THE DELAGOA BAY REVIEW

04/11/2018

SAMORA E OS PEQUENOS CONTINUADORES NO III CONGRESSO EM 1977

Imagem colorida por mim.

Mais uma foto de propaganda comunista da Frelimo aquando do III Congresso em 1977, com o “banho de criancinhas revolucionárias” a que se chamaram os “continuadores”, orquestrado pela organização do evento. Todos acharam o máximo. Nos dez anos que se seguiram o regime, e a população,incluindo muitas destas crianças,  passariam por horrores sem fim e Samora morreria com a queda do avião presidencial. Mas o regime, ainda que menos inspiradamente, sobreviveu, quase intacto. Até hoje.

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01/11/2018

BALTAZAR REBELO DE SOUSA NA MATOLA, 1969, E ILACÇÕES

Da Colecção CC. Imagem retocada e colorida por mim.

 

Imagem colhida durante uma visita protocolar do então Governador-Geral de Moçambique, Baltazar Rebelo de Sousa à  Matola (penso), com a mulher e uma comitiva de madames, 1969. Ver e ser visto por uma audiência maioritariamente negra e rural/suburbana num ambiente aculturado e informal foi uma inovação quase insólita do tradicional estilo “régio”colonial, peculiar a este Governador, cujo mandato, por breve, e por constraste com os antecessores e sucedâneos, que eram digamos que significativamente mais manga-de-alpaca, ficou caracterizado quase somente por isso . Ajudou coincidir com uma certa expectativa optimista de que a sucessão de Caetano a Salazar viria a alterar o regime e ainda que a economia moçambicana crescia a um ritmo quase incrível, incluindo o anúncio da edificação de Cabora-Bassa, sustentando o delírio colonial do “estamos para ficar”. Sendo que na altura não se podia falar da guerra nem de questões relacionadas senão ia-se dentro. No cômputo geral, no entanto, esse ano e meio, mesmo tendo em conta o assassinato do Dr. Mondlane, que foi breve (e erradamente) visto como um recuo para a guerrilha da Frelimo, foi quase completamente irrelevante para o regime e para o futuro de Moçambique. Pelo contrário, foi uma ilusão e uma distracção. Mas tem a particularidade de ser memorável por isso, e também por esse estilo ter sido unicamente absorvido, décadas mais tarde, por um seu filho, que veio a ser eleito presidente da república portuguesa e o tem aplicado consistentemente, ao ponto de se confundir o estilo do cargo com a substância. Para quem conheceu e viveu aquele breve período na capital de Moçambique, Marcelo não tem sido presidente de Portugal. Tem sido o Governador-Geral de Portugal. Que já declarou que, quando um dia morrer, quer ser sepultado na antiga colónia que o Pai um dia, brevemente, governou.

31/10/2018

O PENSAMENTO DE SALAZAR SOBRE AS COLÓNIAS PORTUGUESAS, AGOSTO DE 1963

Grato ao inquiett.

Discurso do ditador, proferido aos portugueses no dia 12 de Agosto de 1963, na altura Presidente do Conselho desde 1930 e chefe do partido único.

Prolonga-se durante uma hora e meia.

Por esta altura, já decorria há dois anos uma guerrilha em Angola. Kennedy tentava pressionar os portugueses, em vão. Nehru capturara Diu, Damão e Goa. A ONU, com a sua nova maioria de membros recentemente admitidos, experimentavam abordagens diplomáticas no sentido de Portugal declarar as suas colónias como….colónias. Num bairro da capital tanzaniana, Mondlane e Marcelino movimentavam-se para, relutantemente, iniciar uma guerrilha.

 

29/10/2018

GUNGUNHANA REVISITADO

Filed under: Gungunhana Revisitado, Mia Couto, Ungulani Ba Ka Khosa — ABM @ 2:04 pm

 

Os 4 de Chaimite, no exílio forçado na Ilha Terceira. Imagem retocada e pintada por mim.

Gonçalo Frota escreveu o seguinte na Ípsílon, publicação cultural do jornal lisboeta Público de 25 de Outubro de 2018, que reproduzo com vénia:

TEATRO
A vida de Gungunhana é contada por vários sotaques no Teattro São Luiz [em Lisboa

A trilogia que Mia Couto dedicou ao imperador de Gaza chega agora a Lisboa, através da companhia O Bando. Netos de Gungunhana é um espectáculo para humanizar o outro e questionar a História.

Ao decidir dedicar uma trilogia à figura do imperador Gungunhana, o escritor moçambicano Mia Couto quis combater a imagem de um herói ou de uma figura trágica, quis convocar vozes que se opusessem, quis escrever para humanizar o outro – contrariando a estratégia que precede a guerra, a de desumanizar o adversário para desferir qualquer ataque sem remorsos. Não é uma ideia que tenha iluminado de forma consciente a adaptação da trilogia As Areias do Imperador ao teatro dirigida por João Brites e levada à cena pel’O Bando no Teatro São Luiz, em Lisboa, até 11 de Novembro. Mas é algo que encenador reconhece nas entrelinhas de um espectáculo que aborda (também) a colonização portuguesa: “Primeiro tem de se classificar o outro como coisa inferior para poder ocupá-lo”, diz. “E até contaminar as tropas com essas ideias para que elas possam cumprir os seus actos pensando que aquilo é outra coisa.”

A desumanização não reclama palco em Netos de Gungunhana. Mas o movimento contrário, o da humanização do outro que Mia Couto reclama para a sua obra, mostra-se através dos vários pontos de vista que fazem avançar a história ou até dos sotaques que vão denunciando as diferentes origens dos protagonistas. E são várias as origens porque João Brites quis construir o espectáculo com um elenco misto – portugueses, moçambicanos e brasileiros que se encarregarão de transportar esta mesma reflexão em diferentes encenações para os teatros dos seus países. Um elenco em que o sotaque, tal como a cor da pele, carrega de imediato esse estatuto de iguais ou diferentes.

Netos de Gungunhana começa, no entanto, em inglês. Uma conferencista – Alessandra Brito, activista política e fundadora do Instituto da Mulher Negra, uma não-actriz – discorre sobre o imperador de Gaza (região no Sul de Moçambique) e apresenta, em traços gerais, a biografia de Gungunhana, partilhada diante de alguns dos seus netos. É uma solução encontrada por Brites para oferecer ao espectador o contexto necessário ao acompanhamento daquilo que realmente lhe interessa – a imersão nas sete histórias dos sete netos, descendentes das sete mulheres (de um total de 300) que puderam acompanhar Gunganhana no momento da sua captura por soldados portugueses em 1895. “A história de Gungunhana é uma espécie de tapete sobre o qual queremos conversar para percebermos outras coisas”, diz o encenador. E refere-se, por exemplo, ao facto de o imperador nunca se ter preparado para a derrota.

Só que João Brites busca também uma zona de transição: entre o inglês e o português (que começa padronizado e se vai desmultiplicando numa admirável diversidade), entre o quotidiano e a representação; entre o academismo que sustenta uma versão dos factos e as histórias que se lhe seguem, inscritas em sangue quente, sem preocupação de sustentar qualquer tese; entre as vozes autorizadas e a multitude de narrativas que se reportam a verdades pessoais.

Mas esta zona de transição, exemplo de como “os mitos nos ajudam a compreender melhor o quotidiano”, é-o também na escolha da conferencista. Alessandra Brito trouxe para o debate criativo “uma perspectiva daquilo que são as lutas e os debates presentes no movimento negro em Portugal neste momento”, explica ao PÚBLICO. Em palco, na pele de académica, começa por falar da “importância de começarmos a pensar a História fora de uma visão eurocêntrica”, sem esquecer que “a cor é herança de uma História que determina a forma como estamos na sociedade”. Daí que, através da experiência de uma família, Netos de Gungunhana forneça alimento suficiente para discutir as narrativas oficiais e o encontro de Portugal com os países colonizados.

Netos de Gungunhana nasce de um encontro fortuito. João Brites cruzou-se com Mia Couto no espaço d’O Bando, em Palmela, e o romancista moçambicano falou-lhe dessa gigantesca empresa de convocar uma série de olhares diferentes para contar a história de Gungunhana. Brites logo encarou a possibilidade de cruzar estes olhares para erguer um espectáculo que aborda uma História comum mas valorizando as diferentes perspectivas, como forma de retirar poder à colonização institucional que continua a persistir entre nós através dos vários exercícios do poder.

À partida, a imensidão das 1200 páginas escritas por Mia Couto apresentava-se como uma ambição demasiado desmedida para caber num espectáculo de duas horas. Daí que tenha cabido a Miguel Jesus, responsável pela dramaturgia, peneirar o texto de Mia Couto e dele extrair uma forma de contar a história sem reproduzir os três romances em palco. E foi Miguel Jesus a propor que a peça siga a narrativa da família de Imani, uma das mulheres de Gungunhana. Porque a escala da família tanto se faz de pequenas contribuições individuais quanto permite extrapolar para a dimensão de uma comunidade ou de uma nação.

O certo é que ao trabalhar com actores portugueses, brasileiros e moçambicanos, e ao apresentar Netos de Gungunhana em cada um dos respectivos países, é também à procura desses outros olhares que João Brites quer partir, tentando provocar os diferentes debates locais que o texto levanta e recusando uma visão deste espectáculo que se sobreponha às outras. Mas dificilmente a peça não caminhará para aquilo que aqui se intui, de um apelo a um futuro que saiba libertar-se e distanciar-se do passado. Aos netos, bisnetos e trinetos de Gungunha cabe contar uma outra História.

[fim]

Sobre o recente trabalho do Mia Couto sobre o ditador Nguni, Mário Santos escreveu o seguinte, publicado no mesmo Público a 20 de Outubro de 2017:

(Não é possível) travar o vento com uma peneira

Os mitos podem forjar nações, mas é a sua contestação que as fortalece. Gungunhana já foi um mito em Moçambique e em Portugal. No último romance de Mia Couto é apenas um homem.

A carta fictícia está datada de 1 de Outubro de 1895 e o remetente é um fictício Germano de Melo, sargento português punido, por haver participado na revolta portuense e republicana de 31 de Janeiro de 1891, com o envio para um remoto posto militar nas ardentes planícies da África Oriental portuguesa, onde se viviam tempos não menos tumultuosos. O destinatário é o histórico tenente Ayres de Ornelas, que alcançou glória militar em Marracuene e Coolela, e em outras batalhas históricas das “campanhas de pacificação” de Gaza. “Que filhos teríamos” indaga retoricamente o sargento, a propósito da sua paixão por uma jovem negra chamada Imani – que é a narradora principal dos dois volumes até agora publicados da “trilogia moçambicana” de Mia Couto (Beira, 1955) intitulada As Areias do Imperador. E logo Germano de Melo transcreve a resposta de Bibliana, profetisa adoecida da “particular cegueira” de ver pelos olhos dos deuses: “Que importa a cor da pele dos que nascerem? Gungunhane terá netos brancos portugueses e os portugueses terão netos africanos! Contrariar essa inclinação é travar o vento com uma peneira. O Tempo […] é um grande misturador de sementes.”

Gungunhane (ou Gungunhana) – que é, evidentemente, o imperador do título genérico da trilogia romanesca do escritor moçambicano – foi o último rei do Estado vátua de Gaza e será aprisionado por Mouzinho de Albuquerque (um português raro, certamente, por contrário à política do “quanto mais devagar melhor”) no seu refúgio em Chaimite, no dia 28 de Dezembro de 1895. O feito demorou uma semana até ser noticiado em Lisboa (bons tempos…), mas deu brado em Portugal, que havia sido humilhado pelo Ultimato inglês, e ecoou na restante Europa, tanto por causa da lenda heróica e letal que aureolava o “Leão de Gaza”, quanto pelas suas consequências geopolíticas: sem essa derrota dos vátuas, é provável que Moçambique não existisse hoje com a configuração que lhe conhecemos.

Poder-se-á dizer, com efeito e com verdade, que as campanhas portuguesas “de conquista e pacificação” em África foram feitas para inglês ver. Recorde-se que, em 1885, em Berlim, as potências coloniais europeias haviam feito depender a partilha de África entre si de uma efectiva capacidade de exploração e controlo dos territórios em disputa. À intenção portuguesa de unir Angola e Moçambique (o Mapa Cor-de-Rosa) opusera-se, em 1890, a Inglaterra (o Ultimato), e as duas potências disputavam também o território controlado por Gungunhana. Por sua vez, o imperador de Gaza não descartaria um aliado europeu que o ajudasse a derrotar os vários inimigos internos. É neste contexto, de sucessivas e contraditórias alianças e traições, que se pode compreender a relevância do aprisionamento do chefe vátua que, com sete das suas inúmeras mulheres e outros elementos do real séquito, seria exilado para os Açores (Terceira), onde veio a morrer, em 1906. O seu captor, o trágico oficial de cavalaria Mouzinho de Albuquerque, suicidara-se cerca de cinco anos antes.

Em 2005, o Museu Militar de Lisboa assinalou os 110 anos decorridos desde o histórico episódio de Chaimite. Entre os presentes, lê-se na imprensa, estavam descendentes portuguesas de Gungunhana. Assim se confirmou a profecia de Bibliana. Mas o processo de mitificação institucional do imperador de Gaza culminara havia já vinte anos, quando o então Presidente moçambicano Samora Machel obteve a solene trasladação para Maputo dos supostos restos mortais de Gungunhana. Supostos porque, como em tantos outros casos semelhantes, a autenticidade do traslado não foi cientificamente comprovada, não sendo improvável que na urna enviada para Moçambique seguissem apenas as “areias” de que fala o título da vasta trilogia de Mia Couto (os primeiros dois volumes somam já mais de 850 páginas).

A produção e instrumentalização política de mitos fundadores comunitários é certamente uma doença infantil do processo de afirmação identitária de nações e Estados. A sua contestação, ou desconstrução, não será menos útil e menos necessária, sendo até mesmo, provavelmente, condição e prova da sua sobrevivência. Se assim for, Moçambique vai no bom caminho. E se a contestação de Gungunhana enquanto ferramenta ideológica de unificação política do país já não é nova, a desconstrução do mito através da ficção tem também precedentes, podendo referir-se aqui o romance Ualalapi (1987), de Ungulani Ba Ka Khosa. Lembram alguns – sem novidade que se note, aliás – que o fratricida Gungunhana alcançou o poder através da violência e do crime, e que durante uma década governou com mão de ferro o seu império, colonizando, explorando e oprimindo outros grupos étnicos autóctones do Sul de Moçambique. Será o caso, em A Espada e a Azagaia, dos vatxopi (ou chopes), povo de onde provém a bela e muito jovem Imani (15 anos à data dos acontecimentos narrados). Bastará dizer que no “Resumo do primeiro volume”, que inaugura A Espada e a Azagaia, se lê: “Os Vatxopi são um povo ocupado e massacrado pelo domínio dos Vanguni [ou vátuas] e que estabeleceram, por esta razão, uma aliança de cooperação militar com as autoridades portuguesas.”

O que é mais interessante, porém, neste romance de Mia Couto, é que a humanidade de Gungunhana cresce na inversa proporção do emagrecimento do mito. No final do segundo volume da trilogia (no primeiro volume, publicado em 2015 e intitulado Mulheres de Cinza, o imperador de Gaza é uma presença ausente que se manifesta só enquanto remoto detonador de uma sequência de tragédias na família da protagonista narradora), o temido e lendário “Leão” é apenas um homem fragilizado e amedrontado. E perplexo com a infinita e universal competência para a traição: “De que vale ter milhões de súbditos, se eles não são fiéis? De que vale possuir centenas de mulheres, se nenhuma delas é realmente nossa? De que vale ser coroado imperador se os que hoje te saúdam venerarão com maior devoção aqueles que te vão derrubar?” (p. 364) Igualmente o lamenta a rainha-mãe: “Tenho pena do meu filho […]. Todos lhe obedecem, ninguém lhe é leal.” (p. 367) Talvez se possa convocar aqui um “dito” atribuído a outra personagem, o padre Rudolfo Fernandes: “Eis a pobreza do nosso destino: acabamos por ter saudade do tirano anterior.” (p. 165)

De igual modo, a representação dos europeus, em geral, e dos portugueses, em particular, é múltipla e contrastada. Já no primeiro volume da trilogia, o sargento republicano, deitando contas à “pretensão imperialista dos ingleses em provar que Portugal não tem condição para governar as suas colónias africanas”, concluía: “Não sei se odeio mais a ambição inglesa ou a vergonhosa submissão das nossas autoridades.” No presente e mais fluído volume, é o tenente Ornelas – que vem juntar a sua qualidade de narrador aos dois anteriores (Imani e Germano de Melo) – quem comenta: “Há no nosso seio correntes mais hostis entre si que as que separam anjos e demónios. Essas desavenças não são exclusivas dos lusitanos. Porque, por estas bandas, andam os europeus em guerra uns com os outros. Por razões políticas, por razões religiosas. Católicos e protestantes brigam como se não tivessem um único Deus. Há mais rivalidade entre ingleses e portugueses do que entre brancos e pretos. Se não há unidade entre os brancos também não existe uma entidade a que se possa chamar ‘os pretos’. […] Como podemos empreender uma guerra se desconhecemos a fronteira que nos separa dos inimigos?” (pp. 317-18)

E se, no primeiro volume, só as cartas de Germano de Melo, inicialmente destinadas ao conselheiro José d’Almeida, vinham intervalar a narração na primeira pessoa feita por Imani, já que o destinatário da correspondência do sargento se manteve mudo, aqui, surge a voz nova do tenente Ayres de Ornelas, criando uma verdadeira troca epistolar. Será, certamente, por esse motivo, ou seja, por razões de conformidade e verosimilhança – a acção decorre no final do século XIX e dois dos três narradores são portugueses –, que esta trilogia romanesca é (quanto aos seus dois primeiros volumes) menos permeada pela inventividade linguística que tem caracterizado o autor, dela estando praticamente ausentes os tão celebrados “miacoutismos”.

Não obstante, Imani surge como a personagem-narradora nuclear, como verdadeira protagonista do romance, e o género, aqui, não será um acaso, sendo a tematização da “condição feminina” recorrente em Mia Couto. Conta o sargento: “Ontem, aflorando este assunto [o seu caso amoroso] com Imani, ela disse algo que me parece irrefutável: que os nossos dois mundos não eram, afinal, tão diversos. E ela está certa. Em África ou na minha pequena aldeia de Portugal, as mulheres partilham as mesmas magras expectativas do que pode ser um casamento.” As vozes de Imani e de Germano de Melo são ambas de personagens de fronteira, em trânsito entre culturas, com identidades críticas. Acentuam a recusa geral de univocidade na construção e na leitura das personagens (as fictícias e as reais) e dos seus actos (aqueles documentados e os outros, só imaginados). À narrativa única da propaganda e do mito, opõe o autor a pluralidade dialógica da ficção e a sua apetência para reconstruir o real. Porque, como já dizia Imani em Mulheres de Cinza, “o pior do passado é o que está ainda por vir”. Tal programa, que Mia Couto não tem deixado de explanar e de explorar, é desde logo legível, aliás, no título do segundo livro publicado pelo autor, em 1990: Cada Homem É Uma Raça.

[fim]

Ver ainda esta curta recensão da peça de teatro sobre Gungunhana no Diário de Notícias de Lisboa, escrita por Maria João Caetano e publicada a 25 de Outubro de 2018.

 

17/10/2018

SAMORA MACHEL A CAMINHO DE LOURENÇO MARQUES, 1975

Filed under: Samora Machel, Samora Moisés Machel — ABM @ 2:47 am

Imagem do fotógrafo holandês Frits Eisenloeffel, com vénia à sua viúva, retocada e pintada por mim.

 

Samora cumprimentado pela sua guarda pessoal da Frente de Libertação de Moçambique ao chegar penso que a Nampula ou a Vila Cabral (não tenho a certeza) ao cair da noite, durante a “marcha do Rovuma ao Maputo”, pouco antes da declaração formal da independência, 1975. Ali ao fundo será o Carlos Alberto?

16/10/2018

POEMA “CANÇÃO FRATERNA” DE NOÉMIA DE SOUSA, 1948

Filed under: Noémia de Souza — ABM @ 3:05 am

Com vénia à CC.

 

Poema de Noémia de Sousa, 1948.

12/10/2018

ROELOF FREDERIK BOTHA, 1932-2018

Filed under: Roelof Pik Botha 1932-2018 — ABM @ 5:25 pm

A notícia circulou hoje da morte, aos 86 anos de idade, de Pik Botha, antigo diplomata e político da África do Sul.

 


Em 18 de Abril  de1991. Pik Botha, então ministro dos Negócios Estrangeiros da África do Sul, à esquerda, com o Presidente Frederik W. de Klerk.

Greg Nicholson, do Daily Maverick, uma publicação sul-africana, escreveu hoje o seguinte sobre Botha (tradução gúgle com umas marteladas minhas):

O veterano político do apartheid Pik Botha morreu aos 86 anos na sua casa em Tshwane hoje, quinta-feira, 12 de Outubro de 2018. Ele foi um líder num sistema declarado um crime contra a humanidade, mas pressionou por reformas quando muitos no Partido Nacional estavam determinados a defender o regime opressivo.

Depois de concluir o curso de Direito na Universidade de Pretória e ingressar no departamento de relações exteriores em 1957, Roelof “Pik” Botha, ajudou a perpetuar a opressão do apartheid.

Ele foi um membro-chave da equipa sul-africana que foi ao Tribunal Internacional da Justiça em Haia para defender o direito do seu país governar o Sudoeste Africano [actualmente, Namíbia] no contexto do Mandato da extinta Liga das Nações. A África do Sul ganhou o caso em 1966, depois de o Tribunal decidir que os queixosos, a Libéria e a Etiópia, não tinham jurisdição sobre o caso.

Mais de 20 anos depois, já como ministro das Relações Exteriores, Botha ajudou a negociar o acordo tripartido entre a África do Sul, Angola e Cuba, que resultou na independência da Namíbia e viu a retirada das forças estrangeiras na guerra civil de Angola.

O seu legado está repleto de contradições.

Botha tornou-se ministro das Relações Exteriores da África do Sul em 1977, serviu sob três presidentes do apartheid [Vorster, Botha e De Klerk] e defendeu o apartheid, enquanto o governo de que fazia parte liderava uma campanha brutal contra activistas anti-apartheid e desestabilizava os países vizinhos.

Pik Botha subiu nas fileiras do seu departamento e serviu brevemente como embaixador na ONU até o estatuto de membro da África do Sul nesta organização ter sido suspenso e o apartheid ter sido, mais tarde, declarado um crime contra a humanidade. Ministro de Relações Exteriores até 1994, Botha viajou pelo mundo tentando dissipar as críticas ao regime do apartheid e encontrar aliados durante a Guerra Fria e ainda nas guerras em que se envolvia, por procuração, em África.

Mas de acordo com os padrões do Partido Nacional, que são extremamente baixos, Botha poderia ser considerado um progressista.

“Desde que possamos concordar de maneira adequada sobre a proteção dos direitos das minorias sem um pendor racial … então será inevitável que no futuro você possa ver um presidente negro neste país”, Botha disse em 1985.

Por ter proiferido esta declaração, ele foi publicamente admoestado pelo presidente PW Botha, levando o ministro das Relações Exteriores a admitir que seus comentários não reflectiam a política do governo.

No mesmo ano, Pik Botha e outros trabalharam no infame “Discurso do Rubicão”. Segundo o historiador Hermann Gilliomee, os requisitos para o texto exigiam que o “governo reconhecesse a dignidade humana negra, erradicasse todas as formas de discriminação, encontrasse soluções democráticas e criasse a igualdade de oportunidades”.

O discurso foi anunciado como o anúncio mais importante desde a chegada dos colonos holandeses à África do Sul em 1652, mas o presidente Botha, em vez disso, reduziu o âmbito da política do apartheid e deixou Pik Botha para defender publicamente as expectativas não atendidas, apesar das suas dúvidas.

Botha listou os seus pricipais sucessos na carreira numa entrevista em 2011: o acordo trilateral sobre Angola; trabalhando para a libertação de Nelson Mandela e as negociações sobre a constituição da África do Sul; o malfadado pacto de não-agressão de 1984 entre Moçambique e a África do Sul[o Acordo de Incomáti]; e o acordo de Lancaster House, em 1979, que deu ao Zimbábue a sua independência.

Ele serviu como ministro de assuntos minerais e de energia no primeiro governo democrático entre 1994 e 1996 e depois retirou-se da política depois de o Partido Nacional se ter retirado da coligação do governo de unidade nacional e o partido mais tarde se desintegrou.

Em 2000, ele anunciou o seu apoio ao líder do ANC, Thabo Mbeki, e sua intenção de ingressar no ANC. Numa declaração feita na sexta-feira, o ANC disse que se juntou ao partido em Tshwane em 2000, mas numa carta a um jornal em 2013, a segunda esposa de Botha, Ina, disse que ele nunca aderiu ao partido.

Nas raras aparições públicas desde a sua reforma, Botha criticou as políticas de igualdade de emprego e de poder económico negro do ANC e exigia melhorias no sistema educacional.

“O Partido Nacional não teria sido parte de um acordo negociado de que resultou a nova constituição da África do Sul [em 1994] se o ANC tivesse insistido que a legislação de ação afirmativa – e particularmente a maneira como está a ser implementada – tivesse sido consagrada na constituição”, afirmou ele em 2007.

Mbeki respondeu a esta declaração com uma longa carta explicando as políticas do governo e perguntou: “O que mais eu tenho a dizer e fazer para convencê-lo de que quero dizer o que digo quando digo que sou o guarda do seu irmão e da sua irmã?”

O filho de Botha, Roelof, disse na sexta-feira que seu pai estava preocupado com a liderança do ex-presidente Jacob Zuma e encantado com a eleição do presidente Cyril Ramaphosa.

Numa declaração feita na sexta-feira, a presidência sul-africana disse: “O presidente Ramaphosa afirnou que Botha seria lembrado pelo seu apoio à transição da África do Sul para a democracia e pelo seu serviço na primeira administração democrática”.

O porta-voz do ANC, Pule Mabe, disse: “O ANC, embora considere que Botha tenha sido um ex-ministro da administração do Partido Nacionalista, reconhece e está agradecido pela sua contribuição positiva para a construção de uma nova e melhor África do Sul”.

Botha serviu sob o último presidente do apartheid, Frederk W de Klerk, e na sexta-feira De Klerk disse que Botha fora um defensor consistente de reformas durante os anos 80.

“Talvez a sua contribuição mais importante tenha sido a maneira pela qual ele e seus colegas no departamento de relações exteriores mantiveram a linha contra a crescente pressão internacional até que o colapso do comunismo internacional em 1989 abriu o caminho para as negociações que levaram ao estabelecimento da nossa democracia constitucional não racial ”, disse De Klerk.

Embora Pik Botha possa ter pedido reformas, os comentários de De Klerk mostram como ele ajudou a prolongar o inevitável desaparecimento do apartheid.

[fim]

11/10/2018

O DISCURSO DE ANTÓNIO OLIVEIRA SALAZAR, 30 DE JUNHO DE 1961

Grato ao JC e ao Inquiett.

Discurso feito por Salazar a 30 de Junho de 1961 numa sessão extraordinária da Assembleia Nacional portuguesa, em Lisboa, Portugal então um regime ditatorial e de partido único que já durava há cerca de trinta anos, e do qual ele era o epicentro, a propósito das investidas feitas em relação a Portugal nas Nações Unidas, para classificar os territórios sob administração portuguesa (que, no contexto da revisão constitucional de 1951, passaram a ser considerados “províncias”) como “non-self governing territories”, o que os colocaria sob a alçada das Nações Unidas.

Na altura, as pressões para “descolonizar” (as aspas aqui apenas para expressar a discórdia de Salazar) vinham a aumentar desde que se realizara a Conferência de Bandung em 1955. À sombra da Guerra Fria, que opunha os blocos soviético/chinês ao chamado Ocidente, os britânicos promoviam agressivamente a independência das suas colónias, os franceses estavam em guerra no Vietname e na Argélia, a Bélgica largara o Congo e, no início de 1961, iniciara-se a guerra em Angola, iniciada com uma série de ataques em Luanda e na fronteira ao Norte..

Mas a grande novidade fora a eleição de John F. Kennedy nos Estados Unidos em Novembro de 1960 e o novo militantismo norte-americano na questão, alinhando-se a uma nova maioria chamada afro-asiática na ONU, que Salazar abominava e considerava uma traição civilizacional.

Num erro épico de paralaxe histórica, reflectido neste discurso, Salazar, mais do que rejeitar as teses promovidas na ONU, tudo ignorou e apostou no “tudo fica na mesma”, não antecipando o que estava para acontecer: o crescente envolvimento activo do Bloco soviético/chinês, armando e treinando nacionalistas locais, pressionando o pequeno e pobre país e o regime num crescendo que duraria treze anos. Os americanos acabariam por fazer uma “dança macabra” e inconclusiva, entregando a iniciativa aos comunistas. Pelo meio, Salazar ficaria incapacitado e em 1968 seria sucedido por Marcelo Caetano, que cometeria outro erro épico ao não agir e a deixar andar as coisas, abrindo o flanco a um punhado de militares de baixa patente, incluindo um obscuro major nascido em Lourenço Marques, que com umas manifestações de força e uns tiritos em Lisboa, acabaram com tudo numa fria manhã de Abril em 1974.

Numa coisa Salazar tinha razão (os porquês dariam – e deram – para interessantes, elaboradas e longas teses): os territórios estavam completamente impreparados para independências convencionais, e os cinquenta anos desde então decorridos dão um registo fiel e quase inenarrável dessas dificuldades. Mas ele, Salazar, simbolizava um país perdido no tempo, o seu país uma ditadura com colónias, e no seu longo discurso nunca menciona a única coisa que no fim, para além de uma guerra em três frentes, a pressão internacional e o apoio dos EUA e do Bloco comunista, alimentaria a queda do regime: o nacionalismo nos territórios, a ausência total de diálogo, de liberdade, de democracia e em vez disso a repressão.

A borrada resultante contaminou até hoje os destinos dos novos países e as suas relações com um Portugal, agora europeu e mais ou menos democrático e sem saber bem o que fazer com este passado. Poderia ter sido diferente do que foi? sim, claro.

Mas não foi.

A seguir ao vídeo, inseri o texto do discurso proferido pelo ditador.

 

Texto do discurso, designado “O Ultramar Português e a ONU”:

Senhor Presidente da Assembleia Nacional,

Senhores deputados:

As palavras que vou dizer sobre a questão ultramarina escrevi-as com profunda mágoa e, julgo, com perfeito sentido de responsabilidade. Este me aconselhou a evitar todo o agravo e a não diminuir por qualquer forma os valores de que ainda se dispõe por salvaguarda do Ocidente. Fugi assim a criticar a política e atitudes de outros países para além do estritamente necessário ao esclarecimento dos problemas postos e à defesa dos nossos próprios direitos: pois, por definição, e para nós os direitos de Portugal sobrelevam aos demais.

I

Depois da comunicação do Governo à Assembleia Nacional em 30 de Novembro sobre a nossa política ultramarina, tem sido excepcionalmente intensa a actividade das Nações Unidades no respeitante aos territórios portugueses de além-mar, e tanto na Assembleia Geral como no Conselho de Segurança e nalgumas comissões. O fim dessa actividade foi substituir a doutrina sempre seguida nas Nações Unidas quanto à competência exclusiva de cada Estado definir os seus territórios não autónomos e reconhecer ou não reconhecer a necessidade de prestar informações acerca deles ao abrigo do artigo 73.º da Carta. Vencida esta primeira etapa, ficaria aberto o caminho para se aplicarem aos mesmos territórios, fosse qual fosse a constituição política do Estado responsável, os preceitos que marcam a futura evolução daqueles, sob a égide da organização.

Assim em 15 de Dezembro de 1960 foi votada pela Assembleia Geral uma resolução que estabelece discriminatoriamente para Portugal a obrigação de prestar as ditas informações. A resolução foi aprovada por 68 votos contra 6 (Espanha, África do Sul, França, Bélgica, Portugal e Brasil) e 17 abstenções.

De 10 a 15 de Março deste ano o Conselho de Segurança é solicitado a tomar uma resolução sobre a situação de Angola; mas a moção considerou-se rejeitada por só ter obtido 5 votos (Rússia, RAU, Libéria, Ceilão, Estados Unidos) contra 6 abstenções (França, Grã-Bretanha, China, Chile, Equador e Turquia).

Em 21 de Abril nova resolução da Assembleia Geral a chamar a atenção do Governo português para a urgência de introduzir reformar em Angola e a encarregar uma comissão de inquérito para examinar a situação naquela província. Deviam ser tomadas as medidas necessárias para transferir a totalidade dos poderes para as populações dos territórios a fim de as habilitar a fruir de completa independência. Houve 2 votos contra (Espanha e União da África do Sul), 9 abstenções (Austrália, Bélgica, Brasil, República Dominicana, El Salvador, França, Grã-Bretanha, Holanda e Tailândia) e 14 ausências.

Em 19 de Maio de 1961, uma resolução do Comité de Informações salienta que Portugal não forneceu às Nações Unidas quaisquer informações sobre os territórios que administra e não manifestava a intenção de as fornecer.

Declara mais que Portugal tem obrigação de transmitir essas, obrigação a cumprir sem mais demorais. A resolução foi aprovada por 9 votos (Ceilão, Gana, Índia, Iraque, Libéria, México, Argentina, República Dominicana e Estados Unidos) contra 2 (Espanha e França) e 4 abstenções (Grã-Bretanha, Holanda, Nova Zelândia e Austrália).

De 6 a 9 de Junho reuniu de novo o Conselho de Segurança para tornar a ocupar-se da situação de Angola, e a sua resolução foi desta vez aprovada por 9 votos (Rússia, RAU, Libéria, Ceilão, China, Chile, Equador, Turquia e Estados Unidos) contra 2 abstenções (França e Grã-Bretanha).

Desta resenha é de fixar o seguinte:

– Grande número de países, quer nas suas declarações quer abstendo-se ou votando contra, quiseram manter-se fiéis à letra e ao espírito da Carta que não permite a intervenção do organismo nos negócios internos dos Estados membros;

– As maiorias foram obtidas sobretudo com votos comunistas e dos países afro-asiáticos;

– É por outro lado a este grupo que se deve a iniciativa das convocações e das resoluções apresentadas para além ou por fora da Carta;

– É desde a reunião do Conselho de Segurança de Março de 1961 que os Estados Unidos se resolvem a apoiar ostensivamente o grupo afro-asiático, com o fim confessado de congregar votos fiéis em deliberações que interessem à América contra a Rússia.

Não critico nem acuso; não há mesmo novidade na afirmação que não desvenda qualquer segredo. Foram por essa altura feitas pelos representantes oficiais dos Estados Unidos declarações que pretenderam definir uma nova política da grande nação americana em relação à África, e nessas declarações se fizeram críticas expressas à nossa administração ultramarina, às ideias retrógradas que seriam as nossas em confronto com as dos novos tempos, e se falou precisamente de Angola como exemplo de uma obra de colonização atrasada, degradante para as populações, mesquinha para os territórios (não transcrevo, reproduzo no sentido geral).

Simplesmente, simplesmente estas acusações e estas atitudes de 13 a 15 de Março parece que foram recebidas por certos países africanos como de concordância para apoiarem abertamente a acção terrorista que desabou sobre Angola. Bem se sabe que os Estados Unidos não aconselhariam nem preparariam directa ou indirectamente actos terroristas. Os elementos subversivos vinham sendo de longe instruídos, catequizados, enquadrados dentro de sobretudo fora da província de orientação traçada pelo comunismo internacional. Mas no estado actual de África e dada a situação geográfica e política de Angola, para passar à acção, impulsionando-a do exterior, tinha inegável vantagem que da parte de uma grande potência ocidental e anticomunista houvesse uma palavra e uma atitude. Houve-as e infelizes.

II

Os Estados Unidos têm quanto à Rússia comunista e aos perigos da sua expansão uma política bem assente: apoiar com toda a força do seu poderio as potências do Ocidente europeu, com as quais colaboram sem regatear através do Tratado do Atlântico Norte. Este Tratado é considerado, aliás sem ultrapassar os limites de uma aliança defensiva, a base da política americana contra o expansionismo soviético. Em boa hora criada, a organização pôde impedir, apesar de deficiências conhecidas, o ataque frontal às nações europeias. Aliás talvez este não estivesse na linha de acção russa quanto ao desmoronamento do Ocidente e à expansão do regime comunista no Mundo.

Tem a Rússia, desde os tempos dos seus grandes doutrinadores, uma política igualmente bem definida quanto à África: a sua subversão como meio de contornar a resistência da Europa. O trabalho de subversão e desintegração africana tem sido sistemática e firmemente conduzido pela Rússia e nesta primeira fase, que é apenas expulsar a Europa de África e subtrair quanto possível os povos africanos à influência da civilização ocidental, estão à vista os resultados obtidos.

Ora, talvez por força do seu idealismo, talvez também por influência do seu passado histórico que aliás não pode ser invocado por analogia, os Estados Unidos vêm fazendo em África, embora com intenções diversas, uma política paralela à da Rússia. Mas esta política que no fundo enfraquece as resistências da Europa e lhe retira os pontos de apoio humanos, estratégicos ou económicos para sua defesa e defesa da própria África, revela-se inconciliável com a que se pretende através do Tratado do Atlântico Norte. Esta contradição essencial da política americana já tem sido notada por alguns estudiosos, mesmo nos Estados Unidos, e é grave, porque as contradições no pensamento são possíveis mas são impossíveis na acção.

Quando se hostiliza e enfraquece a França ou a Bélgica ou Portugal, por força da política africana, ao mesmo tempo que se atinge a confiança recíproca dos aliados na Europa, diminui-se-lhes também a capacidade. As tropas retiradas para a Argélia não combaterão no Oder ou no Reno; mesmo as modestas forças que nós fazemos seguir para o Ultramar deixarão um vazio, pequeno que seja, no sector ou nas acções que nos fossem destinados. E a América, presa de esquematismos ideológicos, penso virá também a ser vítima – a última – desta contradição, se nela persistir.

A surpresa ante o ressentimento do povo português e a reacção que por toda a parte se verificou contra as atitudes resoluções da ONU, levam-me a crer que os Estados Unidos, cuja política tem sido sempre connosco de inteira compreensão e amizade, se encontraram diante de uma realidade diversa da que tinham pressuposto. Houve manifestamente um grave equívoco em considerar o Ultramar português como território de pura expressão colonial; equívoco em pensar que a nossa Constituição Política podia integrar territórios dispersos sem a existência de uma comunidade de sentimentos suficientemente expressa da unidade da Nação; equívoco em convencer-se de que Angola, por exemplo, se manteria operosa e calma, sem política, sem tropa europeia e com a força de 5000 africanos, comandados e enquadrados por dois mil e poucos brancos, se a convivência pacífica na amizade e no trabalho não fosse a maior realidade do território. E, havendo boa fé, todo o equívoco havia de desfazer-se em face da atitude de homens brancos e de cor que, vítimas de um terrorismo indiscriminado, clamam não abandonarão a sua terra e que a sua terra é Portugal.

Alguns oradores da ONU, sem bem cuidarem dos termos da Carta, deram a entender não desejar outra coisa senão que as populações exprimam claramente a sua opção por Portugal, embora esta esteja feita desde recuados tempos, e constitucionalmente admitida e consolidada. Isso se chama autodeterminação, princípio genial de caos político nas sociedades humanas. Pois nem assim quero fugir ao exame do problema, e em vez de embrenhar-me em divagações teóricas, restringir-me-ei ao exame prático do caso português.

III

Em pleno oceano e já para sul da linha que define os limites do Pacto do Atlântico Norte, situam-se as dez ilhas de Cabo Verde. Vão de Lisboa a S. Vicente ou à Praia 2900 quilómetros e de Washington às ilhas Hawai 8 mil, de modo que na teoria que se propõe contestar pelas distâncias a validade de uma soberania nacional parece não estarmos mal colocados. A superfície do arquipélago é de 4 mil quilómetros quadrados e a população orça pelos 200 mil habitantes. O aspecto geral é de secura e aridez. As manchas de terra seriam fecundas se houvesse água, mas o arquipélago não tem água e a chuva é escassa e incerta, além de que a erosão é activa. A incerteza e limitações da vida impelem à emigração para as costas fronteiras de África, sobretudo para a Guiné. Deste facto de vizinhança e interpenetração de populações advém terem surgido, na pujante floração actual de movimentos de libertação, um movimento para a Guiné e outro para a Guiné e Cabo Verde em conjunto. Como aquelas terras foram achadas desertas e povoadas por nós e sob a nossa direcção, o fundo cultural é diferente e superior ao africano, e a instrução desenvolvida afirma essa superioridade, pelo que se explica a ambição de alguns e a desconfiança dos restantes instalados na terra firme. Deste modo a independência de Cabo Verde teria de restringir-se ao arquipélago e não é viável.

Mesmo não considerados os anos de seca e de crise, Cabo Verde está sendo alimentado pela Metrópole quanto a investimentos e subsidiado pelo Tesouro para a cobertura de despesas ordinárias. Daqui vem que os cabo-verdianos que vemos nos mais altos cargos de diplomacia, do governo ou da administração pública por toda a parte onde é Portugal, nunca pensaram em avançar no sentido de uma utópica independência mas no da integração, ao advogarem a passagem para o regime administrativo dos Açores e da Madeira. Assim o movimento é puramente fantasioso.

Dos valores de Cabo Verde um porém se destaca e de importância para a defesa do Atlântico Sul – é a sua posição estratégica, e esse valor pode ser negociado, evidentemente dentro de um quadro político e ético que não é o nosso. A tal independência que por outros motivos qualifiquei de inviável teria logo à nascença de ser hipotecada ou vendida, negando-se a si mesma, para obter o pão de cada dia. Mas para a transacção, desde que o Brasil não esteja interessado no negócio, só existe um pretende possível.

Deixo de lado as pequenas ilhas de S. Tomé e Príncipe de que conheço as dificuldades económicas e deficiências financeiras, mas em relação às quais me parece não se terem instalado ainda em território estrangeiro os empreiteiros da sua hipotética libertação. E passamos à Guiné – à volta de um terço em superfície do território continental, com 600 mil habitantes. O clima faz que seja o autóctone a cultivar a terra e o europeu ou levantino, do Líbano sobretudo, que movimenta o comércio. A administração tem sido prudente e modesta como o impõem as condições, mas nalguns sectores, como no da saúde e assistência, tão rasgada e competente que a Organização Mundial da Saúde classificou a campanha contra a lepra como a melhor de toda a África. Sejam quais forem as aspirações das populações nativas a melhor nível de vida, uma coisa é certa: o seu amor à terra em propriedade individual observa com o maior receio as inovações que sob inspiração chinesa se preparam para além das fronteiras; e o trabalho livre a que se habituaram parece-lhes ameaçado pelas fórmulas introduzidas em países vizinhos. De modo que os perigos que ameaçam a Guiné portuguesa não são propriamente os despertados pelos movimentos de libertação do território.

Os seus representantes mesmo que portadores de algum mandato ou ambição legítima trabalham por contra alheia, pois nada poderiam contra forças de que poderá ajuizar-se, observando no mapa os Estados vizinhos e lendo na imprensa e ouvindo na rádio o eco das suas ambições. Enganam-se os que pensam para um futuro próximo em quaisquer soluções federativas ou outras para remediar os desconcertos da África actual: alguns dos novos chefes daqueles Estados não surgiram para se entenderem; a sua tendência será para se alargarem uns à custa dos outros, todos sob o enganoso signo da libertação dos povos africanos.

O Estado da Índia, pequenino que é com os seus 650 mil habitantes e 4 mil quilómetros quadrados para preencher os quais são preciso quatro ou cinco territórios dispersos, não há dúvida de que constitui uma individualidade distinta na Península do Industão. Aí se operou uma fusão de raças e culturas e, sobretudo, se criou um género de vida tal que por toda a parte o goês, como o comprovam as notações estatísticas internacionais, se distingue e não pode ser confundido com o indiano. Este continuará a arrastar consigo a divisão e a irredutibilidade das castas, confusão das línguas, o lastro da sua cultura oriental; enquanto o goês recebeu do Ocidente uma luz nova que, em harmoniosa síntese com os valores do oriente, iluminou toda a vida individual e colectiva e caldeou, através cinco séculos de permanência e vida comum, a sua ancestralidade de sangue, com novo sangue, costumes e tradições. Compreende-se Goa a fazer parte da Nação portuguesa, porque nas crises o Estado português a apoia, a guia e financeiramente a sustenta; mas não podia o Estado da Índia assegurar por si a sua própria independência, apesar da típica individualidade que depois de tantas tergiversações acabaram todos em reconhecer-lhe. Assim os representantes mais categorizados do “movimento de libertação de Goa” foram levados pela força de circunstâncias evidentes a confessar que só exigem a independência dos territórios para a integração destes na União Indiana.

O que chamamos de província de Macau é quase só a cidade de Santo Nome de Deus, lugar de repouso e refúgio do Extremo-Oriente, incrustado na China continental. A província tem atravessado períodos de prosperidade e decadência, esta agora devido ao bloqueio americano da China que tirou a Macau a parte mais importante do seu comércio. E, como não pode estender-se, sofre das suas limitações naturais. A existência de Macau como terra sujeita à soberania portuguesa funda-se em velhos tratados entre os Reis de Portugal e os Imperadores da China, de modo que, se estes textos jurídicos mantêm, como deve ser, o seu valor, através das mutações dos regimes políticos, está assegurada a individualidade daquele território e a sua integração em Portugal. Mas se saíssemos do terreno da legalidade para fazer apelo a outros factores, certo é que Macau, fosse qual fosse o valor da nossa resistência, acabaria por ser absorvida na China de que depende inteiramente na sua vida diária. E o mundo ocidental ficaria culturalmente mais pobre.

Nas Índias Orientais há uma pequena ilha que se chama Timor, metade da qual partilhámos com a Holanda e desde 1945 com a República da Indonésia. Perdida entre as mil ilhas deste Estado, Timor não tem condições de vida independente. À parte o que tem sido necessário gastar ali para desenvolver o território e elevar o nível social das populações, por meio de dispêndios extraordinários em planos de fomento, a vida ordinária não se basta e o Tesouro vê-se obrigado a cobrir parte importante das despesas correntes. Apesar de tudo a população, quando liberta de pressões ou influências estranhas, leva tranquilamente a sua vida e nas crises mais graves a dedicação dos povos para com a Nação portuguesa toca nas raias do heroísmo.

Quando as forças japonesas na última guerra devastaram sem justificação nem utilidade o Timor português e a autoridade que representava a soberania no território ficou provida de meios para o exercício efectivo do poder, foram quase só os timorenses a marcar ali por muitos modos a presença de Portugal. É curioso notar que se deve precisamente aos Estados Unidos a reentrega de Timor: por força de compromissos tomados connosco, sem dúvida, mas contra interesses que então seriam porventura de considerar, se se não tratasse de Portugal.

Não se pode saber o que daria neste caso sob pressões estranhas a autodeterminação. Aquele pequeno grupo de cuja autenticidade duvidamos e que finge em Jacarta trabalhar pela libertação de Timor não pode pretende-la senão para a trespassar à República da Indonésia que não teria então os escrúpulos de agora em aceitá-la. Port Darwin porém a uma hora de avião de Dili e alguém haveria de perturbar-se, ao menos tanto como nós, com o acontecimento.

Quer dizer: em todos os casos considerados e dadas as actuais circunstâncias, sempre que as Nações Unidas advogam a autodeterminação como acesso possível a soluções diversas, só podem de facto chegar à independência dos territórios, e, quando conseguissem a independência destes, ser-lhes-ia vedado querer coisa diferente da sua integração noutros Estados, isto é, a transferência da soberania para alguns deles. Ora, sendo esta a questão, devo dizer, sem arriscar confrontos desagradáveis, que em qualquer das hipóteses não podemos ser considerados nem menos dignos, nem menos aptos para o Governo, nem menos predispostos que outros para a influência civilizadora sobre os povos de raças diferentes que constituem as províncias de além-mar. Tentar despojar-nos dessa soberania seria pois um acto injusto e, além de injusto, desprovido de inteligência prática. E explico porquê.

Nós somos uma velha Nação que vive agarrada às suas tradições, e por isso se dispõe a custear com pesados sacrifícios a herança que do passado lhe ficou. Mas acha isso natural. Acha que lhe cabe o dever de civilizar outros povos e para civilizar pagar com o suor do rosto o trabalho da colonização. Se fosse possível meter alguma ordem na actual confusão da oratória política internacional, talvez se pudesse, à luz destes exemplos, distinguir melhor a colonização do colonialismo – a missão humana e a empresa de desenvolvimento económico que, se dá, dá, e se não dá, se larga. Muitos terão dificuldade em compreender isto, porque, referidas as coisas a operações de deve e haver, motivos havia para delinear noutras bases a política nacional.

IV

Há porém as outras grandes províncias de África, dotadas, pela sua extensão, população e riquezas, de muito maiores possibilidades. Estas possibilidades não significam que estejam isentas de graves crises, que não seja o Estado a facultar-lhes os meios para o fomento ou que não tenha o Tesouro de acudir-lhes por vezes com fundos e empréstimos gratuitos para as equilibrar financeiramente. Mas porque a sua grandeza as torna especialmente cobiçadas, ocupamo-nos delas à parte e temos de fazer referência aos vários aspectos que mais possam interessar-nos hoje.

As diatribes lançadas de altas tribunas por pessoas responsáveis contra a obra colonizadora portuguesa, à parte o que se deve a atitudes emocionais e interesses inconfessados, assentam seguramente no desconhecimento do que sejam Angola e Moçambique. Algumas responsabilidades nos caberão no facto, a nós que, absorvidos no nosso trabalho, as não apresentamos devidamente ao mundo. A ignorância parece generalizada, tantos são os que falam como se elas se encontrassem ainda em quatrocentos, abandonadas à incapacidade dos naturais.
Em contrapartida, as pessoas que as visitam sem preconceitos admiram-se da floração e beleza das cidades e das vilas, do progresso das explorações agrícolas, das realizações industriais, do ritmo de construção, dos característicos aspectos da vida social.

Não vou ocupar-me do estado económico e social das duas Províncias; mas estou a olhar para umas estatísticas oficiais estrangeiras, algumas a ONU, e respigo ao acaso algumas indicações. Ponho de lado a África do Sul onde nascem ouro e diamantes e onde a massa branca numerosa pôde dar aos territórios um desenvolvimento sem comparação no Continente. Mas vejo, por exemplo, o número de edifícios construídos nalguns territórios de África: Angola encontra-se largamente à cabeça da antiga África Ocidental Francesa, do Quénia, do Tanganica, de Uganda. O número de metros quadrados de área coberta por mil habitantes foi em Angola em 1959 de 76.8 contra 6.3 ou 51.3 ou 14.2 ou 17.8 nas outras regiões citadas.

Em quilómetros de via férrea por mil quilómetros quadrados de superfície, Moçambique é igual ao Gana e só é suplantado pela Serra Leoa, o Togo, o Daomé, todos de diminuta superfície; Angola iguala o antigo Congo Belga e tem abaixo de si os Camarões, as antigas África Equatorial e África Ocidental Francesas e Madagáscar. Quanto a veículos (locomotivas, carruagens e vagões) Moçambique só é excedido pela Federação das Rodésias, pelo Gana, pela África Oriental Britânica; Angola está em bom lugar quando por seu turno a comparamos com os outros territórios a sul do Saará.

Relativamente a potência instalada e energia produzida, por habitante, embora com representação honrosa, pois que em 57 superámos a Federação da Nigéria, estamos largamente ultrapassados pela Federação das Rodésias, pelo Congo ex-Belga e pelos Camarões ex-francesas; mas é de notar que tanto em Angola como em Moçambique as cifras duplicaram, pelo menos, de 1957 para cá e depois da conclusão dos Cambambe os nossos números serão muito mais favoráveis ainda.

Nas costas ocidental e oriental de África, em qualidade de instalações fixas e apetrechamento, os grandes portos de Angola – Luanda e Lobito – e de Moçambique – Lourenço Marques e Beira – ombreiam com os melhores daquele Continente. Em tráfego, de entre os portos da África ao sul do Saará, da Mauritânia pelo Cabo até ao Sudão, Lourenço Marques só é ultrapassado por Durban, e a Beira por estes dois e pelo Cabo.

Em questões de saúde somos os precursores em África das campanhas de acção sanitária e fomos de igual modo os precursores da assistência materno-infantil. Não vou cansar dando a nota aliás impressionante dos nossos estabelecimentos hospitalares nas províncias de África, mas apresentarei alguns números fornecidos pela Organização Mundial da Saúde relativamente à lepra em vários territórios africanos: assim Moçambique, com 5 647 000 habitantes tem 80 mil gafos e em tratamento para cima de 60 mil; o Tanganica, para uma população de 8 800 000 habitantes, tem 100 mil gafos e em tratamento apenas 34 mil; Gana tem 4 200 000 habitantes, 50 mil gafos e em tratamento 26 mil; o Quénia para uma população de 6 250 000 habitantes tem 25 mil gafos mas só 350 em tratamento; a Nigéria para uma população de 40 a 50 milhões de habitantes tem 540 mil gafos e em tratamento apenas metade, ou seja precisamente 274 790, etc. Daqui se deduz que a percentagem de doentes tratados é muito superior em Moçambique à dos territórios que indiquei.

E apesar de tudo não podemos considerar-nos satisfeitos. A vastidão dos territórios por si própria sugere empreendimentos sem conta e arrisca-se mesmo a fazer perder a muitos o sentido das proporções e das possibilidades materiais ou humanas para que se possam realizar, em curto prazo. Em todo o caso, em face do exame imparcial de muitos problemas, parece-me que dois ou três devem ser destacados e receber, em primeira prioridade, impulso mais decisivo para a sua solução. Refiro-me especialmente ao sistema de comunicações, à multiplicação de escolas primárias e técnicas, à maior divulgação de postos ou serviços sanitários.

As estradas devem considerar-se naqueles territórios o mais forte veículo do progresso. Podendo circular, os homens fazem por si muito do restante. Com a saúde teremos aumentado o bem-estar das gentes e a sua capacidade produtora. Os naturais mostram-se sedentes de instrução, porque nela vêem o meio de valorizar-se, de melhoria económica e mesmo de ascensão política. Há que matar-lhes a sede, sem esquecer equilibrar as escolas nos graus médios e superiores com o desenvolvimento económico geral, sob a pena de criar-se perigosamente um proletariado intelectual, dado à agitação pelo desemprego e à política pela ambição. Se não fora ter-nos sido imposto o esforço de debelar o terrorismo, esforço que é mais pesado que um excelente plano de fomento, nós devíamos dedicar-nos àquele programa, como o de maior rendimento para as Províncias Ultramarinas. Nas actuais circunstâncias só com suprimentos externos o poderemos fazer.

V

Estas são coisas materiais que têm muita importância mas não deviam ser tomadas por decisivas, porque numa sociedade de homens o que acima de tudo importa é o tipo das relações humanas. A maneira de ser portuguesa, os princípios morais que presidiram aos descobrimentos e à colonização fizeram que em todo o território nacional seja desconhecida qualquer forma de discriminação e se hajam constituído sociedades plurirraciais, impregnadas de espírito de convivência amigável, e só por isso pacíficas. A integração política não derivaria de uma assimilação completa, mas sobretudo da confraternização estabelecida sem distinção de credos ou de cores, e da criação de um consciência de nação e de pátria comum, naturalmente mais vasta que o pequeno horizonte em que os indivíduos e as suas tribos podiam mover-se.

Ora é facto indesmentível e de observação corrente a existência em Angola e Moçambique de uma comunidade de raças vivendo em perfeita harmonia e compreensão, sem mais diferenças na vida pública ou privada que as que nas outras sociedades são marcadas pela diversidade de níveis socioeconómicos e de aptidões pessoais. De muito longe compreendemos que, só nestas condições, o branco pouco numeroso em relação ao negro e ao mestiço, podia, excluída a sujeição violenta, exercer acção que lhe competia, dirigir o esforço da comunidade, criar trabalho pelos investimentos que não estão ao alcance da massa, elevar esta ao seu próprio nível de civilização.

Nestas circunstâncias parece inútil discutir se é possível uma sociedade plurirracial, pois que existe, e nada demonstra mais cabalmente a possibilidade do que ser. Mas serão de discutir as formas de coexistência? Teoricamente, sim, mas como se trata já de factos e de situações estabelecidas, a melhor luz a que pode examinar-se a questão é ver as consequências a que levaria a destruição daquelas.

Os novos Estados africanos discriminam contra o branco, e isso o podem fazer nos territórios em que a obra colonizadora obedeceu a moldes diferentes e o branco, se trabalhava para viver, não estava instalado para ficar. Ora nós estamos precisamente no limite do racismo negro que vem estendendo-se até ao Zaire e que pelo Tanganica e pela Niassalândia atinge o Norte e Noroeste de Moçambique. Esse racismo negro tem-se revelado de tal modo violento e exclusivista que as sociedades mistas existentes ao sul se lhe não podem confiar. Pode-se, matando ou expulsando o branco, eliminar o problema, mas este não o pode resolver o racismo, se o branco, porque tem ao menos os mesmos títulos e goza de pelo menos igual legitimidade, pretende ficar naquela terra que é também sua.

Pouco importa que alguns sorriam da nossa estrutura constitucional que admite províncias tão grandes como Estados e Estados tão pequenos como províncias, e se entretenham a pôr em dúvida soberanias, aliás indiscutíveis, ou a menosprezar civilização e cultura incontestavelmente superiores, ou a desconhecer necessidades de defesa ligadas a territórios sob autoridade ocidental. O grande problema subsiste, resultante da instalação definitiva da população branca e do facto de se encontrar nas suas mãos quase exclusivamente a direcção do trabalho, o financiamento das empresas, a administração do bem público. Esta, sim, esta é a questão que merece a atenção de estadistas e não duvido de que, se nela atentassem, não mãos nos estorvariam de encaminhar um problema que, nos nossos territórios, só nós, pelos nossos métodos, somos capazes de resolver.

As fórmulas políticas, quaisquer que sejam, não podem desconhecer as circunstâncias de facto que aí ficam apontadas. Estamos em face de sociedades, em evolução forçosamente lenta, que eu creio há o maior interesse em salvar e fazer progredir. Eles apoiam-se moralmente no princípio da igualdade racial mas política e juridicamente não se podem abstrair, para defesa própria e garantia de progresso, da diferença de méritos individuais. Para que estes princípios funcionem sem a indevida sujeição de grandes massas ao escol branco ou preto, é necessário que estejam garantidas a todos as mesmas possibilidades de acesso económico ou cultural. Ou a não discriminação está presente em toda acção pública e privada, ou o edifício ruirá. Por outro lado até se atingir um grau de elevada homogeneização, fisiológica ou moral, das populações, a construção não poderá manter-se sem o apoio que há-de assegurar a genuinidade dos princípios e a vida da comunidade no equilíbrio que presidiu à sua própria formação.
Ouço às vezes falar de soluções políticas, diferentes da nossa solução constitucional e possivelmente inteligíveis em séculos vindouros. Não desperdicemos tempo a apreciá-las, porque o essencial agora é o presente e o presente é tão simples como isto: o que seria de Angola na actual crise, se Angola não fosse Portugal?

Isto vem a dizer que a estrutura actual da Nação portuguesa é apta a salvar de um irredentismo suicida as parcelas que a constituem e que outra qualquer as poria em risco de perder-se não só para nós mas para a civilização.

A estrutura constitucional não tem aliás nada que ver, como já uma vez notei, com as mais profundas reformas administrativas, no sentido de maiores autonomias ou descentralizações, nem com a organização e competência dos poderes locais, nem com a maior ou menor interferência dos indivíduos na constituição e funcionamento dos órgãos da Administração, nem com a participação de uns ou de outros na formação os órgãos de soberania, nem com as alterações profundas que tencionamos introduzir no regime do indigenato. Só tem que ver com a natureza e a solidez dos laços que fazem das várias parcelas o Todo nacional.

VI

Abusei demasiado da vossa paciência mas vou terminar já.

Deve ter-se notado que me ocupei do que era essencial na atitude da ONU para connosco mas não do teor das suas deliberações. Achei que não valia a pena. Toda a gente terá reparado no que aquelas contêm de abusivo em relação aos termos expressos da Carta e falho de razão em relação aos factos e a o comportamento que perante eles deve ter um governo responsável.

A insistência em menosprezar o princípio fundamental da não intervenção nos assuntos internos dos Estados membros mereceu tais reparos e causa tais apreensões aos que ainda depositam alguma confiança no futuro da Organização que é de prever esta venha alterar a sua conduta, no caso de desejar sobreviver.

O convite às autoridades portuguesas para cessarem imediatamente as medidas de repressão é uma atitude, digamos, teatral do Conselho de Segurança e que ele não tem a menor esperança de ver atendida, tão gravemente ofende os deveres de um Estado soberano. Desde os meados de Março não acharam nem o Conselho nem a Assembleia oportunidade para ordenar aos terroristas que cessassem dos seus morticínios e depredações, e tantos dos seus membros o podiam ter feito com autoridade eficácia. Mas quando intervém a autoridade cuja obrigação é garantir a vida, o trabalho e os bens de toda a população, essa obrigação ou primeiro dever do Estado não haverá de ser cumprido, porque é necessário que os terroristas continuem impunemente a sua missão de extermínio e de regresso à vida selvagem.

A consideração de que a situação em Angola é susceptível de se tornar uma ameaça para a paz e para a segurança internacionais, essa, sim, pode ter fundamento, mas só na medida em que alguns dos votantes se decidam a passar do auxílio político e financeiro que estão dando, para o auxílio directo com as suas próprias forças contra Portugal em Angola. Tudo começa a estar tão do avesso no mundo que os que agridem são beneméritos, os que se defendem são criminosos, e os Estados, cônscios dos seus deveres, que se limitam a assegurar a ordem nos seus territórios são incriminados pelos mesmos que estão na base da desordem que aí lavra. Não. Não levemos ao trágico estes excessos: a Assembleia das Nações Unidas funciona como multidão que é e, portanto, dentro daquelas leis psicológicas e daquele ambiente emocional a que estão sujeitas todas as multidões. Nestes termos é-me difícil prever se o seu comportamento se modificará para bem ou não agravará para ainda pior. Se porém virmos este sinal no céu de Nova Iorque, é meu convencimento que estão para breves catástrofes e o total descalabro da Instituição.
Muitas pessoas, em face dos votos contrários a Portugal e das abstenções, inferem do seu número um isolamento perigoso para o nosso país no convívio internacional. Espero que não nos intimidemos os que estamos seguros de ter razão e estamos convencidos de poder demonstrá-la. A vida internacional não é toda feita na ONU e os votos são mais o resultado de um processo competitivo que ali se estabeleceu do que a expressão de um juízo válido sobre questões internacionais ou ultramarinas. Verifica-se – é certo isso – em muitos países como que uma onda de pânico e intimidação, correlativa da falta de fé nos princípios que continuo a considerar válidos, da civilização ocidental. Agora quem parece ter razão os Estados afro-asiáticos. Mas com um pouco de coragem da nossa parte, eles acabariam por compreender que há limites a não ultrapassar.

Embora sob a acção de uma intensa campanha de difamação internacional, muito bem dirigida pela Rússia comunista que aliás nos obsequiou declarando a sua posição, vemos que a mesma não conseguiu obscurecer muitas das melhores inteligências nem arrastar consigo a opinião dos países representados. Veja-se, por exemplo, como tem reagido a escol intelectual do Brasil, em face do ataque a Angola, a província africana que, por várias vicissitudes da história comum, quase considera como fazendo parte do seu património moral. Veja-se, por exemplo, se a Espanha que nesta crise nos tem acompanhado momento a momento com vivacidade do seu temperamento e o fervor da sua afeição fraternal, veja-se se ela não compreende bem que o ataque a Portugal foi apenas o aproveitar de uma oportunidade e tanto podia ser contra nós como contra ela, ou será uma vez contra ela e outra contra nós.

Até que os europeus compreendam, contra este sudoeste da Europa continuarão a desferir-se golpes sob todos os pretextos, porque é necessário fazê-lo ruir para cair tudo o mais.

Sejam quais forem as dificuldades que se nos deparem no nosso caminho e os sacrifícios que se nos imponham a vencê-las, não vejo outra atitude que não seja a decisão de continuar.

Esta decisão é imperativo da consciência nacional que eu sinto em uníssono com os encarregados de defender lá longe, pelas armas, a terra da Pátria. Esta decisão é-nos imposta por todos quantos, brancos, pretos ou mestiços, mourejando, lutando, morrendo ou vendo despedaçar os seus, autenticam pelo seu mesmo martírio que Angola é terra de Portugal.

[fim]

05/10/2018

EDUARDO COSTLEY-WHITE

Filed under: Eduardo Costley-White — ABM @ 1:45 am

Fotografia de Bruno Mikahil, publicada na manhã em que o Eddy morreu, 24 de Agosto de 2014 e que guardei. Pintada por mim. Bebi muito com o Eddy, eu Coca-Cola, ele Whisky puro, em copos, enquanto ele deambulava sobre o trivial e o sublime. Um dia hei-de escrever sobre o que me recordo dessas conversas, que me ajudaram a formar uma opinião sobre o Moçambique que era na primeira década de 2000.

 

Eduardo Costley-White

03/10/2018

TRABALHO INFANTIL NOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, 1911

Filed under: Trabalho Infantil nos EUA 1911 — ABM @ 9:07 pm

Imagem colorida por mim.

Existe entre algumas pessoas em África a convicção de que os africanos têm o monopólio da desgraça e da exploração. Não foi bem assim. Essa exploração sempre houve em todo o mundo e ainda se verifica – nomeadamente em África. Mas para contextualizar, veja-se esta imagem de 1911, colhida no Estado norte-americano de Massachusetts, parte de um trabalho de fotografia com, penso, o fim de ilustrar (e denunciar) o trabalho infantil nos Estados Unidos e cujo original está guardado na Biblioteca do Congresso em Washington. Os dois miúdos no centro da fotografia, com 9 e 11 anos de idade, eram portugueses, provavelmente originários das ilhas açorianas.

Pois.

Napoleão Leitão, com 9 anos de idade, morador na Rua Griffin Nº 14 1.5, em New Bedford, Massachusetts. Ao lado, uma rapariga portuguesa com cerca de 11 anos de idade, a trabalharem nos arredores de Rochester Eldridge Bog, Massachusetts, Setembro de 1911.      Napoleon Leighton, Said 9 years old, 14 1.5 Griffin Street, New Bedford, Mass. Also young Portuguese girl about 11 years old. Location Rochester [vicinity] Eldridge Bog, Massachusetts. September 1911.

A CENSURA COLONIAL EM MOÇAMBIQUE, DÉCADA DE 1960

Da direcção e velocidade com que os chamados Ventos da História varreram do mapa, tardiamente, as experiências coloniais portuguesas, resultou, fruto do esquecimento, do pouco estudo e do triunfo do politicamente correcto, especialmente em certos círculos afro-cêntricos e de esquerda, que contam as histórias como melhor se ajusta às suas mundividências do momento, uma descontextualização que facilita uma demonização do sistema colonial por vezes bem para além daquilo que era (e que já era suficientemente mau), ignorando alguns factos que são críticos para aquilo que é o objecto fundamental do estudo histórico: entender os contextos, os processos subjacentes e, principalmente, a Verdade.

O patrocínio dessas pessoas, e dessas perspectivas, imperou, especialmente entre as décadas de 1960 e 1990, quando o Mundo viveu a bipolaridade entre o Ocidente, liderado pelos Estados Unidos, e os impérios comunistas, liderados pela extinta União Soviética e a República Popular da China.

Mas as clivagens não se encontravam aqui, sendo que muita da produção académica nesta altura – e até esta data – era e permanece influenciada por o que considera um erro de paralaxe indesculpável, tão indesculpável como eram as interpretações feitas pelos académicos de serviço promovidos pelo regime colonial português.

Tudo se resume a uma questão de escopo, como desabafou uma vez, algo frustrada mas sabiamente, Michel Cahen, um dos profissionais académicos referenciáveis na historiografia respeitante a Moçambique, a propósito da análise dos factos e do uso das fontes coloniais como bases para a formulação da análise e a dialéctica histórica.

Pois como referi uma vez, enquanto estudava na Universidade de Brown, há muitos anos numa aula de História de África em 1981, ministrada pelo saudoso Professor Newell Maynard Stultz, daqui a 200 anos, o regime do Apartheid na África do Sul (então um assunto explosivo e a ferro e fogo) seria pouco mais que um episódio passageiro no longo percurso da evolução da comunidade humana e dos seus valores, como foram os impérios egípcio e romano, as conquistas de Alexandre o Grande, Napoleão e Adolf Hitler.

Este é um trabalho contínuo – uma luta constante.

 

A minha primeira máquina de escrever. Para além da roupa e de uns livros, fez parte dos 17 quilos com que saí de Lourenço Marques em 19 de Fevereiro de 1975, com 15 anos acabados de fazer, para ir estudar em Coimbra, num vôo da TAP. Hoje uso um computador HP.

 

E uma das alegadas “verdades incontestáveis” é uma putativa dicotomia na sociedade colonial entre os colonizados negros e os seus colonizadores brancos (a questão epidérmica não é inconsequente, apesar dos apregoados bons ofícios do primeiro presidente da República Popular, “eleito” por inerência ao cargo de chefe da guerrilha a quem foi entregue o poder, administrativamente).

A dicotomia consistia nos primeiros serem o único alvo da ditadura e nos segundos viverem no bem-bom, livres da opressão que a caracterizava. Os primeiros seriam oprimidos, levavam porrada da PIDE, não tinham direitos, os segundos beneficiavam de uma liberdade considerável e eram quase isentos de punições, habitualmente colaborando quase entusiasticamente com o regime.

Provavelmente era assim em muitos casos, se calhar numa maioria.

Mas se era assim, então porque é que a máquina colonial sentia que tinha que recorrer aos instrumentos de repressão tais como as “Instruções Gerais”, emanadas nos anos 60 e reproduzidas em baixo e que davam corpo a uma instenção óbvia de repressão à liberdade de imprensa e à opinião pública, dirigida principalmente aos meios de comunicação utilizados pela minoria branca/portuguesa colonial?

Então mas eles não achavam aquilo tudo excelente?

Eles não colaboravam alegremente com o regime colonial?

Ou será que havia, de entre os putativos colonos, resistência à ditadura e ao regime?

E se havia, se houve, porque é que ela é, ao contrário da “resistência africana” frequentemente descurada nas análises daquela era?

Afinal, foi o golpe de Estado militar promovido pelo então Major Otelo, ele um curioso produto da sociedade lourenço-marquina, que tinha por objectivo final libertar a sociedade portuguesa da ditadura de partido único e consequentemente encerrar o capítulo colonial, a causa imediata do fim do regime, que tudo indicia já se preparava para mais uma adaptação. Fim de regime que já se pressentia seria doloroso e pernicioso, especialmente para os povos colonizados, como se veio a comprovar, a começar pelas suas liberdades de imprensa e de pensamento, que ainda hoje em Moçambique, volvido meio século de soberania, são alvo de repressão, de infindáveis comentários editoriais e o ocasional jornalista morto ou espancado.

Mas, como referi, é tudo uma questão de escopo.

E de luta pela verdade e pela liberdade.

Leia o Exmo. Leitor esta jóia da jurisprudência colonial, em que nos matavam todos com amor:

1 de 9

 

2 de 9

 

3 de 9

 

4 de 9

 

5 de 9

 

6 de 9

 

7 de 9

 

8 de 9

 

9 de 9

SAMORA MACHEL CHEGA À BEIRA, NA MARCHA DO ROVUMA AO MAPUTO, 1975

Filed under: Samora Moisés Machel, Samora na Beira 1975 — ABM @ 12:12 am

Imagem colorida por mim.

 

Samora Machel, então líder absoluto da Frente de Libertação de Moçambique, rodeado por homens armados, chega à Cidade da Beira, considerada a mais rebelde de entre as cidades coloniais, durante a “Marcha do Rovuma ao Maputo”, que terminará em Lourenço Marques, pouco antes da declaração formal da independência de Moçambique, em 1975. Quase exactamente seis meses depois desta passagem triunfal, a história da nova República Popular tomava forma nesta cidade e nos seus arredores, com prisões em massa de civis (os “indesejáveis”) e o ataque rodesiano a uma base militar no Dondo, onde foram mortas numa manhã mais pessoas que durante quase dez anos seguidos de “guerra colonial”.

02/10/2018

RANGEL, MALANGATANA, VASCONCELOS E NOGAR NO SCALA EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 60

Com vénia a CC. Imagem retocada e colorida por mim.

 

Rangel, Malangatana, Leite Vasconcelos e Rui Moniz Barreto (Rui Nogar). No Café Scala em Lourenço Marques, anos 60. Os Dreamers de um Moçambique que não era nem seria.

O MEU TIO JOSÉ CATARINO, POR JOÃO CATARINO

Texto da autoria de João Manuel Almeida Catarino (foto no fim do texto), gentilmente cedido para publicação aqui, com uma breve memória pessoal sobre o seu Tio, José Teixeira Catarino, uma figura de referência da Lourenço Marques colonial e sobre o qual muito haverá a dizer.

José Teixeira Catarino.

 

Nunca conheci o meu tio José Catarino, devido a uma zanga entre irmãos: meu pai, Manuel Teixeira Catarino, e ele, o irmão mais velho, José Teixeira Catarino.

Em criança, em Lourenço Marques, onde nasci, fui com minha mãe, várias vezes, à Padaria Lafões, uma das propriedades do meu tio José, mas nunca o encontrei.

A Padaria Lafões em Maputo, 2010.

Só o vislumbrei em dia que sei precisar, 8 de Dezembro de 1946. Nesse dia, eu e minha mãe tínhamos ido assistir à procissão, em honra de Nossa Senhora da Conceição, que se realizava em frente à Catedral, com enorme assistência.

A Sé Catedral de Lourenço Marques, inaugurada em Agosto de 1944.

Disse-me minha mãe: “aquele senhor muito alto e forte que participa na procissão, é o teu tio José”. Olhei e, na verdade, apercebi-me de alguém bem alto e forte que se salientava acima de todos, mas, infelizmente, não lhe vi o rosto.

Rumo a Portugal, deixámos Moçambique (minha mãe, Olga Alcântara de Almeida Catarino, minha irmã, Sofia Manuela Almeida Catarino, e eu), era eu ainda uma criança, em Abril de 1947.

Regressei a Lourenço Marques, em 1970, convidado pelo então Secretário das Comunicações, engenheiro Villar Queiroz, onde trabalhei no Serviço de Formação dos Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM), até Setembro de 1977.

O meu tio José Teixeira Catarino tinha falecido em 1964, pelo que, também desta vez, não tive oportunidade de conhecê-lo pessoalmente.

Em serviço, deslocava-me com frequência a departamentos dos CFM localizados ao longo das linhas da Beira e de Nampula, para avaliação das necessidades de formação. Muita vez aconteceu que o meu apelido Catarino deu origem à pergunta: “o senhor José Catarino é seu familiar?”. Face à minha resposta, invariavelmente diziam-me: “o seu tio era um grande amigo dos desfavorecidos, dando-lhes todo o apoio, em troca de nada”. Disso, muito beneficiavam funcionários de baixas categorias do Caminho-de-Ferro e seus familiares que viviam ao longo da Linha de Lourenço Marques/Ressano Garcia; “era uma excelente pessoa!”.

Já em 1977, o Director dos CFM na altura, o Engenheiro Alcântara Santos — mais tarde Ministro da Comunicações do governo de Moçambique, falecido no acidente aéreo que vitimou também o Presidente Samora Machel —, encarregou-me de estudar o programa de um curso de formação para os acidentados das Manobras (Gare de Triagem) que estavam a exercer funções de guarda-linhas, em condições muito difíceis e deprimentes, ao sol e à chuva. À partida, visava dar-se-lhes o mínimo de conhecimentos para exercerem funções de auxiliares administrativos. Aprovadas as linhas gerais do curso, a Direcção determinou a realização de uma primeira reunião, com os referidos acidentados, para os informar do que era pretendido; seguir-se-ia uma outra, decorrido algum tempo para que as ideias assentassem e se conhecer a opinião sobre o plano. As reuniões teriam a presença de um representante das estruturas políticas da Frelimo afectas aos Caminhos de Ferro do Maputo.

As reuniões foram marcadas para a meia-noite por causa dos turnos, segundo a explicação que me foi dada, num armazém desactivado, com péssimas condições de iluminação e de lugares minimamente adequados para os referidos funcionários, que sofriam de amputações várias.

Reclamei, mas foi-me dito ser o único local disponível. Nunca em toda a minha vida, tive reunião tão deprimente, triste e amargurada, face a cerca de vinte funcionários amputados, em maioria, dos membros inferiores. Tentei ser o mais breve possível, explicando o que a Direcção pretendia, tendo até agradecido a presença de todos, em hora tão tardia. Não me tendo sido posta qualquer questão, dei a reunião por terminada, tendo marcado uma outra para uma semana depois, à mesma hora.

Felizmente, no que respeita ao elemento da estrutura política da Frelimo , afecta aos CFM, fui agraciado com a presença de um moço muito simpático, culto e educado, de que não fixei o nome. Convidei-o para um petisco e aí trocámos informações sobre as nossas experiências: ele agente técnico de engenharia civil, com formação adquirida num país do Leste Europeu, nascido nos arredores de Maputo (como então passara a chamar-se a cidade de Lourenço Marques), filho de um ferroviário. Dei-lhe a conhecer que também eu era moçambicano, que a minha família tinha profundas raízes no país, especialmente do lado do materno. Meu bisavô já nascera em Lourenço Marques; o pai, meu trisavô, ‘bacharel em direito’, durante as Lutas Liberais, que se seguiram à morte do Rei D. João VI, foi preso pelos miguelistas, por ser um liberal militante, no Forte de São Julião da Barra (Oeiras, Portugal) donde fugiu, tendo embarcado clandestinamente, com a mulher, num barco que partia para Moçambique. Durante esta conversa, coloquei a possibilidade de a sua família conhecer meu tio, José Catarino, que tinha sido proprietário de diversas ‘cantinas’ funcionando ao longo da linha ferroviária. Marcámos encontro para dali a uma semana.

Para a segunda reunião chegámos bem cedo. Reparei numa profunda tensão e excitação por parte dos funcionários, que estavam, na maioria, de pé.

Cumprimentei-os e, mal tinha iniciado a reunião, os mais exaltados dirigiram-se para mim, de muletas no ar, pretendendo atingir-me, ao mesmo tempo que gritavam estarem a ser enganados por mim, vociferando que perderiam dinheiro se aceitassem o curso que eu lhes tinha proposto. Tentei esclarecer que não tinha conhecimento desse facto, pois o Director não me pusera a par disso, e que se o soubesse não teria aceite ser interlocutor de tal plano. Não me quiseram ouvir e estive quase para ser agredido.

Valeu-me o tal representante político da Frelimo que, aos gritos, os obrigou a sentar e a acalmar. E na língua ronga falou com eles. Nada entendi, mas vi que três dos participantes se dirigiram aos colegas. Tudo acalmou, como se nada se tivesse passado, e o representante político da Frelimo aconselhou-me a terminar a reunião e a informar que iria comunicar ao Director o seu descontentamento por ficarem lesados nos vencimentos que lhes tinham sido determinados de acordo com a condição de deficiência de cada um, resultante de acidente em serviço. Partiram, ficando só os três a que me referi. Perguntei ao elemento da Frelimo o que lhes tinha dito para os acalmar.
Para minha grande surpresa, tinha-os informado de que eu era sobrinho do senhor José Catarino, e como tal, nunca seria capaz de os atraiçoar, e que eu próprio iria falar com o Director, pois também me sentira enganado.

Os três funcionários que ficaram, pediram-me desculpa do que se passara, disseram-me que tinham informado os colegas de quem eu era e que não deviam esquecer que tinham sido apoiados pelo meu tio, pessoa bondosa e amiga e incapaz de fazer mal.

Então, um deles deu-me a conhecer que meu tio pagara a ida da mãe para a maternidade, sem o que ambos teriam, pela certa, morrido; os outros, que ele pagara tratamentos ao pai e a um irmão, e que durante um tempo os ajudara com um valor mensal em géneros, até as dificuldades passarem.

Devo a meu tio José Teixeira Catarino, que nunca conheci, à sua bondade, ao seu hábito de bem-fazer, o não ter ficado muito maltratado nessa noite, o que nunca esqueci, e que agora relato a pedido de meu primo José Manuel Catarino Soares, que está a tentar reconstituir a vida deste meu tio paterno (que é também seu avô materno) — uma vida cheia de interesse para a história de Moçambique no século XX.

Resta dar a conhecer que o meu encontro com o senhor Director dos CFM foi pouco amistoso, tendo conseguido, no entanto, que anulasse aquele seu azarado plano e se desculpasse por não me ter informado que estava prevista a redução dos vencimentos em mudança de carreira.

Amadora, 18 de Setembro de 2018
João Catarino

jmacatarino@gmail.com

João Manuel Almeida Catarino, 2017.

28/09/2018

TENHO SAUDADES DE VER UM BOM FILME

Filed under: 2001 Uma Odisseia no Espaço — ABM @ 1:00 am

Tenho saudades de ver um bom filme.

 

Imagem de “2001, Uma Odisseia no Espaço”, 1968. Vi no Manuel Rodrigues em Lourenço Marques, 1969. Tinha nove anos de idade e não percebi metade do enredo, mas saí de lá estupefacto.

APEANDO A BANDEIRA PORTUGUESA NA NOITE DA INDEPENDÊNCIA FORMAL DE MOÇAMBIQUE

Filed under: Apeando a bandeira portuguesa 25.6.75 — ABM @ 12:55 am

Pintei a bandeira.

A bandeira de Portugal a ser apeada do mastro durante a cerimónia formal da declaração da independência, no antigo Estádio Salazar, em Lourenço Marques, cerca da meia noite de 24 para 25 de Junho de 1975, de uma terça para uma quarta-feira, Na altura eu estudava e nadava em Coimbra e segui as cerimónias ao vivo pela rádio portuguesa.

17/09/2018

A POSIÇÃO DE MOÇAMBIQUE EM 2017: 180º EM 189

Filed under: Moç 180º de 189 em 2017 — ABM @ 4:56 pm

Em Moçambique há muito tempo que já ninguém liga a estas coisas, com a ideia que “as coisas não são tão más como isso”, o que faz lembrar a conhecida síndrome colonial dos portugueses antes da Independência.

Refere hoje o quase em vias de extinção Diário de Notícias de Lisboa, citando a Agência estatal de notícias Lusa: “Moçambique é o nono país com menor índice de desenvolvimento humano (IDH) do mundo (0,437 valores), ocupando a 180ª posição entre 189 países, informa um relatório global do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.”

O Prémio 44 Anos Seguidos na Cauda do Mundo vai para a Frelimo.

 

Tentando mesmo assim dar um spin positivo a esta péssima mas já habitual informação, referente a 2017, o texto do DN/Lusa diz que estes dados indicam que os números para o ano anterior, “afinal”eram ligeiramente melhores do que anteriormente calculados (0.435 versus 0.418).

O povo moçambicano já se deve sentir melhor com a informação retroactiva.

Mas logo a seguir, para aqueles entre nós que lêem dados estatísticos, o articulista avisa: “Moçambique é um dos exemplos de países que, por não recolher e apresentar os dados pedidos pelo PNUD a tempo, tem uma avaliação que pode não corresponder à realidade, com discrepâncias nos números”.

Pois. Ou seja, se calhar as autoridades moçambicanas não fizeram o trabalho de casa, e assim talvez as coisas não sejam assim tão boas, ou tão más.

Fiquemos na dúvida.

Algumas pérolas partilhadas no relatório do PNUD, que foi publicado ontem:

esperança média de vida – 58,9 anos

média de anos de escolaridade frequentados pela população – 3,5 anos, sendo que 2,5 anos na educação das mulheres e de 4,6 anos na dos homens.

taxa de fertilidade – média de cinco filhos por cada mulher em idade fértil

quinto país do Mundo mais afectado pela tuberculose – 551 pessoas em cada 100 mil têm tuberculose, cerca de quatro vezes mais que a média mundial de  140 pessoas em cada 100 mil.

(PIB) per capita, (calculado em unidades de paridade de poder de compra), é 1.136 dólares, comparado com uma média mundial de 15.439 dólares.

84,6% dos trabalhadores que têm trabalho, têm-no em condições precárias

O país com pior índice de desenvolvimento humano do mundo é o Níger, com 0,354 valores. O melhor é a Noruega.

O PNUD não se envolve nas questões um pouco mais nebulosas dos índices das liberdades e direitos fundamentais dos cidadãos, ou da liberdade de imprensa, da corrupção aos mais alto níveis e ainda menos das liberdades e direitos políticos. Talvez por achar que elas não indiciem “desenvolvimento humano”.

 

15/09/2018

O JARDIM DA CATARSE COLONIAL, 1975

Penso que, sujeito a confirmação, a imagem foi colhida pelo Ricardo Rangel em 1975. Foi colorida por mim hoje.

 

O Jardim da catarse em Maputo, 1975. Da esquerda: Teodósio Clemente de Gouveia, feito primeiro cardeal de Moçambique em 1946; Mouzinho de Albuquerque, figura militar da chamada “pacificação” na década de 1890; Gago Coutinho, que liderou a delimitação das actuais fronteiras de Moçambique e que ali conduziu missões hidrográficas; a mulher que estava na base do monumento a António Ennes; António Ennes, que teve a ideia peregrina de que Portugal não devia vender Moçambique aos britânicos e aos alemães; e a mulher (“Mãe Pátria”) que estava na base do monumento em memória de Mouzinho. As estátuas de Mouzinho e de Ennes foram premiadas com a sua colocação no Núcleo Museológico da Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, junto à Praça 25 de Junho, na baixa de Maputo.

EDITORIAL DO JORNAL “A VERDADE”, 13 DE SETEMBRO DE 2018

Filed under: Editorial de A Verdade 13.09.2018, Xiconhoca 1977 — ABM @ 1:44 pm

Palavras de ordem do Xiconhoca, 1977, um dos instrumentos da propaganda do então regime comunista de partido único e que manteria esse formato até final dos anos 80.

(Editorial do jornal A Verdade, 13 de Setembro de 2018, actualizado a 15 de Setembro de 2018, editado por mim, aludindo à próxima eleição autárquica, a realizar em Outubro de 2018).

A seriedade de um Governo também se vê nas suas acções prioritárias e, sobretudo, na sua preocupação com o bem-estar do seu povo. Há 43 anos, desde que Moçambique se tornou num país Independente do jugo colonial, o seu desenvolvimento continua a ser eternamente postergado por um grupo de indivíduos que se julga no direito de hipotecar o futuro dos moçambicanos em nome da suposta libertação da nação.

É óbvio que essa “canção” não passa de mais uma música para acalentar a população, enquanto eles prosseguem com as suas agendas de espoliar os moçambicanos. Um exemplo disso é o número de indivíduos ligados à Frelimo que detêm quase todos os recursos e controlam as riquezas do país.

A cada dia que passa, fica evidente para os moçambicanos que o Governo da Frelimo tem estado a apostar no atraso do país. É só olhar actual situação de Moçambique. Os índices de qualidade de vida continuam a deteriorar-se, a economia encontra-se numa situação lastimável e, ao longo de 43 anos, o país não conseguiu ser auto-sustentável na produção de alimentos. O país debate-se com défices notáveis em produtos que poderia produzir para o consumo interno e até ter excedentes para exportar, pois acostumou-se, nos últimos anos, a caridadezinhas, denominadas de ajuda externa, e a importar tudo que consome e, por isso, pouco ou quase nada foi feito para desenvolver a agricultura.

Quando surge uma oportunidade do Governo da Frelimo demonstrar a sua preocupação com as condições em que vivem os moçambicanos, o mesmo direcciona investimentos para sectores que não acrescentam em nada ao bem-estar do povo. Exemplo disso é a decisão do Governo de injectar, este ano, na rádio e televisão públicas, mais de 1 bilião de meticais. Claramente, trata-se de um investimento em propaganda para o partido Frelimo, visto que se aproximam as eleições. Não é novidade para os moçambicanos que a Televisão de Moçambique e a Rádio Moçambique não passam de órgãos de propaganda do Governo da Frelimo.

O mais caricato é que o Governo deixou o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC) a tentar desenrascar-se, em acções de emergências durante época chuvosa 2017/2018, com apenas 145 milhões meticais. Ninguém merece um Governo que não se importa com o sofrimento do seu povo. Portanto, esta é mais uma prova do descaso do Governo da Frelimo em relação à população moçambicana.

 

Nota:

“postergar” – verbo
1. transitivo direto: deixar de preferir; preterir, desprezar.
2. transitivo direto: não fazer caso; desprezar, menosprezar.
exemplo: “um governante que posterga até mesmo artigos constitucionais”

14/09/2018

DOCUMENTÁRIO COM E SOBRE SAMORA MACHEL

Filed under: Samora Moisés Machel — ABM @ 2:23 pm

Um documentário acrítico sobre a personalidade, as ideias e o contexto na era da ditadura samoriana. Todos aluados com o magnetismo carismático do líder do movimento guerrilheiro comunista e nacionalista que ia pôr os pontos nos iis no mundo e em particular no seu mundo. Em que se destacavam os intelectuais e alguns jornalistas estrangeiros, alguns, como John Saul, que até se retratava como “amigo de Samora” (e que continua a tocar na tecla de que foram os sul-africanos que mataram Samora). Mas a impensada retirada do poder colonial, como eu previa, provou ser o menor dos problemas. Em dez anos, Moçambique, em que Samora quis, entre outras preciosidades, ser o Nyerere do Zimbabué, estava de rastos e Samora em apuros. A sua morte física em 1986 assinalou apenas a imposição de uma nova Frelimo, a Frelimo Inc., genialmente inventada por Joaquim Chissano, que ainda persiste com enorme sucesso no final de 2018, ameaçando durar mais tempo que a infame ditadura de António de Oliveira Salazar – o tal que não aceitava descolonizar. A Frelimo, Inc. que ainda insiste no contraponto colonial para justificar os seus falhanços e escamotear a sua rapacidade. Basta ver quem manda e como manda.

 

SAMORA E RONALD REAGAN NA CASA BRANCA, 1985

Filed under: Samora e Ronald Reagan 1985 — ABM @ 4:53 am

Um ano e um mês antes de morrer num acidente de avião. Dois anos depois de se render aos Sul-africanos.

 

AS CANÇÕES DA FRELIMO, REUNIDAS

Filed under: Canções da Frelimo reunidas — ABM @ 4:25 am

Eu não acredito que alguém se deu ao trabalho de reunir aquelas canções todas que a Frelimo dos tempos de partido único, de tudo e de todos,  achava o máximo, mas aqui vai (segue a seguir vídeo com as canções):

0:00 Viva, Viva a FRELIMO (Long Live, Long Live FRELIMO)
0:34 A Internacional (The Internationale)
1:20 Hino da FRELIMO (Anthem of FRELIMO)
2:54 Unidade (Unity)
4:56 Avante, Povos Oprimidos (Forward, Oppressed Peoples)
8:13 Hino da Mulher Moçambicana (Himn of Mozambican Women)
10:56 Exaltemos Mondlane (We Exalt Mondlane)
13:16 Comemoremos o 25 de Setembro (We Commemorate the 25th of September)
16:04 Africa em Luta (Africa in Struggle)
19:38 Vinte e Cinco de Junho, 1962 (Twenty-Fifth of June, 1962)
21:54 Que Belo es Tu Moçambique (How Beautiful you are Mozambique)
25:05 Moçambique Ja Indepêndente (Mozambique is Independent)
26:33 Liberdade a Alegria (Freedom and Joy)
28:30 Somos Construtores do Moçambique Novo (We Are Builders of the New Mozambique)
30:57 Doctor Mondlane e Josina Machel (Doctor Mondlane and Josina Machel)
37:33 Josina
42:06 Saudamos Os Responsaveis (We Salute Our Leaders)
44:22 Continua a Dirigir a Nação, Pai Samora (Continue to Lead the Nation, Father Samora)
46:12 Viva a Conferencia da OMM (Long Live the Conference of the OMM)
49:00 Moçambique é Um Pais Tau Grande (Mozambique is a Large Country)
50:38 O Povo Presta Homenagem a Samora (The People Pay Tribute to Samora)
53:20 Custe o Que Custar (Whatever the Cost)
55:44 Seja Louvado o 25 de Septembro do 1964 (Praised be the 25th of September of 1964)
59:24 Moçambique, Nossa Terra Bendita (Mozambique, Our Blessed Land)

E ainda:

1. Myaka Khume (Ten Years)
2. A Tiku Leli Musambiki (Mozambique Is Our Country)
3. O Aviao Presidencial Foi Car Em M’buzini (The President’s Plane Crashed In M’buzini)
4. Liberdade A Alegria (Liberty Is Happiness)
5. Sonos Construtores Do Mocambique Novo (We Are The Builders Of A New Mozambique)
6. Docta Mondlane E Josina Machel (A song Celebrating The Heroes Who Fell In The Fight For The Nation’s Liberty)
7. Josina
8. Saudamos Os Responsaveis (We Greet Our Leaders)
9. Continua A Dirigir A Nacao, Pai Samora (Samora, Keep On Leading Us)
10. Viva A Conferencia Da OMM (Viva, Conference Of The OMM)
11. Mocambique E Um Pais Tau Grande (Mocambique Is A Big Country)
12. M’buzini
13. O Povo Presta Homenagem A Samora (People’s Homage To Samora)
14. Custe O Que Custar (However Much It Costs)
15. Chendjera Caetano
16. Seja Louvado O 25 De Septembro Do 1964 (We Sing Of September 25th 1964)

 

O CINEMA MOÇAMBICANO E A AUTOCRACIA PÓS-1975

Um espesso documentário de Margarida Cardoso, feito em 2003, sobre aquela maluqueira toda que se seguiu à maluqueira colonial. Tem umas cenas interessantes, outras divertidas e algumas coisas sobre a propaganda comunista e a arte do cinema a que estava associada. Uma espécie de cenário de Leni Riefenstahl – em cuecas. Mete tudo, desde a declaração formal de independência até Samora a meter-se com os sul-africanos na ONU e ainda o Rebelo e o Cabaço com aquele bla bla bla típico da era. E os cineastas, trinta anos mais tarde, a torcerem-se todos a tentarem explicar aquela porcaria toda. Até tem uns pós do Marcelino, a discursar em vestes militares. E a cena de chamarem “bandidos armados” aos filiados na Renamo (ainda chamam, mas agora em privado). E o funeral do grande líder contestado. Ah pois. Uma preciosidade. Um must.

 

WIRYIAMU, 1973

Filed under: Wiryiamu 1973 - documentários — ABM @ 3:28 am

Foi uma vergonha e uma barraca. No meio da guerra colonial, um bando de militares portugueses perde a cabeça e colectivamente massacra uma população indefesa numa localidade com este nome. Foi um evento totalmente atípico daquela guerra de “hit and run” em que basicamente se jogava pelo tempo. Mas segue-se um não menos escandaloso “cover up” pela hierarquia militar e pelo regime. Foi preciso um obscuro padre irlandês denunciar esta barbaridade em Londres. Este é mais um dos documentários do pai da Catarina Furtado, uma apresentadora da RTP. Ainda não percebi bem mas acho que nunca ninguém foi dentro por causa disto. Até hoje.

 

Outro documentário com o mesmo tema:

 

 

JORGE JARDIM

Filed under: Jorge Jardim - documentário — ABM @ 3:16 am

Este é mais um dos documentários do pai da Catarina Furtado, uma apresentadora da RTP, este sobre o Jorge Jardim, um homem das arábias que viveu e operou em Moçambique até pouco antes da independência. Quando vivi lá antes de 1975, pouco sabia dele e muito menos das suas manobras. Entre portugueses e a Frelimo, andou a perder tempo. Que não havia.

 

A CONSTRUÇÃO DE CABORA BASSA REVISITADA

Filed under: Cabora Bassa Revisitada — ABM @ 3:07 am

Este é um dos documentários do pai da Catarina Furtado, uma apresentadora da RTP, este sobre as circunstâncias da edificação duma barragem no rio Zambeze em plena “guerra colonial” e mesmo no meio do teatro da guerrilha. Tudo uma perda de tempo e de recursos. Vale a pena ver. Continuo a achar que alguém devia ter telefonado ao Dr. Mondlane, especialmente depois de Salazar cair da cadeira e antes de uns camaradas derem cabo dele. Mas enfim. Tem piada os moçambicanos entrevistados, quarenta anos depois de andarem a insistir que se diz “Cahora Bassa”, aparecerem aqui a dizerem “Cabora Bassa”.

 

LOURENÇO MARQUES, 1975: COMEÇA A GRANDE PALHAÇADA

Filed under: Documentário Lourenço Marques 1975 — ABM @ 2:55 am

Documentário feito em Lourenço Marques em 1975, quando começa a “revolução contínua” patrocinada pela liderança do bando guerrilheiro nacionalista que era a Frente de Libertação de Moçambique. Sendo hilariante e uma peça de propaganda primária, ilustra bem porque 200 mil portugueses e moçambicanos brancos saíram do país, “voluntaria e rapidamente”. E bem fizeram. Menos que três anos depois deste “documentário” ter sido editado, com grupos dinamizadores, brancos de serviço e tudo, iniciava-se uma guerra que faria a “guerra de libertação” parecer um picnic de crianças. 43 anos mais tarde, as estatísticas e a autocracia instaurada (que começa a parecer uma gerontocracia) indiciam os sucessos e os insucessos do percurso feito.

 

25/08/2018

QUEM NÃO É BENFIQUISTA NÃO É BOM CHEFE DE FAMÍLIA, 1963-4

Filed under: Eusébio, Mário Coluna — ABM @ 11:52 pm

A frase em cima, pensava ser atribuída a Americo Tomás, Presidente da República portuguesa entre 1958 e 1974. Mas não encontro qualquer referência específica a ele alguma vez tê-la proferido.

Dos membros aqui retratados, três foram verdadeiras estrelas que elevaram o desempenho deste clube aos píncaros e eram  originários de Moçambique, então uma “província” portuguesa. Costa Pereira era de Nacala (nascido em 22 de Dezembro de 1929), Coluna nasceu na pequena Ilha da Inhaca a 6 de Agosto de 1935 e Eusébio nasceu em Lourenço Marques a 25 de Janeiro de 1942.

 

A equipa de futebol do Benfica, vencedora da Taça de Portugal, 1963-4, posa para os fotógrafos com o Presidente da República de Portugal. De pé, da esquerda: Raúl, Cruz, Germano, Américo Tomás, Mário Coluna, Cavem e Costa Pereira, De joelhos: Simões, José Augusto, Torres, Eusébio e Serafim.

EÇA DE QUEIROZ E MOÇAMBIQUE, 1900

Filed under: Eça e Moçambique 1900, Eça e Moçambique 1900 — ABM @ 9:56 pm

 

“Para Africa, e em força!” parece ser o conselho do cônsul e o escritor Eça em 1899, o ano em que o Reino Unido discutia repartir Angola e Moçambique com os alemães e comprar (ou abarbatar) o Sul de Moçambique para completar o cerco aos Boers – povo que aliás submeteria a ferro e fogo nos três anos que se seguiram. Mas o facto é que, apesar do que os bem-cheirosos burgueses da capital portuguesa, corporatizados na Sociedade de Geografia de Lisboa, pensavam, nem sequer ocorria ao povão miserável e ignorante ir para África (iam para o Brasil e para a América, locais muito mais apetitosos, ainda hoje). O facto é que não havia dinheiro nem paciência nem gente para colonizar coisa nenhuma. Neste sentido, a putativa colonização portuguesa de África foi durante décadas uma quase ficção, especialmente em Moçambique. Havia lá um punhado de portugueses no imenso mar africano, a chatear e a tentar explorar os nativos, e pouco mais. E – precisamente- Eça não deixa de dar a sua farpazinha no sentido contrário da sua tese, que era pouco mais que wishful thinking, sugerindo que, em vez de África, se colonizasse e desenvolvesse o Alentejo português.

Um excerto de A Ilustre Casa de Ramires, publicado em 1900:

(Para descarregar o livro inteiro e assim ler no seu computador, prima aqui)

Um comentador que não sei quem é, escreveu o seguinte, aqui:

Publicado em 1900, o ano da morte de Eça de Queirós, o romance “A ilustre Casa de Ramires” representa o apogeu do estilo Queirosiano e, segundo os críticos, é aquele romance que melhor representa a sua maturidade inteletual.

É também uma das suas obras mais políticas, questionando a relação do Portugal do século XIX com o seu passado histórico e as suas responsabilidades de então. Tais conjeturas explicam-se pelo facto da obra ter sido escrita e publicada no meio de uma enorme instabilidade política e social. Vivia-se então no rescaldo do Ultimato Inglês e da agitação dos partidos republicanos que aproveitaram a baixa popularidade da Coroa para impulsionar os movimentos anti-monárquicos. Chegou inclusive a haver, a 31 de janeiro de 1891, no Porto, um levantamento militar contra a monarquia na qual os revoltosos tomaram os Paços do Concelho e, da varanda, proclamaram a implantação da república em Portugal, hastearam uma bandeira vermelha e verde e cantaram uma canção de cariz patriótico composta em reação ao ultimato britânico chamada “A Portuguesa” (que é atualmente o Hino nacional). Mas o movimento foi, pouco depois, sufocado por um destacamento da guarda municipal, resultando em 12 mortos e 40 feridos. Os revoltosos capturados foram julgados, tendo 250 sido condenados a penas entre os 18 meses e os 15 anos de degredo em África. “A Portuguesa” foi proibida.

Eça de Queirós sendo cônsul português em Paris e, portanto, parte integrante do poder monárquico vigente, não via com bons olhos este tipo de elevações sociais mas também não estava desatento ao descontentamento e inquietação social que se vivia no inicio do século XX. A mensagem da obra é pois notória: Eça proclama que deve ser a aristocracia a proporcionar os meios para a contenção e social o equilíbrio social apoiada nos valores do passado e no reforço do colonialismo. Esta posição ideológica nos seus romances marca também a distinção das outras fases literárias de Eça onde a crítica corrosiva e a ironia cáustica imperavam. Esta é uma obra de um Eça mais maduro, menos critico, mais optimista, com uma postura de maior esperança nos valores humanos e uma posição ideológica conservadora. De certa forma pode-se dizer que a escrita em Eça foi orientada de acordo com uma visão social que foi mutável durante a sua vida, ou seja, criticou quando achou que era altura de criticar e tentou acalmar consciências quando achou que é altura de apaziguar os ânimos.

 

A FIRMA QUE NUNCA PERDE VOLTA A GANHAR UMA ELEIÇÃO – NA SECRETARIA

Texto gentilmente cedido por João Cabrita, escrito em 25 de Agosto de 2018.

 

Veloso, Rebelo, Chipande, Marcelino, Samora, Chissano, Guebuza, Matsinhe e Machungo. Os Fundadores da Firma (menos os falecidos, os assassinados, os presos e os desacreditados) e sucedâneos da impia ditadura colonial, são orquestrada e ordeiramente adulados, à moda comunista da época, durante o Terceiro Congresso, em Maputo, 1977. Há 56 anos seguidos que é assim, com ligeiros upgrades de estilo e alguma substância em 1975, 1977, 1986 e1994. Para um comentário desportivo de João Cabrita sobre o mais recente episódio, este respeitando a próxima eleição autárquica e envolvendo nada menos que um Machel, e ainda um segmento do “diz que diz” do grande Savana (com vénia) ler em baixo.

 

A Família Machel: Vítima do Sistema que Criou, Defendeu e Ajudou a Consolidar

É ponto assente que o regime da Frelimo travou a candidatura de um membro seu [Samito Machel, filho do Pai] à presidência do Município de Maputo. A nível partidário, manobrou para que Samora Machel Júnior não constasse da lista de candidatos a seleccionar. Por meio da chantagem conseguiu que um punhado de subscritores da campanha eleitoral abandonasse a corrida. Depois, através dos habituais capangas de que dispõe na CNE [Comissão Nacional de Eleições] invalidou a candidatura. Se o lesado vier a recorrer ao Conselho Constitucional, o mais certo é este órgão dar aval à decisão da CNE, pois aí também conta com cumplicidades várias, a começar pelo respectivo presidente.

Mas toda a estrutura instrumentalizada que vicia e adultera o sistema eleitoral vigente, não surgiu agora, nem tão pouco foi propositadamente criada para lidar com a candidatura de um membro dissidente da Frelimo. Trata-se de um estrutura que provem do regime de partido único, instituído pelo pai do candidato em causa, defendido e promovido pelos seus pares – e familiares, e apontado por estes como exemplo a seguir. Um regime que começou por criar uma caricatura de sistema judicial, abolindo o exercício da advocacia privada em que os cidadãos ficaram à mercê de decretos e directivas emanadas do poder político; alterando códigos jurídicos a seu bel-prazer para que se ajustassem à justiça revolucionária, apresentada como ‘rica experiência’ de zonas libertadas; transformando antigos combatentes em juízes de instâncias superiores como o TMR [Tribunal Militar Revolucionário] que mandava para o paredão pessoas sem direito a defesa; manietando ou comprometendo juristas. Em suma, estruturando o Estado e a sociedade à imagem e semelhança do sistema totalitário que impôs à Nação.

É este aparelho judicial que deu e continua a dar cobertura a fraudes e vigarices de toda a espécie. A PGR ou protege quem viola a Constituição ou escuda-se no princípio do segredo de justiça para travar processos e investigações. Um aparelho que desde 1994 tem vindo a legitimar fraudes eleitorais em benefício do próprio regime.

Não há memória que a família Machel se tenha alguma vez insurgido contra este estado de coisas. Ela fez sempre parte do sistema que criou, defendeu e ajudou a consolidar a situação que hoje prevalece. Nunca veio a terreiro condenar as sucessivas burlas eleitorais, ou a solidarizar-se com os defraudados. Como parte do regime, interpretou disputas eleitorais decorrentes da fraude premeditada como simples querelas entre maus perdedores, concretamente entre a Renamo e uma formação política supostamente gloriosa, quando na realidade tratou-se sempre de uma questão de oposição e regime, pois quando os maus perdedores não concorreram, foi a vez do MDM a denunciar a mesma fraude.

Hoje, a família Machel é vítima desse sistema, em moldes escandalosamente evidentes, como os registados desde 1994. Se ontem condenava a Renamo por recorrer à força para reclamar direitos legítimos, hoje apoiantes da candidatura de Samora Machel Júnior surgem em redes sociais a fazer o mesmo; ou pelo menos ameaçam que irão ao ‘focinho’ dos que ‘mexerem na candidatura de Samito’, excluindo, assim, a hipótese de recurso a tribunais que sabem de antemão ser via inconsequente.

Situações destas permitem ainda que se assista às tradicionais demonstrações de hipocrisia, mormente da parte de conhecidos comentadores, nacionais e estrangeiros, ambos acampados em Maputo e que anos a fio tentaram impingir gato por lebre, alegando que ‘as irregularidades registadas em processos eleitorais não alteram significativamente os resultados finais’. Hoje, põem de lado a ladainha repetida ad nauseam desde 1994, insurgindo-se contra a CNE. A ver vamos o que têm a dizer do Conselho Constitucional.

(fim)

O Diz Que Diz do Savana de 24 de Agosto de 2018, página 28.

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