THE DELAGOA BAY REVIEW

25/06/2018

SOBRE O 56º ANIVERSÁRIO DA FRELIMO

Filed under: 56º aniversário da Frelimo, Eduardo Mondlane — ABM @ 9:41 pm

Em 56 anos, um balanço. Na língua oficial de Moçambique.

 

1962. A antítese colonial.

 

2018. A antítese pós-colonial.

 

Eduardo Mondlane, opus cit

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01/06/2018

PICCANINNIES VEM DE PEQUENINOS?

Filed under: Pickanninny ou Pequenino — ABM @ 11:21 pm

Hoje, 1 de Junho de 2018, é assinalado como o Dia Internacional da Criança. Nem de propósito, um Exmo. Leitor Especial contactou-me para apontar algo que eu já havia lido mas que na altura não fazia a mínima ideia do que significava.

Veja o Exmo. Leitor estas imagens de Lourenço Marques e da Beira, no início do Séc. XX, e em especial as legendas.

 

Postal de Lourenço Marques, início do Século XX. A tradução inglesa refere-se às crianças na imagem como piccaninnies.

Picc article Beira.jpg

Postal da Beira

Picc Article Lazarus

Postal dos Lazarus, Lourenço Marques.

Confesso que nunca tinha ouvido falar deste termo, picaninies, que surge aqui num dos postais como tradução para “crianças indígenas”. Mas mesmo aí supus que não tivesse significado ou conotação especial.

Mas nem sempre é assim. O termo inglês/boer kaffir, em português “cafreal”, que penso que inocentemente, no caso português, descreve um não cristão, e que sobreviveu quase inocentemente na culinária moçambicana como uma forma de grelhar frangos (a galinha à cafreal do Piri-Piri em Lourenço Marques era famosa), na vizinha África do Sul tanto afectou a maioria negra pela sua natureza insultuosa e uso pelos brancos locais (supostamente, os boers), que, após o fim do regime de minoria branca em 1994, a sua utilização foi decretada crime com direito a prisão e tudo.

Em vários postais de Moçambique da primeira fase da era colonial africana, invariavelmente a tradução para o termo “indígena” ou “preto”, é kaffir.

No primeiro caso, o tal de piccaninny, como me enganei quanto ao seu significado. Como felizmente hoje pode-se fazer uma consulta rápida na internet, digitei a palavra “piccaninny” e descobri que:

  1. em quase todo o mundo anglófono, incuindo os Estados Unidos da América, a Austrália e Nova Zelândia, é um termo considerado profundamente ofensivo e racista, pelos visados, e é geralmente dirigido a não-brancos;
  2. Em vários países (muitos outros, incluindo vários países africanos, das Caraíbas, etc) o termo piccaninny parece manifestar-se de várias formas;
  3. poderá ter origem na palavra portuguesa “pequenino”, que no Século XIV se escrevia “pequeninno”. Há quem refira que a origem possa ser na língua castelhana. Entre uma e outra versão, penso que a origem portuguesa poderá ser mais credível, se bem que, quem como eu, constata esta situação pela primeira vez, surpreende pela (longa e complexa) evolução etimológica, numa língua estrangeira, de um significado à partida aparentemente inocente, para um insulto racista. Há evidências, no Século XVIII nos Estados Unidos, de o termo significar, literalmente, qualquer coisa pequena, não apenas crianças. Mas esse significado eventualmente perdeu-se. Ficou o insulto. Na língua portuguesa, definitivamente, pequenino não retém estas comotações.

Tão recentemente como há dois anos, quando Boris Johnson, o actual e algo estapafúrdio ministro dos negócios estrangeiros do Reino Unido, terá proferido a palavra algures , daí resultou uma verdadeira tempestade de críticas e acusações de racismo.

Isto porque, descobri, o tal termo “piccaninny”, é usado há centenas de anos no mundo anglófono para rotular essencialmente, por britânicos (e americanos e afins) miúdos não brancos, depreciativamente.

Se de facto o termo teve origem na língua portuguesa (falta fazer esse estudo pelos entendidos nesta língua, que pelos vistos estão a dormir) há quinhentos anos, seria uma improvável herança dos tempos em que os portugueses andavam por aí no mundo a descobrir sítios para fazer negociatas e tentarem enriquecer depressa.

Pessoalmente, não tenho a impressão que esses portugueses antigos fossem particularmente racistas, no sentido em que tal seria, obviamente, mau para os negócios nem o registo das primeiras sortidas pelo mundo o comprova. Aliás, sendo entre os primeiros europeus a chegarem a tantos lugares pelo mundo, deve ter sido qualquer coisa de insólito aquilo que viram e aquilo com que tiveram que lidar, sem terem, inicialmente, qualquer preparação para tal. Eram, notoriamente, adversários de muçulmanos, que aliás reciprocavam à letra em relação aos cristãos. Mas isso era comum em quase toda a Europa desde o fim da Idade Média, a braços com uma guerra religiosa – e comercial – que duraria centenas de anos e que, segundo alguns, ainda não está totalmente resolvida.

O significado último da abertura da rota marítima para a Índia e o Oriente em redor de África foi que assim foi neutralizado o “bloqueio” do Médio Oriente muçulmano entre a Europa e aquela parte do mundo. Os portugueses simplesmente cortaram o papel intermediário dos árabes e muçulmanos e ganharam fortunas incontáveis no processo (quase tudo desperdiçado pelas elites em guerras, porcarias e na boa vida). A partir daí a experiência descambou para, em muitos casos, o aproveitamento das estruturas da escravatura que encontraram em África (que eram, note-se  quase exclusivamente africanas e árabes muçulmanas), a exploração de sociedades ainda fragmentadas em tribos, primitivas e tecnologicamente inferiores e a pilhagem organizada, pura e dura.

Tirando a extracção do ouro do que é hoje o Brasil, os portugueses não enriqueceram particularmente com a coisa. Os verdadeiros campeões foram os britânicos, os holandeses, os franceses, os espanhóis os belgas e as comunidades judias. Pois foi desta longa e vasta investida para fora da Europa que se constituíram as bases para o surgimento do que veio a seguir: a criação de uma enorme reserva de riqueza, a formação das estruturas do capitalismo, da exploração científica e da acumulação do conhecimento que eventualmente estiveram na génese de, inicialmente no Reino Unido, da Revolução Industrial.

E do mundo que temos hoje.

 

 

13/05/2018

A TERRA EM MOÇAMBIQUE É DO POVO E NÃO PODE SER VENDIDA

Filed under: A Terra Não Pode Ser Vendida em Moç — ABM @ 7:25 pm

Uma página no portal do governo de Moçambique refere o seginte:

Entretanto, vejo este anúncio num site de vendas de Moçambique:

Anúncio que li no OLX Moçambique de final de Março de 2018, para a venda de um hectare de terreno no Aterro da Maxaquene por 12 milhões de dólares, negociável.

O PROCESSO CONTRA MANUEL VICENTE EM PORTUGAL TRANSFERE PARA ANGOLA

Filed under: Manuel Vicente 2018 — ABM @ 7:06 pm

 

Manuel Vicente.

 

Editorial do diário lisboeta Público, assinado por David Dinis, 11 de Maio de 2018, depois de ser conhecida a decisão, por um tribunal em Lisboa, autorizando a transferência, para um tribunal angolano, do processo contra Manuel Vicente, ex-Vice-Presidente de Angola, por corromper um magistrado português, pagando-lhe 760 mil euros para arquivar outro processo. O processo contra o magistrafo, que se chama Orlando Figueira, prossegue entretanto em Portugal. Existe em Lisboa a expectativa de que a seguir portugueses e angolanos caiam nos braços um dos outros e que o futuro comum seja novamente róseo.

O QUE DISSE MARIA BARROSO

Grato ao MCB e à CC.

Samora e Graça Machel, o então casal presidencial da República Popular de Moçambique, recebem Mário Soares, então primeiro-ministro de Portugal, e a sua mulher Maria Barroso, no Aeroporto de Mavalane em Maputo, sexta-feira, 31 de Agosto de 1984, para uma visita oficial de quatro dias. O bit de trivia acontecido no fim dessa viagem segue em baixo.

 

O episódio relatado a MCB pela grande Maria Barroso, nos anos 90.

08/05/2018

DHLAKAMA DELENDA EST

Filed under: Afonso Dhlakama 1953-2018 — ABM @ 12:50 am

Eles sempre acharam que, algum dia, de alguma forma, depois de tentarem tudo e mais alguma coisa, sem nunca desistirem, haveriam de conseguir.

 

Afonso Dhlakama, 1 de Janeiro de 1953 – 3 Maio de 2018.

 

A resposta vem doutro tempo, doutro contexto.

20/04/2018

O CASO EMATUM DE JOSÉ SÓCRATES

Filed under: José Sócrates, O CSO Ematum de Sócrates — ABM @ 1:39 am

O Ministério Público português agiu.

17/11/2017

O PLANO 8 DE SETEMBRO

Filed under: O Plano 8 de Setembro — ABM @ 1:49 am

Talvez o episódio mais mal contado da história mais mal contada, relacionada com a entrega, pelas então autoridades portuguesas (essencialmente, os militares que mandavam em Portugal na sequência do golpe de Estado militar ocorrido em 25 de Abril de 1974) do poder central à Frente de Libertação de Moçambique, no dia 20 de Setembro de 1974, foi o que aconteceu a seguir. Essencialmente, os líderes da guerrilha e o governo então empossado em Lourenço Marques, ressabiados pelo que sucedera na Cidade durante quase uma semana, principiaram um processo deliberado de assédio, de perseguição, de confisco e de desconfiança total, visando a sua saída do então ainda território português. Para além de tudo o mais, e que não era pouco, a “revolta radiofónica” em Lourenço Marques, nas suas mentes, “provara” que os portugueses e os brancos de Moçambique nunca poderiam e nunca seriam de confiar. E nunca serviriam (nisso acredito que correctamente) nem alinhariam com o que estariam a planear fazer em seguida no nascente país. Portanto, a perseguição que lhes foi movida, a todos os níveis, de todos os quadrantes, foi uma política deliberada, para os forçar a irem embora, preferencialmente sem nada.

A todos os títulos, a política adopstada foi um sucesso duradouro. A saída dos brancos e portugueses de Moçambique foi maciça, propiciando o colapso da economia e lançando Moçambique para o futuro atribulado que se seguiu.

As autoridades portuguesas a tudo assistiram imperturbadas.

Com vénia a um blogue que visitei recentemente, cito uma peça saída no jornal O País (Maputo) em 23 de Abril de 2009, em que, reportando-se a uma peça da Lusa, refere, na primeira voz, as impressões colhidas por um alto diplomata soviético que testemunhou as ocorrências no local e na altura.

A visão Soviética da expulsão dos Portugueses em 1975: “Samora tratou os portugueses de forma dura”

Diplomatas soviéticos, que deram início às relações diplomáticas entre a URSS e Moçambique, criticaram a política de Samora Machel face à população portuguesa branca, sublinhando que, nesta área, o antigo presidente moçambicano se comportou de forma semelhante ao ditador soviético José Estaline.

“De forma dura, tal como Estaline, foi como Samora Machel tratou os portugueses que viviam em Moçambique. Muitos deles receberam com entusiasmo os combatentes pela independência, quando entraram em Lourenço Marques, e estavam prontos a cooperar de todas as formas com a Frelimo”, escreve Piotr Evsiukov, primeiro embaixador soviético em Moçambique, em “Memórias sobre o trabalho em Moçambique”.

Também aqui se revelou o extremismo de Samora Machel.

“Samora apresentou aos portugueses condições tais de cidadania e de residência em Moçambique de modo a que, na sua esmagadora maioria, eles se sentiram obrigados a abandonarem o país. Com a fuga dos portugueses, a economia de Moçambique entrou em declínio”, recorda.

Piotr Evsiukov revela que Samora Machel era um convicto admirador de José Estaline. “Samora Machel falou-me várias vezes do seu apego e respeito por José Estaline. Durante a visita oficial de uma delegação de Moçambique à URSS, Samora Machel terminou a viagem na Geórgia [local de nascimento de Estaline]. Depois das conversações com Eduard Chevarnadzé, Sérgio Vieira, membro da direcção da Frelimo, veio ter comigo e pediu-me, em nome do presidente, para arranjar um retrato de Estaline. Claro que os camaradas georgianos satisfizeram o pedido com agrado”, escreve Evsiukov.

Arkadi Glukhov, diplomata soviético que chegou antes de Evsiukov para abrir a embaixada da URSS em Lourenço Marques, escreve: “Após o fim da segunda guerra mundial, Lisboa, tendo diante de si os exemplos da queda dos impérios coloniais da Inglaterra e da França, enveredou pela via da reforma intensa do seu sistema colonial, nomeadamente no campo das relações entre raças da política social e cultural“.

Tudo isso foi levado à prática na chamada política de ‘assimilação’, cujos rastos sentimos com evidência quando chegámos a Moçambique”. Porém, continua o diplomata soviético, “esses rastos começaram a desaparecer rapidamente, principalmente depois da entrada em Lourenço Marques das unidades militares da Frelimo e da intensificação das medidas e de todo o tipo de limitações (frequentemente inventadas) contra a população portuguesa, não obstante, em geral, ela ser leal e estar pronta a cooperar com os novos poderes”.

Segundo Glukhov, “no fim de contas, isso levou à partida em massa dos portugueses do país, o que se reflectiu de forma grave na sua vida económica e aumentou a tensão nas relações entre raças”.

08/11/2017

100 ANOS DE INFÂMIA E 50 ANOS DE MOÇAMBIQUE

Completam-se hoje – dia 7 de Novembro de 2017 – cem anos em que, num golpe palaciano, o radical comunista russo Vladimir Lenine assumiu o controlo do império russo e instaurou uma ditadura comunista. Esse regime, que praticaria as mais inenarráveis barbaridades, viria a durar, formalmente, cerca de 73 anos e a sua história divide-se em duas partes. A primeira, decorre desde este golpe até ao final da II Guerra Mundial, sendo nesta fase o alvo das atenções da ditadura comunista os povos do antigo império russo. A segunda, decorre desde o final da II Guerra Mundial e estende-se até ao final dos anos 80, quando o regime finalmente implodiu, sendo no entanto substituído pelo que parece ser um novo regime autoritário.

É na segunda fase do percurso comunista soviético que a coisa se torna verdadeiramente interessante para o resto do mundo. Tendo abocanhado metade da Europa à laia de espojo de guerra, a União Soviética, uma formidável e mortífera máquina de repressão, acha em si a motivação para confrontar o Ocidente, até então o dono virtual de quase tudo (exceptuando os Estados Unidos, a então nova superpotência) ferido de morte pela evolução das sociedades e pela quase absoluta devastação de duas guerras fratricidas no espaço de 30 anos.

Começou pela Ásia, onde, providencialmente, já decorria uma longa guerra civil entre Mao e Chiang, vencida pelo primeiro em 1949. Seguiram-se muitas outras oportunidades de “libertar” povos, frequentemente com o apoio de países que já constituíam – seguindo o rito soviético – “zonas libertadas da humanidade”.

África – e Moçambique – não seriam excepção. Mas os soviéticos (e, depois, os chineses) chegaram relativamente tarde. Em meados dos anos 60, bem ou mal, a maioria dos países africanos já era nominalmente independente.

Excepto, notavelmente, os territórios sob administração portuguesa, administração essa, por sua vez, sob o controlo de um regime curiosamente autoritário e de partido único, sob a gestão uninominal do sublime e enigmático Dr. António de Oliveira Salazar, para quem o desígnio nacional passava precisamente por deter essas colónias, no que, à primeira vista, parecia ter o suporte dos portugueses. Mas não se sabe bem pois não havia muito debate sobre o assunto. Era uma ditadura e quem não concordasse ia dentro.

Pesem os relatos mais ou menos dourados que agora está na moda citar, os primeiros independentistas moçambicanos eram mulatos aburguesados dos arredores de Lourenço Marques, nos anos 20 e 30, cultos e abertos ao mundo, que claramente viam o que estava para vir. Ficaram os escritos, os poemas e os relatos.

Na segunda metade dos anos 50, começou a efectivamente a história moderna de Moçambique independente, quando um punhado de activistas negros de Moçambique se mobilizou para constituirem grupos de pressão com o objectivo de concretizarem a almejada independência, numa altura em que era por demais evidente que os anos 60 seriam a década das independências e que de repente já havia dinheiro para estas coisas. Até os americanos limparam a toalhinha imperial e se lembraram que também foram uma colónia e que tinham algures no seu DNA uma matriz anti-colonial. Mas, por mais bem intencionados que fossem, a maioria eram grupos regionais, tribais, étnicos, metade do tempo chocavam uns com os outros e aquilo simplesmente não funcionava, para delírio do regime português, uma vez que Salazar obviamente achava que iria levar mais 200 anos para se atingir a “maturidade”, como supostamente levou o Brasil, mais ou menos um Bragança. Até para os regimes comunistas (por sua vez racistas inveterados mas encapotando tudo sob a áurea ideologia socialista) que viam no fenómeno do desmoronamento dos antigos impérios europeus uma oportunidade dourada para conquistar terreno e influências, a conflitualidade era ingerível, tornando quase inexequíveis esquemas de apoio a uma guerrilha.

Importa realçar que a independência de Moçambique tem três figuras incontornáveis, apenas, e nesta ordem: 1. Julius Nyerere; 2. Marcelino dos Santos; e o Dr. Eduardo Mondlane.

Nyerere

Julius Nyerere é pouco estudado, infelizmente, pois é uma figura paradigmática no que concerne o seu país e em relação a Moçambique. Muito do que sucedeu à Frelimo se deve à sua perspectiva e intervenção – e tiques ideológicos. Primeiro uma colónia alemã e depois britânica, entre 1919 e 1962, Nyerere era um professor quando ascendeu à liderança do Tanganhica em Dezembro de 1962. Já antes liderava o principal movimento pela independência, que lhe foi fleugmaticamente entregue pelo último governador e a sua mulher (há um filme excelente desse dia na internet). Na altura, já andavam várias pessoas e “movimentos” pelo Norte (no Sul estavam os Rodesianos e os Sul-Africanos, pouco predispostos a suportar independências africanas). Durante algum tempo, Nyerere assistiu à cena enquanto tentava ligar-se a Zanzibar, e basicamente impôs a ideia que um movimento em favor da independência do território vizinho teria que ser só um. Sendo a Tanzânia o santuário desse movimento, ele podia impôr as regras.

Mas faltava um líder.

Julius Nyerere preside a uma reunião em Dar, em 1974, aquando da visita de um grupo de notáveis de Lourenço Marques. À esquerda vê-se Samora e o Sr. José Craverinha, à direita Marcelino e Malangatana.

E não havia um, apesar de já se conhecer Mondlane, uma lenda num país de essencialmente camponeses analfabetos e desesperadamente pobres.

(Nyerere gastaria os anos 60 e parte dos anos 70 com teorias comunizantes como a Ujamaa e flirts dictatoriais).

Mondlane

Nessa altura, Eduardo Mondlane, que se educara a pulso com o apoio da Missão Suíça, entre outros, tinha 40 anos, casara com uma americana branca meio pimba (casamentos entre raças naquela altura eram um evento, especialmente nos Estados Unidos, onde o casal vivia). Era um professor universitário com uma vivência americana e parecia inclinado para fazer uma vida pacata com a sua Janet.

Mas dois eventos alterariam isso radicalmente.

O primeiro foi o impacto, em Eduardo, de uma visita que fez a Moçambique em 1961 (ele era de Manjacaze, um bastião com memórias vívidas das derrotas do tempo de Mouzinho). Se para a pequena comunidade branca e portuguesa a sua passagem foi notada (ele foi o primeiro negro de Moçambique a doutorar-se) a comunidade mulata e negra ficou siderada. Alto, belo, corajoso, erudito – e um deles. Este era o líder que faltava.

O Dr. Eduardo Mondlane. Um intelectual e um académico.

Mas Eduardo não estava convencido que isso era o que queria fazer na vida. Na altura ainda não se falava em guerra mas a perspectiva de passar anos a tentar tirar teimas com o regime português, que dava todos os sinais de querer resistir a sequer discutir autonomia, não lhe parecia ser o melhor plano. Ainda assim, com algum mexer dos cordelinhos por parte de alguns padrinhos americanos “progressistas” que nele viam o potencial de vir a liderar uma nova nação em África, arranjou um emprego na ONU em Nova Iorque.

Segundo o próprio Nyerere – e este foi o segundo evento seminal – é precisamente durante uma visita de Julius Nyerere a Nova Iorque para reuniões anuais, que eles se encontram e Nyerere desafia Mondlane para liderar uma organização unificada de moçambicanos, baseada no seu país. Mondlane aceita ir a Dar es Salaam para ver se está interessado. O resto é história.

Marcelino

Não questionando os sentimentos nacionalistas de ninguém, a meu ver “o” primeiro moçambicano “de gema” foi Marcelino dos Santos. Marcelino foi realmente o primeiro a articular a gíria da independência, o primeiro a pressintir ser aquele o momento histórico para agir, pois enquanto os “outros” futuros líderes seguiam percursos mais ou menos convencionais, ele, que nascera e crescera em Lourenço Marques, filho dum casal remediado, foi parar a Paris no início dos anos 50. A sua experiência, conhecimentos e contactos, adquiridos na capital francesa, seriam de valor incalculável no futuro. Ele não só tinha a visão estratégica mas também os contactos e a forma de chegar à logística para de facto fazer alguma coisa. E fazer fez.

Marcelino poderia e deveria, por mérito próprio, liderar directamente o combate para a independência, quer diplomaticamente, quer no terreno (ele era fisicamente corajoso, algo que o Dr. Mondlane simplesmente não era). Mas tinha um problema insanável: era mulato (casado com uma sul-africana branca e judia de Joanesburgo, a encantadora Pamela) o que era quase universalmente tido como um obstáculo intransponível para um movimento que pretendia galvanizar um país cuja população era 98% negra e cujos membros de base eram todos negros. A raça com que nascemos tem estas coisas. Durante todo o seu longo percurso político, apesar de ser o cérebro do movimento, Marcelino será o eterno Número 2. Mas um Número Dois Imprescindível. Aceitou a liderança de Mondlane e mais tarde, com o apoio do então jovem Joaquim Chissano, orquestrou a ascendência de Machel, na sequência do (a meu ver) inexplicável e suspeito assassinato do Dr. Mondlane.

Alberto Chipande e Marcelino durante os bons velhos tempos da ditadura comunista de partido único, em que se mandava matar pessoas e se legislava por decreto. Marcelino está no fim da vida. Chipande ainda é hoje um kingmaker.

Marcelino tinha outro aspecto que o distinguia: era tanto como nacionalista como um professo e implacável comunista da velha escola, o que, de facto, o favorecia: historicamente, os países comunistas foram aliados sólidos da luta anticolonial. Mondlane não era anti-comunista no sentido em que tinha que engolir sapo após sapo para obter a ajuda “oferecida” pelos países comunistas, de que necessitava desesperadamente, mas de resto, efectivamente, preferia mil vezes liderar uma Frelimo suportada pelo Ocidente e pelos americanos, num contexto de implantação de um regime supostamente mais convencional e – digamos – democrático. Só que os americanos, a partir mesmo de Kennedy, driblados por Salazar com as Lajes, cortaram-lhe as pernas. Ainda assim, a mulher dele, Janet, fez os impossíveis para obter ajuda não militar dos países escandinavos, especialmente da Suécia, com algum sucesso.

Mas fez pouca diferença. Na verdade, quem pagava a conta da guerrilha, quem formava os quadros, quem controlava as coisas, quem impunha a disciplina e vendia a ideologia, eram os países da órbita soviética e chinesa. Com Marcelino a promover os contactos e (presumo) a gozar com os “amigos” de Mondlane, que falavam muito e bem mas nada faziam em relação aos portugueses e limitavam-se a dar umas bolsinhas de estudo, era uma questão de tempo até que acontecesse uma situação em que Mondlane ficaria isolado na sua perspectiva. Em 1969, ideologicamente, a Frelimo tornou-se efectivamente uma organização com uma matriz marxista-leninista, que foi a base ideológica de tudo o que veio a acontecer a seguir.

Em 1974, o Ano Zero da Independência para a Frelimo, independência e comunismo eram sinónimas. O nascente país saíria directamente de uma ditadura colonial para uma ditadura comunista primária, com toda a linguagem, folclore e instrumentos repressivos associados.

E isso traz-nos de volta ao início deste artigo. Muita gente ainda não distingue entre um país se tornar independente e o regime sob o qual ascende a essa independência. Claramente, ela existe. E se por um lado os apoios dos países comunistas apressaram ligeiramente o momento da sua independência, ela veio contaminada por uma ideologia, e as instituições a ela associados, que causaram danos de proporções titânicas a um povo já de si empobrecido e pouco apto a enfrentar os desafios da modernidade. Após uma série de guerras, de uma guerra civil que matou um milhão de pessoas e destruiu as vidas de milhões, e de variadas reformas tendentes a devolver a Moçambique às supostas práticas normais de qualquer país, a herança da estrutura mental do comunismo permanece e pesa sobre toda a nação moçambicana, mantendo-se na prática a dialéctica política do exercício do poder via um partido único e a ausência “activa” do mero conceito de pluralismo. Moçambique hoje é um dos países mais pobres do mundo, com um curioso punhado de ricos, metade indianos, metade membros da nomenclatura da Frelimo.

Penso que, apesar das diferenças, nem Mondlane nem Marcelino alguma vez sonhariam que as coisas iriam acabar assim.

 

26/10/2017

PRINCE MASHELA REFLECTE SOBRE A ÁFRICA DO SUL E ÁFRICA, 2016

Filed under: Jacob Zuma, Prince Mashela e Zuma — ABM @ 1:51 am

Jacob Zuma, o actual presidente da África do Sul.

O texto que se segue é da autoria de Prince Mashela, um interessantíssimo intelectual sul-africano (um xitsonga natural de Mpumalanga) e foi publicado no sítio na internet do jornal Sul-africano The Sowetan em 9 de Maio de 2016.

O Centro para a Política e a Pesquisa (CPR), uma organização sul-africana, descreve assim o autor, que é o seu actual Director Executivo:

Prince Mashela holds a Master’s Degree in Political Science from Rhodes University, South Africa. Before becoming Executive Director of CPR, he was Head of Crime, Justice and Politics Programme at the Institute for Security Studies. He also worked as a speechwriter in The Presidency, and also in the research unit of the Institute for Democracy in South Africa. Prince cut his teeth as a researcher at the Institute for Global Dialogue, where he spent time analysing a range of areas on contemporary African politics. He is a prolific writer on a multiplicity of issues, and he is a sought-after analyst.

O artigo focaliza na actuação e atitude do actual presidente sul-africano, Jacob Zuma, mas também do eleitorado sul-africano.

Aqui, a minha tradução do artigo, a primeira vez que pode ser lido em língua portuguesa, seguida pelo texto original,  que Prince Mashela escreveu em inglês:

ÁFRICA DO SUL FINALMENTE AFRICANA, GRAÇAS A ZUMA

No meio da confusão política que tem cativado a atenção do nosso país, muita gente se tem interrogado se nós chegámos ao fim da África do Sul.

A resposta é simples: aquilo a que se chama um “fim” não existe, não quando nos referimos a um país. A África do Sul vai continuar a existir muitos anos depois de Jacob Zuma se ter ido embora.

O que Zuma fez foi fazer-nos constatar que o nosso é apenas mais um país africano, não aquele país excepcional situado no extremo Sul do continente Africano.

Durante os mandatos de Nelson Mandela e de Thabo Mbeki, alguns, entre nós, costumavam acreditar que o povo negro da África do Sul era melhor que o dos outros países Africanos.

Nós temos todos que agradecer a Zuma por nos revelar o nosso verdadeiro carácter africano; que a ideia de que a força das leis [rule of law] não faz parte daquilo que somos, e que o constitucionalismo é um conceito muito distante de nós enquanto Povo. Senão como é que nós conseguiríamos explicar as milhares de pessoas que enchem estádios inteiros para aplaudir um presidente que violou a constituição do seu país? estas pessoas não fazem ideia do que é o constitucionalismo.

Agora que nós conquistámos o nosso estatuto de sermos apenas mais um vulgar país africano, temos que reflectir e lidar com a realidade desse nosso verdadeiro carácter, e imaginar como é que o nosso futuro será.

Num país Africano típico, o cidadão médio não espera muito dos seus políticos, porque se cansa das repetidas promessas que não são cumpridas.

Num país Africano típico, as pessoas não têm quaisquer ilusões quanto à simbiose entre moralidade e boa governação. O povo sabe que aqueles que detêm o poder, utilizam-no para seu proveito próprio e para o dos seus amigos e familiares.

O conceito de que o Estado é um instrumento para apoiar o desenvolvimento do Povo é um conceito Ocidental, e que tem sido copiado por alguns países Asiáticos.

Os Africanos e os seus líderes não gostam de copiar nada do Ocidente. Ficam felizes de permanecerem Africanos e de fazerem as coisas “à moda Africana”.

Fazer as coisas à moda Africana significa o uso autocrático do poder por reis, chefes e indunas, à base de regras que não estão escritas em papel. Já alguém alguma vez viu um livro de leis tradicionais Africanas?

A ideia que um cidadão comum possa expressar dúvidas ou pôr em causa os dinheiros públicos gastos na casa de um rei ou chefe, não é Africana. Os membros do ANC no Parlamento Sul-Africano e que têm defendido Jacob Zuma são verdadeiros Africanos.

Exigir-se que um líder preste contas é um conceito estrangeiro – Ocidental. Numa situação em que haja conflitos entre o líder e as leis do País, os Africanos simplesmente mudam as leis, para proteger o líder. É por isso que não há um único branco que tenha exigido que o Rei Dalindyebo fosse libertado da prisão.

O problema com os “pretos espertos” é que eles pensam que vivem na Europa, onde os conceitos da democracia foram afinados ao longo de séculos.

O que nós temos que fazer é regressar à realidade nua e crua, e aceitar o facto que o nosso é um típico país Africano. Esse retorno à realidade vai-nos proporcionar uma perspectiva aproximada de como parecerá o futuro da África do Sul….

Este país não se parecerá muito com a Dinamarca. Possivelmente, será mais semelhante à Nigéria, onde os activistas contra a corrupção são a excepção.

Sendo o nosso um país Africano, não se parecerá com a Alemanha. A África do Sul poderá assemelhar-se mais com o Quénia, onde o tribalismo é o factor central nas disputas políticas.

As pessoas não podem alimentar a ilusão de que o dia chegará quando a África do Sul se parecerá como os Estados Unidos da América. O nosso futuro será mais como o do Zimbabué, onde um líder detém mais poder que todo o resto da população junta. Mesmo que Julius Malema viesse a ser presidente, ainda assim seria a mesma coisa.

Os líderes Africanos não gostam da ideia de haver uma população educada, pois é difícil governar gente inteligente. Os próprios Mandela e Mbeki foram corrompidos pela educação Ocidental (Confissão: este colunista também foi corrompido por essa educação). 

Zuma permanece Africano. A sua mentalidade alinha com a do Boko Haram. Ele desconfia das pessoas educadas; aqueles a quem ele apelida de “pretos espertos” [clever blacks]. Lembrem-se, Boko Haram quer dizer “Contra a Educação Ocidental”.

As pessoas que pensam que nós chegámos ao fim da África do Sul não estão cientes que na realidade nos chegámos ao começo de um verdadeiro país Africano, distante das ilusões Ocidentais de sermos a excepção em África. Os que se sentem perturbados por este genuíno carácter Africano precisam de ajuda. O melhor que podemos fazer por essas pessoas é pedir-lhes que observem ali a Norte do rio Limpopo, para descobrirem mais sobre o que é boa governação em África.

O que torna as pessoas mais nervosas sobre o futuro da África do Sul é que elas estão a pensar baseadas em modelos Ocidentais, esquecendo-se que o nosso país é Africano.

A ideia de que um presidente pode ser demitido porque um tribunal tomou uma decisão contra si é Ocidental. Só o Primeiro-Ministro da Islândia é que faz isso; Líderes Africanos jamais o farão.

Analisando cuidadosamente a noção de que a África do Sul está a chegar ao “fim” é a expressão de um sistema de valores Ocidental – de prestação de contas, de moralidade política, do contraditório, etc.

Todos estes são conceitos vindos de Sócrates, Kant, Hegel, etc. Eles não são Africanos.

Todos nós temos, então, que agradecer a Jacob Zuma por nos revelar a verdadeira República Africana da África do Sul, não um qualquer posto avançado de valores Europeus.

(fim)

A versão original:

SA finally African, all thanks to Zuma

In the midst of the political confusion that has gripped our country, many people are wondering if we have come to the end of South Africa.

The answer is simple: the thing called an “end” does not exist, not in relation to a country. SA will be there long after Jacob Zuma is gone.

What Zuma has done is to make us come to the realisation that ours is just another African country, not some exceptional country on the southern tip of the African continent.

During the presidency of Nelson Mandela and Thabo Mbeki, some among us used to believe that the black people of SA are better than those of other African countries.

We must all thank Zuma for revealing our true African character; that the idea of rule of law is not part of who we are, and that constitutionalism is a concept far ahead of us as a people.How else are we to explain the thousands of people who flock to stadiums to clap hands for a president who has violated their country’s constitution? Such people have no idea of constitutionalism.

Now that we have reclaimed our place as another African country, we must reflect on and come to terms with our real character, and imagine what our future portends.

In a typical African country, ordinary people don’t expect much of politicians, because people get tired of repeated empty promises.

In a typical African country, people have no illusions about the unity of morality and governance. People know that those who have power have it for themselves and their friends and families.

The idea that the state is an instrument for people’s development is a Western concept, and has been copied by pockets of Asian countries.

Africans and their leaders don’t like to copy from the West. They are happy to remain African, and do things “the African way”.

The African way is rule by kings, chiefs and indunas in a setting of unwritten rules. Is there anyone who has seen a book of African customary laws?

The idea that a commoner can raise questions about public money spent on the residence of a king is not African. The ANC MPs who have been defending Zuma are true Africans.

Asking a ruler to be accountable is a foreign – Western – idea. In a situation where there is conflict between a ruler and laws, Africans simply change the laws to protect the ruler. This is why no single white person has called for King Dalindyebo to be released from jail.

The problem with clever blacks is that they think they live in Europe,where ideas of democracy have been refined over centuries.

What we need to do is to come back to reality, and accept that ours is a typical African country. Such a return to reality will give us a fairly good idea of what SA’s future might look like…..

This country will not look like Denmark. It might look like Nigeria, where anti-corruption crusaders are an oddity.

Being an African country, ours will not look like Germany. SA might look like Kenya, where tribalism drives politics.
People must not entertain the illusion that a day is coming when SA will look like the US. Our future is more on the side of Zimbabwe, where one ruler is more powerful than the rest of the population. Even if Julius Malema were to become president, it would still be the same.

African leaders don’t like the idea of an educated populace, for clever people are difficult to govern. Mandela and Mbeki were themselves corrupted by Western education. (Admission: this columnist is also corrupted by such education.)

Zuma remains African. His mentality is in line with Boko Haram. He is suspicious of educated people; what he calls “clever blacks”. Remember that Boko Haram means “Against Western Education”.

The people who think we have come to the end of SA don’t realise that we have actually come to the beginning of a real African country, away from the Western illusions of exceptionalism. Those who are unsettled by this true African character need help. The best we can do for them is to ask them to look north of the Limpopo River, to learn more about governance in Africa.

What makes most people restless about the future of SA is that they have Western models in mind, forgetting that ours is an African country.

The idea that a president can resign simply because a court of law has delivered an adverse judgment is Western. Only the Prime Minister of Iceland does that; African rulers will never do that.

Analysed carefully, the notion of SA coming to an “end” is an expression of a Western value system – of accountability, political morality, reason, and so on.

All these are lofty ideas of Socrates,Kant, Hegel, and so on. They are not African.

All of us must thank Jacob Zuma for introducing us to the real African Republic of South Africa, not some outpost of European values.

 

07/10/2017

SOBRE A EFICÁCIA DA VIOLÊNCIA NO CONTROLO SOCIAL, POR JOSÉ JAIME MACUANE

José Jaime Macuane, nascido em Maputo, trabalha na Universidade Dr. Eduardo Mondlane e publicou este texto em 6 de Outubro de 2017, na sequência do assassinato de Mahamudo Amurane, um político Macua, Presidente da Municipalidade de Nampula pelo Movimento Democrático de Moçambique (do qual se distanciara ultimamente) no dia 4 de Outubro.

Desenho de João Augusto Silva, na capa de Grandes Chasses – Tourisme dans l’Afrique Portugaise, publicado em 1937 em Lisboa pela editora Ática.

O texto de JJM, ligeiramente editado por mim:

A Eficácia da Violência no Controlo Social

Na ciência política, o Estado é apresentado como a forma moderna encontrada para a coordenação da acção colectiva em grande escala pelos seres humanos, na prossecução dos seus objectivos.

A principal finalidade do Estado é a garantia da vida, da qual decorrem outras finalidades, como o bem-estar socioeconómico, a justiça e outros que aqui podem ser enumerados.

Quando um Estado não garante a segurança dos seus cidadãos (entenda-se a vida) e os coloca a viver sob o medo da morte súbita e violenta, esse estado (isso mesmo, com letra minúscula) está a dar sinais de falência e a comprometer a sociedade mesmo, sendo mais minimalista, o futuro dos grupos ou classes que o controlam.

Não há países que não tenham crimes, incluindo os violentos. Aliás, a violência é um traço dos conflitos recorrentes entre os seres humanos. A forma como os Estados lidam com a violência diz muito sobre a sua capacidade de coordenação da acção colectiva numa sociedade. O sociólogo alemão Max Weber definiu isso de uma forma emblemática, quando chamou o Estado a entidade que reclama para si o monopólio do uso legítimo da violência dentro de um território. Certamente existem outras discussões sobre o Estado e sobre a violência, que não vou aqui discuti-las por não ser o fórum certo. Mas, que eu saiba, nenhuma coloca o risco à vida dos indivíduos que formam o corpo politico como aceitável na legitimação do Estado.

Um Estado que permite que seus agentes e outros profissionais da violência possam apossar-se dos meios coercivos e usá-los de forma (aparentemente) desregrada, atentando contra a vida dos seus cidadãos, até pode servir os interesses de certos grupos que o controlam num determinado momento, mas, depois de algum tempo, enfraquece-se e torna-se inútil, mesmo para a defesa dos interesses estreitos de alguns grupos que possam ter ganhos decorrentes dessa violência, porque perde a legitimidade para reivindicar o tal monopólio legítimo de uso da força.

A forma recorrente como o estado moçambicano “se revela incapaz” de esclarecer os crimes violentos envolvendo figuras políticas, contribui para a perda de confiança na sua capacidade de garantir a vida e, no limite, as pessoas podem começar a procurar outras formas de proteger as suas vidas. Já apresentei a minha perspectiva sobre isso, de que é uma forma de controlo social pelo medo.

Mas o medo tem uma particularidade: ele só é eficaz para os que continuam vivos e os que esperam que em algum momento as suas vidas melhorem, caso se “comportem” e ajam como os que controlam a violência implícita e explicitamente exigem. Em situações em que a violência se combina com a falta de perspectivas de melhoria das condições de vida, como em contextos onde a economia política deixa pouco espaço para o progresso individual e colectivo fora de certas estruturas, com destaque para as políticas, tenho sérias dúvidas de que o estrito controlo pela violência seja efectivo por longos períodos de tempo.

Moçambique me parece estar a ter essa combinação, a de um Estado que de forma crescente se revela ineficaz na protecção da vida (exemplo, além dos crimes de conotação política, as ondas de crimes nas zonas urbanas), ao mesmo tempo que aumenta a percepção de que as possibilidades de progresso fora da esfera política são mínimas e o estado se encontra cada vez mais fraco para prover bens público básicos, dentre os quais serviços sociais, um bom clima económico e a segurança.

Assassinar figuras como Mahamudo Amurane, que para alguns representavam a centelha da possibilidade de num Estado que funciona, pode até ter ganhos de curto prazo para os mandantes deste crime hediondo. Mas, a longo prazo (talvez até menos, dada a situação de crise “de quase tudo” em que vivemos), os que recorrem à violência como mecanismo de controlo social terão que enfrentar uma sociedade cada vez menos propensa a vergar perante a repressão.

Por outras palavras, o efeito da repressão no controlo social terá graus de eficiência e eficácia marginal cada vez mais decrescentes. O que quer dizer que devem investir cada vez mais recursos na violência e na repressão e com resultados cada vez mais fracos. Até porque ao apostarem no investimento na violência, estarão a deixar de usar recursos para outras áreas que reforçariam a ordem política, como a economia, por exemplo, e no fim nem recursos para investirem nessa violência existirão. Claro que estou a dizer isso pensando que temos pessoas que pensam a longo prazo, o que não parece ser o que acontece neste meu país. Mas o que me parece cada vez mais claro é que o projecto de controlo da sociedade através da violência não tem pernas para andar, porque é um projecto de curto prazo. Os que acham que podem continuar a recorrer à violência para controlar a sociedade, perante um Estado complacente e às vezes cúmplice, devem-se preparar para batalhas muito mais duras no futuro, porque estão a contribuir para enfraquecer aquilo que mais prezam na sua estratégia: o medo da morte e a esperança de algum bem-estar, quando não se incomoda às pessoas erradas.

Ora, numa situação em que cada vez mais a vida é incerta, as perspectivas de melhoria das condições de vida minguam e a violência parece estar fora do controlo, destrói-se as bases do controlo pelo medo. E também da legitimidade do Estado, a entidade de controlo por excelência. Deste modo, no futuro, terão que lidar com muitas pessoas desesperançadas por um Estado que parece que não as protege e não cria condições para perspectivas de progresso futuro.

Os protestos populares em Nampula em reacção ao assassinato de Mahamudo Amurane podem ser apenas um microcosmo da revolta pela esperança roubada, mas também poder ser uma amostra do que as pessoas, quando roubadas a esperança de um Estado possível podem fazer.

Há que se ter cuidado quando se retira a esperança às pessoas.

Já dizia Sun Tzu: “Numa batalha, não encurrale o inimigo. Deixe sempre uma saída. Senão, não lhe restará outra alternativa a não ser lutar pela própria vida. Então, cada soldado inimigo valerá por dez dos seus”.

(fim)

 

António Rita Ferreira, o genial analista da realidade social, antropológica e política de Moçambique, recentemente falecido, uma vez me disse que, no dia em que os Macuas, ainda impactados pela sua cultura de matriz matrilinear e história de um relativo pacifismo, despertassem e se organizassem, que o curso da história de Moçambique se alteraria por completo em relação àquilo que se tem feito, dito e escrito desde as eras pré-colonial, colonial e pós-colonial, em que o foco e a determinação dos eventos se centrou no Sul da antiga colónia e em duas etnias relativamente minoritárias.

 

Fonte: FB de JJM, 6 de Outubro 2017, 12:24 horas

26/08/2017

BUSTO DO GENERAL MACHADO INAUGURADO EM LISBOA EM 2017 – VINDO DE MOÇAMBIQUE

Filed under: História, Joaquim José Machado 2017 — ABM @ 2:08 am

Parte do texto e imagens foram obtidos e reproduzidos com vénia do sítio da Câmara Municipal da Cidade de Lisboa. Para ver a fonte, prima aqui.

 

O busto do General Joaquim José Machado, inaugurado numa rua de Lisboa em Fevereiro de 2017, na praça que também tem o seu nome.

Há uns meses, o sítio da Câmara Municipal de Lisboa noticiou o seguinte:

Lisboa, 10 de Fevereiro de 2017 – O presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, acompanhado pela vereadora da Cultura, Catarina Vaz Pinto, e pelo presidente da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica, António Cardoso, inaugurou o busto do general Joaquim José Machado, no largo, com o mesmo nome do homenageado, em Benfica. 

Na cerimónia, Fernando Medina sublinhou o momento como uma “justa homenagem a um homem que honrou e valorizou a memória de Portugal bem como da cidade de Lisboa” falando do seu percurso de vida e carreira política do general Joaquim Machado.

Como representante da família, o embaixador Manuel Lobo Antunes proferiu algumas palavras sobre o seu bisavô e de como seria uma figura muito querida e motivo de orgulho para todos os seus. Manuel Lobo Antunes explicou ainda que, o busto, da autoria do escultor António Augusto da Costa Mota, esteve durante muitos anos na embaixada portuguesa em Maputo e que foram necessários muitos esforços e a ajuda fundamental da autarquia para que a obra chegasse a Lisboa e ficasse junto à casa do seu avô.

Alguns dos descendentes de Joaquim José Machado e seus amigos, quem incluem António Lobo Antunes, o Embaixador Manuel Lobo Antunes e ainda o Presidente da Câmara Municipal da Cidade de Lisboa.

O general Joaquim José Machado, nasceu em Lagos a 24 de setembro de 1847 e morreu em Lisboa a 22 de fevereiro de 1925. Em 1876 é promovido a capitão e logo escolhido, pelo então Ministro da Marinha e Ultramar, João de Andrade Corvo, para participar numa das duas grandes expedições, que o ministro organizara para empreender o fomento e valorização das colónias de Angola e Moçambique. 

Neste contexto, foi responsável, em 1877, pelo planeamento do traçado do caminho-de-ferro de Lourenço Marques a Pretória, projeto do qual foi encarregado pelo presidente da República do Transvaal, Paul Kruger. Empreendeu, igualmente, a construção de uma ligação ferroviária entre Moçâmedes e a Província de Bié, em Angola.

Reconhecido como Comendador e Grande-Oficial da Ordem Militar de Avis, Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada e Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo, recebeu ainda diversas homenagens em Portugal, Angola e Moçambique.

(fim)

Um curto vídeo do evento:

E ainda aqui um interessante comentário de António Lobo Antunes, bisneto do General.

E aqui um resumo minimalista do seu percurso que compilei em 2012.

Independentemente da sua capacidade e genialidade e sucessos nas missões que desepenhou, Joaquim José Machado é e fará sempre parte de um restrito nome de personalidades cujo impacto na formação do que é hoje Moçambique e é simplesmente incontornável, porque foi bom. A sua família, e quem como eu o estudou minimamente, têm razões sólidas para apreciar este gesto. A sua obra e percurso merecem estudo e conhecimento.

Se eu tivesse que apostar, diria que o busto deve ter vindo ou dos antigos Caminhos de Ferro de Moçambique ou da antiga Escola Preparatória General Joaquim José Machado. Como foi parar à embaixada Portuguesa em Maputo deve ser uma história interessante. E possivelmente incontável.

15/08/2017

MEMORANDO SOBRE O PRIMEIRO COMBATE DA FRENTE DE LIBERTAÇÃO DE MOÇAMBIQUE, 25 DE SETEMBRO DE 1964

Filed under: Alberto Chipande — ABM @ 7:21 pm

Material original guardado na Torre do Tombo em Portugal.

Trata-se de um memorando secreto, datado de 12 de Dezembro de 1967 e originado pelos serviços de inteligência das forças militares portuguesas, situados em Porto Amélia (actualmente, Pemba), que traduz e depois comenta um relato publicado em Agosto desse ano pela Frente de Libertação de Moçambique num seu orgão de propaganda externa em língua inglesa – Mozambique Revolution – que terá sido da autoria de Alberto Chipande e que até esta data é identificado, em Moçambique, como tendo sido o iniciador da guerrilha contra as autoridades coloniais portuguesas, liderando um ataque na localidade de Chai, em Cabo Delgado, no dia 25 de Setembro de 1964, uma sexta-feria, data afixada no calendário (e no imaginário) moçambicano como feriado nacional.

O comentário de quem analisou e assinou o documento indica que a versão oficial e oficiosa do evento, tal como foi apresentada e tem sido mantida pela Frente de Libertação de Moçambique, é completamente falsa.

Um conhecido refrão da Frente de Libertação de Moçambique, indicando que afinal a Independência em 1974 era apenas uma etapa na revolução que a sua liderança de seguida encetaria no nascente país.

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SAMORA MACHEL E RONALD REAGAN: O ENCONTRO NA CASA BRANCA, 19 DE SETEMBRO DE 1985

Filed under: Encontro Reagan Machel 1985 — ABM @ 6:45 pm

Video publicado pela Biblioteca Ronald Reagan em Janeiro de 2017. Quase hilariante, se se conhecer bem o contexto para ambas as partes naquela altura.

 

22/03/2017

O MOZABANCO E O ERRO DE PARALAXE

Filed under: Como vender o Mozabanco, Economia de Moçambique — ABM @ 11:10 pm

Artigo com vénia para o Matias Guente e o Canalmoz, que se publica em Maputo, da sua edição de 22 de Março de 2017 e que constitui uma referência a reter. A imagem em baixo e o título (que era para ser “Moza Laden”) são meus.

Nota

“Erro de paralaxe” é um erro que ocorre pela observação errada na escala de graduação causada por um desvio optico causado pelo ângulo de visão do observador. Pode ocorrer em vidrarias como buretas, provetas, pipetas, etc. Por exemplo, quando é necessário medir um volume na proveta, se você não observar o menisco de um ângulo que faça o menisco ficar exatamente na altura dos seus olhos, você poderá ter uma medida errada e, portanto, um erro de paralaxe, podendo obter uma medida maior ou menor que a correta, dependendo do ângulo de observação. (fonte: Wikipédia)

O texto (minimamente editado por mim):

A batalha final pelo “Moza” e o potencial conflito de interesses de João Figueiredo

Termina amanhã, quinta-feira, [23 de Março de 2017] o prazo de 60 dias que os accionistas do banco “Moza” têm para injectar os cerca de 8,1 mil milhões de meticais para a recapitalização do banco intervencionado em finais Setembro de 2016 pelo Banco de Moçambique.

Até às zero horas de amanhã, os accionistas perdem a prerrogativa de encontrar um parceiro, e o Banco de Moçambique poderá colocar o banco na praça. É pouco provável que haja um milagre de última hora por parte da “Moçambique Capitais”, o maior accionista do “Moza”, que lhe permita encontrar o dinheiro para mostrar a Rogério Zandamela, tal como haviam prometido fazer na decisão que tomaram a 23 de Janeiro em Assembleia-Geral. É quase certo que o único banco genuinamente moçambicano e sem casa-mãe no estrangeiro terá mesmo de ser vendido, e muito provavelmente a estrangeiros, para a sua recapitalização.

Face à pressão do tempo, há também um forte “lobby” nos corredores do Banco de Moçambique daqueles que já marcaram posição para adquirir o “Moza”. Perfilam-se factores que tornam o “Moza” bastante cobiçado: com cerca de 7% da quota de mercado, uma rede de cerca de 50 agências, infra–estruturas modernas e um sistema informático considerado como dos melhores no mercado nacional, 700 trabalhadores, dos quais 99% são moçambicanos, o “Moza” conseguiu, em menos de oito anos de actividade, colocar-se em quarto lugar num “ranking” de dezanove bancos comerciais. É uma questão de injectar dinheiro e olear a máquina, que os carretos engrenam sozinhos.

Segundo apurou o de fontes do Banco de Moçambique estão neste momento com papéis para adquirir o “Moza”: a empresa “Atlas Mara”, de Bob Diamond (que entrou em desinteligências com a “Moçambique Capitais”, numa primeira abordagem do negócio); Eddie Mondlane (filho de Eduardo Mondlane); o “Barclays” (que tem Luísa Diogo como Presidente do Conselho de Administração); a “Société Generale” (da França); um banco malawiano; e um banco marroquino.

O caso curioso de João Figueiredo

Um outro interessado na aquisição do “Moza” é o banco BIC, de Isabel dos Santos (filha de José Eduardo dos Santos, Presidente de Angola) e Américo Amorim (o magnata português da indústria corticeira). E é justamente aqui onde está o problema. Américo Amorim é sócio de João Figueiredo no “Banco Único”, onde Figueiredo já foi Presidente do Conselho de Administração, mantendo actualmente uma quota considerável das acções do banco. João Figueiredo foi nomeado pelo Banco de Moçambique como Presidente do Conselho de Administração provisório do “Moza” na noite de 30 de Setembro. Sendo accionista do “Banco Único”, Figueiredo é praticamente concorrente do “Moza”. O que agrava esta situação de aparente conflito de interesses é o facto de João Figueiredo, na sua qualidade de Presidente do Conselho de Administração provisório do “Moza”, ser também Presidente da Comissão de Avaliação das propostas de recapitalização do “Moza”, que foi criada pelo Governador do Banco de Moçambique, Rogério Zandamela.

João Figueiredo estará, assim, à frente de todo o processo da recapitalização do “Moza”, incluindo o escrutínio dos próximos órgãos sociais do banco. À comissão presidida por Figueiredo também foram conferidos poderes de decidir quem serão os próximos accionistas maioritários do “Moza”. É uma situação curiosa em que o árbitro poderá ser o jogador.

O Canalmoz tentou contactar João Figueiredo, mas todas as nossas tentativas foram infrutíferas. Para já, a situação está a criar um mal-estar generalizado entre o Banco de Moçambique e a “Moçambique Capitais”, a ainda dona do “Moza”, que não vê com bons olhos, sob o ponto de vista ético, a posição de João Figueiredo.

(fim)

FALECEU HELENA DAVIDSON, UMA GRANDE SENHORA DE LOURENÇO MARQUES

Filed under: Helena Davidson, História Moçambique — ABM @ 12:11 am

Helena Davidson

Transcrevo a mensagem gentilmente cedida por Rodrigo Alexander Davidson de Sousa-Pinto, neto de Helena Davidson:

Apesar dos 98 anos (feitos no hospital, no passado dia 13) da nossa queridíssima Mãe, Avó e Bisavó, nenhum de nós estava preparado para a deixar partir. A sua grandeza, presença, amor e generosidade eram de tal forma presentes e radiantes, que apesar de absolutamente gratuitos nos deixam um vazio que não sabemos nem podemos preencher. Mas, através do seu exemplo, aprenderemos a aceitar e, talvez, imitar.

Para além da certeza de que se encontra já a contemplar a face de Cristo e da Sua Mãe Santíssima, na feliz companhia de todos os familiares e amigos que já partiram, acrescentamos uma espécie de consolo na seguinte ideia expressa ontem entre nós:

Despite Avó’s age, we weren’t ever really ready to let her go. How sad it is to think of our lives from now on without Avó being physically present. On the other hand, Avó also deserves a rest from us (the living family, ever so demanding of her presence, her advice, her listening and her love), and to join her beloved departed. I am undoubtedly sure that they are now having a welcome party for her and Grandpa has already arranged for the choirs of angels to sing “Cheek to Cheek “ and “Tea for Two” (Avó’s favourites) and asked Avó to dance with him to those tunes.

De forma a podermos reunir a família dispersa por tantos pontos do globo, tivémos de atrasar o funeral da Avó, pelo que não teremos velório. Assim, informamos que celebraremos as cerimónias na seguinte data e local:

DATA: quarta-feira, 22 de Março de 2017

LOCAL: Capela Mortuária da Igreja de Nova Oeiras

ACOLHIMENTO: 14h00

MISSA DE CORPO PRESENTE: 15H00

ENTERRO: Segue para o Cemitério de Oeiras

Aos que quiserem e puderem estar presentes, agradecemos. Aos que não puderem estar, pedimos a vossa oração pela Avó e por todos os que já partiram (na certeza de que estará ela agora orando por todos nós).

Abusando da vossa paciência, deixo em abaixo a nota de falecimento dirigida à Cruz Vermelha Portuguesa:

Ao Excelentíssimo Senhor

Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa,

Excelência,

É com o maior pesar que informo, porque julgo ser do interesse da Cruz Vermelha Portuguesa, o falecimento da minha Avó materna, ocorrido sábado passado 18/03/2017, pelas 19h00 no Hospital de São Francisco Xavier, em Lisboa, cinco dias depois de ter celebrado o seu 98º aniversário natalício.

A minha Avó, D. MARIA HELENA de Melo Castelão Feijó d’Almeida Fontes DAVIDSON, nascida em 13/03/1919, foi a última Presidente da Secção Feminina da Cruz Vermelha Portuguesa em Moçambique (Lourenço Marques), Presidente da Sociedade de S. Vicente de Paulo em Lourenço Marques, co-fundadora do “Abrigo dos Pequeninos” também em Lourenço Marques, entre tantas outras actividades que toda a vida a orientaram ao serviço dos outros.

Tendo feito parte da sua escolaridade na África do Sul e casado com o meu Avô, sul-africano de origem escocesa e irlandesa, nunca esqueceu as suas origens portuguesas, das quais fazia questão em colocar a par com a sua condição de Moçambicana de Portugal (foi para Moçambique aos 8 anos de idade onde Pai, Dr. César d’Almeida Fontes havia sido colocado como professor e aberto consultório médico). Com excepção do período escolar (1927/1930) e dos cerca de 13 anos (1943/1956) em que viveu entre Durban e East London na África do Sul (onde o marido esteve profissionalmente colocado antes de a companhia de navegação que dirigia relocalizar-se para Moçambique), viveu sempre em Lourenço Marques até 1976, embora deslocando-se à Europa de quando em vez.

Tendo-se dedicado de coração cheio ao serviço dos outros e daquela terra, em nome das suas convicções pessoais, religiosas e nacionais, foi um exemplo de acertividade, persistência e dedicação que lhe valeram ter sido agraciada em 1973 com o grau de Comendador da Ordem de Benemerência, atribuída pelo Senhor Presidente da República e em 1990 com a Cruz Vermelha de Benemerência pela Cruz Vermelha Portuguesa.

Acompanhou no desempenho das funções que exercia como Presidente da Secção Feminina da Cruz Vermelha, os conturbados acontecimentos em Moçambique, desde a Guerra Colonial ao processo de independência e momentos que se lhe seguiram, com perigo para a própria integridade física. Aí se lhe conheceram extraordinárias acções no desempenho das suas funções, desde a participação em operações de evacuação de feridos a visitas a prisões e relatórios sobre as respectivas condições, entre tantas outras. Ao mesmo tempo, sempre na procura de auxiliar os mais necessitados, fazia editar o “Livro das Coisa Boas”, uma compilação de receitas de culinária (ainda hoje nos escaparates e em tantas cozinhas portuguesas), cujos proventos deveriam reverter a favor das obras da Sociedade de São Vicente de Paulo (Vicentinas).

Após a saída de Moçambique, em 1976, fixou residência em Bedfordview, Joanesburgo, na África do Sul, onde de imediato se juntou ao corpo de voluntárias no Hospital Central.  Aos 60 anos, pela primeira vez na vida, teve que arranjar emprego remunerado, tendo aos 67 anos de idade decidido jovialmente ir tirar um curso de contabilidade.  A par do trabalho remunerado, manteve sempre actividade voluntária em dedicação ao próximo, nunca descurando o seu papel e presença de Mulher, Mãe, Avó e Bisavó.

Finalmente, aos 94 anos de idade, já viúva há 14 anos, resolveu vir para Portugal definitivamente, após 86 anos de vida em África. Aqui, continuou na medida das suas possibilidades a prestar serviço aos outros, ajudando como voluntária no Centro Paroquial der Oeiras, onde ia dar o almoço aos “seus velhinhos” (todos mais novos!), o que fez alegremente até Dezembro passado, com 97 anos de idade.

Morreu anteontem, na feliz circunstância de ter tido a família com ela durante a tarde, e nas mãos das duas filhas sobrevivas e de uma das netas.

Foi um exemplo permanente para muitos, uma ajuda e apoio preciosos para imensos e uma Mulher, Mãe, Avó, Bisavó e Portuguesa única e irrepetível. Com todo a sua actividade para com os outros, geria o seu tempo de forma a estar sempre presente junto da família. De forma extraordinária e sem percebermos como conseguia, tinha tempo para todos, talvez com a única excepção de si mesma. Esse tempo era sempre dado com calma e como se não tivesse mais nada para fazer. Nenhum de nós se lembra de uma etapa da vida sem ela.

A par do choro dos que ficam, encheu-se o Céu de alegria pela chegada da nossa Mãe, Avó, Bisavó e amiga. Pelo exemplo de vida, acreditamos que partiu uma das heroínas da história portuguesa do último século.

Com os protestos da mais elevada consideração,

Em nome da família, o neto mais velho,

Rodrigo Alexander Davidson de Sousa-Pinto

São Domingos de Rana, Portugal

07/01/2017

O Delagoa Bay Review em 2017

Filed under: António Botelho de Melo — ABM @ 10:51 am

Depois de um hiato, e de um curto periodo em que esteve “fechado”, o The Delagoa Bay Review volta neste início de 2017, de novo acessível a todos os que se derem à maçada de o ler. Aqui quase nada de novo, tudo mais ou menos na mesma, desde a sua abertura em 2010. Mais umas fotos, mais umas conversas ao desafio. À meia dúzia de apreciadores desta Casa, saudações.

 

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O vosso cronista no Green Quadrangle da Brown University, em Providence, EUA, Maio de 1982, ano da atribuição da primeira licenciatura, foto tirada com uma Nikon F, lente fixa de 70 mm, por uma colega sueca, Maud Linnea Kalborg.

Dito isto, o mundo mudou significativamente. Moçambique viu Armando Emílio Guebuza substituir-se por Filipe Nyusi, um seu delfim, o País quase colapsou entre dívidas e a tentativa de eliminar fisicamente a sua oposição, prevendo-se o prolongar desta agonia, até os americanos começarem a bombar gás e a pagar royalties. Com a população prevista para chegar aos 55 milhões nos próximos 25 anos…. boa sorte a todos. Em Portugal, a aliança absolutamente surreal, com a cereja no topo que tem sido Marcelo Rebelo de Sousa, para mais uma falência e um resgate caminha, aguardando-se pela default no serviço da dívida pública ou da mera incapacidade dos contribuintes de sustentar a despesa pública, num país de reformados e emigrados e endividados, que se espera decresça de 10 para 7 milhões em vinte anos. Nos Estados Unidos, Donald Trump, uma espécie de Kim Il Sung do Capitalismo, inicia um mandato dentro de poucas semanas, prometendo um conjunto de actos de circo dignos do nosso antigo Boswell-Wilkie. José Eduardo dos Santos afirmou que irá abandonar a política activa em 2018, o que tornará acompanhar os eventos em Angola ligeiramente mais interessante. O Médio Oriente continua a ser uma saga indecifrável. A China fez uma ilha no meio do Mar da China (que formalmente não é da China) e insiste que aquilo tudo lhe pertence.

Tudo isto e muito mais, com umas fotografias pelo meio, será tratado aqui, num português irreverentemente anti-o tal acordo da ortografia. E às vezes em inglês, pois tenho um leitor que não lê textos escritos em português.

02/03/2014

A ESCOLHA DO IMPERADOR, 2014

Filed under: A escolha do Imperador 2014 — ABM @ 5:34 pm

Para quem conhece a saga de Star Wars.

May the Force be With Us.

May the Force be With Us.

O Candidato Manchuriano. Adivinhe quem é.

18/02/2014

MEMORIALIZANDO VÍTOR CRESPO, 1974, NA PRIMEIRA VOZ

Filed under: Vitor Crespo explica-se — ABM @ 10:08 pm
Após a ditadura colonial terminar, isto. Em baixo, Vitor Crespo tenta explicar o inexplicável.

Após a ditadura colonial terminar, isto e mais vinte anos de guerra. Em baixo, Vitor Crespo tenta explicar o inexplicável daqueles dez meses que antecederam tudo, nas suas próprias palavras. Oiçam com cuidado.

Diz o breve texto da Wikipédia (menos um misterioso e longo relato de medalhística):

Vítor Manuel Trigueiros Crespo (Porto de Mós, 21 de Março de 1932) é um militar português.

Ingressou na Escola Naval, seguindo a carreira de oficial de Marinha. Não foi o único oficial da Marinha de Guerra a participar no golpe de estado do 25 de Abril de 1974. Muitos outros oficiais da Marinha de Guerra Portuguesa também participaram, embora fosse ele o representante da Marinha que se encontrava no posto de comando do MFA, na Pontinha. Foi Alto Comissário e Comandante-Chefe em Moçambique durante a descolonização até à independência do país. Foi membro do Conselho da Revolução. Depois disso integrou o VI Governo Provisório chefiado por Pinheiro de Azevedo como ministro da Cooperação, entre 19 de Setembro de 1975 e 23 de Julho de 1976. Hoje em dia, já no posto de Almirante, serve como director da Biblioteca da Marinha.

Aqui em baixo, um dos mais célebres descolonizadores portugueses, quiçá um dos odiados de estimação da Tribo Branca de Moçambique, na primeira voz:

(Vídeo 1 de 2)

(Vídeo 2 de 2)

25/01/2014

A PRESIDÊNCIA IMPERIAL II: CHINA HOUSE EM MAPUTO

Filed under: Presidência Imperial - China House — ABM @ 8:38 pm
A luxuosa nova ala do Complexo presidencial moçambicano. Ninguém sabe quanto custou

A luxuosa nova ala do Complexo presidencial moçambicano, situado junto aos antigos Grémio e Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra, em frente à Somershield, tornados residência presidencial após a Independência. Obviamente uma Obra do Regime Guebuza, ninguém sabe quanto custou ou quais foram as contrapartidas. A cosntrução esteve a cargo de uma empresa estatal chinesa e foi paga com um empréstimo que a China fez ao erário público de Moçambique. Esta foto de satélite data de final de Setembro de 2013. O complexo foi inaugurado ontem, 24 de Janeiro de 2014.

Refere o texto noticiário da Agence France Presse publicado hoje (traduzido por mim do texto original em inglês):

O Presidente moçambicano Armando Guebuza inaugurou o opulento novo complexo presidencial de gabinetes, construído pelos chineses, em Maputo, na sexta-feira.

“Queremos expressar a nossa gratidão ao governo da República Popular da China por criar as condições que permitiram a construção deste projecto”, referiu Guebuza durante um banquete.

O edifício de dois andares, pintado em côr de pêssego, situado em frente às águas azuis da Baía de Maputo, inclui candelabros de cristal, interiores forrados a mármore e uma sumptuosa sala de banquetes.

Por comparação, o vasto novo complexo torna minúsculo o anterior edifício [Palácio da Ponta Vermelha] com apenas um andar, onde Guebuza costumava receber personalidades estrangeiras.

Representantes do governo não divulgaram os custos com a sua construção, que foram financiados com um empréstimo feito pelo governo Chinês.

Durante um discurso que incluiu um brinde com champanhe, Guebuza considerou o edifício “outro testemunho da amizade e cooperação entre o povo de Moçambique e o povo da China”.

A Foreign Economic Construction Corporation, uma empresa chinesa, construiu o vasto palácio de dois andares em apenas dezoito meses.

A empresa estatal chinesa, que também construiu as novas terminais doméstica e internacional do Aeroporto de Maputo e um estádio desportivo[no Zimpeto], começou este mês a construção [no antigo Parque de Campismo da cidade, agora o Centro de Conferências Joaquim Chissano] de um hotel de cinco estrelas, com um custo estimado de 250 milhões de dólares americanos.

Com 71 anos de idade, Guebuza terá apenas meses durante os quais poderá usufruir o seu novo gabinete antes da eleição presidencial que se realizará em Outubro próximo. Ele reside na residência presidencial, situada ao lado do novo complexo.

No ano passado, Guebuza viajou até à China para obter fundos para projectos de infra-estrutura.

Guebuza fala com Xi Jinping, o presidente chinês, no Grande Salão do Povo em Pequim, 13 de Maio de 2013

Guebuza fala com Xi Jinping, o presidente chinês, no Grande Salão do Povo em Pequim, 13 de Maio de 2013. Foto de Jason Lee, AFP, com um toque meu.

A maior parte das redes de electricidade, de caminhos de ferro e de estradas moçambicanas datam da era colonial, que terminou há quatro décadas, parte das quais foram destruídas numa guerra civil que durou 16 anos e que terminou em 1992.

(fim)

06/12/2013

HOMENAGEANDO NELSON MANDELA

Filed under: A morte de Nelson Mandela — ABM @ 3:06 am

Assinalando a passagem do Sr. Nelson Mandela pelas nossas vidas, o seu alto exemplo e a alguma inspiração que nos trouxe.

Nelson Mandela faleceu na África do Sul ontem à noite, dia 5 de Dezembro de 2013.

Nelson Mandela faleceu na África do Sul ontem à noite, dia 5 de Dezembro de 2013. Na imagem, o Presidente Mandela entrega o troféu do Campeonato Mundial de Rugby ao capitão da equipa sul-africana, François Pienaar, após a sua vitória na final contra a Nova Zelândia, no Estádio Ellis Park, em Joanesburgo, no dia 24 de Junho de 1995. Esta foi, talvez, a cena mais paradigmática do titânico e por vezes aparentemente insuperável esforço pessoal de Mandela de fazar emendas com os Boers, cuja resistência, enquanto grupo, a um regime democrático (ou seja, de maioria negra) na África do Sul só rivalizou com a sua resistência ao domínio colonial britânico durante o Século XIX. O tempo dirá se o seu esforço, e a sua mensagem sobre a necessidade de reconciliação e de convivência entre todos os sul-africanos, perdurará.

03/11/2013

A PRESIDÊNCIA IMPERIAL I

Filed under: Presidência Imperial - Hawker 850 XP — ABM @ 7:16 am
Um avião de luxo executivo Hawker 850 XP.  A força aérea" de Moçambique acabou de adquirir um.

Um avião executivo de luxo Hawker 850 XP. A “força aérea” de Moçambique acabou de adquirir um, segundo o sítio Defence Web, publicado no dia 1 de Novembro de 2013. Fabricado nos Estados Unidos da América. Tem um custo estimado de 14 milhões de dólares.

O Sítio DefenceWeb, que se especializa em assuntos militares africanos, publicou no dia 1 de Novembro o seguinte texto, algo hilariante:

The Mozambican Air Force has taken delivery of a Hawker 850XP business jet, the latest acquisition for the country’s small air arm and a major boost to its capacity.

The aircraft entered service in September, according to Air Forces Daily, after being bought second hand from the United States. It left Fort Lauderdale Executive Airport in Florida on its delivery flight on September 9 and had its US registration cancelled on September 18 following its transfer to the Force Aerea de Mocambique (Mozambique Air Force).

The aircraft will most likely be used for VIP duties and is a major boost to the Air Force, which is almost entirely inoperable, although efforts of late have been made to restore some flying capacity. The Air Force has suffered poor serviceability since independence from Portugal in 1975 and the collapse of the Soviet Union and its financial support in the early 1990s.

Portugal, due to its historic relationship with the country, has over the last several years provided much assistance to Mozambique’s military. In July 2012 Portugal delivered a second FTB-337G Milirole utility aircraft to the country, as part of the CTM (Cooperação Técnico-Militar) technical military cooperation agreement between Mozambique and Portugal. This agreement also includes training and the FAP is working with the Mozambique Air Force on pilot and ground crew training in both countries.

Indeed, Portuguese advisors are training aircrew and mechanics at the recently formed Escola Prática de Aviação (EPA – School of Practical Aviation) at the Air Force’s base at Maputo-Mavalene International Airport.

The two FTB-337Gs are used for medical evacuations, maritime surveillance and pilot training, alongside a Cessna 152 and a Piper PA-32 Seneca, acquired around 2011. A Cessna 172 is also used for training at the EPA, according to Air Forces Daily. These aircraft fly approximately 650 hours per year.

According to the IISS’s The Military Balance 2012, none of the Air Force’s combat aircraft are operational, with only a few transports (two An-26s, two CASA 212s and a Cessna 182) and several Z-326 trainers still flying.

(fim)

O interior da nova aquisição da Força Aérea de Moçambique.

O interior da nova aquisição da Força Aérea de Moçambique. Dada a natureza e configuração, presume-se que será para uso presidencial e afim, evitando assim a necessidade das personalidades que o irão utilizar, de se deslocarem pelas estradas naconais ou de voar na frota das Linhas Aéreas de Moçambique. Em desconforto.

Uma empresa especializada no assunto refere que o custo estimado desta aeronave é de 13.7 milhões de dólares, excluindo os custos de manutenção e operacionais. O texto da Defence Web refere que o avião comprado é em segunda mão e não indica o preço pago.

31/10/2013

AS MANIFESTAÇÕES CÍVICAS DE 31 DE OUTUBRO DE 2013: MAPUTO, BEIRA E QUELIMANE

No fim das fotografias, veja as declarações de Alice Mabota, em vídeo. A visibilidade e contestação da Liga dos Direitos Humanos e de Alice, sua Presidente, tem sido grande.

As manifestações tiveram como principais objectivos denunciar a criminalidade organizada em Moçambique e a instabilidade política e de segurança resultantes dos diferendos entre os líderes da Frelimo e da Renamo.

Desde a Independência em Junho de 1975, nunca houve nenhuma expressão popular sequer parecida com o que sucedeu hoje, que não fosse da iniciativa da Frelimo e dos seus governos.

MAPUTO:

Foto de Sérgio Costa, partilhada no FB.

Foto de Sérgio Costa, partilhada no FB.  A manifestação na Avenida Dr. Eduardo Mondlane (antiga Av. Pinheiro Chagas). Segundo o grande João de Sousa, nos notíciários da noite, todas as estações de televisão moçambicanas arrancaram com as manifestações excepto a estatal TVM, que iniciou com uma visita que o Presidente Guebuza estará a fazer a Sofala, província onde as forças armadas se encontram numa caça ao homem ao Presidente da Renamo.

Foto de João M Taborda.

Foto de João M Taborda.

Foto de CA.

Foto de CA.

Foto de CA.

Foto de CA.

Foto Paulo Araújo.

Foto Paulo Araújo.

Foto do Canal de Moçambique.

Foto do Canal de Moçambique.

Foto de Mauro Steinway.

Foto de Mauro Steinway.

Foto de João M. Taborda.

Foto de João M. Taborda.

BEIRA:

Foto Magazine CRV.

Foto Magazine CRV. Na Beira, a população ainda está em choque pelo rapto e assassinato de um jovem com 13 anos de idade. Este rapto, como quase todos os outros, teve como objectivo extorquir dinheiro da Família.

Foto do Salim Milas.

Foto do Salim Milas.

QUELIMANE:

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

Foto do Conselho Municipal de Quelimane.

VÍDEO DO DIA

Em baixo, o vídeo do dia: Alice Mabote, Presidente da Liga de Direitos Humanos, penso que a entidade que organizou a manifestação, em declarações esta manhã.

http://videos.sapo.mz/mNcZU24vTiFBLulFClmP

30/10/2013

A MANIFESTAÇÃO ANUNCIADA EM MAPUTO PARA A MANHÃ DE 31 DE OUTUBRO DE 2013

Imagem que veio de Edwin Honnou e de Fernando Veloso no Facebook, alusiva a uma marcha pela paz a realizar na manhã de hoje em Maputo, num contexto de uma grave perturbação da paz e da tranquilidade públicas no País.

Imagem que veio de Edwin Honnou e de Fernando Veloso no Facebook, alusiva a uma marcha pela paz a realizar na manhã de hoje em Maputo, num contexto de uma grave perturbação da paz e da tranquilidade públicas no País. O percurso anunciado é entre as estátuas do Dr. Mondlane, no ALto-Maé, e a de Samora Machel em frente à sede do Conselho Municipal, em Maputo.

21/10/2013

ORDEM DE ATAQUE A 8 DE SETEMBRO DE 1974

Filed under: Ordem de Ataque a 8 Set 1974 — ABM @ 7:28 pm

O texto que se reproduz com vénia do Correio da Manhã (de Lisboa), edição de 21 de Outubro de 2013, é um depoimento de Pedro Silva, recolhido por Marta Martins Silva. Reporta-se aos eventos ocorridos após o anúncio, em Moçambique, numa emissão do Rádio Clube de Moçambique, do chamado Acordo de Lusaka, na noite do dia 7 de Setembro de 1974, um sábado. Nos termos desse documento, à meia-noite desse dia entraria finalmente em vigor um cessar-fogo entre a Frente de Libertação de Moçambique e as Forças Armadas portuguesas. E o poder de Estado seria entregue à Frelimo dali a uma semana. Maioritariamente nas cidades, maioritariamente brancos viueram para as ruas, expressaram repúdia pelos termos do Acordo e tomaram de assalto o Rádio Clube de Moçambique, a principal emissora de rádio do então Estado de Moçambique, de onde foram feitos alguns apelos à resistência, maioritariamente sem qualquer efeito prático. Samora Machel e a cúpula da Frelimo nunca perdoaram este acto de insolência, que foi rapidamente rotulado como “reaccionarismo colonialista e racista” e debelado maioritariamente pelas próprias forças armadas portuguesas. No espaço de um ano, a esmagadora maioria dos que puderam, a maior parte dos quais viveu quase toda a vida sob a ditadura de Salazar,  foram-se embora da nação nascente, que desceu numa espiral de recessão, de guerra e num invulgarmente radical experimento de opressão comunista.

O depoimento de Pedro Silva:

“Fomos homens da chefia e reconhecimento de transmissões, desconhecidos até agora, mas orgulhosos do nosso trabalho.

Completada a recruta, fui para a especialidade de radiotelegrafista e, depois da promoção a 1º cabo, fui enviado para o ex-BRT (Batalhão de Reconhecimento de Transmissões), passando a operador de segurança de transmissões. Passei alguns meses no Quartel General em S. Sebastião da Pedreira, Lisboa, na intercepção, escuta e gravação das rádios ao tempo consideradas anti-Estado Novo. Embarquei para a Região Militar de Moçambique a 19 de outubro de 1972 em rendição individual, dado que a nossa ação era estritamente confidencial.”

A primeira página do folheto posto a circular aquando do anúncio público, em Moçambique, do acordo entre os militares portugueses e a guerrilha da Frelimo.

A primeira página do folheto posto a circular aquando do anúncio público, em Moçambique, do acordo entre os militares portugueses e a guerrilha da Frelimo.

“Em Moçambique vivi o célebre 8 de setembro de 1974 [sic], e é aqui que começa uma história que para nós (eu e o 1º cabo Ferreira) ficou marcada nas nossas vidas.

Nesse dia fomos procurados por ordem do nosso comandante, Capitão António Melo de Carvalho, para, uma vez conhecedores das redes de transmissão da Frelimo, tentarmos estabelecer ligação, e posterior diálogo, com algumas das várias estações de onde emitiam os seus comunicados e informações.

O intuito era fazê-los compreender que, apesar da revolução incentivada por colonos em Lourenço Marques, Beira e Nampula, estava tudo sob controlo, pelo que o Acordo de Lusaca seria respeitado pelo MFA.

Isto depois de termos interceptado várias mensagens da Frelimo que diziam que, devido à revolta perpetrada pela população civil, o Acordo de Lusaca – que deveria entrar em vigor no dia 8 de setembro às 00h00 – não passava de um embuste. Samora Machel, numa mensagem interceptada por nós, deu ordens no sentido de atacar tudo e todos.”

O verso do folheto.

O verso do folheto.

“Estava portanto iminente um ataque sem precedentes às nossas tropas, praticamente desarmadas, e à espera de um regresso feliz. Eu e o meu camarada, Vítor Ferreira, sob as ordens do Capitão Melo de Carvalho, iniciámos, no comando de transmissões, tentativas para travar aquilo que seria, em nosso entender, uma chacina.

A primeira mensagem, emitida por mim, foi a seguinte: ‘Aqui Movimento das Forças Armadas em Moçambique. Para: Comandos da Frelimo. Concordamos Acordo de Lusaca. Pedimos não ataquem posições tropas portuguesas. Pedimos vossa colaboração no sentido de eliminarmos grupos reacionários. Saudações.’

Mensagem circulada no dia 8 de Setembro de 1974. Fonte: História das Transmissões Militares, Portugal.

Mensagem circulada no dia 8 de Setembro de 1974, um domingo. Do seu teor, depreende-se que ainda não havia conhecimento dos protestos em algumas cidades de Moçambique. Fonte: História das Transmissões Militares, Portugal.

“Numa primeira instância, os operadores da Frelimo ficaram desconfiados e não responderam logo. Mais tarde, disseram-me que não compreendiam. Para fazerem uma ideia, interceptávamos cerca de 120 letras por minuto. Insisti mais uma vez, e agora, com o mesmo remetente, MFA, mas como destinatário o ‘Camarada Presidente Samora Machel’.

Era o meu camarada Vítor Ferreira que ia registando todas as respostas dadas. O teor das nossas mensagens tinha como fim, única e simplesmente, evitar um ataque que já não era esperado e muitas outras foram enviadas neste nosso exaustivo trabalho. Foi depois das diligências efetuadas através da troca de mensagens que tudo começou a ficar mais claro, e se foi resolvendo sem recurso às armas.”

Mensagem circulado no dia 17 de Setembro de 1974.

Mensagem circulada na 3ª feira, dia 17 de Setembro de 1974, data de início do Ramadão muçulmano. Dali a três dias, em sessão solene em Lourenço Marques, o poder de Estado era entregue ao Governo de Transição, dominado pela Frelimo e liderado por Joaquim Chissano, então com 34 anos de idade (faria 35 anos de idade no dia 22 de Outubro desse ano) . Fonte: História das Transmissões Militares, Portugal.

“Conseguimos falar com os operadores da Frelimo e as nossas mensagens seguintes foram retransmitidas para todos os postos da Frelimo e para o seu Presidente. Após todas estas diligências, [o Acordo de] Lusaca foi em frente e um dos dirigentes da Frelimo, e futuro presidente de Moçambique, fez questão de nos conhecer pessoalmente, dizendo que os nossos nomes iriam ficar na história da independência do país. ”

Nota: Pedro Silva, hoje com 63 anos de idade, prestou serviço militar em Moçambique entre 1972 e 1974 na Cheret (Chefia e Reconhecimento de Transmissões). Na altura dos eventos que descreve tinha 24 anos de idade.

19/10/2013

27 ANOS DEPOIS DAQUELE DOMINGO, 19 DE OUTUBRO DE 1986

Filed under: 27 anos depois de 19 de Out 1986 — ABM @ 11:39 pm
Samora Machel, em dias melhores.

Samora Machel, em dias melhores.

 

João de Sousa, decano da rádio moçambicana, escreveu o seguinte hoje:

“Segunda-feira, 20 de Outubro de 1986. Na porta de entrada da Rádio Moçambique eu esperava pelo José Manuel Peres. Os dois, a partir das 9 horas, iriamos começar mais um programa “Entre as Nove e as Dez”. Um programa que é um marco na minha história como profissional de radiodifusão.

Às 08.10 horas aparece o Ministro da Informação Teodato Hunguana. Pergunta-me se “está alguém na Direcção da Rádio ?”. Digo-lhe que sim. Se a memória não me falha estava o Director Técnico, o Eng. Rufino de Matos.

Minutos depois chega Marcelino dos Santos. Pergunta-me “onde é a direcção da Rádio” ? Encaminho-o para o primeiro andar.

Às 08.30 a programação normal da Emissão Nacional é interrompida. Marcelino dos Santos anuncia a morte de Samora.”

João Cabrita, talvez um dos académicos que melhor estudou o acidente aéreo em que Samora morreu, escreveu:

“A viagem do Presidente Samora Machel à Zâmbia em 19 de Outubro de 1986 era para ser efectuada num Boeing-737 das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), o C9-BAA. Mas dois dias antes da viagem, o Comandante Sá Marques, que era quem iria pilotar o avião, foi notificado de que entretanto havia sido escalado para o voo Maputo-Beira-Maputo. A viagem presidencial passaria a ser feita no Tupolev 134-A. Não obstante o cancelamento do voo das LAM, o Comandante Sá Marques e o Boeing que pilotava juntamente com Baptista Honwana, ficariam para sempre ligados ao acidente que envolveu o Tupolev (C9-CAA) no voo de regresso da Zâmbia para Maputo. Cerca de um quarto de hora depois do Tupolev ter-se despenhado em Mbuzini, o Comandante Sá Marques entrou em contacto com a Torre de Controlo do Aeroporto de Maputo a informar que se encontrava sobre o Limpopo, prevendo aterrar na capital moçambicana dentro de aproximadamente 30 minutos. Sá Marques pediu à Torre de Controlo que lhe fornecesse o boletim meteorológico actualizado no âmbito dos preparativos para uma aproximação final à pista do Aeroporto de Maputo. Em vez disso, a Torre de Controlo pediu a Sá Marques que tentasse entrar em comunicação com o Tupolev presidencial pois havia “perdido contacto com ele”. Várias foram as tentativas do comandante das LAM para entrar em contacto com o Tupolev, mas sem sucesso. Posteriormente, recebeu instruções para regressar à Beira. Nas investigações que se seguiram para determinar a causa do acidente, a parte soviética orientou-as no sentido de demonstrar a existência de um radiofarol (VOR) falso. O voo da LAM, Beira-Maputo, seria a prova crucial. O facto do Boeing- 737 ter entrado em contacto com a Torre de Controlo quando se encontrava a cerca de 190 milhas náuticas de Maputo era, na opinião dos investigadores soviéticos, a indicação da presença de um VOR falso pois, segundo alegavam, o raio de acção da estação VOR de Maputo não tinha esse alcance. Em declarações aos investigadores soviéticos, o Comandante Sá Marques disse ter a certeza de que estava em sintonia com a estação VOR de Maputo, facto confirmado pelo emissor de onda média da Rádio Moçambique instalado na Matola, ao qual também havia recorrido para tornar a verificar se a rota que seguia era a correcta. E acrescentou que quando recebeu instruções para regressar à Beira, continuou a ter indicações nos instrumentos de bordo de que o avião estava em sintonia com a estação VOR do aeroporto de Maputo. Perante a incredulidade dos investigadores, o Comandante Sá Marques sugeriu que se retirassem as caixas negras do Boeing-737 para uma reconstituição da trajectória do voo Beira-Maputo e assim se determinar se o avião havia ou não sido desviado da rota. Numa subsequente entrevista com o comandante das LAM, os investigadores soviéticos apresentaram a Sá Marques “um mapa exibindo o seguimento da minha rota por um radar militar situado no Limpopo. Inclusive, perguntaram-me se tínhamos comunicação com essa base militar e qual a possibilidade desta dar informações sobre a rota. O esquema mostrava um seguimento da rota correcto, com espaçamentos de 5 minutos até ao Limpopo, onde reduzi a velocidade do avião, e no troço seguinte nos mesmos 5 minutos, a distância correspondia a uma velocidade superior a 1500 km /hora, com a particularidade de o trajecto passar a ser ligeiramente curvilíneo”. Sá Marques fez ver aos investigadores soviéticos que era de todo impossível um Boeing -737 voar a mais de 1 500 km/hora, sensivelmente o dobro da velocidade cruzeiro de um avião desse tipo. A não ser, ironizou, que “o meu avião estivesse equipado com um afterburner”. Trata-se de um dispositivo normalmente utilizado em aviões militares, o que lhes confere um maior impulso, permitindo descolagens de pistas curtas, como a de um porta-aviões. Não é usado em aviões comerciais pelo facto de aumentar acentuadamente o consumo de combustível . “A reacção do investigador soviético”, disse Sá Marques, foi “amachucar o mapa, atirando-o para o cesto dos papéis”. A Bernard Craiger, um dos três peritos designados pela ICAO para ajudar a parte moçambicana na investigação das causas do acidente de Mbuzini, coube a responsabilidade de reconstituir a trajectória seguida pelo Boeing -737 das LAM no voo Beira-Maputo. No relatório por si elaborado, Craiger referiu que a trajectória do Boeing-737 havia sido rectilínea. Não obstante os factos, no parecer que apresentou à Comissão de Inquérito sul-africana, a parte soviética insistiu que o Boeing-737 pilotado por Sá Marque e Baptista Honwana havia entrado em sintonia com a estação VOR de Maputo”mais cedo do que o habitual, a uma distância de 190 milhas náuticas (320 km) de Maputo”, acrescentando que “Para o equipamento de bordo poder funcionar em sintonia com o equipamento de terra àquela distância seria necessário um transmissor VOR com uma potência que excedesse os 200 W. No entanto, a potência do transmissor VOR de Maputo não vai além dos 50 W. Por conseguinte, o equipamento de bordo do Boeing 737-200 das LAM, com a matrícula C9-BAA, estava em sintonia com o radiofarol falso a transmitir na frequência dos 112.7 MHz, mas de potência superior à do VOR de Maputo.” Ou outro comandante das LAM, Franklin Bastos, em entrevista a Álvaro Belo Marques, autor do livro “Quem Matou Samora Machel?”, declarou que o radiofarol VOR de Maputo podia ser captado a 200 milhas náuticas. ”

Na 2ª feira, 20 de Outubro, eu, que vivia há vários anos nos EUA, por acaso estava em Lisboa numas curtas férias. Fui abordado às 07:30 horas locais pela minha anfitriã, referindo ter ouvido numa estação local que tinha ocorrido um acidente aéreo e presumia-se que Samora teria perecido no acidente. Quando ouvi isso acordei instantaneamente.

12/09/2013

ARMANDO GUEBUZA O INCONTESTÁVEL, 2013

Filed under: Armando Guebuza 2013 — ABM @ 6:07 pm
Haja paciência.

Haja paciência quando se recorre a estes slogans de “apoio” para caracterizar um homem que é suposto ser uma liderança política, até mesmo quando o próprio termo sugere um certo, conhecido, resvalo ditatorial, pois, excepto talvez em Moçambique, não é em democracias que os líderes são “incontestáveis”: isso só acontece verdadeiramente em ditaduras. O que se calhar diz nada. O que se calhar diz tudo. 

A foto é do jornalista Borges Nhamirre do Canal de Moçambique, e o estádio atrás é o do Zimpeto, nos arredores de Maputo, construído e pago pelos chineses, presume-se que em troca de favores, indescritos.

Há outros paralelos. Noutros tempos, Samora Machel, que se crê ser o modelo para esta propaganda um tanto deslocada no tempo, foi também conhecido por «líder incontestado e incontestável da revolução moçambicana», tal como descrito (previsivelmente, claro) por Marcelino dos Santos, a grande eminência parda do Regime, durante um daqueles comícios longos e  intragáveis, em Maputo, por volta de 1979.

20/07/2013

À BEIRA DO ABISMO, MAIS UMA VEZ

Filed under: A grande crise de 2013 — ABM @ 11:46 am
O actual impasse político, as suas causas e o que

O actual impasse político português, as suas causas e o que despoletou o processo nas últimas duas semanas só me fazem ocorrer uma frase, inspirada no grande Winston Churchill. À excepção de 1974-1977, nunca vi tanta incompetência, tanta falta de bom senso, como tenho visto na televisão e lido nos jornais nas últimas duas semanas. E, para variar, não escapa ninguém.

29/05/2013

O POSTAL DE MAPUTO DA TIA ARGENTINA, 1977

Filed under: O Postal de Argentina 1977 — ABM @ 3:22 pm

postal mim avó 1

postal mimi avó

Copiado, com vénia, do Nuno Castelo-Branco, pela importância do seu conteúdo, historicamente relevante mas hoje convenientemente pouco recordado. O título original é Moçambique: O Roubo. 

(início)

O meu pai deixou-nos uma ainda incontável quantidade de caixas, envelopes e dossiers onde ao longo de décadas acumulou todo o tipo de papéis, aliás metodicamente organizados. Hoje encontrei um envelope com postais de “Vistas de Lourenço Marques” e foi um prazer reler alguns daqueles que nos tinham sido endereçados há muitos anos. Escritos por amigos ou familiares, são testemunhos de momentos difíceis passados num território cuja administração passou a ser exercida de uma forma totalmente arbitrária, bem diferente daquela a que as populações estavam habituadas. O exemplar que hoje é aqui postado, foi escrito por uma irmã da minha avó, de seu nome Argentina, mas para nós, a tia Mimi:

“Querido sobrinho Vítor

Mais um ano para a conta e oxalá que assim seja por muitos e muitos anos (1). Que o dia 27 seja passado com saúde, óptima disposição e alegria na companhia dos familiares. Um grande abraço nosso de parabéns. Estão todos bem aí em casa? Esperamos que assim seja. A lista (2) da Leta (3) já saiu, mas na vistoria da Ponte de Cais confiscaram a máquina de lavar mesmo estando autorizada. Refilou forte e feio, de nada adiantou mas já reclamou por escrito. As reclamações deste género é mato. Isto tudo é um pandemónio. A lista da Emília (4) também já saiu e, como particular, todos os eléctricos domésticos foram cortados, incluindo o fogão, máquina de costura, rádio gira-discos e uma ou outra peça de mobiliário. É aguentar e olhar em frente de cara alegre, que mais se pode fazer? Envio este postal como recordação da nossa terra. Já não há disto à venda.
Saudoso abraço à Ana Maria e beijinhos à Angelinha. Abraços aos miúdos. Para ti mais uma vez, as nossas felicitações e um abraço amigo dos tios Mimi e António

Maputo, 19 de Junho de 1977″

Este ambiente de desbragado saque, não foi uma novidade do pós-independência. Tinha começado durante a administração conjunta daquilo a que então se denominou de Governo de Transição, nominalmente sob a tutela de um até então desconhecido camarada que Lisboa despachou para Lourenço Marques, o “comandante” Vítor Crespo, personagem que felizmente não chegou ao ponto das inenarráveis baixezas de um outro futuro “Almirante de aviário”, o Rosa Coutinho. Igualmente “aviado em Almirante”, o simulacro de governador-geral rapidamente tornar-se-ia objecto de todas as conversas, mimoseado pela explícita alcunha do “Vítor Copos”. De forma a tornar tudo mais óbvio, o “Copos” do Crespo, estava justa ou injustamente na mesma linha do certíssimo “Tantos” carimbado na pele de um certo advogado Almeida, nada dado a santidades. Há alegações que para sempre ficarão coladas à reputação das duvidosas celebridades.

Na tropa portuguesa grassava uma total indisciplina. De imediato cessou qualquer sentido de hierarquia, apresentando-se miseravelmente “uniformizada” nas avenidas da capital de Moçambique e sempre pronta para qualquer grosseria. No aeroporto Gago Coutinho, os guedelhudos militares de palito no canto da boca e ameaçadora G-3 à bandoleira, submetiam aqueles que partiam para a Metrópole a todo o tipo de vexames, esvaziando malas e carteiras, confiscando jóias pessoais, por mais insignificantes que estas fossem. Agora sim, os espoliados eram mais que nunca, portugueses de 2ª classe.

Nas citadas “listas” eram riscados items após items, alegando-se “duplicação”. “Tens duas cadeiras destas? Só precisas de uma, esta fica cá! És viúva? Então para que precisas tu de duas alianças? Buíça (5) uma delas!” Nos já então suprapatéticos departamentos do Estado de Moçambique – era assim que há muito a antiga Província Ultramarina oficialmente se denominava -, as exigências burocráticas foram esmagadoras e impiedosamente acrescidas de custas, autenticações e reconhecimentos, atestados para isto e para aquilo, enfim, um ror de enormidades que serviam para dificultar ao máximo, a já muito precária vida dos aflitos e indefesos requerentes. A finalidade de todo o processo era o despojamento total. Há que ter em atenção a existência de uma azáfama censória controleira dos desabafos de uma imensa mole de gente encurralada pelos seus próprios compatriotas, assim se explicando esta série de postais enviados dentro de discretos envelopes.

É este um triste episódio praticamente desconhecido dos portugueses europeus e convém ir divulgando estes postais – o meu pai também arquivou interessantíssimas cartas -, por mim já muito abusivamente promovidos a documentos. Classificados como impublicáveis, alguns dos testemunhos permanecerão guardados, sendo o seu conteúdo deveras embaraçoso para a reputação de muita gente que ainda bem viva, é pesadamente responsável pelo mais vergonhoso e desnecessário desastre da nossa história.

Notas

(1) A tia Mimi (Argentina) refere-se ao dia 27 de Junho, aniversário do meu pai.
(2) A “lista” era uma estulta invenção das autoridades portuguesas, escandalosamente ansiosas por agradarem aos seus novos comparsas – tão ineptos quanto os recém-chegados de Lisboa – que fizeram sentar no “Governo de Transição”. Sob a chefia da dupla Crespo/Chissano, este executivo logo deu início a uma torrente legislativa, ousando estabelecer uns inacreditáveis “pontos prévios”: consideravam estes que os bens materiais dos colonialistas – no nosso caso, cinco gerações! – tinham sido obtidos ao longo de “500 anos de exploração dos moçambicanos e por isso mesmo deveriam em parte ficar na posse do povo de Moçambique”. Em conformidade, o “governo Crespo/Frelimo” significou a despudorada rapina dos bens móveis daqueles que então legalmente passaram a ser considerados como “residentes” (!) e que ao pretenderem sair do país, tinham de pagar pesados impostos, taxas e tarifas, ficando à total mercê dos apetites ou fúrias de quem controlava a fiscalização. Estes abusos consistiram em actos em tudo semelhantes àqueles a que as autoridades do Reich submeteram os concidadãos judeus que nos anos 30 quiseram atempadamente deixar a Alemanha. Após a independência, o absoluto à vontade das autoridades permitiu-lhes passar da usurária taxação, ao puro e simples confiscar de tudo aquilo aparentemente apetecível, por mais risíveis e grotescas que fossem as reivindicações. Tendo aprendido os complicados e copiosos meandros da burocracia portuguesa, logo inventaram uma infinidade de requerimentos a que forçosamente eram anexadas várias cópias de uma minuciosa lista dos bens a embarcar, ou seja, o normal recheio de uma casa: móveis, bibelots, tapetes, brinquedos, talheres, electrodomésticos, louças, roupas, etc. Não esqueçamos uma colossal quantidade de livros que após a consumação do saque foram rasgados, servindo as suas páginas para embrulharem por ruas e avenidas fora, o amendoim torrado, a castanha de caju e as maçarocas assadas, até servindo para o polimento de sapatos. Era esta, a “nova cidade”.
(3) A Leta é a mulher de um primo direito da minha mãe.
(4) A Emília, a nora da tia Mimi.
(5) Buíça quer dizer “passa para cá!”

(fim)

Para que conste.

NELSON MANDELA, MAIO DE 2013

Filed under: Maio 2013, Nelson Mandela — ABM @ 2:49 pm
XXX

Nelson Mandela, de 94 anos, já quase não fala, disse a sua filha Makaziwe Mandela, numa entrevista que concedeu à Associated Press. Makaziwe é filha de Mandela e da primeira mulher deste, Evelyn Mase, já falecida. “Estende-nos as mãos. São as suas mãos que falam comigo. Esse é, se me perguntarem, o momento que mais aprecio com o meu pai. Para mim ele quer dizer: ‘Estou aqui, gosto de ti, preocupo-me contigo”, disse Maki, como é conhecida a filha de Mandela, que foi batizada com o nome de uma irmã que morreu aos nove meses. “O meu pai não tem estado muito bem de saúde no último mês. Tem dias bons e dias maus”, declarou na entrevista exclusiva que concedeu na sexta-feira à AP, na sua casa.

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