THE DELAGOA BAY REVIEW

07/10/2017

SOBRE A EFICÁCIA DA VIOLÊNCIA NO CONTROLO SOCIAL, POR JOSÉ JAIME MACUANE

José Jaime Macuane, nascido em Maputo, trabalha na Universidade Dr. Eduardo Mondlane e publicou este texto em 6 de Outubro de 2017, na sequência do assassinato de Mahamudo Amurane, um político Macua, Presidente da Municipalidade de Nampula pelo Movimento Democrático de Moçambique (do qual se distanciara ultimamente) no dia 4 de Outubro.

Desenho de João Augusto Silva, na capa de Grandes Chasses – Tourisme dans l’Afrique Portugaise, publicado em 1937 em Lisboa pela editora Ática.

O texto de JJM, ligeiramente editado por mim:

A Eficácia da Violência no Controlo Social

Na ciência política, o Estado é apresentado como a forma moderna encontrada para a coordenação da acção colectiva em grande escala pelos seres humanos, na prossecução dos seus objectivos.

A principal finalidade do Estado é a garantia da vida, da qual decorrem outras finalidades, como o bem-estar socioeconómico, a justiça e outros que aqui podem ser enumerados.

Quando um Estado não garante a segurança dos seus cidadãos (entenda-se a vida) e os coloca a viver sob o medo da morte súbita e violenta, esse estado (isso mesmo, com letra minúscula) está a dar sinais de falência e a comprometer a sociedade mesmo, sendo mais minimalista, o futuro dos grupos ou classes que o controlam.

Não há países que não tenham crimes, incluindo os violentos. Aliás, a violência é um traço dos conflitos recorrentes entre os seres humanos. A forma como os Estados lidam com a violência diz muito sobre a sua capacidade de coordenação da acção colectiva numa sociedade. O sociólogo alemão Max Weber definiu isso de uma forma emblemática, quando chamou o Estado a entidade que reclama para si o monopólio do uso legítimo da violência dentro de um território. Certamente existem outras discussões sobre o Estado e sobre a violência, que não vou aqui discuti-las por não ser o fórum certo. Mas, que eu saiba, nenhuma coloca o risco à vida dos indivíduos que formam o corpo politico como aceitável na legitimação do Estado.

Um Estado que permite que seus agentes e outros profissionais da violência possam apossar-se dos meios coercivos e usá-los de forma (aparentemente) desregrada, atentando contra a vida dos seus cidadãos, até pode servir os interesses de certos grupos que o controlam num determinado momento, mas, depois de algum tempo, enfraquece-se e torna-se inútil, mesmo para a defesa dos interesses estreitos de alguns grupos que possam ter ganhos decorrentes dessa violência, porque perde a legitimidade para reivindicar o tal monopólio legítimo de uso da força.

A forma recorrente como o estado moçambicano “se revela incapaz” de esclarecer os crimes violentos envolvendo figuras políticas, contribui para a perda de confiança na sua capacidade de garantir a vida e, no limite, as pessoas podem começar a procurar outras formas de proteger as suas vidas. Já apresentei a minha perspectiva sobre isso, de que é uma forma de controlo social pelo medo.

Mas o medo tem uma particularidade: ele só é eficaz para os que continuam vivos e os que esperam que em algum momento as suas vidas melhorem, caso se “comportem” e ajam como os que controlam a violência implícita e explicitamente exigem. Em situações em que a violência se combina com a falta de perspectivas de melhoria das condições de vida, como em contextos onde a economia política deixa pouco espaço para o progresso individual e colectivo fora de certas estruturas, com destaque para as políticas, tenho sérias dúvidas de que o estrito controlo pela violência seja efectivo por longos períodos de tempo.

Moçambique me parece estar a ter essa combinação, a de um Estado que de forma crescente se revela ineficaz na protecção da vida (exemplo, além dos crimes de conotação política, as ondas de crimes nas zonas urbanas), ao mesmo tempo que aumenta a percepção de que as possibilidades de progresso fora da esfera política são mínimas e o estado se encontra cada vez mais fraco para prover bens público básicos, dentre os quais serviços sociais, um bom clima económico e a segurança.

Assassinar figuras como Mahamudo Amurane, que para alguns representavam a centelha da possibilidade de num Estado que funciona, pode até ter ganhos de curto prazo para os mandantes deste crime hediondo. Mas, a longo prazo (talvez até menos, dada a situação de crise “de quase tudo” em que vivemos), os que recorrem à violência como mecanismo de controlo social terão que enfrentar uma sociedade cada vez menos propensa a vergar perante a repressão.

Por outras palavras, o efeito da repressão no controlo social terá graus de eficiência e eficácia marginal cada vez mais decrescentes. O que quer dizer que devem investir cada vez mais recursos na violência e na repressão e com resultados cada vez mais fracos. Até porque ao apostarem no investimento na violência, estarão a deixar de usar recursos para outras áreas que reforçariam a ordem política, como a economia, por exemplo, e no fim nem recursos para investirem nessa violência existirão. Claro que estou a dizer isso pensando que temos pessoas que pensam a longo prazo, o que não parece ser o que acontece neste meu país. Mas o que me parece cada vez mais claro é que o projecto de controlo da sociedade através da violência não tem pernas para andar, porque é um projecto de curto prazo. Os que acham que podem continuar a recorrer à violência para controlar a sociedade, perante um Estado complacente e às vezes cúmplice, devem-se preparar para batalhas muito mais duras no futuro, porque estão a contribuir para enfraquecer aquilo que mais prezam na sua estratégia: o medo da morte e a esperança de algum bem-estar, quando não se incomoda às pessoas erradas.

Ora, numa situação em que cada vez mais a vida é incerta, as perspectivas de melhoria das condições de vida minguam e a violência parece estar fora do controlo, destrói-se as bases do controlo pelo medo. E também da legitimidade do Estado, a entidade de controlo por excelência. Deste modo, no futuro, terão que lidar com muitas pessoas desesperançadas por um Estado que parece que não as protege e não cria condições para perspectivas de progresso futuro.

Os protestos populares em Nampula em reacção ao assassinato de Mahamudo Amurane podem ser apenas um microcosmo da revolta pela esperança roubada, mas também poder ser uma amostra do que as pessoas, quando roubadas a esperança de um Estado possível podem fazer.

Há que se ter cuidado quando se retira a esperança às pessoas.

Já dizia Sun Tzu: “Numa batalha, não encurrale o inimigo. Deixe sempre uma saída. Senão, não lhe restará outra alternativa a não ser lutar pela própria vida. Então, cada soldado inimigo valerá por dez dos seus”.

(fim)

 

António Rita Ferreira, o genial analista da realidade social, antropológica e política de Moçambique, recentemente falecido, uma vez me disse que, no dia em que os Macuas, ainda impactados pela sua cultura de matriz matrilinear e história de um relativo pacifismo, despertassem e se organizassem, que o curso da história de Moçambique se alteraria por completo em relação àquilo que se tem feito, dito e escrito desde as eras pré-colonial, colonial e pós-colonial, em que o foco e a determinação dos eventos se centrou no Sul da antiga colónia e em duas etnias relativamente minoritárias.

 

Fonte: FB de JJM, 6 de Outubro 2017, 12:24 horas

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26/08/2017

BUSTO DO GENERAL MACHADO INAUGURADO EM LISBOA EM 2017 – VINDO DE MOÇAMBIQUE

Filed under: História, Joaquim José Machado 2017 — ABM @ 2:08 am

Parte do texto e imagens foram obtidos e reproduzidos com vénia do sítio da Câmara Municipal da Cidade de Lisboa. Para ver a fonte, prima aqui.

 

O busto do General Joaquim José Machado, inaugurado numa rua de Lisboa em Fevereiro de 2017, na praça que também tem o seu nome.

Há uns meses, o sítio da Câmara Municipal de Lisboa noticiou o seguinte:

Lisboa, 10 de Fevereiro de 2017 – O presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, acompanhado pela vereadora da Cultura, Catarina Vaz Pinto, e pelo presidente da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica, António Cardoso, inaugurou o busto do general Joaquim José Machado, no largo, com o mesmo nome do homenageado, em Benfica. 

Na cerimónia, Fernando Medina sublinhou o momento como uma “justa homenagem a um homem que honrou e valorizou a memória de Portugal bem como da cidade de Lisboa” falando do seu percurso de vida e carreira política do general Joaquim Machado.

Como representante da família, o embaixador Manuel Lobo Antunes proferiu algumas palavras sobre o seu bisavô e de como seria uma figura muito querida e motivo de orgulho para todos os seus. Manuel Lobo Antunes explicou ainda que, o busto, da autoria do escultor António Augusto da Costa Mota, esteve durante muitos anos na embaixada portuguesa em Maputo e que foram necessários muitos esforços e a ajuda fundamental da autarquia para que a obra chegasse a Lisboa e ficasse junto à casa do seu avô.

Alguns dos descendentes de Joaquim José Machado e seus amigos, quem incluem António Lobo Antunes, o Embaixador Manuel Lobo Antunes e ainda o Presidente da Câmara Municipal da Cidade de Lisboa.

O general Joaquim José Machado, nasceu em Lagos a 24 de setembro de 1847 e morreu em Lisboa a 22 de fevereiro de 1925. Em 1876 é promovido a capitão e logo escolhido, pelo então Ministro da Marinha e Ultramar, João de Andrade Corvo, para participar numa das duas grandes expedições, que o ministro organizara para empreender o fomento e valorização das colónias de Angola e Moçambique. 

Neste contexto, foi responsável, em 1877, pelo planeamento do traçado do caminho-de-ferro de Lourenço Marques a Pretória, projeto do qual foi encarregado pelo presidente da República do Transvaal, Paul Kruger. Empreendeu, igualmente, a construção de uma ligação ferroviária entre Moçâmedes e a Província de Bié, em Angola.

Reconhecido como Comendador e Grande-Oficial da Ordem Militar de Avis, Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada e Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo, recebeu ainda diversas homenagens em Portugal, Angola e Moçambique.

(fim)

Um curto vídeo do evento:

E ainda aqui um interessante comentário de António Lobo Antunes, bisneto do General.

E aqui um resumo minimalista do seu percurso que compilei em 2012.

Independentemente da sua capacidade e genialidade e sucessos nas missões que desepenhou, Joaquim José Machado é e fará sempre parte de um restrito nome de personalidades cujo impacto na formação do que é hoje Moçambique e é simplesmente incontornável, porque foi bom. A sua família, e quem como eu o estudou minimamente, têm razões sólidas para apreciar este gesto. A sua obra e percurso merecem estudo e conhecimento.

Se eu tivesse que apostar, diria que o busto deve ter vindo ou dos antigos Caminhos de Ferro de Moçambique ou da antiga Escola Preparatória General Joaquim José Machado. Como foi parar à embaixada Portuguesa em Maputo deve ser uma história interessante. E possivelmente incontável.

15/08/2017

MEMORANDO SOBRE O PRIMEIRO COMBATE DA FRENTE DE LIBERTAÇÃO DE MOÇAMBIQUE, 25 DE SETEMBRO DE 1964

Filed under: Alberto Chipande — ABM @ 7:21 pm

Material original guardado na Torre do Tombo em Portugal.

Trata-se de um memorando secreto, datado de 12 de Dezembro de 1967 e originado pelos serviços de inteligência das forças militares portuguesas, situados em Porto Amélia (actualmente, Pemba), que traduz e depois comenta um relato publicado em Agosto desse ano pela Frente de Libertação de Moçambique num seu orgão de propaganda externa em língua inglesa – Mozambique Revolution – que terá sido da autoria de Alberto Chipande e que até esta data é identificado, em Moçambique, como tendo sido o iniciador da guerrilha contra as autoridades coloniais portuguesas, liderando um ataque na localidade de Chai, em Cabo Delgado, no dia 25 de Setembro de 1964, uma sexta-feria, data afixada no calendário (e no imaginário) moçambicano como feriado nacional.

O comentário de quem analisou e assinou o documento indica que a versão oficial e oficiosa do evento, tal como foi apresentada e tem sido mantida pela Frente de Libertação de Moçambique, é completamente falsa.

Um conhecido refrão da Frente de Libertação de Moçambique, indicando que afinal a Independência em 1974 era apenas uma etapa na revolução que a sua liderança de seguida encetaria no nascente país.

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SAMORA MACHEL E RONALD REAGAN: O ENCONTRO NA CASA BRANCA, 19 DE SETEMBRO DE 1985

Filed under: Encontro Reagan Machel 1985 — ABM @ 6:45 pm

Video publicado pela Biblioteca Ronald Reagan em Janeiro de 2017. Quase hilariante, se se conhecer bem o contexto para ambas as partes naquela altura.

 

22/03/2017

O MOZABANCO E O ERRO DE PARALAXE

Filed under: Como vender o Mozabanco, Economia de Moçambique — ABM @ 11:10 pm

Artigo com vénia para o Matias Guente e o Canalmoz, que se publica em Maputo, da sua edição de 22 de Março de 2017 e que constitui uma referência a reter. A imagem em baixo e o título (que era para ser “Moza Laden”) são meus.

Nota

“Erro de paralaxe” é um erro que ocorre pela observação errada na escala de graduação causada por um desvio optico causado pelo ângulo de visão do observador. Pode ocorrer em vidrarias como buretas, provetas, pipetas, etc. Por exemplo, quando é necessário medir um volume na proveta, se você não observar o menisco de um ângulo que faça o menisco ficar exatamente na altura dos seus olhos, você poderá ter uma medida errada e, portanto, um erro de paralaxe, podendo obter uma medida maior ou menor que a correta, dependendo do ângulo de observação. (fonte: Wikipédia)

O texto (minimamente editado por mim):

A batalha final pelo “Moza” e o potencial conflito de interesses de João Figueiredo

Termina amanhã, quinta-feira, [23 de Março de 2017] o prazo de 60 dias que os accionistas do banco “Moza” têm para injectar os cerca de 8,1 mil milhões de meticais para a recapitalização do banco intervencionado em finais Setembro de 2016 pelo Banco de Moçambique.

Até às zero horas de amanhã, os accionistas perdem a prerrogativa de encontrar um parceiro, e o Banco de Moçambique poderá colocar o banco na praça. É pouco provável que haja um milagre de última hora por parte da “Moçambique Capitais”, o maior accionista do “Moza”, que lhe permita encontrar o dinheiro para mostrar a Rogério Zandamela, tal como haviam prometido fazer na decisão que tomaram a 23 de Janeiro em Assembleia-Geral. É quase certo que o único banco genuinamente moçambicano e sem casa-mãe no estrangeiro terá mesmo de ser vendido, e muito provavelmente a estrangeiros, para a sua recapitalização.

Face à pressão do tempo, há também um forte “lobby” nos corredores do Banco de Moçambique daqueles que já marcaram posição para adquirir o “Moza”. Perfilam-se factores que tornam o “Moza” bastante cobiçado: com cerca de 7% da quota de mercado, uma rede de cerca de 50 agências, infra–estruturas modernas e um sistema informático considerado como dos melhores no mercado nacional, 700 trabalhadores, dos quais 99% são moçambicanos, o “Moza” conseguiu, em menos de oito anos de actividade, colocar-se em quarto lugar num “ranking” de dezanove bancos comerciais. É uma questão de injectar dinheiro e olear a máquina, que os carretos engrenam sozinhos.

Segundo apurou o de fontes do Banco de Moçambique estão neste momento com papéis para adquirir o “Moza”: a empresa “Atlas Mara”, de Bob Diamond (que entrou em desinteligências com a “Moçambique Capitais”, numa primeira abordagem do negócio); Eddie Mondlane (filho de Eduardo Mondlane); o “Barclays” (que tem Luísa Diogo como Presidente do Conselho de Administração); a “Société Generale” (da França); um banco malawiano; e um banco marroquino.

O caso curioso de João Figueiredo

Um outro interessado na aquisição do “Moza” é o banco BIC, de Isabel dos Santos (filha de José Eduardo dos Santos, Presidente de Angola) e Américo Amorim (o magnata português da indústria corticeira). E é justamente aqui onde está o problema. Américo Amorim é sócio de João Figueiredo no “Banco Único”, onde Figueiredo já foi Presidente do Conselho de Administração, mantendo actualmente uma quota considerável das acções do banco. João Figueiredo foi nomeado pelo Banco de Moçambique como Presidente do Conselho de Administração provisório do “Moza” na noite de 30 de Setembro. Sendo accionista do “Banco Único”, Figueiredo é praticamente concorrente do “Moza”. O que agrava esta situação de aparente conflito de interesses é o facto de João Figueiredo, na sua qualidade de Presidente do Conselho de Administração provisório do “Moza”, ser também Presidente da Comissão de Avaliação das propostas de recapitalização do “Moza”, que foi criada pelo Governador do Banco de Moçambique, Rogério Zandamela.

João Figueiredo estará, assim, à frente de todo o processo da recapitalização do “Moza”, incluindo o escrutínio dos próximos órgãos sociais do banco. À comissão presidida por Figueiredo também foram conferidos poderes de decidir quem serão os próximos accionistas maioritários do “Moza”. É uma situação curiosa em que o árbitro poderá ser o jogador.

O Canalmoz tentou contactar João Figueiredo, mas todas as nossas tentativas foram infrutíferas. Para já, a situação está a criar um mal-estar generalizado entre o Banco de Moçambique e a “Moçambique Capitais”, a ainda dona do “Moza”, que não vê com bons olhos, sob o ponto de vista ético, a posição de João Figueiredo.

(fim)

FALECEU HELENA DAVIDSON, UMA GRANDE SENHORA DE LOURENÇO MARQUES

Filed under: Helena Davidson, História Moçambique — ABM @ 12:11 am

Helena Davidson

Transcrevo a mensagem gentilmente cedida por Rodrigo Alexander Davidson de Sousa-Pinto, neto de Helena Davidson:

Apesar dos 98 anos (feitos no hospital, no passado dia 13) da nossa queridíssima Mãe, Avó e Bisavó, nenhum de nós estava preparado para a deixar partir. A sua grandeza, presença, amor e generosidade eram de tal forma presentes e radiantes, que apesar de absolutamente gratuitos nos deixam um vazio que não sabemos nem podemos preencher. Mas, através do seu exemplo, aprenderemos a aceitar e, talvez, imitar.

Para além da certeza de que se encontra já a contemplar a face de Cristo e da Sua Mãe Santíssima, na feliz companhia de todos os familiares e amigos que já partiram, acrescentamos uma espécie de consolo na seguinte ideia expressa ontem entre nós:

Despite Avó’s age, we weren’t ever really ready to let her go. How sad it is to think of our lives from now on without Avó being physically present. On the other hand, Avó also deserves a rest from us (the living family, ever so demanding of her presence, her advice, her listening and her love), and to join her beloved departed. I am undoubtedly sure that they are now having a welcome party for her and Grandpa has already arranged for the choirs of angels to sing “Cheek to Cheek “ and “Tea for Two” (Avó’s favourites) and asked Avó to dance with him to those tunes.

De forma a podermos reunir a família dispersa por tantos pontos do globo, tivémos de atrasar o funeral da Avó, pelo que não teremos velório. Assim, informamos que celebraremos as cerimónias na seguinte data e local:

DATA: quarta-feira, 22 de Março de 2017

LOCAL: Capela Mortuária da Igreja de Nova Oeiras

ACOLHIMENTO: 14h00

MISSA DE CORPO PRESENTE: 15H00

ENTERRO: Segue para o Cemitério de Oeiras

Aos que quiserem e puderem estar presentes, agradecemos. Aos que não puderem estar, pedimos a vossa oração pela Avó e por todos os que já partiram (na certeza de que estará ela agora orando por todos nós).

Abusando da vossa paciência, deixo em abaixo a nota de falecimento dirigida à Cruz Vermelha Portuguesa:

Ao Excelentíssimo Senhor

Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa,

Excelência,

É com o maior pesar que informo, porque julgo ser do interesse da Cruz Vermelha Portuguesa, o falecimento da minha Avó materna, ocorrido sábado passado 18/03/2017, pelas 19h00 no Hospital de São Francisco Xavier, em Lisboa, cinco dias depois de ter celebrado o seu 98º aniversário natalício.

A minha Avó, D. MARIA HELENA de Melo Castelão Feijó d’Almeida Fontes DAVIDSON, nascida em 13/03/1919, foi a última Presidente da Secção Feminina da Cruz Vermelha Portuguesa em Moçambique (Lourenço Marques), Presidente da Sociedade de S. Vicente de Paulo em Lourenço Marques, co-fundadora do “Abrigo dos Pequeninos” também em Lourenço Marques, entre tantas outras actividades que toda a vida a orientaram ao serviço dos outros.

Tendo feito parte da sua escolaridade na África do Sul e casado com o meu Avô, sul-africano de origem escocesa e irlandesa, nunca esqueceu as suas origens portuguesas, das quais fazia questão em colocar a par com a sua condição de Moçambicana de Portugal (foi para Moçambique aos 8 anos de idade onde Pai, Dr. César d’Almeida Fontes havia sido colocado como professor e aberto consultório médico). Com excepção do período escolar (1927/1930) e dos cerca de 13 anos (1943/1956) em que viveu entre Durban e East London na África do Sul (onde o marido esteve profissionalmente colocado antes de a companhia de navegação que dirigia relocalizar-se para Moçambique), viveu sempre em Lourenço Marques até 1976, embora deslocando-se à Europa de quando em vez.

Tendo-se dedicado de coração cheio ao serviço dos outros e daquela terra, em nome das suas convicções pessoais, religiosas e nacionais, foi um exemplo de acertividade, persistência e dedicação que lhe valeram ter sido agraciada em 1973 com o grau de Comendador da Ordem de Benemerência, atribuída pelo Senhor Presidente da República e em 1990 com a Cruz Vermelha de Benemerência pela Cruz Vermelha Portuguesa.

Acompanhou no desempenho das funções que exercia como Presidente da Secção Feminina da Cruz Vermelha, os conturbados acontecimentos em Moçambique, desde a Guerra Colonial ao processo de independência e momentos que se lhe seguiram, com perigo para a própria integridade física. Aí se lhe conheceram extraordinárias acções no desempenho das suas funções, desde a participação em operações de evacuação de feridos a visitas a prisões e relatórios sobre as respectivas condições, entre tantas outras. Ao mesmo tempo, sempre na procura de auxiliar os mais necessitados, fazia editar o “Livro das Coisa Boas”, uma compilação de receitas de culinária (ainda hoje nos escaparates e em tantas cozinhas portuguesas), cujos proventos deveriam reverter a favor das obras da Sociedade de São Vicente de Paulo (Vicentinas).

Após a saída de Moçambique, em 1976, fixou residência em Bedfordview, Joanesburgo, na África do Sul, onde de imediato se juntou ao corpo de voluntárias no Hospital Central.  Aos 60 anos, pela primeira vez na vida, teve que arranjar emprego remunerado, tendo aos 67 anos de idade decidido jovialmente ir tirar um curso de contabilidade.  A par do trabalho remunerado, manteve sempre actividade voluntária em dedicação ao próximo, nunca descurando o seu papel e presença de Mulher, Mãe, Avó e Bisavó.

Finalmente, aos 94 anos de idade, já viúva há 14 anos, resolveu vir para Portugal definitivamente, após 86 anos de vida em África. Aqui, continuou na medida das suas possibilidades a prestar serviço aos outros, ajudando como voluntária no Centro Paroquial der Oeiras, onde ia dar o almoço aos “seus velhinhos” (todos mais novos!), o que fez alegremente até Dezembro passado, com 97 anos de idade.

Morreu anteontem, na feliz circunstância de ter tido a família com ela durante a tarde, e nas mãos das duas filhas sobrevivas e de uma das netas.

Foi um exemplo permanente para muitos, uma ajuda e apoio preciosos para imensos e uma Mulher, Mãe, Avó, Bisavó e Portuguesa única e irrepetível. Com todo a sua actividade para com os outros, geria o seu tempo de forma a estar sempre presente junto da família. De forma extraordinária e sem percebermos como conseguia, tinha tempo para todos, talvez com a única excepção de si mesma. Esse tempo era sempre dado com calma e como se não tivesse mais nada para fazer. Nenhum de nós se lembra de uma etapa da vida sem ela.

A par do choro dos que ficam, encheu-se o Céu de alegria pela chegada da nossa Mãe, Avó, Bisavó e amiga. Pelo exemplo de vida, acreditamos que partiu uma das heroínas da história portuguesa do último século.

Com os protestos da mais elevada consideração,

Em nome da família, o neto mais velho,

Rodrigo Alexander Davidson de Sousa-Pinto

São Domingos de Rana, Portugal

07/01/2017

O Delagoa Bay Review em 2017

Filed under: António Botelho de Melo — ABM @ 10:51 am

Depois de um hiato, e de um curto periodo em que esteve “fechado”, o The Delagoa Bay Review volta neste início de 2017, de novo acessível a todos os que se derem à maçada de o ler. Aqui quase nada de novo, tudo mais ou menos na mesma, desde a sua abertura em 2010. Mais umas fotos, mais umas conversas ao desafio. À meia dúzia de apreciadores desta Casa, saudações.

 

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O vosso cronista no Green Quadrangle da Brown University, em Providence, EUA, Maio de 1982, ano da atribuição da primeira licenciatura, foto tirada com uma Nikon F, lente fixa de 70 mm, por uma colega sueca, Maud Linnea Kalborg.

Dito isto, o mundo mudou significativamente. Moçambique viu Armando Emílio Guebuza substituir-se por Filipe Nyusi, um seu delfim, o País quase colapsou entre dívidas e a tentativa de eliminar fisicamente a sua oposição, prevendo-se o prolongar desta agonia, até os americanos começarem a bombar gás e a pagar royalties. Com a população prevista para chegar aos 55 milhões nos próximos 25 anos…. boa sorte a todos. Em Portugal, a aliança absolutamente surreal, com a cereja no topo que tem sido Marcelo Rebelo de Sousa, para mais uma falência e um resgate caminha, aguardando-se pela default no serviço da dívida pública ou da mera incapacidade dos contribuintes de sustentar a despesa pública, num país de reformados e emigrados e endividados, que se espera decresça de 10 para 7 milhões em vinte anos. Nos Estados Unidos, Donald Trump, uma espécie de Kim Il Sung do Capitalismo, inicia um mandato dentro de poucas semanas, prometendo um conjunto de actos de circo dignos do nosso antigo Boswell-Wilkie. José Eduardo dos Santos afirmou que irá abandonar a política activa em 2018, o que tornará acompanhar os eventos em Angola ligeiramente mais interessante. O Médio Oriente continua a ser uma saga indecifrável. A China fez uma ilha no meio do Mar da China (que formalmente não é da China) e insiste que aquilo tudo lhe pertence.

Tudo isto e muito mais, com umas fotografias pelo meio, será tratado aqui, num português irreverentemente anti-o tal acordo da ortografia. E às vezes em inglês, pois tenho um leitor que não lê textos escritos em português.

02/03/2014

A ESCOLHA DO IMPERADOR, 2014

Filed under: A escolha do Imperador 2014 — ABM @ 5:34 pm

Para quem conhece a saga de Star Wars.

May the Force be With Us.

May the Force be With Us.

O Candidato Manchuriano. Adivinhe quem é.

18/02/2014

MEMORIALIZANDO VÍTOR CRESPO, 1974, NA PRIMEIRA VOZ

Filed under: Vitor Crespo explica-se — ABM @ 10:08 pm
Após a ditadura colonial terminar, isto. Em baixo, Vitor Crespo tenta explicar o inexplicável.

Após a ditadura colonial terminar, isto e mais vinte anos de guerra. Em baixo, Vitor Crespo tenta explicar o inexplicável daqueles dez meses que antecederam tudo, nas suas próprias palavras. Oiçam com cuidado.

Diz o breve texto da Wikipédia (menos um misterioso e longo relato de medalhística):

Vítor Manuel Trigueiros Crespo (Porto de Mós, 21 de Março de 1932) é um militar português.

Ingressou na Escola Naval, seguindo a carreira de oficial de Marinha. Não foi o único oficial da Marinha de Guerra a participar no golpe de estado do 25 de Abril de 1974. Muitos outros oficiais da Marinha de Guerra Portuguesa também participaram, embora fosse ele o representante da Marinha que se encontrava no posto de comando do MFA, na Pontinha. Foi Alto Comissário e Comandante-Chefe em Moçambique durante a descolonização até à independência do país. Foi membro do Conselho da Revolução. Depois disso integrou o VI Governo Provisório chefiado por Pinheiro de Azevedo como ministro da Cooperação, entre 19 de Setembro de 1975 e 23 de Julho de 1976. Hoje em dia, já no posto de Almirante, serve como director da Biblioteca da Marinha.

Aqui em baixo, um dos mais célebres descolonizadores portugueses, quiçá um dos odiados de estimação da Tribo Branca de Moçambique, na primeira voz:

(Vídeo 1 de 2)

(Vídeo 2 de 2)

25/01/2014

A PRESIDÊNCIA IMPERIAL II: CHINA HOUSE EM MAPUTO

Filed under: Presidência Imperial - China House — ABM @ 8:38 pm
A luxuosa nova ala do Complexo presidencial moçambicano. Ninguém sabe quanto custou

A luxuosa nova ala do Complexo presidencial moçambicano, situado junto aos antigos Grémio e Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra, em frente à Somershield, tornados residência presidencial após a Independência. Obviamente uma Obra do Regime Guebuza, ninguém sabe quanto custou ou quais foram as contrapartidas. A cosntrução esteve a cargo de uma empresa estatal chinesa e foi paga com um empréstimo que a China fez ao erário público de Moçambique. Esta foto de satélite data de final de Setembro de 2013. O complexo foi inaugurado ontem, 24 de Janeiro de 2014.

Refere o texto noticiário da Agence France Presse publicado hoje (traduzido por mim do texto original em inglês):

O Presidente moçambicano Armando Guebuza inaugurou o opulento novo complexo presidencial de gabinetes, construído pelos chineses, em Maputo, na sexta-feira.

“Queremos expressar a nossa gratidão ao governo da República Popular da China por criar as condições que permitiram a construção deste projecto”, referiu Guebuza durante um banquete.

O edifício de dois andares, pintado em côr de pêssego, situado em frente às águas azuis da Baía de Maputo, inclui candelabros de cristal, interiores forrados a mármore e uma sumptuosa sala de banquetes.

Por comparação, o vasto novo complexo torna minúsculo o anterior edifício [Palácio da Ponta Vermelha] com apenas um andar, onde Guebuza costumava receber personalidades estrangeiras.

Representantes do governo não divulgaram os custos com a sua construção, que foram financiados com um empréstimo feito pelo governo Chinês.

Durante um discurso que incluiu um brinde com champanhe, Guebuza considerou o edifício “outro testemunho da amizade e cooperação entre o povo de Moçambique e o povo da China”.

A Foreign Economic Construction Corporation, uma empresa chinesa, construiu o vasto palácio de dois andares em apenas dezoito meses.

A empresa estatal chinesa, que também construiu as novas terminais doméstica e internacional do Aeroporto de Maputo e um estádio desportivo[no Zimpeto], começou este mês a construção [no antigo Parque de Campismo da cidade, agora o Centro de Conferências Joaquim Chissano] de um hotel de cinco estrelas, com um custo estimado de 250 milhões de dólares americanos.

Com 71 anos de idade, Guebuza terá apenas meses durante os quais poderá usufruir o seu novo gabinete antes da eleição presidencial que se realizará em Outubro próximo. Ele reside na residência presidencial, situada ao lado do novo complexo.

No ano passado, Guebuza viajou até à China para obter fundos para projectos de infra-estrutura.

Guebuza fala com Xi Jinping, o presidente chinês, no Grande Salão do Povo em Pequim, 13 de Maio de 2013

Guebuza fala com Xi Jinping, o presidente chinês, no Grande Salão do Povo em Pequim, 13 de Maio de 2013. Foto de Jason Lee, AFP, com um toque meu.

A maior parte das redes de electricidade, de caminhos de ferro e de estradas moçambicanas datam da era colonial, que terminou há quatro décadas, parte das quais foram destruídas numa guerra civil que durou 16 anos e que terminou em 1992.

(fim)

06/12/2013

HOMENAGEANDO NELSON MANDELA

Filed under: A morte de Nelson Mandela — ABM @ 3:06 am

Assinalando a passagem do Sr. Nelson Mandela pelas nossas vidas, o seu alto exemplo e a alguma inspiração que nos trouxe.

Nelson Mandela faleceu na África do Sul ontem à noite, dia 5 de Dezembro de 2013.

Nelson Mandela faleceu na África do Sul ontem à noite, dia 5 de Dezembro de 2013. Na imagem, o Presidente Mandela entrega o troféu do Campeonato Mundial de Rugby ao capitão da equipa sul-africana, François Pienaar, após a sua vitória na final contra a Nova Zelândia, no Estádio Ellis Park, em Joanesburgo, no dia 24 de Junho de 1995. Esta foi, talvez, a cena mais paradigmática do titânico e por vezes aparentemente insuperável esforço pessoal de Mandela de fazar emendas com os Boers, cuja resistência, enquanto grupo, a um regime democrático (ou seja, de maioria negra) na África do Sul só rivalizou com a sua resistência ao domínio colonial britânico durante o Século XIX. O tempo dirá se o seu esforço, e a sua mensagem sobre a necessidade de reconciliação e de convivência entre todos os sul-africanos, perdurará.

03/11/2013

A PRESIDÊNCIA IMPERIAL I

Filed under: Presidência Imperial - Hawker 850 XP — ABM @ 7:16 am
Um avião de luxo executivo Hawker 850 XP.  A força aérea" de Moçambique acabou de adquirir um.

Um avião executivo de luxo Hawker 850 XP. A “força aérea” de Moçambique acabou de adquirir um, segundo o sítio Defence Web, publicado no dia 1 de Novembro de 2013. Fabricado nos Estados Unidos da América. Tem um custo estimado de 14 milhões de dólares.

O Sítio DefenceWeb, que se especializa em assuntos militares africanos, publicou no dia 1 de Novembro o seguinte texto, algo hilariante:

The Mozambican Air Force has taken delivery of a Hawker 850XP business jet, the latest acquisition for the country’s small air arm and a major boost to its capacity.

The aircraft entered service in September, according to Air Forces Daily, after being bought second hand from the United States. It left Fort Lauderdale Executive Airport in Florida on its delivery flight on September 9 and had its US registration cancelled on September 18 following its transfer to the Force Aerea de Mocambique (Mozambique Air Force).

The aircraft will most likely be used for VIP duties and is a major boost to the Air Force, which is almost entirely inoperable, although efforts of late have been made to restore some flying capacity. The Air Force has suffered poor serviceability since independence from Portugal in 1975 and the collapse of the Soviet Union and its financial support in the early 1990s.

Portugal, due to its historic relationship with the country, has over the last several years provided much assistance to Mozambique’s military. In July 2012 Portugal delivered a second FTB-337G Milirole utility aircraft to the country, as part of the CTM (Cooperação Técnico-Militar) technical military cooperation agreement between Mozambique and Portugal. This agreement also includes training and the FAP is working with the Mozambique Air Force on pilot and ground crew training in both countries.

Indeed, Portuguese advisors are training aircrew and mechanics at the recently formed Escola Prática de Aviação (EPA – School of Practical Aviation) at the Air Force’s base at Maputo-Mavalene International Airport.

The two FTB-337Gs are used for medical evacuations, maritime surveillance and pilot training, alongside a Cessna 152 and a Piper PA-32 Seneca, acquired around 2011. A Cessna 172 is also used for training at the EPA, according to Air Forces Daily. These aircraft fly approximately 650 hours per year.

According to the IISS’s The Military Balance 2012, none of the Air Force’s combat aircraft are operational, with only a few transports (two An-26s, two CASA 212s and a Cessna 182) and several Z-326 trainers still flying.

(fim)

O interior da nova aquisição da Força Aérea de Moçambique.

O interior da nova aquisição da Força Aérea de Moçambique. Dada a natureza e configuração, presume-se que será para uso presidencial e afim, evitando assim a necessidade das personalidades que o irão utilizar, de se deslocarem pelas estradas naconais ou de voar na frota das Linhas Aéreas de Moçambique. Em desconforto.

Uma empresa especializada no assunto refere que o custo estimado desta aeronave é de 13.7 milhões de dólares, excluindo os custos de manutenção e operacionais. O texto da Defence Web refere que o avião comprado é em segunda mão e não indica o preço pago.

31/10/2013

AS MANIFESTAÇÕES CÍVICAS DE 31 DE OUTUBRO DE 2013: MAPUTO, BEIRA E QUELIMANE

No fim das fotografias, veja as declarações de Alice Mabota, em vídeo. A visibilidade e contestação da Liga dos Direitos Humanos e de Alice, sua Presidente, tem sido grande.

As manifestações tiveram como principais objectivos denunciar a criminalidade organizada em Moçambique e a instabilidade política e de segurança resultantes dos diferendos entre os líderes da Frelimo e da Renamo.

Desde a Independência em Junho de 1975, nunca houve nenhuma expressão popular sequer parecida com o que sucedeu hoje, que não fosse da iniciativa da Frelimo e dos seus governos.

MAPUTO:

Foto de Sérgio Costa, partilhada no FB.

Foto de Sérgio Costa, partilhada no FB.  A manifestação na Avenida Dr. Eduardo Mondlane (antiga Av. Pinheiro Chagas). Segundo o grande João de Sousa, nos notíciários da noite, todas as estações de televisão moçambicanas arrancaram com as manifestações excepto a estatal TVM, que iniciou com uma visita que o Presidente Guebuza estará a fazer a Sofala, província onde as forças armadas se encontram numa caça ao homem ao Presidente da Renamo.

Foto de João M Taborda.

Foto de João M Taborda.

Foto de CA.

Foto de CA.

Foto de CA.

Foto de CA.

Foto Paulo Araújo.

Foto Paulo Araújo.

Foto do Canal de Moçambique.

Foto do Canal de Moçambique.

Foto de Mauro Steinway.

Foto de Mauro Steinway.

Foto de João M. Taborda.

Foto de João M. Taborda.

BEIRA:

Foto Magazine CRV.

Foto Magazine CRV. Na Beira, a população ainda está em choque pelo rapto e assassinato de um jovem com 13 anos de idade. Este rapto, como quase todos os outros, teve como objectivo extorquir dinheiro da Família.

Foto do Salim Milas.

Foto do Salim Milas.

QUELIMANE:

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

VÍDEO DO DIA

Em baixo, o vídeo do dia: Alice Mabote, Presidente da Liga de Direitos Humanos, penso que a entidade que organizou a manifestação, em declarações esta manhã.

http://videos.sapo.mz/mNcZU24vTiFBLulFClmP

30/10/2013

A MANIFESTAÇÃO ANUNCIADA EM MAPUTO PARA A MANHÃ DE 31 DE OUTUBRO DE 2013

Imagem que veio de Edwin Honnou e de Fernando Veloso no Facebook, alusiva a uma marcha pela paz a realizar na manhã de hoje em Maputo, num contexto de uma grave perturbação da paz e da tranquilidade públicas no País.

Imagem que veio de Edwin Honnou e de Fernando Veloso no Facebook, alusiva a uma marcha pela paz a realizar na manhã de hoje em Maputo, num contexto de uma grave perturbação da paz e da tranquilidade públicas no País. O percurso anunciado é entre as estátuas do Dr. Mondlane, no ALto-Maé, e a de Samora Machel em frente à sede do Conselho Municipal, em Maputo.

21/10/2013

ORDEM DE ATAQUE A 8 DE SETEMBRO DE 1974

Filed under: Ordem de Ataque a 8 Set 1974 — ABM @ 7:28 pm

O texto que se reproduz com vénia do Correio da Manhã (de Lisboa), edição de 21 de Outubro de 2013, é um depoimento de Pedro Silva, recolhido por Marta Martins Silva. Reporta-se aos eventos ocorridos após o anúncio, em Moçambique, numa emissão do Rádio Clube de Moçambique, do chamado Acordo de Lusaka, na noite do dia 7 de Setembro de 1974, um sábado. Nos termos desse documento, à meia-noite desse dia entraria finalmente em vigor um cessar-fogo entre a Frente de Libertação de Moçambique e as Forças Armadas portuguesas. E o poder de Estado seria entregue à Frelimo dali a uma semana. Maioritariamente nas cidades, maioritariamente brancos viueram para as ruas, expressaram repúdia pelos termos do Acordo e tomaram de assalto o Rádio Clube de Moçambique, a principal emissora de rádio do então Estado de Moçambique, de onde foram feitos alguns apelos à resistência, maioritariamente sem qualquer efeito prático. Samora Machel e a cúpula da Frelimo nunca perdoaram este acto de insolência, que foi rapidamente rotulado como “reaccionarismo colonialista e racista” e debelado maioritariamente pelas próprias forças armadas portuguesas. No espaço de um ano, a esmagadora maioria dos que puderam, a maior parte dos quais viveu quase toda a vida sob a ditadura de Salazar,  foram-se embora da nação nascente, que desceu numa espiral de recessão, de guerra e num invulgarmente radical experimento de opressão comunista.

O depoimento de Pedro Silva:

“Fomos homens da chefia e reconhecimento de transmissões, desconhecidos até agora, mas orgulhosos do nosso trabalho.

Completada a recruta, fui para a especialidade de radiotelegrafista e, depois da promoção a 1º cabo, fui enviado para o ex-BRT (Batalhão de Reconhecimento de Transmissões), passando a operador de segurança de transmissões. Passei alguns meses no Quartel General em S. Sebastião da Pedreira, Lisboa, na intercepção, escuta e gravação das rádios ao tempo consideradas anti-Estado Novo. Embarquei para a Região Militar de Moçambique a 19 de outubro de 1972 em rendição individual, dado que a nossa ação era estritamente confidencial.”

A primeira página do folheto posto a circular aquando do anúncio público, em Moçambique, do acordo entre os militares portugueses e a guerrilha da Frelimo.

A primeira página do folheto posto a circular aquando do anúncio público, em Moçambique, do acordo entre os militares portugueses e a guerrilha da Frelimo.

“Em Moçambique vivi o célebre 8 de setembro de 1974 [sic], e é aqui que começa uma história que para nós (eu e o 1º cabo Ferreira) ficou marcada nas nossas vidas.

Nesse dia fomos procurados por ordem do nosso comandante, Capitão António Melo de Carvalho, para, uma vez conhecedores das redes de transmissão da Frelimo, tentarmos estabelecer ligação, e posterior diálogo, com algumas das várias estações de onde emitiam os seus comunicados e informações.

O intuito era fazê-los compreender que, apesar da revolução incentivada por colonos em Lourenço Marques, Beira e Nampula, estava tudo sob controlo, pelo que o Acordo de Lusaca seria respeitado pelo MFA.

Isto depois de termos interceptado várias mensagens da Frelimo que diziam que, devido à revolta perpetrada pela população civil, o Acordo de Lusaca – que deveria entrar em vigor no dia 8 de setembro às 00h00 – não passava de um embuste. Samora Machel, numa mensagem interceptada por nós, deu ordens no sentido de atacar tudo e todos.”

O verso do folheto.

O verso do folheto.

“Estava portanto iminente um ataque sem precedentes às nossas tropas, praticamente desarmadas, e à espera de um regresso feliz. Eu e o meu camarada, Vítor Ferreira, sob as ordens do Capitão Melo de Carvalho, iniciámos, no comando de transmissões, tentativas para travar aquilo que seria, em nosso entender, uma chacina.

A primeira mensagem, emitida por mim, foi a seguinte: ‘Aqui Movimento das Forças Armadas em Moçambique. Para: Comandos da Frelimo. Concordamos Acordo de Lusaca. Pedimos não ataquem posições tropas portuguesas. Pedimos vossa colaboração no sentido de eliminarmos grupos reacionários. Saudações.’

Mensagem circulada no dia 8 de Setembro de 1974. Fonte: História das Transmissões Militares, Portugal.

Mensagem circulada no dia 8 de Setembro de 1974, um domingo. Do seu teor, depreende-se que ainda não havia conhecimento dos protestos em algumas cidades de Moçambique. Fonte: História das Transmissões Militares, Portugal.

“Numa primeira instância, os operadores da Frelimo ficaram desconfiados e não responderam logo. Mais tarde, disseram-me que não compreendiam. Para fazerem uma ideia, interceptávamos cerca de 120 letras por minuto. Insisti mais uma vez, e agora, com o mesmo remetente, MFA, mas como destinatário o ‘Camarada Presidente Samora Machel’.

Era o meu camarada Vítor Ferreira que ia registando todas as respostas dadas. O teor das nossas mensagens tinha como fim, única e simplesmente, evitar um ataque que já não era esperado e muitas outras foram enviadas neste nosso exaustivo trabalho. Foi depois das diligências efetuadas através da troca de mensagens que tudo começou a ficar mais claro, e se foi resolvendo sem recurso às armas.”

Mensagem circulado no dia 17 de Setembro de 1974.

Mensagem circulada na 3ª feira, dia 17 de Setembro de 1974, data de início do Ramadão muçulmano. Dali a três dias, em sessão solene em Lourenço Marques, o poder de Estado era entregue ao Governo de Transição, dominado pela Frelimo e liderado por Joaquim Chissano, então com 34 anos de idade (faria 35 anos de idade no dia 22 de Outubro desse ano) . Fonte: História das Transmissões Militares, Portugal.

“Conseguimos falar com os operadores da Frelimo e as nossas mensagens seguintes foram retransmitidas para todos os postos da Frelimo e para o seu Presidente. Após todas estas diligências, [o Acordo de] Lusaca foi em frente e um dos dirigentes da Frelimo, e futuro presidente de Moçambique, fez questão de nos conhecer pessoalmente, dizendo que os nossos nomes iriam ficar na história da independência do país. ”

Nota: Pedro Silva, hoje com 63 anos de idade, prestou serviço militar em Moçambique entre 1972 e 1974 na Cheret (Chefia e Reconhecimento de Transmissões). Na altura dos eventos que descreve tinha 24 anos de idade.

19/10/2013

27 ANOS DEPOIS DAQUELE DOMINGO, 19 DE OUTUBRO DE 1986

Filed under: 27 anos depois de 19 de Out 1986 — ABM @ 11:39 pm
Samora Machel, em dias melhores.

Samora Machel, em dias melhores.

 

João de Sousa, decano da rádio moçambicana, escreveu o seguinte hoje:

“Segunda-feira, 20 de Outubro de 1986. Na porta de entrada da Rádio Moçambique eu esperava pelo José Manuel Peres. Os dois, a partir das 9 horas, iriamos começar mais um programa “Entre as Nove e as Dez”. Um programa que é um marco na minha história como profissional de radiodifusão.

Às 08.10 horas aparece o Ministro da Informação Teodato Hunguana. Pergunta-me se “está alguém na Direcção da Rádio ?”. Digo-lhe que sim. Se a memória não me falha estava o Director Técnico, o Eng. Rufino de Matos.

Minutos depois chega Marcelino dos Santos. Pergunta-me “onde é a direcção da Rádio” ? Encaminho-o para o primeiro andar.

Às 08.30 a programação normal da Emissão Nacional é interrompida. Marcelino dos Santos anuncia a morte de Samora.”

João Cabrita, talvez um dos académicos que melhor estudou o acidente aéreo em que Samora morreu, escreveu:

“A viagem do Presidente Samora Machel à Zâmbia em 19 de Outubro de 1986 era para ser efectuada num Boeing-737 das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), o C9-BAA. Mas dois dias antes da viagem, o Comandante Sá Marques, que era quem iria pilotar o avião, foi notificado de que entretanto havia sido escalado para o voo Maputo-Beira-Maputo. A viagem presidencial passaria a ser feita no Tupolev 134-A. Não obstante o cancelamento do voo das LAM, o Comandante Sá Marques e o Boeing que pilotava juntamente com Baptista Honwana, ficariam para sempre ligados ao acidente que envolveu o Tupolev (C9-CAA) no voo de regresso da Zâmbia para Maputo. Cerca de um quarto de hora depois do Tupolev ter-se despenhado em Mbuzini, o Comandante Sá Marques entrou em contacto com a Torre de Controlo do Aeroporto de Maputo a informar que se encontrava sobre o Limpopo, prevendo aterrar na capital moçambicana dentro de aproximadamente 30 minutos. Sá Marques pediu à Torre de Controlo que lhe fornecesse o boletim meteorológico actualizado no âmbito dos preparativos para uma aproximação final à pista do Aeroporto de Maputo. Em vez disso, a Torre de Controlo pediu a Sá Marques que tentasse entrar em comunicação com o Tupolev presidencial pois havia “perdido contacto com ele”. Várias foram as tentativas do comandante das LAM para entrar em contacto com o Tupolev, mas sem sucesso. Posteriormente, recebeu instruções para regressar à Beira. Nas investigações que se seguiram para determinar a causa do acidente, a parte soviética orientou-as no sentido de demonstrar a existência de um radiofarol (VOR) falso. O voo da LAM, Beira-Maputo, seria a prova crucial. O facto do Boeing- 737 ter entrado em contacto com a Torre de Controlo quando se encontrava a cerca de 190 milhas náuticas de Maputo era, na opinião dos investigadores soviéticos, a indicação da presença de um VOR falso pois, segundo alegavam, o raio de acção da estação VOR de Maputo não tinha esse alcance. Em declarações aos investigadores soviéticos, o Comandante Sá Marques disse ter a certeza de que estava em sintonia com a estação VOR de Maputo, facto confirmado pelo emissor de onda média da Rádio Moçambique instalado na Matola, ao qual também havia recorrido para tornar a verificar se a rota que seguia era a correcta. E acrescentou que quando recebeu instruções para regressar à Beira, continuou a ter indicações nos instrumentos de bordo de que o avião estava em sintonia com a estação VOR do aeroporto de Maputo. Perante a incredulidade dos investigadores, o Comandante Sá Marques sugeriu que se retirassem as caixas negras do Boeing-737 para uma reconstituição da trajectória do voo Beira-Maputo e assim se determinar se o avião havia ou não sido desviado da rota. Numa subsequente entrevista com o comandante das LAM, os investigadores soviéticos apresentaram a Sá Marques “um mapa exibindo o seguimento da minha rota por um radar militar situado no Limpopo. Inclusive, perguntaram-me se tínhamos comunicação com essa base militar e qual a possibilidade desta dar informações sobre a rota. O esquema mostrava um seguimento da rota correcto, com espaçamentos de 5 minutos até ao Limpopo, onde reduzi a velocidade do avião, e no troço seguinte nos mesmos 5 minutos, a distância correspondia a uma velocidade superior a 1500 km /hora, com a particularidade de o trajecto passar a ser ligeiramente curvilíneo”. Sá Marques fez ver aos investigadores soviéticos que era de todo impossível um Boeing -737 voar a mais de 1 500 km/hora, sensivelmente o dobro da velocidade cruzeiro de um avião desse tipo. A não ser, ironizou, que “o meu avião estivesse equipado com um afterburner”. Trata-se de um dispositivo normalmente utilizado em aviões militares, o que lhes confere um maior impulso, permitindo descolagens de pistas curtas, como a de um porta-aviões. Não é usado em aviões comerciais pelo facto de aumentar acentuadamente o consumo de combustível . “A reacção do investigador soviético”, disse Sá Marques, foi “amachucar o mapa, atirando-o para o cesto dos papéis”. A Bernard Craiger, um dos três peritos designados pela ICAO para ajudar a parte moçambicana na investigação das causas do acidente de Mbuzini, coube a responsabilidade de reconstituir a trajectória seguida pelo Boeing -737 das LAM no voo Beira-Maputo. No relatório por si elaborado, Craiger referiu que a trajectória do Boeing-737 havia sido rectilínea. Não obstante os factos, no parecer que apresentou à Comissão de Inquérito sul-africana, a parte soviética insistiu que o Boeing-737 pilotado por Sá Marque e Baptista Honwana havia entrado em sintonia com a estação VOR de Maputo”mais cedo do que o habitual, a uma distância de 190 milhas náuticas (320 km) de Maputo”, acrescentando que “Para o equipamento de bordo poder funcionar em sintonia com o equipamento de terra àquela distância seria necessário um transmissor VOR com uma potência que excedesse os 200 W. No entanto, a potência do transmissor VOR de Maputo não vai além dos 50 W. Por conseguinte, o equipamento de bordo do Boeing 737-200 das LAM, com a matrícula C9-BAA, estava em sintonia com o radiofarol falso a transmitir na frequência dos 112.7 MHz, mas de potência superior à do VOR de Maputo.” Ou outro comandante das LAM, Franklin Bastos, em entrevista a Álvaro Belo Marques, autor do livro “Quem Matou Samora Machel?”, declarou que o radiofarol VOR de Maputo podia ser captado a 200 milhas náuticas. ”

Na 2ª feira, 20 de Outubro, eu, que vivia há vários anos nos EUA, por acaso estava em Lisboa numas curtas férias. Fui abordado às 07:30 horas locais pela minha anfitriã, referindo ter ouvido numa estação local que tinha ocorrido um acidente aéreo e presumia-se que Samora teria perecido no acidente. Quando ouvi isso acordei instantaneamente.

12/09/2013

ARMANDO GUEBUZA O INCONTESTÁVEL, 2013

Filed under: Armando Guebuza 2013 — ABM @ 6:07 pm
Haja paciência.

Haja paciência quando se recorre a estes slogans de “apoio” para caracterizar um homem que é suposto ser uma liderança política, até mesmo quando o próprio termo sugere um certo, conhecido, resvalo ditatorial, pois, excepto talvez em Moçambique, não é em democracias que os líderes são “incontestáveis”: isso só acontece verdadeiramente em ditaduras. O que se calhar diz nada. O que se calhar diz tudo. 

A foto é do jornalista Borges Nhamirre do Canal de Moçambique, e o estádio atrás é o do Zimpeto, nos arredores de Maputo, construído e pago pelos chineses, presume-se que em troca de favores, indescritos.

Há outros paralelos. Noutros tempos, Samora Machel, que se crê ser o modelo para esta propaganda um tanto deslocada no tempo, foi também conhecido por «líder incontestado e incontestável da revolução moçambicana», tal como descrito (previsivelmente, claro) por Marcelino dos Santos, a grande eminência parda do Regime, durante um daqueles comícios longos e  intragáveis, em Maputo, por volta de 1979.

20/07/2013

À BEIRA DO ABISMO, MAIS UMA VEZ

Filed under: A grande crise de 2013 — ABM @ 11:46 am
O actual impasse político, as suas causas e o que

O actual impasse político português, as suas causas e o que despoletou o processo nas últimas duas semanas só me fazem ocorrer uma frase, inspirada no grande Winston Churchill. À excepção de 1974-1977, nunca vi tanta incompetência, tanta falta de bom senso, como tenho visto na televisão e lido nos jornais nas últimas duas semanas. E, para variar, não escapa ninguém.

29/05/2013

O POSTAL DE MAPUTO DA TIA ARGENTINA, 1977

Filed under: O Postal de Argentina 1977 — ABM @ 3:22 pm

postal mim avó 1

postal mimi avó

Copiado, com vénia, do Nuno Castelo-Branco, pela importância do seu conteúdo, historicamente relevante mas hoje convenientemente pouco recordado. O título original é Moçambique: O Roubo. 

(início)

O meu pai deixou-nos uma ainda incontável quantidade de caixas, envelopes e dossiers onde ao longo de décadas acumulou todo o tipo de papéis, aliás metodicamente organizados. Hoje encontrei um envelope com postais de “Vistas de Lourenço Marques” e foi um prazer reler alguns daqueles que nos tinham sido endereçados há muitos anos. Escritos por amigos ou familiares, são testemunhos de momentos difíceis passados num território cuja administração passou a ser exercida de uma forma totalmente arbitrária, bem diferente daquela a que as populações estavam habituadas. O exemplar que hoje é aqui postado, foi escrito por uma irmã da minha avó, de seu nome Argentina, mas para nós, a tia Mimi:

“Querido sobrinho Vítor

Mais um ano para a conta e oxalá que assim seja por muitos e muitos anos (1). Que o dia 27 seja passado com saúde, óptima disposição e alegria na companhia dos familiares. Um grande abraço nosso de parabéns. Estão todos bem aí em casa? Esperamos que assim seja. A lista (2) da Leta (3) já saiu, mas na vistoria da Ponte de Cais confiscaram a máquina de lavar mesmo estando autorizada. Refilou forte e feio, de nada adiantou mas já reclamou por escrito. As reclamações deste género é mato. Isto tudo é um pandemónio. A lista da Emília (4) também já saiu e, como particular, todos os eléctricos domésticos foram cortados, incluindo o fogão, máquina de costura, rádio gira-discos e uma ou outra peça de mobiliário. É aguentar e olhar em frente de cara alegre, que mais se pode fazer? Envio este postal como recordação da nossa terra. Já não há disto à venda.
Saudoso abraço à Ana Maria e beijinhos à Angelinha. Abraços aos miúdos. Para ti mais uma vez, as nossas felicitações e um abraço amigo dos tios Mimi e António

Maputo, 19 de Junho de 1977″

Este ambiente de desbragado saque, não foi uma novidade do pós-independência. Tinha começado durante a administração conjunta daquilo a que então se denominou de Governo de Transição, nominalmente sob a tutela de um até então desconhecido camarada que Lisboa despachou para Lourenço Marques, o “comandante” Vítor Crespo, personagem que felizmente não chegou ao ponto das inenarráveis baixezas de um outro futuro “Almirante de aviário”, o Rosa Coutinho. Igualmente “aviado em Almirante”, o simulacro de governador-geral rapidamente tornar-se-ia objecto de todas as conversas, mimoseado pela explícita alcunha do “Vítor Copos”. De forma a tornar tudo mais óbvio, o “Copos” do Crespo, estava justa ou injustamente na mesma linha do certíssimo “Tantos” carimbado na pele de um certo advogado Almeida, nada dado a santidades. Há alegações que para sempre ficarão coladas à reputação das duvidosas celebridades.

Na tropa portuguesa grassava uma total indisciplina. De imediato cessou qualquer sentido de hierarquia, apresentando-se miseravelmente “uniformizada” nas avenidas da capital de Moçambique e sempre pronta para qualquer grosseria. No aeroporto Gago Coutinho, os guedelhudos militares de palito no canto da boca e ameaçadora G-3 à bandoleira, submetiam aqueles que partiam para a Metrópole a todo o tipo de vexames, esvaziando malas e carteiras, confiscando jóias pessoais, por mais insignificantes que estas fossem. Agora sim, os espoliados eram mais que nunca, portugueses de 2ª classe.

Nas citadas “listas” eram riscados items após items, alegando-se “duplicação”. “Tens duas cadeiras destas? Só precisas de uma, esta fica cá! És viúva? Então para que precisas tu de duas alianças? Buíça (5) uma delas!” Nos já então suprapatéticos departamentos do Estado de Moçambique – era assim que há muito a antiga Província Ultramarina oficialmente se denominava -, as exigências burocráticas foram esmagadoras e impiedosamente acrescidas de custas, autenticações e reconhecimentos, atestados para isto e para aquilo, enfim, um ror de enormidades que serviam para dificultar ao máximo, a já muito precária vida dos aflitos e indefesos requerentes. A finalidade de todo o processo era o despojamento total. Há que ter em atenção a existência de uma azáfama censória controleira dos desabafos de uma imensa mole de gente encurralada pelos seus próprios compatriotas, assim se explicando esta série de postais enviados dentro de discretos envelopes.

É este um triste episódio praticamente desconhecido dos portugueses europeus e convém ir divulgando estes postais – o meu pai também arquivou interessantíssimas cartas -, por mim já muito abusivamente promovidos a documentos. Classificados como impublicáveis, alguns dos testemunhos permanecerão guardados, sendo o seu conteúdo deveras embaraçoso para a reputação de muita gente que ainda bem viva, é pesadamente responsável pelo mais vergonhoso e desnecessário desastre da nossa história.

Notas

(1) A tia Mimi (Argentina) refere-se ao dia 27 de Junho, aniversário do meu pai.
(2) A “lista” era uma estulta invenção das autoridades portuguesas, escandalosamente ansiosas por agradarem aos seus novos comparsas – tão ineptos quanto os recém-chegados de Lisboa – que fizeram sentar no “Governo de Transição”. Sob a chefia da dupla Crespo/Chissano, este executivo logo deu início a uma torrente legislativa, ousando estabelecer uns inacreditáveis “pontos prévios”: consideravam estes que os bens materiais dos colonialistas – no nosso caso, cinco gerações! – tinham sido obtidos ao longo de “500 anos de exploração dos moçambicanos e por isso mesmo deveriam em parte ficar na posse do povo de Moçambique”. Em conformidade, o “governo Crespo/Frelimo” significou a despudorada rapina dos bens móveis daqueles que então legalmente passaram a ser considerados como “residentes” (!) e que ao pretenderem sair do país, tinham de pagar pesados impostos, taxas e tarifas, ficando à total mercê dos apetites ou fúrias de quem controlava a fiscalização. Estes abusos consistiram em actos em tudo semelhantes àqueles a que as autoridades do Reich submeteram os concidadãos judeus que nos anos 30 quiseram atempadamente deixar a Alemanha. Após a independência, o absoluto à vontade das autoridades permitiu-lhes passar da usurária taxação, ao puro e simples confiscar de tudo aquilo aparentemente apetecível, por mais risíveis e grotescas que fossem as reivindicações. Tendo aprendido os complicados e copiosos meandros da burocracia portuguesa, logo inventaram uma infinidade de requerimentos a que forçosamente eram anexadas várias cópias de uma minuciosa lista dos bens a embarcar, ou seja, o normal recheio de uma casa: móveis, bibelots, tapetes, brinquedos, talheres, electrodomésticos, louças, roupas, etc. Não esqueçamos uma colossal quantidade de livros que após a consumação do saque foram rasgados, servindo as suas páginas para embrulharem por ruas e avenidas fora, o amendoim torrado, a castanha de caju e as maçarocas assadas, até servindo para o polimento de sapatos. Era esta, a “nova cidade”.
(3) A Leta é a mulher de um primo direito da minha mãe.
(4) A Emília, a nora da tia Mimi.
(5) Buíça quer dizer “passa para cá!”

(fim)

Para que conste.

NELSON MANDELA, MAIO DE 2013

Filed under: Maio 2013, Nelson Mandela — ABM @ 2:49 pm
XXX

Nelson Mandela, de 94 anos, já quase não fala, disse a sua filha Makaziwe Mandela, numa entrevista que concedeu à Associated Press. Makaziwe é filha de Mandela e da primeira mulher deste, Evelyn Mase, já falecida. “Estende-nos as mãos. São as suas mãos que falam comigo. Esse é, se me perguntarem, o momento que mais aprecio com o meu pai. Para mim ele quer dizer: ‘Estou aqui, gosto de ti, preocupo-me contigo”, disse Maki, como é conhecida a filha de Mandela, que foi batizada com o nome de uma irmã que morreu aos nove meses. “O meu pai não tem estado muito bem de saúde no último mês. Tem dias bons e dias maus”, declarou na entrevista exclusiva que concedeu na sexta-feira à AP, na sua casa.

02/05/2013

O QUE O HENRIQUE RAPOSO DIZ SOBRE O QUE O FRANCISCO VIEGAS DISSE DE LOURENÇO MARQUES

Capa de um folheto publicitário de Lourenço Marques, anos 30, adaptado.

Capa de um folheto publicitário de Lourenço Marques, anos 30, adaptado.

 

Com vénia para o semanário Expresso, Lisboa.

O Purgatório dos Retornados

por Henrique Raposo, em crónica A Tempo e a Desmodo

Francisco, já não sei se o teu romance enformou a minha visão sobre os retornados ou se encaixou na visão que eu já tinha sobre esta trágica tribo perdida, mas o certo é que Lourenço Marques acerta no alvo . E explico já porquê.

Quase 30 anos depois, Miguel regressa a Moçambique para tentar encontrar Sara, a sua primeira paixão, o seu princípio do mundo revelado no fundo de uma piscina moçambicana no início dos anos 70. Esta misteriosa Sara voltou a Moçambique para logo desaparecer naquela imensidão. Enquanto procura Sara entre estradas e lagos intermináveis, Miguel flutua nas memórias da meninice africana e da dura devolução à metrópole (são mais devolvidos do que retornados, não é verdade?). Nestas flutuações, meu querido Francisco, fica evidente o pior dos tabus – o confronto entre o soldado português e o colono português – e a pergunta assombrada pela tragédia: criados nos espaços abertos de África, como é que milhares de pessoas se habituaram a viver em paralelepípedos de doze andares ou em vilas beirãs? A viagem é, portanto, um pretexto para Miguel confrontar estes fantasmas. Aliás, ele próprio é um fantasma. Eis o que escrevi no espaço em branco da última página: “livro de fantasmas, personagens que parecem flutuar acima do presente, só habitam as memórias do passado”. Acrescentei ainda: “será que Sara existe mesmo? Não será ela um fantasma?”. E este lado fantasmagórico é reforçado pela tua técnica favorita: a arrancada à Futre em monólogo (repara no rigor literário e quiça científico da expressão). A grande arte do diálogo é, na verdade, a grande arte do monólogo. Os teus monólogos, catedrais de pormenores e emoções, dão o ritmo certo à memória melancólica de Domingos (o polícia moçambicano), do último médico branco de Lichinga e, claro, de Miguel, esse fantasma preso no purgatório dos retornados. Sim, um purgatório.

Através desta tapeçaria de monólogos, tu consegues retratar o retornado como uma figura a pairar num limbo entre dois mundos, ou melhor, entre dois Portugais. O primeiro era aquele que existia em África, uma república moçambicana que era Portugal mas em bom, um Portugal que era o Brasil novamente, um Portugal com gente solta, alegre, cosmopolita, com cor na roupa, sem o cinzento-castanho-preto cá de cima, uma pátria sem relação com o Portugal daqui, o Portugal da metrópole, o segundo mundo desta história. Este Portugal europeu era tão distante como aquela tia-avó que toleramos no dia de natal desde que ela se sente a um canto com os canídeos e gatídeos, mas, entre 74 e 75, o retornado ficou sem acesso à sua pátria, teve mesmo de embarcar para o colo da tia-avó, foi forçado a viver um futuro que não era o seu. E que ainda não é seu. Sim, aceitou viver aqui, mas o seu coração permanece africano, a sua lealdade está com aquele futuro que não pôde viver. Como foi possível a adaptação?, perguntava eu há pouco. Não foi possível. A conversa da “boa integração dos retornados” esconde uma tragédia silenciada: para o retornado, a metrópole foi um beco claustrofóbico que lembrava, e ainda lembra, um futuro que ficou por viver, um país que ficou por ficou por fazer . Ele está há 40 anos no purgatório. O céu ou o inferno só chegariam se tivesse ficado em África.

Para terminar, convém registar a universalidade do tema. A tragédia do retornado é a história clássica do fim de um mundo, do desaparecimento de um modo de vida, de um modo de ver e sentir o mundo. Um leitor estrangeiro sem qualquer conhecimento da história portuguesa pode relacionar Lourenço Marques com o drama dos sulistas em 1865, por exemplo. Aliás, Miguel e a figura do retornado em geral têm aquele encanto crepuscular de Ethan, a personagem de A Desaparecida. No fundo, meu querido amigo, o teu romance pega no fantasma universal da pátria perdida e mostra as cinzas de uma Cartago que foi nossa, que é nossa. Se não te importas, os romanos ficam para outra conversa.

(Da série “Cartas a amigos”)

(fim)

O Nuno agradeceu.

25/04/2013

ASSINALANDO O PRONUNCIAMENTO MILITAR DE 1974 COM EÇA DE QUEIROZ

Eça, volta, estás perdoado.

Eça, volta, estás perdoado. Grato ao CTF, que me mandou isto para ler.

Sobre a Inevitabilidade das Revoluções

“As revoluções não são factos que se aplaudam ou que se condenem. Havia nisso o mesmo absurdo que em aplaudir ou condenar as evoluções do Sol. São factos fatais. Têm de vir. De cada vez que vêm é sinal de que o homem vai alcançar mais uma liberdade, mais um direito, mais uma felicidade. Decerto que os horrores da revolução são medonhos, decerto que tudo o que é vital nas sociedades, a família, o trabalho, a educação, sofrem dolorosamente com a passagem dessa trovoada humana. Mas as misérias que se sofrem com as opressões, com os maus regímens, com as tiranias, são maiores ainda. As mulheres assassinadas no estado de prenhez e esmagadas com pedras, quando foi da revolução de 93, é uma coisa horrível; mas as mulheres, as crianças, os velhos morrendo de frio e de fome, aos milhares nas ruas, nos Invernos de 80 a 86, por culpa do Estado, e dos tributos e das finanças perdidas, e da fome e da morte da agricultura, é pior ainda. As desgraças das revoluções são dolorosas fatalidades, as desgraças dos maus governos são dolorosas infâmias.”

Eça de Queiroz, em ‘O Distrito de Évora’

A SÍNDROME DO PODER MODERADOR PORTUGUÊS

Há trezentos anos que a mudança está institucionalizada através do conceito da revolução. Parece que para muitos esse paradigma ainda não mudou.

Por muito odiado que se diga ser assim, há duzentos anos que a mudança está institucionalizada no sistema político português através do conceito da revolução. Parece que para muitos esse paradigma ainda não mudou.

Numa celebração assinalada com aquele entusiasmo datado com que hoje a maior parte de quem se lembra (por exemplo) do concerto de Woodstock, realizado em 1969 nuns campos adjacentes à vilória com o mesmo nome do Estado norte-americano de Nova Iorque,  os eleitos portugueses juntaram-se no edifício do parlamento português na manhã deste dia 25 de Abril de 2013, para recordar o pronunciamento militar que em 1974 deu por finda a agonia marcelista e o impasse do regime de então.

Do lado esquerdo, celebrou-se a festa e o atentado comuna que se seguiram e a instauração da República Socialista – agora ferida de morte – enquanto que do lado direito ruminou-se e pouco mais.

Ou seja, enquanto simbologia, transmitida ao vivo pelas estações de televisão, aquilo foi uma seca tão má como me lembro, tenuamente, de terem sido, nos anos 60 e 70 até 74, as comemorações da “gloriosa revolução nacional” que em 1926 enterrou quase de vez a Primeira República.

Só houve uma diferença.

Essa diferença, no entanto, marca uma outra continuidade.

A diferença consistiu no mais uma vez apagado e pouco inspirador ponto feito pelo Presidente português, a respeito de qual deverá ser o seu papel no actual firmamento político e contexto em que o seu país vive.

Em resumo, Cavaco Silva aproveitou esta missa sacra de um feriado que só por milagre e conveniência escapou a recentes cortes, para publicamente afirmar duas coisas.

A primeira é que, do seu ponto de vista, o ordenamento político-constitucional-social do momento está a funcionar adequadamente.

A segunda é que não contassem com ele para interferir nesse actual quadro.

Ora, em termos curtos e grossos, Aníbal Cavaco Silva achou por bem alinhar-se a 100 por cento com o actual governo, liderado por uma coligação entre o PSD e o CDS.

Isto num momento de uma crescente agudização dos efeitos da falência do actual regime.

Sendo sua prerrogativa, há algo que não entendo, quer na postura que Aníbal Cavaco Silva escolheu divulgar, que no próprio sistema político português.

Façamos um pouco de reflexão histórica.

O actual ordenamento constitucional português, em traços largos, e peque toda a nefasta propaganda com as sucessivas revoluções nos últimos 200 anos, não mudou significativamente desde que o mercurial Dom Pedro IV enfiou a Carta (e o hino) pela goela dos portugueses dentro. Para além de uma nojenta mas fascinante trica familiar entre os Bragança, essa imposição levou décadas e incluiu tanta revolta e reviravolta que o Século XIX português foi essencialmente um século horribilis da sua história, pois o modelo levou tanto tempo a ser aceite (ou imposto) e entretanto destruiu-se mais do que se fez.

E mesmo aí, logo a seguir foi prontamente tomado e adulterado pela nascente e crescente burguesia lisboeta.

Que, quando, mesmo aí, tal não lhe agradou a percentagem do pecúlio, tornou-se “republicana”.

Ora, se se ignorarem as tradições, a principal diferença entre os regimes monárquico e republicano reside na figura ao topo, o monarca ou o presidente.

E entre esses, a diferença é que o presidente é escolhido por eleição para um mandato relativamente curto, o rei não era nem podia ser eleito, e exercia o seu reinado enquanto estivesse vivo e são.

O que não se alterou significativamente foram os únicos poderes consagrados dessa figura cimeira – o chamado “poder moderador”.

Para mim, que assisto de fora e de longe, este atributo é uma espécie de solução luso-rasco-latina, inventada para lidar, como uma espécie de fusível de sistema, para o caso desse sistema entrar em curto-circuito. Ou seja, se as pessoas, os partidos, o parlamento, as instituições não funcionarem, está previsto que o monarca, ou o presidente, intervenham, de forma não especificada, no sentido de dar um choque e – espera-se – restaurar a situação para um simulacro de normalidade e operacionalidade..

Para além de uma sumária ganância pelo poder e pelas suas mordomias, as infâmias, os assassinatos e a conspiração que finalmente derrubou a monarquia portuguesa em 1910,  tinham apenas como fim fazer com que os agentes políticos – na altura uma ditadura reles liderada por uma gang lisboeta que se auto-intitulava Partido Republicano Português – pudessem também passar a controlar esse poder.  O resultado foi, para variar, o caos quase completo, interrompido mais tarde durante meio século pela mão hábil e sinistra de António Oliveira Salazar.

Com o pronunciamento militar organizado pelo moçambicano Otelo e os seus “camaradas” em 1974, surgiu de seguida uma “nova” burguesia, filha e neta da de 1910, que retomou o assunto do pecúlio. misturando ao meio o delírio da República Socialista, que tinha por fim criar uma sociedade “sem classes”, em que a todos seria garantida uma vida decente. Na realidade, tudo não passou de um cheque em branco para se poder roubar alegremente o erário público e incorrer em défices de proporções épicas, agora impagáveis.

Na nova dispensação constitucional portuguesa após 1974, permaneceu o parlamentarismo sui generis português, e, no topo, uma espécie de presidente-rei, que vive no velho e minúsculo palácio de Dom Carlos e Dona Amélia, e exerce praticamente o mesmo poder moderador do anterior residente com sangue azul.

O problema é que o exercício desse místico poder moderador enfrenta – sem solução à vista – os mesmíssimos desafios enfrentaram quem o exerceu quer na monarquia, quer na primeira república. No reinado de Dom Carlos, ainda hoje é agonizante ler-se as notas deixadas pelo Rei, perante um sistema em quase perpétua colisão e incapaz de usar o seu mandato para procurar e implementar as soluções que o País exigia. Na primeira república esse exercício tornou-se dilacerante. Durante o Estado Novo, Salazar açambarcou-o e protegeu-o com uma ditadura, e mesmo assim, no fim, Américo Tomás, tendo-o efectivamente, usou-o erradamente, não desbloqueando a ditadura, entregando o poder à rua.

E aqui estamos em Abril de 2013, assistindo a Aníbal Cavaco Silva – e o eleitorado português – enfrentando os mesmos desafios. O elusivo poder moderador que consiste na única parte não cerimonial do cargo que desempenha, para pouco serve, e em pouco assiste os portugueses na procura de soluções e confronto das dificuldades presentes. Pois na face de grande confrontação política, a sua intervenção não é aceite como forma de desbloquear ou de prevenir o caos. Os portugueses – alguns portugueses – não aceitam que o chefe de Estado seja ao mesmo tempo árbitro e jogador.

Ora, a prerrogativa presidencial, nos termos da constituição, permite-o.

A República Socialista portuguesa já não existe, simplesmente porque é inviável. Na forma, ainda persiste, com o seu texto constitucional repleto de promessas de farturas e oportunidades regiamente garantidas, incluindo na permanência, na constituição, do poder moderador do presidente, esta espécie de fóssil da Era de Montesquieu.

Até quando?

Pois que, a alternativa, nestas circunstancias, é fazer revoluções.

Entretanto, a crise continua.

26/03/2013

LUIS OSÓRIO E O LIXO DA HISTÓRIA. OU

Filed under: Luis Osório e o Lixo da História — ABM @ 1:34 am
A temática de quantos portugueses e brancos africanos saíram dos territórios anteriormente administrados por Portugal é um interessante jogo estatístico.

A temática de quantos portugueses e brancos africanos saíram dos territórios anteriormente administrados por Portugal é um interessante jogo estatístico. O impacto da sua chegada a Portugal é o tema aqui abordado, indirectamente.

Esta manhã, alguém mandou-me cópia de um texto, escrito por Luis Osório, um jornalista português, alguém que, até há momentos, antes de digitar o seu nome na janela do Google Search, nunca ouvira falar antes.

Penso que interessa registar, para futura referência, o texto que segue, em parte pelo conteúdo do que está escrito, mas em parte também pela curiosidade em tentar entender onde é que o seu autor pretende chegar.

Luis Osório.

Luis Osório.

Para promover um seu livro, a Chiado Editora descreve Luis Osório assim no seu sítio: Tem 41 anos e é um dos mais premiados jornalistas da sua geração. Ganhou o prémio Gazeta Revelação do Clube de Jornalistas, um Sete de Ouro, o Prémio de Inovação Manuel Pinto de Azevedo Jr e programas de televisão garantiram-lhe quatro nomeações para os Globos de Ouro.É um jornalista que assim não se assume. Talvez por isso, a sua carreira divide-se por jornais, televisões, rádios, teatro, documentários, política e livros. Escreveu Quanto Tempo, uma Criança no Olhar, uma conversa com o seu pai (seropositivo e herói comunista já falecido) e 25 Portugueses, obra em que entrevistou os portugueses que mais se destacaram depois do 25 de Abril. Foi director do jornal A Capital, um dos mais jovens a alcançar a direcção de um órgão de comunicação social. E dirigiu vários anos o Rádio Clube e a informação das rádios do Grupo Media Capital. Os seus programas Portugalmente e Zapping ainda hoje são citados como exemplos de inovação.

Em seguida, reproduzo, com vénia, o texto que escreveu e que foi publicado no semanário angolano “Sol”, publicado em Lisboa a 12 de Março de 2012:

(início)

Os Filhos dos Retornados Chegaram ao Poder

Em 1975, meio milhão de portugueses das colónias desembarcavam em Lisboa com uma mão à frente e outra atrás.

Em Angola e Moçambique, sobretudo aí, eram donos do espaço e viviam sem preocupações de tempo ou angústias financeiras. Para eles, a morte do Estado Novo trouxe-lhes o fim do paraíso e abriu-lhe as portas a um inferno que nunca poderão esquecer.

Para muitos, Mário Soares é a besta negra. Responsabilizam-no, mais do que a Cunhal, por exemplo, por tudo ter corrido mal. Por muito que o fundador do Partido Socialista fale no peso das circunstâncias ou na pressão internacional motivada pelo equilíbrio de poder entre americanos e russos, o certo é que poucos o ouviram ou ouvem. Quase 40 anos depois, pouco interessa a questão da culpa ou da inocência, para eles é o homem que podia ter evitado e não evitou. O réu para os que perderam tudo o que tinham. Para os que chegaram nas pontes aéreas e foram tratados como brancos de segunda, tratados como, porventura, alguns de entre eles tratavam os negros em Angola e Moçambique.

Retornados. Nome que é um rótulo, um peso que os marcou como ferro em brasa. Ainda assim, um processo que correu anormalmente bem – sobretudo se comparado ao que acontecera com as descolonizações francesas. As pessoas foram distribuídas por todo o território, de Norte a Sul os que a si próprios se definiam como ‘espoliados’ puderam recomeçar. Do zero, claro. E os seus filhos, pequenos ou ainda por nascer, também pagaram o preço da profunda infelicidade dos pais, um peso que certamente os terá influenciado. Para o bem e para o mal.

Para o mal, o ressentimento. Para o bem, a vontade de ganhar e uns horizontes mais largos do que a maioria dos que, na metrópole, haviam nascido. Habituados à terra a perder de vista estavam capacitados para ver mais longe e com maior alcance. Vários reconstruíram riquezas, montaram negócios, fizeram boas carreiras.

Onde quero chegar? A um ponto interessante e fundamental para balizar a nossa história contemporânea. Porque este é o tempo em que os filhos desses homens e mulheres obrigados a começar tudo de novo, filhos do ressentimento e de uma África de largos horizontes, chegaram ao poder.

O facto poderá ser visto por alguns como uma prova de que as feridas não estão saradas, justificando as medidas do actual Governo como uma espécie de vingança psicanalítica. Mas para outros será o ponto final parágrafo numa narrativa de sucesso, a história de 500 mil portugueses que perderam uma vida e começaram do zero numa terra que, na verdade, tantos não conheciam.

Para os primeiros, é a prova de que o ressentimento passa de pais para filhos. Para os segundos, a prova de que Portugal soube sarar as feridas e incorporar a força, o talento e o largo olhar dos que regressaram.

Os críticos terão mais um motivo para atacar porque se convencerão que é gente que deseja ajustar contas. Os que acreditam dirão que é a grande oportunidade de Portugal mudar na sua mentalidade.

Mudar esta tendência para que, em todas as épocas da História, as elites perguntem se existe futuro para o nosso país. Como escrevi há uns dias, num ‘postal’ para amigos: «É uma marca genética, um traço que nos distingue dos alemães, ingleses ou franceses; ao contrário deles, banhados de certezas, temos a arrogância da dúvida permanente. Somos orgulhosos, mas fazemos por escondê-lo, como se fôssemos cristãos a rezar nas catacumbas após a morte de Cristo. Quando falamos do que somos, dizemos ‘os portugueses’ e não ‘nós, os portugueses’. Somos o que somos. Umas vezes, tanto. Outras vezes, nada. Adoramos o que detestamos, odiamos o que amamos. Temos o Sol, mas inventámos o fado. Falamos de medo e partimos à conquista do mundo. Temos inveja e somos generosos. Somos uma coisa e o seu contrário».

A história e os cobradores de fraque decretaram-nos da urgência de mudar. A delícia da inconstância é boa para salões e crédito, e uma tragédia para quem perdeu anéis e já só tem os dedos para oferecer.

Nesta perspectiva, ter Pedro Passos Coelho em São Bento é uma boa notícia. Ainda não completara os dez anos quando Salgueiro Maia e os capitães de Abril impuseram o fim do Estado Novo ao compasso da voz de Zeca Afonso. Com uma infância angolana, como Miguel Relvas, viu os pais lutarem com dificuldades e sacrifício para alcançar um futuro para os seus filhos.

Em 1974, e no regresso dos retornados nas célebres pontes aéreas de um ano depois, ninguém daria nada por aqueles miúdos de calções e, certamente, olhar assustado. Não passavam de brancos de segunda. Ressentidos e sem futuro.

Afinal, o futuro revelou-se de um outro modo. Como aliás sempre acontece. Os filhos conquistaram o poder. E uma parte de Portugal, tal como aconteceu com os seus pais, grita para que desapareçam, para que tenham vergonha na cara, para que nunca mais voltem.

O ressentimento tem sempre múltiplas faces, está em todo o lado e não é exclusivo de ninguém em particular. É democrático. Um património de todos. Infelizmente.

A História é uma maravilhosa caixa de surpresas, não é?

(fim)

Os meus comentários

1. Das minhas contas, o superlativo Luis mal havia deixado de usar as fraldas quando o Major Otelo (née em Moçambique como eu, mas não interessa) e os seus amigos organizaram o pronunciamento militar de 1974. Pouco mais tinha quando ocorreu a Descolonização. Portanto os julgamentos de valor reproduzidos na sua escrita ou resultaram de leituras feitas ou por via de emprenho pelos ouvidos. Penso que foi mais o segundo caso.

2. Todo o seu artigo está explicitamente estruturado na base de uma curiosa dicotomia, entre, por um lado, o “bom retornado”, bem comportadinho, trabalhador e caladinho, contemporizador, que vive e esquece ou finge que esquece; e, por outro lado, no “mau retornado”, habituado a viver à fartazana às costas do preto africano, injustamente ressabiado pelo fim do desmerecido bem bom que a Ditadura fascista lhe facultara e sedento de vingança por tudo ter perdido sem nunca receber um tusto – a que, claro, não tinha direito nenhum, pois por definição tudo o que fez e ganhou em África foi a roubar e indignificar o preto e a compactuar com o Fascismo.

3. Depois, inenarravelmente, vagamente sugere que meta a carapuça a quem ela couber (vide parágrafo a mordiscar Passos Coelho, actual primeiro-ministro e Miguel Relvas, um seu ministro, tão mercurial como medíocre).

4. Para mim é abundantemente claro onde o autor se situa e quer chegar e honestamente acho que fazer esta ginástica toda para cuspir para cima dos “angolanos” actual primeiro-ministro e o inenarrável Miguel Relvas, foi não só um exercício ineficaz, como a sua dialética de treco-lareco, que se resume mais ou menos a “filho de retornado também é retornado” – ou melhor, “filho da puta é tão puta como a mãe que o pariu” – simplesmente não vinga. Não temos aqui sucedâneo a um Queirós ou a um Pessoa.

5. Ora este tipo de considerandos e tentativa de pseudo-introspecção psicológica das motivações e weltaanschauung de P. Coelho e M. Relvas por interpostas pessoas, nesta caso as tais centenas de milhar de pessoas – e agora os seus filhos! – possivelmente arrisca insultar muito mais gente do que o Luis possa ter pensado quando se sentou em frente ao seu laptop HP há duas semanas para debitar a sua crónicazinha e assim receber o seu honorário, sendo que, auguro, certamente deve ter embatido nas espessas muralhas de uma total indiferença por parte de Passos Coelho e Relvas, que, como eu, provavelmente terão que ir ao Google ver quem o Luis possa ser, para tentar perceber o alcance do seu impropério.

6. Se calhar era essa a sua intenção.

7. Que é quase tão curial e apropriado como procurar culpar o Luis por alguma coisinha na vida ou atribuir-lhe alguma característica pessoal por ter sido filho de um comunista encartado “heróico” (não sabia que os havia) que morreu de sida. Hum, será…?

Não é, Luis?

8. Intenção essa, tese essa que, a confirmar-se, do que me lembro vagamente de me ter tentado dizer a Rita Garcia quando preparava o seu recente livro, também não é novidade.

Afinal, a História regista que os “culpados” pela Colonização, pela Política colonial de cem anos, não foi dos que estavam Cá, primeiro monárquicos, depois republicanos da primeira e segunda vaga, democratas, nacionalistas, fascistóides e afins.

Foi dos que foram estavam Lá, em África e noutros locais.

É isso?

9. Enquanto desastre nacional, em perto de 900 anos de maioritariamente desgraçada mas interessante história, a Descolonização ocorrida em 1974-1975, só se equipara no seu impacto a Alcácer-Quibir. E do que aconteceu a seguir, nas mãos dos tais dilectos e impunes Soares,  Cunhal, Almeida Santos, et al, Cá e Lá, os resultados estão hoje à vista (tira o já  dinheiro do banco se o tiveres, Luis, e guarda-o bem debaixo da cama, não vais gostar do que Democracia de Abril tem para te oferecer a seguir).

Que alguém como o Luis não o saiba, não o entenda, não o apreenda, não o contextualize, e muito menos empatize com os que sofreram os seus efeitos na pele (que inclui os milhões de africanos impactados pelos cerca de cem anos que durou a deslavada aventura africana, que era e sempre foi um projecto nacional português, nunca dos que para lá foram viver, que pouco ou nada tinham e nada riscavam) não surpreende nada.

10. Pois, segundo ele, mau Retornado é mau Retornado, E filho de mau Retornado é mau filho de mau Retornado.

11. O que surpreende é que, ao olhar para o Lixo da sua História, Luis erre de forma tão elementar e banalize tudo isso e toda uma miséria colectiva, humana e moral,  apenas para mandar uma reles, irrelevante, insonora, inodora, insípida, biqueiradazinha numa crónica de fim de semana e ainda por cima sem pontaria, a dois politicozecos de quem acontece não gostar.

24/03/2013

O CORREDOR DO ZAMBEZE E O FUTURO

Filed under: O Corredor do Zambeze, O Corredor do Zambeze — ABM @ 10:40 pm
A gigantesca, fenomenal bacia hidrográfica do Rio Zambeze, que apanha uma boa parte de Angola, toda a Zâmbia, todo o Malawi, quase metade do Zimbabué e uma boa parte de Moçambique.

A gigantesca, fenomenal bacia hidrográfica do Rio Zambeze, que apanha uma boa parte de Angola, toda a Zâmbia, todo o Malawi, quase metade do Zimbabué, partes da Namibia, Botswana, Tanzânia e uma boa parte de Moçambique.

Há dois temas que gostava de abordar à laia de introdução do texto em baixo, de autoria de Fátima Mello.

O primeiro é sobre o Rio Zambeze, ou seja, a sua bacia hidrográfica, que, para o Exmo. Leitor menos informado, pode ser vista em cima. Simplesmente dito, é gigantesca. Os moçambicanos gostam de mistificar o Zambeze e habitualmente despendem as suas duas linhas e meia sobre a enorme barragem que os portugueses fizeram (e essencialmente pagaram, antes de a “venderem” por tuta e meia a Moçambique). Só que o Zambeze não é um rio qualquer. Um pouco como outros rios que cortam o País de Oeste para Leste, na sua corrida para o mar, o Zambeze começa quase no outro lado de África e corre para Leste, descendo suavemente.

Só que África é um continente com uma plataforma continental bastante alta. Ou seja, quando chove muito nas suas bacias – que, como o nome indica, “recolhem” num ponto as águas que nelas caem- os rios não só se transformam em oceanos, como em oceanos difíceis de controlar. Mas não impossível, se bem que os custos desse controlo poderão cada vez ser mais postos em causa por razões ambientais e o impacto na flora e na fauna.

Mas, como já disse mais que uma vez, aqui residem os três eldorados moçambicanos para o futuro: água, terrenos agrícolas e energia hidroeléctrica. A atracção é quase fatal nestes dias que correm. Imune às preocupações, a elite política moçambicana, que quer ser a elite económica para os próximos cem anos, posiciona-se para recolher os lucros desses negócios previstos. Rapidamente.

Este foi o primeiro comentário.

O segundo comentário é digamos que de ironia política. Quando, mesmo antes do ditador português Salazar ter sido neutralizado por um AVC resultante duma queda, no final do verão de 1968, o seu governo anunciou a construção da barragem, então um projecto de uma envergadura nunca dantes vista numa colónia sob administração portuguesa, a Frelimo ainda do Dr. Mondlane reagiu contra. Meses depois o Dr. Mondlane foi assassinado e a Frelimo deu uma violenta guinada para o fosso do marxismo-leninista-maoista-pol-potista, a oposição expressa não foi só motivada pelo habitual argumento militar que opunha colonizador e colonizado. Fundamentava-se também na perspectiva totalmente delirante de que o vale do Zambeze seria colonizado por um milhão de colonos brancos (de onde viriam ainda hoje não se vislumbra) que tomariam as terras, destruindo as vidas de então mais que um milhão de pacíficos residentes naturais da região. O chamado Plano do Zambeze não era modernização: era o Colonialismo (com C grande) no seu pior e mais nefasto.

Fast forward quarenta anos e aqui temos nada menos que Moçambique gerido pela mesma Frelimo há quarenta anos seguidos, agora de fato Gucci e 4×4, o ex-guerrilheiro Armando Guebuza na presidência executiva e, graças a uma profícua reprodução, uns cinco milhões de pessoas que vivem ainda em abjecta miséria e doses substanciais de analfabetismo nas margens, na bacia do mesmíssimo Rio Zambeze. E qual é o plano de acção?

Os últimos cerca de 300 quilómetros do percurso do Rio Zambeze, na mira de mais mega-negócios da Elite.

Os últimos cerca de 300 quilómetros do percurso do Rio Zambeze, na mira de mais mega-negócios da Elite.

Leia-se então a nota de Fátima Mello, publicada no Wamphula Fax de 25.03.2012, repruduzida no fabuloso Macua Blogs e reproduzida aqui com profunda vénia, a propósito do chamado Corredor de Nacala, que é infimamente mais pequeno que o do Zambeze, mas que deixa adivinhar o que vai ser quando começarem os hidro e agro-negócios naquela região:

Os governos do Brasil, Japão e Moçambique estão iniciando a execução de um grande programa no norte de Moçambique, no chamado Corredor de Nacala, região que possui características físicas e ambientais muito similares ao Cerrado brasileiro. Apesar do padrão vigente de falta de informação às comunidades que serão afectadas ou, muito pior, da disseminação de informações distorcidas e contraditórias, o que se diz é que o ProSavana tem um horizonte de duração de 30 anos, abrangerá uma área estimada em 14,5 milhões de hectares nas províncias de Nampula, Niassa e Zambézia, onde cerca de 5 milhões de camponeses vivem e produzem alimentos para o abastecimento local e regional. As comunidades camponesas estão concentradas exactamente onde está prevista a chegada dos investimentos do ProSavana.

Apesar da ABC (Agência Brasileira de Cooperação) insistir na tese de que as críticas em curso decorrem de falhas de comunicação, o diálogo com organizações e movimentos sociais parceiros em Moçambique evidencia que o problema é mais grave: o Brasil está exportando para a savana moçambicana seus históricos conflitos entre o modelo de monoculturas em larga escala do agronegócio voltadas para exportação e o sistema de produção de alimentos de base familiar e camponesa.

Em recente divulgação de informações sobre o ProSavana em Maputo os responsáveis pelo programa apresentaram um mapa do Corredor de Nacala dividido em áreas que serão destinadas a atracção de investidores privados para “culturas de alto valor” e “clusters agrícolas” para a produção de grãos (entre eles a soja) pela agricultura “empresarial”, produção familiar de alimentos pela “agricultura familiar”, grãos e algodão pela “agricultura empresarial de média e grande escalas”, caju e chá pela “agricultura empresarial média e familiar”, e a “produção integrada de alimentos e grãos” por todas as categorias. Ou seja, a velha tese da convivência possível e harmónica entre os sistemas de produção do grande agronegócio e da agricultura familiar e camponesa, que no Brasil é fonte de intensos conflitos.

Enquanto os governos garantem que o programa trabalhará com a pequena produção camponesa em Moçambique, em 2011 a ABC ajudou a organizar a viagem de um grupo de 40 empresários da CNA (Confederação Nacional da Agricultura), da região do Cerrado, estado de Mato Grosso, para identificarem oportunidades de negócios no Corredor de Nacala. O presidente da Associação Mato-Grossence dos Produtores de Algodão (Ampa) afirmou que “Moçambique é um Mato Grosso no meio da África, com terra de graça, sem tanto impedimento ambiental e frete mais barato para a China”.

São inúmeras as notícias de imprensa que falam de uma reprodução em Moçambique do Prodecer, o desastre sócio ambiental implantado pela cooperação japonesa no Cerrado brasileiro, que expulsou populações tradicionais de seus territórios, abriu um oceano de monoculturas para exportação e inundou a região de agro-tóxicos.

Até agora se diz que o ProSavana terá 3 eixos: um de fortalecimento institucional e pesquisa; o segundo de montagem de um estudo base para a elaboração do Plano Diretor (a instituição escolhida para elaborar o estudo é a GV Agro); e um terceiro de extensão e modelos onde afirma-se que MDA, Emater entre outros actuariam a favor das demandas da sociedade civil de apoio aos pequenos produtores. Em resposta às demandas de entidades e redes como UNAC, ORAM,

ROSA, Plataforma de Organizações da Sociedade Civil de Nampula, MUGEDE, Fórum Terra, União Provincial de Camponeses de Niassa, Justiça Ambiental entre muitas outras por informações, acesso às versões do Plano Diretor em elaboração e que as comunidades camponesas sejam consultadas, as autoridades brasileiras afirmam que o Plano Diretor será divulgado da melhor forma possível quando estiver finalizado. Ou seja, um estudo com base na GV Agro está em elaboração sem que as entidades que representam os milhões de camponeses que vivem na região sejam sequer consultadas. Apenas receberão a informação quando o Plano Diretor estiver pronto. Eventos de lançamento de versões do Plano Diretor são realizados, visando transmitir alguma informação, mas não para um diálogo qualificado nem para colher demandas e propostas das organizações e movimentos sociais.

Conversando com camponeses ao longo do Corredor de Nacala fica claro que brasileiros e japoneses estão indo às comunidades para avisar que o ProSavana está chegando. Depois afirmarão que fizeram as chamadas consultas a sociedade civil. Isso que estão fazendo não é consulta; até agora o que existe é um grave problema de metodologia na definição dos conteúdos e dos interesses que serão atendidos pelo programa, que estão sendo definidos de cima para baixo, pelos governos e empresas interessadas.

Percorrendo o Corredor de Nacala fica muito claro o que afirmam as organizações e movimentos sociais de Moçambique: a região é toda povoada por comunidades camponesas, que com seus sistemas de produção em pousio cultivam milho (o principal alimento do país), mandioca, feijão, amendoim. Ali vivem, produzem, realizam suas festas, desenvolvem em seus territórios relações familiares e comunitárias. Na região vivem cerca de 5 milhões de camponeses.

As entidades e movimentos que os representam identificam a insegurança alimentar como um grande problema no país, e desejam que a produção de alimentos realizada pelo sistema da agricultura familiar e camponesa seja fortalecida. Suas propostas incluem crédito para o fortalecimento de sua produção, apoio à comercialização e compra da produção por preço justo, apoio às associações de pequenos produtores e entidades criadas pelas comunidades. Todos querem participar de programas que apoiem seus sistemas de produção. Depois de escutar e dialogar com eles ao longo do Corredor e ver suas esperanças de que o ProSavana poderia ir ao encontro de suas propostas, quando se chega a Nacala o choque é gritante: uma cidade tomada pela construção de uma gigantesca infra-estrutura de mega armazéns, portos (e um aeroporto construído pela Odebrecht) para exportar a produção da região.

Muitos problemas precisam ser enfrentados. O direito dos camponeses a terra é o principal. A Lei de Terras de Moçambique lhes dá o Direito de Uso e Aproveitamento da Terra (DUAT), que é pública. O direito de uso será concedido às empresas? Como ficará a situação dos camponeses? Como diz um membro da Plataforma de Organizações da Sociedade Civil de Nampula, do centro do Corredor até Nampula “não existe área com mais de 10 hectares de terra desocupada”. Em Niassa as entidades afirmam que a província é toda povoada, excepto nas montanhas, e que todo o Corredor onde está prevista a chegada do ProSavana é a área mais habitada.

Os governos admitem que haverá reassentamentos. As entidades estão vigilantes e mobilizadas para não permitirem mudanças contrárias aos interesses dos camponeses na Lei de Terras e na legislação sobre sementes que corre o risco de ser alterada para viabilizar o uso de transgénicos. Estão preocupados com o modelo de monocultivos em larga escala e intensivo em uso de agrotóxicos que conheceram quando visitaram o estado do Mato Grosso e a área do Prodecer.

Enquanto isso, realizam acções de resistência produtiva e de fortalecimento de alternativas, como é o caso do intercâmbio entre UNAC e MPA/Via Campesina sobre sementes nativas.

Há uma década por orientação do Presidente Lula, a política externa brasileira começou a se abrir ao diálogo com organizações e movimentos sociais. Com isso se fortaleceu a necessária disputa de rumos sobre a presença do Brasil no mundo, pois ela é o espelho da correlação de forças existentes em nossa sociedade. O caso do ProSavana é crucial para que as conquistas dos movimentos sociais do campo brasileiro a favor da segurança e soberania alimentar, traduzidas em programas de apoio a produção e comercialização da produção familiar e camponesa, sejam reflectidas na presença brasileira no Corredor de Nacala. Afinal, é disso que os camponeses e pequenos produtores precisam, no Brasil e em Moçambique, para se fortalecerem contra as injustiças sociais e ambientais e violações de direitos cometidas pelo modelo do agronegócio, para garantirem o direito a terra, a segurança e soberania alimentar da população.

Que a presença do Brasil em Moçambique fortaleça os direitos dos camponeses, e que assim o Brasil seja capaz de demonstrar na prática que sua crescente presença como actor global visa de facto, reduzir as desigualdades e fazer justiça.

(fim)

18/03/2013

MOÇAMBIQUE O TERCEIRO PIOR DO MUNDO EM DESENVOLVIMENTO HUMANO EM 2012

Filed under: IDH de Moç 2º Pior do Mundo em 2012 — ABM @ 7:19 pm

O que surpreende é como não se tiram ilacções do que aqui se reproduz, e que foi divulgado na passada 5ª feira.

O que o semanário Savana divulgou, num canto, na passada sexta-feira. Fiz uma pequena correcção.

O que o semanário Savana divulgou, num canto, na passada sexta-feira. Fiz uma pequena correcção.

 

O quadro indicando a progressão do índice de IDH entre 1980 e 2012. Qual é a parte de "o desempenho é miserando" que não se entende?

O quadro indicando a progressão do índice de IDH entre 1980 e 2012. Qual é a parte de “o desempenho é absolutamente miserando” que não se entende?

O resumo da análise feita ao desempenho de Moçambique pela UNDP. Só há dois países no mundo abaixo de Moçambique.

O resumo da análise feita ao desempenho de Moçambique pela UNDP. De um universo de 187 países, só há dois países no mundo abaixo de Moçambique.

 

Os principais indicadores de desenvolvimento humano dos moçambicanos em 2012. Creio que não incluem a "Princesa Milionária".

Os principais indicadores de desenvolvimento humano dos moçambicanos em 2012. Creio que não incluem a “Princesa Milionária”.

 

 

17/03/2013

A CEREJA NO TOPO DO IMPÉRIO

Filed under: A Cereja no Topo do Império — ABM @ 6:24 pm
Valentina da Luz Guebuza, uma das filhas do actual presidente da república de Moçambique.

Valentina da Luz Guebuza, uma das filhas do actual presidente da república de Moçambique.

O timing da peça, publicada em Agosto de 2012 na sul-africana Forbes, uma daquelas revistinhas marginais e mais ou menos irrelevantes que gostariam de fazer jornalismo à americana e reverberar de forma algo pedante e lambuzante o que as putativas novas elites andam a fazer a Sul do Trópico de Capricórnio, causou alguma impressão no habitual boçalismo sonâmbulo, provinciano e domingueiro da Maputo da pós-Independência, do pós-comunismo, do pós a Frelimo de braço no ar, agora transformada na algo problemática capital da Frelimo Imperial, na pré-fase do orgasmo gaso-petrolífero-carbonífero.

A peça obviamente causou alguma impressão a muita boa gente (a mera quantidade de vezes que me enviaram cópias assim o ilustrou) que mais não seja porque, aparte das habituais generalidades anónimas e irresponsáveis – no sentido em que, em surdina, acusam sem jamais apontar o dedo de forma consubstanciada a ninguém que não seja já um animal ferido- raramente emerge à superfície uma situação em que há um nome, uma face e uma história, relacionadas com a Elite, especialmente com a Primeira Família, a cereja no topo do cada vez mais complexo edifício frelimiano.

Provavelmente sem reflectir sobre o seu impacto na populaça que lê, Valentina Guebuza, uma filha do actual presidente dum país em que, malgrado as prometidas vastas riquezas, persiste em viver dos donativos e do acrescento cíclico das dívidas doméstica e internacional e no meio duma explosão de miséria sem precedente, ilustrou graciosa e tragicamente os mecanismos de como o Poder arrecada para si – e pelos vistos só para si – os negócios e as riquezas que à partida seriam, deveriam ser de e para todos, ou pelos menos negociados e acumulados por e para todos, não por fazerem algo de especial, mas apenas porque são quem são, estão onde estão, podendo mediar o poder soberano em proveito próprio.

Essa é também, muito pouco coincidentemente, a definição geral de corrupção.

Que na essência confronta uma questão moral, ou, quiçá neste caso, de falta, de moral pública e ética política.

O título e o início do texto de Emanuel Novais Pereira.

O título e o início do texto de Emanuel Novais Pereira.

Pois é praticamente impossível, neste caso argumentar que a jovem Tina não é o que é, ou pretende ser, simplesmente por ser filha de quem é, e de ter o apoio tácito associado ao estatuto de Próxima do Poder. E de facto parte integrante do plano de acumulação de riqueza desse Poder.

Um Poder executivo vastíssimo, do ponto de vista constitucional, exercido ambiciosamente desde o início com uma marcadíssima componente empresarial pessoal (veja-se a extensão que é conhecida aqui), cujo expoente coincidiu com a vigência de dois mandatos presidenciais.

Componente essa que, sendo o seu titular septuagenário, requer sucessão, sem a qual essa acumulação provavelmente não faria qualquer sentido.

Há quem cale e consinta e que nisso considere que se reflecte uma necessidade, a necessidade de um País possuir uma classe empresarial que, não existindo historicamente, há que ser criada, o mais rapidamente possível, a qualquer custo. Penso que tal é uma perversão moral do nacionalismo, um argumento que meramente procura justificar o esbulho efectuado.

Mas há quem o aceite.

Ou ainda há quem ache que afinal a sua natureza rapaz (de rapacidade) seja afinal o curso normal para Moçambique e até o que se observa noutras sociedades próximas, onde o fenómeno do enriquecimento de outra forma inexplicável das pessoas relacionadas com o Poder eleito ocorra, sem que nada nem ninguém o pare, ou sequer o comente abertamente, sem que nenhum mecanismo legal, constitucional, social ou moral, ou ainda a pressão dos media, se faça sentir.

E quem cala consente.

Ou ainda haja quem sinta que Aquele que supostamente Libertou o País tem, por falta de melhor termo, o direito ao seu Espólio, a quase qualquer custo.

É a Síndrome do Libertador, uma espécie de fatalidade africana, pós-colonial, que parece que tudo permite e tudo sanciona, e que exige a permanente e perpétua demonização do cada vez mais remoto e irrelevante passado.

Mas terá mesmo esse direito? Será mesmo assim? Será mesmo moralmente justo, culturalmente justificado, socialmente aceitável, politicamente comportável, no Moçambique actual, o enriquecimento súbito e quase inexplicável (a não ser através da corrupção, do exercício da troca de influências e das informações privilegiadas entre a Elite) como se alega ser o caso na África do Sul do ANC? O destroçar incongruente do Estado e da sociedade zimbabweana para obtenção de pecúlio por parte dos próximos do Sr. Robert Mugabe?

É Moçambique a próxima Angola? o próximo Zimbabué?

Será moralmente sancionável que Valentina, uma filha de Armando Guebuza, agora coagida com nada menos que Celso Correia para Membros do Comité Central da Frente de Libertação de Moçambique, de facto, a próxima Princesa Milionária de Moçambique? a próxima Isabel?

A próxima Guebuza? Multi-milionária aos 32 anos?

É esta a visão para o Moçambique do Século XXI?

Penso que não. Creio que Moçambique deve obediência a um imperativo moral mais elevado que este.

Como alguns outros, tenho alguma dificuldade, ao observar as gritantes carências e antever os titânicos desafios que os moçambicanos enfrentam no futuro, em constatar estas manifestações, que deixam transparecer a sobreposição do interesse próprio sobre o do Bem Comum, o exercício do Poder Imperial quase ilimitado para criar uma bolsa de riqueza pessoal que bordeja o insalubre e que é pouco consentâneo com a realidade geral do País.

Poder esse que, em sede própria, praticamente permanece incólume, intocável e intocado por uma massa dócil, deferente e acrítica, constituindo, a prazo, a maior ameaça ao surgimento e afirmação dos elementos constituintes da liberdade e de mecanismos democráticos na sociedade moçambicana.

E aí, o exemplo deve vir de cima.

03/03/2013

COMO SE ENFRENTA UMA CATÁSTROFE ECONÓMICA E SOCIAL EM PORTUGAL, 2013

Filed under: A grande crise de 2013, Politica Portuguesa — ABM @ 4:46 pm
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Realmente se este povo não existisse, teria que ser inventado.

19/02/2013

LOUIS ARMSTRONG E SAINT LOUIS BLUES EM MOÇAMBIQUE, 1971

A capa do disco de 33 rotações, dos anos 50, de Louis Armstrong, baseado num documentário feito pelo grande Ed Murrow.

A capa do disco de 33 rotações, dos anos 50, de Louis Armstrong, baseado num documentário feito pelo grande Ed Murrow.

Tive alguma sorte em ter tido o pai que tive. E uma das sortes foi, em boa parte por causa dele, ter crescido numa casa com livros bons para ler, o que me ajudou a criar o hábito de ler, que considero útil, mas também de poder conhecer e aprender a apreciar boa música. Descobri pela primeira vez, na casa que os meus pais alugavam na Polana, em Lourenço Marques – hoje Maputo, a capital de Moçambique – o prazer da música clássica e do jazz. Beethoven, Sinatra, Debussy, Gounot, Bizet, Louis Armstrong e Walter Wanderley, todos estavam disponíveis, num monte de discos de 33 rotações, que eu ia descobrindo e podia tocar num velho gira-discos que ligava ao velho rádio Telefunken do Pai Melo, anos antes de uma pequena bolha de prosperidade ter possibilitado a evolução para um sistema de stereofonia.

É sobre Louis Armstrong que eu queria escrever umas linhas. Aos dez anos de idade já conhecia vários dos seus discos e simplesmente adorava ouvir as suas baladas, que eram para mim autênticos hinos. Mas não só. A sua presença no filme Hello Dolly, com Barbra Streisand, que vi algumas vezes pendurado no camarote do lado direito do Cinema Scala, na baixa, e ouvi depois dezenas de vezes em casa, quando mais tarde consegui adquirir o disco, e ainda o impacto do que acabou por ser talvez um dos sucessos maiores e mais inesperados da sua carreira – What a Wonderful World – que saiu em 1968, tudo isso representava um dos grandes prazeres da vida de então para mim, alheio às vicissitudes e dramas que poderiam rodear uma já de si despreocupada pré-adolescência. Louis Armstrong foi o único artista por quem eu alguma vez chorei, quando, na primeira semana de Julho de 1971, soube pelo Rádio Clube que tinha falecido. Foi tragicómico, eu com 11 anos choroso o dia inteiro, a família toda a interrogar-se o que é que se passava comigo (típico, quando finalmente, e em confidência, pensava, revelei a causa da minha tristeza à Mãe Melo, toda a família e arredores se pôs a gozar comigo, o que me deixou revoltado).

De longe, para mim o símbolo e o expoente dessa era de descoberta e deslumbramento musical é a canção cuja gravação reproduzo em baixo, contida num disco que o Pai Melo tinha em casa, e que ainda tenho guardado volvidos estes anos todos, e que descobri por acaso esta noite que uma alma caridosa colocara no Youtube. E que deixo aqui como registo. Trata-se talvez do maior dos hinos do velho jazz americano, Saint Louis Blues, composto numa noite (supostamente) por W. C. Handy.

Aqui gravado ao vivo no Lewisohn Stadium em Nova Iorque em 14 de Julho de 1956, por nada menos que Louis Armstrong e a sua banda de então, os All Stars, acompanhados pela Orquestra Sinfónica de Nova Iorque, dirigida pelo incomparável Leonard Bernstein. Na audiência, sentado à frente, nada menos que o próprio W.C. Handy, então com 83 anos e já cego.

Absolutamente sublime.

27/01/2013

OS HERÓIS VALENTES E IMORTAIS: QUEM VERDADEIRAMENTE GANHOU COM O ESTADO SOCIALISTA, 1974-2008

Filed under: Os Heróis Valentes e Imortais — ABM @ 8:21 pm

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Há ainda demasiada gente em Portugal que simplesmente não entende, nunca entendeu, o que é que aconteceu que levou Portugal à falência em meados de 2009 e, subsequentemente, “forçou” o governo do dia, e o que se seguiu, a tomarem medidas predatórias para extorquir os dinheiros necessários para pagar as contas e ainda para sustentar os bancos falidos e suportar o rol de projectos de infra-estruturas que foram uma espécie de marca do Estado Socialista a partir do final dos anos 80.

Mais interessante, e quiçá mais importante, praticamente ninguém entende para onde foi o dinheiro.

Ou melhor, para o bolso de quem foi.

E como.

Os senhores em baixo – Paulo Morais e Pedro Bingre – no algo surpreendente fórum que é a sede da Associação 25 de Abril em Portugal, explicaram praticamente tudo o que interessa no dia 6 de Dezembro de 2012.

No conjunto, o que referem é, no fim do dia, o contabilizar dos débitos e dos créditos de um regime, e a manipulação de um país por uma elite, que, apesar de tudo o que se possa suspeitar, permanecem intocados.

É a história de uma elite parasita que a tudo recorreu, recorre e recorrerá, simplesmente para sacar o seu, preferencialmente em troco de nada, e que há 193 anos seguidos que põe e dispõe de uma nação para encher a sua barriga e a dos seus.

E, para a sanidade mental e informação dos exmos. Leitores desta Casa que se interessam por estas coisas, aqui coloco, e exorto a terem a paciência de ver e ouvir.

O que eles disseram. de uma forma tão inquestionávelmente clara, é quase chocante, não se tratasse isto de falar de Portugal, onde tudo parece ser possível.

A sua apresentação vem em cinco partes. Vejam e aprendam. Não custa nada.

PARTE 1 DE 5

PARTE 2 DE 5

PARTE 3 DE 5

PARTE 4 DE 5

PARTE 5 DE 5

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