THE DELAGOA BAY REVIEW

06/08/2020

MULHERES A BUSCAR ÁGUA, DE RICARDO RANGEL

Imagem retocada, de Ricardo Rangel, parte de uma exposição em Maputo dedicada às mulheres de Moçambique.

Mulheres numa bicha, à espera para obter água. Não sei o local ou a data em que foi tirada.

04/08/2020

A LUTA CONTINUA – 2020

Filed under: A Luta Continua - 2020 — ABM @ 12:29 pm

Sempre que leio as recorrentes notícias sobre o que alguns chamam, algo eufemisticamente, “violência xenófoba”, contra os cidadãos oriundos de Moçambique que vivem na África do Sul, Zimbabué e Malawi, invariavelmente, lembro-me do verdadeiro inferno de morte e miséria a que a Frelimo do Samora sujeitou Moçambique e os moçambicanos a seguir à independência, e durante anos a fio, para -justamente- “libertar” os “irmãos” dos apartheids e afins. Em vez de usarem a independência para desenvolver o país, os acólitos do novo Regime implantaram uma ditadura militar comunista e toda aquela cena sob o que se tornou num popular slogan de esquerda – o de “a luta continua”- repetida inúmeras vezes por Samora Machel nos comícios e discursos que fazia, e que se traduziu em guerra, morte e fome.
Hoje, aburguesadas e passada a fase do liricismo marxista, as elites destes países beijam-se para a fotografia e entrecasam-se enquanto, segundo as várias organizações que percebem disso, conspiram para roubarem e ficarem perpetuamente ricas.

Mas no terreno, para o povo, é isto, que cito em baixo, num texto da Agência Lusa, publicado ontem ao princípio da noite.

Parece mesmo que, para eles, abusados pelas suas elites e despeitados pelos mesmos que supostamente ajudaram a libertar, a luta continua.

O texto da Lusa:

Um imigrante moçambicano morreu e pelo menos 18 pessoas também de nacionalidade moçambicana ficaram desalojadas por alegada violência xenófoba no leste de Joanesburgo, África do Sul, que eclodiu na semana passada.
“Houve um moçambicano que foi morto, queimaram tudo o que tinha, e levaram tudo, todos os moçambicanos ficaram sem nada”, relatou o imigrante moçambicano David Machava em declarações à agência de notícias Lusa. “Ele morreu anteontem [sábado], quando eles entraram aí a bater em Tokoza Pola Park”, adiantou David Machava, que vive na África do Sul desde 1987, onde constituiu família com oito filhos.
Segundo o imigrante, a maioria dos moçambicanos afetados pela recente onda de violência xenófoba residem em Pola Park, uma área do bairro de Tokoza vizinha a Katlehong. “Pode chegar a 18 moçambicanos, porque há muitos a viverem aqui em Pola Park”, contou Machava.

“Pediram documentos, bateram-me à queima-roupa, um outro moçambicano abandonou a casa dele porque lhe disseram que o iam matar e eu também estou a procurar outro sítio”, declarou. “Viraram-me o carro que estava estacionado”, referiu ainda o imigrante.
Ataques violentos desde a semana passada
Por seu lado, José Sobrinho, 37 anos, natural de Chokwé, distrito de Gaza, sul de Moçambique, disse à Lusa que o seu negócio de reparação de televisores não sobreviveu aos ataques violentos. “Destruíram os televisores que eram dos meus clientes”, adiantou, sublinhando que “a situação já está mais calma hoje, mas o que era dos clientes ficou destruído”.
José Sobrinho contou que abriu o negócio de reparação de televisores no bairro de Tokoza em 2016, embora tenha imigrado para a África do Sul em 2007. “Tenho quatro filhos, até a minha esposa não está bem [de saúde] devido a uma queda e estou a preparar dinheiro para lhe enviar porque está hospitalizada [em Moçambique]”, declarou o imigrante moçambicano, que procura agora refazer a sua vida.

A violência xenófoba contra imigrantes moçambicanos em Tokoza, referiu José Sobrinho, eclodiu na passada terça-feira (28.08) e só viria a dissipar-se no domingo (02.08) após a intervenção do exército sul-africano e do ministro da Polícia, Bheki Cele.
“Foi quase toda a semana, porque começou na terça e na sexta-feira e no sábado [a violência] piorou, há muitos moçambicanos afetados e ontem [domingo] apareceram os militares e o ministro da Polícia Bheki Cele esteve cá, e essa guerra parou. A situação ainda está calma”, disse José Sobrinho.
Casas e lojas vandalizadas
O moçambicano referiu que os responsáveis, de etnia AmaXhosa, justificaram a violência contra os imigrantes moçambicanos e a vandalização das suas casas e lojas alegando “falta de eletricidade” no bairro de Tokoza há três semanas. “Mas depois começaram a dizer que todos os estrangeiros têm de sair do país, e aí começaram já a entrar nas lojas e nas casas, tiraram coisas, mobílias e queimaram tudo. Basta ser estrangeiro e ter uma loja, que eles entram e destroem tudo”, adiantou.
Questionado pela Lusa sobre os motivos da recente onda de violência xenófoba, este imigrante moçambicano sublinhou: “O problema é que nós aqui trabalhamos, estamos em ‘lockdown’ devido a essa pandemia do novo coronavírus, mas conseguimos colocar pão na mesa, e eles não fazem nada, dependem do Governo, enquanto nós fazemos pela vida. Esse é o problema”, disse José Sobrinho.
Contactada pela Lusa, a esquadra de Polícia em Tokoza remeteu esclarecimentos para o comando da Polícia sul-africana (SAPS, na sigla em inglês) na província de Gauteng que não respondeu ao pedido até ao momento.

Em 2019, o distrito de Ekhuruleni, onde se situa o bairro de Tokoza, foi um dos focos de saques de violência xenófoba que atingiu o país em setembro, forçando cerca de 1.500 estrangeiros africanos a abandonarem a África do Sul. Cerca de 800 pessoas, na sua maior parte originária de Moçambique, Malawi e Zimbabué, procuraram refúgio em salas comuns no bairro de Katlehong, vizinho a Tokoza, a cerca de 35 quilómetros a leste de Joanesburgo, referiu o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).
Mais de 11 pessoas morreram e cerca de 500 foram detidas pela polícia sul-africana em setembro de 2019 durante uma onda de violência xenófoba, pilhagem e destruição de vários negócios, na maioria de imigrantes estrangeiros na província de Gauteng, a mais populosa da África do Sul.

20/07/2020

O PANO DE FUNDO PARA UM FILME DE TERROR

Presumo que por mera coincidência, em Outubro de 2019 a estaçãozinha pública de televisão de Portugal, paga com anúncios de publicidade e por uma taxa mensal imposta a quem consome electricidade no território português, mudou a música que usa para abrir o seu principal telejornal, às 20 horas (hora de Portugal, que é também GMT ou UTC).

Penso que a razão formal foi assinalar o 60º aniversário do telejornal da televisão estatal.

Gostaria de dizer que a obra em si, originalmente concebida por César Veríssimo e com arranjo de Anne Victorino de Almeida, interpretada por uma orquestra que não sei quem são e dirigida por Joana Carneiro, é soberba. Magnífica. Faz a versão anterior parecer música de elevador.

Mas tenho outra interpretação.

Outubro de 2019 assinala também uma mudança em Portugal e no mundo, para pior. E na altura ninguém sonhava o que estava para vir da China.

Em Outubro houve uma eleição parlamentar em que, essencialmente, foi reforçado o clima geral de “socialismo de esquerda” instaurado pelo golpe de António Costa em 2015, criando a Geringonça, nas costas dos enormes aumentos de impostos feitos pelo governo anterior (o de Passos Coelho) por sua vez em resposta à crise de 2008 e gritante e escandalosamente agravada pelo governo de José Sócrates.

Para todos os efeitos práticos, deixou de haver direita política em Portugal.

Desde 2015, Costa manteve os impostos altos e distribuiu uns dinheiros por aqui e por ali, cortando ao mesmo tempo despesas ali e aqui. Com taxas directoras perto dos zero por cento, permitindo ignorar o efeito arrasador de uma dívida pública de 140% do PIB, os socialistas dançaram com taxas e taxinhas e a economia lá foi seguindo anemicamente, ajudada em parte por um crescimento do turismo e pelo wishful thinking de tanta gente que confundiu um “novo” Portugal, aparentemente moderno, bonito e acolhedor como um porto seguro, para os nacionais e para os turistas.

Foi e é tudo menos isso. Para a “recuperação da crise de 2008, o brutal aumento de impostos foi acompanhado pela emigração de mais que 500 mil portugueses em idade de trabalho. Para ajudar a contrariar a razia demográfica, Costa abriu as fronteiras a uma cacofonia de estrangeiros que as pessoas nem entendem bem quem são.

Em termos de capital, o país está a saque de entidades estrangeiras, pois o capital nacional, largamente, inexiste.

Assim, o final de 2019 fazia prever a chegada de tempos difíceis.

Mas os seis meses que se seguiram mostraram que isto vai ser muito pior.

Curiosamente, o surgimento da Pandemia teve a dúbia vantagem de constituir, para o Partido Socialista de Portugal, uma quase perfeita justificação para os tempos difíceis, ainda que de forma espectacular: por um lado, a dívida pública vai ascender a níveis estratosféricos, acima de 150% do PIB. Por outro lado, a desgraça já é tal que a União Europeia viu-se forçada a dar milhares de milhões de euros ao governo de António Costa, para mitigar a catástrofe, que no momento em que escrevo estas linhas, ainda não se fez sentir minimamente a sério.

Portanto, se, nos últimos três anos, o Exmo. Leitor habituou-se a quase diariamente, ligar o noticiário da RTP à noite para observar as diatribes do Sr. Donald Trump e as notícias oficiosas do Regime, prepare-se para começar a assistir à mega-operação de relações públicas com o fim de mitigar os efeitos da Pandemia. Que, prevejo, mais vai parecer um filme de terror.

A desgraça transmitida ao som belo, dramático e prenunciador de algo que não é pacífico, nem bom, nem que vai acabar bem, e que segue em baixo.

Quão épico. Quão apropriado.

A actual canção de abertura do Telejornal da RTP.

08/04/2020

A EVOLUÇÃO CLIMÁTICA EM ANGOLA, MOÇAMBIQUE E PORTUGAL, 1901-2018

Um sítio gerido pelo Instituto de Análise Ambiental publicou no seu sítio os seguintes mapas, indicando a evolução das temperaturas (neste caso) em Angola, Moçambique e Portugal entre os anos de 1901 e 2018.

Conclusão: no tempo colonial era mais fresquinho.

 

Angola, 1901-2018.

Moçambique, 1901-2018.

Portugal, 1901-2018.

09/03/2020

DENNIS JETT RETRATA MOÇAMBIQUE NA REVISTA FOREIGN POLICY

Filed under: Dennis Jett retrata Moç 2020 — ABM @ 3:26 am

A influente revista norte-americana Foreign Policy, publicou na sua edição de ontem (requer subscrição) um longo e demolidor texto de opinião de Dennis Jett sobre a actualidade moçambicana.

Jett foi o embaixador daquele país em Maputo entre 1993 e 1996, por nomeação de Bill Clinton. Actualmente, ensina política externa na Universidade Estatal de Pennsylvânia, estado que fica situado a meio caminho entre Nova Iorque e Washington.

O artigo, que tem feito as rondas entre quem segue a realidade moçambicana, revela que Jett acompanha os eventos desde que acabou o seu mandato de embaixador.

O excelente sítio em língua portuguesa da Voz da América pegou na história e fez um resumo adequado, que penso traduz o que Dennis Jett escreveu e que, com vénia e alguma edição, se reproduz em seguida.

Dennis Jett.

(início)

Moçambique “está prestes a tornar-se num estado falhado, cuja democracia é uma farsa” disse o antigo embaixador dos Estados Unidos em Moçambique, Dennis Jett.

Jett acusou os países ricos e doadores internacionais como o Programa de Desenvolvimento da ONU e a Conta do Desafio do Milénio, de contribuirem para a manutenção do sistema de corrupção e abuso de poder, deixando o povo moçambicano apenas com opções de revolta armada, emigração ou “resignação”.

Escrevendo na revista “Foreign Policy”, Jett disse que as riquezas energéticas recentemente descobertas em Moçambique não vão garantir a segurança ou a melhoria da governação em Moçambique e acusou os países ricos de “inadvertidamente acabarem por assegurar que a sua pobreza vai continuar”.

No seu artigo, Dennis Jett criticou também asperamente as organizações internacionais de ajuda por serem “cúmplices” na manutenção da actual situação em Moçambique.

Dennis Jett disse que a principal causa do pessimismo em relação ao futuro de Moçambique se deve principalmente à corrupção “do pequeno grupo de políticos” que governa o país desde 1975.

“Como um país em que o Produto Interno Bruto é menos de um por cento daquele dos Estados Unidos, Moçambique é simplesmente demasiado pobre para financiar as necessárias instituições da democracia que poderiam fornecer contrapesos (checks and balances) ao poder da elite governante”, escreveu o professor, acrescentando que os governantes moçambicanos têm sido ajudados “pela cumplicidade de alguns países, companhias de energia como a ExxonMobil e organizações de ajuda como o Programa de Desenvolvimento da ONU e Corporação do Desafio do Milénio e pela indiferença de outros”.

O antigo embaixador americano em Maputo disse que Moçambique não estava preparado para se auto-governar quando alcançou a independência em 1975 “porque as autoridades portuguesas não tinham investido na educação da população local”.

Os líderes da Frelimo que assumiram o poder realizaram eleições após o fim da guerra civil “mas o governo tem continuamente usado do seu poder para as falsificar”, escreveu Jett, que dá depois pormenores da falsificação das últimas eleições , da violência contra opositores e da corrupção, exemplifcada com o caso das “dívidas ocultas”.

“Devido ao facto da sociedade civil ser fraca, do parlamento e do sistema judicial estarem debaixo da mão da Frelimo e a imprensa ser em grande parte controlada pelo governo ou totalmente intimidada, os líderes fazem face a pouca pressão para governarem democraticamente e ou honestamente”, opinou Dennis Jett para quem “a única esperança é que a comunidade internacional possa tentar impor algumas (limitações ao poder do governo)”.

Mas o antigo diplomata disse que isso levantaria acusações de neo-colonianlismo e para além disso “os países ricos estão mais preocupados com a estabilidade em países que são parcialmente estados falhados, do que com a democracia”.

No seu artigo, o antigo embaixador dos Estados Unidos no Maputo criticou o Departamento de Estado dos Estados Unidos por ter apelado às autoridades moçambicanas no sentido de“resolverem as preocupações graves de missões de observação das últimas eleições”.

“Por outras palavras, o que o Departamento de Estado estava a sugerir era que o governo moçambicano deveria investigar-se a si próprio quanto às tácticas que ele próprio usou para assegurar que vencia as eleições”, escreveu Dennis Jet, que criticou também um plano do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, no montante de 60 milhões de dólares, para ajudar “a descentralização do governo e encorajar a participação digital na democracia”, recordando que apenas 21% dos moçambicanos têm acesso à internet e que “uma coisa que a Frelimo tornou claro ao longo dos anos, é que não tenciona abrandar o seu controlo do poder, dando a entidades locais que podem não ser leais à Frelimo, qualquer medida de autoridade”.

Dennis Jett criticou também o plano da Conta do Desafio do Milénio e outros doadores, de doarem dinheiro “sem imporem quaisquer limitações ao abuso do poder por parte do governo moçambicano, embora sejam (essas organizações) que fornecem metade do orçamento do governo”.

Dennis Jett afirma que “a insurgência e terrorismo no Norte vão permancer e o povo moçambicano vai ficar a pomderar quanto ao que é mais destrutivo, se os ciclones que têm atingido o país ou o seu próprio governo”.

Para Dennis Jett, a comunidade de países doadores “ignora a corrupção em Moçambique e continua a oferecer ajuda humanitária e de desenvolvimento,” o que não resolve os problemas do país.

“Tratar a raíz dos males do país – a má governação – em vez dos sintomas do problema, parece ser algo para além da capacidade de atenção dos países ricos e contrário aos seus interesses comerciais”, escreveu Dennis Jett.

“E por isso ao povo de Moçambique restam apenas as opções da resistência armada, do terrorismo Islamita, da emigração ou a resignação”, concluiu o antigo embaixador norte-americano em Moçambique.

(fim)

27/02/2020

A BOMBA ATÓMICA DE MOÇAMBIQUE

Filed under: A Bomba Atómica de Moçambique — ABM @ 2:33 am

 

Na sua edição de 26 de Fevereiro, o excelente jornalista Adérito Caldeira, do jornal A Verdade, de Maputo, que geralmente é melhor que a média naquilo que publica, aludiu a uma apresentação em que o perpetuamente discreto mas genial economista António Francisco, publicou o quadro que em seguida reproduzo (com uns retoques):

A Bomba Atómica de Moçambique.

Isto a propósito duma daquelas discussões académicas insanas (e demasiadamente frequentes) sobre pobreza, modelos de desenvolvimento, bla bla bla.

Daquelas a que quase ninguém vai e que quase ninguém liga.

Só que aqui o assunto é verdadeiramente explosivo.

Os pontos que o Adérito diz que o António Francisco fez, mais ou menos, são simples, por isso faço-o aqui, resumidamente:

  1. A população, maioritariamente pobre, rural, miserável e analfabeta de Moçambique, hoje é de 30 milhões de almas, o triplo do que havia em 1975;
  2. Daqui a trinta anos somará 65 milhões de pessoas; no centenário da independência, 100 milhões;
  3. Mas da maneira como as coisas têm andado em termos da economia e das infra-estruturas, mesmo com os dinheiros do gás e tudo o mais o que se prevê que se possa vir a arranjar, e não fôr entretanto roubado ou derretido em guerras indecifráveis, não vai haver maneira de dar de comer, educar, vestir, arranjar emprego e cuidar destas pessoas; os efeitos no território e nos recursos será arrasador, para não falar que se vai acentuar o peso da maioria da população na Zambézia e Nampula, até agora politicamente quase omissa;
  4. Sendo as coisas como são, e prevendo-se melhorias assinaláveis na taxa de mortalidade da população, a única solução para assegurar um mínimo de chance para se proporcionar uma vida de melhor qualidade para os futuros moçambicanos é….nascerem menos;
  5. E não há muito tempo antes que se tenham que (ou deviam-se) tomar medidas específicas para se tentar convencer os casais moçambicanos a deixarem de ter uma média de seis filhos por casal, e passarem a terem (e efectivamente criarem e suportarem) três filhos por casal em média;
  6. Pois, aos actuais níveis do que Francisco chama, quase simpaticamente, “fecundidade”, a nação moçambicana vai ser uma mãe ainda mais madrasta para os seus filhos do que aquilo que já foi nos últimos cem anos. E isso é perfeitissimamente evitável. E é algo que está literalmente nas mãos dos moçambicanos e das moçambicanas.

É melhor começar a falar-se disto duma forma menos discreta.

Pois esta já é e vai ser a verdadeira bomba atómica que Moçambique enfrenta no seu futuro.

25/02/2020

MÁRIO FERNANDES DA GRAÇA MACHUNGO, 1940-2020

Filed under: Mário Machungo 1940-2020 — ABM @ 2:25 am

Foi hoje (24 de Fevereiro de 2020) a sepultar, em Maputo, o corpo do Dr. Mário Machungo, após uma cerimónia pública.  O Dr. Machungo faleceu em Lisboa no dia 17 de Fevereiro.

Ainda não escrevi sobre ele.

 

O Dr. Mário Machungo no seu gabinete na sede do Banco Internacional de Moçambique, 2004. Foto tirada por mim.

20/02/2020

MÁRIO MACHUNGO E MARCELINO DOS SANTOS, DEZEMBRO DE 2003

Filed under: Mário Machungo e Marcelino dos Santos — ABM @ 12:32 am

Por ironia do destino, aconteceu que Marcelino dos Santos e Mário Machungo, que, pode-se argumentar, representam dois pólos que se opõem (se é que se pode ousar dizer eles terem existido na mistórdia negocial interna da organização) do que terá sido a Frelimo nos anos depois da independência, faleceram no espaço de uma semana um do outro, – o primeiro a 11, o segundo a 17 – provocando algum ruído no que terão sido os respectivos legados ao que hoje é Moçambique.

Sobre Marcelino, 11 anos mais velho que Machungo, já escrevi uma nota.

Sobre Mário Machungo, lá chegarei.

Mário Machungo com Marcelino dos Santos no edifíio do Private do BIM em Maputo, 12 de Dezembro de 2003, aquando da cerimónia de lançamento de um livro do Sr. José Craveirinha, que ajudei a lançar e a realizar (com, entre outros, um filho do Sr. Craveirinha e o Pai do Mia Couto). Machungo era então o Presidente do Conselho de Administração do Banco Internacional de Moçambique. Marcelino era a Eminência Parda do regime.  Joaquim Chissano estava no último ano do seu mandato e Guebuza montava os alicerces do seu império e preparava a sua desastrosa presidência. Fui eu que tirei a fotografia.

12/02/2020

REQUIEM POR MARCELINO DOS SANTOS, 1929-2020

Marcelino dos Santos, uma das figuras mais influentes e duradouras da Frente de Libertação de Moçambique e do seu sucedâneo “político”, e que nasceu no Lumbo (um lugarejo em frente à Ilha de Moçambique) em 20 de Maio de 1929, faleceu hoje (11 de Fevereiro de 2020), em Maputo, com 90 anos de idade.

Desde os primórdios das movimentações nacionalistas com o fim de pôr um fim ao regime colonial português em Moçambique, nos anos 40 do Século XX, Marcelino dos Santos foi, de dentro do grupo de pessoas presentes na altura, a meu ver, a pessoa mais central e crucial do processo que culminou com a formação de uma frente unida e que, a partir do então Tanganica, iniciou, no final de 1964, uma guerrilha contra as autoridades coloniais portuguesas, de que resultou posteriorente a independência de Moçambique.

Se há um fio condutor em tudo o que aconteceu primeiro à Frelimo e depois ao nascente país, para melhor e para pior, esse fio condutor foi Marcelino dos Santos.

Que, infelizmente, era tão nacionalista como comunista, o que, com o apoio de Samora e de Chissano (e de mais meia dúzia de guerrilheiros notáveis, e ainda – principalmente, acho – de uns heróicos 3-5 mil moçambicanos, anónimos hoje, que foram quem de facto andou no mato a arriscar as vidas, aos tiros e a colocar minas terrestres durante dez anos), orientados pelos chineses de Mao e demais países comunistas da época, sucederam em forçar uma independência a martelo, mudando o país nascente de uma ditadura colonial de partido único empenhada em adiar a independência política, para uma infame ditadura comunista de partido único, empenhada em libertar os vizinhos do apartheid.

A revolta em 1974 dos militares portugueses, comandados por um lourenço-marquino comunista, veio mesmo a tempo para a Frelimo, pois Marcelo Caetano na altura preparava-se para despachar as colónias até 1980, pois que já davam mais prejuízo que o que ele achava que o seu país estava disposto a sustentar, sob um manto de “autonomia soberana”. Em Lourenço Marques, ao contrário do que todos hoje parecem julgar, rigorosamente ninguém estava preparado para nada, muito menos os brancos. Como aliás se viu.

Em 1975, perante a impotente, obediente e excitada maralha, reunida em comícios infindáveis, pouco depois de assumir o cargo de líder incontestado, e para que não houvessem dúvidas, o carismático Samora proclamou que, afinal, a coisa não tinha acabado: afinal, a coisa apenas tinha começado.

E repetia vezes sem conta, nos seus comícios obrigatórios sem fim: A Luta Continua. A Luta Continua. A Luta Continua. A Luta Continua.

E assim a luta continuou, agora para todos, no púlpito, Samora, secundado por Marcelino dos Santos.

O resultado foram mais vinte anos de guerra civil e com os vizinhos, que mataram mais que um milhão de cidadãos moçambicanos e destruiram o pouco que havia depois da auto-destruição ao estilo pol-potista dos primeiros anos após 1975, tida como medida necessária para se criar o Novo Moçambique. Todos a ferro e fogo, solidários na miséria e sujeitos às investidas da Snasp e à chambocadas repetidas por causa de tudo e de nada, ajudados depois pelos rodesianos e pelos sul-africanos.

Antes e após 1975, e praticamente até esta data, Marcelino dos Santos, temido e celebrado como o verdadeiro mandarim do regime, permaneceu uma peça-chave na Frelimo, que governou em ditadura até 1994, após o que, já num contexto constitucional multipartidário, concebido antes de Roma principalmente para ficar bem na fotografia e agradar as potências envolvidas, continuou a governar com uma maioria parlamentar e presidencial, operando à superfície como um partido, na prática o efectivo detentor da totalidade do poder político e com uma captura total de todas as instituições do estado moçambicano, incluindo a máquina eleitoral e os tribunais. Que usou.

Mas no seu seio, malgrado a fachada “democrática”, a máquina não mudou quase nada. Tudo ainda é decidido à porta fechada lá naquela sala de reuniões no único prédiozito no meio da Somershield.

É a mesma máquina que, por alturas de 1975, e nos anos seguintes, decapitou e mandou decapitar toda e qualquer oposição ou voz minimamente dissonante aos seus ditames. Em que Marcelino assinou por baixo no infame decreto que supostamente legalizou os assassinatos de, entre outros, o Reverendo Simango e sua mulher e a Dra. Simeão.

E, de facto, a guerra realmente não acabou em 1994. Parou, apenas, por pura exaustão e por acordo entre as partes, que nos anos seguintes mantiveram a mesma animosidade com que se degladiaram anteriormente, a Frelimo sempre com a faca e o queijo na mão, o lado contrário a rosnar com as armas. Foi um mero cessar-fogo, as partes incapazes de se reconciliarem. Os conflitos seguiram-se. O tempo foi passando.

Recentemente, o país viu-se envolvido em mais um escândalo em que 2 mil milhões de dólares em empréstimos fraudulentos foram usados para alguma da sua elite política, ao mais alto nível do Estado, obter benefícios de forma corrupta. Uns foram presos, outros continuam a usufruir do seu pecúlio. Predominantemente, com corajosas poucas excepções, a sociedade moçambicana assobia para o lado, com medo dos esquadrões da morte e dos sucessivos G-40s. A imprensa manda palpites muito ténues e não há oposição. Lá fora, eufemisticamente, refere-se ao regime como uma “democracia musculada” a resvalar para o autoritarismo puro e duro.

Entretanto velho, doente, alheado, desgastado, nos últimos anos, mais ainda passando por uma inédita euforia pelas catorzinhas (nisso de alguma forma ofendendo a alguma dignidade da sua companheira, a nada menos monumental Pamela dos Santos, que, justamente, o abandonou), Marcelino criou uma fundação, escreveu uns poemas e viveu pacatamente os seus últimos dias na mansão que lhe deram na Somershield, na esquina ao pé da antiga Sociedade de Estudos. Adoptou filhos. O seu marxismo impenitente foi pouco discretamente desacreditado e posto pelos seus acólitos na gaveta, respeitosamente, para não o ofender. Ele quase tudo ignorou. Ficou puro nas suas convicções, na sua lapela a nação que ajudou a criar.

O que tanto mais de notável é se se considerar que ele era um mulato culto num ambiente e numa organização em que, desde o primeiro momento, não negros cultos eram, comprovadamente, desconsiderados e rotulados de quase traidores só pelo mero facto de não serem pretos. Mas Marcelino foi sempre eficaz na sua dança, mortíferamente assim e sempre absolutamente fiel à causa da Frelimo e especialmente aos seus líderes (a excepção singular e gritante sendo o Dr. Mondlane, claro, que em 1968 já era um miscast na organização que supostamente liderava), sendo por isso sucessivamente recompensado com o estatuto de Intocável do Regime, desempenhando cargos da maior confiança e responsabilidade – sempre a um passo do poder máximo, especialmente no caso de Samora, o cavalo em que apostou em 1968 e 1969, com estrondoso sucesso. Dizem que Samora não ligava a isso das raças (duvido mas enfim) e parece-me que, para poder governar, ele acharia que tinha que ir buscar apoio e talentos onde os encontrasse. Se há um exemplo disso, ele é, de facto, Marcelino dos Santos.

E Marcelino tinha a vantagem de saber, sem ninguém ter que lhe dizer, que o seu lugar era sempre o de segundo atrás do líder. O que sempre soube fazer, de forma exímia.

A Eminência Parda do regime.

Economicamente, Moçambique hoje produz camarões, vende alguma electricidade aos vizinhos a partir da agora moçambicana Cabora Bassa, na Matola refina escória de alumínio que vem da Ásia e que a Mozal exporta logo de seguida, exporta algum carvão que vem de Tete e está em estágio de iniciar a exportação de gás natural, que se espera que traga alguma receita fiscal- e encha os bolsos pelo menos de alguns (empregos, nem vê-los, apesar da vigorosa e inútil ginástica reguladora da Vitória Diogo). A maior parte da população, que já se cifra em mais que 30 milhões de almas, sobrevive da agricultura de subsistência, do pequeno comércio e da prestação de serviços nas principais cidades e respectivas periferias. Os chineses, os sul-africanos e os indianos estão a tomar conta de tudo, a levar o ouro, as esmeraldas, as florestas e a pesca. E tudo o que se pode converter em dólares ou permita comprar prédios milionários em Maputo. Ninguém os pode parar. E ainda há o tráfico de droga, em que a sua longa costa se tornou numa rota necessária e conveniente. Daqui a trinta anos, serão 60 milhões de moçambicanos.

No mais, não se antevêem perspectivas de nada mudar significativamente, aparte haver mais bocas para alimentar e aparecerem mais uns ricos.

Moçambique, que é independente há 46 anos, sempre sob a égide da Frelimo, permanece um dos países mais pobres, mais corruptos e mais vulneráveis do planeta. Aguenta-se porque tem a África do Sul ali ao lado e porque continua a merecer, legitimamente, toda a ajuda que puder obter. Pois a miséria que prevalece, essa, também é verdadeira.

Quanto ao epílogo colonial, hoje já não há portugueses em Moçambique. Ou melhor, há alguns, são 0.0001% da população. Se bem que, localmente, ainda sabe bem falar-se deles de vez em quando, displicentemente e se calhar apropriadamente, sobre os ex-colonos e os alguns bimbos que vieram a seguir. Há algum investimento português, mas apesar das mais róseas profecias da câmara de comércio bilateral, os riscos são titânicos. A verdade é que há muito que os portugueses já viraram a sua atenção para outros mercados e outros destinos. Curiosamente, a TAP ainda mantém a sua rota para Maputo e o governo português continua a dizer que Moçambique é “muito, muito importante”, dando todos os anos milhões que os portugueses simplesmente não têm. Mas não é muito importante. É muito menos que isso. Portugal não é o Reino Unido e a CPLP não é a Commonwealth. O seu maior feito é ser o país onde fica o Benfica, que tem adeptos em Maputo. O actual presidente português, que passou lá uns breves tempos na juventude, quando o pai era o braço direito do sucessor de Salazar, diz nas entrevistas que ama o lugar e que quer ser sepultado lá quando morrer. Pois, que vá.

Recentemente, parece que o país se tem vindo a meter noutra guerra, desta vez centrada em Cabo Delgado, não se sabendo bem a que propósito, não se percebe ainda para quê e quem anda a mexer os cordelinhos. Já estão novamente a morrer civis inocentes moçambicanos e muitos mais a fugir das miseráveis casas onde sobrevivem.

Não sei se este é o país que Marcelino dos Santos sonhava que viria a ser em 2020.

Mas este é o país que deixou, hoje.

Certamente, num ritual pirotécnico e algo quixotesco, herdado dos tempos da Ditadura, o regime provavelmente irá proclamá-lo novamente Herói da Nação e colocar uma medalha no seu caixão, que depositará numa caixa lá na Praça a caminho do Aeroporto, solenemente.

E depois ficará mais ou menos esquecido nos livros de história.

Bem ou mal, depois se verá.

Marcelino dos Santos mostra as medalhas, anos 80.

26/01/2020

SAMORA MACHEL ENFERMEIRO? OS FACTOS

Filed under: Samora Machel foi enfermeiro? — ABM @ 12:50 am

Há anos que venho lendo textos mais ou menos líricos sobre o percurso pessoal daquele que em 1969, após Chissano se ter esquecido de proteger o Dr. Mondlane da alegada bomba da PIDE, se tornou no warlord  incontestado da Frente de Libertação de Moçambique, de onde transitou directamente para Presidente do novo regime de partido único. Cargo que provavelmente teria sido vitalício (bem, foi) não tivesse acontecido o episódio algo rocambolesco do despenho do avião presidencial russo em Mbuzini.

Um facto central do período do jovem Samora Machel antes da Frelimo, é o de – alguns alegam – ele ter sido enfermeiro em Lourenço Marques e na Inhaca, no final dos anos 50 e início da década de 1960. Há quem jure que ele foi enfermeiro. Outros apenas o aceitam como facto.

O episódio mais recente foi o testemunho do João de Sousa, que, a propósito duma efeméride (a data de nascimento do Guilherme de Melo, no Big Slam), refere que Samora fora enfermeiro.

Pois.

Só que não foi.

Aí há uns trinta e tal anos, ao falar em Coimbra com a Mãe de um amigo de infância, o Diogo, ela, que foi uma enfermeira de renome em Moçambique, explicou-me que ele gostaria de ter sido enfermeiro e até tentou obter a certificação, mas chumbou o curso.

O nome dela (que ainda vive em Coimbra e conheceu o jovem Samora perfeitamente) é Maria Fernanda de Gouveia Pinto. Os dois davam-se tão bem que, supostamente, ele se foi despedir dela antes de se ir juntar à nascente Frente de Libertação no Tanganica.

De facto, ela fez parte do júri que administrou o curso de enfermagem no último trimestre de 1961, no qual Samora chumbou o exame final, com uma nota de 8 valores.

E portanto não era, não foi, enfermeiro. Pode ter trabalhado como auxiliar de enfermagem (que não é a mesma coisa), maqueiro, etc, mas Samora nunca foi enfermeiro.

O documento em baixo, uma cópia do Boletim Provincial em Janeiro de 1962, refere o chumbo de Samora Machel.

 

O Boletim Provincial, Janeiro de 1962.

 

Detalhe. O nome de Maria Fernanda Gouveia Pinto em baixo. O de Samora mais em cima.

25/01/2020

A ESTREIA DO FILME O ZÉ DO BURRO EM LOURENÇO MARQUES, JULHO DE 1971

Filed under: Estreia do filme O Zé do Burro 1971 — ABM @ 3:00 pm

Por cortesia dos senhores do Arquivo da RTP, eis um minuto e meio da estreia do filme “O Zé do Burro”, realizada por Eurico Ferreira, no Cinema Dicca, na Baixa de Lourenço Marques (construído há pouco sobre os escombros do Varietá, em 27 de Julho de 1971, exactamente um ano depois de António Oliveira Salazar ter morrido.

Eurico Ferreira com uma jovem no palco do Cinema Dicca no dia da estreia do “Zé do Burro”, 27 de Julho de 1971.

Na altura com 11 anos, fui ver o filme, não sei bem porquê, talvez porque me tinham vendido a ideia que era um filme divertido para miúdos verem. E recordo-me de na altura o filme ter sido muito badalado, o que era incomum pois ninguém, mas ninguém, passava filmes portugueses em Lourenço Marques.

Na verdade, achei o filme tão patético que até eu achei que aquilo era demais. Aquilo nem para propaganda do regime servia, tão primitivo era na fórmula da missão “civilizadora” dos portugueses em África, em que o pretinho era uma criança imberbe e o mais básico patego português das Boiças um epíteto da modernidade. Eu de facto ri-me muito a ver o filme, mas ri-me por ser tão ridículo.

Ver o vídeo premindo aqui.

10/01/2020

O FUNDO SOBERANO DE MOÇAMBIQUE, 2020

Filed under: Fundo Soberano de Moçambique — ABM @ 1:45 am

Sempre achei que os pobres devem procurar poupar, na medida do possível. Teoricamente, isto pode e deve ser relevante, mesmo quando se trata de um país. No caso de um país dependente em monoculturas, sejam elas quais forem (mas que se destacam sempre quando se trata de gás e petróleo) o argumento tende a ser ainda mais forte, pois existe quase a garantia de um período de vigorosa chuva de dinheiro, seguido da maior incerteza, sendo este processo intergeracional, ou seja, supõe-se que os pais estão a guardar algum para os filhos e os netos.

Sendo uma monocultura, os critérios básicos de risco impõem que o dinheiro poupado seja investido noutros mercados, noutros sectores económicos, segundo critérios objectivos de alocação e gestão desses fundos.

As duas questões tratam-se então de 1) que mecanismo usar e 2) que garantias existem de que o esquema vai mesmo funcionar.

Um mecanismo que se tornou é o do fundo soberano, isto é, resumindo, uma conta para onde fluem os fundos “excedendetários”, que são depois investidos, por um comité nomeado pelo governo do tal de país, habitualmente apoiados por especialistas, empresas de consultoria etc etc.

Em Moçambique, um dos países comprovadamente mais pobres do mundo, e comprovadamente mais corruptos do mundo, quer no sector público, quer no sector privado e afins, estuda-se estes dias criar-se um fundo soberano para pôr de lado algum do dinheiro que se espera comece a jorrar assim que os pipelines estiverem prontos e o gás comece a fluir.

Há uns vinte anos, quando se criou o mecanismo de poupança forçado e muito mais modesto da segurança social, vaticinei que o mesmo corria o risco de se tornar alvo de má gestão, corrupção e, literalmente, rapina. Aliás menos grave porque o dinheiro é menos e de qualquer maneira, a maior parte dos moçambicanos não beneficia do mesmo, ou porque simplesmente a ele não aderem pois não têm rendimentos que o justifiquem, ou, com a mesma probabilidade, porque não viverão o tempo suficiente para dele beneficiarem. O sistema beneficia ainda do facto que, potencialmente, há-de haver sempre muitos mais a descontarem qualquer coisita que os que dele beneficiarão. Portanto, mesmo que se roube ou se gira a coisa com a maior incompetência, há-de haver sempre algum dinheiro para os que sobreviverem o suficiente para receberem uma reforma qualquer, em meticais, com as acutalizações possíveis, um pouco à mercê do câmbio do dólar e do rande.

Mas o facto é que houve várias instâncias de roubo, de má gestão e uma falta considerável de transparência nas contas – quando estas se conhecem.

Um fundo soberano à escala do que se está a falar para as receitas do gás é uma jogada completamente diferente. Algo que nunca se viu em Moçambique, um, repito, dos países comprovadamente mais pobres do mundo, e comprovadamente mais corruptos do mundo, quer no sector público, quer no sector privado e afins.

Assim, pergunto: quem vai gerir, se criado, o fundo, com que regras, transparência e prestação de contas?

Ou, ainda melhor: quem vai ser o polícia que vai impedir os ladrões que vão aparecer?

Para ilustrar sobre o que falo, menciono os 500 milhões de dólares supostamente desviados em Angola pelo então presidente do fundo (e filho do ex-presidente) e refiro ainda ao exmo. Leitor que saiba falar inglês o vídeo, aqui contado de forma jocosa, mas mortífera, o escândalo 1MDB, ocorrido recentemente na Malásia e envolvendo o seu fundo soberano.

 

30/11/2019

A DÍVIDA INTERNA DE MOÇAMBIQUE EM 2019

Filed under: A Dívida Interna em 2019 — ABM @ 1:18 am

Enquanto não chegam as receitas do gás, e à falta da de outro modo perpétua ajuda para minorar as misérias, a Frelimo e o governo de Moçambique fazem o que podem: não tendo crédito lá fora por causa dos roubos perpetrados pela elite Guebuziana, ainda por resolver, endividam-se cá dentro, através da dívida pública, paga a peso de ouro aos bancos que ficam sem apetite para emprestar ao sector privado. O jornal A Verdade, neste e neste artigo referem o assunto, ilustrados pelos dois quadros em baixo.

Tirando cinco mistificantes bancos, entre eles o FNB Moçambique, o Mozabanco do Jófi, o Banco Mais e o Banco Terra, os bancos de topo nadam em lucros com pouco ou nenhum risco, pois investem em títulos públicos.

 

O Estado a endividar-se em 2019 junto da banca, dados para o primeiro semestre de 2019.

21/11/2019

O HOMEM NOVO E AS DUAS PROFECIAS DE SAMORA MACHEL

Filed under: Filipe Nyusi 2019 — ABM @ 3:05 am

 

Recebi esta noite a informação em baixo.

Afinal (ou enfim), quarenta anos depois, parece que se cumpriu a tal profecia do Homem Novo Moçambicano que Samora, o genial primeiro ditador comunista de Moçambique, tanto gostava de referir e que era tão apreciada pelos seus acólitos e a máquina de propaganda do regime – e que serviu como desculpa para as perseguições e depurações e barbaridades dos primeiros anos.

Seguida pela também sua outra conhecida profecia, citada mais tarde, de que, se nada se fizesse, que um dia poderia surgir em Moçambique uma elite negra predadora que faria o pior do colonialismo parecer um piquenique.

A parada entretanto continua na improvável Brooklyn.

New Man, Nyuz ou Nys

 

 

31/10/2019

A CARTA DE ANTÓNIO RITA FERREIRA, 1958

Com vénias ao interessante artigo preparado pelas professoras Cláudia Castelo (Universidade de Coimbra) e Vera Marques Alves e a Revista Etnográfica, edição de Junho de 2019 (páginas 417 a 438). Indirectamente, ao Filipe Rita Ferreira, que levou em cima com o sítio do Pai.

A carta que em baixo reproduzo, foi escrita em 1958 por Rita Ferreira (então um modesto mas dedicado funcionário público colonial que deambulava nas ciências sociais no seu tempo livre) a um seu amigo, que acabara de levar uma catanada do Regime e dos seus defensores em Lourenço Marques. É para mim uma manifestação do dessassombro e lucidez com que Rita Ferreira, e muitos como ele, encaravam aquilo que era Moçambique no raiar da década de 1960, quando a maior parte do continente africano recuperaria a soberania, depois de quase um século de ocupação europeia. Marca pelo que diz de Moçambique e do que o regime português por ali andava a fazer.

Na carta, à laia de consolação ao seu amigo, Rita Ferreira alude a um exercício de bravado “privado”, ou seja, mostra ao amigo um artigo supostamente para publicação em que arrasa o imaginário colonial vigente – mas que, claro nunca será publicado, pois se o fizesse seria imediatamente despedido e possivelmente preso. Sabemos dele, e desta carta, porque ele as guardou e agora chegou à luz do dia.

(início)

A. Rita Ferreira
C.P. 565
Beira
22 de Abril de 1958

Amigo e Sr. Prof.

Muito agradeço a sua carta de 24 do mês findo. A lufa-lufa do serviço e a preparação duma “recapitulação” da classificação e agrupamento étnicos de Moçambique, impediram-me que lhe respondesse há mais tempo. A situação do Quadro Administrativo a respeito de pessoal é cada vez mais angustiosa: não há quem queira ser aspirante. O resultado é que tenho de passar o dia a fazer serviço de dactilógrafo e outro serviço puramente mecânico, que me deixa arrasado.

Escrevi sobre a sua comunicação e a estúpida reacção local, o artigo que lhe mando. O “Notícias”, onde costumo colaborar, não o publicou. Ignoro se por censura interna se por censura oficial.

Creio ter sido, contudo, bastante cauteloso no que escrevi. Se permite que lhe dê a minha opinião, quer parecer-me, pelas referências que li, que o Sr. Prof., impedido como se encontrava de tratar o assunto com a necessária independência devido à posição oficial que ocupa, se viu constrangido a concentrar a sua atenção em aspectos de somenos significação sociológica e a responsabilizar os europeus de Moçambique pela situação que existe. Eu, à base do conhecimento do meio moçambicano que tenho e do que sei que acontece em Angola e S. Tomé, sou, aqui para nós, um tanto mais ousado. Ponho em causa as virtudes do português como colonizador no mundo moderno. Pode ser que tenha sido excelente colonizador há séculos, quando a cultura ocidental se não achava impregnada por factores económicos como hoje em dia. Mas hoje é um péssimo colonizador, o único que em toda a África ainda usa e abusa dessas duas chagas do colonialismo: o trabalho forçado e os castigos corporais. O colonizador português conseguiu criar pelo menos nas três “províncias” que conheço estruturas político-económico-sociais que não podem passar sem o emprego destes dois meios de opressão. Em Angola, a situação do trabalho forçado ainda é pior (mas mais bem organizada) do que em Moçambique: aí o número de negros a distribuir por cada agricultor é fixado pelos próprios Negócios Indígenas e os administradores têm que os fornecer. E em S. Tomé vi os próprios administradores das roças empregarem castigos corporais. Em face destas e doutras cruéis realidade[s], creio que o “luso-tropicalismo” ou outras frases como a que citou de “tradição de colonialismo missionário” têm funções de mito em todo o sistema colonial português e constituem cómodas racionalizações para os teóricos metropolitanos. Estou certo que a elas recorreu para poder chamar a atenção dos responsáveis pela governança, sem que corresse o risco inútil e inglório de ser por eles considerado com desconfiança.

A “situação colonial” portuguesa pode ser definida como o faz George Balandier em relação a todas as “situações coloniais”, mas com essas características não atenuadas, como se diz, pela “brandura dos nossos costumes” ou pelas nossas “ten[d]ências atávicas de assimiladores”, mas exacerbadas pelo nosso atrazo económico, pela nossa irrascibilidade, pela sub-instrução e sub-educação do povinho humilde de onde sai a grande massa dos colonizadores. Oh, senhores, não poder escrever eu livremente sobre as amargas experiências dum homem colonial! O que se passou em mim naquela noite em S. Tomé em que fui insultado pelo administrador da roça onde estava hospedado por ter “ousado” ouvir sem a sua augusta presença as humildes queixas dos cabo-verdianos, angolanos e moçambicanos ali trabalhando em regime compelido. Talvez um dia o faça, já no fim da carreira, e que golpe não vai ser para os teóricos! Um golpe tão grande como vai ser o vibrado pelo trabalho do Prof. Marvin Harris.

Na “situação colonial” portuguesa há algo que “ne marche pas”. Como explicar essas fugas em massa de trabalhadores, de famílias, de tribos para os territórios vizinhos, na Guiné, em Angola, em Moçambique. Só não fogem de S. Tomé por ser uma ilha! Ainda lendo recentemente o trabalho do Prof. Clyde Mitchell sobre os Ajauas da Niassalândia19(para onde, como sabe, emigraram centenas de milhares, talvez algo como um milhão de indígenas de Moçambique) notei sem surpresa a informação de que todos aqueles que interrogou alegaram como motivo de abandono da terra natal, os maus tratos.

Na Federação segundo as últimas estatísticas, há nada menos do que 133.000 trabalhadores activos do sexo masculino de proveniência moçambicana. E na União 150.000. Isto junto aos do Tanganica, perfazem, como vê, quase metade dos homens válidos de Moçambique. E bestificamente, continuamos a dizer (como na recente e saborosa discussão do Plano de Fomento no Conselho Legislativo, quando se falou de mão de obra) que o indígena é preguiçoso e que só por meio de preparação psicológica se pode levar ao trabalho…

A misceginação também tem que se lhe diga. Há milhares de crianças mistas abandonadas pelos pais. E isto é tanto mais notável quanto é certo que no Congo Belga os pais das crianças mistas ilegítimas são sistematicamente chamados à responsabilidade…

Sobre a assimilação nem é bom falar.

Poucos são os que têm a coragem de aludir a esta situação catastrófica. E o Sr. Prof. foi um desses, embora sob evidentes constran-gimentos psicológicos. Nós, os que vemos a situação com certa lucidez, não devemos, realmente, fugir. É preciso que fiquemos, para que possamos analisar, estudar (e, como sabe, ser um dia escutados) o ambiente sociológico que nos cerca. Temos uma tarefa a cumprir.

Os hábitos e pontos de vista locais estão tão empedernidos que me parece só por pressão do Governo Central poderem ser alterados. Quando digo locais, refiro-me também a S. Tomé e Angola. Mas não terá a Metrópole receio de reacções locais de carácter separatista, se quiser pôr em prática certas medidas? É o que me parece que está acontecendo com o problema da mão de obra, por exemplo. Se se pusesse em prática as determinações legais, as repercussões económicas seriam extremamente graves e daí a revolta contra o Governo Central.

Permito-me aconselhá-lo a rodear a sua próxima visita do maior sigilo, pois me constou haver alguns elementos em Lourenço Marques que aguardam a sua vinda para se manifestarem contra si. É realmente lamentável, estúpida e incoerente e própria de ignorantões, a reacção desencadeada pela sua comunicação.

Desculpe esta carta ir um pouco atabalhoada. Tive que a interromper a todo o momento para atender a assuntos de serviço e um deles bem irritante: um dos aspirantes vai de urgência para a metrópole e com esta partida agrava-se a acumulação do expediente. O curioso da situação é que conheço tantos indígenas excelentes dactilógrafos, que andam miseravelmente de porta em porta procurando emprego por salários irrisórios! Aqui há dias, como se aceitam aspirantes, interinos, com a 4.ª classe, um assimilado requereu a sua admissão. Pois foi por aqui uma risota gostosa. Até já pretos há no quadro administrativo, diziam, em grandes galhofas! A situação dos assimilados e mistos é muito angustiosa em face da legislação de salários mínimos e outras regalias, porque ninguém está disposto a dar-lhes os mesmos salários e direitos que se dão aos europeus. Enfim, problemas e mais problemas. A vantagem deste quadro é estarmos em contacto directo com eles.

Muito afectuosamente,

Rita Ferreira

(fim)

 

17/09/2019

SOBRE A MORTE DOS LIBERTADORES DA NAÇÃO, 1986-2019

 

 

Multidão sombria no funeral de Samora Machel, o ditador comunista de Moçambique, falecido num acidente de avião, 28 de Outubro de 1986. Foi sucedido por Joaquim Chissano  o Mandarim, e depois por Armando Guebuza, o do Guebusiness. Não havia internet. A Frelimo manda absoluta e consecutivamente no país há 45 anos, desde 20 de Setembro de 1974. Prepara-se para manter esse controlo no próximo dia 16 de Outubro. Desde há 30 anos, Moçambique é dos países mais pobres do mundo. Foto de uma agência internacional que não consegui identificar.

 

Cartaz partilhado na internet no dia a seguir a se conhecer a morte de Robert Mugabe numa clínica de luxo na Cidade-estado de Singapura, Setembro de 2019. Mugabe governou a antiga Rodésia entre 1980 e o seu afastamento por outro homem forte em 2017. Desde os últimos 15 anos, o Zimbabué é dos países mais pobres do mundo. Mugabe era, e a sua família é, entre as mais ricas de África.

15/09/2019

LOURENÇO MARQUES, 15 DE SETEMBRO DE 1974: UMA FOTOGRAFIA

Filed under: Jean-Claude Francolon, LM 15 de Setembro de 1974 — ABM @ 2:41 pm

Imagem retocada, do grande foto-jornalista Jean-Claude Francolon, um dos Seis da lendária Agência Gamma, baseada em Paris, que pelos vistos viajou até Lourenço Marques aquando das negociações em Lusaka para a entrega de Moçambique à Frelimo, pelo novo regime português, assinada em 7 e formalizada em 20 de Setembro de 1974.

A imagem foi tirada há exactamente 45 anos.

Pelo meio, houve muita coisa. Houve o medo (completamente infundado) que os brancos na África do Sul e Rodésia “acudissem” os seus manos brancos (ah ah ah). Houve um protesto imediato e visceral por parte de alguns brancos, especialmente em Lourenço Marques e na Beira, que essencialmente consistiu na tomada do Rádio Clube, onde fizeram muito barulho e tocaram o hino português durante uns dias (obviamente parece que não tinham percebido o que acontecera), e que só teve o efeito de irritar mais os chefes da Frelimo e ainda mais os chefes da tropa portuguesa, que achavam que já tinham feito muito ao negociar umas “garantias” que nunca valeram a tinta com que foram assinadas. Após uns dias um pouco à toa (quase não havia nem tropas portugueses e muito menos guerrilheiros da Frelimo em Lourenço Marques), em que ocorreram algumas mortes (ninguém sabe quantas) e as habituais pilhagens de lojas e armazéns nos arredores, o assunto foi resolvido quase de forma cavalheiresca por ambas as partes, seguindo-se uma importação, do Norte, pelos portugueses (que queriam mostrar a sua boa fé na entrega do poder prevista nos acordos), de tropas armados de ambos os lados, seguida por uma onda de prisões e de perseguições, também totalmente à toa e à margem da lei, que resolveu o assunto, o qual permanece no imaginário de muitos.

Eu na altura tinha 14 anos de idade, tinha estado em Portugal quase todo o Verão e viajei na TAP para Lourenço Marques na noite de dia 7, quando, em Lisboa, do que me recordo, rigorosamente nada se sabia dos Acordos de Lusaka. Eu nem sequer sabia que se estava a negociar em Lusaka. Cheguei à Cidade, em quase estado de sítio, ao fim da tarde do dia 8 de Setembro. O meu Pai estava com a equipa do Nova Aliança em Nampula (que ele treinava) para um jogo de futebol e só voltou a LM dois dias depois. A minha Mãe estava sózinha em casa com as minhas duas irmãs e a minha gata, na Polana, onde nada de especial se passou.

Nas semanas que se seguiram, assistiu-se ao patrulhamento da Cidade, nunca dantes visto, feito por grupos mistos compostos por guerrilheiros da Frelimo e soldados portugueses, armados até aos dentes com armas de guerra que incluiam bazucas, G-3 e AK47s, os portugueses nas suas fardas verdes e os frelimos ou todos esfarrapados ou com fardas emprestadas pelos tropas portugueses. Uma boa parte dos frelimos não falava nem português nem ronga, a língua nativa mais falada na Cidade. Os médias locais passaram a passar exclusivamente propaganda comunista e afecta à Frelimo, alguma que era quase patética. Uma parte significativa dos residentes, portugueses e brancos, pura e simplesmente fez as malas e foi-se embora. A população nativa estava fleugmática mas radiante com a vinda da Frelimo. Nos três anos seguintes, com a prestimosa e dedicada ajuda dos líderes da Frelimo, cerca de 90 por cento dos brancos de Moçambique saíram “voluntariamente”. Pois quem não estava com a Frelimo, estava contra a Frelimo e os brancos tinham que perceber quem é que mandava agora. E quando já não havia brancos para perseguir, começaram-se a perseguir os moçambicanos uns aos outros, a visão lírica de um Moçambique multifacetado em progresso e harmonia a esfumar-se perante os ímpetos controladores de uma nova elite que se manterá sózinha e a todo e qualquer custo no poder nos 50 anos seguintes, numa espécie de guerra civil sem fim, a economia numa espiral descendente, tornando Moçambique, até hoje, num dos países mais pobres e endividados do planeta.

Arredores de Lourenço Marques, 15 de Setembro de 1974. Uma patrulha mista é celebrada pelos residentes. Dali a cinco dias, o poder do Estado em Moçambique era efectivamente entregue à Frelimo.

 

A legenda da fotografia.

09/09/2019

OS BONS RESIDENTES DE LOURENÇO MARQUES, 1935

Filed under: Os Bons residentes de LM 1935 — ABM @ 10:01 pm

Imagens retocadas.

Leia o Exmo. Leitor esta pérola, que é uma secção de um folheto turístico sobre Lourenço Marques, em língua inglesa, dirigido, presumivelmente, aos mercados estrangeiro e branco sul-africano, publicado em meados da década de 1930. A minha tradução em baixo.

“A atmosfera cosmopolita de Lourenço Marques já foi mencionada e é um dos seus maiores encantos. Certamente que em Lourenço Marques, o visitante encontra algo diferente, algo interessante e agradável. As pessoas são corteses e amigáveis em relação aos estrangeiros, e, ainda que o conhecimento da língua portuguesa seja sem dúvida útil para aqueles que tencionam permanecer na Cidade por um período prolongado, não é essencial. Os nativos são extraordinariamente bem controlados [sic] e fazem excelentes criados, sendo simultaneamente alegres e de confiança. Realmente, o ambiente que se encontra por toda a parte é um de satisfação e de boa vontade. Regra geral, as autoridades portuguesas são extramemente corteses e tentam sempre ajudar, e apesar de existirem algumas restrições que possam ser consideradas incomuns para o cidadão estrangeiro, mas para os que são responsáveis pela aplicação da lei, conseguem fazer o seu trabalho minimizando as dificuldades e a inconveniência. Os residentes [brancos] são boulevardiers [presumo: gostam de estar na rua] e a qualquer hora do dia ou da noite mesmo muito tarde à noite, podem-se encontrar grupos de homens e de mulheres reunidos na Praça 7 de Março, a tomarem os seus refrescos à moda Continental. Os visitantes podem sentar-se aqui e ver a vida da Cidade passar à sua frente. E assim o homem de negócios vestido de branco, o polícia nativo descalço vestindo o seu turbante vermelho e marinheiros de navios estrangeiros misturam-se com turistas protegendo-se do sol, a mistura enorme das diferentes línguas ali faladas tornando o cenário alegre e intrigante.”

29/08/2019

PATRULHANDO UM MACHIMBOMBO A NORTE DE MAPUTO, 1985

Imagem retocada.

Moçambique esteve praticamente num clima de guerra entre 1964 e, especialmente, 1976 e 1992, envolvendo o sucedâneo institucional da Frelimo e a Rodésia, a África do Sul e a Renamo, numa mistura de guerra de subversão e guerra civil.

Em 1985, quando esta imagem foi colhida, Samora Machel já havia assinado um acordo com a África do Sul, mas a guerra continuava e a situação militar era má, causando morte e miséria entre a população. Algo desiludido com o apoio dos aliados comunistas, Machel ensaiou uma aproximação ao Ocidente, visitando Reagan em Washington. No ano seguinte, morria num acidente de avião e era sucedido por Chissano. A guerra endureceria e duraria mais sete anos, acabando num acordo em que, no fim, a Frelimo prevaleceria.

Um soldado do exército, as Forças Populares de Libertação de Moçambique, patrulha um machimbombo a norte de Maputo, 1985. Foto de Paul Weinberg.

O CAMPEÃO DO MUNDO NO RISCO DA LAVAGEM DE DINHEIRO E FINANCIAMENTO DO TERRORISMO, 2019

Filed under: O Campeão da Lavagem do dinheiro e do FT 2019 — ABM @ 9:02 pm

O Basel Institute on Governance, uma fundação suíça que opera sob os auspícios da Universidade da Basileia, publica desde 2012 uma listagem de países que pretende auferir, através de um índice, os riscos de lavagem de dinheiro e de financiamento do terrorismo, baseado em cinco critérios, todos obtidos a partir de informação publicada por instituições idóneas:

  • Qualidade da Estrutura de monitorização e controlo da Lavagem de Dinheiro e contra o Financiamento do Terrorismo
  • Pagamento de Luvas e Corrupção
  • Transparência e Padrões Financeiros
  • Transparência e Prestação de Contas no sector Público
  • Riscos Político e Jurídico

E baseado nestes cinco critérios, qual o país, no Planeta, com o índice mais elevado? Em 2019, eesa distinção cabe à República de Moçambique:

Moçambique no topo de uma lista de 125 países. É questão para perguntar: o que se passa em Moçambique?

Quando, estes dias, alguns tentam fazer passar a ideia de que Moçambique poderia estar a fechar o longo capítulo da guerra com a Renamo, e a inaugurar uma espécie de era dourada com receitas da exploração do gás, a verdade é que nada disso é certo e que, de facto, os perigos presentes e futuros são mais que muitos, desde a mudança climática aos efeitos de uma verdadeira explosão populacional, a que não corresponderá um crescimento económico que permita às pessoas o seu sustento. Nesse aspecto o negócio e as receitas do gás pouca diferença farão. Os sucessivos ataques no Norte, à guisa de uma putativa e incomprovada rebelião por parte de (refere-se) pessoas muçulmanas, as quase indescritíveis dificuldades do regime em lidar com a inenarrável fraude das chamadas dívidas ocultas, perpetrada ao mais alto nível do Estado moçambicano, nada disto augura um futuro positivo, excepto para uma certa elite baseada em Maputo, que tudo faz, em tudo manda e tudo parece poder fazer, com quase total impunidade. Em parte precisamente porque o contexto é um em que, como se infere dos dados acima, o país figura entre os mais corruptos e mal governados no Mundo. E quase nada faz supôr que isso se altere no futuro.

13/07/2019

MOZAMBIQUE DRILL

Filed under: Mozambique Drill Wtf — ABM @ 4:29 pm

Nunca hei-de perceber como é que, havendo tantas outras opções em termos de nomes, porque é que, em todo o mundo, à técnica de se matar alguém a tiro, segundo a qual se dão dois tiros no corpo e um na cabeça, em sequência rápida, se chamou “Mozambique Drill”.

Sei lá, Colômbia Drill para mim fazia mais sentido, ou Chicago Drill.

Nestes vídeos vê-se como se faz e num deles um instrutor que soa a estrangeiro (acho que é sueco) explica a lógica daquilo (que acho que é mesmo neutralizar de vez o oponente).

Enfim.

 

12/06/2019

JORGE, JOANA, CASSAMO E O G.U.M.O., MAIO DE 1974

Em baixo, reprodução de uma (péssima e algo surreal) peça jornalística,  publicada na edição de 18 de Maio de 1974 na revista lisboeta O Século Ilustrado (pp. 21-23) naquelas semanas loucas em que parece que alguns achavam que tudo era possível em Moçambique depois da caída do regime colonial português e em que se badalava a democracia e a liberdade.

Na peça apenas é citado Jorge de Abreu, apesar de o texto ser acompanhado de fotografias de Joana Simeão, Jorge de Abreu e Cassamo Daudo.

A pequena aventura do GUMO durou pouco e a Frelimo não perdoaria a Joana Simeão, originária do maior grupo étnico de Moçambique, que se distinguiu por nunca apoiar a guerrilha (os grandes Macua), o atrevimento de pretender constituir-se como uma alternativa à Frelimo. Ao ponto de a mandar matar. Até hoje, os seus restos mortais permanecem em local desconhecido. Não sei o que aconteceu a Cassamo Daudo (e não Davide, como é referido no texto), sobre o qual sei pouco. Jorge de Abreu era, em 1974 um dos empresários mais ricos e com maior sucesso em Moçambique, e que se considerou moçambicano até ao dia em que morreu (há poucos anos, em Joanesburgo), viveu um longo exílio fora de Moçambique, não sem que antes elementos do governo de Moçambique, no pico do Repolho e do Carapau,  o tivessem convidado a regressar ao país e a retomar os seus negócios, Segundo o seu filho João, que é uma enciclopédia viva sobre Moçambique, Abreu recusou.

 

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20/05/2019

O DEBATE ELEITORAL ENTRE DE KLERK E NELSON MANDELA, 14 DE ABRIL DE 1994

Filed under: Debate De Klerk-Mandela 1994, F W De Klerk, Nelson Mandela — ABM @ 12:55 am

Re-emissão comemorativa da SABC, no 25º aniversário do histórico debate eleitoral entre Frederick W De Klerk e Nelson Mandela, antes da primeira eleição democrática na África do Sul. Na íntegra.

 

17/05/2019

NOVO DOCUMENTÁRIO SOBRE MOÇAMBIQUE: “BRISA SOLAR”

Filed under: Documentário Brisa Solar — ABM @ 12:27 am

Está a passar na televisão portuguesa um documentário em três episódios sobre Moçambique, contrastando algum do passado português com a actualidade moçambicana, que penso que alguns exmos. Leitores poderão achar de interêsse.

Segue a informação em baixo.

Em meados de Junho, será exibido um filme na Cinemateca Nacional em Lisboa, penso que com base nos mesmos materiais.

Imagem de uma gravação que aparece no 2º dos três episódios.

 

Título

Brisa Solar

Tipo:

Documentário

Resumo

Uma viagem por Maputo e pela Beira que regista pequenos e grandes acontecimentos dos espaços pós-coloniais.

Exibição

3 episódios de cerca de uma hora, a serem exibidos pela Rádio Televisão Portuguesa, Canal 2 (RTP2).

Ficha Técnica

Argumento, Realização, Imagem, Som e Montagem: Ana Pissarra e José Nascimento
Misturas: Flak, Carlos Jorge Vales e Guilherme Vales
Dobragem: Costa Neto e Octávio Chambe
Produção: Maria José Peyroteo e Ana Sofia Nunes
Direção de produção: Rita Gonzalez
Direção de produção (Moçambique): Inadelso Cossa
Assistente de produção (Moçambique): Osvaldo Lupini Bambamba (Quilombo Films)
Produção executiva: Rita Gonzalez
Coprodução: Adonis Liranza
Produção: António Câmara Manuel (DuplaCena)
Financiamento ICA – Instituto do Cinema e Audiovisual e RTP – Rádio e Televisão de Portugal
Apoio ao desenvolvimento Programa MEDIA – Creative Europe
Apoio 22 Atelier

Descrição

Numa viagem em torno do edificado mais notável de arquitetura moderna entre Maputo e a Beira, o filme dá voz a estórias privadas que emergem no documentário como memória sensível e que testemunham a dimensão política da história comum entre Portugal e Moçambique.

O documentário realizado por Ana Pissarra e José Nascimento propõe um novo olhar para este património comum, que denuncia um inevitável parentesco entre os dois países e procura entender como é que os valores da democracia expressos pelo modernismo foram integrados pelas sociedades pós-coloniais.

‘As casas foram nacionalizadas e a cidade “passou para a mão do povo”. Os colonos cosmopolitas abandonaram o país e, pela mão da Frente de Libertação, chegaram os novos habitantes à cidade branca. Eram negros e traziam uma cultura rural. A cidade passou a chamar-se Maputo. Mas Lourenço Marques continuou a viver e a envelhecer dentro de Maputo.

Tem hoje um grande valor patrimonial e artístico e, para muitos portugueses, também um valor afetivo. Mas recorda valores racistas e pouco a pouco, será demolida pela especulação imobiliária.
Entre a delicadeza e o apocalíptico, Brisa Solar viaja por Maputo e pela Beira registando pequenos e grandes acontecimentos quotidianos que desenham estes espaços pós-coloniais mestiços.’

14/05/2019

HENRY KISSINGER EM LISBOA, 17-18 DE DEZEMBRO DE 1973

Imagem retocada.

Saiu na rifa a Henry Albert Kissinger, o 56º Secretário de Estado norte-americano, durante os mandatos de Richard Nixon e Gerald Ford, lidar com o golpe militar de Abril de 1974 em Lisboa, que abriu o caminho, algo precipitado, para a independência das colónias portuguesas, Moçambique incluído.

Supostamente, quer Henry Kissinger quer a diplomacia dos EUA, com as mãos meio atadas pelas sucessivas crises e episódios, desde o derrube de Allende no Chile, à Guerra de Yom Kippur no Médio Oriente, ao escândalo de Watergate, foram apanhados desprevenidos (mas provavelmente não surpreendidos) pelo acontecimento.

Em Outubro de 1973, o ataque dos vizinhos árabes a Israel quase sucedeu, não fosse o apoio maciço dos americanos através de um enorme esforço a partir dos EUA e que incluía uma ponte aérea entre os dois países, que necessariamente incluía a utilização da base aérea operada pelas forças armadas norte-americanas na ilha açoriana da Terceira, no arquipélago dos Açores.

Para tal, nos termos dos acordos com Portugal, para fazer tal uso, o governo dos EUA teria primeiro que pedir autorização de passagem dos aviões (houve uma altura em que aterrava e descolava um avião a cada cinco minutos).

Os portugueses, a braços com a guerra colonial, tentaram aproveitar a oportunidade para tentar obter dos americanos alguns equipamentos militares especializados. Kissinger falou com o ministro português português da altura, o jovial Rui Patrício, último ministro dos Estrangeiros de Caetano e do regime. Kissinger terá basicamente dito que ia pensar no assunto mas que entretanto os primeiros aviões da ponte aérea para Israel começavam a aterrar na Base das Lajes dali a cinco minutos.

Mais tarde, mandou um telex a dizer “obrigadinho” ao governo português, disse que mandassem a lista dos equipamentos militares para análise, que basicamente eram para mandar no dia de São Nunca à tarde e, nos dias 17-18 de Dezembro de 1973, esteve em Lisboa para basicamente dar uma dose de charme, durante uma das suas tournées internacionais. Pesem as teorias de conspiração, os americanos eram reticentes em relação a Portugal e ao que andava a fazer e não queriam ser vistos como apoiantes declarados da ditadura. O que facilitou grandemente a vida aos apoiantes da Libertação. Ademais, os EUA não tinham qualquer interesse estratégico na zona a não ser evitar que se tornasse uma coutada soviética, e mesmo aí quando se tornou de facto uma coutada soviética, deixaram andar e o resultado foi o que foi: dez anos depois Samora estava de visita a Washington e a dizer que afinal não era bem comunista. Reagan achou imensa piada e Chester Crocker deu-se palmadinhas nas costas.

O uso da Base das Lajes pelos americanos, implantada no meio do Oceano Atlântico na mesma ilha onde Gungunhana tivera exilado e onde morreu, foi um dos principais travões usados por Salazar no início da década de 60 para condicionar o “militantismo independentista e descolonizador” da Administração Kennedy em relação a Portugal. No que basicamente sucedeu. Após o assassinato de Kennedy em Dallas (22 de Novembro de 1963), o seu sucessor, Lyndon Johnson, basicamente, para além do Vietname, mostrou que tinha muito pouco interesse em conflitos de segunda ordem em locais exóticos.

Durante a visita do Secretário de Estado norte-americano a Lisboa, 17-18 de Dezembro de 1973, posando junto ao monumento aos Egrégios Avós que Criaram o Império lá junto ao Tejo em Belém. Da esquerda: 1) (?)(diplomata português); 2(?); 3) Henry Kissinger; 4) Rui Patrício, ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal.

09/05/2019

OTELO SARAIVA DE CARVALHO ENTREVISTADO, 2014

Filed under: Otelo Saraiva de Carvalho entrevistado 2014 — ABM @ 6:05 am

Entrevistada gravada no dia 23 de abril de 2014 na Cidade de Pontevedra, Espanha, no âmbito da comemoração da Semana Galega da Filosofía, organizada por Aula Castelão.

Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho nasceu em 31 de Agosto de 1936, em Lourenço Marques (actual Maputo). foi membro do chamado Movimento dos Capitães e é considerado por muitos o estratega do movimento militar que derrubou o regime português num golpe levado a cabo em Lisboa no dia 25 de abril de 1974.

 

19/04/2019

O PENSAMENTO COLONIAL PUBLICÁVEL EM 1966

O documento original encontra-se no espólio de João Bénard da Costa, ao cuidado da Casa Comum, que reproduzo abaixo, com vénia:

 

A verdade certa, segundo Matos Gomes, 1966.

O João, um credenciado opositor do regime de Salazar, que em troca o lixou sempre e onde pôde, deve ter ficado impressionado com esta “verdade incontornável”, que terá sido redigida por Francisco Matos Gomes, penso que na altura professor de filosofia no Liceu António Ennes em Lourenço Marques mas, se não me engano, um lendário defensor do “Salazar Uber Alles”, se calhar aquilo que hoje se definiria como extrema direita e ainda da “velha escola” colonial, que basicamente considerava inconcebível, entre outras coisas, uma soberania moçambicana gerida por negros, descontando por completo o pequeno detalhe do já consistente nacionalismo moçambicano.

Isto num contexto em que, no resto de África, as independências confrontavam-se já com os miríades problemas decorrentes das responsabilidades adquiridas.

Hoje é, quiçá demasiadamente  fácil, desconsiderar-se esta perspectiva, que terá tanto de racista como situada fora das correntes históricas que invariavelmente os académicos e investigadores desprezam enquanto factores significativos na persistência do regime pelo tempo que perdurou. Isso é ignorar os factos e o argumento na época, partilhado por muitos portugueses (e sul-africanos brancos, e rodesianos brancos) na altura, eles que detinham a soberania, que, por mais iníqua, desigual e até imoral que pudesse ser, no caso das colónias portuguesas, a Pax Lusitana, que a sua alternativa imediata seria o confisco do que fora edificado, a caça ao branco, uma ditadura negra patrocinada pelo Bloco comunista, uma carnificina e o surgimento de elites negras que simplesmente se serviriam do aparelho de Estado para capturarem aquilo que havia para encherem os bolsos.

Nesse sentido, este nico de comentário de Francisco Matos Gomes, que mereceu ser notada pelo João Bénard da Costa, é deveras revelador, tal como é o comentário abaixo, que pesquei noutro sítio, penso que a cinta de um livro ácido sobre o General Norton de Matos, um militar português com credenciais democráticas que quis concorrer a presidente de Portugal pela Oposição em 1949 e que assim foi sumariamente trucidado pela máquina de Salazar:

A simples frase de Matos Gomes, que assina o livro Oposição Democrática Bancarrota sob o pseudónimo Jorge Vernex, na cinta promocional que envolvia o livro.

O corolário do argumento mais ou menos vigente segundo o qual “o preto é incapaz de se governar” era, claro, a “grande ameaça comunista”, em destaque desde o final da II Guerra Mundial, em que o Bloco Soviético e a China teriam planos de dominação mundial e que de facto já agiam no terreno em África, capacitando, no caso de Moçambique, a Frelimo nas artes marciais e com armamentos que incluiam a celebrada AK-47 (unicamente representada na bandeira nacional moçambicana) e as minas anti-terrestres, que na verdade foram o que, durante algum tempo, tornou a guerra colonial muito mais dura de roer para os renitentes portugueses do regime.

Preso nesta dialéctica, e sob ordens do regime, o exército português viria a apôr a guerrilha tardiamente iniciada a partir do país de Julius Nyerere, o seu grande patrocinador, sem ter havido grande evolução durante quase dez anos.

Que eu saiba não houve diálogos e as pressões de aliados bem intencionados como os Estados Unidos, foram muito mal acolhidos.

O cenário, assim, encaminhou-se para o que veio a seguir, em que tanto se ganhou e tanto se perdeu.

 

 

 

07/01/2019

A ÚLTIMA VISITA DE JOAQUIM CHISSANO À ALEMANHA COMUNISTA, 1989

Filed under: Chissano visita a RDA 1989 — ABM @ 1:22 pm

Imagem retocada e pintada por mim.

 

Foi o fim dos bons velhos tempos da solidariedade comunista. Joaquim Chissano, então presidente de Moçambique, e Erich Honecker, o ditador da Alemanha comunista, em sentido, durante uma cerimónia protocolar de boas-vindas, momentos após a chegada a Berlim da delegação moçambicana, num avião das LAM, 24 de Maio de 1989, uma quarta-feira. Honecker, no poder do satélite soviético desde Outubro de 1976, será afastado menos que seis meses após esta foto ter sido tirada, ainda antes da queda do Muro de Berlim, em Novembro de 1989, que sinalizou o início do desmoronar do império soviético. Morreria refugiado no Chile cinco anos depois e a RDA foi absorvida pela Alemanha Federal. Na mesma altura, Joaquim Chissano e a Frelimo lutavam pela sua sobrevivência enquanto a Renamo demolia o que sobrava do seu país. Em 1989 já Chissano sabia que não podia vencer o conflito e procurava formas de contactar e negociar com a liderança da Renamo. Em 1992, efectivamente, e numa concessão difícil de explicar por parte da Renamo, ganhou a guerra na secretaria. A liderança histórica da Frelimo permanecerá intacta no poder até hoje e Chissano manteve-se na sua liderança até ser substituído em 2003 pelo ambicioso Armando Emílio Guebuza, que, uns anos mais tarde, mais uma vez tentou fisicamente decapitar a Renamo sendo este substituído por Filipe Jacinto Nyusi, previamente desconhecido e um homem da Manchúria imposto por Alberto Joaquim Chipande. O filme continua.

31/12/2018

A PRISÃO DE MANUEL CHANG, O ESTADO E O ESTADO DO JORNALISMO

Filed under: A prisão de Manuel Chang — ABM @ 3:15 pm

O alegado multimilionário Manuel Chang, ex-ministro das Finanças da República de Moçambique, durante um dos inolvidáveis mandatos de Armando Emílio Guebuza.

Do anúncio da prisão do ex-ministro das Finanças de Moçambique na era de Armando Emílio Guebuza (e actual deputado na Assembleia da República de Moçambique, pela Frelimo), ao cair da noite de 28 de Dezembro, ao tentar embarcar num vôo entre Joanesburgo e a cidade do Dubai, e que foi um verdadeiro furo da pequena publicação dirigida por Marcelo Mosse, podem-se já tirar três grandes ilacções.

A primeira ilacção, e provavelmente a com maior peso, é opotencial impacto reputacional sobre o Estado moçambicano, não só porque manifestamente se revela incapaz de lidar com a sua roupa suja, como, cada vez com maiores certezas, se revela capturado por figuras com um perfil moral e ético questionável, que aparentemente se servem do seu estatuto e posição enquanto servidores do Estado, para obterem ilegitimamente benefícios pessoais dos seus cargos, ou através de negociatas ou roubando do erário.

Esta constatação, a que se junta a perpétua suspeita de esquemas e aldrabices eleitorais, ajuda a consolidar a perspectiva de que Moçambique é um Estado Falhado, capturado pela elite política local, ainda que de forma moderadamente sofisticada, a que está associada a quase total inoperância dos sistemas legal, judicial e de vigilância – que aparentam fazerem parte do complot.

A segunda ilacção tem que ver com o estado da comunicação social em Moçambique – mas não só.

A notícia da captura de Chang em Joanesburgo (que eu tive conhecimento através de uma curta mensagem emitida pelo Canalmoz nessa mesmo noite de 28 de Dezembro) apenas afirma o facto da prisão e é acompanhada de uma imagem, possivelmente tirada à sucapa com um telefone móvel, do que parece ser um documento judicial sul-africano, em língua inglesa, supostamente a corroborar as circunstâncias do acto. Posteriormente (escrevo isto na tarde de 31 de Dezembro) várias organizações de notícias reportaram a prisão de Chang mas de forma pouco coerente, citando, no caso da Lusa a embaixada de Moçambique em Pretória para a prisão, e no que concerne às circunstâncias, fonte da embaixada sul-africana (presumo que em Maputo) citando a estação de televisão de Maputo, a STV.

Por outro lado, a peça de Marcelo Mosse diz tanto como não diz. Refere que Chang estava a ser preso por nada menos que as autoridades dos Estados Unidos da América e sujeito a ser extraditado para aquele país para ir a tribunal responder por três crimes graves, descrevendo a sua tipologia, mas não explica que crimes Chang cometeu especificamente – mas refere que não têm que ver com o crime do famoso “empréstimo Ematum”, cuja conta no fim ficou a cargo dos contribuintes moçambicanos.

Mosse não explica como e porque é que os Estados Unidos surgem neste caso, sendo que o tal documento aparentemente judicial sul-africano refere especificamente que os alegados crimes foram cometidos em jurisdição sul-africana – mas Mosse escreveu que não se sabia onde os crimes foram cometidos. O documento diz, preto no branco, que foram cometidos na África do Sul.

Mais: Mosse sugere que afinal sabe tudo e até dá umas dicas meio no ar, refere que envolve mais gente (presumivelmente da high society da nomeclatura moçambicana) mas que para já não dizia nada.

Hoje, ainda em relação a este assunto, Marcelo Mosse pontificou mais, mas ainda vagamente, sobre o seu impacto no actual regime moçambicano. Ele acha que irá ter grande impacto.

Talvez o relato mais surpreendente tenha sido o da Voz da América, que, no seu sítio na internet, para além de referir que Chang iria ser presente a um juiz sul-africano no dia de hoje (31 de Dezembro), se limitou a citar outras entidades para o seu reporte da prisão de Chang – Mosse, a Procuradoria Geral de Moçambique e a Televisão de Moçambique. Ora, se o processo originou nos Estados Unidos, talvez o mais relevante neste momento seria conhecer os detalhes das supostas alegadas acusações (graves) do governo dos Estados Unidos contra o Senhor Chang. Pensaria eu que a VoA, um organismo de comunicação do goerno dos Estados Unidos, estaria em condição privilegiada para obter e reportar em maior detalhe e com fontes seguras sobre este assunto. Mas não.

Todos parecem saber (muito) menos que o Marcelo Mosse e que os impessoais do Whatsapp.

E isto não é jornalismo, em que uns regorgitam pedaços de informação uns dos outros e não se conhece om cerne da questão.

A terceira ilacção é, a confirmar-se, a natureza do acto por parte das autoridades do governo norte-americano no que respeita a Moçambique e a figuras da elite política-económica local.

O Exmo. Leitor recordar-se-á que já não é a primeira vez que o governo dos Estados Unidos “investe” contra figuras locais, isoladamente e ás vezes de forma selectiva, se não caprichosa. Há uns anos, o OFAC, um relativamente pequeno gabinete no Departamento do Tesouro norte-americano, proclamou o patriarca da Família Bachir “barão da droga”. O acto teve algumas consequências menores, mas Bachir permanece em Maputo com a maior parte dos seus negócios e o seu património intactos. Na altura, ficou célebre a afirmação de um alto representante do Estado moçambicano, de que Bachir tinha a “folha limpa”. Ao que se sabe, os americanos mais nada fizeram, e mais nada disseram, até hoje.

Dez anos volvidos desde esse evento, a novel posição de Moçambique enquanto futuro fornecedor de gás de referência nos mercados internacionais tornou-se algo em relação ao qual o governo dos Estados Unidos não é indiferente. Até porque há vários players norte-americanos directa ou indirectamente envolvidos em vários aspectos do processo, e também entidades potencialmente adversárias dos interesses globais norte-americanos, tais como a China. No que a estes processos concerne, a postura moçambicana tem-se revelado permeável, nomeadamente aos interesses da elite local, que tende a associar-se, mais do que respeita aos interesses estratégicos do país e da sua população, a quem dá mais, em esquemas invariavelmente menos transparentes e que, suspeita-se, têm como principal resultado rechearem contas bancárias de que são beneficiários últimos em variadas praças offshore. Ora, ninguém é melhor que os serviços de inteligência norte-americanos para relevarem e analisarem as informações necessárias, e as várias agências do governo norte-americano, para utilizarem os variadíssimos instrumentos ao seu dispor para agirem em relação a estas situações. O que aconteceu a Manuel Chang é apenas um mero e menor exemplo desses instrumentos.

De momento, tudo indica que sabemos ainda muito pouco sobre este processo e que vamos ter que esperar para melhor contextualizar o que significa e ainda as suas consequências. Ao longo das décadas desde a tomada do poder, entregue de bandeja de forma inquestionada pelos revolucionários portugueses, a Frelimo teve uma capacidade surpreendente de driblar e de sobreviver. Será interessante observar o seu comportamento perante o que se vai passar a seguir. Eu, que relativamente a Moçambique já vi o equivalente a dois porcos a voar de bicicleta, espero tudo.

Ou nada.

 

16/12/2018

O THE DELAGOA BAY REVIEW E O MUNDO

Imagem retocada e pintada por mim.

Peço aos exmos. Leitores, o favor de lerem a mensagem em baixo.

O Gelderland, navio da marinha holdandesa, atraca no porto francês de Marselha, 22 de Novembro de 1900, trazendo Paul Kruger de Lourenço Marques, no início do que se veio a tornar o seu exílio. Dois meses antes, o Reino Unido conquistara militarmente o seu país, o antigo Transvaal.

 

A partir desta semana, o The Delagoa Bay Review, que iniciei há quase nove anos, passou a ser um blogue marcado como confidencial e privado.

Isto significa que, todo o seu conteúdo deixou de estar disponível na internet e só poderá ser acedido pelos subscritores ou mediante autorização expressa minha.

Se recebeu esta mensagem, é porque é um subscritor.

Se quiser deixar de ser um subscritor, envie-me uma mensagem.

No período decorrido entretanto, em que investi muitas horas de pesquisa, o blogue foi visitado por cerca de meio milhão de pessoas que fizeram mais de 1.5 milhões de visitas. Tem um número relativamente pequeno de subscritores, menos que 500. Poucos, mas, presumo, bons.

Espero que tenham tido um bom proveito. Sempre foi um hobby pessoal, que oscila entre a procura de algum rigor histórico e o quase estritamente frívolo, espelhando e explorando afectos, curiosidades, questões fundamentais e  mero voyeurismo. Uma boa parte dos materiais dependeram de uma indispensável ajuda dos seus leitores, a quem estou grato.

Cumprimentos,

ABM

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