunca houve nenhuma expressão popular sequer parecida com o que sucedeu hoje, que não fosse da iniciativa da Frelimo e dos seus governos.

MAPUTO:

Foto de Sérgio Costa, partilhada no FB.

Foto de Sérgio Costa, partilhada no FB.  A manifestação na Avenida Dr. Eduardo Mondlane (antiga Av. Pinheiro Chagas). Segundo o grande João de Sousa, nos notíciários da noite, todas as estações de televisão moçambicanas arrancaram com as manifestações excepto a estatal TVM, que iniciou com uma visita que o Presidente Guebuza estará a fazer a Sofala, província onde as forças armadas se encontram numa caça ao homem ao Presidente da Renamo.

Foto de João M Taborda.

Foto de João M Taborda.

Foto de CA.

Foto de CA.

Foto de CA.

Foto de CA.

Foto Paulo Araújo.

Foto Paulo Araújo.

Foto do Canal de Moçambique.

Foto do Canal de Moçambique.

Foto de Mauro Steinway.

Foto de Mauro Steinway.

Foto de João M. Taborda.

Foto de João M. Taborda.

BEIRA:

Foto Magazine CRV.

Foto Magazine CRV. Na Beira, a população ainda está em choque pelo rapto e assassinato de um jovem com 13 anos de idade. Este rapto, como quase todos os outros, teve como objectivo extorquir dinheiro da Família.

Foto do Salim Milas.

Foto do Salim Milas.

QUELIMANE:

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

VÍDEO DO DIA

Em baixo, o vídeo do dia: Alice Mabote, Presidente da Liga de Direitos Humanos, penso que a entidade que organizou a manifestação, em declarações esta manhã.

http://videos.sapo.mz/mNcZU24vTiFBLulFClmP

30/10/2013

A MANIFESTAÇÃO ANUNCIADA EM MAPUTO PARA A MANHÃ DE 31 DE OUTUBRO DE 2013

Imagem que veio de Edwin Honnou e de Fernando Veloso no Facebook, alusiva a uma marcha pela paz a realizar na manhã de hoje em Maputo, num contexto de uma grave perturbação da paz e da tranquilidade públicas no País.

Imagem que veio de Edwin Honnou e de Fernando Veloso no Facebook, alusiva a uma marcha pela paz a realizar na manhã de hoje em Maputo, num contexto de uma grave perturbação da paz e da tranquilidade públicas no País. O percurso anunciado é entre as estátuas do Dr. Mondlane, no ALto-Maé, e a de Samora Machel em frente à sede do Conselho Municipal, em Maputo.

21/10/2013

ORDEM DE ATAQUE A 8 DE SETEMBRO DE 1974

Filed under: Ordem de Ataque a 8 Set 1974 — ABM @ 7:28 pm

O texto que se reproduz com vénia do Correio da Manhã (de Lisboa), edição de 21 de Outubro de 2013, é um depoimento de Pedro Silva, recolhido por Marta Martins Silva. Reporta-se aos eventos ocorridos após o anúncio, em Moçambique, numa emissão do Rádio Clube de Moçambique, do chamado Acordo de Lusaka, na noite do dia 7 de Setembro de 1974, um sábado. Nos termos desse documento, à meia-noite desse dia entraria finalmente em vigor um cessar-fogo entre a Frente de Libertação de Moçambique e as Forças Armadas portuguesas. E o poder de Estado seria entregue à Frelimo dali a uma semana. Maioritariamente nas cidades, maioritariamente brancos viueram para as ruas, expressaram repúdia pelos termos do Acordo e tomaram de assalto o Rádio Clube de Moçambique, a principal emissora de rádio do então Estado de Moçambique, de onde foram feitos alguns apelos à resistência, maioritariamente sem qualquer efeito prático. Samora Machel e a cúpula da Frelimo nunca perdoaram este acto de insolência, que foi rapidamente rotulado como “reaccionarismo colonialista e racista” e debelado maioritariamente pelas próprias forças armadas portuguesas. No espaço de um ano, a esmagadora maioria dos que puderam, a maior parte dos quais viveu quase toda a vida sob a ditadura de Salazar,  foram-se embora da nação nascente, que desceu numa espiral de recessão, de guerra e num invulgarmente radical experimento de opressão comunista.

O depoimento de Pedro Silva:

“Fomos homens da chefia e reconhecimento de transmissões, desconhecidos até agora, mas orgulhosos do nosso trabalho.

Completada a recruta, fui para a especialidade de radiotelegrafista e, depois da promoção a 1º cabo, fui enviado para o ex-BRT (Batalhão de Reconhecimento de Transmissões), passando a operador de segurança de transmissões. Passei alguns meses no Quartel General em S. Sebastião da Pedreira, Lisboa, na intercepção, escuta e gravação das rádios ao tempo consideradas anti-Estado Novo. Embarquei para a Região Militar de Moçambique a 19 de outubro de 1972 em rendição individual, dado que a nossa ação era estritamente confidencial.”

A primeira página do folheto posto a circular aquando do anúncio público, em Moçambique, do acordo entre os militares portugueses e a guerrilha da Frelimo.

A primeira página do folheto posto a circular aquando do anúncio público, em Moçambique, do acordo entre os militares portugueses e a guerrilha da Frelimo.

“Em Moçambique vivi o célebre 8 de setembro de 1974 [sic], e é aqui que começa uma história que para nós (eu e o 1º cabo Ferreira) ficou marcada nas nossas vidas.

Nesse dia fomos procurados por ordem do nosso comandante, Capitão António Melo de Carvalho, para, uma vez conhecedores das redes de transmissão da Frelimo, tentarmos estabelecer ligação, e posterior diálogo, com algumas das várias estações de onde emitiam os seus comunicados e informações.

O intuito era fazê-los compreender que, apesar da revolução incentivada por colonos em Lourenço Marques, Beira e Nampula, estava tudo sob controlo, pelo que o Acordo de Lusaca seria respeitado pelo MFA.

Isto depois de termos interceptado várias mensagens da Frelimo que diziam que, devido à revolta perpetrada pela população civil, o Acordo de Lusaca – que deveria entrar em vigor no dia 8 de setembro às 00h00 – não passava de um embuste. Samora Machel, numa mensagem interceptada por nós, deu ordens no sentido de atacar tudo e todos.”

O verso do folheto.

O verso do folheto.

“Estava portanto iminente um ataque sem precedentes às nossas tropas, praticamente desarmadas, e à espera de um regresso feliz. Eu e o meu camarada, Vítor Ferreira, sob as ordens do Capitão Melo de Carvalho, iniciámos, no comando de transmissões, tentativas para travar aquilo que seria, em nosso entender, uma chacina.

A primeira mensagem, emitida por mim, foi a seguinte: ‘Aqui Movimento das Forças Armadas em Moçambique. Para: Comandos da Frelimo. Concordamos Acordo de Lusaca. Pedimos não ataquem posições tropas portuguesas. Pedimos vossa colaboração no sentido de eliminarmos grupos reacionários. Saudações.’

Mensagem circulada no dia 8 de Setembro de 1974. Fonte: História das Transmissões Militares, Portugal.

Mensagem circulada no dia 8 de Setembro de 1974, um domingo. Do seu teor, depreende-se que ainda não havia conhecimento dos protestos em algumas cidades de Moçambique. Fonte: História das Transmissões Militares, Portugal.

“Numa primeira instância, os operadores da Frelimo ficaram desconfiados e não responderam logo. Mais tarde, disseram-me que não compreendiam. Para fazerem uma ideia, interceptávamos cerca de 120 letras por minuto. Insisti mais uma vez, e agora, com o mesmo remetente, MFA, mas como destinatário o ‘Camarada Presidente Samora Machel’.

Era o meu camarada Vítor Ferreira que ia registando todas as respostas dadas. O teor das nossas mensagens tinha como fim, única e simplesmente, evitar um ataque que já não era esperado e muitas outras foram enviadas neste nosso exaustivo trabalho. Foi depois das diligências efetuadas através da troca de mensagens que tudo começou a ficar mais claro, e se foi resolvendo sem recurso às armas.”

Mensagem circulado no dia 17 de Setembro de 1974.

Mensagem circulada na 3ª feira, dia 17 de Setembro de 1974, data de início do Ramadão muçulmano. Dali a três dias, em sessão solene em Lourenço Marques, o poder de Estado era entregue ao Governo de Transição, dominado pela Frelimo e liderado por Joaquim Chissano, então com 34 anos de idade (faria 35 anos de idade no dia 22 de Outubro desse ano) . Fonte: História das Transmissões Militares, Portugal.

“Conseguimos falar com os operadores da Frelimo e as nossas mensagens seguintes foram retransmitidas para todos os postos da Frelimo e para o seu Presidente. Após todas estas diligências, [o Acordo de] Lusaca foi em frente e um dos dirigentes da Frelimo, e futuro presidente de Moçambique, fez questão de nos conhecer pessoalmente, dizendo que os nossos nomes iriam ficar na história da independência do país. ”

Nota: Pedro Silva, hoje com 63 anos de idade, prestou serviço militar em Moçambique entre 1972 e 1974 na Cheret (Chefia e Reconhecimento de Transmissões). Na altura dos eventos que descreve tinha 24 anos de idade.

19/10/2013

27 ANOS DEPOIS DAQUELE DOMINGO, 19 DE OUTUBRO DE 1986

Filed under: 27 anos depois de 19 de Out 1986 — ABM @ 11:39 pm
Samora Machel, em dias melhores.

Samora Machel, em dias melhores.

 

João de Sousa, decano da rádio moçambicana, escreveu o seguinte hoje:

“Segunda-feira, 20 de Outubro de 1986. Na porta de entrada da Rádio Moçambique eu esperava pelo José Manuel Peres. Os dois, a partir das 9 horas, iriamos começar mais um programa “Entre as Nove e as Dez”. Um programa que é um marco na minha história como profissional de radiodifusão.

Às 08.10 horas aparece o Ministro da Informação Teodato Hunguana. Pergunta-me se “está alguém na Direcção da Rádio ?”. Digo-lhe que sim. Se a memória não me falha estava o Director Técnico, o Eng. Rufino de Matos.

Minutos depois chega Marcelino dos Santos. Pergunta-me “onde é a direcção da Rádio” ? Encaminho-o para o primeiro andar.

Às 08.30 a programação normal da Emissão Nacional é interrompida. Marcelino dos Santos anuncia a morte de Samora.”

João Cabrita, talvez um dos académicos que melhor estudou o acidente aéreo em que Samora morreu, escreveu:

“A viagem do Presidente Samora Machel à Zâmbia em 19 de Outubro de 1986 era para ser efectuada num Boeing-737 das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), o C9-BAA. Mas dois dias antes da viagem, o Comandante Sá Marques, que era quem iria pilotar o avião, foi notificado de que entretanto havia sido escalado para o voo Maputo-Beira-Maputo. A viagem presidencial passaria a ser feita no Tupolev 134-A. Não obstante o cancelamento do voo das LAM, o Comandante Sá Marques e o Boeing que pilotava juntamente com Baptista Honwana, ficariam para sempre ligados ao acidente que envolveu o Tupolev (C9-CAA) no voo de regresso da Zâmbia para Maputo. Cerca de um quarto de hora depois do Tupolev ter-se despenhado em Mbuzini, o Comandante Sá Marques entrou em contacto com a Torre de Controlo do Aeroporto de Maputo a informar que se encontrava sobre o Limpopo, prevendo aterrar na capital moçambicana dentro de aproximadamente 30 minutos. Sá Marques pediu à Torre de Controlo que lhe fornecesse o boletim meteorológico actualizado no âmbito dos preparativos para uma aproximação final à pista do Aeroporto de Maputo. Em vez disso, a Torre de Controlo pediu a Sá Marques que tentasse entrar em comunicação com o Tupolev presidencial pois havia “perdido contacto com ele”. Várias foram as tentativas do comandante das LAM para entrar em contacto com o Tupolev, mas sem sucesso. Posteriormente, recebeu instruções para regressar à Beira. Nas investigações que se seguiram para determinar a causa do acidente, a parte soviética orientou-as no sentido de demonstrar a existência de um radiofarol (VOR) falso. O voo da LAM, Beira-Maputo, seria a prova crucial. O facto do Boeing- 737 ter entrado em contacto com a Torre de Controlo quando se encontrava a cerca de 190 milhas náuticas de Maputo era, na opinião dos investigadores soviéticos, a indicação da presença de um VOR falso pois, segundo alegavam, o raio de acção da estação VOR de Maputo não tinha esse alcance. Em declarações aos investigadores soviéticos, o Comandante Sá Marques disse ter a certeza de que estava em sintonia com a estação VOR de Maputo, facto confirmado pelo emissor de onda média da Rádio Moçambique instalado na Matola, ao qual também havia recorrido para tornar a verificar se a rota que seguia era a correcta. E acrescentou que quando recebeu instruções para regressar à Beira, continuou a ter indicações nos instrumentos de bordo de que o avião estava em sintonia com a estação VOR do aeroporto de Maputo. Perante a incredulidade dos investigadores, o Comandante Sá Marques sugeriu que se retirassem as caixas negras do Boeing-737 para uma reconstituição da trajectória do voo Beira-Maputo e assim se determinar se o avião havia ou não sido desviado da rota. Numa subsequente entrevista com o comandante das LAM, os investigadores soviéticos apresentaram a Sá Marques “um mapa exibindo o seguimento da minha rota por um radar militar situado no Limpopo. Inclusive, perguntaram-me se tínhamos comunicação com essa base militar e qual a possibilidade desta dar informações sobre a rota. O esquema mostrava um seguimento da rota correcto, com espaçamentos de 5 minutos até ao Limpopo, onde reduzi a velocidade do avião, e no troço seguinte nos mesmos 5 minutos, a distância correspondia a uma velocidade superior a 1500 km /hora, com a particularidade de o trajecto passar a ser ligeiramente curvilíneo”. Sá Marques fez ver aos investigadores soviéticos que era de todo impossível um Boeing -737 voar a mais de 1 500 km/hora, sensivelmente o dobro da velocidade cruzeiro de um avião desse tipo. A não ser, ironizou, que “o meu avião estivesse equipado com um afterburner”. Trata-se de um dispositivo normalmente utilizado em aviões militares, o que lhes confere um maior impulso, permitindo descolagens de pistas curtas, como a de um porta-aviões. Não é usado em aviões comerciais pelo facto de aumentar acentuadamente o consumo de combustível . “A reacção do investigador soviético”, disse Sá Marques, foi “amachucar o mapa, atirando-o para o cesto dos papéis”. A Bernard Craiger, um dos três peritos designados pela ICAO para ajudar a parte moçambicana na investigação das causas do acidente de Mbuzini, coube a responsabilidade de reconstituir a trajectória seguida pelo Boeing -737 das LAM no voo Beira-Maputo. No relatório por si elaborado, Craiger referiu que a trajectória do Boeing-737 havia sido rectilínea. Não obstante os factos, no parecer que apresentou à Comissão de Inquérito sul-africana, a parte soviética insistiu que o Boeing-737 pilotado por Sá Marque e Baptista Honwana havia entrado em sintonia com a estação VOR de Maputo”mais cedo do que o habitual, a uma distância de 190 milhas náuticas (320 km) de Maputo”, acrescentando que “Para o equipamento de bordo poder funcionar em sintonia com o equipamento de terra àquela distância seria necessário um transmissor VOR com uma potência que excedesse os 200 W. No entanto, a potência do transmissor VOR de Maputo não vai além dos 50 W. Por conseguinte, o equipamento de bordo do Boeing 737-200 das LAM, com a matrícula C9-BAA, estava em sintonia com o radiofarol falso a transmitir na frequência dos 112.7 MHz, mas de potência superior à do VOR de Maputo.” Ou outro comandante das LAM, Franklin Bastos, em entrevista a Álvaro Belo Marques, autor do livro “Quem Matou Samora Machel?”, declarou que o radiofarol VOR de Maputo podia ser captado a 200 milhas náuticas. ”

Na 2ª feira, 20 de Outubro, eu, que vivia há vários anos nos EUA, por acaso estava em Lisboa numas curtas férias. Fui abordado às 07:30 horas locais pela minha anfitriã, referindo ter ouvido numa estação local que tinha ocorrido um acidente aéreo e presumia-se que Samora teria perecido no acidente. Quando ouvi isso acordei instantaneamente.

12/09/2013

ARMANDO GUEBUZA O INCONTESTÁVEL, 2013

Filed under: Armando Guebuza 2013 — ABM @ 6:07 pm
Haja paciência.

Haja paciência quando se recorre a estes slogans de “apoio” para caracterizar um homem que é suposto ser uma liderança política, até mesmo quando o próprio termo sugere um certo, conhecido, resvalo ditatorial, pois, excepto talvez em Moçambique, não é em democracias que os líderes são “incontestáveis”: isso só acontece verdadeiramente em ditaduras. O que se calhar diz nada. O que se calhar diz tudo. 

A foto é do jornalista Borges Nhamirre do Canal de Moçambique, e o estádio atrás é o do Zimpeto, nos arredores de Maputo, construído e pago pelos chineses, presume-se que em troca de favores, indescritos.

Há outros paralelos. Noutros tempos, Samora Machel, que se crê ser o modelo para esta propaganda um tanto deslocada no tempo, foi também conhecido por «líder incontestado e incontestável da revolução moçambicana», tal como descrito (previsivelmente, claro) por Marcelino dos Santos, a grande eminência parda do Regime, durante um daqueles comícios longos e  intragáveis, em Maputo, por volta de 1979.

20/07/2013

À BEIRA DO ABISMO, MAIS UMA VEZ

Filed under: A grande crise de 2013 — ABM @ 11:46 am
O actual impasse político, as suas causas e o que

O actual impasse político português, as suas causas e o que despoletou o processo nas últimas duas semanas só me fazem ocorrer uma frase, inspirada no grande Winston Churchill. À excepção de 1974-1977, nunca vi tanta incompetência, tanta falta de bom senso, como tenho visto na televisão e lido nos jornais nas últimas duas semanas. E, para variar, não escapa ninguém.

29/05/2013

O POSTAL DE MAPUTO DA TIA ARGENTINA, 1977

Filed under: O Postal de Argentina 1977 — ABM @ 3:22 pm

postal mim avó 1

postal mimi avó

Copiado, com vénia, do Nuno Castelo-Branco, pela importância do seu conteúdo, historicamente relevante mas hoje convenientemente pouco recordado. O título original é Moçambique: O Roubo. 

(início)

O meu pai deixou-nos uma ainda incontável quantidade de caixas, envelopes e dossiers onde ao longo de décadas acumulou todo o tipo de papéis, aliás metodicamente organizados. Hoje encontrei um envelope com postais de “Vistas de Lourenço Marques” e foi um prazer reler alguns daqueles que nos tinham sido endereçados há muitos anos. Escritos por amigos ou familiares, são testemunhos de momentos difíceis passados num território cuja administração passou a ser exercida de uma forma totalmente arbitrária, bem diferente daquela a que as populações estavam habituadas. O exemplar que hoje é aqui postado, foi escrito por uma irmã da minha avó, de seu nome Argentina, mas para nós, a tia Mimi:

“Querido sobrinho Vítor

Mais um ano para a conta e oxalá que assim seja por muitos e muitos anos (1). Que o dia 27 seja passado com saúde, óptima disposição e alegria na companhia dos familiares. Um grande abraço nosso de parabéns. Estão todos bem aí em casa? Esperamos que assim seja. A lista (2) da Leta (3) já saiu, mas na vistoria da Ponte de Cais confiscaram a máquina de lavar mesmo estando autorizada. Refilou forte e feio, de nada adiantou mas já reclamou por escrito. As reclamações deste género é mato. Isto tudo é um pandemónio. A lista da Emília (4) também já saiu e, como particular, todos os eléctricos domésticos foram cortados, incluindo o fogão, máquina de costura, rádio gira-discos e uma ou outra peça de mobiliário. É aguentar e olhar em frente de cara alegre, que mais se pode fazer? Envio este postal como recordação da nossa terra. Já não há disto à venda.
Saudoso abraço à Ana Maria e beijinhos à Angelinha. Abraços aos miúdos. Para ti mais uma vez, as nossas felicitações e um abraço amigo dos tios Mimi e António

Maputo, 19 de Junho de 1977″

Este ambiente de desbragado saque, não foi uma novidade do pós-independência. Tinha começado durante a administração conjunta daquilo a que então se denominou de Governo de Transição, nominalmente sob a tutela de um até então desconhecido camarada que Lisboa despachou para Lourenço Marques, o “comandante” Vítor Crespo, personagem que felizmente não chegou ao ponto das inenarráveis baixezas de um outro futuro “Almirante de aviário”, o Rosa Coutinho. Igualmente “aviado em Almirante”, o simulacro de governador-geral rapidamente tornar-se-ia objecto de todas as conversas, mimoseado pela explícita alcunha do “Vítor Copos”. De forma a tornar tudo mais óbvio, o “Copos” do Crespo, estava justa ou injustamente na mesma linha do certíssimo “Tantos” carimbado na pele de um certo advogado Almeida, nada dado a santidades. Há alegações que para sempre ficarão coladas à reputação das duvidosas celebridades.

Na tropa portuguesa grassava uma total indisciplina. De imediato cessou qualquer sentido de hierarquia, apresentando-se miseravelmente “uniformizada” nas avenidas da capital de Moçambique e sempre pronta para qualquer grosseria. No aeroporto Gago Coutinho, os guedelhudos militares de palito no canto da boca e ameaçadora G-3 à bandoleira, submetiam aqueles que partiam para a Metrópole a todo o tipo de vexames, esvaziando malas e carteiras, confiscando jóias pessoais, por mais insignificantes que estas fossem. Agora sim, os espoliados eram mais que nunca, portugueses de 2ª classe.

Nas citadas “listas” eram riscados items após items, alegando-se “duplicação”. “Tens duas cadeiras destas? Só precisas de uma, esta fica cá! És viúva? Então para que precisas tu de duas alianças? Buíça (5) uma delas!” Nos já então suprapatéticos departamentos do Estado de Moçambique – era assim que há muito a antiga Província Ultramarina oficialmente se denominava -, as exigências burocráticas foram esmagadoras e impiedosamente acrescidas de custas, autenticações e reconhecimentos, atestados para isto e para aquilo, enfim, um ror de enormidades que serviam para dificultar ao máximo, a já muito precária vida dos aflitos e indefesos requerentes. A finalidade de todo o processo era o despojamento total. Há que ter em atenção a existência de uma azáfama censória controleira dos desabafos de uma imensa mole de gente encurralada pelos seus próprios compatriotas, assim se explicando esta série de postais enviados dentro de discretos envelopes.

É este um triste episódio praticamente desconhecido dos portugueses europeus e convém ir divulgando estes postais – o meu pai também arquivou interessantíssimas cartas -, por mim já muito abusivamente promovidos a documentos. Classificados como impublicáveis, alguns dos testemunhos permanecerão guardados, sendo o seu conteúdo deveras embaraçoso para a reputação de muita gente que ainda bem viva, é pesadamente responsável pelo mais vergonhoso e desnecessário desastre da nossa história.

Notas

(1) A tia Mimi (Argentina) refere-se ao dia 27 de Junho, aniversário do meu pai.
(2) A “lista” era uma estulta invenção das autoridades portuguesas, escandalosamente ansiosas por agradarem aos seus novos comparsas – tão ineptos quanto os recém-chegados de Lisboa – que fizeram sentar no “Governo de Transição”. Sob a chefia da dupla Crespo/Chissano, este executivo logo deu início a uma torrente legislativa, ousando estabelecer uns inacreditáveis “pontos prévios”: consideravam estes que os bens materiais dos colonialistas – no nosso caso, cinco gerações! – tinham sido obtidos ao longo de “500 anos de exploração dos moçambicanos e por isso mesmo deveriam em parte ficar na posse do povo de Moçambique”. Em conformidade, o “governo Crespo/Frelimo” significou a despudorada rapina dos bens móveis daqueles que então legalmente passaram a ser considerados como “residentes” (!) e que ao pretenderem sair do país, tinham de pagar pesados impostos, taxas e tarifas, ficando à total mercê dos apetites ou fúrias de quem controlava a fiscalização. Estes abusos consistiram em actos em tudo semelhantes àqueles a que as autoridades do Reich submeteram os concidadãos judeus que nos anos 30 quiseram atempadamente deixar a Alemanha. Após a independência, o absoluto à vontade das autoridades permitiu-lhes passar da usurária taxação, ao puro e simples confiscar de tudo aquilo aparentemente apetecível, por mais risíveis e grotescas que fossem as reivindicações. Tendo aprendido os complicados e copiosos meandros da burocracia portuguesa, logo inventaram uma infinidade de requerimentos a que forçosamente eram anexadas várias cópias de uma minuciosa lista dos bens a embarcar, ou seja, o normal recheio de uma casa: móveis, bibelots, tapetes, brinquedos, talheres, electrodomésticos, louças, roupas, etc. Não esqueçamos uma colossal quantidade de livros que após a consumação do saque foram rasgados, servindo as suas páginas para embrulharem por ruas e avenidas fora, o amendoim torrado, a castanha de caju e as maçarocas assadas, até servindo para o polimento de sapatos. Era esta, a “nova cidade”.
(3) A Leta é a mulher de um primo direito da minha mãe.
(4) A Emília, a nora da tia Mimi.
(5) Buíça quer dizer “passa para cá!”

(fim)

Para que conste.

NELSON MANDELA, MAIO DE 2013

Filed under: Maio 2013, Nelson Mandela — ABM @ 2:49 pm
XXX

Nelson Mandela, de 94 anos, já quase não fala, disse a sua filha Makaziwe Mandela, numa entrevista que concedeu à Associated Press. Makaziwe é filha de Mandela e da primeira mulher deste, Evelyn Mase, já falecida. “Estende-nos as mãos. São as suas mãos que falam comigo. Esse é, se me perguntarem, o momento que mais aprecio com o meu pai. Para mim ele quer dizer: ‘Estou aqui, gosto de ti, preocupo-me contigo”, disse Maki, como é conhecida a filha de Mandela, que foi batizada com o nome de uma irmã que morreu aos nove meses. “O meu pai não tem estado muito bem de saúde no último mês. Tem dias bons e dias maus”, declarou na entrevista exclusiva que concedeu na sexta-feira à AP, na sua casa.

02/05/2013

O QUE O HENRIQUE RAPOSO DIZ SOBRE O QUE O FRANCISCO VIEGAS DISSE DE LOURENÇO MARQUES

Capa de um folheto publicitário de Lourenço Marques, anos 30, adaptado.

Capa de um folheto publicitário de Lourenço Marques, anos 30, adaptado.

 

Com vénia para o semanário Expresso, Lisboa.

O Purgatório dos Retornados

por Henrique Raposo, em crónica A Tempo e a Desmodo

Francisco, já não sei se o teu romance enformou a minha visão sobre os retornados ou se encaixou na visão que eu já tinha sobre esta trágica tribo perdida, mas o certo é que Lourenço Marques acerta no alvo . E explico já porquê.

Quase 30 anos depois, Miguel regressa a Moçambique para tentar encontrar Sara, a sua primeira paixão, o seu princípio do mundo revelado no fundo de uma piscina moçambicana no início dos anos 70. Esta misteriosa Sara voltou a Moçambique para logo desaparecer naquela imensidão. Enquanto procura Sara entre estradas e lagos intermináveis, Miguel flutua nas memórias da meninice africana e da dura devolução à metrópole (são mais devolvidos do que retornados, não é verdade?). Nestas flutuações, meu querido Francisco, fica evidente o pior dos tabus – o confronto entre o soldado português e o colono português – e a pergunta assombrada pela tragédia: criados nos espaços abertos de África, como é que milhares de pessoas se habituaram a viver em paralelepípedos de doze andares ou em vilas beirãs? A viagem é, portanto, um pretexto para Miguel confrontar estes fantasmas. Aliás, ele próprio é um fantasma. Eis o que escrevi no espaço em branco da última página: “livro de fantasmas, personagens que parecem flutuar acima do presente, só habitam as memórias do passado”. Acrescentei ainda: “será que Sara existe mesmo? Não será ela um fantasma?”. E este lado fantasmagórico é reforçado pela tua técnica favorita: a arrancada à Futre em monólogo (repara no rigor literário e quiça científico da expressão). A grande arte do diálogo é, na verdade, a grande arte do monólogo. Os teus monólogos, catedrais de pormenores e emoções, dão o ritmo certo à memória melancólica de Domingos (o polícia moçambicano), do último médico branco de Lichinga e, claro, de Miguel, esse fantasma preso no purgatório dos retornados. Sim, um purgatório.

Através desta tapeçaria de monólogos, tu consegues retratar o retornado como uma figura a pairar num limbo entre dois mundos, ou melhor, entre dois Portugais. O primeiro era aquele que existia em África, uma república moçambicana que era Portugal mas em bom, um Portugal que era o Brasil novamente, um Portugal com gente solta, alegre, cosmopolita, com cor na roupa, sem o cinzento-castanho-preto cá de cima, uma pátria sem relação com o Portugal daqui, o Portugal da metrópole, o segundo mundo desta história. Este Portugal europeu era tão distante como aquela tia-avó que toleramos no dia de natal desde que ela se sente a um canto com os canídeos e gatídeos, mas, entre 74 e 75, o retornado ficou sem acesso à sua pátria, teve mesmo de embarcar para o colo da tia-avó, foi forçado a viver um futuro que não era o seu. E que ainda não é seu. Sim, aceitou viver aqui, mas o seu coração permanece africano, a sua lealdade está com aquele futuro que não pôde viver. Como foi possível a adaptação?, perguntava eu há pouco. Não foi possível. A conversa da “boa integração dos retornados” esconde uma tragédia silenciada: para o retornado, a metrópole foi um beco claustrofóbico que lembrava, e ainda lembra, um futuro que ficou por viver, um país que ficou por ficou por fazer . Ele está há 40 anos no purgatório. O céu ou o inferno só chegariam se tivesse ficado em África.

Para terminar, convém registar a universalidade do tema. A tragédia do retornado é a história clássica do fim de um mundo, do desaparecimento de um modo de vida, de um modo de ver e sentir o mundo. Um leitor estrangeiro sem qualquer conhecimento da história portuguesa pode relacionar Lourenço Marques com o drama dos sulistas em 1865, por exemplo. Aliás, Miguel e a figura do retornado em geral têm aquele encanto crepuscular de Ethan, a personagem de A Desaparecida. No fundo, meu querido amigo, o teu romance pega no fantasma universal da pátria perdida e mostra as cinzas de uma Cartago que foi nossa, que é nossa. Se não te importas, os romanos ficam para outra conversa.

(Da série “Cartas a amigos”)

(fim)

O Nuno agradeceu.

25/04/2013

ASSINALANDO O PRONUNCIAMENTO MILITAR DE 1974 COM EÇA DE QUEIROZ

Eça, volta, estás perdoado.

Eça, volta, estás perdoado. Grato ao CTF, que me mandou isto para ler.

Sobre a Inevitabilidade das Revoluções

“As revoluções não são factos que se aplaudam ou que se condenem. Havia nisso o mesmo absurdo que em aplaudir ou condenar as evoluções do Sol. São factos fatais. Têm de vir. De cada vez que vêm é sinal de que o homem vai alcançar mais uma liberdade, mais um direito, mais uma felicidade. Decerto que os horrores da revolução são medonhos, decerto que tudo o que é vital nas sociedades, a família, o trabalho, a educação, sofrem dolorosamente com a passagem dessa trovoada humana. Mas as misérias que se sofrem com as opressões, com os maus regímens, com as tiranias, são maiores ainda. As mulheres assassinadas no estado de prenhez e esmagadas com pedras, quando foi da revolução de 93, é uma coisa horrível; mas as mulheres, as crianças, os velhos morrendo de frio e de fome, aos milhares nas ruas, nos Invernos de 80 a 86, por culpa do Estado, e dos tributos e das finanças perdidas, e da fome e da morte da agricultura, é pior ainda. As desgraças das revoluções são dolorosas fatalidades, as desgraças dos maus governos são dolorosas infâmias.”

Eça de Queiroz, em ‘O Distrito de Évora’

A SÍNDROME DO PODER MODERADOR PORTUGUÊS

Há trezentos anos que a mudança está institucionalizada através do conceito da revolução. Parece que para muitos esse paradigma ainda não mudou.

Por muito odiado que se diga ser assim, há duzentos anos que a mudança está institucionalizada no sistema político português através do conceito da revolução. Parece que para muitos esse paradigma ainda não mudou.

Numa celebração assinalada com aquele entusiasmo datado com que hoje a maior parte de quem se lembra (por exemplo) do concerto de Woodstock, realizado em 1969 nuns campos adjacentes à vilória com o mesmo nome do Estado norte-americano de Nova Iorque,  os eleitos portugueses juntaram-se no edifício do parlamento português na manhã deste dia 25 de Abril de 2013, para recordar o pronunciamento militar que em 1974 deu por finda a agonia marcelista e o impasse do regime de então.

Do lado esquerdo, celebrou-se a festa e o atentado comuna que se seguiram e a instauração da República Socialista – agora ferida de morte – enquanto que do lado direito ruminou-se e pouco mais.

Ou seja, enquanto simbologia, transmitida ao vivo pelas estações de televisão, aquilo foi uma seca tão má como me lembro, tenuamente, de terem sido, nos anos 60 e 70 até 74, as comemorações da “gloriosa revolução nacional” que em 1926 enterrou quase de vez a Primeira República.

Só houve uma diferença.

Essa diferença, no entanto, marca uma outra continuidade.

A diferença consistiu no mais uma vez apagado e pouco inspirador ponto feito pelo Presidente português, a respeito de qual deverá ser o seu papel no actual firmamento político e contexto em que o seu país vive.

Em resumo, Cavaco Silva aproveitou esta missa sacra de um feriado que só por milagre e conveniência escapou a recentes cortes, para publicamente afirmar duas coisas.

A primeira é que, do seu ponto de vista, o ordenamento político-constitucional-social do momento está a funcionar adequadamente.

A segunda é que não contassem com ele para interferir nesse actual quadro.

Ora, em termos curtos e grossos, Aníbal Cavaco Silva achou por bem alinhar-se a 100 por cento com o actual governo, liderado por uma coligação entre o PSD e o CDS.

Isto num momento de uma crescente agudização dos efeitos da falência do actual regime.

Sendo sua prerrogativa, há algo que não entendo, quer na postura que Aníbal Cavaco Silva escolheu divulgar, que no próprio sistema político português.

Façamos um pouco de reflexão histórica.

O actual ordenamento constitucional português, em traços largos, e peque toda a nefasta propaganda com as sucessivas revoluções nos últimos 200 anos, não mudou significativamente desde que o mercurial Dom Pedro IV enfiou a Carta (e o hino) pela goela dos portugueses dentro. Para além de uma nojenta mas fascinante trica familiar entre os Bragança, essa imposição levou décadas e incluiu tanta revolta e reviravolta que o Século XIX português foi essencialmente um século horribilis da sua história, pois o modelo levou tanto tempo a ser aceite (ou imposto) e entretanto destruiu-se mais do que se fez.

E mesmo aí, logo a seguir foi prontamente tomado e adulterado pela nascente e crescente burguesia lisboeta.

Que, quando, mesmo aí, tal não lhe agradou a percentagem do pecúlio, tornou-se “republicana”.

Ora, se se ignorarem as tradições, a principal diferença entre os regimes monárquico e republicano reside na figura ao topo, o monarca ou o presidente.

E entre esses, a diferença é que o presidente é escolhido por eleição para um mandato relativamente curto, o rei não era nem podia ser eleito, e exercia o seu reinado enquanto estivesse vivo e são.

O que não se alterou significativamente foram os únicos poderes consagrados dessa figura cimeira – o chamado “poder moderador”.

Para mim, que assisto de fora e de longe, este atributo é uma espécie de solução luso-rasco-latina, inventada para lidar, como uma espécie de fusível de sistema, para o caso desse sistema entrar em curto-circuito. Ou seja, se as pessoas, os partidos, o parlamento, as instituições não funcionarem, está previsto que o monarca, ou o presidente, intervenham, de forma não especificada, no sentido de dar um choque e – espera-se – restaurar a situação para um simulacro de normalidade e operacionalidade..

Para além de uma sumária ganância pelo poder e pelas suas mordomias, as infâmias, os assassinatos e a conspiração que finalmente derrubou a monarquia portuguesa em 1910,  tinham apenas como fim fazer com que os agentes políticos – na altura uma ditadura reles liderada por uma gang lisboeta que se auto-intitulava Partido Republicano Português – pudessem também passar a controlar esse poder.  O resultado foi, para variar, o caos quase completo, interrompido mais tarde durante meio século pela mão hábil e sinistra de António Oliveira Salazar.

Com o pronunciamento militar organizado pelo moçambicano Otelo e os seus “camaradas” em 1974, surgiu de seguida uma “nova” burguesia, filha e neta da de 1910, que retomou o assunto do pecúlio. misturando ao meio o delírio da República Socialista, que tinha por fim criar uma sociedade “sem classes”, em que a todos seria garantida uma vida decente. Na realidade, tudo não passou de um cheque em branco para se poder roubar alegremente o erário público e incorrer em défices de proporções épicas, agora impagáveis.

Na nova dispensação constitucional portuguesa após 1974, permaneceu o parlamentarismo sui generis português, e, no topo, uma espécie de presidente-rei, que vive no velho e minúsculo palácio de Dom Carlos e Dona Amélia, e exerce praticamente o mesmo poder moderador do anterior residente com sangue azul.

O problema é que o exercício desse místico poder moderador enfrenta – sem solução à vista – os mesmíssimos desafios enfrentaram quem o exerceu quer na monarquia, quer na primeira república. No reinado de Dom Carlos, ainda hoje é agonizante ler-se as notas deixadas pelo Rei, perante um sistema em quase perpétua colisão e incapaz de usar o seu mandato para procurar e implementar as soluções que o País exigia. Na primeira república esse exercício tornou-se dilacerante. Durante o Estado Novo, Salazar açambarcou-o e protegeu-o com uma ditadura, e mesmo assim, no fim, Américo Tomás, tendo-o efectivamente, usou-o erradamente, não desbloqueando a ditadura, entregando o poder à rua.

E aqui estamos em Abril de 2013, assistindo a Aníbal Cavaco Silva – e o eleitorado português – enfrentando os mesmos desafios. O elusivo poder moderador que consiste na única parte não cerimonial do cargo que desempenha, para pouco serve, e em pouco assiste os portugueses na procura de soluções e confronto das dificuldades presentes. Pois na face de grande confrontação política, a sua intervenção não é aceite como forma de desbloquear ou de prevenir o caos. Os portugueses – alguns portugueses – não aceitam que o chefe de Estado seja ao mesmo tempo árbitro e jogador.

Ora, a prerrogativa presidencial, nos termos da constituição, permite-o.

A República Socialista portuguesa já não existe, simplesmente porque é inviável. Na forma, ainda persiste, com o seu texto constitucional repleto de promessas de farturas e oportunidades regiamente garantidas, incluindo na permanência, na constituição, do poder moderador do presidente, esta espécie de fóssil da Era de Montesquieu.

Até quando?

Pois que, a alternativa, nestas circunstancias, é fazer revoluções.

Entretanto, a crise continua.

26/03/2013

LUIS OSÓRIO E O LIXO DA HISTÓRIA. OU

Filed under: Luis Osório e o Lixo da História — ABM @ 1:34 am
A temática de quantos portugueses e brancos africanos saíram dos territórios anteriormente administrados por Portugal é um interessante jogo estatístico.

A temática de quantos portugueses e brancos africanos saíram dos territórios anteriormente administrados por Portugal é um interessante jogo estatístico. O impacto da sua chegada a Portugal é o tema aqui abordado, indirectamente.

Esta manhã, alguém mandou-me cópia de um texto, escrito por Luis Osório, um jornalista português, alguém que, até há momentos, antes de digitar o seu nome na janela do Google Search, nunca ouvira falar antes.

Penso que interessa registar, para futura referência, o texto que segue, em parte pelo conteúdo do que está escrito, mas em parte também pela curiosidade em tentar entender onde é que o seu autor pretende chegar.

Luis Osório.

Luis Osório.

Para promover um seu livro, a Chiado Editora descreve Luis Osório assim no seu sítio: Tem 41 anos e é um dos mais premiados jornalistas da sua geração. Ganhou o prémio Gazeta Revelação do Clube de Jornalistas, um Sete de Ouro, o Prémio de Inovação Manuel Pinto de Azevedo Jr e programas de televisão garantiram-lhe quatro nomeações para os Globos de Ouro.É um jornalista que assim não se assume. Talvez por isso, a sua carreira divide-se por jornais, televisões, rádios, teatro, documentários, política e livros. Escreveu Quanto Tempo, uma Criança no Olhar, uma conversa com o seu pai (seropositivo e herói comunista já falecido) e 25 Portugueses, obra em que entrevistou os portugueses que mais se destacaram depois do 25 de Abril. Foi director do jornal A Capital, um dos mais jovens a alcançar a direcção de um órgão de comunicação social. E dirigiu vários anos o Rádio Clube e a informação das rádios do Grupo Media Capital. Os seus programas Portugalmente e Zapping ainda hoje são citados como exemplos de inovação.

Em seguida, reproduzo, com vénia, o texto que escreveu e que foi publicado no semanário angolano “Sol”, publicado em Lisboa a 12 de Março de 2012:

(início)

Os Filhos dos Retornados Chegaram ao Poder

Em 1975, meio milhão de portugueses das colónias desembarcavam em Lisboa com uma mão à frente e outra atrás.

Em Angola e Moçambique, sobretudo aí, eram donos do espaço e viviam sem preocupações de tempo ou angústias financeiras. Para eles, a morte do Estado Novo trouxe-lhes o fim do paraíso e abriu-lhe as portas a um inferno que nunca poderão esquecer.

Para muitos, Mário Soares é a besta negra. Responsabilizam-no, mais do que a Cunhal, por exemplo, por tudo ter corrido mal. Por muito que o fundador do Partido Socialista fale no peso das circunstâncias ou na pressão internacional motivada pelo equilíbrio de poder entre americanos e russos, o certo é que poucos o ouviram ou ouvem. Quase 40 anos depois, pouco interessa a questão da culpa ou da inocência, para eles é o homem que podia ter evitado e não evitou. O réu para os que perderam tudo o que tinham. Para os que chegaram nas pontes aéreas e foram tratados como brancos de segunda, tratados como, porventura, alguns de entre eles tratavam os negros em Angola e Moçambique.

Retornados. Nome que é um rótulo, um peso que os marcou como ferro em brasa. Ainda assim, um processo que correu anormalmente bem – sobretudo se comparado ao que acontecera com as descolonizações francesas. As pessoas foram distribuídas por todo o território, de Norte a Sul os que a si próprios se definiam como ‘espoliados’ puderam recomeçar. Do zero, claro. E os seus filhos, pequenos ou ainda por nascer, também pagaram o preço da profunda infelicidade dos pais, um peso que certamente os terá influenciado. Para o bem e para o mal.

Para o mal, o ressentimento. Para o bem, a vontade de ganhar e uns horizontes mais largos do que a maioria dos que, na metrópole, haviam nascido. Habituados à terra a perder de vista estavam capacitados para ver mais longe e com maior alcance. Vários reconstruíram riquezas, montaram negócios, fizeram boas carreiras.

Onde quero chegar? A um ponto interessante e fundamental para balizar a nossa história contemporânea. Porque este é o tempo em que os filhos desses homens e mulheres obrigados a começar tudo de novo, filhos do ressentimento e de uma África de largos horizontes, chegaram ao poder.

O facto poderá ser visto por alguns como uma prova de que as feridas não estão saradas, justificando as medidas do actual Governo como uma espécie de vingança psicanalítica. Mas para outros será o ponto final parágrafo numa narrativa de sucesso, a história de 500 mil portugueses que perderam uma vida e começaram do zero numa terra que, na verdade, tantos não conheciam.

Para os primeiros, é a prova de que o ressentimento passa de pais para filhos. Para os segundos, a prova de que Portugal soube sarar as feridas e incorporar a força, o talento e o largo olhar dos que regressaram.

Os críticos terão mais um motivo para atacar porque se convencerão que é gente que deseja ajustar contas. Os que acreditam dirão que é a grande oportunidade de Portugal mudar na sua mentalidade.

Mudar esta tendência para que, em todas as épocas da História, as elites perguntem se existe futuro para o nosso país. Como escrevi há uns dias, num ‘postal’ para amigos: «É uma marca genética, um traço que nos distingue dos alemães, ingleses ou franceses; ao contrário deles, banhados de certezas, temos a arrogância da dúvida permanente. Somos orgulhosos, mas fazemos por escondê-lo, como se fôssemos cristãos a rezar nas catacumbas após a morte de Cristo. Quando falamos do que somos, dizemos ‘os portugueses’ e não ‘nós, os portugueses’. Somos o que somos. Umas vezes, tanto. Outras vezes, nada. Adoramos o que detestamos, odiamos o que amamos. Temos o Sol, mas inventámos o fado. Falamos de medo e partimos à conquista do mundo. Temos inveja e somos generosos. Somos uma coisa e o seu contrário».

A história e os cobradores de fraque decretaram-nos da urgência de mudar. A delícia da inconstância é boa para salões e crédito, e uma tragédia para quem perdeu anéis e já só tem os dedos para oferecer.

Nesta perspectiva, ter Pedro Passos Coelho em São Bento é uma boa notícia. Ainda não completara os dez anos quando Salgueiro Maia e os capitães de Abril impuseram o fim do Estado Novo ao compasso da voz de Zeca Afonso. Com uma infância angolana, como Miguel Relvas, viu os pais lutarem com dificuldades e sacrifício para alcançar um futuro para os seus filhos.

Em 1974, e no regresso dos retornados nas célebres pontes aéreas de um ano depois, ninguém daria nada por aqueles miúdos de calções e, certamente, olhar assustado. Não passavam de brancos de segunda. Ressentidos e sem futuro.

Afinal, o futuro revelou-se de um outro modo. Como aliás sempre acontece. Os filhos conquistaram o poder. E uma parte de Portugal, tal como aconteceu com os seus pais, grita para que desapareçam, para que tenham vergonha na cara, para que nunca mais voltem.

O ressentimento tem sempre múltiplas faces, está em todo o lado e não é exclusivo de ninguém em particular. É democrático. Um património de todos. Infelizmente.

A História é uma maravilhosa caixa de surpresas, não é?

(fim)

Os meus comentários

1. Das minhas contas, o superlativo Luis mal havia deixado de usar as fraldas quando o Major Otelo (née em Moçambique como eu, mas não interessa) e os seus amigos organizaram o pronunciamento militar de 1974. Pouco mais tinha quando ocorreu a Descolonização. Portanto os julgamentos de valor reproduzidos na sua escrita ou resultaram de leituras feitas ou por via de emprenho pelos ouvidos. Penso que foi mais o segundo caso.

2. Todo o seu artigo está explicitamente estruturado na base de uma curiosa dicotomia, entre, por um lado, o “bom retornado”, bem comportadinho, trabalhador e caladinho, contemporizador, que vive e esquece ou finge que esquece; e, por outro lado, no “mau retornado”, habituado a viver à fartazana às costas do preto africano, injustamente ressabiado pelo fim do desmerecido bem bom que a Ditadura fascista lhe facultara e sedento de vingança por tudo ter perdido sem nunca receber um tusto – a que, claro, não tinha direito nenhum, pois por definição tudo o que fez e ganhou em África foi a roubar e indignificar o preto e a compactuar com o Fascismo.

3. Depois, inenarravelmente, vagamente sugere que meta a carapuça a quem ela couber (vide parágrafo a mordiscar Passos Coelho, actual primeiro-ministro e Miguel Relvas, um seu ministro, tão mercurial como medíocre).

4. Para mim é abundantemente claro onde o autor se situa e quer chegar e honestamente acho que fazer esta ginástica toda para cuspir para cima dos “angolanos” actual primeiro-ministro e o inenarrável Miguel Relvas, foi não só um exercício ineficaz, como a sua dialética de treco-lareco, que se resume mais ou menos a “filho de retornado também é retornado” – ou melhor, “filho da puta é tão puta como a mãe que o pariu” – simplesmente não vinga. Não temos aqui sucedâneo a um Queirós ou a um Pessoa.

5. Ora este tipo de considerandos e tentativa de pseudo-introspecção psicológica das motivações e weltaanschauung de P. Coelho e M. Relvas por interpostas pessoas, nesta caso as tais centenas de milhar de pessoas – e agora os seus filhos! – possivelmente arrisca insultar muito mais gente do que o Luis possa ter pensado quando se sentou em frente ao seu laptop HP há duas semanas para debitar a sua crónicazinha e assim receber o seu honorário, sendo que, auguro, certamente deve ter embatido nas espessas muralhas de uma total indiferença por parte de Passos Coelho e Relvas, que, como eu, provavelmente terão que ir ao Google ver quem o Luis possa ser, para tentar perceber o alcance do seu impropério.

6. Se calhar era essa a sua intenção.

7. Que é quase tão curial e apropriado como procurar culpar o Luis por alguma coisinha na vida ou atribuir-lhe alguma característica pessoal por ter sido filho de um comunista encartado “heróico” (não sabia que os havia) que morreu de sida. Hum, será…?

Não é, Luis?

8. Intenção essa, tese essa que, a confirmar-se, do que me lembro vagamente de me ter tentado dizer a Rita Garcia quando preparava o seu recente livro, também não é novidade.

Afinal, a História regista que os “culpados” pela Colonização, pela Política colonial de cem anos, não foi dos que estavam Cá, primeiro monárquicos, depois republicanos da primeira e segunda vaga, democratas, nacionalistas, fascistóides e afins.

Foi dos que foram estavam Lá, em África e noutros locais.

É isso?

9. Enquanto desastre nacional, em perto de 900 anos de maioritariamente desgraçada mas interessante história, a Descolonização ocorrida em 1974-1975, só se equipara no seu impacto a Alcácer-Quibir. E do que aconteceu a seguir, nas mãos dos tais dilectos e impunes Soares,  Cunhal, Almeida Santos, et al, Cá e Lá, os resultados estão hoje à vista (tira o já  dinheiro do banco se o tiveres, Luis, e guarda-o bem debaixo da cama, não vais gostar do que Democracia de Abril tem para te oferecer a seguir).

Que alguém como o Luis não o saiba, não o entenda, não o apreenda, não o contextualize, e muito menos empatize com os que sofreram os seus efeitos na pele (que inclui os milhões de africanos impactados pelos cerca de cem anos que durou a deslavada aventura africana, que era e sempre foi um projecto nacional português, nunca dos que para lá foram viver, que pouco ou nada tinham e nada riscavam) não surpreende nada.

10. Pois, segundo ele, mau Retornado é mau Retornado, E filho de mau Retornado é mau filho de mau Retornado.

11. O que surpreende é que, ao olhar para o Lixo da sua História, Luis erre de forma tão elementar e banalize tudo isso e toda uma miséria colectiva, humana e moral,  apenas para mandar uma reles, irrelevante, insonora, inodora, insípida, biqueiradazinha numa crónica de fim de semana e ainda por cima sem pontaria, a dois politicozecos de quem acontece não gostar.

24/03/2013

O CORREDOR DO ZAMBEZE E O FUTURO

Filed under: O Corredor do Zambeze, O Corredor do Zambeze — ABM @ 10:40 pm
A gigantesca, fenomenal bacia hidrográfica do Rio Zambeze, que apanha uma boa parte de Angola, toda a Zâmbia, todo o Malawi, quase metade do Zimbabué e uma boa parte de Moçambique.

A gigantesca, fenomenal bacia hidrográfica do Rio Zambeze, que apanha uma boa parte de Angola, toda a Zâmbia, todo o Malawi, quase metade do Zimbabué, partes da Namibia, Botswana, Tanzânia e uma boa parte de Moçambique.

Há dois temas que gostava de abordar à laia de introdução do texto em baixo, de autoria de Fátima Mello.

O primeiro é sobre o Rio Zambeze, ou seja, a sua bacia hidrográfica, que, para o Exmo. Leitor menos informado, pode ser vista em cima. Simplesmente dito, é gigantesca. Os moçambicanos gostam de mistificar o Zambeze e habitualmente despendem as suas duas linhas e meia sobre a enorme barragem que os portugueses fizeram (e essencialmente pagaram, antes de a “venderem” por tuta e meia a Moçambique). Só que o Zambeze não é um rio qualquer. Um pouco como outros rios que cortam o País de Oeste para Leste, na sua corrida para o mar, o Zambeze começa quase no outro lado de África e corre para Leste, descendo suavemente.

Só que África é um continente com uma plataforma continental bastante alta. Ou seja, quando chove muito nas suas bacias – que, como o nome indica, “recolhem” num ponto as águas que nelas caem- os rios não só se transformam em oceanos, como em oceanos difíceis de controlar. Mas não impossível, se bem que os custos desse controlo poderão cada vez ser mais postos em causa por razões ambientais e o impacto na flora e na fauna.

Mas, como já disse mais que uma vez, aqui residem os três eldorados moçambicanos para o futuro: água, terrenos agrícolas e energia hidroeléctrica. A atracção é quase fatal nestes dias que correm. Imune às preocupações, a elite política moçambicana, que quer ser a elite económica para os próximos cem anos, posiciona-se para recolher os lucros desses negócios previstos. Rapidamente.

Este foi o primeiro comentário.

O segundo comentário é digamos que de ironia política. Quando, mesmo antes do ditador português Salazar ter sido neutralizado por um AVC resultante duma queda, no final do verão de 1968, o seu governo anunciou a construção da barragem, então um projecto de uma envergadura nunca dantes vista numa colónia sob administração portuguesa, a Frelimo ainda do Dr. Mondlane reagiu contra. Meses depois o Dr. Mondlane foi assassinado e a Frelimo deu uma violenta guinada para o fosso do marxismo-leninista-maoista-pol-potista, a oposição expressa não foi só motivada pelo habitual argumento militar que opunha colonizador e colonizado. Fundamentava-se também na perspectiva totalmente delirante de que o vale do Zambeze seria colonizado por um milhão de colonos brancos (de onde viriam ainda hoje não se vislumbra) que tomariam as terras, destruindo as vidas de então mais que um milhão de pacíficos residentes naturais da região. O chamado Plano do Zambeze não era modernização: era o Colonialismo (com C grande) no seu pior e mais nefasto.

Fast forward quarenta anos e aqui temos nada menos que Moçambique gerido pela mesma Frelimo há quarenta anos seguidos, agora de fato Gucci e 4×4, o ex-guerrilheiro Armando Guebuza na presidência executiva e, graças a uma profícua reprodução, uns cinco milhões de pessoas que vivem ainda em abjecta miséria e doses substanciais de analfabetismo nas margens, na bacia do mesmíssimo Rio Zambeze. E qual é o plano de acção?

Os últimos cerca de 300 quilómetros do percurso do Rio Zambeze, na mira de mais mega-negócios da Elite.

Os últimos cerca de 300 quilómetros do percurso do Rio Zambeze, na mira de mais mega-negócios da Elite.

Leia-se então a nota de Fátima Mello, publicada no Wamphula Fax de 25.03.2012, repruduzida no fabuloso Macua Blogs e reproduzida aqui com profunda vénia, a propósito do chamado Corredor de Nacala, que é infimamente mais pequeno que o do Zambeze, mas que deixa adivinhar o que vai ser quando começarem os hidro e agro-negócios naquela região:

Os governos do Brasil, Japão e Moçambique estão iniciando a execução de um grande programa no norte de Moçambique, no chamado Corredor de Nacala, região que possui características físicas e ambientais muito similares ao Cerrado brasileiro. Apesar do padrão vigente de falta de informação às comunidades que serão afectadas ou, muito pior, da disseminação de informações distorcidas e contraditórias, o que se diz é que o ProSavana tem um horizonte de duração de 30 anos, abrangerá uma área estimada em 14,5 milhões de hectares nas províncias de Nampula, Niassa e Zambézia, onde cerca de 5 milhões de camponeses vivem e produzem alimentos para o abastecimento local e regional. As comunidades camponesas estão concentradas exactamente onde está prevista a chegada dos investimentos do ProSavana.

Apesar da ABC (Agência Brasileira de Cooperação) insistir na tese de que as críticas em curso decorrem de falhas de comunicação, o diálogo com organizações e movimentos sociais parceiros em Moçambique evidencia que o problema é mais grave: o Brasil está exportando para a savana moçambicana seus históricos conflitos entre o modelo de monoculturas em larga escala do agronegócio voltadas para exportação e o sistema de produção de alimentos de base familiar e camponesa.

Em recente divulgação de informações sobre o ProSavana em Maputo os responsáveis pelo programa apresentaram um mapa do Corredor de Nacala dividido em áreas que serão destinadas a atracção de investidores privados para “culturas de alto valor” e “clusters agrícolas” para a produção de grãos (entre eles a soja) pela agricultura “empresarial”, produção familiar de alimentos pela “agricultura familiar”, grãos e algodão pela “agricultura empresarial de média e grande escalas”, caju e chá pela “agricultura empresarial média e familiar”, e a “produção integrada de alimentos e grãos” por todas as categorias. Ou seja, a velha tese da convivência possível e harmónica entre os sistemas de produção do grande agronegócio e da agricultura familiar e camponesa, que no Brasil é fonte de intensos conflitos.

Enquanto os governos garantem que o programa trabalhará com a pequena produção camponesa em Moçambique, em 2011 a ABC ajudou a organizar a viagem de um grupo de 40 empresários da CNA (Confederação Nacional da Agricultura), da região do Cerrado, estado de Mato Grosso, para identificarem oportunidades de negócios no Corredor de Nacala. O presidente da Associação Mato-Grossence dos Produtores de Algodão (Ampa) afirmou que “Moçambique é um Mato Grosso no meio da África, com terra de graça, sem tanto impedimento ambiental e frete mais barato para a China”.

São inúmeras as notícias de imprensa que falam de uma reprodução em Moçambique do Prodecer, o desastre sócio ambiental implantado pela cooperação japonesa no Cerrado brasileiro, que expulsou populações tradicionais de seus territórios, abriu um oceano de monoculturas para exportação e inundou a região de agro-tóxicos.

Até agora se diz que o ProSavana terá 3 eixos: um de fortalecimento institucional e pesquisa; o segundo de montagem de um estudo base para a elaboração do Plano Diretor (a instituição escolhida para elaborar o estudo é a GV Agro); e um terceiro de extensão e modelos onde afirma-se que MDA, Emater entre outros actuariam a favor das demandas da sociedade civil de apoio aos pequenos produtores. Em resposta às demandas de entidades e redes como UNAC, ORAM,

ROSA, Plataforma de Organizações da Sociedade Civil de Nampula, MUGEDE, Fórum Terra, União Provincial de Camponeses de Niassa, Justiça Ambiental entre muitas outras por informações, acesso às versões do Plano Diretor em elaboração e que as comunidades camponesas sejam consultadas, as autoridades brasileiras afirmam que o Plano Diretor será divulgado da melhor forma possível quando estiver finalizado. Ou seja, um estudo com base na GV Agro está em elaboração sem que as entidades que representam os milhões de camponeses que vivem na região sejam sequer consultadas. Apenas receberão a informação quando o Plano Diretor estiver pronto. Eventos de lançamento de versões do Plano Diretor são realizados, visando transmitir alguma informação, mas não para um diálogo qualificado nem para colher demandas e propostas das organizações e movimentos sociais.

Conversando com camponeses ao longo do Corredor de Nacala fica claro que brasileiros e japoneses estão indo às comunidades para avisar que o ProSavana está chegando. Depois afirmarão que fizeram as chamadas consultas a sociedade civil. Isso que estão fazendo não é consulta; até agora o que existe é um grave problema de metodologia na definição dos conteúdos e dos interesses que serão atendidos pelo programa, que estão sendo definidos de cima para baixo, pelos governos e empresas interessadas.

Percorrendo o Corredor de Nacala fica muito claro o que afirmam as organizações e movimentos sociais de Moçambique: a região é toda povoada por comunidades camponesas, que com seus sistemas de produção em pousio cultivam milho (o principal alimento do país), mandioca, feijão, amendoim. Ali vivem, produzem, realizam suas festas, desenvolvem em seus territórios relações familiares e comunitárias. Na região vivem cerca de 5 milhões de camponeses.

As entidades e movimentos que os representam identificam a insegurança alimentar como um grande problema no país, e desejam que a produção de alimentos realizada pelo sistema da agricultura familiar e camponesa seja fortalecida. Suas propostas incluem crédito para o fortalecimento de sua produção, apoio à comercialização e compra da produção por preço justo, apoio às associações de pequenos produtores e entidades criadas pelas comunidades. Todos querem participar de programas que apoiem seus sistemas de produção. Depois de escutar e dialogar com eles ao longo do Corredor e ver suas esperanças de que o ProSavana poderia ir ao encontro de suas propostas, quando se chega a Nacala o choque é gritante: uma cidade tomada pela construção de uma gigantesca infra-estrutura de mega armazéns, portos (e um aeroporto construído pela Odebrecht) para exportar a produção da região.

Muitos problemas precisam ser enfrentados. O direito dos camponeses a terra é o principal. A Lei de Terras de Moçambique lhes dá o Direito de Uso e Aproveitamento da Terra (DUAT), que é pública. O direito de uso será concedido às empresas? Como ficará a situação dos camponeses? Como diz um membro da Plataforma de Organizações da Sociedade Civil de Nampula, do centro do Corredor até Nampula “não existe área com mais de 10 hectares de terra desocupada”. Em Niassa as entidades afirmam que a província é toda povoada, excepto nas montanhas, e que todo o Corredor onde está prevista a chegada do ProSavana é a área mais habitada.

Os governos admitem que haverá reassentamentos. As entidades estão vigilantes e mobilizadas para não permitirem mudanças contrárias aos interesses dos camponeses na Lei de Terras e na legislação sobre sementes que corre o risco de ser alterada para viabilizar o uso de transgénicos. Estão preocupados com o modelo de monocultivos em larga escala e intensivo em uso de agrotóxicos que conheceram quando visitaram o estado do Mato Grosso e a área do Prodecer.

Enquanto isso, realizam acções de resistência produtiva e de fortalecimento de alternativas, como é o caso do intercâmbio entre UNAC e MPA/Via Campesina sobre sementes nativas.

Há uma década por orientação do Presidente Lula, a política externa brasileira começou a se abrir ao diálogo com organizações e movimentos sociais. Com isso se fortaleceu a necessária disputa de rumos sobre a presença do Brasil no mundo, pois ela é o espelho da correlação de forças existentes em nossa sociedade. O caso do ProSavana é crucial para que as conquistas dos movimentos sociais do campo brasileiro a favor da segurança e soberania alimentar, traduzidas em programas de apoio a produção e comercialização da produção familiar e camponesa, sejam reflectidas na presença brasileira no Corredor de Nacala. Afinal, é disso que os camponeses e pequenos produtores precisam, no Brasil e em Moçambique, para se fortalecerem contra as injustiças sociais e ambientais e violações de direitos cometidas pelo modelo do agronegócio, para garantirem o direito a terra, a segurança e soberania alimentar da população.

Que a presença do Brasil em Moçambique fortaleça os direitos dos camponeses, e que assim o Brasil seja capaz de demonstrar na prática que sua crescente presença como actor global visa de facto, reduzir as desigualdades e fazer justiça.

(fim)

18/03/2013

MOÇAMBIQUE O TERCEIRO PIOR DO MUNDO EM DESENVOLVIMENTO HUMANO EM 2012

Filed under: IDH de Moç 2º Pior do Mundo em 2012 — ABM @ 7:19 pm

O que surpreende é como não se tiram ilacções do que aqui se reproduz, e que foi divulgado na passada 5ª feira.

O que o semanário Savana divulgou, num canto, na passada sexta-feira. Fiz uma pequena correcção.

O que o semanário Savana divulgou, num canto, na passada sexta-feira. Fiz uma pequena correcção.

 

O quadro indicando a progressão do índice de IDH entre 1980 e 2012. Qual é a parte de "o desempenho é miserando" que não se entende?

O quadro indicando a progressão do índice de IDH entre 1980 e 2012. Qual é a parte de “o desempenho é absolutamente miserando” que não se entende?

O resumo da análise feita ao desempenho de Moçambique pela UNDP. Só há dois países no mundo abaixo de Moçambique.

O resumo da análise feita ao desempenho de Moçambique pela UNDP. De um universo de 187 países, só há dois países no mundo abaixo de Moçambique.

 

Os principais indicadores de desenvolvimento humano dos moçambicanos em 2012. Creio que não incluem a "Princesa Milionária".

Os principais indicadores de desenvolvimento humano dos moçambicanos em 2012. Creio que não incluem a “Princesa Milionária”.

 

 

17/03/2013

A CEREJA NO TOPO DO IMPÉRIO

Filed under: A Cereja no Topo do Império — ABM @ 6:24 pm
Valentina da Luz Guebuza, uma das filhas do actual presidente da república de Moçambique.

Valentina da Luz Guebuza, uma das filhas do actual presidente da república de Moçambique.

O timing da peça, publicada em Agosto de 2012 na sul-africana Forbes, uma daquelas revistinhas marginais e mais ou menos irrelevantes que gostariam de fazer jornalismo à americana e reverberar de forma algo pedante e lambuzante o que as putativas novas elites andam a fazer a Sul do Trópico de Capricórnio, causou alguma impressão no habitual boçalismo sonâmbulo, provinciano e domingueiro da Maputo da pós-Independência, do pós-comunismo, do pós a Frelimo de braço no ar, agora transformada na algo problemática capital da Frelimo Imperial, na pré-fase do orgasmo gaso-petrolífero-carbonífero.

A peça obviamente causou alguma impressão a muita boa gente (a mera quantidade de vezes que me enviaram cópias assim o ilustrou) que mais não seja porque, aparte das habituais generalidades anónimas e irresponsáveis – no sentido em que, em surdina, acusam sem jamais apontar o dedo de forma consubstanciada a ninguém que não seja já um animal ferido- raramente emerge à superfície uma situação em que há um nome, uma face e uma história, relacionadas com a Elite, especialmente com a Primeira Família, a cereja no topo do cada vez mais complexo edifício frelimiano.

Provavelmente sem reflectir sobre o seu impacto na populaça que lê, Valentina Guebuza, uma filha do actual presidente dum país em que, malgrado as prometidas vastas riquezas, persiste em viver dos donativos e do acrescento cíclico das dívidas doméstica e internacional e no meio duma explosão de miséria sem precedente, ilustrou graciosa e tragicamente os mecanismos de como o Poder arrecada para si – e pelos vistos só para si – os negócios e as riquezas que à partida seriam, deveriam ser de e para todos, ou pelos menos negociados e acumulados por e para todos, não por fazerem algo de especial, mas apenas porque são quem são, estão onde estão, podendo mediar o poder soberano em proveito próprio.

Essa é também, muito pouco coincidentemente, a definição geral de corrupção.

Que na essência confronta uma questão moral, ou, quiçá neste caso, de falta, de moral pública e ética política.

O título e o início do texto de Emanuel Novais Pereira.

O título e o início do texto de Emanuel Novais Pereira.

Pois é praticamente impossível, neste caso argumentar que a jovem Tina não é o que é, ou pretende ser, simplesmente por ser filha de quem é, e de ter o apoio tácito associado ao estatuto de Próxima do Poder. E de facto parte integrante do plano de acumulação de riqueza desse Poder.

Um Poder executivo vastíssimo, do ponto de vista constitucional, exercido ambiciosamente desde o início com uma marcadíssima componente empresarial pessoal (veja-se a extensão que é conhecida aqui), cujo expoente coincidiu com a vigência de dois mandatos presidenciais.

Componente essa que, sendo o seu titular septuagenário, requer sucessão, sem a qual essa acumulação provavelmente não faria qualquer sentido.

Há quem cale e consinta e que nisso considere que se reflecte uma necessidade, a necessidade de um País possuir uma classe empresarial que, não existindo historicamente, há que ser criada, o mais rapidamente possível, a qualquer custo. Penso que tal é uma perversão moral do nacionalismo, um argumento que meramente procura justificar o esbulho efectuado.

Mas há quem o aceite.

Ou ainda há quem ache que afinal a sua natureza rapaz (de rapacidade) seja afinal o curso normal para Moçambique e até o que se observa noutras sociedades próximas, onde o fenómeno do enriquecimento de outra forma inexplicável das pessoas relacionadas com o Poder eleito ocorra, sem que nada nem ninguém o pare, ou sequer o comente abertamente, sem que nenhum mecanismo legal, constitucional, social ou moral, ou ainda a pressão dos media, se faça sentir.

E quem cala consente.

Ou ainda haja quem sinta que Aquele que supostamente Libertou o País tem, por falta de melhor termo, o direito ao seu Espólio, a quase qualquer custo.

É a Síndrome do Libertador, uma espécie de fatalidade africana, pós-colonial, que parece que tudo permite e tudo sanciona, e que exige a permanente e perpétua demonização do cada vez mais remoto e irrelevante passado.

Mas terá mesmo esse direito? Será mesmo assim? Será mesmo moralmente justo, culturalmente justificado, socialmente aceitável, politicamente comportável, no Moçambique actual, o enriquecimento súbito e quase inexplicável (a não ser através da corrupção, do exercício da troca de influências e das informações privilegiadas entre a Elite) como se alega ser o caso na África do Sul do ANC? O destroçar incongruente do Estado e da sociedade zimbabweana para obtenção de pecúlio por parte dos próximos do Sr. Robert Mugabe?

É Moçambique a próxima Angola? o próximo Zimbabué?

Será moralmente sancionável que Valentina, uma filha de Armando Guebuza, agora coagida com nada menos que Celso Correia para Membros do Comité Central da Frente de Libertação de Moçambique, de facto, a próxima Princesa Milionária de Moçambique? a próxima Isabel?

A próxima Guebuza? Multi-milionária aos 32 anos?

É esta a visão para o Moçambique do Século XXI?

Penso que não. Creio que Moçambique deve obediência a um imperativo moral mais elevado que este.

Como alguns outros, tenho alguma dificuldade, ao observar as gritantes carências e antever os titânicos desafios que os moçambicanos enfrentam no futuro, em constatar estas manifestações, que deixam transparecer a sobreposição do interesse próprio sobre o do Bem Comum, o exercício do Poder Imperial quase ilimitado para criar uma bolsa de riqueza pessoal que bordeja o insalubre e que é pouco consentâneo com a realidade geral do País.

Poder esse que, em sede própria, praticamente permanece incólume, intocável e intocado por uma massa dócil, deferente e acrítica, constituindo, a prazo, a maior ameaça ao surgimento e afirmação dos elementos constituintes da liberdade e de mecanismos democráticos na sociedade moçambicana.

E aí, o exemplo deve vir de cima.

03/03/2013

COMO SE ENFRENTA UMA CATÁSTROFE ECONÓMICA E SOCIAL EM PORTUGAL, 2013

Filed under: A grande crise de 2013, Politica Portuguesa — ABM @ 4:46 pm
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Realmente se este povo não existisse, teria que ser inventado.

19/02/2013

LOUIS ARMSTRONG E SAINT LOUIS BLUES EM MOÇAMBIQUE, 1971

A capa do disco de 33 rotações, dos anos 50, de Louis Armstrong, baseado num documentário feito pelo grande Ed Murrow.

A capa do disco de 33 rotações, dos anos 50, de Louis Armstrong, baseado num documentário feito pelo grande Ed Murrow.

Tive alguma sorte em ter tido o pai que tive. E uma das sortes foi, em boa parte por causa dele, ter crescido numa casa com livros bons para ler, o que me ajudou a criar o hábito de ler, que considero útil, mas também de poder conhecer e aprender a apreciar boa música. Descobri pela primeira vez, na casa que os meus pais alugavam na Polana, em Lourenço Marques – hoje Maputo, a capital de Moçambique – o prazer da música clássica e do jazz. Beethoven, Sinatra, Debussy, Gounot, Bizet, Louis Armstrong e Walter Wanderley, todos estavam disponíveis, num monte de discos de 33 rotações, que eu ia descobrindo e podia tocar num velho gira-discos que ligava ao velho rádio Telefunken do Pai Melo, anos antes de uma pequena bolha de prosperidade ter possibilitado a evolução para um sistema de stereofonia.

É sobre Louis Armstrong que eu queria escrever umas linhas. Aos dez anos de idade já conhecia vários dos seus discos e simplesmente adorava ouvir as suas baladas, que eram para mim autênticos hinos. Mas não só. A sua presença no filme Hello Dolly, com Barbra Streisand, que vi algumas vezes pendurado no camarote do lado direito do Cinema Scala, na baixa, e ouvi depois dezenas de vezes em casa, quando mais tarde consegui adquirir o disco, e ainda o impacto do que acabou por ser talvez um dos sucessos maiores e mais inesperados da sua carreira – What a Wonderful World – que saiu em 1968, tudo isso representava um dos grandes prazeres da vida de então para mim, alheio às vicissitudes e dramas que poderiam rodear uma já de si despreocupada pré-adolescência. Louis Armstrong foi o único artista por quem eu alguma vez chorei, quando, na primeira semana de Julho de 1971, soube pelo Rádio Clube que tinha falecido. Foi tragicómico, eu com 11 anos choroso o dia inteiro, a família toda a interrogar-se o que é que se passava comigo (típico, quando finalmente, e em confidência, pensava, revelei a causa da minha tristeza à Mãe Melo, toda a família e arredores se pôs a gozar comigo, o que me deixou revoltado).

De longe, para mim o símbolo e o expoente dessa era de descoberta e deslumbramento musical é a canção cuja gravação reproduzo em baixo, contida num disco que o Pai Melo tinha em casa, e que ainda tenho guardado volvidos estes anos todos, e que descobri por acaso esta noite que uma alma caridosa colocara no Youtube. E que deixo aqui como registo. Trata-se talvez do maior dos hinos do velho jazz americano, Saint Louis Blues, composto numa noite (supostamente) por W. C. Handy.

Aqui gravado ao vivo no Lewisohn Stadium em Nova Iorque em 14 de Julho de 1956, por nada menos que Louis Armstrong e a sua banda de então, os All Stars, acompanhados pela Orquestra Sinfónica de Nova Iorque, dirigida pelo incomparável Leonard Bernstein. Na audiência, sentado à frente, nada menos que o próprio W.C. Handy, então com 83 anos e já cego.

Absolutamente sublime.

27/01/2013

OS HERÓIS VALENTES E IMORTAIS: QUEM VERDADEIRAMENTE GANHOU COM O ESTADO SOCIALISTA, 1974-2008

Filed under: Os Heróis Valentes e Imortais — ABM @ 8:21 pm

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Há ainda demasiada gente em Portugal que simplesmente não entende, nunca entendeu, o que é que aconteceu que levou Portugal à falência em meados de 2009 e, subsequentemente, “forçou” o governo do dia, e o que se seguiu, a tomarem medidas predatórias para extorquir os dinheiros necessários para pagar as contas e ainda para sustentar os bancos falidos e suportar o rol de projectos de infra-estruturas que foram uma espécie de marca do Estado Socialista a partir do final dos anos 80.

Mais interessante, e quiçá mais importante, praticamente ninguém entende para onde foi o dinheiro.

Ou melhor, para o bolso de quem foi.

E como.

Os senhores em baixo – Paulo Morais e Pedro Bingre – no algo surpreendente fórum que é a sede da Associação 25 de Abril em Portugal, explicaram praticamente tudo o que interessa no dia 6 de Dezembro de 2012.

No conjunto, o que referem é, no fim do dia, o contabilizar dos débitos e dos créditos de um regime, e a manipulação de um país por uma elite, que, apesar de tudo o que se possa suspeitar, permanecem intocados.

É a história de uma elite parasita que a tudo recorreu, recorre e recorrerá, simplesmente para sacar o seu, preferencialmente em troco de nada, e que há 193 anos seguidos que põe e dispõe de uma nação para encher a sua barriga e a dos seus.

E, para a sanidade mental e informação dos exmos. Leitores desta Casa que se interessam por estas coisas, aqui coloco, e exorto a terem a paciência de ver e ouvir.

O que eles disseram. de uma forma tão inquestionávelmente clara, é quase chocante, não se tratasse isto de falar de Portugal, onde tudo parece ser possível.

A sua apresentação vem em cinco partes. Vejam e aprendam. Não custa nada.

PARTE 1 DE 5

PARTE 2 DE 5

PARTE 3 DE 5

PARTE 4 DE 5

PARTE 5 DE 5

23/01/2013

SOBRE O 70º ANIVERSÁRIO DO PRESIDENTE DE MOÇAMBIQUE, ARMANDO EMÍLIO GUEBUZA

Filed under: 70º aniversário de Armando Guebuza, Armando Guebuza — ABM @ 10:52 pm
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Aspecto do Salão Nobre do Palácio da Ponta Vermelha em Maputo a semana passada, aquando da celebração do 70º aniversário do actual presidente de Moçambique, Armando E. Guebuza. A enternecedora cerimónia foi visionada pelo maravilhoso (e algo molhado) povo pela Televisão de Moçambique, durante horas e horas.

 

28/09/2012

MÁRIO CRESPO, JORNALISTA, EM 3D

Filed under: Imprensa Portuguesa, Mário Crespo Jornalista — ABM @ 6:18 pm

Mário Crespo. Uma das suas mais memoráveis posturas é a forma magistral e suave como ele sabe dizer “fuck you very much”. Tem algumas sérias ligações com aquele outro Moçambique.

Reproduzido com vénia do JN, entrevista de Carla Bernardino e Filomena Araújo. Setembro de 2012.

 

Adora vela, feiras de velharias e uma boa polémica. Toca viola, sabe de cor os êxitos dos anos 60, é romântico e tem a língua afiada. Conheça o homem por detrás do polémico pivô da SIC Notícias que despertou a ira na RTP. Para onde quis voltar há meses.

É tudo menos um homem consensual. Os quase 40 anos de jornalismo que já leva tornaram-no um dos mais conhecidos profissionais televisivos. Mas também um dos mais polémicos. Dois anos depois de ter mostrado uma T-shirt na Assembleia da República a gozar com José Sócrates, Mário Crespo mostrou um quadro em excel no Jornal das 9. Tudo para provar a teoria com que se tem despedido dos seus espectadores: “Passou mais um dia e a RTP custou mais um milhão de euros.”

A sua cruzada contra a televisão pública não é de hoje. Já em 1995, no extinto vespertino A Capital, defendeu a privatização da empresa pública e o encerramento de um canal. Há quem lhe elogie a coerência, mas os seus antigos colegas na RTP não lhe perdoam o que dizem ser uma campanha contra uma casa que o acolheu e para onde Crespo quis voltar… ainda há oito meses.

É que em janeiro deste ano escreveu uma carta ao então presidente da RTP, assinada pelo seu próprio punho, a candidatar-se ao lugar de correspondente em Washington, nos Estados Unidos, local onde sempre desejou terminar a carreira como jornalista.

O caso provocou a ira na estação pública e o silêncio na SIC. E também o de Mário Crespo que, apesar de várias tentativas na última semana, não quis colaborar neste trabalho. Ele e muitos outros. É que entre as cinco dezenas de antigos colegas, amigos, ex-amigos e políticos contactados para este perfil, metade não quis falar em on.

Não foi o caso de Henrique Monteiro, administrador da Impresa Publisher (do mesmo grupo da SIC). O antigo diretor do Expresso declinou inicialmente falar sobre a sua relação com o jornalista de quem já foi amigo, mas acabou por fazer uma única declaração. Arrasadora, por sinal: “Não compreendo o nível de impunidade a que ele chegou, ele está para lá do nirvana, acima de qualquer crítica que se possa fazer”, disse à Notícias TV.

Mas quem é o homem por detrás do pivô do Jornal das 9? O primeiro choro de Mário Crespo ecoou nas redondezas da Rua da Sofia, uma das principais vias comerciais de Coimbra, no dia 13 de abril de 1947, filho de Eduardo Ribeiro Crespo, bancário, e de Carmen de Assunção Rodrigues de Sousa, professora.

Foi ainda em pequeno para Moçambique e os primeiros relatos que chegam vêm precisamente do repórter. “Lembro-me de ir em 2.ª [classe] e havia uma zona do barco, em 1.ª, que tinha ar condicionado. Lembro-me do impacto de sentir muito calor, sobretudo quando chegávamos a São Tomé e Príncipe, era quentíssimo, e eu com 6 ou 7 anos pensar: ‘Que fresquinho! E cheira bem!'”, relatou numa entrevista ao semanário Sol, em 2010.

A geração da Coca-cola

As primeiras memórias de Mário Crespo chegam do tempo da adolescência. “Ele era um companheiraço das festas em Lourenço Marques”, recorda a fadista Maria João Quadros, que nunca lhe conheceu “nenhum irmão”. Ligeiramente mais nova do que o pivô da SIC Notícias, lembra-se bem dele. Uma geração que, relata, ficou conhecida por ser a da Coca-Cola, por ser finalmente possível bebê-las livremente. “Tínhamos todos 15, 16, 18 anos e andávamos nas nossas brincadeiras. Para além da Escola Comercial ou do Liceu Salazar – que o Mário frequentou – havia a praia, a piscina e as festas à noite. Aos fins de semana íamos para Inhambane, para a praia do Bilene, todos juntos, eram dois dias a rir”, recorda.

Maria João não consegue enumerar um momento particular, mas lembra-se de Mário ser, à data, “um apaixonado por vela”. Na altura, desfia a fadista, “era pacato, tinha um senso de humor bestial, na sua pacatez e no seu jeito sonsinho, ele tinha sempre umas tiradas geniais.” Se era ou não namoradeiro, Maria João Quadros simplifica: “Éramos todos muito namoradeiros, éramos muito felizes. A vida era muito diferente, nós éramos cabeças ao léu, almas ao léu, bem criados, bem nascidos e a família era o pilar de tudo isto.”

Tony de Freitas, um antigo amigo de Moçambique, reparou, porém, em características bem diferentes quando se cruzou com Crespo pela primeira vez. “Ele era ainda estudante e conheci-o no âmbito de uma excursão que a escola fez em Inhaca”, numa visita de estudo à estação biológica da ilha. As datas são difíceis de precisar, mas não o olhar. “Eu tinha à volta de 30 anos e ele era um garoto. Era um rapaz de quem era fácil ser amigo, era uma pessoa que saltava logo à vista, extrovertido”, conta este investigador de zoologia que ainda hoje permanece em Durban, África do Sul.

Por essa altura, já Mário viveria apenas só com a mãe, Carmen, que entretanto se divorciara do pai. Processo judicial que terá sido, afiançam à Notícias TV, tratado por Almeida Santos. O histórico presidente do Partido Socialista não se recorda: “Foram tantos processos. Cheguei a Moçambique em 1953, cruzámo-nos lá, mas não tenho memória disso. O Mário deveria ser um jovem. Mas conheci-o melhor em Nova Iorque e gostei muito dele”, conta à nossa revista.

Lisboa- Lourenço Marques

Veio para a metrópole e ingressou depois no Instituto Superior Técnico, em Engenharia. Desistiria um ano depois. Na entrevista ao Sol, Crespo revelou como desistiu. “Disse à minha mãe: ‘Isto não é para mim’.” E não foi.

Mário regressou a Moçambique para cumprir serviço militar obrigatório (SMO), em 1970. Terá sido um ano decisivo na vida do futuro jornalista. Não só aos 22 anos se via colocado, referira na conversa com o semanário, “na primeira unidade (…) para o controlo das cargas de cimento que vinham da Beira para Cahora Bassa, o comando de cargas críticas”, como ingressava na Faculdade de Medicina, em Lourenço Marques, como terá, garantem os registos civis de Coimbra, casado com Helen de Souza em finais desse ano. Tony de Freitas foi um dos convidados para a cerimónia e recorda-se do momento. “Ela era muito bonita. Foi educada na África do Sul, mas era ao mesmo tempo muito portuguesa. Foi com bastante surpresa que eu e a minha mulher fomos ao casamento em Joanesburgo. Depois de se casar, veio viver com o Mário para Moçambique”, conta este investigador. Maria João Quadros ainda se lembra de Helen. “Ele era solteiríssimo no tempo das festas, mas depois esteve sempre muito apaixonado por ela”, diz a fadista.

Uma vez casados, ela trabalhou em investigação no Instituto de Pescas junto de Tony de Freitas. Crespo seguiu para o SMO, mas só começou a dar nas vistas por volta de 1973. Antes dessa data, é difícil “mapear” Mário no circuito das operações da Guerra Colonial.

Whiskies no Bar Bagdad, em Nampula

“Mário Crespo era alferes miliciano e esteve no gabinete do Kaúlza de Arriaga. Como falava muito bem inglês e fazia de tradutor, acompanhava as reuniões e fazia as traduções nos encontros com responsáveis da África do Sul e com a Rodésia”, relata o coronel Carlos Matos Gomes. Corria o ano de 1973.

Foi, contudo, com o major Mário Tomé que o atual pivô do Jornal das 9 viria a estreitar laços, proximidade que ainda hoje se materializa em almoços para debater ideias. “O Mário estava a cumprir o serviço militar, ele trabalhava no gabinete de Informação do comando e foi contemporâneo de Carlos Pinto Coelho”, conta o major. “Quando nos deslocávamos com o comandante-chefe Kaúlza de Arriaga, Mário fazia a ligação com os jornalistas ingleses e os órgãos de comunicação”, recorda.

Mas o melhor ficava para depois do trabalho. “Encontrávamo-nos por vezes num bar semiobscuro em Nampula, a beber um whisky depois do serviço. Era o Bar Bagdad”. Tanto em setentas como na atualidade, major Mário Tomé recorda “as conversas sempre muito íntimas”, onde não faltava “a crítica acesa à situação”. “Eram debates sobre o estado das coisas, falava-se sobre o mundo e das condições da guerra”, recorda. “Ainda hoje nos encontramos para almoçar, somos bastante amigos, mantivemos uma relação para além de algumas divergências em determinadas temáticas”, prossegue, sem especificar.

Os contos da África do Sul

Em vésperas da Revolução de Abril, Mário Crespo, que sai da tropa em fevereiro de 74, e a mulher mudaram-se para Joanesburgo. É aí que Eduarda Lacueva se cruza com Mário Crespo, no serviço de língua portuguesa no South Africa Broadcasting Coorpoation (SABC). “Eu comecei a trabalhar em fevereiro de 1974 e o Mário chegou pouco depois de mim. Curiosamente, saímos de Moçambique antes da Revolução. A função dele era receber telexes e lembro-me de que ele costumava escrever uns contos imaginados por ele na máquina de escrever que tínhamos no SABC”, recorda Eduarda Lacueva.

Sobre a veia literária de Mário Crespo, nada adianta. Mas lembra-se do “sentido de humor apurado” e do “talento para a escrita”. Mas não só: “Ele sempre foi muito polémico, sempre adorou uma bela guerra.” Mesmo tendo sido próxima do pivô, havia contudo um jornalista de quem Mário era mesmo muito chegado: “Ele andava sempre com o Ricardo Branco, até lhes chamávamos as manas”, diz Eduarda. Apesar das insistentes tentativas, não foi possível chegar à fala com este colega de longa data de Crespo.

Na SABC, relatou Mário em entrevista, conciliou a faculdade, Witwaterstrand [o meio académico frequentado por Helen] e a ascensão fulgurante na rádio. “Cheguei a chefe de redação na central da rádio, não na parte portuguesa. Digo isto com toda a arrogância, pesporrência e orgulho: fui chefe de redação da SABC e não era qualquer gajo que era”, disse ao Sol. Local onde se manteve, relata, até 1981. Nessa data, Mário faz as malas e regressa a Portugal, mas sem Helen. “Ele saiu daqui, creio, um pouco para se curar desse amor. Foi para Portugal, depois para a América e perdi o contacto”, afirma Lacueva.

Tony de Freitas soube do divórcio pela voz de Helen e teve dificuldade em refazer-se da surpresa. “Foi um desgosto muito grande para mim. Eles costumavam passar férias comigo em Durban e nada dava a entender tal coisa”, conta este investigador que ainda hoje agradece a Mário ter-lhe “salvo os filhos” por altura da revolta em novembro de 1974, em Moçambique. “Ele veio buscar a mãe a Joanesburgo e conseguiu vaga no comboio. Cheguei à plataforma com a minha mulher e os meus filhos e aquilo era a balbúrdia total. De repente, ouço alguém chamar-me e era o Mário. Pedi-lhe para levar os filhos e a minha mulher e ele ajudou-me. Foi a mão de Deus que o colocou ali.”

“Primeira notícia foi sobre África”

Chegou à RTP em 1982 e recorda-se de que a primeira notícia que escreveu “foi sobre África”, relembrou Crespo em tempos. Mário Zambujal tem outro tipo de memórias. “Costumo ver o Jornal das 9 [na SIC Notícias] e recordo-me da equipa da RTP que fazia o programa Fim de Semana. Era uma equipa forte, onde estavam também, entre outros, o Alcides Vieira, o Carlos Fino, o Joaquim Furtado, o Cesário Borga e o Jorge Simões.”

O jornalista e escritor diz à NTV que já na época em que iniciava carreira na RTP Mário Crespo era “muito sóbrio, tranquilo, mas com sentido de humor, e trabalhava impecavelmente”. Zambujal conta que “nunca houve qualquer conflito” na equipa que coordenava. “Apesar de haver pessoas de várias cores políticas, isso nunca afetou o relacionamento entre nós”, garante. O mesmo grupo trabalhou depois com Mário Zambujal no programa Semana Que Vem e a “boa relação” mantém-se até hoje. “Já me cruzei com ele na SIC umas duas ou três vezes e cumprimentamo-nos com alegria”.

João de Sousa foi convidado pelo próprio Crespo a integrar a equipa da RTP como correspondente de Moçambique. “Ele era muito exigente com os trabalhos e queria sempre que eu olhasse para a notícia não apenas de forma noticiosa, mas também pelo lado do comentário”, recorda este jornalista aposentado que chegou a receber “telexes dele a dizer que não tinha gostado deste ou daquele ponto na forma de abordagem e dava sugestões”.

Em 1986, Mário Crespo foi recrutado por indicação de Joaquim Letria para alternar com este a apresentação do Jornal das 9, na RTP2. “Curiosamente, é como se chama o jornal dele na SIC Notícias, mas já nada me espanta”, brinca o jornalista. “Comecei por apresentar o jornal sozinho, mas ao fim de algumas semanas tornou-se cansativo. Foi então que indiquei o Mário Crespo. Eu apresentava uma semana, ele outra”, recorda. Joaquim Letria acrescenta que a relação com Crespo “foi boa”, ainda que não mantenham o contacto. “Ocasionalmente, quando nos encontramos falamo-nos.”

Foi numa dessas conversas que Letria, mais tarde, ficou a saber que Crespo estava na prateleira da RTP. E arranjou-lhe trabalho na universidade onde lecionava.

Mário Fino e Carlos Crespo

Carlos Fino, que sucedeu a Crespo em Washington, não teve oportunidade de falar sobre o amigo com quem, nos anos 80, ia de férias para o Algarve com a família. Mas José Manuel Barata-Feyo lembra-se do tempo em que ambos, estando em polos opostos no mundo, não passavam um sem o outro. “Até diziam que era o Mário Fino e o Carlos Crespo”, recorda o jornalista, havendo quem se confundisse com os apelidos dos dois correspondentes, como no episódio que Barata-Feyo conta: “Eles eram muito amigos e uma vez em que coincidiram em Lisboa, viajaram até ao Algarve. A meio da viagem, foram mandados parar pela BT e foi uma confusão, porque a carta de condução do Carlos Fino era soviética e o carro do Mário Crespo tinha matricula sul-africana, além de que os polícias também não sabiam bem quem era um e outro. Já não sei se apanharam uma multa ou não”.

Amizades à parte, sucedem-se os relatos de relações difíceis na RTP. “Ele não é uma pessoa fácil”, conta à Notícias TV um funcionário da empresa pública. Este trabalhador, que pede para não ser identificado, justifica isso com “algumas cenas complicadas” protagonizadas por Crespo. “É conflituoso e tem uma relação difícil com algumas pessoas. Especialmente quando as mesmas estão abaixo dele, já que aos superiores tem respeito”. Uma outra fonte, também da RTP, recorda que Crespo “também passou por um mau bocado” quando regressou dos Estados Unidos. “Foram tempos muito complicados. Os correspondentes da RTP não são apenas isso, mas têm de gerir a delegação”.

Uma nova paixão

No plano pessoal, entretanto, Mário Crespo partilhava já a vida com a jurista Maria Leonor Alfaro, que sempre conhecera da sociedade de Lourenço Marques. “Ela tem menos dez anos do que eu. Conhecia muito bem a família dela. Frequentávamos o mesmo clube de vela de Lourenço Marques. Lembro-me de a ver no grupo”, recordou o jornalista ao Sol. Nestes anos 80, os Crespo viviam na Av. António Augusto de Aguiar, no centro de capital, e o jornalista tornava-se pai pela primeira vez de Ricardo, em abril de 1985. Hoje, Maria Leonor Alfaro e Mário Crespo vivem numa moradia, na Ajuda, mas a mulher também se escusou a prestar declarações para este trabalho.

Por essa altura, o pivô já teria um barco atracado em Belém. O jornalista Carlos Narciso conhece bem a paixão do pivô pela vela, que domina desde os 10 anos. “Velejei com ele duas ou três vezes. A vela é um escape fantástico”. Gosto que Mário tem partilhado com Garcia Pereira, seu advogado na batalha contra a RTP em finais de 90.

“A Capital” não era o seu aquário

Outubro de 1988 corria ao sabor do outono quando Mário Crespo foi pai pela segunda vez, de Eduardo, e entrou no jornal A Capital, pela mão de Francisco Pinto Balsemão, tendo dirigido o então vespertino até outubro do ano seguinte. “Quando o Balsemão comprou A Capital convidou o Mário Crespo para diretor”, recorda Áppio Sottomayor, que à época era chefe de redação, demitindo-se depois do cargo. “Ele apenas ficou um ano. A linguagem não era a mesma, já que ele era da televisão e não se sentia como peixe na água”.

Áppio Sottomayor recorda-se de Mário Crespo como “um diretor que vibrava muito com os acontecimentos e queria escrever cobras e lagartos”. A chefia de redação tinha de intervir “para pôr água na fervura”. Crespo tinha o seu gabinete, mas “passeava pela redação e tratava bem toda a gente. Ele era muito popular”. Só que ao fim de um ano, abandonou A Capital para retomar a carreira na RTP. “Não era o seu aquário e mudou de águas, regressando às lides televisivas”.

Washington: Louco por feiras de garagem

Televisão, sim. Mas fora de Portugal. Após um mês em Telavive e Jerusalém, Israel, Mário segue para a capital norte-americana. Primeiro sozinho, depois com a mulher, Leonor [tratada por Nora], a enteada Denise e os filhos Ricardo e Eduardo.

É nesses seis anos de trabalho para a RTP e conflitos com a estação pública que conhece Susan Henderson. Hoje, ela é chefe de operações da Associated Press, mas à data era responsável pelo gabinete da Eurovisão que albergava a delegação pública. “Começámos por ter algumas discussões por causa do tempo que ele dispunha para o satélite. Ele puxava sempre tudo até à última, por vezes era complicado”, recorda Susan à NTV.

Com o tempo, porém, foram acertando agulhas. “Ele sempre foi muito trabalhador, muito dedicado. Ao mesmo tempo, tinha um grande sentido de humor”, conta. Foi visita de casa em Cabin John, zona do estado de Maryland, perto do rio Potomac, e elogia Mário como um “homem muito apaixonado pela mulher e muito romântico”. Tinha, contudo, uma grande perdição: “Ele era doido pelas vendas de garagem que se faziam aos sábados, não parava de comprar tralha.”

Enquanto esteve nos Estados Unidos privou com o antigo correspondente da RTP Luís Pires – consta que “mesmo tendo revelado ser ateu”, Mário foi padrinho de batismo do filho daquele jornalista. Uma informação que o próprio Luís Pires não quis confirmar, por não ter querido falar sobre o seu antigo amigo. Luís Costa Ribas, antigo correspondente da SIC nos Estados Unidos, onde permanece agora como colaborador eventual da estação, também não quer recordar os tempos que conviveu com Crespo. “A nossa relação era profissional e estávamos aqui apenas para competir”, explica.

Susan Henderson tem saudades de Mário e lamenta a maneira como ele saiu de Washington, por altura de 1997 e a pedido da RTP. “Ele não estava seguramente preparado para ir embora, não foi uma fase fácil”, garante.

Grande desaire: não ter sido diretor na RTP

Mário nunca escondeu que foram os três piores anos da sua vida – até ir para a SIC – e ainda hoje é recorrente falar do caso. Foram anos em que lamentou não ter trabalho, ter sido isolado num local à margem da sede da RTP. Isto depois de ter apontado o dedo à estação pública de, por várias vezes, não ter exibido peças que chegara a enviar dos Estados Unidos e de ter havido confusões com dinheiros públicos.

Esta é a fase sobre a qual quem está do outro lado, na RTP, se recusa a falar. Sob anonimato, há quem descreva um Crespo que “mudou completamente depois de Washington. Assim que os chefes deixavam de lhe dar as coisas para ele fazer, ele anotava em papéis tudo o que as pessoas lhe diziam, até o bom dia'”, conta quem o acompanhou de perto.

Em 1999 chegou a ser suspenso por oito dias, sem auferir salário, por ter vindo a público denunciar gastos e relações privilegiadas entre um programa de Mário Soares e a fundação. “A administração chamava-o à atenção e ele considerava uma deslealdade”, responde uma das fontes contactadas.

Dois anos depois de ter começado a trabalhar na SIC Notícias, Mário Crespo surpreendeu tudo e todos ao declarar à TV Guia: “Adorava ter sido diretor da RTP”, considerando “uma das mágoas” não ter ocupado esse lugar. “A televisão pública prejudicou-se a si própria no processo do meu afastamento”, afirmou, reiterando que “não há perdão possível”.

Rangel deu-lhe emprego

Foi o próprio jornalista que pediu emprego a Emídio Rangel quando soube que este preparava um novo canal de notícias. Cansado de não fazer nada, Crespo pediu-lhe trabalho na SIC Notícias. Um pormenor que Emídio Rangel, diretor-geral em Carnaxide à data do caso, descarta, não minimizando o drama. “O Mário Crespo era jornalista na RTP, não tinha qualquer proximidade com ele, mas sempre me causou grande aflição ver um jornalista com bastante experiência e capacidade desempregado. Na altura, houve várias pessoas que me alertaram que ele estava a ficar doente por estar desempregado”, recorda Rangel, lembrando que não foi “nada difícil convencer a estrutura da SIC a aceitar Crespo” nas suas fileiras.

Os tempos na SIC correram de feição segundo uns, “não foi pacífica” segundo outros. Várias fontes contactadas pela Notícias TV afirmam que Mário Crespo “tem humor por vezes variável” e “ideias muito vincadas sobre o que considera ser importante”. “Mas muitas vezes basta uma conversa”, contemporiza quem o conhece, sendo muito afável com os “mais novos”.

A relação com o diretor do canal à época, Nuno Santos, era cordata. “Não se conheciam pessoalmente mas desenvolveram uma boa relação. O Nuno, que estava a criar a equipa da SIC Notícias, esteve com ele algumas vezes. Lembro-me de o Rangel ter dito ao Nuno que uma figura com o peso do Mário seria importante para uma redação tão jovem”, conta quem testemunhou.

Contactado, Nuno Santos, hoje diretor de Informação da RTP, e que nas últimas semanas não escondeu o seu desagrado pelas afirmações que Mário Crespo fez sobre a sua antiga empresa, não quer falar. Também Ricardo Costa, antigo diretor da SIC Notícias e agora no Expresso – palco de desavenças entre Crespo e Costa já durante este ano, levando à suspenção da crónica -, se reserva ao silêncio. Já o atual responsável do canal noticioso, António José Teixeira, descreve-o como “uma pessoa agradável, sempre com um sorriso”. “Ele inquieta-se com o seu tempo, procura encontrar boas razões para as coisas. É um homem exigente, culto, com ideias próprias e que também sabe ouvir.” Quanto a defeitos, “todos temos”, responde António José Teixeira, prosseguindo: “Não há um que sobressaia.”

Toca viola e canta êxitos dos anos 60

O responsável pela Informação do canal da Impresa, Alcides Vieira, também lhe elogia “o sentido de humor, uma grande bagagem cultural e grande paixão por livros e música”. Alcides é das poucas pessoas que conhecem uma das facetas do pivô da SIC. “Não gosto de falar da vida íntima das pessoas. Mas lembro–me de que fazia umas festas quando vivia na Parede, onde tocava viola e cantava”. O repertório musical do jornalista tinha por base os êxitos dos anos 60. “Lembro-me de o ouvir cantar Beach Boys, por exemplo. Toca bem viola e tem uma boa voz”, afiança.

Uma fonte da SIC que conhece bem Mário Crespo reconhece que este “deve ser o pivô mais pressionado em Portugal”. E esclarece: “O espaço dele é diferente do Telejornal e dos restantes jornais das generalistas. O Jornal das 9 é um espaço de cruzamento de opiniões, além de ter o seu cunho. Por isso é que o jornal se confunde com ele e o Crespo está sempre sob os holofotes da crítica.”

Política à mesa com Luís Marques

O diretor-geral da SIC não esconde a admiração que tem pelo pivô do Jornal das 9. “Temos uma excelente relação profissional porque ele tem qualidades que admiro numa pessoa. O Mário Crespo é um homem frontal, um bom jornalista e um jornalista com convicções. Há quem goste e quem não goste”.

Ainda assim, foi Luís Marques quem, na semana passada, falou com o pivô para que o episódio dos milhões da RTP “ficasse por aqui”.

Marques conta que a relação que tem com o pivô não se restringe à SIC. “Às vezes vamos almoçar e confesso que é alguém que me dá prazer”. Um dos temas que não falta à mesa “é a política, quer nacional quer internacional”. A relação entre o diretor-geral da estação privada e Mário Crespo começou na 5 de outubro.

“Quando fui para a RTP como administrador acabei por ser eu a resolver com o Mário Crespo e com o seu advogado o diferendo entre ele e a estação”, recorda. Agora, voltou a ser ele a “pôr água na fervura”, sobretudo depois das vozes críticas que se ouviram na RTP. Carlos Daniel e António Esteves lideraram o processo de indignação.

Para Luís Marques, as polémicas “nunca beliscaram” as relação do jornalista com a direção da estação de Carnaxide. “Umas são mais confortáveis para nós do que outras. Nunca foram uma dor de cabeça. O Mário Crespo é uma mais-valia para a SIC”, diz o responsável, apesar de, à boca cheia, pelos corredores de Carnaxide, haver quem comente os frequentes atritos entre Mário Crespo e outros jornalistas seniores. Confrontado pela Notícias TV com esses episódios, Rodrigo Guedes de Carvalho, subdiretor de Informação e pivô do Jornal da Noite, remete-se ao silêncio lapidar. “Sobre o Mário Crespo não falo”.

 

 

11/09/2012

ANALISANDO AS MEDIDAS ADICIONAIS, 11 DE SETEMBRO 2012

“Plus ça change, plus c’est la même merde”. Ou coisa parecida. Às 21:59 horas, sentei-me em frente à televisão para ver os jornalistas da SIC Notícias tentar explicar as novas “medidas adicionais”, o novo eufemismo para a crescente miséria comunizante curiosamente imposta por uma alegada coligação de centro-direita, quando precisamente nove minutos depois de iniciado o noticiário, às 22:09 horas, soube-se que a equipa de futebol portuguesa havia vencido a dubiamente capaz selecção do Azerbeijão por 3 a 0. Imediatamente a crise e as “medidas adicionais” foram largadas e até à meia noite só se falou ad nauseum sobre a vitória azerbeijã. É para se ver quais são as verdadeiras prioridades nos média portugueses: futebol primeiro, crise para mais tarde. Nunca hei-de entender este país. Ou talvez entenda.

15/08/2012

SÓ SE VIVE UMA VEZ

Filed under: Frank Sinatra, Sinatra em Moçambique — ABM @ 9:48 pm

A Voz.

Do meu ponto de vista, este foi o mais memorável concerto de Sinatra. Foi no Madison Square Garden em Nova Iorque, na noite de domingo, dia 13 de Outubro de 1974. Dois meses antes, nos EUA, Richard Nixon demitiu-se de presidente dos EUA em desgraça, na sequência do escândalo de Watergate. Um mês antes, os mandantes do golpe de estado militar em Portugal entregaram o governo do então Estado de Moçambique, onde eu nascera e vivia em infantil e iludida felicidade, aos comissários da Frelimo, depois de um acordo assinado num país ao Norte e que foi celebrado em Lourenço Marques de forma digamos que politicamente menos correcta. E uma semana e um dia depois deste concerto em Nova Iorque, uma qualquer altercação entre militares na baixa de Lourenço Marques descambou em mais um incidente grave, acelerando o êxodo maciço dos brancos de Moçambique, de súbito tornados personnas non gratas. Na Ásia, os norte-americanos perdiam o pulso ao Vietname do Sul, que deixariam precisamente no dia 25 de Abril de 1975, o mesmo dia em que, já eu em Coimbra a estudar num liceu e a nadar, os portugueses elegiam uma Assembleia Constituinte, desferindo a primeira machadada no plano comunista de simplesmente tomar o poder. Ainda assim tentaram. Até ao fim do outono de 1975, o país estaria a ferro e fogo, a seguir viria a República Socialista, uma palhaçada medíocre, tépida e demagoga que só entraria em falência técnica em meados de 2010 com José Sócrates. Ao lado do Vietname, no Laos, ainda em 75, um obscuro general comunista, Pol Pot, iniciou um dos grandes e mais insanes massacres do Comunismo no Século XX, que em dois anos chegou a um total estimado de dois milhões de pessoas deliberadamente mortas.

Estes foram tempos não menos memoráveis para um jovem com 14 anos de idade, o sétimo de oito filhos dum casal açoriano com um marcado sentido de aventura “imperial”, que despertava cedo para o mundo e para os verdadeiros desafios da vida.

Mas Frank Sinatra, que aprendi a gostar de ouvir com o meu pai no seu modesto gira-discos em Lourenço Marques, é Sinatra. Inconfundível, inimitável, genial, o seu repertório o luxo de uma geração. Em 1975, em Coimbra, com 15 anos de idade, matei-me em poupanças e nem sei bem como, comprei um disco da Voz, que ouvi vezes sem conta e com o qual de olhos fechados celebrava a vida e o futuro enquanto tudo se parecia estar literalmente a desmoronar em meu redor. Não desisti. Nada disso. Ainda o tenho. O disco de Sinatra resume o concerto que, graças a um simpático senhor no Youtube, se pode ver e ouvir em baixo.

E cujo hino, My Way, dedico, um tanto parola mas genuína e sentidamente a algumas pessoas:

Ao Manuel Petrakakis, que partilha o meu apreço sinatriano e me fazia o favor de o tocar quando eu ia para a Costa do Sol comer os camarões no restaurante dele nas noites quentes da agora Maputo.

Ao grande Kok Nam, um grande homem que fazia grande fotografia, relação do meu pai que também foi minha, que esta semana foi cedo demais e cuja vida pretendo celebrar mais uma vez.

Ao Luis Nhachote, que mantém acesa a chama do grande jornalismo em Moçambique quando parece que há gente que se prostitui por duas moedas.

Ao meu pai Melo, que me ensinou uns truques para encarar a vida.

Ao meu irmão Chico.

12/08/2012

ADOLF HITLER E ÁFRICA: O MASSACRE DOS HERERO E DOS NAMAQUA

Filed under: O massacre alemão dos Herero — ABM @ 10:17 pm

Cerca de dois terços dos Herero da actual Namibia foram deliberadamente mortos pelos alemães nos tempos da sua colonização daquele território, entre 1904 e 1910. Veja como foi neste documentário da BBC e ainda as surpreendentes ligações com o que mais tarde sucedeu na Alemanha nazi. Ainda hoje, membros da etnia Herero vivem no Sul de Angola.

veja através desta ligação:

01/08/2012

CÃO QUE LADRA NÃO MORDE

Filed under: Cão que ladra não Morde, Economia de Moçambique — ABM @ 11:12 am

“Eu não estou a roubar o Barclays Bank, minha senhora, eu trabalho aqui”.

Faisal Mkize, o recentemente nomeado operacional número um do antigo BPD/Banco Austral, redenominado Barclays, perdeu esta semana uma excelentíssima oportunidade de estar calado, ao sugerir, algo subrrepticiamente, que o banco onde trabalha em Moçambique poderá reluzir mais que a sua concorrência de capitais maioritariamente portugueses, pois os seus accionistas (se me recordo, uma curiosa mistura entre o Barclays e o ABSA, este último maioritariamente detido pelo Barclays, de qualquer maneira) vegetam fora da problemática área euro, entre a libra estrelina e o rand.

Isto a propósito do anúncio, em Londres, de que o Barclays casa-mãe reduzira a exposição do seu balanço em 22% em relação a países do euro, entre os quais se encontra Portugal, cujos bancos e outros investidores (como o Sr. Américo Amorim no caso do nascente e rapidamente crescente Banco Único) detêm e operam uma parte crítica do negócio financeiro moçambicano.

A Agência Lusa cita exactamente o que Faisal terá dito: “qualquer companhia que opera em Moçambique detida por capitais da zona euro sofrerá o impacto de alguma forma”. E a seguir, num timing de chico-esperto: “a economia moçambicana tem crescido sete por cento ao ano e nos próximos será oito por cento de Produto Interno Bruto (PIB)”, pelo que “é claro que esta economia merece uma aposta do Barclays”.

Ai sim, Faisal?

Pois então, claro, a solução para o “risco de redenominação” será sair do BIM, do BCI, do Único, do Moza etc e tal e passar tudo para o Barclays.

É isso?

Passando tudo para o Redenominado e repintado BPD evita-se o risco da redenominação do euro português para o Escudo (vade retro). Pois sabe-se lá o que é que esses bancos portugueses ou aportuguesados irão fazer em Moçambique – ou a Moçambique.

Sobre o assunto, apenas referiria algumas coisas curtas, para além do que já disse no primeiro parágrafo.

1. Neste momento tenho imensas dúvidas que o tal “impacto” sugerido por Faisal tenha qualquer substância. Dadas as circunstâncias actuais das respectivas economias e negócios, quando muito os bancos e accionistas portugueses estão mais motivados para investir e focar nas suas operações em Moçambique e em Angola, não menos.

2. É curioso que Faisal escolha esta altura para, a propósito de uma medida contabilística precaucionária da sua casa-mãe, fazer esta afirmação, quando ainda há poucas semanas o mesmíssimo Barclays se viu envolvido no maior escândalo na história da banca britânica desde a II Guerra Mundial, o chamado escândalo da manipulação das taxas Libor, o qual ainda não foi sequer abordado cabalmente mas o qual já motivou o banco central britânico a anunciar multas de centenas de milhões de libras e levou os seus dois executivos de topo, entre eles o mercurial Bob Diamond (que ainda assim tentou o truque de dizer que não iria receber o seu bónus de vários milhões para tentar salvar o emprego) a demitirem-se. Seguem-se as investigações criminais, que ainda estão no segredo dos deuses.

Hum, seria, então igualmente oportuno questionar o que quer dizer isto tudo para o Barclays em Moçambique.

Ou ainda o risco, não descurável, da dívida soberana britânica e de a libra ir para o inferno. Ou de a África do Sul seguir por caminhos sinuosos.

3. O mais curioso é Faisal andar a enviar petardos contra os seus concorrentes em Maputo quando o segredo mais mal guardado da banca moçambicana é o seu próprio banco, que, dez anos depois da venda mais sensacional da história da banca desde a Independência (por um dólar ao ABSA, que descarregou a maior parte do crédito mal-parado para cima dos contribuintes moçambicanos e prontamente impôs uma tirania lá dentro com um boer por andar a vigiar os locais, que quase tinham que pedir licença por escrito para ir fazer chi-chi à casa de banho) e apesar de uma rede de balcões interessante e de ter gente muito capaz, continua a render substancialmente menos que o pior dos seus concorrentes agora rotulados pela sua casa-mãe de “em risco de redenominação do euro”. Faisal, que foi contratado basicamente para resolver isso (boa sorte) devia-se preocupar em aumentar a rentabilidade e eficiência do seu negócio e ganhar quota de mercado honestamente, em vez de vir a público com estes comentários. A Dra. Luisa Diogo não cometeria um erro destes.

4. Algo, aliás, que duvido aconteça. Para efectivar um turnaround são necessários skills e uma cultura que simplesmente inexistem na casa. De facto, antecipo que, dentro de menos que cinco anos, um seu concorrente surgido há pouco praticamente do nada, o Banco Único, suportado significativamente pelos tais capitais portugueses “redenomináveis”, terá um balanço maior e será cinco vezes mais rentável que o Barclays é hoje.

É que para se ser bom não basta ter dinheiro e balcões. Tem que se conhecer bem o país, as pessoas, e se saber do negócio e da sua cultura.

E Faisal ao pé de João Figueiredo (para não falar das equipas do BIM, do BCI, etc) é ajudante de aprendiz de feiticeiro.

28/06/2012

PORTUGAL EM 2012: À PROCURA DA DESRESPONSABILIZAÇÃO

900 anos de pára e arranca, entre o infame e o sublime. Em 2012, está-se numa fase do infame.

O Zé Pedro Cobra achou por bem fazer o comentário no vídeo em baixo, batendo numa cultura nacional de (total) irresponsabilidade e do implícito no termo “faça-se” como corolário da mesma.

Mais profundamente, creio que se vive ainda os resquícios da ausência de um contrato social exequível entre uma classe dominante predadora e por vezes parasita que domina o sistema político e económico português desde meados do Século XIX, e uma multidão vasta, beata, miserável e despossessa, que sobrevive e que cada vez mais foi mais explorada pela primeira.

Momentaneamente, no delírio revolucionário e infantil logo após 1974, pensou-se que seria o contrário (os comunistas certamente o pensaram, e os socialistas tentaram, mas falharam redondamente) mas não. Nem pensar. Apenas saíram uns ladrões profissionais (Salazar, que apenas roubava as almas e a liberdade, estava fora de cena há seis anos) e entraram outros, mais amadores.

Mas aprenderam depressa.

A culpa é de todos, pois a prática, fartamente sancionada por leis que não funcionam, por tribunais que não funcionam, por pessoas que, num relativismo moral perfeitamente negociado, não consideram a irresponsabilidade criticável, é sancionada, tornando-se a norma social numa espécie de gangsterismo à escala industrial, em que o pequenino aldraba um pouco, e o grande aldraba correspondentemente mais.

E o país que têm no fim é resultado disso mesmo: uma incongruência venenosa, sempre irreconciliável a prazo e economicamente inviável, embrulhada numa bandeira verde e encarnada. Pois os ricos e os que mandam sempre acabam por beneficiar, lavando depois as mãos como Pôncio Pilatos da xafurdice nojenta que conseguem criar para extorquir o seu quinhão e os despossessos (ou a um minguante subsídio do desemprego para o serem) mesmo sendo conservadores e votarem PSD e CDS e irem à missa, acabam por ser enrabados, ficando com a farta conta por pagar, na forma de impostos e taxas acrescidos e um padrão de vida muito mais baixo.

Exceptuando os ricos que meteram o dinheiro em bancos situados em praças financeiras inauditáveis, através de entidades offshore imprescrutáveis, ser-se português no início do Século XXI é sinónimo de se ser pobre, de não se ter oportunidades na vida, com a novidade de agora isso abranger todas as gerações (pois não vai haver dinheiro para pagar reformas e a despesa médica, não como até agora).

“Faça-se, pague-se”.

O resultado que se vê estes dias ameaça tornar o regime numa espécie de socialismo conservador de chacha duma pseudo-direita fabricada, mais uma vez buscando mais um créditozinho externo para tapar o buraco e mais uma onda de emigração por parte daqueles (agora pobres mas supostamente educados) que ainda têm a vida pela frente e que querem ganhar algum, confirmando a impenitente incapacidade do país de se reformar e de responsabilizar as pessoas e as instituições apesar de tudo o que já se sabe.

Salazar e Cunhal lá em cima devem estar a rebolar-se no chão a rir, desta vez os dois juntos e pela mesma razão, para variar.

Mas eles são apenas o outro lado, quiçá mais quixotesco, da mesma moeda.

E essa moeda é esta cultura e mentalidade do sucesso através do favor, da cunha, do amigo que coça as costas do amigo, do algo em troca de nada, do querer ter e não querer pagar,  da mediocridade encapotada em graus académicos inventados,  das leis feitas à medida, com buracos também feitos à medida, da burocracia sufocante que emascula.

E, acima de tudo, da impunidade, a social e a formal.

O excentrismo português em relação à Europa não é só geográfico: é também mental, cultural e moral. E, infelizmente para os portugueses, os centro-europeus não querem pagar os custos inerentes à irresponsabilidade. Em parte porque, na medida do possível, não têm que o fazer.

Por isso o Zé bem pode fazer estes vídeos. E fez bem em fazer este. Mas na minha opinião, e por enquanto, ele está apenas a mijar contra o vento.

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