THE DELAGOA BAY REVIEW

15/09/2021

A FACTURA

Filed under: A factura, Marcelo Mosse — ABM @ 12:18 am

Não sigo em detalhe todas as tricas que grassam por África, mas já percebi que Paul Kagame, o actual President for Life do Ruanda, gere um regime musculado e tolera pouco a dissidência.

Há-de haver razões bem fundamentadas porque é que ele se predispôs a fazer a Filipe Nyusi o considerável favor de, ao estilo do defunto Mousinho com os Namarrais nos tempos da Afirmação da Soberania, ir tentar matar gente para Cabo Delgado e assim fazer a Maputo o frete insalubre de eliminar o foco da rebelião na zona, que assim, se não de outra qualquer forma, parece descobrir fazer afinal (e ainda) parte de Moçambique.

Razões essas que eu, claro, desconheço, pois só leio jornais e os jornais, especialmente os de Maputo, têm sido um tanto quanto omissos quanto à questão.

No que parece haver menos dúvidas é a forma como Paul Kagame encara a sua oposição.

Exceptuando a generosa meia dúzia no parlamento que não oferece oposição nem alternativa, a oposição em Moçambique, soi disant, apesar de uma constituição que diz que permite a existência de partidos políticos, desde os chamados Acordos de Paz de 1992, nunca realmente se desarmou. Não confia na Frelimo, a quem chama “cães” (e vice-versa). Andam nisso há décadas, longe de Maputo, e-mail para cá, e-mail para lá. Nem eles vêm a Maputo nem Maputo vai lá. Moçambique felizmente é um bocadinho maior que o Ruanda – e a coisa vai sendo empurrada com a barriga sem ninguém ficar particularmente perturbado.

Em Maputo, como não há insurgentes armados a colocar bombas em carros na Julius Nyerere, a coisa cinge-se a matar -se ou a estropiar-se o ocasional jornalista, o académico com ideias peregrinas ou um qualquer que disse ou não disse alguma coisa. A mensagem que passa para quem tem razão para se preocupar é que, se falas muito levas. As pessoas ficam com medo e calam-se e isso basta. A ordem pública vigente permanece assim vigente, situação que não é inteiramente dispiciente para o 180º país mais pobre e um dos mais corruptos no mundo, dirigido pelo mesmo grupo de pessoas no poder continuamente há mais tempo que os 42 anos do Professor Salazar, o tal que dizia que “Moçambique é nossa”. Ainda por cima eles, que já foram nacionalistas, depois comunistas, e agora captalistas da Nova Vaga, andam correntemente ocupados a tentar descalçar a bota de mais um simples esquema de roubo ao mais alto nível, este de pelo menos dois mil milhões que dólares, uma quantia colossal e que ninguém ainda sabe para onde é que foi, se está em contas no Dubai ou em contas em Abu Dabhi (tenho plena fé que vai tudo acabar bem e que nenhum dos acusados na verdade sabia de nada ou tinha quaisquer culpas no cartório).

No Ruanda não é bem assim. O país é pequeno (literalmente do tamanho de entre Marracuene e a Ponta do Ouro), 13 milhões de habitantes, 95 por cento cristão, gerido a pulso pelo Senhor Kagame, não há lá corrupção nas repartições nem as dezenas de ONG’s que compõem a importante Indústria da Calamidade em Maputo. Têm um exército armado até aos dentes por causa dos vizinhos, que não se sabe bem quem é que paga, e parece que lá mata-se por tudo e por nada.

Parece ainda que a taxa de sinistralidade dos oponentes do Sr. Paul Kagame é muito elevada.

Então, por uma questão de mera sobrevivência, os cidadãos ruandeses dissidentes do regime fogem. Aparenta que há refugiados políticos do Ruanda um pouco por toda a parte e consta que o Senhor Kagame, que se acreditarem foi re-eleito na última vez com uns estonteantes 98.47% dos votos a favor, de vez em quando manda esquadrões da morte para os eliminar fisicamente, preferencialmente com dois tiros na cabeça. Também os há em Moçambique, e presumo que pensariam estes, por estarem longe, estarem mais seguros. Até formaram uma Associação.

Mas afinal nem por isso. Li – e isto antes do anúncio da expedição punitiva ruandesa a Cabo Delgado – que um cidadão ruandês refugiado em Moçambique fora “suicidado” na Inhaca. Desapareceu. E acho que houve mais um caso.

Surgiu entretanto a questão de serem os militares do Ruanda que foram para Cabo Delgado fazer o que os moçambicanos não fizeram em dois, três anos. É um grande favor.

Um que dificilmente tem preço.

Paul Kagame é, então, o novo melhor amigo de Moçambique.

Que tem para com ele uma dívida de sangue.

E os Ruandeses dizem que fazem aquilo tudo da bondade dos seus corações.

Entretanto, hoje, o jornal do Marcelo, que leio quase sempre e que raramente falha nestas coisas, publicou o seguinte:

Uma reportagem posterior da Deustche Welle deu mais alguns detalhes. O assassinato na Matola não foi coisa simples de um gajo com uma pistola. Não. Eram três carros cheios de gente numa perseguição e o cidadão ruandês a quem Moçambique deu refúgio levou seis tiros na cabeça.

Mas ninguém realmente viu as caras e as matrículas.

São “desconhecidos”.

Em Kigali, o Senhor Kagame deve ter recebido as notícias.

Sem surpresa.

25/07/2021

OTELO SARAIVA DE CARVALHO, PORTUGAL E MOÇAMBIQUE

Não se devem misturar as coisas: Otelo Saraiva de Carvalho, o militar reformado que faleceu esta madrugada de 25 de Julho de 2021 com 84 anos de idade, era um comunista radical. Tornou-se incontornável por ser o coordenador operacional do golpe militar que derrubou a ditadura portuguesa em 25 de Abril de 1974, usou o seu controlo das armas logo a seguir para puxar Portugal para o limiar do comunismo e, não sucedendo, tentou mais tarde derrubar o regime socialista e mais ou menos democrático por meio de uma conspiração terrorista criminosa em que os seus correligionários mataram cidadãos que achavam não serem do seu agrado. Identificada a contenda pelas então autoridades portuguesas, sucedeu o quase impensável num regime democrático e num estado de direito: o parlamento português basicamente perdoou-lhes os crimes e fingiu que nada tinha acontecido. Otelo passou o resto da sua vida entre tertúlias e palestras, reclamando raivoso que não tinha feito o seu golpe de 1975 para este regime de socialismo cha-cha-cha que para ele era uma traição ao “povo”.

António de Spinola falando na televisão portuguesa em 1974. Ao lado o General Francisco Costa Gomes, um simpatizante comunista, que o sucederia (30 de Setembro de 1974-13 de Julho de 1976). Então por detrás de tudo, estava Otelo.

Otelo nasceu e cresceu em Lourenço Marques. O seu percurso na Cidade, relativamente inocente por comparação com a sua versão pós-1975, foi o de um jovem branco local, entretido com as míudas, a escola, o teatro e as passeatas.

A sua ligação a Moçambique e o que eu considero um erro curcial e inexcusável por parte do então aclamado presidente relutantemente aclamado pelos militares, o General António de Spínola (15 de Maio-30 de Setembro de 1974) ajudaria a ditar o destino subsequente da colónia, embrulhada numa guerrilha pela sua independência desde Setembro de 1964.

O episódio está bem documentado: enviado Mário Soares à Zâmbia (na qualidade de ministro dos Negócios Estrangeiros) para estabelecer ligações formais entre o novo regime e a Frente de Libertação, que se recusava a estabelecer uma trégua e de facto estava empenhada em escalar militarmente o conflito, ocorreu a Spínola, que não confiava em Soares, enviar Otelo para “vigiar” Soares. Para a missão, Otelo nem sequer tinha estatuto formal propriamente dito. No encontro, para encanto da liderança moçambicana, em vez de tentar negociar uma trégua e um plano de transição faseado para uma independência, para gáudio de Soares, Otelo interrompe-o e diz que em vez de se estar ali a perder tempo, o que tinha que ser feito era simplesmente entregar a governação da colónia imediatamente e incondicionalmente à Frente de Libertação. A liderança da Frente de Libertação ficou encantada e radicalizada. Nas semanas que se seguiram, não haveria trégua militar até se proceder à entrega do poder colonial aos representantes da Frente, mediante um apressado acordo assinado semanas mais tarde, no dia 7 de Setembro de 1974, e numa cerimónia formal no Palácio da Ponta Vermelha no dia 20 de Setembro de 1974.

Assim, de um dia para o outro, quem vivia na colónia passou da última ditadura colonial fascista europeia para uma ditadura radical comunista africana, apoiada relutantemente pelas ditaduras comunistas europeias, soviética e chinesa. Jovem, inexperiente e embriagada pelo súbito acesso ao poder, a liderança embarcou num experimento “marxista científico” que devolveu a sua economia para a idade da pedra e criou os anti-corpos que alimentaram uma longa e mortífera guerra civil. Quase cinquenta anos depois, e após demasiados inenarráveis episódios, as mesmas pessoas que herdaram o poder de Otelo, constituídas numa elite quase impune e milionária, ainda mandam na antiga colónia, que é dos países mais pobres, problemáticos, subdesenvolvidos, corruptos e desiguais do planeta, embrulhados na bandeira e evocando o estatuto de Libertadores.

Os Pais da Nação e Donos Daquilo Tudo, e com quem Otelo manteve sempre uma relação amistosa.

Otelo, graduado em brigadeiro, na capa da “Revista do Povo”, 1 de Novembro de 1974. Tinha 37 anos de idade.

Otelo retornaria a Portugal para derrubar Spínola e protagonizar o 28 de Setembro de 1974, o 11 de Março de 1975 e o Verão Quente de 1975, o verniz democrático do novo regime a estalar pelo fervor revolucionário comunista, a sanidade nacional salva por um triz pelo (nunca celebrado) contragolpe ocorrido no dia 25 de Novembro de 1975 e o quase milagre de se ter permitido implementar a nova constituição (socialista comunizante) e especialmente realizar a primeira eleição parlamentar em 25 de Abril de 1976. Em que – surpresa- afinal os comunistas que tanto mandavam e que tanto barulho faziam se revelaram uma minoria parlamentar quase negligível. O milagre teve muito a mão dos norte-americanos e dos europeus, que assistiam preocupados à tomada de poder comunista e que teriam em Soares um trunfo e em Ramalho Eanes uma figura providencial.

O regime ainda viveria até 1982, vigiado humilhantemente por um quase obsceno Conselho da Revolução e Otelo ainda concorreu a Presidente e viria a ser a alma por detrás das infames Forças Populares 25 de Abril. Preso com os seus colaboradores, viria a ser libertado e no meio dum mega-processo judicial, as instâncias acharam procedente simplesmente meter tudo na gaveta. A esquerda, especialmente a radical, continuaria intocada até hoje.

Tal como em Moçambique, embrulhada na bandeira nacional e no estatuto de Libertadora, os putativos Pais da Nação.

Volvidos cinquenta anos, este é em boa parte o legado de Otelo, com quem tive o curioso prazer de ver na televisão, junto com o General José Loureiro dos Santos, em Nova Iorque, numa memorável noite de Novembro de 1989, os alemães delirantes a começarem a demolir, à paulada e à martelada, o Muro de Berlim, assinalando exuberantes o fim das ditaduras comunistas na Europa e Leste e na União Soviética. Pelo meio, falámos do seu passado de Lourenço Marques. Não disse muito. Foi a única vez que o vi.

Aparentemente insanável, incapaz de se reformar, falido e corrupto, em 2021 o Portugal socialista continua a caminhar paulatinamente para se tornar o estado mais pobre e dos mais endividados da Europa, sustentado pelo acesso a dívida barata e sucessivos balões de oxigénio europeus, a sua população envelhecida. As pessoas deixaram de ter filhos e os mais jovens emigram em vagas sucessivas para onde há empregos mais decentemente remunerados e menos tributados. À miséria aparente as elites respondem empurrando os problemas para a frente com a barriga, com mais socialismo. mais despesa pública, maior rigidez nas políticas de investimento e do trabalho e mais impostos – e mais demagogia. Seduzidos por uma dispersão eleitoral oportunista em que o exercício do poder é traduzido por uma aliança de conveniência entre os socialistas e um cocktail de esquerdistas radicais e borlistas, a agenda política repleta de chavões da esquerda.

Um país apenas bom para funcionários públicos (alguns), para corruptos, ladrões, imigrantes miseráveis da Ásia, milionários de vistos Gold chineses e brasileiros, reformados de sucesso da Europa e quem se conseguir encaixar no peculiar estatuto fiscal de “não residente habitual”.

Naturalmente que este não era o Portugal que Otelo pensava que iria surgir e em que iria viver. Nem eu. Numa entrevista em 2014, ele explicou que, se fosse para isto, não tinha feito o seu golpe em 1974 e que na verdade se pudesse, derrubava o actual regime. Talvez para tornar a velha nação num regime de partido único de esquerda radical.

Não me surpreende.

21/06/2021

OS CÃES DE MOÇAMBIQUE, POR OSVALDO PERALVA, 1986

Filed under: Osvaldo Peralva e os Cães de Moçambique 1986 — ABM @ 2:37 pm

O texto que segue foi escrito e publicado em 1986 na Folha Ilustrada, em São Paulo, no Brasil, imediatamente a seguir ao acidente aéreo que vitimou, entre outros, Samora Moisés. Osvaldo Peralva não era uma pessoa qualquer. Ver uma breve descrição de quem ele foi em baixo a seguir ao texto que escreveu.

O texto de Osvaldo Peralva, final de Outubro de 1986, presumivelmente acabado de sair de Maputo, onde fora para um evento que não ocorreria dada a queda do Tupolev em que, entre outros, pereceu Samora Moisés.

Quem foi Osvaldo Peralva

Peralva, brasileiro, foi um comunista convicto e um importante quadro do Partido Comunista Brasileiro que perdeu a convicção no final dos anos 50 quando conheceu o comunismo soviético em pessoa – e sobre o qual publicou um contundente livro. Eis como a Folha de São Paulo, de que Osvaldo Peralva foi colaborador, o descreveu, no dia em que foi noticiada a sua morte em 1992:

Recorte da Folha de São Paulo, seggunda-feira, 19 de Outubro de 1992.
Osvaldo em São Paulo, 1985.

18/05/2021

A HISTÓRIA DE UM MISTÉRIO MOÇAMBICANO, POR R W JOHNSON

Nasce a Pátria Amada em 1975. Em baixo, um ponto da situação de RW Johnson sobre a mesma em 2021.

Com vénia, reproduz-se o artigo de opinião publicado ontem pelo Senhor RW Johnson, no seu habitual estilo algo cáustico.

A História de um Mistério Moçambicano


A crescente ameaça constituída pelos jihadistas da Ansar al Sunnah na província de Cabo Delgado, no extremo norte de Moçambique, finalmente causou grande preocupação internacional, depois de os insurgentes ligados ao ISIS atacarem a vila de Palma no dia 24 de março. Os americanos, portugueses e outros, ofereceram apoio e treino militar ao débil exército moçambicano, que parece totalmente incapaz de lidar com a ameaça. Além disso, os líderes da SADC ficaram alarmados com a ideia de grandes forças estrangeiras se envolverem na região e numa cimeira em Maputo em 8 de Abril, resolveram enviar uma missão técnica para avaliar a situação e recomendar que tipo de força poderia ser necessária.

Até agora tudo bem. Mas quando a missão técnica chegou a Maputo, foi informada que só poderia passar um dia em Cabo Delgado. De facto, desde logo se tornou claro que o governo moçambicano não estava nada entusiasmado com a ideia da missão ir a Cabo Delgado.

Em última análise, a missão recomendou que uma força de 2.900 militares com quatro helicópteros e algum apoio naval seria necessária – uma força ridiculamente inadequada aos olhos da maioria dos analistas e especialistas militares. Cabo Delgado é grande – 82.000 km2 – com 16 centros distritais que precisam ser protegidos contra ataques.
Mas o presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, não gostou nada. Na verdade, desde que a crise arrebentou, ele tem-se oposto sistematicamente a qualquer intervenção regional para ajudá-lo, embora tenha ficado satisfeito em contar com a ajuda de mercenários russos e sul-africanos (os grupos Wagner e Dick Advisory Group, ou DAG).

Era para ser tomada um decisão na cimeira de segurança da SADC a 29 de Abril. No dia anterior, os ministros dos Negócios Estrangeiros da SADC aprovaram por unanimidade o relatório da missão técnica e disseram que as forças de Moçambique precisavam de “apoio imediato”. Mas o presidente Nyusi estava claramente determinado a evitar tal resultado. Ele conseguiu engendrar o “adiamento indefinido” da cimeira de segurança, e assim os líderes da SADC nunca se encontraram e o relatório da missão nunca foi ratificado.

Então aqui está um homem cuja casa está a incendiar-se. As chamas chegaram a um ponto em que não apenas os seus vizinhos regionais estão alarmados, mas os alarmes também estão tocando em Washington, Londres e Lisboa.
É um facto conhecido que a sua própria brigada de incêndio (ou seja, o exército moçambicano) não está preparada para a tarefa. No entanto, embora Nyusi tenha recrutado os serviços de organizações de mercenários também inadequados para a tarefa, ele parece determinado a expulsar os bombeiros regionais e internacionais que poderiam apagar o fogo.

O que diabo, então, está acontecendo?

Para melhor compreender a situação, é necessário primeiro dissipar quaisquer romantismos persistentes sobre o “movimento de libertação” em Moçambique. Na verdade, todos os movimentos de libertação da África Lusófona foram todos não apenas para o mal, mas para o pior.

Não há necessidade de falar mais sobre o regime de José Eduardo dos Santos, que governou Angola entre 1979 e 2017, inteiramente no interesse de uma só família, mas ainda existem alguns pan-africanistas que gostam de idolatrar o herói Amílcar Cabral da Guiné-Bissau.

Os irmãos Cabral eram mesmo bons homens (eu conhecia o irmão do Amílcar, o Luís) mas o facto é que, ao contrário de tudo o que pregavam, no fim Cabo Verde separou-se para se tornar num país independente e a Guiné-Bissau tornou-se num narco-estado.

Venerar heróis como os Cabrais é como ser um devoto de Toussaint Louverture, o libertador do Haiti – como muitos pan-africanistas ainda são – sem se preocupar em notar a podridão absoluta dos regimes que governaram o Haiti desde então.

Moçambique não é excepção a esta Lei da Decadência dos Movimentos de Libertação. O principal ponto a compreender é que a heroína foi o maior produto de exportação de Moçambique nas duas últimas décadas e que este tráfico está a aumentar. A heroína vem do Afeganistão, do Paquistão e do Iémen, chega ao largo da costa norte de Moçambique por dhows, onde é depois descarregada em barcos mais pequenos, armazenada em Cabo Delgado e depois transportada para Joanesburgo por estrada.

Se estiver num contentor, ela vai para o Terminal de Contentores de City Deep, se não, vai para o Aeroporto Oliver R. Tambo em Joanesburgo – ambos os destinos são notoriamente corruptos – e é então transportada para a Europa (uma certa quantidade de dagga e mandrax (methaqualone) também chega ao mercado sul-africano).

As rotas de tráfico que passam por Cabo Delgado estão estabelecidas há muito tempo. Moçambique não tem marinha ou guarda costeira portanto para todos dos efeitos a longa linha costeira das províncias do norte não é policiada. Não são apenas as drogas que vêm por aqui – o mesmo acontece com rubis, ouro, madeira, exportações proibidas de animais selvagens e, claro, tráfico de pessoas. Afinal, aquela era uma antiga costa de comércio de escravos.

A única (pequena) pedra no sapato é a base naval francesa em Mayotte, uma ilha no topo Norte do canal de Moçambique, que não só faz patrulhamento marítimo ao longo da costa leste africana com os seus navios e aviões, mas também inclui um pequeno destacamento da Legião Estrangeira. Até agora, entretanto, embora os franceses tenham perturbado um pouco o tráfico de drogas, eles não mostraram interesse em se envolverem mais intensamente.

A razão pela qual Moçambique alcançou um estatuto central no comércio de drogas é simples. As agências de combate ao tráfico de drogas do mundo desenvolvido tornaram o acesso a seus mercados difícil e perigoso, de modo que os sindicatos do narcotráfico buscaram novas e engenhosas entradas pela porta de trás.

Moçambique funciona bem neste sentido porque o norte de Moçambique é tão selvagem e tão pouco policiado como não acontece em mais nenhum outro lugar do planeta e a elite governante do país é fabulosamente corrupta, facilitando os negócios.

Melhor ainda, Moçambique é vizinho da África do Sul, que não é um produtor de drogas pesadas, ainda tem um fácil acesso ao mundo desenvolvido e é igualmente susceptível à corrupção. Essa combinação mágica é, obviamente, o que atraiu os Guptas e muitos outros criminosos para a África do Sul.

Tradicionalmente, o comércio de heroína em Moçambique tem sido controlado por um pequeno número de famílias muçulmanas asiáticas, principalmente Mohamed Bachir Suleman, nomeado em 2010 pelo Presidente Obama como um “barão da droga”.

Desde o início, este comércio funcionou sob a protecção da liderança da Frelimo, que alegadamente embolsou milhões por ano com isso. Suleman é provavelmente o maior doador da Frelimo.

A relação entre Suleman e a Frelimo começou sob o presidente Joaquim Chissano (1986-2005). Chissano era o chefe da segurança da Frelimo desde 1966 e estava, portanto, numa posição ideal para garantir a cooperação das forças de segurança de Moçambique.

Quando o segundo filho de Mohamed Bachir Suleman se casou, num casamento com 10.000 convidados em 2001, Chissano foi o convidado de honra. (Os paralelos com o casamento de Gupta em Sun City, com a presença de membros da elite do ANC, são óbvios.) Posteriormente, o acordo comercial foi entregue ao sucessor de Chissano, Armando Emílio Guebuza (Presidente 2005-2015). Guebuza, o homem mais rico de Moçambique, é conhecido como “Sr. Gue-business”.

Graças a estes esquemas, o comércio da droga decorreu sem problemas. Na verdade, a Frelimo regulou cuidadosamente o comércio – não queria que a heroína fosse vendida em Moçambique e não queria que o comércio fosse visível para os doadores do país.

Portanto, não houve guerras de drogas entre as famílias traficantes, nem prisões, nem condenações, nem apreensões da heroína que passava. A polícia, a alfândega e os líderes da Frelimo receberam a sua parte. Com a heroína chegando a ser cotada a US $ 300 milhões por tonelada na Europa e até 40 toneladas por ano chegando à costa moçambicana, o comércio valia US $ 1 bilhão ou mais por ano só em comissões.

Desde 2020, o comércio de heroína tem sido fortemente suplementado por metanfetamina, também proveniente do Afeganistão – tanto assim que, em 2021, 50% dos carregamentos de drogas nos dhows eram de metanfetamina. Parte dessa droga chegou ao mercado sul-africano, mas deve-se salientar que aquilo que os comerciantes de heroína estão realmente procurando é populações numerosas e ricas, capazes de pagar seus preços de topo. Isso significa que o que eles realmente querem é levar as suas mercadorias para a Europa, a Austrália e os EUA.

Desde 2017, grandes quantidades de cocaína também chegaram à Austrália, vinda da África do Sul (a Austrália e a Nova Zelândia têm a maior prevalência de consumo de cocaína do mundo). De facto, em 2017-2018, a Austrália recebeu nove vezes mais o volume de cocaína por carga aérea da África do Sul do que de qualquer outro país.

Além disso, a cocaína tem surgido nos embarques de contentores da África do Sul. Em 2019, 68 kg de cocaína foram encontrados num carregamento de móveis proveniente da África do Sul e noutra apreensão 384 kg. O grande tamanho dessas remessas sugere que a rota África do Sul-Austrália é considerada segura e confiável.

O aumento do comércio de cocaína sinalizou uma grande mudança. A heroína veio da Ásia, mas a planta da coca é cultivada exclusivamente na América Latina, então isso indicou que os cartéis de drogas latino-americanos também se estavam a envolver. Provavelmente a chave foi o acordo comercial assinado em 2015 entre Moçambique e Brasil. Isso facilitou muito a importação de mercadorias em contentores oriundas do Brasil e muito rapidamente alguns desses contentores transportavam cocaína. Mais uma vez, a intenção era encaminhar a droga através de Moçambique, Malawi e África do Sul para destinos finais na Europa, Austrália e EUA.

Naturalmente, isso chamou a atenção das autoridades norte-americanas e, em outubro de 2018, Tanveer Ahmed, um traficante paquistanês, foi preso em Moçambique graças a uma operação liderada pela US Drug Enforcement Administration (DEA). Ahmed liderava uma grande rede de tráfico de heroína, cocaína e haxixe em Moçambique . Em 2020 ele foi extraditado para os Estados Unidos.

Isso foi seguido em abril de 2020 pela prisão em Moçambique de Gilberto Aparecido Dos Santos, um grande traficante de drogas brasileiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (ou PCC), o maior e mais poderoso grupo de crime organizado do Brasil. Dos Santos, que andou fugido da polícia brasileira durante mais de vinte anos, foi acusado de controlar o tráfico em grande escala de cocaína e armas com ramificações por toda a América Latina. Ele aparentemente adquiriu bases em Moçambique e na África do Sul.

Dos Santos foi preso, juntamente com dois associados nigerianos, num luxuoso hotel de Maputo numa operação em que a polícia moçambicana cooperou com a Polícia Federal brasileira e, mais uma vez, com os americanos da DEA. Dos Santos foi imediatamente extraditado para o Brasil – a Força Aérea brasileira enviou um avião especial a Maputo para o ir buscar.

A prisão de grandes traficantes como Ahmed e Dos Santos não era, em grande medida, a maneira moçambicana de fazer as coisas. Noutros tempos, podia-se ter como uma certeza que homens como eles teriam pago a polícia moçambicana, oferecido presentes chorudos à liderança da Frelimo e depois continuado alegremente com os seus negócios. O que mudou esses arranjos amigáveis foi claramente a entrada em cena da DEA, uma agência habituada a conseguir o que quer, com um forte apoio das autoridades americanas.

Além disso, tudo mudou com a descoberta em 2015-2016 dos 2 bilhões de dólares em empréstimos secretos organizados por Armando Guebuza. Os governos e entidades doadores ficaram furiosos com a falsificação deliberada das contas de Moçambique. Cortaram a sua ajuda para apoiar o orçamento moçambicano, causando uma grande crise financeira; deixaram claro que Guebuza tinha de ir; e em geral começaram a questionar que outros golpes haviam sido praticados com base na sua boa vontade ingénua. Nesse novo clima de desconfiança, o narcotráfico – que os doadores até então benignamente ignoraram – destacou-se como outro grande escândalo.

Foi neste clima que Filipe Nyusi ascendeu ao poder em 2015. Guebuza, ao estilo africano clássico, andava ocupado a tentar alterar a constituição para poder concorrer a um terceiro mandato presidencial, mas tudo isso desapareceu assim que Moçambique renegou as dívidas associadas ao escândalo do empréstimo.

Muito claramente, Nyusi precisava de se distanciar de Mohamed Bachir Suleman e de outros traficantes conhecidos e, pelo menos publicamente, deplorar o comércio de drogas e, pelo menos, parecer apoiar os esforços internacionais para combater o tráfico.

Por outro lado, o comércio de drogas tornou-se numa das maiores e mais lucrativas exportações de Moçambique e proporcionou um enorme e constante rendimento em divisas para a elite da Frelimo. Simplesmente não havia como aquela elite tolerar um corte nessa fonte de renda: na verdade, a elite havia-se tornado tão viciada quanto qualquer drogado.

Portanto, era uma condição básica da presidência de Nyusi manter o equilíbrio de modo a apaziguar os americanos da DEA e os doadores, por um lado, mas garantir que a elite da Frelimo continuava a conseguir a sua dose, por outro.
Se olharmos agora para a geografia do comércio ilícito na costa da África Oriental (ver mapa), podemos ver como o aumento da pressão exercida pelos governos do Quénia e da Tanzânia nos antigos centros comerciais de Zanzibar, Mombassa e Dar-es-Salaam forçou uma mudança de enfoque para o sul.

Fonte: Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional, com base em entrevistas em toda a região, setembro de 2017.


Neste novo contexto, os dois portos principais são Pemba em Cabo Delgado e Nacala na província de Nampula. Nacala tem o porto mais profundo da África Oriental enquanto que Pemba tem um fluxo de contentores e o seu grande apelo é que fica situado tão a norte que está fora da vigilância de qualquer pessoa baseada em Maputo.

Em 2010, Celso Correia, então presidente da Insitec Lda. – então qualificada como “uma empresa de fachada Guebuza” – assumiu a gestão do porto de Nacala. Correia posteriormente actuou como gestor da campanha presidencial de Nyusi e actualmente é Ministro da Terra e do Desenvolvimento Rural. Acresce que, uma vez privatizada a gestão dos portos sob Chissano, foi aberta uma única excepção para o porto de Pemba, que permaneceu sob a alçada da empresa estatal Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM). Este foi um passo muito deliberado da liderança da Frelimo para manter o controlo deste centro ultra-sensível do tráfico de droga.

Todos esses arranjos delicados e sensíveis foram, no entanto, ameaçados pelo surgimento da insurgência jihadista em Cabo Delgado a partir de 2017. Ainda não há evidências de que os insurgentes estejam envolvidos no tráfico de drogas, embora seja geralmente assumido que tal seja apenas uma questão de tempo, simplesmente porque essa é a forma transacional como a política moçambicana funciona.

Quer dizer, depois de um breve período de retórica revolucionária, a elite da Frelimo decidiu usufruir de todos e mais algum dos privilégios que os portugueses tinham antes. Nas guerras da Renamo contra a Frelimo que se seguiram, a Renamo não insistiu na corrupção da Frelimo porque, é claro, a luta era realmente sobre qual a participação nos lucros que a Renamo poderia vir a obter. Os jihadistas também vão querer a sua parte. A insurgência precisa de dinheiro. Quando tomaram Palma, os insurgentes prontamente roubaram todos os bancos locais.

A insurgência de Ansar al Sunnah é, obviamente, um grande problema para Nyusi e a Frelimo. Há anos que a Frelimo tem salivado com os mega-lucros resultantes das novas descobertas de gás – na verdade, os $ 2 bilhões de Guebuza em empréstimos secretos assentavam no pressuposto de que o país iria receber o dinheiro de volta das receitas do gás e ninguém jamais quereria saber do buraco nas contas do Estado. (Na verdade, metade desses US $ 2 bilhões nunca foram contabilizados.) Portanto, a decisão da Total, à luz da insurgência assassina, de invocar força maior e retirar-se, é um golpe tremendo.

Esta, então, é uma explicação para a desconcertante relutância do Presidente Nyusi em acolher a ajuda militar estrangeira contra os insurgentes jihadistas em Cabo Delgado. Desde o momento em que a insurgência começou e ficou claro que o exército moçambicano não conseguiria lidar com ela, tem sido um objetivo fundamental da Frelimo manter as forças estrangeiras longe deste centro nevrálgico do tráfico de drogas.

Assim que tropas da SADC, quanto mais americanas, portuguesas ou outras, começassem a patrulhar o território de Cabo Delgado, iriam inevitavelmente descobrir o que se passava, os jornalistas internacionais iriam expor e, Deus sabe, os estrangeiros poderiam atrapalhar o comércio ou mesmo tomar um quinhão para eles mesmos.

Tudo isso é impensável e a elite da Frelimo claramente não tolerará um presidente que permita que esta fonte de rendimento-chave seja cortada.

Entretanto, académicos, jornalistas e trabalhadores humanitários estão todos proibidos de entrar em Cabo Delgado. O jornalista Tom Bowker foi recentemente deportado porque queria fazer uma reportagem sobre a insurgência. Apenas para garantir que outros jornalistas não começassem a vaguear por Cabo Delgado, o aviso de deportação de Bowker impede-o de regressar durante dez anos.

Pois então Nyusi chamou primeiro o grupo Wagner e depois o grupo DAG, pois sabia que nem os russos nem os mercenários em geral perderiam o sono – ou fariam barulho – com o tráfico de drogas. Esses cães de guerra esperam que a África seja venal, brutal e cínica. Mas almas gentis como Cyril Ramaphosa da África do Sul ou Mokgweetsi Masisi do Botswana ficariam chocados – quase se pode ouvir Ramaphosa dizendo “oh, fiquei chocado, chocado” – enquanto que, se os americanos se envolvessem, sem dúvida trariam a DEA. Ora isso seria impensável. É por isso que Nyusi conseguiu com sucesso arrastar os pés e evitar a intervenção da SADC, por enquanto.

Para já, a situação está neste ponto. O problema é que Ansar al Sunnah não vai embora e eles já sucederam em comprometer enormes investimentos estrangeiros. Isto é mau para toda a região da África Austral, pois dá aos investidores estrangeiros a impressão de que, por mais convidativas que sejam as oportunidades, os riscos nesta vizinhança são simplesmente proibitivos. Além disso, a DEA está agora envolvida e, sem dúvida, entende a situação o suficiente. Um grande problema está à espera mesmo ao virar da esquina.

Como a maioria dos políticos africanos, Nyusi está interessado na gestão das crises no curto prazo – portanto a opção preferida é aquela que vai manter o dinheiro a fluir e que suceda em empurrar o problema para a frente por mais algumas semanas, talvez até um mês ou dois.

Mas vá prestando atenção a este espaço.


(assina RW Johnsonin em politicsweb.co.za)

texto original em inglês
17 de Maio de 2021

17/02/2021

MÁRIO FERNANDES DA GRAÇA MACHUNGO

Filed under: Mário Machungo 1940-2021 — ABM @ 7:36 pm

O Dr. Mário Machungo, que conheci no início de 2000, morreu há um ano. Sinto a sua falta.

 

Mário Machungo em 2003, quando era, entre outros, Presidente do Conselho de Administração do BIM, este BIM resultante da fusão do Banco Internacional de Moçambique original e do Banco Comercial de Moçambique.

Uma alminha caridosa escreveu mais ou menos um esboço do seguinte texto, que foi publicado no Wikipédia e que editei pesadamente pois era curto e tinha uns erros. Eis a minha versão preliminar:

“Mário Fernandes da Graça Machungo (Chicuque, perto da Maxixe, Inhambane, 1 de dezembro de 1940 – Lisboa, 17 de fevereiro de 2020) foi um político e um gestor moçambicano.

Um de sete irmãos, fez a escola primária na Missão da Munhuana, em Lourenço Marques, e o ciclo preparatório na Escola Industrial, a antiga Escola Técnica Sá da Bandeira, tendo terminado este nível em 1958.

Machungo fez parte de uma hiper-minúscula minoria negra moçambicana que estudou até ao nível universitário antes da década de 1970, tendo obtido uma licenciatura em economia no então ISCEF (Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras) em Lisboa em 1969.

Expulso, mas pelos vistos voltou e concluiu depois o curso.

Ainda antes de 1975, Machungo trabalhou no Banco de Fomento Nacional como economista e foi professor na Faculdade de Economia da Universidade de Lourenço Marques, tendo entrado no palco da política moçambicana praticamente no dia em que os militares portugueses formalmente entregaram o poder à Frelimo (20 de Setembro de 1974).

Como membro da Frelimo desde o seu início (supostamente, ficou a trabalhar “do lado português” a pedido do movimento independentista), foi desde logo co-optado e ocupou vários cargos ministeriais antes e após a independência de Moçambique em Junho de 1975. Foi ministro da Cooperação Económica do Governo de Transição entre 1974 e 1975. Foi Ministro da Indústria e Comércio entre 1975 e 1976, Ministro da Indústria e Energia de 1976 a 1978, Ministro da Agricultura de 1978 a 1980 e Ministro do Planeamento e Desenvolvimento de 1980 a 1986. Entre 1983 e 1986 foi ao mesmo tempo governador da província da Zambézia. De 17 de julho de 1986 a 16 de dezembro de 1994 ocupou o posto de primeiro-ministro de Moçambique, apanhando o final da presidência de Samora Machel e a primeira parte do mandato de Joaquim Chissano. Foi o primeiro primeiro-ministro que Moçambique teve.

Foi membro do Comité Central da Frelimo (já “partido”) e o seu Secretário para a Politica Económica.

Durante anos, foi Deputado da Assembleia Popular e Deputado na primeira legislatura multipartidária.

Após ter sido substituído no cargo de primeiro-ministro pelo Dr. Pascoal Mocumbi no final de 1994, Mário Machungo virou-se para o nascente sector privado. A partir de 1995 fundou e tornou-se Presidente do Conselho de Administração do que viria a ser o maior banco do país, o Banco Internacional de Moçambique, que actualmente usa a Marca comercial Millennium Bim. Esteve lá até 2014, quando foi, com pouca pompa e menos cerimónia, substituído. Entre 1995 e 2008, foi membro do Conselho Superior do Banco Comercial Português, a entidade, em Portugal, que detinha a maioria do capital social do BIM e com cujos responsáveis máximos, Jardim Gonçalves e Filipe Pinhal, se dava bem. Foi também Presidente do Conselho de Administração da Seguradora Internacional de Moçambique (SIM) e Presidente da Associação Moçambicana de Bancos, criada em 2000.

Morreu em Lisboa no dia 17 de fevereiro de 2020, de doença. Tinha 79 anos e deixou mulher e duas filhas. O seu corpo levado para Maputo, foi sepultado no Cemitério de São José de Lhanguene no dia 24 de Fevereiro, após dois dias de luto nacional e um funeral de Estado em que compareceram as mais altas entidades do seu país.

Sobre ele, Fernando Lima diria o seguinte, citado pela Deustche Welle: “o ex-primeiro-ministro foi uma das pessoas que [em meados da década de 1980] compreendeu a “necessidade de o país optar por outras políticas e não apenas o socialismo”, face à guerra e à pobreza no país. Machungo impulsionou o Programa de Reabilitação Económica (PRE), que trouxe consigo uma mudança fundamental no rumo da Frente de Libertação de Moçambique, o partido que governa, afastando-se do socialismo.”

06/08/2020

MULHERES A BUSCAR ÁGUA, DE RICARDO RANGEL

Imagem retocada, de Ricardo Rangel, parte de uma exposição em Maputo dedicada às mulheres de Moçambique.

Mulheres numa bicha, à espera para obter água. Não sei o local ou a data em que foi tirada.

04/08/2020

A LUTA CONTINUA – 2020

Filed under: A Luta Continua - 2020 — ABM @ 12:29 pm

Sempre que leio as recorrentes notícias sobre o que alguns chamam, algo eufemisticamente, “violência xenófoba”, contra os cidadãos oriundos de Moçambique que vivem na África do Sul, Zimbabué e Malawi, invariavelmente, lembro-me do verdadeiro inferno de morte e miséria a que a Frelimo do Samora sujeitou Moçambique e os moçambicanos a seguir à independência, e durante anos a fio, para -justamente- “libertar” os “irmãos” dos apartheids e afins. Em vez de usarem a independência para desenvolver o país, os acólitos do novo Regime implantaram uma ditadura militar comunista e toda aquela cena sob o que se tornou num popular slogan de esquerda – o de “a luta continua”- repetida inúmeras vezes por Samora Machel nos comícios e discursos que fazia, e que se traduziu em guerra, morte e fome.
Hoje, aburguesadas e passada a fase do liricismo marxista, as elites destes países beijam-se para a fotografia e entrecasam-se enquanto, segundo as várias organizações que percebem disso, conspiram para roubarem e ficarem perpetuamente ricas.

Mas no terreno, para o povo, é isto, que cito em baixo, num texto da Agência Lusa, publicado ontem ao princípio da noite.

Parece mesmo que, para eles, abusados pelas suas elites e despeitados pelos mesmos que supostamente ajudaram a libertar, a luta continua.

O texto da Lusa:

Um imigrante moçambicano morreu e pelo menos 18 pessoas também de nacionalidade moçambicana ficaram desalojadas por alegada violência xenófoba no leste de Joanesburgo, África do Sul, que eclodiu na semana passada.
“Houve um moçambicano que foi morto, queimaram tudo o que tinha, e levaram tudo, todos os moçambicanos ficaram sem nada”, relatou o imigrante moçambicano David Machava em declarações à agência de notícias Lusa. “Ele morreu anteontem [sábado], quando eles entraram aí a bater em Tokoza Pola Park”, adiantou David Machava, que vive na África do Sul desde 1987, onde constituiu família com oito filhos.
Segundo o imigrante, a maioria dos moçambicanos afetados pela recente onda de violência xenófoba residem em Pola Park, uma área do bairro de Tokoza vizinha a Katlehong. “Pode chegar a 18 moçambicanos, porque há muitos a viverem aqui em Pola Park”, contou Machava.

“Pediram documentos, bateram-me à queima-roupa, um outro moçambicano abandonou a casa dele porque lhe disseram que o iam matar e eu também estou a procurar outro sítio”, declarou. “Viraram-me o carro que estava estacionado”, referiu ainda o imigrante.
Ataques violentos desde a semana passada
Por seu lado, José Sobrinho, 37 anos, natural de Chokwé, distrito de Gaza, sul de Moçambique, disse à Lusa que o seu negócio de reparação de televisores não sobreviveu aos ataques violentos. “Destruíram os televisores que eram dos meus clientes”, adiantou, sublinhando que “a situação já está mais calma hoje, mas o que era dos clientes ficou destruído”.
José Sobrinho contou que abriu o negócio de reparação de televisores no bairro de Tokoza em 2016, embora tenha imigrado para a África do Sul em 2007. “Tenho quatro filhos, até a minha esposa não está bem [de saúde] devido a uma queda e estou a preparar dinheiro para lhe enviar porque está hospitalizada [em Moçambique]”, declarou o imigrante moçambicano, que procura agora refazer a sua vida.

A violência xenófoba contra imigrantes moçambicanos em Tokoza, referiu José Sobrinho, eclodiu na passada terça-feira (28.08) e só viria a dissipar-se no domingo (02.08) após a intervenção do exército sul-africano e do ministro da Polícia, Bheki Cele.
“Foi quase toda a semana, porque começou na terça e na sexta-feira e no sábado [a violência] piorou, há muitos moçambicanos afetados e ontem [domingo] apareceram os militares e o ministro da Polícia Bheki Cele esteve cá, e essa guerra parou. A situação ainda está calma”, disse José Sobrinho.
Casas e lojas vandalizadas
O moçambicano referiu que os responsáveis, de etnia AmaXhosa, justificaram a violência contra os imigrantes moçambicanos e a vandalização das suas casas e lojas alegando “falta de eletricidade” no bairro de Tokoza há três semanas. “Mas depois começaram a dizer que todos os estrangeiros têm de sair do país, e aí começaram já a entrar nas lojas e nas casas, tiraram coisas, mobílias e queimaram tudo. Basta ser estrangeiro e ter uma loja, que eles entram e destroem tudo”, adiantou.
Questionado pela Lusa sobre os motivos da recente onda de violência xenófoba, este imigrante moçambicano sublinhou: “O problema é que nós aqui trabalhamos, estamos em ‘lockdown’ devido a essa pandemia do novo coronavírus, mas conseguimos colocar pão na mesa, e eles não fazem nada, dependem do Governo, enquanto nós fazemos pela vida. Esse é o problema”, disse José Sobrinho.
Contactada pela Lusa, a esquadra de Polícia em Tokoza remeteu esclarecimentos para o comando da Polícia sul-africana (SAPS, na sigla em inglês) na província de Gauteng que não respondeu ao pedido até ao momento.

Em 2019, o distrito de Ekhuruleni, onde se situa o bairro de Tokoza, foi um dos focos de saques de violência xenófoba que atingiu o país em setembro, forçando cerca de 1.500 estrangeiros africanos a abandonarem a África do Sul. Cerca de 800 pessoas, na sua maior parte originária de Moçambique, Malawi e Zimbabué, procuraram refúgio em salas comuns no bairro de Katlehong, vizinho a Tokoza, a cerca de 35 quilómetros a leste de Joanesburgo, referiu o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).
Mais de 11 pessoas morreram e cerca de 500 foram detidas pela polícia sul-africana em setembro de 2019 durante uma onda de violência xenófoba, pilhagem e destruição de vários negócios, na maioria de imigrantes estrangeiros na província de Gauteng, a mais populosa da África do Sul.

20/07/2020

O PANO DE FUNDO PARA UM FILME DE TERROR

Presumo que por mera coincidência, em Outubro de 2019 a estaçãozinha pública de televisão de Portugal, paga com anúncios de publicidade e por uma taxa mensal imposta a quem consome electricidade no território português, mudou a música que usa para abrir o seu principal telejornal, às 20 horas (hora de Portugal, que é também GMT ou UTC).

Penso que a razão formal foi assinalar o 60º aniversário do telejornal da televisão estatal.

Gostaria de dizer que a obra em si, originalmente concebida por César Veríssimo e com arranjo de Anne Victorino de Almeida, interpretada por uma orquestra que não sei quem são e dirigida por Joana Carneiro, é soberba. Magnífica. Faz a versão anterior parecer música de elevador.

Mas tenho outra interpretação.

Outubro de 2019 assinala também uma mudança em Portugal e no mundo, para pior. E na altura ninguém sonhava o que estava para vir da China.

Em Outubro houve uma eleição parlamentar em que, essencialmente, foi reforçado o clima geral de “socialismo de esquerda” instaurado pelo golpe de António Costa em 2015, criando a Geringonça, nas costas dos enormes aumentos de impostos feitos pelo governo anterior (o de Passos Coelho) por sua vez em resposta à crise de 2008 e gritante e escandalosamente agravada pelo governo de José Sócrates.

Para todos os efeitos práticos, deixou de haver direita política em Portugal.

Desde 2015, Costa manteve os impostos altos e distribuiu uns dinheiros por aqui e por ali, cortando ao mesmo tempo despesas ali e aqui. Com taxas directoras perto dos zero por cento, permitindo ignorar o efeito arrasador de uma dívida pública de 140% do PIB, os socialistas dançaram com taxas e taxinhas e a economia lá foi seguindo anemicamente, ajudada em parte por um crescimento do turismo e pelo wishful thinking de tanta gente que confundiu um “novo” Portugal, aparentemente moderno, bonito e acolhedor como um porto seguro, para os nacionais e para os turistas.

Foi e é tudo menos isso. Para a “recuperação da crise de 2008, o brutal aumento de impostos foi acompanhado pela emigração de mais que 500 mil portugueses em idade de trabalho. Para ajudar a contrariar a razia demográfica, Costa abriu as fronteiras a uma cacofonia de estrangeiros que as pessoas nem entendem bem quem são.

Em termos de capital, o país está a saque de entidades estrangeiras, pois o capital nacional, largamente, inexiste.

Assim, o final de 2019 fazia prever a chegada de tempos difíceis.

Mas os seis meses que se seguiram mostraram que isto vai ser muito pior.

Curiosamente, o surgimento da Pandemia teve a dúbia vantagem de constituir, para o Partido Socialista de Portugal, uma quase perfeita justificação para os tempos difíceis, ainda que de forma espectacular: por um lado, a dívida pública vai ascender a níveis estratosféricos, acima de 150% do PIB. Por outro lado, a desgraça já é tal que a União Europeia viu-se forçada a dar milhares de milhões de euros ao governo de António Costa, para mitigar a catástrofe, que no momento em que escrevo estas linhas, ainda não se fez sentir minimamente a sério.

Portanto, se, nos últimos três anos, o Exmo. Leitor habituou-se a quase diariamente, ligar o noticiário da RTP à noite para observar as diatribes do Sr. Donald Trump e as notícias oficiosas do Regime, prepare-se para começar a assistir à mega-operação de relações públicas com o fim de mitigar os efeitos da Pandemia. Que, prevejo, mais vai parecer um filme de terror.

A desgraça transmitida ao som belo, dramático e prenunciador de algo que não é pacífico, nem bom, nem que vai acabar bem, e que segue em baixo.

Quão épico. Quão apropriado.

A actual canção de abertura do Telejornal da RTP.

08/04/2020

A EVOLUÇÃO CLIMÁTICA EM ANGOLA, MOÇAMBIQUE E PORTUGAL, 1901-2018

Um sítio gerido pelo Instituto de Análise Ambiental publicou no seu sítio os seguintes mapas, indicando a evolução das temperaturas (neste caso) em Angola, Moçambique e Portugal entre os anos de 1901 e 2018.

Conclusão: no tempo colonial era mais fresquinho.

 

Angola, 1901-2018.

Moçambique, 1901-2018.

Portugal, 1901-2018.

09/03/2020

DENNIS JETT RETRATA MOÇAMBIQUE NA REVISTA FOREIGN POLICY

Filed under: Dennis Jett retrata Moç 2020 — ABM @ 3:26 am

A influente revista norte-americana Foreign Policy, publicou na sua edição de ontem (requer subscrição) um longo e demolidor texto de opinião de Dennis Jett sobre a actualidade moçambicana.

Jett foi o embaixador daquele país em Maputo entre 1993 e 1996, por nomeação de Bill Clinton. Actualmente, ensina política externa na Universidade Estatal de Pennsylvânia, estado que fica situado a meio caminho entre Nova Iorque e Washington.

O artigo, que tem feito as rondas entre quem segue a realidade moçambicana, revela que Jett acompanha os eventos desde que acabou o seu mandato de embaixador.

O excelente sítio em língua portuguesa da Voz da América pegou na história e fez um resumo adequado, que penso traduz o que Dennis Jett escreveu e que, com vénia e alguma edição, se reproduz em seguida.

Dennis Jett.

(início)

Moçambique “está prestes a tornar-se num estado falhado, cuja democracia é uma farsa” disse o antigo embaixador dos Estados Unidos em Moçambique, Dennis Jett.

Jett acusou os países ricos e doadores internacionais como o Programa de Desenvolvimento da ONU e a Conta do Desafio do Milénio, de contribuirem para a manutenção do sistema de corrupção e abuso de poder, deixando o povo moçambicano apenas com opções de revolta armada, emigração ou “resignação”.

Escrevendo na revista “Foreign Policy”, Jett disse que as riquezas energéticas recentemente descobertas em Moçambique não vão garantir a segurança ou a melhoria da governação em Moçambique e acusou os países ricos de “inadvertidamente acabarem por assegurar que a sua pobreza vai continuar”.

No seu artigo, Dennis Jett criticou também asperamente as organizações internacionais de ajuda por serem “cúmplices” na manutenção da actual situação em Moçambique.

Dennis Jett disse que a principal causa do pessimismo em relação ao futuro de Moçambique se deve principalmente à corrupção “do pequeno grupo de políticos” que governa o país desde 1975.

“Como um país em que o Produto Interno Bruto é menos de um por cento daquele dos Estados Unidos, Moçambique é simplesmente demasiado pobre para financiar as necessárias instituições da democracia que poderiam fornecer contrapesos (checks and balances) ao poder da elite governante”, escreveu o professor, acrescentando que os governantes moçambicanos têm sido ajudados “pela cumplicidade de alguns países, companhias de energia como a ExxonMobil e organizações de ajuda como o Programa de Desenvolvimento da ONU e Corporação do Desafio do Milénio e pela indiferença de outros”.

O antigo embaixador americano em Maputo disse que Moçambique não estava preparado para se auto-governar quando alcançou a independência em 1975 “porque as autoridades portuguesas não tinham investido na educação da população local”.

Os líderes da Frelimo que assumiram o poder realizaram eleições após o fim da guerra civil “mas o governo tem continuamente usado do seu poder para as falsificar”, escreveu Jett, que dá depois pormenores da falsificação das últimas eleições , da violência contra opositores e da corrupção, exemplifcada com o caso das “dívidas ocultas”.

“Devido ao facto da sociedade civil ser fraca, do parlamento e do sistema judicial estarem debaixo da mão da Frelimo e a imprensa ser em grande parte controlada pelo governo ou totalmente intimidada, os líderes fazem face a pouca pressão para governarem democraticamente e ou honestamente”, opinou Dennis Jett para quem “a única esperança é que a comunidade internacional possa tentar impor algumas (limitações ao poder do governo)”.

Mas o antigo diplomata disse que isso levantaria acusações de neo-colonianlismo e para além disso “os países ricos estão mais preocupados com a estabilidade em países que são parcialmente estados falhados, do que com a democracia”.

No seu artigo, o antigo embaixador dos Estados Unidos no Maputo criticou o Departamento de Estado dos Estados Unidos por ter apelado às autoridades moçambicanas no sentido de“resolverem as preocupações graves de missões de observação das últimas eleições”.

“Por outras palavras, o que o Departamento de Estado estava a sugerir era que o governo moçambicano deveria investigar-se a si próprio quanto às tácticas que ele próprio usou para assegurar que vencia as eleições”, escreveu Dennis Jet, que criticou também um plano do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, no montante de 60 milhões de dólares, para ajudar “a descentralização do governo e encorajar a participação digital na democracia”, recordando que apenas 21% dos moçambicanos têm acesso à internet e que “uma coisa que a Frelimo tornou claro ao longo dos anos, é que não tenciona abrandar o seu controlo do poder, dando a entidades locais que podem não ser leais à Frelimo, qualquer medida de autoridade”.

Dennis Jett criticou também o plano da Conta do Desafio do Milénio e outros doadores, de doarem dinheiro “sem imporem quaisquer limitações ao abuso do poder por parte do governo moçambicano, embora sejam (essas organizações) que fornecem metade do orçamento do governo”.

Dennis Jett afirma que “a insurgência e terrorismo no Norte vão permancer e o povo moçambicano vai ficar a pomderar quanto ao que é mais destrutivo, se os ciclones que têm atingido o país ou o seu próprio governo”.

Para Dennis Jett, a comunidade de países doadores “ignora a corrupção em Moçambique e continua a oferecer ajuda humanitária e de desenvolvimento,” o que não resolve os problemas do país.

“Tratar a raíz dos males do país – a má governação – em vez dos sintomas do problema, parece ser algo para além da capacidade de atenção dos países ricos e contrário aos seus interesses comerciais”, escreveu Dennis Jett.

“E por isso ao povo de Moçambique restam apenas as opções da resistência armada, do terrorismo Islamita, da emigração ou a resignação”, concluiu o antigo embaixador norte-americano em Moçambique.

(fim)

27/02/2020

A BOMBA ATÓMICA DE MOÇAMBIQUE

Filed under: A Bomba Atómica de Moçambique — ABM @ 2:33 am

 

Na sua edição de 26 de Fevereiro, o excelente jornalista Adérito Caldeira, do jornal A Verdade, de Maputo, que geralmente é melhor que a média naquilo que publica, aludiu a uma apresentação em que o perpetuamente discreto mas genial economista António Francisco, publicou o quadro que em seguida reproduzo (com uns retoques):

A Bomba Atómica de Moçambique.

Isto a propósito duma daquelas discussões académicas insanas (e demasiadamente frequentes) sobre pobreza, modelos de desenvolvimento, bla bla bla.

Daquelas a que quase ninguém vai e que quase ninguém liga.

Só que aqui o assunto é verdadeiramente explosivo.

Os pontos que o Adérito diz que o António Francisco fez, mais ou menos, são simples, por isso faço-o aqui, resumidamente:

  1. A população, maioritariamente pobre, rural, miserável e analfabeta de Moçambique, hoje é de 30 milhões de almas, o triplo do que havia em 1975;
  2. Daqui a trinta anos somará 65 milhões de pessoas; no centenário da independência, 100 milhões;
  3. Mas da maneira como as coisas têm andado em termos da economia e das infra-estruturas, mesmo com os dinheiros do gás e tudo o mais o que se prevê que se possa vir a arranjar, e não fôr entretanto roubado ou derretido em guerras indecifráveis, não vai haver maneira de dar de comer, educar, vestir, arranjar emprego e cuidar destas pessoas; os efeitos no território e nos recursos será arrasador, para não falar que se vai acentuar o peso da maioria da população na Zambézia e Nampula, até agora politicamente quase omissa;
  4. Sendo as coisas como são, e prevendo-se melhorias assinaláveis na taxa de mortalidade da população, a única solução para assegurar um mínimo de chance para se proporcionar uma vida de melhor qualidade para os futuros moçambicanos é….nascerem menos;
  5. E não há muito tempo antes que se tenham que (ou deviam-se) tomar medidas específicas para se tentar convencer os casais moçambicanos a deixarem de ter uma média de seis filhos por casal, e passarem a terem (e efectivamente criarem e suportarem) três filhos por casal em média;
  6. Pois, aos actuais níveis do que Francisco chama, quase simpaticamente, “fecundidade”, a nação moçambicana vai ser uma mãe ainda mais madrasta para os seus filhos do que aquilo que já foi nos últimos cem anos. E isso é perfeitissimamente evitável. E é algo que está literalmente nas mãos dos moçambicanos e das moçambicanas.

É melhor começar a falar-se disto duma forma menos discreta.

Pois esta já é e vai ser a verdadeira bomba atómica que Moçambique enfrenta no seu futuro.

25/02/2020

MÁRIO FERNANDES DA GRAÇA MACHUNGO, 1940-2020

Filed under: Mário Machungo 1940-2020 — ABM @ 2:25 am

Foi hoje (24 de Fevereiro de 2020) a sepultar, em Maputo, o corpo do Dr. Mário Machungo, após uma cerimónia pública.  O Dr. Machungo faleceu em Lisboa no dia 17 de Fevereiro.

Ainda não escrevi sobre ele.

 

O Dr. Mário Machungo no seu gabinete na sede do Banco Internacional de Moçambique, 2004. Foto tirada por mim.

20/02/2020

MÁRIO MACHUNGO E MARCELINO DOS SANTOS, DEZEMBRO DE 2003

Filed under: Mário Machungo e Marcelino dos Santos — ABM @ 12:32 am

Por ironia do destino, aconteceu que Marcelino dos Santos e Mário Machungo, que, pode-se argumentar, representam dois pólos que se opõem (se é que se pode ousar dizer eles terem existido na mistórdia negocial interna da organização) do que terá sido a Frelimo nos anos depois da independência, faleceram no espaço de uma semana um do outro, – o primeiro a 11, o segundo a 17 – provocando algum ruído no que terão sido os respectivos legados ao que hoje é Moçambique.

Sobre Marcelino, 11 anos mais velho que Machungo, já escrevi uma nota.

Sobre Mário Machungo, lá chegarei.

Mário Machungo com Marcelino dos Santos no edifíio do Private do BIM em Maputo, 12 de Dezembro de 2003, aquando da cerimónia de lançamento de um livro do Sr. José Craveirinha, que ajudei a lançar e a realizar (com, entre outros, um filho do Sr. Craveirinha e o Pai do Mia Couto). Machungo era então o Presidente do Conselho de Administração do Banco Internacional de Moçambique. Marcelino era a Eminência Parda do regime.  Joaquim Chissano estava no último ano do seu mandato e Guebuza montava os alicerces do seu império e preparava a sua desastrosa presidência. Fui eu que tirei a fotografia.

12/02/2020

REQUIEM POR MARCELINO DOS SANTOS, 1929-2020

Marcelino dos Santos, uma das figuras mais influentes e duradouras da Frente de Libertação de Moçambique e do seu sucedâneo “político”, e que nasceu no Lumbo (um lugarejo em frente à Ilha de Moçambique) em 20 de Maio de 1929, faleceu hoje (11 de Fevereiro de 2020), em Maputo, com 90 anos de idade.

Desde os primórdios das movimentações nacionalistas com o fim de pôr um fim ao regime colonial português em Moçambique, nos anos 40 do Século XX, Marcelino dos Santos foi, de dentro do grupo de pessoas presentes na altura, a meu ver, a pessoa mais central e crucial do processo que culminou com a formação de uma frente unida e que, a partir do então Tanganica, iniciou, no final de 1964, uma guerrilha contra as autoridades coloniais portuguesas, de que resultou posteriorente a independência de Moçambique.

Se há um fio condutor em tudo o que aconteceu primeiro à Frelimo e depois ao nascente país, para melhor e para pior, esse fio condutor foi Marcelino dos Santos.

Que, infelizmente, era tão nacionalista como comunista, o que, com o apoio de Samora e de Chissano (e de mais meia dúzia de guerrilheiros notáveis, e ainda – principalmente, acho – de uns heróicos 3-5 mil moçambicanos, anónimos hoje, que foram quem de facto andou no mato a arriscar as vidas, aos tiros e a colocar minas terrestres durante dez anos), orientados pelos chineses de Mao e demais países comunistas da época, sucederam em forçar uma independência a martelo, mudando o país nascente de uma ditadura colonial de partido único empenhada em adiar a independência política, para uma infame ditadura comunista de partido único, empenhada em libertar os vizinhos do apartheid.

A revolta em 1974 dos militares portugueses, comandados por um lourenço-marquino comunista, veio mesmo a tempo para a Frelimo, pois Marcelo Caetano na altura preparava-se para despachar as colónias até 1980, pois que já davam mais prejuízo que o que ele achava que o seu país estava disposto a sustentar, sob um manto de “autonomia soberana”. Em Lourenço Marques, ao contrário do que todos hoje parecem julgar, rigorosamente ninguém estava preparado para nada, muito menos os brancos. Como aliás se viu.

Em 1975, perante a impotente, obediente e excitada maralha, reunida em comícios infindáveis, pouco depois de assumir o cargo de líder incontestado, e para que não houvessem dúvidas, o carismático Samora proclamou que, afinal, a coisa não tinha acabado: afinal, a coisa apenas tinha começado.

E repetia vezes sem conta, nos seus comícios obrigatórios sem fim: A Luta Continua. A Luta Continua. A Luta Continua. A Luta Continua.

E assim a luta continuou, agora para todos, no púlpito, Samora, secundado por Marcelino dos Santos.

O resultado foram mais vinte anos de guerra civil e com os vizinhos, que mataram mais que um milhão de cidadãos moçambicanos e destruiram o pouco que havia depois da auto-destruição ao estilo pol-potista dos primeiros anos após 1975, tida como medida necessária para se criar o Novo Moçambique. Todos a ferro e fogo, solidários na miséria e sujeitos às investidas da Snasp e à chambocadas repetidas por causa de tudo e de nada, ajudados depois pelos rodesianos e pelos sul-africanos.

Antes e após 1975, e praticamente até esta data, Marcelino dos Santos, temido e celebrado como o verdadeiro mandarim do regime, permaneceu uma peça-chave na Frelimo, que governou em ditadura até 1994, após o que, já num contexto constitucional multipartidário, concebido antes de Roma principalmente para ficar bem na fotografia e agradar as potências envolvidas, continuou a governar com uma maioria parlamentar e presidencial, operando à superfície como um partido, na prática o efectivo detentor da totalidade do poder político e com uma captura total de todas as instituições do estado moçambicano, incluindo a máquina eleitoral e os tribunais. Que usou.

Mas no seu seio, malgrado a fachada “democrática”, a máquina não mudou quase nada. Tudo ainda é decidido à porta fechada lá naquela sala de reuniões no único prédiozito no meio da Somershield.

É a mesma máquina que, por alturas de 1975, e nos anos seguintes, decapitou e mandou decapitar toda e qualquer oposição ou voz minimamente dissonante aos seus ditames. Em que Marcelino assinou por baixo no infame decreto que supostamente legalizou os assassinatos de, entre outros, o Reverendo Simango e sua mulher e a Dra. Simeão.

E, de facto, a guerra realmente não acabou em 1994. Parou, apenas, por pura exaustão e por acordo entre as partes, que nos anos seguintes mantiveram a mesma animosidade com que se degladiaram anteriormente, a Frelimo sempre com a faca e o queijo na mão, o lado contrário a rosnar com as armas. Foi um mero cessar-fogo, as partes incapazes de se reconciliarem. Os conflitos seguiram-se. O tempo foi passando.

Recentemente, o país viu-se envolvido em mais um escândalo em que 2 mil milhões de dólares em empréstimos fraudulentos foram usados para alguma da sua elite política, ao mais alto nível do Estado, obter benefícios de forma corrupta. Uns foram presos, outros continuam a usufruir do seu pecúlio. Predominantemente, com corajosas poucas excepções, a sociedade moçambicana assobia para o lado, com medo dos esquadrões da morte e dos sucessivos G-40s. A imprensa manda palpites muito ténues e não há oposição. Lá fora, eufemisticamente, refere-se ao regime como uma “democracia musculada” a resvalar para o autoritarismo puro e duro.

Entretanto velho, doente, alheado, desgastado, nos últimos anos, mais ainda passando por uma inédita euforia pelas catorzinhas (nisso de alguma forma ofendendo a alguma dignidade da sua companheira, a nada menos monumental Pamela dos Santos, que, justamente, o abandonou), Marcelino criou uma fundação, escreveu uns poemas e viveu pacatamente os seus últimos dias na mansão que lhe deram na Somershield, na esquina ao pé da antiga Sociedade de Estudos. Adoptou filhos. O seu marxismo impenitente foi pouco discretamente desacreditado e posto pelos seus acólitos na gaveta, respeitosamente, para não o ofender. Ele quase tudo ignorou. Ficou puro nas suas convicções, na sua lapela a nação que ajudou a criar.

O que tanto mais de notável é se se considerar que ele era um mulato culto num ambiente e numa organização em que, desde o primeiro momento, não negros cultos eram, comprovadamente, desconsiderados e rotulados de quase traidores só pelo mero facto de não serem pretos. Mas Marcelino foi sempre eficaz na sua dança, mortíferamente assim e sempre absolutamente fiel à causa da Frelimo e especialmente aos seus líderes (a excepção singular e gritante sendo o Dr. Mondlane, claro, que em 1968 já era um miscast na organização que supostamente liderava), sendo por isso sucessivamente recompensado com o estatuto de Intocável do Regime, desempenhando cargos da maior confiança e responsabilidade – sempre a um passo do poder máximo, especialmente no caso de Samora, o cavalo em que apostou em 1968 e 1969, com estrondoso sucesso. Dizem que Samora não ligava a isso das raças (duvido mas enfim) e parece-me que, para poder governar, ele acharia que tinha que ir buscar apoio e talentos onde os encontrasse. Se há um exemplo disso, ele é, de facto, Marcelino dos Santos.

E Marcelino tinha a vantagem de saber, sem ninguém ter que lhe dizer, que o seu lugar era sempre o de segundo atrás do líder. O que sempre soube fazer, de forma exímia.

A Eminência Parda do regime.

Economicamente, Moçambique hoje produz camarões, vende alguma electricidade aos vizinhos a partir da agora moçambicana Cabora Bassa, na Matola refina escória de alumínio que vem da Ásia e que a Mozal exporta logo de seguida, exporta algum carvão que vem de Tete e está em estágio de iniciar a exportação de gás natural, que se espera que traga alguma receita fiscal- e encha os bolsos pelo menos de alguns (empregos, nem vê-los, apesar da vigorosa e inútil ginástica reguladora da Vitória Diogo). A maior parte da população, que já se cifra em mais que 30 milhões de almas, sobrevive da agricultura de subsistência, do pequeno comércio e da prestação de serviços nas principais cidades e respectivas periferias. Os chineses, os sul-africanos e os indianos estão a tomar conta de tudo, a levar o ouro, as esmeraldas, as florestas e a pesca. E tudo o que se pode converter em dólares ou permita comprar prédios milionários em Maputo. Ninguém os pode parar. E ainda há o tráfico de droga, em que a sua longa costa se tornou numa rota necessária e conveniente. Daqui a trinta anos, serão 60 milhões de moçambicanos.

No mais, não se antevêem perspectivas de nada mudar significativamente, aparte haver mais bocas para alimentar e aparecerem mais uns ricos.

Moçambique, que é independente há 46 anos, sempre sob a égide da Frelimo, permanece um dos países mais pobres, mais corruptos e mais vulneráveis do planeta. Aguenta-se porque tem a África do Sul ali ao lado e porque continua a merecer, legitimamente, toda a ajuda que puder obter. Pois a miséria que prevalece, essa, também é verdadeira.

Quanto ao epílogo colonial, hoje já não há portugueses em Moçambique. Ou melhor, há alguns, são 0.0001% da população. Se bem que, localmente, ainda sabe bem falar-se deles de vez em quando, displicentemente e se calhar apropriadamente, sobre os ex-colonos e os alguns bimbos que vieram a seguir. Há algum investimento português, mas apesar das mais róseas profecias da câmara de comércio bilateral, os riscos são titânicos. A verdade é que há muito que os portugueses já viraram a sua atenção para outros mercados e outros destinos. Curiosamente, a TAP ainda mantém a sua rota para Maputo e o governo português continua a dizer que Moçambique é “muito, muito importante”, dando todos os anos milhões que os portugueses simplesmente não têm. Mas não é muito importante. É muito menos que isso. Portugal não é o Reino Unido e a CPLP não é a Commonwealth. O seu maior feito é ser o país onde fica o Benfica, que tem adeptos em Maputo. O actual presidente português, que passou lá uns breves tempos na juventude, quando o pai era o braço direito do sucessor de Salazar, diz nas entrevistas que ama o lugar e que quer ser sepultado lá quando morrer. Pois, que vá.

Recentemente, parece que o país se tem vindo a meter noutra guerra, desta vez centrada em Cabo Delgado, não se sabendo bem a que propósito, não se percebe ainda para quê e quem anda a mexer os cordelinhos. Já estão novamente a morrer civis inocentes moçambicanos e muitos mais a fugir das miseráveis casas onde sobrevivem.

Não sei se este é o país que Marcelino dos Santos sonhava que viria a ser em 2020.

Mas este é o país que deixou, hoje.

Certamente, num ritual pirotécnico e algo quixotesco, herdado dos tempos da Ditadura, o regime provavelmente irá proclamá-lo novamente Herói da Nação e colocar uma medalha no seu caixão, que depositará numa caixa lá na Praça a caminho do Aeroporto, solenemente.

E depois ficará mais ou menos esquecido nos livros de história.

Bem ou mal, depois se verá.

Marcelino dos Santos mostra as medalhas, anos 80.

26/01/2020

SAMORA MACHEL ENFERMEIRO? OS FACTOS

Filed under: Samora Machel foi enfermeiro? — ABM @ 12:50 am

Há anos que venho lendo textos mais ou menos líricos sobre o percurso pessoal daquele que em 1969, após Chissano se ter esquecido de proteger o Dr. Mondlane da alegada bomba da PIDE, se tornou no warlord  incontestado da Frente de Libertação de Moçambique, de onde transitou directamente para Presidente do novo regime de partido único. Cargo que provavelmente teria sido vitalício (bem, foi) não tivesse acontecido o episódio algo rocambolesco do despenho do avião presidencial russo em Mbuzini.

Um facto central do período do jovem Samora Machel antes da Frelimo, é o de – alguns alegam – ele ter sido enfermeiro em Lourenço Marques e na Inhaca, no final dos anos 50 e início da década de 1960. Há quem jure que ele foi enfermeiro. Outros apenas o aceitam como facto.

O episódio mais recente foi o testemunho do João de Sousa, que, a propósito duma efeméride (a data de nascimento do Guilherme de Melo, no Big Slam), refere que Samora fora enfermeiro.

Pois.

Só que não foi.

Aí há uns trinta e tal anos, ao falar em Coimbra com a Mãe de um amigo de infância, o Diogo, ela, que foi uma enfermeira de renome em Moçambique, explicou-me que ele gostaria de ter sido enfermeiro e até tentou obter a certificação, mas chumbou o curso.

O nome dela (que ainda vive em Coimbra e conheceu o jovem Samora perfeitamente) é Maria Fernanda de Gouveia Pinto. Os dois davam-se tão bem que, supostamente, ele se foi despedir dela antes de se ir juntar à nascente Frente de Libertação no Tanganica.

De facto, ela fez parte do júri que administrou o curso de enfermagem no último trimestre de 1961, no qual Samora chumbou o exame final, com uma nota de 8 valores.

E portanto não era, não foi, enfermeiro. Pode ter trabalhado como auxiliar de enfermagem (que não é a mesma coisa), maqueiro, etc, mas Samora nunca foi enfermeiro.

O documento em baixo, uma cópia do Boletim Provincial em Janeiro de 1962, refere o chumbo de Samora Machel.

 

O Boletim Provincial, Janeiro de 1962.

 

Detalhe. O nome de Maria Fernanda Gouveia Pinto em baixo. O de Samora mais em cima.

25/01/2020

A ESTREIA DO FILME O ZÉ DO BURRO EM LOURENÇO MARQUES, JULHO DE 1971

Filed under: Estreia do filme O Zé do Burro 1971 — ABM @ 3:00 pm

Por cortesia dos senhores do Arquivo da RTP, eis um minuto e meio da estreia do filme “O Zé do Burro”, realizada por Eurico Ferreira, no Cinema Dicca, na Baixa de Lourenço Marques (construído há pouco sobre os escombros do Varietá, em 27 de Julho de 1971, exactamente um ano depois de António Oliveira Salazar ter morrido.

Eurico Ferreira com uma jovem no palco do Cinema Dicca no dia da estreia do “Zé do Burro”, 27 de Julho de 1971.

Na altura com 11 anos, fui ver o filme, não sei bem porquê, talvez porque me tinham vendido a ideia que era um filme divertido para miúdos verem. E recordo-me de na altura o filme ter sido muito badalado, o que era incomum pois ninguém, mas ninguém, passava filmes portugueses em Lourenço Marques.

Na verdade, achei o filme tão patético que até eu achei que aquilo era demais. Aquilo nem para propaganda do regime servia, tão primitivo era na fórmula da missão “civilizadora” dos portugueses em África, em que o pretinho era uma criança imberbe e o mais básico patego português das Boiças um epíteto da modernidade. Eu de facto ri-me muito a ver o filme, mas ri-me por ser tão ridículo.

Ver o vídeo premindo aqui.

10/01/2020

O FUNDO SOBERANO DE MOÇAMBIQUE, 2020

Filed under: Fundo Soberano de Moçambique — ABM @ 1:45 am

Sempre achei que os pobres devem procurar poupar, na medida do possível. Teoricamente, isto pode e deve ser relevante, mesmo quando se trata de um país. No caso de um país dependente em monoculturas, sejam elas quais forem (mas que se destacam sempre quando se trata de gás e petróleo) o argumento tende a ser ainda mais forte, pois existe quase a garantia de um período de vigorosa chuva de dinheiro, seguido da maior incerteza, sendo este processo intergeracional, ou seja, supõe-se que os pais estão a guardar algum para os filhos e os netos.

Sendo uma monocultura, os critérios básicos de risco impõem que o dinheiro poupado seja investido noutros mercados, noutros sectores económicos, segundo critérios objectivos de alocação e gestão desses fundos.

As duas questões tratam-se então de 1) que mecanismo usar e 2) que garantias existem de que o esquema vai mesmo funcionar.

Um mecanismo que se tornou é o do fundo soberano, isto é, resumindo, uma conta para onde fluem os fundos “excedendetários”, que são depois investidos, por um comité nomeado pelo governo do tal de país, habitualmente apoiados por especialistas, empresas de consultoria etc etc.

Em Moçambique, um dos países comprovadamente mais pobres do mundo, e comprovadamente mais corruptos do mundo, quer no sector público, quer no sector privado e afins, estuda-se estes dias criar-se um fundo soberano para pôr de lado algum do dinheiro que se espera comece a jorrar assim que os pipelines estiverem prontos e o gás comece a fluir.

Há uns vinte anos, quando se criou o mecanismo de poupança forçado e muito mais modesto da segurança social, vaticinei que o mesmo corria o risco de se tornar alvo de má gestão, corrupção e, literalmente, rapina. Aliás menos grave porque o dinheiro é menos e de qualquer maneira, a maior parte dos moçambicanos não beneficia do mesmo, ou porque simplesmente a ele não aderem pois não têm rendimentos que o justifiquem, ou, com a mesma probabilidade, porque não viverão o tempo suficiente para dele beneficiarem. O sistema beneficia ainda do facto que, potencialmente, há-de haver sempre muitos mais a descontarem qualquer coisita que os que dele beneficiarão. Portanto, mesmo que se roube ou se gira a coisa com a maior incompetência, há-de haver sempre algum dinheiro para os que sobreviverem o suficiente para receberem uma reforma qualquer, em meticais, com as acutalizações possíveis, um pouco à mercê do câmbio do dólar e do rande.

Mas o facto é que houve várias instâncias de roubo, de má gestão e uma falta considerável de transparência nas contas – quando estas se conhecem.

Um fundo soberano à escala do que se está a falar para as receitas do gás é uma jogada completamente diferente. Algo que nunca se viu em Moçambique, um, repito, dos países comprovadamente mais pobres do mundo, e comprovadamente mais corruptos do mundo, quer no sector público, quer no sector privado e afins.

Assim, pergunto: quem vai gerir, se criado, o fundo, com que regras, transparência e prestação de contas?

Ou, ainda melhor: quem vai ser o polícia que vai impedir os ladrões que vão aparecer?

Para ilustrar sobre o que falo, menciono os 500 milhões de dólares supostamente desviados em Angola pelo então presidente do fundo (e filho do ex-presidente) e refiro ainda ao exmo. Leitor que saiba falar inglês o vídeo, aqui contado de forma jocosa, mas mortífera, o escândalo 1MDB, ocorrido recentemente na Malásia e envolvendo o seu fundo soberano.

 

30/11/2019

A DÍVIDA INTERNA DE MOÇAMBIQUE EM 2019

Filed under: A Dívida Interna em 2019 — ABM @ 1:18 am

Enquanto não chegam as receitas do gás, e à falta da de outro modo perpétua ajuda para minorar as misérias, a Frelimo e o governo de Moçambique fazem o que podem: não tendo crédito lá fora por causa dos roubos perpetrados pela elite Guebuziana, ainda por resolver, endividam-se cá dentro, através da dívida pública, paga a peso de ouro aos bancos que ficam sem apetite para emprestar ao sector privado. O jornal A Verdade, neste e neste artigo referem o assunto, ilustrados pelos dois quadros em baixo.

Tirando cinco mistificantes bancos, entre eles o FNB Moçambique, o Mozabanco do Jófi, o Banco Mais e o Banco Terra, os bancos de topo nadam em lucros com pouco ou nenhum risco, pois investem em títulos públicos.

 

O Estado a endividar-se em 2019 junto da banca, dados para o primeiro semestre de 2019.

21/11/2019

O HOMEM NOVO E AS DUAS PROFECIAS DE SAMORA MACHEL

Filed under: Filipe Nyusi 2019 — ABM @ 3:05 am

 

Recebi esta noite a informação em baixo.

Afinal (ou enfim), quarenta anos depois, parece que se cumpriu a tal profecia do Homem Novo Moçambicano que Samora, o genial primeiro ditador comunista de Moçambique, tanto gostava de referir e que era tão apreciada pelos seus acólitos e a máquina de propaganda do regime – e que serviu como desculpa para as perseguições e depurações e barbaridades dos primeiros anos.

Seguida pela também sua outra conhecida profecia, citada mais tarde, de que, se nada se fizesse, que um dia poderia surgir em Moçambique uma elite negra predadora que faria o pior do colonialismo parecer um piquenique.

A parada entretanto continua na improvável Brooklyn.

New Man, Nyuz ou Nys

 

 

31/10/2019

A CARTA DE ANTÓNIO RITA FERREIRA, 1958

Com vénias ao interessante artigo preparado pelas professoras Cláudia Castelo (Universidade de Coimbra) e Vera Marques Alves e a Revista Etnográfica, edição de Junho de 2019 (páginas 417 a 438). Indirectamente, ao Filipe Rita Ferreira, que levou em cima com o sítio do Pai.

A carta que em baixo reproduzo, foi escrita em 1958 por Rita Ferreira (então um modesto mas dedicado funcionário público colonial que deambulava nas ciências sociais no seu tempo livre) a um seu amigo, que acabara de levar uma catanada do Regime e dos seus defensores em Lourenço Marques. É para mim uma manifestação do dessassombro e lucidez com que Rita Ferreira, e muitos como ele, encaravam aquilo que era Moçambique no raiar da década de 1960, quando a maior parte do continente africano recuperaria a soberania, depois de quase um século de ocupação europeia. Marca pelo que diz de Moçambique e do que o regime português por ali andava a fazer.

Na carta, à laia de consolação ao seu amigo, Rita Ferreira alude a um exercício de bravado “privado”, ou seja, mostra ao amigo um artigo supostamente para publicação em que arrasa o imaginário colonial vigente – mas que, claro nunca será publicado, pois se o fizesse seria imediatamente despedido e possivelmente preso. Sabemos dele, e desta carta, porque ele as guardou e agora chegou à luz do dia.

(início)

A. Rita Ferreira
C.P. 565
Beira
22 de Abril de 1958

Amigo e Sr. Prof.

Muito agradeço a sua carta de 24 do mês findo. A lufa-lufa do serviço e a preparação duma “recapitulação” da classificação e agrupamento étnicos de Moçambique, impediram-me que lhe respondesse há mais tempo. A situação do Quadro Administrativo a respeito de pessoal é cada vez mais angustiosa: não há quem queira ser aspirante. O resultado é que tenho de passar o dia a fazer serviço de dactilógrafo e outro serviço puramente mecânico, que me deixa arrasado.

Escrevi sobre a sua comunicação e a estúpida reacção local, o artigo que lhe mando. O “Notícias”, onde costumo colaborar, não o publicou. Ignoro se por censura interna se por censura oficial.

Creio ter sido, contudo, bastante cauteloso no que escrevi. Se permite que lhe dê a minha opinião, quer parecer-me, pelas referências que li, que o Sr. Prof., impedido como se encontrava de tratar o assunto com a necessária independência devido à posição oficial que ocupa, se viu constrangido a concentrar a sua atenção em aspectos de somenos significação sociológica e a responsabilizar os europeus de Moçambique pela situação que existe. Eu, à base do conhecimento do meio moçambicano que tenho e do que sei que acontece em Angola e S. Tomé, sou, aqui para nós, um tanto mais ousado. Ponho em causa as virtudes do português como colonizador no mundo moderno. Pode ser que tenha sido excelente colonizador há séculos, quando a cultura ocidental se não achava impregnada por factores económicos como hoje em dia. Mas hoje é um péssimo colonizador, o único que em toda a África ainda usa e abusa dessas duas chagas do colonialismo: o trabalho forçado e os castigos corporais. O colonizador português conseguiu criar pelo menos nas três “províncias” que conheço estruturas político-económico-sociais que não podem passar sem o emprego destes dois meios de opressão. Em Angola, a situação do trabalho forçado ainda é pior (mas mais bem organizada) do que em Moçambique: aí o número de negros a distribuir por cada agricultor é fixado pelos próprios Negócios Indígenas e os administradores têm que os fornecer. E em S. Tomé vi os próprios administradores das roças empregarem castigos corporais. Em face destas e doutras cruéis realidade[s], creio que o “luso-tropicalismo” ou outras frases como a que citou de “tradição de colonialismo missionário” têm funções de mito em todo o sistema colonial português e constituem cómodas racionalizações para os teóricos metropolitanos. Estou certo que a elas recorreu para poder chamar a atenção dos responsáveis pela governança, sem que corresse o risco inútil e inglório de ser por eles considerado com desconfiança.

A “situação colonial” portuguesa pode ser definida como o faz George Balandier em relação a todas as “situações coloniais”, mas com essas características não atenuadas, como se diz, pela “brandura dos nossos costumes” ou pelas nossas “ten[d]ências atávicas de assimiladores”, mas exacerbadas pelo nosso atrazo económico, pela nossa irrascibilidade, pela sub-instrução e sub-educação do povinho humilde de onde sai a grande massa dos colonizadores. Oh, senhores, não poder escrever eu livremente sobre as amargas experiências dum homem colonial! O que se passou em mim naquela noite em S. Tomé em que fui insultado pelo administrador da roça onde estava hospedado por ter “ousado” ouvir sem a sua augusta presença as humildes queixas dos cabo-verdianos, angolanos e moçambicanos ali trabalhando em regime compelido. Talvez um dia o faça, já no fim da carreira, e que golpe não vai ser para os teóricos! Um golpe tão grande como vai ser o vibrado pelo trabalho do Prof. Marvin Harris.

Na “situação colonial” portuguesa há algo que “ne marche pas”. Como explicar essas fugas em massa de trabalhadores, de famílias, de tribos para os territórios vizinhos, na Guiné, em Angola, em Moçambique. Só não fogem de S. Tomé por ser uma ilha! Ainda lendo recentemente o trabalho do Prof. Clyde Mitchell sobre os Ajauas da Niassalândia19(para onde, como sabe, emigraram centenas de milhares, talvez algo como um milhão de indígenas de Moçambique) notei sem surpresa a informação de que todos aqueles que interrogou alegaram como motivo de abandono da terra natal, os maus tratos.

Na Federação segundo as últimas estatísticas, há nada menos do que 133.000 trabalhadores activos do sexo masculino de proveniência moçambicana. E na União 150.000. Isto junto aos do Tanganica, perfazem, como vê, quase metade dos homens válidos de Moçambique. E bestificamente, continuamos a dizer (como na recente e saborosa discussão do Plano de Fomento no Conselho Legislativo, quando se falou de mão de obra) que o indígena é preguiçoso e que só por meio de preparação psicológica se pode levar ao trabalho…

A misceginação também tem que se lhe diga. Há milhares de crianças mistas abandonadas pelos pais. E isto é tanto mais notável quanto é certo que no Congo Belga os pais das crianças mistas ilegítimas são sistematicamente chamados à responsabilidade…

Sobre a assimilação nem é bom falar.

Poucos são os que têm a coragem de aludir a esta situação catastrófica. E o Sr. Prof. foi um desses, embora sob evidentes constran-gimentos psicológicos. Nós, os que vemos a situação com certa lucidez, não devemos, realmente, fugir. É preciso que fiquemos, para que possamos analisar, estudar (e, como sabe, ser um dia escutados) o ambiente sociológico que nos cerca. Temos uma tarefa a cumprir.

Os hábitos e pontos de vista locais estão tão empedernidos que me parece só por pressão do Governo Central poderem ser alterados. Quando digo locais, refiro-me também a S. Tomé e Angola. Mas não terá a Metrópole receio de reacções locais de carácter separatista, se quiser pôr em prática certas medidas? É o que me parece que está acontecendo com o problema da mão de obra, por exemplo. Se se pusesse em prática as determinações legais, as repercussões económicas seriam extremamente graves e daí a revolta contra o Governo Central.

Permito-me aconselhá-lo a rodear a sua próxima visita do maior sigilo, pois me constou haver alguns elementos em Lourenço Marques que aguardam a sua vinda para se manifestarem contra si. É realmente lamentável, estúpida e incoerente e própria de ignorantões, a reacção desencadeada pela sua comunicação.

Desculpe esta carta ir um pouco atabalhoada. Tive que a interromper a todo o momento para atender a assuntos de serviço e um deles bem irritante: um dos aspirantes vai de urgência para a metrópole e com esta partida agrava-se a acumulação do expediente. O curioso da situação é que conheço tantos indígenas excelentes dactilógrafos, que andam miseravelmente de porta em porta procurando emprego por salários irrisórios! Aqui há dias, como se aceitam aspirantes, interinos, com a 4.ª classe, um assimilado requereu a sua admissão. Pois foi por aqui uma risota gostosa. Até já pretos há no quadro administrativo, diziam, em grandes galhofas! A situação dos assimilados e mistos é muito angustiosa em face da legislação de salários mínimos e outras regalias, porque ninguém está disposto a dar-lhes os mesmos salários e direitos que se dão aos europeus. Enfim, problemas e mais problemas. A vantagem deste quadro é estarmos em contacto directo com eles.

Muito afectuosamente,

Rita Ferreira

(fim)

 

17/09/2019

SOBRE A MORTE DOS LIBERTADORES DA NAÇÃO, 1986-2019

 

 

Multidão sombria no funeral de Samora Machel, o ditador comunista de Moçambique, falecido num acidente de avião, 28 de Outubro de 1986. Foi sucedido por Joaquim Chissano  o Mandarim, e depois por Armando Guebuza, o do Guebusiness. Não havia internet. A Frelimo manda absoluta e consecutivamente no país há 45 anos, desde 20 de Setembro de 1974. Prepara-se para manter esse controlo no próximo dia 16 de Outubro. Desde há 30 anos, Moçambique é dos países mais pobres do mundo. Foto de uma agência internacional que não consegui identificar.

 

Cartaz partilhado na internet no dia a seguir a se conhecer a morte de Robert Mugabe numa clínica de luxo na Cidade-estado de Singapura, Setembro de 2019. Mugabe governou a antiga Rodésia entre 1980 e o seu afastamento por outro homem forte em 2017. Desde os últimos 15 anos, o Zimbabué é dos países mais pobres do mundo. Mugabe era, e a sua família é, entre as mais ricas de África.

15/09/2019

LOURENÇO MARQUES, 15 DE SETEMBRO DE 1974: UMA FOTOGRAFIA

Filed under: Jean-Claude Francolon, LM 15 de Setembro de 1974 — ABM @ 2:41 pm

Imagem retocada, do grande foto-jornalista Jean-Claude Francolon, um dos Seis da lendária Agência Gamma, baseada em Paris, que pelos vistos viajou até Lourenço Marques aquando das negociações em Lusaka para a entrega de Moçambique à Frelimo, pelo novo regime português, assinada em 7 e formalizada em 20 de Setembro de 1974.

A imagem foi tirada há exactamente 45 anos.

Pelo meio, houve muita coisa. Houve o medo (completamente infundado) que os brancos na África do Sul e Rodésia “acudissem” os seus manos brancos (ah ah ah). Houve um protesto imediato e visceral por parte de alguns brancos, especialmente em Lourenço Marques e na Beira, que essencialmente consistiu na tomada do Rádio Clube, onde fizeram muito barulho e tocaram o hino português durante uns dias (obviamente parece que não tinham percebido o que acontecera), e que só teve o efeito de irritar mais os chefes da Frelimo e ainda mais os chefes da tropa portuguesa, que achavam que já tinham feito muito ao negociar umas “garantias” que nunca valeram a tinta com que foram assinadas. Após uns dias um pouco à toa (quase não havia nem tropas portugueses e muito menos guerrilheiros da Frelimo em Lourenço Marques), em que ocorreram algumas mortes (ninguém sabe quantas) e as habituais pilhagens de lojas e armazéns nos arredores, o assunto foi resolvido quase de forma cavalheiresca por ambas as partes, seguindo-se uma importação, do Norte, pelos portugueses (que queriam mostrar a sua boa fé na entrega do poder prevista nos acordos), de tropas armados de ambos os lados, seguida por uma onda de prisões e de perseguições, também totalmente à toa e à margem da lei, que resolveu o assunto, o qual permanece no imaginário de muitos.

Eu na altura tinha 14 anos de idade, tinha estado em Portugal quase todo o Verão e viajei na TAP para Lourenço Marques na noite de dia 7, quando, em Lisboa, do que me recordo, rigorosamente nada se sabia dos Acordos de Lusaka. Eu nem sequer sabia que se estava a negociar em Lusaka. Cheguei à Cidade, em quase estado de sítio, ao fim da tarde do dia 8 de Setembro. O meu Pai estava com a equipa do Nova Aliança em Nampula (que ele treinava) para um jogo de futebol e só voltou a LM dois dias depois. A minha Mãe estava sózinha em casa com as minhas duas irmãs e a minha gata, na Polana, onde nada de especial se passou.

Nas semanas que se seguiram, assistiu-se ao patrulhamento da Cidade, nunca dantes visto, feito por grupos mistos compostos por guerrilheiros da Frelimo e soldados portugueses, armados até aos dentes com armas de guerra que incluiam bazucas, G-3 e AK47s, os portugueses nas suas fardas verdes e os frelimos ou todos esfarrapados ou com fardas emprestadas pelos tropas portugueses. Uma boa parte dos frelimos não falava nem português nem ronga, a língua nativa mais falada na Cidade. Os médias locais passaram a passar exclusivamente propaganda comunista e afecta à Frelimo, alguma que era quase patética. Uma parte significativa dos residentes, portugueses e brancos, pura e simplesmente fez as malas e foi-se embora. A população nativa estava fleugmática mas radiante com a vinda da Frelimo. Nos três anos seguintes, com a prestimosa e dedicada ajuda dos líderes da Frelimo, cerca de 90 por cento dos brancos de Moçambique saíram “voluntariamente”. Pois quem não estava com a Frelimo, estava contra a Frelimo e os brancos tinham que perceber quem é que mandava agora. E quando já não havia brancos para perseguir, começaram-se a perseguir os moçambicanos uns aos outros, a visão lírica de um Moçambique multifacetado em progresso e harmonia a esfumar-se perante os ímpetos controladores de uma nova elite que se manterá sózinha e a todo e qualquer custo no poder nos 50 anos seguintes, numa espécie de guerra civil sem fim, a economia numa espiral descendente, tornando Moçambique, até hoje, num dos países mais pobres e endividados do planeta.

Arredores de Lourenço Marques, 15 de Setembro de 1974. Uma patrulha mista é celebrada pelos residentes. Dali a cinco dias, o poder do Estado em Moçambique era efectivamente entregue à Frelimo.

 

A legenda da fotografia.

09/09/2019

OS BONS RESIDENTES DE LOURENÇO MARQUES, 1935

Filed under: Os Bons residentes de LM 1935 — ABM @ 10:01 pm

Imagens retocadas.

Leia o Exmo. Leitor esta pérola, que é uma secção de um folheto turístico sobre Lourenço Marques, em língua inglesa, dirigido, presumivelmente, aos mercados estrangeiro e branco sul-africano, publicado em meados da década de 1930. A minha tradução em baixo.

“A atmosfera cosmopolita de Lourenço Marques já foi mencionada e é um dos seus maiores encantos. Certamente que em Lourenço Marques, o visitante encontra algo diferente, algo interessante e agradável. As pessoas são corteses e amigáveis em relação aos estrangeiros, e, ainda que o conhecimento da língua portuguesa seja sem dúvida útil para aqueles que tencionam permanecer na Cidade por um período prolongado, não é essencial. Os nativos são extraordinariamente bem controlados [sic] e fazem excelentes criados, sendo simultaneamente alegres e de confiança. Realmente, o ambiente que se encontra por toda a parte é um de satisfação e de boa vontade. Regra geral, as autoridades portuguesas são extramemente corteses e tentam sempre ajudar, e apesar de existirem algumas restrições que possam ser consideradas incomuns para o cidadão estrangeiro, mas para os que são responsáveis pela aplicação da lei, conseguem fazer o seu trabalho minimizando as dificuldades e a inconveniência. Os residentes [brancos] são boulevardiers [presumo: gostam de estar na rua] e a qualquer hora do dia ou da noite mesmo muito tarde à noite, podem-se encontrar grupos de homens e de mulheres reunidos na Praça 7 de Março, a tomarem os seus refrescos à moda Continental. Os visitantes podem sentar-se aqui e ver a vida da Cidade passar à sua frente. E assim o homem de negócios vestido de branco, o polícia nativo descalço vestindo o seu turbante vermelho e marinheiros de navios estrangeiros misturam-se com turistas protegendo-se do sol, a mistura enorme das diferentes línguas ali faladas tornando o cenário alegre e intrigante.”

29/08/2019

PATRULHANDO UM MACHIMBOMBO A NORTE DE MAPUTO, 1985

Imagem retocada.

Moçambique esteve praticamente num clima de guerra entre 1964 e, especialmente, 1976 e 1992, envolvendo o sucedâneo institucional da Frelimo e a Rodésia, a África do Sul e a Renamo, numa mistura de guerra de subversão e guerra civil.

Em 1985, quando esta imagem foi colhida, Samora Machel já havia assinado um acordo com a África do Sul, mas a guerra continuava e a situação militar era má, causando morte e miséria entre a população. Algo desiludido com o apoio dos aliados comunistas, Machel ensaiou uma aproximação ao Ocidente, visitando Reagan em Washington. No ano seguinte, morria num acidente de avião e era sucedido por Chissano. A guerra endureceria e duraria mais sete anos, acabando num acordo em que, no fim, a Frelimo prevaleceria.

Um soldado do exército, as Forças Populares de Libertação de Moçambique, patrulha um machimbombo a norte de Maputo, 1985. Foto de Paul Weinberg.

O CAMPEÃO DO MUNDO NO RISCO DA LAVAGEM DE DINHEIRO E FINANCIAMENTO DO TERRORISMO, 2019

Filed under: O Campeão da Lavagem do dinheiro e do FT 2019 — ABM @ 9:02 pm

O Basel Institute on Governance, uma fundação suíça que opera sob os auspícios da Universidade da Basileia, publica desde 2012 uma listagem de países que pretende auferir, através de um índice, os riscos de lavagem de dinheiro e de financiamento do terrorismo, baseado em cinco critérios, todos obtidos a partir de informação publicada por instituições idóneas:

  • Qualidade da Estrutura de monitorização e controlo da Lavagem de Dinheiro e contra o Financiamento do Terrorismo
  • Pagamento de Luvas e Corrupção
  • Transparência e Padrões Financeiros
  • Transparência e Prestação de Contas no sector Público
  • Riscos Político e Jurídico

E baseado nestes cinco critérios, qual o país, no Planeta, com o índice mais elevado? Em 2019, eesa distinção cabe à República de Moçambique:

Moçambique no topo de uma lista de 125 países. É questão para perguntar: o que se passa em Moçambique?

Quando, estes dias, alguns tentam fazer passar a ideia de que Moçambique poderia estar a fechar o longo capítulo da guerra com a Renamo, e a inaugurar uma espécie de era dourada com receitas da exploração do gás, a verdade é que nada disso é certo e que, de facto, os perigos presentes e futuros são mais que muitos, desde a mudança climática aos efeitos de uma verdadeira explosão populacional, a que não corresponderá um crescimento económico que permita às pessoas o seu sustento. Nesse aspecto o negócio e as receitas do gás pouca diferença farão. Os sucessivos ataques no Norte, à guisa de uma putativa e incomprovada rebelião por parte de (refere-se) pessoas muçulmanas, as quase indescritíveis dificuldades do regime em lidar com a inenarrável fraude das chamadas dívidas ocultas, perpetrada ao mais alto nível do Estado moçambicano, nada disto augura um futuro positivo, excepto para uma certa elite baseada em Maputo, que tudo faz, em tudo manda e tudo parece poder fazer, com quase total impunidade. Em parte precisamente porque o contexto é um em que, como se infere dos dados acima, o país figura entre os mais corruptos e mal governados no Mundo. E quase nada faz supôr que isso se altere no futuro.

13/07/2019

MOZAMBIQUE DRILL

Filed under: Mozambique Drill Wtf — ABM @ 4:29 pm

Nunca hei-de perceber como é que, havendo tantas outras opções em termos de nomes, porque é que, em todo o mundo, à técnica de se matar alguém a tiro, segundo a qual se dão dois tiros no corpo e um na cabeça, em sequência rápida, se chamou “Mozambique Drill”.

Sei lá, Colômbia Drill para mim fazia mais sentido, ou Chicago Drill.

Nestes vídeos vê-se como se faz e num deles um instrutor que soa a estrangeiro (acho que é sueco) explica a lógica daquilo (que acho que é mesmo neutralizar de vez o oponente).

Enfim.

 

12/06/2019

JORGE, JOANA, CASSAMO E O G.U.M.O., MAIO DE 1974

Em baixo, reprodução de uma (péssima e algo surreal) peça jornalística,  publicada na edição de 18 de Maio de 1974 na revista lisboeta O Século Ilustrado (pp. 21-23) naquelas semanas loucas em que parece que alguns achavam que tudo era possível em Moçambique depois da caída do regime colonial português e em que se badalava a democracia e a liberdade.

Na peça apenas é citado Jorge de Abreu, apesar de o texto ser acompanhado de fotografias de Joana Simeão, Jorge de Abreu e Cassamo Daudo.

A pequena aventura do GUMO durou pouco e a Frelimo não perdoaria a Joana Simeão, originária do maior grupo étnico de Moçambique, que se distinguiu por nunca apoiar a guerrilha (os grandes Macua), o atrevimento de pretender constituir-se como uma alternativa à Frelimo. Ao ponto de a mandar matar. Até hoje, os seus restos mortais permanecem em local desconhecido. Não sei o que aconteceu a Cassamo Daudo (e não Davide, como é referido no texto), sobre o qual sei pouco. Jorge de Abreu era, em 1974 um dos empresários mais ricos e com maior sucesso em Moçambique, e que se considerou moçambicano até ao dia em que morreu (há poucos anos, em Joanesburgo), viveu um longo exílio fora de Moçambique, não sem que antes elementos do governo de Moçambique, no pico do Repolho e do Carapau,  o tivessem convidado a regressar ao país e a retomar os seus negócios, Segundo o seu filho João, que é uma enciclopédia viva sobre Moçambique, Abreu recusou.

 

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20/05/2019

O DEBATE ELEITORAL ENTRE DE KLERK E NELSON MANDELA, 14 DE ABRIL DE 1994

Filed under: Debate De Klerk-Mandela 1994, F W De Klerk, Nelson Mandela — ABM @ 12:55 am

Re-emissão comemorativa da SABC, no 25º aniversário do histórico debate eleitoral entre Frederick W De Klerk e Nelson Mandela, antes da primeira eleição democrática na África do Sul. Na íntegra.

 

17/05/2019

NOVO DOCUMENTÁRIO SOBRE MOÇAMBIQUE: “BRISA SOLAR”

Filed under: Documentário Brisa Solar — ABM @ 12:27 am

Está a passar na televisão portuguesa um documentário em três episódios sobre Moçambique, contrastando algum do passado português com a actualidade moçambicana, que penso que alguns exmos. Leitores poderão achar de interêsse.

Segue a informação em baixo.

Em meados de Junho, será exibido um filme na Cinemateca Nacional em Lisboa, penso que com base nos mesmos materiais.

Imagem de uma gravação que aparece no 2º dos três episódios.

 

Título

Brisa Solar

Tipo:

Documentário

Resumo

Uma viagem por Maputo e pela Beira que regista pequenos e grandes acontecimentos dos espaços pós-coloniais.

Exibição

3 episódios de cerca de uma hora, a serem exibidos pela Rádio Televisão Portuguesa, Canal 2 (RTP2).

Ficha Técnica

Argumento, Realização, Imagem, Som e Montagem: Ana Pissarra e José Nascimento
Misturas: Flak, Carlos Jorge Vales e Guilherme Vales
Dobragem: Costa Neto e Octávio Chambe
Produção: Maria José Peyroteo e Ana Sofia Nunes
Direção de produção: Rita Gonzalez
Direção de produção (Moçambique): Inadelso Cossa
Assistente de produção (Moçambique): Osvaldo Lupini Bambamba (Quilombo Films)
Produção executiva: Rita Gonzalez
Coprodução: Adonis Liranza
Produção: António Câmara Manuel (DuplaCena)
Financiamento ICA – Instituto do Cinema e Audiovisual e RTP – Rádio e Televisão de Portugal
Apoio ao desenvolvimento Programa MEDIA – Creative Europe
Apoio 22 Atelier

Descrição

Numa viagem em torno do edificado mais notável de arquitetura moderna entre Maputo e a Beira, o filme dá voz a estórias privadas que emergem no documentário como memória sensível e que testemunham a dimensão política da história comum entre Portugal e Moçambique.

O documentário realizado por Ana Pissarra e José Nascimento propõe um novo olhar para este património comum, que denuncia um inevitável parentesco entre os dois países e procura entender como é que os valores da democracia expressos pelo modernismo foram integrados pelas sociedades pós-coloniais.

‘As casas foram nacionalizadas e a cidade “passou para a mão do povo”. Os colonos cosmopolitas abandonaram o país e, pela mão da Frente de Libertação, chegaram os novos habitantes à cidade branca. Eram negros e traziam uma cultura rural. A cidade passou a chamar-se Maputo. Mas Lourenço Marques continuou a viver e a envelhecer dentro de Maputo.

Tem hoje um grande valor patrimonial e artístico e, para muitos portugueses, também um valor afetivo. Mas recorda valores racistas e pouco a pouco, será demolida pela especulação imobiliária.
Entre a delicadeza e o apocalíptico, Brisa Solar viaja por Maputo e pela Beira registando pequenos e grandes acontecimentos quotidianos que desenham estes espaços pós-coloniais mestiços.’

14/05/2019

HENRY KISSINGER EM LISBOA, 17-18 DE DEZEMBRO DE 1973

Imagem retocada.

Saiu na rifa a Henry Albert Kissinger, o 56º Secretário de Estado norte-americano, durante os mandatos de Richard Nixon e Gerald Ford, lidar com o golpe militar de Abril de 1974 em Lisboa, que abriu o caminho, algo precipitado, para a independência das colónias portuguesas, Moçambique incluído.

Supostamente, quer Henry Kissinger quer a diplomacia dos EUA, com as mãos meio atadas pelas sucessivas crises e episódios, desde o derrube de Allende no Chile, à Guerra de Yom Kippur no Médio Oriente, ao escândalo de Watergate, foram apanhados desprevenidos (mas provavelmente não surpreendidos) pelo acontecimento.

Em Outubro de 1973, o ataque dos vizinhos árabes a Israel quase sucedeu, não fosse o apoio maciço dos americanos através de um enorme esforço a partir dos EUA e que incluía uma ponte aérea entre os dois países, que necessariamente incluía a utilização da base aérea operada pelas forças armadas norte-americanas na ilha açoriana da Terceira, no arquipélago dos Açores.

Para tal, nos termos dos acordos com Portugal, para fazer tal uso, o governo dos EUA teria primeiro que pedir autorização de passagem dos aviões (houve uma altura em que aterrava e descolava um avião a cada cinco minutos).

Os portugueses, a braços com a guerra colonial, tentaram aproveitar a oportunidade para tentar obter dos americanos alguns equipamentos militares especializados. Kissinger falou com o ministro português português da altura, o jovial Rui Patrício, último ministro dos Estrangeiros de Caetano e do regime. Kissinger terá basicamente dito que ia pensar no assunto mas que entretanto os primeiros aviões da ponte aérea para Israel começavam a aterrar na Base das Lajes dali a cinco minutos.

Mais tarde, mandou um telex a dizer “obrigadinho” ao governo português, disse que mandassem a lista dos equipamentos militares para análise, que basicamente eram para mandar no dia de São Nunca à tarde e, nos dias 17-18 de Dezembro de 1973, esteve em Lisboa para basicamente dar uma dose de charme, durante uma das suas tournées internacionais. Pesem as teorias de conspiração, os americanos eram reticentes em relação a Portugal e ao que andava a fazer e não queriam ser vistos como apoiantes declarados da ditadura. O que facilitou grandemente a vida aos apoiantes da Libertação. Ademais, os EUA não tinham qualquer interesse estratégico na zona a não ser evitar que se tornasse uma coutada soviética, e mesmo aí quando se tornou de facto uma coutada soviética, deixaram andar e o resultado foi o que foi: dez anos depois Samora estava de visita a Washington e a dizer que afinal não era bem comunista. Reagan achou imensa piada e Chester Crocker deu-se palmadinhas nas costas.

O uso da Base das Lajes pelos americanos, implantada no meio do Oceano Atlântico na mesma ilha onde Gungunhana tivera exilado e onde morreu, foi um dos principais travões usados por Salazar no início da década de 60 para condicionar o “militantismo independentista e descolonizador” da Administração Kennedy em relação a Portugal. No que basicamente sucedeu. Após o assassinato de Kennedy em Dallas (22 de Novembro de 1963), o seu sucessor, Lyndon Johnson, basicamente, para além do Vietname, mostrou que tinha muito pouco interesse em conflitos de segunda ordem em locais exóticos.

Durante a visita do Secretário de Estado norte-americano a Lisboa, 17-18 de Dezembro de 1973, posando junto ao monumento aos Egrégios Avós que Criaram o Império lá junto ao Tejo em Belém. Da esquerda: 1) (?)(diplomata português); 2(?); 3) Henry Kissinger; 4) Rui Patrício, ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal.

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